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SALVADOR . BAHIA 2009


5ยบ FESTIVAL NACIONAL


Um festival em busca da memória Criado em 2004, o A Gosto da Fotografia, festival organizado e realizado pelo Instituto Casa da Photographia de Salvador, teve em cinco anos consecutivos, um constante crescimento em todos os aspectos no que diz respeito a sua estrutura funcional. Cresceu em atividades e em reconhecimento. Cresceu na capacidade de lidar com a complexidade de se realizar um festival que ultrapassa fronteiras, ano após ano, em um estado marcado pela cultura do som e dificuldade de manter viva a própria identidade. Em Salvador a imagem é pouco vista. A fotografia é pouco pensada. Reunidos nos principais museus e galerias da cidade de Salvador, o A Gosto da Fotografia, em sua 5ª edição, é marcado por três importantes ações. A primeira por trazer a Bahia, graças à parceria com a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o maior projeto de fotografia do país já realizado em comemoração ao ano da França no Brasil:um time de nomes consagrados que nos sinaliza toda a intensidade e miscigenação de um país chamado Brasil. Num segundo momento temos a presença de um dos maiores fotógrafos que a Bahia já teve conhecimento, se é que teve: Voltaire Fraga. São imagens de uma cidade esquecida junto à sua própria história e à história na vida desse artista. E por fim, o ingresso do festival na REFLA – Rede de Festivais e Encontros de Fotografia da América Latina. Após algumas reuniões anuais, realizada em Buenos Aires e Porto Alegre, ficou deliberado que cada um dos mais de treze festivais integrantes da rede, realizará uma mostra com a produção fotográfica latino-americana. No A Gosto essa ação será realizada a partir de 2010. Nesta edição damos continuidade à pesquisa, e ao dialogo entre identidade e memória, tendo como curador o jornalista Diógenes Moura. São fotos de interiores, fotos de dentro do mar, fotos de monumentos em ruínas, fotos de uma vida cotidiana que cruza o tempo entre 1935 e 2009. É um festival marcado por uma crise mundial e por uma possibilidade de criar, a partir de encontros com pensadores, documentários realizados pelo fotógrafo Jean Manzon entre as décadas de 1960 e 1970 e por oficinas. Um festival ao gosto da fotografia. Um festival, A Gosto da Fotografia. Marcelo Reis Diretor A Gosto da Fotografia

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Onde está o meu rosto? A realização desse A Gosto da Fotografia numa cidade, Salvador, que vem passando nas últimas três décadas por um processo de empalidecimento da sua própria história, voltando suas “raízes” apenas para um fenômeno de massa chamado Carnaval e suas derivações, é, sobretudo, uma tentativa para que possamos pensar num caminho e na guarda da nossa memória tão fragilizada. Esse fato será possível apenas com a construção de um olhar que nos leve a entender melhor o que somos, de onde viemos, para onde vamos. Esse processo poderá levar a vida inteira. Na 5ª edição desse Festival Nacional (e internacional, se bem que isso não faz muita diferença) continuaremos a buscar as mais distintas possibilidades de reconhecimento dessa verdadeira memória: fator definitivo na formação de um público que possa perceber que alegria não se encontra apenas nas cercanias de um trio elétrico. O primeiro momento dessa proposta está na mostra À Procura de um Olhar – fotógrafos franceses e brasileiros revelam o Brasil, projeto especialmente criado pela Pinacoteca do Estado de São Paulo dentro das comemorações do Ano da França no Brasil. Ao reunir os fotógrafos Jean Manzon, Marcel Gautherot, Pierre Verger, Antoine D’Agata, Bruno Barbey, Olivia Gay, Luiz Braga, Mauro Restiffe, Tiago Santana e o pensador Claude Lévi-Strauss – que fotografou São Paulo e outras regiões do Brasil entre 1935/1937 – a idéia central foi a de mostrar como a fotografia será capaz de ver um mesmo país, o seu povo, as suas dores, os seus dias e os seus desejos ao longo de mais de seis décadas. Na seqüência desse pensamento encontramos o nosso homenageado, o fotógrafo baiano Voltaire Fraga – com imagens de Salvador produzidas a partir de 1928 -, a sua tão amada cidade que nunca lhe dedicou atenção alguma, nem a ele nem ao seu acervo, fato que o fez escrever para sempre: “Estou só na terra, ninguém se digna a pensar em mim. Todos os que vejo enriquecer têm o descaramento e uma dureza de coração que eu não sinto de maneira alguma. Eles odeiam-me por minha bondade fácil. Ah! Em breve morrerei, seja de fome, seja de infelicidade dever os homens assim, tão duros.” Nesse A Gosto da Fotografia Voltaire Fraga reencontra a sua terra, os seus filhos, os seus irmãos, os seus netos. Reencontra a sua própria história.

Nessa linha do tempo, temos um outro lado da fotografia, quando o instante “é o instante em que ele é”, livre e desimpedido, como nas imagens que Vania Toledo produziu entre as décadas de 1970/1990 e que estão em Diário de Bolsa – Instantâneos do Olhar. Temos o realce do que foi aquele tempo do lindo sonho delirante, quando essa tragédia do mundo contemporâneo, as celebridades, eram apenas bons amigos e sorriam e dançavam sem emoções plastificadas. Em seguida encontramos a poesia inspirada nos pintores do interior e nas veias da cultura sertaneja quando Iêda Marques, filha de Boninal, na Chapada Diamantina, apresenta a sua Luz Interior, seus passos por mais de duas décadas de trabalho entre as casas, os retratos e a vida da comunidade que por ali vive ao seu lado. Iêda é um deles. Sua fotografia é totalmente feita para iguais. Um clássico da vida cotidiana soteropolitana, o Porto da Barra, ganha uma leitura atualizada pelo fotógrafo francês de vida afetiva baiana Marc Dumas. Todos os anos, a partir de 2003, ele chega de Paris para mergulhar nas águas ensolaradas do Porto e fazer com que personagens jovens, e outros, senhores e senhoras, nos digam, simbolicamente, que são os mesmos personagens que estão nas imagens de Verger, nas imagens de Vania Toledo, nos poemas de amor de Iêda Marques, seis décadas antes, seis décadas depois. São esses personagens, a cidade e todas essas histórias que sinalizam o patrimônio material, imaterial e que nos torna cada dia mais efêmeros quando entramos nos registros de A Construção de Uma Memória, do fotógrafo Sérgio Benutti: o abandono pelo qual vem passando os monumentos históricos em Salvador, o desafio que é recuperá-los e a certeza de que sem essas referências perderemos nossa identidade, o nosso nome, a nossa alma. Perderemos o nosso rosto e a nossa memória. Então quem seremos nós, a vagar entre o tempo e o vento sempre em direção aos acordes de algum trio elétrico?

Diógenes Moura Curador

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JEAN MANZON

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MARCEL GAUTHEROT

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PIERRE VERGER

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ANTOINE D’AGATA

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BRUNO BARBEY

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OLIVIA GAY

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LUIZ BRAGA

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MAURO RESTIFFE

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TIAGO SANTANA

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CLAUDE LÉVI-STRAUSS

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VANIA TOLEDO

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MARC DUMAS

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IÊDA MARQUES

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SÉRGIO BENUTTI

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VOLTAIRE FRAGA homenagem

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Dez vezes um outro mesmo olhar

À PROCURA DE UM OLHAR

FOTÓGRAFOS FRANCESES E BRASILEIROS REVELAM O BRASIL

Jean MANZON . Marcel GAUTHEROT . Pierre VERGER Antoine D’AGATA . Bruno BARBEY . Olivia GAY Luiz BRAGA . Mauro RESTIFFE . Tiago SANTANA Claude LÉVI-STRAUSS

Exposição organizada pela Pinacoteca do Estado de São Paulo com a participação de CulturesFrance

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Um preceito do terreiro de Jubiabá, negro centenário e sabedor dos segredos do candomblé, dava conta de que a “quem vaza o olho da piedade” só resta o da maldade. Esse dito de certa forma traçou os rumos de Antonio Baldino – homem criado na rua, malandro, estivador, sambista, artista de circo e trabalhador nas plantações de fumo –, personagem principal do livro Jubiabá, que o escritor baiano Jorge Amado escreveu em 1933, com apenas 22 anos. Marcel Gautherot e Pierre Verger leram a história de Baldino do outro lado do mundo, em Paris, e descobriram um país e suas cores, o Brasil, a partir da alegoria da uma “literatura comunista”, como era chamada na época a escrita de Jorge Amado. Descobriram personagens imaginários que os fizeram arder de curiosidade. Seria real aquele povo?

possibilidade mais digna para a existência que nasce o núcleo histórico da exposição À Procura de um Olhar – fotógrafos franceses e brasileiros revelam o Brasil. Ao lado de Marcel Gautherot, Pierre Verger e Jean Manzon está outro francês, o pensador Claude Lévi-Strauss, homenageado no projeto e que viveu em São Paulo entre 1935 e 1937. Mas como seria possível um diálogo entre fotógrafos que por aqui passaram e viveram e outros que hoje vivem e trabalham em Paris, no Brasil e em muitas outras cidades do mundo? De que forma eles poderiam nos falar de um tempo entre as décadas de 1940 e 1970, o passado, e outro, agora, se hoje o mundo está pasmo e estupefato “com os olhos vazados e sem piedade”? Como esse encontro poderia ser viável se não acreditamos absolutamente na idéia de “olhares cruzados”? E, mais ainda, como realizar um projeto se pensamos que a fotografia só pode ser vista, em sua plenitude, quando se aproxima da literatura? E como falar de um afeto entre dois países, França e Brasil, se dez fotógrafos pensaram e pensam tão distintamente um do outro? Há apenas uma saída: a de que as imagens que compõem essa mostra nos conduzam pela via do sentimento, do tempo, da memória e da emoção. Caso contrário, nada feito.

Gautherot, câmera na mão, por aqui desembarcou em 1939 para fotografar a Amazônia e viu o que nunca antes tinha visto. Um ano depois desembarcaria para sempre no Rio de Janeiro. Verger chegou em 1946 e foi direto ao ponto cerebral: Salvador, Bahia, terra que deixaria tão-somente em 1994, para dormir o sono da eternidade. Esses dois fotógrafos construíram uma obra definitiva para o universo imagético no Brasil. Tudo o que eles fizeram com suas imagens parece mesmo visto por dentro do “olho da piedade”, mas não da piedade culposa, piegas. As imagens desses dois artistas durante o período que aqui viveram são de uma profunda compreensão sobre o povo brasileiro, os seus dias, as suas crenças, a sua arte. Outro francês, Jean Manzon, acuado na Inglaterra em plena Segunda Guerra Mundial após o rompimento das relações diplomáticas entre aquele país e a França, ouviu o conselho do cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti, que lá vivia, e desembarcou no Rio de Janeiro em 1940. É dessa forma, a partir da literatura, de um preceito afroreligioso, da pior dor que pode existir entre os povos – a guerra – e da esperança em descobrir uma

Ao lado dos fotógrafos que formam o núcleo histórico estão Antoine D’Agata, Bruno Barbey e Olivia Gay, também franceses que vieram ao Brasil e desenvolveram séries especialmente para a exposição. Cada um deles com o seu ponto de vista e diante de uma idéia que afasta absolutamente as conhecidas possibilidades de usufruir a marca registrada que se tornou a luz dos trópicos. Ou, em outro exemplo também pífio, documentar a alegria e o exotismo de um povo que reluz entre crença, dor, carnaval e prazer.

