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De Vinha Comédia O ÁLBUM NEGRO, MUSGO E CARMIM      

MARCELO HILSDORF MAROTTA        

2011  0


DE VINHA COMÉDIA: O ÁLBUM NEGRO, MUSGO E CARMIM  COPYRIGHT – TODOS OS DIREITOS RESERVADOS © MARCELO HILSDORF MAROTTA  2011   (EDIÇÃO DO AUTOR)  EMAIL DO AUTOR: MARCELOHMAROTTA@GMAIL.COM                                             

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Ao meu avô Mário, in memoriam Pela primeira admiração pelo trabalho das Letras e do Desenho. À minha mãe, Ana Maria Pela sagrada perseverança.   À Paula V. Por lembrar-me sempre de rir de mim mesmo.   Ao Felipe, ao Murilo e a Nina Para não se esquecerem da grandeza das pequenas coisas.       2


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Sumário Prólogo • Stimmung [10] • O Anjo Entrevisto [11]

Primeira Parte Do Álbum Negro: Nekyia

• Seca de Uma Noite de Inverno [14] • L´Ermo Gatto di Schiele (Die Schielende Katze) [16] • The Albatross [17] • Inconsciente [18] • Bólida Solidão [19] • A Foice de Ouro de Panoramix [21] • O Canto Híbrido da Pedra [22] • Crash of Colors [24] • “Fumo de Tabaco Rói o Ar...” [25] • Remember Me a Kiss (A Kind of B Ballad) [27] • Words of Sorrow [29] • Piranesi in Ruins [30]

Segunda Parte Do Álbum Musgo: Platôs • Ode ao Desejo (em três atos) [34] • Caducou Meu Caduceu [35] • Kindergärten [36]

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• E = mc² [37] • O Temp(l)o das Horas [38] • À Laguna Movediça [40] • Retrospectives in Love [42] • O Beijo do Conde [43] • The Soothing Fang [46]

Terceira Parte Do Álbum Carmim: Nostoi • A Prosa da Rosa Caipira [50] • Ice Cream Clouds [51] • Redondo Canto [52] • A Loving Flight [53] • Cordâme (Coeur de L´Âme) [54] • Tu, Rhea Silvia [55] • The Gates of Passion [56] • Ars Poetica [57] • Entre Anjos [58]                    

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Humano capiti cervicem pictor equinam iungere si velit, et varias inducere plumas undique collatis membris, ut turpiter atrum desinat in piscem mulier formosa superne, spectatum admissi risum teneatis, amici? Horácio, Epistula Ad Pisones, 1-5.

... limae labor et mora. Idem, 291.

Appartiene veramente al suo tempo, è veramente contemporaneo colui che non coincide perfettamente con esso né si adegua alle sue pretese ed è percio', in questo senso, inattuale; ma proprio per questo, proprio attraverso questo scarto e questo a...nacronismo, egli è capace più degli altri di percepire e afferrare il suo tempo. Giorgio Agamben, Che cos'è il contemporaneo?

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Prólogo                                              

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Stimmung  

Azul,

Lejos Azulejos: Nas entrelinhas Deste pequeno álbum de brinquedo Esconde-se A cor do papel.                                  

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O Anjo Entrevisto          

           

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Primeira Parte DO ÁLBUM NEGRO: NEKYIA

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Seca de Uma Noite de Inverno  

(Finito micro-conto baseado no Tempo)

Num dia sem dia e sem lua nenhuma para ser vista no céu: - Cadê o vértice? - Ora, dobrou a esquina neste exato momento. - E que esquina é esta? - A da fissura; aquela ali, a que fica no meio do canto. - Mas onde está o canto? - Em toda face. - De que lado? - Desta, que rodopia até alcançar a extremidade. - E rola muito? - Até o vértice. - E qual a cor da figura? - Depende apenas do traçado que ela faz. - Quando? - Como? - Perguntei quando. - Ah, quando corre até atingir a linha e cai. - Que linha, a horizontal? - Não, é aquela que vem antes, mas junto dela. É a linha da cor. - Poxa, isso não tem sentido nenhum! - Mas tem uma linha e uma cor. - E serve prá costurar? - Serve! E até dá ponto sem nó. Quer ver? - Quero! - . Viu? Sem nó nem nóia... (Pausa) - E se eu desdobrar ainda mais? - Talvez você encontre mais... - Ei espera! Mas mais de que?  14


- De aspectos seus. - E até aonde posso levar isso? - Até acabar o que nunca acaba. - E até quando o que isso é vai? -Vai pro meio do caminho, talvez lá você descubra. - E onde fica isso? - No Canto, e esta é a palavra final Aqui jaz uma pausa e um ponto e um conto. P.S.: Agora já posso ouvir mais uma vez "Night in Tunisia". Sonho? Talvez seja apenas mais uma fração de tempo...                                    

