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Jornal-laboratório do curso de Jornalismo da Unesp _ ano 25 n° 47 _ outubro de 2009

Contextoo Página 3 Crise no Senado: soluções giram em torno de mudanças estruturais

Páginas 8 e 9

Eureca!

Como uma pitada de criatividade muda tudo Página 11 Receita sustentável: aprenda a fazer lâmpadas com garrafas

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Outubro de 2009

Contextoo

Editorial

Foto: Marina Watanabe

Contextoo

Olho no Futuro

Jornal-laboratório produzido pelos alunos do 6º termo do curso de Comunicação Social - Jornalismo período diurno da Unesp. Editor Geral Thiago Navarro

Do fogo à luz elétrica. A luz sempre esteve presente em todas as etapas da evolução humana, acompanhando o homem das cavernas aos dias atuais. Esta é uma edição do Contexto que olha para a frente. Olha para a crise política que assola o Senado Nacional, mas com a perspectiva de haver uma luz no fim do túnel. Ainda em política, o que pensam os pequenos partidos, que não estão sob os holofotes da mídia, mas que pretendem marcar presença nas eleições presidenciais do ano que vem. Eleições que sempre afetam diretamente a economia e o dia a dia de milhões de brasileiros, que esperam do governo federal melhorias pelo país com o PAC e a possibilidade de poder olhar, com clareza, para o futuro. No âmbito local, o bauruense quer saber quando vai poder andar com segurança em uma cidade melhor iluminada. Afinal, todos pagam pela iluminação pública da cidade, porém em muitos bairros a realidade é bem diferente. Quando pensamos no futuro, logo lembramos de Educação, que traz como destaque o método de ensino braile, que permite aos deficientes visuais o acesso à leitura e ao conhecimento. A editoria traz ainda uma matéria sobre o método Waldorf de ensino, que incen-

tiva desde a infância a criatividade nas atividades escolares. Conheça também um pouco mais do trabalho realizado por instituições filantrópicas, que estão sempre buscando devolver a dignidade àqueles que já não tinham mais esperança. E nada melhor do que levantar o astral falando de otimismo e vida noturna, com o trabalho daqueles que ganham a vida enquanto a maioria dorme. Conheça pessoas que usam a imaginação e a criatividade para melhorar de vida, a e importância destes atributos para o sucesso pessoal e profissional. Em Ciência e Tecnologia, saiba mais sobre a maior rede de computadores da América Latina, presente na Unesp de Bauru. E ainda, um novo tratamento para doenças da pele e dos dentes. Em Esportes, a paixão dos torcedores pelos seus clubes em uma época marcada pelo profissionalismo crescente do futebol. E também um exemplo de dedicação dado pelos deficientes visuais que superam todas as dificuldades para praticar esportes. Em Cultura, o crescimento dos festivais de cinema no Brasil e o fenômeno do stand up comedy. Para fechar, um perfil diferente e uma viagem pela Turquia, país de cultura milenar. Afinal, só olhando o passado, poderemos pensar no futuro. Boa leitura!

Chefe de Redação Flávia Sato Editora de Arte Andrea Klaczko Diagramação Karin Kimura/ Diego Segura Stefhanie Piovezan Ilustrações Antonio Fernandes /Bruno Candeias Caroline Gomes /Dora Bonadio Orion Gorrão M. Campos Editora de Fotografia Marina Watanabe Fotógrafos Marcus Silva/ Laís Montagnana Revisão Marina Cugler / Dênis de Lima Rebeca Corrêa Editora de Política Mariana Rodrigues Repórteres Enio Lourenço/ Fouad Matuck Editora de Economia Talita Gobbi Repórteres Pâmela Perez / Nádia Pirillo Editora de Educação Danielle Nagase Repórteres Camila Sayuri/ Regina Colon Editora de Social Amanda Rabelo Repórteres Alana Carrer/ Ana Carolina Amaral

Foto: Marina Watanabe/CONTEXTO Arte: Andrea Klaczko/ CONTEXTO

Editora de Comportamento Francis Neves Repórteres Adriana Arruda/ Mellina Cheminand Reportagem Especial Marcel Verrumo/ Eloíza Fontes

Reitor Herman Jacobus Cornelis Voorwald Diretor da FAAC Roberto Deganutti Coordenador do Curso de Jornalismo Pedro Celso Campos Chefe do Departamento de Comunicação Social Luiz Augusto Teixeira Ribeiro Professores orientadores Luciano Guimarães Mauro de Souza Ventura Endereço Contexto Departamento de Comunicação Social FAAC - Unesp Av. Eng. Luiz Edmundo Carrijo Coube, 14-01 CEP: 17033-360 Bauru/SP Telefone (14) 3103 - 6000 E-mail

jornalcontexto@faac.unesp.br

Fotolito e impressão Fullgraphics

Editor de Ciência e Tecnologia Felipe Castro Repórteres Renato Olívio/ Thiago Koguchi Editora de Ecologia Gabriela Gini Repórteres Murillo Pereira/ Marina Veroneze Editora de Esportes Natália Passafaro Repórteres Thaís Luquesi/ Lidiane Orestes Editora de Cultura Anaiza Selingardi Repórteres Lauro Martins Neto/ Lucas Soares Perfil Priscila Gomes Postal Élcio Padovez/ Flaviana de Freitas Reticências Felipe Matos Expedição Paulo Gomes Netto/ Gabriel Barbosa Jornalistas Responsáveis Luciano Guimarães MTB 28.132 Mauro de Souza Ventura MTB 6235 Capa Fotografia Marcus Silva Produção Laís Montagnana


Contextoo

Política

Outubro de 2009

Era uma casa muito engraçada...

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Especialistas e políticos sugerem alguns possíveis destinos para o Senado Federal Ênio Lourenço

Escândalo, corrupção, nepotismo, favorecimento e quebra de decoro são palavras totalmente incorporadas ao vocabulário político brasileiro. Nos últimos meses, o grande palco para estes acontecimentos foi o Senado Federal. A instituição parece se envolver mais em violações de conduta ético-moral, do que fazer o que realmente lhe é de dever. No Brasil, o parlamento funciona com o modelo bicameral, ou seja, existem duas casas: Câmara dos Deputados e Senado Federal. O Senado é a câmara alta do Congresso Nacional brasileiro. As atividades do Senado estão diretamente vinculadas à natureza financeira do ordenamento do tesouro da União e à disposição sobre questões administrativas a fim de referendar propostas vindas do poder executivo e da Câmara dos Deputados, onde são aprovadas, alteradas e revogadas as leis. A crise no senado é intensa e começa com seu principal representante. O atual presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), após denúncias publicadas em jornais, sofreu sete acusações no Conselho

de Ética do Senado. Elas foram desde o seu envolvimento em atos secretos para a criação de cargos até o desvio de dinheiro da Petrobras, passando por tráfico de influências e nepotismo.

Crédito: Bruno Candeias

Parlamento bicameral: funcional ou implicante?

Diante dessa situação, o debate para possíveis soluções acaba girando em torno de mudanças estruturais no parlamento. O historiador Maximiliano Vicente acredita que não existe a necessidade de um Congresso Nacional com duas casas por existir uma Câmara que já garante a representatividade de todos os estados. Entretanto, ele acredita que o modelo unicameral, caso extinto o Senado, deveria se aperfeiçoar “para garantir maior representatividade a estados que estão mal representados, como São Paulo, que deveria ter mais deputados”. Na mesma linha, o presidente do Diretório Municipal do PSDB de Bauru, Gilson Rodrigues, defende o modelo unicameral, pelo fato do Congresso atual “tornar o processo legislativo lento, já que existe um jogo político entre as

duas casas e suas composições para se aprovarem as propostas”. Outra questão a ser levada em consideração é o trampolim eleitoral que o Senado pode sugerir. Rodrigues ressalta que “senadores de regiões afastadas se utili-

zam do mandato, por ser de oito anos, para concorrer a eleições do executivo de seus estados. Sendo assim eles teriam a garantia do cargo, em caso de derrota”. Por outro lado, há aqueles que veem mudanças de outro modo.

O vereador bauruense Roque Ferreira (PT) acha que “o problema não é discutir se o Senado é bicameral ou se vamos ter uma composição unicameral, mas sim a quem serve essas instituições”. Roque acredita que este seja um problema de natureza política e que poderia ser solucionado facilmente pelo presidente Lula, “Se eu tivesse o poder do presidente e estivesse comprometido com a classe trabalhadora e suas reivindicações, convocaria uma Assembléia Nacional Constituinte que colocasse as demandas do proletariado e através dela promoveria uma ruptura com os partidos burgueses colocando em xeque o status quo e a organização da sociedade”. Enquanto as proposições de políticos e especialistas surgem, o povo brasileiro aguarda. O debate em torno do caso Sarney começa a esfriar e os acordos entre situação e oposição continuam acontecendo. As legendas se perdem em meio a todos os escândalos e os arquivamentos parecem ser sempre o destino final dos processos. Talvez as esperanças estejam em 2010 ou em qualquer ato ou pessoa que consiga colocar ordem na casa.

Onde os fracos não têm vez Partidos menores lançam candidatura própria para as eleições 2010 Fouad Matuck

PV, PSB, PC do B, PSOL e PSTU não querem ser coadjuvantes nas eleições de 2010. No cenário político atual, uma das grandes protagonistas é Marina Silva, que deixou o PT para concorrer à presidência pelo Partido Verde. Embalados pelo discurso

de oposição ao Governo Lula, o PSTU deve lançar José Maria de Almeida como candidato à vicepresidência na chapa do PSOL de Heloísa Helena, candidata pela segunda vez ao Planalto Federal. O PSB tentará emplacar Ciro Gomes para a presidência e o PC do B, Protógenes Queiroz para o Senado.

As propostas de Marina Silva vêm ganhando forças ao conseguir o apoio da classe empresarial. São exemplo disso, a recente filiação ao PV de empresários de destaque nacional como Guilherme Leal, presidente da Natura, Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos, e Roberto Klabin, diretor-executivo da Klabin e do SOS Pantanal. No

entanto, para o cientista político Jefferson Goulart, a candidatura de Marina Silva ainda é uma incógnita: “Por si, o PV não seria um ator de primeira constelação, mas é evidente que com Marina há potenciais alterações no quadro sucessório cujo alcance é difícil prognosticar com segurança”. Para Goulart, a concorrente do PV deve

afetar diretamente a candidata do Governo, Dilma Roussef: “Marina também é mulher, e assim como Dilma foi ministra de Lula, além de uma histórica vinculação com o PT e seu ideário. Não bastasse isso, no imaginário social tem uma grande identificação com a trajetória do presidente: a origem humilde e a ligação com as boas causas”.

Conheça os candidatos... Imagens: Andrea Klaczko


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Economia

Outubro de 2009 Nádia Pirillo

Conta de luz pode ficar mais cara em Bauru

Foto: Marcus Silva/CONTEXTO

Administração pública considera arrecadação atual insuficiente para investimentos em novos projetos de iluminação

Bauru é uma das 3400 cidades brasileiras que cobra uma taxa para investimentos em iluminação pública: a chamada CIP, que significa “Contribuição para Iluminação Pública”. Atualmente, o valor da CIP no município é de R$ 3,00, mas ela pode sofrer um aumento de mais de 60% e ficar próxima dos R$ 4,50. O prefeito de Bauru, Rodrigo Agostinho (PMDB), explica que o aumento é necessário porque os 300 mil reais arrecadados atualmente pela prefeitura com a CIP não suprem as despesas. “O valor que é cobrado atualmente é insuficiente pra pagar as despesas gastas pelo município e acaba não sobrando dinheiro pra se investir em novos projetos de iluminação”. Segundo o economista José Ricardo Carrijo, quando os gastos do município são maiores que a arrecadação, há duas saídas possíveis: aumentar o valor da arrecadação ou reduzir os gastos do município. “Como reduzir os gastos da cidade é algo complicado, visto que a demanda de investimentos de um município é alta, a população tem que arcar com os gastos, pagando mais na conta”, explica o economista. Porém, isto não é uma condição apenas do município: o Brasil é um dos países que mais cobram impostos da população. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), mostra que o valor dos tributos arrecadados em 2008, que foi de R$ 1,056 trilhão, representa mais de 36% do PIB brasileiro, estimado em R$ 2,89 trilhões.