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para iguais, quando há sinônimos, quando há odor. O olhar de Barbey pelas cenas brasileiras é o de um viajante que pode ser confundido com um de nós. Ele equilibra suas imagens com sutileza, e muitas delas se desenvolvem em dois, três planos com a mesma leveza e o mesmo estado emocional e luminoso que caracteriza toda a cena. Para que isso aconteça, pode-se levar a vida inteira.

Antoine D’Agata envolveu-se na membrana de um único sentimento porque é por essa linha da razão que ele vem desenvolvendo o seu trabalho nos últimos tempos. É um fotógrafo de lugares solitários. Mais do que fotografar homens e mulheres nos seus recantos mais íntimos entre gozo e líquidos, ele preza a intimidade de cada um dos seus personagens com o que existe de mais sincero diante da fotografia: aqui está um corpo que não mente. A velocidade dos seus registros muitas vezes aproxima a fotografia de uma pintura em transe, de um grito. D’Agata é poeta. Andarilho em cidades e pardieiros espalhados pelo mundo, suas imagens só existem se ele rasgar junto o tecido que cobre sua própria pele. Ele diz: “Baixo ventre de uma cidade genérica, onde o dia copula com a noite. Armadilha dos sentidos hermética, de arquitetura parca em pontos de referência. A matéria do mundo ali está, sem as trilhas do real. Não a avalio; engulo-a inteira. Tendo me acostumado tenazmente ao gozo, à dor, à carne miserável, esmiúço a mecânica de seres que se tornaram fantoches, submetidos ao medo e ao desejo. Visto o hábito de santo, o hábito de louco”.

À Procura de um Olhar é, também, uma exposição sobre retratos. Tomando como ponto de partida que um retrato nunca será um autorretrato (há quem acredite que sim), as imagens de cada um desses personagens se projetam à procura de um rosto que poderá nos fazer entender um pouco melhor quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Assim sendo é também uma exposição sobre identidades. Identidades individuais e identidades coletivas – o que nos faz conhecer o gestual de cada uma das cidades que estão no projeto. Os retratos feitos por Pierre Verger e Marcel Gautherot dão conta dessa série de traços que temos em um só rosto. São imagens quase religiosas produzidas entre 1940 e 1950, muitas delas em Salvador, numa época em que o mundo não vivia esse transe de violência. Temos, então, em cada um dos retratos, esses muitos rostos em uma única face de doçura. Homens e mulheres parados nas portas das ruas, nos terreiros, nos seus instantes de solidão e em outros de riso. Mais de quatro décadas depois Olivia Gay desembarcou em Salvador não para seguir os passos de Verger ou Gautherot, mas para “descobrir” onde estavam guardadas aquelas faces de doçura, suas madonas, como a fotógrafa prefere chamar: como elas tinham crescido; quantas delas já eram “outras” com o passar do tempo; quantas já são netas, bisnetas, iaôs, mães-de-santo, operárias, cozinheiras, atendentes nos supermercados, nos hotéis, nas casas de família. Ou simbolicamente madonas que no lugar de ter “o filho entre os braços e sobre os joelhos, hoje carregam os seus instrumentos de trabalho”, como afirma a fotógrafa. São retratos de vida simples, de mulheres enraizadas nos seus destinos.

O encontro entre os personagens de Antoine D’Agata e os de Bruno Barbey aconteceu no meio das ruas. Barbey visitou cidades brasileiras em tempos diferentes. É ele o único dos três fotógrafos franceses da atualidade que tem na exposição imagens de suas primeiras viagens ao Brasil, a partir da década de 1960. Desse período poderemos ver a representação do carnaval nos bailes do Rio de Janeiro. Nas imagens estão as mesmas figuras travestidas, donas de um mundo inatingível e duplo, homem/mulher, que também aparece numa fotografia de Pierre Verger, feita na década de 1940. São representações que nenhum pensador sobre a face da terra foi capaz de definir: o mito da androginia. A fotografia crava essa memória. Barbey encontra D’Agata do lado de fora, nas ruas, e encontra Verger três décadas depois para grifar um mesmo tipo de sensação: qual será o caminho dos nossos desejos? Esse, o grande sentido da fotografia, não querer parecer que está realizando algo “novo”, algo “diferente”. Uma fotografia existe quando ela fala

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Mas é sobretudo a partir de um modo de ver¹ que esses fotógrafos se expressam. Se existem registros de cidades e seus habitantes, se existem retratos ou cenas que unem arte e religiosidade, a intenção de cada um deles é mostrar uma narrativa que começa a partir do núcleo histórico, na metade da década de 1935, com os registros que Claude Lévi-Strauss realizou na região central de São Paulo. A cidade, por exemplo, é um personagem definitivo no histórico do projeto. É sobre essa raiz tão profunda que nos falam as fotografias realizadas por Luiz Braga. Fotógrafo do olhar para dentro, ele percorreu o sistema nervoso de Belém, da Ilha do Marajó, de Mosqueiro, de Salinas e de pequenos povoados com a intimidade de quem fotografa desde os 18 anos e que se anula para que a fotografia torne-se uma realidade de sonho ilimitada, nuance que o artista perscruta a partir de uma busca incansável para ir além dos limites da luz. Seja dia, seja noite. O seu domínio sobre cada imagem será sempre um desafio para o esquema seguinte. Luiz Braga fotografa o “nada”. E esse “nada” é o seu músculo sensorial, o seu modo de ver: um homem que vende alguma coisa no meio da rua é visto por trás de um plástico que envolve sua barraca; fogareiros em brasas espalhados pelo chão assam queijo de coalho; transeuntes por trás de uma cerca assistem a uma quadrilha num campo perdido em um bairro qualquer. Tudo fluxo, natureza em festa. Cenas que poderiam passar despercebidas em qualquer outro lugar do mundo. Mas ali não, ali existe um fotógrafo e a possibilidade única de quando o “nada” poderá se tornar eterno.

que habita outro espaço que nada mais é do que uma extensão territorial do mesmo. Pensei no tempo, na velhice, na natureza. Numa pausa que a cidade necessita, mas nunca alcança”, diz o fotógrafo. As imagens de Restiffe são como quadros parados num tempo em que viadutos, pontos de ônibus, esquinas ou um trauma de arquitetura chamado de Praça Roosevelt nos indicam como o concreto pode servir de lápide: “Saldade dos parceiros”. Assim mesmo, uma emoção grifada dentro de um erro onde lá no canto direito do quadro um casal abraçado faz de conta que aquele é o melhor lugar do mundo. E estão certos. Lápide, concreto, pausa e amor. São, portanto, fotografias romanceadas numa série que se completa com uma ponte no caminho da Serra do Mar e outra, que mostra um homem sentado sozinho dentro de um apartamento em Santos. Ali, tudo explode. Somente o homem e a fotografia. Ou seja, imagem e literatura, como nas panorâmicas de Tiago Santana. No mundo do fotógrafo o verso e o sol precisam de espaços para todos os lados. Há que se fundir naqueles corpos que rogam por um milagre, um sopro de vida, os olhos que querem ver, os pés que precisam andar, as palavras que desejam ser escutadas. Trata-se de um canto do Brasil, lá em Juazeiro do Norte, onde a “paisagem humana” alcança uma composição de muitas situações nas quais o homem sertanejo exercita a sua crença e os seus dias. Nas escadas, entre as pedras ou dentro dos centros espíritas onde um santo pode ser um orixá e o seu filho, depois do transe, voltar a ser ele mesmo. As cenas de Tiago Santana, todas elas feitas no período de finados, são uma parte das homenagens desses romeiros, sendo o fotógrafo um deles, que levam flores ao túmulo de Padre Cícero, para que tudo possa funcionar muito além da vida e do lado de cá da morte. Isso porque o povo que louva Padre Cícero é o mesmo povo de Jubiabá, que acredita que nada é possível quando se vaza o “olho da piedade e da emoção”.

Duplicada em músculos muito mais oxidados e não menos afetivos, outra cidade e seus transeuntes, São Paulo, surge nas imagens de Mauro Restiffe como o ponto mais urbano e frágil, porque para ver a cidade é preciso saber que ali existe uma especialidade psicológica que se chama alma. Esse é o dilema de quem fotografa São Paulo e não percebe o seu corpo em chamas, fragmentado de repercussão absolutamente individual, eu, eu, eu, onde há massacre, chuva, sangue e paixão. “Pensei em São Paulo e no seu entorno. Pensei no mar, na fuga. Naquele

Diógenes Moura Curador

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¹ Susan Sontag, em Ao mesmo tempo (Fotografia: uma pequena suma). São Paulo: Companhia das Letras, 2008.


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DIÁRIO DE BOLSA INSTANTÂNEOS DO OLHAR

Vania Toledo

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Uma certa bolsa na noite dos tempos