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L´Ermo Gatto di Schiele (Die Schielende Katze)          

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The Albatross  

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Inconsciente  

O Caos dissolvente Resolve em lágrimas Escorridas no nodo do rosto Coagulando-se na boca Aquilo que antes era A Nódoa: A dor daquelas doenças Dormindo dentro da gente Que se levantam conosco Ao despertar neolítico De um velho poente.                                  18


Bólida Solidão  

Barbárie cruenta e final, Forma de ser inaudita, Calada, Proscrita, Cabal. Rastejo do verme que ainda re-pulsa Por dentro do cerne De minha epiderme, Cascalho de fel que expulsa Pedaço de mim. Sobra de Hermes, Caco de laços, Soluço sem fim. A palidez do retrato é o preço do verso. O reverso, Abandono da dor, Sensação de pudor, Recolhimento carmim. Sem o rosto não há o fato, Sensato, Do sentimento afim. Sem o gesto não há o tom Pausado Ao lado Do sim. Solidão intermitente, Dentro, Fora, Por toda parte.

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Quisera eu conquistar-te! Sonho vão de Descartes, Arremedo de gravidade, Será isso o fim?                                              

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A Foice de Ouro de Panoramix  

A falta transitando o oco Faz no corte profundo e lodo Do veio intumescido e todo O expelido jorrar-se dentro E o estanque tornar-se fora. A falta transformada em ouro Faz ouvir na fenda o canto - eco e puro De silêncio solto Em urro Por ferro ungido em sangue E sumo fugido ao meio. E a falta transpirando exangue Faz deitar com berro o mote - de vida e de morte Que pela tez fingida veio De profano tombo e corte No outro sagrar-se seio.                

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O Canto Híbrido da Pedra  

Decifra, Oh Musa, a cifra cantada por Hathor, Mãe sétima de filho único, Afrodite do Nilo que de Dandarah trouxe, Imóvel, nua e oblíqua, Brônzea luz sobre Hélia flor, Desvelando-a. Depois da epokhé, agora julga; Escolhe, do senso solto, o certo: Modela-o, mantêm-no firme. Rasga o tempo e o duplo-infinito parte limitado: Síntese ímpar do olhar! Atua. Extrai! Nega o bloco e afirma o ser da arte. O que fica, presa interna de si, Retém na aljava de mármore a seta, Com cinzel glaucocarmim. Finca-o no bloco, Entrelaça o mútuo, Ultrapassa o outro, Germina o mesmo e único desejo de ti. E segue no flanco o impulso incessante de som! Estilhaça! Executa! Permuta a lítica em carne! Alva e límpida, Pede a ela que se revele, Sendo rígido o pulso contínuo de luz.

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Súbito, Projéteis descontínuos, Despojos do bloco deposto, Dormem no chão. Cessa o golpe: Já sangra a desmedida. Morto o sentido do caco, Fragmentos inertes – peças de um jogo de desmontar – tombam frios. Resta viva, Suada, A Obra. Escapa de suas frestas o calor, Como a alma pela boca do corpo! E sob cromática tez, Elevada em silêncio ao leito, Conserva quente o pacto De mármore e lívida carne E anuncia o princípio de teu movimento, Por dentro, Ao outro, Autor De ti.                          

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Crash of Colors          

           

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“Fumo de Tabaco Rói o Ar...”  

