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PEDREIRA

Repensando o bairro hist贸rico 1


PEDREIRA Repensando o bairro histórico

MARCELO CARLOS MONTEIRO Orientador: Samuel Steiner dos Santos UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO TECNOLÓGICO DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO Trabalho de Conclusão I - 2016 2


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APRESENTAÇÃO OBJETIVOS PARTE I Aspectos e formação do local

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PARTE II Aspectos sociais e morfológicos

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Estrutura do bairro Forma urbana Usos Edifícios e pontos de interesse Áreas verdes e Lazer Legislação

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PARTE III Percepção do espaço

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PARTE IV Referências

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PARTE V Diretrizes 3


Sebo Amarzem no calçadão da Rua João Pinto Fonte: Acervo Pessoal

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APRESENTAÇÃO

Podemos dizer que parte da história de Florianópolis e seu desenvolvimento urbano foi conduzida por interesses privados, fomentando grandes retalhos no município. Construtoras, donos de terras e iniciativa privada sempre tiveram um grande poder na cidade e assim, o histórico de Florianópolis sempre foi influenciado pelos interesses desses grupos. Sempre atraído para o centro da cidade, a escolha do bairro da Pedreira em Florianópolis nasceu de uma inquietação própria aos vários problemas e soluções que enxergo para o bairro, este muito peculiar, com toda sua diversidade cultural, morfológica e tipológica. É um dos poucos que ainda mantem traços da velha Desterro, seja em sua configuração de ruas ou em edificações históricas, que vêm sofrendo com o descaso e falta de interesse por parte dos poderes públicos durante anos. Para responder as principais questões relacionadas ao meu projeto, busquei em uma extensa bibliografia um olhar crítico sobre os elementos e problemas das cidades brasileiras, assim como aspectos relacionados diretamente a Florianópolis, habitação, desenvolvimento e regeneração urbana. Junto a isso, para entender melhor minha área em diferentes tópicos e escalas, busquei conversar com estudantes, moradores do bairro e comerciantes, traçando as necessidades e visões dos diferentes atores que utilizam esse espaço ou o tem como uma referência. Começo a construir nas próximas páginas uma pesquisa que tem como objetivo geral colocar em discussão os problemas que o bairro da Pedreira enfrenta, assim como identificar e amadurecer minhas percepções do espaço, elaborando um projeto que possa intensificar a vida e a dinâmica no bairro e seu entorno.

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OBJETIVOS

Este trabalho tem como preceito fazer um estudo investigativo sobre o bairro da Pedreira no centro de Florianópolis, analisando suas questões sociais, morfológicas e arquitetônicas, com base em diversas referências citadas através do trabalho e que estão ao final deste. Além de um estudo científico, é de preocupação deste trabalho construir uma análise crítica e trazer discussões que possam ser colocadas como diretrizes ou pontos interessantes a serem trabalhados em seguida. Ao final desta pesquisa gostaria de levantar e discutir as questões que considero as principais para este trabalho: • Quais medidas foram implementadas pelo poder público ao longo dos anos no local? Seriam estas adequadas? • Quais alternativas podem ser adotadas para que o bairro da Pedreira possa se recuperar do processo de degradação?

Foto da Rua Saldanha Marinho mostra a movimentação no bairro por volta das 13h. Fonte: Acervo Pessoal

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PARTE I - ASPECTOS E FORMAÇÃO DO LOCAL

O BAIRRO DA PEDREIRA

Kevin Lynch 1960

“Os bairros são partes razoavelmente grandes da cidade na qual o observador “entra”, e que são percebidas como possuindo alguma característica comum, identificadora.” (LYNCH, 1960, p. 66).

A organização urbana no centro de Florianópolis está intimamente ligada às primeiras ocupações da Ilha no século XVII. Os assentamentos se localizavam, em sua maioria, onde atualmente encontram-se as áreas centrais, pela sua proximidade com o continente - local de outros assentamentos - e especialmente pela geografia da ilha, propícia ao atraque das embarcações em suas baias. O desenho urbano de Florianópolis teve como elemento gerador a Praça XV. O largo da catedral servia principalmente aos nobres e era envolta, em sua maioria, por edifícios de caráter oficial, religioso e moradia de famílias ricas. Por outro lado, a maioria da população, que era humilde, se instalou ao lado esquerdo do largo da Matriz, com suas ruas antigas e tortuosas, que levavam até o rio da Bulha e as principais fontes d’água da cidade.

“Possivelmente a rua mais antiga da cidade é a que se originou do “caminho que vai para a fonte” e que no século passado se chamava “rua do vigário”, a atual Fernando Machado”. ( Equipe técnica da fundação Franklin Cascaes, 1995, pág. 31) “O caminho que vai para a fonte”, se refere especificamente aos arruamentos que levavam às fontes de água potável, abastecidas principalmente pelo Rio da Bulha. A história da ocupação desta área à 8


Localização do bairro da Pedreira no centro de Florianópolis. Recorte do bairro destacado em laranja. Fonte: Acervo Pessoal

leste da Praça XV tem forte ligação com o rio. Foi esse que, além de abastecer a cidade, servia como local de trabalho para lavadeiras que vinham de vários pontos da cidade. O desenvolvimento dessa região do centro e o deslocamento de parte da população para tal, se deu principalmente pelas atividades comerciais geradas pelo porto e pela extração de rochas da conhecida “pedreira” presente no local, material básico na construção de várias edificações da época. Portanto, era ocupada majoritariamente por pessoas mais pobres, mestiços e negros, soldados e lavadeiras. Essas pessoas, em geral, viviam em cortiços alugados, que eram pertencentes aos ricos que viviam na área central da cidade, principalmente “do outro lado da praça”. Moldou-se, então, dois traçados urbanos mais claros: à oeste da Praça XV, com ruas perpendiculares e paralelas a ela, onde moravam os nobres; e à leste, o bairro da Pedreira, próximo ao rio da Bulha, peculiar quanto a seu traçado, tinha topografia acidentada pela presença de pedras de grande porte o que dificultavam as construções dos casebres e o traçado de quadras regulares. O desenho do bairro se deu então muitas vezes por formas orgânicas, que acompanhavam o relevo da pedreira, que mais tarde daria nome ao bairro. Com o aumento da população nesta área da cidade, começaram a aparecer os primeiros casos de doenças. Esse aumento demográfico é dado em grande parte pela instalação de um quartel do exército na área, e por boa parcela da população pobre ali morar. A pedreira era considerada o bairro mais sujo da cidade. Seu amontoado de casebres, becos sujos, o quartel e os dejetos no rio completavam o cenário. (Cabral, 1971 p.193 e 194). Nesse cenário de pobreza e vida marginal, a elite passou a se referir ao bairro como Rio da Bulha ou lugar das epidemias. 9


A partir desse momento, os primeiros sinais de esvaziamento da população originalmente residente do bairro começaram a aparecer. A proposta de uma nova política sanitarista, que viria a ser implantada em vários pontos do centro, causou a retirada de grande parte da população pobre da área. Nesse contexto, o bairro da pedreira teve a maioria de suas casas demolidas entre 1918 e 1922. As preocupações com a estética aliada ao alto custo da construção de uma casa sob as novas normas sanitárias agravaram ainda mais a situação da população residente. Forçada a retirar-se do bairro, a dificuldade de habitar o centro de Florianópolis tornava-se cada vez maior. As novas leis e decretos fecharam o cerco contra a pobreza. Alguns moradores venderam suas casas e outros, mais especificamente na Pedreira, tiveram suas residências demolidas. Nesse processo, não houve uma política de moradia aos pobres, que perderam tudo. Surgem então os primeiros registros de ocupações mais intensas nos morros e uma mudança drástica nos usos no bairro da Pedreira. Nessas circunstâncias, poucas edificações residenciais restaram, dando lugar, inicialmente, a edifícios institucionais. A partir da década de 30 até final dos anos 50, de acordo com POPINI (1997), o período de industrialização pelo qual o Brasil passava não traz muitos reflexos a Florianópolis, e a vida urbana, nesse momento, se mantém através do crescimento do setor público, sendo o comércio uma das atividades principais e de maior crescimento. Com a inauguração da ponte Hercílio Luz, parte das atividades econômicas passaram a ocorrer por terra, havendo assim um enfraquecimento nas atividades portuárias e valorização das ruas a oeste da Praça XV, como a Felipe Schmidt. Essa tinha ligação direta com a ponte, se tornando mais tarde a principal área de comércio do centro. Por outro lado, a Rua João Pinto no bairro da Pedreira, apresentava ainda grande fluxo de pessoas e forte comércio, 10

Mapa 1774 com os logradouros da época. Arruamentos mais definidos ao lado Oeste da praça XV. O bairro da Pedreira, nesta época já tinha alguns arruamentos definidos, principalmente pela rua João Pinto, que ia em direção as fontes d’água. Fonte: VEIGA , Florianópolis Memória Urbana 2010. Mapa de 1819 já demonstra arruamentos mais definidos no bairro da Pedreira. Rua Victor Meireles e Tiradentes já presentes neste levantamento. Fonte: VEIGA , Florianópolis Memória Urbana 2010.


