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Quando a memória vira História: Angelo Dourado e a historiografia sul-riograndense

QUANDO A MEMÓRIA VIRA HISTÓRIA ANGELO DOURADO E A HISTORIOGRAFIA SUL-RIOGRANDENSE

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Quando a memória vira História: Angelo Dourado e a historiografia sul-riograndense

MARCELO FRANÇA DE OLIVEIRA

QUANDO A MEMÓRIA VIRA HISTÓRIA ANGELO DOURADO E A HISTORIOGRAFIA SUL-RIOGRANDENSE

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Marcelo França de Oliveira

© 2009 Marcelo França de Oliveira. Todos os direitos reservados. Capa e projeto gráfico Plus Propaganda www.pluspropaganda.com Editoração eletrônica Pluscom Editora

OLIVEIRA, Marcelo França de, 1978 Quando a memória vira História: Angelo Dourado e a historiografia sul-riograndense / Marcelo França de Oliveira. – Rio Grande, Pluscom, 2009 104p. ISBN 978-85-62983-00-9 1. Historiografia. 2. Rio Grande do Sul. 3. República Velha I. Título.

2009 Todos os direitos desta edição reservados à PLUSCOM COMUNICAÇÃO LTDA Rua 19 de Fevereiro, 550, sala 301 Centro 96200-490 Rio Grande – RS – Brasil Telefone e fax: (53) 3232.1972 editora@pluspropaganda.com www.editora.pluspropaganda.com

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Sumário Introdução ...................................................................................................... 13 1 Memória e História ..................................................................................... 24 1.1 A memória............................................................................................. 25 1.1.2 A memória, no princípio .................................................................... 27 1.1.3 A memória pensada em nossos dias ................................................... 32 1.2 A História .............................................................................................. 36 1.3 Memória e História, História e memória ............................................... 42 2 Angelo Dourado .......................................................................................... 46 2.1 Alguns dados biográficos ...................................................................... 50 2.2 Um doutor de letras ............................................................................... 51 2.3 Posturas políticas................................................................................... 50 2.3.1 Republicano, pero no mucho ......................................................... 57 2.3.2 O assassino e o ditador .................................................................. 64 2.4.1 É válido se está escrito .................................................................. 57 2.4.2 A memória seletiva ou o que se queria registrar ............................ 77 2.4.3 Angelo Dourado e a História ......................................................... 77 3 Da memória para a História ...................................................................... 76 3.1 As obras ................................................................................................ 77 3.2 Os pioneiros .......................................................................................... 79 3.3 Dourado na Academia ........................................................................... 80 Considerações finais ...................................................................................... 96 Referências bibliográficas ........................................................................... 101

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Introdução No momento em que Angelo Cardoso Dourado, o médico baiano radicado em Bagé, participava da Guerra Civil de 1893 e efetuava os registros de suas experiências nos campos de batalha, os contextos mundial, nacional e regional estavam em rápida transformação. Não apenas o Rio Grande do Sul era sacudido pela Revolução Federalista, (como o conflito armado de 1893-95 foi costumeiramente denominado pela maioria dos historiadores), mas o Brasil e o mundo foram palco de profundas e significativas mudanças no período compreendido entre o final do século XIX e início do século XX. Foi uma época em que as forças políticas e econômicas se rearranjavam, trocando de mãos, em alguns casos; ou equilibrando-se, em outros: na Europa, Inglaterra e França viam as recém unificadas Itália e Alemanha despontarem como grandes forças, sobretudo esta última. Ainda insipiente, mas já com demonstrações de potencial, os Estados Unidos e o Japão, países fora da Europa, também entravam no jogo. No Brasil, jovens republicanos e o exército ocupavam os lugares na administração do Estado, onde antes os antigos liberais por muito 13


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tempo foram os senhores. No Rio Grande do Sul, a mesma dinâmica alijava do poder os aliados de Gaspar Silveira Martins, velho chefe Liberal, e em seu lugar Júlio de Castilhos e o Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) começavam a dominar o aparelho administrativo do estado.

Contexto histórico mundial Aproximadamente em 1890, a Europa vive na incerteza. As alianças entre as grandes potências do continente é motivo de tensão. A França, isolada pela política de Bismarck, só em 1893 consegue concluir uma aliança com uma grande potência, e firma, com a Rússia, um acordo que prevê mobilização imediata e simultânea de suas forças militares contra a Alemanha, em caso de ataque desse país ou de seus aliados. Antes disso, em 1882, Alemanha, Áustria e Itália formavam a Tríplice Aliança 1. Todos os Estados, em seus cálculos, consideram a eclosão de uma guerra continental. Esta ameaça, embora fosse improvável, parecia possível. Existiam motivos fortes para essa possibilidade: A Alemanha, então uma nova potência após a unificação e a diplomacia orquestrada por Bismarck, conseguindo aliados, não podia se reconciliar com a França principalmente pela questão da Alsácia-Lorena, como afirma Duroselle2. Também a Itália e a França travavam uma verdadeira guerra aduaneira. Por outro lado, a Inglaterra e a França pareciam entender-se e assinaram em 1890 um importante acordo pela divisão do Vale do Níger. Este entendimento entre as duas potências pode ser explicado pelo recíproco interesse nas suas respectivas políticas coloniais. Neste período, a Europa se apropriara de vastas extensões territoriais do planeta, impondo-lhes seu domínio político, bem como subordinara à sua economia as economias dos países não-industrializados. Seguiam-na bem de 1

BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental: do homem das cavernas às naves espaciais – v.2 / Edward McNall Burns, Robert E. Lerner, Standish Meachan. São Paulo: Globo, 2001, p. 663. 2 DUROSELLE, Jean-Baptiste. A Europa de 1815 aos nossos dias. São Paulo: Livraria Pioneira, 1970, p. 49.

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perto os Estados Unidos e o Japão 3 duas forças que emergiam no cenário mundial. Os primeiros começam a despontar no cenário econômico como nova potência. No extremo oriente, o Japão também começa a firmar-se 4 . A Inglaterra não estava mais sozinha como a principal nação industrial, como exemplificam Falcon e Moura: [...] em razão da conjuntura presente, a demanda de nossos produtos não cresce no mesmo ritmo de antigamente... [e] nossa posição de principal nação industrial do mundo não é mais talo indiscutível; ... nações estrangeiras começam a entrar com sucesso em competição conosco em numerosos mercados, dos quais tínhamos monopólio até então5.

De acordo com os autores, as nações às quais se refere o documento são a Alemanha, os Estados Unidos e o Japão6. Na Europa, a França também sentia a pressão da concorrência de outros países, e o setor agrícola entrava em crise, devido ao afluxo de produtos, principalmente cereais, vindos dos Estados Unidos, Canadá, Argentina, Austrália, Nova Zelândia, que invadiam os mercados europeus, prejudicando os produtores. Tal fato provocou um gradativo protecionismo aos produtos agrícolas, e foi-se impondo como tendência geral no continente.7 Dentre as mudanças significativas deste período destacam-se o surgimento das grandes empresas, a tendência à monopolização, uma nova política econômica de caráter protecionista e um impulso colonial que promoveu a partilha de quase todo o planeta, pois a fundação de uma colônia significava a criação de um novo mercado para as potências européias, em tempos de grande competição internacional entre as nações industrializadas 8.

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FALCON, F, C.; MOURA, G. A formação do mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Campus, 1986, p. 71. 4 Idem, ibidem. 5 VOILLIARD et al em Documents d´Histoire, vol. 2, Paris: A. Colin, 1964, p. 72 apud FALCON e MOURA, op. cit. p. 83. 6 FALCON e MOURA, op. cit. p. 83 7 Idem, ibidem. 8 FALCON e MOURA, op. cit, p. 84.

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Completando o cenário, aparecia o advento da democracia liberal e o aguçamento das rivalidades internacionais9.

O Brasil No Brasil, a escravidão fora extinta em 1888. Um ano depois, era proclamada a República. A partir deste advento, tornou-se comum dizer que abolição provocou a queda da Monarquia, pelo descontentamento que gerou entre os fazendeiros. Essa idéia surgiu, segundo Emília Viotti da Costa, da apreciação superficial e apressada dos fatos, e é apenas em parte verdadeira10. Para a autora, A abolição não é propriamente a causa da República, melhor dizer que ambas, Abolição e República, são sintomas de uma mesma realidade; ambas são repercussões, no nível institucional, de mudanças ocorridas na estrutura econômica do país que provocaram a destruição dos sistemas tradicionais. [...] Se houve casos de fazendeiros que aderiram ao Movimento Republicano por vingança foram casos isolados que não podem explicar o fim da monarquia.11

Os militares também desempenharam papel decisivo na implantação da República no Brasil. Ainda de acordo com Costa, os militares não foram meros instrumentos dos civis, pois alguns daqueles tinham sólidas convicções republicanas e já vinham conspirando há algum tempo, sob a liderança de Benjamin Constant, Serzedelo Correia, Sólon e outros. Imbuídos de idéias republicanas, estavam convencidos de que resolveriam os problemas brasileiros liquidando a Monarquia e instalando a República 12 . A partir da Guerra do Paraguai, à medida que o exército se institucionalizava, tomava

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Idem, p. 72. COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: Momentos Decisivos. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1999, p. 328. 11 Idem, ibidem. 12 COSTA, op. cit. p. 332. 10

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corpo a idéia de que cabia aos militares a “salvação da pátria”. Soma-se a isso a infiltração do pensamento positivista 13 no exército, que influenciou a adesão das patentes inferiores e alunos da Escola Militar à causa republicana, enquanto a Monarquia ainda tinha apoio dos escalões superiores14. Tão logo chegaram ao poder, os militares implementaram ações de forma a fortalecer ainda mais esse poder: o Exército foi autorizado a aumentar seu contingente de 13 mil para 25 mil soldados, e ainda, seus salários foram imediatamente aumentados em 50%. Completando, uma nova lei foi aprovada regulando a aposentadoria ou promoção imediata de quase todos os altos oficiais 15. O fim do Império e início da República foi uma época caracterizada por grande movimentação de idéias, em geral importadas da Europa, como diz José Murilo de Carvalho16. O positivismo em grande escala, mas igualmente o liberalismo, socialismo e anarquismo, misturavam-se e combinavam-se das maneiras mais esdrúxulas na boca e na pena das pessoas mais inesperadas 17. A Constituição republicana de 1891, a primeira da República, retirou um dispositivo da anterior, imperial, que se referia à obrigação do Estado em promover os socorros públicos, em uma indicação de enrijecimento da ortodoxia do liberalismo em detrimento dos direitos sociais, assim como o Código Criminal de 1890, que, ao tentar proibir greves e coligações operárias, teve a mesma inspiração18. A República, ou os vitoriosos da República, fez muito pouco em termos de expansão de direitos civis e políticos. O que foi feito já era demanda do liberalismo imperial. Carvalho defende que, em certo ponto, houve até retrocesso no que se refere a direitos sociais:

Como salienta Emília Viotti da Costa, é preciso lembrar, entretanto, “que não se trata de positivismo ortodoxo, pois mesmo Benjamin Constant, considerado um dos principais representantes do movimento positivista no exército, não pode ser considerado positivista ortodoxo”. COSTA, op. cit. p. 332. 14 Idem, p. 332. 15 SKIDMORE, Thomas E. Uma História do Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 1998, p. 108. 16 CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 3ª ed. 2008, p. 42. 17 Idem, ibidem. 18 CARVALHO, op. cit. p. 45. 13

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Algumas mudanças, como a eliminação do Poder Moderador, do Senado vitalício e do Conselho de Estado e a introdução do federalismo, tinham sem dúvida inspiração democratizante na medida em que buscavam desconcentrar o exercício do poder. Mas, não vindo acompanhadas por expansão significativa da cidadania política, resultaram em entregar o governo mais diretamente nas mãos dos setores dominantes, tanto rurais quanto urbanos.19

O sistema federativo, implantado na República, já contava com defensores mesmo antes da implantação do novo regime. Conforme Costa, Em 1885, num célebre discurso proferido na Câmara dos Deputados, Nabuco assinalava a conveniência da Monarquia levar a cabo a concretização do ideal que existia desde os tempos da Independência. Justificando a necessidade da Federação dizia que as grandes distâncias impediam uma administração eficaz. As diferenças regionais eram outro argumento a favor da idéia: tão diferentes se apresentavam os problemas do nordeste e do centro, os do sul discrepavam tanto das demais regiões, que era impossível dar-lhes uma administração uniforme. Era evidente que se impunha maior autonomia local20.

Neste sentido, a característica mais importante da Constituição de 1891 (a primeira da República) segundo Skidmore, era a descentralização radical21 . O Brasil tornava-se, de fato, uma federação. Cada estado elegeria diretamente seu próprio governador e legislatura, e teria poderes extensivos, tais como a autoridade de contrair empréstimos estrangeiros, arrecadar impostos interestaduais e manter milícia. O poder agora, ainda de acordo com o autor, ficaria claramente com as oligarquias republicanas dos estados principais22.

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Idem, pp. 45-46. COSTA, op. cit. p. 343. 21 SKIDMORE, op. cit. pp. 108-109. 22 SKIDMORE, op. cit. p. 109. 20

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O Rio Grande do Sul Os republicanos, antes uma minoria, assumiram a função de modelar as novas instituições, tanto na esfera nacional quanto nas unidades da federação. No Rio Grande do Sul, os funcionários ligados ao Partido Conservador foram afastados de seus cargos pelos liberais no ano de 1889, antes, porém, da Proclamação da República. Muitos destes conservadores, como o deputado José Gabriel da Silva Lima e também Francisco da Silva Tavares, destacado líder conservador sul-rio-grandense e membro de um dos mais poderosos clãs da província23 anunciaram sua conversão ao republicanismo. Love diz que, Na última eleição nacional no estado, em agosto de 1889, os liberais derrotaram os conservadores e os republicanos, elegendo em seis pleitos seis deputados. No mesmo ano, 25 liberais e 11 conservadores asseguraram seus lugares no Legislativo Provincial; os republicanos não estiveram representados24.

Proclamada a República, o expurgo que antes fizeram os liberais contra os conservadores agora era feito contra aqueles, pelos republicanos. Apesar de Deodoro colocar no governo do Rio Grande do sul o liberal Visconde de Pelotas, nomeou também Júlio de Castilhos como Secretário do Governo Estadual, posto que permitia ao jovem político aprovar a nomeação da maioria dos funcionários. Love afirma que, em nível local e estadual, funcionários liberais foram demitidos em massa. Delegados, bem como comandantes de unidades da Guarda Nacional, foram exonerados 25. Sérgio da Costa Franco diz que a escolha do Visconde de Pelotas para o governo do estado deu-se pela proximidade deste com Deodoro, contudo, o que foi 23 24 25

LOVE, op. cit. p. 43. Idem, p. 42. LOVE, op. cit. p. 43.

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determinante para a escolha do Visconde foi influência dos militares na política rio-grandense e também o peso dos personalismos.26. A partir das eleições de 1890, Castilhos e o PRR “começaram a montagem da máquina de controle político dentro do Rio Grande do Sul”27. Apesar da forte liderança exercida por Castilhos, seu domínio no partido não era absoluto. Após proclamar Deodoro como “candidato [a presidente do Brasil] dos republicanos” através de A Federação, jornal ligado ao PRR e do qual Castilhos era chefe e redator28, esboçou-se um movimento de dissidência, liderado inicialmente por Barros Cassal, e depois alimentado por Demétrio Ribeiro e Antão de Faria, cujos argumentos para o “racha” foram que Castilhos não consultara o partido para a indicação de Deodoro29. Na política sul-rio-grandense prevaleceram, nestes primeiros anos de república, os mecanismos de coerção, muito mais do que os de consenso, segundo Sandra Pesavento30. Para tal fim, o governo do estado contou a seu favor com o apoio do Exército e a criação da Brigada Militar, força estadual de repressão ligada ao governo e criada por Júlio de Castilhos 31 . No período compreendido entre 1889 a 1895, ocorreu no Rio Grande do Sul aquilo que Gunter Axt chama de “a institucionalização republicana” 32. Foi o período de maior instabilidade política e administrativa. Em três anos (de 15 de novembro de 1889 até 25 de janeiro de 1893) 16 presidentes se alternaram na presidência do estado33, o que evidencia a instabilidade. O período é marcado pela cruenta Revolução Federalista e pela construção do sistema que Axt denomina “edifício jurídico” de sustentação do governo instaurado por Castilhos e o PRR. Esta época também foi marcada pela neutralização da oposição e pela

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FRANCO, (1993), op. cit. p. 9. Idem, p. 20. Idem, p. 17. 29 FRANCO, (1993), op. cit. p. 17 27 28

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PESAVENTO, Sandra. A Revolução Federalista. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 62. Idem, pp. 63-64. 32 AXT, Gunter. Coronelismo Indomável: O Sistema de Relações de Poder. In República Velha (1889-1930) / coordenação geral Tau Golin, Nelson Boeira; Diretores dos volumes Ana Luiza Setti Reckziegel, Gunter Axt. – Passo Fundo: Méritos, 2007 – v.3 t.1 – Coleção História Geral do Rio Grande do Sul, p. 97. 33 FRANCO, Sérgio da Costa. Júlio de Castilhos e sua época. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1996, pp. 59-131. 31

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formatação do modelo institucional autoritário que culminaria na hegemonia castilhista, de 1895 até 1903. Castilhos afirmou-se como liderança unipessoal no Rio Grande do Sul, controlando o PRR, a administração pública, a política estadual e as situações municipais34. Os alijados do poder político, ao lado dos dissidentes castilhistas, se aglutinaram sob a égide de Federalistas e deram início a uma reação armada. A guerra eclodia em 5 de fevereiro de 1893, quando o general-em-chefe dos federalistas, João Nunes da Silva Tavares, fez divulgar um manifesto que conclamava os cidadãos às armas35. No mesmo dia desta proclamação, a primeira partida de rebeldes, a mando de Gumercindo Saraiva, ultrapassava a fronteira do município de Bagé, oriunda da república vizinha do Uruguai, onde as forças insurretas estavam sendo organizadas. Em 11 de fevereiro, já no Brasil, acontecia o primeiro embate entre os federalistas e as forças legais36. Na coluna liderada por Gumercindo Saraiva, estava o médico baiano Angelo Cardoso Dourado, que acompanhou as tropas federalistas desde os momentos iniciais da guerra, até o final desta, em 1895. Durante o período em que esteve ao lado dos federalistas, Dourado efetuou registros do que via e vivia nos campos de batalha. E assim, em carta dirigida à sua esposa e datada de 23 de julho de 1893, começava o primeiro de um longo conjunto de relatos de suas experiências na Revolução Federalista. Tais relatos, escritos primeiramente como cartas e logo após como uma espécie de diário, foram organizados pelo próprio Dourado sob a forma de livro. O livro recebeu o nome de Voluntarios do Martyrio – Factos da Guerra Civil. Finda a guerra, a obra foi publicada pela Livraria Americana, da cidade de Pelotas, no ano de 1896. A obra do médico baiano foi bastante utilizada/recomendada por aqueles que escreveram a história do Rio Grande do Sul, de modo geral, e da Revolução Federalista, de modo específico, desde Guilhermino Cesar, Dante 34

FRANCO (1996) op. cit. pp. 59-131. ESCOBAR, Wenceslau. Apontamentos para a História da Revolução Rio-Grandense de 1893. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1983, p. 95. 36 FRANCO (1996) op. cit. pp. 133. 35

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de Laytano e Sérgio da Costa Franco, de um lado, e Joseph Love, John Chasteen, Sandra Pesavento, Moacyr Flores, Helga Piccolo, Nuncia Constantino, entre outros, de outro. Todos eles atestando a importância do testemunho de Dourado para explicar ou ilustrar alguns aspectos da guerra. Foi a partir do interesse dos pesquisadores pelos relatos de Dourado, pesquisadores estes de importância reconhecida, tanto na historiografia regional como nacional e mesmo internacional, é que decidimos empreender o presente trabalho. Além disso, somam-se os fatos da ligação do médico baiano com Bagé – terra por ele escolhida para fixar residência e exercer seu ofício de médico – e também pela forte ligação dos episódios e destinos da Revolução Federalista com esta cidade, que também é nossa terra natal. De lá surgiram Gaspar Silveira Martins, o clã Tavares, o general Carlos Telles, entre outros. Lá também ocorreram dois episódios-símbolo da guerra, a saber, o Combate do Rio Negro e o Cerco de Bagé. Enfim, a Revolução Federalista sempre exerceu um grande fascínio sobre nós e pesquisá-la de forma mais aprofundada era um desejo antigo, desde nosso ingresso na Academia. O que nos motivou para a escolha do estudo específico de Voluntários do Martírio foi verificar seu uso na historiografia para a construção de um “saber histórico”, e de que forma os relatos do médico baiano sairiam do campo da memória para constituírem-se em história, sobretudo da Revolução Federalista. Ademais, de acordo com nossos levantamentos preliminares, Voluntários do Martírio foi objeto de apenas um trabalho sobre suas características, realizado pelo professor Cláudio Boucinha no livro O Liberalismo e o Romantismo de Angelo Dourado37, o que demonstra a escassez de estudos sobre a memória produzida pelo médico baiano. Dito isto, os objetivos deste trabalho são analisar a obra de Dourado, contemplando a figura do autor; as características do seu texto; o tipo de memória produzida por ele e, finalmente, a utilização de seus relatos na historiografia, ou seja, como outros pesquisadores interpretaram e de que forma utilizaram estes relatos.