Plano Municipal Em Bauru, a prefeitura estuda ampliar o número de casas isentas da taxa de iluminação de 10 mil para 20 mil, passando o limite de isenção dos atuais 60 quilowatts para 70 quilowatts. O aumento na conta de luz para

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as outras residências seria proporcional a quanto cada família gasta por mês, ou seja, quanto maior o consumo de energia, maior o valor da CIP na conta de luz. Um levantamento feito pela CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz), no começo do ano e entregue no final de maio para a prefeitura, apontou as regiões mais deficitárias em abastecimento energético na cidade, que correspondem aos bairros da região oeste e centro-leste de Bauru. Dentre eles, está o Bairro Marambá, na região do Camélias, onde reside o encanador Oscar Lemos. Para o morador “compensa pagar a mais na conta, desde que a cidade ganhe realmente novos pontos de iluminação”. A dona de casa Célia dos Santos acredita que “os casos de assalto e violência poderiam diminuir se algumas ruas de Bauru fossem mais iluminadas”. Rodrigo Agostinho explica que a prioridade são os locais próximos a escolas, avenidas e regiões com grande índice de criminalidade. É o caso da Avenida Duque de Caxias, onde as lâmpadas estão sendo trocadas por um tipo mais eficiente, chamado de vapor metálico. A lâmpada tem um valor maior, porém sua potência é melhor. O plano de iluminação da prefeitura está previsto pra ser fechado até o final desse mandato. A ideia, segundo o prefeito, é investir 6,5 milhões de reais em iluminação, prevendo a troca de 14 mil lâmpadas e a instalação de 3 mil novos pontos de iluminação.

Gastos públicos cresceram quase 50 bi Aumento de 16% nas despesas e redução das receitas faz superávit cair quase 60% Pâmela Perez

O superávit primário - economia da União, dos Estados e municípios - caiu 57,7% de janeiro a agosto em comparação com o mesmo período de 2008, segundo o Banco Central. A economia de quase R$ 44 bilhões está abaixo da expectativa do governo, que reduziu a meta de superávit de 3,8% para 2,5% do PIB. Apesar de ser a principal vilã da diminuição das receitas que bancam o resultado primário, a crise econômica não foi a única protagonista da queda: somente neste ano, os gastos públicos cresceram quase R$ 50 bilhões.

As receitas Outro fator responsável pela diminuição do superávit primário foi a diminuição das receitas em 0,8% em agosto frente ao mesmo período de 2008. Trata-se da décima queda mensal consecutiva. De acordo com a Receita Federal, as renúncias fiscais concedidas pelo governo como medida para atenuar os efeitos da crise são a principal causa

(gráfico). Além das desonerações, houve redução da lucratividade das empresas e queda no preço internacional do petróleo. (gráfico)

As consequências Segundo Gobbo, a redução do superávit primário pode gerar a falta de recursos para pagar os juros da dívida pública, fazendo com que haja uma expectativa de aumento dos juros. “Se o governo consumir mais recursos, restará menos crédito para o setor privado investir, o que acarretaria uma

diminuição da oferta de emprego. Assim, pode haver uma redução da atividade econômica”. Apesar da consequência drástica, o economista acredita que o governo deve reverter o quadro e levar o país rumo a um futuro mais iluminado. Entre as atitudes possíveis estão a fiscalização mais rigorosa pela Receita Federal, a promoção do trabalho formal para aumentar as receitas com Imposto de Renda e a abolição dos incentivos fiscais. “Creio que o aumento de impostos está fora de cogitação. A solução é

diminuir as renúncias fiscais e os gastos com custeio e manutenção da máquina pública”. De acordo com o especialista em contas públicas, Valdemir Pires, “o período de perdas de receitas públicas ficou reduzido e agora a retomada começa, salvo algum novo problema internacional. Mas, o próximo round para a saída da crise se concentrará nas contas públicas: até que ponto as medidas de incentivo precisarão e poderão continuar sem reduzir a capacidade do governo para intervir?”.

Ilustração: Caroline Gomes/CONTEXTO

As despesas De acordo com o Tesouro Nacional, durante os oito primeiros meses do ano as despesas com pessoal e encargos cresceram mais de R$ 15 bilhões. O aumento do salário mínimo e do número de beneficiários acrescentaram mais R$ 4,8 bi à conta. Outros R$ 11,6 bilhões foram somados aos gastos com despesas discricionárias, aquelas em que o governo possui poder de decisão conforme as prioridades. Por fim, a Previdência Social aumentou seus encargos em quase R$ 16 bi, especialmente por conta do reajuste salarial e da elevação de benefícios.

Segundo o economista José Gobbo Jr., o aumento de custos com pessoal e Previdência são mais preocupantes, pois não se pode revertê-los reduzindo os salários. Até agosto, as verbas destinadas à Previdência e ao FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) representaram 72% dos gastos do Governo Central. Apesar do peso, no fim de agosto foram enviados 13 projetos à Câmara que podem aumentar em 2 bilhões os gastos com pagamento de servidores. Embora as contas demonstrem a necessidade de revisão de gastos públicos, reformas impopulares não são esperadas em virtude das eleições. Para 2010, o governo prevê um crescimento de mais R$ 52 bilhões no orçamento, incluindo um aumento de 9% no salário mínimo.


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Educação

Outubro de 2009

Lendo no escuro

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Com quase 200 anos de existência, o método Braille proporciona acessibilidade aos deficientes visuais Camila Sayuri

Barbosa, conta que “demorou algum tempo para que esse sistema fosse aceito e adotado como o método de escrita para cegos. O reconhecimento veio após a morte de Braille”. Com a utilização de seis pontos em relevo, dispostos em duas colunas verticais, é possível fazer até 63 combinações que podem

em uma prancha e uma régua com duas linhas, onde estão dispostas várias celas Braille, ou seja, as janelas com os seis furos. Para formar os relevos, a escrita é feita da direita para a esquerda, do lado de baixo do papel. O Lar Escola Santa Luzia foi fundado há 40 anos e, além de ensinar o método Braille, realiza atividades

papel exige movimentos precisos, cuja riqueza de detalhes pode ser decisiva para o reconhecimento de uma letra, um sinal de pontuação, entre outros”, explica. Rafael Rodrigues, 20, é um dos alunos do Lar Escola Santa Luzia. Ele perdeu a visão aos 12 anos e começou a ter contato com o método há dois. Ele conta que no

de artesanato, teatro e música. Para alfabetizar uma pessoa pelo método Braille é necessário primeiramente treinar e aguçar seu tato. Luciane Barbosa chama essa fase de “período preparatório ou pré-leitura”, que conta com atividades que utilizam materiais variados quanto à textura, forma e tamanho. “Esse estágio é muito importante e essencial para a alfabetização Braille, pois o relevo no

começo sua maior dificuldade era decorar o alfabeto Braille, pois já sabia ler e escrever do modo convencional, mas aos poucos foi se adaptando e é considerado pelo professor Jorge um aluno muito esforçado e empenhado em aprender. Outra instituição em Bauru que trabalha com o apoio aos deficientes visuais é a Escola Estadual Mercedes Paes Bueno, para

Foto: Marcus Silva / CONTEXTO

Quando se fala em educação é fundamental que ela esteja associada à questão da inclusão. Independente das dificuldades e limitações de cada pessoa, todos têm o direito de aprender e adquirir conhecimentos. Fundamentado nessas questões, o sistema Braille permite que pessoas com deficiência visual possam ler e escrever. O alfabeto é convencional, porém seus caracteres são redigidos em alto relevo para que a pessoa leia com a ponta dos dedos. O método Braille nasceu na França. Seu inventor, Louis Braille (1809-1842) teve seu olho atingido por um instrumento pontiagudo enquanto brincava na oficina de seu pai aos três anos de idade. Aos cinco, complicações fizeram com que ele perdesse totalmente a visão. Seu empenho em continuar os estudos o fez ingressar, aos dez anos, no Instituto para Jovens Cegos de Paris, onde futuramente também seria professor. Braille não se conformava com os métodos de estudo da época, que consistiam em decorar conceitos, e resolveu criar seu próprio sistema. Em 1825 estava criado o sistema que foi batizado com o seu nome, porém sua adoção e implantação ocorreram de forma lenta e desordenada pelo mundo. A pedagoga com atuação no ensino de deficientes visuais, Luciane

Educação e inclusão caminham de mãos dadas

representar letras simples e acentuadas, pontuações, algarismos, sinais matemáticos e até mesmo notas musicais. O professor do método Braille do Lar Escola Santa Luzia para Cegos da cidade de Bauru, Jorge Lopes, explica que para fazer os pontos no papel, utiliza-se um equipamento chamado reglete, acompanhado de uma espécie de alfinete chamado punção. A reglete consiste

alunos da 1ª série do Ensino Fundamental até o 3° ano do Ensino Médio. Esses alunos frequentam as salas de aula convencionais e em outro período do dia, na Sala de Recursos, a professora Salete Maria de Lima transcreve os textos, exercícios de sala e lições de casa para o Braille. Ela conta que o tempo de alfabetização em Braille é variável de criança para criança e é muito importante o auxílio da família nesse processo. Mas aprendizado não se restringe somente a aprender a ler e escrever, é necessário haver contato com livros e materiais para treinar o conhecimento adquirido. Jorge afirma que atualmente é possível encontrar praticamente todos os títulos da literatura, além de apostilas e algumas revistas em Braille. Além disso, a informática é outro recurso importante ao qual deficientes visuais podem ter acesso, através de um software chamado DOSVOX, um sistema computacional baseado no uso intensivo de síntese de voz, que se destina a facilitar o acesso de deficientes visuais a microcomputadores. Em 2009 o sistema Braille está em festa. Este ano, comemora-se o bicentenário de seu criador e serão realizadas comemorações em homenagem ao método que ampliou o acesso ao conhecimento, ao aprendizado e à cultura.

O ser humano como prioridade Método de ensino Waldorf desafia a necessidade técnica e aposta no desenvolvimento humanístico

Regina Colon

escola que exige muito dos pais e se você não estiver envolvido, não será a mesma coisa para seu filho. Mas há transparência de tudo, da mesma forma que você participa, a escola também retorna com informações do que acontece”. Tanto a filha quanto a mãe estão mais que satisfeitas com a educação Waldorf, mas reconhecem os pontos negativos, como por exemplo, a falta de conteúdo técnico, necessário para um vestibular. “Tudo pode ser resolvido com um curso prévestibular”, defende Har-

TEXTO

va / CON

O método Waldorf valoriza a arte e a música na formação do intelecto

mi. Agata também defende: “É muito fácil passar de ano, basta ser esforçado. Vi muita gente saindo de lá sem saber fazer conta. Mas estou muito feliz com a educação que tive. Quando tiver meus filhos, quero a mesma coisa para eles”. Certamente todo método de ensino tem seus pontos positivos e negativos. “Todo aluno Waldorf é bom de ritmo”, conclui Harmi. Esse método não visa a formação acadêmica e sim a formação de cada ser humano.

arcus Sil

Além da grade curricular, que em muito difere das escolas tradicionais, o método Waldorf não aceita que o aluno leve alimentos industriais e assim, o lanche escolar deve ser natural. Outra característica, talvez a principal, é o caráter familiar. A universitária Agata Takya Rodriguez foi educada desde o jardim em uma escola Waldorf e a primeira frase que disse para caracterizar o método foi relacionado à participação da família: “Para você estar na Waldorf, seus pais tem que estar também”. As escolas Waldorf são mantidas por uma instituição sem fins lucrativos, então todo o valor arrecadado é investido diretamente na escola. Dessa forma, para que não haja lucro e assim, gastos, os próprios pais ajudam nas tarefas extras, como na preparação das peças de teatro, excursões e qualquer atividade que tenha necessidade. Esse caráter é avisado desde a matrícula do aluno e caso os pais não aceitem, não tem como a criança permanecer na escola. Harmi Takya, mãe de Agata, confirma essa exigência: “É uma

Fotos: M

Respeitar o desenvolvimento natural da criança é o objetivo de qualquer escola Waldorf. A filosofia de ensino, criada em 1919 pelo filósofo Rudolf Steiner, mostra-se uma das mais preocupadas com as questões humanas. De acordo com o método, o crescimento acontece a cada sete anos, chamados de setênios. O primeiro - dos 0 ao 7 anos - é caracterizado pela descoberta e vontade, ou seja, a criança começa a descobrir o mundo ao seu redor e, através da imitação de exemplos, passa a formar seu conhecimento. Respeitando essa fase do desenvolvimento, a pedagogia Waldorf desenvolve práticas que vão ajudar na formação dos sentidos da criança. Deve-se a isso também, o fato da alfabetização só ter início depois desse primeiro setênio, pois uma vez desenvolvido o lado sensorial é que a fase técnica será apresentada. No Ensino Fundamental – dos 7 aos 14 anos – a fase é a da intuição e a criança passa a lidar com

suas aptidões através da imaginação. As atividades são todas baseadas na capacidade natural de imaginar o mundo, desenvolvendo o lado intelectual do aluno, que a partir do segundo setênio tem aulas de línguas estrangeiras, música, teatro, dança, arte, trabalho corporal e artesanato. O intuito é oferecer experiências que ajudarão a formar a criança. No terceiro e último setênio – dos 14 aos 21 anos – o adolescente desenvolve seu senso crítico. Com um Ensino Médio de quatro anos, a pedagogia Waldorf oferece aulas sem separação de áreas de conhecimento. Ciência, tecnologia, arte e filosofia se misturam, dando uma visão global do aprendizado. É nesse período que acontece a maior parte das oficinas, em que o aluno tem contato com atividades e instrumentos diferentes ao aluno comum, como argila, litografia, encadernação, música, pintura e tecnologia. Ao final dos ensinos, é formado o “homem integral” (expressão da filosofia Waldorf ), uma pessoa desenvolvida física, psíquica e espiritualmente.