Quando Vania Toledo publicou, em 1980, o seu primeiro ensaio, Homens, ali já se anunciava, além do “jeito” de como a fotógrafa despiu seus personagens, o frescor de uma obra que ela mantém até os dias de hoje. Muito à vontade, aqueles homens, anônimos ou não, foram despidos dentro de uma poética quase metafísica: havia desejo e havia ternura; havia o olhar de uma mulher e o sexo e o corpo desses homens entregues, talvez, mais do que diante de sua própria intimidade. Na época, a fotógrafa escreveu: “Em um fim de tarde deste início de década, vi homens tirarem seus calções e mergulharem nus e livres na água do mar. Pensei no ato: chegou a hora de igualar a nudez do homem à da mulher. Preciso recomeçar a fotografar o nu masculino, trabalho abandonado desde 1977, quando a timidez e o preconceito me obrigaram a deixá-los de lado”. O livro não quebrou preconceitos porque era (e até hoje continua sendo) maior do que qualquer um deles. Os homens de Vania eram e são assim: nus e delicados. Ponto final. Durante esse mesmo tempo já existia na bolsa da fotógrafa sua Yashica de estimação. Aonde ela ia, lá estava a máquina. E como a vida de Vania sempre foi “assim, meio como eu sou”, ela fotografava de dia e de noite: os amigos, os passantes, os que não passavam, os loucos, os desvairados, os que sabiam amar, os que bebiam alguns drinques e dançavam com as paredes, os que liam Fernando Pessoa (Coroai-me de rosas...e de folhas breves...e basta!), os que aplaudiam o pôr-do-sol, os que iam para as dunas do barato, os que beijavam na boca, os de baixo, os de cima. Todos vivendo intensamente os anos 70, 80 (mesmo e ainda diante do terror inicial da Aids) e uma parte dos 90, do jeito que todos nós vivíamos. Então Vania pegava sua câmera e pronto. Sua paixão por fotografar pessoas fazia do seu diário uma escrita interminável de prazer e amizade. Naqueles momentos ainda não existia o pavoroso esquema das celebridades, nem os assessores de imprensa anunciando que “fulano de tal vai atravessar a rua”. Assim, todas aquelas pessoas surgiam (e aqui estão) no abraço do divertimento -

sem caras e sem bocas (as duas, atualmente, com botox), sem seus planos de carreiras ensandecidos. Surgiam naturalmente sofisticados, o que hoje, verdadeiramente, é cada dia mais difícil de encontrar. Então eles sorriam, soltavam os cabelos e dançavam... É desse risco fino na memória e dessa crônica onde a fotografia se confunde com a própria vida que nos fala a série Diário de Bolsa – Instantâneos do Olhar, editada especialmente para ser exibida na Pinacoteca do Estado de São Paulo e que agora chega ao A Gosto da Fotografia. As imagens que aqui estão sinalizam o retrato de uma geração que, longe de qualquer saudosismo, imaginava e agia sempre pensando que o mundo poderia (e pode?) ser muito melhor. Vania Toledo usava a câmera portátil para fazer os seus instantâneos paralelamente ao seu trabalho profissional como retratista. Ela gostava daquela leveza. Suas imagens sempre caminharam na contramão do que se imaginava ser uma coluna social: ninguém ali aparece sorrindo, abraçadinho. Dessa forma, os instantâneos revelavam com bom-humor aquelas cenas da vida cotidiana, seus usos e costumes, o desenho de um “corpo solto no espaço” que não sabemos onde foi parar. Só aí temos mais de duas teses. Cada vez que a fotógrafa tirava sua maquininha de dentro da bolsa surgia uma cena para o futuro, um dilema que nos persegue até hoje: se éramos assim, onde é que foi parar esse tempo? Se não somos mais assim, por que nossa alegria de hoje depende de uma bula e de uma cabeça cheia de Prozac e Lexapro? O mundo explodiu. Vania Toledo continua olhando. Seu Diário de Bolsa – Instantâneos do Olhar é o resultado dos seus dias, da sua alegria, do ineditismo com o qual ela viveu todo esse lindo sonho delirante. Não são apenas fotografias: é Vania Toledo para todos nós. Todinha. Com sua bolsa e seu diário. Um filme. Um livro. Um ponto luminoso que nos faz pensar onde foi parar a nossa alegria cósmica.

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PORTO DA BARRA Marc Dumas

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A lenda do barato total Na época do lindo sonho delirante o Porto da Barra, em Salvador, na Bahia, era a casa de todos nós. Uma pequena enseada em forma de lua crescente onde tudo era possível nos fazia os mais felizes dos mortais, ali, onde alguém poderia sair nu do mar e aquele corpo ao sol era a mais poética das mensagens da natureza. Paz e amor para todos. O último baseado do dia sempre era a preparação para que pudéssemos aplaudir o pôrdo-sol. Foram tantos os personagens inesquecíveis, presentes e imaginários. De Jack Kerouac a Baudelaire. De Jimmi Hendrix a Gibran Kalil Gibran. De Marquinhos Rebu a Raimunda Nonata do Sacramento, a moça pobre do bairro do Curuzu que descia a rampa com o seu porte de ébano em direção às areias e que de lá voou para as passarelas de Milão e Paris, e voltou Luana de Noailles, a Condessa. O mundo inteiro descia aquela rampa em direção ao mar. Os amigos dos amigos eram os nossos amigos e nada fazíamos a não ser viver, viver e viver naquele Porto da Barra. Apenas isso sempre foi muito. Tomávamos Mandrix com água de coco para beijarmos a boca vermelha da psicologia no barato total que eram os nossos dias. Assim passamos os anos de 1970 e o início do anos de 1980. Indo e vindo do Porto da Barra, um lugar tão histórico quanto um acarajé ou como a mão estendida do poeta Castro Alves, na praça que leva o seu nome, à beira da Baía de Todos os Santos.

voltaram nus do mar porque o corpo mudou de natureza e hoje o preço não vale o quanto pensa. Mas o Porto da Barra continua lindo, no mesmo lugar de sempre. As fotografias de Marc Dumas de certa forma recuperam esse tempo de memória. O fotógrafo mergulhou nas águas do Porto para criar uma série de uma beleza tão pop-quanto-barroca. Entre esses dois caminhos encontrou senhores e senhoras, seus personagens anônimos, que estão dentro daquele mar há décadas e ao mesmo tempo em que estão para sempre dentro das suas existências, porque o Porto da Barra é, praticamente, um desses lugares sagrados aonde vamos e nunca conseguimos esquecer. Em suas imagens também estão os filhos do Carnaval, brincando como peixes em plena felicidade. A série junta a poética de um tempo passado ao mundo em que hoje habitamos; aos nossos corpos modificados pelo tempo; aos nossos gestos contemporâneos; à nossa linguagem onde - para termos “paz e amor” - é necessário sairmos às ruas em passeatas que de verdade não adiantam muita coisa. O Porto da Barra é esse nosso sopro de vida entre a terra e o mar. Entre os homens da terra e os homens do mar. E o que sabemos nós, os homens da terra? Sabemos olhar o horizonte? Sabemos ler as mensagens das estrelas? Sabemos amar? É dentro dessa simbologia que estão as imagens de Marc Dumas: elas nos falam de um recanto numa cidade ultimamente tão carente de afeto e tão confundida em sua memória de luz, fé, suor, arte e religiosidade. É esse modo de ver que faz da fotografia uma passagem para o futuro. É com esse gesto que o fotógrafo, com seu olhar não-estrangeiro, eterniza as relações entre Salvador, o seu povo e a sua própria história.

Em seguida viramos adultos e a cidade começou a se render ao Carnaval. Tudo começou a caber em cima e sob as jantes de um trio elétrico, não aquele, aonde até então “só não vai quem já morreu”, como diz a letra de uma música de Caetano Veloso que marcou a época. Com a banalização da nossa memória e a chegada do império do marketing para todos, é lógico que a verdadeira “massa real” nunca mais voltou para dentro das nossas cabeças. Nossos filhos se tornaram os filhos do Carnaval, padronizados, e todos eles cabem dentro de um camarote sob a alcunha de Vips, e passam seus dias sob rótulos, e nunca mais

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LUZ DO INTERIOR Iêda Marques

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Íntima luz íntima Iêda Marques me escreveu via e-mail dizendo que veio ao mundo pelo amor entre seu Chico Moreno e dona Rosalina. E que a fotografia havia entrado na sua vida junto com o nascimento do seu primeiro filho. Também mandou um poema onde no final se via uma imagem de duas meninas vestidas de branco, quase sorrindo. Essa pequena epígrafe de emoções tão delicadas é o sinal que faz com que o trabalho dessa fotógrafa que vive no meio do sertão baiano seja identificado como parte de toda a sua existência. Sua fotografia é o resultado dos seus dias, do seu encontro com retratistas pintores que aos poucos estão desaparecendo, do seu convívio com a comunidade que a cerca e que abriu para que ela entrasse as portas das suas casas tão simples (e tão sutilmente sofisticadas). Foi ali, com o vazamento de uma luz interior que a artista pode eternizar as cozinhas dessas famílias numa série que se aproxima dos altares barrocos e dos pejis-de-santo, para unir sua fotografia ao simbolismo da arte e da religiosidade. Mas não se trata apenas disso. Esse registro primoroso também anuncia a transformação cultural da zona rural que, com a chegada da luz elétrica, fez o núcleo familiar se deslocar da cozinha para a sala de TV. Mais: passa silenciosamente pela questão da fome, pela decência de mãos irmanadas que dividem o mesmo alimento e pela devastação das matas que diminuiu a lenha e transformou os fogões em vilões, prestes também a sumir do mapa doméstico. Sendo assim, temos uma fotografia de memória. Mas Iêda Marques também é retratista. Troca a identidade do seu olhar ao olhar o rosto dos “outros” pelo que for possível trocar: quem pode pagar um pouquinho, paga. Se não, a fotógrafa aceita alguma coisa que cada um dos seus retratados produz. Uma foto 10 x 15 custa R$ 3,00 (três reais). Meia dúzia de retratos 3 x 4 custa R$ 5, 00 (cinco reais). Desse jeito ela coloca a sua identidade sempre ao lado “desse outro mesmo eu”. No seu caminho também estão os casamentos, o dia de Santos Reis, a reza para fazer chover e a neblina. Uma vez, quando era pequena e para ser atendida por um médico, foi com dona Rosalina a cavalo para Ponte Nova (atual Wagner) e pernoitaram em Estiva, hoje Afrânio Peixoto, distrito de Lençóis. Um lugar frio de neblina constante e onde já existiu muito diamante. Essa imagem também de memória ela hoje reproduz em sua fotografia. Luz Interior é isso: um caminho, um canto de cordel, um veio de rio, um naco de chão rachado, um vento de anunciação que vem sendo registrado desde 1980. É um desses momentos onde a fotografia tanto se aproxima da literatura que apenas é preciso olhar. Diógenes Moura

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A CONSTRUÇÃO DE UMA MEMÓRIA (OU DE COMO SE FAZ UM LOUCO)

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Entre o salitre e o barroco Com quantos séculos se constrói uma memória? Uma memória se constrói com uma história que vai sendo construída através do tempo e com a preservação do seu patrimônio material e imaterial. Esse processo se estabelece pelo profundo respeito entre o indivíduo, a sua identidade e a relação que se tem com o seu espaço urbano e memorial. Ou isso, ou nada. Então o que seria futuro desaparece no esquecimento, numa das manifestações mais dolorosas que a humanidade é capaz de produzir: perdendo sua história, perdemos nosso rosto e a nossa alma. As cidades brasileiras são caóticas em relação à sua memória e à preservação dos seus monumentos públicos. Mas não é apenas do ponto de vista material que sofremos diante do nosso processo de desmemorização: mesmo diante de grandes esforços, lacunas relacionadas ao nosso passado é uma realidade cotidiana. A exposição A Construção de uma Memória (Ou de Como se Faz um Louco) propõe uma reflexão pontual sobre a atual situação dos monumentos históricos em Salvador. A série de imagens do fotógrafo Sérgio Benutti tem como ponto de partida a restauração da segunda etapa da Santa Casa de Misericórdia da Bahia, fundada em 1549, quando Tomé de Souza aportou na cidade. Benutti documentou todo o processo de restauro, não apenas do espaço físico: acompanhou as etapas e os processos de trabalhos de um acervo riquíssimo, onde estão cerca de 1.800 obras entre pinturas, entalhes, mobiliário, azulejaria, imaginário, alfaias e documentos raros. A partir desse núcleo a exposição encontra outros monumentos históricos da cidade em seus estados atuais de conservação ou nos seus processos de recuperação. O fotógrafo trabalha com essa documentação desde 1996. Ao lado dessas três possibilidades - a que se ergue, a que se deixa destruir e a que se tenta erguer novamente – aparece a figura humana como o resultado efêmero do que nada somos quando perdemos o preciosismo de todos os componentes que formam a nossa consciência psicológica e afetiva: sem a idéia de sabermos as nossas origens, empalidecemos em nosso caminho e então teremos todos os canais abertos para atingir a loucura. A idéia ao pensarmos A Construção de Uma Memória (Ou de Como se Faz um Louco) é, também, a de que a mostra dialogue com as imagens de Abundante Cidade – Dessemelhante Bahia, feitas também em Salvador, pelo fotógrafo Voltaire Fraga, a partir de 1928. Assim, caminhando a partir do século XVI até o século XX tentaremos, por meio da fotografia e de um olhar atento, entender porque somos capazes de nos abandonar com tanta frequência. Diógenes Moura

