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Leitura e Produção Textual I

Variação linguística e níveis de linguagem

Objetivo da Aula Identificar as diferentes variações linguísticas e fornecer subsídios para o uso de cada variante. Explorar e estimular a diversidade linguística.

Como diz o ditado popular, “quem conta um conto aumenta um ponto”, o que dificulta ou até inviabiliza a comunicação dentro de uma empresa. Assim, acompanhe agora a história adaptada da Babel Moderna, na qual cada um acrescenta a sua própria interpretação à informação. “Diretor industrial ao gerente de divisão:” – Na próxima sexta-feira, por volta das 17h, o Cometa Halley estará visível no céu desta área. Trata-se de fenômeno raro, que ocorre somente a cada 76 anos. Por isso, por favor, reúna os operários no pátio da fábrica, usando capacete de segurança, que eu farei uma preleção explicando o fenômeno. Mas, se estiver chovendo, não poderemos ver nada. Nesse caso, reúna-os no refeitório e eu farei a preleção acompanhada de projeção de um vídeo sobre o cometa. “Gerente de divisão ao supervisor de produção:” – Por ordem do diretor industrial, na sexta-feira, às 17h, o Cometa Halley, fenômeno raro que só acontece de 76 em 76 anos, vai aparecer no céu sobre o pátio da fábrica, se não chover. Mas, se chover, leve todos os operários, usando seus capacetes, para o refeitório, onde o diretor vai fazer o favor de dar uma explicação científica, acompanhada de vídeo, sobre o raro fenômeno. O supervisor, uma pessoa perceptiva e atenta às novidades, levou a notícia, a seu

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modo, a seus operários: – Olha, pessoal: outra novidade da engenharia. Nesta sexta-feira, às 17 horas, antes de encerrar o turno da tarde, o diretor industrial vai confraternizar com os operários no refeitório, fenômeno raro, que não acontece há 76 anos. É para todos comparecerem, levando seus capacetes que, em sinal de educação, devem ser retirados da cabeça. Vem acompanhado de um tal de Halley, entendido em cometas e especialista em problemas de segurança relacionados com a chuva. Projetará, inclusive, um filme sobre tudo isso. No dia seguinte, um operário comentava com outro, na hora do almoço: - Você já sabe? Vão colocar um vídeo aqui no refeitório. O diretor industrial vem, pessoalmente, fazer a inauguração…

Variações de linguagem Linguagem – Linguagem é a representação do pensamento por meio de sinais que permitem a comunicação e a interação entre as pessoas. Existem muitos tipos de linguagem: a fala, os gestos, o desenho, a pintura, a música, a dança, o código Morse, o código de trânsito etc. No exemplo, você reparou na diferença, não só no conteúdo, mas também na forma de se expressar dos diferentes funcionários da empresa? A isso chamamos de variantes, que podem estar ligadas ao falante ou à situação de produção da mensagem: Variedades ligadas ao falante ou socioculturais: Idade – (considerando-se o locutor adulto, as variações devidas às faixas etárias se limitam muito mais ao vocabulário e nem sempre são fáceis de perceber). Modernamente, fala-se muito em uma linguagem jovem, entendendo-se como tal um vocabulário com gírias, mais empregado pelos indivíduos dessa faixa etária.

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Veja a figura 01 ao final desta aula.

Gíria – o termo gíria vem da palavra sinônima denominada geringonça, do espanhol jeringonza, ou ainda, jerga. Etimologistas acreditam que, por onomatopeia, jerga tenha nascido do verbo latino garrive, que significa tagarelar (falar sem conhecimento das regras da língua, falar sem parar, falar muito, dizer o que devia calar, bisbilhotar, barulho). Para Deonísio da Silva, professor de Literatura Brasileira da Universidade São Carlos, o termo gíria viria do termo grego hiéros, que significa aquilo que é oculto, sagrado, pois a gíria só é compreendida pelos membros pertencentes ao grupo falante. A gíria vem de grupos restritos – dos presos, dos malandros, dos surfistas, dos estudantes. Sexo – (de acordo com a comunidade, a oposição linguagem do homem/ linguagem da mulher pode determinar diferenças sensíveis, em especial no campo do vocabulário, em razão de certos tabus morais). Essa variação tende a minimizar-se em consequência da mídia (meio de comunicação de massa), à mulher trabalhando fora do lar, aos colégios mistos e aos movimentos feministas, que têm exercido um papel nivelador. Por exemplo:

Veja a figura 02 ao final desta aula.