Antes de diluir-se em vulgar sopro noturno O crispado vaivém tilintante das fortunas diárias Descerram-me as pálpebras encharcadas Do tóxico lodo fumegante Que, constrito, expiro dificultoso, Rajando as restingas entrevistas do cristal luarento Ao clamor impiedoso e sem ócio do desejo por esquecimento. O torpor consequente é pura falta de alegoria. Sobram despidos nas tumbas tristes Os doces cânticos de outrora. Na umidade musgo crescente De um presente em ruínas Revoam os pássaros do amanhã. E à sombra de um redemoinho não ouvido Regozijo às vezes Sem nunca ter ido. A embriaguês atual me assusta. Onde estão as velhas Mênades E o Baco de sorriso dilatado? Por onde andam os velhos poentes E a esperança de gestas mais largas? Será o sussurro do mar Apenas o entrechocar-se das ondas? E a praia? Por que vive, por que espera? A vela negra de Teseu já se faz entrever E do soluço do pai Egeu o largo oceano ressoa. Mira o nascer do sol: tem teus olhos? Tem a marca de teus dentes A mordida dos efêmeros momentos? Prefiro ecoar na pele A cicatriz de uma brasa eterna Do que estampar no rosto  25


A dor angusta de uma verdade ausente. Conquista-me a graça, A esperança de um corpo inseguro, Tateante, Mas ardente, Do que, Sendo sabido, Não saber que ignora e sente. Hoje quero o orvalho anticálido da manhã Que mantém pálidas Lágrimas válidas que há muito se calaram. Dos favos da tristeza Apenas a incompreensão é tão delicadamente agridoce. Ouso silenciar-me diante do prurido da inocência, Pois dói vertê-la em impureza: Algo em mim permanece criança Enquanto o sol escande seus raios Escarnecendo de luz A essencial escuridão.                          

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Remember Me a Kiss (A Kind of B Ballad)  

Some say that we should christen The bold and gloomy minds before they start to listen. All I see is the glow-worms that haven't yet started to glisten As I walk alone under the pale and foggy rain Wondering if there's another chance for me again. Here I cross the streets of empty feigns Cold as I feel the slit of thunder slanting over my veins. There's nobody else around except an old toad Who gets closer to me as I start to feel odd. He comes slowly in tiptoe And shows me all that he owe: It's a sparkling ring from the ancient quarrels Where it's scribbled alongside two little arrows:

Remember Me a Kiss As I try to get through the quiz He starts to quiver and asks me this: - Do you want to exchange it for a bottle of gin? And I replied to him: - Why are you grabbing so forcefully my hands? Meanwhile the ring falls like timely sands And he stops breathing for a moment, stretching them tight While a thousand years are past as in an hour-glass night. - I don't have with me a bottle of gin! - Don't worry, I'm already dim! And as I, raptured, tried hardly to understand What was his crazy plan From the grey skies come two quick flashes That turned the quitter into ashes And I remained there, Satiated with the atmosphere, Until I remembered the pain That I felt before in the rain And because I was then so slight  27


I tumbled into the ground after the plight But while I opened my hands and saw the ring I couldn't refrain to feel what it could bring: Is it good to be outwardly wit While always being wistful within?                                            

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Words of Sorrow  

Words, Oh words! Words to open, Words to hear, Words of happiness, Words on tears... We have so many words, Oh Words, Words to bear! Words today, And for tomorrow... So many words we have, But all are hollow. Since I’ve burned all my tears, There’s no word for sorrow, Nor there’s any other word to follow. And this is left of all: The word I have, And the word I gave, All of them, Seems to leave me at morrow.

           

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Piranesi in Ruins  

Por que velar os olhos perante áurea era E encerar-se no claustro da escuridão insensível Se despir o olhar É contemplar as graças do tempo Na temperança e na volúpia de um encontro sublime? Havia então uma chama tremulante que se acendia No centro de um alegre e jovial arvoredo, Mas era uma chama fria - Tal uma lágrima Pois, em verdade, era apenas um brinquedo. Por que então errei entre as sombras A buscar alma e corpo perfeitos por quem devotar amor, Se estes, ao invés de completar o sentido ausente, Dilaceram e mutilam os que calam minha dor? A esperança é como a folha úmida lançada ao vento Que se deixa levar ao solo, pensando-o distante, Ao longo de inevitável trilha, tão inconstante, Querendo flutuar brevemente, qual farsante, Na aura mística do bosque, só por um instante, Mas já não vê ao solo o verme expectante, Exultante à verdadeira rasante, Trazendo ao jazigo o percurso funesto, Pois que digesto de apelo alheio: - “Repasto honesto!”, Diz o estômago cheio. “Mas aos meus olhos mortais não se fenderam aquelas trevas...” E não se fez o beijo sereno, E o amor foi dito impossível: E no lugar do amor, A paixão,  30


Mais vil que aquela. Pois a paixão corre por chagas Dilacerando coágulos, Abrindo a fenda do ventre invisível, Restando dos nexos do enlace - Fermento do desejo Mistura caduca como um olhar sem face Ou caminhos que não mais vejo.                                          

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Segunda Parte Do Álbum Musgo: Platôs                                                  32


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Ode ao Desejo (em três atos)  

Primeiro Ato: Despindo o ato Dos fatos fecundos Colhidos nos côvados nefastos O trêmulo gesto Dissimula.

