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jornal UEG Ano 1 - Nº 9 - Março - Abril / 2014

jornal UEG Anápolis, março-abril de 2014 impresso

Jornal da Universidade Estadual de Goiás

especial

ias dênc O spon Corre 809 DR/G 294 9912 UEG S

REIO

COR

devolução garantida

Entre os muros, a reinvenção da liberdade A Universidade Estadual de Goiás discute o racismo no Brasil. O processo de empoderamento de negras e negros começa em sala de aula e no debate nas rodas sociais (p. 6) Em outra reportagem, o perfil da recém-graduada Lívia Cruz. Ela tem paralisia cerebral e traçou, na UEG, um caminho de luta rumo ao conhecimento. Com o corpo à margem dos modelos hegemônicos, Lívia reinventa a linguagem e faz, livre, sua rota (p. 4)

3 – Gestão – Infraestrutura e melhorias Quase R$ 5 milhões são investidos em equipamentos para os câmpus da UEG. Computadores, notebooks, impressoras e televisores fazem parte das aquisições 3 – Opinião – Formação de professores Adda Daniela, bióloga e professora da UEG, reflete sobre educação humanizada. Há necessidade de professores conscientes de sua responsabilidade social, que trazem vida à prática docente 8 – Entrevista - Câmpus Itapuranga relembra golpe militar No dia 31 de março, a ditadura que assolou o Brasil completa 50 anos. Docentes e estudantes de Itapuranga resgatam a memória histórica


Editorial jornal UEG Anápolis, março-abril de 2014

Gestão

jornal UEG

De “sujeitados” a sujeitos

Anápolis, março-abril de 2014

Luana Borges

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Que vocês tenham uma boa leitura!

Anápolis - Goiás, Março-Abril de 2014 Ano 1, Nº 9 REITOR Haroldo Reimer VICE-REITORA Valcemia Gonçalves de Sousa Novaes CHEFE DE GABINETE Juliana Oliveira Almada PRÓ-REITORA DE GRADUAÇÃO Maria Olinda Barreto PRÓ-REITOR DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO Ivano Alessandro Devilla

EXPEDIENTE

A Universidade Estadual de Goiás (UEG) inclui a diversidade em suas salas de aula. O Brasil tem uma dívida histórica com populações que foram há muito anuladas por uma política colonialista e racista. No livro Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre analisa a cultura colonial do país, escrevendo sobre a arquitetura da “casa grande”, que muito influenciou o modo de organização social e política que se instaurou na terra brasilis. Na obra, é analisada a propriedade fundiária do patriarca, que é o dono da terra e o “proprietário” de tudo que nela se encontra: dos parentes, dos filhos, das esposas, dos escravos, das escravas. Esse modelo escravagista, expresso na casa grande, acaba por subsumir e estigmatizar, diante do patriarca, os negros, negras, mulheres, crianças... todos estão expostos ao poder soberano do rei da terra. Gilberto Freyre, contudo, por vezes desconsiderou, nas relações de poder entre casa grande e senzala, a violência daquele meio. Ele “leu” a casa grande como um modelo capaz de abrigar, muitas vezes amistosamente, dos escravos aos filhos do patriarca, num misto de relações familiares e parentais. Forja-se assim a ideia de “harmonia” do brasileiro: surge a farsa da democracia racial no país, este território “miticamente” conhecido como uma “miscelânea feliz de cores e vozes” . E é o movimento negro, ao longo da história, que se empodera e toma palavra, diante de tantas lutas, para mostrar que, sim, existe racismo no Brasil. Racismo camuflado e, por isso mesmo, mais perigoso ainda. Isso porque, àquilo que é silenciado e negado, não existe luta possível, dada à falsa “inexistência” do problema. Inexistência que é, logicamente, cômoda e mantenedora do status quo. No Jornal UEG desta edição, mulheres negras rasgam o verbo e exprimem a luta, por igualdade de direitos e oportunidades, imprescindível ao Brasil. A professora Mary Anne Vieira Silva, coordenadora do curso de Geografia em Anápolis, e a psicóloga Raimunda Montelo, superintendente de políticas para mulheres da Secretaria de Estado de Políticas para Mulheres e Promoção da Igualdade Racial (Semira), contam suas histórias e refletem sobre as relações inter-raciais no país. Surgem ainda outras vozes de luta nos textos dessa edição. São as falas de Lívia Barbosa Cruz, recém-graduada no curso de História na UEG Câmpus Goianésia. Lívia possui Encefalopatia Crônica Não Progressiva (paralisia cerebral). Superando as dificuldades de locomoção e fala, a historiadora, de 27 anos, trilhou o caminho rumo ao conhecimento e ao espírito crítico. Ela reinventou, no mundo acadêmico, seus meios de fala e as possibilidades de seu corpo. A UEG é espaço para todos esses avanços. É universidade que inclui. É lugar que discute inclusão. Fazemos, de nosso jornal, um espaço para o debate. E para a reflexão.

