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sociedade

sexo

A MASTURBAÇÃO causa problemas de pele, faz crescer pêlos nas mãos, leva à cegueira ou à loucura. Estes três exemplos dos "males" provocados pelo ato de estimular os órgãos genitais, tal como outros mitos, há muito que foram desmistificados pela ciência. Sabe-se que a masturbação não provoca problemas de saúde. Contudo, será que as representações culturais do ato já evoluíram no sentido de demonstrar essa realidade? "Desde a década de 50, houve uma grande evolução e, mais recentemente, a masturbação já é encarada como uma prática benéfica, uma parte da sexualidade [pela clínica]", avança a antropóloga Rita Alcaire, revelando que, no entanto,"a verdade é que eu fui à procura das representações no cinema para ver se refletiam o que se pensa ao nível da medicina e não foi isso que encontrei". Na sua tese de mestrado, intitulada 'Ménage à moi - Estudo sobre as representações da masturbação na televisão e no cinema mainstream', apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Rita Alcaire tentou "perceber se o facto de ser considerada uma prática benéfica e sem problemas pela clínica, e haver muitas mais representações da sexualidade no cinema, isso se traduzia em representações positivas". FEITA A ANÁLISE, a conclusão é que os avanços da medicina

parecem ainda não ter tido um impacto na cultura. "Depois de analisar vários filmes cheguei à conclusão de que a visão ainda está muito ligada à tradição [judaico-cristã], mas também à forma como era vista no século XVIII e XIX, associada a patologias de saúde mental, a figuras perigosas", destaca a antropóloga. Embora a "Igreja Católica não possa ser culpada de tudo", o facto é que "as práticas sexuais ainda são vistas como algo que deve ser procriativo, enquadradas num casamento e tudo o que está fora parece ainda ter resquícios" dos "ideais do bem e do mal, do que é ou não pecado". Rita Alcaire procurou representações em dois pólos: o cinema e televisão americana, os produtos culturais mais consumidos em Portugal, e o cinema português, para tentar perceber como a masturbação é representada no nosso país. Para além disso, focou-se em produções a partir de 1999/2000, com uma exceção: um episódio da série "Seinfeld", de 1992, um exemplo paradigmático da forma como a masturbação é representada. O episódio "é todo sobre a masturbação, aborda as diferenças entre homens e mulheres, quem aguenta mais tempo sem se masturbar, que parte é da sexualidade de cada um. No entanto,

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nunca é referida a palavra masturbação: brincam com eufemismos, mas nunca se refere" o termo, conta Rita Alcaire. Isto porque "o canal que transmitia o programa não deixou utilizar o termo [masturbação] – era uma série de horário nobre, que chegava a milhões de pessoas, que fazia parte da vida dos americanos com um tema comum e, no entanto, não se podia dizer a palavra". Dos muitos filmes e séries que viu, optou por selecionar apenas 13, por dois motivos. Por um lado, neles, "a masturbação aparece de forma explícita, não no sentido pornográfico do termo, mas avançando a narrativa, sendo importante para a personagem ou história". Por outro, eles têm exemplos dos padrões detetados. "Embora fossem personagens diferentes, havia ali linhas gerais que existiam [e se repetiam nos diferentes filmes]", explica. A antropóloga identificou três formas diferentes de representação. O 'adulto desenquadrado': "um adulto que se masturba porque o casamento não funciona, ou estava desenquadrado, como tinha problemas relacionais ou psicológicos, sendo a masturbação uma forma de escape"; o 'louco', "criminosos, assassinos que se masturbavam em relação à vítima"; e o 'adolescente imaturo', "um registo cómico, associado a adolescentes – que ainda não tinham namoradas ou relações sexuais e por isso masturbavam-se". E ONDE ESTÃO as mulheres no meio destas representações?

"As mulheres não se masturbam ou, quando o fazem, têm problemas. Nalguns filmes matam o companheiro, por exemplo. Mesmo fora do intervalo de análise era sempre nesse sentido. Parece que a sexualidade feminina continua a ser associada a

RITA ALCAIRE tem como "temas de eleição a identidade, a sexualidade e a música". Nessa linha, publicou o livro "Filhos do Tédio", com base na sua tese de licenciatura, e que deu origem a um documentário. Também co-realizou "Das 9 às 5", um documentário sobre os direitos dos trabalhadores do sexo.


o ã ç a b r stu

ma ainda é tabu?