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ABUNDANTE CIDADE DESSEMELHANTE BAHIA Voltaire Fraga

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Do amor entre a cidade e a partida “De um corpo real, que estava lá, partiram radiações que vêm me atingir. A mim, que estou aqui: pouco importa a transmissão: a foto do ser desaparecido vem me tocar como os raios retardados de uma estrela.” Roland Barthes

cada um dos seus registros, seja nos planos abertos de uma cidade em desenvolvimento; seja nos planos fechados das cenas de rua; seja nos retratos, uma de suas marcas: parece-nos que o fotógrafo sempre estava ao lado do outro, do retratado, nunca por trás da câmera.

Quando o fotógrafo baiano de nome francês Voltaire Fraga morreu, no dia 20 de março de 2006, aos 94 anos, levou consigo o que tinha visto e amado durante toda a sua vida, em Salvador, a abundante cidade que está em sua obra no que existe de mais profundo nas suas cenas da vida cotidiana, no seu diálogo entre arte e religiosidade, nas suas manhas, naquele jeito de corpo desmilingüido, hoje desaparecido, naquele olhar horizontal que via o tempo passar como se a interminável espera fosse o material mais precioso que a vida lhes poderia oferecer. Quando Voltaire Fraga morreu, no dia 20 de março de 2006, também levou consigo o desconforto de nunca haver sido reconhecido em sua terra natal, dessemelhante Bahia, que parece que a ele entregou a poesia (aquela história cantante da “régua” e do “compasso”); os seus filhos, os seus cantos, as suas danças; os seus segredos, os seus olhares de mel, mas que nunca o reconheceu como o grande fotógrafo que era. E que continuará sendo.

Uma fatalidade reduziu o acervo do fotógrafo ao número atual de imagens: no início de 1981, um temporal invadiu sua casa, na rua Tuiuti, no bairro dos Aflitos, inutilizando mais de 10 mil negativos. Desolado, Voltaire Fraga cuidou até os últimos dias das imagens que lhe restaram como uma relíquia. Imprimiu ao seu “diário visual” um aspecto de tesouro. Lutou para mostrálo e deixá-lo para os seus conterrâneos (foi-lhe dedicada uma única exposição, com trinta imagens e curadoria da fotógrafa Célia Aguiar, em abril de 1999). Nunca se conformou de não ter mostrado à Bahia a sua Bahia tão particular: a Provedora da Irmandade da Boa Morte sentindo na pele o vento que vem lá de longe, das margens do Rio Paraguaçu (1956); o vendedor de frutas na festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia que tem no rosto a expressão de um sonho; o “Menino na canoa no Poço de Itapagipe – Fotografia de Arte” (1946), como deixou escrito no envelope que guarda o negativo, ou o presente à Mãe D’Água, na praia de Santana do Rio Vermelho (1948). Todas as imagens do artista preservam a memória e a história de uma cidade que, aos poucos, vão sendo devastadas: a própria cidade, seus segredos, sua ancestralidade. Mas não haverá nada que mude os destinos dessas fotografias: Voltaire Fraga inteirinho diante do seu povo, dos seus dias, da sua vida. Então aqui ele permanecerá eterno, tão próximo da sua abundante Salvador, da sua dessemelhante Bahia.

A exposição Abundante Cidade – Dessemelhante Bahia (um pouco de Gregório de Mattos nesses tempos de tão morna poesia e alumbramento), foi especialmente pensada para ser exibida na Pinacoteca do Estado de São Paulo e para mostrar como a fotografia de Voltaire Fraga nos é cara, profunda e semelhante. As imagens que aqui estão, pesquisadas num acervo com cerca de 2 mil negativos (incluindo placas de vidro), tratam de um único assunto, em que o fotógrafo vê a si mesmo: a alma de uma cidade diante da alma de um dos seus filhos que bem sabia quais os caminhos a percorrer. Produzidas entre as décadas de 1930 e 1960, essas fotografias nunca esgotam os percursos que fizeram da Bahia um objeto de desejo para fotógrafos viajantes e outros não, desde o início da documentação oitocentista e dos tempos da técnica do colódio úmido. Voltaire Fraga imprime (como Pierre Verger) seu olhar não diluído em

Diógenes Moura

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OFICINA A GOSTO

Caroline

CÂMERA LATA

Instituto Casa da Photographia

Fotografia da Turma da Oficina Um Olhar Sobre a Vila América - 2004

Olhar a cidade com outros olhos. Esta é a proposta da nossa experiência educacional com a linguagem da fotografia, agora nesta edição do A Gosto da Fotografia, em parceria com a Associação Pracatum. Uma das mais bem sucedidas dentre os experimentos educacionais, a proposta, envolve adolescente e demanda recursos mínimos: caixas de leite em pó, criatividade para buscar ângulos e sentidos novos para a paisagem cotidiana. As ações educativas são coordenadas pela antropóloga Marinilda Lima e pelo fotógrafo Marcelo Reis, responsáveis pela construção do conhecimento sócio-histórico e dos conhecimentos sobre a fotografia artesanal. Os alunos selecionados, participam da construção de imagens que serão mostradas em uma exposição futura dentro de uma nova edição deste festival, em 2010.

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AOS OLHOS DOS ÊRES Associação Pracatum O Projeto Aos Olhos dos Erês, desenvolvido pela Associação Pracatum em parceria com o Projeto Criança Esperança, com o apoio da UNESCO, propõe contar a historia da comunidade do Candeal, trilhando por um caminho cronológico de Carlinhos Brown até D. Josefa Santana, a primeira moradora do bairro, sob o olhar de meninos e meninas de 10 a 18 anos, moradores do Candeal Pequeno e adjacências. Os dados coletados foram registrados pelos jovens e adolescentes participantes das oficinas de Fotografia, Artes Plásticas e Produção Literária, ao longo de 08 meses de trabalho resultando na exposição itinerante que tem o conceito de uma instalação, onde imagens textos e suportes artísticos dialogam traduzindo interpretação dos Erês da visão cotidiana do Candeal: janelas, ruas, becos, escadarias, varais de roupas, animais, personalidades especiais e gente do lugar, circulando ao meio de sons e ritmos próprios e peculiares, que despertam para um olhar onde cada um começa a se sentir parte integrante desta história, buscando conhecer suas origens.

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BIOGRAFIAS

Jean Manzon

Antoine D’Agata

Paris, 1915 – Lisboa, Portugal . 1990

Marselha . 1961

Começou sua carreira fotográfica como “foca” no vespertino parisiense L’Intransigeant, aos 16 anos. Durante três anos seguidos trabalhou todos os domingos, ajudando fotógrafos profissionais a carregar o pesado equipamento. Em seu primeiro trabalho como fotógrafo registrou um canteiro de flores no início da manhã do primeiro dia da primavera. Foi logo chamado pela agência Meurisse. Depois trabalhou no Paris-Soir e no Paris-Match. Em 1939 foi convocado para o Serviço de Cinema da marinha francesa, em plena Segunda Guerra Mundial. Acuado na Inglaterra e sem pode voltar para o seu país, desembarcou no Rio de Janeiro em 1940, apenas com uma câmera Rolleiflex. Entre 1940 e 1943 trabalhou no DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão que agia como sustentáculo ideológico para o Estado Novo de Getúlio Vargas. Depois foi para a revista O Cruzeiro, onde fez história ao lado do jornalista David Nasser, revolucionando a reportagem fotográfica. Em 1952 fundou sua empresa cinematográfica, que produziu mais de 845 documentários sobre o Brasil. A convite do presidente Juscelino Kubitschek fotografou Brasília e muitas outras obras do seu governo. As fotografias aqui reunidas foram feitas no Rio de Janeiro, em São Paulo e em cidades do Nordeste, nas décadas de 1940 e 1950.

Vive e trabalha pelo mundo. Sua casa é onde está a poética para as suas imagens. Começou a se interessar pela fotografia em 1990, no período em que viveu em Nova York, onde estudou no International Center of Photography, tendo como professores Larry Clark e Nan Goldin. Ainda durante sua permanência em Nova York trabalhou como estagiário no departamento editorial da Agência Magnum. Em 1993 retornou à França, onde lançou seu primeiro livro, De Mala Muerta e Mala Noche, e foi com essa publicação que seu trabalho começou a ter visibilidade em seu país natal. Com Hometown, publicado em 2001, recebeu o Prêmio Nièpce para jovens fotógrafos. Começou a fazer parte do elenco oficial da Magnum em 2004, mesmo ano em que dirigiu o seu primeiro curta-metragem, Le Ventre Du Monde. Dois anos depois rodou, em Tóquio, o seu primeiro longa, Aka Ana. A fotografia, para D’Agata, só faz sentido se ele estiver “dentro” de cada imagem. Por isso seu trabalho é sempre produzido em ambientes onde os personagens se deixam flagrar, sem medo de que a imagem possa se tornar eterna. As imagens que aqui estão foram feitas no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Salvador, entre 2006 e 2008.

Bruno Barbey

Marcel Gautherot

Marrocos . 1941

Paris, 1910 – Rio de Janeiro . 1996 foi um dos fundadores do Museu do Homem, de Paris. Encarregado da catalogação das peças do museu, começou a se dedicar à fotografia e a desenvolver técnicas de laboratório. Em 1939, influenciado pelo livro Jubiabá, de Jorge Amado, veio ao Brasil para fotografar a Amazônia. Convocado pelo exército francês para servir em Dacar, trabalhou como desenhista da seção de engenharia. Retornou definitivamente ao Brasil em 1940. Passou a viver no Rio de Janeiro, onde fez amigos como Mário de Andrade, Oscar Niemeyer, Carlos Drummond de Andrade e Lúcio Costa. Com olhar delicado fotografou dezoito estados brasileiros, sua vida cotidiana, as festas populares, a arquitetura modernista, as carrancas do rio São Francisco, a pesca do xaréu. Produziu cerca de 25 mil negativos. As imagens que aqui estão foram feitas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Amazonas, Pará e Bahia, entre 1941 e 1950.