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BOUCINHA, Cláudio Antunes. O Liberalismo e o Romantismo de Angelo Dourado. Bagé: Urcamp Editora, 1989.

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Tal estudo é necessário, para melhor compreender memória e história; os entrecruzamentos entre estes dois conceitos, o que os aproxima e os distancia, e, por fim, o que é preciso para que, de uma memória, se faça história, bem como compreender essa dinâmica. Longe de ter a pretensão de apresentar respostas definitivas, o que nos propomos é fornecer alguns dados que foram frutos de pesquisa e análise de nossa parte. Primeiramente, faremos uma breve apresentação do conceitual teórico-metodológico que norteará o presente trabalho, onde abordaremos conceitos fundamentais em nosso estudo, como “memória” e “história” bem como suas relações. Logo após, empreendemos uma análise da obra de Angelo Dourado, identificando ali informações que possam responder as questões referentes ao tipo de memória específica registrada pelo autor, percebidas através de elementos como sua extração e posição social e política; a sua visão sócio-histórica; o que o autor acredita ser válido ou necessário registrar e, finalmente, de que forma e por que ele realiza este registro. Em seguida, fizemos uma seleção de fontes bibliográficas, livros e artigos, em sua maioria, e cujo tema era a Revolução Federalista. Destas fontes, identificamos quais autores utilizam ou recomendam a obra de Dourado, e de que forma essa utilização/recomendação é feita. Finalmente, a conseqüência dessa utilização: como se dá a transformação desta memória específica em história.

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1 Memória e História Para podermos compreender melhor o texto de Dourado, precisamos, antes de tudo, apresentar os conceitos-chave de nosso trabalho, a saber, memória e história. Para dar suporte às nossas afirmações, buscamos alguns referenciais teórico-metodológicos, os quais guiarão o presente estudo. A partir deles, conceituaremos memória e história, bem como suas relações, semelhanças e distanciamentos, na construção do saber histórico.

1.1 A memória Quando falamos em memória, pensamos quase imediatamente em lembranças, recordações. Todavia, como esclarece Marilena Chauí, A memória não é um simples lembrar ou recordar, mas revela uma das formas fundamentais de nossa existência, que é a

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relação com o tempo, e, no tempo, com aquilo que está invisível, ausente e distante, isto é, o passado.38

A memória seria aquilo que conferiria sentido ao passado como sendo diferente do presente, ainda que, eventualmente, pudesse fazer parte dele; e também do futuro, em que poderia permitir esperá-lo e compreendê-lo. Mas o que a memória tem a ver com a história? O que as aproxima – ou as distancia – na construção do saber histórico? Onde memória e história se cruzam?

1.1.2 A memória, no princípio Para tentar responder estas questões, muitos estudiosos da Filosofia, da História e de outras ciências humanas empreenderam estudos e debates acerca do tema memória. Desde a Antigüidade e até nossos dias, o próprio conceito de memória (suas características, seus usos) tem sido alvo de reinterpretações, reinvenções ao logo do tempo. Segundo Loiva Otero Félix, a memória como construção histórica aparece mesmo muito antes da instituição da razão como instrumento de compreensão do mundo:

No século V a.C, a memória já era valorizada como imprescindível à coesão dos laços sociais. Numa sociedade de fundamento mito-poético, o aedo [poeta] desempenhava esse papel. [...] A memória era sacralizada. [...] Mnemosyne, a memória em grego, era uma deusa identificada como mãe das musas e das divindades responsáveis pela memória e inspiradoras da imaginação criativa dos artistas e poetas.39

A memória era então ligada ao mítico, ao fantástico. Ainda no mundo grego antigo, Heródoto deu início ao que poderíamos chamar de primeiro tratamento de matiz histórico da memória. Heródoto não é “inspirado pelas 38

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2003, p. 142. FÉLIX, Loiva Otero. História e memória: a problemática da pesquisa. Passo Fundo: Editora UPF, 2004, pp 34-35 39

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Musas”40 para falar de um tempo longínquo, dos deuses e heróis, para falar das origens. Ao contrário, ele procura a causa dos acontecimentos, fala de um tempo dos homens, de testemunhas. A memória é algo que precisa ser preservada, segundo Heródoto: Ao escrever a sua História41, Heródoto de Halicarnasso teve em mira evitar que os vestígios das ações praticadas pelos homens se apagassem com o tempo e que as grandes e maravilhosas explorações dos Gregos, assim como as dos bárbaros, permanecessem ignoradas; desejava ainda, sobretudo, expor os motivos que os levaram a fazer guerra uns aos outros.42

Apesar de falar em “vestígios”, e empreender pesquisas para efetuar sua narrativa, Heródoto não usa documentos escritos, conforme Smolka. 43 O autor ainda nos fala que Heródoto narra para informar e ensinar, mas também pelo simples prazer de contar. Contudo, Tucídides, ao escrever a História da Guerra do Peloponeso, vai além do que escreveu Heródoto e desconfia da memória como fonte fidedigna da realidade. Para ele, a memória poderia ser parcial ou fragmentada. Segundo afirmou, “o empenho em apurar os fatos se constituiu numa tarefa laboriosa, pois as testemunhas oculares de vários eventos nem sempre faziam os mesmos relatos a respeito das mesmas coisas” e estas disparidades variavam 40

Apesar de ter dividido sua obra História em nove livros em memória das nove musas, e em cada um ter colocado o nome de uma delas, não faz referências à inspirações míticas ou fantásticas 41 Na tradução feita por Pierre Henri Larcher (Hérodote Histoire tome I et II, Charpentier, Paris, 1850) este texto inicia como "En présentant au public ces recherches..." (ao apresentar ao público suas pesquisas...). Na tradução para o inglês, feita por William Beloe em 1836, aparece "(...)Herodotus of Halicarnassus produces this historical essay" (... Heródoto de Halicarnasso produz este ensaio histórico), da mesma forma na tradução para o espanhol feita por P. Bartolomé Pou, S.J (1727-1802): “La publicación que Herodoto de Halicarnaso va a presentar de su historia” . Notamos que apenas na primeira das versões apresentadas a palavra historie foi traduzido por pesquisa. Nos demais, foi utilizada a palavra adaptada “história” ou “ensaio histórico” na concepção moderna do termo. Nota: a versão para o português que tivemos acesso foi feita a partir da tradução espanhola. 42 HERÓDOTO. História - Heródoto (484 a.C. - 425 a.C.) Traduzido do grego por Pierre Henri Larcher (1726–1812) Versão para o português de J. Brito Broca. Ebooks Brasil, 2006. 43 SMOLKA, Ana Luiza Bustamante. A memória em questão: uma perspectiva histórico-cultural. Educação e Sociedade, Campinas: julho de 2000, vol. 21, n.71, p. 178.

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“de acordo com suas simpatias por um lado ou pelo outro, ou de acordo com sua memória”.44 Aquela primeira forma de utilização da memória, feita por Heródoto, seria questionada e negada por Tucídides, como demonstra Smolka: O fato é que, com Tucídides, registra-se uma ruptura radical: operando ainda sobre a tradição oral, sem arquivos e com raros documentos epigráficos, ele rompe com as “velhas histórias” de origem e natureza mítica, faz pouco caso do passado e da tradição. Há uma fissura entre Heródoto e Tucídides. Com a Guerra do Peloponeso, Tucidides trabalha na arquitetura austera e argumentativa do texto escrito para ser lido no futuro. Reivindica a escrita como meio de fixação dos acontecimentos, fazendo da imutabilidade do escrito uma garantia de fidelidade.45

Segundo Smolka, Tucídides inaugura o que ela chama de uma política da memória, e, dessa forma, delimita os domínios de um novo saber histórico,46 o que mudaria a maneira de se pensar memória e de utilizar-se dela.

1.1.3 A memória pensada em nossos dias Feita esta breve introdução de como a memória surgiu entre os gregos, passamos a pensar a memória atualmente. Este exercício decorre em estabelecer uma série de questões acerca do que é, seus usos e problemas. Elizabeth Jelin propõe que pensemos “as memórias”, ao invés de “a memória”, e expõe o contraponto em pensar a natureza da memória (o que é) e os processos de construção de memórias, ou seja, como se dá a fabricação destas. Segundo ela,

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TUCÍDIDES. A história da Guerra do Peloponeso. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1987, p. 28. 45 SMOLKA, op. cit. p. 179 46 DETIENNE, M. Os mestres da verdade na Grécia Arcaica. Rio de Janeiro: Zahar, 1988 e GAGNEBIN, J.M. Sete aulas sobre linguagem, memória e história. Rio de Janeiro: Imago, 1997 apud SMOLKA, op. cit. p. 178.

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[...] hay una tensión entre preguntarse sobre lo que la memoria es y proponer pensar en procesos de construcción de memorias, de memorias en plural, y de disputas sociales acerca de las memorias, su legitimidad social y su pretensión de «verdad». En principio, hay dos posibilidades de trabajar con esta categoría: como herramienta teórico-metodológica, a partir de conceptualizaciones desde distintas disciplinas y áreas de trabajo, y otra, como categoría social a la que se refieren (u omiten) los actores sociales, su uso (abuso, ausencia) social y político, y las conceptualizaciones y creencias del sentido común.47

Jelin avança ao afirmar que, ao abordarmos a memória envolvida em algum aspecto histórico, referimo-nos a memórias e esquecimentos, narrativas e atos, silêncios e gestos. Nesta perspectiva, há em jogo saberes, mas há também emoções. E há também vazios e fraturas. 48 Michael Pollak nos fala das relações entre memória e os sentimentos de pertencimento que, segundo ele, são estabelecidas, ou ao menos favorecidas, por aquela: A memória, essa operação coletiva dos acontecimentos e das interpretações do passado que se quer salvaguardar, se integra, [...] em tentativas mais ou menos conscientes de definir e de reforçar sentimentos de pertencimento e fronteiras sociais entre coletividades de tamanhos diferentes: partidos, sindicatos, igrejas, aldeias, regiões, clãs, famílias, nações etc. a referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos e das instituições que compõe uma sociedade, para definir seu lugar respectivo, sua complementaridade, mas também as oposições irredutíveis.49

Quando fala que a referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos e instituições que compõe uma sociedade, Pollak sinaliza que a memória é, em parte, herdada e, compartilhando de posição similar à de Jelin,

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JELIN, Elizabeth. Los trabajos de la memoria. Siglo Veintiuno editores, España, 2001, p. 17. JELIN, op. cit. p. 17. 49 POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro: vol. 2, n. 3, 1989, p. 9 48

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que a memória é um fenômeno construído. Porém, para Pollak, essa construção pode ser tanto consciente como inconsciente 50. Seguindo de acordo com a perspectiva de que a memória reforça os sentimentos de pertencimento e ainda que faz uso e reconstrói o passado de grupos, seja pelos motivos defendidos por Pollak ou outros não sugeridos por ele, temos como perceber que a memória opera no sentido de construir identidades. Prosseguindo, é ainda Pollak que afirma que a memória é um elemento constituinte da identidade, tanto individual quanto coletiva, na medida em que “ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si”.51 Neste mesmo sentido escreve Le Goff, ao afirmar que “a memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia”. 52 Porém, para falarmos de identidade e identificação, é preciso também falar em diferenciação. Jelin diz que, para fixar certos parâmetros de identidade (nacional, de gênero, política ou outro tipo), o sujeito da memória seleciona certos marcos, certas memórias, que o põe em relação com outros. Estes parâmetros, que implicam ao mesmo tempo ressaltar alguns traços de identificação grupal com alguns e de diferenciação com “outros” para definir os limites da identidade, se convertem em marcos sociais para enquadrar as memórias.53 Sobre os enquadramentos da memória, ou memória enquadrada, que Pollak considera como um termo mais específico 54 do que memória coletiva55 é possível dizer que as funções da memória, neste caso, são “manter a coesão interna e defender as fronteiras daquilo que um grupo tem em comum, em que 50

POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Tradução de Monique Augras. Estudos Históricos, Rio de Janeiro: vol, 5, n. 10, 1992, p. 201. 51 POLLAK (1992) op. cit. p. 205. 52 LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Ed. Unicamp, 2003, p. 469. 53 JELIN, op. cit. p. 24. 54 ROUSSO, H. Vichy. Le grand fosse. Vingtième Siècle, 5, 1985, p. 73 apud POLLAK (1989), op. cit. p. 10. 55 Reportando-se às teorias de, e principalmente, Maurice Halbwachs e, posteriormente, Pierre Nora.

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se inclui o território (no caso de Estados), eis as duas funções essenciais da memória comum”, 56 ou seja, fornecer um quadro de referências, ou ainda, pontos de referência. Pollak toma emprestado de Bourdieu a expressão “trabalhos de enquadramento” para poder explicar o processo de construção da memória enquadrada. Para Bourdieu, “o trabalho político é sem dúvida a expressão mais visível desse trabalho de enquadramento da memória” 57. Mas esse enquadramento de uma memória tem limites, ainda de acordo com Pollak, pois “ela não pode ser construída arbitrariamente”, já que esse trabalho deve satisfazer a “certas exigências de justificação” 58 de modo a poder garantir a subordinação das condutas humanas às construções da memória que, nesse caso, já é enquadrada. Para avançarmos no conceito de memória, é preciso que estabeleçamos a diferenciação dos tipos de memórias. Para Jelin, há dois tipos de memória: [...] las habituales y las narrativas. Son las segundas las que nos interesan. Dentro de ellas, están las que pueden encontrar o construir los sentidos del pasado y -tema especialmente importante aqui - las «heridas de la memoria» más que las «memorias heridas» (esta última, expresión de Ricoeur, 1999), que tantas dificultades tienen en constituir su sentido y armar su narrativa. 59

Ela ainda estaria centrada em acontecimentos, personagens e lugares, segundo Pollak60, e estaria disposta sobre alguns eixos, que Jelin chamou de “eixos da memória”. O primeiro deles, refere-se ao sujeito que rememora ou esquece, tanto indivíduos quanto as chamadas memórias coletivas (como propôs Halbwachs 61 ). Um segundo eixo refere-se aos conteúdos, ou seja, a questão do que se recorda e o que se esquece. Jelin diz que neste eixo estão as 56

POLLAK (1989), op. cit. p. 10 BOURDIEU, Pierre. La representation politique, Actes de la recherche em sciences sociales, 36/36, 1981, p. 3 apud POLLAK (1989), op. cit, p. 10. 58 BOLTANSKI, Les économies de la grandeur, Paris: PUF, 1987, p. 14 apud POLLAK (1989), op. cit. p. 10. 59 JELIN, op. cit. p. 27. 60 POLLAK (1992), op. cit. p. 201. 61 Ver HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006. 57

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“vivências pessoais diretas, com todas as mediações e os mecanismos dos laços sociais, do manifesto e do latente ou invisível, do consciente e do inconsciente”, e também “saberes, crenças, padrões de comportamento, sentimentos e emoções que são transmitidos e recebidos na interação social, nos processos de socialização, nas práticas culturais de um grupo.”62 Finalmente, a memória se produz enquanto há sujeitos que compartem uma cultura, e ainda ocorre [...] enquanto há agentes sociais que são concebidos como, ou que se convertem em “veículos da memória”, tais como livros, museus, monumentos, filmes ou livros de história. Também se manifesta em atuações e expressões que, antes de representar o passado, o incorporam performaticamente.63

Ou seja, a autora nos apresenta o que chama de “veículos da memória” aqueles agentes sociais que assim são atribuídos de tal significância. E quem atribui aquela significância de “sujeitos da memória”? Certamente não são autodefinidos, deste modo, são os homens que atribuem este significado. Quem dá sustentação a esta afirmação é Pierre Nora, que, ao longo do extenso estudo empreendido em seu Les Lieux de Mémoire64, introduz o conceito de “lugares de memória”. Para Nora, “mesmo um lugar de aparência puramente material, como um depósito de arquivos, só é lugar de memória se a imaginação o investe de uma aura simbólica [...] só entra na categoria se for objeto de um ritual”. 65 Ora, para haver imaginação, para haver um “ritual”, é necessário presumidamente da existência de quem age sobre, ou seja, do único sujeito a que é facultativo o ato de imaginar, ritualizar, criar e imbuir significados: o homem. 62

JELIN, op. cit. p. 17. Idem, p. 34. 64 Uma interessante e elucidativa abordagem a respeito da obra de Pierre Nora e sua obra é tratada no artigo de ENDERS, Armelle. Les Lieux de Mémoire, dez anos depois. Estudos Históricos, Rio de Janeiro: vol. 6, n. 11, p. 128-137 (s.d), onde o autor discorre sobre a importância de Nora e a relevância de sua obra, além de abordar usos e questionamentos a respeito desta, dez anos após a publicação original. Trata, também, do que considera apropriação indiscriminada e vulgarização da expressão “lugar de memória”. 65 NORA, Pierre. Entre memória e história – a problemática dos lugares. Tradução de Yara Aun Khoury. Projeto História, São Paulo: v. 10, dez. 1993, p. 21. 63

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Quando acaba a memória, começa a história (história-conhecimento). A história, segundo Félix, “salva” as lembranças através da fixação por escrito.66

1.2 A História No seu inacabado e póstumo livro Apologia da História, o historiador francês Marc Bloch afirma que a palavra história é antiqüíssima. Tão antiga que, “às vezes nos cansamos dela”. 67 Bloch reconhece que tanto a palavra história quanto o que ela representava mudou ao longo do tempo, no pensar, no tratar, no produzir. Nascida da etimologia inicial enquanto “pesquisa” ela “seguramente, desde que surgiu, já há mais de dois milênios, nos lábios dos homens, mudou muito de conteúdo”, 68 mas que, apesar de conservar o “glorioso nome helênico” não é a mesma desde então. Esta afirmação, partindo justamente de Bloch, que junto com Lucien Febvre revolucionou o pensar histórico em princípios do século passado, revela uma postura defendida ao longo de sua produção intelectual, e presente desde antes da criação dos Annales: a história-problema69. Para Bloch, muito mais do que querer saber, era necessário “querer compreender”. 70 Sua visão do caráter plural e temporal da história é defendida: Há muito tempo, com efeito, nossos grandes precursores, Michelet, Fustel de Coulanges, nos ensinaram a reconhecer: o

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FÉLIX, op. cit. p. 40. BLOCH, March. Apologia da história, ou O ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 51. 68 Idem, ibidem. 69 No texto de apresentação à edição brasileira, Lilia Moritz Schwarcz afirma que Bloch inaugurou a noção de história-problema. Segundo a autora, esta proposição já era verificada em 1913, quando de seu primeiro estudo publicado. Surgia expressa a noção de “problema” quando Bloch questionava o conceito de região e alegava que este variava em função da questão que se tinha em mente. (SCHWARCZ, Lilia Moritz. Apresentação à edição brasileira: por uma historiografia de reflexão. In BLOCH, Marc. op. cit. p. 8) 70 BLOCH, op cit. p. 45. 67

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objeto da história é, por natureza, o homem. Digamos melhor: os homens. Mais que singular, favorável à abstração, o plural, que é o modo gramatical da relatividade, convém a uma ciência da diversidade. [...] “Ciência dos homens”, dissemos. É ainda vago demais. É preciso acrescentar: “dos homens, no tempo”.71

Bloch refutava a definição de ciência do passado, pois, ao seu ver, o passado e enquanto tal, não era passível de ser objeto de ciência. Ao dizer isso, defendia a idéia de que, por ser “dos homens, no tempo”, ela sofria mutações na forma de ver e fazer história, não muito diferente do que propunha Febvre, segundo o qual “a história era filha de seu tempo”. 72 A intenção era problematizar o próprio “fazer histórico”, aceitando que “cada época elenca novos temas que, no fundo, falam mais de suas próprias inquietações e convicções do que de tempos memoráveis, cuja lógica pode ser descoberta de uma vez só”73 como afirma Schwarcz. Duby, em direção semelhante, alertava para o fato de que a história, nesse sentido, deve ser tomada sempre se levando em consideração o tempo de produção desta: "(...) temos absolutamente de ter em consideração, no trabalho dos historiadores que nos precedem, o meio em que viveram e a sua própria personalidade, para aproveitarmos ao máximo suas contribuições".74 Como é “dos homens” e não “do homem”, a história está ancorada em aspectos coletivos, como defende Félix, para quem “o fato histórico é, antes de tudo, coletivo na medida em que a história não examina fatos individuais isolados, mas encadeamentos e relações de fatos” 75 , partindo de uma observação atenta, crítica e minuciosa ou, como já propunha Tucídides, “devese olhar os fatos como estabelecidos com precisão suficiente, à base de informações mais nítidas, embora considerando que ocorreram em épocas mais remotas”76. Esse “olhar” para fazer história encontra eco - e indo além - nas 71

BLOCH, op. cit. pp. 54-55. SCHWARCZ, Lilia Moritz, op. cit. p. 7. 73 Idem, ibidem. 74 DUBY, G. et al. O historiador hoje. Entrevista realizada por Raymond Bellour. In: História e nova história. Lisboa, Portugal. Teorema, 1986 apud FÉLIX, op. cit. p 14. 75 FÉLIX, op. cit. p. 76. 76 TUCÍDIDES, op. cit. p. 28. 72

