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CLAUDIO EDINGER A FOTOGRAFIA CONTEMPORANEA +ensaio

JUAN ESTEVES DUPLA ARQUITETURA e nsa i o s ALEXANDRE URCH PAULA HUVEN CARLA RAMOS ANTONIO Augusto FERRAZ CARLOS ZAITH

N. 00 junho 2013

a imagem midiatica: SIMONETA PERSICHETTI 1


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EDITOR GERAL Antonio A. Ferraz DIRETOR DE ARTE Marcelo Mesquiatti SECRETÁRIO DE REDAÇÃO Marcos okuno

SUMARIO

JORNALISTA RESPONSÁVEL Luiz Fernando Ribeiro Alvarenga

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ALEXANDRE URCH

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CARLOS ZAITH

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JUAN ESTEVES

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ANTONIO AUGUSTO FERRAZ

www.fzine.com facebook.com/fzine contato@fzine.com

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PAULA HUVEN

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CLAUDIO EDINGER

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CARLA RAMOS

CLAUDIO EDINGER A fotografia Contemporânea

SIMONEtTA PERSICHETTI

Esta edição de número Zero da Revista f:zine é uma produção acadêmica referente ao Projeto Integrado Multidisciplinar do 3º semestre do curso de Design Gráfico da Universidade Paulista UNIP - Câmpus Bauru-SP. Todos os direitos reservados aos respectivos autores das imagens e textos. É terminantemente proibida a reprodução parcial ou total desta obra ou de seus conteúdos separadamente.

A Imagem Midiática 3


E DITORIAL É intrigante que um termo composto como Arte Contemporânea, com duas palavras tão simples, possa causar arrepios e dúvidas na maioria das pessoas, fazendo com que muitos torçam o nariz ou prefiram mudar de assunto, já que todos conhecemos tão corriqueiramente suas definições e significados. Sabendo que os termos se referem à “Atividade criadora do espírito humano, sem objetivo prático, que busca representar as experiências coletivas ou individuais através de uma impressão estética, sensorial, emocional, como tal apreendida por seu apreciador” ¹ e a “Aquele ou aquilo que pertenceu à mesma época passada ou que é do tempo atual” ¹, por qual razão temos tanta dificuldade em conceituar as artes contemporâneas? Seria óbvio e simplório em demasia defini-las como a Arte que se produz em seu tempo, pois dessa maneira, toda Arte é contemporânea, já que se remete ao momento em que foi produzida. Então é preciso aprofundar-se ainda mais no contexto que desejamos abordar. Primeiramente, se faz necessário dizer que por arte, nos referimos aqui não àquela meramente decorativa, que se baseia exclusivamente na formalidade estética, mas à produção que busca oferecer elementos para a discussão de determinados temas concernentes à sociedade e ao mundo em que vivemos. Trata-se da arte que ultrapassa limites e desconstrói paradigmas, tratando de sentimentos, conceitos e dúvidas, suplantando a função de adorno ou enfeite, para comunicar ao observador, as questões pretendidas pelo autor. Então procuraremos abordar o universo das Belas Artes como sendo um me4

canismo de transformação social, pessoal e até mesmo ambiental. Também é importante que se compreenda a quais temas e contextos buscamos atingir, já que falamos do que se produz na contemporaneidade. Segundo a Enciclopédia de Artes Visuais do Instituto Itaú Cultural “Os balanços e estudos disponíveis sobre arte contemporânea tendem a fixar-se na década de 1960, sobretudo com o advento da arte pop e do minimalismo, um rompimento em relação à pauta moderna, o que é lido por alguns como o início do pós-modernismo. Impossível pensar a arte a partir de então em categorias como “pintura” ou “escultura”. Mais difícil ainda pensá-la com base no valor visual, como quer o crítico norte-americano Clement Greenberg. A cena contemporânea, que se esboça num mercado internacionalizado das novas mídias e tecnologias e de variados atores sociais que aliam política e subjetividade (negros, mulheres, homossexuais etc.), explode os enquadramentos sociais e artísticos do modernismo, abrindo-se a experiências culturais díspares. As novas orientações artísticas, apesar de distintas, partilham um espírito comum: são, cada qual a seu modo, tentativas de dirigir a arte às coisas do mundo, à natureza, à realidade urbana e ao mundo da tecnologia. As obras articulam diferentes linguagens, dança, música, pintura, teatro, escultura, literatura etc., desafiando as classificações habituais, colocando em questão o caráter das representações artísticas e a própria definição de arte. Interpelam criticamente também o mercado e o sistema de validação da arte.”² Desse modo, como não entender a Fo-