Segundo Ato: Com a fóssil fobia De melancólicos poentes As ocultas virtudes Celebram vícios.

Terceiro Ato: Através do desejo, Velado nos vastos topos viris Dos traços e recordações trocadas Os cálices carnais Dos ventres vorazes Encenam o beijo.          

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Caducou Meu Caduceu  

Caducou meu caduceu! Cada um que cuide do seu; O meu, precisa urgente de uma nova serpente, Bobina mnemônica das Eras, Para alívio dos registros de ervas Coligidos à luz dos ledos novelos Dos papiros divinatórios da Babilônia! Quem me dera saber de antemão Que o preço da revisão do bastão Não iria me sair tão à contramão! Se der sorte ainda talvez encontre No Extremo Oriente dos preços de ocasião Um louco egresso, Côncavo confesso, Que saiba lenir com ornatos, Vasta e veridicamente, Os vultos mefilíticos das rubras realidades do ferro-veludo Em gotas de bálsamo, vetiver, mirra e latim: Como o frescor da neve alva Têm elas também seu carpe diem Que placam o memento mori Enquanto o tempus fugit Não troca de pele.                

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Kindergärten          

           

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E = mc²  

Oh Mover of mine! To mild mighty grief at midnight! In a moment of mass macula, The complete metamorphosis of the mind Is alone the only thing to mentalize. Ah! To be moved and mesmerized! I shall cross the middle ages of my life And my marrow shall become mellow Or I might not end the mourning mould of every single sight! At my wake there shall be no more mirrors Filled with mildew by the moralizing manners of marauders When faced with the eloquence of my mass. Alas, Alas my Mover! Why Thou hast conducted me to such madness? I still cannot see Thy marks! Will Thou stand by me? And, Alas! Such Mass goes to those who undermine me! Here my mouth meddles by the many mottos of meaning, Measuring a meal by its melody, While they bloom the truth into a marsh!                

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O Temp(l)o das Horas  

Algoz rotineiro, Soldado das horas, Harpia da moderna medida, Quando de meu descompasso, Sorve o vaporoso sopro de Vulturno - Sanguínea fonte primaveril E pincela com a chave da abóbada ativa Os umbrais da alcova contemplativa Em que me encontraste.

Mea culpa: Dentro do pedregulhoso mon´olho Soa incontido e intempestivo Meu ciclópico desatino. Entre as hermas do repasto Colhe, então, as mais justas penas Como se fosse duplo o sol de Ícaro, Consubstanciando o abismo Em puro ar celestino. Derrama, Finalmente, A cor íngreme da culpa Sobre meu peito poluto, E liquefaz etérea a pétrea agonia Do desmascaramento recente. O rochedo consolida Com o devir aquilino, Mas desfaz, ao menos, não vagaroso O temor inquilino, Pois a esperança de liberdade É um imperativo clandestino.

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À Laguna Movediça  

Densa, mas vagarosamente, Ecoam nos mil platôs das musgorochas movediças Os lúgubres cantos dos pássaros Que revoam pesadamente ao pálido ocaso. Um Adagio crepitar crepuscovular de larvas Corrobora intimamente A auto-indiferença dos plátanos partidos Num lânguido ímpeto, crescendo. Geram no festim viscoso, Arremedo de cetim doloroso, Um refluxo prateado - Brumoso - , Reflexo da incompreensão Na qual jazem as águas podres De minha solidão. Desperta em silêncio, Uma lágrima arredia Rumina em revelia, E desce cediça Seu caminho de perdição À laguna movediça De severa sanção. Nessa grande arena deserta almejo, Do peito, um último grande fonema. Mas dos meus lábios apenas entrevejo Um lesto poema Cujo tom faz ceder o passo - Só mais um traço! – E pronto! Já me desgraço...      39


Retrospectives in Love  

Here I falter Just to ask you whether I´m alter: Am I meddling metaphors of white shades Inside a fading theater of pure escapes While gentle sides hide their pain Or am I really feeling inside Giving you a ride To a calmer spot Where we aren´t taking part in a plot? Retrospectives in love We aren´t here because of opposite breakdowns We only wish we could overcome the paradox But Poetry has consequences That goes beyond these verses… So I falter just to ask you again Am I being disloyal or am I giving you a hand? Am I pretending too much or am I taking a stand? Does the mighty nighty of Aphrodite Lead ourselves to the city of Dite? Perhaps we can go understating this Or we could engender a kiss Cast upon the unending say That hides occult between the lines at bay Of my poetry´s everlasting decay.        