PRÓ-REITORA DE EXTENSÃO, CULTURA E ASSUNTOS ESTUDANTIS Danúsia Arantes Ferreira Batista PRÓ-REITOR DE PLANEJAMENTO, GESTÃO E FINANÇAS José Antonio Moiana

jornal UEG Anápolis, março-abril de 2014

Aquisição de equipamentos melhora infraestrutura na UEG Ensino, pesquisa, extensão e gestão serão reforçados com investimentos que chegam a quase R$ 5 milhões.

Dirceu Pinheiro Alunos, professores, servidores e gestores da Universidade Estadual de Goiás foram beneficiados com equipamentos como computadores, notebooks, impressoras e aparelhos de TV. Os aparelhos eletrônicos foram adquiridos pela Administração Central dentro do Plano Diretor de Tecnologia, que prevê investimentos na infraestrutura da UEG. No total, serão distribuídos entre os câmpus e a Administração Central 930 computadores completos, 150 notebooks, 165 impressoras (45 multifuncionais e 120 comuns) e 288 aparelhos de TV LED de 47 polegadas, com recursos na ordem de R$ 4,6 milhões. Os equipamentos terão usos definidos pelos gestores dos câmpus e da Administração. Segundo dados do Relatório de Autoavaliação Institucional 2013, a infraestrutura foi a dimensão que mais obteve recomendações nos segmentos discente, docente, técnico-administrativo e gestor. A gerente de Avaliação Institucional da UEG, professora Jandernaide Lemos, explica que a aquisição e a distribuição dos equipamentos - para o desenvolvimento de atividades de ensino, pesquisa e extensão - deve melhorar de forma significativa a próxima avaliação. O reitor da UEG, professor Haroldo Reimer, fez a entrega simbólica dos equipamentos durante a 80ª sessão plenária do Conselho Universitário, no dia 25 de março, em Anápolis, junto à vice-reitora Valcemia Novaes; o gerente do Núcleo de Inovação Tecnológica, Diogo Ramos; o diretor da UEG Câmpus Jussara, professor Miguel Antônio de Camargo, representando os diretores; e

Jornal UEG

Edivaldo Gonçalves da Silva, da UEG Câmpus Iporá, representante dos servidores técnicos-administrativos. Para o reitor, a aquisição desses materiais representa mais um passo rumo à consolidação da UEG. «Com estes equipamentos muitas solicitações poderão ser atendidas, dando melhores condições para execução das tarefas”, analisa. Haroldo Reimer salientou que os equipamentos foram adquiridos pela Central de Compras na modalidade de compra coletiva, com economia para a UEG e com menos procedimentos burocráticos.

