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DIRECTOR

SALAS NETO salasnetosa09@gmail.com

Kz 250,00 EDIÇÃO 460 · ANO VII

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SÁBADO  •  07 de Abril de 2012

CONTAS DE SAMAKUVA

NÃO TERÁ «MANDÕES» A MAIS?

Galo Negro ameaça SA

CASA com várias portas é difícil de se guardar...

Entre a incivilidade de Kangamba e a manha do Rui

DISCRIMINAÇÃO NA CIDADELA

Ou a saga dos negros albinos em África

AOS POLÍTICOS

Presidente recomenda seriedade

• Página 7 OFENSAS AO LIBOLO

Kabuscorp já pediu desculpas

• Página 43

TEMPO

O sururu de sábado, quando dirigentes e adeptos do Kabuscorp levaram a extremos a sua crença no feitiço, insurgindo-se contra a presença de um albino no «banco» do Libolo, longe de ter sido um simples incidente de jogo, foi uma preocupante manifestação de discriminação contra as pessoas nessa condição. É, no fundo, algo que ainda se regista perigosamente em alguns países africanos, incluindo a nossa vizinha RDC. É preciso combatermos veementemente preconceitos do género. Quando muito, porque Angola não é (ainda?) nenhum «Congo»…

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Sábado, 31 de Março de 2012.

Em Foco

Defendamos a Paz rumo às eleições… H á dez anos, a 4 de Abril de 2002, representantes do Governo de Angola e da UNITA, em cerimónia solene, realizada no Palácio dos Congressos, sede da Assembleia Nacional, assinavam o Memorando de Entendimento Complementar ao Protocolo de Lusaka, o que simboliza o fim da guerra civil que durante mais de duas décadas vinha desestruturando o país a todos os níveis. O acordo seria rubricado por Armando da Cruz Neto, então chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas, dum lado, e por Geraldo Abreu Muendo «Kamorteiro», como chefe do Alto Comando das Forças Militares da UNITA, doutro. O mais curioso é que este entendimento definitivo seria encontrado sem a interferência da comunidade internacional ou das grandes potências mundiais, algo que não se conseguira antes, porquanto todos os acordos de paz assinados entre as duas partes sob a sua égide acabariam por fracassar. Era de aplaudir. No entanto, também é verdade que este evento (a assinatura do acordo de paz definitivo) só seria precipitado pela morte em combate, pouco mais de um mês antes, do líder-fundador do Galo Negro, Jonas Savimbi, a 22 de Fevereiro, nas savanas do Moxico, o que ditaria a derrota militar do seu movimento rebelde, que ao longo de vários anos inviabilizava o desenvolvimento do país. Para trás ficava um cortejo de milhares e milhares de mortos, outros tantos estropiados e órfãos de guerra, milhões de deslocados, famílias desestruturadas, infra-estruturas destruídas, enfim, um país praticamente em cacos, a partir de então com o ingente desafio de se reerguer das cinzas, algo que só seria possível com o concurso

de todos, unidos na diversidade. Diz a sabedoria popular que não adianta chorar sobre o leite derramado, pelo que para frente era o caminho. O importante era consolidar a paz tão arduamente conquistada, o que passava, em primeira instância, pelo fim da mentalidade belicista até então imperante. Aliás, como diria o Presidente José Eduardo dos Santos, «quem ama verdadeiramente a Paz tem de saber perdoar, reconciliar-se com o seu próximo, contribuindo assim para uma união verdadeira e sólida dos angolanos, sem prejuízo para as divergências que uns e outros possam expressar». Instituída como feriado nacional, a data passaria a ser uma referência histórica na luta do povo angolano pela reconstrução e reconciliação, rumo ao desenvolvimento. A cada ano, a busca destes desideratos ganha mais consistência, numa demonstração de que a guerra é mesmo coisa do passado em definitivo, por mais que este ou aquele tente remar contra a maré. A reconstrução nacional hoje é um facto. Embora a paz não pareça estar outra vez em causa, o 4 de Abril deste ano seria comemorado numa altura em que se regista um clima de crispação entre os principais actores da cena política angolana, por conta de desavenças surgidas no processo da preparação das eleições gerais previstas para este ano. Dum lado temos a oposição parlamentar a acusar as autoridades de estarem a cometer irregularidades graves em determinadas etapas do processo, maxime a contestada nomeação da presidente da Comissão Nacional Eleitoral, o que, para si, indicia uma tentativa de adulteração das eleições. Os seus representantes no parlamento chegaram mesmo abandonar a «casa das leis» no dia da votação do que restava do chamado «pacote legislativo eleitoral». Em resposta, o partido que sustenta

o Executivo diz que, se for caso disso, pode avançar praticamente a solo, aliás, já deu mostras neste sentido, ao fazer aprovar o que estava em falta no «pacote» sem a participação dos deputados que representam a oposição, por entender que as suas reivindicações e as dalguns outros sectores da sociedade estarão baseadas em falsas questões. Faz finca-pé na sua posição em relação ao pomo da discórdia – nomeação de Suzana Inglês – e acusa os partidos contestatários de estarem apenas a encetar manobras de diversão que visam em última instância atrapalhar a realização do pleito, para o qual, como alega, eles não estarão devidamente preparados. Em face destas posições antagónicas, instalou-se o impasse. Entretanto, e embora o impasse persista, a UNITA já garantiu que vai participar das eleições, o que dá alguma esperança de que a crispação política se irá esvanecer, mais tarde ou mais cedo, a despeito da ameaça que ela vem esgrimindo de que vai promover manifestações populares de protestos generalizadas, caso o MPLA insista em Suzana Inglês como presidente do órgão regulador do pleito. Venhamos e convenhamos, não se acredita que ela chegue a tanto. Seja como for, temos que as desavenças são perfeitamente ultrapassáveis, desde que nenhuma das partes se arvore em extremista. Pensamos que, ao invés da arrogância, o bom senso há-de (tem de) prevalecer para que as coisas se componham pacificamente. Os ganhos desta paz que muito custou a este povo não podem ser colocados em perigo pela irresponsabilidade de quem quer que seja. Por isso, estamos esperançados de que, em seu nome, a civilidade se imporá. Defendamos então a paz, rumo às eleições. Custe o que custar…

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QUA Director: Salas Neto Editores — Editor Chefe: Ilídio Manuel; Política: Jorge Eurico; Economia: Nelson Talapaxi Samuel Sociedade: Pascoal Mukuna; Desporto: Paulo Possas; Cultura: Salas Neto; Grande Repórter: joaquim Alves Redacção: Rui Albino, Baldino Miranda, Adriano de Sousa, Teresa Dias, Romão Brandão, e Edgar Nimi Colaboradores Permanentes: Sousa Jamba, Kanzala Filho, Kajim-Bangala, António Venâncio, Celso Malavoloneke, Tazuary Nkeita, Makiadi, Inocência Mata, e António dos Santos «Kidá» Correspondentes: Nelson Sul D’Angola (Benguela) e Laurentino Martins (Namibe). Paginação e Design: Sónia Júnior (Chefe), Patrick Ferreira, Carlos Inácio e Annety Silva Fotografia: Nunes Ambriz e Virgílio Pinto Impressão: Lito Tipo Secretária de Redacção: Manuela da Conceição Adminstracção: Marta Pisaterra Publicidade e Marketing: Oswaldo Graça António Feliciano de Castilho n.o 119 A • Luanda Registro MCS337/B/03 Contribuinte n.o 0.168.147.00-9 Propriedade: Media Investe, SA. República de Angola Direcção: direccao@semanario-angolense.com; Edição: edição@semanario-angolense.com; Política: politica@semanario-angolense.com; Economia: economia@semanario-angolense.com; Sociedade: sociedade@semanario-angolense.com; Cultura: cultura@semanario-angolense.com; Desporto: desporto@@semanario-angolense.com; Redacção: redaccao@semanario-angolense.com; Administracção e Vendas: administraccao@semanario-angolense.com; Publicidade e Marketing: publicidade@semanario-angolense.com; sítio: www.semanario-angolense.com As opiniões expressas pelos colunistas e colaboradores do SA não engajam o Jornal.

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JOVEM AGREDIDO

O jovem Joaquim Andrade Manuel foi posto em liberdade – sem nunca lhe ter sido dada voz de prisão nem nunca ter pendido sobre si qualquer acusação – com os seus dois camaradas há apenas 3 dias, mostra, 15 dias depois, o vídeo que ilustra como foi brutalmente agredido, numa autêntica dos Direitos Humanos.

ESTRADA GRÁTIS

A estrada que liga as aldeias de Socoto e Chapa, na regedoria de Cumbiliambo, em Cabinda, começa a ser reabilitada, a custo zero, pela empresa Meng Engenharia. Com 23 quilómetros de extensão, a via encontra-se intransitável desde 1975. A concluir em Junho do corrente.

COMBOIO NO CUITO

O Ministro dos Transportes, Augusto da Silva Tomás, procede à reabertura da circulação do comboio na província do Bié, numa viagem experimental da primeira locomotiva ao Cuito, no âmbito do programa de expansão e modernização dos Caminho-de-ferro de Angola, que está a ser implementado pelo Executivo.

PAPA E RAMOS

O Papa Bento XVI presidiu, pela manhã à procissão e a missa de Ramos na praça de São Pedro, no Vaticano, na presença de milhares de fiéis, reunidos para a celebração com a qual se inicia a semana santa. Tal ocorre dias de o Santo Padre ter efectuado uma visita de dois dias a Cuba, onde foi efusivamente recebido por milhares de cristãos.

FLEC E EMBAIXADORA DOS EUA

O líder histórico da FLEC FAC, Henriques Nzita Tiago, nomeou a norte-americana Kendharh Silverbridge embaixadora para solução da paz no enclave junto às organizações e instituições internacionais para um mandato de dois anos, renováveis. Nzita Tiago continua a reivindicar a independência de Cabinda.

CASAENOVOGOVERNO

No final do seu primeiro Congresso, o Presidente da recém-formada Convergência Ampla de Salvação de Angola (CASA), Abel Chivukuvuku, garantiu que este ano, nascerá um novo Governo «de natureza patriótica para acabar, pacífica e ordeiramente, os 32 anos de poder ininterrupto e nunca eleito».

JES ORGULHOSO

O Presidente da República, José Eduardo dos Santos, afirmou, na província do Moxico, que passados 10 anos de paz, «estamos orgulhosos de ver que muita coisa mudou em todo o país e a perspectiva é continuar a mudar para melhor». JES realçou o facto quando discursava no acto Central do Dia da Paz e Reconciliação Nacional.

CASA NO TC

O Conselho Presidencial da Convergência Ampla de Salvação de Angola (CASA), dá entrada no Tribunal Constitucional, da documentação aprovada no Congresso constitutivo da Coligação, realizado nos dias 2 e 3 do corrente no Centro de Convenções de Talatona e de participaram delegados de todas as províncias.


3 Em Foco

Sábado, 31 de Março de 2012.

Páscoa

O dia mais santo dos cristãos Kim Alves*

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ngola, como todos países cristãos, festejam este domingo, 08 de Abril, a Páscoa. Uma festa cristã que celebra a ressurreição de Jesus Cristo. Depois de morrer na cruz, seu corpo foi colocado em um sepulcro, onde permaneceu até à ressurreição, quando o seu espírito e corpo foram reunificados. É o dia santo mais importante da religião cristã e as pessoas participam em cerimônias religiosas quando vão às igrejas. Entre os cristãos, a semana anterior à Páscoa é considerada como Semana Santa. Esta semana tem início no Domingo de Ramos que marca a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém. Muitos costumes ligados ao período pascal têm origem nos festivais pagãos da primavera. Outros vêm da celebração do Pessach, ou Passover, a Páscoa judaica. É uma das mais importantes festas do calendário judaico, que é celebrada por 8 dias e comemora o êxodo dos israelitas do Egipto durante o reinado do Faraó Ramsés II, da escravidão para a liberdade. Nesta data, os judeus fazem e comem o matzá (pão sem fermento) para lembrar a rápida fuga do Egipto, quando não sobrou tempo para fermentar o pão. Um ritual de passagem, assim como a «passagem» de Cristo, da morte para a vida. Em português, como em muitas outras línguas, a palavra Páscoa origina-se do hebraico Pessach. Os espanhóis chamam a festa de Pascua, os italianos de Pasqua e os franceses de Pâques. A Páscoa nunca calha no mesmo dia todos os anos. O dia da Páscoa é o primeiro domingo depois da Lua Cheia que ocorre a 21 Março ou depois deste dia (data do equi-

nócio). Entretanto, a data da Lua Cheia não é a real, mas a definida nas Tabelas Eclesiásticas. A igreja, para obter consistência na data da Páscoa decidiu, no Conselho de Nicea, em 325 d.C, definir a Páscoa relacionada a uma Lua imaginária, conhecida como

a «lua eclesiástica». A quarta-feira de Cinzas ocorre 46 dias antes da Páscoa e, portanto a terça-feira de Carnaval, ocorre 47 dias antes da Páscoa. Esse é o período da quaresma, que começa na quarta-feira de cinzas. Com esta definição, a data da Páscoa pode ser determinada sem grande conhecimento astronômico. Mas a sequência de datas varia de ano para ano, sendo no mínimo em 22 de Março e no máximo em 24 de Abril, transformando a Páscoa numa festa «móvel». De fato, a sequência exata de datas da Páscoa repete-se aproximadamente em 5.700.000 anos no nosso calendário Gregoriano. A partir do ano 2000 até 2010 a Páscoa foi celebrada nos seguintes dias: 2000 - 23 de Abril; 2001 - 15 de Abril; 2002 - 31 de Março; 2003 - 20 de Abril; 2004 - 11 de Abril; 2005 - 27 de Março; 2006 - 16 de Abril; 2007 - 08 de Abril; 2008 - 23 de Março; 2009 - 12 de Abril e 2010 - 04 de Abril.

As origens do termo A Páscoa é uma das datas comemorativas mais importantes entre as culturas ocidentais. A origem desta comemoração remonta muitos séculos atrás. O termo «Páscoa» tem uma origem religiosa que vem do latim Pascae. Na Grécia Antiga, este termo tam-

bém é encontrado como Paska. Porém, a sua origem mais remota é entre os hebreus, onde aparece o termo Pesach, cujo significado é passagem. Entre as civilizações antigas os historiadores encontraram informações que levam a concluir que uma festa de passagem era comemorada entre povos europeus há milhares de anos atrás. Principalmente na região do Mediterrâneo, algumas sociedades, entre elas a grega, festejavam a passagem do inverno para a primavera, durante o mês de Março. Geralmente, esta festa era realizada na primeira lua cheia da época das flores. Entre os povos da antiguidade, o fim do inverno e o começo da primavera era de extrema importância, pois estava ligado a maiores possibilidades de sobrevivência em função do rigoroso inverno que castigava a Europa, dificultando a produção de alimentos.

O coelhinho da Páscoa e os ovos A figura do coelho está simbolicamente relacionada à esta data comemorativa, pois este animal representa a fertilidade. O coelho se reproduz rapidamente e em grandes quantidades. Entre os povos da antiguidade, a fertilidade era sinônimo de preservação da espécie e melhores condições de vida, numa época onde o índice de mortalidade era altíssimo. No Egipto Antigo, por exemplo, o coelho representava o nascimento e a esperança de novas vidas. Mas o que a reprodução tem a ver com os significados religiosos da Páscoa? Tanto no significado judeu quanto no cristão, esta data relaciona-se com a esperança de uma vida nova. Já os ovos de Páscoa (de chocolate, enfeites, jóias), também estão neste contexto da fertilidade e da vida. A figura do coelho da Páscoa foi trazido

para a América pelos imigrantes alemães, entre o final do século XVII e início do XVIII.

Como surgiu o chocolate Quem sabe o que é «Theobroma»? Pois este é o nome dado pelos gregos ao «alimento dos deuses», o chocolate. «Theobroma cacao» é o nome científico dessa delícia chamada chocolate. Quem o batizou assim foi o botânico sueco Linneu, em 1753. Mas foi com os Maias e os Astecas que essa história toda começou. O chocolate era considerado sagrado por essas duas civilizações, tal qual o ouro. Na Europa chegou por volta do século XVI, tornando-se rapidamente popular aquela mistura de sementes de cacau torradas e trituradas, depois juntada com água, mel e farinha. Vale lembrar que o chocolate foi consumido, em grande parte da sua história, apenas como uma bebida. Em meados do século XVI, acreditava-se que, além de possuir poderes afrodisíacos, o chocolate dava poder e vigor aos que o bebiam. Por isso, era reservado apenas aos governantes e soldados. Aliás, além de afrodisíaco, o chocolate já foi considerado um pecado, remédio, ora sagrado, ora alimento profano. Os astecas chegaram a usá-lo como moeda, tal o valor que o alimento possuía. Chega o século XX e os bombons e os ovos de Páscoa são criados, como mais uma forma de estabelecer de vez o consumo do chocolate no mundo inteiro. É tradicionalmente um presente recheado de significados. E não é só gostoso, como altamente nutritivo, um rico complemento e repositor de energia. Apesar disso, não é aconselhável, porém, consumi-lo isoladamente. *(Com agências)


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Em Foco

Luanda marchou em comemoração da Paz Kim Alves Fotos de: Virgílio Pinto

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ealizou-se em Luanda, esta quartafeira, 04 de Abril, uma marcha em comemoração ao Dia da Paz, assinalada em todo país. Militantes do MPLA, partidos políticos da oposição, igrejas, Organizações Não-Governamentais e associações profissionais foram convidados a manifestar-se nas artérias da cidade de Luanda, com mensagens apelando à paz, à democracia e à estabilidade. A mobilização foi feita nos diversos municípios de onde os populares partiram em autocarros destinados para o efeito para a Avenida Deolinda Rodrigues, nas imediações do cemitério da Santa Ana, desfilando depois por várias artérias da cidade. Os participantes vestiram-se, principalmente, de branco e levavam lenços brancos nas mãos. O encerramento de diversas artérias da cidade e da periferia causaram um grande número de transtornos às pessoas que tinham que trabalhar, porque embora sendo um dia feriado, alguns sectores da vida não param, como por exemplo os hospitais, cujas ambulâncias, transportando doentes, passaram por diversos constrangimentos para atingir as suas unidades hospitalares, devido ao congestionamento que se verificava nas ruas que estavam a servir de alternativa. Juntavase a isso a grande quantidade de água estagnada nessas vias por causa da chuva que se abatera sobre Luanda na noite anterior, além da atrapalhação que tomou conta de muitos automobilistas que não sabiam o que fazer para atingir o seu destino. Assim sendo não faltaram os acidentes que provocaram danos materiais e feridos num dia solene como aquele. Em situações idênticas, devem as autoridades alertar previamente os cidadãos e apontar alternativas para o escoamento do trânsito. Se em dias normais são os engarrafamentos que se conhece, imagine-se agora com as principais estradas e ruas impedidas. Haja mais responsabilidade!


5 Em Foco

Sábado, 31 de Março de 2012.


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Sábado, 31 de Março de 2012.

Em Foco

«Em 10 anos, houve melhorias, mas há ainda muito por fazer» Romão Brandão

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ma década se passou desde que a guerra terminou oficialmente em Angola, depois de 30 anos de conflito armado. Calaram-se as armas, mas para muitos cidadãos, o país deu alguns passos em termos económicos e sociais, mas persistem sérios problemas ligados, sobretudo à distribuição da riqueza social, à falta de empregos e de igualdade de oportunidade. Entre os cidadãos que foram ouvidos pelo Semanário Angolense há quem considere existir uma certa desfaçatez por parte de quem governa o país, principalmente, dada a incapacidade de satisfazer as necessidades básicas da população, nos domínios da educação, saúde, emprego e/ou melhores condições de vida. Hélder de Almeida, motorista, 42 anos

Em termos políticos, não houve melhorias devido ao facto da população estar a recorrer às manifestações de protesto. Se as pessoas se manifestam é porque algo está errado, o que não é bom para o próprio governo e para a imagem do país. Se por exemplo, eu tiver água e luz e outras condições básicas que garantam a minha sustentabilidade e dos meus filhos, não terei razões para me manifestar. Em termos sociais, estamos a ver algum desenvolvimento, é só olharmos para infra-estruturas, embora haja ainda muitas coisas por se fazer. Por exemplo, nós pagamos taxa de circulação e não conseguimos andar nas estradas, principalmente, quando chove. Eu vivo no bairro da Precol e temos muitos problemas de energia e água, a população não tem caminho para entrar no bairro, porque está todo alagado. Por que é que o governo não repara os sistemas de escoamento de águas? A guerra acabou, precisamos de mais escolas. Não consegui matricular o meu filho este ano e ele terá de ficar sem estudar, tudo porque não havia vagas nas escolas. Isto tem de mudar, os 10 anos que se passaram são suficientes para suprir estes problemas básicos. O Governo ainda deve fazer muita coisa, estamos em paz e ninguém mais quer guerra, mas para tal deve aceitar as opiniões e as críticas dos outros. No que diz respeito à nossa economia, penso que é também altura de falarem de

outros (nossos) recursos naturais: madeira, diamante, café, etc., visto que o povo desconhece o paradeiro das receitas arrecadadas na exploração de tais recursos. Só falam do petróleo, mas não é suficiente, a população tem direito a saber de tudo. Para finalizar, o salário básico que é miserável, o que tem estado na origem das greves, como foi a que teve lugar há dias no Caminho-de-ferro de Luanda. Como consequência disso, o povo foi quem mais sofreu. José Quintas, político, 28 anos

Melhorou muita coisa nestes 10 anos, e só diz que não melhorou quem não viveu o tempo de guerra. De tudo que presenciamos e o que agora temos visto, houve sim uma melhoria significativa em questões políticas, económicas e sociais. Ontem era difícil sair da capital para as outras províncias, hoje é visível a melhoria nestes aspectos, o que não deixa de ser muito importante para todos os angolanos. Angola é um país que, a cada dia que passa, tem mostrado sinais de progresso. Nós sofremos muito com as perdas dos nossos familiares, inocentes, na guerra. No entanto, as manifestações, embora tenham um bom pendor, devem os manifestantes ter calma, os seus problemas serão resolvidos, uma vez que o país está a conhecer algum desenvolvimento. É muito bom comemorarmos os 10 anos de paz com muita alegria. Tudo depende de nós para que as coisas estejam no seu melhor, mas devemos trabalhar para que possamos construir um país melhor para todos os angolanos, e não só, para todos os nossos irmãos do «outro lado do oceano» que quiserem vir visitarnos. Nelson Domingos Pedro, estudante, 19 anos

Há que se ter em conta, dentro do quadro de melhorias, o seguinte aspecto: Angola conseguiu novas infra-estruturas e a reabilitação de vários troços que ligam o nosso país; já há mais facilidade de se deslocar quando por terra, quando há dez anos era quase impossível. Mas eu gostaria e sei que os outros jovens concordarão, que os governantes devem dar mais oportunidades à nossa camada juvenil, porque somos a força motriz da sociedade. É necessário que não se limitem só a organizar mais festas ou maratonas, mas a construir mais escolas, coisas que possam ajudar a levar o país a um desenvolvimento considerável. Os jovens têm poucas oportunidades de mostrarem aquilo que sabem; de mostrarem que têm talento em alguma coisa. Muitos só conseguem «aparecer» porque têm alguém que os ajuda a fazer isso... Quanto a mim, que não tenho, fico no alheio. É tudo por cunha ou «amiguismo». O governo ajuda os jovens, mas esta ajuda é limitada, é para alguns jovens, não temos tido apoios à altura das necessidades. Angola é um país rico em minerais e, embora saibamos que o nosso governo tem explorado alguns dos nossos recursos, está na hora também de começarmos a levar o que é nosso para fora do país. Devemos abrandar a importação e acelerar a exportação de bens e produtos. Nós temos capacidade de mostrar ao mundo que também temos potencialidades. Eliano Ferreira, funcionário público, 24 anos Devemos reconhecer que houve um grande avanço, depois da proclamação da

paz a 4 de Abril de 2002, mas temos que ser realistas e afirmarmos que ainda falta muito para ser feito, por exemplo, a nível económico. Temos de diversificar a nossa economia. Assistimos agora o Executivo a criar estratégias que visam a ajudar o desenvolvimento da produção agrícola, mas temos mais áreas produtivas, como, por exemplo, no campo da geologia e minas, que devia ser muito bem explorado. No campo político é que se verificou um desenvolvimento mais acentuado em rela-

ção aos outros, porque é só vermos o modo do processo de democratização do nosso país: apreciamos o aparecimento de novos partidos políticos e a abertura de novos canais televisivos e radiofónicos privados, já que outrora isso não era possível. Neste campo registou-se também uma certa autonomia dos operadores privados. Há muito que se fazer para se atingir, por exemplo, alguns Estados democráticos, como a África do Sul, Senegal, Namíbia ou o Ghana, onde se verifica um processo de democratização mais acentuado, havendo mais liberdade de imprensa e expressão em relação à Angola. Estamos a engatinhar e, se calhar, no futuro, daqui a mais 6 ou 7 anos, as coisas vão mudar. José de Prosa, funcionário público, 28 anos

Passados dez anos de paz, não vejo melhorias em questões políticas, mas em termos sociais vejo que já estamos a um passo mais avançado, na criação de infra-estruturas. Este local, por exemplo, em que nos encontramos (1º de Maio), já não o mesmo de ontem. Tudo isto é fruto do trabalho que tem sido desenvolvido pelo Governo. As coisas não são feitas de um dia para o outro, existem coisas que necessitam muito tempo de paz para que possam mudar, é uma questão de termos calma e colaborarmos para construirmos um país melhor. Sou de opinião que nestes 10 anos consumidos a nossa economia ainda continua a ser mal gerida. Devia ser bem gerida, de modo que possam criar mais oportunidades para os jovens, mas também há que se ter em conta o seguinte aspecto: nós os angolanos, principalmente os jovens, somos muito relaxados, pouco fizemos para alcançar aquilo que queremos. É complicado quando um jovem, que nem sequer estudou, insiste em trabalhar na Sonangol, por exemplo. Ao nosso governo apelo que continue a trabalhar mais e melhor, de forma a melhorar o saneamento básico, o fornecimento de energia, água e a construção de boas estradas.


7 Em Foco

Sábado, 31 de Março de 2012.

PR discursou no Luena

«O país está a crescer em todos os domínios»

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acto central do Dia da Paz e da Reconciliação Nacional aconteceu na cidade do Luena, capital da província do Moxico, com a presença do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, que foi a figura principal na cerimónia que assinalou o décimo aniversário do fim da guerra civil. O discurso do PR era aguardado com muita expectativa por toda a sociedade, pois esperava-se que, numa data tão importante como o 04 de Abril, trouxesse novidades em relação a alguns problemas prementes da situação político-eleitoral e social do país, mas José Eduardo dos Santos acabou por defraudar os anseios dos cidadãos, porque o discurso não passou de pura rotina. A data assinalou o fim de um conflito que durou cerca de 30 anos e celebra a assinatura do Memorando de Entendimento entre o Governo, suportado pelo MPLA, no poder desde a independência, em 1975, e a guerrilha da UNITA, complementando o Protocolo de Lusaka, de 1994. A assinatura do documento só foi possível após a morte em combate, a 22 de fevereiro de 2002, de Jonas Savimbi, líder histórico da UNITA. Além do Luena, as cerimónias do 04 de Abril, feriado nacional em Angola, foram assinaladas em Luanda com a realização de uma marcha da paz, promovida pelo Governo Provincial de Luanda, assim como em outras capitais de província. O Presidente falou, entre diversos assuntos, dos sinais de crescimento do país reflectido no número de escolas e de alunos que «cresceu imenso», assim como a quantidade de institutos médios e do ensino superior e o número de estudantes também cresceu muito em todas as províncias. Para o Chefe do Executivo ter mais quadros médios, superiores e pós-graduados formados, situação contrastante com a fase imediatamente a seguir à independência, «significa que o país está a crescer em todos os domínios». José Eduardo dos Santos disse que o quadro de prosperidade que se vive hoje em Angola é o resultado do trabalho abnegado e responsável de todos os angolanos que amam a sua Pátria. «Temos de continuar a trabalhar juntos para o desenvolvimento. Queremos ver a economia nacional sempre a crescer

res, sentadas em latas e pedras. Hoje já são muito poucas as situações como estas», esclareceu.

Assegurar transparência eleitoral

de modo sustentado e a riqueza a aumentar, para termos mais para distribuir e melhorar a vida de todos», defendeu. Mas o crescimento económico que tem sido tantas vezes referenciado é obtido, de acordo com o Presidente José Eduardo dos Santos, por via de um «grande esforço do sector público e agora nós queremos um envolvimento cada vez maior nesse esforço do sector privado». De modo a promover uma maior participação do sector privado, o Executivo lançou recentemente um programa de apoio às micro, pequenas e médias empresas, com o qual se pretende facilitar o acesso destes agentes económicos a empréstimos generosos através de bancos comerciais. «Pretendemos fomentar a pequena e média actividade económica, que normalmente gera muitos postos de trabalho», disse. José Eduardo dos Santos fez saber que o Executivo vai prestar atenção espe-

cial aos angolanos que se dedicam aos pequenos negócios no domínio dos diamantes. O Presidente deixou antever medidas de protecção aos nacionais do ramo, por se verificar que os nacionais têm saído prejudicados por causa da carga tributária sobre a actividade que exercem. «Os diamantes provenientes da produção artesanal saem ilegalmente através das nossas fronteiras, levados por estrangeiros que os vendem nos dois Congos, porque lá pagam menos impostos», assinalou José Eduardo dos Santos, apelando para um esforço conjunto, envolvendo o poder legislativo, no sentido de «modificar a nossa política fiscal neste domínio e promover o controlo desses pequenos negócios pelos angolanos que exercem a sua actividade nessa área». O PR revelou também que o Programa de Reconstrução Nacional vai ter o seu prazo de conclusão antecipado para iní-

cio de 2013 quando as previsões apontavam para 2015/16. Afirmou que todas as principais vias de comunicação rodoviária e ferroviária estão praticamente reabilitadas, o que permitiu aumentar a circulação de pessoas e bens e revitalizar a actividade económica e social em todo o país. «Tudo isso aconteceu ou está em vias de acontecer. Passados dez anos, estamos orgulhosos de ver que muita coisa mudou no Moxico e em todo o país e a perspectiva é continuar a mudar para melhor», defendeu. Uma das mudanças referidas por José Eduardo dos Santos tem a ver com as condições sociais e de trabalho dos administradores municipais e comunais, que, como disse, há 10 anos, dezenas deles não tinham instalações. «Estavam a trabalhar em casebres e tendas, porque a infraestrutura administrativa estava destruída. Milhares de crianças estudavam à sombra das árvo-

O processo de afirmação da democracia angolana também mereceu destaque no discurso do PR. Disse que os angolanos assumiram, em 2008, o compromisso de trabalhar para mudar o país para melhor e estão a consegui-lo. «Decidimos inaugurar uma nova etapa no processo de democratização do país. Isto é, empenhamos o nosso esforço e dedicação no sentido de melhorar o que está bem, corrigir o que está errado e fazer coisas novas e necessárias que concorrem para o engrandecimento da Nação e para o bemestar do nosso povo», referiu. Dos Santos pediu, no entanto, a todos os intervenientes do processo de consolidação da democracia que adoptem uma postura «responsável e construtiva no exercício da diversidade e liberdade de opinião, que são pressupostos básicos da vida em democracia». Denunciou, entretanto, os que agitam o «espantalho da desconfiança e da fraude para perturbar a preparação das eleições» e pediu que seja direccionado o esforços na organização para «aperfeiçoar a fiscalização de todo o processo e assegurar a sua transparência e conformidade com a Lei, com honestidade» O Presidente criticou ainda aqueles que fazem do princípio do «vale tudo» no jogo político e democrático. «Na política não vale tudo, nem todos os actos e factos são admitidos, sobretudo quando lesam a reputação, o bom nome e a integridade moral e física de outras pessoas», disse o PR, realçando que «difamação, calúnia e ameaça de morte são crimes e não devem de modo algum ser usados como meios de disputa ou luta política». O PR referiu-se a base de apoio do partido governante, o MPLA, sublinhando que «nós pertencemos a um partido com vários milhões de membros», que é o único dessa dimensão e que por essa razão é o mais interessado em eleições livres, justas e transparentes. «Diz-se que quem é forte não precisa de fazer batota», aludiu, defendendo em seguida que «todos somos necessários para erguer a nova Angola, moderna, próspera e democrática».