Mapa de 1886 já mostra malha bem definida, como conhecemos hoje. Nota-se um forte desenvolvimento da área a oeste da Praça XV em direção ao parque da Luz. Nesse sentido o lado Leste do centro já mostra o desenvolvimento da Av. Hercílio Luz e do campo Manejo. Fonte: VEIGA , Florianópolis Memória Urbana 2010.

Mapa de 1916, do primeiro projeto de rede de esgoto da ilha. Fonte: VEIGA, Florianópolis Memória Urbana 2010.

principalmente ligado às atividades que restaram do porto da cidade. Se até essa época a paisagem do centro fora mantida quase intacta, a vida urbana, por outro lado, era dinâmica. Especificamente no bairro da Pedreira, os cinemas e bares geravam vida e atividades durante várias horas do dia, sendo esses locais pontos de encontro e lazer de boa parte da população durante anos. Muito da nova arquitetura do local, pós sanitarismo, eram de tipologias comércio-residência, sendo o térreo destinado a fins comerciais, e o primeiro pavimento a moradia do dono do estabelecimento. É a partir dos anos 60 que o centro da cidade e, principalmente o bairro da Pedreira, começam a passar por profundas mudanças na arquitetura e ocupação, causando rupturas com a cultura local e história do lugar. É nessa mesma década que Florianópolis começa a ter a suas primeiras construções modernas, dando lugar a antigas edificações e casarios que não mais se adequavam as necessidades e ao crescimento que o centro sofria. Além disso, segundo CASTILHOS, muitas atividades, principalmente habitação, começam a deslocar-se do centro para a periferia. Em Florianópolis, é possível perceber o aparecimento desses novos sub centros, como o crescimento do continente e áreas no norte e sul da ilha, colaborando para que o centro se torne, em sua grande parte, somente comercial. Outro ponto a ser destacado nesse sentido, é que muitas das intervenções feitas no centro nesse período, visaram a substituição de construções antigas degradadas, expulsando assim os últimos habitantes de baixa renda que possuíam uma identidade com o bairro. Percebemos então as primeiras marcas deixadas por uma falta de políticas públicas voltadas à habitação e manutenção de pessoas afetadas em seus bairros de origem. SANTOS (2009). Durante o sanitarismo, expulsou-se os 11


pobres do bairro para dar-se lugar ao novo, ao concreto e a altura. Além disso, a falta de habitação e pessoas que cuidem e criem laços com o bairro tende a torná-lo um lugar sem identidade e com problemas como violência e abandono, recorrentes hoje no bairro da Pedreira. Ainda na década de 60 e 70, a construção de um aterro na baía sul de Florianópolis começou a distanciar ainda mais a cidade do mar. Praticamente extinguiu-se o uso do porto, e construiu-se uma nova ponte, situando Florianópolis no mapa de cidade “moderna” do Brasil. Uma cidade que antes tinha em sua rotina a presença do porto e do mar, agora abrigava uma enorme infra estrutura rodoviária, feita para suportar o estouro imobiliário que o centro da cidade sofria. No bairro da Pedreira, a construção de edifícios em altura desproporcionais a malha urbana em “vazios” que ainda restavam no bairro e no lugar de antigas construções, muda radicalmente a paisagem do bairro e, junto ao aterro, se integram descaracterizando a paisagem e memória urbana do local. Como boa parte do aterro foi usada para suportar o tráfego de veículos, junto ao forte Santa Barbara e a Pedreira foi instalado o novo terminal urbano de transporte de Florianópolis. Como parte desta nova política rodoviária, o novo terminal urbano de transporte, era o local de convergência da maioria das linhas de ônibus que vinham dos bairros e continente. Com o aumento da população e, consequentemente, da frota e circulação de ônibus nessa área do centro, o bairro da Pedreira se beneficiou desse movimento gerado pelo terminal. A interface do bairro mais próxima a esse, tinha um forte comércio de passagem, que atendia o público que chegava ou saia do centro. Apesar do maior fluxo de pessoas ser em direção à Praça XV, zona oeste do centro, e Rua Felipe Schmidt, a construção do terminal impulsionou a instalação e manutenção de vários “cursinhos” preparatórios para vestibular, escolas e restaurantes, bem como um tipo de comercio “próprio” do local, como 12


sebos, bancas de revista e artesanato. Por outro lado, quando se propôs a mudança de lugar do terminal de transporte urbano, nos anos 2000, debateu-se durante anos quais implicações ao comercio local sua retirada iria refletir. Muitos comerciantes sentiram a queda de movimento e vários desses cursinhos preparatórios fecharam suas portas por não estarem mais tão próximos ao novo terminal. Por não fazer mais parte do grande fluxo de pessoas que saia do transporte público para o centro, o bairro perdeu grande parte do seu movimento durante o horário comercial. No entanto, outros fatores agravam a situação e a saída do terminal de integração do bairro não pode ser tomada como a principal causa da deterioração. Hoje, no bairro da Pedreira, a mistura funcional que poderia contribuir para a diversidade e poli funcionalidade ajudando na manutenção e salvaguarda do bairro, praticamente não existe. Assunto que será discutido mais amplamente nas próximas partes, o bairro da Pedreira tem hoje o reflexo principalmente do pós década de 60 e da expansão imobiliária e rodoviária que a ilha sofreu. Ao longo das décadas uma sucessão de erros e falta de políticas públicas que cuidem das cidades e de seus centros históricos geradores, permitiram que o bairro caísse no esquecimento perante o resto do centro. A Pedreira é um lugar de muito potencial, por toda sua história e comércio remanescente, mas ainda carece de um plano de desenvolvimento que possa mesclar os usos no bairro, proporcionando vida e urbanidade todas as horas do dia.

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O primeiro plano da Vila de Nossa Senhora do Desterro indica o desenho inicial da cidade, assentada entre dois córregos, a Fonte Grande (rio da Bulha) e da Palhoça, reforçando a importância desses no traçado da cidade. No centro do mapa a Igreja Matriz ainda em construção. Fonte: Santos, André, 2009, pág. 68

1754

Vista de Desterro em 1785, por Jean Francois Galaup de La Pérpuse. A Matriz se destaca ao fundo da imagem e o forte Santa Bárbara em primeiro plano. Ainda sem arruamentos definidos, a pobreza predominava na cidade e não havia muitas distinções entre moradias dos pobres e ricos. Fonte: SANTOS (2009) 14

Planta topográfica de Desterro, levantamento feito em 1876. Com uma malha urbana agora mais definida, a praça da Matriz já apresenta configuração geométrica parecida ao que conhecemos hoje, o que indicam o crescimento populacional do povoado. O lado a Leste da praça (bairro da Pedreira, Tronqueira e campo Manejo) já eram conhecidos como os bairros da pobreza e sujeira. Eram contornados pela fonte grande que abastecia a cidade, hoje Rio da Bulha. Fonte: Acervo da Biblioteca do Instituto do Planejamento Urbano de Florianópolis.