Entrega simbólica ocorreu durante reunião do Conselho Universitário

COORDENADOR GERAL DE COMUNICAÇÃO Marcelo Costa

Opinião

EDITORA Luana Borges

A formação de professores e a temática de educação sexual

REDAÇÃO Bárbara Zaiden Dirceu Pinheiro Fernando Matos Stephani Echalar REVISÃO Alisson Caetano Luana Borges FOTOGRAFIA José Afonso Viana DIAGRAMAÇÃO E ARTE Graziano Magalhães COLABORADOR Eduardo de Oliveira Silva Publicação da Coordenação Geral de Comunicação Universidade Estadual de Goiás CGCOM - Reitoria da UEG Rod. BR – 153, Quadra Área, Km 99 CEP: 75.132-903 / Anápolis – GO Tel. Geral: (62) 3328-1404 www.ueg.br Impressão: Elite Gráfica Tiragem: 15.000 exemplares Universidade Estadual de Goiás

As teorias sistematizadas da academia conduzem profissionais pouco preparados para lidar com as questões puramente humanas de sala de aula Adda Daniela A escola é o espaço formal de desenvolvimento intelectual dos alunos por meio de ações intencionais dos docentes e dos seus demais integrantes. Nesse sentido, a compreensão do corpo, da saúde mental e das relações sociais, econômicas, históricas e ambientais de nossa sociedade são pontos de ação docente. O conhecimento sistematizado, base do trabalho docente, é aliado às opções teóricas para a escolha do que se almeja como escola e como profissional da área de educação. Logo, vejo a relação entre conteúdo historicamente construído e o conteúdo pedagógico, apreendido nos cursos de Licenciatura e Pedagogia, como essencial para a formação de professores conscientes de sua responsabilidade social. Todavia, a formação de professores ainda está centrada em uma visão conteudista. Pouco, ou nada, se reflete sobre o processo de mediação dos princípios éticos, da diversidade cultural ou das escolhas sexuais de uma sociedade. A formação menos humanista, centrada na transmissão de muitos conteúdos científicos e em pouco espaço de tempo, não oportuniza momento para reflexões do que é ser professor. Qual o papel da escola? Qual a relação entre as minhas opções de metodologias de ensino e o que acredito ser necessário para a educação? De que forma a escola pode ser um espaço de luta pela transformação social? Como mediar discussões no que tangem à sexualidade em uma escola laica? O tema da educação sexual, trabalhado em âmbito escolar, se apresenta como um desafio. A graduação falha quando não age a propósito de uma formação holística ao futuro professor. No-

ções de anatomia e fisiologia humana, oportunizadas à licenciatura em Ciências Biológicas, não são conteúdos suficientes para balizar uma ação formativa para o desenvolvimento intelectual de um aluno, que deverá ser um cidadão ativo de nossa sociedade. Diante da formação exclusivamente conteudista e pouco humanista, agrava-se o trabalho com a temática da educação sexual. Além de conteúdos biológicos, são necessárias formações pedagógica e humanística densas, capazes de garantir tranquilidade para lidar com a complexidade das relações presentes no interior da escola. Além disso, são essenciais escolhas de metodologias de ensino adequadas à faixa etária e às condições socioculturais dos alunos. Nesse sentido, a formação de professores deve ser repensada no intuito de formar um profissional capaz de relacionar seu conteúdo científico ao contexto social e cultural dos estudantes e da sociedade.

Professora da UEG nos cursos de Pedagogia, Letras e Biologia, em disciplinas direcionadas a “Formação de Professores” e “Novas Tecnologias para a Educação”

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jornal UEG Anápolis, março-abril de 2014

Perfil

Brilho da liberdade

O perfil de Lívia Cruz, recém-graduada em História, na UEG Câmpus Goianésia. Deficiente física, ela traçou, na UEG, um caminho de luta rumo ao conhecimento e à reinvenção da linguagem

