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TEOLOGIA CONCISA


TEOLOGIA

COMCIÇA SÍNTESE DOS

FUNDAMENTOS HISTÓRICOS DA FÉ CRISTÁ

J.I.PACKER


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Teologia Concisa J.I. Packer © 1999 Direitos reservados por Editora

Cultijra Cristã

Packer, J. I. Teologia Concisa; síntese dos fundamentos históricos da fé cristã por J.I. Packer Trad. Rubens Castilho Campinas-SP: Luz Para o Caminho, 1998. 246p. Conteúdo. Parte 1. Deus revelado como criador. Parte 2. Dcu.s revelado como redentor. Parte 3. Deus revelado como Senhor da Graça. Parte 4. Deus revelado como Senhor do Destino.

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. Teologia cristã. I. Título. CDD-230 -------------------

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Edição: 1999 - 3 .0 0 0 exem plares Tradutor: Rubens Castilho

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Produção: LPC C om unicações C aixa Postal 130 - C ep 1 3 0 01-970 - C am pinas, SP

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«DITO ftA CUITURA CRISTA R u a M ig u e l T e lle s J ú n io r , 3 8 2 / 3 9 4 - C a m b u c i CEP 01540-040 - Sáo Paulo - SP - Tel.:(011) 270-7099 Fax.: (011) 279-1255 - Cx. Postal 15.136 - CEP o f t r )70 E -m a il: c e p @ c e p . o r g . b r - S ite : w w w . c e p o rg .b r

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Prefácio ESTE LIVRO EXPÕE EM BREVES COMPASSOS o que me parece ser a essencial idade permanente do Cristia­ nismo, visto tanto como um sistema de fé quanto uma forma de vida. Outros têm idéias distintas de como deve ser o perfil do Cristianismo, porém esta é a minha. É Reformacional e evangélica e, como tal, assim defendo, a corrente fundamen­ tal histórica e clássica. Estas porções resumidas, que foram inicialmente planeja­ das para um estudo bíblico e surgem agora revisadas, têm um molde intencionalmente escriturístico e, como outros escri­ tos meus, são temperados com textos para consulta. Sustento que assim deve ser, porquanto é básico para o Cristianismo o ensino bíblico como instrução do próprio Deus, emanando, como afirma Calvino, dos iábios santos do Altíssimo e che­ gando a nós por mediação humana. Se a Escritura é, na ver­ dade, o próprio Deus pregando e ensinando, como o grande corpo da igreja tem sempre afirmado, segue-se então que a primeira marca da boa teologia é procurar ecoar a Palavra divina tão fielmente quanto possível. Teologia é, primeiramente, a atividade de pensar e falar a respeito de Deus (teologização), e, em segundo lugar, o pro­ duto dessa atividade (a teologia de Lutero, ou Wesley, ou Finney, ou Wimber, ou Packer, ou quem quer que seja). Como atividade, a teologia é como um prisma que decompõe a luz em distintas disciplinas, embora inter-relacionadas: elucidação de textos (exegese), síntese do que eles dizem sobre coisas com que tratam (teologia bíblica), visão da fé expressa no passado (teologia histórica), sua formulação para a atualida­ de (teologia sistemática), busca de suas implicações para a conduta (ética), recomendação e defesa de sua verdade e sa-


bedoria (apologética), definição da tarefa cristã no mundo (missões), absorção de recursos para a vida em Cristo (espiritualidade), adoração em grupo (liturgia) e ministério perquiridor (teologia prática). Os capítulos seguintes, em for­ ma de esboço, exploram todas essas áreas. Recordando que o Senhor Jesus Cristo chamou aqueles que designou como ovelhas apascentadas, em vez de girafas, objetivei manter as coisas tão simples quanto possível. Al­ guém disse certa ocasião ao arcebispo William Temple que ele havia tornado muito simples um assunto complexo; ele sentiu enorme satisfação e disse prontamente: “Senhor, que me fizeste simples, faze-me ainda mais simples.” Meus senti­ mentos acompanham os de Temple, e tentei manter minha cabeça ao mesmo nível da dele. Como digo freqüentemente a meus alunos, a teologia é doxologia e devoção, isto é, louvor a Deus e prática da pieda­ de. Ela deve, pois, ser apresentada de forma que desperte a consciência da presença divina. A teologia alcança o auge da sua perfeição quando está conscientemente sob o olhar de Deus, de quem ela fala, e quando está cantando ao seu louvor. Tenho também procurado ter isso em mente. Estes breves estudos de grandes assuntos se parecem, agora que já os escrevi, com os rápidos passeios turísticos da Ingla­ terra, que companhias de ônibus operam para os visitantes americanos (quinze minutos em Stonehenge, duas horas em Oxford, teatro e pernoite em Stratford, uma hora e meia em York, uma tarde em Lake District — ufa!). Cada capítulo é uma nota esboçada. Não obstante, espero que meu material comprimido, empacotador-empacotado [Packer-packed] como é, possa expandir-se nas mentes dos leitores para elevar seus corações até Deus, do mesmo modo que uma forma diferente de ar aquecido leva os balões e seus passageiros às alturas. Veremos. Minhas freqüentes citações da Confissão de Westminster podem levantar algumas sobrancelhas, uma vez que sou