1876

O final do Séc. XIX e início do XX foi marcado por diversas epidemias que atingiam principalmente os bairros mais pobres. Nesse contexto, a elite começa a pressionar para que reformas fossem feitas na cidade. Começam a aparecer os primeiros decretos de higiene pública junto a projetos para rede de esgoto e canalização dos rios, incluindo da Fonte Grande, já considerado insalubre nessa época. Fonte: Acervo Instituto Histórico e Geográfico.


A construção da primeira rede de esgoto na ilha veio junto a várias intervenções e decretos sanitaristas. A primeira etapa dessas obras aconteceu com a canalização do Rio da Bulha, já considerado insalubre e disseminador de doenças e pragas. Não só o rio foi afetado nessas transformações, como praticamente todos os bairros pobres que o contornavam. Fonte: Acervo do Arquivo Público do Estado de Santa Catarina

1917

1910 O processo de demolição foi intenso até o começo da década de 20. A partir da inauguração da avenida do saneamento em 22, os argumentos eram de que a cidade precisava se embelezar. As áreas mais afetadas são justamente o Bairro da Pedreira, retratado nas fotos: em primeiro plano o Rio da Bulha já canalizado e ao fundo o processo de demolição das casas ao longo dos anos, forçando parte da população a se retirar. Fonte: Acervo do Arquivo Público do Estado de Santa Catarina

1919

1921

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Em 1926 era inaugurada a ponte Hercílio Luz. A primeira ligação da ilha continente foi importante para reforçar a imagem de Florianópolis como capital de Santa Catarina. Ao mesmo tempo, a construção da ponte fez as atividades do porto diminuírem. Em reflexo, as ruas que tinham ligação direta com a ponte, a exemplo da Felipe Schmidt ganham importância, assim como todo lado oeste da praça. Fonte: Acervo Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.

1926

1930 Até os anos 30, mais de 140 novos prédios haviam sido erguidos no centro da cidade, todos sob as novas leis sanitaristas. Novas edificações tomavam o lugar de casas e cortiços na reconstrução do que seria a nova “capital elegante”. No bairro da Pedreira, após todas as demolições, novos prédios do governo foram instalados no local, assim como os primeiros sobrados de comércio. Esse processo refletia uma mudança social muito forte: a ascensão da classe dos comerciantes (que permanece forte durante as décadas seguintes) e a expulsão da população pobre remanescente no centro. Imagem datada por volta da década de 30, mostra em primeiro plano os sobrados de comércios residenciais no largo da Alfândega. Atrás, o edifício que se destaca, Escola Normal, hoje Museu da Escola Catarinense, foi inaugurado no final da década de 20 logo após o processo sanitarista. Outros edifícios como o instituto politécnico também fazem parte desta época. Fonte: Acervo Instituto Histórico e Geográfico.

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As décadas de 60 e 70 marcam o começo das obras dos aterros que distanciaram o centro da cidade do mar. Em paralelo, o centro continua com seu crescimento acelerado. Nesse contexto, o bairro da Pedreira agora começa a perder grande parte de seus sobrados de comércio popular, dando lugar a edifícios principalmente de escritórios e institucionais. Essas mudanças, além de transformar as características físicas históricas do bairro, fecharam as porta de importantes comércios que antes eram referência para os moradores de Florianópolis. Além disso a construção do centro ARS e outros edifícios comerciais reforça ainda mais o lado Oeste da praça. Fonte: Acervo Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.

1950

1970

Os anos 50 marcam as maiores transformações na paisagem urbana da Ilha. A foto datada de 1955, mostra o bairro da Pedreira em primeiro plano, parte da Praça XV e ao fundo, ainda em desenvolvimento, a avenida Mauro Ramos e Beira-Mar. Nessa época, é perceptível o aparecimento dos primeiros edifícios em altura na cidade, alterando profundamente a tipologia do centro, antes com seus sobrados comércio/residência. A sede do Banco Nacional do Comércio de 1955 marca essa transformação no bairro como o edifício mais alto da cidade por um tempo. Fonte: Acervo Instituto Histórico e Geográfico. 17


De 1988 até 2003 o Terminal Cidade de Florianópolis foi o único terminal da cidade de onde todas as linhas começavam e terminavam suas rotas. Durante esse tempo, essa parte da cidade recebia grande fluxo de pessoas que vinham do continente e de toda a ilha. Em reflexo, o bairro da Pedreira adjacente ao terminal, vive uma época de maior integração na dinâmica do centro, com comércios e áreas educacionais que atendiam os usuários do terminal urbano. Fruto de muita polêmica, em 2003 o Terminal fora desativado para a inauguração do atual TICEN, levando outra vez o maior fluxo de pessoas para o lado “Oeste” da praça. Fonte: Acervo Instituto Histórico e Geográfico.

1988

2003

O novo Terminal Urbano trouxe mudanças significativas ao funcionamento da cidade. A mudança de maioria das linhas para essa área da cidade trouxe consigo grande parte do movimento de pessoas, deixando o terminal Cidade de Florianópolis e as áreas adjacentes a mercê do esquecimento. Agora cada vez mais desconectado a dinâmica do centro, o bairro da Pedreira sofre por estar geograficamente “longe” do terminal de integração e das áreas comerciais de maior fluxo da cidade. Fonte: http://farm4.staticflickr. com/3777/9710747335_f5dd08258a_b.jpg

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Dez anos depois de muitas reclamações por parte dos comerciantes do bairro da Pedreira, a prefeitura começa a implantar o projeto viva cidade, uma parceria entre o órgão público e os comerciantes. Esse programa vem em busca de dar uso e vitalidade a essa área do centro principalmente nos finais de semana. Diversas atividades são desenvolvidas ao longo do bairro, bem como feiras, apropriação de rua e calçadas para apresentações culturais. Em reflexo dos vários processos que o bairro da Pedreira sofreu, hoje o poder público começa a olhar com interesses para área, criado projetos que possam de alguma forma redimir todas as politicas de esquecimento que foram implantadas até hoje. Fonte: http://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2015/08/projeto-vivacidade-leva-food-trucks-para-o-centro-de-florianopolis.html

2013

2015

Em 2015 a prefeitura de Florianópolis assinou um acordo para revitalizar a área. O projeto Centro Sapiens viabilizara a isenção de IPTU e dará incentivo a startups se instalarem na área. Junto ao acordo Celesc e Casan a promessa é de melhorias de infraestrutura no local, como ampliação das redes de esgoto e aterramento de fiações elétricas. Por outro lado, os estudos das próximas páginas demonstram que já existe uma certa saturação em alguns usos do solo no bairro da Pedreira, e como esses influenciam na vida cotidiano do bairro. O projeto da Prefeitura tem como ponto principal reforçar o uso institucional de horário comercial, não se atendo aos problemas relacionados a segurança e manutenção de pessoas na área nos outros horários do dia. Fonte: Acervo Pessoal 19


Imagem travessa Radcliff e instituto arcoĂ­ris em primeiro plano. Hoje o local concentra bares que funcionam principalmente a noite. Fonte: Acervo Pessoal

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PARTE II - ASPECTOS SOCIAIS E MORFOLÓGICOS I - Estrutura do bairro

Recorte do bairro destacado em Laranja. Pontilhado rosa, vias principais da cidade que fazem a ligação do centro com os bairros. Fonte: Acervo pessoal