9 Em Foco

Sábado, 31 de Março de 2012.

Preparam congresso e proclamação de Sociedade

Ortopedistas querem melhor distribuição dos serviços O Ministério da Saúde pode resolver o problema se pagar melhor os técnicos. Querem que as pessoas ainda trabalhem por amor à camisola, mas isso já não existe. O Ministério da Saúde tem falta de visão estratégica, asseveram os ortopedistas e traumatologistas, observando que, nas províncias, a situação é pior e que se chega a utilizar material de construção civil na ortopedia. Ali, os sinistrados são maltratados, por falta de condições técnicas.» Pascoal Mukuna

O

s ortopedistas e traumatologistas angolanos pretendem que se proceda a uma melhor distribuição desse tipo de serviço, de acordo com os aglomerados populacionais, lê-se num documento, da Sociedade Angolana dos Ortopedistas e Traumatologistas (SAOT), que deverá realizar o seu congresso de 14 a 16 de Junho próximo. Na nota, a que o Semanário Angolense teve acesso, os médicos apontam que a parte Sul da província de Luanda é a mais prejudicada. Outro problema é a falta de acessibilidade aos hospitais, havendo um grande afluxo de sinistrados ao Josina Machel, que não tem capacidade de atendimento. Defendem que os ortopedistas angolanos têm capacidade técnica e que grande parte deles foi formada no exterior, faltando, porém, meios materiais. «É ainda insuficiente o número de especialistas para a demanda de traumatismos», reiteram. «O Ministério da Saúde pode resolver o problema se pagar melhor os técnicos. Querem que as pessoas ainda trabalhem por amor à camisola, mas isso já não existe. O Ministério da Saúde tem falta de visão estratégica», asseveram os ortopedistas e traumatologistas, observando que, nas províncias, a situação é pior e que se chega utilizar material de construção civil na ortopedia. «Nas províncias, os sinistrados são maltratados, por falta de condições técnicas», lamentam os especialistas. O conclave vai realizar-se sob o lema «Sinistralidade Rodoviária e Traumatologia», com o objectivo de discutir vários aspectos ligados à sinistralidade rodoviária e as suas consequências, nomeadamente feridos, fracturas, de todas as idades. De acordo com o documento, é um tema importante e pertinente para discutir, já que a sinistralidade rodoviária é a segunda causa de morte no país, depois da malária, devendo, brevemente, passar a quinta causa a nível mundial. Os especialistas angolanos vão abordar o assunto com colegas de outros países de expressão portuguesa para mostrarem o que fazem com recursos ao seu dispor e trocarem experiências, fundamentalmente da CPLP. Prevê-se que venham a participar de 600 técnicos, entre cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos, são-tomenses, brasileiros, portugueses, timorenses,

havendo a confirmação de um especialista malaio. A ideia é também inserir a Sociedade Angolana de Ortopedistas e Traumatologistas na região Austral do continente africano, com ortopedistas da África do Sul, Namíbia, do Zimbabwe e outros e, «quem sabe, um dia realizar um congresso e criar uma organização de ortopedistas da SADC.» O evento visa, ainda, congregar todos os ortopedistas angolanos e estrangeiros que trabalham no país, desde que devidamente inscritos na Ordem dos Médicos. O número de ortopedistas angolanos anda à volta dos 40, sendo 60 os expatriados, o que totaliza 100. Pretende-se também a troca de experiências entre os angolanos e beber das experiências dos estrangeiros. Entretanto, os ortopedistas questionam: «quem controla os médicos que vêm de fora (expatriados), quem os avalia e quem os contrata?». Dizem ser enorme o trabalho que têm pela frente. «A função da Sociedade é, fundamentalmente, tratar e chamar à atenção aos automobilistas no sentido de conduzirem com responsabilidade Apela aos médicos-cirurgiões gerais, fisiatras, fisioterapeutas, estudantes e enfermeiros a inscreverem-se nos Hospitais Américo Boavida, do Prenda, Militar Principal ou através do site www.saot. co.ao


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Sábado, 07 de Abril de 2012.

Política Dinheiros de Samakuva no estrangeiro

UNITA ameaça processar o Semanário Angolense Na terça-feira, alguém do Conselho Fiscal desse partido (vamos identificá-lo se for caso disso) solicitou a um dos nossos jornalistas que lhe fornecesse a documentação a propósito que está em sua posse, sob o pretexto de que serviria para ajudar a sustentar uma sindicância que a estrutura estaria a projectar às contas do seu líder. Com que propósitos?

O

secretariado-geral da UNITA ameaçou, em nota de imprensa divulgada na última quintafeira, 05, em Luanda, apresentar uma queixa-crime contra o Semanário Angolense (SA) devido à matéria publicada na edição n.º 459, de 31 de Março de2012, sob o título «Dinheiro Estranho em Contas de Samakuva no Estrangeiro». Segundo a nota, a UNITA mandou os seus advogados participar da suposta existência de «dinheiros estranho» em contas no estrangeiro do seu líder, Isaías Samakuva, conforme publicado por este jornal, à Procuradoria-Geral da República Portuguesa para junto do Banco Montepio apurar a veracidade da informação. O Galo Negro refuta a notícia avançada pelo SA e diz que Isaías Samakuva nunca teve conta bancária no Montepio Geral de Portugal, nem alguma vez foi seu associado mutualista, o que se pode comprovar por jamais ter pago alguma jóia de inscrição na referida instituição.

«Estamos perante um crime puro e vil de difamação e calúnia, que visa ofender directamente a honra pessoal do presidente da UNITA, o seu decoro e o seu

prestígio perante a sociedade angolana, além de obter lucros com fins eleitoralistas», refere o comunicado do Galo Negro. AUNITA alega ainda que a informa-

ção avançada pelo SA se enquadra numa campanha persistente e insidiosa que visa macular o bom nome do Galo Negro e do seu presidente. Entretanto, dias antes da divulgação do comunicado de imprensa, um responsável do Conselho Fiscal do Galo Negro contactou, telefonicamente, o jornalista do SA responsável pelo assunto a solicitar os documentos em posse deste jornal para fazer uma investigação a propósito. Claro que a solicitação não foi satisfeita, pelo facto da documentação em questão ter sido apresentada ao próprio Isaías Samakuva pelo jornalista do SA, quando, antes da publicação da notícia, buscava o necessário contraditório do visado, tal como está expresso na matéria que chegou a público, não se compreendendo por isto mesmo este «arreganho» de procedimento judicial do Galo Negro. Por ter feito o que lhe competia em relação à confrontação das fontes e quejandos, o SA está tranquilo.

Através da recolha de assinaturas por todo o país

Cidadãos mobilizam-se pela extensão do sinal da Ecclésia U

m grupo de cidadãos angolanos decidiu juntar os seus esforços no sentido de mobilizar a sociedade em defesa da extensão do sinal da rádio Ecclésia, a emissora oficial da igreja católica, a toda a dimensão do país. Para o efeito, eles proclamaram uma auto-denominada Acção dos Leigos Católicos de Angola (ALCA), que tem como objectivo à recolha de assinaturas em todo o país para «sensibilizar as autoridades angolanas sobre a importância e a necessidade do sinal da Ecclésia por todo o país». A organização, que diz não perseguir fins políticos, mas tão-só bater-se pela ex-

tensão do sinal da igreja católica, afirma que, após a recolha das assinaturas, as mesmas serão encaminhadas às autoridades governamentais, à Conferência Episcopal de Angola e Santo Tomé (CEAST) e à Santa Sé. Recorde-se que a questão da extensão do sinal da emissora católica a todo o país tem causado um certo mal-estar no seio da própria igreja, ao ponto de colocar em pólos opostos duas falanges: uma que estará a defender as posições pro-governamentais e outra que pretende a expansão o mais urgente possível dessa estação de rádio a toda a dimensão do país.


11 Política

Sábado, 07 de Abril de 2012.

Já realizou em Luanda o seu congresso constitutivo

Frente de Chivukuvuku assume-se como proposta para a mudança Os delegados ao congresso da CASA apelaram à sua direcção a tudo fazer para denunciar os constantes atropelos à Constituição, por parte do partido no poder, numa clara atitude musculada e de exercício abusivo da sua posição maioritária na Assembleia Nacional, o que concorre claramente para a criação de um ambiente de suspeição e crispação antes do pleito eleitoral. Por isso, exigiram do Governo a criação de condições que permitam a realização de eleições livres, justas, credíveis e transparentes Kim Alves

O

congresso constitutivo da recém-formada Convergência Ampla de Salvação de Angola (CASA) realizou-se, em Luanda, no Centro de Convenções de Talatona, de 02 a 03de Abril do corrente ano, sob o lema «Vencer para Realizar Angola». O objectivo principal do conclave foi o de materializar e legitimar a coligação como uma frente político-eleitoral, formada por diversos partidos políticos, organizações sociais e cidadãos angolanos independentes. A organização contava, inicialmente, apenas com 690 delegados, mas foi surpreendida com uma avalanche de cerca de mil pessoas oriundas de todas as províncias do país e da diáspora. Deste número, o excedente veio a expensas próprias e surpreendeu a comissão organizadora, acabando por causar alguns transtornos funcionais, soube o Semanário Angolense (SA) de fonte interna. Contudo, o número oficial de delegados, como estava programado, fixou-se mesmo nos 690, dos quais 201 mulheres, tendo os jovens totalizado 50 por cento. Estiveram também presentes convidados nacionais e estrangeiros. Depois da sessão de abertura, em que se entoou o Hino Nacional, seguido de um minuto de silêncio em honra e memória dos mártires da Independência e da Paz, sucederam-se as leituras de mensagens das mulheres, da juventude e da sociedade civil, assim como discursos dos membros e líderes dos partidos que integram a coligação. Os debates foram activos, bastante participativos, durante os quais se aprovou as linhas de força e os instrumentos de valor jurídico-político para legitimar o objectivo maior da CASA. No decorrer dos trabalhos foi eleita e criada uma comissão elei-

toral, presidida por William Tonet e integrada ainda por Xavier Jaime Manuel, Carlos António Tavares Lopes, Marta Cristina Ndala, Luís António Ferreira e Linda Rosa Guerra, que procedeu à condução do processo eleitoral que elegeu a Comissão Directiva da Coligação. O Conselho Presidencial da CASA eleito tem Abel Chivukuvuku como presidente e quatro vice-presidentes: Anatilde Freire Campos, Manuel Fernandes, Alexandre Sebastião André e Lindo Bernardo Tito. Os delegados passaram ainda em revista a situação económica do país que, embora apresente um gráfico de crescimento económico considerável, contrasta com o desenvolvimento social, tanto no

meio rural como no urbano. O desemprego que afecta sobretudo a juventude, a discriminação a que estão sujeitos os trabalhadores angolanos em detrimento dos expatriados, as greves laborais que se registam um pouco por todos os sectores da vida económica do país, a falta de incentivos e valorização da produção nacional e das empresas angolanas, bem como a exportação de capitais para outros países, em detrimento da criação de novos empregos, são a base de uma má política de gestão económica, concluíram os delegados. O aumento da criminalidade nas cidades, a incapacidade do governo em fazer face ao alto nível de sinistralidade nas estradas, a problemática do consumo de

álcool pela juventude, o deficiente fornecimento de água e energia às populações, bem como a falta de uma política coerente de apoio à agricultura, o que resulta no agravamento da pobreza no interior de Angola e nas zonas suburbanas, foram situações destacadas nos debates.

Atropelos Foi igualmente feita uma análise profunda aos recentes acontecimentos de Luanda e Benguela, tendo os delegados manifestado preocupação pela forma brutal como as manifestações foram reprimidas. Apelaram também à direcção da CASA a tudo fazer para impedir

e denunciar os constantes atropelos à Constituição e à Lei, por parte do partido no poder, que, numa alegada atitude musculada e de exercício abusivo da sua posição maioritária na Assembleia Nacional, estará a criar um ambiente de suspeição e crispação antes do pleito eleitoral. Assim sendo, os delegados ao congresso da CASA chamaram a atenção do Governo para a criação de condições que permitam a realização de eleições livres, justas, credíveis e transparentes. Apesar destes factores, apelaram, igualmente, a todos os cidadãos para se registarem a fim de exercerem o seu direito indeclinável de «contribuírem para a mudança». Os trabalhos do segundo dia obedeceram ao programa de encerramento do conclave com a assinatura solene dos actos constitutivos da coligação, leitura da composição dos seus órgãos estatutários e tomada de posse do Conselho Presidencial (CP), do Conselho Deliberativo Nacional (CDN), equivalente a comité central, composto por 250 membros. Entre os membros do CDN, que, curiosamente, conta com vários parentes do presidente da coligação, destacam-se: William Tonet, Alexandre Neto Solombe, Américo Chivukuvuku, Evaristo Chicolomuenho, Samuel Chivukuvuku, Antónia Chivukuvuku, Pedro Albano, Adoloso Alicerces, Inocência Dias dos Santos, Amor Mateus, Xavier Jaime, Alberto Katengue, Luis Kissanga, Rafael Aguiar, Navita Gato, Marta Cristina Ndala, Joaquim Ikuma Muafuma, Carlos Morgado, Odeth Baca Joaquim, Carlos Calitas e AdelinoAntónio, entre outros. Entretanto, a CASA procedeu, na quinta-feira, 5 de Abril, pelas 11 horas da manhã, ao depósito da documentação aprovada no congresso constitutivo da coligação junto do Tribunal Constitucional.


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Sábado, 07 de Abril de 2012.

Política Abel Chivukuvuku, no encerramento do conclave

«Somos um bebé grande»

O

presidente da CASA, Abel Chivukuvuku, ao discursar no encerramento do congresso constitutivo desta recém-formada agremiação política, começou por assumir o compromisso de tudo fazer para corresponder a confiança de quantos apostaram nela, garantindo que a vai levar «aos mais altos patamares da vida pública nacional». Então, fez questão de pedir desculpas aos delegados e convidados, por possíveis transtornos que tenham sido obrigados a enfrentar. «Afinal, ainda somos um bebé», disse, antes de sublinhar com alguma ironia: «Mas, somos um bebé muito grande». Chivukuvuku disse que a CASA é um projecto amplo, aberto e colectivo, que resultou de consensos de vária ordem e por isso a sua organização é ideologicamente do centro. «A CASA congrega personalidades angolanas a volta de consensos que não implicam a abdicação de opções filosófico-ideológicas anteriores, por parte dos seus componentes. A CASA é o projecto nacional do momento e está preparada para os desafios da etapa actual e tempos futuros», explicou. Continuando, lançou um desafio e um apelo a todos angolanos, no sentido de se fazer de 2012 um ano histórico de viragem para um futuro melhor para todos os angolanos. «Chegou a hora para a nossa CASA determinar a viragem, para um verdadeiro ambiente de vivência democrática, onde a legitimidade e o primado da lei sejam uma realidade», sublinhou o presidente da novel coligação partidária. «Viragem para uma governação visionária, moderna, competente, humanizada e honesta, onde a qualidade de vida do cidadão angolano seja o factor de avaliação do progresso e do desenvolvimento», realçou. O ex-dirigente do Galo Negro aludiu que a CASA propõe a mudança para terminar, serena, pacífica e ordeiramente

os 32 anos de poder ininterrupto de José Eduardo dos Santos. «O actual Presidente da República, que respeitamos, já cumpriu o seu papel. Chegou a hora de passar o leme. Saber sair no momento apropriado, com elevação e dignidade, nunca será uma fraqueza mas sim uma virtude», aconselhou, sendo bastante aplaudido pelos presentes. Chivukuvuku garantiu que Angola terá neste ano de 2012 um novo governo: «Um governo de natureza patriótica e que resultará da livre escolha dos angolanos nas eleições que se aproximam. Tudo depende da qualidade da nossa prestação política que tem que corresponder às actuais expectativas do cidadão eleitor. O governo a formar pela CASA em 2012 terá como critério básico a cidadania, a competência e a honestidade. Isto é, um governo do povo, pelo povo e para o povo». O líder da CASA criticou o facto do Presidente da República já estar em campanha eleitoral, mesmo antes de ter convocado as eleições, usando meios e fundos públicos nessa campanha, em contravenção com a lei e em prejuízo das forças políticas da oposição que não receberam ainda as verbas para as suas campanhas eleitorais. «Isso é imoral e injusto». «Por outro lado, queremos associar-nos aos demais partidos da oposição, na condenação e recusa em aceitar a Dra. Suzana Inglês como presidente da CNE, porque não reuniu as condições necessárias para a sua elegibilidade. Ela, ou éjuíza, ou é advogada. Não pode ser simultaneamente as duas coisas. E se comodizem, suspendeu a sua condição de juíza para exercer advocacia, enquanto suspensa não é, de facto, juíza e portanto não é elegível para presidente da CNE e tudo deve ser feito para reverter essa situação», solicitou. KA

Afirmação de Xavier Jaime

«Muita gente está a vir»

X

avier Jaime Manuel, ex-membro da Comissão Permanente da UNITA, aderiu ao projecto de Chivukuvuku, aliás, como a maioria dos que integravam o chamado «Grupo de Reflexão» do Galo Negro.Foi membro da comissão organizadora do congresso e esteve por trás, com companheiros, da organização das diversas actividades que trouxeram a CASA a público e é, agora, um dos 250 membros do Conselho Deliberativo Nacional da nova organização política. Falando, à margem do congresso, ao Semanário Angolense, disse que o congresso satisfez as expectativas. «Em termos dos objectivos estabelecidos, foram todos alcançados, porque o convénio, através dos seus delegados ratificou o Colégio Presidencial, que agora tem uma existência legal juridicamente», sublinhou. Oex- Relativamente ao que se tem aventado, sobre o facto de alguns quadros e militantes do MPLA, nomeadamente Marcolino Moco, se estarem a bandear para a CASA, Xavier Jaime afirmou não saber de nada, mas não descartou totalmente essa hipótese. «Penso que a nível um pouco mais alto essas afirmações possam ser confirmadas, porque a acontecer é evidente que esses militantes de outros partidos estejam a fazer contactos à um nível alto, mas afirmo que há muita gente a vir para a CASA. Essa é a verdade», realçou. Para ele, o mais relevante foi o facto de a comissão organizadora ter perspectivado um determinado número de pessoas e ter aparecido um número superior.


13 Política

Sábado, 07 de Abril de 2012.

Comentário

CASA com várias «portas» é muito difícil de guardar… A particularidade de ter na direcção figuras que já foram líderes de partidos ou coligação de partidos, com ambições nada modestas, pode potenciar clivagens sérias no futuro. É esperar para ver até aonde vai o «compadrio» do momento entre as cinco personalidades que conformam a presidência dessa coligação Jorge Eurico

A

presentada a 14 de Março ao país, a Convergência Ampla de Salvação de Angola (CASA) será, segundo alguns analistas da nossa coisa política, um projecto que terá muitas dificuldades para sobreviver. São três as razões fundamentais que sustentam estas conjecturas: 1) Como Abel Chivukuvuku não é o que se pode chamar propriamente um títere do «maioritário», como o era Eugénio Manuvaloka ou o é Lucas Ngonda, a coligação poderá passar por dificuldades acrescidas que redundarão na sua implosão; 2) A sua criação é causada essencialmente pelo desejo do seu mentor pretender colocar um fim à humilhação de que passara a certo momento a ser alvo no seio da UNITA, surgindo a CASA como a melhor saída para Abel Chivukuvuku evitar a inglória expulsão que se anunciava; 3) Três dos quatro vice-presidentes apresentados terça-feira última em Luanda, Lindo Bernardo Tito (ex-PRS), Alexandre Sebastião André (POCs), são políticos com uma trajectória muito própria e, logo, com ambições legítimas para, daqui a pouco, aspirarem à presidência da coligação recémcriada, o que, também tarde ou cedo, deverá ocasionar clivagens insanáveis. Antes de ter partido para esta «aventura», Abel Chivukuvuku terá confabulado com algumas pessoas próximas, a quem

revelou que tinha consciência do alto risco que corre a sua carreira política, que pode mesmo acabar praticamente caso o projecto não vingue. A docência universitária ou a vida empresarial será o seu destino se tal eventualmente acontecer.

Bom dissimulador Desde 2007 que Abel Chivukuvuku estava praticamente ofuscado no seio da UNI-

TA, depois de perder a eleição presidencial no seu partido a favor de Isaías Samakuva, a quem, curiosamente, ajudara a afirmar-se no congresso de 2002. Contudo, o concurso de Abel Chivukuvuku para a afirmação de Isaías Samakuva e pares tinha um outro objectivo em agenda: manipular as coisas para que fosse candidato presidencial nas eleições então anunciadas para 2009, que acabaram por não se realizar.

Mas, esta estratégia não levou em consideração a astúcia de Isaías Samakuva, que estava a ser subestimado. Resultado: deu-se mal. Aliás, afiança quem o conhece que este antigo operacional da inteligência e comunicações do Galo Negro em Kinshasa sempre olhou para a vida política como um jogo de xadrez, em que ele é o rei e os demais peça menores no tabuleiro. É considerado, no seio do partido que renunciou, mestre na arte da manipulação e dissimulação, o que levara Jonas Savimbi a considerá-lo como um dos agentes mais eficientes da UNITA no antigo Zaíre, do qual, porém, seria expulso por Mobutu, por alegada tentativa de corrupção aos seus «colegas» deste país. Se Abel continua a encarar a vida como um tabuleiro de xadrez, em que ele é a peça principal, então é possível que reserve aos seus actuais quatro vice-presidentes tarefas menores no funcionamento da sua coligação, algo que, atendendo ao que dissemos sobre as possíveis ambições de cada um de três deles, poderá ser a fagulha que é capaz de fazer o edifício desabar, como conjecturam alguns analistas. Para piorar, há ainda a dica de que Abel Chivukuvuku dificilmente se dá bem em projectos políticos que lidere, como de resto espelha a estrondosa derrota que averbou diante de Isaías Samakuva no congresso do Galo Negro de 2007. Oxalá, ele possa agora mudar tal tendência. Vamos esperar para ver.

Na direcção da «terceira via»

U

Os pares de Abel

m dos grandes animadores da Convergência Ampla de Salvação de Angola (CASA) é o jornalista e advogado William Tonet, que também é, na verdade, uma espécie de iminência parda devido à amizade que o liga a Abel Chivukuvuku, desde os tempos em que eram «bambinos» no Luvemba, província do Huambo. Conheça, já a seguir, os outros rostos que estão autorizados a «incomodar» o sono do senhor presidente Abel Chivukuvuku. Manuel Fernandes – Foi presidente do Partido Aliança Livre de Maioria Angolana (PALMA) e até ao passado dia 28 de Fevereiro deste ano esteve à testa dos Partidos da Oposição Civil (POC), coligação fundada em 1996 com o objectivo de

forçar o diálogo entre o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, e líder da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi, para o alcance da paz no país. Lindo Bernardo Tito - Antigo locutor da Emissora Provincial da Lunda-Sul, do grupo Rádio Nacional de Angola (RNA), nos idosda década de oitenta, durante dezasseis anos foi um dos rostos mais visíveis do Partido de Renovação Social (PRS) no Parlamento, chegando mesmo a chefiar a bancada daquela formação política. Enquanto no Parlamento, não deixou de acautelar o futuro, tendo feito a sua licenciatura na Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto. Alexandre Sebastião André - Antigo membro da Seguran-

ça do Estado (MINSE), é também licenciado em Direito pela Universidade Agostinho Neto. Foi co-fundador do PAJOCA, em companhia de dois primos: Tetêmbwa (Estrela, em quimbundo) e David Mendes. Quando este último abandonou o partido por razões pessoais, Tetêmbwa dirigia-o a trouxe-mouxe. «Asa», como também é conhecido, deu um «golpe» a Tetêmbwa, expulsando-o da direcção do partido até a altura em que foi extinto, isto em 2008. Analtide Freire Costa – É uma ilustre desconhecida do grande público, mas há quem afiance que é uma senhora intelectual e academicamente bem dotada, tendo deixado créditos bem firmados no seio do Galo Negro.


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Sábado, 07 de Abril de 2012.

Política Sobretudo no interior do país

Implantação não será fácil Ensaísta Domingos da Cruz desmente vinculação. «Casa?! Só se for a da minha mãe», ironiza ele, em mensagem no Facebook que enviou desde o Brasil Jorge Eurico

A

pesar de ter aparecido num momento em que o país oferece condições favoráveis para o surgimento de mais formações políticas fortes, a CASA terá como desafio, daqui para frente, percorrer um caminho bastante sinuoso na busca de membros, simpatizantes e amigos para a sua causa. E tudo indica que - para quem pretende concorrer às eleições gerais de Setembro próximo - tal não se vai afigurar empresa fácil, na medida em que o «esférico» político nacional é já dominado pelos partidos tradicionais. Será mais fácil à CASA arregimentar apoios em massa em Luanda, mas não se pode dizer, nem que seja a brincar, o mesmo em relação ao interior do país. Senão, vejamos: politicamente, o partido no poder está com a bola em Luanda, Bengo, Malange, Benguela, Kwanza-Norte, Kwanza-Sul, Huíla e Cunene. A UNITA, apesar do descalabro de 2008, parece estar a recuperar bem no Huambo, Bié, Benguela e mesmo no Moxico. O Uíje e Zaire são praças tradicionais da FNLA. Sempre foram. O PRS, por seu lado, tem forte implantação nas Lundas, algo que tira o sono ao «maioritário».

Urbano Prova disso é que a disputa eleitoral de 2008 foi bastante renhida, eis a razão que tem levado o Executivo, depois de tê-lo feito no Planalto Central, a investir forte e feio no leste do país. Enquanto o Governo investe com meios, o PRS investe politicamente devido à influência tribal que possui nesta parcela do território nacional. A questão que se coloca é: donde virá a base de apoio da CASA no interior do país? Há quem compare esta novel coligação ao Bloco Democrático, o exemplo mais acabado de «partido urbano». Há, entretanto, informações que dão conta que a direcção da CASA tem estado a empolar o número de cidadãos que, por várias razões e em diversas províncias do país, têm abandonado outras formações políticas, sobretudo a UNITA, para entrarem num «imóvel» cujos «compartimentos» foram apenas terminados na última terça-feira,

3, por altura do termo do seu congresso constitutivo. Há intelectuais que se queixam de terem visto os seus nomes na lista de membros da direcção da coligação sem que tal corresponda à verdade, na medida em que nem sequer foram consultados. É o caso do ensaísta e académico Domingos da Cruz, actualmente a residir no Brasil, que se viu na contingência de recorrer ao Facebook para desmentir a informação que o apontava como sendo membro da direcção da CASA. «Não sou da coligação CASA e nunca fui. Várias pessoas telefonaram-me dizendo que fui colocado num dos órgãos desta força política e leram bem alto e bom som o meu nome. Talvez seja outro Domingos da Cruz, porque não me filiei em nenhuma casa, se não a da minha mãe…». Entretanto e por outro lado, o SA apurou que a direcção da UNITA está a agitar a bandeira da pensão de reforma dos ex-militares das FALA para impedir que mais gente sua adira à CASA. Segundo as nossas fontes, o Galo Negro terá disseminado a informação de que quem seguir Abel Chivukuvuku arriscase a ficar sem a sua renda.

Huambo

UNITA desmente deserção de quadros

O

secretariado da UNITA no Huambo desmentiu, em comunicado emitido no passado dia 03, citado pela Angop, a notícia segundo a qual a organização teria perdido nessa província mais de mil militantes seus a favor da CASA. O Galo Negro no Planalto Central garante que tem todos os seus membros e quadros sob seu controlo efectivo, o que, segundo o comunicado, se pode confirmar nos registos do sector dos Recursos Humanos do secretariado local. No mesmo comunicado, a UNITA desafiou a CASA e os órgãos de Comunicação Social a apresentarem provas credíveis da suposta deserção de militantes do seu partido para força agora liderada por Abel Chivukuvuku como fora noticiado. «A UNITA no Huambo está em condições de apresentar, caso seja necessário, um número assinalável de cartões de membros, exmilitantes do MPLA que integraram recentemente as fileiras da UNITA. Como aliás já teve a frontalidade de o fazer, em duas conferências de imprensa que tiveram lugar na sua instalação provincial, à qual afluíram todos os órgãos de Comunicação Social credenciados na província», destaca o comunicado. A UNITA exortou os seus militantes, simpatizantes, amigos e cidadãos em geral a concentrarem-se nos reais problemas que assolam o país, tais como a corrupção institucionalizada, a má distribuição das riquezas, o desemprego, a exclusão social, a pobreza extrema, a má governação e o nepotismo. JE


15 Política

Sábado, 07 de Abril de 2012.