Raça – (ligada a fatores etnológicos ou culturais) Profissão – linguagem técnica – jargão técnico – ou profissional em que os falantes utilizam um vocabulário condizente com a sua atividade (médicos, advogados, ambulantes, militares, policiais). Posição social – o status do falante também exige dele um cuidado com a linguagem a fim de ser distinguido dentro do grupo em que atua. Um políti-

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co, um chefe de Estado, um dirigente industrial, assim como um bancário ou um operário não têm o mesmo nível de linguagem, embora possam conviver na mesma comunidade em que atuam. Seu idioleto (saber linguístico individual) varia de acordo com a sua cultura, posição social e instrução. Grau de escolaridade – observe: 1) Se você ver o Antônio diz pra ele que eu quero falar com ele. 2) Se você vir o Antônio, diga-lhe que quero falar-lhe. Na frase 1 temos uma economia linguística que torna a frase mais compreensível a todos os ouvintes. Já a frase 2 demonstra domínio das formas linguísticas ausentes na linguagem popular, o que limita o tipo de ouvinte capaz de entendê-la. Normalmente, o grau de escolaridade está associado à classe econômica do falante. Local em que reside – (linguagem urbana: mais próxima da linguagem dita padrão, pois recebe influência direta de fatores culturais como escolas, meios de comunicação de massa, literatura etc; linguagem rural: mais conservadora e isolada, extinguindo-se gradualmente com a chegada da civilização).

Variações de linguagem Ambiente – (falamos diferentemente em casa e no trabalho, por exemplo). Época – (o português de nossos antepassados é diferente do que falamos hoje). Tema – (para alguns temas temos mais facilidade, intimidade e vocabulário do que para outros). Estado emocional do falante – (quando estamos nervosos usamos uma linguagem mais eufórica, com mais adjetivos e até palavrões do que quando estamos calmos). Grau de intimidade entre os falantes.

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Adequação Diante de tantas variantes linguísticas, é inevitável perguntar qual delas é a correta. Resposta: não existe a mais correta em termos absolutos, mas sim, a mais adequada a cada contexto. Dessa maneira, fala bem aquele que se mostra capaz de escolher a variante adequada a cada situação e consegue o máximo de eficiência dentro da variante escolhida. Usar o português rígido, próprio da língua escrita formal, numa situação descontraída da comunicação oral é falar de modo inadequado. Soa como pretensioso, pedante, artificial. Por outro lado, é inadequado em situação formal usar gírias, termos chulos, desrespeitosos, enfim, fugir das normas típicas dessa situação. Falar uma língua é parecido com vestir-se: assim como existe uma roupa adequada para cada situação, também existe uma variedade linguística adequada a cada situação. O gramático Evanildo Bechara ensina que é preciso ser “poliglota de nossa língua”. Poliglota é a pessoa que fala várias línguas. No caso, ser poliglota do português significa ter domínio do maior número possível de variedades linguísticas e saber utilizálas nas mais diferentes situações.

Níveis de linguagem O fato de cada pessoa, ou grupo de pessoas, utilizar a língua de maneira diferente cria vários níveis de linguagem, do mais formal ao mais informal, como uma gradação: Registro formal ou culto – é o nível de linguagem utilizado em situações formais, por pessoas escolarizadas. Caracteriza-se por maior rigor no uso do vocabulário e pela obediência às regras gramaticais adquiridas por anos na escola. Optamos por esse nível ao escrevermos requerimentos, provas escolares, documentos, textos acadêmicos e ao fazermos discursos em formaturas, seminários, palestras etc.

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Registro coloquial ou popular – é a maneira informal de se comunicar no dia a dia, jogando bola com os amigos, escrevendo bilhete para a namorada, “batendo papo” com colegas etc. Ao usar esse registro, o emissor segue a sua gramática interior, intuitiva, aprendida fora da escola com pessoas próximas.

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Referências AQUINO, Renato.Gramática objetiva da Língua Portuguesa. Rio de janeiro: Elsevier, 2007. ANGELI, Folha de S. Paulo, 14/5/2000. PLATÃO & FIORIN. Lições de texto: leitura e redação. 2. ed. São Paulo: Ática, 1997. POSSENTI, S. A leitura errada existe. In: Estudos Lingüísticos: Anais de Seminários do GEL XIX. Bauru, Unesp/Gel, 1990. REGO, Francisco Gaudêncio Torquato do. Comunicação empresarial, comunicação institucional: conceitos, estratégias, sistemas, estrutura, planejamento e técnicas. São Paulo: Summus, 1986. RIBEIRO, Célia. Etiqueta na Prática. 3. ed. Porto Alegre: L & PM, 1991. ROCCO, Maria Tereza Fraga. Crise na linguagem: redação no vestibular. São Paulo: Mestre Jou, 1981. USINA DE LETRAS. Elvira. Lições de Linguística-Língua escrita e Língua falada. Disponível em: <http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=35680&cat=Artigos>. Acesso em 27 set. 2010.

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Figuras

Figura 01 – Angeli, Folha de S. Paulo, 14/5/2000

Figura 02 – Fonte: Platão e Fiorin. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1997, p. 305

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