Pierre Verger

Paris, 1902 – Salvador, Bahia . 1995

Estudou fotografia e artes na École des Arts et Métiers, em Vevey, na Suíça. Seu primeiro projeto de destaque foi uma série produzida entre 1961 e 1964, na Itália, onde tratou seus personagens como se eles fizessem parte de um “grande teatro” do mundo. Sua intenção era revelar o espírito de uma nação. Barbey iniciou sua relação profissional com a Magnum em 1964, e tornou-se membro oficial em 1968, quando a França estava mergulhada na agitação política. É dessa época uma série importante no percurso do fotógrafo. Outro momento político documentado por Barbey aconteceu na Polônia, em 1979, e o livro homônimo tornou-se um clássico. Durante quatro décadas Barbey dedicou-se a percorrer a Nigéria, o Vietnã, o Oriente Médio, Bangladesh, Camboja, Irlanda do Norte, Iraque e Kuwait, documentando inúmeros conflitos militares, mas ele não se considera um “fotógrafo de guerra”. Talvez porque tenha visto a tragédia humana tão de perto, suas imagens procuram a harmonia suave entre luz, cores e sombras. Bruno Barbey visita o Brasil desde o início da década de 1970. As imagens que aqui estão foram feitas em Recife, Salvador, São Luís do Maranhão e Belém, entre 1973 e 2008.

Olívia Gay

tirou suas primeiras fotografias em 1932, aos 30 anos. Nesse mesmo ano, no dia 4 de novembro, deixou sua vida burguesa em Paris e seguiu, com sua Rolleiflex, a sina de andarilho solitário, rumo às ilhas do Pacífico. Durante quinze anos viajou por vários países. Seu olhar de viajante imortalizou milhares de faces no mundo inteiro. Registrou cenas da vida cotidiana dos mais diversos povos, nas ruas, nos mercados, nos portos, durante festas populares e cerimônias sagradas. Também seduzido pela leitura de Jubiabá, de Jorge Amado, descobriu a Bahia em 1946. Tornou-se babalaô quando estudava as adivinhações do jogo do Ifá, recebendo então o nome de Fatumbi, “o renascido”. Fotógrafo, pesquisador, escritor, mensageiro entre África e Brasil, Verger criou em 1987, com a ajuda de alguns pesquisadores e dentro de sua própria casa, a Fundação Pierre Verger, onde estão guardados 62 mil negativos fotográficos, três mil livros, mais de mil horas de gravações de músicas e depoimentos sobre a cultura africana e mais de três mil tipos catalogados de plantas da Bahia. Até o fim da vida continuou sendo o mesmo homem simples que sempre experimentou a solidão e a liberdade. As fotografias aqui reunidas foram feitas entre 1947 e 1973 em São Paulo, no Rio de Janeiro, na Bahia, em Belém e no Recife.

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Boulogne-Billancourt . 1973 Vive e trabalha na França e em diversos países do mundo. Depois de estudar História da Arte em Bordeaux, Olívia matriculou-se em 1995 na New England School of Photography, de Boston. Em 1998 tornou-se fotógrafa independente, e começou a expor três anos depois. Recebeu duas vezes o Prêmio Kodak da Crítica, em 2000 e 2002. Em 2002 conheceu o Brasil, onde realizou uma série dedicada aos personagens que vivem na Vila Mimosa, um local quase centenário no Rio de Janeiro, que nasceu com o desembarque de mulheres vindas do Leste Europeu em fuga da Primeira Guerra Mundial. Seu trabalho documenta a situação social e o os questionamentos do universo feminino no mundo contemporâneo, a partir, por exemplo, de séries como As Prostitutas, As Bilheteiras e As Operárias, entre outras. Para o projeto “À Procura de um Olhar” viveu três semanas na Bahia, fotografando mulheres em seus locais de trabalho ou em momentos de reflexão no seu dia a dia. Todas as imagens que aqui estão foram realizadas em Salvador e em Cachoeira, na Bahia, em 2008.

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Mauro Restiffe

Claude Lévi-Strauss

Vive e trabalha em São Paulo. Formado em cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), de São Paulo, cursou também General Studies in Photography no International Center of Photography, em Nova York, entre 1994 e 1995. Na mesma cidade foi contemplado com a bolsa APARTES, da Capes, e foi “Visiting Scholar” na New York University, entre 2001 e 2003. A partir de 2000 realizou exposições individuais em galerias do Brasil e do exterior, e participou de diversas exposições coletivas como, por exemplo, a 27a Bienal de São Paulo e a Taipei Biennial, em 2006. Seu trabalho integra o acervo de várias coleções públicas como o Museu de Arte Moderna de São Paulo, o SFMOMA, de São Francisco, e a Tate Modern, de Londres. Suas imagens preservam a serenidade do preto e branco e propõem um olhar apurado sobre as cidades, estabelecendo uma relação quase silenciosa entre arquitetura, individualismo e multidão. As fotografias aqui reunidas foram feitas em 2008, em São Paulo, na Serra do Mar e em Santos, no estado de São Paulo.

estudou em Paris, onde vive, e tornou-se professor de filosofia em 1931. Em 2008 recebeu homenagens em todo o mundo pelas comemorações do seu centenário. Nomeado membro da Missão Universitária no Brasil, em 1935, mudou-se para São Paulo, onde ocupou uma cadeira de Sociologia na então recém-inaugurada Universidade de São Paulo (USP). Ali descobriu sua vocação de etnólogo. Organizou diversas expedições científicas ao Mato Grosso do Sul e à Amazônia Meridional, registrando a vida de povos que o Brasil desconhecia até então, como a dos índios cadiuéus, bororos e nhambiquaras. Foi responsável pela criação de uma nova metodologia etnológica, e apoiou-se na linguística e nas aplicações científicas da comunicação para construir sua Antropologia Estrutural. Sua presença no Brasil também foi registrada em publicações como Tristes trópicos, Saudades do Brasil e Saudades de São Paulo, os dois últimos com fotografias de sua autoria. Estas imagens de Lévi-Strauss, homenageado no projeto “À Procura de um Olhar”, fazem parte do seu processo de descoberta e foram feitas na avenida São João, em São Paulo, durante o Carnaval, e em outras ruas e avenidas da região central da cidade, entre 1935 e 1937.

São José do Rio Pardo, São Paulo . 1970

Bruxelas . 1908

Tiago Santana

Crato, Ceará . 1966 Vive e trabalha em Fortaleza. Passou sua infância e parte da adolescência na cidade de Juazeiro do Norte, também no Ceará. Começou a fotografar em 1989. Três anos depois deu início ao ensaio fotográfico Benditos, em que regressou às suas raízes e desvendou o universo do sertão nordestino. Muitas dessas imagens foram incluídas em exposições no Brasil e no exterior. Em 1994 ganhou a Bolsa de Artes da Fundação Vitae e, em 1995, o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, dando continuidade ao projeto iniciado com Benditos. Recebeu, em 2006, o Prêmio Conrado Wessel pelo ensaio O Chão de Graciliano, publicado pela Tempo d’Imagem, editora para a qual vem desenvolvendo vários projetos editoriais. Com o mesmo ensaio recebeu o Prêmio APCA, da Associação Paulista dos Críticos de Arte, como o melhor fotógrafo documentarista do Brasil em 2007/2008. Tiago é, também, curador do IFOTO, o Instituto da Fotografia de Fortaleza. As imagens que aqui estão foram feitas em Juazeiro do Norte, em 2008. Em todas elas o fotógrafo conduz o homem sertanejo para desvendar e, ao mesmo tempo, proteger os limites entre arte e religiosidade.

Luiz Braga

Marc Dumas Mureaux, França . 1955 Formado em Comunicação Visual pela École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs. Vive e trabalha em Paris onde, desde 1983, dirige o estúdio Tout pour Plaire de multimídia e design gráfico. Em paralelo possui uma produção em fotografia e artes plásticas, sendo autor, entre outros, de Inventaire d’une poubelle, livro realizado junto com Lucia Guanaes (1992), e de Voyage autour de ma table (2000). Entre 2004 e 2008 realizou várias séries fotográficas em Salvador: Porto da Barra, Cargueiros, Ondas e Natureza. Em 1991 recebeu o Grand prix de l’Affiche no Festival Médias Locaux; em 1994 o Grand prix de l’Affiche Culturelle da Biblioteca Nacional; e em 2000 o Prix spécial du Jury no Prêmio Möbius Internacional pelo CD-Rom Au coeur de Bahia, realizado junto com Lucia Guanaes. Desde 1991 leciona Comunicação Visual na Escola Camondo de design e arquitetura interior (Paris).

Iêda Marques

Belém, Pará . 1956 Vive e trabalha há mais de trinta anos na sua cidade de origem. Representante do Brasil na Bienal de Veneza, em 2009, firmou-se no cenário da fotografia brasileira pela delicadeza de sua cor refinada e pela abordagem universal da visualidade da sua região. Participou de mais de 120 exposições individuais e coletivas, tanto no Brasil como no exterior. Suas obras integram acervos como os do Museu de Arte Moderna de São Paulo, do Centro Português de Fotografia, Musée du Quai Branly, na França, e Centre Culturel Les Chiroux, em Liège, na Bélgica. Entre as premiações recebidas destacam-se The Leopold Godowsky Jr Color Photography Awards, da Boston University, Prêmio Marc Ferrez, do Instituto Nacional da Fotografia do Rio de Janeiro, e Prêmio Porto Seguro Brasil 2003, de São Paulo. Trabalha como fotógrafo independente em Belém, onde mantém seu estúdio. As imagens aqui reunidas foram realizadas entre os anos de 1988 e 2008, nas andanças do fotógrafo pela área ribeirinha de Belém e em lugares como a Ilha de Marajó, Salinas, Mosqueiro e pequenos vilarejos, todos no Pará. Nesse percurso está demarcada a busca incessante do artista para alargar o limiar da luz em cada um dos seus registros, onde, do nada, poderá surgir uma imagem permanente.

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Boninal, Chapada Diamantina, Bahia . 1953 Fotógrafa autonôma que atua em projetos ligados à educação, cultura popular e meio ambiente desde a década de setenta. É retratista em Boninal onde reside. A proposta Luz do Interior foca o olhar nos biomas caatinga e cerrado. A amostra (quase uma retrospectiva) busca revelar a alma sertaneja. Foi selecionada pelo Prêmio Marc Ferrez de Fotografia em 1997, Funarte / MINC e assumiu a coordenação do Parque Nacional da Chapada Diamantina em 2004 e 2005, Ibama / MMA. Atualmente faz parte da equipe do Inventário Nacional de Referências Culturais do municipio de Mucugê, IPHAN.