tografia como uma das maiores, senão a maior manifestação contemporânea de Arte? Como um produto da tecnologia ela própria se legitima como meio de produção contemporâneo e com o advento das novas mídias e em particular das redes sociais, se apresenta como a mais democrática das linguagens artísticas. Os celulares e smartphones tornaram-na acessível à maioria da população e diferentemente do que se imaginava há pouco tempo, a qualidade técnica das fotografias produzidas por esses aparelhos atingiu níveis altíssimos. Com isso, muitos fotógrafos os introduziram definitivamente em seu arsenal de equipamentos e vem produzindo obras de alto padrão com eles, arte esta que vêm alcançando valores de comercialização expressivos. Apesar dessa disseminação e popularização é curioso notar que há poucas publicações que tratam desse contexto global. Ainda é pouco o que se conhece sobre a produção fotográfica contemporânea, em especial a que provém de autores brasileiros e, a não ser no ambiente formal da arte e em seu círculo de relacionamentos, esse tema ainda é abordado de maneira superficial e com pouca abrangência. Daí o desejo de completar esse vazio de informação e principalmente de formação com a criação de um veículo que possa cumprir parte desse papel. Nasce então a f:zine, que chega com o desejo de tornar-se uma referência no que se aplica à Fotografia Autoral Brasileira. É uma publicação cujo foco é a observação da imagem e a educação visual através da produção contemporânea, com um apelo visual


limpo e poucos, porém relevantes textos que possam vir a contribuir com a formação de opinião e entendimento do papel e da importância da Fotografia como linguagem e manifestação artística e seus desdobramentos. Queremos com isso oferecer uma plataforma de integração entre os fotógrafos, curadores, galeristas, colecionadores, estudantes, professores, organizações e o público em geral que tenha um interesse multidisciplinar sobre esse universo. Nesta edição inaugural, a de número Zero, temos a honra de contar com a colaboração de nomes já consagrados por sua maestria, assim como a de talentos que vêm ganhando destaque no cenário nacional. Nomes como o de Claudio Edinger, que, desde o início, nos apadrinhou com carinho abraçando o projeto e nos incentivado a cada passo e que nos presenteia com uma maravilhosa seleção de imagens, além de um profundo e reflexivo texto sobre o passado e o presente da fotografia e a quem dedicamos um especial agradecimento e Juan Esteves com seu olhar sensível e apuradíssimo, que nos agracia com suas observações e intervenções sobre a “monotonia acinzentada” da paisagem arquitetônica paulistana. Contamos ainda com os belos trabalhos de Alexandre Urch e sua busca pelos detalhes e sutilezas da ocupação e dos usos dos espaços urbanos pelas pessoas, Paula Huven, com sua delicada abordagem sobre as relações humanas e os sentimentos que as envolvem, Carla Ramos e sua sensual pesquisa sobre o corpo como meio de expressão e fonte de prazer. Para completar esse rol de talentos, apresentamos uma excelente reflexão ética, sobre os ru-

