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COMPANHIA DA OUTRA apresenta

s e e r a i d P n na i c u a v L o a e s i G l E


A P R E S E N TA Ç Ã O Fernando Pessoa é, sem dúvida, o mais representativo poeta do século XX. A figura enigmática que se tornou, movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra. Em seu mundo particular, criou em torno dele “poetas fictícios” com nome, data de nascimento, data de morte, profissões e, principalmente, estilos literários diferentes entre si. E, no decorrer de sua história, fez o que quis com esses personagens e teve a liberdade poética que nenhum outro poeta teve. O ponto de partida do espetáculo “A natureza do olhar” são os escritos de seu heterônimo Álvaro de Campos “Notas para a recordação de meu mestre Caeiro” . Campos é o nosso grande narrador e conta como Alberto Caeiro, outro heterônimo, agiu dentro de sua tumultuada alma, narra toda a sua alegria quando está na presença iluminada do mestre e a sua maior angústia ao saber da morte do mesmo. Com a simplicidade de um pastor - cujo rebanho são os próprios pensamentos - e com a naturalidade de um menino, Caeiro desconstrói as engenharias sensacionalistas e mentais de Álvaro e inaugura nele a “ciência do ver”. Trata-se de uma grande brincadeira feita por Fernando Pessoa.

A NAT U R E Z A D O O L HA R Quando abrir o pano, o que se verá é um leque de cenas mostrando o convívio diário e íntimo de dois personagens diferenciados um do outro, críveis, reais, antagônicos, cúmplices, divertidos, doidos, emocionantemente carnais e, no entanto, habitantes da cabeça ficcionista de um gênio. E um gênio português. Se engana quem pensa que se tratará de uma lúgubre atmosfera sobre um drama psicológico. Não. A dialética tecida por palavras e ações entre os dois personagens vividos pelas atrizes Elisa Lucinda e Geovana Pires é recheada de humor inteligente e tem a graça sutil e espontânea a compor a trama de uma prosa poética que dá conta das inquietações da alma humana. A platéia acompanha a dinâmica existencial entre um homem atormentado pelas sensações e um menino- homem-pastor-criançamestre que ensina sem a pretensão de ensinar e desmonta não só a racionalidade urbana que escraviza e oprime o pensamento de Campos, como o faz também com o público.


A partir de um estudo minucioso, desenvolvemos o método de “interpretação teatral da poesia”, que consiste no entendimento do texto levando em consideração o enredo que ele contém, e devolvendo ao verso a musicalidade informal da conversa. Dessa forma, eliminamos o vício de priorizar a retórica e as pausas diante de cada rima, aprofundando o entendimento do poema. Essa montagem traz o fundamento da “Companhia da Outra” cujo principio é devolver aos palcos a poesia que dele nasceu. Existe uma dramaturgia no cotidiano que é constante objeto dos poetas. O trabalho da Companhia é levantar e revelar a dramaturgia que há sob as palavras. O velho Amir Haddad nos ensina: Há muitas ações, muitos conteúdos no subterrâneo das palavras, mas só se chega neles através delas. Seguindo esse vetor, a Companhia da Outra extrai as ações dos versos. Parem de falar mal da rotina, A fúria da beleza, Da chegada do amor, Amor, essa palavra de luxo e A natureza do olhar , são os espetáculos desenvolvidos pelas atrizes que realizaram também a adaptação dramatúrgica deste, ao tecerem a linha narrativa da conversa entre Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, discípulo e mestre. Duas mulheres vivem essas duas personalidades masculinas e não se valem de estereótipos e clichês para viverem as vidas desses dois homens. Durante a densa uma hora e quinze sob as rajadas de versos e buquês de palavras, o espetáculo se desenrola conduzido por Álvaro e Caeiro brindando a alma humana independente do gênero, e a muito já não se verá duas mulheres ali. Transitando entre o teatro essencial e desconsiderando a quarta parede, o elenco instaura um clima de intimidade e de relação com o público que torna palco e plateia habitantes da mesma névoa e também aprendizes da ciência do ver.

Para compor esse recorte no espaço muito real mas que também é sonho, que é escritório, quarto, bosque, pasto, rua, varanda e janela, a Companhia da Outra contou com o iluminadíssimo olhar de Djalma Amaral na luz, a surpreendente e sofisticada música de Carlos Malta composta especialmente para o espetáculo, os criativos cenário e figurinos de Colmar Diniz e a supervisão do mestre Amir Haddad, que dispensa comentários.