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Social

Outubro de 2009

Contextoo

Um empurrão para se levantar Leitura de auto-ajuda oferece terapia para todos os males

Alana Carrer

Não é fácil definir uma data exata para quando as pessoas começaram a ver a auto-ajuda como uma alternativa para a resolução dos mais diversos tipos de problemas - desde vícios em algumas substâncias até o conhecido transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Mas é fato que, há alguns anos, a expressão tem se tornado cada vez mais corriqueira e perpassa as mais diversas formas,

como grupos presenciais e livros. Estes últimos têm se tornado populares e, não raro, muitos deles se tornam best-sellers. Um exemplo é o livro de autoajuda O Segredo, de Rhonda Byrne, um dos maiores fenômenos editoriais dos últimos anos, lançado no Brasil em 2007. Segundo Mônica Marques, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, para

a Revista Nures da PUC-SP, “o livro vem propagandeando a tese de que somos aquilo em que pensamos. Pensamentos bons atraem coisas boas, sentimentos ruins, coisas más, e assim por diante”. A auto-ajuda, como próprio nome já sugere, se diferencia das demais formas de auxílio psicológico, pois é a pessoa quem se conscientiza da melhor forma de resolver seu problema. “(Na auto-ajuda) você mesmo estará fazendo o trabalho. É você quem

traça o caminho. Ao contrário da psicologia, na qual o paciente terá o auxílio de um profissional qualificado”, comenta Ribeiro, que pondera: “ a auto-ajuda também está presente na psicoterapia como outra forma de auxiliar o paciente”. A literatura de auto-ajuda aborda os mais variados tipos de problemas, desde relacionamentos, trabalho, até casos graves como depressão. A maior parte deles traz uma história na qual se coloca

uma mensagem otimista e reflexiva que estimula o leitor a superar aquela situação. Sobre a eficácia desses materiais como forma de superar problemas, a psicóloga do Centro de Psicologia Aplicada da UNESP Telma Maria Ribeiro explica que “sua pertinência está muito mais ligada ao momento pessoal de quem procura esse tipo de ajuda, pois se o indivíduo ainda não tiver amadurecido a situação o suficiente, de pouco adiantará a mensagem dos livros”.

Um espelho de palavras Enxergar-se no outro é o que ilumina as reuniões dos grupos de ajuda mútua Ana Carolina Amaral

“Preciso conversar com outro bêbado”. No filme My name is Bill W (em português, O Valor da Vida) é a partir dessa frase que Bill descobre como controlar o alcoolismo. Ele criou, em 1935, o Alcoólicos Anônimos (A.A.), presente em mais de 180 países e inspirador de outras associações: Narcóticos, Neuróticos, Codependentes, Emocionais, Dependentes de Amor e Sexo, Trabalhadores Compulsivos, Comedores Compulsivos, Fumantes, Devedores, Fóbicos Sociais. Em comum, mais que o anonimato: a ajuda mútua. Mais do que já vimos nas novelas, quando um ou dois episódios

mostraram um personagem nos Narcóticos Anônimos ou nas Mulheres que Amam Demais: as salas de reuniões desses grupos são claras, pintadas com palavras fortes. Os veteranos sorriem de cabeça levantada, falam sem medo, acolhem o novato que adentra a reunião. Não questionam, julgam ou perguntam, mas querem ouvi-lo. Querem sinceramente e é sinceridade o que esperam dele. Não poderiam se definir por outra palavra que não fosse “irmandade”: em uma reunião de ajuda mútua, basta dizer seu primeiro nome para ganhar de todos a torcida pela recuperação - além da expectativa, quase um cobrança, de ser visto na próxima reunião. A cena de uma sala com algumas

De mãos atadas Doentes são reduzidos a objetos em instituições de tratamentos forçados

Só por hoje As reuniões são constantes e para a vida toda. Esse é um dos consensos entre a maioria das associações de terapia em grupo, já que não vêem cura para as perturbações mentais. Procuram, portanto,

pensar como agirão em cada dia, seguindo algumas recomendações que evitam o primeiro passo em direção ao erro. “Pergunte para qualquer membro qual princípio estava seguindo quando teve uma recaída: nenhum” ilustra o coordenador dos Alcoólicos Anônimos de Bauru. “Os princípios do A.A. embasam nossa sobriedade, enquanto as experiências divididas nas reuniões nos fortalecem para continuarmos sóbrios”, ele conclui. Como Osório, todos os coordenadores dos grupos de ajuda mútua sentem na pele o problema que os outros membros enfrentam. A maior parte dessas instituições segue princípios semelhantes, não se envolvendo em outras questões públicas e, claro, preservando a identidade dos membros. Talvez porque não importe o nome do outro quando olhamos para nós mesmos.

XTO Bonadio/CONTE

“O superpoder do médico faz um diagnóstico passivo da doença. Sem diálogo, o louco era um objeto sem nenhuma capacidade de autonomia”, acusa Clodoaldo, defensor da luta antimanicomial. O raciocínio segue a influência de um dos psiquiatras mais discutidos do mundo. Para o italiano Franco Basaglia, “a psiquiatria, desde seu nascimento, é em si uma técnica altamente repressiva que o Estado sempre usou para oprimir os doentes pobres”. Em artigo científico publicado na revista Rubedo, o pesquisador Eduardo Vasconcelos defende que os tratamentos psiquiátricos devem se livrar do asilamento e da violência institucionalizada. Para isso, o empoderamento do doente e sua família deixa nas mãos do médico apenas o que é de sua alçada. Assim o paciente, que “lavava as mãos” para o tratamento, torna-se sujeito do seu problema. E tem nas mãos a solução.

ouvir é se identificar. “Muitas vezes ouvimos acontecimentos ruins, que refletem um passado a que não queremos voltar, um presente de que queremos sair, um futuro a que não queremos chegar. Colocandonos no lugar do outro, negamos que possa acontecer conosco e nos fortalecemos para evitar isso.” Mas para Osório o que mais ilumina esse espelho são os depoimentos dos sóbrios, que trazem dicas para fugir das recaídas e os frutos que colhem por terem parado de beber. “É neles que nos espelhamos”, sorri. E como se a busca pela resposta estivesse no fundo do espelho, uma placa piscava em luzes vermelhas no fundo da sala dos A.A. de Bauru: evite o primeiro gole hoje.

Ilustração: Dora

Na sala de reuniões dos Alcoólicos Anônimos de Bauru, “eu sou responsável” é a frase de maior destaque na parede, título de uma oração. Por ela se resume uma ajuda centrada na ação do próprio doente: ele tem autonomia sobre seu tratamento. Para o professor da Universidade Estadual Paulista e pesquisador dos Direitos Humanos, Clodoaldo Meneghelo, a terapia em grupo funciona porque traz o aspecto social de um problema que o indivíduo acreditava ser pessoal. “Facilita o tratamento porque o enfrentamento se torna político, indo para a dimensão de sujeito coletivo.” O professor explica que participando ativa e socialmente, o doente é sujeito da ação, e não apenas paciente. Derivando do termo “passivo”, o conceito de paciente impõe uma relação de sujeito e objeto entre o médico e o doente, em que apenas o médico poderia alcançar a cura.

pessoas cabisbaixas, mal vestidas e com vontade de chorar também deve ficar para as novelas. O A.A. de Bauru tem reuniões diárias e em plena noite de segunda-feira mais de 20 pessoas coloriam uma reunião. Coloriam: homens, mulheres, jovens, idosos, terno e gravata, bermuda e chinelo, bêbados de baixa renda, sóbrios bem sucedidos. Oito delas pediram a palavra, o tempo de cada um é sempre de dez minutos. Soa a campainha e, ao final do depoimento, o anônimo recebe em coro um “obrigado” em que mais uma vez a sinceridade é sentida, quase que como método de tratamento. Funciona como um espelho. Para Osório, coordenador do A.A. de Bauru, dividir experiências é um método eficaz de ajuda porque “os membros enfrentam os mesmos problemas, suas mentes combatem os mesmos pensamentos, então eles sempre se identificam com as histórias”. Ele explica que falar para os companheiros de reunião é admitir para nós mesmos, enquanto


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Comportamento

Outubro de 2009

A vitória de cada um

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Nas adversidades da vida, o segredo é encontrar uma forma de seguir em frente

Adriana Arruda

O N TEX

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A pedra arrancada do caminho

Fernando Vieira, estudante Ficou tetraplégico em um mergulho há 14 anos. Quer continuar lutando e pretende cursar Psicologia. “Achava que voltaria a andar rápido depois do acidente, mas descobri que tinha ficado tetraplégico. Senti grande revolta”

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“Refleti e vi que tinha duas alternativas: ajudar-me ou entrar no fundo do poço. Fiquei com a primeira e não me arrependo”

Foto: M arcus S

“No meio do caminho tinha uma pedra”. Não é a toa que esse verso, escrito por Carlos Drummond de Andrade, tornou-se tão conhecido e utilizado para exemplificar o quanto é comum o surgimento de certos problemas. Todos nós queremos nos livrar daquela situação complicada o mais rápido possível, mas será que a solução é encontrada tão facilmente? De acordo com o psicólogo Angelo Abrantes, “a psicologia e o centro individual, de maneira isolada, não possuem o poder de fazer com que as pessoas superem dificuldades”. Assim, é preciso que o indivíduo entenda sua história e a cultura em que está inserido para começar o processo de superação. A força para enfrentar obstáculos nasce em função de redes de apoio e da relação de cada um com a sociedade. Angelo ainda completa: “Nos momentos de crise conseguimos parar e refletir sobre os atos”. Não há receita pronta para se conseguir o sucesso perante uma barreira. A fé, constantemente citada por pessoas que sofrem, não ausenta a dor, mas reconforta alguns corações. “A religião funciona como instrumento de superação com determinados limites”, afirma o psicólogo. Apesar de passar por grandes obstáculos, muitos conseguem enfrentá-los e seguir adiante com muitos sonhos e grande otimismo. Logo, todos possuem a capacidade de superação, que depende do esforço pessoal e de fatores sociais. Essa mistura de sobriedade consegue tirar a tal pedra do caminho, mas também nos prepara para outras possíveis pedras perante a nebulosa estrada da vida.