Luther Rescova opta por uma «fuga para frente»

Líder da JMPLA não comenta deserções

Nelson Sul D´Angola (*)

O

primeiro secretário nacional da JMPLA, Luther Rescova, minimizou recentemente em Benguela a polémica em torno da suposta fuga de militantes do braço juvenil do MPLA para se filiarem na CASA, uma formação política que tem à testa Abel Chivukuvuku. Questionado na sexta-feira, 30, sobre as alegadas deserções de militantes da JMPLA, que terão se bandeado para as hostes da Convergência Ampla de Salvação Nacional (CASA), Sérgio Luther Rescova disse que não comentava sobre esta assunto por, segundo ele, «desconhecer oficialmente a existência de um partido com tal nome». «Não posso reagir, porque ainda não existe um partido político com o nome de CASA, e não tenho por hábito falar de questões que oficialmente não existem», adicionou. O líder da «Jota», que esteve reunido em terras de Ombaka com os primeiros secretários pro-

vinciais dessa agremiação juvenil do MPLA, considerou que a formação dirigida pelo então dirigente da UNITA, Abel Chivukuvuku, não passava de um projecto político, que «carece ainda de legalização pelo Tribunal Constitucional». Na opinião de alguns analistas locais ouvidos pelo Semanário Angolense, o primeiro secretário nacional «Jota» procurou desta forma «fazer uma fuga para frente», minimizando a existência de uma formação política, que,« pela sua importância, poderá constituir-se na terceira força política do país». Recorde-se que sobre assunto, divulgado em primeira-mão pelo site «Club K Angola», Noberto Garcia, um jurista afecto ao Comité Provincial do MPLA de Luanda, havia negado as alegadas deserções, num pronunciamento feito na Rádio Ecclesia. Na reunião do Secretariado Nacional da JMPLA, na qual participaram apenas os secretários provinciais da «Jota», foram abordados três painéis, nomeadamente: a influência da JMPLA dentro do

MPLA, os desafios eleitorais que se avizinham e, por último, as acções a desenvolver durante os festejos do Dia Nacional da Juventude, que se comemora no dia 14 de Abril. Num discurso, tido como «pouco inovador», Luther Rescova aproveitou a ocasião para reafirmar o apoio da JMPLA a José Eduardo dos Santos, para que, segundo ele, o presidente do MPLA seja o cabeça de lista do seu partido nas eleições de 2012. Em relação às manifestações antigovernamentais que têm tido lugar nos últimos tempos nas províncias de Luanda e Benguela, e que alegadamente têm sido reprimidas pelas forças polícias, em colaboração com supostas milícias, o líder da juventude do partido maioritário revelou que cabia as instituições do Estado avaliar a postura das forças policiais em tais actos públicos e não a JMPLA.». «As instituições do Estado estão aí, não cabe a JMPLA fazer avaliações, em termos de mérito ou legalidade das actuações «policiais», frisou Sérgio Luther Rescova.

Caso Suzana Inglês continua a agitar

BD contesta encontro entre PR e presidente da CNE

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caso Suzana Inglês continua ainda a agitar o panorama político nacional, tendo o Bloco Democrático (BD), num comunicado divulgado esta semana, revelado que o encontro havido, no Palácio da Cidade Alta, entre o Chefe de Estado e a contestada candidata à Presidente Comissão Nacional Eleitoral (CNE) constitui «uma violação ostensiva, prepotente e grosseira do Presidente da República aos princípios da Independência dos Tribunais e à separação e interdependência dos órgãos de soberania, constitucionalmente consagrados». O partido, que tem à testa o economista Justino Pinto de Andrade, insurge-se contra o facto de tal encontro ter ocorrido numa altura em que o Tribunal Supremo (TS) tem à mesa três recursos contenciosos dos principais partidos da oposição com assento parlamentar. «Com o referido encontro, o Presidente da República quis transmitir à opinião pública nacional e internacional que o assunto da designação da advogada Suzana Inglês pelo Conselho Superior da Magistratura Judicial para Presidente da Comissão Nacional Eleitoral era um caso encerrado, bem como condicionar o julgamento dos Recursos Contenciosos intentados pela Unita, o PRS e BD por parte dos Venerandos Juízes Conselheiros do Tribunal Supremo», refere o comunicado do BD. Na óptica dos «bloquistas», o encontro entre o PR com a ilustre advogada terá sido antecedido de uma campanha «urdida pelo Jornal de Angola e TPA, órgãos oficiais do regime, que envolveu entrevistas a pretensos presidentes de partidos ditos da oposição que apenas são recordados e desenterrados pelos referidos órgãos quando há necessidade que eles façam oposição aos verdadeiros partidos da Oposição, especialmente em momentos particulares com o que se vive no momento, com o caso da designação da Sr.ª Suzana Inglês para presidente da CNE, em que os pretensos líderes partidários subscrevem de cruz as posições do titular do Executivo». O comunicado subscrito por Luís do Nascimento, secretáriogeral em exercício do BD, lembra, por fim, que o acto de indicação de Suzana Inglês para o cargo de presidente da CNE «é inconstitucional e ilegal, porque feita em violação flagrante à Constituição e pelo facto da candidata não satisfazer os requisitos legais exigíveis». IM


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Capa Será mesmo Angola?

Albino cria pânico no Kabuscorp do Palanca Celso Malavoloneke

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conteceu no Domingo, 1 de Abril. Em plano estádio da Cidadela. No jogo mais emblemático da jornada. Perante milhares de espectadores, rádio-ouvintes e telespectadores nacionais e internacionais, os dirigentes do clube de futebol do «empresário da juventude», Bento Kangamba e o seu Kangamba Business Corporation, aliás Kabuscorp recusaram-se a iniciar o jogo. Motivo? A presença de um roupeiro no banco dos suplentes do Recreativo do Libolo, seu oponente. E qual era o problema do dito cujo roupeiro? Era albino. E qual é o problema de ser albino para os homens? Era feiticeiro. Feiticeiro porquê? Porque é albino… Segundo uma notícia do jornalista Marcelino Camões da ANGOP, depois retomada pelo Jornal de Angola, na sua edição do dia seguinte, 2 de Abril «A presença de albino no banco de suplentes da formação do Kwanza-Sul suscitou celeuma nos dirigentes do Palanca, que alegaram se tratar de um elemento estranho ligado às forças ocultas, dito de outro modo, à feitiçaria. O jovem teve de beneficiar da protecção do técnico Zeca Amaral e do presidente do clube libolense, Rui Campos, para não ser expulso do estádio da Cidadela e, possivelmente, com agressões físicas. A contradição entre as partes só não atingiu contornos violentos graças à postura pacífica demonstrada pelos dirigentes do campeão nacional e, mais tarde, pela intervenção da Polícia e equipa de arbitragem que orientaram a retirada do “feiticeiro” (?)». Não é a primeira vez que se regista acto idêntico entre as duas formações. Na segunda volta do Girabola de 2011 em Calulo, o plantel do Palanca criou situação idêntica, justamente pela presença do mesmo jovem em campo. Na altura, sem protecção dos anfitriões, o albino foi escorraçado dos balneários alegadamente por estar ligado às forças ocultas. Na ocasião, tal como Sábado, o Libolo venceu o jogo». O episódio suscitou imediatamente a repulsa e indignação geral, a começar pelos profissionais da comunicação social que seguiam a cena em directo e, por extensão, a grande maioria dos cidadãos que se deslocaram ao estádio para desfrutarem de uma boa partida de futebol. Porém,

testemunhas que descreveram o acontecimento no Facebook afirmam que não fosse a protecção da polícia, a vida do jovem poderia mesmo correr perigo nas mãos dos adeptos do Kabuscorp, conhecidos pela sua superstição, dado o facto de serem na sua maioria oriundos ou regressados da vizinha RDC, um dos países conhecidos internacionalmente pela forma bárbara como trata os albinos, ao ponto de estes serem assassinados para rituais de magia negra. Angola, ao contrário destes países (veja matérias mais a frente) é conhecida como um dos que melhor trata a sua população albina, sendo raros os casos de discriminação explícita – como, aliás, acontece com outras minorias, nomeadamente a branca e mestiça. Um dos últimos episódios aconteceu em Julho de 2006, quando o então Chefe da secção de Segurança de Trânsito e Prevenção Rodoviária da Direcção Nacional de Viação e Trânsito (DNVT), Eugénio Bernardo «Geny», disse que pela lei angolana os albinos não podiam conduzir, posição essa que foi prontamente rechaçada por todos os quadrantes da sociedade, a começar pelos médicos. O episódio protagonizado por Bento Kangamba «e sus muchachos» assume uma dimensão

particular, sobretudo pelo local em que o mesmo ocorreu: um estádio de futebol lotado com gente à espera de um jogo de cartaz e com a cobertura mediática que o desporto-rei se faz sempre acompanhar. Estes três factores, adicionados à cada vez mais habitual multiplicação por via das redes sociais, ampliaram extraordinariamente a notícia ao ponto de o que seria um pequenino grão de areia se ter transformado numa verdadeira montanha. É que ele suscita várias perguntas, sendo a primeira: quem é, afinal, Bento Kangamba? Quem financia as suas actividades? – actividades essas vistas cada vez mais com desconfiança por sectores cada vez mais crescentes da sociedade – . Que preparação, experiência ou sentido de responsabilidade tem a capacidade de ter para ser o actor principal em assuntos de extrema delicadeza para a estabilidade da Nação? Querendo ou não, por duas vezes pelo menos esteve prestes – pode ainda estar – a causar conflitos sociais de proporções incalculáveis, perante a passividade das autoridades de direito… A segunda pergunta prende-se com a participação nesse fenómeno de difícil gestão em África – a acomodação social dos albinos – da parte da direcção do Recreativo do Libolo... O que pretendiam,

afinal, com a presença do jovem roupeiro no banco dos suplentes? Desde quando os roupeiros ali se sentam, junto com o corpo técnico, os médicos e massagistas e os atletas? Que mensagem subentendida (não) quiseram passar para (des)estabilizar psicologicamente o adversário, sabendo à partida o quanto a sua estrutura cultural é vulnerável a isso? É que, não cabe na cabeça de ninguém que Rui Campos, o presidente do Libolo, e Zeca Amaral, viajados como são não saibam que na África Oriental em geral e na RDC, em particular, os albinos são vistos como feiticeiros… A terceira pergunta, esta de fórum jurídico tem a ver com o que diz a nossa Constituição em relação a qualquer tipo de discriminação: se – e esse «se» é propositadamente perguntado aos VHF (verdadeiros homens do futebol) – os roupeiros podem efectivamente sentar-se no banco dos suplentes durante os jogos, teve a equipa de arbitragem e a polícia razão ao retirar o jovem somente por faltarlhe melanina na pele? Caso sim, porquê o Libolo o pôs lá? Deve haver sanções para isso. Caso não, porquê o retiraram? Uma queixa judicial renderia nesse caso uma boa maquia, tanto o jovem roupeiro como o próprio Libolo, que bem devem andar a precisar… por danos morais e físicos.

A quarta e última pergunta é de foro político, e deve ser assacada a todas as instituições que estiveram envolvidos neste episódio: Alguém pensou no efeito dominó negativo que isto podia causar? Imaginemos que um pacato cidadão albino se cruzasse com a exaltada turba dos adeptos «kabús», depois da tal derrota frente ao Libolo; podia ser simplesmente linchado. Iniciado o primeiro, as turbas exaltadas certamente outras procurariam… Para além das perdas em vidas humanas, em circunstâncias perfeitamente indesejáveis, teríamos o país – desta vez sim – numa situação de imagem completamente vulnerável. O que é absolutamente aterrador quando um dos instigadores é familiar por casamento do próprio Presidente da República… À cata destas e outras perguntas, o SA, como já é sua marca registada, foi à rua ouvir quem de direito; que neste caso é a sociedade toda. Mas antes, e para que o(a)s leitore(a)s não pensem que estamos a fazer tempestade em copo de água, partilhamos uma reportagem que há dois anos comoveu o mundo sobre o que a xenofobia contra albinos, acrescida à magia negra pode fazer a uma sociedade e à imagem de uma Nação. Referimo-nos exactamente ao que se passou na África Oriental.


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«Fazer dinheiro já é assim?..»

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m Julho de 2006, os jornalistas Leonel Libório e Domingos Cazuza do «velha» versão do semanário INDEPENDENTE (velha, porque não tem nada a ver com o actual, a não ser o título) publicaram uma matéria em que afirmavam que segundo as leis angolanas, as pessoas albinas não podiam conduzir segundo afirmações de altos oficiais da Direcção Nacional de Viação e Trânsito (DNVT). O que era estranho, pois o seu mais alto responsável, o comissário Inocêncio de Brito tinha tempos atrás afirmado precisamente o contrário. Isto é, que os albinos, como qualquer cidadão angolano que tenha deficiência visual deve corrigir, primeiro, a vista através de lentes oculares e candidatar-se ao competente exame de condução. Indignado, o também albino e jornalista Celso Malavoloneke endereçou aos dois profissionais a seguinte carta aberta que pelo interesse que encerra para a compreensão do tema em reflexão, o SA traz de novo à estampa: «Caros colegas Lionel Libório e Domingos Cazuza; Permitam-me que me apresente: chamo-me Celso Malavoloneke. Sou vosso colega, formado em Planificação de Desenvolvimento Rural Internacional, por

uma universidade canadiana há já quase vinte anos, e agora a terminar outra formação superior em Comunicação Social no ISPRA. Sou técnico de Desenvolvimento há quase 20 anos, sou Oficial de Comunicação e, como não podia deixar de ser, também jornalista. Caros colegas, tive a sorte – sorte mesmo! – de ter nascido albino. É nessa condição – de albino que “desconseguiu” não ser vosso colega – que escrevo solicitando que considerem estas linhas uma resposta à matéria por vós publicada no N. 344 de 1 de Julho do corrente sob o título: Infracção ao trânsito: “Albinos não podem conduzir”, assinada pelo colega Cazuza. Em primeiro lugar, gostaria de apontar o facto que, por não ter apresentado prova ortográfica de citação, a chamada de capa acima passa a ser da inteira responsabilidade do INDEPENDENTE e não da fonte da notícia, no caso o chefe de Secção de Segurança e Prevenção da Direcção Nacional de Viação e Trânsito, Eugénio Bernardo “Geny”. Ora, assim sendo, e como veremos adiante, constata-se uma grave falta de ética e deontologia jornalística consubstanciada na promoção – deliberada ou não? – de discriminação e consequente exclusão social, seja ela baseada na raça ou qualquer outro factor

que seja, e ainda por cima baseada em inverdades. Eu posso entender – jornalista que sou, talvez não com tanta tarimba como os colegas, mas com alguma formação académica e vivência social – que a referida chamada de capa terá ajudado (e de que maneira) nas vendas. No meu caso, pelo menos dez pessoas ligaram, instando que comprasse o vosso jornal – o que aliás, faço todas as semanas. Mas concordarão comigo que há maneiras mais dignas e honradas de ganhar dinheiro. A honra e dignidade humanas, como sei que concordam comigo, não têm preço. Ou, pelo menos, não deviam... Estou consciente que estou sendo particularmente duro com colegas, que até admiro. Explico as razões nas próximas linhas.

Analisando a notícia Segundo a notícia, o dito oficial da polícia – seria interessante saber o seu grau – cita o art. 40, n. 1 e alínea f) onde se lê correctamente (e cito a notícia) “será reprovado em inspecção normal o examinando quando o médico verificar qualquer circunstância que julgue susceptível de incapacidade para a condução de veículos automóveis” (fim de citação).

A asserção é absolutamente correcta. Qualquer cidadão, branco, preto, amarelo, azul, vermelho laranja ou albino, já agora – porque segundo a Constituição de Angola todos são iguais perante a Lei – que se queira habilitar a conduzir tem que provar que isso não constituirá perigo para si nem para os outros utentes da via pública. É por isso que tem que ir a um médico oftalmologista e obter o competente atestado médico. No caso dos albinos, e por serem mais susceptíveis de deficiências visuais – falaremos disso mais adiante – devem fazê-lo exclusivamente no Centro Nacional de Oftalmologia em Luanda ou certificado por uma junta de médicos nas províncias. Uma vez que passem por esse processo nada na Lei os impede de habilitar-se ao exame e, caso sejam aprovados pelo competente examinador, poderão obter a sua carta de condução. Impedi-los é crime!.. Dali que, destapada a careca de jurista do nosso responsável policial – responsável mesmo? – por baixo ficam... sérias deficiências(?) de interpretação da legislação de base da sua actividade laboral. É correcto que as pessoas com a deficiência congénita conhecida por albinismo têm propensão para deficiências visuais. Há al-

guns meses no Semanário Angolense e no programa “Janela Aberta” da TPA tive a oportunidade de debruçar-me pormenorizadamente sobre isso. Mas, como qualquer médico oftalmologista pode confirmar, estas deficiências não são iguais para todas as pessoas albinas, nem todos têm normalmente os mesmos problemas, como se procurou dar a entender. Os que me conhecem sabem que não sou zarolho, estrábico, sem visão binocular, com mistagma, enfim. Tenho limitações de visão de facto, razão pela qual no último check-up que fiz há pouco mais de um mês no Instituto Nacional de Oftalmologia a minha médica definiu claramente quais eram as restrições que deviam constar na minha carta de condução. Fê-lo por escrito e verbalmente, com a boa médica que é. E eu estou consciente que isso não foi por ser albino – o que até sou, com muito orgulho! – mas porque como cidadão, ao gozar o meu direito constitucional de conduzir um automóvel, devo respeitar o direito também constitucional dos outros cidadãos de não incorrerem em perigo por causa da minha condução. Dali mais uma vez que, destapada a careca de “médico” do nosso entrevistado fica a impressão dos que que dizem saber tudo.


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Capa Destapada a careca de policial que deve conhecer as suas competências vis-a-vis as de outras disciplinas auxiliares das ciências policiais, como a jurisprudência e a medicina, entre outras, fica – no mínimo, acreditem – a sanguitice do macaco que nem no seu galho sabe permanecer. O que irrita, como irrita!!! Quanto ao facto de afirmar que nós todos os albinos que conduzimos estão desencartados, nem ao Diabo lembra, tamanha é a irresponsabilidade de tais declarações. É caso para dizer, de acordo com Napoleão Bonaparte que a ignorância é atrevida... Como é que o Cazuza não cruzou estas informações: com um médico, ou com outras fontes ou, ainda, com pessoas albinas? Só o Libório saberá dizer... Será que vocês queriam tramar o homem, logo agora que o novo “boss” do MININT está a pôr nova ordem na casa? Vocês e o vosso entrevistado lá saberão...

Responsabilizações O Jornal Independente não pode fugir às suas responsabilidades. Até porque causou muito sofrimento às famílias, amigos e parentes das pessoas afectadas pela notícia mal formulada – e com honras de chamada de capa, ainda por cima! – Assim como às pessoas, como eu, que viram aumentados os insultos na via pública e as tentativas de “pente” dos polícias de trânsito. Por isso convido-vos, caros Cazuza e Libório a retratarem-se publicamente, com uma matéria mais fundamentada, pedagógica e imparcial (posso ajudar com as fontes, se precisarem). De outra forma, manifesto-me disponível para um processo de sensibilização pública no qual todos aqueles que acreditam numa Angola de oportunidades iguais para todos deixem de comprar o vosso jornal. Como protesto.

Há uns anos, o então Procurador-geral da República, Dr. Domingos Culolo, fez questão de se dirigir à RNA e à TPA para esclarecer um assunto similar. Não há muito tempo, em Novembro passado, o comissário Inocêncio de Brito fez a mesma coisa, quando foi do caso do Simão Mungongo. Mas parece que a tradicional disciplina dos policiais não está a existir aqui (o director da Viação e Trânsito na Huíla recusa-se a aceitar albinos para exame de condução... a não ser que sejam ligados aos seus compadrios) julgo que seria bom mover um processo judicial à Direcção Nacional da Viação e Trânsito. Para que se pare de uma vez com esta discriminação. E o Estado diga da sua verdade através do PGR. É por isso que contra os meus hábitos resultantes de responsabilidades alheias, a não ser que haja um desmentido público e formal, manifesto-me disponível para promover este processo para o qual desde já convido todos aqueles que, albinos ou não, acreditam que com a Independência, todos os cidadãos do nosso País ganharam igualdade perante a Lei. General “Ngongo“ – que é mesmo um grande ngongo (sofrimento) que a “sua” gente assim nos causa: -- Para quando a civilização da Polícia? Não no sentido da elegante ressalva que o senhor fez questão de fazer: Desmilitarização. Não! No sentido que os nossos pais davam ao termo, isto é, gentio, matumbo, emburriço, buçal. É que, com gente assim em posições de responsabilidade na corporação... Deus tenha piedade dos angolanos e de si também. Libório, Cazuza; Peço desculpas se vos ofendi. Mas vocês magoaram muita gente, que gasta o pouco dinheiro que tem para comprar o vosso jornal. A moeda de troca é a seriedade profissional e a responsabilidade pública. Muitas destas pessoas magoadas pediram-me para escrever as linhas acima».

Perseguição, assassinato e isolamento: o drama dos albinos africanos E m 22 Maio de 2011 era postado no site «Magazine e Ciência» um artigo de um jornalista e investigador antropológico brasileiro, que comoveu o mundo, arregimentou organizações e lobbies de defesa dos Direitos Humanos, assim como chamou, pela primeira vez, a atenção da comunidade internacional para o drama que os albinos passavam na RDC, Uganda, Ruanda e Burundi e, principalmente, na Tanzânia. Pela sua importância e relevância para o assunto, ora lançado a debate, o Semanário Angolense retoma-o com a devida vénia, na esperança que sirva de mote de reflexão aos angolanos sobre como tratam agora vis a vis a como podem tratar no futuro os seus concidadãos albinos. O drama dos albinos na África é muito mais grave do que a exposição solar. O Lago Vitória é o 7º maior lago do planeta, e o maior da África. Tem mais de 300 ilhas, numa área com o tamanho aproximado da Irlanda; uma delas se destaca pelo tamanho e pela curiosa história que encerra em seu território. Trata-se da ilha de Ukewere, a maior do continente localizada no interior de seu território, que serve de abrigo para uma grande comunidade de albinos. Em África, 1 em cada 5.000 recém-nascidos apresenta albinismo. Este indicador

é 4 vezes maior do que a média mundial, e somente na Tanzânia estima-se que existam 200.000 albinos. Visitando Ukewere, se percebe isto claramente.

Mas porquê esta comunidade buscou um lugar tão isolado? Por uma razão simples e trágica. Por mais difícil que seja para acreditar, em

pleno Século XXI, albinos estão sendo mortos para ter partes de seus corpos utilizados em rituais de magia negra. Na vizinha RDC, curandeiros locais pagam até 2 mil dólares por crianças albinas, criando um tráfico dantesco. Histórias tenebrosas são contadas, sobre albinos que foram atacados e tiveram as mãos amputadas no meio da rua por bandidos, que as levaram como se estivessem a roubar um telefone celular ou uma carteira. Hoje, felizmente já há um forte movimento na Tanzânia e nos países vizinhos para que esta prática aterradora tenha fim; pelo menos 7 assassinos de albinos foram condenados à morte nos últimos anos. Porém, notícias de desaparecimentos, sequestros e assassinatos de albinos ainda são mais comuns do que todos gostariam de ouvir. Nos últimos anos, a Tanzânia tem apresentado uma transição política positiva e índices de desenvolvimento animadores. Mwanza, a segunda maior cidade do país e principal porto do Lago Victória, é a metrópole mais próxima de Ukewere, e a comunidade albina tem sido melhor protegida pela polícia, mas ainda há muito o que fazer. Notícias animadoras para um povo que vive isolado, protegendo-se de seus próprios irmãos. Para quem já passa a vida fugindo do sol, preocupar-se com mais inimigos é ainda mais cruel.


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Sábado, 07 de Abril de 2012.

Vox Populi

O que dizem os internautas Dentre as várias reacções, num total de 50, que o assunto suscitou, o Semanário Angolense respiga alguns desses comentários extraídos na internet.

Ignorância mata! Yuri Simão, licenciado em Comunicação Social e especialista em Marketing Desportivo: «Depois do que vi ontem, no jogo Kabuscorp vs Libolo em futebol, nunca mais duvido da psicologia humana e dos africanos e suas crenças; o albino ou kilombo foi o motivo de uma “big” maka antes do jogo, a ignorância mata, ya !»

Insulto e discriminação Arlindo Capitango: «Um dirigente [Bento Kangamba] com este comportamento onde já se viu? Pelo que fez, deveria resultar num processo disciplinar lá no BP [ Bureaux Político] dos camaradas onde ele pertence. É isso que dá quando arrastamos qualquer (…) para ser colocado em lugares que não merecia. Esta cena deverá ir à tribunal e aí veremos o quanto valem tais tribunais... Isto foi um insulto monstruoso, discriminação da

condição física do indivíduo. Quem é que disse que ser-se albino é sinónimo de feitiçaria? O albino é igual a todos nós, a única diferença é que não tem a melanina que é o pigmento que dá a cor, de resto, são pessoas como nós, inteligentes e muito inteligentes».

Haja sensibilidade Rolando Serrote: «Não sejamos tão ignorantes, pois a única diferença é que os albinos carecem de pigmentação (melanina), portanto são seres humanos. Devemos saber viver, por mais que os gémeos se pareçam, eles são distintos. Haja sensibilidade. Leiam um pouco sobre as barbaridades contra os albinos em África, sobretudo, no Kénia e Mali.»

Absurdo Hélder Silva: «É mesmo um absurdo. Vi pessoas a comentar

à saída do estádio o seguinte: «aquele miúdo é soba na terra dele, no ano passado ele saiu do estádio, quando voltou começou a chover» (isso foi no jogo Libolo x Kabuscorp praticamente a final do campeonato passado, o Recreativo Libolo ganhou)».

Cidadão do piorio Argentino Domingos Sabino Chipuca: «É imperioso que as pessoas percebam que gente como esta conspurca e debota em tudo o que tocam. Normalmente não sou de tecer comentários inflamados. Mas o BK, sinceramente, conseguiu atirarme para este campo... Aquele cidadão é do piorio»...

Processo Judicial Maria do Céu Manuel: Meus caros, a única coisa que me deixa mais calma é saber que a pessoa que arranjou esta situação mostra ter distúrbios e isto só cura com profissio-

nais. Ele é uma anedota diária. Mais isto não quer dizer que um processo judicial o faria mal. Lugar de maluco é no hospício. Poderia até usar outro nome para ele mais infelizmente Se não é maluco é mesmo burro.

Indemnização Wango Cage: «A FAF precisa colocar fim a esta situação, porque racismo é crime. O KABUSCORP deve ficar dois jogos sem a sua claque e indemnizar ao jovem pelos danos morais»...

Contra a Constituição Argentino Chipuca: «É uma pena que em pleno século XXI ainda tenhamos “gente” que pense assim. E pior, contrariando a constituição... Também, vindo de quem vem, outra coisa não havíamos de esperar… Trogloditas. Era erradicar tal equipa do campeonato e ponto final, antes que tal veneno não se alastre no Palanca e deste para fora. Este é

um assunto sério a ser tido em conta pelas estruturas afins!»

Inquérito Cabingano Magalhães: «A FAF devia mover um inquérito de modos a punir severamente a equipa do Kabuscorp, pois, a situação configura-nos um caso flagrante de descriminação racial».

Libolo não evitou… Roberto Rob: « (…) está mesmo confuso, como é que o treinador e o presidente do Libolo estão bem vestidos de camisas e o albino só está de calção e camisola com uma bola no colo? na verdade, qual é o papel dele, ó e outra coisa, albino tem 100% sangue negro, não confundam a situação e , depois, por que é que a direcção do Libolo não evitou isso, já que tinha acontecido no encontro passado?...


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Capa Segundo um funcionário sénior da FAF

«Não é normal, os roupeiros sentarem-se no banco» Celso Malavoloneke Uma fonte da Federação Angolana de Futebol (FAF) confidenciou ao Semanário Angolense que órgão reitor do desporto-rei no país poderá tomar brevemente uma posição em relação aos incidentes registados no último domingo entres as equipas do Kabuscorp do Palanca e o Recreativo do Libolo. A fonte do Semanário Angolense, que pediu para não ser identificada, por, segundo ela, «não ser ético», garantiu, porém, que a FAF irá pronunciar-se «muito em breve sobre o assunto». «O Comissário do jogo é o nosso delegado, pelo que não seria elegante pronunciarmo-nos antes de apreciar o seu relatório», justificou. Segundo a fonte, tanto a FAF, como a FIBA-África e a própria FIFA têm se oposto frontalmente contra atitudes discriminatórias no futebol, e que o caso vertente «será levado até às últimas consequências». «Não devemos permitir que este caso constitua um precedente, pois conspurcaria irremediavelmente o nosso futebol», advertiu a fonte que temos vindo a citar. Questionada sobre se o jovem roupeiro tinha ou não direito em sentar-se no banco dos suplentes, a fonte deste jornal disse que «sim, desde que o seu nome constasse da lista entregue, antes do

início da partida, ao comissário do jogo». «Caso constasse dessa lista, ela não deveria ser retirado do banco, mas se não fizesse parte, a Kabuscorp teria toda a legitimidade para solicitar a sua saída», adicionou. Advertiu que não era normal, os roupeiros sentarem-se no banco dos suplentes, «porque o seu papel, em princípio, não é relevante durante a partida». Mas, avisou a fonte: «Nada impede os clubes de inscreverem quem quiserem quem melhor lhes aprouver. E ajunta: «Às vezes, eles fazem para honrar determinada pessoa ou, mesmo, ter no banco um dos filhos de um determinado jogador». Na linha de análise da fonte do SA, independentemente de ter sido ou não inscrito, a direcção do Libolo terá procurado tirar partido do facto de a maioria dos jogadores do Kabuscorp serem provenientes da RDC, um país no qual a questão dos albinos e de feitiçaria «tem estado intimamente ligadas. A fonte do SA, que esteve presente no jogo entre ambos os clubes no ano passado, notou que o jovem albino fez-se igualmente presente naquela partida. «Julgo que o Libolo procurou capitalizar este factor a seu favor, e isto será certamente levado em linha de conta quando a FAF proceder à análise dos factos», disse.

Não é preciso correr tanto!...