anglicano e não presbiteriano. Entretanto, como a Confissão pretendeu ampliar os Trinta e Nove Artigos, e a maior parte de seus autores era do clero anglicano, e como ela é uma es­ pécie de obra-prima, “o fruto mais maduro da elaboração do credo Reformado”, como B. B. Warfield a chamou, sinto-me autorizado a reputá-la como parte de minha herança anglicana Reformada, usando-a como principal recurso. Reconheço agradecido a mão oculta de meu muito admi­ rado amigo R. C. Sproul, de quem me veio a idéia-embrião de vários destes esboços. Embora nossos estilos difiram, pen­ samos de maneira muito semelhante, e temos cooperado com sucesso em numerosos projetos. Sei que somos algumas ve­ zes chamados de Máfia Reformada, mas palavras duras não quebram ossos, e vamos prosseguindo. Agradecimentos são devidos também a Wendell Hawley, meu publicador, e a LaVonne Neff, meu editor, pela assistên­ cia e paciência demonstradas de muitas maneiras. Trabalhar com eles tem sido um privilégio e um prazer. J. I. PACKER


índice PARTE UM

DEUS REVELADO COMO CRIADOR Revelação 3

A Escritura é a Palavra de Deus

Interpretação 6

Os Cristãos Podem Com preender a Palavra de Deus

Revelação Geral 9

A Realidade de Deus é Conhecida de Todos

Culpa 11

O Efeito da Revelação Geral

Testemunha Interior 13

A Escritura é Autenticada Pelo Espírito Santo

Autoridade 15

Deus Governa Seu Povo Através da Escritura

Conhecimento 17

O Verdadeiro Conhecimento de Deus Vem Por Meio da Fé

Criação 19

Deus é o Criador

Auto-Revelação 21 Este é o Meu Nome

Auto-Existência 24

Deus Tem Sido Sempre

Transcedência 26

A Natureza de Deus é Espiritual

Onisciência 29

Deus Vê e Conhece

Soberania 31

Deus Reina

Onipotência 33

Deus é Onipresente e Onipotente

Predestinação 35

Deus Tem Um Propósito


Trindade 38

Deus é Um e São Três

Santidade 41 Deus é Luz

Bondade 43 Deus é Amor

Sabedoria 46

A Dupla Vontade de Deus é Uma

Mistério 48

Deus é Insuperavelmente Grande

Providência 51

Deus Governa Este Mundo

Milagres 54

Deus Mostra Sua Presença e Poder

Glória 56

A Glória Manifesta de Deus Requer a Glória Concedida

Idolatria 58

Deus Exige Total Devoção

Anjos 60

Deus Utiliza Agentes Sobrenaturais

Demônios 62

Deus Tem Opositores Sobrenaturais

Satanás 64

Os Anjos Caídos Têm Um Líder

Humanidade 66

Deus Fez os Seres Humanos à Sua Imagem

A Raça Humana 69

Os Hum anos São Corpo e Alma em Dois Gêneros

PARTE DOIS

DEUS REVELADO COMO REDENTOR A Queda 75

O Primeiro Casal Hum ano Pecou

Pecado Original 78

A Depravação Contamina a Todos


Incapacidade 81

Os Seres Humanos Decaídos São Tanto Livres Como Escravizados

Aliança 83

Deus Faz Com os Humanos Pecadores Uma Aliança de Graça

A Lei 86

Deus Legisla e Exige Obediência

A Lei em Ação 88

A Lei Moral de Deus Tem Três Propósitos

A Consciência 90

Deus Instrui o ("oração e Limpa-o