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palavras de Félix: “um exercício do olhar, de um „ver em profundidade‟, um „ver concentrado que se volta para si mesmo‟.”77 Mas como se dá a construção do conhecimento histórico? Ora, os documentos foram e ainda são a base de toda a pesquisa histórica. O que diferencia, ao longo do tempo, é a forma como esses documentos são tratados e utilizados. E o que pode ser considerado documento? Para François Furet, a noção de documento é ampla, desde que sirva ao propósito de permitir o conhecimento do passado, pois para ele “a história é o conhecimento do passado com tudo o que se puder conseguir. Não acredito que algum dia se possa dar uma definição de história mais satisfatória do que esta”. 78 Le Goff nos diz que assim também considerou Lucien Febvre, ao concordar que a história se fazia de documentos escritos, quando há estes, mas que também poderia ser feita de tudo o que, sendo próprio do homem, dele depende, serve, exprime, torna significante a sua presença, atividade, gostos e maneiras de ser. Le Goff atesta também a posição de Bloch, que havia declarado a diversidade dos testemunhos históricos como quase que infinita, e para quem tudo o que o homem diz ou escreve, tudo o que fabrica, tudo o que toca pode e deve informar-nos sobre ele79. Estes documentos, cuja gama de possibilidades pode ser ampla, só o são quando assim são classificados pelo historiador. Ainda de acordo com Le Goff, “só passa a ser documento na seqüência de uma investigação e de uma escolha” e prossegue: “antes de mais nada, [o historiador] deve decidir-se sobre aquilo que irá considerar documento e o que irá rejeitar”.80 Se o documento é fundamental para a construção do conhecimento histórico, é preciso certificar-se de que o documento é válido e, para isso, partimos para a crítica documental. Félix alerta para a necessidade de ter uma postura crítica diante do documento, examinando suas condições de produção, porque “nenhum documento é inocente”, e sim, resultante de situações

77

Idem, pp. 61-62. FURET, François. O Historiador e a História, um relato de François Furet. Entrevista concedida a Aspásia Camargo. Estudos Históricos, Rio de Janeiro: n. 1, 1988, p. 161. 79 LE GOFF, op. cit. p. 107. 80 Idem, p. 106. 78

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específicas, próprias, que cabe ao pesquisador desvendar. 81 Le Goff demonstra de forma mais aprofundada que, tradicionalmente, existem dois tipos de crítica: uma interna, ou de autenticidade, e outra externa, ou de credibilidade: A crítica externa visa essencialmente encontrar o original e determinar se o documento examinado é verdadeiro ou falso. É uma atuação fundamental e exige sempre duas observações complementares. A primeira é que um documento “falso” também é um documento histórico e pode ser testemunho precioso da época em que foi forjado e do período durante o qual foi considerado autêntico e, como tal, utilizado. A segunda é que um documento, nomeadamente um texto, pode sofrer, ao longo das épocas, manipulações aparentemente científicas que de fato obliteram o original. (...) A crítica interna deve interpretar o significado dos documentos, avaliar a competência de seu autor, determinar sua sinceridade, medir a exatidão do documento, controlá-la através de outros testemunhos. [...] As condições de produção do documento devem ser minuciosamente estudadas.82

Da problematização, seleção, análise e crítica dos documentos, chegamos a um dos objetivos da história, que é gerar conhecimento. Félix, citando Veyne, diz que: A história é, por essência, conhecimento; é também uma narrativa de eventos, mas que permite entender apenas alguns problemas porque existem limites impostos ao historiador. Esses limites decorrem da própria compreensão do que seja o evento, que, em nenhum caso, é apreendido de maneira direta e completa, mas, sempre, incompleta e literalmente por documentos ou testemunhos, ou seja, por tekmeria, por indícios.83

Em síntese, ainda que o conhecimento histórico seja construído, é mais correto afirmar que está “em construção” e nunca “construído”, ou seja, acabado. Toda a explicação do passado histórico é resultante de escolhas, de

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FÉLIX, op. cit. p. 83 LE GOFF, op. cit. p. 110. 83 FÉLIX, op. cit. p. 83 82

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olhares, de interpretações, e estas estão sujeitas a conceitos e referências que mudam de acordo com o tempo em que o estudo é efetivado.

1.3 Memória e História, História e memória A memória, com efeito, só conheceu duas formas de distinção: histórica e literária. Estas formas foram exercidas paralelamente, mas até hoje, separadamente,84 como afirma Pierre Nora. A partir desta afirmação, o autor revela que a memória precisaria da história para firmar-se como saber histórico. Apesar de tanto memória quanto história estarem, cada qual a sua maneira, relacionadas a um passado, elas diferem uma da outra. Citando Félix: Halbwachs já demonstrou, antes de Pierre Nora difundir a idéia, que memória e história não são a mesma coisa. A memória liga-se à lembrança das vivências, e esta só existe quando laços afetivos criam o pertencimento ao grupo, e ainda os mantém ao presente.85

Nora mesmo ajuda a corroborar esta afirmação: Memória, história: longe de serem sinônimos, tomamos consciência de que tudo opõe uma à outra. A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos, e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, suceptível de longas latências e de repentinas revitalizações. A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história, uma representação do passado.86

84

85 86

NORA, op. cit. p. 28.

FÉLIX, op. cit. p. 39. NORA, op. cit. p. 9

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Além da já citada relação com o passado, Rodrigues aborda a perspectiva do presente em relação com a memória e a história: Memória e história são posições diferentes com que o presente vê o passado. Elas têm significado diferente e devem ser usadas com propriedade. [...] A memória petrifica, marmoriza, fossiliza, estratifica. A História é análise, é crítica, é vida que flui e muda de acordo com as necessidades sociais, econômicas do presente e as aspirações e esperanças do futuro.87

Por sua vez, Le Goff afirma que a relação entre memória – onde cresce a história, e que por sua vez dela se alimenta – procura salvar o passado para servir não apenas ao presente, mas igualmente ao futuro.88 Temos, nestas três perspectivas (passado, presente, futuro) as visões e usos que memória e história provocam com relação ao tempo, tornando vazia a relação simplista de ligá-las somente ao passado. Prosseguindo nas diferenciações entre memória e história, Félix diz que: O registro histórico, por não ser afetivo, e sim, operação intelectual, permite (e exige) o distanciamento, a problematização, a crítica e a reflexão sobre as memórias. A memória, por seus laços afetivos e de pertencimento, é aberta e em permanente evolução e liga-se à repetição e à tradição, sacralizando o vivido do grupo social. A história, ao contrário, dessacraliza a memória, constituindo-se tão-só em representação do passado.89

A memória é então, objeto da história, pois esta se apropria daquela. Segundo Seixas, A apropriação da memória pela história [...] que se viabiliza, em grande medida, pela consciência historiográfica que se 87

RODRIGUES, José Honório. A tradição, a memória e a história. Brasil Tempo e Cultura 3. João Pessoa, Secretaria da Educação e Cultura Estado da Paraíba, 1980, p. 220 apud FÉLIX, op. cit. p. 41 88 LE GOFF, op. cit. p. 477. 89 FÉLIX, op. cit. p. 40.

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constitui, desde Tucídides, realizando precisamente a crítica da memória, desincompatibilizando-se com ela. Ou seja, a historiografia deixando de se colocar como um dos campos constitutivos da memória para posicionar-se “fora” dela, numa postura vigilante e crítica: sobre a memória paira, doravante, nesse longo percurso em que a história busca se constituir como um saber científico, o “olho” vigilante da história.90

Nora defende que não se trata de memória e história, mas memória em história, uma vez que é a memória que dita e a história que escreve. 91 E ainda afirma que é impossível, hoje, operar-se numa distinção clara entre memória coletiva e memória histórica, pois a primeira passa necessariamente pela história, é filtrada por ela92. A pesquisa das memórias para produzir conhecimento histórico exige, hoje, a instauração de um novo tipo de relações com o passado, segundo Félix. Para ela, deve-se: Em primeiro lugar, afastar-se da ilusão positivista de que o passado é totalmente cognoscível [...] hoje, ao contrário, sabemos que muitas vezes a voz do passado é inaudível e que muitos aspectos são inacessíveis e perdidos para o observador. Além disso, sabemos também que o acontecimento pode apresentar novas dimensões na medida em que o presente projeta novas luzes sobre o passado, iluminando-lhe dimensões que somente são percebidas pelas luzes oferecidas pelas perguntas do presente.93

Apesar das diferenças e relações entre memória e história, e dos usos que esta faz daquela, é preciso destacar a crítica que a história faz da memória, como afirma Nora: No coração da história trabalha um criticismo destrutor de memória espontânea. A memória é sempre suspeita para a história, cuja verdadeira missão é destruí-la e a repelir. A história é deslegitimação do passado vivido. No horizonte das 90

SEIXAS, Jacy Alves de. Percursos de memórias em terras de história. Problemáticas atuais. In Brescini, Stela; Naxara, Márcia (orgs). Memória e (res)sentimento: indagações sobre uma questão sensível. Campinas: Unicamp, 2004, p. 43. 91 NORA, p. 24. 92 SEIXAS, op. cit. p. 40 93 FÉLIX, op. cit. pp. 59-60.

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sociedades de história, nos limites de um mundo completamente historicizado, haveria dessacralização última e definitiva.94

Afirmação semelhante quem faz é Le Goff, quando diz que: As memórias tornaram-se pouco a pouco elementos paralelos à história [...] pois que a complacência dos autores perante si mesmos, a procura de efeitos literários, o gosto pela pura narração desviam-nos da história e transformam-se num material – relativamente suspeito – da história: agrupar historiadores e memorialistas só é concebível numa perspectiva puramente literária95.

Mas, quando essa memória, efetivamente, vira história? Se toda a crítica é feita para a relação memória-história, em algum momento a interação resultará em conhecimento histórico. Para poder usar a memória como construtora de história, é preciso antes a comparação, alargar os horizontes com novas perspectivas, distanciar-se do objeto, como bem afirmou VidalNaquet: “así como el viajero tiene uma visión muy distinta de um monumento cuando apoya la nariz contra él que cuando toma distancia, la memoria enriquece la perspectiva histórica al permitir la comparación, al abrir las ventanas em distintas direcciones”.96

A partir daí, a memória torna-se legível ao historiador e pode virar história pelas mãos deste. Em suma: A história trabalha com a idéia de um ordenamento possível de suas fontes – linear, lógico, formal, seqüencial – como forma de tornar legível a memória. Ao se tornar legível, a memória faz-se história. É desta perspectiva que se deve compreender a idéia da discursividade da história. A memória, material com o qual o historiador lida, só é legível pela sua “tradução” em 94

NORA, op. cit. p. 9. LE GOFF, op. cit. p. 112. 96 VIDAL-NAQUET, Pierre: Los judios, la memória y el presente, Introducción, Fondo de Cultura Económica, Argentina, 1996, p. 15. 95

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palavras, mais uma vez enquanto discurso. Discurso maleável, manipulável, normalizado, porém disposto a ser arranjado de forma diferente por cada uma das pessoas (estilo) num suporte físico (documento).97

Finalmente, tanto memória quanto história são seletivas por definição. 98 Implicam em uma eleição de fatos, eventos, esquecimentos, silêncios, descrições, em detrimentos de outros. Ambas não se confundem com a realidade, como bem afirmou Vidal-Naquet,99 mas são uma boa perspectiva de realidade. E essa perspectiva, que é desejável que seja o mais próximo fiel aos acontecimentos (ainda que nunca totalmente provável) deve ser utilizada, conforme Félix, “como instrumento de construção, isto é, quem tiver a memória e consciência histórica, com mais segurança será dono do presente e do seu futuro”, 100 pois, segundo ela, "todo o grupo social que esquece seu passado, que apaga sua memória é mais facilmente presa de artimanhas e interesses de grupos; penaliza seu presente e desorienta-se diante do futuro"101. Neste cenário é que a história justifica-se e impõe-se como fundamental no conhecimento que se traduz em poder. A memória, por si só, nunca é crítica. Ao ser confrontada e utilizada pela história é que passa a ter valor histórico e, legitimada enquanto saber científico, possibilita operar no sentido em que Le Goff defendeu, ou seja, que sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.102 O que trouxemos acima é apenas uma construção, um recorte de conceitos já conhecidos, organizados e expostos de forma a servir como base para nosso objetivo de articular a memória produzida a partir dos relatos de Angelo Dourado e suas relações com a história, ou melhor, com o conhecimento histórico-acadêmico.

97

MURGUIA, Eduardo Ismael; RIBEIRO, Raimundo Donato do Prado. Memórias, Histórias e Novas Tecnologias. Impulso, Piracicaba: v.12 n.º 28, 2001, p. 185. 98 VIDAL-NAQUET, op. cit. pp. 16. 99 Idem, p. 17. 100 FÉLIX, op. cit. p. 17. 101 FÉLIX, op. cit. p. 17. 102 LE GOFF, op. cit. p. 477.

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Partindo da distinção entre os conceitos de memória e história, classificamos o livro Voluntários do Martírio103 como um trabalho de memória, e Angelo Dourado, por conseguinte, de memorialista. Optamos por classificar o autor como memorialista por entendermos que ele produziu um trabalho cuja base foi a memória, não a história104. Enquanto memória, faz-se necessário conhecer quem foi Dourado para melhor entendermos seus relatos. Só assim poderemos alcançar a dimensão e o significado do que, como e para quem narrou.

2.1 Alguns dados biográficos Dos pesquisadores que abordam a Revolução Federalista de 1893, muitos fazem uso da obra Voluntários do Martírio, quando pretendem tematizar a respeito dos episódios desta guerra. Paradoxalmente, estes mesmos pesquisadores não se perguntam, efetivamente e de forma sistemática, quem foi seu autor. Se da obra muito se utilizou, do autor pouco se indagou. São escassas e, em sua maioria, antigas as fontes que lhe creditam algumas linhas. Infelizmente, não há dados biográficos substanciais conhecidos para que possamos narrar aqui, de maneira aprofundada, quem foi Angelo Cardoso Dourado. A respeito do autor, menos de uma dezena de obras dedicam-lhe linhas, e mesmo nelas não há nada de expressivo ou substancial. Em alguns casos são somente verbetes, em outros, rápidas citações. As mais conhecidas são listadas pela editora Martins Livreiro, responsável pela edição fac-similar da edição original de 1896105. Para traçarmos um breve perfil biográfico de 103

DOURADO, Angelo. Voluntários do Martírio: narrativa da revolução de 1893. Ed. fac-similada de 1896 / Apresentação da obra Sérgio da Costa Franco; coordenação Rodrigues Till. Porto Alegre: Martins Livreiro – Editor, 1977. 104 Apoiamo-nos também em FLORES, Hilda A. H. Apresentação. In EICKHOFF, João. O Doutor Maragato. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 1994, p. 7, onde a autora classifica Dourado de memorialista, e também em FLORES, Moacyr. Historiografia da Revolução Federalista. In FLORES, Moacyr (org). 1893-95 A Revolução dos Maragatos. Porto Alegre, EDIPUCRS, 1993, pp 126-127, que situa a obra de Dourado no grupo de “memórias”. 105 Na apresentação da edição de 1977, a editora cita as seguintes referências: BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Tip. Nacional,

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Dourado, utilizamos, além das informações compiladas por Martins Livreiro, os livros de Jorge Reis, Francisco das Neves Alves, Cláudio Boucinha e Elizabeth Fagundes106. Para apresentar Dourado, partimos de duas frentes: a primeira com base na bibliografia disponível e a segunda através de seus próprios registros. Das obras que tivemos acesso, extrai-se muito pouco: sabe-se que era baiano e médico formado pela Faculdade de Medicina de Salvador 107 de onde migrou para o Rio Grande do Sul, mais especificamente, para a cidade de Bagé. Nesta cidade, atingiu alto posto na estrutura político-administrativa, inclusive compondo a primeira junta governativa do município por ocasião da Proclamação da República. Conforme Reis:

Por acto do general governador do Estado, de 24 de fevereiro [1890], foi dissolvida a câmara municipal, sendo nomeada uma junta administrativa [...] composta dos srs dr. Ângelo Dourado, Cornélio Vieira da Silva e João Antonio Damé, sob a presidência do primeiro. 108

Cargo, aliás, que ocupou de forma efêmera, sendo destituído deste em 28 de julho do mesmo ano 109. 1883, pp. 86 e 435; CALMON, Pedro. História da Literatura Bahiana. Rio de Janeiro: José Olympio, 1949, pp. 137 e 149; CESAR, Guilhermino. História da Literatura do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1956, p. 369; GIFFONI, O. Carneiro. Dicionário Bio-Bibliográfico Brasileiro de Escritores Médicos. São Paulo, Nobel: 1972, p. 90; MELO, Luiz Correia de. Subsídios para um Dicionário dos Intelectuais Rio-Grandenses. São Paulo: Empr. Graf. Ver. Dos Tribunais, 1944, p. 127; SOUZA, Galante de. O Teatro no Brasil. Rio de Janeiro: INL, t. II, 1960, p. 211; VELHO SOBRINHO, J. F. Dicionário Bio-Bibliográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Pongetti, vol. 1, 1937, p. 381 e VILLAS-BÔAS, Pedro Leite. Notas da Bibliografia Sul-rio-grandense. Porto Alegre: Ed. A Nação/SEC, 1974, pp. 169-170. 106 Respectivamente REIS, Jorge. Apontamentos Historicos e Estatisticos de Bagé. Bagé: Typ. do Jornal do Povo, 1911; ALVES, Francisco das Neves. Sociedade e saúde pública no Rio Grande do Sul: ensaios históricos. Rio Grande: Fundação Universidade Federal do Rio Grande, 2005. BOUCINHA, op. cit. e FAGUNDES, Elizabeth Macedo de. Bagé no caminho da História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Martins Livreiro Editor, 1995, p. 85. 107 Como atesta CALMON, Pedro. História da Literatura Bahiana. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1949, p. 149. 108 REIS, op. cit. p. 97 109 Idem, p. 101.

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O pesquisador Sérgio da Costa Franco afirma que Dourado era uma figura eminente dentro do Partido Federalista, quando de sua criação. Segundo Franco, Subscreveram o manifesto [do partido federalista, no Congresso de Bagé em 1892], além de Gaspar Silveira Martins, os três Silva Tavares – Joca, Francisco e José Bonifácio -, Rafael Cabeda, mais além uma figura estelar do Partido, o médico Ângelo Dourado, cronista da obra Voluntários do Martírio, e outras figuras de destaque.110

Desde cedo demonstrou interesse pelas letras. Publicou, aos 20 anos, o drama O Médico dos Pobres, que segundo Boucinha, citando Blake, foi elogiado pela imprensa da época 111 . Após a publicação de Voluntários do Martírio (1896), quase nada mais se sabe, a não ser que morreu em Rio Grande, Rio Grande do Sul, em 1905 112 . Através de sua obra-maior, porém, temos outras informações: era casado com uma moça de família tradicional, como percebemos na passagem “Quando te uniste a mim já me conhecias e foi por isso que eu te amei, não foi a tua belleza, não foi o teu nome tradicional de Família”113; serviu às forças federalistas como coronel médico, na coluna de Gumercindo Saraiva, apesar de, segundo declaração do próprio Dourado , não ser militar fora da guerra civil114. Com a família, fora forçado, segundo ele, a migrar para o Uruguai115 após a deposição de armas em Bagé: “eu fugi de Bagé, 110

FRANCO, Sérgio da Costa. O Partido Federalista. In República Velha (1889-1930) / coordenação geral Tau Golin, Nelson Boeira; Diretores dos volumes Ana Luiza Setti Reckziegel, Gunter Axt. – Passo Fundo: Méritos, 2007 – v.3 t.1 – Coleção História Geral do Rio Grande do Sul, p. 135. 111 BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Tip. Nacional, 1883, 1º vol. p. 86 e 435, apud BOUCINHA, op. cit. p. 11. 112 FAGUNDES, op. cit. p. 85. 113 DOURADO, op. cit. p. 8. 114 Idem, p. 407. 115 A escolha do asilo no Uruguai evidencia prática comum na época. Além da proximidade com a fronteira geográfica, a migração de brasileiros para o país vizinho, em tempos de conflitos internos, se dava de maneira continua e a escolha, natural. Segundo Ana Reckziegel, entre junho de 1892 e fevereiro de 1893 houve uma saída estimada de mais de dez mil brasileiros rumo à república vizinha. (Conforme RECKZIEGEL, Ana Luiza Setti. 1893: a revolução além fronteira. In República Velha (1889-1930) / coordenação geral Tau Golin, Nelson Boeira; Diretores dos volumes Ana Luiza Setti Reckziegel, Gunter Axt. – Passo Fundo: Méritos, 2007.- v.3 t.1 –Coleção

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porque amigos sérios e circumspectos me obrigaram a isso porque sabiam que no outro dia eu seria morto por ter censurado o procedimento do Sr. Castilhos mandando forças que vinham assassinando e roubando...”116 E, ainda sobre o asilo forçado: Esta terra aonde me exilo é boa, seus habitantes mostram a energia dos tempos antigos.” [...] Mas, a idéia de que estou aqui emigrado, os crimes, os horrores que campeam impunes no solo pátrio, me fazem pensar que só depois de ferido em combate teria o direito de pedir asylo em terra extranha.117

Finalmente, há o registro de que, ao menos no momento em que realizava os registros da guerra, era pai de quatro filhos. Eram eles: o primogênito Angelo 118 as meninas Chiquinha e Laura 119 além do recémnascido Telêmaco120. Estas informações, ainda que poucas, fornecem-nos bases para afirmações. Como médico e, posteriormente, presidente da junta municipal, podemos afirmar que fazia parte da elite 121 sócio-econômica de sua terra adotiva e, como tal, participava ativamente do debate e acontecimentos políticos do seu tempo, seja no governo ou fora dele. Podemos afirmar também, que Dourado acreditava firmemente no poder de convencimento da palavra escrita, e a usava sempre que possível. História Geral do Rio Grande do Sul, p. 33. O testemunho de Dourado também indica tal prática, encontrada no registro da invasão do Brasil com as forças de Gumercindo Saraiva: “Não se via na campanha senão grupos que fugiam para as bandas do sul [...] porque abandonavam os pagos, a casa que os vio nascer...” DOURADO, op. cit. p. 4. 116 Idem, p. 427. 117 Idem, p. 12. 118 Idem, p.17. 119 Idem, p. 19. 120 Idem, p. 339 e 340. 121 Não pretendemos aqui empreender uma discussão do termo elite nos diferentes momentos da história, ou se o correto é a ou as elites, por não ser o objeto deste trabalho. Utilizaremos, como referencial para sua aplicação, o significado atribuído por Travis Jr, onde define o termo como sendo “Elite, em sua significação mais geral, denota um grupo de pessoas que, numa sociedade qualquer, ocupam posições eminentes. Mais especificamente, designa um grupo de pessoas eminentes num determinado campo – principalmente a minoria governante”. (TRAVIS JR, Martin B. Elite. In: Dicionário de Ciências Sociais. Coordenação Benedito Silva. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1986, p. 389).