RTA AIS ABE M OS. E T N SENTAD A ME E R M P U E R R E ECE T OUCO IR ADE PAR OS OU P T D IS IE ESCOBR V C D L O S A A R A M A E A P M QU REAM OS AIND POC A E MAINST AMENT S T MO IE R R O É NUM A É P S EROTIS OM SE O E C T Á M U H IL A , F A COM O N UN C ALISOU R A LIDA DO QUE AIRE AN U C T L L A U A C .CRESPO RIT COMO A HITE / M TEX TO

K@W O BL AC T O F | RO Q U E : MARCO

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sociedade

algo perigoso. As mulheres mais 'sexuais' são ninfomaníacas ou assassinas", sublinha Rita Alcaire. A masturbação continua "muito mais associada a homens do que a mulheres". Perante estas representações, a antropóloga sentiu que "essas personagens não se masturbavam porque queriam, porque tinham vontade, era porque alguma coisa na vida delas era tão estranha e desenquadrada que as levava a masturbar-se". O FACTO de estas representações apresentarem a masturbação co-

sexo

CURIOSIDADES... Os flocos de milho foram criados para evitar a masturbação No século XIX surgiu a teoria de que os impulsos masturbatórios, nos jovens, eram causados por determinados tipos de alimentos. Os flocos de milho surgiram como um tipo de comida que "não aquecia o sangue". Por exemplo, o médico John Harvey Kellogg, fundador da Kellog's, não inventouo conceito, mas o facto é que era um grande oponente da masturbação.

"Não faz sentido abordar a sexualidade calando o autoerotismo"

Quando todo o mundo foi criado devido a um ato de autoerotismo O Antigo Egipto tinha um mito de criação do mundo peculiar. O deus Atum terá usado o seu próprio esperma para criar os dois primeiros deuses, a base do todo o panteão egípcio e da criação do universo.

JÚLIO MACHADO VAZ, um dos

sexólogos mais conhecidos do país, acredita que a masturbação é "muito menos tabu do que no passado, embora ainda se ouça a teoria segundo a qual só seria natural na adolescência". Os portugueses lidam com o tema "de uma forma bem mais aberta. A maior diferença vem-se notando no sexo feminino", embora ainda seja necessário combater "ao nível psicológico culpa e vergonha e ao nível físico o seu efeito depauperante", que o autoerotismo possa ter na mente das pessoas. Mas será que há espaço para a masturbação numa relação a dois? "Pode existir ou não. A existir é importante que o outro não a sinta como sinal de menor atração por si". Júlio Machado Vaz defendeu, no livro "Educação Sexual na Escola", a referência à masturbação nos programas de educação sexual. "Não faz sentido abordar a sexualidade calando o autoerotismo", conclui o sexólogo. 24

Os vibradores eram usados como tratamento

mo algo que está desenquadrado, um desvio comportamental, demonstra que "ainda há um grande estigma associado a esta prática", apesar dos avanços científicos. "Não pensamos que a cultura influencia as descobertas científicas. Eu faço muito a analogia com a questão da lepra: depois de ter sido descoberta a cura, fez-se um hospital público como o Rovisco Pais", conta Rita Alcaire. "Continuou o internamento compulsivo quando se sabia que é das doenças contagiosas a menos contagiosa. Penso que na sexualidade é muito isso. Descobrem-se novas coisas, mas continuam a encarar-se da mesma maneira: [a masturbação] traz benefícios, mas as marcas da cultura permanecem", completa. Talvez por isso, a masturbação "ainda continue a ser tabu e as pessoas continuem a desviar-se do assunto", conclui a antropóloga. OS FILMES ANALISADOS

Beleza Americana, Sam Mendes

Aquele Querido Mês de Agosto, Miguel Gomes (2008)

Seinfeld, "O Concurso" (1992) - TV

Doidos por Mary, Peter e Bobby Farrelly (1998)

Sexo e a Cidade, "A tartaruga e a Lebre" (1998) - TV

Psycho, Gus Van Sant

A Cela, Tarsem Singh

American Pie, Paul Weitz

Inadaptado, Spike Jonze

(1999)

(1999)

(2002)

O Delfim, Fernando Lopes (2002)

A Lula e a Baleia, Noah Baumbach

Weeds, "O Último Tango em Agrestic" (2006) -TV

(1999)

Mediatizados como um brinquedo sexual, os vibradores foram criados para ajudar a aplicar o tratamento para o histerismo. Sim, a única cura aceite para o problema de saúde era a estimulação manual, isto é, a masturbação das pacientes.

