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entrevista

ao microscópio

MArtha Mendes

A escrita para crianças exige uma criatividade extra "A JANELA DO leopoldino" é o livro de estreia de Martha Mendes. No centro da história está uma janela que, tal como os livros, ajuda a ver o mundo sem se sair do quarto Texto Marco roque

U

m miúdo com pouco interesse pela leitura, mas muita vontade de conhecer o mundo. Um mágico que lhe transforma a janela do quarto numa porta para o mundo. Acima de tudo, "A Janela do Leopoldino" é um apelo à leitura por parte dos mais jovens. Apesar desta obra ser a sua estreia literária, Martha Mendes garante que "já há mais Leopoldinos na gaveta".

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Como surgiu a ideia para este livro? A história do livro é a história do Leopoldino. O Leopoldino é uma personagem que surgiu na minha cabeça, começou a sondar-me, a rondar-me até eu me sentar e dar-lhe forma através da escrita. Surgiu a história de um menino que tinha uma relação complicada com os livros e isso não me parecia nada bem, tinha de se arranjar uma solução. Fui amadurecendo a ideia, pensei naquilo durante umas semanas e, um dia, vim da redação, de madrugada – o livro foi escrito no meu estágio em Macau – e, apesar do cansaço, sentei-me a escrever e a história do Leopoldino saiu-me de um fôlego… Pelo menos o esqueleto da história, depois acabei por editar e dar uns retoques… mas a história saiu-me de um fôlego.

sonho de viajar, de conhecer o mundo. Um dia, no seu aniversário, uma tia oferece-lhe um livro. Ele apesar de não gostar de ler, estava tão aborrecido por não ter nada para fazer e leu o livro. Como foi o primeiro livro que leu na vida, nesse mesmo dia foi visitado pelo Bonifácio, o Mágico do Primeiro Livro. Isto porque [no mundo do Leopoldino] os meninos, quando leem o primeiro livro, são visitados por um mágico que lhes concede um desejo. E o desejo do Leopoldino foi conhecer o mundo todo. Mas surgiu um problema: ele queria viajar, mas não queria abandonar os pais. E os pais não podiam viajar, tinham de trabalhar. Então, o mágico concede-lhe o desejo: transforma a janela do quarto numa janela mágica, em que cada vez que o Leopoldino a abre, vê um lugar diferente. No entanto, ele não pode sair do quarto senão quebra o feitiço – o que é uma maldade terrível, mas na altura pareceu-me uma boa ideia (risos). Portanto, ele viaja imenso, conhece muitos sítios e acaba por quebrar o feitiço, quando tem de sair para a escola. Muito zangado, chama o Bonifácio para reclamar e o mágico explica-lhe que, às vezes, quando não temos oportunidade de viajar, as melhores viagens são aquelas que os livros proporcionam.

E como se desenrola essa história? Esta é a história de um menino que não gostava muito de ler e vivia muito agarrado ao

E o Leopoldino acaba por conhecer locais onde já a Martha já esteve… Como se recriaram esses países?

Sim, já estive em todos os locais da história, menos Moçambique. Nasci nos Estados Unidos da América, o Leopoldino vai lá, estagiei em Macau e fiz viagens de lazer em todos os sítios que surgem na história. Trago esses locais para a história através das descrições. Através dos cheiros, das cores, das pessoas. No caso de Macau é ainda mais evidente porque eu estava in loco e então tinha tudo muito presente. Como foi viver e trabalhar em Macau? Macau foi uma experiência muito enriquecedora, tanto do ponto de vista pessoal como profissional. Trago muitas boas recordações, desde logo do jornal da redacção e do jornal [Tribuna de Macau]. Era cansativo mas foi uma aprendizagem contínua. De Macau propriamente dito, do local, guardo, sobretudo, o exotismo. Uma pessoa tem mesmo de conhecer o Oriente, as descrições não bastam. É tudo completamente diferente: as pessoas, as letras, os cheiros, a densidade populacional… É uma viagem a não perder, até pela noção de escala, de ver como somos pequenos no mundo. Outra viagem e aventura tem sido a apresentação do livro. Como está a ser a experiência? Cansativa, mas muito reconfortante e muito grata. O contacto com os pequenitos, par-

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FOTOS: PEDRO RAMOS


ao microscópio

entrevista "A Janela do Leopoldino" foi ilustrada por Inês Murta

ticularmente os que já leram, é uma coisa maravilhosa. Uns fazem críticas porque têm pena do Leopoldino, outros acham bem que ele tenha começado a gostar de livros. É maravilhoso porque ninguém escreve para a gaveta. Quando se escreve, é para ser lido, independentemente do público – neste caso é infantil, mas espero que alguns pais também achem piada ao livro. Como escreves para ser lido, a maior recompensa é ouvir o feedback dos leitores. Isso tem sido a maior recompensa desta minha aventura.