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2.2 Um doutor de letras Dourado, desde muito cedo, já demonstrava certa inclinação às letras. Já aos vinte anos publicou um drama O Médico dos Pobres, em 1876. Antes disso, aos 14 anos, enquanto se convalescia de tifo, relata que escreveu seu primeiro drama, a respeito da vida de Jesus Cristo. Ao mostrar para sua mãe, foi censurado por ser cópia do que lia para sua avó nos “livros sagrados”122. Não contente, mostrou para a mesma avó, desejando obter a aprovação desta: “Lendo para minha avó ella achou muito bom, e até comparava a minha declamação com a do Vigario Villas-Boas”123. Além de O Médico dos Pobres e Voluntários do Martírio, publicou, após este último, As Minas de Ouro, dramas sertanejos (1897); O Impaludismo no Rio Grande do Sul (1900) e Reforma Constitucional (póstumo - 1912)124, além do raro Ophtalmia virulenta (1899) 125 A paixão pela escrita se evidencia em Voluntários do Martírio. Conquanto não estivesse ocupado cuidando de feridos ou marchando, dedicava seu tempo à leitura e a escrita. Teve tempo para escrever outro drama: Foi por isso que ali, meditando ante aquele quadro, onde a bondade e a justiça eram sacrificadas, suggerio-me o plano de um drama, Magdalena, e ali mesmo tracei-o na minha carteira; e como talvez não seja executado, deixo-t´o n´esta carta126.

E segue a narrativa do drama, em registro que se estende ao longo de quatro atos, ou 12 páginas na versão impressa de Voluntários do Martírio. O que, aparentemente, é um recurso utilizado por Dourado como forma de abster122

DOURADO, op. cit. p. 99. Idem, ibidem. 124 BOUCINHA, op. cit. p. 11. 125 ALVES, Francisco das Neves. Sociedade e doença no Rio Grande do Sul da virada do século XIX: o estudo de um médico revolucionário. In ALVES (2005) op. cit. p. 53. 126 DOURADO, op. cit. p. 87. 123

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se, ao menos que por uns instantes, da guerra e dos horrores presenciados, revela-se, na verdade, em mais uma crítica metafórica do seu presente e no qual identificamos elementos de natureza política. Através da narrativa aparecem características que também apareciam quando escrevia suas impressões acerca do tempo em que vive. Por exemplo: para Dourado, o povo, brasileiro de modo geral e sul-rio-grandense de modo específico, é um povo “bestializado”. Em suas palavras: “Mas o Brasil bestialisado não pensa n´isso [a guerra civil]. Suporta quem o cavalgue, quem faça dele a besta...” 127 Também encontramos declarações similares nos trechos “como se arredaria o obstáculo do caminho dessa sphinge [referindo-se a Castilhos] que tem traçado seu plano de domínio sobre este povo „bestialisado‟?”128 e, finalmente “que o povo brasileiro sempre calmo, sempre gozando de liberdades, que poderia ser considerado como ordeiro na ordem moral, não podia, passada a bestialisação, supportar o julgo que lhes lançaram.”129 Em seu drama, após reflexões acerca da corrupção, ambição, indisciplina e crime presentes na Roma dos imperadores, o povo romano também seria bestializado: Tal é a história d´essa Roma até Cezar que os opprime e cuja sorte será também a de seus antecessores. Si os decuriões servem-se dos soldados para matarem os Imperadores e elegerem um que lhes seja propicio, ou acclamar um d´elles mesmo Imperador, os soldados por sua vez matarão os decuriões para substituil-os também [...] Os povos bestialisados têm o mesmo fim. A traição e a cobiça é que os dominam. Hoje um denuncia a Antipas o seu próprio irmão para mandal-o matar. Amanhã um outro o denuncial-o-á e elle terá a mesma sorte.130

Além de Magdalena, a metáfora entre o passado bíblico e o tempo presente repete-se nas reflexões por ocasião da aproximação do Natal de 1894. Percebemos a associação entre as figuras de seus antagonistas Julio de

127

DOURADO, op. cit. p. 346. Idem, p. 6. 129 Idem, p. 170. 130 Idem, p. 89. 128

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Castilhos, identificado como Pilatos, e Floriano Peixoto associado a César, como se observa no trecho: Enquanto Pilatos, para não perder o seu logar de Procurador de Cesar, desgostando os judeus que amavam a escravidão, por lhes dar direito á expoliação do povo de quem se tornavam senhores, povo dos escravos que não podendo reagir contra os opressores tornava-se feroz contra seus irmãos no soffrimento, pagina escripta há dois millenarios, e tornada real na actualidade brazileira, lavava as mãos da innocencia pelo sangue d´Aquelle justo, os escribas davam suas sentenças131.

O exercício das metáforas vai além daquelas cujo cenário era o religioso. Usava outras histórias, sempre com o objetivo de associá-las com o cenário político em que vivia. Durante o tempo em que Dourado esteve no Paraná, em virtude dos deslocamentos da coluna de Gumercindo Saraiva para além do território sul-rio-grandense, escrevia eventualmente para dois jornais locais. Em pelo menos um momento, publicou mais um conto que trazia sua mensagem política: Eu tenho escripto nos dois jornaes da terra; n´um delles escrevi uma espécie de lenda sobre as desgraças da Índia, devidas á divisão do seu povo por causa das ambições; divisão que obrigou á ser dominada por um punhado de estrangeiros. Creio, porem, que elles lêem os meus contos indús, julgam ser uma historia para passar o tempo e não se compenetram de que o que eu digo ter-se passado há muitos annos na Índia é o que se está passando entre nós, e que o resultado será a nossa desgraça.132

Nota-se, ao longo dos seus apontamentos, todo o cuidado e zelo ao escrever. Mesmo nos momentos em que antecediam ou sucediam às batalhas, Dourado se mostra um narrador cuidadoso, atento às minúcias. Deste modo, descreve a geografia das diferentes regiões visitadas: “o terreno onde se travou a batalha é desigual. Uma cochilha central de onde partem outras pequenas

131 132

Idem, p. 378. DOURADO, op. cit. pp. 181-182.

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como os dedos de uma mão aberta...” 133 e também os tipos humanos que a coluna encontra no caminho, como os alemães, por exemplo, onde procede a descrição detalhada de como é a vida numa colônia que ele conheceu – seus bailes, vestimentas costumes, casamentos, etc 134 . Impressiona-o também, a ponto de registrar, como este povo confere regalias aos seus cavalos, dando de beber, inclusive, antes deles próprios saciarem sua sede135. Não merece menos detalhamento sua observação a respeito dos indígenas que encontra próximo à região de Passo Fundo: As mulheres são que conduzem tudo que elles possuem; mas nada collocam sobre os ombros [...] os homens caçam ou dormem [...] as creanças são alegres e travessas, as masculinas, mesmo diante de estranhos ellas brincam e saltam com os outros como cabritos [...] as meninas são quietas, dir-se-ia melancholicas, e pensativas...136

Mesmo quando falava de si, dos medos e agruras do que vivia diariamente na guerra, não deixava de conferir um certo ar poético ao que descrevia: “corra o pranto! Este suave orvalho da alma do esposo e pai que não indica fraqueza...”137. A importância da escrita em sua vida fica evidente quando fazia questão de rememorar, em seu passado, a sua atividade de escritor: “relembrou-me os meus tempos acadêmicos, os meus ensaios literários...” 138. Fazia questão de registrar, também, quando era identificado às letras: Sahi. Acompanharam-me o chefe e outros officiaes. Barros Falcão apresentou-me a sua jovem senhora que estava sentada entre outras. Aqui está Angelo Dourado, o auctor do Medicos dos pobres. Ella commovida perguntou-me: E sua mulher?139

133

Idem, p. 41. Idem, pp. 129-132. 135 Idem, p. 135. 136 Idem, p. 235. 137 Idem, p. 77. 138 Idem, p. 49. 139 DOURADO, op. cit. p. 51. 134

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Tudo isso tornava clara a importância que dava às letras. Não causa espanto, portanto, que considerava a alfabetização o motor da civilização, conforme verificamos em sua declaração a respeito do tratamento que recebe a educação na vizinha República Oriental do Uruguai: “o estado oriental será a 1ª nação civilizada da América do Sul, porque ensina seus filhos a ler.” 140

2.3 Posturas políticas Por tudo que afirmamos, ficamos à vontade em dizer que, se a sua formação era a Medicina, uma de suas grandes paixões era a escrita. Esta, por sua vez, andava lado a lado com uma outra: a política. Uma servia de combustível e instrumento à outra, como vimos através de seus relatos. Ambas andavam interligadas e revelavam um Angelo Dourado com uma posição política forte, porém, nem sempre tão bem definida.

2.3.1 Republicano, pero no mucho Se levássemos em conta apenas suas declarações taxativas que aparecem ao longo do livro, afirmaríamos que Angelo Dourado era republicano. Se ponderarmos que fora ele indicado, pelas autoridades republicanas constituídas, o primeiro presidente da junta governativa da cidade de Bagé, assim que instaurada a República, também seríamos levados a crer que ele era republicano. Porém, uma leitura mais atenta de Voluntários do Martírio revela que o autor tende, senão à restauração141, pelo menos a uma visão “simpática” à Monarquia. 140

Idem, p. 330. Os federalistas eram freqüentemente acusados pelos legalistas de lutarem pela restauração monárquica, como afirma, entre outros, Félix: “Mesmo diante dos manifestos federalistas, acentuando que a Revolução era contra a tirania de Castilhos e não para restaurar a monarquia, os editoriais [de A Federação] registram freqüentemente, em determinados períodos, diretamente com 141

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Quando confrontado, apressava-se em se declarar republicano, ainda que com ressalvas quanto ao tipo de república existente no país: Declarei-lhe que, por minha índole, e desde a mocidade, o que provei com o testemunho de Barros Falcão, fora sempre republicano, mas não desejava uma república militar [...] as republicas assim só tem uma máxima que é “mata, se não queres ser morto”.142

Mas criticou a república como forma de governo, verificado na seguinte passagem: [na república] o governo é restrito a pequeno espaço de tempo; não tem a necessidade de preparar terreno para seus sucessores serem bem-sucedidos, ao contrário, erissar seus espinhos o caminho que tem de percorrer o que vier, para que seja peior do que elle, parece ser a preocupação d´elles 143

Também não poupou críticas à república brasileira daquele momento, que, segundo ele, apresentava falhas e defeitos já na sua origem: [...] a republica que nasceu fraca porque o terreno não estava preparado, que nasceu criminoza porque foi filha de uma traição, porque quem a proclamou [referindo-se a Deodoro da Fonseca] trahiu o juramento que prestara de defender com a vida e com a honra o que ella destruiu [o Império].144

Declarações suas ao longo de Voluntários do Martírio põe em cheque sua afirmação de ser republicano, como no seguinte trecho:

a idéia da restauração” (FÉLIX, Loiva Otero. Mito e Alegoria: O Universal e o Nacional na Luta Federalista. in ALVES, Francisco das Neves e TORRES, Luiz Henrique. Pensar a Revolução Federalista. Rio Grande: Ed. da Furg, 1993, p. 160) além do próprio Dourado: “um moço official de nome Americano, aparteou-me dizendo que a revolução é restauradora da monarchia.” (DOURADO, op. cit. p. 49) e “Disseram-me alguns que lutaram, porque se dizia que nós lutávamos pela restauração.” (Idem, p. 170) 142 DOURADO, op. cit. p. 50. 143 Idem, p. 104. 144 Idem, p. 300.

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Enfim, lhe disse eu, o meu pensamento é o seguinte: se esses homens que assassinam e roubam em nome da república, persistem em nos mandar matar, em vez de se levantar a bandeira da separação do Rio Grande, como pensam uns poucos que julgam que a nação é a culpada da perversidade de uns poucos rio-grandenses, eu preferiria que se levantasse a bandeira da restauração da monarchia145.

E segue: Se a republica continua a ser a assassina do Brazil, está commettendo um suicidio; portanto, para salvar a Patria só teriamos a restauração da monarchia, ainda que nos viesse um Belzebuth, com tanto que a unificasse sem sahir da lei.146

Ainda que estas declarações não se configurem como definitivas para afirmar que Angelo Dourado era monarquista, dadas as circunstâncias de guerra em que fez tais afirmações, encontramos indícios de simpatias sobre o regime monárquico que podem nos levar a considerar seriamente tal hipótese. Não esconde, por exemplo, sua admiração pelo período imperial, e especialmente pela figura de D. Pedro II, como assinalado no trecho em que conjectura o que aconteceria, na história do Brasil, caso Garibaldi não tivesse existido: “D. Pedro não teria começado seu reinado, hoje glorioso, e não teria sido o fiscal incansável do progresso de sua pátria”147[grifo nosso]. A julgar pelas suas opiniões sempre prontamente externadas, quando o objeto é a política, (a exemplo de suas críticas mordazes a respeito da república, Castilhos, Peixoto e etc), caso nutrisse antipatia pela monarquia seguramente deixaria registrado. E, em momento algum ao longo de todos os seus apontamentos fez qualquer referência negativa ao regime monárquico ou a figura do imperador, ao contrário de quando falava da república, onde não faltavam críticas. Digno de referência e registro é o trecho a seguir, onde cita uma prática de seu amigo, coronel Fulião:

145

Idem, p. 13. Idem, Ibidem. 147 . DOURADO, op. cit. p. 80. 146

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[...] o meu velho amigo coronel Macedo Fulião, é o mais característico. A´ tarde faz sua gente rezar ao terminar o fogo, pela manhã faz o mesmo antes de começar. Para principiar o fogo elle tem uma pratica imprescindível: Viva S.M. o Imperador! – Viva a antiguidade do Império! – Fogo! [...] Uma vez que assisti junto d´elle ao inicio do combate, fiz notar-lhe que isto não era correcto; que não temos imperador e sim republica148

E prossegue dando conta da contrariedade de Fulião. Interessante notar que Dourado não defende a república para o amigo, nem tampouco a enaltece, como fazia quando o assunto era o antigo regime deposto, ou a figura do imperador. Apenas atesta ser o Brasil uma república, nada mais. Inúmeras declarações, ainda que aparentemente atribuídas aos excessos dos governantes (Castilhos e Peixoto) igualmente sugerem a tendência monarquista. Após uma discussão acerca do estado atual das coisas, declara “[...] só a restauração poderia salvar o Brazil”149 E, adiante, sobre a forma como se deu a proclamação, de cima para baixo e não o contrário: “a nação não fez a republica; aceitou-a porque julgou-a boa”150. Em determinado trecho, Dourado faz referência a um alemão, agredido pelas forças legalistas e que, devido a “tantos castigos corporaes quase perdeu toda a pelle”151. Segundo ele, um boticário conservou no álcool alguns fragmentos desta pele, e Dourado pretendia presentear um museu (não especifica qual), por ser [...] uma boa preparação anatômica porque sendo tirada do vivo, conserva todas as suas ramificações venosas [...]. Irá com esta inscripção: “pelle humana de um teuto brasileiro [...] [morto] por agentes do governo do dr Julio Prates de Castilhos, no 4º anno da republica e segundo do governo do marechal Floriano Peixoto” 152.

148

Idem, p. 164. Idem, p. 171. 150 Idem, Ibidem. 151 DOURADO, op. cit. p. 60. 152 Idem. Ibidem. 149

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Se a intenção era responsabilizar Castilhos e Peixoto, é sintomático o fato dele associar o nome “república” a estes. Mencionando-a, enfatiza a ligação entre os horrores praticados e o regime estabelecido. É mais um elemento que reforça sua oposição ao regime republicano, ou, em última análise, ao governo constituído.

2.3.2 O assassino e o ditador Angelo Dourado opunha-se, como vimos, à república que se fizera no Brasil a partir de 1889. Criticava desde os governantes até a organização do Estado, como na questão do Exército permanente, que julgava inadequado: Tivéssemos uma republica honesta, sem exercito permanente, porque na hora da luta externa todo cidadão é soldado, sem fortunas rápidas feitas a custa das revoluções, os próprios monarchistas viveriam satisfeitos dentro della, porque ao homem não é a forma de governo que o preocupa, é a honestidade desse governo é a equidade da justiça153.

Mas os seus alvos preferidos, e que recebiam as mais contundentes críticas, eram, sem dúvida, Julio de Castilhos e Floriano Peixoto. Castilhos era definido como um assassino, o chefe de quem vinham as ordens de matar os inimigos federalistas: Se perguntarem aos nossos porque matam, elles responderão: Para não morrer, ou porque mataram os meus; mas se perguntar-se a elles porque nos matam, elles dirão: É pela legalidade e por ordem do chefe Julio de Castilhos154.

Igualmente pejorativo, era tratado como aquele que “vendera” o Rio Grande do Sul para Floriano “Qual a idéia que obrigou o sr. Julio de Castilhos

153 154

DOURADO, op. cit. p. 105. Idem, p. 248.

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a vender o Rio Grande ao sr. Floriano?”155 e, comparando-o a grande esfinge que devoraria quem se colocasse em seu caminho: “[...] como se arredaria o obstáculo do caminho dessa sphinge [Castilhos] que tem traçado seu plano de domínio sobre este povo „bestialisado‟?”156, ou seja, Castilhos era o grande e terrível monstro que exterminava sem hesitação todos aqueles que se pusessem em seu caminho. Finalmente, distingue aqueles que estão ao mando da legalidade, mas que não compartilham dos supostos lucros. Estes, por situarem-se em hierarquia subalterna, mesmo executando ordens de Castilhos, acabam não se beneficiando dos privilégios do poder, pois“[...] não tinham parte nos lucros do Sr. Castilhos e seus amigos, que lá estão em suas casas, no seio de suas famílias, ou nos Clubs...”157 ou seja, enquanto os soldados lutavam e entregavam a própria vida em nome da legalidade, Castilhos e os seus tinham asseguradas suas integridades físicas, dada a distância da guerra propriamente dita. Floriano, por sua vez, era definido como um ditador: “nosso objectivo era o Paraná, onde o dictador concentrava todos os recursos disponíveis” 158. Ainda a respeito de Floriano, mas agora sobre os soldados que o governo central enviava para as batalhas contra os federalistas, assim afirma: “[...] e o sr. Floriano fez d´elles presente ao sr. Julio de Castilhos para mandal´os ao matadouro contra seus irmãos [...] “Seu plano [de Floriano] está traçado: implantar o terror e se fazer o deus omnipotente” 159 . Para enfatizar o sentimento de antagonismo a Floriano Peixoto, utilizava, além do registrado textualmente como opinião sua nos relatos, também a opinião de pessoas com as quais supostamente conversava, como, por exemplo, no trecho em que narra a conversa com um conhecido argentino: O seu marechal, pelo que tenho lido, apezar de ser uma alta autoridade no exercito de sua terra, tem alcançado suas posições por trahição, dando assim um mau exemplo a seus

155

DOURADO, op. cit. p. 23. Idem, p. 6. 157 Idem, p. 5. 158 Idem, p. 147. 159 Idem, p. 5. 156

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subordinados; depois, talvez com medo da queda e da punição, manda destruir os bons e eleva os maus.160

Este diálogo teria sido, nas palavras de Dourado, o que o argentino falou para ele. Com isso, procurava demonstrar que a rejeição a Floriano existia por toda a parte, mesmo além-fronteiras. Ao registrar a opinião de outrem, corroborava e abonava as suas próprias. Finalmente, denuncia o tipo de relação estabelecida entre Castilhos e Floriano, baseadas, segundo suas afirmações, na falsidade e em um jogo de interesses: “[...] O Sr. Floriano foi denominado pelo Sr. Castilhos trez vezes trahidor, e hoje é o seu maior amigo, por que manda-lhe dinheiro, e homens do norte para morrerem, creio que com o fim de obrigar o Sr. Julio de Castilhos a dizer o contrario do que disse d´elle.161

Causa estranheza, porém, a forma como seus dois maiores adversários manifestos são tratados no final do livro, no capítulo intitulado “A Paz”. Ao longo das quatro páginas, em espaço onde faz uma espécie de balanço sobre a guerra civil, nenhuma crítica é nominalmente dirigida nem a Castilhos, nem a Floriano. A última referência de hostilidade à Castilhos é quando diz, referindo-se ao fato de não ter sido exigida a renúncia deste ao governo do Rio Grande do Sul como exigência à deposição de armas e assinatura do tratado de paz: “[não foi pedida a saída de Castilhos para] não colocal-o em condições de poder ter o direito de ser revoltoso”162. É a última referência ao antagonista. No capítulo reservado à paz, nem uma linha mais é dedicada aos antigos inimigos. A paz, poderíamos pensar, enfim fê-lo mais confiante no presente e nos rumos da república. Engano. Demonstra que tem a consciência de que a situação estava longe de ser resolvida, mesmo com a assinatura da paz. Diz: “o ato do general Galvão não será somente um armistício por um tempo mais ou

160

Idem, p. 301. DOURADO, op. cit. p. 314. 162 Idem, p. 414. 161

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menos limitado?” 163 Sem saber, o tempo daria razão às suas suspeitas: as antigas feridas da Revolução Federalista não cicatrizariam de todo, e em 1923 o Rio Grande do Sul era novamente o palco de mais um levante, dezessete anos após a morte de Angelo Dourado.