Oloya kwébi, Bento Kangamba?! Celso Malavoloneke

E

aqui chegados, na hora de contar as espingardas, parece não haver dúvidas que Bento Kangamba candidata-se a «perigo público número um» nestas terras de Ngola Kiluanji kiá Samba – Angola – tal é a sua capacidade em arranjar broncas que podem incendiar o país. Membro do Comité Central do partido no poder, parente por casamento de uma família nobre, dono de muita massa que espalha a bel-prazer, o homem é também o mesmo que terá se dado ao luxo de recrutar «milícias», cuja brutalidade deixou a Nação estarrecida, a acreditar nos líderes das manifestações. Segundo os manifestantes, ele terá tentado também, contra todas as regras de ética, subornar com 27.000 dólares jovens manifestantes, cuja razão de revindicação está na cara de toda a gente. O mesmo homem cuja claque de arruaceiros – o viveiro dos «kaênches»? – acaba de protagonizar o primeiro caso de discriminação racial no desporto da Angola independente; um incidente que já anda na média internacional e que pode levar a FAF a prestar explicações à FIFA, que, como se sabe, não brinca nestas coisas. O facto de agora fazer parte dessa família nobre, aliado à obtenção de dinheiros de origem obscura, cuja fonte parece inesgotável, o homem ter-se-á convencido que está a gozar de uma certa impunidade, que pode ser considerada perigosa para quem, como ele, parece não ter noção de limites. A autoridade dos pelouros onde ele se intromete deixam-no em paz não vá o Diabo tecê-las. Ou, por outra, seja por ele, seja pela esposa mandar um sopro ao ouvido do «Chefe» que lhes custe o «mbongue». E escudado nisso, o homem vai fazendo das suas perante a complacência silenciosa de quem tem a obrigação de pôr-lhe um travão… Se não lhe for posto tal travão, o homem poderá despoletar um Armageddon e implodir Luanda, senão mesmo o País. Ele não sabe, mas põe o país a correr o risco de ter um cenário igual ao da África Oriental,

com todas as consequências que isso possa acarretar para Angola, apenas com dez anos de paz e com os ânimos já exaltados pela lazarice a que quase dois terços da população estão sujeita. Por outro lado, deve-se também chamar a atenção à tremenda irresponsabilidade de Rui Campos e Zeca Amaral, respectivamente, presidente e técnico principal do Recreativo do Libolo, pelos seguintes motivos: primeiro, por abusarem de um jovem vulnerável que precisa de ganhar o seu pão, fazendo-o passar deliberadamente por «feiticeiro»; depois, pelo uso de factores estranhos à prática do futebol, desvirtuando a verdade desportiva, por, deliberadamente, introduzirem no campo um elemento perturbador das mentes dos adversários, não importa se boa ou má; e, finalmente, por nem sequer, ao que parece, terem inscrito o nome do jovem na lista da delegação ao jogo. A FAF deverá investigar cuidadosamente este triste episódio. Para além de falta gritante de fair play, o Libolo foi a génese de um problema que Angola, felizmente não tem. É que o Libolo quis fazer passar a imagem que em Angola os albinos são feiticeiros, e fez isso em pleno estádio da Cidadela a abarrotar pelas costuras, com cobertura mediática nacional e internacional. Fez isso apenas para ganhar um jogo, quando

noutros países lutam para derrubar o estigma que já chegou a atingir proporções dantescas de desastres nacionais. A irresponsabilidade deste clube é sem paralelo. Como se sentirão se, neste país, começarse a cortar as mãos na rua aos albinos para ir vendê-las por 2000 dólares na RDC, como acontece na Tanzânia, Uganda, Burundi ou no Ruanda? Só para ganhar um jogo A FAF deve cortar esse mal pela raiz, arreando o «pau» em cima dos prevaricadores. Arreando feio! Por junto e atacado, todos os interveniente estiveram mal na fotografia. Se é verdade que Bento Kangamba agiu igual a si mesmo – na arruaça que o seu «tio» o PR condenou ainda esta semana no Luena – não é menos verdade que a direcção do Libolo foi e ainda é a responsável primária por este repugnante episódio. O jovem albino – que parece chamar-se Diogo – não é nada mais, nada mesmo que uma infeliz vítima. Talvez, seja tempo de pensarmos, sem tabus e sem paternalismos numa legislação que proteja os albinos angolanos deste e outro tipo de situações. P. S. – Para quem não saiba, «Oloya Kwébi?» é kimbundu; significa «Quo Vadis?» em latim. – pensei assim: é melhor perguntar-lhe em kimbundu, o que em português significa «Onde Vais, Bento Kangamba…?»


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O que é albinismo? O

albinismo (do termo em latim albus, «branco»; também chamado de acromia, acromasia ou acromatose) é um distúrbio congénito caracterizado pela ausência completa ou parcial de pigmento na pele, cabelos e olhos, devido à ausência ou defeito de uma enzima envolvida na produção de melanina. O albinismo resulta de uma herança de alelos de gene recessivo e é conhecido por afectar todos os vertebrados, incluindo seres humanos. O termo mais comum usado para um organismo afectado por albinismo é «albino». O albinismo é associado a uma série de defeitos de visão, como fotofobia, nistagmo e astigmatismo. A falta de pigmentação da pele faz com que o organismo fique mais susceptível a queimaduras solares e ao câncer de pele.

rosado. Sofrem de transtornos visuais, fotofobia, movimento involuntário dos olhos (nistagmus) ou estrabismo e, em casos mais severos, podem chegar à cegueira. A exposição ao sol não produz o bronzeamento, além de causar queimaduras de graus variados. No albinismo ocular, uma versão menos severa deste transtorno, apenas os olhos são afectados. Nesta variedade do albinismo a cor da íris pode variar de azul a verde e, em alguns casos, castanho-claro - e cuja detecção se dá mediante exame médico. Nestes casos a fóvea (responsável pela acuidade visual, no olho) tende a desenvolver-se menos, pela falta da melanina, que cumpre um papel central no desenvolvimento do olho, nos fetos.

Os filhos da lua

Conceito

O albinismo é uma condição de natureza genética em que há um defeito na produção pelo organismo de melanina. Este defeito é a causa de uma ausência parcial ou total da pigmentação dos olhos, pele e pêlos do animal afectado. Aparecem também equivalentes do albinismo nos vegetais, em que faltam alguns compostos corantes, como o caroteno. É uma condição hereditária que aparece com a combinação de genes que são recessivos nos pais.[1] Os principais tipos de albinismo são os seguintes: 1.Oculocutâneo (completo ou total) - em que todo o corpo é afectado; •2.Ocular - somente os olhos sofrem da despigmentação; 3.Parcial - o organismo produz melanina (ou corantes, se no vegetal) na maior parte do corpo, mas em outras partes isto não ocorre como, por exemplo, nas extremidades superiores. Uma pintura do século XIX, onde família é exibida como uma curiosidade popular. Garota albina em Papua-Nova Guiné. Nos indivíduos comuns/médios o organismo transforma um aminoácido chamado tirosina na substância conhecida por melanina. Para que haja produção de melanina devem ocorrer uma série de reacções enzimáticas (metabolismo) por meio dos quais se opera a transformação do aminoácido Y (chamado tyr)

em melanina, por intermédio da acção da enzima tirosinase. Os indivíduos que padecem de albinismo têm este caminho metabólico interrompido, já que sua enzima tirosinase não apresenta nenhuma actividade (ou esta é tão pequena que é insuficiente), de modo que a transformação não ocorre e tais indivíduos ficarão sem pigmentação. Papel da melanina, transmissão e graus de albinismo A melanina se distribui por todo o corpo, dando cor e protecção à pele, cabelos e à íris dos olhos. Quando o corpo é incapaz de produzir esta substância, ou de distribuí-la por todo o

soma, ocorre a hipo pigmentação, conhecida por albinismo. O albinismo é hereditário, e transmite-se de três formas distintas: 1.Autossómica recessiva; 2.Autossómica dominante, e 3.Ligado ao cromossomo X, quando afecta apenas indivíduos do sexo masculino. O albinismo completo se apresenta quando a carência da substância corante se percebe na pele, no cabelo e nos olhos, sendo conhecido como albinismo oculo-cutâneo ou tiroxinase-negativo. Estes indivíduos apresentam a pele e os pêlos de cores branca, e os olhos de tom

Os albinos sofrem consequências devido à falta de protecção contra a luz solar, especialmente na pele e nos olhos. Assim muitos preferem a noite para desenvolverem as suas actividades, daí o nome filhos da lua. Muitos albinos humanos sofrem dificuldades de adaptação social e emocional. Outras doenças associadas à falta de melanina •Síndrome de Waardenberg: é um transtorno que se apresenta como uma mecha de pêlos que crescem sem pigmentação na parte frontal da cabeça, ou pela ausência de pigmentação numa das íris. •Síndrome de Chediak-Higashi: falta parcial da pigmentação na pele, associado a alte-

rações imunológicas celulares, tendo tendência a criar graves infecções sistémicas. •Esclerose tuberosa: pequenas áreas localizadas com despigmentação. •Síndrome de HermanskyPudiak: albinismo generalizado, associado com problemas sangüíneos, pulmonares e intestinais.

Albinismo animal Os animais albinos, via de regra, não sobrevivem por muito tempo em seu meio natural em virtude de sua debilidade ante os raios solares e ainda porque sua falta de coloração os delata facilmente, quer para suas presas, quer para seus predadores. Deve-se diferenciar, porém, os animais albinos daqueles que possuem a coloração branca (ou leucísticos). Comumente são vendidos animais como albinos quando na realidade trata-se de animais de pelagem branca mas que ainda assim possuem melanina em seu organismo, como ocorre aos ursos do Árctico. A vida em cativeiro dos animais albinos é, sem dúvida, a única forma de manter a sua sobrevivência. Por sua beleza e raridade, tornam-se atracção em alguns zoológicos do mundo, como os seguintes: •O gorila chamado Copito de Nieve (Floquinho de Neve), único albino conhecido de sua espécie, que vivia no Zoológico de Barcelona, até sua morte causada por cancro de pele em 24 de Novembro de 2003. Viveu por 40 anos, e nascera na Guiné Equatorial. •No zoológico de Barranquilla (Colômbia) vive um espécime de macaco-aranha albino, da espécie Ateles ater, conhecida popularmente pelo nome de Marimonda. •Mecky Way, um ouriço criado em liberdade, na Alemanha. •Snowdrop, um pingüim sulafricano albino, que vivia no zoológico de Bristol (Reino Unido) até à sua morte em Agosto de 2004. Era um dos quatro casos documentados de albinismo nesta espécie. •Os espectaculares pavões reais albinos dos zoológicos de Connecticut (Estados Unidos) e Lahore (Paquistão), Cangurú, nascido no zoológico de Brasília(Brasil). •Mince, uma cobra albina de 2 cabeças, que foi vista numa exposição de animais exóticos na Suíça. •Fonte: Wikipédia


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Opinião

Eu como Ministro da Cultura (?!) C

heguei esta semana a Angola, onde fui recebido com a notícia de que havia sido escolhido para ser Ministro da Cultura num governo imaginário que estaria a ser criado pela CASA, o ajuntamento que vai se aglomerando à volta do antigo dirigente da UNITA, Abel Chivukuvuku. Certas pessoas, fazendo troça de mim, vão dizendo que o valor do Ministério da Cultura é quase nulo, já que é um pelouro no qual não há muitas oportunidades para roubar. Outros disseram-me que este departamento ministerial seria mesmo o ideal para mim – uma vez que sempre me preocupei com a questão da cultura e identidade. Devo dizer desde já que não sou da CASA. Continuou a ser da UNITA. Mas desejo ao meu mano Abel muito boa sorte e espero que tenha sempre acesso a ele sem problemas de maior. Os argumentos que me foram colocados, pondo em causa a liderança de Isaías Samakuva, não me convenceram. Acredito que os militantes da UNITA vão ter de apoiar a actual liderança do partido, para a eventual implementação dos seus programas. Voltemos, porém, à questão da tal nomeação minha a um cargo ministerial no tal governo imaginário da CASA. Não é a primeira vez que o meu nome surge numa lista de um virtual governo de Angola. Na Internet, já houve alguém que veio com uma lista na qual eu figurava como Secretario de Estado para os Negócios Estrangeiros. (Sim, Secretario de Estado e não Ministro…). A todos que fazem esse tipo de especulações, só tenho é de agradecer por notarem em mim certas qualidades de liderança. A realidade, no entanto, complexa. Aos 46 anos, sei exactamente quais as minhas qualidades e quais as minhas fraquezas. E tudo me dá a entender que não seria um bom ministro. Primeiro, porque a única unidade na vida que já liderei (e continuo a liderar) é a minha casa, sendo que a minha esposa talvez possa surgir com um calhamaço a enumerar as minhas falhas. Reconheço o facto de que escrever, apresentar argumentos,

formar opiniões e criticar certas convenções representa uma espécie de liderança. Este tipo de liderança interessa-me mais. Embora, na escrita, adore o confronto de ideias e debates, não gosto de confrontações ao vivo com quem quer que seja. Uma outra grande fraqueza que tenho é que não sou efectivo quando trabalho em equipas. Por não gostar de confrontações individuais, quando estou a operar num grupo, prefiro ser mais discreto. Isto significa que, posto num ministério, não seria muito útil. Sinto que sempre serei mais útil a contribuir para o debate sobre o estado de vários aspectos da nossa nação. Existe, em África, o culto do ministro. Em muitos países africanos, os ministros até não possuem poder real algum. Ao fim do dia, vários ministérios passam a ser nada mais do que estruturas burocráticas, com muito pouco valor. De tanto valorizarem os ministérios, muitas vezes os países africanos passam a ter uma cultura em que as inovações não vão ao leme. Há muitos africanos com ideias inovadoras que são permanentemente ignorados. Isto é devido, em

parte, ao facto da estratégia principal de muitos governos africanos ser a preservação do poder. Um Ministério da Cultura não opera de uma forma isolada. Onde, em geral, não se valoriza a cultura, é impossível esperar um Ministério de Cultura que possa introduzir novas ideias. Eu sinto em Angola que, ao enfrentarmos a globalização, precisamos de estruturas que encorajem o espírito inovador na base da vitalidade de ideias e não necessariamente na da afiliação partidária. Vejamos, por exemplo, a questão do turismo e a própria promoção de Angola. Recentemente, na Youtube, houve um clipe em que a vários americanos era perguntado sobre que países africanos conheciam. A maioria citou a África do Sul e o Quénia; quase nenhum deles já tinha ouvido falar de Angola. Muitos americanos tinham ouvido falar do Quénia, em parte, porque vários filmes, que acabam em Hollywood, são feitos por lá. Ocorreu-me então a ideia de tentar promover Angola através do cinema. Angola tem florestas, savanas e mesmo desertos; há, no

nosso país, paisagens maravilhosas. Vender a imagem de Angola através desta estratégia requereria o uso de mentes que fossem altamente criativas. Que tal se personalidades de vários sectores (não só dos comités de especialidade) fossem para um retiro à beira do rio Keve por uma semana para sessões sérias de brainstorming, com o propósito de contemplarem formas de vender Angola ao mundo? Sinto profundamente que o que um país como Angola precisa é o que o escritor trinitário VS Naipaul descreve como «The life of the mind» ou «A vida da mente». Em termos da cultura angolana, sou mais útil estando num canto onde possa animar o debate sobre a nossa identidade. Temos, por exemplo, a questão, que me preocupa bastante, do menosprezo profundo que certas pessoas das elites angolanas têm pelas nossas línguas nacionais. Estou a escrever isto aqui em Angola – em Luanda precisamente. Estive recentemente com um jovem, vindo do Huambo, a quem, quando viajávamos de carro, tive que traduzir as canções do Justi-

no Handanga. A certo momento, ele me disse que o tem visto no Huambo – na alta e que a gente do bairro gosta muito da música dele. O jovem em questão gostava, eu soube, da música do Jay-Z e da Lady Gaga. Ele sabia as líricas das canções destes artistas, mas fui eu, que vivi quase toda minha vida fora de Angola, que tive de lhe explicar o sentido da canção do Handanga, na qual alguém se queixa que tem que fazer trabalho duro no Huambo em competição com trabalhadores chineses. Eu, que vivo nos Estados Unidos, é que tive que dar a este jovem uma palestra sobre a importância da música de Handanga, uma pessoa que, segundo me disse, ele tem visto perto de uma padaria lá no Huambo. A um certo momento o jovem foi honesto: disse-me que ignorava a música de Handanga para evitar que as pessoas pensassem que ele não era sofisticado. Para ele, saber líricas da música do Jay-Z é marca de sofisticação? Um órgão crucial da transmissão e celebração da cultura é a televisão. Nos Estados Unidos, tentamos acompanhar a cultura angolana através da Youtube, onde há muitos clipes saídos da Televisão Publica de Angola. Este, por exemplo, é um sector da cultura sobre o qual sempre me preocuparei. Há, por exemplo, o estereótipo do angolano – como sendo alguém obcecado com festas, desejos carnais e um certo materialismo crasso – que é, muitas vezes, promovido pela TPA. A diversidade da interessantíssima cultura angolana não é, muitas vezes, divulgada. Tem mesmo de haver uma pressão colectiva para que os meios de comunicação massiva reflectam a nossa cultura. Mas isto significa que vamos que fazer esforços de aproximar a mesma cultura. Isto significa que teremos que de nos desfazer o hábito de deixar estrangeiros para que, depois de serem bem pagos, claro, nos transmitam uma Angola virtual, ilusória. Teremos que fazer tudo para chamar a atenção ao facto de que o país está pagar caro pela sua própria alienação. Esforços para combater isto teriam muito mais valor do que eu ser um Ministro da Cultura.


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Setor aeroespacial é motor de desenvolvimento em Marrocos Daniel Michaels The Wall Street Journal, de Casablanca, Marrocos Nassima Boukhriss nunca pôs os pés em um avião, mas em breve ela estará ajudando a montar a fiação dos jatos mais avançados do mundo. A estudante de uma escola técnica, de 22 anos, está participando de um dos mais ambiciosos projetos de desenvolvimento econômico do Norte da África: iniciar uma indústria aeroespacial. Em todo o Marrocos, milhões de pessoas não têm trabalho, acesso à educação básica ou até mesmo à água ou saneamento. O setor manufatureiro continua sendo uma pequena parte da economia em comparação com a agricultura e o turismo. A indústria têxtil, que não exige mão de obra qualificada, é um dos maiores setores. No entanto, nos últimos dez anos, a americana Boeing Co., a francesa Safran SA e outras companhias líderes da industrial mundial da aviação vêm construído fábricas cada vez mais sofisticadas neste reino. Enquanto revoluções varriam os países vizinhos no ano passado, as gigantes aeroespaciais United Technologies Corp. e Bombardier Inc. anunciavam investimentos de mais de US$ 200 milhões em novas fábricas marroquinas. Para garantir que o país tenha mão de obra qualificada, o governo e um grupo setorial abriu em maio o Instituto Aeroespacial Marroquino, ou IAM, a escola técnica que Boukhriss frequenta. O resultado é que a indústria da aviação emprega hoje quase 10.000 marroquinos que ganham uns 15% a mais que o salário médio do país, de cerca de US$ 320. As autoridades marroquinas estão apostando que, com a entrada em setores manufatureiros mais avançados como o aeroespacial e eletrônico, o país também pode atrair indústrias mais básicas. “Quando você tem sucesso na indústria aeroespacial, pode ter sucesso em outras indústrias”, disse Hamid El-Benbrahim Anda-

jesse neider

Linha de montagem da Matis, empresa marroquina que prepara fiação para gigantes da aviação comercial

loussi, presidente da entidade que representa o setor aeroespacial de Marrocos, a Gimas. Isso ainda não aconteceu. A participação do setor manufatureiro na economia de Marrocos na verdade diminuiu nos últimos dez anos. O desemprego do país chega a cerca de 30% tanto entre jovens quanto pessoas com alta educação — os mesmos grupos que ajudaram a liderar as revoltas no Egito e na Tunísia. As revoluções da Primavera Árabe puseram nova urgência em provar que a aposta de Marrocos no setor aeroespacial pode dar resultados. O rei Mohammed VI conseguiu em março passado neutralizar protestos, oferecendo uma constituição mais democrática e novas eleições, que ocorreram de forma pacífica, em novembro. Mas, para manter a paz em Marrocos, dizem os analistas, deve criar emprego. “A taxa de desemprego está no coração do que está ocorrendo na região”, diz Karim Belayachi, especialista em desenvolvimento do setor privado do Banco Mundial. Os esforços de Marrocos para incentivar a aeronáutica comercial são bastante raros entre economias em desenvolvimento.

Brasil, Indonésia e África do Sul desenvolveram, no século passado, empresas aeroespaciais militares, mas apenas a Empresa Brasileira de Aeronáutica SA, a Embraer, agora privatizada, teve sucesso ao mudar-se para a fabricação de aviões de passageiros. Hoje, ela é uma das principais empresas do país. O México recentemente atraiu fabricantes de componentes aeroespaciais, mas eles continuam a ser uma pequena parte da economia local. Muito mais países se expandiram com investimentos em tecnologia e no setor automobilístico, como Marrocos também está tentando. Taiwan, Coreia do Sul e Eslováquia, por exemplo, contaram com investimentos estrangeiros ou patrocinados pelo Estado, mesclados ao empreendedorismo local, para o crescimento econômico. Mas esses países promoveram climas regulatórios mais amigáveis a empresas novatas que o existente em Marrocos e contavam com mão de obra qualificada. A educação em Marrocos é inferior a de seus pares econômicos, de acordo com o Banco Mundial. O desenvolvimento aeroespacial de Marrocos começou em 1999

com um empurrão de Benbrahim, da Gimas, que era então um alto executivo da Royal Air Maroc, uma cliente da Boeing de longa data. Ele e outros funcionários da companhia aérea nacional pediram à gigante americana que investisse em Marrocos como um sinal de boa fé. “Houve uma oposição interna na Boeing”, de executivos que consideravam o investimento desnecessário, lembra Seddik Belyamani, um marroquino que na época era um dos principais vendedores de aviões da Boeing. Mas a conexão marroquina e um desejo de ganhar vantagem sobre a rival Airbus prevaleceram. A Boeing, a companhia aérea, e a fabricante francesa de fiação elétrica Labinal SA abriram em 2001 uma pequena empresa para preparar fios para os jatos Boeing 737, chamada Matis. A equipe cuidadosamente preparava feixes de fios elétricos e os enviava para as fábricas da Boeing nos EUA para instalação. O trabalho de mão de obra intensiva não exigia nenhum conhecimento técnico, ainda assim os gerentes da Boeing inicialmente não esperavam alcançar eficiência de apenas

30% das normas do setor. Para sua surpresa, a equipe alcançou 70% de eficiência dentro de dois anos, lembra Belyamani, que se aposentou da Boeing em 2002 e recentemente foi nomeado presidente da Matis. Os resultados impressionaram os executivos da Labinal, que em 2000 havia sido adquirida pelo grupo aeroespacial francês que hoje se chama Safran. Os gerentes viram que, à medida que a Matis crescia, vagas de emprego atraíam candidatos altamente qualificados. Mais de 80% são mulheres, que têm oportunidades limitadas de emprego nas indústrias tradicionais. O único estrangeiro entre os 700 funcionários da Matis hoje é o gerente geral francês, Sébastien Jaulerry, que anteriormente trabalhou para a Labinal nos EUA e na França. Andando pela impecável fábrica recentemente, ele disse que os funcionários alcançaram “exatamente o mesmo padrão” de qualidade que suas fábricas anteriores . A equipe da Matis prepara fios não só para a Boeing, mas também para motores da General Electric Co., para jatos executivos da Dassault Aviation SA e até aviões Airbus. Incentivada pelos resultados da Matis, a Safran expandiu-se em mais de manufatura avançada Hoje, o governo marroquino destaca o setor aeroespacial como um sucesso dentro do projeto mais amplo de modernização econômica do país. Os executivos de empresas que investem no país veem um sinal de esperança na criação da IAM, a escola técnica, que vai formar centenas de estudantes anualmente. O centro é uma parceria entre o governo, que contribuiu com infraestrutura, e do grupo setorial, o Gimas. Seus membros organizam e patrocinam o treinamento, que segue as normas francesas, para suas novas contratações. “É uma grande oportunidade porque aprendemos habilidades altamente técnicas em eletrônica”, disse Boukhriss, a aluna de 22 anos.


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The Wall Street Journal

Chrysler prepara nova linha Jeep para os mercados globais Jeff Bennett The Wall Street Journal A Chrysler Group LLC logo começará a construir uma das fábricas mais inusitadas de seus 86 anos de história. Localizada em São Petersburgo, na Rússia, não muito longe do antigo palácio de verão dos czares, a fábrica vai montar Jeeps, o veículo de tração nas quatro rodas que o exército dos Estados Unidos tornou famoso na Segunda Guerra Mundial. A força motriz por trás do negócio? Não é a Chrysler propriamente dita, mas a italiana Fiat SpA, que é a controladora da montadora americana. O dia 30 de abril marcará o aniversário de três anos do resgate da Chrysler pelo governo americano, uma provação da qual muitos acreditavam que a montadora não conseguiria sair viva. Hoje, o plano de construir a fábrica na Rússia desponta como um símbolo do longo caminho que a Chrysler percorreu — e da nova fabricante de automóveis que o diretor-presidente Sergio Marchionne está tentando criar. “A Jeep tem potencial como uma marca mundial por causa do seu DNA único”, disse Marchionne, que antes havia escolhido o Jeep Grand Cherokee como a base para um utilitário Maserati a ser fabricado em Detroit, nos EUA. Uma identidade diferenciada dá a ela “a tração necessária para tornar-se uma marca mundial”. Enquanto a maioria das suas concorrentes está atrelando seu futuro a um mundo de carros pequenos, a Chrysler agora enxerga um Jeep em cada garagem. Ele pode ser um carro de luxo para moscovitas ricos e empresários de Pequim viajarem com estilo, um veículo para transportar famílias numerosas por estradas esburacadas da Índia, ou ainda para carregar mercadorias no Brasil. A habilidade para fabricar e comercializar Jeeps mundialmente será central para essa visão. Em fevereiro, a Fiat, que já vende veículos na Rússia como o Fiat 500, propôs uma sociedade de US$ 1,1 bilhão com um banco estatal para produzir 120.000 Jeeps por ano em São Petersburgo. Um acordo final entre a Chrysler e o OAO Sberbank deve ser assinado até julho. Ele prevê que os Jeeps poderiam ser feitos numa segunda fábrica de Moscou, que foi reformada e antigamente fazia limusines para a elite do Partido Comunista. Ao mesmo tempo, Marchionne está tentando abrir as portas da China para a Chrysler. A Fiat e a Guangzhou Auto Group estão em marcha para abrir uma fábrica em julho que inicialmente terá capacidade para produzir 140.000 carros Fiat e 220.000 motores por ano. A Chrysler poderia fazer Jeeps naquela fábrica ou formar uma sociedade separada e montá-los em outro lugar, disse Mike Manley, diretor-executivo da marca

Associated Press

: Linha de montagem da Jeep em 42 na fábrica original da Willy-Overland. Modelos novos serão feitos na Rússia também

Jeep e diretor de operações da FiatChrysler para a Ásia e Oceania. A velha estratégia de fabricar veículos para os consumidores americanos e exportá-los não funcionou, disse ele. “Nós somos um fabricante de marcas americanas, mas estamos muito interessados em adaptar esses veículos às exigências regionais”, disse Manley, que tem 48 anos. A Jeep ainda tem desafios a superar, à medida que tenta se reconectar com clientes potenciais num mercado dominado agora por marcas como a Lexus, da Toyota Motor Corp., e os modelos X5 e X3, da BMW AG. Estes têm conseguido se manter na liderança do mercado de utilitários de luxo, enquanto a Jeep teve dificuldades sob

a liderança de seus antigos donos. Em 2011, a Chrysler vendeu 1,86 milhão de veículos no mundo todo, mas 1,6 milhão deles, ou 86%, foram vendidos nos EUA e Canadá. Logo depois que a Fiat assumiu o controle da Chrysler, seus diretores decidiram que a Jeep, devido à sua história e o seu nome mundialmente reconhecido, era a que tinha o maior potencial para se expandir e conquistar novos clientes, nos 120 países onde a Fiat já está presente. Marchionne deu à companhia ordens expressas para aumentar as vendas anuais de Jeeps para mais de 800.000 veículos em 2014. Isso seria o maior número de Jeeps vendidos pela Chrysler em um ano nas últimas

duas décadas. A Jeep se tornará a principal marca da Chrysler comercializada mundialmente: “O portfólio de produtos da Jeep é muito mais adequado para os mercados internacionais” que as outras marcas da Chrysler, disse Manley. A história dos Jeeps data de 1941, quando, em Toledo, no Estado de Ohio, a Willys-Overland começou a fabricar veículos robustos de tração nas quatro rodas para o exército americano. Depois que a guerra acabou, modelos civis foram adicionados. Em 1987, a Jeep já pertencia à Chrysler e ajudou a impulsionar o boom de utilitários esportivos dos anos 90.

Hoje, a Jeep ainda tem muitos adeptos nos EUA, mas suas vendas internacionais são limitadas. Os Jeeps, como qualquer outro veículo produzido nos EUA, estão sujeitos a pesados impostos em certos mercados. Na Rússia, os impostos chegam a aumentar em US$ 22.000 o preço de venda de um Jeep, enquanto na China o acréscimo chega a US$ 37.000. “O preço dos meus Jeeps em relação a outros utilitários é alto e isso restringe meu volume”, disse Manley. Dmitry Gulyaev, que opera um website russo para donos de Jeeps, disse que a popularidade do veículo enfraqueceu na Rússia à medida que seu preço relativo disparava. “Nos anos 90, foi o Jeep que começou a coisa toda. Não é por acaso que chamamos todos os utilitários de jipe [‘dzhip’em russo]”, disse Gulyaev, de 40 anos. “Agora, a marca Jeep não está indo bem, principalmente por causa do preço. Um Jeep Grand Cherokee custa 2,5 milhões de rublos (US$ 86.000). Mas, a esse preço, ele está competindo com o Land Rover e todo o [luxo] dos utilitários japoneses”, disse ele. Manley está planejando reformar o portfólio da Jeep, alargando-o com a inclusão de modelos menores e veículos resistentes e, ao mesmo tempo, cortando as redundâncias de modelos de preço médio. No final, disse Manley, teremos seis modelos Jeep, com designs novos, que ele pode direcionar para mercados diferentes ao redor do mundo. Eles terão uma aparência mais moderna e elegante, mas ainda farão lembrar o icônico modelo ancestral Jeep. (Contribuiu Olga Padorina.)