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O Beijo do Conde “nesta vida não vai dar pra definir paixão tantas são de cada um a lida entre as idas e vindas do coração” Alice Ruiz S

I. Da Lida Sem Vida Que coisas mil! Por que pereço Sem à vida sentir apreço? Ainda hoje subi num bonde No qual travei contato com triste conde. Tal conde, assaz garboso, Levava consigo um mal ditoso: Por força de contida opinião Ficava só seu coração. Como temesse deitar mossa, Escondia num tíbio olhar o ígneo a toda moça, De quem a loa ardente não notava. E se, despercebido, mentalmente voava, Esquecia-se do corpo, por onde gozava. Ia assim, como um desgarrado, Pela vida, num caminho errado Quando intervém a mais bela deusa, Afrodite: “ – Não te ocultes este meu palpite:  41


Não cales teu desejo, ficarás sem apetite.”

II. Íntimo Embate O que em mim era dia agora adormece Para que o que é noite desperte, quando escurece. Silencia na enseada do meu peito o movimento; Neste abismo, mesmo o Obscuro é lento. Liberte-a da cova! “ – terás que provar teu valor, senão, uma ova!” Ela me era coeva, agora não está comigo, Quisera eu entregar-lhe o beijo referido! Mas meu canto era doutro tempo. Poderia eu mostrar-lhe meu lamento? E que é o ser? Que é o ente? Por que afinal esta dor pungente? Quem toca a corda vibrando-a ausente? A ausência da pétala à rosa É como a letra que falta à prosa. Mas a ausência da rosa àquela É como a chama que falta à vela Ou a vista à janela.

III. Volto à Vida Ah! Mas se soubesses como são muitas as proezas Nesta terra cheia de rudezas! Talvez a flecha certeira do Cupido Possa aplacar-me o prurido! Não quero sofrer perambulando sem desejo! Mais cabe lançar fora todo pejo Dando às águas cálidas, doce encanto, Pondo fim ao meu calino pranto. Sus! Vamos com isso! Afasta!  42


Toda tristeza consigo arrasta A força que traz o Amor. Sem ela tolhe-se o ardor Das coisas que têm valor. Assim me disse o amoroso conde, Encontrou o fogo que não se esconde. Tal mancebo, este senhor o viu: Ao contar-me a história, usou buril, Gravou-me as palavras e depois sumiu.                                    

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The Soothing Fang  

When befuddled or discombobulated, Beclouded and agitated, We can discomfit the mist By the soothing fangs of care Thrust through the Neolithic chest Of reality´s tartish blades´ request So that by a special and unavoidable bris We can remove the tarnish and the rust – Sulphuric friends of dust – From our souls´ flurry & approaching bliss, Giving it the perspective Of a lasting living gist.                                  44


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Terceira Parte Do Álbum Carmim: Nostoi                                                  46


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A Prosa da Rosa Caipira  

Rosa rosácea, Roça o riso da terra, Semeia o senso no mundo, Ouve o rouco cantar! Rosa robusta, Pelo horizonte toda a terra e o céu costurando, Arrepia o ar e respira, Recados, troças de caipira, Caipira louco que gira – Amando! Mas deita só a rosa: Toda a relva troça! Ah! Nem espera a hora, Resta só na prosa, Poda fora - à moda - Brilhando! Vai Rosa! Dá seu ar à bossa, Rabisca cor-de-rosa Paixão em polvorosa E deita fora a fossa – Cantando! E, contudo, parece triste a doçura dela: O risco dessa rosa arrasou meu coração! Mas se não fosse o risco, O que seria então desta canção?      

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Ice Cream Clouds          

           

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Redondo Canto  

Neste canto de meu recanto Sei que aqui estás, Ainda não te vi... Por isso planto Dentro desse manto Amor, Sem ter aqui pudor. Como neste canto: Aqui eu E você aí: Pranto. Pois tanto é Você e eu, Ser não estando, Sendo. E com a coragem Deste canto Me levanto E vou aí estar... Pois redondo é meu canto De tanto te amar...            