2.4 O memorialista 2.4.1 É válido se está escrito Se até aqui apresentamos, de forma sintética, quem foi Angelo Dourado, bem como algumas de suas percepções e opiniões, demonstradas na obra analisada, a partir deste momento iremos analisar seu discurso 164 percebido em Voluntários do Martírio. Aquilo que veio a ser posteriormente um livro surgiu na forma de vários apontamentos que, reunidos, formaram a obra em questão. Podemos perceber que, ainda nos primeiros registros, o autor não pretendia narrar suas memórias da guerra de forma ampla, ou para um grande público, sob a forma de um livro, tal formato acabou sendo constituído mais tarde. Mesmo porque, quando deixou a vizinha República do Uruguai não sabia ao certo os rumos – nem a duração – do conflito armado. A sensação frente ao perigo de morte no campo de batalha era tamanha que, ainda no princípio da narrativa, despede-se da esposa: “foi-se a noite [...] marchamos

163

Idem, p. 419. Ancoramo-nos na conceituação de discurso feita por Eni Orlandi, como sendo “o lugar em que se pode observar a relação entre língua e ideologia, compreendendo-se como a língua produz sentidos por/para os sujeitos”, considerando, segundo autora, que “não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia: o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a língua faz sentido” e, “a materialidade específica da ideologia é o discurso” onde estabelece a relação língua-discurso-ideologia. (ORLANDI, Eni. Análise de Discurso. Campinas: Pontes, 2002, p. 17). 164

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para a victoria ou para a morte. Adeus” 165 . Dourado escreveu este trecho, segundo registrou, após não dormir toda a noite, temeroso pela degladiação com o inimigo prevista para a manhã seguinte. Quando Dourado começou a efetuar seus registros, foi sob a forma de cartas – e não diários – as quais eram dirigidas à sua esposa Francisca. Na primeira delas, disposta no início de Voluntários do Martírio, primeiramente anotou local e data: “Serrilhada, 23 de julho de 1893” procedidos pelo nome de sua esposa “Francisca!”, sendo que a sua primeira frase nesta carta foi “Estamos no Brazil” 166 . Com estes dados, de características eminentemente epistolares, o autor situa o destinatário da sua correspondência quanto a localização espaço-temporal no momento em que escrevia a correspondência. A opção pela escrita é sintomática da intenção do registro da memória. Como afirma Rita de Queiroz, “a escrita é a contrapartida gráfica do discurso, é a fixação da linguagem falada numa forma permanente ou semipermanente. Por meio da escrita, a linguagem pode transcender as condições ordinárias de tempo e lugar”167, ou seja, suas idéias, opiniões, posturas, encontravam vazão no momento em que registrava-as de forma escrita. Enquanto o registro ainda era feito no formato “carta”, Dourado vai construindo uma narrativa que busca descrever os locais visitados, a experiência vivenciada, os dramas, as privações, os horrores, enfim, tudo o que observa e julga pertinente comunicar à esposa. As evidências de que se trata de uma carta (ou várias) são perceptíveis nos trechos: “[...] eu não pensava em mim, pensava em ti...” 168 e também em: “atei em uma lança a minha bandeira [...] feita por ti...”169. Este formato, que possui contornos de caráter privado, íntimo, revelase, conforme Maria Perez, num dos seus aspectos mais interessantes quando possibilita a própria subjetividade, a afirmação da escrita ocorre em momentos

165

DOURADO, op. cit. p. 21. Idem, p. 4. 167 QUEIROZ, Rita de C. R. de. A informação escrita: do manuscrito ao texto virtual. In Anais do VI CINFORM – Encontro Nacional de Ciência da Informação. Salvador: UFBA, 2005, p. 2. 168 Idem, p. 18. 169 Idem, p. 56. 166

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críticos como os de perigo para a vida, de isolamento da realidade familiar 170. Nestes momentos, “la escritura de cartas puede convertirse en lo único que une al sujeto con su propio yo, con los elementos que le conceden un reconocimiento, una identidad firme”171. O ato de escrever as palavras, torna-se uma necessidade vital172, pois, Dourado nem chega a afirmar que suas cartas foram efetivamente enviadas à esposa em algum momento. O que o autor informa, é que as cartas que Francisca escreveu-lhe não foram abertas (talvez respostas? Pedidos de notícias?), pois temia receber alguma notícia que os filhos estivessem mortos ou enfermos, e ele nada poderia fazer à distância. Prefere guardá-las e, “se não morrer, nós a leremos juntos e nos esqueceremos juntos do martyrio commum” 173 . A pertinente abordagem de Perez sobre o tema das cartas em momentos em que o homem encontra-se em meio a uma guerra, é mais uma vez útil à análise que ora fazemos de Angelo Dourado. Ainda de acordo com a autora, não se escreve tanto para contar coisas, senão para manter contato com os outros ou, quem sabe, consigo mesmo. “Nas cartas, chama a atenção a repetição das recordações familiares, do cotidiano deixado pra trás”174. Segundo Perez, “a função que cumprem as cartas escritas é a de ajudar a manter uma certa normalidade em momentos de desastre psicológico absoluto”175. Uma outra explicação interessante, e aplicável nesta análise, é a feita por Rebeca Gontijo, ainda sobre as cartas. Diz a autora que Considerando que o exercício da escrita visa a influir sobre a realidade, é possível supor que a carta, além de ser o instrumento de um dizer, também pode ser vista como uma forma de agir sobre o outro, sobre o mundo e sobre si mesmo. Esse agir possibilitado pela escrita de cartas mobiliza

170

PEREZ, Maria Del Carmen Rubalcaba. Prácticas de Cultura Escrita: Aproximaciones y Realidades. Tese de Doutorado. Santander, Universidad de Cantabria, 2004, pp. 377-378. 171 Idem, ibidem. 172 Idem, ibidem. 173 DOURADO, op. cit. pp 68-69. 174 PEREZ, op. cit. pp. 378-379. 175 Idem, ibidem.

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múltiplos recursos a fim de convencer, influir, demandar, resistir, etc., à distância.176

Dourado estaria assegurando, mesmo longe, a influência sobre a esposa, seja para dar-lhe forças para que resistisse à distância e às privações que eventualmente sofria com a ausência do esposo, seja para que ela acreditasse nos mesmos princípios que faziam com que Dourado permanecesse na luta, em campanha. Do mesmo modo, Dourado empreendia duplo convencimento: para o outro, mas também para si. Assim, o memorialista permanece empenhado em escrever suas cartas para Francisca, quando, em um determinado dia, (véspera do aniversário da esposa) escreve: “amanhã, 1º de novembro, devemos brigar, no dia do teu aniversário.”177 e quando teme a morte nas batalhas: “eu vou morrer, ou talvez matar [...] deixar orphaos nossos filhos” 178 . A figura do destinatário, de quem iria ler o que ele escrevia, permanece até o ponto em que faz uma última referência direta à esposa como destinatária de seus registros. Tal dado, encontramos no trecho em que narra, ao término de uma hospedagem que teve na casa de uma alemã, a despedida: “nada me quiz receber pela hospedagem e seu trabalho, e ainda deu-me um retrato para ti”.179 A partir deste ponto, verificamos a extinção da figura do destinatário em sua escrita. A narrativa ganha contornos de memória, sem um leitor específico definido, sem mais evocações à esposa. Vide a impessoalidade presente no relato da volta ao Brasil, após período na Argentina: “Abandonei a família, que toda felicidade encerra para mim, abandonei o meu Telêmaco aqui, apenas nascido, e hoje volto sem nada ter encontrado, sem de nenhum saber se é vivo...”180. É através da escrita que se dá o registro, a produção da memória, para o autor, cuja importância que dava à escrita era muito presente, como já fora

176

GONTIJO, Rebeca. História e historiografia nas cartas de Capistrano de Abreu. In História. São Paulo: v.24, n.2, p.159-185, 2005, p. 160. 177 GONTIJO, op. cit. p. 66. 178 DOURADO, op. cit. p. 67. 179 Idem, p. 146. 180 Idem, p. 339 e 340.

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exposta neste trabalho. Como Dourado participava ativamente do universo da política, tinha uma visão bastante crítica com relação à esta. Dizia: Fala-se em política, todo mundo é político, e predomina sobre elles o que leu em um artigo de jornal, e repete uma phrase picante de qualquer orador inútil e chato, mas que faz chegar ao gosto do populacho, segundo o que na ocasião lhe agradava.181

Porém, ao passo que lhe causava irritação os influenciáveis, reprodutores de idéias e argumentos políticos de outros, tentava ele próprio, de igual forma, influenciar seus contemporâneos através da palavra escrita. Faziao, sobretudo através da imprensa, sempre que possível fosse, afinal, parecia acreditar no alcance e poder da persuasão dos jornais em sua época, pois não desperdiçava chance de publicar artigos por onde passasse. Em Santa Catarina, também por força dos deslocamentos que fizera acompanhando a Coluna de Gumercindo Saraiva, Dourado registra: “Fonseca pediu-me em nome do redactor do jornalzinho da terra, algumas linhas para publicar...”182 e, em outra ocasião, desta vez em Corrientes, República Argentina: “[...] e depois [recebeu a visita] dos dois redactores dos jornais da terra, que pediram-me para escrever alguma coisa sobre nossa marcha, o que fiz e foi publicado em português” 183 Ora, como bem salienta Chartier, “não existe nenhum texto fora do suporte que o dá a ler, que não há compreensão de um escrito, qualquer que ele seja, que não dependa das formas através das quais ele chega ao seu leitor”184, por isso, em fins do século XIX a imprensa escrita era o meio mais rápido e eficaz de comunicação com uma coletividade. Além disso, a imprensa serviria para a divulgação das idéias e posturas políticas de Dourado. Episódios narrados em Voluntários do Martírio também reforçam que o memorialista era, não só por vontade própria, mas também por delegação de seus superiores, o narrador oficial do que se vivia nestas campanhas 181

Idem, p. 102. DOURADO, op. cit. p. 78. 183 Idem, p. 319. 184 CHARTIER, Roger. Textos, impressos, leituras. In ________. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difusão Editorial Ltda, 2002, p. 127. 182

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revolucionárias. Escreve Dourado que, em conversa com Gumercindo Saraiva, chefe militar de sua coluna, este diz: “Mas nós não havemos de morrer, e você se prepare para escrever, é o que lhe peço, e que narre um dia todos os nossos desastres e suas causas”185. Adiante, Dourado teria dito: Sim, e esse triumpho o tornara o primeiro da América do Sul, se essa retirada, quando for escrita, não bastasse para sagra-lo heroe! - E tu hás de escreve-la, Dourado [disse Gumercindo] - Sim, se não morrer [respondeu Dourado]186

Ou seja, estabelece-se a dupla característica de seus apontamentos: de um lado, carta para a esposa e memória pessoal e do outro, o registro “oficial” dos combatentes da coluna, conforme incumbência sugerida – ou imposta – por Gumercindo Saraiva. Além dos artigos em jornais por onde passou com as forças federalistas, Dourado preocupou-se de, tão logo findada a guerra, publicar seus relatos. Deste modo, quando ainda narra os episódios da assinatura da paz, sem demora, já cita que: “em Pelotas, busquei logo a Livraria Americana afim de providenciar sobre a publicação destas notas”187. Não se sabe se levado pelo desejo de perpetuar a memória construída no decorrer do período em que esteve marchando ou em combate, ou ainda se foi pelo capricho de romancista que era, ou ainda motivado por ambos. O prefácio do livro, pronto, indica o que da obra se abstrai, e que já fora citado: não se trata de “um livro meditado, é um jornal de impressões” 188. Apesar de registrar e narrar os fatos de que presenciou – e dos que ouviu falar – parece ter a consciência de que não estava escrevendo a história da guerra, pois, para isso, era preciso tempo e que se estudasse “cada facto nas suas origens, cada homem nos seus desejos”189. Para ele,

185

DOURADO, op. cit. p. 236. Idem, p. 244. 187 Idem, p. 414. 188 DOURADO, op. cit. p. 1. 189 Idem, Ibidem. 186

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Quem escrever essa historia indagando a genese de todos estes descalabros, se não conseguir accordar o paiz indicando o declive rapido que o leva á destruição, conseguirá muito no futuro da humanidade escrevendo a Bíblia exacta de um povo que desappareceu no interesse dos que se apregoavam de Messias da liberdade, da igualdade, da fraternidade, da ordem e progresso.190

Finalizando o livro, já fora da guerra e após procurar a Livraria Americana para que fosse publicado, Dourado demonstra preocupação com os “eventuais excessos” que teria cometido ao efetuar seus registros 191 . Deste modo, parece que procura eximir-se de qualquer excesso cometido, tanto nas informações que apresentava, quanto pelas que reproduzia.

2.4.2 A memória seletiva ou o que se queria registrar O livro de Angelo Dourado é, em síntese, uma versão. Como tal, privilegia uns fatos em detrimento de outros, e ao fazer a análise da escrita de Dourado percebemos quais quesitos são privilegiados e quais são omitidos, ou negligenciados por parte do autor192. Conforme afirmações anteriores, Dourado faz um registro detalhado do que vê: geografia, costumes, hábitos. Foi um observador atento e minucioso da paisagem e, sobretudo da figura humana, algo percebido logo no começo de sua narrativa: “Enquanto o general Salgado dava ordens, eu percorri a columna

190

Idem, Ibidem. DOURADO, op. cit. p. 421. 192 Não pretendemos entrar no mérito de certo ou errado, verdade ou mentira, pois a característica eventualmente notada na obra em questão não desqualifica a mesma. Interessa-nos, pois, evidenciar os pontos em que o autor revela tendência a privilegiar algo ou alguém, sejam eles de caráter ideológico ou sócio-político, e no que isso ajuda a compreender o desejo do autor ao efetuar seus relatos, ou seja, a construir sua memória. 191

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lentamente estudando cada physionomia, cada gesto...”193. Registrava também, desde as impressões mais cruéis da guerra, como quando afirma que “mortes, incêndios, destruição, estupros, são cousas tão comuns...” 194 até fatos triviais como quando, por exemplo, estando ele no Paraná, notou com surpresa certo hábito local: “A grande mania aqui é a dos fotógrafos [...] Já tive pedido de duas fotografias”195. Este detalhamento revela a preocupação com a forma e o estilo da escrita, mas também evidencia sua intimidade com as palavras. Tal característica facultava sua habilidade de efetuar o registro que desejava, mas sobretudo de expressar suas opiniões, o que faz ao longo de todos os seus relatos. Esclarecemos que, por não se tratar do objeto deste trabalho, não iremos nos ater aos acontecimentos da guerra relatados por Dourado, mas sim à estrutura narrativa através da qual o autor nos apresenta seu depoimento, de onde podemos buscar e analisar alguns de seus desejos e objetivos ao efetuar tal registro. Exemplos de bravura, de altruísmo, de humanismo, permeavam toda a narrativa. Isto, ao lado de suas opiniões e percepções acerca do seu tempo e realidade histórica, contém a mensagem de Dourado ao mundo, o que ele quer comunicar. Para além dos fatos que narra, o que se destaca é justamente a sua percepção da realidade em que vive. Para o autor, os federalistas eram “revolucionários” 196. Durante toda a narrativa, é com este termo que o autor define os seus companheiros. Usa “maragatos” apenas quando está sendo irônico, ou quando fala do pequeno grupo que acompanha Gumercindo Saraiva, justamente os espanhóis e descendentes oriundos da Maragatería, Espanha. Em apenas uma única referência chama os seus revolucionários de “federaes” 197. Já seus opositores, são geralmente chamados de “legalistas”, sendo que este termo aparece sempre destacado (em itálico, no livro), e, igualmente em apenas em um trecho são chamadas de “picapaos”198, acentuando a diferença e propósitos entre ambas as 193

DOURADO, op. cit. p. 4. Idem, p. 6. 195 DOURADO, op. cit. p. 160. 196 Idem, p. 146. 197 Idem, p. 255. 198 Idem, p. 359. 194

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forças antagônicas. Desta feita, já na conceituação estabelece a força motriz de cada uma, e legitima a atitude do levante federalista contra o governo: enquanto o primeiro age de forma a salvar a pátria 199, o segundo age somente para manter a legalidade, mas a legalidade a que se refere é a instaurada pela figura de Julio de Castilhos, como quando disse que os federalistas “matavam para não morrer” e os legalistas, “por ordem do chefe Julio de Castilhos” 200: Segundo o autor, os revolucionários eram heróis abnegados que lutavam movidos pelos mais elevados sentimentos patrióticos, sob condições totalmente precárias e adversas onde retrata os federalistas como um “[...] punhado de abnegados quasi nus, desarmados, trazendo as bandeirolas presas em madeira para fingirem lanças [...]” 201 num cenário em que, sem armas, contavam apenas com a coragem e determinação para empreender a luta contra a legalidade, percebido no trecho: “dêem-nos cavallos, porque armas tomaremos delles” escreve Dourado, referindo-se aos legalistas202. Temos aí uma característica marcante de seus relatos: a luta, do lado federalista, era totalmente justificável. Os criminosos, do seu ponto de vista, eram os legalistas, e não os federalistas, apesar de estes estarem à margem da lei. Contudo, do ponto de vista legal, ou, como preferia Dourado, do ponto de vista da “legalidade”, os federalistas é que eram os criminosos. Explica-se, pois, o fato de Dourado evocar a defesa da pátria e, ao mesmo tempo, atacar tanto Castilhos quanto Floriano: tornava justificada e legítima a luta federalista, como percebemos no trecho: “quando lhes mentem, quando lhes poe tropeço a vontade, quando lhes roubam o direito, que hão de fazer senão lutar?” 203 É possível afirmar que, ao buscar justificativa e legitimidade para a ação dos revolucionários, Dourado estava preocupado em demonstrar também uma racionalidade nesta mesma ação. A idéia de racionalidade, neste momento, traz consigo de maneira implícita, mas também intrínseca, a idéia de imparcialidade e objetividade, elementos tão caros aos historiadores desta época, ainda que o autor afirmasse não se pretender um historiador. 199

Idem, pp. 7-30. Idem, p. 248. 201 Idem, p. 5. 202 DOURADO, op. cit. p. 344. 203 Idem, p. 41. 200

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Uma segunda característica que aparece, e que complementa a primeira, é a forma como ambas as forças são tratadas por Dourado ao longo da narrativa. Os horrores da guerra, a desumanidade, seriam sempre obras dos legalistas, como verificamos no seguinte trecho: Ao sahirmos da estrada, encontramos todas as casas, por onde passávamos, desertas e arruinadas. Dez meses antes passáramos em direcção ao norte e deixamos todas as casas habitadas, lojas e armazéns cheios. Depois de nós passou a columna de Pinheiro Machado [legalista], que como uma praga nada deixava em sua devastação. Gafanhotos monstruosos!204

Dourado parece tentar convencer o leitor de que, por incrível que pareça, apesar do estado das tropas federalistas ser lamentável e a precariedade reinar sobre elas, estes só pegavam víveres e objetos necessários se pudessem pagar por eles: “era ordem no exercito não pedir nada, tampouco comprar sem ter dinheiro para pagar”205, enquanto que os legalistas, mesmo com todos os recursos e dinheiro disponíveis que tinham 206 , eram os que saqueavam, destruíam e não pagavam, como fica claro no trecho: “[...] a pobre velha que não tinha mais de uma rez vaccum porque tinham levado em nome da legalidade [...]”207 Os federalistas, ao contrário, eram descritos como justos e “melhores” do que seus oponentes, como quando, por exemplo, Dourado diz que foi ter com um prisioneiro legalista, a fim de tratar-lhe os ferimentos, e encontrou-o “contente e satisfeito”208. Com essa afirmação, o autor dá a entender que, longe de ser exceção, tal comportamento para com os prisioneiros constituía-se em regra de conduta dos seus pares federalistas, a julgar pelo tom de normalidade e ausência total de surpresa ao citar o fato. Outro exemplo de distinção de comportamento federalista encontra-se no trecho: “felizmente, para eles, os