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FOTOGRAFIAS

Sérgio Benutti

São Paulo, SP . 1946 Vive e trabalha em Salvador, Bahia desde 1982. Começou a fotografar em 1975 após curso na Nikon School em Des Moines , Iowa USA, e voltando trabalhou em estúdios em São Paulo de 1976 a 1982, onde desenvolveu o aprendizado de iluminação de estúdio para produtos e obras de arte. Trabalhou com diversas agências de publicidade de Salvador, partindo nos últimos anos para a fotografia editorial, tendo participado de vários livros editados na Espanha (Bahia: Signos da Fé, Bahia: Tesouros da Fé e Catedrais do Novo Mundo), participou da revista Oceanos de Portugal em edição especial sobre azulejos da Bahia, fez livros para a Odebrecht entre eles os Azulejos da Reitoria e A Talha Neoclássica na Bahia. Trabalha com os museus de Salvador, entre eles o Museu de Arte da Bahia, na edição de livros e catálogos, fazendo um grande acervo das obras de arte e igrejas de Salvador, livro do Museu de Arte Sacra ( 2008), acompanhamento da restauração da Santa Casa da Misericórdia, livros sobre a obra de Carybé e Menino Jesus do Monte para o Museu Afro de São Paulo, um livro sobre a obra de Calazans Neto e fotos do museu do Vestuário do Instituto Feminino da Bahia. Fez vários trabalhos sobre a cerâmica na Bahia e o último trabalho no livro “Memórias da Sé” de Fernando Rocha Peres. Continua trabalhando com publicidade, livros e fazendo um acervo de fotos das igrejas e das obras de arte de Salvador.

Vania Toledo

Paracatú, Minas Gerais . 1948 Formada em Ciências Sociais pela USP, Vania Toledo começou a fotografar em 1977. Foi, desde o início, um exercício prazeroso. Seus primeiros trabalhos começaram a aparecer em Aqui São Paulo, um tablóide semanal que foi também o último jornal criado e editado por Samuel Wainer. A seguir Vania passou a colaborar nas revistas Vogue e Pop. Depois, na década de 1980, nas revistas Around, Interview e A-Z. Andy Warhol sempre foi sua inspiração. Assim como ele, Vania andava com sua Yashica na bolsa. Ir a festas, entrar nos banheiros, nos quartos, nas cozinhas. Na intimidade com que fotografava o que acontecia culturalmente na cidade, Vania captava a alegria e o frescor do espírito da época. Nessa época a Yashica de Vania Toledo recebeu do amigo Gilberto Gil o apelido carinhoso de “Nhá Chica”. Olympus, Pentax, Yashica eram câmeras amadoras, leves, portáteis. Foi com uma câmera assim que Vânia Toledo “escreveu” o seu diário e fez surgir os instantâneos do olhar.

JEAN MANZON 09 Cena da vida cotidiana no centro de São Paulo, SP, déc. 1950 42 Retrato de casamento em cidade do Nordeste, c. 1940 43 Festa de São João em cidade do Nordeste, c.1940 44 Modelos em desfile das Casas Canadá, Rio de Janeiro, RJ, déc. 1940 45 Modelo em desfile das Casas Candá, Rio de Janeiro, RJ, déc. 1940 MARCEL GAUTHEROT 11 Alumiação, Manaus, AM, c. 1944 46 Segunda-feira na festa da Ribeira, Salvador, BA, c. 1955 47 Lavagem do Bonfim, Salvador, Ba, c.1955 49 Procissão de Nosso Senhor dos Navegantes, Salvador, Ba, c.1941 PIERRE VERGER 13 Banho em Amoreira, Ilha de Itaparica, Ba., déc. 1950 50 Porto de Belém, PA, 1948 51 Rio de Janeiro, RJ, déc 1950 52 Carnaval no Recife, Pe, 1951 53 Carnaval no Recife, Pe, 1951 BRUNO BARBEY 17 Porto de Belém, PA, 2008 62 Ponte da Boa Vista, Recife, Pe, 2008 63 Cabaceiras, PB, 2008 64 Baile de Carnaval, Rio de Janeiro, RJ, 1973 65 Travestis em Baile de Carnaval, Rio de Janeiro, 1973 OLIVIA GAY 18 Rosália, Saubara, Ba., 2008 58 Carla, Salvador, BA, 2009 59 Rita de Cássia, Convento do Cramo, Salvador, Ba, 2009 60 Dona Lurdes, Mãe de Santo, Lauro de Freitas, Ba, 2009 61 Zilda e Maria, Pousada do Bouqueirão, Salvador, Ba, 2009 LUIZ BRAGA 20 Estivador e camisa branca, Belém, PA, 1988 66 Jogo de Damas no Mercado, belém, Pa, 2001 67 Preparação para o Dia de Reis, Belém, Pa, 2008 68 Homem e garrafa vermelha, Belém, Pa, 2007 69 Lâmpada no Forte, Belém, Pa, 2007 MAURO RESTIFFE 22 Viaduto, São Paulo, SP, 2009 70 Estação da Lapa, São Paulo, SP, 2009 71 Estação da Luz, São Paulo, SP 2009 72 Billboard, São Paulo, SP, 2009 73 Telhados, São Paulo, SP, 2009

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CLAUDE LÉVI-STRAUSS 27 Residência de Claude Lévi-Strauss na rua Cincinato Braga, São Paulo, SP, 1937 78 Telhados, São Paulo, SP, 2009 79 Vista da Rua Cincinato Braga a partir da residência de Claude Lévi-Strauss, São Paulo, SP, c. 1937 80 Avenida São João em dia de Carnaval, São Paulo, SP, c. 1937 81 Tráfego na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, São Paulo, SP, c. 1937 VANIA TOLEDO 28 Desfile de Marquito no Paulicéia Desvairada - São Paulo, 1981 83 “Bright” fazendo pose... no Paulicéia Desvairada - São Paulo, 1984 84 Alegria e entusiasmo na pista do Studio 54 - Nova York, 1983 86 Hermeto Pascoal entre as cortinas de um teatro - São Paulo, 1982 87 Fernando Torres e Fernanada Montenegro em evento no Teatro Municipal - São Paulo, 1980 88 Anônima estilosa no banheiro do Limelight, Carnaval - Nova York, 1983 89 Ney Galvão em festa a fantasia no Gallery - São Paulo, 1982

PROGRAMAÇÃO A GOSTO EXPOSIÇÕES DIA 31 DE JULHO . ABERTURA DO FESTIVAL . 19h VISITAÇÃO. 01 DE AGOSTO A 30 DE AGOSTO PALACETE DAS ARTES RODIN BAHIA À PROCURA DE UM OLHAR FOTÓGRAFOS FRANCESES E BRASILEIROS REVELAM O BRASIL Jean Manzon . Marcel Gautherot . Pierre Verger . Antoine D’agata . Bruno Barbey . Olivia Gay . Luiz Braga . Mauro Restiffe . Tiago Santana . Claude Lévi-Strauss ABUNDANTE CIDADE - DESSEMELHANTE BAHIA FOTÓGRAFO HOMENAGEADO - VOLTAIRE FRAGA

IÊDA MARQUES 32 Casamento da rocinha 99 Neblina ao amanhecer 100 As meninas 102 Diola 103 Cozinha Florida 104 Mesa de Casamento 105 Reza para chover

LANÇAMENTO DO LIVRO PIERRE VERGER - FOTOGRAFIA PARA NÃO ESQUECER (ED. TERRA VIRGEM, 94 PÁGS). COLEÇÃO FOTÓGRAFOS VIAJANTES. APRESENTAÇÃO ROBERTO LINSKER. TEXTO DIÓGENES MOURA. VERSÕES PARA O INGLÊS, FRANCÊS E ESPANHOL.

SÉRGIO BENUTTI 34 Mobiliário da capela do Abrigo Dom Pedro II, Salvador, BA, 2006 107 Acervo da Santa Casa da Misericórdia, Salvador, BA, 2005 110 Documentos da Irmandade da Ordem Terceira de São Francisco, Salvador, BA, 2006 111 Altar da capela do Abrigo Dom Pedro II, Salvador, BA, 2006 112 Arcos externos da Igreja do Pilar, Salvador, BA, 2006 113 Cena de rua, Tororó, Salvador, BA, 2009 VOLTAIRE FRAGA 37 Menino na canoa no Poço de Itapagipe, 1946 115 Cesteiro na Festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia, década de 1940 116 Voltaire Fraga dormindo na rede no Poço de Itapagipe, sem data, sem identificação 118 Praça da Sé, 1945 119 Praça da Sé (primeira reforma), 1940 120 Panorama do porto com o antigo Mercado Modelo, 1945 121 Ladeira da Barra, foto tirada da Igreja de Santo Antônio, 1940 122 Vendedores de frutas na festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia, 1952 123 Barcos no Porto da Barra, década de 1940 125 Rua Chile à noite, vendo-se o trilho do bonde, 1954 Todo o trabalho de Antoine D’Agata é sobre desejo, carne e líquidos. Nem os locais nem seus personagens são identificados. Todas as imagens de Tiago Santana foram feitas no dia 02 de Novembro de 2008, em Juazeiro do Norte. Todos os personagens de Marc Dumas no Porto da Barra são anônimos.

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DIA 4 DE AGOSTO . 19h . GALERIA ACBEU VISITAÇÃO. 07 DE AGOSTO A 29 DE AGOSTO PORTO DA BARRA . MARC DUMAS LANÇAMENTO DO LIVRO PORTO DA BARRA FOTOGRAFIAS MARC DUMAS (ED. TOUT POUR PLAIRE 112 PÁGS). TEXTO DIÓGENES MOURA E MARC DUMAS. VERSÕES PARA O PORTUGUÊS E FRANCÊS DIA 5 DE AGOSTO . 19h . GALERIA DO CONSELHO VISITAÇÃO. 31 DE JULHO A 28 DE AGOSTO LUZ DO INTERIOR . IÊDA MARQUES DIA 7 DE AGOSTO . 19h . GALERIA SOLAR FERRÃO VISITAÇÃO. 07 DE AGOSTO A 13 DE SETEMBRO DIÁRIO DE BOLSA-INSTANTÂNEOS DO OLHAR . VANIA TOLEDO DIA 8 DE AGOSTO .10h . MUSEU DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DA BAHIA VISITAÇÃO. 08 DE AGOSTO A 11 DE OUTUBRO A CONSTRUÇÃO DE UMA MEMÓRIA (OU DE COMO SE FAZ UM LOUCO) . SÉRGIO BENUTTI DIA 15 DE AGOSTO . 11h . PROJETO PRACATUM . CANDEAL EXPOSIÇÃO DOS PROJETOS CÂMERA LATA DO INSTITUTO CASA DA PHOTOGRAPHIA E DO PROJETOS OLHOS DOS ERÊS, DA PRACATUM. FEIRA DE LIVROS SOBRE FOTOGRAFIA EM TODAS AS ABERTURAS DAS EXPOSICÕES