A Adoração 92

Deus Oferece Um Modelo Litúrgico

Os Profetas 96

Deus Enviou Mensageiros Para Declararem Sua Vontade

Encarnação 98

Deus Enviou Seu Filho Para Nos Salvar

Duas Naturezas 102

Jesus Cristo é Inteiram ente Humano

Nascimento Virginal 105

Jesus Cristo Nasceu de Um Milagre

Mestre 107

Jesus Cristo Proclamou o Reino e a Família de Deus

Impecabilidade 110

Jesus Cristo Era Totalmente Isento de Pecado

Obediência 112

Jesus Cristo Cumpriu a Vontade Redentora de Seu Pai

Vocação 115

A Missão de Jesus Cristo foi Revelada em Seu Batismo

T ransfiguração 117

Como Foi Revelada a Glória de Jesus Cristo

Ressurreição 119

Jesus Cristo Ressuscitou Dentre os Mortos

Ascensão 121

Jesus Cristo Foi Elevado ao Céu

Entronizado 123

Jesus Reina no Céu


Mediação 125

Jesus Cristo é o Mediador entre Deus e o Homem

Sacrifício 128

Jesus Cristo Fez-se Expiação Por Nosso Pecado

Redenção Definitiva 131

Jesus Cristo M orreu Pelos Eleitos de Deus

PARTE TRÊS

DEUS REVELADO COMO SENHOR DA GRAÇA Paráclito 135

O Espírito Santo Ministra aos Crentes

Salvação 138

Jesus Livra Seu Povo do Pecado

Eleição 140

Deus Escolhe os Seus

Vocação Eficaz 143

Deus Atrai Seu Povo a Si

Iluminação 145

O Espírito Santo Dá Entendim ento Espiritual

Regeneração 147

O Cristão Nasceu de Novo

Obras 149

Boas Obras São Uma Expressão de Fé

Arrependimento 152

O Cristão Muda Radicalmente

Justificação 154

A Salvação é Pela Graça Por Meio da Fé

Adoção 157

Deus Faz de Seu Povo Seus Filhos

Santificação 159

O Cristão Cresce em Graça

Liberdade 162

A Salvação Traz Liberdade

Legalismo 165

As Obras Feitas em Favor de Deus Não Têm Valor


Antinomianismo 168

Não Somos Livres Para Pecar

Amor 171 O Amor é Básico na Conduta Cristã Esperança 173

Esperar é Fundamental na Perspectiva Cristã

Iniciativa 175

O Cristão Vive Para Agradar a Deus

Oração 177

Os Cristãos Praticam a Comunhão Com Deus

Juramentos e Votos 180

Os Cristãos Devem Ser Verdadeiros

O Reino de Deus 182

Os Cristãos Devem Manifestar a Vida do Reino

Apóstolos 184

Os Representantes de Deus Exerceram Autoridade

Igreja 186

Deus Estabelece Seu Povo em Uma Nova Comunidade

Palavra e Sacramento 190

Como Identificar Uma Igreja Genuína

Presbíteros 192

Os Pastores Devem Cuidar da Igreja

Sacramentos 194

Deus Instituiu Dois Sinais da Aliança de Deus

Batismo 197

Este Rito Revela União Com Cristo

A Ceia do Senhor 201

Este Rito Revela Comunhão Com Cristo

Disciplina 204

A Igreja Deve Apoiar os Padrões Cristãos

Missão 207

Cristo Envia a Igreja ao Mundo

Dons Espirituais 209

O Espírito Santo Prepara a Igreja

Casamento 211

O Matrimônio Deve Ser um Pacto de Relação Perm anente

A Família 214

O Lar Cristão é Uma Unidade Espiritual


O Mundo 216 Os Cristãos Estão na Sociedade Para Servi-la e Transformá-la O Estado 219 Os Cristãos Devem Respeitar o Governo Civil