204

Idem, p. 267. Idem, p. 284. 206 Idem, p. 404. 207 DOURADO, op. cit. p. 265. 208 Idem, p. 16. 205

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maragatos não matam porque tem opinião adversa” 209 . Outra passagem que ilustra a conduta federalista contra os abusos do momento de guerra é quando descreve a chegada em frente à uma casa de um oficial legalista: Encontramos na porta de João Ruivo, tenente-coronel da legalidade, uma carreta com generos, roupas e jóias. Estava em casa somente a mulher d´elle. Apparicio prohibiu que se tirasse qualquer cousa d´ali, e que alguém a fosse importunar. Um companheiro desobedecendo á ordem saltou ao quintal e foi roubar um pouco de toucinho na despensa; foi punido severamente.210

Este trecho exemplifica não só a lisura dos seus revolucionários, mas também o senso de justiça presente entre eles. Sempre que Dourado cita algo que possa ser considerada como uma infração federalista, registra também que seus autores foram punidos exemplarmente. Além deste, aparecem ao longo dos relatos, mais três exemplos ilustrativos de desvios de conduta maragata. Em dois deles, houve a devida comprovação; e em outro houve acusação, indícios de cometimento do crime, mas sem sua comprovação. No primeiro destes casos, logo no começo da narrativa, o autor cita que teve a oportunidade de ver a execução das leis revolucionárias: Hoje tive a ocasião de ver a execução de leis revolucionarias. Gomercindo exige e impóe respeito ás familias. Á noite dois companheiros foram a uma casa e insistiam para que abrissem. O modo da insistencia indicava más intenções: felizmente ali pernoitavam alguns officiaes que abriram e os prenderam. Um deles foi creado pelo próprio Gomercindo que muito o estimava e que em prantos condenou-o á morte.211

No segundo, fala sobre “três soldados [federalistas] sahindo dispersos mataram um homem para roubar. Estão presos e vão ser fuzilados”. 212 No terceiro, em que não foi apurada a culpa do suspeito. O episódio aconteceu

209

Idem, p. 293. Idem, p. 288. 211 Idem, p. 17. 212 Idem, p. 60. 210

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também logo no começo dos relatos, no momento em que saiam da cidade de Caçapava do Sul. Dourado pondera que: As passagens pelos povoados são sempre prejudiciais. Por maior que seja a vigilância do chefe. Não deixam de vender bebidas alcoólicas, d‟onde a embriaguez de muitos ed‟hai actos repugnantes. Uma ordenança do general Salgado embriagou-se e, passando por uma casa, tentou violar ou violou uma moça. O general mandou por nas estacas e ia mandar fuzila-lo, mas antes disso fez ver a victima para ser examinada. Essa victima é uma creança impúbere. Examinei-a e não encontrei nada que indicasse o crime ou ao menos a tentativa delle.213

Não conseguindo se apurar a culpa ao acusado, não houve punição, evidenciando o senso de justiça federalista, onde só se puniriam culpados comprovados, e não apenas suspeitos, de acordo com Dourado. Neste cenário, os excessos federalistas são tratados como exceção de uma regra em que ser revolucionário é portar-se bem, com respeito e justiça, mesmo em situação de guerra. Podemos afirmar que, partindo dos relatos do autor, essas exceções são poucas, se comparadas com o total de informações da guerra narradas por ele. Ainda quando pretende falar do que seria considerado “negativo” à imagem federalista, abranda ou ainda justifica a atitude, de maneira a infligir a verdadeira culpa aos legalistas, como no caso em que os revolucionários não sepultam os seus adversários. Este ato se daria não por desumanidade, mas em função de uma prática antes legalista: “[...] pois os revolucionarios não sepultam os cadáveres dos adversários, por que os da legalidade ate prometem punir os parentes que sepultem os parentes que elles matam a vista”. 214 Outro episódio que ganhou destaque quando se fala sobre a Revolução Federalista, o Massacre do Rio Negro215, é negligenciado quase que totalmente 213

DOURADO, op. cit. p. 15. Idem, p. 33. 215 Não há dados definitivos sobre o episódio do Massacre do Rio Negro, mas muitos historiadores acreditam que foi dos mais trágicos combates da guerra, onde foram degolados muitos prisioneiros legalistas, mesmo já sob rendição. Joseph Love fala em aproximadamente 300 mortos por degola (LOVE, op. cit. p. 71) enquanto Wenceslau Escobar afirma que os assassinados foram em torno de 200, citando correspondência de João Nunes da Silva Tavares a Gaspar Silveira Martins, datada do 214

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no relato de Angelo Dourado. Sem sequer citar qualquer eventual atrocidade, como os degolamentos dos prisioneiros legalistas cometidos pelos revolucionários, por exemplo. Apenas registra que: Felizmente chega-nos a noticia da grande batalha do Rio Negro, no Rio Grande do Sul. Pelo que narram, é um feito de armas excepcional na historia das revoluções, em que homens quase desarmados, dando batalha a forças regulares, commandadas por uma marechal da bravura provada, vencem. 216

Nada mais registra a respeito deste combate. Não se sabe se por ignorância dos fatos que lá se deram, se por omissão voluntária, mas acabou por não voltar ao assunto em nenhum momento ao longo da narrativa. Nem quando finalizou o livro, já de volta à Bagé e muito provavelmente já a par dos acontecimentos.

2.4.3 Angelo Dourado e a História Angelo Dourado não era historiador, nem pretendia sê-lo. Seu objeto nunca fora o passado distante. O registro que se deu em Voluntários do Martírio era o relato do que via e vivia, ou ainda, aquilo que intencionava registrar. Como o livro não é obra sobre o passado senão o recente, a narrativa e, por conseguinte, a atenção de Dourado, se voltava não apenas para divulgar o ideal revolucionário, mas para justificar a luta armada ao expor as idéias políticas do autor. Dourado também utilizou seus registros como forma de explicitar seus temores quanto ao momento em que vivia, nos aspectos políticos e mesmo sociais. Se na política o cenário se apresentava como insustentável, no plano social a situação lhe parece ser, no mínimo, dia 29/11/1893 (ESCOBAR, op. cit. p. 179). Igual número de vítimas também é sustentado por Elio Flores (FLORES, Elio Chaves. No tempo das degolas – Prática X Discurso e Revoluções Imperfeitas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1996, p. 121). 216 DOURADO, op. cit. p. 20.

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preocupante. Vemos isso em especial na questão da imigração européia, sobre a qual Dourado refere-se mostrando certo temor quanto aos desafios e dificuldades que seus filhos encontrarão no futuro: N´essa vida social que levamos, os filhos vivendo só da herança paterna, ou raramente surgindo um ou outro vulto progenitor de si mesmo, eu pensava em preparar os nossos para essa lucta hercúlea do futuro, em que os descendentes da actual familia brazileira para não desapparecerem ante a imigração europèa já habituada a luctar pela existência, teriam de conquistar terreno palmo a palmo no proprio solo onde nasceram.217

E ironiza, fazendo referência explícita aos imigrantes alemães e italianos, que, devido ao grande número, acabariam transformando o Brasil talvez em outro país, de nome inspirado em suas regiões de origem: “[...] se esse patronymico [brasileiro] não se tornar tão desprezível que precise ser mudado, talvez em nova Germania ou nova Lombardia”. 218 As preocupações de Dourado com o expressivo volume de europeus chegando ao país era reflexo de uma realidade social de fins do século XIX no Brasil. Pelas afirmações de Skidmore, o advento da abolição estimulou aquilo que chama de “uma onda dramática de imigração para o Brasil” 219. O autor afirma que o número de imigrantes entrando no país saltou de menos de 33 mil em 1886 para 132 mil apenas dois anos mais tarde 220. E, tal como na Argentina e nos Estados Unidos, este fluxo prosseguiu em grande escala até a Primeira Guerra Mundial221. A partir das afirmações de Dourado, referentes aos imigrantes, percebemos sinais de teorias evolucionistas presentes no texto do memorialista, ou ao menos forte influência destas sobre o autor. O evolucionismo aplicado às sociedades humanas foi obra do filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903), que fundamentou sua filosofia na teoria evolucionista e defendia que a seleção 217

DOURADO, op. cit. p. 10. Idem, p. 234. 219 SKIDMORE, op. cit. p. 104. 220 Idem, p. 105. 221 Idem, ibidem. 218

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natural possibilitava “a sobrevivência dos mais aptos” 222 , ou ainda, nas palavras de Nina Rodrigues, “no contato inter-racial e na concorrência social vence a raça superior”223. Em ambas as afirmações, encontramos algo muito próximo do que escreveu Dourado. É possível supor que o médico baiano acreditava também nesta pretensa superioridade européia, ou pelo menos em uma melhor aptidão dos imigrantes europeus em relação aos demais povos, haja vista suas afirmações quanto aos alemães e italianos residentes no Brasil, e também, de acordo com a relativa popularidade que o evolucionismo e o darwinismo social gozavam em fins do século XIX no país, como bem afirma Skidmore, para quem “a elite brasileira pós-1870 logo caiu sob a influência de doutrinas européias e norte-americanas de racismo científico, que apoiavam a „evidência‟ biológica e histórica para justificar suas afirmações de superioridade branca” 224 , afirmação corroborada por Lilia Moritz Schwarcz, em afirmação de que houve a entrada coletiva, simultânea e maciça destas doutrinas, além do que, a noção de “evolução social funcionava como um paradigma de época.225 Além disso, o evolucionismo de Spencer e o darwinismo social, juntamente com o positivismo de Comte, foram as três mais impactantes teorias que delinearam os limites no interior dos quais toda a produção teórica da época pós 1870 se desenvolveu226. O pensamento spencerista, por exemplo, estava presente também no Rio Grande do Sul, onde, inclusive, aconteceram duas conferências proferidas em Porto Alegre, e que mais tarde foram reunidas em um livro cujo título era A Terra e o Homem à luz da moderna ciência, de Karl Von Koseritz227. Em 1891, Graciano Alves de Azambuja publicava Lições

222

BURNS, op. cit. p. 633. RODRIGUES, Nina. As Raças Humanas e a Responsabilidade Penal no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, sd. apud ORTIZ, Renato. Cultura e Identidade Nacional. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 20. 224 SKIDMORE, op. cit. p. 112. 225 SHWARCS, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças: Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 43. 226 ROMERO, Sílvio. História da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1943 apud ORTIZ, op. cit. p. 14. 227 LEITE, Luiz Olavo. A Filosofia Rio-Grandense – Década de 1880-1890 in FLORES, Hilda Agnes Hübner (org) Revolução Federalista – Estudos. Porto Alegre: Nova Dimensão, 1993, p. 21. 223

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de Filosofia Elementar, obra que reunia artigos filosóficos lançados na Gazeta de Porto Alegre. Segundo Leite, Graciano foi o precursor do spencerismo no Rio Grande do Sul228. Pelo receio que demonstrou Dourado de que os alemães ou os italianos (ou ambos) viessem a “dominar” o Brasil, causando extinção do “patronímico brasileiro” parece-nos razoável supor que, se não era total a sua crença no evolucionismo ou mesmo no darwinismo social, pelo menos estava influenciado ou familiarizado com estas teorias, especialmente se levarmos em conta que Dourado escrevia seus relatos justamente em fins do século XIX, uma época em que: Gobineu divulgava, através do “Ensaio sobre as desigualdades das raças”, a teoria de que as raças seriam desiguais. Inspirado em Darwin, argumentava “cientifcamente” que haveria raças superiores e inferiores: “as raças são desiguais, e a raça branca é inequivocamente superior às demais raças”. Assim se justifica o domínio dos brancos europeus sob os povos dos demais continentes. O branco é superior. A Europa é seu país de origem.229

Há de se destacar, contudo, o conceito de “raça”, no relato de Dourado, que não apresenta uma única significação. Em algumas vezes, significa país. Este significado aparece quando, por exemplo, escreve que os inimigos estariam “destruindo a raça actual no Brazil” 230, ou quando afirma que “um outro desta raça honrada que fecundou mundos, que relembra D. Henriques ou Vasco da Gama [...] voavam como ousadas gaivotas onde o nome luzitano tornaram sublimado”231 referindo-se, neste caso, à Portugal. Em outros casos, a palavra raça é usada como sinônimo de sociedade: “há porém, em nossa raça o hábito de acreditar que o homem deve saber tudo [...]”232

228

Idem, ibidem. BERNARD, Zilá. Racismo e anti-racismo. São Paulo: Moderna, 199 apud MELLO, Eliane de. A Cultura da Dominação. Rev. Humanidades, Fortaleza, v. 21, n. 1, p. 93-97, jan./jun. 2006 p. 94. 230 DOURADO, op. cit. p. 79. 231 Idem, pp. 109-110. 232 Idem, p. 102. 229

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Para além das preocupações do momento em que vive, dos temores quanto ao presente e o futuro, e a uma eventual competição com os imigrantes europeus, Dourado trata, em algumas passagens, do passado mais distante. O faz, porém, num tom idealizado. Nestes registros, a tônica se dá em comparação ao tempo em que vive. Tal afirmação evidencia-se quando justapõe as distintas guerras civis: a primeira, Farroupilha, a segunda, Federalista: Ali mesmo estivera acampado em 1835 o exército revolucionário nove mezes sem ser incomodado. O que eram as guerras de então e o que são as de hoje. Naquele tempo poderam fazer capital em Piratini, ate moeda cunharam (...) os prisioneiros eram respeitados, os feridos, medicados.233

Além do exemplo que considerava positivo, também registrou o que considerava negativo, usando de ironia: N´uma praça ergueu-se o altar da Patria, onde a guilhotina mandava diariamente centenas de cadáveres porque a Patria d´elles era como a deusa Kalli, nutria-se de sangue e tinha por adornos das orelhas cadaveres humanos. Porque o Brazil, um seculo depois, não ha de imitar a França?”234

Vemos nestes trechos, cada qual com sua lição, o conhecido preceito greco-romano (Tucídides, Políbio, Cícero) segundo o qual a história é a mestra da vida (historia magistra vitae), a que serviria como ensinamento para a geração presente e também às futuras. Conforme Fernando Catroga, “nas palavras de Cícero: Historia vero testis temporum, lux veritatis, vita memoriae, magistra vitae, nuntia vetustatis, qua voce alia nisi oratoris immortalitati comendatur ” 235 Ainda de acordo com o autor, Cícero tinha em vista obter efeitos análogos aos da oratória, fornecendo a esta, com imparcialidade, uma coleção de exemplos pedagógicos 236 . Tal semelhança é encontrada nesta 233

DOURADO, op. cit. p. 58. Idem, p. 103. 235 CATROGA, Fernando. Ainda será a História Mestra da Vida? Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre: PUCRS, Edição Especial, n.2, 2006, p. 14 236 Idem, ibidem. 234

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história saudosista, que encontra num passado exemplos (de guerra, de conduta) melhores do que os que convivem em seu presente. Em outra referência ao passado, demonstra mais uma vez sua inclinação à monarquia, desta vez em relação à portuguesa: “enquanto a minha pátria guardava as tradições de suas leis [...] gozavam meus irmãos de paz...” 237. Ao falar sobre a antiga metrópole, e embora o Brasil estar naquela época na condição de colônia, o Brasil parecia estar em situação melhor do que estava na época em que fez tal observação. Talvez nem tanto pela ligação com Portugal em si, mas em contraste de que, naquela época e ao contrário do momento em que escrevia seus relatos, o país gozava de certa estabilidade política e não havia a tão discutida “guerra fratricida”. A sua visão de história era – leva-nos a crer por seus escritos – um tanto quanto saudosista. Os tempos passados eram melhores que os atuais, num tempo em que os antepassados viveram sob glórias e realizações, ou seja, uma história de fatos singulares e grandes personagens. Isto se torna perceptível quando afirma que, em seus dias, “o caracter a tradição, o nome glorioso de muitos que nossa história registra, desappareceu”238. A história, para Dourado, enquanto relacionada a um passado distante, era aquela que exaltava os grandes e relegava ao esquecimento os demais. Percebemos esta convicção no trecho em que argumenta ser “a historia, tão pródiga em realçar as figuras que se tornam salientes pela posição que ocupam [...]”239. Tal afirmação é fruto da sua reflexão pela possível injustiça que, segundo ele, se fará ao não enaltecer a figura do oficial Torquato Severo, no futuro, por ser ele homem modesto e discreto. Finalmente, é com olhos para o futuro que encerra a sua versão narrativa dos episódios vividos durante a cruenta guerra. Evidencia-se na despedida, a preocupação do memorialista com o crédito que lhe darão os pósteros, aqueles a quem se destinam a obra que se originou relato e se finalizou memória:

237

DOURADO, op. cit. p. 110. DOURADO, op. cit. p. 10. 239 Idem, p. 161. 238

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Talvez tivesse sido excessivo no julgamento de alguns factos [...] Talvez não fosse litteralmente exacto nos fatos que narrei, por se me ter narrado, mas os que presenciei são a expressão da verdade, e por elles devo julgar verdadeiros todos os que me contaram.240

Neste caso, seu conceito de verdade parece aproximar-se do conceito de imparcialidade. Para o propósito que se lançou Dourado ao escrever – e mais tarde publicar – sua obra, parecia alcançado. Estava feita a sua parte, estava escrita a sua versão. E, dessa memória, se criou história.

240

DOURADO, op. cit. p. 421.

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3 Da mem贸ria para a Hist贸ria 76


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3.1 As obras Nos meios acadêmicos, em especial, é relevante o número de pesquisadores que analisam, discutem ou reproduzem o texto memorialístico do médico baiano. Dentre as muitas obras que abordaram a Revolução Federalista, privilegiamos as que foram produzidas pela/para a Academia, em especial àquelas indicadas pelo professor Francisco das Neves Alves 241 na revista Biblos, em 1995. Na sua pesquisa, o autor realiza um levantamento bibliográfico das publicações efetuadas entre os anos de 1983 e 1993, listando um total de 108 obras, entre livros e artigos. Destas obras, procedemos a análise de 78 delas, sendo que Dourado é citado/utilizado em 19 trabalhos. Além do levantamento feito por Alves, analisamos algumas obras publicadas em período anterior ao recortado pelo autor, como os clássicos de Guilhermino Cesar, História da Literatura do Rio Grande do Sul, publicado em 1971, e de Joseph Love, O Regionalismo Gaúcho, publicado em 1975; e outras oito em período posterior, como é o caso do livro traduzido e apresentado por Hilda Agnes Hübner Flores, João Eickhoff: O Doutor Maragato, publicado em 1994; o artigo de John Charles Chasteen, Fighting Words: The Discourse of Insurgency in Latin American History, publicado em 1993, e do seu livro Heroes on Horseback: A Life and Times of the Last Gaucho Caudillos, publicado em 1995; do livro de Elio Chaves Flores, No Tempo das Degolas – Prática x Discurso e Revoluções Imperfeitas, publicado em 1996; da Coleção História Geral do Rio Grande do Sul, especialmente os artigos de Ana Luiza Setti Reckziegel, 1893: A Revolução Além Fronteira e Sérgio da Costa Franco, O Partido Federalista, publicados no v.3 t. I, de 2007; e dos artigos de Márcio Antônio Both da Silva, Notas sobre a Revolução Federalista: O Norte do Rio Grande do Sul entre 1893 e 1895, publicado em 2006, e Paulo Pinheiro Machado, O Conflito do Canudinho de Lages, publicado em 2008. Completando a lista de trabalhos utilizados, analisamos o livro de Cláudio 241

Conforme ALVES, Francisco das Neves. Fontes bibliográficas para o estudo da Revolução Federalista – levantamento parcial (1983-93). Biblos, Rio Grande, 1995, pp 255-273.

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Boucinha, O Liberalismo e o Romantismo de Angelo Dourado, publicado em 1989 e que, apesar de não se propor à análise da Revolução Federalista, tematiza a figura e a obra do médico baiano. Do universo de autores analisados, a maior parte possui relevante trabalho a serviço da produção e difusão histórica, e goza de inegável prestígio e reconhecimento no cenário acadêmico e, em muitos casos, também fora dele. Dentre os dezessete autores cuja produção específica sobre a Revolução Federalista foi por nós analisada, nove deles têm o título de Doutor (destes, inclusive, dois em nível de pós-doutorado) e três têm o título de Mestre. Dentre os que não têm tais titulações, atuam ou atuaram como professor em reconhecidos centros de produção acadêmica, como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), ou ainda, possuíam ligações com Academias de História, como o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS) e as entidades História Militar, e que também foram incluídos em obras de cunho acadêmico organizadas e editadas por profissionais da História.

3.2 Os pioneiros Um dos primeiros a citar a obra de Dourado como fonte para conhecer alguns aspectos da Revolução Federalista foi Guilhermino Cesar, no ano de 1956. Apesar do trabalho de Cesar se situar em um período anterior a implantação (UFRGS e UNISINOS) ou consolidação (PUCRS) dos Cursos de Pós-Graduação em História, a saber, os anos de 1980 a 1990 (onde se dá a separação efetiva entre o tipo de produção do conhecimento histórico feita dentro da Academia e fora dela),242 seu estudo é bastante utilizado, inclusive nos meios acadêmicos. Cesar também foi professor da UFRGS e Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra. Sobre Dourado, destaca: 242

Segundo PICCOLO, Helga I. L. Historiografia Gaúcha. Anos 90, Porto Alegre, n. 3, junho de 1995, p.48.