mos da produção fotográfica diante de seu recente crescimento no mercado das artes, brilhantemente escrita pela Professora Simonetta Persichetti. Fazemos também uma singela homenagem póstuma ao querido amigo Carlos Zaith, que se foi no final do ano passado, mas que deixa um legado de belíssimas imagens que demonstram sua preocupação e engajamento com a preservação e inclusão ambiental, numa edição especial e num apaixonado texto escrito por sua esposa, Ariadne Zaith. Aproveito a especial ocasião para apresentar meu trabalho cuja temática onírica busca referências no Surrealismo para abordar esse contexto de uma maneira atual e cotidiana. Agradecemos profundamente a todos os que tornaram possível a realização desse projeto, em especial aos artistas, que generosamente nos cederam suas obras e textos e que, desde sempre, nos reservaram especial carinho e atenção. Esperamos que nosso trabalho apaixonado que se inicia agora, na direção de um futuro possível, com dedicação e carinho, esteja à altura do olhar exigente do público leitor e que possa contribuir para a compreensão, a difusão e a distinção que a arte fotográfica autoral merece. Assim fazemos o convite a todos: Vamos pensar fotografia?

Antonio Augusto Ferraz Editor

¹http://aulete.uol.com.br ²http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/ index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=354

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CLAUDIO EDINGER a fotografia contemporânea Em 1987 o fotógrafo Duane Michals disse “A fotografia nunca será arte enquanto mostrar o que já sabemos. O que não vemos é muito mais importante do que o que vemos.” Como, então, fotografar o que não vemos? Será que a fotografia alcança o estatuto de arte? Mas a fotografia já nasceu assim. Desde Hippolyte Bayard (1801-1887), um dos inventores da fotografia, ela reconstrói a realidade. Bayard inventou a fotografia antes de Daguerre. Quando Bayrard soube que Daguerre foi reconhecido como inventor oficial pela Academia de Ciências da França mandou uma foto para a Academia. Nela aparece morto - por afogamento. Atrás da foto escreve um longo texto que, resumindo, diz: “Aqui jaz Hippolyte Bayard, que se suicidou depois que soube que todas as honras da fotografia foram para Daguerre e não para ele.” Foi o primeiro fotógrafo contemporâneo, o primeiro autor na fotografia. Se a arte é uma mentira que conta a verdade como diz Picasso, Bayard foi um grande mentiroso - e artista! A fotografia é mais real que a própria realidade (pois esta está sempre em fluxo). E por ser tão real a fotografia desperta, assombra, altera, provoca, re-inventa a realidade. Esta é a nova fotografia, a fotografia que reflete não só o mundo invisível, o mundo da imaginação como também reflete seu autor. Vemos uma foto de Abelardo Morell (que transforma quartos por onde passa em cameras pinhole) e sabemos de quem é. Vemos os retratos artificiais de crianças, feitos

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por Loretta Lux, e não há dúvida de quem é seu autor. Vemos as paisagens detalhadas de Massimo Vitali,que utiliza uma câmera de grande formato 8X10 cm, e não resta dúvida de quem é a autoria. Autoria é a palavra chave na fotografia fine arts, a fotografia que vende por milhões em leilões da Christie’s, a fotografia que vem tomando conta das bienais de arte, dos museus e das coleções privadas. Mas, mais que isso, a fotografia contemporânea mostra-nos quem somos, reflete o que temos dentro, os limites (ou a falta de limite) de nossa imaginação. Ao mesmo tempo, mostra como pensamos: a fotografia nos possibilita exercer em imagens nosso poder de síntese, nossa capacidade de apreciar e desvendar paradoxos e a ambiguidade prevalente em tudo o que testemunhamos com os olhos. E estamos apenas no começo. No começo do século 20, quando o fotógrafo francês Lartigue começou a usar uma câmera portátil, capaz de congelar o movimento em alta velocidade, nasceu uma nova maneira de fotografar que foi desaguar no Cartier Bresson. Então surgiu a fotografia digital. Logo veremos, cada vez mais, um desenvolvimento estético sem prescedentes na história. Além disso há uma migração de talentos da pintura para a fotografia. Villem Flusser diz que a primeira revolução cultural aconteceu 2 mil anos AC quando a escrita foi inventada. A segunda é agora, com o aparecimento da fotografia.