Na hora da crise, perspectiva é tudo

“Não desanimo e tenho fé. Amo meus filhos incondicionalmente, mais do que meu pai não me amou” Maria de Lourdes Pinto, aposentada Sofria castigos do pai, que não aprendeu a amá-la. É teimosa e realiza a lição de maneira oposta: ama e cuida de seus 6 filhos. “Meu pai tentou me matar colocando veneno dentro de uma linguiça. Desconfiada, dei para o cachorro, que abandonou a vida em meu lugar”

“Meu pequeno está com 3 anos e 5 meses. Fui escolhida por Deus, presenteada com um anjo de luz que irradia meus dias” Erlânia Nascimento, pedagoga Mãe de criança deficiente. Mergulhou no mundo de Anthony e aprendeu novas formas de vida “Anthony desenvolveu a síndrome de autismo com 18 meses, paralisando a fala e a socialização. Meu mundo caiu, mas consegui ter forças para vencer”

“Tenho esperança no futuro das células-tronco e estou na fila como número 1”

“Fui presenteada com outro filho, Erik, e sei apreciar a delícia de ser mãe” Erika Gutierrez, assistente de departamento pessoal Perdeu o filho com um dia de vida em 2006. Ganhou o pequeno Erik há 11 meses. “Desânimo. Vontade de morrer. Essas foram as sensações que tive ”

Rogério Rosa, professor Possui um câncer destrutivo desde 2000. Perdeu 90% da audição, mas ganhou otimismo. “Senti o drama de como era ser surdo, entrei em depressão e me exclui do mundo educativo” “O plano de saúde tratou o assunto como prótese de estética e não como aparelho auditivo”

Enquanto a cidade dorme As dificuldades de quem começa o dia ao anoitecer

Acordar cedo, tomar café e ir trabalhar: essa é a rotina da maior parte das pessoas. Porém, existe uma parcela da população que não segue essa rotina. São pessoas que quando a cidade adormece começam a trabalhar ou estudar, seja por opção ou necessidade. Dentre muitas queixas, a mais comum é em relação à qualidade do sono e à dificuldade de repor a noite perdida. Amarildo Aprígio é vigilante noturno há 25 anos, e desde então não dorme antes das 7 horas da manhã. “O sono durante o dia ajuda, mas não descansa. Sempre acordo malhumorado, cansado e se tiver barulho é ainda pior”, afirma Aprígio, que começou a trabalhar durante a noite por necessidade. Já o músico Paulo César Gomes, apesar de concentrar suas atividades nos finais de semana, também tem seu relógio biológico prejudicado. “Ele [relógio biológico] responde à vida noturna, porque não consigo dormir antes das 2

horas da manhã, e o sono não é de qualidade já que costumo cochilar muito durante o dia”, completa Gomes. Mas há quem não sinta tanto essa inversão. O porteiro noturno José Reis Júnior é um exemplo. “Muita gente fala que o sono da noite nunca é reposto durante o dia, mas eu, quando vou dormir, me concentro nisso”, conclui Júnior. O porteiro acredita que não sente tanto essa mudança de horário porque tem a mesma rotina das pessoas com hábitos diurnos, com a diferença que realiza suas atividades de acordo com os horários adequados às suas obrigações. “Procuro levar minha vida o mais simples possível e sem exageros”, ressalta José. O estudante Samuel Bonassoli Mira, que trabalha durante o dia, faz faculdade à noite e estuda quando chega em casa, também acredita que dormir tarde não interfere na qualidade do sono. “Sempre tenho muito sono, por isso, não tenho problemas com insônia”, brinca e completa dizendo que “não acho que ficar

sem dormir parte da noite traz prejuízo para a saúde. O sono é passível de ser recuperado, o problema é o meio utilizado para ficar acordado, como tomar energéticos ou comer guloseimas para despertar”, conclui o estudante.

Dentre muitas queixas, a mais comum é em relação à qualidade do sono e à dificuldade de repor a noite perdida.

O ponto em que todos estão de acordo é que a atividade noturna os distancia da família em datas e comemorações importantes como aniversários e o Natal. Aprígio diz que “em datas comemorativas meus familiares pedem para eu

não vir trabalhar. E sempre ligam para dizer que estou fazendo falta”. Já Gomes, que está no ramo musical há 42 anos diz que no Natal e Ano Novo, umas das melhores datas de trabalho, é muito difícil se reunir com a família, “meus familiares já se acostumaram ao meu ritmo, mas às vezes eles reclamam de não estar presente nessas ocasiões”. Samuel diz que os pais entendem, mas não gostam Relógio invertido: para muitos, as horas mais escuras são as mais produtivas muito, e José acredita que a novo dia, há sempre aqueles rotina noturna faz bem para ele e que, por isso, a que continuam a todo vapor, aproveitando a tranquilidade família entende. E assim, enquanto a cidade noturna para a rotina de suas dorme preparando-se para um vidas.

Foto: Marcus Silva / CONTEXTO

Mellina Cheminand


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Especial

Outubro de 2009

Contextoo

Concretizando insights Num estalo, uma ideia, um devaneio e cria-se a mais nova invenção

Eloiza Fontes Marcel Verrumo

Foi dormindo que a professora de música, Christina Paz, teve uma ideia inusitada. Meses depois, o sonho fez de Christina a inventora de um equipamento de secagem de calçados e de tênis. Já os insights da escritora e jornalista Sarah Moralejo, acontecem mais quando ela está em contato com a água. Atividades cotidianas, como lavar louça e nadar, já renderam à escritora diversas narrativas e versos. E era bem acordado e longe das águas que o analista de sistemas, Gilbert Salazar, observava a má postura das pessoas em frente ao computador. Em uma dessas ocasiões, Gilbert encontrou uma solução para reeducar a postura errada da maioria dos usuários: criou um colete que ajuda na correção postural. Christina Paz, Sarah Moralejo e Gilbert Salazar não se conhecem e são de diferentes estados do Brasil, mas têm algo em comum: eles criam. “O criador é aquele que usa os meios e ferramentas à sua disposição como algo a ser modelado pelos seus desejos e não aceita os modelos que recebe de seu tempo”, define o professor de Pedagogia da Universidade de São Paulo Claudemir Belintane, para quem o ato de criar está intimamente relacionado com a necessidade humana de dar vazão ao seu íntimo, sendo um processo singular e individual. Repertório, observações cotidianas, associações gravadas consciente e inconscientemente seriam alguns dos pilares do processo criativo. “O criador tem que se envolver com o já criado, conhecer bem as grandes criações e se dedicar às técnicas e outras exigências de sua área”, constata Belintane. “Criatividade não é somente criar algo novo. E isso é muito cobrado neste contexto pós-moderno em que vivemos, em que há a urgência pelo novo e o inusitado em tudo e a todo momento. Criatividade tem muito a

ver com lidar com o óbvio, com o longe dos pés. Cercada por notas nhou para um especialista e, então, que está ali, e que de tão evidente musicais, foi durante um sonho que foi elaborado um protótipo para ninguém percebe ou acha que não Christina visualizou um produto ser colocado em uma exposição tem potencial para mais nada além absolutamente diferente de tudo o de invenções. “A criação chamou a do que já é”, afirma Sarah. que já vira e com que trabalhara. atenção de muita gente e teve boa No ato de criar não basta ter um “Minha cabeça funciona com sons, divulgação na mídia. Uma indúsinsight, é preciso transformar ideias instrumentos e melodias. O insi- tria interessada na fabricação do em produtos e colocá-las no papel. ght não pareceu algo consciente”, produto passou a estabelecer conCom o objetivo de fazer com que recorda-se Christina. A imagem tato com a ANI”, conta Christina. os inventores brasileiros tirem as era do que seria chamado de equiO produto consiste em uma forideias da cabeça e as concretizem, pamento de secagem de calçados ma em formato espiral semelhante existe a Associação Nacional dos e de tênis, um aparelho que serve ao pé, composta por filamentos de Inventores (ANI). A entidade sem para as pessoas secarem as partes resistência elétrica em toda a sua fins lucrativos foi criada em 1992 internas de seus sapatos em dias de extensão e promove a secagem do e orienta e incentiva criadores e chuva. “É útil também em lugares calçado de dentro para fora, graças empresas, esclarecendo, por ao aquecimento dessa forFoto: DIVULGAÇÃO exemplo, como um invenma. Como um ferro de pastor deve proceder para pasar, tem um termostato retentear sua idéia e torná-la gulável para cada material, viável mercadologicamenseja couro ou sintético. “A te. “Quando os inventores forma, que pode ser adapaparecem com uma nova tada a diversos tamanhos de criação, a primeira coisa que calçados, contém furos para precisam fazer é patenteá-la a saída do ar quente e fica para garantir a propriedapresa a uma pequena e leve de de sua ideia”, informa o haste em forma de ‘Y’. A presidente da ANI, Carlos haste inclui um gancho que Mazzei. De acordo com o permite apoiar o conjunto Instituto Nacional de Prosobre um tampo ou superpriedade Industrial (INPI), a fície, ou mesmo pendurá-lo patente é um título outorgano varal”, explica. do pelo Estado que confere ao titular o direito temporáMergulhos criativos no rio e exclusivo da fabricação, universo das fanfictions venda e utilização comercial Fanfiction (a ficção criada da invenção. por fãs) é a reelaboração do O número de patentes enredo de uma obra pelos registradas em um país é seus consumidores. “Fanindicativo de seu grau de fiction é criar algo novo inovação. Segundo dados com base no que já foi esda Organização Mundial crito”, define a jornalista e Secador de tênis ajuda pessoas em dias de chuva da Propriedade Intelectual escritora dessas narrativas, (OMPI), no Brasil, foram Sarah Moralejo, de registradas 384 patentes em 2007, frios, como alternativa para aque- São Paulo. É quando, por o que coloca o país no 24º lugar cer os calçados, antes de usá-los. É exemplo, um leitor de Harno ranking mundial. Os Estados boa opção em academias, porque, ry Potter, insatisfeito com os Unidos ficaram em primeiro lugar, além de secar a transpiração, pode rumos que J. K. Rowling deu com 52.280 patentes, 33,5% do agregar produtos desodorizantes. aos personagens, reescreve a total mundial. Além disso, como conseqüência narrativa, criando um novo natural, ajuda a combater as bacté- desfecho para a história e, ao Arranjos harmônicos e incons- rias”, destaca a inventora. mesmo tempo, respeitando Meses após sonhar com o produ- as características identitárias cientes Cantora profissional e professo- to, a cantora procurou a ANI para da obra. “Existem dois desafios: ra de música, as ideias da carioca saber como patentear e comercialiChristina Paz sempre estiveram zar a invenção. A agência a encami- manter a fidelidade ao que

Foi dentro de uma banheira que Arquimedes teria gritado “Eureca!” e resolvido um mistério. O rei Hieron de Siracusa havia adquirido uma coroa de ouro, mas desconfiava que ela não era pura. Após ter a idéia de que massas iguais de um mesmo metal deslocam o mesmo volume de água, Arquimedes descobriu que a coroa do rei Hieron não era pura: a coroa tinha tirado da banheira mais água do que uma barra pura de ouro com a mesma massa...

Muitas são as hipóteses sobre o inventor da roda. Uma das teorias supõe que uma roda feita a partir de um tronco de árvore era a ancestral das atuais rodas. O tronco era análogo a um rolo, o qual evoluiu para uma roda em forma de disco. Já as rodas dos automóveis teriam se originado diretamente das rodas das antigas carruagens puxadas a cavalos

foi escrito e, ao mesmo tempo, lançar elementos novos para tornar o novo texto atraente. Se o novo escritor não tem criatividade, acaba somente falando do que já existe, do que já foi falado. Romper os limites da narrativa, seja expondo o óbvio em um novo formato, seja trazendo uma nova forma de falar sobre o convencional, seja percebendo aquilo que ninguém percebeu e desenvolvendo no mesmo universo já planejado é um trabalho que exige certo grau de adaptação, de leitura e de reflexão que, se você não consegue atingir de forma criativa, gera um texto medíocre”, defende a escritora. Para criar novos roteiros, narrativas ricas e interessantes, Sarah tem que ler muito, assistir a muitos filmes e entrar em contato com obras de todas as naturezas que possam enriquecer seu repertório cultural. Para o pedagogo Claudemir Belintane, Sarah percorre o caminho certo, porque, para ser criativo, o escritor precisa manter contato intenso com as grandes obras e escrever com frequência, para ser Apa criativo. “O criador tem que se envolver com o já criado, conhecer bem as grandes criações e se dedicar às técnicas e outras exigências de sua área”, afirma. Apreendido o repertório cultu-

Eure

Os insights que muda

Thomas Edison teria inventado a lâmpa materiais de filamentos e investir mais que Edison teve um insight e testou um carbonizado. O resultado do teste foi an estava incandescente. Havia sido inventa seria desenvolvido em d


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Especial

Outubro de 2009

Contratam-se ideias Mercado de trabalho valoriza profissionais criativos

ral, o escritor precisa transformar a ideia em palavras. Para Sarah, a inspiração parece ser mais acentuada quando ela está em contato com água. Era assim na adolescência, quando ela deixava a louça a ser lavada pela metade e ia escrever versos. É assim hoje, quando ela registra ideias em seu caderno, após mergulhos criativos durante suas aulas de natação. “Acredito que o contato com a água faz as minhas ideias fluírem melhor”, brinca Sarah.

horas a fio em postura inadequada. A repetição dessa atitude por dias e meses acaba causando vício postural, dores nas costas e outras deformações na coluna vertebral. Assim, tive a ideia de criar algo que as alertasse sobre a má postura”, explica. O Monitor Postural, como é chamado o produto, é um colete movido à pilha usado na cintura da pessoa, e se propõe a monitorar a postura de quem o utiliza. Quando a pessoa estiver com a coluna encurvada ou com os ombros caídos, ela será avisada por Além das aparências cotidianas O analista de sistemas Gilbert um alerta vibratório (semelhante Salazar trabalhava em uma em- ao vibracall de um celular), levando-a a corrigir sua Foto: DIVULGAÇÃO postura. “Os usuários do aparelho serão as pessoas que usam computadores, adolescentes e jovens em suas cadeiras escolares, pessoas que trabalham sentadas e até as que já tenham curvaturas acentuadas na coluna torácica ou ombros caídos. Para essas pessoas, esse arelho vibra para alertar usuário sobre postura errada dispositivo será muito útil na prepresa, na capital de Minas Gerais, venção de problemas da coluna quando passou a observar a postu- vertebral”, comenta Gilbert. O mineiro garante já ter usado ra de seus colegas diante dos computadores. “É comum as pessoas sua criatividade para solucionar se distraírem e relaxarem, ficando problemas em seus relacionamentos, no trabalho e no casamento. “Gosto muito da frase de Albert Einsten: ‘Em momentos de crise, só a imaginação é mais importante que o conhecimento’. Procuro usar a imaginação para solucioaram o rumo da História nar tudo o que faço. Tudo o que existe pode ser feito de maneira melhor. É necessário observar, avaliar, imaginar e então promover uma mudança ou criar algo novo”.

eca!

ada elétrica após testar mais de 6 mil de US$40.000. Foi em outubro de 1879 m filamento de linha de coser de algodão nimador: após 40 horas o filamento ainda ada a parte interna da lâmpada. O bulbo dezembro do mesmo ano.