Bárbara Zaiden

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O corpo está preso à cadeira de rodas. Os movimentos são incontroláveis. Comunicar-se com o mundo é uma tarefa difícil. Às vezes, requer ajuda de terceiros, que traduzem a linguagem de Lívia. Ela reinventou a linguagem. Teve de fazê-lo pois só assim transpôs a prisão do corpo. E se libertou. Todos inventamos, no dia a dia da vida, nossas falas, para assim transpormos a prisão do “eu” na ação de “tornar comum”. De comunicar. Na comunica-ação. O ser humano transmite, a todo momento, informações aos espaços e às pessoas. Transmitem-se discursos, mensagens e signos – que são decodificados e interpretados. Nossos antepassados mais antigos desenvolveram uma comunicação por meio de performances corporais e gestos. No artigo Os Percursos do Corpo na Cultura Contemporânea, a autora Malu Fontes defende que a ênfase dada pela cultura de massa à busca pelo corpo perfeito, que ela chama de “canônico”, não é saudável para os indivíduos que a recebem. Segundo a autora, as pessoas que não se encaixam nesses padrões podem desencadear processos de angústia e sofrimento. Fugindo à visão defendida pela autora, o não-pertencimento aos padrões parece não abalar a positividade de Lívia Barbosa Cruz. Em consequência de erros médicos durante o parto, ela possui uma Encefalopatia Crônica Não Progressiva (ECNP), popularmente conhecida como paralisia cerebral, que compromete as atividades motoras do corpo. Os danos cerebrais prejudicaram os movimentos de Lívia: sua fala não é compreensível à maioria das pessoas, pois não é a “canônica”, e ela não se locomove sozinha. Se inicialmente a comunicação verbal com a jovem é difícil, dela emanam Segundo encontro signos reinventados que levam à roupa devia estar superação desta dificuldade. Os signos

vêm à tona pelo gesto, pelo tom, pela performance vocal. Há excitação incontida nos braços, no brilho dos olhos e no riso largo e escancarado, apresentado ao mundo sem pudor. A comunicação ocorre. Recria-se a linguagem. Inventa-se a liberdade – processo criativo da vida, pois atributo buscado por todos nós.

O gosto do riso escancarado No nono lugar da lista dos aprovados no vestibular de 2009 para o curso de Licenciatura em História da UEG Câmpus Goianésia, estava o nome de Lívia Barbosa Cruz. Novos desafios estavam traçados. Alguns meses foram necessários para que os trâmites burocráticos permitissem a contratação de uma professora de apoio para a estudante, mas até que isso fosse possível, era a mãe, Cleones Barbosa dos Santos, quem a acompanhava. Todos os dias, as duas seguiam a pé

pelas ruas de Goianésia: a mãe atravessava a cidade empurrando a cadeira de Lívia. Nos dias chuvosos, ela improvisava uma cobertura de plástico para que a filha não se molhasse tanto, abria o guarda-chuva e seguia rumo à Universidade. Cleones, que estudou até a terceira série do Ensino Fundamental, auxiliava a filha com os deveres de casa escrevendo o que Lívia ditava, papel que também foi desempenhado pelo irmão caçula, Jeferson. Como consequência das leituras e dos estudos compartilhados, a família também aprendia. Além da cumplicidade de mãe e filha, desenvolvida pelo intenso contato diário, a conexão existente entre Lívia e o pai, José André, se faz notável. Ele enfatiza a importância de Lívia se sentir livre, dizendo que “isso a expôs e permitiu que ela adquirisse conhecimento”. E o pai completa, surpreendendo à repórter com sua visão aberta sobre as pessoas e o mundo: “As pessoas precisam ser livres para ser felizes”. Quando ainda estava na oitava série, Lívia passou por algumas dificuldades com uma professora que, preconceituosamente acostumada a uma linguagem corporal canônica, duvidava que era aquela menina a autora dos deveres de casa. Esses ocorridos, contudo, não desanimaram a então adolescente. Anos depois, Lívia conquistaria graduação na mesma disciplina que quase a fez desistir da escola: História. A garota escolhera o curso por “culpa da Preta”, um bordão utilizado pelos professores e colegas de curso. Lívia diz que a “Preta”, a professora Valdelice Aparecida, é o grande exemplo que a move. A professora dava-lhe a confiança necessária, ao contrário daquela primeira experiência de descrédito pela qual a estudante passou ainda no Ensino Fundamental. Bastaram confiança e apoio para que Lívia, hoje historiadora, tivesse possibilidades de exercer, por si, o raciocínio científico e a criticidade que devem permear a vida de um estudioso. As cobranças dessa professora – que primeiro deus aulas à Lívia no Ensino Médio e, depois, na graduação – auxiliaram-na no desenvolvimento de seu senso crítico, tão elogiado pelas pessoas com quem convive. Esse pensar crítico levou a jovem à formatura. E era evidente o orgulho nos rostos dos colegas de curso, professores, amigos e familiares. Na cerimônia da colação de grau, quando Cleones empurrava mais uma vez a cadeira da filha, todos os presentes se levantaram e a aplaudiram durante vários minutos. A emoção no choro de Lívia, quando a mãe segurou seu diploma, foi contagiante. Mais uma vez, os braços se sacudiam no ar e o riso, sempre tão característico da jovem, se fundia às lágrimas incontidas. Neste instante, a repórter sentiu conexão com a personagem. O contato entre as duas se deu de forma tão natural, sem barreiras ou concepções prévias, que escrever este texto tornou-se um desafio: como seria possível fazê-lo sem vitimizar Lívia?