PARTE QUATRO

DEUS REVELADO COMO SENHOR DO DESTINO Perseverança 223

Deus Guarda Seu Povo

Pecado Imperdoável 225

Somente a Impenitência Não Pode Ser Perdoada

Mortalidade 227

Os Cristãos Não Precisam Tem er a Morte

A Segunda Vinda 230

Jesus Cristo Retornará à Terra em Glória

Ressurreição Geral 233

Os Mortos em Cristo Ressuscitarão em Glória

O Tribunal do Juízo 237

Deus Julgará Toda a Hum anidade

Inferno 240

Os Maus Serão Destinados ao Imfortúnio Perpétuo

Céu 243

Deus Acolherá Seu Povo Com Júbilo Perene


PARTG UM

DEUS REVELADO COMO CRIADOR


REVELAÇÃO

A ESCRITURA É A PALAVRA DE DEUS Aí tábuas eram obra de Deus; também a escritura era a mesma escritura de Deus, esculpida nas tábuas. ÊXODO 32.16 | O Cristianismo é a verdadeira adoração e serviço do | verdadeiro Deus, Criador e Redentor da hum anidade. E uma religião firmada na revelação: ninguém conheceria a verdade sobre Deus, ou seria capaz de se relacionar com Ele de um modo pessoal, se Ele não tivesse agido primeiro para se fazer conhecido. Mas Deus agiu desta maneira, e os sessenta e seis livros da Bíblia, trinta e nove escritos antes da vinda de Cristo e vinte e sete depois, com preendem o registro, inter­ pretação, expressão e incorporação de sua auto-revelação. Deus e a religiosidade são os temas unificados da Bíblia. De um ponto de vista, as Escrituras são o testem unho fiel dos piedosos ao Deus a quem amam e servem; de outro ponto cle vista, por meio de um exercício singular da divina supremacia em sua composição, são elas o próprio testemu­ nho e ensino de Deus em forma humana. A igreja chama a esses escritos Palavra de Deus, porque sua autoria e conteúdo são ambos divinos. A garantia decisiva de que a Escritura, ou Bíblia, deriva de Deus e consiste inteiramente de sua sabedoria e verdade vem de Jesus Cristo e seus apóstolos, que ensinaram em seu nome. Jesus, Deus encarnado, viu sua Bíblia (nosso Velho Testa­ mento) como instrução escrita de seu Pai celestial, à qual Ele, não menos que outrem, deve obedecer (Mt 4.4,7,10; 5.19,20; 3


19.4-6; 26.31,52-54; Lc 4.16-21; 16.17; 18.31-33; 22.37; 24.2527,45-47; Jo 10.35), e a qual Ele tinha vindo cum prir (Mt 5.17,18; 26.24; Jo 5.46). Paulo se refere ao Velho Testamento como inteiramente impregnado pelo “sopro de Deus” — isto é, um produto do Espírito (“sopro”) de Deus, tanto quanto o é o cosmos (SI 33.6; Gn 1.2) — e escrito para ensinar o Cristianismo (2 Tm 3.15-17; Rm 15.4; 1 Co 10.11). Pedro afirma a origem divina do ensino bíblico em 2 Pedro 1.21 e 1 Pedro 1.10-12, e assim também o escritor de Hebreus por sua forma de citação (Hb 1.5-13; 3.7; 4.3; 10.5-7,15-17; cf. At 4.25; 28.25-27). Uma vez que o ensino dos apóstolos sobre Cristo é em si a verdade revelada nas palavras transmitidas por Deus (1 Co 2.12,13), a igreja corretamente considera os escritos autên­ ticos dos apóstolos como complemento das Escrituras. Pedro se refere às cartas de Paulo como Escritura (2 Pe 3.15,16), e Paulo, de forma nítida, recorre à Escritura do Evangelho de Lucas em 1 Timóteo 5.18, onde menciona as palavras de Lucas 10.7. A idéia de escritos orientativos do próprio Deus como base para a vida piedosa rem onta ao ato divino de inscrever o Decálogo sobre tábuas de pedra e, em seguida, induzir Moisés a escrever suas leis e a história de suas relações com seu povo (Êx 32.15,16; 34.1,27,28; Nm 33.2; Dt 31.9). Meditar e viver com base nesse material foi sempre fundamental para a verdadeira devoção em Israel, tanto para os líderes como para a comunidade (Js 1.7,8; 2 Rs 17.13; 22.8-13; 1 Cr 22.12,13; Ne 8; SI 119). O princípio, segundo o qual todos devem ser governados pelas Escrituras, isto é, pelo Velho e o Novo Testamentos juntos, é igualmente básico para o Cristianismo. O que as Escrituras dizem, Deus diz; porquanto, de modo comparável somente ao profundo mistério da Encarnação, a Bíblia tanto é plenamente hum ana como plenamente divina. Assim, todos os seus múltiplos conteúdos — histórias, profecias, poesias, canções, escritos de sabedoria, sermões, estatísticas, cartas, e o que mais houver — devem ser recebidos como vindos de Deus, e tudo o que os escritores da Bíblia 4


ensinam deve ser reverenciado como instrução autorizada de Deus. Os cristãos devem ser gratos a Deus pelo dom de sua Palavra escrita, e devem ser cuidadosos em basear sua fé e sua vida total e exclusivamente nela. Caso contrário, não pode­ remos jamais honrá-lo ou agradar-lhe, como Ele nos ordena a fazer.