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A Revolução de 93, ainda não estudada em obra sistemática, e imparcial, [...] teve, contudo, quem sobre ela depusesse ainda no calor das paixôes veementes que suscitara [...] destaca-se Ângelo Dourado, em Voluntários do Martírio (1896), a crônica histórica mais emocionante que já se escreveu sobre aquele período conturbado. O autor, natural da província da Bahia, foi coronel-médico das fôrças federalistas. Nas páginas desataviadas de seu diário de campanha, os fatos mais banais tomam relêvo especial; havia no fundo dêsse narrador despretensioso um ficcionista de polpa, ou pelo menos uma sensibilidade muito alerta ao sofrimento humano, uma paixão e uma chama criadora incomuns, que dão excepcional relevo documental aos trechos em que descreve a paisagem, evoca as privações da campanha, os horrores da luta fratricida.243

Tal passagem é encontrada no capítulo A Historiografia após a Guerra do Paraguai. Neste trecho, como o título sugere, o tema é a historiografia produzida, ou melhor, os trabalhos de cunho histórico produzidos depois da Guerra do Paraguai, onde Dourado é citado como destacado narrador dos eventos em que participou na Revolução Federalista. Outro pesquisador que, mesmo tendo sido professor na Faculdade de Filosofia e Comunicação Social da PUCRS e na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFRGS, se situa fora da formação acadêmica específica em história é Dante de Laytano. Em relação à obra de Dourado, destaca: Dois notáveis livros de militares. Um do médico do Exército – Angelo Dourado – “Voluntários do Martírio, fatos e episódios da Guerra Civil”, Pelotas, 1896, reeditado pelo prestimoso Martins Livreiro. Bahiano era Dourado, Presidente da Junta Administrativa de Bagé, em 1890. Um livro impressionante, testemunhal e narrativo. Acolhe uma incrível quantidade de dados sobre a revolução, suas causas e efeitos.244

243

CESAR, Guilhermino. História da Literatura do Rio Grande do Sul (1737-1902) Porto Alegre, Globo, 1971, p. 369. 244

LAYTANO, Dante de. Tentativa de análise das fontes bibliográficas sobre a Revolução de 1893, in Fontes para a História da Revolução de 1893 – Anais do 2º Simpósio realizado em Bagé, de 29 a 31 de outubro de 1990, Bagé, Urcamp Editora, 1992, p. 24. 79


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Laytano aborda o caráter testemunhal e narrativo, ou seja, a memória de Dourado construída sobre os episódios que este presenciou. Reconhece na obra um valor que classifica de “impressionante” e recomenda o conhecimento a respeito dela, durante sua conferência no II Simpósio Fontes para a História da Revolução de 1893, realizado pela Universidade da Região da Campanha (URCAMP), em 1990.

3.3 Dourado na Academia Uma das primeiras utilizações de natureza acadêmica é o estudo empreendido pelo historiador e brasilianista norte-americano Joseph Love, em seu livro O Regionalismo Gaúcho245. Love é Mestre pela Stanford University e Doutor (ambos em História) pela Columbia University, nos Estados Unidos. Dourado é citado para sustentar a afirmação de que havia, entre alguns rebeldes federalistas, o explícito desejo da restauração monárquica: Uma aspiração federalista mais ampla era a substituição do sistema presidencialista estabelecido na Constituição Nacional por um regime parlamentar. Mas alguns destes rebeldes queriam até ir mais além deste objetivo e ousadamente professavam o monarquismo. O coronel Fulião, por exemplo, começava uma batalha exclamando “Viva S.M. o Imperador!”.246

Em nota de rodapé, cita a obra Voluntários do Martírio, à edição de 1896. Ainda no mesmo livro, novamente vale-se do relato de Dourado, desta vez no corpo do texto, e trata-o (como em todas as outras vezes) por “Angel”, como a seguir: “Angel Dourado, um médico que participou ao lado dos 245

LOVE (1975) op. cit. Nota: a propósito deste estudo, é preciso destacar que o livro, originalmente, foi a sua tese de doutorado defendida em 1967 e publicada em inglês em 1971. Somente em 1975 seria publicada em português, no Brasil. 246

LOVE (1975) op. cit. p. 65.

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federalistas, conta o caso de um lanceiro castilhista que transpassou seu próprio filho, ante o choque de uma identificação”247. Na seqüência do texto, porém mais adiante, quando retoma a idéia das selvagerias que teriam sido praticadas durante a Revolução Federalista, cita outra vez o autor de Voluntários do Martírio: A brutalização da classe rural mais baixa, especialmente o gaúcho, foi, talvez, de todas a maior tragédia. Citando novamente Dourado, “Horroriza ver essas massas anônimas sempre exploradas, habituando-se lentamente ao crime, tornando-se insensíveis aos sofrimentos [e] perdendo o brio nas matanças de indefesos, erguerem-se, selvagens, boçais, nada mais respeitando, tudo querendo destruir”.248

Este mesmo trecho, desta vez em inglês, aparece também em seu artigo Reflections on the Revolution of 1893249, publicado em 1993. Outro norte-americano, John Charles Chasteen, Doutor em História Latino Americana pela The University of North Carolina, utiliza uma frase retirada do livro de Dourado como epígrafe em seu artigo publicado na Latin American Research Review: “What I suffer is pleasant because it shows that I am putting myself above the run of commom men, that I am worthy of my Patria and of you...’ Insurgent officer to his wife, 1893”.250 Esclarece, em nota de rodapé, que "The epigraph comes from the epistolary war diary of Angelo Dourado, Voluntários do Martírio: Fatos e Episódios da Guerra Civil (Pelotas, Rio Grande do Sul: Americana, 1896), p. 19”. Em outro trabalho, desta vez no livro “Heroes on Horseback: A Life and Times of the Last Gaucho Caudillos”, cita Dourado como personagem dos eventos e fonte: Gumercindo Saravia became the hero of Brazil's 1893 insurgency because of his experience as a leader of montoneras, experience that the other Federalist colonels did 247

LOVE (1975) op. cit. p. 25. Idem, p. 77. 249 LOVE, Joseph L. Reflections on the Revolution of 1893, in ALVES e TORRES, op. cit. p. 16. 250 CHASTEEN, John Charles. Fighting Words: The Discourse of Insurgency in Latin American History, in Latin American Research Review, Vol. 28, Nº 3. Pittsburgh, Published by The Latin American Studies Association, 1993, p. 83. 248

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not have. Saravia's rapidly growing prestige suggested to Angelo Dourado the possibility of independent political initiatives, such as marching on Porto Alegre, but Gumercindo had no such plans. Actually, he seemed more worried about the sequels of victory than about the consequences of defeat: "The minute we get there," he told Dourado, referring to a hypothetically captured Porto Alegre, "a government will appear, and then everyone will scramble for offices and forget about the enemy”. 251

As memórias de Dourado, neste caso, servem de base para contar a história da guerra, de Gumercindo Saraiva e do caudilhismo no Rio Grande do Sul, considerando o autor que fora desta época os últimos dos caudilhos a forjarem-se em solo rio-grandense. Como Joseph Love havia feito em seu livro, Sérgio da Costa Franco também utiliza Dourado para comprovar seu argumento de que havia, entre os federalistas, uma certa simpatia pelo passado monárquico: Conquanto a restauração do trono não fosse um objetivo declarado dos federalistas, sobrevivia, irracional, entre eles, um certo saudosismo pelo passado monárquico. Para todos os descontentes e ressentidos, que haviam perdido com o advento da República, esse saudosismo se materializava através do combate sistemático ao novo regime. O livro de Ângelo Dourado, Voluntários do martírio, é sintomático dessa disposição de espírito. O autor não cessa de criticar a “República da Ordem e Progresso”, e, em várias passagens, expande-se em elogios ao Imperador e aos homens do regime deposto. Se isso acontecia com Dourado, que era intelectual, e que integrava a primeira junta governativa de Bagé depois do 15 de Novembro, o que não sucederia com os velhos “coronéis” gasparistas, desde cedo hostilizados pelo partido de Castilhos? [...] No período da rebelião, conta-nos Dourado do procedimento do coronel Macedo Fulião, que fazia anteceder as ordens de comando em combate, de “vivas a Sua Majestade o Imperador” e à “Antigüidade do Império”. Parece certo, igualmente, que ao menos por ocasião da batalha do Inhanduí, havia combatentes federalistas que ostentavam no chapéu divisas de “vivas ao Império”. [...] A propósito de um episódio de batalha é ainda Dourado quem comenta: “os soldados, que,

251

CHASTEEN, John Charles. Heroes on Horseback: A Life and Times of the Last Gaucho Caudillos. Albuquerque, University of New Mexico Press, 1995, p. 91.

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creio, não morrem de amores pela República (...) não se incomodam em mostrar saudades pelos outros tempos”.252

A descrição do que fora observado e descrito por Dourado nos campos de batalha também foi reproduzido por Franco: Ângelo Dourado descreve, em seu valioso diário de guerra, o espetáculo que oferecia o campo de batalha após o combate do Cerro do Ouro: “cadáveres nus em grande número: eram dos nossos adversários, porque o revolucionário [...] cobre a nudez, abriga-se do frio, com as roupas ensangüentadas dos que são pagos para destruí-los (p. 24)” Confessa o médico federalista a oficialização do saque aos adversários vitimados no campo da luta.253

Igualmente, através da memória registrada de Dourado, afirma que este “confessou” em seu diário sobre a pilhagem dos inimigos mortos durante as batalhas, tornando uma informação de caráter histórico. Hilda Agnes Hübner Flores, que possui título de Mestre pela PUCRS, em apresentação da sua tradução de “O Doutor Maragato – João Eickhoff”, diz que historiadores e pesquisadores que pretendem tratar da Revolução Federalista vão em busca da documentação existente em arquivos e outras fontes, como por exemplo, O depoimento de memorialistas que vivenciaram algum aspecto da luta fratricida que entre 1893-95 ensangüentou o solo rio-grandense. Ângelo Dourado, em seu minucioso diário, fala das atrocidades vivenciadas ao longo dos três anos em que acompanhou a Coluna Saraiva, como médico e atento observador.254

A memória produzida por João Eickhoff e Angelo Dourado, neste caso – e, após ser tratada pelo historiador – seria alçada à categoria de história. Em outro trabalho, ao analisar a historiografia a respeito da Revolução Federalista, situa Voluntários do Martírio como parte do subtítulo “Obras 252

FRANCO (1993) op. cit. pp. 49-50 Idem, p. 54. 254 FLORES, H. (1994) op. cit. p. 7. 253

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Gerais de História”255. Neste artigo, apresenta a obra e descreve Dourado da seguinte maneira: Médico baiano (BA/1876-RS/1905), radicado em Bagé e exilado no Uruguai, Dourado retornou como Cel. médico do Exército Libertador de Saraiva, deixando em seu diário um retrato extenso e objetivo da revolução, desde a campanha despovoada pelo exílio em massa, ao dia a dia do exército em marcha até o Paraná, enfrentando continuadas dificuldades de natureza humana e material. Conectou a revolução do Vale do Taquari com a serra, local de procedência dos ervateiros, quando registra a presença de José Altenhofen em Passo Fundo, que aí foi municiar-se para suas lutas em Estrela; não havendo armas disponíveis, recolheu as cápsulas de cartuchos inutilizados, para reaproveitá-las. Dourado afirma que Altenhofen participou do combate do Pulador, de 27-06-1894l no que contradiz Guimarães.256

Ainda sobre a historiografia a respeito do período da Revolução Federalista, Helga Piccolo, Doutora em História Social pela USP, destaca o memorialista Dourado: Com algumas mas significativas nuances (nuances que, ao incluírem interpretação de fatos e/ou dos processos históricos em que esses fatos se inseriram, qualificam os escritos), são ênfases encontradas (e, em muitos casos, privilegiadas) no que vem sendo escrito desde a época em que os acontecimentos se desenrolaram. A preocupação com maior ou menor número de informações e detalhes está presente em escritos como os de [...] Ângelo Dourado.257

Em seguida, em nota de rodapé referente a esse trecho:

255

No livro organizado por Moacyr Flores. As demais divisões são: a) Obras Específicas sobre a Revolução na Colônia Alemã; e c) Memórias sobre a Revolução. FLORES, Hilda Agnes Hübner. Historiografia da Revolução na Área Alemã. In FLORES, Moacyr (org). 1893-95 A Revolução dos Maragatos. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1993, p. 131. 256 FLORES, H. (1993) op. cit. p. 131. 257 PICCOLO, Helga Iracema Landgraf. A Revolução Federalista no Rio Grande do Sul: Considerações Historiográficas, in ALVES, e TORRES, op. cit. p. 68.

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[...] dos escritos citados como exemplificação, damos um destaque especial ao de autoria de Ângelo Dourado, não tanto pelas informações trazidas sobre as causas e o desenrolar da Revolução propriamente dita. O que qualifica o texto são as observações sobre a sociedade sulina na época, sobre o “gaúcho” e seu dia-a-dia, seus costumes, enfim, sua preocupação com o „espaço social‟. Sobre essa ênfase, leia-se, de Moacyr Flores, “Dramas e Conflitos Revolucionários”, in Revolução Federalista, publicação do Círculo de Pesquisas Literárias.258

Helga Picollo vê relevância na obra de Dourado, não pelas informações da guerra, mas especialmente sobre os aspectos do cotidiano, costumes, o espaço social, etc. Cita Moacyr Flores, Doutor em História pela PUCRS, cujos trabalhos também situam as memórias de Angelo Dourado em uma perspectiva historiográfica. Ao analisar as obras que abordam a Revolução Federalista de 1893, Moacyr Flores divide-as em três grupos: biografias, narrativas e memórias. O trecho sobre Dourado abre o subtítulo “memórias”: O mais notável livro escrito sobre a revolução de 1893, é o do médico baiano Angelo Dourado, editado em 1896, com o titulo de VOLUNTÁRIOS DO MARTÍRIO. Suas observações sobre as pessoas, comportamentos, indumentárias, relações entre diferentes setores sociais, tipo de alimentação, bailes, músicas, discursos e transportes são fontes primárias para a reconstituição da história social da Revolução de 1893. Chama-lhe a atenção a rusticidade do gaúcho e sua frieza perante a morte. Tira as roupas dos inimigos mortos, ainda que ensangüentadas, para vesti-las; dança e toca música ao lado de companheiros mortos; parte para o combate mesmo sem arma, esperando que algum companheiro caia, para pegar a arma. Dourado descreve com propriedade os combates, os tipos de armamento e a tática de guerrilha empregada. Dá-se conta que não podem perder combate e que só podem lutar com a certeza da vitória. Médico da coluna de Gumercindo Saraiva, descreve a dor dos feridos, a falta de medicamentos, a agonia dos que morrem. Ao perguntar por que lutam com tanto sacrifício, recebe como resposta: „Por vingança.‟ Não lutam por república, nem por monarquia, muito menos por parlamentarismo ou presidencialismo. Seguem o chefe, o 258

Idem, ibidem.

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amigo ou o parente. Sua admiração por Gumercindo Saraiva transparece em diversas páginas, isentando-o de violências, pilhagens e injustiça. Considera-o um homem justo e disciplinador até com os amigos, pois fuzilou um companheiro de infância [sic] que foi apanhado pilhando. Mas aponta Cezário Saraiva, coronel da coluna de Aparício Saraiva e seu primo, como o degolador que não poupava prisioneiros. A narrativa da marcha da coluna de Gumercindo, desde Itaqui até Santa Catarina, depois o cerco da Lapa, o retorno ao Rio Grande do Sul, sempre com o inimigo próximo, são páginas antológicas que desvendam o quotidiano de uma coluna de guerrilheiros em marcha. A morte de Gumercindo é retratada em trágicas descrições, enquanto levam o corpo do guerreiro, labaredas vermelhas lambem a escuridão da noite. Os maragatos tinham tocado fogo no campo. Profeticamente considerou o ato de paz de 23 de agosto de 1895 como um armistício porque as leis de opressão não foram abolidas. A revolução facilitou aos desonestos fazerem ou aumentarem suas fortunas. Concluiu sua narrativa com a legenda Liberas quae será tamen. Mais tarde, a revolução de 1923 seria o rompimento do armistício.259

Moacyr Flores utiliza a obra de Dourado também em outro artigo, desta vez para demonstrar todas as diferentes tendências políticas que conviviam sob a égide de Federalistas: “Os revolucionários reuniam as mais diferentes tendências: republicanos dissidentes, monarquistas, presidencialistas, parlamentaristas e pessoas que lutavam por vingança, conforme observou Ângelo Dourado.”260 Na obra que Moacyr Flores escreve conjuntamente com Hilda Flores, os autores ressaltam os aspectos do cotidiano e os “espaços sociais”, tal como Helga Piccolo também o fez. Nas palavras iniciais do livro, afirmam: A idéia de escrever a história da Revolução de 1893, a mais sangrenta das revoluções americanas, esbarra em vários obstáculos. O primeiro é a própria bibliografia que se divide a favor dos federalistas ou a favor dos republicanos, não poupando adjetivo pejorativos aos adversários, exaltando os feitos e denegrindo os inimigos políticos, numa dicotomia do bem e do mal. Entre estas, se sobressai a narrativa de Ângelo

259 260

FLORES, M. (1993) op. cit. pp. 126-127. Idem, p. 100.

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Dourado com anotações do quotidiano e dos sentimentos dos federalistas num exército em marcha pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. É a visão meticulosa de um médico baiano humanitário que tudo registra: baile, morte, marcha, banda de música, doenças, armamentos, meios de transporte, habitações e degolas.261

Ainda no mesmo trabalho, referenciam a obra de Dourado ao afirmarem ser a vingança um dos motivos pelos quais se lutavam na revolução: “No entanto a maioria dos soldados revolucionários lutava apenas por um objetivo: vingança, conforme observou o médico Ângelo Dourado, que acompanhou as tropas do gen. Salgado."262 Outro uso de Voluntários do Martírio pela Academia está presente no artigo de Nuncia Santoro de Constantino, que possui Pós-Doutorado pela Università di Torino Ângelo Dourado registra a destacada atuação do Coronel Leoni que conta, entre suas façanhas, aquela de ter impedido um provável saque, que teria perpretado por soldados, na bodega de um seu conterrâneo, italiano estabelecido em Ijuí. O mesmo autor menciona o caso da moça italiana, abandonada por militar revolucionário, que seguia as tropas federalistas, “marchando com resolução”, apesar das “enfermidades cruéis” que foi adquirindo ao longo da marcha. 263

Neste caso, a memória produzida por Angelo Dourado serviu como fonte para a história de outro personagem, o Coronel Leoni, enfatizando a presença italiana na Revolução Federalista. Ana Luiza Setti Reckziegel, Doutora em História Ibero-americana pela PUCRS, apresenta os registros de Dourado como indicativo da presença brasileira na vizinha República do Uruguai: Os preparativos de invasão vinham sendo feitos desde o ano anterior, com mobilizações de federalistas que recebiam apoio nos departamentos de Cerro Largo, especialmente na cidade de Melo e de Rivera, e também de um número significativo de rio-grandenses que possuía propriedades nesses locais, como 261

FLORES, M. e FLORES, H. op. cit. p. 7. Idem, p. 40. 263 CONSTANTINO, op. cit. p. 79. 262

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era o caso de Silveira Martins e Leopoldo Maciel, ou que ali estavam instalados como foi o caso do médico Ângelo Dourado.264

Elio Chaves Flores, Doutor em História pela UFF, é talvez um dos historiadores que mais tenha se utilizado das memórias de Angelo Dourado para fazer história. Pelo menos em quatro de seus trabalhos, o livro Voluntários do Martírio é citado alguma vez. No primeiro deles, publicado nos Anais do II Simpósio Fontes para a História da Revolução de 1893, realizado em Bagé, Flores escreve: Embora partidário dos maragatos, tendo sido médico do Exército Libertador, o “liberal e romântico” Ângelo Dourado foi um arguto observador dessa realidade social do Rio Grande no final do século XIX, quando, na vivência da luta, os atos embrutecidos da massa rural riograndense golpeava o seu idealismo intelectual. Escreveria ele, uma verdadeira antítese, do que chamou de “voluntários do martírio” a participação das camadas despossuídas: “horroriza ver estas massas anônimas sempre exploradas, habituando-se lentamente ao crime tornando-se insensíveis aos sentimentos [...] e, vociferantes, pedirem sangue e vida”.265

Na nota de rodapé sobre a citação, sugere a leitura do livro de Cláudio Boucinha: Para uma análise contemporânea da obra de Dourado ver o trabalho de BOUCINHA, Cláudio Antunes. O liberalismo e o romantismo de Ângelo Dourado. Bagé-RS – Urcamp, 1989. o autor, tendo como fonte o médico de “Voluntários do Martírio” dá um exemplo até onde chegou a “imbecilização” da massa rural empobrecida: „A loucura, a degeneração de princípios éticos conquistados pela humanidade, são esquecidos de tal maneira que um soldado chega a beber sangue de seu inimigo morto, num ato de canibalismo‟. BOUCINHA, Cláudio Antunes, op. cit. p. 39.266 264

RECKZIEGEL, op. cit. p. 42. FLORES, Elio Chaves. Adão Latorre: Mito e História no Massacre do Rio Negro. In Fontes para a História da Revolução de 1893 – Anais do 2º Simpósio realizado em Bagé, de 29 a 31 de outubro de 1990, Bagé, Urcamp Editora, 1992, p. 60. 266 Idem, ibidem. 265

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Em outro artigo, quando fala a respeito dos indícios do cotidiano feminino na Revolução Federalista, uma vez mais utiliza Dourado: No contexto social da guerra, a mentalidade patriarcal tendia a exasperar-se contra a mulher. Dourado revela a ação de um ordenança do exército libertador de violar uma moça perto de Caçapava. Mais adiante, relata a execução de dois companheiros que „foram a uma casa e insistiam para que abrissem. O modo da insistência indicava más intenções‟. O universo feminino e a tentativa de estupro serviam de inspiração para a imposição das leis revolucionárias.267

Outro trecho evidencia tal utilização: “A sugestão da violação da virgindade basta para o justiçamento do adversário. A justificativa é meridiana: „se nós matamos os nossos que cometem estes crimes, como haveremos de poupar os contrários‟.” 268 Apesar de não explicar que a frase seria de Gumercindo Saraiva, como o próprio Angelo Dourado afirma em seu livro, Elio Flores reproduz como se fosse de Dourado, a julgar pela referência ao livro e sem maiores notas de explicação. Ainda sobre as mulheres presentes nas memórias de Voluntários do Martírio, descreve: Perto de Rosário, diz ainda Dourado, foi encontrada uma rapariga de Bagé, junto a um grupo de mulheres prisioneiras, vigiadas por uma tal de sargento Firmina. É uma das raras menções de um memorialista de 93 sobre a mulher combatente e com divisas para comando. A sargento rebelde Firmina pode ser um indício de que a mulher não foi apenas vítima da guerra, mas esteve definitivamente inserida no seu contexto.269

Na coletânea de Moacyr Flores, escreve sobre a violência no conflito de 1893, e novamente cita Dourado: “o liberal Dourado (1979:24) confirma, noutra situação, os saques aos mortos: „o voluntário da honra e da miséria, 267

FLORES, Elio Chaves. Indícios do cotidiano feminino na conjuntura da Revolução de 1893, in Fontes para a História da Revolução de 1893. Anais do 3º Simpósio realizado entre 28 e 30 de abril de 1893. Bagé, Ediurcamp, 1993, p. 176. 268 Idem, p. 177. 269 FLORES, E. (1993 a) op. cit. pp. 177-178.