Nas entrelinhas, a leveza entre repórter e personagem. Lívia estava bonita, mas a quente. Suada, extasiada, não parecia se importar. Ela flutuava

Aos quatro anos de idade, Lívia começou a se comunicar por gestos de cabeça que significavam “sim” e “não”. As músicas que ouvia no rádio, e os programas que assistia à televisão, auxiliaram-na no desenvolvimento do

vocabulário e na comunicação com a família. Daí surgiu o gosto pela música. Atualmente, ela só estuda ouvindo-a, em alto e bom som e, segundo a mãe, diz não se importar se os vizinhos consideram as canções como sendo “de velha”. Uma das ferramentas encontradas por Lívia para facilitar a comunicação com o mundo foram os meios tecnológicos. Ela conseguiu desenvolver uma técnica

para digitar utilizando nariz e queixo: foi assim que escreveu a monografia e é assim que se relaciona nas redes sociais. Este também é o meio utilizado para escrever um livro, romance que pretende lançar em agosto, no mês de seu aniversário. Foi pelas redes sociais que ela contou: a música que tanto a inspira será utilizada como abertura para a obra. “O que é, o que é?”, de Gonzaguinha, apresenta nas primeiras estrofes o antagonismo da vida, mas a sequência de questionamentos iniciais da letra não parece ser parte da realidade de Lívia. É no refrão em que ela encontra maior identificação, com toda a positividade dos versos: “viver e não ter a vergonha de ser feliz”, sempre cantando “as belezas de ser um eterno aprendiz”. Exatamente com esta leveza que Lívia e sua família encaram as limitações do corpo. O pensamento da jovem de 27 anos não está encarcerado à barreira corpórea. Na casa da família Barbosa Cruz, em um bairro afastado de Goianésia, as vasilhas, milimetricamente dispostas no armário da cozinha, de tão brilhantes seriam capazes de refletir a não-vitimização escolhida por Lívia. Ali, são pai, mãe, dois filhos, um papagaio e três cachorros. Nenhum dos membros tem medo da exposição. Eles cantam “liberdade”, a quem queira ouvir. À janela, o papagaio fala ao mundo da rua. Os passantes, ao ouvi-lo, se inspiram na luta de uma estudiosa de pensamento ágil, livre.

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Anápolis, março-abril de 2014

Eu sou aquilo que vejo nos seus olhos

O provérbio Zulu, expresso no título, traduz a luta por reconhecimento em uma sociedade que ainda não transpôs as barreiras do racismo

Fernando Matos

“Seu moço, quer saber, eu vou cantar num baião Minha história pro senhor, seu moço preste atenção Eu vendia pirulito, arroz doce, mungunzá A minha mãe tão pobrezinha não podia me educar.” João do Vale

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Os versos de João do Vale, em Minha História, são partilhados por um sem-número de outros Joões, Marias, Josés, Terezas e tantas outras crianças que atendem por outros tantos nomes, mas todas ligadas pela mesma insígnia: a cor. A cor preta de seus ancestrais – violentamente arrancados de seus solos sagrados e escravizados, de maneira vil, em um dos maiores crimes já cometidos na história dessa terra brasilis, o regime escravagista. Ainda hoje pestilento, ele alija de direitos básicos o maior segmento populacional deste país, a população negra. Muitas crianças negras, assim como João, desde cedo precisam encarar as ruas para o trabalho. Ele era vendedor de comida. Isso fez com que não fosse aceito em uma escola e, mais tarde, ele fora obrigado a sair de outra, cedendo vaga a uma criança branca. Alguns podem supor que cenas como essa fazem parte do passado. Ledo engano. Por ignorância, olhos são fechados para essa realidade racista ainda muito presente no cotidiano. E não se trata de inocência. Estamos diante da manutenção do status quo. Naturalizamos, de forma violenta, as relações etnicorraciais a ponto de nos tornamos imunes ao processo de subalternização da comunidade afrodescendente. Exemplos dessa indiferença são inúmeros.