É comum, em processos de seleção para contratação de profissionais, os candidatos passarem por testes que avaliam seu potencial criativo. Para a psicóloga Marilza Zanardo, que atua na área de Recursos Humanos em uma empresa da cidade de Bauru, a criatividade em processos seletivos é sempre levada em consideração. “A criatividade ajuda a perceber o modo de agir da pessoa no mundo, refere-se à sua capacidade de fantasia, presençadeespírito,agilidade mental, adaptação a tarefas e resolução de problemas”, observa Marilza. Uma das formas de se identificar o potencial criativo dos candidatos é por meio de testes de personalidade. “Pequenos testes, ou testes parciais de características, ajudam a refletir sobre aspectos importantes da personalidade dos candidatos, promovendo maior conhecimento e fazendo com que se reconheçam partes importantes subjetivas ou inconscientes deles”, explica a psicóloga. Uma das mais famosas avaliações é o Teste de Torrance, no qual, a partir de figuras geométricas simples, as pessoas devem criar desenhos complexos. Então, os avaliadores julgam a complexidade dos desenhos e o nível de criatividade dos candidatos, ou seja, quanto mais simples o desenho, menos criativo é

o candidato. O publicitário Lupércio Zampieri, de uma agência de publicidade de Bauru, acredita que, assim como ele, profissionais de diferentes áreas precisam ser criativos para se manterem no mercado de trabalho. Lupércio lembra que, em sua área de atuação, um bom conhecimento sobre comunicação e cultura também é fundamental. “Não vou produzir comunicação se não conhecer com quem estou falando, preciso entender as razões que levam uma pessoa a se comportar de um jeito ou de outro. Como o público com quem eu quero me comunicar enxerga determinado objeto. Por outro lado, preciso conhecer que tipo de ferramenta de comunicação eu tenho à disposição para chamar a atenção do públicoalvo. A criatividade está relacionada à tarefa de ligar pontos de diversas áreas do

conhecimento”, defende o publicitário. Tanto no mercado de trabalho quanto na vida cotidiana, é possível perceber a presença de pessoas mais criativas do que outras. O professor de Pedagogia da Universidade de São Paulo, Claudemir Belintane, compara os diferentes níveis de criatividade com as diversas capacidades das pessoas para lidarem com determinado tema. Belintane acredita que pessoas menos criativas podem praticar atividades para desenvolverem seu potencial criativo. “Não acredito que o desenvolvimento da criatividade diminua com o passar dos anos. Tem gente que começa a ser criativo ou a criar suas mais importantes obras a partir dos cinqüenta anos, como foi o caso de José Saramago”, exemplifica. Crédito: Andréa Klaczko

Ilustrações: Antônio Fernandes/CONTEXTO

O escocês Alexander Graham Bell transmitiu, em março de 1876, uma mensagem a seu auxiliar através de sua mais recente invenção: o telefone. Com o aparelho já patenteado, o inventor foi a uma feira divulgar o produto. O telefone estava com baixa popularidade na feira até que D. Pedro II, Imperador do Brasil e conhecido de Graham Bell, teria pegado uma extremidade do aparelho e ouvido Bell. A surpresa do imperador teria contribuído para a popularização da invenção.

Muitas são as possíveis datas da invenção do sistema de troca de informações tão utilizado hoje, a Internet. Teria surgido em 1969 quando cientistas da Universidade da Califórnia trocaram informações entre dois computadores por meio de um cabo de cinco metros? Ou quando todos os computadores adotaram o protocolo usado atualmente? Ou quando começou a se utilizar o primeiro navegador de internet? Há também aqueles que creditam a Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web (WWW), o título de “pai da internet”.

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Ciência e Tecnologia

Contextoo

Outubro de 2009

Supercomputador dá novo fôlego para pesquisa na Unesp Maior conjunto de computadores da América Latina, o GridUnesp oferece novas ferramentas de pesquisa na área de engenharia de materiais, genética e biomedicina Renato Olívio

“clusters”, e que estão espalhados por outros campi da Unesp no Estado: São José do Rio Preto, Rio Claro, Araraquara, Bauru, Botucatu e Ilha Solteira. Todos eles trabalham em conjunto e as tarefas são distribuídas de acordo com o grau de ociosidade de cada um dos “clusters” espalhados pelo Estado. Sérgio Novaes, professor do Instituto de Física Teórica (IFT) e coordenador geral do projeto, explica que a origem da criação do Grid vem de uma carência de sua linha de pesquisa, que precisa de tecnologia cada vez mais avançada no processamento de cálculos. “O nosso grupo de pesquisa trabalha na área de Física Experimental de Altas Energias. Essa é uma área que possui uma enorme demanda por processamento e armazenamento de dados. Conscientes dessa necessidade, os físicos de altas energias vêm trabalhando e aprimorando a arquitetura de processamento em Grid. Apesar de ser um conceito bastante novo, ele se desenvolveu muito, principalmente em vista dessa necessidade de nossa área”. E não é somente com os Grids de São Paulo que o GridUnesp está interligado. Além de operar dentro do computador principal e dos “clusters” espalhados pelo Estado, o Grid também pode interligar-se a máquinas de outros países, como Estados Unidos, Japão e Europa, aumentando ainda mais a capacidade de processamento computacional. Esta inovação permite a algumas áreas do conhecimento expandir as suas pesquisas, como o desenvolvimento de

Foto: Laís Montagnana / CONTEXTO

Imagine um supercomputador, capaz de armazenar e processar informações em grandes quantidades, em um curto espaço de tempo. Agora imagine uma máquina destas dentro da universidade pública, oferecendo condições cada vez mais propícias para o estudo e pesquisa nas áreas de novos materiais, genética, biomedicina, meteorologia, entre outras. Por mais incrível que possa parecer, esta não é uma realidade tão distante da comunidade científica. No mês de setembro, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) colocou em funcionamento o GridUnesp, o maior conjunto de computadores para processamento de dados da América Latina. Sua capacidade de processamento é de 33,3 Teraflops, o que equivale a 33,3 trilhões de cálculos por segundo. O funcionamento do GridUnesp parte de um princípio bastante simples. Um computador principal, instalado em São Paulo, na Barra Funda, distribui as atividades de processamento dos cálculos pelos outros seis computadores secundários, denominados

novos materiais, a genética, os biomateriais e as redes de altas energias. Pablo Venegas, coordenador do projeto do “cluster” em Bauru e professor do Departamento de Física da Unesp de Bauru, explica que apesar de beneficiar imediatamente apenas a comunidade acadêmica, o Grid pode trazer benefícios à população a médio e longo prazo. “Na área de supercondutores e transmissão de energia elétrica, por exemplo, o Grid pode ajudar a desenvolver um sistema de transmissão que funcione a temperatura ambiente, diminuindo os gastos com a construção de novas usinas hidroelétricas. Isso afetaria não só a economia do país, mas também ajudaria na preservação do meio ambiente”. Financiado pela Unesp e a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos do Ministério da Ciência e Tecnologia), o projeto do Grid custou aos cofres públicos cerca de R$ 8 milhões de reais e inicialmente beneficiará apenas os campi com “clusters” instalados, mas pode ser expandido a outros até o fim do ano de 2009.

O cluster de Bauru trará benefícios para a população a longo prazo

A luz que traz a cura Novos tratamentos à base de luz artificial auxiliam no tratamento de doenças Thiago Koguchi

problemas bucais, a esteticista Janete Pugliese explica que o laser e o LED já são utilizados em outros problemas, como artrite, artrose, fibromialgia, bronquite e até asma. Segundo a esteticista, “alguns pacientes que recebem esse

tipo de tratamento ficam até um ano sem crise respiratória”. Para Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado, doutora da Faculdade de Odontologia de Bauru da USP, a utilização de luzes artificiais em tratamentos bucais é Foto: Laís Montagnana / CONTEXTO

Sem luz não existe vida. Todos os seres necessitam dela para sobrevivência e a exposição ao sol é o que permite que nossa pele produza a vitamina D, essencial para a saúde dos ossos e a existência de cálcio no sangue. Entretanto, há casos em que o excesso de luz traz malefícios, como, por exemplo, na ocorrência do câncer de pele. De acordo com o INCA (Instituto Nacional do Câncer), 25% dos tumores malignos registrados no Brasil são da região cutânea. No ano passado, mais de 100 mil brasileiros foram afetados. Mas a luz que causa danos pode ajudar a repará-los. A fototerapia é um tipo de tratamento recente que utiliza basicamente dois tipos de radiação luminosa, o laser e o LED (diodo emissor de luz, em tradução do inglês). Ambos são luzes artificiais que possuem propriedades diferentes das radiações normais, como a luz solar e, por isso, podem ser manuseadas e utilizadas na medicina e na odontologia. Apesar do uso conhecido do laser em tratamentos estéticos e de

A luz do bem: sem efeitos colaterais e sem cicatrizes

recente, mas já atingiu resultados expressivos. Como exemplo, ela cita o tratamento bucal de crianças com câncer que está sendo realizado, por ela, em Cuiabá. “Algumas crianças que passaram pelo tratamento fototerápico ganharam peso, porque, quando você tem uma lesão na boca, a primeira coisa que você evita é comer”. Para a doutora, o tratamento fototerápico é revolucionário, pois não utiliza produtos químicos, o que diminui os efeitos colaterais. “Quando eu dou um medicamento, cada vez mais eu inutilizo o sistema imunológico do paciente. A doença pode se manifestar em outros lugares, as bactérias sofrem mutações e tornam-se resistentes aos medicamentos”, afirma. Janete Pugliese ainda afirma que “enquanto a luz de alta potência destrói, a luz de baixa potência estimula as células a trabalharem”. Apesar dos inúmeros benefícios, o tratamento fototerápico ainda é pouco pesquisado no Brasil. Existem poucos centros que trabalham com esse tipo de terapia, o que encarece o processo. Outro problema

é a resistência das grandes empresas de medicamentos. “Enfrentamos a resistência dos laboratórios,

O tratamento fototerápico é revolucionário, pois não utiliza produtos químicos, o que diminui os efeitos colaterais

mas acredito que consigamos levar esse tratamento para a população”, comenta Maria Aparecida. Engana-se quem acha que os tratamentos à base de luz são recentes. Registros históricos afirmam que os egípcios utilizavam a luz solar, associada a produtos químicos, no combate a doenças de pele. O atual desafio é fazer com que sejam desenvolvidos novos aparelhos para que mais pessoas se beneficiem do novo tratamento.