O bairro da Pedreira tem uma localização privilegiada na malha urbana de Florianópolis. O núcleo urbano da cidade se desenvolveu principalmente ao redor de avenidas hoje arteriais como Mauro Ramos e Hercílio Luz que tem ligação direta com o bairro, mas tarde com os diversos aterramentos, as avenidas Beira Mar Norte e Gustavo Richard fariam a conexão do centro com os novos núcleos urbanos da cidade, norte e sul da ilha e ainda o continente. Essa mudança na estrutura rodoviária da cidade, permitiu que o acesso a outros bairros se desse de forma mais direta, por outro lado muitos destas obras distanciaram a cidade do mar e foram o motor para outras mudanças que afetam o centro. Nesse contexto, não só o bairro da Pedreira como o centro em geral não eram mais o núcleo principal de atividades comerciais da 21


cidade. Foi possível perceber então, um gradativo abandono em áreas do centro, decorrendo do fato de parte desta zona já estar saturada do ponto de vista de infraestrutura, preço da terra entre outros. Nesse momento, muitas pessoas passaram a morar e desempenhar atividades concorrentes ao centro em outros lugares. Em reflexo, outras área da cidade foram ganhando importância, formando então novas centralidades. Por outro lado, as áreas urbanas centrais ainda são referência para a população, por serem ou terem sido um núcleo de atividades múltiplas, que muitas vezes agregam a oferta de serviços e empregos. O bairro da Pedreira tem uma característica particular de comércio urbano. Em relação ao centro, é o bairro que concentra principalmente comércios relacionados a usados, sebos e livrarias, o que o torna um lugar especifico e reconhecível perante suas atividades. O objetivo deste item é analisar a malha urbana central com foco no bairro da Pedreira, investigando seu uso cotidiano e como esse traçado influencia na vitalidade do bairro. Mapa ressalta a hierarquia de vias em uma área mais próxima ao bairro da Pedreira. Em azul Rua Mauro Ramos e Av. Hercílio Luz. Em Vermelho ruas coletoras que tem seus limites extravasados nas vias arteriais ou expressas. Fonte: Acervo pessoal

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Vias Rápida Expressa

Vias Arteriais Vias Coletoras


Apesar de estar inserido em uma área densa e com infra estrutura estabelecida da cidade, tendo ligação direta com as principais vias da cidade, o bairro da Pedreira apresenta uma paisagem degradada, característica de centros urbanos que sofreram um processo de esvaziamento. Uma análise sintática mais minuciosa que representa as integrações globais nesta área do centro, mostram um dado interessante: o bairro da Pedreira apresenta uma boa integração a malha urbana. Nesse sentido, é ainda interessante ressaltar, que de acordo com o mapa a baixo, esta área é uma das mais integradas do centro, em resumo, apresenta o maior número de conexões com ruas “externas” de grande integração com o resto da malha da cidade, sendo, coloração vermelha, alaranjado em praticamente todas as suas ruas, destacando suas características de integração com o entorno.

Mapa de sintaxe espacial analisa a integração global da malha urbana em uma determinada área. O mapa ao lado apresenta áreas centrais da Ilha e continente, destacando as linhas axiais mais segregadas ( coloração azul) e mais integradas (coloração vermelho). Fonte: Disponibilizado por Renato Saboya

Integração Global Segmentos | Distância angular Classificação por intervalos iguais

Mais Integrado

1:20.000

Mais Segregado

250

0

250

500 m

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Mapa Axial com zoom em área de estudo mostra espaços mais ou menos segregados da malha urbana.

Por outro lado, a análise sintática do local pode nos apresentar uma realidade diferente do que encontramos na vivência do espaço, como é o caso desta área. O mapa de sintaxe neste caso reflete a integração da malha para o uso principalmente rodoviário, portanto não traduz uma movimentação de pedestres no espaço urbano. Um exemplo disso é a Av. Gustavo Richard que apresenta altos níveis de integração mas quase nenhuma vitalidade ou uso urbano, ao contrário, cria espaços segregados na cidade. Nesse cenário, o bairro da Pedreira apresenta fortes integração com a Av. Hercílio luz, em reflexo suas ruas diretamente conectadas apresentam uma cor que indicaria um local mais integrado.

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Mapa de Fluxos gerais e entorno. Em azul ruas que delimitam o bairro externamente, em laranja ruas internas com trânsito compartilhado, em verde ruas exclusivas para pedestres.

Vias Limantes Vias Internas

Vias Ex Pedestre


Primeira imagem mostra final da Rua Nunes Machado e suas laterais destinadas a estacionamentos do sistema Zona Azul. Fonte: Acervo pessoal Segunda Imagem, Rua Victor Meireles olhar em direção a Av. Hercílio Luz. Declividade acentuada e presença de estacionamento nos dois lados da via. Fonte: Acervo pessoal Terceira Imagem, Calçadão da Rua João Pinto olhar em direção a Praça XV. Fonte: Acervo pessoal

Realizando um cruzamento entre o mapa axial e de fluxos, é possível perceber alguns cenários interessantes. De acordo com o modelo de análise gerado pela sintaxe espacial, as ruas João Pinto e Tiradentes tem um alto índice de integração a malha urbana. No entanto, de acordo com o mapa de fluxos locais a rua João Pinto se caracteriza como uma rua de acesso exclusivo a pedestres, características completamente diferentes da rua Tiradentes, que tem acesso de veículos. A rua Victor Meirelles caracterizada no mapa com a mesma coloração das ruas anteriores apresenta características semelhantes, no entanto, situada em uma cota mais alta do bairro, sua acessibilidade dificulta o acesso de pedestres. No cotidiano do local, é possível perceber que a maior movimentação de veículos se dá na rua Tiradentes, principalmente nos horários entre oito da manhã e meio dia e uma da tarde, principalmente devido aos horários de saída e entrada de alunos do colégio Energia. É interessante notar que somente a Rua Tiradentes é utilizada no bairro como rua de passagem mais intensa de veículos, cruzando o bairro no sentido Leste Oeste, as outras vias se caracterizam principalmente como locais de estacionamento do sistema Zona Azul, portanto não tem uma forte função de deslocamento dentro desta zona. Como somente os fluxos e sintaxe do local não refletem o cotidiano do bairro, já que vitalidade urbana se dá principalmente pelo movimento de pedestres nas ruas, e suas relações com o ambiente construído, fez se necessário a produção de outros mapas para uma percepção mais apurada do espaço urbano e suas relações durante as várias horas do dia. O próximo mapa, define alguns horários que julguei importantes no cotidiano do bairro. Esse modelo de estudo, busca investigar como funcionam as relações da movimentação no bairro com seu ambiente construído e usos. 25


Academia Cafés Bares Restaurantes Sebos Museu

Mapa com principais atividades comerciais de permanência presentes no bairro da Pedreira. Fonte: Acervo Pessoal

O degradê de cores mostra os diferentes horários comerciais encontrados no bairro. Nesse sentido, a escolha de demarcar as ruas ao invés das edificações vem da intenção de estudar como funcionam as interações destas e seus horários de funcionamento com a rua. Em uma escala de quatro cores, é possível perceber de forma mais clara, como o uso das edificações e seus horários de funcionamento influenciam na movimentação do bairro. Mapa representando os principais horários comerciais presentes no bairro. Em azul claro predominante, horário comercial do centro da cidade. Outras variações representam diversos horários de funcionamento dos estabelecimentos. Fonte: Acervo Pessoal 9h - 19h 9h - 22h 18h - 02h 24h

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Travessa Ratcliff, em destaque bar do Noel em um final de tarde de uma sexta feira. Fonte: Acervo Pessoal

No mapa ao lado, fica claro que à maioria de atividades acontecem no horário comercial 9 - 19 h. Este padrão, quebrado somente por algumas atividades exercidas pelo Colégio Energia, que funciona entre os horários de 8-22h, se sobrepõem ao horário comercial normal do centro, mais apresenta uso prologado atá as 22h. A travessa Ratcliff é a rua onde é possível perceber um uso prologado no bairro, especialmente durante a noite. Na rua Victor Meirelles o uso das 19 ás 24h fica restrito a área da Kibelândia. No entanto, é ainda interessante notar que o funcionamento destes estabelecimentos são principalmente após o horário comercial do centro, por isso, esses locais em sua maioria ficam fechados durante o dia. Identificadas pela cor mais escura estão as seções onde existem habitações, e portanto uma movimentação de pessoas em diversos horários do dia. Outro ponto relevante a ser levantado, são os tipos de comércios presentes no bairro, o que influência diretamente no número de pessoas que circulam em determinadas horas do dia no local. Em um levantamento feito para identificar o tipos de comércios que funcionam na área, é possível identificar uma quantidade significativa de estabelecimentos relacionados a alimentação. No entanto, em sua maioria esses estabelecimentos são restaurantes que funcionam principalmente entre 11 e 13 horas, diferente de cafés e lanchonetes que tendem a ficar em sua maioria até o horário comercial do centro, influenciando na permanência ou não de pessoas, bem como a movimentação de pedestres ao longo das ruas do bairro.