Quem não se lembra do mendigo “gato” que causou comoção nas redes sociais no ano de 2012? A ideia de um homem branco, vivendo em situação de rua e vitimado pelo crack, atingiu profundamente a sociedade. Mas que incômodo é esse, cujo recorte exclui, desse sentimento de afeição, inúmeros outros e outras, esses pelos quais passamos sem enxergar cotidianamente? E Cláudia da Silva Ferreira? Arrastada pela viatura de polícia, ela foi usada como evidência de uma operação policial mal conduzida. O vídeo teve milhares de compartilhamentos. Cláudia foi coisificada: tão desumanizada que não existiram quaisquer constrangimentos no compartilhamento de seu sofrimento, uma mulher negra arrastada pelo asfalto, que teve o corpo supliciado e veio a óbito. A existência desse vídeo, em si, é uma violência sem tamanho. Expor o terror pelo qual ela passou, colocando em segundo plano Cláudia e seu sofrimento, é também resquício da política racial em que vivemos. Para Raimunda Montelo, atual superintendente de políticas para mulheres da Secretaria de Estado de Políticas para Mulheres e Promoção da Igualdade Racial (Semira), organizadora do I Encontro Afro-Goiano (2004) e coordenadora da III Conferência Estadual de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, a realidade pode ser transformada se houver uma discussão abrangente e realista sobre o tema. “Há um buraco narcísico na fundação dessa nação. Enquanto o país não enfrentar a questão, a gente vai continuar a ver Cláudias sendo arrastadas, tendo seus corpos dilacerados sem que ninguém ache isso um absurdo. E essa superação implica na luta conjunta. Todos têm de ser chamados à roda para mudar essa realidade”, pondera. Quando se é o outro marcado, que vive a impossibilidade do devir humano, ser político não é opção, mas consequência, pois desde sempre se travam lutas e se negocia a existência. “Nos interstícios do poder, há toda essa estrutura histórica sendo reproduzida dia

As ilustrações da reportagem são inspiradas nas obras Oxum em Êxtase (pg 06) e Padê de Exu (pg 07), do artista e ativista do movimento negro, Abdias Nascimento

jornal UEG Sociedade

após dia”, observa Mary Anne Vieira Silva, coordenadora do curso de Geografia em Anápolis, no câmpus de Ciências Sócio-Econômicas e Humanas da Universidade Estadual de Goiás (UEG). O racismo é uma prática social aviltante. Uma engrenagem muito bem azeitada que se espalha como vírus. Um organismo que incide sobre a comunidade negra atingindo-a em cheio em sua humanidade. “Como dizem diversos autores, o crime do racismo no Brasil é perfeito. Ele foi tão bem conduzido que são os negros a se sentirem envergonhados pelo sistema escravagista”, afirma Raimunda.

Nó na garganta

e não é, uma tarefa tranquila. Quando se iniciaram os diálogos, veio o momento em que também emergiram os discursos que desmascaram o ideal de democracia racial construído no país. Quem busca elementos que fundamentam uma posição contrária ao sistema de cotas, por vezes vê cair por terra as máscaras da tranquilidade racial. Em muitos casos dos que sustentam um posicionamento contrário às políticas de ações afirmativas, a real preocupação não é com a qualidade do ensino superior, mas com o fato de que, agora, a população negra tem meios para garantir o acesso a cursos historicamente ocupados pela elite branca. O que está em jogo, na verdade, é a negociação de um status quo do qual os sujeitos das classes abastadas não abrem mão.