E em se tratando de mestre, em cena, vemos a relação entre Alberto Caeiro e seu discípulo Álvaro de Campos e como Caeiro, com sua simplicidade de ver e agir, consegue aplacar o desespero de Álvaro com um simples olhar, apurado, sobre a natureza humana. É como se, internamente, soubéssemos que, se esse mestre, conseguiu acalmar a alma desesperada de Álvaro de Campos, pode ser capaz de fazê-lo à nossa alma e à alma do mundo. Nesta peça encontramos um Álvaro de Campos diferente do conhecido popularmente, diferente do poeta que escreveu o famoso “Poema em linha reta”. Aqui, o que se apresenta é um homem atordoado, construindo sua personalidade poética e abalado pelos ensinamentos de seu mestre. “(...) mas porque é que ensinaste a clareza da vista, se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara...” Esse trecho do poema “Mestre, meu mestre querido”, de Álvaro, nos transmite a dimensão da inquietação desse discípulo e como o olhar nítido de seu mestre iluminou sua alma inconstante. E é nesse contexto que as atrizes Elisa Lucinda e Geovana Pires não só aprofundam a linguagem poética e sua força teatral, como também brincam com a relação mestre-discípulo. Geovana, pode-se dizer, foi “lapidada a versos” pelas mãos generosas de Elisa Lucinda. Aqui, os papéis se invertem: Elisa faz o discípulo, e Geovana, o mestre. Com isso, Elisa e Geovana ilustram as palavras de José Saramago que, ao ver um recital de Elisa e seus alunos falando Fernando Pessoa, disse: “Nunca, nunca, em tantos anos de ouvir recitar o Fernando Pessoa, ouvi isto. E, devo dizer que o milagre da palavra, que a verdadeira palavra é a palavra dita, é a palavra que se pronuncia. A palavra que está estendida no papel é uma palavra que dorme. Só quando dizemos a palavra que ela é palavra. (...) Eu estou-vos muitíssimo grato, e a ela (Elisa Lucinda) que é a mestra, e ela defende isso muito bem quando diz o poema do Alberto Caeiro... mas cuidado, se ela não toma cuidado, vocês passam-lhe a frente, e eu creio que ela ficaria satisfeita porque o grande mestre é aquele que espera que os seus discípulos sejam melhores que ele. Não sei se acontecerá alguma vez o que aconteceu aqui, que é que vou daqui com a alma a cantar!” Finaliza o mestre oferecendo-nos a natureza do seu olhar.


Objet ivos OBJETIVOS

P

romover a popularização da obra dramatúrgica de Fernando Pessoa e seus heterônimos Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, através da montagem e circulação do espetáculo “A natureza do olhar”, baseado no texto “Notas para recordação do meu mestre Caeiro”, de Álvaro de Campos. - Difundir a utilidade da poesia na educação e na vida cotidiana através de uma nova abordagem do texto poético, enfatizando o poder de comunicação da poesia e incentivando a utilização desta como instrumento de ensino e cidadania; - Ao final de cada apresentação do espetáculo, realizar uma Palestra Poética ministrada pelas atrizes Elisa Lucinda e Geovana Pires, que dão vida aos heterônimos de Fernando Pessoa na peça, conversando e interagindo com a plateia, destacando a importância da obra do bardo português para a literatura mundial; - Dialogar sobre a relação estabelecida entre mestres e discípulos e a possibilidade de compreensão da língua portuguesa tendo os poemas como grande ferramenta, já que podem ser falados de forma bem distinta; - Gratuidade nas palestras - Atingir o maior número possível de professores e coordenadores pedagógicos das redes públicas e privadas com o objetivo de divulgar a importância da poesia na educação.

Pretendemos ressaltar a importância da poesia na atividade cultural de países irmãos, usando a poesia como ferramenta de ensino aos profissionais da arte e da educação, uma vez que a poesia é um instrumento de sensibilização, compreensão e estímulo à leitura. Por conhecer o notório saber de Elisa Lucinda sobre Fernando Pessoa, a editora Leya convidou a escritora brasileira a escrever uma biografia romanceada sobre o bardo português. O livro Cavalheiro de Nada será lançado em março de 2014.


A

poesia de Fernando Pessoa não teve ascensão enquanto vivia, ele mesmo teve uma vida pacata em Lisboa, cidade onde nasceu e morreu. Nada em sua vida foi surpreendente, exceto seus poemas, que ele sabia que entrariam para a eternidade. Foi exatamente o que aconteceu. Quase cem anos depois desses poemas serem escritos, estamos aqui para dar voz a Pessoa e seu grande mestre Alberto Caeiro: Da mais alta janela da minha casa Com um lenço branco digo adeus Aos meus versos que partem para a Humanidade. E não estou alegre nem triste. Esse é o destino dos versos. Escrevi-os e devo mostrá-los a todos Porque não posso fazer o contrário Como a flor não pode esconder a cor, Nem o rio esconder que corre, Nem a árvore esconder que dá fruto. Ei-los que vão já longe como que na diligência E eu sem querer sinto pena Como uma dor no corpo. Quem sabe quem os terá? Quem sabe a que mãos irão? Flor, colheu-me o meu destino para os olhos. Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas. Rio, o destino da minha água era não ficar em mim. Submeto-me e sinto-me quase alegre, Quase alegre como quem se cansa de estar triste. Ide, ide de mim! Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza. Murcha a flor e o seu pó dura sempre. Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua. Passo e fico, como o Universo.


Ficha Técnic FICHA TÉCNICA Texto: Fernando Pessoa

Atuação, pesquisa e adaptação: Elisa Lucinda e Geovana Pires Supervisão: Amir Haddad Assistente de direção: Daniel Rolim Cenografi a: Colmar Diniz e Francisco Leocádio Pintura de Arte e Adereços: Elysio Filho Execução de Cenário: Humberto Silva, Humberto Junior e equipe Figurino: Colmar Diniz e Maria Duarte Execução de Figurino: Adélia Andrade Tricots: Ticiana Passos Cabelos: Dimy Serafin e Georgina Iluminação: Djalma Amaral Operador de Luz: Marcelo Demarchi Musica Original: Carlos Malta Contra-regra: Eduardo Brandão Fotografi a: Dalton Valério ProjetoGráfi co: David Lima e Bruno Cachinho Direção de Produção: Vanda Motta Produção Executiva: Raquel Corbetta Coordenação Geral: Geovana Pires Realização: Casa Poema


“Há muitas ações, muitos conteúdos nos subterrâneos das palavras, mas só se chega neles através delas.” Amir Haddad

C O N T A T O S

CASA POEMA (21) 2286-5976 / 5977 (21) 9838-5454 casapoema@casapoema.com.br

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