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INTERPRETAÇÃO

OS CRISTÃOS PODEM COMPREENDER A PALAVRA DE DEUS Dá-me entendimento, e guardarei a tua lei; de todo o coração a cumprirei. SALMO 119.34 | Todos os cristãos têm o direito e o dever não somente | de aprender por meio da herança da fé recebida da igreja, mas também de interpretar a Escritura por si mesmos. A igreja de Roma desconfia disto, alegando que os indivíduos facilmente interpretam mal as Escrituras. Isto é verdade; porém, as regras seguintes, fielmente observadas, ajudarão a evitar que isso aconteça. Cada livro da Bíblia é uma composição humana, e embora deva sempre ser acatado como Palavra de Deus, sua inter­ pretação deve começar a partir do caráter humano. Portanto, a alegorização, que desrespeita o sentido expresso do escritor humano, jamais é apropriada. Cada livro foi escrito não em linguagem cifrada e, sim, de forma que possa ser com preendido pelo leitor, a quem se destina. Isto é verdade mesmo nos livros que empregam simbolismo; Daniel, Zacarias e Apocalipse. O ponto central da mensagem é sempre claro, ainda que os detalhes sejam um tanto obscuros. Assim, quando compreendemos as palavras empregadas, o fundo histórico e a formação cultural do escritor e de seus leitores, estamos aptos a apreender as idéias transmitidas. A compreensão espiritual — .isto é, o discer­ nim ento da realidade de Deus, seus caminhos para a humanidade, sua vontade presente, e nosso próprio relaciona­ 6


mento com Ele agora e para o futuro — não nos alcançarão, contudo, pelo texto, até que o véu seja removido de nossos corações e sejamos capazes de com partilhar o próprio sentimento do escritor para conhecer, agradar e honrar a Deus (2 Co 3.16; 1 Co 2.14). Impõe-se aqui a necessidade da oração, para que o Espírito Santo possa gerar em nós esse sentim ento e mostrar-nos Deus no texto. (Ver SI 119.18,19,26, 27,33,34,73,125,144,169; Ef 1.17-19; 3.16-19.) Cada livro teve seu lugar na progressão da revelação da graça de Deus, iniciada no Éden e atingindo seu clímax em Jesus Cristo, no Pentecoste e no Novo Testamento apostólico. Esse lugar deve estar na m ente do leitor quando estudar o texto. Os Salmos, por exemplo, moldam o coração piedoso em cada época, mas expressam suas preces e louvores em termos de realidades típicas (reis terrestres, reinos, saúde, riqueza, guerra, vida longa), que circunscrevem a vida de graça na era pré-cristã. Cada livro originou-se da mesma m ente divina, por isso o ensino dos sessenta e seis livros da Bíblia é com plem entar e autoconsistente. Se, apesar disso, não pudermos vê-lo assim, a falta está em nós, não na Escritura. E certo que a Escritura nunca se contradiz em parte alguma; antes, uma passagem fundam enta a outra. Este sólido princípio de interpretar a Escritura pela Escritura é, às vezes, chamado a analogia da Escritura, ou a analogia da fé. Cada livro dem onstra a imutável verdade acerca de Deus, da hum anidade, da piedade e da impiedade, aplicada a situações particulares e ilustrada por elas, em que indivíduos e grupos se encontram. O estágio final na interpretação bíblica é reaplicar essas verdades a nossas situações pessoais de vida; este é o meio para discernir o que Deus na Escritura está nos dizendo neste momento. Exemplos de tal reaplicação são a descoberta feita por Josias da ira de Deus contra Judá pela falha em observar sua lei (2 Rs 22.8-13), o argumento de Jesus sobre Gênesis 2.24 (Mt 19.4-6), e o uso de Paulo de Gênesis 15.6 e do Salmo 32.1,2 para mostrar a realidade da presente justiça pela fé (Rm 4.1-8). 7


Nenhum sentido pode ser lido na Escritura, ou atribuído a ela, que não possa, com certeza, ser extraído dela — demons­ trado, ou seja, indubitavelmente expresso por um ou mais de um escritor humano. Cuidadosa e devotada observância destas regras é a marca de todo cristão “que maneja bem a palavra da verdade” (2 Tm 2.15).

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REVELAÇÃO GERAL

A REALIDADE DE DEUS É CONHECIDA DE TODOS Os céus proclamam, a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. SALMO 19.1 |

O m undo de Deus não é um escudo que esconde o poder e a majestade do Criador. Pela ordem natural, é evidente que um potente e majestoso Criador lá está. Paulo escreve em Romanos 1.19-21, e em Atos 17.28 cita um poeta grego como testem unha de que os humanos são divinamente criados. Paulo afirma ainda que a bondade desse Criador é manifesta por meio de suas providências generosas (At 14.17; cf. Rm 2.4), e que ao menos algumas das exigências de sua santa lei são conhecidas de todas as consciências humanas (Rm 2.14,15), juntam ente com a desconfortável certeza do julgam ento final de retribuição (Rm 1.32). Essas certezas evidentes constituem o conteúdo da revelação geral. A revelação geral é assim chamada porque todas as pessoas a recebem pelo simples fato de estarem vivas no m undo de Deus. Isto foi assim desde o início da história humana. Deus revela ativamente esses aspectos de si mesmo a todos os seres humanos, de forma que todos os casos de falha em render graças e servir ao Criador com justiça constituem pecado contra o conhecimento, e negações de ter recebido tal conhecim ento não devem ser tomadas seriam ente. A revelação universal de seu poder, seu merecimento de louvor e sua exigência moral é a base da acusação de Paulo a toda raça hum ana como pecadora e culpada perante Deus por falhar em servi-lo como deve (Rm 1.18-3.19). 9