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II - Forma Urbana O centro de Florianópolis e o bairro da Pedreira tiveram parte de sua memória esquecida em reflexo das diversas mudanças ocorridas no começo do século. O plano diretor de uma cidade deve organizar e permitir um desenvolvimento sustentável de toda a malha urbana, tomando conta e traçando diretrizes para áreas especificas da cidade, como uma zona de patrimônio histórico ou natural. O plano da cidade de Florianópolis não protegeu em diversos casos o contexto histórico da cidade e permitiu muitas vezes uma mudança radical da paisagem urbana.

Os desenhos de Aldo Nunes, representam a mutação da paisagem urbana de Florianópolis ao longo das décadas. É interessante notar uma mudança profunda no skyline da cidade principalmente após os anos 70 e o crescimentos dos próximos 10 anos. Fonte: Perfis da cidade: edição comemorativa 262 anos de Florianópolis.

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Montagem bairro da Pedreira em evidência no Centro de Florianópolis. Fonte: Google Earth e acervo pessoal

Analisando o mapa de gabarito das edificações, é possível observar uma grande discrepância no ambiente construído do bairro. Fruto de um plano diretor comandado por interesses privados, o bairro sofreu um crescimento acelerado principalmente durante as décadas de 70 e 80. Nesse contexto, edificações tombadas e com valor histórico concorrem o espaço com edifícios de até 15 pavimentos. Parte desse crescimento vertical se deu principalmente na interface voltada ao aterro da Baía Sul, principalmente por o tamanho dos lotes no interior do bairro, geralmente de pequenas dimensões, fruto dos usos do local no passado. Por outro lado, o interior da malha, também apresenta edificações de inúmeros gabaritos e escalas, principalmente em diversos lotes que foram unificados para dar lugar a construções de grande porte. Mapa de Gabarito Fonte: Acervo Pessoal

1 . 2 PV 3 . 4 PV 5 . 7 PV 9 PV 10 . 13 PV Vazio

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Montagem Pedreira visto de cima. Fonte: Google Earth e Acervo Pessoal

Em comparação com o setor a Oeste da praça XV, o bairro da Pedreira ainda apresenta um número considerável de edificações históricas e apesar de seu crescimento vertical ter mudado parte da paisagem do local, é possível ainda observar arquiteturas de pequeno porte que sobreviveram as mudanças das décadas e da construção civil. Em parte, essa diversidade de tipologias, se deu pelo desenho urbano do bairro, com lotes de difícil apropriação pela iniciativa privada e por sua topografia acidentada em alguns locais. No mapa abaixo é possível perceber claramente esse desenho urbano. Outro ponto interessante a ser comentado, são os tipos de apropriações ao lote das edificações. Estas, em sua maioria não apresentam afastamentos, tendo principalmente sua testada na dimensão máxima do lote sem a presença de recuos frontais. Essa tipologia da ao bairro uma característica peculiar de relação edificação x rua, aliado as dimensões das caixas de via, que geralmente não ultrapassam os 6m.

Mapa de cheios e vazios Fonte: Acervo Pessoal

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Analisando a seção acima, fica visível a diferença de cotas presentes no bairro e a diversidade tipológica deste. É possível perceber que a rua Victor Meirelles além de estar em cotas mais altas do terreno, é a que apresenta os maiores lotes, junto a isso não apresenta edifícios maiores do que 4 pavimentos, esse cenário claramente influenciou o tipo de ocupação que ocorreu no bairro. Já a porção de cotas mais baixas como ruas Tiradentes e João Pinto mostra edificações de até 13 pavimentos. Nesse contexto, parte da rua Victor Meirelles apresenta várias edificações históricas tombadas, o que protegeu da especulação imobiliária - em partes - esta zona do bairro.

Seção transversal do bairro mostrando perfil entre aterro e rua Victor Meirelles Fonte: acervo pessoal

Modelo volumétrico das edificações encontradas no bairro: Acervo Pessoal

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{3D}


III - Usos Predominantemente de uso comercial, essa realidade é um reflexo das primeiras modificações estruturais ocorrida nos planos sanitaristas. Na época, o bairro da Pedreira já se tornara conhecido por um comércio específico, produtos que só eram encontrados nesta área do centro. Parte desta situação ainda acorre atualmente, o bairro conta com diversos sebos e lojas de artigos usados, encontrados especificamente nesta área do centro. O mapa a seguir demarca os principais comércios específicos e de uso cotidiano bem como outros pontos de interesse, sendo interessante ressaltar que as atividades comerciais demarcadas são as que tem mais potencial para uma permanência prolongada dos usuários. A exemplo, cafés, sebos, bares e ainda atividades culturais.

Academia Cafés Bares Restaurantes Sebos Museu

Mapa principais comércios de permanência Fonte: Acervo Pessoal

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4,0% 4,5%

7% 11%

69%

Gráfico comparativo percentual de edificações levantadas e seus respectivos usos Fonte: Acervo Pessoal Comercial Misto Institucional Insti + Comer Cultural Vazio Urbano Abandonado

Mapa de uso do solo. Fonte: Acervo Pessoal

Um olhar mais atento ao mapa de usos do bairro, demonstra que essa área tem em sua maioria um uso comercial. De acordo com os gráficos acima, no total de edifícios levantados, destes 69% são comerciais, mostrando a predominância deste uso. Ainda como levantado anteriormente, a grande maioria desses estabelecimentos funcionam no horário comercial do centro, entre 9 e 19 h. Destacase ainda, o uso institucional com 11% das edificações levantadas, geralmente funcionando dentro do horário comercial, sendo exceção o curso e colégio Energia, que apresenta um horário de funcionamento prolongado, geralmente até as 22 h. Um fator interessante de ser notado é o número de edificações levantadas que estavam em estado de abandono. No total do levantamento, os edifícios abandonados chegam a 7%, um dado relativamente alto se comparado a 11% dos edifícios institucionais ou ainda aos 4,5% 34


Imagem demonstra salas comerciais superiores para aluguel. Fonte: Acervo Pessoal

de uso misto e 4% de institucionais e comércio. Junto a esse dado, é interessante notar que somente uma edificação se mostra residencial exclusiva sendo portanto menos de 1% na contagem geral de usos, A definição de usos no bairro da Pedreira, nos mostra dados interessantes e preocupantes. Essa área do centro de forte apelo comercial, apresenta grande porcentagem de edifícios abandonados, sendo alguns inclusive tombados historicamente. Dentre estes, há ainda estabelecimentos levantados como comerciais mas que estão em partes fora de funcionamento, ou com pavimentos a alugar. Poucas são as edificações com uso residencial, fazendo com que a área apresente poucas atividades durante os horários da noite e finais de semana. Essa realidade, nos revela ainda um processo de esvaziamento que o bairro vem sofrendo. Diferente da área Oeste da praça XV o bairro da Pedreira tem seus comerciantes insatisfeitos com a movimentação de pedestres no local e com a falta de investimentos feitos pelo poder público. Por outro lado, a Pedreira apresenta uma diversidade interessante de estabelecimentos comerciais. Cafés, sebos e restaurantes são locais que costumam manter os usuários por mais tempo na área. Esse potencial observado, no entanto tem pouca margem para funcionar e trazer urbanidade ao bairro. As poucas unidades e diversidades habitacionais aliada a falta de acessibilidade em calçadas, vias e áreas de estar, dificultam a presença e permanência de pessoas nas ruas e comércios.

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Abandonado Lote Vazio Fechado ou a alugar

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IV - Edifícios e pontos de interesse

Eugène Le-Duc 1849

“O melhor meio para conservar um edifício é encontrar para ele uma destinação, é satisfazer tão bem todas as necessidades que exige essa destinação, que não haja modo de fazer modificações” (LE-DUC, Egène, 2000, p. 65).