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Ecologia

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Alternativas que ajudam o planeta

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Para diminuir a quantidade de poluentes emitidos no meio ambiente, as energias limpas ganham espaço no cenário mundial

A velocidade e intensidade de emissão de poluentes na atmosfera têm causado sérias mudanças no sistema climático da Terra, o que têm gerado pesquisas, adoção de medidas severas dos órgãos ambientais e negociações entre os líderes mundiais para restringir a emissão de gases poluentes. O Prof. Dr. Alceu Alves explica que a abundância na oferta do petróleo e do carvão mineral (combustíveis altamente poluentes) criou uma matriz energética mundial baseada nessas duas fontes, resultando num forte mercado consumidor e criando preços competitivos para os produtos que utilizavam esses combustíveis. “A princípio, não havia a preocupação com o meio ambiente e acreditava-se que as reservas de petróleo seriam suficientes para manter a humanidade ‘em movimento’ por muito tempo”, destaca Alceu. Mas, em 1973, com a primeira crise do petróleo, o mundo notou que a situação seria diferente e, assim, iniciou-se uma busca intensiva por alternativas ao uso do petróleo. “Atualmente, há uma forte

preocupação com aspectos ecológicos, neste contexto, as energias limpas estão ganhando força e tendem a tomar o espaço anteriormente ocupado pelas energias ‘sujas’”, ressalta o docente Alceu. Segundo o Prof. Dr. José Francisco Rodrigues as energias limpas são formas de gerar energia causando nenhum ou pouco impacto ambiental e emitindo uma pequena quantidade de resíduos. As principais energias limpas são a eólica, a solar, o biogás, o biocombustível e a energia gerada através das marés. Assim, para reverter o cenário alarmante de poluição e aquecimento global, a tendência é que os combustíveis fósseis sejam substituídos por esse tipo de energia. “Não há dúvida que, em menos de 30 anos, o petróleo e o carvão perderão o espaço que hoje ocupam no cenário mundial de energia e serão substituídos por outras fontes energéticas, principalmente as renováveis”, garante o Prof. Alceu. Uma mostra de que isso já vem ocorrendo é a crescente venda de carros flex e as novas invenções que surgem no mercado como os carros elétricos.

Ideias limpas Além de substituir os combustíveis fósseis, as energias limpas também podem substituir a energia gerada pelas hidrelétricas. Hoje em dia, milhares de moradores já utilizam as placas solares para aquecer a água de suas residências. “Implantei o sistema de aquecedor solar na minha casa há quatro anos e garanto que, além de contribuir com o meio ambiente, ajudo o meu bolso economizando bastante na conta de luz”, relata a aposentada Sonia Lanfredi. As novidades são inúmeras e praticamente todos os dias são divulgadas notícias de novas formas de geração de energia usando diferentes fontes renováveis e tecnologias inovadoras que não agridem o meio ambiente. Um dos assuntos que muito se discute atualmente é a célula combustível, que utiliza oxigênio e hidrogênio para produzir energia e tem a água como resíduo. “O desenvolvimento da tecnologia está em fase adiantada e eu creio que, em alguns anos, já estará disponível no mercado a preços competitivos, o que causará uma grande revolução na vida das pessoas e do planeta”, afirma o Prof. Alceu.

SOLAR Transforma diretamente a energia proveniente do sol em eletricidade ou usam o calor para aquecer água. Prós: equipamentos de baixa manutenção; não geram qualquer tipo de resíduo durante sua operação Contras: a produção é interrompida à noite e diminuída em dias de chuva e uma enorme quantidade de energia é utilizada durante a fabricação dos painéis.

EÓLICA O vento gira as pás de um gigantesco cata-vento, que aciona um gerador, produzindo corrente elétrica. Prós: fonte inesgotável de energia; não gera nenhum tipo de poluição ambiental. Contras: Intermitência dos ventos, gera ruídos.

BIOCOMBUSTÍVEIS Geração de etanol e biodiesel para veículos automotores a partir de produtos agrícolas. Prós: utiliza matéria-prima totalmente renovável; substitui diretamente o petróleo, e os vegetais usados na fabricação absorvem CO2 em sua fase de crescimento. Contra: produção da matéria-prima ocupa terras destinadas ao plantio de alimentos.

E não é que funciona? Alternativas simples podem reduzir o consumo de energia e preservar o meio ambiente Murillo Pereira

A uma garrafa do tipo PET (Politereftalato de etileno), adicionase água limpa, água sanitária, e pronto! Durante a crise energética de 2002, o conhecido apagão, o mecânico de Uberaba (MG), Alfredo Moser, encontrou uma boa alternativa para acabar com a escuridão e com as altas contas de luz. Decidiu abrir buracos nas telhas que cobriam sua oficina e encaixar as garrafas com a mistura. O efeito foi uma interessante

surpresa. Durante o dia, a oficina funcionava normalmente sem precisar acender uma lâmpada sequer. Em pouco tempo, a ideia luminosa se espalhou pela vizinhança e aguçou a curiosidade de diversos pesquisadores. Um grupo de alunos da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo propôs-se a estudar a descoberta de Alfredo. De acordo com as pesquisas, as chamadas “lâmpadas d’água”, através da captação dos raios solares, podem gerar uma intensi-

dade luminosa equivalente a de uma lâmpada comum de 40W ou 60W. Segundo o físico Paulo Soares Martins, especialista nos estudos referentes à ótica, o sucesso da invenção se deve aos fenômenos da refração e reflexão. Paulo explica que quando os raios solares incidem sobre a superfície da garrafa, parte deles é refletida, e outra consegue passar o plástico, chegando à mistura. Ao encontrar um meio mais refringente (água + água sanitária), os raios

perdem velocidade e mudam de sentido. Como a luz tende a se expandir, ao passar da mistura e encontrar novamente o plástico, parte dos raios é refletida e outra refratada, saindo da “lâmpada” com maior velocidade e sentido diverso. “O invento é uma ferramenta eficiente capaz de potencializar a luz do Sol”, explica o físico. As “lâmpadas” de Seu Alfredo são exemplos de como iniciativas simples são capazes de cooperar com a redução do consumo de

energia e, consequentemente, com a preservação dos recursos naturais. Aos menos criativos que Alfredo, a opção por lâmpadas com grande luminosidade, maior durabilidade e menor gasto energético, como as do tipo fluorescentes, é uma alternativa viável para a redução das salgadas contas de luz e da degradação do meio-ambiente - uma vez que, quanto menor o consumo de energia, menor será a necessidade de novas usinas para produzi-la.

COMO FAZER UMA LÂMPADA D’ÁGUA Ilustração: Caroline Gomes/CONTEXTO

MATERIAIS NECESSÁRIOS: GARRAFA PET TRANSPARENTE 10 mL DE ÁGUA SANITÁRIA 2L DE ÁGUA LIMPA TUBO DE FILME FOTOGRÁFICO MASSA DE VIDRACEIRO

ENCHA A GARRAFA PET COM ÁGUA E ÁGUA SANITÁRIA PARA A ÁGUA FICAR COMPLETAMENTE LIMPA

FECHE BEM A GARRAFA PARA QUE A ÁGUA NÃO EVAPORE. COLOQUE O TUBO DE FILME NA TAMPA PARA EVITAR O RESSECAMENTO CAUSADO PELO SOL

FAÇA UM FURO NA TELHA DO TAMANHO DA GARRAFA PET

COLOQUE A GARRAFA DENTRO DO BURACO E VEDE O LUGAR COM MASSA DE VIDRACEIRO

Ilustração: Bruno Candeias/CONTEXTO

Marina Veroneze


Esportes

Outubro de 2009

Contextoo

Os sentidos que estimulam o esporte

Foto: Lais Montagnana/ CONTEXTO

Deficientes visuais encontram no esporte uma forma de se integrar a sociedade e melhorar a autoestima

Muito treino e dedicação ao esporte fazem com que Thomás se diferencie de outros deficientes visuais

Thais Luquesi

De longe, se vê que ele é como os outros: vai pra lá e pra cá sem parar, mesmo com a respiração ofegante cada vez que termina um exercício, pergunta ao treinador: “E agora?” e continua mais uma série. Thomas Atanázio Filho, de 49 anos, é daquele tipo de pessoa que não desiste fácil – determinação, garra e força de vontade não faltam. Ainda pequeno, ele perdeu a visão numa briga e viu no esporte uma possibilidade de melhorar sua vida. Há oito anos pratica natação no SESI em Bauru: “Na verdade a idéia de fazer natação partiu da vontade de

fazer algo mais consistente, às vezes você fica parado e tem pessoas que se acostumam com isso, eu não”. Em geral, o esporte para deficientes não é muito valorizado, “Bauru, infelizmente, ainda é uma cidade onde é muito difícil você ver as pessoas incentivando as outras na área governamental”, desabafa o aluno e cita cidades como Campinas, São Carlos e São Caetano que estão bem mais à frente. Em Londrina no Paraná, por exemplo, a prefeitura arca com todas as despesas para incentivar o deficiente visual a competir. “Em Bauru tive que correr atrás e por falta de incentivo competi apenas por cinco

anos de 2002 a 2006”. Thomas competiu nos Jogos Abertos, Jogos Regionais e na Competição Master que são campeonatos do interior do estado. O professor André Barbosa Velosa é treinador no SESI e desde 2001 acompanha o trabalho de Thomas. Para ele, é uma lição de vida ter um aluno deficiente, mas, apesar disso, o treinamento é o mesmo dos outros alunos. “Não tive que mudar muito o meu treinamento, a única dificuldade é que eu falo muito com os gestos, tive que aprender a verbalizar mais as coisas”, afirma André. Para o professor, Thomas é seu melhor aluno e fala isso com

Curiosidades Nos Esportes para Cegos

Futebol

Judô

É conhecido como futebol de cinco. Os participantes jogam com vendas nos olhos para que não haja injustiça, pois possuem diferentes níveis de deficiência visual. Os atletas se orientam pela audição.

A luta é interrompida quando os competidores perdem o contato. Os judocas não são punidos quando saem da área de combate.

Natação

Goal Ball

É praticada com a ajuda do “tapper” que dá tapa nas costas dos nadadores para orientá-los.

São 3 jogadores em casa equipe e o objetivo é arremessar a bola “sonora” no gol adversário.

naturalidade: “acho que na verdade ele enxerga, ele está é mentindo para nós”, brinca o treinador. No Brasil o órgão que cuida da área de esportes para cegos é a ABDC, Associação Brasileira de Desportos para Cegos. No caso da natação poucas regras foram adaptadas para a prática de deficientes visuais, no início da década de 1980 foi introduzido o tapper (um técnico que com um bastão toca nas costas do atleta para ele saber a hora da virada). E foi apenas em 1988, nas Paraolimpíadas de Seul, que a natação para deficientes passou a fazer parte do quadro paraolímpico. O esporte praticado pelo deficiente visa prevenir enfermidades secundárias, testa os limites e as potencialidades, aumenta a autoestima, estimula a independência e a autonomia e o mais importante é que integra o deficiente à vida social. Thomas afirma que “de imediato os benefícios são muitos: poder conversar, mostrar que você não é um coitado, que você é uma pessoa normal”. Apesar de ser cego, ele treina e compete com pessoas que enxergam e afirma que se identifica muito mais com essas pessoas e isso é muito importante para sua inclusão social.

Classificação Oftalmológica Esportiva da IBSA* B1 Ausência total da percepção da luz em ambos os olhos, ou incapacidade para reconhecer a forma de uma mão em qualquer distância ou sentido.

B2 Da habilidade de reconhecer a forma de uma mão até uma acuidade visual de 2/60 metros e/ou um campo visual inferior a 5º de amplitude.

B3 Desde uma acuidade visual superior a 2/60 metros até 6/60 metros e/ ou um campo visual de mais de 5º e menos de 20º de amplitude. *IBSA: Federação Internacional de Esportes para Cegos

Ela faz toda a diferença Apenas treino, concentração e preparo físico são garantias de vitória no futebol?

Lidiane Orestes

Foto: Marina Watanabe/ CONTEXTO

O futebol, além de paixão nacional, é constante palco de muitas emoções: ansiedade dos atletas em campo, pressão e apreensão do técnico e dos colegas no banco, e a fundamental participação da torcida. Para muitos pesquisadores não é fácil dizer em que intensidade as influências que o torcedor exerce afeta o comportamento de cada atleta. Embora de fato também não se possa negar que a torcida representa um dos mais importantes fatores externos em uma partida. De acordo com Danielle Cristina Ferrarezi Barboza, especialista em psicologia do esporte, a influência da torcida repercute no jogo de maneira expressiva. A professora comenta que “a concentração dos atletas é muito difícil de ser mantida, por vários aspectos: o comportamento da torcida, do técnico e dos colegas”. A psicóloga ainda completa

que o atleta precisa se adaptar a essa interação, pois ao mesmo tempo em que ela motiva a equipe com aplausos, fogos e bandeiras, ela intimida o time adversário. No Departamento de Educação Física da UNESP de Rio Claro foi desenvolvida uma pesquisa com jogadores de futebol para analisar a relação entre a torcida e o desempenho do atleta, e a maioria afirma que a torcida a favor influência o rendimento. Além disso, para eles, ela eleva a motivação e o senso de autoconfiança no time, que atuando como suporte emocional, permite que eles se sintam apoiados e incentivados a

Apoio e paixão incondicional podem mudar resultados de partidas

tomarem decisões no decorrer da partida, desempenhando suas funções de forma mais livre, auxiliando no processo de criação de jogadas, na execução de ações rápidas, características decisivas no futebol. O locutor Esportivo Toni de Paula, da Rádio Bandeirantes de Bauru, concorda com a influência da torcida no futebol e ressalta que nem sempre ela é positiva: “Não posso deixar de me manifestar quanto ao aspecto negativo nessa relação de amor do torcedor por seu clube, afinal isso gera violência, que tem durante o tempo se transformado em cultura, como na Inglaterra através dos Hooligans, e mesmo em nosso país com as organizadas”.