Fabricante do BlackBerry considera colocar-se à venda Will Connors, Anupreeta Das e Gina Chon The Wall Street Journal O novo diretor-presidente da canadense Research In Motion Ltd. enfrenta duas opções amargas: tentar fazer uma arrojada reviravolta na fabricante do BlackBerry, atualmente em dificuldades, ou encontrar um comprador. A RIM informou que as vendas do BlackBerry caíram bastante no último trimestre mais recente, levando ao primeiro declínio nas receitas da empresa em sete anos. A taxa de crescimento de sua base de assinantes em relação ao trimestre anterior também teve uma baixa recorde de 3%. E dois dos principais executivos da RIM se demitiram, deixando o alto comando mais desfalcado do que nunca. Em meio a essa agitação, o moral dos funcionários vem se abatendo, segundo executivos de dentro e de fora da empresa. Em um encontro para jantar realizado

em fevereiro entre o diretor de tecnologia da RIM, David Yach, um dos que se demitiram na quinta-feira, e diretores de informática de várias empresas e agências do governo americano, incluindo o Departamento de Defesa, o estado de espírito do lado da RIM era sombrio, segundo uma pessoa que participou do jantar. “Foi como ir a um velório”, disse essa pessoa. Uma porta-voz da RIM confirmou que Yach esteve nesse jantar, mas disse que não podia confirmar detalhes. O tumulto aumentou a pressão sobre o novo diretor-presidente da RIM, Thorsten Heins, para executar com perfeição o que será o mais importante lançamento da empresa: o novo sistema operacional BlackBerry 10. Heins disse, na quinta-feira, que a RIM ainda planeja lançar novos smartphones BlackBerry este ano. Mas a RIM também comunicou que estava realizando uma “revisão completa de oportunidades estratégicas”. Indagado

especificamente sobre uma venda da empresa, Heins não descartou a possibilidade. A RIM ainda não procurou ativamente consultoria financeira sobre suas opções e talvez não tome o caminho de uma venda, segundo pessoas a par dos planos da empresa. A disposição de Heins de considerar um leque de opções maior do que fizeram seus antecessores deu um impulso à ação da RIM, que subiu 7%, para US$ 14,70, sexta-feira. Falando a funcionários da RIM na sexta de manhã, Heins disse que a empresa seria comandada como um navio “mais enxuto” daqui para a frente, mas não alertou para a possibilidade de mais demissões, segundo uma pessoa a par do assunto. Heins ainda não nomeou um diretor de marketing, um dos seus primeiros compromissos depois de suceder, no início do ano, a Jim Balsillie e Mike Lazaridis, que dividiam a presidência executiva.

Na atual fase de grandes dificuldades, ele também precisará recrutar outros executivos para preencher os cargos de diretor técnico e diretor de operações. Por menores que pareçam as chances de uma reviravolta, vender a empresa não é certeza. O valor de mercado da RIM é superior a US$ 7 bilhões — um negócio muito vultoso para qualquer comprador. Alguns banqueiros disseram que haveria poucos compradores para a empresa inteira por esse preço. A exceção seria para gigantes como a Microsoft Corp. ou a Nokia Corp. No ano passado, ambas exploraram a possibilidade de uma proposta conjunta de aquisição da RIM, segundo pessoas a par do assunto, mas essas conversas foram preliminares e não levaram a uma oferta. A Nokia adotou o sistema operacional da Microsoft para seus smartphones mais recentes. Em vista dessa forte parceria, as duas poderiam oferecer


25 The Wall Street Journal Sábado, 07 de Abril de 2012.

Um brasileiro tenta dar novo gás à Budweiser nos EUA Anheuser-Busch InBev

Mike Esterl The Wall Street Journal, de St. Louis, Missouri Luiz Edmond tem uma tarefa importante na maior cervejaria do mundo: convencer os americanos a parar de abandonar as cervejas da empresa. O presidente das operações norteamericanas da InBev AnheuserBusch NV está liderando uma campanha para reconquistar a lealdade dos consumidores às suas marcas, entre elas a Bud Light e a Budweiser, que ocupam, respectivamente, o primeiro e o terceiro lugar entre as cervejas mais vendidas do país. O problema é que elas estão perdendo consumidores para cervejarias menores ou para bebidas destiladas. Este ano, a Anheuser planeja lançar 19 novos produtos nos Estados Unidos, na maior campanha do tipo desde que a InBev, que tem sede na Bélgica e é administrada por brasileiros, adquiriu a Anheuser-Busch, que tem sede em St. Louis, por US$ 52 bilhões em 2008. Os novos produtos incluem pequenos lotes de cervejas “artesanais”, sidra e uma linha mais ampla de bebidas à base de malte que se inspiram mais em tequila e chá que em cerveja. Entre outras estratégias que estão sendo adotadas por Edmond para atrair mais consumidores está um aumento do teor de álcool da cerveja “light”. Além disso, ele quer reforçar em seu marketing a associação da marca Budweiser com os icônicos cavalos da raça Clydesdale, que fazem parte da história da cervejaria e trabalhar com distribuidores que passaram a vender marcas rivais. As margens operacionais da Anheuser na América do norte subiram de 30% em 2008 para mais de 40% agora. Mas as vendas da empresa resultante da fusão nos EUA vêm caindo por três anos consecutivos, descendo no ano passado a menos de 100 milhões de barris de 117 litros, pela

Luiz Edmond espera que a recuperação da economia faça antigos consumidores voltarem a tomar Bud

primeira vez desde 2000. Depois da queda de 3,2% do ano passado nas vendas, a participação da Anheuser no mercado de cerveja dos EUA encolheu de 48,9% em 2008 para 46,9%, de acordo com Insights Marketer Beer, empresa que presta serviços de dados e tem uma publicação sobre o setor. O brasileiro Edmond não está seguro de que a empresa vá vender mais cerveja nos EUA este ano. Mas tem esperanças de que a recuperação econômica do país está finalmente alcançando os jovens consumidores do sexo masculino de baixa renda que há muito tempo são os principais clientes da Anheuser-Busch. Ele espera que a perda de participação de mercado se reduza. “Acho que vai ser melhor do que no ano

um lance em conjunto, segundo pessoas a par do assunto. No caso de um lance em conjunto, as duas empresas provavelmente descartariam o sistema operacional da RIM para telefonia móvel, e equipariam os BlackBerrys com software Windows da Microsoft, a qual assumiria a rede da RIM para empresas, disseram essas pessoas. A RIM afirmou que não comenta rumores e especulações. Se o valor de mercado da RIM continuar caindo, a empresa poderia encolher o suficiente para que alguém a compre apenas pelas suas patentes, disseram alguns banqueiros e analistas. Entre as mais valiosas estão suas patentes na área de segurança. Se a RIM decidir colocar à venda sua carteira de

passado”, disse. O engenheiro de 45 anos trabalha há mais de 20 anos na indústria de cerveja, quase todos eles no Brasil. Antes de se mudar para St. Louis em 2008, chefiou a AmBev, que já era a maior empresa do setor no Brasil quando se fundiu com a belga Interbrew em 2004 para formar a InBev. Após a InBev ter adquirido a Anheuser-Busch, os escritórios elegantes em St. Louis foram eliminados. Edmond compartilha uma longa mesa com vários outros altos executivos, parte de uma remodelação de plano aberto para os funcionários. Quase todos usam jeans, incluindo Edmond. A Anheuser não é a única cervejaria grande que batalha para manter seus clientes. As vendas

propriedade intelectual, poderá haver vários compradores em potencial. Ainda assim, até mesmo os produtos da RIM para empresas estão ameaçados a longo prazo, agora que muitos empregadores oferecem aos seus funcionários a opção de usar outros celulares, além do BlackBerry, para comunicação no trabalho. Empresas de tecnologia e telecomunicações têm procurado reforçar seu portfólio de propriedade intelectual para se proteger contra processos judiciais alegando violação de patentes. Como resultado, muitas firmas, estão explorando a possibilidade de vender certas patentes de tecnologia. Uma dificuldade fundamental para um potencial comprador estrangeiro pode ser o governo canadense, que exige que as empresas estrangeiras demonstrem um “benefício líquido” para o Cana-

da MillerCoors LLC, a segunda maior cervejaria dos EUA por volume, também caíram 3% em 2011, quando sua participação de mercado caiu para 28,4%, de acordo com a Insights Marketer Beer. A MillerCoors, uma joint venture entre a SABMiller PLC de Londres e a Molson Coors Brewing Co., que tem sede em Dever, no Colorado, está aumentando em 50% seu orçamento de publicidade para a problemática Miller Lite nos próximos meses. As quedas de volume coincidem com o surgimento de centenas de pequenas cervejarias americanas independentes que produzem cervejas de sabor mais ousado como India Pale Ales, ou IPAs, para consumidores cada vez mais interessados em variedade. A produção de cervejarias artesanais dos EUA subiu 13% em 2011, superando 10 milhões de barris pela primeira vez, segundo a Associação de Cervejarias do país. O mercado total de cerveja dos EUA é de cerca de 200 milhões de barris. A Anheuser está respondendo ao expandir sua própria linha de produtos, incluindo a Bud Light Platinum, que foi lançada no fim de janeiro. Ela tem um teor de álcool de 6%, comparado com os 4,2% da Bud Light, que teve três anos consecutivos de quedas nas vendas por volume. A Platinum é também mais doce e apresentada em uma garrafa azul cobalto, em parte para chamar a atenção em bares, onde consumidores têm migrado para destilados. A nova cerveja logo ganhou mais de 1% de participação de mercado, apesar de muitas vezes ficar sem estoque nas últimas semanas em meio a uma demanda maior do que o esperado. A Anheuser está aumentando a produção, com 6 das 12 fábricas da cervejaria nos EUA produzindo a Platinum em meados deste ano, em comparação a duas no início do ano. “A Platinum é um divisor de águas para nós”, disse Edmond.

dá em qualquer grande acordo de aquisição. Um comprador estrangeiro poderia ser mais palatável caso se unisse a uma empresa canadense. As autoridades canadenses provavelmente levariam em conta suas preocupações de segurança nacional, juntamente com os fatores econômicos. Em 2008, o governo canadense rejeitou uma oferta de US$ 1,3 bilhão da americana Alliant Techsystems Inc. pela divisão de satélites da MacDonald Dettwiler and Associates Ltd. Uma venda não é a única opção estratégica da RIM. Como parte de sua reestruturação, a RIM pode decidir fechar certas divisões para se concentrar nos seus poucos pontos fortes restantes, apesar de ainda não ter tomado nenhuma decisão, segundo uma pessoa a par dos planos da empresa.

Em seu laboratório de pesquisa em St. Louis, a Anheuser está experimentando três cervejas novas a cada dia. Uma delas, uma IPA de trigo, foi lançada em fevereiro como uma variedade da marca Shock Top, que concorre com cervejas artesanais. As vendas da Shock Top dobraram no ano passado, impulsionadas por novos sabores, como cerveja com sabor de abóbora. Alguns dos novos produtos da Anheuser têm pouco a ver com cerveja. A Bud Light Lime-a-Rita, uma bebida de malte com 8% de teor alcoólico que chega às lojas nos EUA em abril, tem gosto de margarita. A empresa vai lançar uma bebida alcoólica à base de chá e limonada em abril e uma cidra em maio, cada uma contendo 4% de álcool, sob a marca de cerveja Michelob. Mas Edmond disse que a Bud Light e Budweiser, que juntas ainda representam mais da metade das vendas da empresa nos EUA, continuam a ser prioridade. A empresa contratou novas agências de publicidade, parte de um plano para fazer mudar a imagem da marca, hoje mais voltada ao humor, para algo mais sofisticado. A Anheuser está tentando estabilizar a Budweiser, cujas vendas nos EUA caíram por 23 anos consecutivos, ao revisitar o passado. Um novo comercial de TV recria uma cena de 1933, quando os cavalos Clydesdale faziam entregas da Budweiser no fim da Lei Seca. A empresa também informou a mais de 500 atacadistas em novembro que distribuem suas marcas nos EUA que querem que eles dediquem menos tempo a marcas rivais ou terão de enfrentar restrições em novos contratos. Edmond diz que os atacadistas terão de decidir com qual cerveja querem ter parceria mai próxima. “Eu sou leal aos meus clientes. Por que não esperar a mesma lealdade deles?”, disse.

A divisão de celulares, por exemplo, foi prejudicada pela concorrência do iPhone, da Apple Inc. e dos aparelhos com sistema operacional Android, da Google Inc. A RIM pode decidir retirar-se dessa área para se concentrar no seu negócio principal: as redes empresariais, incluindo as redes pelas quais se enviam e-mails, disseram algumas pessoas. No ano passado, a empresa recebeu consultas de investidores financeiros, incluindo fundos soberanos e fundos de pensão, oferecendo investir dinheiro em troca de uma participação minoritária, mas a RIM recusou essas ofertas, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Essas pessoas disseram que é possível que esses esforços sejam retomados. (Colaborou Anton Troianovski.)


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Sábado, 07 de Abril de 2012.

The Wall Street Journal

Uma corrida científica para salvar o chocolate Leslie Josephs The Wall Street Journal, de Tarapoto, Peru Fredy Pinchi Pinchi caminha pela mata amazônica aqui numa missão: salvar o chocolate. O agrônomo de 31 anos está em busca de um cacaueiro mais resistente e produtivo. Seu progresso — e o de pesquisadores como ele em outras regiões produtoras de cacau — está sendo observado de perto pelos grandes fabricantes mundiais de doces, como a americana Mars Inc., que faz o M&M. O motivo dessa busca são temores de que o cacau produzido hoje vem de pés por demais velhos, frágeis e pouco produtivos para satisfazer o crescente apetite mundial por chocolate. Devido à crescente demanda em mercados emergentes, empresas de alimentos e negociadores de commodities estão prevendo que o consumo mundial de cacau vá crescer 25%, para cerca de 5 milhões de toneladas, até 2020. Pessoas do setor dizem que cacaueiros novos e melhores são vitais para o suprimento futuro — e para que o chocolate continue sendo um luxo acessível. “Estou procurando uma planta de elite. Essa é a meta”, disse Pinchi. “Há muita gente que depende do cacau.” Mas o tempo está correndo. O processo de enxertar diferentes tipos

de cacaueiros para obter a mistura genética certa leva anos, e está longe de ser certeiro. Uma vez plantado, o pé de cacau leva pelo menos quatro anos para começar a dar frutos bons para processamento. “Para a saúde de longo prazo da indústria de cacau, variedades de alto rendimento precisam ser identificadas, propagadas e distribuídas”, disse Kip Walk, diretor de cacau da Blommer Chocolate Co., que fornece chocolate para muitas grandes fabricantes de alimentos. Enquanto isso, as plantas atuais continuam lutando contra as forças da natureza. Na África Ocidental, região que mais produz cacau no mundo, golpes de vento quente este ano secaram pés de cacau. A perspectiva de uma safra prejudicada provocou alta de 15% nos preços do cacau em relação ao preço mais baixo em três anos atingido em dezembro. Dado o estado frágil dos cacaueiros e a forte demanda, é só uma questão de tempo até que haja falta de cacau e os preços disparem, disse Julian Rundle, diretor de investimento da Dorset Management, uma firma americana de investimento alternativo. A demanda de cacau deve superar a oferta este ano em 71.000 toneladas, segundo estimativas da Organização Internacional do Cacau, sediada em Londres. Só uma fração das milhares de

variedades de pés de cacau existentes são cultivadas para produzir chocolate, porque plantar cacau sempre foi um negócio de baixas margens que não atrai investimentos. Essa prática de plantar cacaueiros geneticamente similares deixa populações inteiras vulneráveis quando atingidas por alguma doença contra a qual não têm resistência. Em plena floresta, Pinchi está a postos para mudar isso. Ele passa por fileiras enlameadas de mudas, acariciando brotos de cor lima-limão, checando seu peso e tamanho. Ele e sua equipe do Instituto de Culturas Tropicais, um centro de pesquisa no norte do Peru, coletaram centenas de variedades de cacau da floresta tropical sul-americana e estão testando sua capacidade de produzir mais frutas, e maiores. Pesquisadores na Costa do Marfim e em Gana fazem estudos semelhantes. O nome científico do cacaueiro é Theobroma cacao, algo como “comida dos deuses”, em grego. Conforme o chocolate passou de um regalo para ocasiões especiais para um prazer diário, grandes áreas de mata foram cortadas nos anos 70 e 80 para dar espaço a cacauais, que agora cobrem cerca de 7,4 milhões de hectares. Mas a indústria sofreu um golpe quando um fungo conhecido como vassoura-de-bruxa dizimou mais

Chocólatras

Consumo per capita de cacau em certos países, em quilos Brasil

1,2

China*

Índia

1,0 0,8 0,6 0,4 0,2 0 2002

2003

2004

2005

2006

2007

* Inclui Hong Kong; Fontes: Six Telekurs; Organização Internacional de Cacau

de metade da produção de cacau do Brasil entre 1990 e 2010. Executivos do setor esperam evitar outra crise de cacau, razão pela qual estão pondo suas esperanças em pesquisadores como Pinchi. Expandir a área plantada não é uma opção, devido à ampla oposição contra mais devastação de florestas tropicais — o único terreno bom para o cacau. “Até 2020, precisamos de outra Côte d’Ivoire”, disse Howard-Yana Shapiro, diretor de ciência de plantas e pesquisa externa da Mars, referindo-se à Costa do Marfim. Shapiro liderou uma equipe a que se atribui o mapeamento do genoma do cacaueiro em 2010. Ele mantém registros do trabalho conduzido pela equipe de Pinchi e outros pesquisadores. “Há duas alternativas. Uma, cortamos todas as árvores dos trópicos e

2008

2009

2010

The Wall Street Journal

só plantamos cacau, o que seria um grande desastre. Ou aumentamos” o rendimento das plantas, disse Shapiro. É certo que nem todo mundo está tão pessimista. Kona Haque, estrategista de commodities do Macquarie Bank, admite que os preços do cacau tendem a subir, mas acha que previsões de que eles vão dobrar no longo prazo são exageradas. “A demanda vai continuar crescendo, mas, com o preço certo, o suprimento também”, disse ela. “Eu acredito que o preço do cacau vai subir 50% em 10 anos.” Pinchi, porém, acredita que ele e seus colegas vão chegar ao cacaueiro certo antes que os preços amarguem o chocolate do mundo. “A Amazônia é a origem do cacau”, disse ele. “Há muita diversidade, o que nos dá muitas opções.”

Bancos da UE ficam criativos para melhorar balanço David Enrich e Sara Schaefer Muñoz The Wall Street Journal, de Londres Mesmo com a crise bancária na Europa dando sinais de melhora, bancos em todo o continente estão empenhados numa série de manobras para evitar, ou pelo menos adiar, ter que lidar com os problemas potenciais que rondam suas finanças. Alguns bancos estão elaborando estruturas heterodoxas concebidas para melhorar os tão importantes coeficientes de capitalização, sem ter que levantar capital novo ou remover ativos indesejados do seu balanço. Outros estão engajados em transações complexas com clientes em dificuldades para ajudar temporariamente a evitar insolvências — mas possivelmente expondo os bancos a problemas futuros. Os bancos agora têm uma flexibilidade maior para recorrer a essas táticas por causa dos cerca de 1 trilhão de euros (US$ 1,33 trilhão) em empréstimos baratos de três anos que o Banco Central Europeu concedeu recentemente a pelo menos 800 bancos. O programa, conhecido como Operação de Refinanciamento de Longo Prazo, ou LTRO na sigla em inglês, é considerado responsável por ter prevenido uma possível catástrofe, já que os bancos estavam penando para pagar suas dívidas que estavam vencendo. Mas, ao prestar esse socorro, o programa do BCE também permitiu que o setor adiasse seu processo de limpeza, de acordo com alguns banqueiros, investidores e especialistas. “O LTRO causou uma extensão do período para cada banco se reformar, e os danos para a zona do euro podem ser sérios”, disse Alastair Ryan, um analista do setor bancário do UBS. As táticas são mais comuns na Espanha, onde os bancos estão repletos de empréstimos do BCE, mas também estão vergando sob o peso cada vez maior de maus investimentos no mercado imobiliário.

Um exemplo é a situação das companhias de touradas da Espanha. Devido à crise econômica, elas estão sofrendo para vender ingressos para os seus eventos, geralmente populares. Os organizadores estão tendo dificuldades para pagar pelo marketing e a manutenção das arenas, segundo companhias de touradas e a sua organização setorial, que também afirmou que elas estão enfrentando um risco crescente de não conseguir honrar seus empréstimos aos bancos locais. Assim, no começo do ano, uma companhia de touradas de Sevilha, a Empresa Pagés, chegou a um acordo pouco usual com seu credor, o Banca Cívica, que está prestes a se tornar parte do Caixabanca SA. O banco concordou em emprestar dinheiro para os empobrecidos fãs das touradas poderem comprar ingressos para a temporada, os quais custam várias centenas de euros cada. A Pagés recebe adiantado e os espectadores têm de pagar o empréstimo, com juros, dentro de um ano, em geral. Um porta-voz do Banca Cívica disse que o acordo atrai novos clientes e lhe permite ajudar a um cliente de longa data. Programas similares de empréstimos para ingressos de touradas estão se espalhando pela Espanha. Os arranjos também são bons para os bancos, que evitam insolvências potencialmente onerosas — pelo menos por mais um ano. Mas, ao mesmo tempo, os bancos estão fazendo empréstimos sem garantias que ficam mais arriscados à medida que a taxa de desemprego na Espanha continua a subir. Isso vai de encontro aos esforços do setor para diminuir riscos. Em outros lugares, os bancos estão ficando cada vez mais criativos para encontrar maneiras de melhorar sua capitalização, sem dar baixa de ativos indesejados ou vender novas ações — dois dos métodos que a maioria dos reguladores e outros especialistas concordam são fundamentais para fortalecer o setor. Alguns bancos estão colocando portfólios de ativos, geralmente

empréstimos para imóveis comerciais, em veículos criados recentemente fora do balanço. Os bancos então contratam consultores externos, como firmas de investimento em participações, para administrar esses veículos. Em alguns casos, os bancos concordam em absorver a primeira leva de prejuízos com os ativos, mas os prejuízos ou lucros depois disso são divididos entre o banco e o administrador do veículo. Na Espanha, quase todo banco procurou por versões criativas de estruturas como essa, de acordo com pessoas envolvidas nas discussões. Mas há armadilhas potenciais. Os reguladores do Banco da Espanha, o banco central do país, estão examinando essas operações, ponderando se elas são apropriadas ou meramente uma máscara para empréstimos arriscados, segundo pessoas a par da situação. “Eu considero essas transações como arbitragem regulatória”, disse um veterano executivo do setor de bancos de investimento na Europa que recusou ofertas para participar nesses arranjos. Alguns bancos grandes estão engendrando soluções intermediárias que possibilitem a eles alegar que estão fazendo progresso em relação a empréstimos inadimplentes, sem que de fato tenham que arcar com o prejuízo de vender esses empréstimos com desconto. Em fins do ano passado, o Banco Santander SA, o maior da Espanha, fez acordo para vender uma parte de seus negócios de financiamento nos Estados Unidos para um grupo de firmas de investimento em participações e para o presidente da unidade. A venda gerou um ganho de cerca de US$ 1 bilhão para o Santander, uma de uma série de iniciativas do banco para levantar capital. Mas há um porém: o negócio não é necessariamente para sempre. Os compradores têm o direito de vender sua fatia de volta para o Santander a partir de quatro anos do contrato. Um porta-voz do Santander não respondeu a pedidos de comentário.


27 Crónica

Sábado, 07 de Abril de 2012.

Passeio vadio (2) Fernão Martins «Fula» (*)

J

á tem tempos que não nos vemos. Já tem tempos que não sorrimos. Já tem tempo que não busco em nós o abraço fraterno, do «Bom dia», no caminho do mato. Mas prometo de volta aquele «kandandu» cordial deste vosso filho que vos tem aqui na «muxíma». Deixem-me só um instante, para atender ao chamado do nosso irmão, do homem da terra, querido por todos nós, na sua arte de cantar e encantar as nossas «malambas». O encontro será em casa do nosso ilustre José Manuel Pedrinho, o «Pedrito». Mas parece-me que este almoço vai virar jantar! É domingo e o anfitrião tem o «Kilamba» na agenda. E como é da praxe, depois de cantar, vai dar um abraço aos fãs; vai meter a conversa em dia... Afinal, estava enganado! Quando eram duas da tarde, estava tudo deligenciado! A confirmação veio de um supermercado. De lá, o Pedrito ligou para saber que bebidas preferíamos para o almoço. A caminho do Lar do Patriota, o local de residência de Pedrito, com a pressa do almoço, eu já não sabia se colava o acelerador ao tapete, se ouvia o meu xará que me deitava as culpas do atraso ou se atendia a tia Elvira, que chamava ao telefone. Mas chamado de «mãe» é sagrado. Decidi parar o carro e atender à minha velhota. A Tia Elvira queria a minha presença lá em casa. Ela estava muito zangada! A «Prova de vida» que o «Instituto Nacional de Segurança Social» estava a realizar era a razão da confusão. «Eu não vou fazer esta prova! Com a minha idade…quase oitenta anos…pra levantar da cadeira é que se vê...tenho mais força de fazer prova?! Já viuram o abuso?! Pra me dar a pensão, que já é pouca, ainda tenho que ir lá participar na corrida?!», reclamava a velhota. «Mas... quem disse à tia que a prova é para correr?!», atirei-lhe. «Ha! Então o teu tio que está a preparar os calções e as sapatilhas pra ir, é maluco?!», interrogou-se. «A prova de vida é para saber

se os pensionistas estão em vida, ou não. Amanhã estou aí, para explicar melhor à tia», retorqui. Suspeito que alguém esteja a brincar com a velha. «Ser honesto, justo e forte/é para todos seres humanos/acabar com as ambições/estragam a posição do militante/Neto dizia que é preciso, ser-se coerente, ter um pensamento de consciência nacional/que assim serás um rico militante!». Era o Pedrito que nos abria a porta de sua casa. É inevitável! Muitas vezes confundimos o artista e a obra. Era o que aconteceu comigo naquele instante. Recordei-me logo deste seu grande êxito. Mas para o nosso amigo, isto não era novidade. Estava habituado. E com ironia, lembrou-se das makas que teve depois de cantar a música intitulada «Senhor Director». Foi vítima de exclusão. Os chefes de algumas empresas de bens de primeira necessidade, naquele tempo de muitas carências, fecharam-lhe as portas, assim que ouviram o «balanço» que sensibilizou os operários e fez dançar muita gente. Depois de saudarmos a tia Mazi, ofereci ao Pedrito o «Zenza do Itombe», o meu último livro. A oferta era promessa antiga. Quanto ao atraso, justificamonos: «Foi engano nosso. Pensamos que ainda estivesses no Ki-

lamba». Em relação ao seu trabalho, o kota sossegou-nos: «Quando me convidam para algum espectáculo, depois de me apresentar, retiro-me para os meus afazeres diários. É claro que tenho sempre tempo para saudar os fãs e os amigos. Quando não é para cantar, é só para conviver, é que fico mais à-vontade». Já na sala, sentados à mesa, apetitosamente servida com as iguarias da terra, chamou-me a atenção o feijão-macunde de óleo de palma e o funji de milho. «Que saudades! Faz tempo que não como este prato, desde que partiu a minha mãe, a avó Beia!», disse o anfitrião. Servi-me e naquele manjar saciei as minhas saudades. O aroma apetecível do «macunde» avivou as minhas memórias e imagens do tempo de menino desfilaram: ainda estávamos completos – a mamã, o papá, os meus irmãos e eu. Revi a minha velhota a vir da lavra, com o «kibandu» na cabeça - Nga beca fadinha; nga beca kidingu, ni tu tendu ya caju...pala éie mulaulami - «Avo Bea! Kamenekéna?!». O kimbundu dominava a conversa. É marca registada de Pedrito. Entre os seus, fala Português, mas logo em seguida pode vir o Kimbundu. Com ele é divertido viajar pelas nossas origens culturais.

«Só agora, que os nossos filhos estão nas universidades no estrangeiro, é que despertaram. Querem aprender as nossas línguas nacionais. Dizem que passam vergonha perante os outros estudantes africanos. Esses dominam as suas línguas nacionais. Até desconfiam dos nossos estudantes. Dizem que não são africanos!», comentou o xará, depois de esvaziar a sua taça de vinho. O funji de carne seca de pacaça, com kiabo e jimbôa, no seu prato, reclamava mesmo um bom trago do tinto! O cume da prosa animava as nossas vozes. Para deixar a cavaqueira fluir, decidimos passar para o quintal. Ali, o nosso anfitrião sugeriu cerveja, para «lavar a boca» e refrescar a garganta. Na azafama da conversa, o xará ergueu o seu copo, propondo um brinde aos seis meses de paz em sua casa. «Na família agora só reina a felicidade», comemorou. «Mas o xará é mesmo ‘mukua maka’. Ainda nós, que temos dez anos de paz, estamos a ir devagar, mas ele, que só tem seis meses, está a brindar assim?! Parece então que não vai conseguir chegar lá nos dez!», zombei. O homem era adepto da «sexta-feira dia do homem». À semelhança de todos os casados, sabemos que foi ele quem pediu o «jogo»: «Ai filha, no jogo do amor eu sou craque! Prometo es-

tar contigo para sempre! Na dor e na felicidade! Na tristeza e na alegria!». Depois do casamento começou a defender a filosofia do «dia do homem». E a dama ficava com quem? E ainda por cima, saía sem avisar. E só voltava no sábado de manhã! Certo dia, depois de comemorar a sua «sexta-feira», encontrou a esposa no portão, à sua espera. «A esta hora tão cedo, já na rua, filha?!», perguntou, admirado. «Estou a tua espera! Vamos discutir!», respondeu a coisa, enfurecida. «Mas eu não quero discutir!», retorquiu. Mas quando viu a briga começar, precipitou-se para o carro, e saiu em velocidade, enquanto a esposa gritava: «Espera! Espera! Não vou mais discutir! Vem, vem, pode entrar!». O indivíduo não acreditou! Fugiu para local incerto. E só voltou à noite, acudido por alguns familiares, que lhe proibiram, a partir de então, de voltar a falar do «Dia do Homem”. Veio a noite. E com ela, as saudades do tempo que já não volta! Nostálgico, Pedrito cantou: «Quem é...quem é...que estamos a chorar? É Teta Landu. Filho bakongo, orgulho angolano. É Teta Lando!». (*) Escritor e professor


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Sábado, 07 de Abril de 2012.