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ALEXANDRE URCH 8

Fotógrafo paulista, nascido em Abril de 1977, formado em design gráfico e vencedor de diversos prêmios, entre eles o Concurso Leica-Fotografe na categoria Ensaio e a XVI Bienal Nacional de Arte Fotográfica em Cores. Seu trabalho é focado em documentar o cotidiano dos lugares por onde passa, principalmente da cidade de São Paulo. Possui dois projetos chamados “O Cheiro da Rua” (ocheirodarua.com.br) e “As Cores das Ruas” (ascoresdasruas.com.br) em que mostra um pouco desse cotidiano.


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“A fotografia contemporânea Influencia meu trabalho através de uma apropriação de imagens da realidade, buscando detalhes que passam desapercebidos pelo olhar comum. O cotidiano ingênuo e natural que eu registro na verdade são imagens construídas muito antes de eu registrá-las, que buscam tornar o invisível e ordinário visível para todos.” 14


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JUAN ESTEVES

Iniciou a carreira profissional como fotógrafo independente, colaborando com agências nacionais e internacionais (1980-1984). Foi repórter fotográfico dos jornais A Tribuna, de Santos (1985), e Folha de S. Paulo, onde atuou também como editor-adjunto de fotografia (1986–1994). Desde então trabalha como fotógrafo independente para a imprensa, editoras e gravadoras de discos. Suas fotos foram publicadas em jornais e revistas do Brasil e do exterior, como Elle, Isto É, Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, O Globo, Veja, Vogue, Stern, Time, Newsweek e Marie Claire, entre outros. Vive em São Paulo.

Esta série, baseada na arquitetura histórica paulistana, faz parte de um trabalho mais extenso, integrando arquitetura e fotografia. Ambas vertentes se conectam desde que a fotografia existe e minha ideia é usar as formas arquitetônicas como referências para trabalhos abstratos, uma reconstrução dessa realidade histórica. De certa forma, é a oposição de meu trabalho mais formal de imagens de arquitetura, feita em preto e branco, do meu livro “Capital, São Paulo e seu patrimônio arquitetônico”, publicado em 2010. Também é uma forma de me expressar sobre um novo conteúdo estético, a partir do uso intensivo de cores saturadas, sobre uma arquitetura monocromática, quebrando assim uma monotonia explícita e propor uma nova releitura sobre a cidade.” 18


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PA U L A HUVEN

A paisagem entre as janelas

2006. Mudei-me de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro. Trouxe comigo cerca de duas dúzias de filmes preto e branco em médio formato. Perderam a data de validade naquele mesmo ano e continuaram guardados. A mudança da cidade reconfigurou todos os meus vínculos. Os lugares e as pessoas, que me fazem entender quem eu sou, são outros. Penso no Rio de Janeiro e sua geografia, na paisagem natural incrustada no movimento urbano. O oceano Atlântico penetra o continente intercalado por pedras enormes. Água e vento têm todas as brechas de circulação. A umidade, o calor, a instabilidade. A metrópole, seus vestígios coloniais, sua verticalidade concreta, seu horizonte aquoso. Sinto essa geografia da cidade permear as relações entre as pessoas. Essa paisagem nos rodeia e nos infiltra, nos une e nos separa. Penso nos amigos com os quais convivo aqui, em nossos encontros pela cidade, em como nossas amizades, em sua maioria, nascem e permanecem do lado de fora de nossas casas. Entrar em suas casas é estar um pouco mais perto, compartilhar seus silêncios habituais. Os interiores das casas são lugares de intimidade. Sinto falta disso no Rio de Janeiro. E, novamente, a imagem da paisagem me invade. Ela sempre estará presente, mesmo que do lado de fora das casas, visíveis através dos vidros e cortinas das janelas. 26