Deus agora suplementa sua revelação geral com a revelação adicional de si mesmo como Salvador dos pecadores, por meio de Jesus Cristo. Esta revelação, ocorrida na história e incorporada à Escritura, e abrindo a porta da salvação aos perdidos, é geralm ente cham ada revelação especial ou específica. Ela inclui a declaração verbal explícita de tudo o que a revelação geral nos fala a respeito de Deus, e nos ensina a reconhecer essa revelação na ordem natural, nos eventos da história, e em figura de seres hum anos, de sorte que aprendemos a ver o m undo inteiro, na frase de Calvino, como um teatro da glória de Deus.

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CULPA

O EFEITO DA REVELAÇAO GERAL O que de. Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. ROMANOS 1.19 |

A Escritura admite, e a experiência confirma, que os seres hum anos inclinam-se naturalm ente por uma forma de religião, embora falhem em adorar seu Criador, cuja revelação geral de si mesmo torna-o conhecido univer-salmente. O ateísmo teórico e o monoteísmo moral são opostos naturais: o ateísmo é sempre uma reação contra a crença pre­ existente em Deus ou deuses, e o monoteísmo moral somente surgiu no despertar da revelação especial. A Escritura explana este estado de coisas dizendo-nos que o pecado do egoísmo e da aversão às prescrições de nosso Criador conduz a hum anidade à idolatria, o que significa transferir a adoração e reverência a outro poder ou objeto que não o Deus Criador (Is 44.9-20; Rm 1.21-23; Cl 3.5). Desta maneira, os humanos apóstatas “suprimiram a verdade” e “mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de hom em corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis” (Rm 1.23). Eles sufocam e extinguem, tanto quanto podem, a consciência que a revelação geral lhes dá do Criador-Juiz transcendente, e com seu inextirpável senso de deidade se apegam a objetos indignos. Isto, ao revés, leva a um drástico declínio moral, com a conseqüente miséria, como primeira manifestação da ira de Deus contra a apostasia hum ana (Rm 1.18,24-32). 11


No mom ento atual, no Ocidente, as pessoas idolatram e, na realidade, adoram objetos seculares, tais como a empresa, a família, o futebol e sensações agradáveis de várias espécies. Mas, o declínio moral persiste como resultado, tal como ocorreu quando os pagãos adoraram ídolos literais nos tempos bíblicos. Os seres humanos não podem suprimir completamente sua percepção de Deus, bem como de seu julgam ento presente e futuro; o próprio Deus não permitirá que o façam. Algum sentido do que é certo e errado, como também de ser subme­ tido a um Juiz divino, sempre permanece. Em nosso m undo decaído, todas as mentes que não estão de algum modo anestesiadas têm uma consciência que, em certos pontos, as dirige e, de tempos em tempos, as condena, dizendo-lhes que devem sofrer pelos erros cometidos (Rm 2.14ss.); e quando a consciência fala nestes termos é, na verdade, Deus quem está falando. A hum anidade arruinada é, em certo sentido, ignorante de Deus, uma vez que o que as pessoas gostam de crer, e de fato crêem, com vistas ao objeto de seu culto falseia e distorce a revelação de Deus, da qual não podem escapar. Em outro sentido, contudo, todos os seres humanos perm anecem cônscios de Deus, de modo culpável, com desconfortáveis pressentimentos do julgam ento vindouro, que esperam não se cumpra. Somente o evangelho de Cristo pode falar de paz a esse aflitivo aspecto da condição humana.