Sociedade Apreciação em juízo do caso Quim Ribeiro observa pausa

Um julgamento pouco produtivo

A

apreciação em juízo do chamado caso Quim Ribeiro, tido por algum como o «julgamento do ano» já leva cerca de dois meses, pois, teve o seu inicio no dia 10 de Fevereiro do ano em curso, e observou a sua primeira pausa na semana santa, que vai de 01 a 08 de Abril de 2012. Numa análise rápida do que foram os cerca de dois meses de julgamento, pelas provas produzidas até aqui, nada confirma já agora o teor das acusações que se ouviam pelos órgãos de comunicação social. A título de exemplo, ficou claro com a audição de Adelino Dias dos Santos, Leitão Ribeiro, Elizabeth Ramos Frank, Luís Adriano Pegado, bem como dos militantes do MPLA do comité do Zango e outros declarantes, que Joãozinho não foi perseguido por ninguém no dia em que foi preso, julgado sumariamente e condenado a 4 meses e 15 dias de prisão correccional. Segundo confirmou o coordenador da Comissão de Inquérito de Inspecção-Geral do Ministério do Interior Superintendente Nogueira para quem Joãozinho ligou quando se encontrava na Cadeia de Viana, relatou que no inquérito feito para se apurar em que condições ele havia sido preso e julgado, se concluiu na instância que fora bem preso e condenado porque até já tinha uma pena suspensa. Conclui-se também que Joãozinho não estava a ser perseguido, até porqueforam os militantes

agredidos que chamaram a polícia e apresentaram queixa e que todos foram ouvidos no Tribunal, incluindo o réu na altura. Esta versão foi confirmada em audiência de julgamento pelos ofendidos que foram também ouvidos; Outras das questões fulcrais e muito badalas na imprensa resultam do facto de duas das declarantes, mais concretamente as irmãs Ana e Florinda, sendo a primeira a pessoa que entregou a carta aos emissários do ex-Comandante Provincial de Luanda, terem afirmado ao longo de uma das sessões, que Quim Ribeiro, depois da morte de Joãozinho, mandou um recado através da sua amiga Filomena Rossana para que aquela ficasse calada e no seu canto e que a mesma (Filomena Rossana) tinha feito o seguinte comentário: «Estes mais velhos são bandidos, não ajudam ninguém». Chamada Filomena Rossana a depor na sessão do dia 29 de Março para confirmar ou não a versão das amigas, ela respondeu sem rodeios ao Tribunal que em momento algum dera recados a Ana ou a Florinda para transmitir, tão pouco fez comentário algum, pois, tirando o dia em que a carta foi entregue e que ela estava presente, ligara para saudar Quim Ribeiro, dizendo-lhe que já tinha chegado do Brasil, sem nunca mais voltar a telefonar ou falar com ele. Face a estas declarações, a defesa pediu a prisão das irmãs Ana e Florinda por falsas declarações, contra a vontade do Ministério Público, que as arrolara, colocan-

do-se a seu favor. Pediu uma uma acareação para se poder determinar quem estaria a mentir, e assim se decidir pela prisão ou não e de quem. A versão de Filomena foi corroborada pela sua prima Sandra Rony, que também se encontrava presente no mesmo dia da entrega da carta. Outra resulta do facto de Nogueira ter afirmado em Tribunal que nos três momentos que trabalharam e ouviram Joãozinho, ele nunca citou o nome do Comandante Quim Ribeiro como pessoa que lhe perseguia e que lhe queria matar. Pelo contrario, afirmou e reiterou varias vezes que o falecido sempre dissera que quem lhe perseguia e lhe queria matar era Augusto Viana. Há também que destacar outro facto digno de registo que foi a desistência para uns e exoneração para outros do Dr. David Mendes, pois deixou a acusação amputada, uma vez que até agora não se vê o substituto ou substituta daquele ilustre causídico. No entanto, é, ainda assim, de lamentar a saída desse então assistente da acusação pelas razões que se ouviram na Comunicação Social. Nogueira confirmou ainda que Joãozinho falsificou inicialmente as assinaturas que dizia pertencerem aos oficiais colocados na Divisão de Viana, que, chamados a confirmar junto da Comissão de Inquérito, foram unânimes em dizer que não eram os titulares delas. Alguns oficiais da Divisão de Viana vieram «enterrar» o seu antigo Comandante, Augusto

Viana, que de «herói» começa a virar «vilão», ao declararem que não corresponde também à verdade a versão que espalhou pela imprensa quando dizia que entregou USD 1.0080.000,00, já que nenhum deles confirmou, antes pelo contrario foram unânimes em afirmar que o seu antão comandante nunca disse em parada aos seus efectivos quanto é que apreenderam, tão pouco citou em que moeda. Um dos oficiais chegou mesmo a avançar que Augusto Viana só falou em parada o que já dizia à boca miúda por todo o comando municipal, afirmando ainda que ele (Viana) comprou um carro com o dinheiro apreendido. Faltam ser ouvidos ainda cerca de 20 declarantes e 27 testemunhas, o que nos aponta para um horizonte temporal de mais cerca de 2 meses para conclusão desse julgamento há muito esperado. Segundo um causídico ouvido pelo SA, o que a sociedade espera é justiça e esta (justiça) só será alcançada com a busca da verdade material ou objectiva e nunca com manipulações de provas, pressões e chantagens, como denunciou há dias o até então assistente de acusação Dr. David Mendes, o que começa a confirmar a denuncia feita pelos advogados de defesa no ano passado. Esta preocupação é ainda maior quando a defesa foi impedida pelo Tribunal de abordar em julgamento a questão do alegado atentado que sofreu o Comandante Quim Ribeiro no dia 15 de Dezembro do ano de 2010, mas,

depois, o próprio Tribunal solicitou numa outro depoimento ao declarante conhecido por FBI, Comandante do Posto Policial do Lar do Patriota, que esteve no local no referido dia, para prestar esclarecimentos sobre o assunto, o que a defesa inteligentemente só aproveitou para consignar em acta o que antes lhe foi proibido. Quando depôs, Quim Ribeiro afirmou que os arguidos eram inocentes das acusações e que os verdadeiros assassinos estavam em liberdade, pelo que as declarações de FBI podem reforçar as argumentações do antigo comandante provincial de Luanda. Outra situação anormal foi vivida na sessão em que o Comandante da Esquadra do Zango prestou declarações. Na altura a defesa solicitou esclarecimentos sobre as razões que levaram Joãozinho à cadeia, já que o que se dizia é que ele (Joãozinho) estava a ser perseguido por policiais que lhe queriam matar, mas o Tribunal não permitiu com fundamento de que ele (Joãozinho) era falecido e, como tal, não estava presente para se defender. No entanto, o mesmo Tribunal arrolou como declarantes os ofendidos da «maka» do Comité do Zango que acabaram por abordar o que antes era proibido, o que demonstra assim um certo desnorte dos julgadores, razão pela qual se espera que a pausa de uma semana traga clarividência, prudência e objectividade para que justiça seja feita, dando-se assim, «a Deus o que é de Deus e a César o que é de César».


29 Sociedade

Sábado, 07 de Abril de 2012.

Criança de 13 anos violada por três A família, que se mostra muito desolada e ameaçada, pede à polícia que lhe dê proteção pelo menos até se encontrar os outros dois, pedido que a polícia ainda não atendeu, apelando à calma, porque garantem que vão encontrar os outros, o mais rápido possível. Bastante chocados e encolerizados, os encarregados da vítima contaram ao SA que, fisicamente, a garota já recuperou, devendo ter acompanhamento médico durante três meses. No aspeto psicológico, está muito traumatizada, fala muito pouco fala e quase não come, permanecendo sozinha num canto da casa. atendeu, apelando à calma, porque garantem que vão encontrar os outros, o mais rápido possível. O jovem Pinto da Costa tio afirmou a este jornal que o dia 29 de Março foi um dos piores da sua vida, pode dizer-se que foi um «dia de azar.» Segundo ele, os problemas não começaram na altura em que a sua sobrinha foi violada, mas muito antes disso.

Edgar Nimi

U

ma menina, de 13 anos de idade, foi violada, na quinta-feira da semana passada, 29, no bairro 11 de Novembro, distrito do Kilamba Kiaxi, por três indivíduos, com idades compreendidas entre os 19 e os 29 anos, na casa em que vive, soube o Semanário Angolense. Os meliantes, identificados como José Teca, «Dois» e «Mandela», arrombaram a porta com o intuito de assaltar a residência, tendo encontrado no interior quatro crianças, entre as quais a rapariga Soraia da Costa, que no momento era a mais velha das menores. Os violadores ameaçaram as crianças com uma arma de fogo, catana e um machado e estupraram Soraia, ao mesmo tempo que amarraram as outras, que assistiram ao drama vivido pela prima. Segundo Pinto da Costa, tio da vítima, ele e sua esposa saíram por volta das 18h do mesmo dia a fim de participarem de uma cerimónia de casamento e, por volta das 23h50, recebeu um telefonema, de um vizinho, que é agente policial, a dizer que a sua casa foi invadida por marginais, que violaaram a sua sobrinha. O tutor da menina mostrou-se bastante revoltado com a situação. «Foi muito difícil para mim receber esta notícia, sinto-me muito chocado com tudo isso que se está a passar. Esses bandidos merecem todos prisão perpétua, entrarem na cadeia e nunca mais saírem, isso não se faz, o castigo para eles tem de ser pior» vociferou Tendo-se apercebido do que estava a ocorrer, os vizinhos avisaram imediatamente a polícia, que surgiu, mas já não encontraram os assaltantes, que minutos antes se puseram a em fuga. A menina foi de imediato levada para a maternidade conhecida como «Mãe Jacinta Paulina», localizada em Luanda Sul, onde esteve internada por dois dias, tendo-lhe sido administrada transfusão de sangue, pois no acto da violação, ela esvaiu-se em muito sangue. Bastante chocados e encolerizados, os encarregados da vítima

Dia de azares

contaram ao SA que, fisicamente, a garota já recuperou, devendo ter acompanhamento médico durante três meses. No aspeto psicológico, está muito traumatizada, fala muito pouco fala e quase não come, permanecendo sozinha num canto da casa. Disseram ainda que as outras crianças também estão muito abaladas e assustadas com tudo que presenciaram. «As minhas crianças já não parecem as mesmas. Esta semana pedi que a Soraia não fosse à escola, porque estão todos muito abalados, qualquer barulho fálas entrar em choque e se põem a chorar, porque tudo que viram está ainda muito presente nas suas mentes. Tenho de ser forte

para lhes ajudar a esquecer tudo isso, sei que não será fácil. Esses bandidos vão pagar caro por terem desestabilizado a minha família», desabafou o encarregado da vítima.

Meliantes voltaram e ameaçaram Um dia depois da sua acção, os bandidos voltaram à residência, isso é, na noite de sábado, às 22 horas. Desta vez bateram à porta e ameaçaram a esposa de Pinto da Costa, dizendo que, se, por ventura, levassem o caso à polícia e eles fossem apanhados, depois que saíssem da cadeia poderiam matar toda a família. Entretanto, Pinto da Costa con-

seguiu capturar um dos meliantes, identificado como José Teca, o mentor do assalto e a violação, na sua própria residência, às 6h de domingo, numa operação que contou com ajuda de vizinhos, entregando-o imediatamente à polícia de Viana, onde se encontra detido. Os outros dois violadores, depois que se aperceberam de que o amigo foi entregue às autoridades policiais fugiram do bairro. Fonte da polícia, que preferiu não se identificar, disse que os marginais já foram localizados e que a qualquer instante poderão ser detidos. A família, que se mostra muito desolada e ameaçada, pede à polícia que lhe dê proteção pelo menos até se encontrar os outros dois, pedido que a polícia ainda não

O nosso interlocutor explicou que, no período da manhã do mesmo dia, teve um pequeno acidente de motorizada, que lhe estava a causar algumas dores no joelho, por isso, decidiu permanecer em casa. À noite, já se sentindo melhor, teve necessidade de acompanhar a esposa ao enlace matrimonial de um parente. No momento em que regressava a casa, Pinto da Costa teve outro desastre na zona dos Congolenses, mas desta feita com seu carro. Felizmente para os dois, não sofreram danos físicos. Foi quando tentava resolver a situação que recebeu o tal telefonema em que davam a conhecer que a sua sobrinha foi estuprada. Pinto da Costa correu para sua casa, deixando o carro no local do acidente. Como um azar nunca vem só, às 2h da manhã, voltou ao local onde deixou a viatura e reparou que o reprodutor foi roubado. O nosso interlocutor informou que levou o caso a uma esquadra, nos Congolenses, onde lhe foi dada a informação de que o meliante já foi encontrado com o reprodutor, mas que o caso foi encaminhado para a polícia em Talatona. «Não sei se isso é azar, mas tudo me aconteceu num único dia. O grande problema neste momento é que já fui três vezes à polícia em Talatona e estão sempre a me dar voltas para devolverem o reprodutor do meu carro», explicou, desesperado. Agora, Pinto da Costa persegue o seu reprodutor, que se encontra em posse da polícia, alimentando também na esperança de que os outros violadores sejam capturados. Está ainda a acalentar as suas crianças, que se encontram em estado de choque.


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Sábado, 07 de Abril de 2012.

Sociedade Caixa postal

Lesados ameaçam recorrer à justiça

Ao Ex.mo Sr. Director do Semanário Angolense

Inquilina desmente responsável da ENSA

N

a sequência de uma matéria publicada na edição do dia 31 de Março de 2012 do jornal dirigido por si, sobre a polémica situação do prédio 20, pertencente à ENSA, venho por este meio informar-lhe o seguinte: Na qualidade de moradora do referido prédio, não podia ficar indiferente às afirmações do Sr. Luís Caetano, director do Património da ENSA, a propósito do estado degradante do prédio 20, pertença dessa empresa, pelo que lamento informar que as mesmas não correspondem à verdade. Efectivamente, em Maio de 2009 quando os moradores foram chamados e obrigados a aceitarem o aumento de 1.000% das rendas, a promessa feita naquela altura foi de que o prédio entraria em obras de reabilitação, tão logo os inquilinos começassem a pagar as novas rendas. Sem outra alternativa, os inquilinos acabaram por aceitar, tendo sido acordado que o terraço seria a prioridade. De facto, no terraço havia lixo, mas não na dimensão descrita pelo Sr. Luís Caetano, daí o desejo dos moradores que o terraço fosse de imediato arranjado para se terminar com o sofrimento que se vivia em época chuvosa. Para o efeito, os inquilinos logo fizeram uma contribuição para que o lixo fosse totalmente retirado. Esta acção foi efectuada antes do final de 2009, tendo a coordenadora da Comissão de Moradores dado a conhecer à ENSA que, por sua vez, informou que os trabalhos iriam iniciar no mais curto espaço de tempo. Para alento dos moradores foram enviados técnicos para verificarem o estado do prédio no geral, e dos apartamentos em particular. Estas visitas foram feitas várias vezes, espaçadas em meses e por pessoas diferentes em cada visita. Para desespero dos moradores e descrédito para com o senhorio, as promessas ficaram por essas visitas. Após essas visitas, e durante estes três anos, a ENSA sempre foi prometendo a reabilitação do nosso prédio, principalmente do terraço e da cave, que há anos a água ali existente vem perigando a estrutura do imóvel, bem como a segurança dos moradores.

ZAGOPE não paga fornecedores Ilídio Manuel

A

Sou a primeira moradora deste prédio, quando o mesmo foi inaugurado em Outubro 1972, na altura pertença da companhia de seguros “Garantia África”. Corresponde à verdade que desde a passagem do imóvel para a ENSA, e decorridos mais de 35 anos, nunca os moradores receberam nenhuma visita dos serviços de Património dessa seguradora para, no local, se inteirarem dos gravíssimos problemas existentes no prédio! E se o prédio ainda se encontra num estado relativo de condições, graças às constantes intervenções dos moradores que têm contribuído para tal. Apesar do total abandono do (s) imóvel (veis) por parte da ENSA, ainda assim, os moradores, com sacrifício e às suas custas, foram preservando o património dessa empresa, fazendo obras de reabilitação e de manutenção. Embora tenham primado por atitudes louváveis, quando foi do aumento das rendas, os moradores ouviram dos responsáveis da ENSA palavras desagradáveis como estas: “Se arranjaram foi porque quiseram, ninguém vos mandou!” Absurdo! É verdade que a ENSA é proprietária de inúmeros imóveis, mas também não é menos verdade que, ao longo destes mais de 35 anos, ela não se tem preocupado com a manutenção dos seus bens

imóveis. Não fosse as iniciativas dos inquilinos, os mesmos imóveis estariam num pior estado de degradação. Os inquilinos dentro das suas possibilidades têm feito a sua parte, e a ENSA o que faz, enquanto proprietária? Quem vai pagar os danos e os investimentos que os inquilinos estão a ter ao longo de todos de estes anos, a investirem num património que não lhes pertence? A ENSA obriga os inquilinos a pagarem o dobro quando eles se atrasam nos pagamentos! Se os inquilinos têm deveres, onde ficam os do senhorio? Ou será que os inquilinos não têm direitos? A atitude e falsas promessas por parte da ENSA, enquanto senhorio, está a fazer com que os inquilinos comecem, e sem necessidade, a não acreditar na coordenadora da Comissão de Moradores, interlocutora das partes. Apesar de muito ficar por dizer, os inquilinos do prédio 20 da ENSA, sita na rua do 1º congresso, indignados com as afirmações do Sr. Luís Caetano, esperam que o senhorio passe com brevidade, das palavras e promessas à acção, e mereçam o respeito devido! Os inquilinos, bem como os seus apartamentos, estão disponíveis aos Srs. jornalistas para constatação dos factos. Cordialmente, Teresa Guerra Inquilina

lguns fornecedores de bens e serviços acusam a ZAGOPE Angola e Engenharia, uma empresa do grupo Andrade Gutierrez, de não estar a honrar com o pagamento das suas dívidas. Segundo os empresários, que solicitaram o anonimato, por razões óbvias, as dívidas da ZAGOPE estarão na ordem de «alguns milhões de Kwanzas». Dizem que a empresa origem brasileira deixou de honrar as suas dívidas com alguns fornecedores desde de Outubro do ano passado. «Deixamos de ver a cor do dinheiro há quase seis meses», queixam-se. Segundo eles, a Direcção da Zagope estará a dar sinais de alguma insensibilidade quando confrontada com às inúmeras lamentações dos fornecedores. Eles temem que os seus negócios não vinguem, devido ao crédito malparado. «Ao invés de assumirem a sua situação de insolvência, eles [ZAGOPE], tentam atirar-nos areia para os olhos, alegando que os atrasos nos pagamentos devem-se aos bancos nos quais têm as suas contas domiciliadas», ajuntaram as fontes do Semanário Angolense. Soube-se que entre os distintos equipamentos fornecidos à empresa brasileira, figuram materiais de construção, acessórios e peças sobressalentes para viaturas. Alguns deles não afastam a hipótese de recorrer à barra do tribunal, a fim de verem satisfeitos os seus direitos. No entanto, garantem que desejam esgotar todos os meios persuasivos ao seu alcance, reservando os tribunais para «última instância». Abordada na segunda-feira, 02, sobre o assunto, Celso Cortez da Área de Pagamentos da ZAGOPE disse que a informação não «corresponde à verdade», visto que todos os pagamentos «estão em dia». Afirmou que todas as semanas, os bancos têm recebido orientações para proceder ao pagamento de dívidas, um processo, segundo ele, «demorava 1, 2 dias ou, na pior das hipóteses, uma semana». Há sete anos no mercado angolano, a Zagope tem participado no programa de qualificação de infra-estruturas de Angola, sendo uma das obras mais visíveis a construção da via expressa entre Luanda e Viana. Além da capital do país, esta empresa do Grupo António Gutierrez é responsável pela construção do Aeroporto Internacional de Lubango e de vias rodoviárias nas províncias da Huíla e Cuando Cubango.


31 Sociedade

Sábado, 07 de Abril de 2012.

Por negligência médica, mais uma, no HAB

Criança fica paraplégica Mais uma vez, o Hospital Américo Boavida (HAB) presta um mau serviço, que deixa entristecidos os familiares da vítima, um menino de 6 anos, submetido a uma cirurgia, que correu mal e culminou com uma paralisia total e, consequentemente, a perda da fala. Os pais dizem ser por negligência médica, tendo o hospital deixado de prestar o devido apoio ao doente. Romão Brandão

O

pequeno Paulo Domingos, segundo contam os familiares, fracturou um braço, depois de ter caído de uma árvore em casa dos seus pais, em Setembro do ano transacto. No mesmo período fora imediatamente encaminhado para o Hospital Américo Boavida, onde ficou internado 4 dias, antes de ter sido encaminhado para o bloco operatório, pois os médicos diagnosticaram fractura dos ossos do antebraço, impondo-se por isso uma intervenção cirúrgica. Para infelicidade dos progenitores, a criança, que deu entrada na unidade hospitalar somente com o problema da fractura, ficara em estado de coma, porque a operação não correu conforme planeada. No dia seguinte, os familiares foram informados de que o menino estava nos cuidados intensivos e que precisavam de comprar fraldas descartáveis, em grandes quantidades. Lúcia Bartolomeu, mãe do menino, teve pressentimento de que algo de errado se estaria a passar, pois o estado em que o seu rebento tinha entrado não podia ser considerado grave. Segundo a mãe, lodo a seguir encontraram Paulo Domingos rodeado de aparelhos, sem saber para que efeito eram. Assim, a família tomou conhecimento de que dos ossos partidos, que, por sinal, foram tratados com êxito, surgiu outro problema, muito grave: O menino deixara de falar e de mover qualquer membro do corpo. Passados seis meses internado, desde a cirurgia, Paulo recebia assistência médica e medicamentosa e, inclusive, o hospital ofereceu uma cadeira de rodas. Mas, a cada dia que passava, a família perdia a esperança de ver o miúdo totalmente recuperado, pois a direcção do hospital dava indícios de que já nada tinha a fazer, além da assistência fisioterapêutica ao doente.

Hospital maltrata família Em declarações ao Semanário Angolense, a família informou

O PEQUENO Paulo, antes e depois da cirurgia que tentava manter diálogo amigável com a direcção hospitalar, mas era tratada como se fosse verdadeiros «Zé-ninguém», mesmo depois de terem proposto que o menino fosse encaminhado à Junta Médica ou para o exterior do país, a fim de ser submetido a outra intervenção cirúrgica. «Passados três meses, desde a conversação, nada está a ser feito para nosso agrado, aliás só nos maltratam ainda mais. Agora estamos proibidos de entrar no hospital, deram ordens aos seguranças para nos expulsarem. Tiraram tudo que o menino tinha, desde os lençóis até à própria cadeira de rodas que haviam oferecido, deixaram-no atirado à cama simples, já não lhe é dada a medicação regularmente e a fisioterapeuta aparece quando quer», reclamou a mãe da criança, com o semblante triste e banhada em lágrimas. Agastados com a situação e sem saberem a quem recorrer, até porque a direcção do hospital implorou-os, depois de terem assinado um memorando de entendimento, a não recorrerem à Imprensa, os familiares de Paulo romperam o acordo e aceitaram conversar exclusivamente com o SA, pois além de ter sido interrompida a devida assistên-

cia, também lhe foi retirado o direito à alimentação. O nosso jornal, mesmo sabendo que a direcção não se pronunciaria a respeito – tem a mania da burocracia das cartas -, fez um esforço para ouvir a outra parte, mas, infelizmente, tal como previmos, a resposta continua a ser a mesma: «precisamos da autorização do ministério de tutela para nos pronunciarmos». Segundo um documento, a que tivemos acesso, assinado pela sua directora, Constantina Furtado Machado, o hospital reconhece que, a partir da Secção de Cirurgia do Serviço de Urgência, foi diagnosticada fractura dos ossos do antebraço e que, durante a intervenção cirúrgica, houve uma paragem cardiorrespiratória inesperada, que resultou em lesão cerebral hipóxica grave, apesar de todas as medidas e cuidados médicos efectuados. O documento defende que o referido hospital tem garantido a assistência médica e medicamentosa aos seus utentes, em especial, no caso do Paulo, por ter sido verificado, após vários exames específicos e interconsultas com especialidades relacionadas, que o doente apresenta sequelas cerebrais permanentes.

HAB compromete-se mas não honra No entanto, merece ser apoiado no desenvolvimento integral e/ou integração da criança na sociedade, de acordo os artigos 501º, 500º e 497º, ambos do Código Civil. Apesar de não estar a cumprir, segundo os familiares, está estabelecido ainda no documentado que o HAB compromete-se a garantir assistência médica preferencial, com acesso facilitado às consultas de especialidade e internamento; assistência médica privilegiada de fisioterapia; suplemento alimentar, visando proporcionar bom crescimento e desenvolvimento da criança, e atribuição de uma cadeira de rodas. O documento assegura que, em caso de surgirem causas de força maior que impossibilitem alguma das partes de cumprir com o seu dever, a parte faltosa tem a obrigação de informar à outra e procurar alternativas. Para os familiares, o hospital não cumpriu com o que foi acordado, sua obrigação, aliás, nem sequer prestou qualquer informação. O Hospital Américo Boavida tem sido um péssimo exemplo, nos últimos anos, em questões que dizem respeito à competência médica. Além do lastimável

funcionamento dos serviços de urgência, a morgue ou assistência médica, colecciona um número avultado de mortes diárias. Fontes seguras disseram a este jornal que estudantes finalistas da Faculdade de Medicina, da Universidade Agostinho Neto, por exemplo, que estão a estagiar naquela unidade hospitalar, não têm tido o devido acompanhamento por parte daqueles que já exercem a profissão há bastante tempo, colocando assim a vida de doentes em risco de ser passada dosagens, aplicar-se soro ou uma injecção erradamente. No quadro das negligências, o «caso Mingota» tem maior destaque, por ter causado a morte da pobre jovem e ter chegado à Imprensa local, e não só. Casos idênticos têm vindo a ocorrer, nos últimos tempos, mas não chegam a ser reportados, porque, segundo a nossa fonte, a direcção hospitalar tem arranjado formas de os abafar. O Semanário Angolense noticiou recentemente um caso de negligência médica daquela instituição, que culminou com a amputação do braço esquerdo de uma bebé, depois de lhe ter sido mal colocada uma agulha, que provocou uma ferida no braço, tendo gangrenado ao fim de três dias. A acção de amputação do braço, da pequena Lentina Miguel José, de sete meses de idade, foi protagonizada por uma enfermeira identificada como Rosa, que, quando questionada pelo progenitor da criança sobre o estado do braço, a coadjuvante do médico disse que «não havia problema, era uma questão de passar somente álcool e ficaria curado». Infelizmente, não foi o que aconteceu. Entretanto, depois que se apercebeu das consequências da sua negligência, a enfermeira Rosa então desaparecera. Na altura, uma médica, de nome Lina, pedira ao jovem pai, 19 anos, que abafasse o caso, reconhecendo que o nome do hospital tem sido citado pelas piores referências. Prometera aos pais da pequena, prótese, tratamento de fisioterapia, assistência médica e alimentar.


33 Economia

Sábado, 07 de Abril de 2012.

No$$o Kumbú Taxas de câmbio*

Sonangol em hospital da «tuga» A Sonangol tenciona concorrer à privatização da HPP-Hospitais Privados de Portugal, holding da CGD-Caixa Geral de Depósitos para o sector hospitalar segundo foi comunicado ao ministro das Finanças de Portugal, Victor Gaspar, quando esteve em Luanda. O sector hospitalar é uma das áreas de negócio extra petrolíferas da Sonangol. A sua entrada no capital da HPP está aparentemente relacionada com planos que visam impulsionar um projecto, acertado em 2009, com vista à criação em Angola de um banco de desenvolvimento cujos accionistas, em partes iguais de 50%, serão a petrolífera e a CGD. O capital do novo banco, a lançar ainda em 2012, é de USD 400 milhões.

Emanha eleva produção de granito A EMANHA, transformadora de granito de Lubango - Huíla, aumentou este ano a sua capacidade de produção de 60 para 80 mil metros cúbicos de ladrilho e cantaria, para responder a procura. Neste momento a empresa está a processar granito negro e rosa, e calcários diversos. Possui duas linhas de produção avaliadas em 10 milhões de dólares e conta com 70 empregados. A fábrica iniciou a produção em 2002. Os seus produtos, além do consumo nacional, são exportados para Espanha, Portugal, Alemanha e China.

Barragem em reabilitação no Cunene Com o objectivo de apetrechar a barragem de duas centrais hídricas, um novo canal e 21 pivôs de irrigação, a Hidroeléctrica do Calueque, em Ombadja - Cunene, construída em 1974, será reabilitada e ampliada ainda este ano. A empreitada, a cargo do consórcio das empresas Mota Engil, Lyon e António Moço, está orçada em 225 milhões de dólares e vai durar 25 meses. As obras da barragem de Calueque, a 192 quilómetro a noroeste de Ondjiva, não foram concluídas devido à invasão do exército sul-africano ao sul de Angola, durante a luta de ocupação do território namibiano.

Estaleiro naval no Porto Amboim Denominado Porto Amboim Estaleiros Navais (PAEN), começou a ser erguido em 2007 por uma empresa adstrita a Sonangol, que participa com 40% de ações tendo como associadas a SBW Chip Yard e a Daewo com 30% cada. O empreendimento, cujos custos não foram revelados, ocupa uma área de 23 hectares, e é considerado um dos mais modernos e o maior do continente africano. O estaleiro que entrará em pleno funcionamento apenas em 2013 servirá para apoiar as empresas que atuam no mar.

Angola tem muito peixe Investigação pesqueira realizada no decorrer do mês de Março no mar angolano pelo Instituto Nacional de Investigação indica haver mais peixe no mar angolano em relação ao ano de 2011. Um cruzeiro composto por técnicos angolanos e noruegueses, partiu dia 1 de Março passando para várias zonas e culminou a sua pesquisa após um mês. Quanto a qualidade do peixe que mais abunda no mar, nota-se uma grande presença da sardinha com maior realce na região do Tômbwa, e do carapau com maior aglomeração na Baía dos Tigres.

Distribuição alimentar

Concorrência «fobada» movimenta grandes lojas Enquanto o «Continente» – está para abrir a sua primeira loja, a Jerónimo Martins, outra lusa, já vaino seu terceiro estabelecimento e o Kero expande-se também no nicho das lojas de menor dimensão - super e mini-mercados. As redes Poupa Lá e Nosso Super ressurgem no horizonte sob nova gestão. Contudo, esse sector ainda tem muito que andar.