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cobre a nudez, abriga-se do frio, com as roupas ensangüentadas dos que são pagos para destruí-los‟.”270 Em seu livro No Tempo das Degolas – Prática x Discurso e Revoluções Imperfeitas, faz várias referências às informações retiradas de Voluntários do Martírio. Na primeira delas, diz: No decorrer da guerra, confessando narrar os fatos sobre [sic] a impressão do momento o médico rebelde Ângelo Dourado diz que „a degola é a lei da guerra fratricida, o que não se faz entre estranhos se faz entre irmãos.‟ No final das batalhas, para não dar trégua ao adversário, „ali estão as vítimas ao matadouro como reses manietadas‟.271

Sobre a mortandade no Boi Preto, destaca: Ângelo Dourado, retornando com as forças de Gumercindo Saraiva e passando pelo local, ainda veria „um monte de ossos humanos. Foram de pobres homens que se escondiam no capão do Boi Preto [...] Surpreenderam-nos e mataram um por um‟.272

Segundo Elio Flores, nos livros de memórias, os fuzilamentos avultam e são mencionados em poucas linhas, o que “passa quase despercebido por leituras em busca de fatos heróicos. Dourado fala de prisioneiros justiçados e torturados, assim como de soldados indisciplinados que „estão presos e vão ser fuzilados‟.”273 ou seja, que as informações do memorialista ajudariam a formar um cenário onde o ato heróico não passaria de uma criação de quem assim quisesse ver, mas distante da explicação histórica feita a partir da análise da obra de Angelo Dourado. A participação dos colonos e ervateiros na Revolução Federalista é tema do artigo de Marcio Antônio Both da Silva, Mestre em História pela UFRGS. Segundo o autor, 270

FLORES, Elio Chaves. Violência no Conflito de 1893. In FLORES, M. (1993) op. cit. p. 46. FLORES, E. (1996) op. cit. p. 115. 272 FLORES, E. (1996) op. cit. p. 130. 273 Idem, p. 144. 271

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Algumas fontes dão pistas a respeito da participação de colonos e ervateiros na Federalista e, igualmente, incluem informação a respeito de como indígenas e negros vivenciaram a guerra civil de 1893/1895. Neste quesito destaca-se o diário de Ângelo Dourado. Assim, num primeiro contato dos federalistas com colonos, na divisa entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, Dourado conta a história de uma “colona russa” que se viu frente a possibilidade de ter uma “vaca leiteira” confiscada pelos federalistas: “eu vi uma jovem mulher loura com uma criança nos braços, correndo em prantos; era a dona da vaca”.274

Outro embasamento de sua explicação é retirado das afirmações de Dourado: Também há registros de existência de tropas organizadas por colonos como o batalhão Gumercindo Saraiva, formado por „polacos‟ de uma colônia do Paraná onde “a legalidade paranaense cometeu tantas opressões que os polacos se levantaram e organizaram um batalhão”.275

Novamente apóia-se em Dourado para demonstrar a participação dos serranos/ervateiros: Quanto a participação dos serranos/ervateiros na Federalista, o diário de Ângelo Dourado também permite conhecer melhor esse grupo, principalmente alguns aspectos que caracterizam a vida religiosa dessas pessoas. O médico escreve que chegando a uma “pequena aldeia de fabricantes de erva mate” na região das missões, onde iniciavam os “domínios de um celebre monge que tem percorrido toda a região” uma pessoa desconhecedora das “tradições desse monge, assusta-se vendo alta noite no meio do mato aquela porção de luzes em redor de uma árvore e aqueles vultos silenciosos prostrados e imóveis ali”. Ainda quando as forças maragatas estavam se deslocando em direção a “Santa Maria da Boca do Monte, perto da zona

274

SILVA, Marcio Antônio Both da. Notas sobre a Revolução Federalista: O Norte do Rio Grande do Sul entre 1893 e 1895, in IV Mostra de pesquisa do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul - Anais: produzindo história a partir de fontes primárias / org. Marcia Medeiros da Rocha. Porto Alegre: CORAG, 2006, p. 214. 275 Idem, p. 215.

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colonial que vai até Estrela” Dourado descreve o contato que manteve com o monge que andava “segurando uma bandeira branca com a figura de uma pomba vermelha no centro”, era “moço ainda, figura simpática e ascética”, participara de alguns combates com sua bandeira e “isto bastou para que os nossos lutassem até vencer, quase sem armas”. No encontro, o médico manteve um curto diálogo com o monge, no qual, entre outras coisas, agradeceu a ele por brigar ao lado dos maragatos ao que o monge respondeu que lutava pela “justiça” e que “Deus manda que se sofra com os que sofrem”.276

Abaixo, e segundo suas palavras, como o diário de Dourado “ilumina” algumas questões que ainda não tiveram tratamento adequado pela investigação historiográfica: Linhas acima, destaquei que alguns historiadores pensaram a Revolução Federalista a partir do problema religioso relacionado à separação entre Igreja e Estado que acompanhou a passagem da Monarquia à República. Aqui, o diário de Ângelo Dourado ilumina uma outra questão que ainda não recebeu atenção proporcional a sua importância, ou seja, o papel da religiosidade popular na Federalista e, por outro lado, sua importância na vida das pessoas que vivem em regiões de fronteira277.

Ao mencionar a participação de índios e negros na Revolução Federalista, Silva recorre à memória registrada pelo autor de Voluntários do Martírio: Para conhecer um pouco melhor a participação de índios e negros na Federalista recorro novamente ao diário de Ângelo Dourado, o qual certamente é o relato mais detalhista sobre a guerra civil. Quando ainda estavam na região de Passo Fundo, o médico descreve o contato que ele e seus companheiros tiveram com os “selvícolas” da região. Dourado identifica-os como partidários da causa federalista pelo fato de que, anteriormente a estada dos maragatos, por ali haviam passado Pinheiro Machado e seus comandados e incendiado as cabanas e as roças dos índios. Nesse mesmo local, Dourado encontra

276 277

Idem, 216. SILVA, op. cit. p. 215. 92


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vivendo com os índios alguns “soldados desertores, todos negros”. Em outra passagem, refere-se a índios atuando como soldados nas forças revolucionárias. Também menciona a contratação de serviços aos indígenas, os quais durante as movimentações das tropas pela região de matas eram ajustados para carregar as caixas de munição pelo que receberiam dois mil réis por cada caixa entregue. Quanto aos negros, as referências aparecem em menor escala e são menos esclarecedoras, restringem-se a que foi acima mencionada deles vivendo em meio aos índios e alguns casos esporádicos de negros que, em conversas com o próprio Dourado ou que ele escutou, diziam ter entrado na revolução para vingarem-se de algum ato praticado pelos castilhistas.278

Também há o artigo de Paulo Pinheiro Machado, Doutor pela UNICAMP, que faz referência da aproximação entre João Maria, o líder do que viria a ser conhecido como o Conflito de Canudinho de Lages, ocorrido em 1897, com as tropas federalistas: Uma aproximação de João Maria com os federalistas é relatada por Ângelo Dourado, que acompanhou a coluna de Gumercindo Saraiva. Dourado afirma que, na região dos campos de Palmas, João Maria acompanhou alguns combates, ajudou a tratar rebeldes feridos, mas dizia que não era federalista, porém era “a favor da justiça e dos que sofrem”.279

Além das memórias de Dourado serem utilizadas como fontes para a construção do conhecimento histórico, em três casos, o memorialista também é objeto. Referimo-nos aos artigos de Moacyr Flores e Laura Teresinha R. Saraiva, partes do livro Revolução Federalista - Estudos280 e o livro já citado de Cláudio Boucinha. No primeiro, Dramas e Conflitos Revolucionários, de autoria de Moacyr Flores, Dourado é objeto de um artigo inteiro de análise e descrição, cujo objetivo declarado pelo autor é destacar os aspectos sociais da Revolução Federalista, em que 278

Idem, pp. 217-218. MACHADO, Paulo Pinheiro. O Conflito do Canudinho de Lages (1897). Estudos de Sociologia, Araraquara, v.13, n.24, p.65-78, 2008, p. 68. 280 FLORES, H. (1993) op. cit. pp. 35-40 e 53-66. 279

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Ângelo Dourado traçou em sua obra Os Voluntários do Martírio, rica em dramas e conflitos, embora de maneira esparsa, que nos permite reconstituir o cotidiano revolucionário no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e no Paraná. Ficaram de lado os fatos bélicos para ampliação do espaço social. 281

No mesmo livro, Dourado é objeto no artigo Música Popular, escrito por Laura Teresinha R. Saraiva, onde a autora visa “destacar os aspectos musicais da obra Voluntários do Martírio – Narrativa de uma revolução, editado em 1896, da autoria do médico Angelo Dourado, coronel do Exército Libertador.”282 No artigo, a autora mostra como a musicalidade da época, as danças, os bailes, as “apresentações operísticas”, e até mesmo as músicas indígenas aparecem nos relatos do memorialista. Ainda na obra Revolução Federalista - Estudos, outros autores, que se enquadram nos já aludidos perfis de “historiadores militares” ou memorialistas locais283, os quais optamos por não enfatizar, mas por outro lado, também não ocultar, utilizam Dourado como fonte. Todos os artigos compõem o capítulo A Revolução nos Municípios. Desta forma, Dourado é usado/citado por Osório Santana Figueiredo (Combate do Cerro do Ouro – S. Gabriel); Corélio Bragança Pardo Cabeda (Cerro do Ouro, S. Gabriel); Humberto Castro Fossa (Promotor Nogueira e Gen. Pina – Encruzilhada). Finalmente, Voluntários do Martírio é tema de análise historiográfica feita pelo Mestre em História pela PUCRS, Cláudio Boucinha. O autor estabelece uma leitura crítica e amparada em conceitos que tentam inserir Dourado “dentro das idéias vigentes na época de Liberalismo e Romantismo” 284 , e que justifica que a escolha do livro deu-se por ser ele importante, na medida que se trata de “um testemunho vivo de um tempo, do

281

FLORES, Moacyr. Dramas e Conflitos Revolucionários. in FLORES, H. (1993), op. cit. pp. 3540. 282 SARAIVA, Laura Teresinha R. Música Popular. In FLORES, H. (1993) op. cit. pp 53-66. 283 Em especial aqueles sem formação acadêmica específica na área de história, mas que empreendem estudos a respeito do passado de seus respectivos municípios e regiões de origem. 284 BOUCINHA, op. cit. p. 9.

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relato encarnado na vida de um povo”. 285 Segue o autor apresentando aspectos da obra, sua estrutura, a conjuntura (regional, nacional e internacional) do momento em que foi escrito (fins do século XIX), e finalmente, a crítica da obra, que segundo ele, está centrada nos campos político e filosófico 286. No campo político, Boucinha pretende explicar os aspectos do Liberalismo presentes na obra de Dourado; já no campo filosófico, por sua vez, pretende explicar o Iluminismo, o Positivismo e, fundamentalmente, o Romantismo 287. Vimos como Dourado foi fonte e objeto nos trabalhos historiográficos dos autores analisados, e como estes alçaram a memória produzida e registrada pelo autor de Voluntários do Martírio à categoria de história, de acordo com a concepção que temos desta atualmente. A partir da utilização da memória de Dourado, mediante princípios metodológicos e a intermediação da figura do historiador, temos a transformação de um tipo específico de memória – narrativa, testemunhal, engajada, panfletária – em conhecimento histórico. Não que a memória em si, sem ter sido objeto da apreciação do historiador, não tenha seu valor enquanto fonte. Alguns autores, como Sandra Jatahy Pesavento, por exemplo, recomendam a consulta à obra de Angelo Dourado como fonte específica para aprofundar conhecimentos a respeito da Revolução Federalista 288 . Porém, é a partir do contato e da investigação criteriosa que passa necessariamente pelo historiador, é que a memória passa a ter o status de cientificidade acadêmica, e como tal, utilizável como (re)produtor de conhecimento, ou seja, é quando a memória vira história.

285

BOUCINHA, op. cit. p. 9. Idem, p. 25. 287 Idem, ibidem. 288 PESAVENTO, op. cit. p. 101. 286

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Considerações finais Ao abordarmos a obra de Angelo Dourado, queríamos identificá-la enquanto um tipo específico de memória e vermos como e em quais circunstâncias a Academia utilizou-se dela. Ao longo do trabalho, e conforme íamos avançando na análise da obra de relevantes historiadores e pesquisadores da historiografia sul-rio-grandense, percebemos que muitas das utilizações feitas partem de uma apropriação quase ipsis literis, sem aparecer de forma mais incisiva uma crítica de fonte pertinente. Poucos são os autores, por exemplo, que o desqualificam como fonte factual. Grosso modo, os autores se valem da memória produzida por Dourado para evidenciar este ou aquele 96


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aspecto da Revolução Federalista que seja objeto de sua investigação (imigração, gênero, violência, etc). A memória produzida por um povo, de modo geral, e a produzida por Dourado, de modo específico, pode ser base para a construção do conhecimento histórico, mas nunca suplantá-lo ou substituí-lo. Como bem disse Seixas, a função da memória, potencializada particularmente nos momentos de crise e rupturas históricas (mas não apenas), é a de servir a história289. E Dourado construiu uma memória, a sua. E essa memória acabou servindo à história. Bem verdade que fora uma memória parcial, seletiva, como toda a memória, e mesmo também a história o são, diga-se. Primeiro, através de cartas à sua esposa. Depois, na forma de diários. Por oportuno, precisamos enfatizar uma das conclusões a que chegou este trabalho: a conceituação da obra. A maioria dos autores refere-se ao livro de Angelo Dourado como sendo um “diário”, em uma conceituação simplista e generalizante da obra, afinal. A simplificação não nos parece certa, principalmente nos meios acadêmicos, onde a priori deve existir o aprofundamento, não a generalização simplificadora. Não que pensemos como Furet, que afirma ser preciso “que a história permaneça um saber erudito e relativamente lento de ser adquirido, porque é um trabalho difícil, em que é necessário saber muita coisa, ter muitas leituras, consultar muitas fontes para escrever”290, mas consideramos salutar a correta conceituação, o cuidado na nomenclatura, a afirmação embasada. Se é verdade que a maior parte do relato constituía-se de um diário, ele não começou como sendo um. Chasteen refere-se às informações retiradas do livro de Dourado como um “epistolar diary”, mas ainda não nos parece muito preciso, pois nem era somente epistolar, nem totalmente diário. Desse modo, classificamos o livro de Dourado como um relato, e assim adotamos no presente trabalho essa denominação ao invés de conceituá-lo como um diário, por entendermos que se trata de um conjunto de referências, impressões e cartas, de natureza escrita, comunicadas a um leitor, que primeiro era sua esposa, após, um leitor indefinido especialmente, ou seja, um público leitor. Este relato foi organizado na forma de um livro apenas ao findar a guerra, 289 290

SEIXAS, op. cit. p. 42. FURET, op. cit. p. 158.

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como o próprio autor destaca, onde cartas e diários, condensados, dariam origem ao livro Voluntários do Martírio, publicado pela Tipografia da Livraria Americana já no ano de 1896, ou a apenas a um ano do término da guerra civil. Enquanto livro, tornou-se por excelência um veículo de memória291. Mas não é só pelo fato de ter sido publicado que a obra de Dourado teve (e ainda tem), relevância nos meios acadêmicos (e também fora deles), para a construção de explicações e discursos históricos. Desde que Guilhermino Cesar classificou Voluntários do Martírio entre os trabalhos sobre historiografia sulrio-grandense pós Guerra do Paraguai, à obra do médico baiano foi conferida de um status diferenciado. Depois de Cesar, outros nomes consagrados nos meios intelectuais, como Dante de Laytano e Sérgio da Costa Franco, também utilizaram e recomendaram a leitura de Angelo Dourado. Mais tarde, com a implantação e a consolidação da Academia como produtora do saber/fazer histórico, Dourado continuou sendo utilizado/recomendado por autores de renome na historiografia sul-riograndense e brasileira, como é o caso de Moacyr Flores, Hilda Flores, Helga Piccolo, Sandra Pesavento, Núncia Constantino, Ana Reckziegel, Elio Flores, dentre outros; além de Joseph Love e John Charles Chasteen. Como escreveu Dourado, o que ele apresentou fora “a narração dos fatos, sob a impressão do momento”, e é desta forma que sua obra foi majoritariamente utilizada, enquanto “relato-testemunho”. Por exemplo, muitos autores ressaltam a profunda violência como característica inerente à Revolução Federalista. Destes, parecem ter em Dourado uma das principais fontes, tanto para verificação desta característica quanto para ressaltar a ferocidade e crueldade dos embates (Hilda Flores, Joseph Love, Elio Chaves Flores e Marcio Antônio Both da Silva). Além disso, alguns autores usam a obra de Dourado para obter ou evidenciar dados factuais do conflito (Sérgio da Costa Franco, Elio Chaves Flores, Joseph Love, John Charles Chasteen) ou o contexto. O relato de Dourado, quando não serve como fonte de dados plenamente utilizável, é base para apresentar aspectos correlatos à realidade do conflito, como a sociedade da época (Elio Chaves Flores, Helga Picollo, Marcio Antônio Both da Silva).

291

JELIN, op. cit. p. 34.

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Ao utilizar Dourado como fonte, os autores procedem a uma sistemática qualificação de seu texto (Elio Chaves Flores, Dante de Laytano, Moacyr Flores, Hilda Flores, Marcio Antônio Both da Silva), ainda que em alguns poucos casos o descaracterizem como fonte factual (Guilhermino Cesar e Helga Picollo). Como afirmamos no início do capítulo sobre Angelo Dourado, do livro Voluntários do Martírio muito se utilizou, porém, do autor, pouco se falou. Como disse Carlos Bacellar, os cursos de História atualmente centram seus programas na discussão historiográfica, que é fundamental, sem dúvida, mas acabam deixando de dar uma maior atenção para as fontes documentais que nortearam essa produção 292 , e não se pode produzir um conhecimento histórico sem crítica documental. Por isso, nosso estudo pretendeu, através da presente abordagem, avançar no conhecimento histórico-acadêmico, preenchendo uma lacuna que existia na ausência de trabalhos sobre a figura do memorialista e, finalmente, analisando e refletindo sobre os usos que a Academia fez de sua obra. A memória produzida por Dourado, embora esteja muito próxima de uma memória panfletária (sobretudo na época na qual foi escrita) acabou por se tornar fonte distinta sobre os episódios da Revolução Federalista. E assim, o médico baiano encontrou, dentro da Academia e fora dela, guarida para contar sua versão dos fatos, enquanto aguarda que a história, algum dia, consiga estudar “cada fato nas suas origens, cada homem nos seus desejos” 293 para, enfim, poder escrever a mais precisa, completa e abrangente história da Revolução Federalista. A História, enquanto for ciência humana, será capaz de tal feito algum dia?

292

BACELAR, Carlos. Uso e mau uso dos arquivos. In PINSKY, Carla Bassanezy (org). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2006, pp. 23-24. 293

DOURADO, op. cit. p. 1. 99


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O livro baseia sua narrativa na figura de Angelo Cardoso Dourado, o médico baiano radicado em Bagé que participou da Guerra Civil de 1893 ao...

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