2012. Decidi usar aqueles filmes vencidos para fotografar meus amigos. Os retratos, feitos em visitas noturnas às casas das pessoas, funcionam também como espécie de licença a essa visita para a qual eu me convido. Mas o retrato acontecia como uma pausa no encontro, um momento solene. Trata-se de um pequeno embate, e não da captura de um momento íntimo trivialmente vivido por nós. Se por um lado foi a fotografia que me levou até ali, ela também nos distancia, nos une e nos separa. As relações com as pessoas fotografadas se desenvolveram enquanto os traços desse mesmo tempo eram depositados nos filmes vencidos. Os sais de prata têm sua sensibilidade alterada, como se fossem revelando-se, mesmo antes da exposição à luz. O tempo agia paralelamente nas minhas relações pela cidade e registrava-se também no interior do filme. O momento fotográfico dos retratos é o momento em que coincidem esses fluxos temporais paralelos. Os retratos em longa exposição - cerca de 15 segundos de registro cada um - fixa não o movimento do corpo, mas o corpo, que permanece o mais imóvel possível para tornar-se uma imagem estática. Imersos na pausa, os sujeitos do ato fotográfico, inseridos no instante expandido, podem olhar, também de forma expandida, para os sutis movimentos que se desencadeiam durante o ato fotográfico.


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O QUE NOS UNE, O QUE NOS SEPARA [2011 - 2012]


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CLAUDIO ED IN G ER

Claudio Edinger (Rio de Janeiro RJ 1952). Fotógrafo. Na década de 1950, muda-se com a família para São Paulo. Forma-se em economia pela Universidade Mackenzie em 1974, mas não chega a exercer a profissão de economista. Ainda no início da década de 1970, opta pela fotografia e realiza sua primeira exposição individual, “Edifício Martinelli”, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Masp em 1975. No ano seguinte, muda-se para Nova York, onde permanece até 1996. Dedica-se à fotografia documental e jornalística e trabalha como fotógrafo autônomo para periódicos brasileiros e norte-americanos como O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Time, Newsweek, Life, Rolling Stones. Em 1977, tem aulas com o fotógrafo Philippe Halsman (1906 - 1979), especialista em retratos. Realiza a exposição individual “Judeus Or-

todoxos”, 1978, no International Center of Photography, em Nova York. De 1979 a 1994, leciona na New School for Social Research e, de 1992 a 1994, no International Center of Photography. No decorrer dos 20 anos de permanência nos Estados Unidos, publica 11 livros, entre eles o “Chelsea Hotel”, de 1983, e “Venice Beach”, de 1985, editados pela Abbeville Press, ambos vencedores do prêmio Leica Medal of Excellence, nos Estados Unidos. Pelo projeto “Loucura”, sobre o asilo de doentes mentais do Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, São Paulo, recebe o Prêmio Ernst Haas, em 1990. Em 1993, é contemplado, em São Paulo, com a Bolsa Vitae de Fotografia para registrar o carnaval brasileiro, e desse trabalho resulta o livro “Carnaval”, publicado, pela editora DBA Artes Gráficas, em 1996. Nesse ano, volta a morar em São Paulo.*

* itaucultural.org.br

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CARLOS Z AITH por Ariadne Zaith

Paulistano, formado em desenho em 1984 (ele terminou a faculdade quando eu nasci). Começou trabalhar na espeleologia em 1981, onde atuou por 10 anos. Sempre foi um apaixonado pela natureza e fascinado por lugares isolados e desconhecidos. Inicialmente trabalhou como finalizador em revistas e jornais e depois como fotógrafo, viajou o país inteiro fazendo fotos de natureza pra revistas do segmento. Em 1989, enquanto cuidava da biblioteca da SBE (Sociedade Brasileira de Espeleologia) recebia muitas correspondências de outros países sobre essa “espeleologia a céu aberto” que seria o Canionismo. Essa prática despertou muito interesse no Carlos e ele começou a se aprofundar sobre essa prática, totalmente desconhecida no Brasil. Também em 1989, nasceu a H2Omem, empresa que começou a desbravar as cachoeiras do Brasil com um grupo de amigos espeleólogos. Aos poucos foi deixando as cavernas e explorando o canionismo. Começou trabalhar comercialmente em 1994 trazendo grupos de São Paulo para Brotas, no intuito de divulgar a prática. Em 2000 mudou-se definitivamente para Brotas. Com um número recorde de mais de 30.000 clientes de corda, Carlos Zaith tornou-se o “Senhor dos  Cânions”  o maior ícone deste segmento! Uma lenda! Um mestre! Sempre administrando suas duas maiores paixões [canionismo e a fotografia] Zaith ministrava cursos de técnicas verticais e iniciação ao Canionismo. Atuou como auditor pelo Instituto Falcão Bauer em empresas que trabalhavam com turismo de aventura. Ajudou diretamente na criação de normas técnicas para condutores de canionismo da ABNT. Seu último projeto, foi o curso de fotografia que ministrou em maio de 2012 para brotenses e não brotenses, amadores e profissionais e posteriormente uma exposição com as fotos de seus alunos, titulado “A cultura da aventura na capital da aventura”. Hoje restam apenas as lembranças, a saudade e a certeza de que seu legado está eternizado em cada cachoeira desse Brasil! Mais que seus conhecimentos, deixou grandes lições de vida seja para seus amigos, ex alunos e companheiros de aventura. Um ser humano incrível, de dignidade blindada, um ser de luz que com certeza deixou sua marca registrada com tanta sensibilidade em cada clique que fez ao longo do tempo e deixou tanta saudade! 52