A

marca de hipermercado «Continente» abriu negociações com o grupo Melo Xavier, tendo em vista a aquisição de um vasto terreno que este possui em Talatona, para a instalação do seu primeiro hipermercado em Angola, incorporado num centro comercial de grandes dimensões, segundo informação da Africamonitor. Com escritórios instalados em Luanda, o «Continente» (Angola) é uma sociedade recém-constituída entre a empresa portuguesa Sonae (49%), do empresário Paulo Azevedo, e a «Condis» (51%). De acordo com a Africamonitor, está prevista, de momento, a implantação de três hipermercados em diferentes pontos do país, cuja gestão operacional ficará a cargo da Sonae. A Jerónimo Martins, outro grupo português do sector da distribuição alimentar (reta-

lho), que também recentemente entrou no mercado angolano, já abriu um «cash and carry» no Benfica, distrito da Samba, onde comercializa a sua gama de produtos Master Chef, conforme veiculado pela mesma fonte. A empresa lusitana tem planos de abrir brevemente um novo supermercado no centro comercial SCORE, no Nova Vida, Kilamba Kiaxi, pontualiza o Africamonitor, anunciado que o seu terceiro «cash and carry» será aberto na Boavista, Ingombota. O Kero, que recentemente abriu as suas duas primeiras grandes superfícies no Nova Vida e no Kilamba, planeia, ainda, em 2012, inaugurar mais três estabelecimentos em Luanda, estando igualmente a expandir-se no nicho das lojas de menor dimensão (super ou mini-mercados). Um dos três estabelecimentos desta natureza situa-se nos Combaten-

tes, na antiga Sodispal (uma loja do tipo supermercado, instalada pela Sonangol para uso dos seus trabalhadores, mas que fechou as portas) A Alienta Angola, com sócios indianos e brasileiros e cuja actividade se baseia predominantemente na comercialização de produtos de origem brasileira e portuguesa, é outra empresa a concorrer nesse sector. A sociedade prepara-se para abrir uma segunda loja no Kamama, após o sucesso da sua primeira grande superfície, na Estalagem de Viana. A mesma fonte de informação avança que está também em vias de reabertura a rede de lojas Poupa Lá, agora sob a gestão do Entreposto de Angola (cinco lojas), decorrendo preparativos para a reabertura da rede Nosso Super, sob a gestão da Odebrecht, em parceria com investidores nacionais ainda desconhecidos.


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Sábado, 07 de Abril de 2012.

Economia Compra consumada do BPN

BIC deixa a «maka» entre os «tugas» O processo de privatização do Banco Português de Negócios partiu de uma situação de irregularidades. O Banco BIC surgiu nessa história quando resolveu adquirir o BPN. Sobraram para ele certas «sombras» que já faziam parte da administração do banco português – que, de 180 milhões de euros, acabou por ser vendido por 40 milhões de euros, para que não fosse liquidado. O Banco BIC fechou o negócio mas a «maka» do BPN, para os portugueses, ainda não chegou ao fim. N. Talapaxi S.

Q

uando o Banco BIC deu início às suas actividades em Portugal, em Maio de 2008, o Banco Português de Negócios (BPN) já se encontrava no epicentro de um alvoroço, referente à denúncia de vários crimes financeiros que, alegadamente, teriam ocorrido ao nível da gestão da instituição, com quadros superiores à cabeça. A falta de clareza na estrutura do BPN - desde 2001 incluía a Sociedade Lusa de Negócios (SLN), uma «holding» destinada a agregar os investimentos não financeiros – já tinha sido questionada pelo Banco de Portugal (BdP). Nessa altura, em finais de 2008, o governo luso propunha a nacionalização do BPN, após a descoberta de um «buraco» de 700 milhões de euros, que durante anos foi ocultado através do Banco Insular de Cabo Verde, comprado pelo grupo BPN/SLN, em 2002, sem dizer nada ao BdP. No prosseguimento dos factos, a Assembleia da República portuguesa tinha aprovado a nacionalização do BPN, não obstante o então presidente da instituição, Miguel Cadilhe, a ter considerado «desproporcionada» e motivada por razões «políticas». Mas só em 2009, o governo aprovaria a reprivatização do banco, tendo 95 % do capital estado ao dispor de concurso público, enquanto os outros 5% se destinariam aos trabalhadores. O valor mínimo previsto para privatizar o Banco Português de Negócios era de 180 milhões de euros e a venda deveria acontecer até finais de 2010, mas não tinha sido achado nenhum comprador. Todavia, apesar disso sabe-se que a administração do BPN havia pedido ao Ministério português das Finanças um aumento de capital de um máximo de 500 milhões de euros. Na sequência do fracasso dessa primeira tentativa de reprivatização, a venda do BPN surgiu como uma das exigências do memorando, que, no ano passado, o governo luso assinou com a «troika» do FMI (Fundo Monetário Interna-

cional), Banco Central Europeu (BCE) e a Comissão Europeia. O memorando inseria-se no âmbito do pedido de Portugal de um empréstimo de 78 bilhões de euros, destinados a pagar os juros de uma dívida que o país tinha com as instituições financeiras internacionais. Dessa vez, no contexto do memorando, nenhum preço mínimo tinha sido acordado para a venda do BPN e um comprador teria de ser encontrado até Julho, do contrário, a liquidação da instituição bancária portuguesa seria inevitável.

Foi aparentemente nesse momento da história que o caminho então escandaloso do BPN se veio a cruzar o com os intentos do Banco BIC. Lançado o concurso para a privatização do banco português, três propostas estavam em jogo: a do Montepio (uma associação portuguesa mutualista de inscrição facultativa, com mais de cem anos de vida, capital variável e número ilimitado de associados), a do Núcleo Estratégico de Investidores (NEI), um grupo constituído por 15 empresários lusitanos que se uniram

para comprar o BPN, e a do banco luso-angolano. Em Julho de 2011, o Ministério lusitano das Finanças decidiu vender o Banco Português de Negócios ao Banco BIC de Portugal, uma transação que implicaria um pagamento de 40 milhões de euros (preço muito abaixo dos 180 milhões de euros iniciais). Segundo divulgado pelo próprio Ministério português das Finanças no ano passado, o governo previa perder com o BPN 2,4 biliões de euros, no entanto, sabe-se pela boca da imprensa,

que esse mesmo governo pretendia fazer um aumento de capital de 600 milhões de euros ao valor do banco à venda, uma quantia superior aos 500 milhões de euros previstos. A Comissão Europeia autorizou a reestruturação do BPN e após algumas exigências de Bruxelas, como a cobrança de «spread» (diferença entre o preço de compra e de venda da mesma acção, título ou transação monetária) pela Caixa Geral de Depósitos, caso o banco em privatização necessite de um crédito de até 300 milhões de euros. O comissário europeu da Concorrência, Joaquín Almunia, assegurou que o executivo comunitário não teria autorizado a venda do BPN, se os custos para os contribuintes portugueses fossem superiores aos da liquidação do banco. No passado dia 30 de Março, último dia do acordo estabelecido segundo o memorando lusotroika, o negócio foi consumado, com a assinatura do contrato de compra e venda do BPN entre o Estado português e o Banco BIC. Na conferência de Imprensa que se seguiu, os novos donos do BPN proferiram que, se a privatização do banco fosse hoje, custaria menos do que os 40 milhões de euros que desembolsaram. Para o governo luso, a privatização nesses moldes foi mais benéfica do que teria sido uma liquidação do banco. Talvez por isso os administradores do banco luso-angolano tenham sido chamados de Luanda para fechar a transação, como revelaram no encontro com os jornalistas. Segundo eles, na capital angolana já estavam convencidos a desistir do negócio. Todavia, Fernando Teles, o Presidente do Conselho de Administrador do BIC, e a sua equipa só «se esqueceram» de dizer os motivos que os teriam levado a abster-se da transação que já estava em curso. Tudo indica que as razões devem estar ligadas à «maka» que envolveu todo o processo do negócio. Embora a venda se tenha consumado, para os portugueses, a trama ainda não chegou ao fim.


35 Economia

Sábado, 07 de Abril de 2012.

Banco angolano satisfeito

Imbondeiro agora nas fachadas P

ara Fernando Teles, PCA do BIC, em declarações proferidas aos órgãos de informação depois de se ter consumado a compra do BPN, um dos ganhos a considerar é o facto de ter acesso «a uma rede de retalho à escala nacional (portuguesa)». O administrador-mor do banco luso-angolano assegurou que a instituição tem condições de liquidez e capital para dar mais apoio aos particulares e empresas. Pelo facto de o Banco BIC ter sido concebido com os principais objectivos virados ao apoio para os empresários que quisessem uma «ponte» a partir de Portugal na expansão dos seus negócios para a Europa, a instituição está tradicionalmente mais focado na banca de empresas e de investimento. No entanto, Fernando Teles observou que a empresa que dirige está consciente de

que está a entrar num negócio que «pode ser bom», mas também dos riscos que correr. Os responsáveis do BIC lembraram que o compromisso estabelecido com o governo português, desde 2011, é de manter, pelo menos, 750 dos 1500 trabalhadores e 160 balcões. Entretanto, Fernando Teles salientou que o objectivo é tentar manter 1000 postos de trabalho e o máximo número de agências. A integração total do BPN no BIC vai acontecer quando os trabalhadores venderem a sua parte accionaria, correspondente a cerca de 0,5% do banco privatizado. Mas, desde já, a mudança vai acontecer nas fachadas de todos os edifícios e agências que pertenciam ao BPN. O imbondeiro do logotipo do Banco BIC toma o seu lugar.

Depois do BPN de Portugal

Mapa geológico angolano indica

De olho em Cabo Verde e no Brasil

«Kamanga» sem tamanho

C

om a consumação da aquisição do BPN de Portugal, o Banco BIC deve analisar naturalmente a possibilidade de agregar os negócios activos do antigo banco em outros quadrantes, como é o caso do BPN IFI. O banco angolano espera examinar a compra do BPN IFI, de acordo com o administrador do BIC, Jaime Pereira, no encontro com profissionais da Imprensa depois da assinatura do contrato de compra e venda do Banco Português de Negócios. Na ocasião, o bancário explicou que Cabo Verde é, assumidamente, um dos países onde o BIC quer estar. Para o efeito, está a ser preparado um pedido de licença para operar no mercado do arquipélago, através de uma instituição financeira internacional (IFI). A compra do BPN limitou-se à instituição existente em Portugal, que conta com cerca de 1500 colaboradores e mais de 200 agências. Os activos como o BPN IFI, o BPN Crédito, o BPN Brasil e outros, não faziam parte da transação. O BPN IFI era um dos activos detidos pelo antigo grupo BPN/SLN, em Cabo Verde, onde, através do Banco Insular, terão sido praticadas várias irregularidades no passado. Actualmente, o BPN IFI faz parte de uma iniciativa criada pelo Estado português para os activos problemáticos do BPN. Além do BPN IFI de Cabo Verde, ao Banco BIC interessa igualmente sondar e analisar o caso do BPN Brasil Banco Múltiplo S.A., uma sociedade de capitais do BPN Participações Financeiras (86,48%) e do Banco Angolano de Investimentos – BAI (13,52). Criado em 2003, o BPN Brasil, actua nas áreas de crédito e financiamento, comércio exterior, investimento, entre outras. N.T. S.

Pesquisa, levada a cabo pela empresa russa Alrosa, considera que, em Angola, o potencial de depósitos de diamantes ainda não descobertos é muito elevado, de acordo com as indicações constatadas por meio dos jazigos aluvionares existentes. Os resultados apresentados têm um carácter preliminar, mas até ao final do ano, há a intenção de terminar a primeira etapa dessa cooperação.

O

conselheiro principal do presidente da Alrosa, Serguey Mitinhkin, disse na semana que hoje, 07, termina que a primeira etapa preliminar de elaboração do mapa geológico de Angola, referente à parte nordeste do país, com indicações de existência de kimberliticos e aluvionares, já se encontra concluída. O responsável prestou esta informação quando falava numa palestra de apresentação do estudo sobre investigação geológico-mineira para permitir a criação do mapa geofísico e mineralógico das áreas diamantíferas no país. Serguey Mitinhkin explicou que os trabalhos, iniciados em Maio do ano transacto, incidiram em diferentes camadas, como áreas de concessões de potencial diamantífero e kimberliticas e outras que representam diferentes formações. Adiantou, de igual modo, que há muita probabilidade deexistência de campos ainda não detectados até ao momento, devido à exiguidade dos campos kimberliticos no nordeste do país.

«Nesta zona, 50% dos campos kimberliticos ainda não foram descobertos», afirmou o empresário russo. Ainda segundo o conselheiro da Alrosa, para um melhor desempenho do trabalho, é necessário que os dados geofísicos levantados pelas concessionárias sejam entregues de forma digitalizada, de modo a que o estudo seja desenvolvido com maior eficácia. Entretanto, o chefe do departamento de descobertas de potencial geológico dos novos territórios da Alrosa, Victor Ustinov, adiantou na ocasião que também existem kimberlitos no sudeste do país. Nesta

zona, ajuntou, existem depósitos aluvionares e kimberliticos que, na sua óptica, devem ser estudados. O grupo Alrosa continua a fazer a recolha de materiais geofísicos, no quadro da cooperação que mantém com a Empresa Nacional de Diamantes de Angola (Endiama) EP. «Os resultados apresentados têm um carácter preliminar e, até ao final de 2012, temos a intenção de terminar a primeira etapa da nossa cooperação», adiantou. Nesta primeira fase, figuram no estudo geofísico do território angolano, as áreas de geologia, de distribuição dos corpos kimberliticos, bem como as dos depósitos aluvionares. Até ao momento foram descobertos no país mais de mil kimberlitos. Para descobrir um kimberlito é necessário encontrar até duzentas chaminés kimberliticas, que vão constituir um campo kimberlitico. «Nós consideramos que, em Angola, o potencial de depósitos de diamantes ainda não descobertos é muito elevado, porque os indicadores mostram que são os jazigos aluvionares existentes», reiterou a concluir.


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Sábado, 07 de Abril de 2012.

Internacional Depois de soltos, serão deportados do Paquistão

Familiares de Bin Laden condenados a 45 dias de prisão

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rês viúvas e duas filhas de Osama bin Laden foram condenadas a 45 dias de prisão por estarem no Paquistão em situação ilegal. Após o cumprimento da pena, serão deportadas para os seus países de origem. As familiares do ex-líder da Al-Qaeda vão ser libertadas dentro de duas semanas, já que estão detidas desde o dia 3 de Março, e serão depois deportadas para os seus países de origem, avançou um dos advogados, Aamir Khalil, citado pela agência Reuters. «Foram condenadas a 45 dias de prisão e multadas em 10 mil rupias [81 euros] cada. As multas foram pagas no momento da decisão», avançou o advogado. Alguns analistas citados pela Reuters consideram que as viúvas e as filhas de Bin Laden poderão

revelar segredos sobre a alegada conivência das autoridades paquistanesas na estadia do ex-líder da Al-Qaeda no país, onde se escondeu durante anos das autoridades norte-americanas. Os responsáveis políticos do Paquistão negaram sempre qualquer envolvimento na fuga de Osama bin Laden aos EUA. Bin Laden foi morto em Maio do ano passado num ataque das forças especiais norte-americanas em Abbottabad, uma localidade situada a duas horas da capital Islamabad. A viúva mais jovem de Bin Laden, Amal Al-Sadeh, natural do Iémen, as suas quatro filhas e duas outras viúvas do antigo líder da Al-Qaeda estavam entre as 16 pessoas detidas pelas autoridades paquistanesas após o ataque norte-americano.

OS FAMILIARES DE BIN LADEN estavam detidos desde 3 de Março (Foto: Faisal Mahmood/Reuters)

Segundo a uma das mulheres do ex-líder da Al-Qaeda

Bin Laden teve 4 filhos e viveu em 5 casas após o 11 de Setembro

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líder da Al-Qaeda era um dos homens mais procurados do mundo, mas enquanto vivia clandestinamente teve mais quatro filhos e viveu em cinco casas nos anos que se seguiram aos atentados de 11 de Setembro de 2001, contou à polícia a mais jovem das suas mulheres. Osama Bin Laden foi morto numa operação das forças especiais norte-americanas em Maio do ano passado, no Paquistão. Com ele estavam várias crianças e mulheres, entre elas a iemenita Amal Abdul Fateh, que contou às autoridades paquistanesas alguns pormenores sobre a vida do líder da Al-Qaeda nos anos que se seguiram aos atentados que derrubaram as Torres Gémeas de Nova Iorque. Amal tem 30 anos, é a mais jovem das mulheres de Bin Laden e ficou retida pelas autoridades paquistanesas logo após a operação norte-americana em que foi tomada de assalto a casa onde o líder da Al-Qaeda vivia com a família na localidade de Abbottabad. O seu depoimento, ou parte dele, relata a fuga de Bin Laden do Afeganistão após a intervenção militar norte-americana em 2001, e conta também o nascimento de quatro filhos, dois deles em hospitais públicos. No relatório da polícia a que a AFP teve acesso, com a data de 19 de Janeiro, Amal conta que entrou legalmente no Paquistão em Julho de 2000 e depois deslocou-se a Kandahar, no Sul do Afeganistão. Terá sido aí que casou com Bin Laden, a cidade era então um bastião dos taliban.

POLÍCIA PAQUISTANESA guarda a casa onde Bin Laden foi morto, em Abbottabad (Aamir Qureshi) A família acabou por separar-se após os atentados de 11 de Setembro, quando Bin Laden se tornou no homem mais procurado do mundo. Amal diz ter-se refugiado em Carachi, no Paquistão, com Safia, a primeira filha do casal. Contou na altura com a ajuda do filho mais velho de Bin Laden, Saad, vol-

tou a encontrar-se mais tarde com o líder da Al-Qaeda em Peshawar, também no Paquistão. Segundo o relatório da polícia citado pela AFP, não voltariam a separar-se até ao dia em que foram capturados. Mantiveram-se naquela região entre 2002 e 2005, primeiro em Swat, depois em

Haripur, a hora e meia de Islamabad, até que se instalaram em Abbottabad. Nesse tempo, já após o 11 de Setembro, Amal de Bin Laden tiveram quatro filhos. Dois nasceram em Haripur, uma rapariga em 2003 e um rapaz em 2004, ambos no hospital local onde Amal ficou apenas «duas ou três horas». Já em Abbottabad nasceram outra rapariga, Zainab, em 2006, e um rapaz, Hussein, em 2008. As autoridades paquistanesas já anunciaram que vão acusar Amal e outras duas mulheres de Bin Laden encontradas na casa de Abbottabad – bem como as filhas adultas de Bin Laden, Maryam, de 21 anos, e Sumaya, de 20 – de entrada ilegal no país. Nenhuma delas apareceu em público após a captura de Bin Laden, e só Amal aceitou colaborar com a polícia e prestar declarações. A operação norte-americana aumentou a tensão entre os EUA e o Paquistão. As autoridades de Islamabad não foram informadas da operação e nos EUA questionouse como foi possível o líder da Al-Qaeda viver tanto tempo em território paquistanês sem ter sido detectado pelos serviços de informação e sem qualquer espécie de conivência por parte das autoridades. O depoimento de Amal foi também divulgado pelo jornal paquistanês Dawn e pelo The New York Times. Em Washington não houve comentários sobre o teor das declarações, mas responsáveis norte-americanos consideraram que condizem com as movimentações que se conhecem do líder da Al-Qaeda.


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Sábado, 07 de Abril de 2012.

França alerta para avanço da Al-Qaeda no Magrebe

Mais de 200 mil pessoas fugiram aos confrontos no Mali A junta militar que tomou o poder no Mali pediu ajuda internacional para conter a rebelião no Norte do país (Luc Gnago/Reuters) Os confrontos no Mali já levaram cerca de 200.000 pessoas a abandonar as suas casas desde Janeiro, segundo a ONU, mas a situação está a piorar com o golpe militar da semana passada e a escalada dos rebeldes tuaregues que controlam o Norte do país.

O

golpe militar que depôs o Presidente Amadou Touré e os confrontos entre soldados e grupos armados de rebeldes tuaregues no Norte do país deixaram o Mali à beira de uma crise humanitária. «O Norte do país está a tornar-se cada vez mais perigoso devido à proliferação de grupos armados», sublinhou Melissa Fleming, porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Os confrontos entre forças governamentais e rebeldes tuaregues intensificaram-se em Janeiro. Cerca de metade das 200.000 pessoas que fugiram à violência mantiveram-se no país e tornaram-se deslocados internos, mas muitos milhares atravessaram a fronteira em direcção à Mauritânia, Níger, Burkina Faso ou Argélia. Só nestes últimos cinco dias atravessaram a fronteira para o Burkina Faso ou Mauritânia mais de 2000 pessoas, segundo o ACNUR. Estarão já cerca de 23.000 malianos no Burkina Faso, 46.000 na Mauritânia e 25.000 no Níger. Vários refugiados contaram aos responsáveis da ACNUR que em muitos locais houve pilhagens e assaltos levados a cabo por gru-

pos armados e há também falta de comida. A crise deverá intensificar-se depois de, nesta segunda-feira, os países vizinhos do Mali, que integram a Comunidade dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) terem aprovado sanções económicas e diplomáticas para forçar os militares que levaram a cabo o golpe de Estado a deixar o poder. A justificação para o golpe foi a incapacidade do Governo de Amadou Touré para travar a rebelião no Norte do país, mas esta intensificou-se após a intervenção dos militares. Os tuaregues, apoiados por grupos islamistas, já assumiram o controlo de diversas cidades, incluindo a mítica Tombuctu. Nesta terça-feira, a União Africana também aprovou sanções contra a junta militar e os rebeldes, incluindo o congelamento de bens de chefes militares ou líderes tuaregues e a proibição de viajar.

França alerta contra «perigo islamista» A crise no Mali está suscitar o receio de um aumento do extremismo islâmico, sobretudo

quando surgem relatos de envolvimento de elementos da Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI) na revolta independentista dos rebeldes tuaregues. O chefe da diplomacia francesa, Alain Juppé, disse à AFP que a França está a procurar alertar, ao nível regional e junto do Conselho de Segurança da ONU, contra o “perigo islamista” na região do Sael e contra a AQMI (que já várias vezes raptou cidadãos franceses, que já várias vezes terminaram na morte dos raptados). «Alguns rebeldes poderão contentar-se com o controlo de territórios no Norte do Mali, mas outros, juntamente com a AQMI, poderão querer tomar todo o território do Mali para o transformar numa república islamista», adiantou Juppé. O ministro dos Negócios Estrangeiros francês deu como exemplo o grupo de rebeldes Ansar Dine, que controla a cidade de Tombuctu «e tem estreitas ligações com a AQMI». A França também alertou para a questão os parceiros do Conselho de Segurança da ONU, onde já foi aprovado um acordo de princípio sobre uma declaração relativa ao Mali, que deverá ser aprovado nas próximas horas.

Líder deposto diz que não é prisioneiro

O

presidente deposto em Mali, Amadou Toumani Touré, afirmou na semana passada que está na capital de Bamaco e não é prisioneiro. «Estou bem em Bamaco e, graças a Deus, eu e minha família estamos todos bem», disse à agência France Press por telefone. Revolta: Soldados saqueiam palácio presidencial em Mali Desde o golpe de Estado de 22 de Março, o paradeiro de Touré era incerto. À agência, no entanto, ele não quis dar mais detalhes sobre onde está. «Faz diferença? O que é importante saber é que não sou prisioneiro». «Evidentemente estou acompanhando o que está acontecendo. Eu desejo de todo coração que a paz e a democracia triunfem em Mali», acrescentou. O chefe da junta militar responsável pelo golpe de Estado, o capitão Amadou Sanogo, havia assegurado que o estado de saúde do presidente era bom e que estava em segurança, sem dar mais informações. Autoridades francesas e marfinenses afirmaram que

MALINENSE conversa com membros das forças de segurança que patrulham a capital Bamaco conseguiram ter contacto com o presidente deposto na terça-feira passada.

A junta militar, que tomou o poder, suspendeu o toque de recolher que havia

imposto, embora os militares continuem postados em locais estratégicos da capital. Militares e policiais patrulham as ruas e reforçam seu desdobramento em torno das instalações da rádio e da televisão estatais, assim como em bancos e postos de gasolina. Os militares no poder confirmaram a reabertura do espaço aéreo e das fronteiras terrestres, fechadas após o golpe de Estado, e a decisão de reabri-las foi atribuída à necessidade de abastecimento. Também nesta quarta-feira, a junta anunciou ter adoptado uma nova «acta fundamental» constitucional, depois da suspensão da Carta com o golpe de Estado de 22 de Março. O documento, que tem 70 artigos e funcionará como Constituição durante o período de transição, prevê a intenção de «perpetuar um Estado de Direito e de democracia pluralista» no qual «os direitos fundamentais do homem (...) estão garantidos». Além disso, confirma a realização de eleições previstas para Abril.


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Sábado, 07 de Abril de 2012.

Cultura Livros e jornais históricos fora dos escaparates

Acervo da Biblioteca Municipal de Luanda «aliviado» L

ivros e jornais «históricos» terão sumido da Biblioteca Municipal de Luanda (BML), pertença do GPL, segundo revelou recentemente o site «Maka Angola», que diz ter constatado o facto no local. Segundo a notícia daquela publicação on-line, os livros, colectâneas inteiras de jornais, incluindo o antigo Boletim Oficial foram dados como desaparecidos, depois de terem sido requisitados, sobretudo por titulares de cargos públicos, que não os terão devolvido à BML. «Os títulos de periódicos mais em falta são A Província de Angola, O Diário de Luanda, O Comércio e o ABC, principalmente de 1975, ano em que Angola se tornou politicamente independente de Portugal. Embora não tão gritantes como as de 1975, as falhas registam-se também no período

entre 1972 e 1974, além do ano de 1961», lê-se no site, que tem à testa o jornalista e investigador Rafael Marques. O jornal, que atribui igualmente responsabilidades pelas falhas aos funcionários da própria biblioteca, afirma que as possibilidades de reaver o material «subtraído» são praticamente diminutas, embora a BML possua uma lista das pessoas que haviam requisitado os livros. Não menos grave será o facto de que os requisitantes já não estarem em posse das obras, por as terem emprestado a terceiros, alguns dos quais são dados como falecidos. Ou, no pior dos cenários, as mesmas terem ido parar ao lixo. «Estranhamente, a direcção da BML possui a lista de todas as pessoas detentoras das preciosidades dali subtraídas, mas nada pode fazer por temer de represálias,

visto tratar-se de governantes, deputados ou pessoas bem colocadas na hierarquia do GPL», observa o «Maka Angola». Confrontado com o facto, na terça-feira, 03, o director da BML, António Brito, disse ao Semanário Angolense que a notícia veiculada pelo referido site «não corresponde à verdade», por, segundo ele, «não ser prática da biblioteca emprestar livros, a quem quer que seja». Algo surpreendido com a informação, afirmou que o acervo bibliotecário se encontrava «intacto», desafiando, por fim, o articulista a visitá-lo… Tida como uma das mais antigas bibliotecas de África, a BML foi fundada pelo vereador da antiga Câmara Municipal de Luanda, Alfredo Trony, aos 3 de Dezembro de 1873. Ilídio Manuel


39 Cultura

Sábado, 07 de Abril de 2012.