“O que me levou à militância, propriamente dita, foi minha vida profissional. Sou psicóloga e há anos tive de fazer um diagnóstico sobre uma menina negra, filha de mãe negra e pai branco. A hipótese era de ‹psicose infantil›. Ela arrancava seus cabelos, o que caracterizava automutilação. Entretanto, nesses casos, não há elaboração de um discurso coeso. E ela, aquela menina ainda muito nova, tinha um. Ela arrancava os cabelos para que eles crescessem lisos como os do pai”, conta uma Raimunda frágil, pensativa, com voz e olhar baixos. Mary Anne sinaliza para esse apagamento dos sinais da negritude. Segundo a professora, há toda uma organização que trabalha para desqualificar a etnicidade dos corpos negros. “Eu me vi de fato como sujeito militante, com consciência de minha negritude, na Universidade, entendendo que parte do meu corpo Raimunda Montelo Mary Anne Vieira Silva já era demarcada por outros estigmas, como o meu Pioneirismo elemento regional nordestino, como minha condição de mulher. Mas a relação com a minha cor foi negada. Ela Na UEG, as políticas afirmativas para população foi trazida para o campo da morena”, diz a professora negra tiveram início no ano de 2004. A professora Mary do Câmpus de Ciências Humanas e Sócio-Econômicas Anne foi personagem ativa nessa construção. “Foi um de Anápolis . A docente continua: “se ver negro é uma grande projeto de inclusão social no Estado. Nessa autorreconstrução de uma identidade. E reconstruir a área, a UEG tomou à frente com a lei nº. 14.832, de identidade não é fácil. É um processo de autoentendi12 de julho de 2004, quando instituiu um percentual de mento de quem você é”, observa a professora da UEG. vagas no vestibular para a população negra. A UEG foi Essa tarefa se torna árdua uma vez que as bapioneira em Goiás nessa questão”. talhas travadas no campo semântico são construídas Para a professora, a democratização do acesso por vozes da elite dominante, que tem privilégios que ao ensino superior corrige o descompasso existente se outorgaram à custa da eliminação, violação e subalentre os 51% dos brasileiros autodeclarados negros e ternização da população negra do país. Nesse campo, os baixos índices de alunos afrodescendentes no cora Universidade se torna, portanto, personagem estratéredores acadêmicos. gica para a mudança desse panorama ao incorporar o A superintendente de Políticas para Mulheres, tema como primordial em suas discussões. Raimunda Montelo, pondera também que a UEG nasceu clamor da população do interior por mudanças, As políticas afirmativas e a reinvenção do tendo como vocação provocar debates que reverberem do sujeito em mudanças e políticas públicas para essa população. Para ela, garantir o acesso da população negra ao ensino superior é garantir a existência dessa população, Um dos grandes debates sociais no país, atualrestituindo-lhe as condições, simbólicas e materiais, mente, diz respeito ao enfrentamento urgente do exterque lhes permitam a humanidade plena . mínio da população negra jovem. É importante, nesse “A gente tem de lutar cotidianamente. Não é sentido, que se entenda que o início desse processo de fácil. É como se você fosse um sujeito fora da ordem. eliminação se deu na lógica de impedimento do acesso Você tem de se reinventar a cada dia”, resume Raidessa juventude ao ensino, ao lazer, ao esporte e a munda, dizendo sobre o que é ser negra. À sua fala, outras esferas do cotidiano. segue uma pesada pausa. Enquanto essa questão não A tentativa de reverter esse quadro no país cofor tratada como prioridade em terra brasileira, o país meça a se desenhar no início dos anos 2000, quando as continuará com uma política social que exclui, nega e universidades passam a discutir políticas de inserção mata. da comunidade negra no ambiente acadêmico. Não foi,

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jornal jornal UEG UEGueg em Foco Anápolis, março-abril dede 2014 Anápolis, março-abril 2014