O feedback dos leitores tem sido a maior recompensa desta aventura

O nome Leopoldino foi inspirado no seu avô. É uma homenagem? Sim, é uma homenagem ao meu avô paterno, mas todos os personagens do livro têm nomes invulgares. O meu avô s contribuiu muito para que eu tenha tido uma infância feliz. Como o livro é dedicado à infância, parece-me uma homenagem justíssima. E é fácil escrever para a infância? Eu acho que é muito difícil. Eu tenho uma grande amiga que é escritora e ela costuma dizer que só depois de se adquirir um certo nível de maturidade é que se consegue escrever para crianças, o que até pode parecer antagónico. Mas eu concordo. Se é verdade que toda a escrita exige criatividade, a escrita para crianças exige uma criatividade extra. Depois, acho que a escrita para crianças é difícil porque nos obriga a recordar a criança que nós fomos e, às vezes, entrar na cabeça de uma criança não é tão fácil como à primeira vista possa parecer. Eu comecei a apreciar mais a escrita para a infância e a ter mais interesse por este campo da escrita quando começaram a nascer os bebes desta geração da minha família, comecei a ter priminhos pequeninos e foi aí que comecei a ler e a escolher livros destes. As perguntas que fazem mostram que são leitores muito mais atentos, perspicazes e exigentes do que se poderia esperar.. É importante ter uma personagem com quem as crianças se podem relacionar? Como a maioria esmagadora dos meninos de hoje, o Leopoldino, no início, não achava muita graça aos livros. Muitas crianças podem identificar-se. Se eles lerem ou os pais lhe lerem, as crianças podem chegar à conclusão de que se o Leopoldino aprendeu a gostar e agora é viciado em livros, eu também vou dar uma oportunidade aos livros. Se houver uma criança que siga o exemplo do Leopoldino e dê valor aos livros… já valeu a pena.

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Foi mãe já depois de ter escrito o livro. A maternidade teve algum impacto na obra? No livro em si não teve impacto, mas na publicação da obra, sim. Eu tive o livro na gaveta durante quatro anos. Se não tivesse sido a minha filha Constança, teria adiado por mais alguns anos a publicação.

não gostem de escrever.

Como surgiu a parceria com Inês Murta, que ilustrou a história? A Inês é uma amiga de infância, crescemos juntas, é artista plástica, e tem trabalhado na área da animação para a infância. Quando surgiu a ideia de fazer o livro – nós já tínhamos feito trabalhos em conjunto – o nome da Inês foi evidente, não só por ser uma grande amiga, mas também porque sou uma fã do talento dela. O livro não seria a mesma coisa sem as ilustrações dela.

Essa vertente mais literária esteve sempre presente ao longo do seu percurso académico… Na apresentação em Coimbra, Ana Teresa Peixinho [professora da Faculdade de Letras] disse que a Martha "levou alguns puxões de orelhas" por escrever de forma mais artística… As características literárias estiveram sempre presentes na minha escrita: tanto na pouca escrita jornalística que fiz, como mesmo agora, ao escrever a minha tese de mestrado. A Ana Teresa Peixinho foi minha orientadora e tivemos algumas discussões em que ela dizia: "olhe, Martha, isto está muito bem escrito, mas não é uma tese, não pode ter essa linguagem". Sim, às vezes tenho dificuldades em afastar-me de escrita literária.

A Martha é formada em jornalismo. É uma profissão que não se pode dissociar da escrita? Eu tirei o curso de jornalismo porque não havia curso para ser escritora. Se existisse um curso de escrita, eu teria tirado esse. Acho muito estranho haver jornalistas que

O que lhe reserva o futuro literário? Não sei, não sei o que o futuro me reserva em nenhum dos campos. Posso dizer que tenho muita vontade de continuar e alguns projetos para concretizar. Para já tenho alguns Leopoldinos na gaveta, à espera de sair, e outras ideias na cabeça. Vamos ver.

22MarÇo 2012

Entrevista com Martha Mendes  

Conversa com a autora de "A Janela de Leopoldino"

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