(1998)

... E MITOS

O S L A F

A masturbação... •Causa borbulhas no rosto

•Faz crescer pêlos nas mãos

•Aumenta o tamanho do pénis

•Feito em excesso faz mal à saúde •É viciante

•As mulheres não se podem masturbar •É coisa de adolescente

•Pode causar pedras nos mamilos

•Provoca prazer apenas em virgens

Call Girl, António Pedro Vasconcelos (2007)

(2005)


"Seja feminina ou masculina, a masturbação tem sempre vantagens de cariz educacional" MARCO ROQUE

Vera Ribeiro, psicóloga clínica, mestre em Sexologia e responsável pelas consultas de Sexologia do Hospital de St. Louis em Lisboa fala da forma como os portugueses lidam com o autoerotismo. Para além das consultas, também aceita questões no canal de sexologia no portal Clix. A masturbação ainda é um tema tabu? Ainda é tabu, mas considero que seja para uma minoria. Não é tabu como seria há uns 10 anos atrás, quando apenas alguns grupos restritos de pessoas abordavam estes temas de forma espontânea. Hoje em dia, é um tema normal, o que não quer dizer que seja praticado por todos. Existem mitos a combater? Um mito que ainda persiste em relação às mulheres, é a noção negativa que estas têm por saber que o homem se masturba. É visto como uma forma de traição ou de não satisfação por parte da parceira. Também o mito de que a mulher tem de ter orgasmos em todas as relações tal como os homens… é uma exigência que pode trazer disfunções sexuais futuras dado o objetivo por vezes não se concretizar, a mulher sentir-se frustrada por não conseguir e o homem, poderá sentir alguma incapacidade de dar prazer à sua parceira. O orgasmo deverá ser visto como algo de bom e prazeroso que não tem de ser sempre alcançado, mas sim, desfrutar da

relação a dois o melhor possível sem que o objetivo principal seja o orgasmo. O que é que as pessoas precisam de saber sobre o tema? A masturbação, seja feminina ou masculina, tem sempre uma vantagem de cariz educacional, de aprendizagem. Há coisas que devem ser descober tas pelo próprio. O campo das sensações exige exploração, e caso esta autodescoberta não seja feita, o processo de desenvolvimento sexual será mais lento e, muitas vezes, feito com alguma dificuldade. É importante que exista uma tranquilidade do próprio com a sua sexualidade, prazer e corpo,

para que se consiga relacionar sexualmente com um parceiro. A maior vantagem da masturbação é a relação mente-corpo que se torna mais fidedigna. Conhecer o próprio corpo, e as zonas de prazer a ele associadas. Recebe muitas pessoas com dúvidas sobre esta temática? Sim, bastantes… muitas questões de jovens que pretendem perceber se existe algum aspeto negativo associado à masturbação, na perspetiva de contrariar informações erradas que recebem por outros meios. Outras questões também se prendemcom a questão da frequência de masturbação. Também temos recebido questões por parte de mulheres que assumem sem qualquer problema que se masturbam desde cedo e que têm algumas dúvidas sobre a relação sexual, no sentido de procurarem o mesmo prazer que obtêm sozinhas. Quais são as diferenças entre homens e mulheres? Os imaginários sexuais são diferentes, por isso a fantasia necessária para o processo de masturbação entre homens e mulheres é bastante distinta. A motivação para a autodescoberta também é diferente entre ambos. A produção hormonal entre homens e mulheres é muito diferente, pelo que os picos hormonais de desenvolvimento na mulher promovem resposta e desejos elevados em determinados momentos. No homem acontece com maior frequência devido à diária e elevada produção de testosterona que o motiva sexualmente a uma maior frequência. Pode dizer-se que as pessoas têm o direito à masturbação? Digamos que deve ser mais olhado, como algo que está disponível em todos, mas por motivos educacionais / religiosos, por vezes é transmitida uma mensagem que negativiza o ato por este ser meramente prazeroso. O que penso que esteja a mudar na nossa cultura.

PERSPECTIVA DA IGREJA

É pecado? Como o catecismo da Igreja aborda a temática

ELEMENTO CENTRAL na

cultura ocidental, a Igreja Católica ainda tem uma marca profunda na forma de pensar da sociedade, em particular ao nível do comportamento sexual. De acordo com o catecismo oficial, a masturbação é um dos "pecados gravemente contrários à castidade". A Declaração 'Persona Humana, Sobre Alguns Pontos de Ética Sexual', aprovada pelo papa Paulo VI em 1975, defende que "os teólogos, tanto o Magistério da Igreja, na linha de uma tradição constante, quanto o sentir moral dos fiéis, afirmaram sem hesitações que a masturbação é um ato intrínseca e gravemente desordenado". Assim, o autoerotismo é visto como "uma grave desordem moral". Nas 'Orientações Educativas Sobre o Amor Humano – Linhas Gerais para uma educação sexual', lembra-se que "do ponto de vista educativo, é preciso lembrar que a masturbação e outras formas de autoerotismo, são sintomas de problemas muito mais profundos". Até ao fecho desta edição, a não conseguiu obter uma resposta por parte de um representante da Igreja Católica.