A preservação e a re-integração de edificações históricas em uma cidade pode ser um artifício para revitalizações destas áreas degradadas. Florianópolis possui um centro histórico inserido na malha urbana do centro da cidade, e por isso bem integrada ao cotidiano e a vida da cidade. Além disso, o centro da cidade e o bairro da Pedreira em específico, possuem diversos exemplares arquitetônicos, de distintos períodos, compondo uma rica diversidade histórico arquitetônica. Por outro lado, como observado nos tópicos anteriores, o bairro sofre com o abandono e degradação de vários edifícios, incluindo históricos. Em 1980 iniciou-se o processo de levantamento de prédios históricos no centro, como parte do processo de preservação. As edificações foram avaliada individualmente seguindo alguns critérios como: valor arquitetônico, tipologia e integração ao conjunto urbano. Mesmo estando inseridas na malha urbana, muitas dessas edificações passam despercebidas aos transeuntes menos atentos. Seja muitas vezes por sua escala como edificação ou por estado de conservação. O bairro da Pedreira e as imediações da Praça XV ainda preserva várias edificações com valor histórico arquitetônico reconhecidos. No processo de levantamento e reconhecimento dessas edificações foram criados três categorias de tombamento, conforme sua relevância histórica e arquitetônica, sendo as categorias definidas deste modo: (DIAS, A. 2005 pg 79). Categoria P1: Imóvel a ser totalmente conservado ou restaurado tanto interna como externamente pelo excepcional valor histórico, 38


arquitetônico, artístico ou cultural de toda a unidade. Categoria P2: Imóvel participe de conjunto arquitetônico cujo interesse histórico esta em ser pertencente a esse conjunto, devendo seu exterior ser totalmente conservado ou restaurado, mas podendo haver remanejamento interno desde que sua volumetria e acabamento externo não sejam afetados de forma a manter-se intacta a possibilidade de identificados o perfil histórico urbano. Categoria P3: Imóvel adjacente à edificação ou conjunto arquitetônico de interesse histórico podendo ser demolido, mas ficando a reedificação ou edificação sujeita a restrições a serem definidas em legislação complementar, capazes de impedir que a nova construção ou utilização descaracterize as articulações entre as relações espaciais e visuais ali envolvidas. (Plano Diretor, 1997, Cap IV, Seção I, Subseção I)

P1 P2 P3

Mapa edificações tombadas P1, P2, P3. Fonte: Refeito por autor com base em: DIAS, A 2005, pg 80.

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Casa de C창mera e Cadeia 1780

FECAM

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Museu Victor Meireles 1950


Escola Catarinense

kibelândia

Colégio Antonieta de Barros

FAED

Instituto Arco - íris

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V - Áreas Verdes e Lazer A proximidade com a praça XV, principal ponto de encontro do centro de Florianópolis, faz do bairro da Pedreira um local de proximidade com uma área de estar e lazer importante da cidade. Por outro lado, o fato de grande parte desta zona do centro da cidade não ter uma polivalência de usos, incluindo nisso o uso residencial, parte desse espaço se torna subtilizado principalmente nos horários noturnos e durante os finais de semana. Após a canalização total do rio da Bulha, a Av. Hercílio Luz se tornou uma área de descanso muito utilizada por moradores e pessoas que fazem translado nesta parte do centro, ao lado Leste da Pedreira, a Av. Hercílio luz tem forte ligação com o bairro. Muito dessas áreas são usadas principalmente por alunos do Colégio Instituto e funcionários dos edifícios institucionais presentes no entorno. É interessante notar portanto que dentro dos limites do bairro da Pedreira não há áreas verdes de lazer, dificultando a permanência de transeuntes e dos poucos moradores do local. Mapa áreas verdes de lazer. Demarcados pela praça XV e Av. Hercílio Luz. Fonte: Acervo Pessoal

Grafite na rua Victor Meireles ao lado da Kibelândia. Fonte: Acervo Pessoal

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VI - Plano Diretor Em meados da década de 50, teve início a elaboração do primeiro plano diretor da cidade de Florianópolis. O plano propôs diretrizes gerais de desenvolvimento, expansão e de reorganização dos espaços através do zoneamento das funções urbanas. Algumas das propostas eram de manter o centro da cidade com suas funções comercias e administrativas e criar uma zona portuária no continente, que seria o indutor do crescimento da cidade (Pimenta, Pimenta, 2007 pg 28). Segundo DIAS A. “ O plano negava sua identidade na medida em que delimitava setores de desenvolvimento fora de seus eixos naturais de crescimento. Porém ao definir a manutenção das atividades da área central acabou contribuindo de maneira indireta para a manutenção do tecido urbano original e consequentemente com a manutenção das edificações antigas.” Em decorrência do grande crescimento urbano principalmente durante as décadas de 70 e 80 em 1997 teve início a elaboração de um novo plano diretor, mais detalhado que os planos anteriores mas sem mudanças drásticas em seu zoneamento. Por outro lado tanto o plano de 55 a revisão de 76 , 97 e o de 2014, em vigência, parece terem sido feitos sem levar em consideração a vida urbana já existente e as diversas características singulares que Florianópolis apresenta. O plano diretor em vigor apresenta condições para que edifícios de até 12 pavimentos sejam construídos ao lado de bens históricos tombados. Outro fator determinante é que o atual plano permite ainda através de diversos incentivos construa-se edifícios de até 18 pavimentos com taxas de ocupação máxima, contrariando um desenvolvimento sustentável a cidade, além disso, o novo plano não contempla e nem delimita novas áreas passiveis a serem transformadas em áreas verdes de lazer. 44


Mapa de zoneamento do plano diretor de 1997 demarcando o bairro da Pedreira. Fonte: Site da PMF editado pelo autor.

O antigo plano diretor de Florianópolis datado de 1997, zoneia a área do bairro da pedreira como AMC-6 ou área mista central. Este plano não contemplava ou criava diretrizes para proteção dos diversos edifícios históricos da área, ficando esses edifícios muitas vezes a mercê da especulação imobiliária. Dentro dos índices de ocupação, o plano ainda permitia que o número máximo de pavimentos chegasse a 18 através da compra de índices, sendo o número de pavimentos máximos previstos como 12 pavimentos, com índice de aproveitamento máximo entre 3 e 4,1 e taxa de ocupação de até 80% nos pavimentos de embasamento e 100% no polígono central.

O atual plano de Florianópolis, aprovado em 2014, apresenta um zoneamento para a área de AMC, Área Mista Central e destaca, diferente do plano antigo as áreas com edifícios tombados como ACI, Área comunitária Institucional. Por outro lado, o número máximo de pavimentos continua em 10 podendo ter um acréscimo de 2 pavimentos. A taxa de ocupação proposta fica em 50% e coeficientes de aproveitamento em 1. É interessante notar que mesmo mais de uma década depois, mesmo com melhorias, o novo plano diretor ainda não contempla áreas especificas da cidade. O novo plano ainda permite construções de até 12 pavimentos ao lado de edifícios históricos, permitindo total descaracterização da malha histórica da cidade. Esse tipo de legislação prioriza a densificação do centro sem pensar na vivencia e vitalidade dos espaços.

Mapa de zoneamento atual no bairro da Pedreira, plano diretor de 2014 Fonte: Site da PMF editado pelo autor.

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PARTE III - PERCEPÇÃO DO ESPAÇO Conclusões

“São as relações de vizinhança, o ato de ir às compras, o caminhar, o encontro, os jogos, atos corriqueiros e aparentemente sem sentido que criam laços profundos de identidades habitante - habitante e habitante - lugar”. JACOS 2000 pg 35

“Usos mistos nos níveis térreos e blocos curtos encorajam a circulação e permanência de pedestres”.

Jane Jacobs 1961

Ian Bentley 1985

“Uma boa imagem do ambiente da um importante senso de segurança emocional, satisfação e prazer, o espaço é sempre experienciado em associação com as memórias do passado. ”. LYNCH 1960

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Kevin Lynch 1960

“Para aumentar a robustez, a interface entre edifícios e espaço público deve ser projetada para viabilizar que uma gama de atividades privadas internas coexistam em intensa proximidade física com a gama de atividades públicas no exterior”. BENTLEY 1985 pg 69


A percepção do espaço é um capítulo em que apresento a oportunidade de mostrar minha visão sobre o espaço de estudo. Nesse sentido busco enfatizar a vida cotidiana do bairro relacionando-o com os estudos apresentados anteriormente, analisando criticamente a imagem atual do bairro, citando edifícios ou áreas especificas e sua influência no espaço.