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A IMAGEM MIDIÁTICA por Simonetta Persichetti

“Há muita discussão sobre o papel da fotografia na contemporaneidade. Mas o importante é procurar entender o que estamos produzindo e de que maneira.” 58

É inegável que a fotografia, nas últimas décadas, tem crescido como forma de expressão no mercado de arte. Inegável também que esse mercado vem sofrendo transformações e cada vez mais artistas tentam (e querem) ser absorvidos por esse mercado. Como afirma Luciano Trigo, em seu livro A Grande Feira: “O sonho de qualquer jovem artista é ser absorvido pelo sistema, ter conotação internacional, expor nas galerias e museus da moda e aparecer na mídia”. Sim, a arte se assume cada vez mais midiática. Um processo que se iniciou nos anos 1960, mas que, sem dúvida nenhuma, se pontencializou na entrada do novo século. A fotografia, que em sua essência sempre foi meio de massa, se adapta muito bem a essas questões. O importante é aparecer, não importa de que maneira. Dessa forma, acompanhamos o surgimento nos últimos anos, não de exposições, mas de verdadeiras feiras de arte, onde em simulacros de mercados medievais se oferece de tudo para todos os gostos. Textos discutem o papel da fotografia na contemporaneidade, mas o importante é procurar entender o que estamos produzindo e de que maneira. Se aparentemente torna-se difícil discernir ou fazer afirmações de qualquer tipo, também estamos diante de uma libertação da visualidade, um momento de passagem e trans-

formação do próprio fazer fotográfico. Como afirma a filósofa francesa Dominique Baqué, uma imagem “não se pretende mais heroica, mas uma imagem que brinca com a banalidade”. E parece que essa se tornou a temática da fotografia contemporânea, o banal, o simples e, muitas vezes, infelizmente, o malfeito. Não mais grandes histórias, mas micro-histórias, não mais uma superação ao que já existiu, mas eternos presentes que se distanciam cada vez mais do conhecimento anterior, revestidos de uma nova lufada de criatividade. Uma sensação de déjà vu. É ainda Dominique Baqué que nos ajuda: “Por isso, fala-se muito em novidade, inovação, quando o que está sendo criado já o foi tempos atrás: riscamos a perda de memória e uma negação histórica”. Não uma fotografia para ser vista, mas uma fotografia para ser consumida. Uma lógica que há muito saiu do campo estético para se conjugar ao campo mercadológico. Obviamente, essa mudança de rumo altera também a construção de obras. Um movimento mais que necessário para que pudéssemos ressignificar o próprio fazer artístico. Hoje, parece ser difícil encontrarmos fotógrafos, já que a maioria (nem todos, claro) se autodenomina artista. Mas, ao mesmo tempo que avançamos em termos de liberdade de expressão, esteticamente recuamos ao final do século 19, quando a busca era o re-