UEG em foco Mestrado da UEG de Ipameri forma primeira turma Os alunos do Programa de Pós-Graduação Strictu Sensu em Produção Vegetal, do Câmpus Ipameri, realizaram, no início do ano, as defesas de dissertação da primeira turma de mestrado. Seis estudantes apresentaram suas pesquisas às bancas e, segundo a coordenação do programa, todos dentro do prazo regular de dois anos. Mariana Siqueira apresentou sua pesquisa em fevereiro. Agora mestre em Produção Vegetal, ela elogia o programa, revelando que “a experiência foi ótima. A Universidade tem ótimos professores”. Implantado em 2012, o Mestrado em Produção Vegetal possui três linhas de pesquisa: Fitotecnia; Solos e Água; e Recursos Genéticos. Os mestrandos são orientados por 15 doutores dentro do Programa que tem como objetivo formar profissionais aptos a atuar na perspectiva do respeito ao meio ambiente. Laboratório do Mestrado em Produção Vegetal

Estudantes de Sanclerlândia participam de Seminário de Pesquisa

Pesquisadores em aula do Mestrado em Ipameri

Os estudantes do 4° período dos cursos de Administração e Licenciatura em Informática do Câmpus Sanclerlândia participaram do I Seminário de Pesquisa da Unidade, que ocorreu entre os dias 25 e 27 de março. O evento abre espaço para que os estudantes mostrem projetos de pesquisa desenvolvidos – e que serão continuados na monografia -, e permite que os professores avaliem previamente a produção, contribuindo com críticas e sugestões. De acordo com dados da coordenação dos cursos, a primeira edição do seminário teve 40 participantes, apresentando cerca de 20 projetos, com temáticas como Tecnologia da Informação, Políticas Públicas de Apoio a Micro e Pequenas Empresas, Relações entre Marketing e Ciência, e Gameficação.

Câmpus Itapuranga relembra

golpe militar

Stephani Echalar

O golpe militar de 1964 completou 50 anos no dia 31 de março. Para marcar a data e relembrar o período de autoritarismo vivido no País nos anos que se seguiram, o Câmpus da UEG Itapuranga reuniu ex-militantes que atuaram em Goiás durante a ditadura para formar uma mesa-redonda no dia 3 de abril. Os professores Antônio Tavares e Sebastião Rafael Gontijo, e o médico Paulo Horta, dividiram, com a comunidade acadêmica, estudantes de escolas públicas da cidade e moradores da região, um pouco das experiências vividas durante suas atuações contra o regime militar. O objetivo, segundo o professor Valtuir Moreira da Silva, um dos organizadores do evento, foi “propiciar à nova geração uma visão sobre a ditadura”. Em entrevista, Valtuir Moreira fala um pouco mais sobre o encontro.

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A mesa-redonda teve a participação de militantes que viveram o período de chumbo da ditadura. Como se deu a composição da mesa? A mesa-redonda foi composta por militantes que vivenciaram os tempos de chumbo, na luta política em Goiás e em Itapuranga. Esses militantes participaram de inúmeras atividades de combate à ditadura e sofreram com as diferentes formas de repressão. Cada expositor narrou sua história, expondo suas atividades como militantes nos movimentos sociais, na universidade e na luta em prol de uma sociedade democrática, justa e fraterna. A luta contra a repressão encontrou terreno fértil nos interiores do Brasil. Como foi a participação dessas cidades menores na resistência? Entendo que a participação foi feita de forma velada quando a repressão era muita, tal como acontecera em Itapuranga. Temos documentos que comprovam a preocupação das autoridades gol-

pistas para essa região, pedindo cuidado com atos subversivos, com estudantes e professores que estavam promovendo tais ativismos. As participações dessas cidades menores foram essenciais pois serviram como locais de militância, feita em igrejas, sindicatos e associações. Aos 50 anos do golpe, qual a importância do encontro? A importância de promover este encontro é demonstrar para toda uma geração de brasileiros, goianos, e comunidade - uegeana ou não - o sentido do golpe e quais as consequências da militarização dos espaços democráticos e institucionais existentes, como escolas, universidades, sindicatos, partidos e até mesmo as nossas ruas. Mais do que relembrar, o encontro buscou representar os horrores do golpe e demonstrar como a sociedade civil e muitos atores sociais estiveram presentes na luta contra a ditadura. Valtuir Moreira da Silva Diretor Educacional - UEG Câmpus Itapuranga


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