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PALESTRA . ENTREVISTAS

FILMES

PALACETE DAS ARTES RODIN BAHIA

Sala Walter da Silveira - 200 lugares - Entrada Franca - Rua General Labatut, 27 sub-solo da Biblioteca Pública, Barris - Tel.: 71 - 3116 8100

DIA 1 DE AGOSTO ENTREVISTA COM LUIZ BRAGA POR DIÓGENES MOURA . ÀS 15h ENTREVISTA COM TIAGO SANTANA POR ADENOR GONDIM . ÀS 17h DIA 6 DE AGOSTO FOTOGRAFIA COMO LITERATURA COM DIÓGENES MOURA . ÀS 19h DIA 8 DE AGOSTO ENTREVISTA COM VANIA TOLEDO POR ARLETE SOARES . ÀS 15h PALESTRA SOBRE A PRODUÇÃO EDITORIAL NO BRASIL, FEATURES E UMA APRESENTAÇÃO GERAL SOBRE O CONTEÚDO DA AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA GETTY IMAGES. APRESENTAÇÃO DOS SEGUINTES FEATURES: ALEXANDRE SCHNEIDER, ED VIGIANI, EZRA SHAW, GUSTAVO PALOS, IZAN PETTERLE, JULIO CÉSAR, LUCIANA WITAKER, ORMUZD ALVES. . 17H DIA 15 DE AGOSTO FOTOJORNALISMO: REALIDADES CONSTRUÍDAS E FICÇÕES DOCUMENTAIS COM EDER CHIODETO . ÀS 15h DIA 22 DE AGOSTO RE-AÇÕES A PARTIR DA IMAGEM FOTOGRÁFICA: UMA VISÃO POÉTICA CONTEMPORÂNEA COM ERIEL ARAÚJO . ÀS 15h DIA 29 DE AGOSTO FOTOGRAFIA EXPANDIDA COM RUBENS FERNANDES JÚNIOR . ÀS 15h

Jean Manzon nasceu em Paris, no ano de 1915. Viveu no Brasil entre as décadas de 1940 até sua morte em 1990 em Portugal. Produziu em meio século de trabalho o maior acervo de documentação fotográfica e cinematográfica já realizado por um só artista, em toda a América Latina. Ao fazê-lo, traçou com precisão uma história “cine-antropológica” do próprio Brasil. Desenvolveu um estilo pessoal inconfundível e, ao mesmo tempo, registrou a vida comum sob pontos de vista inusitados. Suas características estéticas são marcantes, assim como seu apuro técnico. O acervo cinematográfico foi todo produzido em película 35 mm, somando cerca de 600 horas de imagens de alta qualidade, o que o torna um banco de imagens singular em nosso contexto cultural, considerando o custo que esse tipo de película representava para as produções, no período em que foram realizadas.

DE 10 A 20 DE AGOSTO SESSÃO ESPECIAL JEAN MANZON (A GOSTO DA FOTOGRAFIA) PROGRAMA “MEMÓRIAS DO BRASIL”

17h30 BR3 RECORD RODOVIÁRIO

O CAFÉ DO BRASIL

10 minutos

18 minutos

O BONDE, ESSE ETERNO SOFREDOR

DI CAVALCANTI

10 minutos

8 minutos

O TRANSPORTE DOS CARIOCAS

O TORCEDOR

Duração: 10 minutos

9 minutos.

SOBRE OS TRILHOS DA MOGIANA

8 minutos

OFICINA DIA 17 DE AGOSTO . PROJETO PRACATUM . CANDEAL OFICINA DE FOTOGRAFIA ARTESANAL CÂMERA LATA PARA ALUNOS DO PROJETO PRACATUM NO CANDEAL

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Versão para o francês do texto Dez Vezes um Outro Mesmo Olhar

la rupture des relations diplomatiques entre ce pays et la France, écoute les conseils du cinéaste brésilien Alberto Cavalcanti, aussi habitant en Angleterre, débarque à Rio de Janeiro en 1940. Ainsi, la littérature, une maxime afro-religieuse, la guerre - la pire des douleurs pouvant exister entre les peuples –– et l´espoir d´accéder à une existence plus digne, contribuent à construire le noyau dur historique de cette exposition : À la recherche d´un regard – des photographes français et brésiliens révèlent le Brésil. À côté de Marcel Gautherot, de Pierre Verger et de Jean Manzon, il y a un autre français, le penseur Claude Lévi-Strauss, auquel le projet rend hommage, qui a vécu à São Paulo de 1935 à 1937.

Dix fois un autre même regard

Une maxime du temple de Jubiabá - nègre centenaire et connaisseur des secrets du candomblé - dit que « quand l´œil s´est vidé de sa bonté » seule reste la dureté. Cette formule, d´une certaine manière, a inspiré les choix d´Antonio Baldino – enfant abandonné, livré à lui–même, vaurien, docker, danseur de samba, artiste de cirque et journalier des plantations de tabac –, personnage principal du livre Jubiabá, que l´écrivain Jorge Amado a écrit en 1933, alors qu´il n´avait que 22 ans. Marcel Gautherot et Pierre Verger ont lu l´histoire de Baldino dans l´hémisphère nord, à Paris, et ont alors découvert dans l´allégorie de la “littérature communiste” - c´était la réputation à l´époque des écrits de Jorge Amado -, un pays, haut en couleurs : le Brésil. Ils y ont trouvé des personnages imaginaires qui ont exacerbé leur curiosité au point de se demander : ce peuple là peut-il vraiment exister?

Mais comment établir un dialogue entre des photographes qui sont venu chez nous et qui y ont vécu et ceux qui aujourd´hui vivent et travaillent à Paris, au Brésil et dans de nombreuses autres villes du monde ? De quelle manière peuvent-ils nous parler d´un laps de temps compris entre les décennies 40 et 70, du passé, et d´autre chose encore, si le monde d´aujourd´hui est accablé, tétanisé et si le « regard est vide de toute bonté »? Comment cette rencontre peut-elle être viable si nous ne croyons pas à l´idée des “regards croisés”? Et, plus encore, comment mener à bien un projet si nous pensons que la photographie ne peut être vue dans toute son ampleur que quand elle se rapproche de la littérature ? Et comment évoquer une affinité entre deux pays, entre la France et le Brésil, si dix photographes ont pensé et pensent aussi différemment les uns des autres? Il n´y a qu´une échappatoire : celle que les images composant cette exposition nous accrochent par le sentiment, par le temps, par la mémoire et par l´émotion. Dans le cas contraire, peine perdue !

Gautherot, caméra en main, débarque chez nous en 1939 pour photographier l´Amazonie et voit ce qu´il n´avait jamais encore eu l´occasion de voir. Un an après, il se fixe pour toujours à Rio de Janeiro. Verger, à son tour, arrive en 1946 et se dirige directement vers le point cérébral: Salvador, dans l´Etat de Bahia, pour n´en partir qu´en 1994, quand il s´endort pour l´éternité. Ces deux photographes ont construit une oeuvre définitive pour le fonds imagétique brésilien. Tout ce qu´ils ont produit avec leurs images semble vraiment venir de l´intérieur, de « l´oeil de la bonté »; à ne pas confondre avec culpabilité ni pitié. Les images de ces deux artistes durant la période de leur vie qu´ils ont vécue chez nous sont d´une profonde compréhension du peuple brésilien, des situations qu´il vit au jour le jour, ses croyances et de son art. Un autre français, Jean Manzon, acculé en Angleterre en pleine deuxième guerre mondiale à la suite de

Outre les photographes formant le noyau dur historique, il y a Antoine D’Agata, Bruno Barbey et Olivia Gay, également français, qui sont venus au Brésil et y ont pris des séries de photos spécialement pour l´exposition. Chacun d´eux a son point de vue et poursuit une idée qui élimine absolument l´éventualité 138

de ne jouir que du label et de la luminosité tropicale. Ou, dans un autre registre tout aussi trivial, de documenter la joie et l´exotisme d´un peuple qui resplendit par ses croyances, ses douleurs, le Carnaval et le plaisir. Antoine D’Agata s´est replacé dans la toile de fond d´un sentiment unique qui est le fil conducteur et la raison de son travail ces derniers temps. Il est le photographe des lieux solitaires. Outre le fait de photographier les hommes et les femmes dans leurs recoins les plus intimes, entre jouissance et épanchements, il valorise l´intimité de chacun de ses personnages par ce qu´il y a de plus sincère devant l´objectif : le corps qui ne ment pas. La vitesse de ses registres rapproche souvent la photographie d´une peinture en état de transe, d´une clameur. D’Agata est un poète. Professionnel errant au cœur des villes et des vestiges de civilisation épars dans le monde, ses images n´existent que s´il s´implique personnellement jusqu´à se mettre dans la peau des autres. Il dit: “Bas-ventre d´une ville générique, où le jour copule avec la nuit. Guêpier des sens hermétique, à l´architecture dénuée de points de repère. La matière du monde est là, sans pistes pour le réel. Je ne l´évalue pas, je la prends et l´absorbe comme un tout. Ayant la tenace habitude de la jouissance, de la douleur, de la chair misérable, je mets à nu la mécanique des êtres qui sont devenus des fantoches, tributaires de leur peur et de leur désir. Je m´habille de saint, je m´habille de fou”.

pas vouloir laisser croire que l´on touche à du “nouveau”, à de “l´inédit”. Une photographie existe quand elle touche des égaux, quand il y a synonymie, quand il y a des atomes crochus. Le regard que Barbey porte sur les scènes brésiliennes est celui d´un voyageur qui pourrait être n´importe lequel d´entre nous. Il équilibre ses images avec subtilité et nombreuses sont celles qui se prolongent sur deux ou trois plans avec une égale légèreté et un même état émotionnel et lumineux qui caractérise la scène comme un tout. Une telle conjoncture peut demander une vie entière avant de se mettre en place. À la recherche d´un regard est également une exposition de portraits. En partant du fait qu´un portrait ne sera jamais un autoportrait - bien que certains y croient fermement -, les images de chacun des personnages se projettent à la recherche d´un visage capable de nous permettre de mieux comprendre qui nous sommes, d´où nous venons et où nous allons. Ainsi, cette exposition est aussi une exposition sur les identités. Les identités individuelles et les identités collectives, ce qui nous amène à connaître le gestuel de chacune des villes concernées par le projet. Les portraits pris par Pierre Verger et Marcel Gautherot montrent toute une série de traits visibles dans un même visage. Il s´agirait presque d´images pieuses produites dans les années 40 et 50, la plupart à Salvador, à une époque où le monde ne connaissait pas les affres de la violence. Sur chacun de ces nombreux portraits, il y a une même expression de douceur. On y voit des hommes ou des femmes immobiles devant le seuil d´une porte, dans la rue, dans les lieux de culte, dans leurs instants de solitude ou de rire. Plus de quatre décennies plus tard Olivia Gay débarque à Salvador, non pas sur les traces de Verger ou encore de Gautherot, mais pour “découvrir” où se trouvent ces icônes de la sérénité, ces madones, comme la photographe les surnomme : comment sont-elles après autant de temps; combien sont petites-filles, arrières-petites-filles de prêtresse ou prêtresses elles-mêmes, aides de culte ou chef de culte et, encore, combien sont en usine, en cuisine, dans grande distribution, dans les hôtels ou chez des patrons ? Ou, comme le dit symboliquement la photographe, combien de madones portent-elles à bout de bras leurs outils de travail plutôt que “leur enfant dans leurs bras ou sur leurs genoux ”. Autant de portraits de vie simples de femmes enracinées dans leur destin.