conhecimento dentro de um mercado já estabelecido e não a necessária criação de novas possibilidades. E é isso que vemos atualmente: curadores e professores referenciando obras que eles mesmos cultivam, criadores de fogos de artifício. Sempre as mesmas pessoas nos mesmos lugares, um ou dois, no máximo, curadores da moda que nos obrigam a ver sempre as mesmas obras das mesmas pessoas. Trabalhos de dimensões imensas, cores exageradas, fora de foco, construções mentais que estão nas legendas, mas não conseguem ser vistas nas imagens, discursos dissonantes e destoantes que, muitas veze se distanciam da própria fotografia. É bem verdade que nunca se falou tanto sobre fotografia. Sobre isso, a crítica inglesa Charlotte Cotton diz: “Estamos vivendo um momento excepcional para a fotografia, pois hoje o mundo da arte a acolhe como nunca o fez e os fotógrafos consideram as galerias e os livros de arte o espaço natural para expor seu trabalho”. Claro está, porém, que não podemos ter um discurso pessimista perante uma revolução visual que ainda está procurando criar suas regras – se é que irá criá-las – e se colocar dentro dessa nova possibilidade midiática. Se esse panorama é generalista e analisa de alguma forma a transformação da fotografia nestes últimos anos dentro de um pano-

rama mundial, é claro que a fotografia brasileira também está dentro desse cenário. Reconhecidamente forte e autoral e com ligações profundas com o documental, ela tem aparecido dentro desse teatro de forma cada vez mais madura e incisiva. Faz sua entrada na academia, nos encontros fotográficos onde o mote é a reflexão, que já somam 42 pelo Brasil todo, além dos 16 festivais de fotografia. Paradoxalmente, nos últimos anos também estamos assistindo a um crescimento pelo interesse de fotografias “clássicas”, vintages e um retorno ao documental. A fotografia que procura retornar a uma estética particular, mas sem grandes distinções entre o “puro” e o construído, uma fotografia que se assume ficção, narrativa e portadora de possibilidades interpretativas, mas também uma fotografia que desliza cada vez mais para a tela, para o vídeo, que também cresce como forma imagética e nos coloca novas questões. As novas tecnologias também fazem parte das mudanças das relações estéticas. Os vídeos feitos pelos fotógrafos também estão em destaque em muitos festivais, exposições e feiras. Uma imagem que se cria e recria a cada momento, misturando a importância tecnológica com a liberdade criativa. Nos últimos cinco anos, debates foram levantados, muitas questões

superadas, artistas plásticos se apropriaram da fotografia e fotógrafos quebraram amarras positivistas. O mercado começou a impor condições e nos vender uma possibilidade de estética fotográfica muito mais mercadológica. Cinco anos que esgotaram muitas dessas argumentações, mas também deixaram muitas questões sem respostas. Talvez mais uma vez seja Dominique Baqué quem nos ajude a pensar e, se é difícil afirmar algo sobre o momento pelo qual a fotografia passa, mais difícil ainda seja prever o que está por vir. “Nos resta determinar seu lugar e levantar duas hipóteses de trabalho: por um lado, podemos pensar que a nova forma de olhar não passa mais pela imagem fotográfica, mas pela tela televisiva, informática ou vídeo – é ela que determina o olhar. A segunda hipótese é que a tela constitui o paradigma do olhar contemporâneo, a fotografia não desaparece, mas podemos interpretá-la como se fosse uma balsa de sentimentos, sensações, de imagens e, por ser uma balsa, a fotografia se torna fluída, leve, circulando por meio do vídeo, de uma instalação, uma performance, atuando como uma corda bamba, sem a qual a arte contemporânea perderia sua flexibilidade e coerência.” Publicado originalmente na Revista Brasileiros, nº65 de 19/12/2012.