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opinião

MIRA LAGOA SOBRAL

Sinais dos tempos DIZ O ADÁGIO popular que, a 2 de Fevereiro, “se a Candelária rir está o Inverno para vir, se a Candelária chorar está o Inverno a passar”. ORA O 2 DE FEVEREIRO de este ano foi de Sol radiante. SE ESTE ADÁGIO se aplicar à vida social, económica e financeira, corre-se o sério risco de a Lei de Murphy poder vir a manifestar a sua presença de forma, indesejavelmente, pujante. MAS ESPERE-SE que não. Primeiro, porque há uma ideia que discretamente percorre o imaginário social que sempre que a Banca aparece com resultados exagerados, a economia sofre. Ora, a Candelária para a Banca chorou. Oxalá a economia deixe de chorar e comece a fazer um percurso rumo ao Sol. Tanto mais que, apesar da enormidade das perdas confessadas, o mais provável é que os "pecados" não tenham sido todos confessados. Tantos anos a debitar uma economia exangue, o mais natural é que a produção bancária resulte em débitos jurídicos. Mas débitos jurídicos na maioria das vezes são sementeira que não evolui para colheitas.

É CHEGADO O MOMENTO DO SENHOR DINHEIRO SE REAJUIZAR. ESTA DERIVA DE SENSO FAZ-LHE MUITO MAL... E FEZ MUITO MAL. São apenas meio de pressão. Por isso mesmo, e não obstante as regras prudenciais estabelecidas de não mais se debitar juridicamente quando cessam as cobranças dos débitos, e não obstante haver a regra de qualificar tais débitos não cobrados como "defeitos de produção debitícia", o facto é que estas duas regras são aplicadas lenta e criteriosamente. Ou seja, a confissão não será total. Tal como um quisto humano, a bolha rebentou. Terá saído poluente. Mas a ferida continua lá. Não sarou de imediato. Pode ser que haja ainda, pelo menos, outro tanto para expurgar e drenar. E seguir-se-á outra fase em que o peso da herança psicológica do dreno é de longa duração.

É A SINA DO DINHEIRO. O dinheiro que é um instrumento de intermediação. O dinheiro que, em si e por si, não serve para nada. Quem tiver frio e uma nota de 50 euros não recupera o equilíbrio térmico se aplicar a nota num dos ombros, nem aquece por dentro se meter a nota num bolso. Tem mesmo de substituir a nota por um agasalho. Fica sem a nota, fica com o agasalho e recupera o equilíbrio térmico. ORA, UM INSTRUMENTO de mediação não pode ter mais valor que os bens que satisfazem as necessidades humanas. Obviamente que tem o seu valor económico. Obviamente que os seus proprietários têm de ter resultados da propriedade e da cedência do direito de uso. Mas quando a realidade - Dona Economia - é violentada pelo intermediário - Senhor Dinheiro - tal "violência doméstica" bem depressa dá asneira. E a realidade revoltada … O SENHOR DINHEIRO deixou de saber seduzir Dona Economia. Até da arte do flirt o Senhor Dinheiro se esqueceu. Obeso de "soberba dominante e dominadora", inchado de poder fictício, enquistou-se, acumulou-se onde não devia, faltando onde a sua função de intermediação é vital - até para ele mesmo -. A sua "importância" derreteu-se como um gelado nas mãos de um menino… É CHEGADO o momento de o Senhor Dinheiro se reajuizar. Que esta deriva de senso faz-lhe muito mal … e fez muito mal. ONDE ESTÁ em excesso - Soros já o confessou - começa a saber-se que não se sabe o que se lhe há-de fazer. ONDE ESTÁ em insuficiência já nada se faz. QUANDO O SENHOR Dinheiro perde o juízo todos perdem. Até ele. E os intermediários da intermediação (os agentes dedicados ao negócio do dinheiro) pensam que podem aproveitar a fase e especular com ganhos ditos "recuperantes": os spreads. Confirma-se que a falta de senso é contagiosa. Querer colher peras num peral imaginário, convenhamos que é imaginação a mais. Há quem diga que é mesmo falta de imaginação. Ambas as opiniões numa coisa coincidem: absoluta falta de sensibilidade para a Dona Realidade. E esta é a única Dama que vale a pena, sempre, conhecer. E dela nos enamorarmos. Por mais caquética que esteja, Dona Realidade nunca tem menopausa. É sempre fértil … porque é eternamente,jovem … sem períodos.

| Mira Lagoa Sobral assina todas as semanas este espaço de opinião |

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9FEVEREIRO 2012


O tabu da masturbação