Estratégia do poder colonial em Angola

Do assimilacionismo à mania de «afinar» o português Teresa Silva e Silva (**)

A

língua portuguesa, em Angola, num primeiro momento, foi utilizada como instrumento de imposição repressiva feita pelo poder colonialista aos nativos africanos. Num segundo estádio, ela transformou-se num instrumento de emancipação (acto de libertação do jugo daquela autoridade) ao ser apropriada pela elite de nativos africanos que a dominava. Evidenciando-se no cenário angolano como um meio eficaz de luta para expulsar os opressores coloniais – e, curiosamente, constituindo-se como elemento de identidade nacional. Após a Constituição de 1933 e a instauração do regime ditatorial do Estado Novo, em três colónias africanas portuguesas – Angola, Guiné-Bissau e Moçambique – foi aplicado o princípio do «assimilacionismo» como forma de ascensão social. Era o princípio que permitia que um negro, ou mestiço, fosse reconhecido oficialmente como «assimilado» (termo usado para designar o africano, como um ser não-indígena, que pudesse atingir o mesmo status legal que um branco europeu. Esse ser - «o assimilado» - tinha que reunir algumas condições: ter 18 anos de idade; saber ler, escrever e falar português com alguma fluência; ser trabalhador assalariado; comer, vestir e ter a mesma religião que os portugueses; manter um padrão de vida e de costumes semelhante ao estilo de vida europeu; e não ter cadastro na polícia. Em 1961, com o começo da guerra colonial, o Governo português procurou criar, em todo o território angolano, uma maior rede de estabelecimentos escolares e promover a língua e a cultura portuguesas para um maior número de angolanos. Com isso, a 6 de Setembro daquele ano, foi abolida a Lei do Indigenato, quando Adriano Moreira foi ministro do Ultramar. Só a partir desta data é que os negros deixaram oficialmente de ser divididos em duas categorias: «assimilados» e indígenas. Apesar do esforço tardio levado a cabo pela administração

colonialista portuguesa, as repercussões ao nível da escolaridade primária não se tornaram imediatamente visíveis, embora tenham melhorado significativamente. Todavia, em 1973, a terça parte dos alunos de todo o ensino primário era constituída por crianças portuguesas, como resultado do que se chamava de «grande missão civilizadora» levada a cabo pela administração colonial portuguesa que, mesmo ao nível do discurso político, dificultava a aceitação pacífica do conceito de «lusofonia», como resultado dos laços de fraternidade, desde sempre existentes entre lusos e africanos, todos eles incluídos numa mesma estatística de falantes da língua portuguesa. A imposição da língua portuguesa, integrada no regime colonial português em Angola, funcionou como um instrumento de dominação colonial. Durante a colonização a potência colonial implementou a língua da sua metrópole como modelo. A parte má nisso tudo foi que, forçando a implementação da língua portuguesa se tentou, simultaneamente, anular e substituir as línguas existentes no território. E em nome de uma pressuposta acção civilizadora, impuseram-se medidas oficiais contra as línguas indígenas, quando estatuíram o Decreto nº 77, de Norton de Matos, publicados em 1921, que vedava o ensino e o uso das nossas

línguas. Estas medidas que atribuíram uma conotação pejorativa e inferior às nossas línguas, não eram nada mais que um meio de preservar a hegemonia colonial portuguesa e isolar o povo angolano para uma inferioridade cultural, que proporcionou a actual diglossia. O regime colonial pretendia, através da implementação da língua portuguesa, por um lado, uma construção, naquele território, de uma formação unificada como província ultramarino portuguesa e, por outro lado, uma estratificação de poderes através do uso diferencial da língua. Havia, assim, uma correlação entre a posição social, conhecimentos e comportamento linguístico, na sociedade colonial. A língua portuguesa era a única língua de acesso à escrita e a única língua de ensino. E mesmo entre os indivíduos nativos (devido à existência de diferentes etnias, às quais correspondiam línguas nativas diferentes), constituía um instrumento importante na comunicação. Contudo, além deste seu papel prático, a língua portuguesa, na sociedade colonial angolana, revestia-se de simbolismos e significados ligados a forma como se falava o português. Esta reflectia a proveniência social, o meio em que o indivíduo havia sido educado e o grau académico obtido,

aparecendo, portanto, como um indicador da posição social do indivíduo. Com efeito, «o uso da língua portuguesa associava-se, na sociedade colonial ao prestígio social de que o indivíduo gozava, pois quanto mais próximo da linguagem-padrão estava a variedade linguística por ele usada, maior o prestígio de que gozava na sociedade» (Carvalho, Paulo de. 1991. pp.13). O conhecimento da língua portuguesa era um indicativo da ascensão social não só entre os colonizadores e seus descendentes, mas, também entre os próprios nativos africanos. Existia, portanto, na Angola colonial indivíduos que falavam a língua portuguesa entre os colonizadores e seus descendentes; indivíduos que falavam, pelo menos, uma língua nacional e a língua portuguesa; e indivíduos que falavam apenas línguas nacionais. Convém salientar que a forma como se falava o português não equivalia às camadas sociais mais elevadas ou mais baixas da sociedade angolana colonial. Todavia, o negro, mesmo que conseguisse, com muito custo, obter uma formação escolar, profissional e um bom domínio do portuguêspadrão, nunca conseguia o prestígio, o reconhecimento e nem o cargo que um branco com a mesma qualificação, ou até menor, conseguia. Na verdade, o que os intelec-

tuais angolanos pretendiam era uma diferenciação da cultura europeia do colonizador, que significasse a construção de uma identidade própria, expressa como o «sentimento da angolanidade». Para conseguirem a diferenciação pretendida estes intelectuais apropriaram-se, mediante a escrita, elementos e ritmos das línguas nativas africanas. Embora o próprio sistema de escrita os traísse, pois, as línguas nativas provêm de culturas de tradição oral de narração, ou seja, são línguas que têm uma existência de expressão oral. É, então, na transposição da oralidade à escrita que os escritores angolanos se deparam com a traição ao sistema linguístico, porque o tinham e têm de fazer segundo esquemas de adequação que provêm de línguas com existência escrita ou da tradição portuguesa. Logo, é dela que se servem para fornecer o esquema de adequação das línguas orais africanas à escrita. Tornando, portanto, a expressão escrita das línguas regionais numa fuga e num novo encontro com a língua portuguesa. Hoje podemos afirmar que é dessa simbiose entre as línguas que partir a ideia de interacção cultural alcançada a partir de 1970, pelo menos em França, quando se começou a falar de interculturalidade, uma informação cronológica onde podemos encontrar duas concepções que, se dissecadas, segundo AbdallahPretceille, identificam o uso do prefixo «inter» como pressuposto da interacção de duas ou mais culturas, enquanto o prefixo «multi» já não assume e mesma hibridação, mas o convívio de duas culturas estratificadas e hierarquizadas. * Este texto é parte da palestra intitulada «O assimilacionismo na perspectiva do outro», incluída nas Primeiras Jornadas Cientificas da Faculdade de Letras, da Universidade Agostinho Neto - UAN, realizadas em Luanda, em 2011). O título e o pós-título foram atribuídos pelo S.A.

** Mestre e docente da Faculdade de Letras da UAN.


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Sábado, 31 de Março de 2012.

Presidente renuncia por descoberta de plágio em doutoramento

Por: Makiadi

Retiram filhos da escola porque a professora é demasiado sexy

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americana Michela Roth, de 38 anos, dez dos quais vividos em Itália, está envolvida em escândalo não por ser má professora, mas por ser “boa”. De acordo com o “Daily Mail”, Michela fez uma série de fotografias em roupa íntima, que chegaram ao conhecimento dos encarregados de educação da escola onde trabalha. É que Michela é também modelo, para além de ter sido eleita Miss Mãe Italiana num concurso regional. Em consequência disso e apesar de não se tratar de fotos sem roupa (apenas fotos com pouca roupa), muitas mães decidiram retirar os filhos do colégio-creche onde Michela trabalha, na pequena cidade de Castello di Serravalle (província italiana de Bolonia).

O

presidente húngaro Pál Schmitt foi forçado a renunciar ao mais elevado cargo na hierarquia do poder executivo, devido à anulação da sua tese de doutoramento e à consequente retirada do grau de Doutor, por parte da Academia Médica Semmelweis de Budapeste. De acordo com a agência Associated Press, a causa da anulação da tese de doutoramento de Schmitt foi a descoberta de plágio, em 180 das 215 páginas da tese. Se numa só página não é admitido o plágio, o que dizer de pouco mais de 80% de uma tese de doutoramento? O escândalo veio à superfície em Janeiro, quando a revista “HVG” divulgou que a tese de doutoramento de Schmitt, aprovada em 1992, foi reavaliada por descoberta de plágio. Com o título “Reflexão sobre os Jogos Olímpicos modernos”, descobriu-se agora que a maior parte do trabalho contém cópias de outras fontes, que não são sequer citadas.

Indonésia vai proibir mini-saia

O

governo da Indonésia está a preparar uma lei para proibir a utilização de mini-saias no seu território.

Pois é, enquanto na Grã-Bretanha se celebra o decote que mostra parte dos seios femininos, na Indonésia pretende-se a eliminação do “decote” um pouco mais abaixo. De acordo com o semanário português “Expresso”, o Ministério indonésio dos Assuntos Religiosos, poderoso pelo facto de se tratar do país com maior número de muçulmanos, declara que vai ser considerada atitude pornográfica a utilização de saia ou vestido acima do joelho. O argumento é que vestuário feminino provocante conduz os homens a sentir desejo sexual, de modo que “o mal deve ser cortado pela raiz”. Neste caso, a “raiz” fica logo acima dos joelhos femininos…

Deslocou vértebras devido a espirro

Curiosidades 30 de Março foi o Dia do Decote na Inglaterra

A A

australiana Monique Jeffrey, de 28 anos, deslocou duas vértebras com dois espirros, tendo por isso sido submetida a uma delicada intervenção cirúrgica. De acordo com o site “Ninemsn”, referenciado por várias agências de notícias, a jovem australiana espirrou duas vezes, tendo depois sentido uma dor in-

suportável. Só conseguia mover o braço direito, de modo que, tendo o telemóvel junto a si, pôde enviar uma mensagem ao marido, que a socorreu. Se já antes se sabia que se não fecharmos os olhos mecanicamente quando espirramos, eles saltam das órbitas, agora este caso vem uma vez mais revelar que devemos ter muito cuidado com os espirros.

sexta-feira da semana passada foi verdadeiramente o “Dia do Homem” no Reino Unido. É que, a 30 de Março, celebra-se em países britânicos e na África do Sul do Dia do Decote. O jornal “The Huffington Post” dá conta que a data começou a ser celebrada em 2002, por iniciativa da companhia de soutiens Wonderbra, que considera que a mulher deve ter orgulho no decote que utiliza e que deve exibir. Se a moda pega, nós homens começaremos a ansiar pela chegada do 30 de Março. E sempre que calhe numa sexta-feira, melhor ainda para nós, angolanos.

=> Randy Gardner (na foto) detém desde 1965 o recorde mundial de 264 horas sem dormir, que equivalem a 11 exactos dias => Quando uma mulher está grávida, os seus sentidos ficam mais aguçados => A quantidade de lixo produzida nos Estados Unidos da América é tal, que são enchidas

por segundo 2,5 latas de lixo => Uma barra de 28,35 gramas de chocolate possui 6 miligramas de cafeína => 30% dos jogadores de bingo têm menos de 35 anos de idade => Nos Estados Unidos, são vendidos por ano cerca de 4 milhões de litros de cosméticos, loções e bebidas com aloé => A Tailândia é o único país do Sudeste Asiático que não foi colonizado => Um disco de hóquei no gelo é arremessado a uma velocidade que atinge os 240 quilómetros por hora => Nos Estados Unidos, cultivam-se mais de 200 espécies de melancia => Um investigador japonês chegou à conclusão que o consumo moderado de bebidas alcoólicas potencia o coeficiente de inteligência


41 Desporto

Sábado, 07 de Abril de 2012.

Eleições no ASA

«Manu» poderá liderar lista de consenso Tudo agora aponta para uma lista de consenso, em que apenas os sócios deverão decidir o destino do clube, sendo de prever que a candidata Manuela de Oliveira lidere a lista, dado o estado avançadíssimo do seu programa e projecto, já preparados para dar entrada na comissão eleitoral recentemente constituída.

Pascoal Mukuna

C

onforme prometido, o processo eleitoral continuará a merecer toda a nossa atenção, pelas particularidades que apresenta desde logo à partida. Depois do reboliço em torno da incompreensão, e até discriminação, de que foi alvo a antiga desportista Manuela de Oliveira, por se mostrar pretendente ao cadeirão máximo do clube, os nervos só se acalmaram na passada semana, quando foi dada por extinta a comissão eleitoral, inicialmente liderada por Alvarito. O clima de tensão ter-seá agudizado naquela ocasião, porque, segundo nos deram a conhecer fontes familiarizadas com o processo, no «roubo» do projecto e programa de reestruturação do clube elaborado pela parte feminina, não faltaram as mãos de outras figuras, entre as quais algumas ligadas à própria

comissão eleitoral. Uma reunião que teve lugar nas instalações do clube na passada sexta-feira, serviu para limar arestas, e daí mesmo, em assembleia extraordinária convocada pelo presidente da mesa, decidiu-se por uma nova comissão eleitoral com características muito mais equidistantes e, portanto, mais idónea. As eleições no ASA estão marcadas agora para o dia 27 do corrente, prevendo-se uma lista de consenso, pois, de acordo ainda com as fontes por nós contactadas, a candidata Manuela de Oliveira tem estado a encetar contactos com os sócios há muito distantes do clube para que se possa enveredar por uma lista única, em que todos os sócios, exclusivamente estes, se possam rever e decidir por uma fórmula verdadeiramente consensual. De acordo com um dos mais velhos do clube, que nos confirmaram a alta temperatura em que o clima eleitoral teve início,

a cada dia que passa, fica mais clara uma retumbante vitória da «tia Manú» (nome como é mais conhecida a antiga basquetebolista), pela grande simpatia que os sócios por ela nutrem. Estes estão fortemente apostados numa mudança radical da situação desportiva e administrativa do clube, nos moldes em que se desenha no programa daquela que pode vir a ser a segunda mulher à frente de um dos clubes mais antigos do país, se assim os sócios o decidirem no próximo dia 27. Em relação às demais listas concorrentes, que ainda não deram por si nesta aquecida corrida, apenas nos chegou ao conhecimento o presumível afastamento do candidato Domingos Sebastião, um dos administradores da companhia aérea, que pretendia figurar como cabeça de lista de uma outra lista. Esta última foi elaborada por um grupo de membros demissionários, que, de modo pouco

inteligente, introduziu, de forma imprudente, o nome daquele responsável, sem se ter acautelado as condições de elegibilidade previstas nos estatutos do clube. Segundo documentos em nossa posse, somente estão aptos a concorrer ao pleito eleitoral do ASA, para presidente de direcção, indivíduos que sejam sócios, no mínimo, há seis meses, possuidores de cartão emitido como sócio efectivo e que paguem as suas quotas regularmente. Contactada a direcção do ASA, tomámos conhecimento de que aquele administrador não cobre nenhum dos requisitos exigidos pelos estatutos, pelo que a sua candidatura não seria aceite pela comissão eleitoral, caso esta paute pela legalidade e conferira seriedade ao processo, o que obviamente virá a acontecer. De acordo com os estatutos do ASA, os administradores apenas podem figurar nos órgãos sociais

como presidente da mesa da assembleia-geral, por legitimidade estatutária, devendo deixar em aberto o lugar da gerência do clube aos sócios. Tudo agora aponta para uma lista de consenso, em que apenas os sócios deverão decidir o destino do clube, sendo de prever que a candidata Manuela de Oliveira lidere a lista, dado o estado avançadíssimo do seu programa e projecto já preparados para dar entrada na comissão eleitoral recentemente constituída. O pleito eleitoral no ASA poderá constituir um grande exemplo a seguir no país, no tocante à problemática do respeito pelos estatutos dos clubes e pelos princípios democráticos por que se devem também reger as agremiações, enquanto associações desportivas sujeitas também às regras de disputa em boa fé e igualdade de direitos dos seus sócios, sem discriminação de sexo, função hierárquica, religião ou raça. Bemhaja o ASA com o seu exemplo.


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Sábado, 07 de Abril de 2012.

Desporto «Menino» do Sambizanga volta a ser notícia em Portugal

Mantorras acusado de agressão por um antigo colega de equipa O

ex-futebolista do Sport Lisboa e Benfica, Pedro Mantorras, foi há dias acusado em Portugal, de agressão por um antigo jogador de futebol. A vítima, que apresentou queixa num posto da GNR, diz ter sido atacada quando jogava futebol numa escola do Miratejo, Seixal, mas o ex-internacional angolano acusa o excolega de profissão de burla num negócio de automóveis. Segundo as notícias, eram 22h30 dum dia desses quando Mantorras estacionou o AudiA4 que conduzia junto à Escola Secundária Luís Gomes, no Miratejo. Localizou o ex-futebolista – que representou, entre outros clubes, o Estrela da Amadora – e dirigiu-se a ele com ar irritado. O actual dono de um stand de automóveis na Charneca de Caparica, Almada, terá acordado com Mantorras um negócio em que receberia o Audi A4 do ex-internacional angolano, dando-lhe em troca um Mercedes. O ex-craque do Benfica terá testado esta última viatura, fican-

do descontente com as suas performances. Houve troca de palavras e os ânimos exaltaram-se. A dado momento, Mantorras pegou no cheque que trazia para pagar a viatura e rasgou-o. A agressão terá vindo depois. Pedro Mantorras justificou-a como sendo a resposta a um ataque do dono do stand. Este, por seu turno, disse à GNR da Charneca de Caparica (onde apresentou queixa), que foi o ex-

futebolista quem o atacou, acrescentando que tal foi presenciado por vários amigos. O antigo craque angolano vêse assim mais uma vez presente nos holofotes da justiça e da imprensa portuguesa, depois de muitos insólitos vividos quando estava no activo. Um deles, em 2004, foi quando, antes do início de uma sessão de trabalho, no Jamor, Pedro Mantorras seria intimado por

dois elementos das autoridades portuguesas, por, como se veio a saber depois, um assunto ligado a uma suposta falsificação de passaporte. Em 2007, Pedro Mantorras passou a manhã no tribunal do Seixal por ter sido apanhado a conduzir com uma carta angolana, inválida em Portugal. O jogador só tinha um documento angolano que lhe permite conduzir apenas do país natal.

Mantorras teve que ficar à espera que a mulher regressasse de Luanda com os documentos necessários para tratar da carta de condução em Portugal. Na prática, Mantorras não possuía um documento válido que lhe permitisse conduzir, por isso foi detido pelas autoridades e levado ao tribunal do Seixal. Ainda em 2007, a Polícia Judiciária lusa queria prosseguir a investigação do designado caso Mantorras, em que eram visados o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, e os empresários Jorge Manuel Mendes e Paulo Barbosa, mas o Ministério Público de Lisboa optou por arquivar o caso sem atender a uma proposta de quebra de sigilo bancário de duas contas sediadas em paraísos fiscais. Em causa estava a averiguação da identidade dos verdadeiros beneficiários de cerca de 750 mil euros provenientes da venda, ao Alverca, de 50% do passe do futebolista angolano que ainda eram propriedade da empresa de Jorge Manuel Mendes.

Nega descaminho de dinheiros do clube lobitanga

Antigo presidente da Académica promete processar detractores

O

antigo presidente da Académica do Lobito, José Bento Cangombe, pode levar a tribunal todas aquelas pessoas que sem provas decidiram acusa-lo de ter furtado ou usado para benefício próprio dinheiros e bens da instituição sem o conhecimento de ninguém da agremiação. O aviso consta num comunicado dirigido ao presidente da Mesa da Assembleia Geral do clube lobitanga, enviado por este dirigente desportivo que foi responsável pela recuperação financeira da

Académica, em 2009, que salvou os «estudantes» da desistência no torneio de apuramento ao Girabola de 2010, e de uma punição pesada da FAF, sem pretensão de tirar dividendos pessoais. Ele deplora o facto dos senhores Domingos Pedro «Koyo» e Justo Sabalo João «Ito», através das antenas do emissor regional do Lobito da Rádio Nacional, proferirem graves acusações contra si, acusando-o de ter ficado indevidamente com dinheiro do clube. Ele é referido nesta estação como tendo ficado com 150 mil

dólares americanos do crédito do Banco de Poupança e Crédito e com os dinheiros da transferência do jogador «Viety», para o Progresso do Sambizanga, bem como de ter agredido na via pública um sócio que ficou dois dias em estado de coma. José Cangombe considera ter sido vítima de uma autêntica «cabala», depois de em Maio de 2010 ter merecido a confiança dos sócios da Académica para dirigir os destinos do clube, repudiando a forma pouco democrática como foi afastado.


43 Desporto

Sábado, 07 de Abril de 2012.

Eleições na APF de Luanda

Associação de antigos jogadores de futebol

Domingos Tomás espera Quim Sebas suspenso da direcção vencer Francisco Pereira Q O presidente de direcção da Associação Provincial de Futebol de Luanda, Domingos Tomás, decidiu avançar para a corrida à sua sucessão, na qual enfrenta o «aspirante» Francisco Oliveira, que já foi secretário-geral da instituição. O eleitorado teve conhecimento do propósito no último fim-desemana quando a comissão eleitoral deu a conhecer que o pleito deve ter lugar a 14 de Abril, a fim de se encontrar o elenco que estará à frente da associação até 2016. Manuel Ordenã, jurista indicado a presidir a comissão eleitoral, informou que os dois candidatos já apresentaram as suas listas, sendo que Domingos José Tomás (presidente cessante) lidera a lista A e Francisco Teixeira de Oliveira (ex-secretário-geral) a B. No entanto, este último enfrenta um obstáculo levantado por um associado, a Escola Norberto de Castro. O presidente desta agremiação requereu à comissão

eleitoral a impugnação da sua candidatura devido a irregularidades que supostamente Francisco Oliveira cometeu quando esteve como secretário-geral da associação. Norberto de Castro refere-se, por exemplo, ao facto de Francisco Oliveira sequer terem feito o relatório de balanço e de gestão financeira, alem de não ter feito a passagem de pastas nem a entrega do património, quando foi

secretário-geral da Associação da APF de Luanda no quadriénio 2004/2008, no elenco liderado por Rui Gomes. O elenco de Rui Gomes viria a ser suspenso em assembleia-geral em 2008, abrindo caminho a Domingos Tomás, cujo mandato se iniciou em Setembro daquele ano, após derrotar nas urnas Domingos Ayonda, que também já ocupou o «cadeirão» na década de 90.

Ofensas a cidadão albino do Recreativo do Libolo

Kabuscorp pede desculpas

A

direcção do Kabuscorp do Palanca convocou, na segunda-feira, 02, a imprensa para apresentar a sua desculpa ao menino Savu, um rapaz albino dos serviços administrativos do Libolo, que seria acusado de feitiçaria em favor do campeão nacional, que sábado defrontou a turma do Palanca, no Estádio da Cidadela. Quem tratou de dar a cara pelo Kabuscorp do Palanca nesta hora de embaraço foi o seu vice-presidente José Domingos «Dimas», que começou por dizer o seguinte: «Gostaria de dizer que em nenhum momento se tratou de um acto de discriminação racial». «Dimas» pediu depois desculpas particulares ao ao jovem em causa que, acusado de estar a fazer feitiço no banco do Libolo, seria obrigado a deixar o recinto de jogo sob protecção policial, diante da manifestação preconceituosa quer dos adeptos do clube, como de próprios integrantes da direcção do Kabuscorp do Palanca. O jovem já esteve no centro de uma «maka» do género em 2011 quando na segunda volta, em Calulo, o Kabuscorp criou a mesma polémica. Naquele ano,

Savu viu-se mesmo corrido dos balneários. Em 2011, a vitória do Libolo foi de foi de 3-1,arrancada debaixo de uma forte chuva, e agora, em Luanda, sob sol ardente, por 2-1.

uim Sebas, presidente da Associação de Antigos Futebolistas de Angola (AAFA) desde 2008, foi sábado suspenso por trinta dias por decisão saída de uma Assembleia-Geral da organização, no anfiteatro da Federação Angolana de Futebol, na qual se definiu também o dia 21 deste mês como a data para a realização das eleições. Com Quim Sebebas está suspenso Teófilo Moniz, o seu imediato. O primeiro é acusado de ter descaminhado cinco mil dólares e o segundo quatro, que supostamente teriam de ser devolvidos até ao fim do ano passado, algo que não aconteceu até hoje. Com a suspensão ditada, Quim Sebas fica sem a possibilidade de viver o processo de renovação de mandatos, para o qual foram indicados, como coordenadores, Benjamim Castela e Cláudia Alberto, em substituição de Pepe do Gove. No entanto, Quim Sebas reagiu à decisão, dizendo que não teve conhecimento da sua realização por à falta de aviso, o que, a seu ver, foi feito de forma propositada. «Se as pessoas sabem que ainda sou o presidente, afinal quem foi à Assembleia-Geral no sábado apresentar o relatório de contas, quem o elaborou, se não estou doente nem ausente do país?», interrogou-se. E disse mais: «Eu até trabalho na mesma sala e serviço com o senhor Lito Silva. Como é que se explica que eu não tenha sido avisado para estar presente na Assembleia-geral realizada no sábado?». Quim Sebas considera que a «cabala» pode ter sido montada pelo seu secretário-geral, Tito Silva. «É uma pessoa que nada deu para o futebol nacional, mas sempre desejou entrar na associação. E como ficou secretário-geral fez o que fez. Agora, ao que sei, vai aparecer como vice-presidente no elenco preste a concorrer, porque sabe que o presidente da lista não terá tempo», argumentou. Sobre o suposto desvio de 5 mil dólares, Quim Sebas explica que era uma «maka» de foro interno que nunca devia ter saltado à praça pública para, como frisou, «manchar a minha imagem construída com muito esforço e consideração».

Afrotaças

Libolo e Interclube decidem destino

O

s representantes angolanos nas competições da Confederação Africana de Futebol voltam a estar em prova neste fim-de-semana. O Recreativo do Libolo, campeão nacional, vai à Nigéria ao encontro do Sunshine Stars, para o confronto da segunda mão da penúltima eliminatória de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões de África, ao passo que o Interclube joga em Luanda com o Tana do Madagáscar para a segunda mão da eliminatória de entrada à fase de grupos da Taça da Confederação. O Interclube perdeu fora por 0-2, enquanto o Recreativo do Libolo goleava, em casa, o seu adversário por 4-1. Mais possibilidade de seguir em frente tem o Libolo, que este ano investiu muito financeiramente na pretensão deatingir a fase de Grupos da Liga dos Clubes Africanos. Na verdade, ao golear (4-1), no seu reduto,Calulo, o Sunshine Star da Nigéria, tem a chance de suplantar esse adversáriona eliminatória de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões.


Sábado, 07 de Abril de 2012.

Presidente

da República

O Presidente da República tem estado, nos últimos dias, muito mais solto, a contrariar os que lhe criticam o alegado «sedentarismo» que manifestará em regra quanto às deslocações pelo país. Na verdade, em cerca de um mês, José Eduardo dos Santos já esteve em duas províncias do interior, algo que não lhe é habitual. Depois da Lunda-Norte há dias, o Presidente foi quarta-feira ao Moxico assinalar os dez anos de paz, aproveitando o ensejo para tratar de outros assuntos de Estado. É possível que esta «sacudidela» se enquadre já na pré-campanha eleitoral do partido de que também é líder. Mas, seja como for, é assinalável esta mudança na sua rotina. P’ra bem.

Abel

Ministério

Chivukuvuku

da Cultura

Mais de duas décadas depois da sua primeira edição, o ministério da Cultura vai «ressuscitar», em Junho deste ano, o segundo Festival Nacional de Cultura (Fenacult), o que se traduzirá num dos grandes ganhos do sector nestes dez anos de paz. O país está mobilizado para realizar esta grandiosa manifestação cultural com êxito, que deverá envolver adesde a música à dança, culminando nas artes plásticas e cénicas. O novo formato do Fenacult inclui feiras do livro, exposições de artes plásticas, palcos de música popular e erudita, danças tradicionais, excursões, conferências e sessões de cinema. Inclui também uma singela homenagem ao «grande» Teta Lando.

Depois de se ter pronunciado de forma algo deselegante contra os partidos da oposição que se opõem à polémica nomeação de Suzana Inglês para o cargo de presidente da Comissão Nacional Eleitoral (CNE), o líder da recém-formada Convergência Ampla de Salvação de Angola (CASA) terá inflectido o seu discurso, ao afirmar, esta semana, que a sua coligação recém-criada está solidária com as posições assumidas pelo resto da Oposição. Com a dica, Abel Chivukuvuku terá resgatado à confiança dos demais «colegas», passando assim a ser visto com outros olhos, já que o primeiro pronunciamento do antigo dirigente da UNITA havia caído mal. Muito mal mesmo.

Bento

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Rui

Kangamba

Polícia

Campos

O dono do Kabuscorp do Palanca meteu estrondosamente o pé na poça, sábado passado, com aquela conversa sobre a contestação insultuosa em relação a um integrante da equipa técnica do Recreativo do Libolo, pelo facto de ser albino. É quase imperdoável o que se seguiu contra o «coitado» do roupeiro que veio de Calulo, algo que terá a ver com a exacerbação de crenças no feiticismo. É possível que Bento Kangamba, sem discernimento para perceber que se podia tratar de uma jogada, tenha acabado por fazer exactamente o que o seu adversário da jornada esperava, caindo de borco. O bom nisto é que o Kabuscorp já pediu desculpas pelo «brugudju».

de Trânsito

O presidente do Recreativo do Libolo está numa situação em que tanto pode ser preso por ter cão, como por não o ter. Viajado como é, sabe certamente como algumas pessoas preconceituosas se manifestam em relação aos albinos, mais ainda num ambiente como o de um jogo de futebol com as aquelas características. E, atendendo o que já havia acontecido em Calulo, podia evitar isto, se quisesse. Mas (e é aí que se faz jus àquela máxima), civilizado e sem preconceitos como deverá ser, não tinha razões para discriminar o seu roupeiro, impedindo-o de fazer o seu trabalho habitual. Não tinha que o fazer de modo algum. Resumindo: é complicado, nê?

O «4 de Abril» não foi seguramente um dia de paz para muitos automobilistas da capital do país, sobretudo para aqueles que pretendiam chegar ao centro da cidade e tinham escolhido como itinerário o Largo da Independência, onde teve lugar um acto de massas para saudar o dia. Devido a um excessivo zelo e à falta de uma voz de comando única, os agentes em serviço nas imediações da Lactiangol fizeram com que milhares de automobilistas andassem numa roda-viva entre a «Deolinda Rodrigues» e o bairro Cazenga. Eram ordens e contraordens, com alguns desmandos e nervosismo à mistura, que acabaram por baralhar mais o trânsito já de si assaz turbulento.

Estavam em cativeiro há 12 e 14 anos

Libertados os mais antigos reféns das FARC na Colômbia

O

s mais antigos reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que estavam em cativeiro há 12 e 14 anos, foram encontrados em liberdade. São dez homens – seis polícias e quatro militares. Os dez reféns, que as FARC tinham prometido libertar, foram entregues a uma missão humanitária, que foi procurá-los de helicóptero ao coração da selva colombiana. O helicóptero – emprestado pelo Exército brasileiro ao Comité Internacional da Cruz Vermelha e ao colectivo civil Colombianos pela Paz, presidido pela exsenadora Piedad Cordoba – deixou-os em segurança no aeroporto de Villavicencio, 110 quilómetros a sul de Bogotá, onde as respectivas famílias os esperavam, após mais de uma década sem os verem. Vestidos de uniforme, os seis polícias e quatro militares puderam finalmente abraçar as respectivas famílias, antes de serem vistos por uma equipa médica e transferidos para a capital, para serem examinados. Capturado em Julho de 1999, o sargento de polícia José Libardo Forero foi um

dos homens que pôde finalmente rever a sua família: «Vi a minha filha, que eu tinha deixado com quatro anos e que já não reconheço. O meu pai cheio de cabelos brancos. A minha mãe não mudou, ela é feita de carvalho. E a minha mulher, que está ainda mais bonita do que antes», descreveu Forero à rádio RCN.

Dez anos após o falhanço das negociações com o Governo, esta libertação de polícias e militares poderá significar uma mudança de estratégia nas FARC, que sempre consideraram os reféns como uma moeda de troca por companheiros detidos. As FARC renunciaram em Fevereiro

à prática de raptos em troca de resgates monetários – que asseguram uma parte do seu financiamento –, chamando a esta nova etapa um «desafio para a paz». A ex-senadora Piedad Cordoba – cuja mediação, com a ajuda do Brasil, já permitiu a libertação de cerca de uma vintena de reféns – pediu ao Governo que encontre «uma solução política e negociada em direcção à paz». O Presidente do país, Juan Manuel Santos, afirmou «partilhar da alegria» dos libertados, mas sublinhou que os esforços das FARC são «insuficientes». Este compromisso «é um passo na boa direcção, mas como já dissemos antes, é insuficiente», sublinhou o chefe de Estado, que pediu a libertação de todos os civis. O grupo rebelde ainda tem em sua posse mais de uma centena de pessoas sequestradas, de acordo com várias associações colombianas. Fundada em 1964 para defender os pequenos camponeses, a guerrilha das FARC conta actualmente com 9000 combatentes, escondidos nas montanhas e nas florestas do país, após uma série de reveses militares que dividiram as tropas em dois na última década.


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