O espaço construído influencia diretamente na dinâmica de uma cidade, podendo trazer benefícios a uma área, agregando vida urbana ou mesmo desqualificando-a. Nesse sentido um fator que é possível observar no bairro da Pedreira é a presença de várias fachadas cegas ou não ativas em áreas importantes do bairro. A imagem acima retrata o edifício dos correios e sua fachada voltada a rua Victor Meirelles. Esse 47


Edifício da SCGÁS com fachada não ativa sem interações com a rua na esquina da Av. Hercílio Luz. Fonte: Acervo Pessoal

tipo de situação tende a não gerar vitalidade urbana a cidade ao mesmo tempo que não incentiva o caminhar de pedestres acarretando em um local mais inseguro, e sem a presença de olhos para a rua, condicionante importante para vitalidade urbana. Outro fator importante na vitalidade de um bairro, é a diversidade de usos e suas relações com as ruas. O bairro da Pedreira, como apresentado anteriormente, concentra uma mescla interessante de usos e serviços. Em sua maioria são os estabelecimentos como restaurantes e cafés que fazem com que as pessoas permaneçam por mais tempo no bairro, seja almoçando ou tomando um simples café durante a tarde. Essas relações cotidianas enriquecem a vida urbana do local, trazendo consigo mais segurança e um senso de comunidade.

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“Fundos” da floricultura presente na Av. Hercílio luz, espaço não convidativo ao caminhar. Fonte: Acervo Pessoal

Fachada ativa no edifício da liga operária, restaurante com mesas sob pilotis e contato com a rua e calçadas Fonte: Acervo Pessoal


Início da travessa Racliff e estacionamentos Fonte: Acervo Pessoal

Edifício da secretaria da educação Fonte: Acervo Pessoal

A imagem acima mostra um edifício institucional presente no bairro. Além de seu pavimento térreo e andares superiores não terem qualquer interação com a rua, o edifício funciona somente no horário comercial do centro, refletindo em um esvaziamento da área a partir das 18h. Rua Nunes Machado tomada por estacionamentos do sistema Zona Azul Fonte: Acervo Pessoal

Outro fator interessante a ser relatado, é a presença dos carros em locais não permitidos, esses que poderiam ser destinados a áreas de lazer e descanso sendo locais atrativos as pessoas que trabalham no bairro, tornam-se áreas residuais que dificultam o acesso e o movimento de pelo bairro. Esse tipo de política imposta pela prefeitura de Florianópolis como forma de arrecadação, causa graves consequências ao bairro, transformando as ruas que deveriam ser locais de apropriação pelos pedestres em locais de disputa por vagas e ação de flanelinhas.

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O livro a imagem da cidade de Lynch diz que para estruturar a imagem de uma cidade as pessoas utilizam elementos como, caminhos, limites, bairros, pontos nodais e marcos. Neste sentido um ambiente legível oferece mais segurança e possibilita uma experiência urbana mais rica.

Cruzamento entre Av. Hercílio luz e Rua Victor Meireles Fonte: Acervo Pessoal

Edifício da escola normal visto da Av. Hercílio Luz. Fonte: Acervo Pessoal

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A imagem ao lado retrata uma das portas de entrada do bairro da Pedreira, o cruzamento da Av. Hercílio Luz com Av. Paulo Fontes. Analisando essa imagem é possível perceber a quantidade de símbolos que estão presentes nessa área. São postes, sinaleiras e placas, além de um edifício que utiliza a esquina em sua composição volumétrica mas se fecha para dentro utilizando uma fachada espelhada sem interações com o espaço público. A falta de símbolos marcantes ou portais que demarquem um bairro ou uma área “diferente” da cidade, pode comprometer sua legibilidade, bem como torná-lo um lugar comum ou qualquer, sem especifidades e complexidades. A arquitetura tem grande influência e pode possibilitar uma melhor leitura do espaço.

Cruzamento Av. Hercílio Luz e João Pinto Fonte: Acervo Pessoal

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Um dos problemas recorrentes no bairro da Pedreira, já citado anteriormente, são os numerosos edifícios abandonados, ou fechados, disponíveis para aluguel a anos. Florianópolis não tem uma política pública de regulamentação para edifícios ou lotes que estão em estado de abandono, muitas vezes a mercê da especulação imobiliária e neste contexto servindo como motor para degradação de certas áreas da cidade. Muitos dessas edificações tem potencial para receber novos usos, que possam diversificar ainda mais as atividades do bairro. Entre os edifícios que se destacam estão o antigo Hotel Mirante da ilha, abandonado a mais de 6 anos, a escola Antonieta de Barros e outras edificações de pequeno porte.

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O mapa abaixo levanta as edificações passiveis a serem reutilizadas para seguintes atividades: Habitação, ou comércio variado/cultural. As edificações com potencial para habitação são as que já abrigavam um uso semelhante no passado. A questão habitacional, poderia atingir diversos usuários, como estudantes, casais, ou até mesmo unidades sociais. É o caso do antigo hotel Mirante da Ilha e do edifício da imagem a baixo, que antes do abandono tinha uso residencial. Nesse sentido, essas edificações teriam mais condições de se adequar ao novos usos. Outros tipos de habitações temporárias ainda poderiam ser incentivadas no conjunto de casas retratado na página ao lado. As edificações de potencial cultural, poderiam ser usadas para potencializar atividades noturnas, como há antiga escola Antonieta de Barros, ao lado do Museu Victor Meireles, que poderia se transformar em um anexo do museu, com cinemas, bares. Já os lotes vazios, mereceriam um estudo mais aprofundado para novos usos e possíveis novas edificações ou áreas verdes de lazer, uma carência observada no bairro. Habitação Cultural Lote Vazio

Edifícios abandonados na Rua Tiradentes. Fonte: Acervo pessoal

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PARTE IV -REFERÊNCIAS I - Programa morar no centro SP

A cidade de São Paulo é a maior cidade do país com uma população superior a doze milhões de pessoas, consequentemente enfrenta problemas sociais proporcionais. A região central de São Paulo dotada de infraestrutura necessária para habitação vem de acordo com a Secretaria da Habitação e Desenvolvimento Urbano/SEHAB, perdendo moradores desde a década de 70, comprovado pela grande quantidade de edificações subutilizadas ou vazias. A explicação para tal fenômeno se da principalmente pela “deterioração da qualidade de vida e busca por bairros residenciais e condomínios fechados”. SEHAB (2004, pg. 05). O programa Morar no Centro coordenado pela secretaria de habitação e pela COHAB-SP busca um plano de reabilitação da região central, que inclui o resgate histórico e arquitetônico da região central, adequando as edificações em estado de abandono a novos usos, viabilizando moradias adequadas para pessoas que moram ou trabalham na região, combinando soluções habitacionais com iniciativas de geração de renda e diversidade social nos bairros centrais. O projeto apresenta então três formas possíveis de intervenção urbana sendo: Projetos habitacionais em terrenos ou edifícios vazios, que visa a reforma de edifícios abandonados contribuindo para reverter o processo de abandono de algumas quadras e recuperação do patrimônio; Perímetros de reabilitação integrada do habitat que prevê o desenvolvimento de ações conjuntas com a criação de unidades habitacionais, melhoria de cortiços, reabilitação de patrimônio e criação de novas áreas verdes e projetos especiais que apresentam maior complexidade necessitando de articulações entre diversos órgãos municipais, dentro desse quesito encontra-se projetos que visam requalificar áreas ambientais ou históricas tombadas como o Mercado Municipal. 54


Edifício Riskallah Jorge em SP, projeto de readequação para o uso residencial. Fonte: SILVA (2004).