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ANTONIO AUGUSTO FERRAZ

Nascido na cidade de São Paulo e atualmente morando em Bauru, interior do mesmo Estado, Antonio Augusto Ferraz estudou fotografia na Escola Panamericana de Arte e no SENAC. Profissional há quase 18 anos, trabalhou para publicações do Grupo Abril e Folha da Manhã, colaborou com diversos veículos como as revistas Educação, IdeiaSocial, Vitrine, Abigraf, Tecnologia Gráfica, Fotografe Melhor, além de publicações institucionais de organizações como Fundação Odebrecht, Instituto Avon, Cenpec, Faculdade de Direito Damásio de Jesus, entre outras. Premiado em concursos como o Kodak Preto no Branco, em 1996, Fundação SOS Mata Atlântica - Lagamar, em 1997 e menção honrosa no International Photography Awards de 2006, atualmente dedica-se à fotografia autoral e tem seu trabalho representado pela Galeria e Escritório de Arte Mali Villas-Bôas, em São Paulo. Integra a coletiva “Contemporary Brazil & Baroque Roots” de 17 a 21 de junho de 2013, no Secretariat Lobby - United Nations em Nova York.

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Em meu trabalho, procuro abordar as questões do universo Onírico e suas implicações, onde as leis da física, especialmente as que tratam do tempo e espaço, além das convenções sociais e valores individuais, sensações, sentimentos e desejos, são subvertidos e desmembrados de maneira a tornar tudo possível. Neste trabalho que apresento, intitulado “Oníricas”, o corpo nu é o vetor entre o real e o ilusório, no sentido de que se despe de tudo que o limita ao universo que conhecemos. Quem afinal nunca sonhou estar despido em situações inusitadas ou locais considerados inadequados para isso? Por isso utilizo o desnudarse como metáfora para esse tipo de sensação e sentimentos que tanto nos fragilizam como nos fortalecem. Ainda que tenha uma preocupação formal com a estética, a relação entre o ser humano e as metáforas criadas pelos objetos e situações é o foco principal de minha pesquisa, que tem também uma preocupação com questões contemporâneas como os temas sócioambientais, os relativos à mente humana, seus anseios e suas angústias, os que se referem a ocupação e usos dos espaços internos e externos, além da incorporação das mídias modernas em nossas vidas.


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C ARLA RAMOS "Nenhum de nós está no corpo em que o outro nos vê, mas na alma que fala", assim explica o mago Cotrone em "Os Gigantes da Montanha". Não está mais aqui, em corpo vivo, o ator e dramaturgo italiano Franco Scaldatti." Carla Ramos é designer de moda e fotógrafa. Atualmente cursa Artes Plásticas pela Escola Guignard - UEMG de Belo Horizonte (MG). É pesquisadora acadêmica pelo projeto PIBID e atua como professora de artes direcionadas a jovens do ensino fundamental e médio, em centros de atendimento e proteção ao Jovem Usuário de Tóxicos, desenvolvendo oficinas  para adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa, entre outras atividades.  Carla Ramos desenvolve o projeto “O corpo — fragmentos”, em que atua também como modelo, (experimentações com o próprio corpo).

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Gosto de corpos, de formas, de dobras e de movimentos. Minha pesquisa é sobre corpos.... geralmente o nu, porém estudo todos os biotipos. Percebo uma certa dificuldades das pessoas com o corpo e a nudez. Talvez porque o nu geralmente tenha uma conotação erótica. Entretanto, vejo o nu como expressão. Busco retratar o corpo através da delicadeza, da arte erótica na acepção da palavra, pelo viés que restaura textura e peles, cabelos e pêlos, recuperando-os como fonte de prazer sem esforço e sem apelação. Anna Teresa Fabris (MAPPLETORPHE) também se interessou pelo corpo através da fotografia, "no âmbito de uma profunda transformação social cultural, que transcende os limites da arte, para por em discussão questões relativas à identidade, à sexualidade, à sociedade, à política, ao poder, à ideologia" (2004, p. 24-25). Assim, tenho estudado o corpo...


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Alexandre Urch http://www.alexandreurch.com.br/ Juan Esteves http://www.juanesteves.com.br/ Paula Huven http://cargocollective.com/paulahuven/ Claudio Edinger http://www.claudioedinger.com/ Carlos Zaith http://facebook.com/pages/Carlos-Zaith/327913190644153/ Antonio Augusto Ferraz http://www.bispix.com/ Carla Ramos http://facebook.com/CarlaRamosBH/ 76


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f:zine  

Fotografia Brasileira Contemporânea

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