Além de constantes influências positivas da torcida, como a vantagem do “mando de campo”, no espetáculo do futebol também há cenas imprevisíveis, como recordou Toni de Paula: “Em 1995 o Noroeste perdia no primeiro tempo para o Botafogo de Ribeirão por 4 a 1, mal começava o segundo tempo e os torcedores começaram a se movimentar para ir embora do estádio, já frustrados com o que viam. Foi quando o time de Bauru iniciou uma das mais incríveis viradas da história, ganhando o jogo por 5 a 4. Na medida em que os gols iam acontecendo os torcedores começaram a voltar, mesmo sem acreditar no que estavam vendo. Quando terminou o jogo o estádio estava de novo com o mesmo público do início e ao contrário do final do primeiro tempo, em que se ouviam apenas reclamações e vaias, no final do jogo a arquibancada se transformou num só carnaval. Coisas do futebol!”.

Foto: Arquivo pessoal

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Contextoo

Cultura

Outubro de 2009

Um novo foco para o humor

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Stand Up Comedy transforma a simplicidade do dia-a-dia em sucesso Lauro Martins Neto

conduz os olhares e a atenção do público, que espera a deixa para cair na risada. Essa nova fórmula para se fazer humor, celebra-

ou “comédia em pé”, como também pode ser chamado no Brasil, é um gênero humorístico inaugurado nos Estados Unidos no final do século XIX. O comediante de Stand Up, como o próprio termo já diz, geralmente se

Foto: Laís Montagnana/CONTEXTO

Cartazes, anúncios e panfletos divulgam o que vai acontecer em algum lugar da cidade. No local do evento há poucos elementos decorativos, pouca coisa. No espaço do palco, uma pessoa vestida com roupas semelhantes às da pla-

teia. C o m auxílio de microfone, pedestal, banquinho e, habitualmente, uma garrafinha de água mineral, o humorista lança mão de seu texto construído a partir de observações do cotidiano. Um foco de luz

da em várias partes do país, é conhecida como Stand Up Comedy. O “humor de cara limpa”,

apresenta em pé, sozinho, sem acessórios, cenários, caracterização ou uso de qualquer outro recurso cênico. No Brasil, o gênero foi introduzido pelo ator José Vasconcelos, na década de 60.

Aproximando-se mais do estilo estadunidense, Chico Anysio e Jô Soares seguiram o gênero principalmente em apresentações ao vivo e aberturas de shows. Entre os atuais humoristas da comédia em pé, destacam-se os membros do Clube da Comédia Stand Up, como Danilo Gentili, Marcela Leal, Marcelo Mansfield, Oscar Filho, Diogo Portugal, Márcio Ribeiro e Rafinha Bastos. Em sua essência, o gênero Stand Up costuma entreter a platéia utilizando-se de linguagem simples e despojada, com temas triviais do dia-adia. “O humor em pé não tem objetivos claros. Busca além do riso, fazer com que o espectador olhe para a realidade à sua volta com criticidade”, destaca Diogo Portugal. O humorista ressaltou ainda a importância da função crítica, social e formadora de opinião que o humor possui. Uma das grandes ferramentas para a divulgação e, consequentemente, para o sucesso do Stand Up é a internet. Sites como YouTube, Orkut, Twitter e blogs ajudam a disseminar os vídeos das apresentações e shows desse gênero,

e os perfis dos comediantes de cara limpa. Para Diogo Portugal “a internet é uma grande aliada dos humoristas de Stand Up, pois, diferentemente do que muitos pensam, ela também cativa novos adeptos ao gênero, levando-os às apresentações”. Já para o humorista Oscar Filho, o sucesso se deve ao fato de o gênero ainda ser novidade no Brasil. “Sua essência é auto-renovável. Você fala o que quiser, aborda situações do cotidiano e agrega piadas no texto em tempo real. Por exemplo, se eu estiver viajando e vir uma coisa engraçada na estrada, posso acrescentar esse acontecimento no texto da minha apresentação. Isso torna a comédia Stand Up contemporânea e faz com que o público se identifique mais”, afirma o artista. Assim, aos poucos, a comédia em pé vai ganhando novos fãs e admiradores. A assistente social Idalina dos Santos Lima é mais uma que se encanta com esse gênero de humor: “Um artista, sozinho, consegue tirar do público o riso fácil. É interessante ver a solidão do artista no palco e sentir as gargalhadas da plateia”.

Luz, câmera, PREMIAÇÃO! Crescem o número e a importância dos festivais de cinema do país

Tapete vermelho, celebridades internacionais, fotógrafos, jornalistas e fãs: tudo isso em um evento ligado ao cinema. Há alguns anos esse glamour estava restrito apenas ao público estrangeiro, em premiações como o Oscar e em festivais nos moldes de Cannes, Veneza, Berlim ou Toronto. Entretanto, nos últimos anos, a cena descrita também pode ser vista no Brasil. A cada ano são criados novos festivais de cinema no país e os já existentes ganham cada vez mais prestígio, tanto no cenário nacional, quanto no internacional. Hoje em dia existem diversos festivais e mostras de cinema espalhados pelo país. Dentre eles, os três mais conhecidos são o Festival de Gramado, do Rio e de Brasília. O evento de Gramado continua sendo o mais tradicional do país, enquanto o de Brasília é o mais antigo e o do Rio atinge o lugar de maior festival de cinema do Brasil e da América Latina. A assessora de comunicação do Festival de Gramado, Ana Mota, lembra-se da tradição

do Festival: “Gramado é o único festival do Brasil que nunca deixou de acontecer, mesmo em tempos de crise. No período da Ditadura já tivemos edição do Festival com apenas um filme concorrendo”. O aumento na quantidade e importância dos festivais no circuito nacional também é observado pelos realizadores dos eventos. “Nos últimos anos teve um crescimento no número de cursos de Cinema e Audiovisual e no interesse pela produção no país. Com mais cursos, aumenta o número de realizadores e a produção nacional”, aponta Ana Mota. Para a assessora, a maior missão dos festivais é incentivar a produção no país: “O diretor Jorge Furtado (O Homem que Copiava; Meu Tio Matou um Cara) começou participando na mostra de curtas de Gramado e hoje tem um grande reconhecimento no cenário nacional”. A mesma idéia é compartilhada por um dos produtores do Festival do Rio, Marcos Didonet. “No Rio uma das mos-

tras é a ‘Geração’, com filmes e oficinas direcionadas ao público infanto-juvenil, tentando aumentar o interesse por cinema das gerações mais novas”. Além de estimular a produção nacional, os produtores de festivais também citam o contato com o público como algo importante desses eventos. “Nos festivais, acontecem discussões sobre novas tecnologias e modos de produção, distribuição, exibição, pirataria, entre outros. No Festival do Rio temos o ‘Cine Encontro’ que, além de exibir filmes a preços populares, também possibilita um bate-papo do público com os realizadores, sejam produtores, diretores, ou atores das produções” afirma Didonet.

Ilustração: Caroline Gomes

Lucas Soares

De cima para baixo, cenas de filmes premiados no Festival do Rio 2009: “Dzi Croquettes”, “Os Famosos e Os Duendes da Morte” e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”

Porém, apesar do aumento do acesso aos diferentes tipos de filmes no país, muitos deles ainda ficam restritos aos festivais. Para os amantes do cinema, Marcos Didonet dá a dica: “O festival viabiliza a

troca muito forte de quem está antenado com a indústria do cinema e quem está a fim de se aproximar e de ver o que de melhor é lançado pelo mundo, porque cerca de 80 por cento dos filmes [do festival do Rio] não serão distribuídos. É uma oportunidade única”.


Postal

o NaçContexto ões

Outubro de 2009

Café

Fotos: Elcio Padovez/CONTEXTO

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Turco

Elcio C. Padovez, da Turquia

Da Fontana de Trevi, uma luz ecoa, em águas muito azuis, o brilho da Roma clássica. Alto da Acrópole, Atenas. Outras luzes, sejam artificiais ou dos raios que Zeus envia até a capital grega. Esqueçam o charme arrogante dos romanos ou a alegria dos gregos. De uma lua e uma estrela banhadas em vermelho é que vem a luminosidade mais surpreendente da Europa: a Turquia. Muito cedo, ainda na penumbra, uma voz chama para a primeira oração do dia. 98% da população turca segue o islamismo. O sol começa a dar as caras por esses lados aqui da Eurásia. Muitas mãos carregam bandejas com pequenos copos de vidros com chá de maça, bebida mais do que típica. Os bazares começam a abrir. Na Turquia, uma das grandes vocações é o comércio. E a arte da pechincha é a favorita entre os comerciantes turcos. Não existe preço definido para os produtos dos bazares. Tudo é questão de negociar, chorar um desconto, ter paciência e sabedoria para fechar um bom negócio. Exceto Istambul, que não é a capital, a Turquia ainda é pouco conhecida dos viajantes brasileiros, mas vem mostrando, ao longo dos anos, grande potencial turístico. Istambul, a única cidade no mundo que separa dois continentes (Europa e Ásia), é a porta de entrada, com uma imensidão de mesquitas às margens do estreito do Bósforo, no Mar de Mármara ou no Mar negro. 15 milhões de pessoas habitam esta maravilhosa cidade, guardiã de uma parte da história do império romano, quando foi escolhida por Constantino para ser a Roma do Oriente. Nas ruas, um caos de buzinas, gritos, vendedores com milhares de bugigangas, mulheres

de véu pelos mercados e homens tomando café e jogando dama. Assim caminha o dia em Istambul. Mas a magia da grande iluminação começa ao entardecer, de frente ao mar. O sol desbota em tons de amarelo avermelhado que vão se misturando as águas cor safira dos mares. As cúpulas e as pontas douradas dos minaretes das mesquitas ganham mais brilho com o por do sol. Homens na beira das pontes arrumavam varas de pescar a procura de um peixe desatento. Mais uma vez, uma voz convida para a última prece. Em um Café, jovens, homens de terno e gravata e turistas se misturam entre pufes para tomar chá ou café turco, além de fumar narguilé. O cheiro do café, muito forte, se espalha como um incenso repleto de mística. A lua ensaia aparecer. Os monumentos mais importantes, como a Aya Sofia, a Mesquita Azul e o palácio do sultão Ahmet ganham a luz da noite e das lâmpadas. Na Capadócia, as surreais montanhas pontiagudas repousam no silêncio noturno. A beira do mar Adriático, só se ouvem as ondas que guiam para a Grécia. Em Istambul, o barulho das buzinas e dos gritos persistem noite adentro, mas o aroma do café parece acalmar os ânimos. A fumaça cheiro de incenso dos narguiles sobe o céu da lua e da estrela. Mesmo negra, a borra do café turco vai iluminando o caminho dos viajantes em busca de novos horizontes. Panorama de Ist ambul com Mesquita Azul e o Mar de Márm ara ao fundo

O encanto desértico no Norte do Chile O Atacama atrai turistas de todo o mundo com lindas paisagens e variedade de passeios Flaviana de Freitas, do Atacama

Areia, terra, lagoas, vulcões, lhamas, geisers, cordilheiras e neve. É assim que se configura o deserto mais seco do mundo, localizado no norte do Chile. O Atacama é realmente misterioso e empolgante: foge ao senso comum de que no deserto só encontramos areia e revela inúmeras faces de uma paisagem natural contrastante e bela. Para famílias, mochileiros e pessoas com vontade de conhecer novos lugares, vale a pena ir a pequena cidade de San Pedro de Atacama e contratar os passeios que as inúmeras agências de turismo da cidade oferecem. São muitas opções que envolvem lagoas, salares, águas termais, trekking em

vulcões e caminhada com lhamas. A experiência é inesquecível. Com uma semana podemos entender o que é a cultura do povo atacamenho e conhecer essa região tão particular e típica do Chile. A realidade é totalmente diferente da de Santiago. No Atacama, não veremos modernidade, restaurantes chiques, nem monumentos históricos e grandiosos. É tudo muito simples e muito personalizado. O encanto já começa na viagem de Santiago ao deserto. De ônibus ou de avião, o caminho é incrível, já que começa com os Andes nevados em Santiago e termina com uma paisagem arenosa e seca em Calama,

que é a maior cidade perto de San Pedro. Depois é necessário viajar até San Pedro de Atacama e começar a se encantar pelo deserto. Ao chegar a San Pedro, a impressão que temos ao caminhar nas ruas não asfaltadas é a de que estamos em um antigo filme de faroeste. As casas da cidade são todas feitas de pedra e muito pequenas e simétricas. O povo possui um forte traço atacamenho de cultura, atitude, linguagem e aparência. Fazem questão de manter as tradições, e possuem uma forte relação com o deserto e sua fauna e flora. San Pedro de Atacama é um pequeno povoado de 2500 habitantes localizado

em um dos oásis que se encontram na região baixa do Atacama. Neste lugar se encontram algumas das mais altas cumbres da Cordilheira dos Andes. Hoje San Pedro é considerada a capital arqueológica do Chile e é privilegiada pelo charme de suas paisagens e pelo céu incrivelmente azul. A atmosfera do lugar é de encanto e mistério. Cada passeio é uma experiência única, com detalhes incríveis. O que impressiona é a variedade de paisagens que vemos no Atacama. Alguns lugares possuem lagoas muito azuis e são verdadeiros oásis no deserto, como as famosas Lagunas Altiplánicas ou as Termas

de Puritama. Outros lugares são uma paisagem típica desértica, como o Valle de la Luna e o Valle de la Muerte. Além disso, é possível subir alguns vulcões, como o Láscar, o vulcão mais ativo da América do Sul, ou então fazer passeios alternativos como caravanas indígenas e caminhadas com lhamas. Visitar o Atacama e seu charmoso povoado chamado San Pedro é realmente indispensável para quem visita o Chile. É uma viagem diferente de tudo, com pequenos toques da cultura chilena. O contato com a natureza, a visão desértica e o clima de mistério fazem com que o turismo no Atacama seja algo inesquecível.