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A Loving Flight  

I can see full love Flying in the backs of a dove Away, away, to the alcove By the un-reckoning sun of the dawn Where all the pilgrims of the morning call For their awakening forever and now. To be with you is as wonderful As the hearth inducts heat to the skull Always plenty of good reasons and feeling anew Composing a balance between water and fire On the land and the air. Likewise everything has kept its essence And when we met tonight It will be shown, We will go beyond the unknown, For through such bounded friction We shall get closer: Exciting ignition.                    

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Cordâme (Coeur de L´Âme)          

           

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Tu, Rhea Silvia  

Tu és sempre Beleza translúcida, Mistério dos bosques, Perfume da noite, Cristal de enigmas Que brilham suaves Sob a claridade jasmim Do plácido luar. Quisera eu pousar ao teu lado Verde-azulado poema De tal fragrância Alfazema Que tu pudesses ornar.   Recordo teu beijo: Ele ainda ressoa Como doce garoa De fino cetim.   Mais não desejo: Pudera eu, de repente, Sentir novamente, Teu frêmito carmim.            

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The Gates of Passion  

Now I start to realize that you care for me Likewise you must say that there's something going on... Everything is a plenty bowl of love A thousand of brilliant times and a dove Just for having you whispering on my ears Each one of those magical words That breaks apart all my fears. What binds our love in this joyful flow Is, baby of mine, in these Gates of Passion With great compassion and a happiness unknown For all the incandescence eternity of now Into our body & soul and some calm The bright colors of the night The deep sensation of flight And all the true & sincerity of our mutual sight... Blessed with love, grace, and desire We could embrace each other forever and like For getting closer, altogether and kind Because these are the Gates of Passion The aim of those dreams we ever lived for. We are intended to be here, ever beyond. In this perfect paradise All leads to these Gates of Passion... For the Gates of our Passion Are tonight.          

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Ars Poetica  

Now that my words are echoing all around the space And distant views are becoming even more clear, The path to the old gateway is being filled with grace While past memories are spreading again that fear Of dismaying perceptions that began to take place. In this time wisdom is hardly trying to find its way For we are taking ourselves deeper in this theater Where unsensed passions and crazy actions take their play But, Oh, the presence of fairness is like feather Since deceit is everything we have to say. Tomorrow will probably be the same: Life will pass in a day Just as the fire that passes through the flame. So, my pal, please take a look at this game, A calm gaze, in fine pace Toward haven, like ace.                  

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Entre Anjos          

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NOTA BENE:  Do conteúdo do presente livro, o poema O Canto Híbrido da Pedra já foi  publicado  numa  versão  microscopicamente  diferente  por  volta  de  1992,  no  primeiro  número  da  saudosa  revista  literária  Cópula,  editada  por  alunos  de  diversas  áreas  da  Unicamp  e  financiada  pelo  seu  DCE.  Recentemente,  o  mesmo  poema  foi  selecionado  pelos  editores  Carlos  Vogt  e  Alcir  Pécora  e  saiu  publicado  (impressa  e  online)  pela  Revista  da  Sociedade  Brasileira  para  o  Progresso  da  Ciência,  Ciência  e  Cultura,  ano  62,  n.  2,  abril/maio/junho  de  2010,  p.  68  (a  versão  online  pode  ser  consultada  aqui:  http://cienciaecultura.bvs.br).  Da  mesma  forma,  o  poema A Foice De Ouro de Panoramix saiu publicado no segundo número  da  mesma  Cópula  (em  1992  mesmo  ou  em  1993)  numa  versão  anterior,  onde  inclusive  o  título  era  outro,  da  mesma  forma  que,  ainda  sob  um  terceiro  título,  foi  publicado  juntamente  com  o  poema  À  Laguna  Movediça  no  Número  5,  de  Junho  de  2010,  da  revista  de  poesia  online  Celuzlose (http://celuzlose.blogspot.com/), editada por Victor Del Franco.  O autor aproveita aqui  a  oportunidade  para  agradecer  publicamente  aos  editores  das  mencionadas  revistas  o  apreço  e  a  oportunidade  de  publicação dos poemas.     57

De Vinha Comédia: O Álbum Negro, Musgo e Carmim  

A bi-hybrid book containing poems written both in portuguese and english as also digital drawings intended as visual poems. Um livro bi-híb...

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