La rencontre des personnages d´Antoine D’Agata et de ceux de Bruno Barbey a lieu dans la rue. Barbey a visité les villes brésiliennes à un autre moment. C´est le seul des trois photographes contemporains vivants français qui a placé dans l´exposition des images de ses premiers voyages au Brésil, dans les années 60. De cette époque, nous pouvons voir la représentation du carnaval dans les bals de Rio de Janeiro. Dans ses images se trouvent les mêmes figures travesties, issues d´un monde inaccessible et empreint de la dualité homme/femme que l´on retrouve d´ailleurs dans une photographie de Pierre Verger, prise dans les années 1940. Il s´agit de représentations qu´aucun penseur sur la face de la terre n´a été capable de définir: le mythe de l´androgynie. La photographie enregistre cette mémoire. Barbey rencontre D’Agata à l´extérieur, dans les rues, et il rencontre Verger trois décennies après pour capter un même genre de sensation: quel est le cheminement de nos désirs? Tel est le sens primordial de la photographie, ne

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Mais, c´est surtout par une certaine manière de voir¹ que ces photographes s´expriment. S´il existe des registres de villes et de leurs habitants, s´il existe des portraits ou des scènes dans lesquels l´art et la religiosité convergent, l´intention de chacun d´eux est de conter une histoire qui commence au noyau historique, au milieu des années 30 (très exactement en 1935), avec les registres que Claude Lévi-Strauss a fait du centreville de São Paulo. La ville, par exemple, est un personnage incontournable dans l´historique du projet. C´est sur cette racine bien ancrée que portent les photographies de Luiz Braga. Photographe adepte du regard vers l´intérieur, il a parcouru le cœur et les artères de Belém, de l´ Île de Marajó, de Mosqueiro, de Salinas et des modestes agglomérations alentours avec l´intimité de celui qui photographie depuis 18 ans et qui sait se faire oublier pour que la photographie devienne la réalité d´un rêve sans limite, nuance que l´artiste obtient par une recherche infatigable au-delà des limitations de la lumière. De jour et de nuit. La maîtrise de chaque image reste toujours un défi vis-àvis de l´image suivante. Luiz Braga photographie le “rien”. Et ce “rien” est son muscle sensoriel, sa manière de voir : un homme qui vend des choses au milieu d´une rue est vu au travers de la toile plastique qui recouvre son étal; des brasiers incandescents posés à même la terre grillent des bâtonnets de fromage blanc; des badauds derrière une balustrade regardent les évolutions des danseurs de quadrille sur un terrain vague dans un quartier banal. Tout est épanchement de la nature en fête. Autant de scènes qui passeraient inaperçues dans n´importe quel endroit du monde, mais, pas ici, car, ici, il y a le photographe et son pouvoir unique de transformer un “rien” en éternel. Plus tentaculaire, plus rouillée et non moins affective, une ville et ses passants, São Paulo, surgit des images de Mauro Restiffe en tant que point plus urbain et fragile. Il est clair que, pour voir la ville, il faut savoir qu´il existe une spécialité psychologique qui s´appelle l´ âme. Tel est le dilemme de quiconque photographie São Paulo sans percevoir son corps brûlant d´ardeur, fragmenté par une féroce individualité - moi, moi, moi ! - où coexistent massacres, crues, sang et passion. “J´ai pensé à São Paulo et à ses alentours. J´ai pensé à la mer, j´ai pensé à comment fuir. J´ai pensé à celui qui habite un autre espace qui n´est rien d´autre que l´élargissement territorial de ce-dernier. J´ai pensé au temps, à la vieillesse, à la nature. Au répit dont la ville a besoin mais ne s´accorde jamais.”, dit le photographe. Les

images de Restiffe sont comme des tableaux figés dans le temps dont les voies aériennes, les arrêts de bus, les coins de rues ou encore cette plaie dans l´architecture qui porte le nom de Praça Roosevelt, nous montrent combien le béton peut servir de pierre tombale : « A mes partenaires ». Même comme cela, combien d´émotion sous-tendue dans une aberration et, dans un coin, à droite du tableau, un couple enlacé porte à croire que cet endroit est pour lui le meilleur des mondes. Et, il a raison. Gisant de béton et havre d´amour. Il s´agit donc de photographies romancées dans une série qui se prolonge par un pont de la Serra do Mar et se termine sur la photographie d´un homme assis seul dans un appartement à Santos, la station balnéaire la plus proche. Ici, tout est sous pression, prêt à exploser. Juste l´homme et la photographie. C´est à dire, de l´image et de la littérature, à l´instar des vues panoramiques de Tiago Santana. Dans le monde du photographe, l´envers du décor et le soleil ont besoin d´espace de tous les côtés. Il faut se fondre dans ces corps qui clament un miracle, un souffle de vie, dans ces yeux qui veulent voir, ces pieds qui veulent marcher, ces mots qui veulent être écoutés. Il s´agit d´un coin du Brésil, de Juazeiro do Norte, où le “paysage humain ” devient une composition d´une multitude de situations dans lesquelles l´homme sertanejo pratique ses croyances et le syncrétisme au fil des jours, sur les parvis, dans la nature, dans les centres spirites où un saint catholique peut également être une divinité orixá et son fils, et où, après la transe, il redevient lui-même. Les scènes de Tiago Santana, toutes prises aux alentours de la Toussaint, font partie des hommages de ces pèlerins, dont l´un d´eux est notre photographe, qui déposent des fleurs sur le tombeau de Padre Cícero, pour que tout puisse bien fonctionner au-delà de la vie et de l´autre côté de la mort. Parce que le peuple qui adore Padre Cícero est aussi le digne représentant du peuple de Jubiabá, qui sait que rien n´est possible quand le regard est à jamais dépourvu « de bonté et d´émotion.”. Diógenes Moura Commissaire de la Photographie Pinacothèque de l´Etat de São Paulo

¹ Susan Sontag, dans Ao mesmo tempo (Fotografia: uma pequena suma).[En même temps (la photographie: une petite somme) São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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FRANÇA.BR 2009 - ANO DA FRANÇA NO BRASIL (21 DE ABRIL A 15 DE NOVEMBRO) É ORGANIZADO: NO BRASIL: PELO COMISSARIADO GERAL BRASILEIRO, PELO MINISTÉRIO DA CULTURA E PELO MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. NA FRANÇA: COMISSARIADO GERAL FRANCÊS, PELO MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES E EUROPÉIAS, PELO MINISTÉRIO DA CULTURA E DA COMUNICAÇÃO E POR CULTURESFRANCE. FOTOGRAFIAS

© ANTOINE D’AGATA/MAGNUM PHOTOS © BRUNO BARBEY/MAGNUM PHOTOS

REALIZAÇÃO

COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA

INSTITUTO CASA DA PHOTOGRAPHIA

MARCEL GAUTHEROT/INSTITUTO MOREIRA SALLES CLAUDE LÉVI-STAUSS/INSTITUTO MOREIRA SALLES JEAN MANZON/ACERVO CEPAR PIERRE VERGER/FOTO © FUNDAÇÃO PIERRE VERGER

MARINILDA LIMA

CO-REALIZAÇÃO

ASSESSORIA DE IMPRENSA

PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO

COMPANHIA DA COMUNICAÇÃO

DIREÇÃO

ASSITENTE DIREÇÃO

MARCELO REIS A1

CURADORIA

A Gosto da Fotografia / fotos de Voltaire Fraga ...[et al.] ; texto de Marcelo Reis e D iógenes Moura . – Salva dor : Instituto Casa da Photographia, 2009. 152 p. : il.

O A GOSTO DA FOTOGRAFIA É MEMBRO DA REFLA RED DE FESTIVALES Y ENCUENTRO DE LA FOTOGRAFIA LATINO AMERICANA

FLÁVIA VASCONCELOS TÂNIA SANTANA . ROSA OLIVEIRA

DIÓGENES MOURA

FOTOGRAFIAS

MÁRIO NETO

PRODUÇÃO EXECUTIVA E CAPTAÇÃO

ANDRÉ FERNANDES

ISBN 978-85-61820-01-5 1. Fotografia . I. Fraga, Voltaire. II. Reis, Marcelo. III. Moura, Diógenes. IV. Títul o.

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. CDD 016.770

AMPLIAÇÕES

FUSÃO RICARDO TILKIAM BETE SAFIOLI LABORATÓRIO OBJETIVA FOTOFILME ISO DIGITAL

PRODUÇÃO SÃO PAULO

ANA CÉLIA PIRES PROJETO GRÁFICO

FILIPE CARTAXO

MOLDURAS

Catalogação elaborada por Vânia Queirós Gonçalves – CRB-5/ 1045

CAPRICHO MOLDURAS CRAFT MOLDURAS

COORDENAÇÃO EDUCATIVA

SILVIA NONATA

AGRADECIMENTOS Alexandra Becker Vedoin, Alex Baradel, Angela Jesuino, Cidio Martins, Lucia Guanaes, Maura Serra Moura, Oscar Junitsi Koeke, Phillipe Ariagno, Sérgio Burgi, Telma Baliello, Virgínia Albertin, Adenor Gondim, Andréa Fiamenght, Arlete Soares, Beto Oliveira, Daniel Rangel, Dílson Midlej, Gina Leite, Irène Kirsc, Janaina Mendes, Jane Palma, Jean-Jacques Forté, Marcelo Mattos Araújo, Marcelo Sá, Marlúlia Nickel, Murilo Ribeiro, Nadja Vlad, Neiva Santos, Nilton Souza, Póla Ribeiro, Rômulo Sobrinho, Rose Lima, Ruth Buarque, Selma Calabrich, Toni Couto, Adriana Fernandes, Adriano Sampaio, Paula Rezende, Carlos Leão, Cesar Oliveira, Moisés Souto, Selma Pinheiro, Sérgio Cardoso, Bruno Guimarães, Thaís Bonini , Carlos Freitas, João Gomes e a todos que colaboraram para que o A Gosto da Fotografia se tornasse uma realidade 142

O INSTITUTO CASA DA PHOTOGRAPHIA É ESCOLA DE FOTOGRAFIA. DESDE 1997, RECOMENDADA POR QUEM MAIS ENTENDE DE FOTOGRAFIA NA BAHIA E NO BRASIL.

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A Gosto da Fotografia . Catálogo 2009