Foto: Flaviana de Freitas/CONTEXTO

As esculturas naturais de pedra são parte das atrações do Atacama


Contextoo

Reticências

Outubro de 2009

No último domingo

Um prato estilhaçou-se no chão. Esse era o barulho que vinha da cozinha. Mesmo sem assistir a cena, Marcos sabia exatamente como ela teria se desenrolado. Não por ser um fato freqüente em sua casa, mas pelo treinamento que sua deficiência visual lhe proporcionara desde seu nascimento. A mãe estava bastante atribulada com os preparativos do seu sétimo aniversário. Não era fácil fazer uma festa toda adaptada e, infelizmente, Marcos só podia ajudar com as bexigas. Era o único trabalho que Márcia achara conveniente para o filho. Durante a festa, tudo ocorreu como o combinado, a mãe se surpreendeu com a organização e senso de espaço que tinham aquelas crianças. Entretanto, o que a espantou mesmo, foi o que ela viu na manhã do dia seguinte. Ainda afetada pela agitação da festa, Márcia levantou-se logo às seis e meia da manhã. Sonolenta, saiu ao jardim arrastando suas pantufas verdes pelo carpete de madeira recém encerado. A mãe não podia acreditar no que via. Marcos estava prostrado diante

ao sol nascente, simplesmente olhando em direção a ele. Despertando-se de súbito do sono que ainda lhe perseguia, Márcia gritou em êxtase ao filho: “Marcos, você sabe o que está fazendo?”. Porém, seu filho não sabia. Ele ainda dormia. Preocupada, depois de ver a cena se repetindo por alguns meses, a mãe procurara um psiquiatra. Com orientações bem claras, a mãe começou a observar melhor o filho. Depois de três anos, a mãe percebeu que alguma coisa muito estranha estava ocorrendo. Marcos passou a admirar o sol mais vezes ao dia, mesmo fora de seu transe “particular”, e isto se tornara uma rotina. Sem conseguir um diálogo sobre o assunto com o filho, Márcia obedece ao médico e pede por sua internação. No hospital, o menino agora com 10 anos, não conseguia perceber os motivos que o levara para lá, mas pensara a princípio que poderia ser bastante divertido. A mãe preocupava-se com as atitudes do filho, mas mantinha a fé que aquilo fosse um sinal de que os olhos de Marcos pudessem voltar a enxergar um dia. Depois de algumas semanas os exames oftalmológicos nada constataram. O menino

certamente perceberia a direção do sol pelo calor, era o que pensava um dos médicos. Seria uma explicação razoável se, duas semanas depois, pelo menos 13 pacientes não tivessem passado a admirar o sol como ele e, na semana seguinte, Marcos não tivesse voltado a enxergar. O que foi motivo de festa para a mãe que acreditou que um milagre fora concedido a ela. O menino em choque chorou, até hoje não sei qual a razão. Já, os demais pacientes juntaram-se aos 13, todas as manhãs, na esperança de serem os próximos escolhidos pelo “milagre divino”. Marcos, antes de despedir-se da mãe num domingo de visita, disse que não viesse lhe buscar no domingo seguinte, pois já não estaria mais lá. Márcia não deu muita importância às palavras do filho e prometeu, arrependida, voltar para leválo para casa. No decorrer da semana,

alguns pacientes, com diferentes patologias mentais, entre elas esquizofrenia e transtorno bipolar, demonstraram uma melhora significativa nos exames de quinta-feira. Todos os médicos apostaram em milagres. Eu sabia que não. A verdade era que no Sol havia uma comunidade de seres reluzentes, que provocavam o brilho dele. Cada habitante tinha energia vital concentrada e que irradiava de seu plexo-solar. Aqueles que sabiam

captar essa energia se curavam verdadeiramente. E era de lá que Marcos vinha e era para lá que ele voltaria, já que conseguira realizar sua missão e plantar sua semente. Sei disso pelo olhar de satisfação que tinha ao contar-me sua história no domingo passado e pelo último suspiro que dera antes de voltar para casa, sem seu corpo.

Ilustração: Orion Campos

Felipe Matos

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Fotografia

Foto Externa - Mariana Watanabe e Foto Interna - Laís Montagnana

mas também Apesar de fiel à ima- as matérias gem formada pelo olho transmitem diversas mensagens por si só Algo natural humano a fotografia ao das congelar um instante torna visto que mais de o olhar muito mais amplo e informações que o homem profundo Uma ação que du - contemporâneo absorve se raria segundos ao olhar pode dão através do mecanismo ser vista por um tempo maior da percepção visual se registrada criando a possi- Nesta edição temos luz bilidade do espectador enxer- como fio condutor e a capa gar elementos que passariam mostra a luz em sua forma mais simples o contraste do despercebidos Produzir uma foto vai além ambiente escuro com as velas do simples registro de um coloridas acesas e um fósfoEssa luz momento Nunca a produção ro acendendo as de imagens causará um efei- junto à foto do editorial uma to único ou terá um significa- criança brincando remete às do igual para todas as pesso- outras luzes renovação criaas E assim é no Contexto Astividade visão ação idéias fotografias não só ilustram brilho energia dar a luz


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Perfil

Outubro de 2009

Contextoo

Purpurina, glamour, irreverência e coragem

Cinquenta minutos separam Alessandro Henrique Lamis de Ladjayah Carey. O menino tímido de olhos verdes, caçula de cinco irmãos, me recebeu em seu camarim onde “dava à luz” à irreverente e glamurosa drag queen. Sombras vermelhas contornadas por fortes traços pretos desenham mais uma etapa na vida de Alessandro. Personagem de sua própria história, divide–se em duas identidades únicas. Há trinta anos nascia na cidade de Votuporanga, interior de São Paulo, a criança que gostava de brincar de pique, de caçar passarinho, de jogar bola com os amigos. Há oito, brotava a majestosa artista, a reluzente profissão pra vida toda. Dois vértices tão distintos unidos por uma mesma emoção. Uma pincelada de blush permeia a conversa que relembra momentos do passado e regem a vida atual. O fã da cantora americana Vermessa Mitchel conta, com sutileza e delicadeza, os principais momentos de sua trajetória. “A primeira vez a gente nunca esquece!”, confidencia Ladjayah. Vestir-se e maquiar-se como mulher era apenas uma brincadeira entre amigos na adolescência. “A primeira vez que me vi montada como mulher foi um susto, mas um susto gostoso”. A diversão acendeu a chama e deu lugar à profissão que escolheu. Profissão mesmo. Seu sustento vem exclusivamente de apresentações em shows e das roupas que desenha e confecciona para outras drags da região. Mas e antes? Como foi a reação da família quando soube da sua opção? Houve preconceito? Pergunto eu, tão ansiosa e curiosa para descobrir a resposta quanto para saber como ela delineia tão perfeitamente os olhos. “Um baque! Não é simples entender essa opção. Minha mãe hoje aceita minha escolha,

mas no inicio não é fácil. Meus irmãos não acompanham minha carreira, cada um tem sua vida. Meus pais e meu namorado são as pessoas mais importantes da minha vida. São meus pilares, sempre me dando força pra seguir em frente. O preconceito antigamente era muito maior, o olhar da sociedade mudou! Hoje somos vistos como uma forma de diversão, as pessoas gostam da brincadeira, vibram com as performances. É a magia nos olhos do público que me motiva”. Hoje, residente em São José do Rio Preto, Ladjayah é respeitada e tem lugar de destaque. Como um executivo em seu escritório ela é dona da situação. O dia a dia corrido é marcado por testes de maquiagem e figurino, pelo auxílio à mãe nas tarefas domésticas e, claro, pela confecção das roupas para os shows. “Nenhuma drag usa uma roupa igual à outra. É um público muito exigente. As pedrarias são montadas uma a uma, tem que ter muita criatividade para costurar os modelos”. Os vestidos para as apresentações vão de R$ 400,00 podendo até chegar a 15 mil reais em apresentações nacionais. “Nossos cachês de show muitas vezes não pagam os gastos com produção, mas fazemos por prazer, por vocação”. Quando pergunto sobre a concorrência no meio artístico, o que recebo são risos. “Concorrência existe sim, muita! Como em qualquer profissão. Mas o ciúme é parte permanente do espetáculo, cada uma quer sempre fazer seu melhor. O importante é que não temos violência, é uma concorrência saudável, afinal, quem é rei nunca perde a majestade”. Ser drag não é apenas se vestir, é uma questão de espírito, de personalidade. Colocando a peruca vermelha Ladjayah se emociona quando fala de seu

O que me motiva é a magia nos olhos do público

Os Tipos de Drag Drag Glamour: interpreta músicas lentas e suas roupas são ricas em pedrarias. Geralmente as drags com mais idade fazem esse tipo de apresentação. Drag Top: (caso de Ladjayah Carey) é a drag moderna, fashion, que apresenta músicas dançantes, performáticas. Drag Caricata: apresenta músicas com personagens caracterizados.

primeiro show. “Foi em um aniversário de um amigo, fui como convidado fazer a apresentação,

o nervosismo era imenso, parar no salto não é fácil, mas deu tudo certo. Foi o primeiro passo da minha carreira”. A drag, hoje consagrada, é vencedora de concursos e inspiração para as novas gerações. A meia calça arrastão dá o tom sensual e agressivo à personagem simbolizando a luta cotidiana com a superação de obstáculos. “Tomei muitos furos. Uma vez fui fazer um show em Ribeirão Preto e o contratante não me pagou. Tive que ligar para um amigo ir me buscar, não tinha como voltar. Agora aprendi a lição, não saio de casa sem contrato”. Quando pergunto sobre o futuro, um silêncio paira em meio à turbulência do backstage. A pergunta parecia sem sentido para a drag que não se vê fazendo outra coisa na vida. “Quero continuar a me apresentar sempre. Temos muitas drag de 60 anos na ativa. Claro que as mudanças de estilo ocorrem com o passar do tempo, mas parar não está nos meus planos”. As mudanças de estilo que ela se refere são as três modalidades de drag em apresentações. Alessandro agora deu lugar a Ladjayah, pelo menos nas duas horas que estão por vir. Pronta para subir ao palco ela posa para fotos. Entre flash termino minha sabatina com perguntas que iniciam um novo ciclo. Quais seus planos para o futuro? “Ser uma grande estrela, realizar meus sonhos com o fruto do meu trabalho”. E podemos saber quais são esses sonhos? “A drag é a luz na noite, luz na escuridão, é a magia que encanta. Meu sonho é estar sempre glamurosa e bem vestida. Já os meus desejos são secretos...(risos). O que não podemos esquecer é que somos anjos de uma asa só, mas podemos voar bem alto se nos abraçarmos ”.

Somos anjos de uma asa só, mas podemos voar bem alto se nos abraçarmos

Foto: Priscila Gomes/ CONTEXTO

Priscila Gomes


Jornal Contexto (UNESP) - Outubro de 2009