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TESTEMUNHA INTERIOR A ESCRITURA É AUTENTICADA PELO ESPÍRITO SANTO E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento. 1 JOÃO 2.20

Por que os cristãos crêem que a Bíblia é a Palavra de | Deus, sessenta e seis livros form ando um único livro de instrução, no qual Deus nos revela a realidade da redenção por meio de Jesus Cristo, o Salvador? A resposta é que o próprio Deus confirmou isto por meio do que chamamos a testem unha interior do Espírito Santo. Nas palavras da Confissão de Westminster (1647): Podemos ser movidos e induzidos pelo testemunho da igreja a uma alta e reverente estima pela Sagrada Escritura. E a sacralidade do assunto, a eficácia da doutrina, a majestade do estilo, a harmonia de Iodas as partes, a finalidade do todo (que é dar toda glória a Deus), a plena descoberta que faz do único caminho para salvação do homem, as outras muitas incomparáveis excelências, e a sua total perfeição, são argumentos por meio dos quais ela abundantemente evidencia por si mesma ser a Palavra de Deus: não obstante, a plena persuasão e certeza que temos da sua infalível verdade e divina autoridade deve-se à obra interior do Espírito Santo que dá testemunho da Palavra em nosso coração. (1.5) O testemunho do Espírito sobre a Escritura é como seu testemunho a respeito de Jesus, que encontramos declarado em João 15.26 e 1 João 5.7 (cf. 1 Jo 2.20,27). Não é uma questão de dar nova informação, mas de esclarecer mentes 13


antes obscurecidas, que não discerniram a divindade por meio da apreensão de seu único impacto — o impacto, de um lado, do Jesus do evangelho, e, de outro lado, das palavras da Escritura Sagrada. O Espírito ilumina nossos corações para dar-nos a luz do conhecimento da glória de Deus, não somente na face de Jesus Cristo (2 Co 4.6), mas também no ensino da Sagrada Escritura. O resultado deste testem unho é um estado de espírito em que ambos, Salvador e Escritura, se evidenciam diante de nós como divinos — Jesus, uma pessoa divina; a Escritura, um produto divino — de um modo tão direto, imediato e impressionante como aquele em que gostos e cores se tornam evidentes por se imporem aos nossos sentidos. Em conseqüência disto, não mais achamos possível duvidar da divindade, seja de Cristo ou da Bíblia. Assim, Deus autentica para nós a Escritura Sagrada como sua Palavra — não por alguma experiência mística ou informação secreta sussurrada às escondidas no ouvido interior de alguém, não por argumento hum ano isolado (por mais forte que ele seja), nem pelo testemunho isolado da igreja (comovente como é quando visto ao longo desses dois mil anos). Deus o faz, antes, por meio de sua luz perscru­ tadora e poder transformador, pelos quais a Escritura atesta por si mesma sua origem divina. O impacto dessa luz e desse poder é o próprio testemunho do Espírito “pela Palavra e com ela em nosso coração”. Argumento, testemunho de outrem , e nossa própria experiência pessoal podem preparar-nos para receber esse testem unho, mas sua concessão, como a concessão da fé na divina obra salvífica de Cristo, é prerroga­ tiva exclusiva e soberana do Espírito Santo. A iluminação do Espírito testem unhando a divindade da Bíblia é experiência cristã universal, e tem sido assim desde o princípio, em bora muitos cristãos não tenham sabido verbalizá-la ou manejar a Bíblia de modo compatível com ela.

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AUTORIDADE

DEUS GOVERNA SEU POVO ATRAVÉS DA ESCRITURA Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça. 2 TIMÓTEO 3.16 | O princípio cristão da autoridade bíblica significa, por | ura lado, que é propósito de Deus dirigir a crença e con­ duta de seu povo mediante a verdade revelada que a Escritura Sagrada anuncia; por outro lado, significa que todas as nossas idéias a respeito de Deus devem ser medidas, testadas e, onde necessário, corrigidas e ampliadas, tendo como referência o ensino bíblico. A autoridade como tal é direito, reivindicação, aptidão e, por extensão, poder de controlar. A autoridade no Cristianismo pertence ao Deus Criador, que nos levou a conhecê-lo, amá-lo e servi-lo, e seu modo de exercer sua autoridade sobre nós é por meio da verdade e sabedoria de sua Palavra escrita. Do ponto de vista humano, cada livro bíblico foi escrito para promover o serviço de Deus com mais consistência e dedicação, e, de igual modo, do ponto de vista divino, toda a Bíblia tem este propósito. E uma vez que o Pai deu ao Filho plena autoridade para governar o cosmos em seu nome (Mt 28.18), a Escritura funciona precisamente como o instrum ento do senhorio de Cristo sobre seus seguidores. Toda a Escritura é, neste sentido, como as cartas de Cristo às sete igrejas (Ap 2-3). Onde encontrar hoje a verdade definitiva de Deus? Há três respostas, cada qual a seu próprio modo recorrendo à Bíblia. 15