Por meio de algumas modalidades de atuação o projeto Morar no centro de SP, conseguiu revitalizar e readequar muitos cortiços e edifícios abandonados na cidade de São Paulo. É interessante notar que vários artifícios foram utilizados para a manutenção das pessoas mais pobres nessas áreas e que ao mesmo tempo novos moradores fossem atraídos ao centro da cidade. Alguns desses artifícios são, a Locação Social, que atende famílias com valores de alugueis de habitações compatíveis com seus rendimentos. O programa de Arrendamento Residencial, que é desenvolvido pela Caixa Econômica destinado a famílias com renda entre 3 a 6 salários mínimos, onde o imóvel é arrendado por 180 meses e posteriormente as famílias tem a opção de comprar o imóvel. Outras propostas que foram implementadas foi o programa de Intervenção em Cortiços que visou melhorar as condições de habitabilidade nos cortiços com o financiamentos público e participação dos proprietários no processo de intervenção.

Exemplo de intervenção em cortiço do Casarão do Carmo, 25 unidades habitacionais. Fonte: SEHAB (2004 pg 66)

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II - Temple Bar - Dublin

A escolha desta referência por esse local ter fortes semelhanças com o bairro da Pedreira no que se diz respeito ao seu uso e passado histórico apesar de estarem em situações históricas totalmente diferentes, o Temple Bar em Dublin na Irlanda, se caracteriza por um quarteirão histórico da cidade de Dublin, com forte história relacionada ao porto a área do Temple Bar era o local de atracadouro dos navios mercados na antiga cidade. Esse uso ao longo dos anos motivou uma decadência da área principalmente durante os anos 70 e 80 onde a área ficou caracterizada como o espaço dos bordeis e de habitações dos mais pobres. No final começo dos anos 80 a prefeitura de Dublin efetua a compra de toda essa área desvalorizada da cidade para a construção do que seria um terminal metroviário que integraria todo a Irlanda. Afetados pela conjuntura econômica da época a prefeitura da cidade teve de adiar o projeto por alguns anos. Nesse tempo, enquanto aguardava, a prefeitura colocou sobre forma de arrendamento de baixo custo as pequenas edificações que sobraram no bairro, graças a isso, muitos ateliês de artistas, oficinas de artesões e pequenas associações começaram a se instalar no bairro, procurando por baixos preços de aluguéis.

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Atividades desenvolvidas pela associação dos moradores do bairro, cinema ao ar livre. Fonte: Acervo Pessoal

A partir daí uma grande mudança começou a ocorrer no bairro, além dos vários novos artistas, artesãos, arquitetos criarem seus ateliês no bairro, parte dessa edificações serviam também como moradia, com o funcionamento do comércio no nível da rua e a residência nos pavimentos superiores. Essas pessoas protagonizaram e abriram caminho para a reabilitação do bairro. Estava portanto criada condições para que esses novos residentes estabelecessem uma relação com o local e passassem a criar alternativas para o futuro da área. Foi então criado em acordo com a prefeitura da cidade o Temple Bar Development Council, que eram os representantes do bairro que desenvolveram medidas para a valorização do patrimônio histórico do local, impulsionando atividades culturais, e a polivalência de usos, transformando o bairro no centro jovem de Dublin, com aluguéis competitivos para estudantes e artistas, e isenção de impostos para pequenos pubs e bares. Hoje o Temple Bar se tornou referência na Irlanda no que se diz respeito em políticas reabilitação conjunta entre comunidade, prefeitura e iniciativa.

Imagens do bairro Temple Bar em Dublin mostram as maioria das atividades que acontecem nas calçadas e na rua Fonte: Acervo Pessoal

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PARTE V - DIRETRIZES

Após as análises e estudos sobre o bairro da Pedreira, fica claro a importância desta parte da cidade para o cotidiano do centro. Lugar de muita história, o bairro da Pedreira tem grandes potenciais a serem aproveitados assim como muitos desafios. Nesse contexto a apresentação das diretrizes irá guiar meu processo projetual com projetos específicos que atendam e respondam as necessidades do bairro da Pedreira. 1. Manutenção e incentivo a polivalência de usos. A mistura de usos é um dos quesitos mais importantes na vida urbana e na vitalidade de uma área. O incentivo e manutenção de usos heterogêneos garante diversidade de pessoas e de atividades, propiciando uma vida mais sustentável que incentiva o caminhar e curtos deslocamentos dentro da malha, diminuindo congestionamentos e poluição. 2. Buscar alternativas para manutenção e criação de novos usos residenciais no bairro. Preenchendo vazios urbanos e requalificando edifícios subutilizados. Desde o começo do século o bairro da Pedreira e o centro de Florianópolis vem sofrendo com problemas causados pelo esvaziamento e deterioração das áreas centrais. Parte deste cenário se da pela perda de moradores comprovado pelos estudos que mostram a grande quantidade de edificações vazias ou subutilizadas. O centro da cidade é dotado de grande diversidade social, completa infra estrutura, com rápido acesso a qualquer tipo de serviço ou transporte e aliado a maiores opções de oportunidades de trabalho. Sabendo disso, o bairro da Pedreira tem total potencial para a criação de unidades habitacionais em terrenos vazios ou em edifícios passiveis a reformas, sendo a melhor alternativa a recuperação e reabilitação desses edifícios para o uso residencial. 58


3. Priorizar a diversidade social evitando o processo de expulsão da população mais pobre e incentivar o centro como uma área de moradia diversa. Em seu processo de desenvolvimento parte da população pobre originária do local foi expulsa da Pedreira, criando os primeiros assentamentos nos morros da capital. Incentivar a diversidade de classes sociais garantindo habitação que possam mesclar os diversos tipos de famílias, possibilita a criação de comunidades mais diversas. 4. Incentivar a moradia de diversos tipos como forma diversificar a população local. O incentivo de moradia estudantil pode ser uma saída para a diversificação e o uso prologado dos vários estabelecimentos presentes no bairro, garantindo uma movimentação das ruas em vários horários do dia. 5. Intensificar o desenvolvimento sustentável do bairro criando espaços de convívio e lazer incentivando um senso de comunidade. Áreas verdes de lazer que podem ser geradores de comunidades mais fortes e preocupadas com o bairro em que moram. Atualmente o desenvolvimento sustentável de bairros em grandes cidades, implementar hortas urbanas como meio de fomentar uma participação popular, criando laços entre os moradores e seu bairro. 6. Priorizar o design universal garantindo acessibilidade a diversos usuários. 59


BIBLIOGRAFIA

DIAS, A. F. A REUTILIZAÇÃO DO PATRIMÔNIO EDIFICADO COMO MECANISMO DE PROTEÇÃO: uma proposta para os conjuntos tombados de Florianópolis. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2005. JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2011. IPUF, Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis, 2013. LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2011. SOUZA, Jéssica P. O Plano Diretor de 1952-1955 e as repercussões na estruturação urbana de Florianópolis. Dissertação, Maria Inês Sugai, 2010. VARGAS, Heliana Comin, CASTILHO, Ana Luisa Howard. Intervenções em centros urbanos: objetivos, estratégias e resultados. 2ed. Barueri, SP: Manoele, 2009. VEIGA, Eliane Veras da. Florianópolis Memória Urbana. Florianópolis: Fundação Franklin Cascaes, 2 ed. 2008. MILÃO, Susana. A “Cidade Criativa” e os modelos de regeneração urbana. Para uma análise crítica das Sociedades de Reabilitação Urbana. 2006. SANTOS, André Luiz. Do Mar ao Morro: a geografia histórica da pobreza urbana em Florianópolis, 2009. VAZ, Nelson Popini. Reorganização da área central de Florianópolis: O espaço público do ritual, 1990. 60


SOUZA, Jéssica P. O Plano Diretor de 1952-1955 e as repercussões na estruturação urbana de Florianópolis. Dissertação, Maria Inês Sugai, 2010. CABRAL, Osvaldo Rodrigues. Nossa Senhora do Desterro: Notícia e Memória. Florianópolis 1979. CHOAY, Françoise. A alegoria do Patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade: Editora UNESP, 2001. PEREIRA, Elson M. Gestão do Espaço Urbano: um estudo da área central e continental de Florianópolis. 1992

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Pedreira, repensando o bairro histórico. Florianópolis  

Trabalho final de graduação 1. Universidade Federal de Santa Catarina. Arquitetura e Urbanismo

Pedreira, repensando o bairro histórico. Florianópolis  

Trabalho final de graduação 1. Universidade Federal de Santa Catarina. Arquitetura e Urbanismo

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