As igrejas católica rom ana e ortodoxa encontram a verdade de Deus, como crêem, nas interpretações da Escritura incor­ poradas em sua própria tradição e consenso. Elas visualizam a Bíblia como verdade dada por Deus, porém insistem que a igreja deve interpretá-la, sendo infalível quando assim procede. Contrastando com essa visão, indivíduos rotulados de libe­ rais, radicais, modernistas, ou subjetivistas, encontram a verdade de Deus nas idéias, impressões, julgamentos, teorias e especulações que a Escritura provoca em suas mentes. Enquanto rejeitam o conceito neotestamentário da inspiração da Escritura, e não consideram sua Bíblia totalmente digna de confiança ou como receptáculo das transcrições absolutas e peremptórias da mente divina, estão confiantes de que o Espírito guia-os a pinçar e escolher desta forma o que resulta da sabedoria de Deus. O protestantismo histórico, entretanto, encontra a verdade de Deus no ensino das Escrituras canônicas como tais. Ele recebe essas Escrituras como inspiradas (isto é, como sopro de Deus, 2 Tm 3.16), inerrantes (ou seja, totalmente verdadeiras em tudo o que afirmam), suficientes (a saber, dizendo-nos tudo o que Deus deseja dizer-nos e tudo o que precisamos saber para a salvação e a vida eterna), e claras (isto é, objetivas e auto-interpretativas sobre todos os assuntos de im portância). As duas primeiras posições tratam os julgamentos humanos sobre a Bíblia como decisivos para a verdade e a sabedoria; a terceira, enquanto valoriza a herança de convicção da igreja e é sensível à exigência por coerência, que o pensamento racional envolve, submete sistematicamente todos os pensa­ mentos à Escritura, que toma seriamente como cânon. Cânon significa um a regra ou padrão. As duas primeiras posições se referem à Escritura como cânon, mas deixam de considerá-la com a devida seriedade como regra que funciona para a fé e para a vida. Assim, na prática, elas não aceitam plenam ente sua autoridade, enquanto sua profissão cristã, embora sincera, é conseqüentem ente falha. 16


CONHECIMENTO

O VERDADEIRO CONHECIMENTO DE DEUS VEM POR MEIO DA FÉ “Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me- conhecer e saber que eu sou o SENHOR, e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado”, diz o SENHOR. JEREMIAS 9.24 ^ Em 1 Timóteo 6.20,21 Paulo adverte Timóteo contra “os ^ falatórios inúteis e profanos e as contradições do saber (grego gnosis), como falsamente lhe chamam, pois alguns, professando-o, se desviaram da fé”. Paulo está atacando as tendências teosófico-religiosas que evoluíram para o gnosticismo no segundo século desta era. Mestres dessas crenças e práticas aconselharam os crentes a considerar seu com pro­ misso cristão como que um confuso primeiro passo na estrada do “conhecim ento”, e os incentivaram a tomar novos passos ao longo dessa estrada. Esses mestres, porém, tinham a ordem material como desprezível e o corpo como uma prisão para a alma, adotando a iluminação como a resposta completa à necessidade espiritual do homem. Negavam que o pecado fosse alguma parte do problema, e o “conhecim ento” que ofereciam incluía somente palavras de encantam ento, contrasenhas celestiais, disciplinas místicas e concentração extática. Eles reclassificaram Jesus como um mestre sobrenatural que parecia hom em , em bora não fosse; a Encarnação e a Reconciliação eram negadas, e substituíram o convite de Cristo para uma vida de amor santificado por prescrições para o ascetismo ou permissão para a licenciosidade. As cartas de 17


Paulo a Timóteo (1 Tm 1.3,4; 4.1-7; 6.20,21; 2 Tm 3.1-9);Judas 4,8-19); Pedro (2 Pe 2); e as duas primeiras cartas de João (1 Jo 1.5-10; 2.9-11,18,29; 3.7-10; 4.1-6; 5.1-12; 2 Jo 7-11) se contrapõem explicitamente às crenças e práticas que mais tarde emergiriam como gnosticismo. Em contraste, a Escritura fala de “conhecer” a Deus como a pessoa espiritual ideal: a saber, a plenitude de uma fé rela­ cionamento que traz salvação e vida eterna e gera amor, esperança, obediência e gozo. (Ver, por exemplo, Ex 33.13; Jr 31.34; Hb 8.8-12; Dn 11.32; Jo 17.3; G1 4.8,9; Ef 1.17-19; 3.19; Fp 3.8-11; 2 Tm 1.12.) As dimensões deste conhecim ento são intelectuais (conhecer a verdade acerca de Deus: Dt 7.9; SI 100.3); volitivas (crer em Deus, obedecer-lhe e adorá-lo em termos daquela verdade); e morais (praticar a justiça e o amor: Jr 22.16; 1 Jo 4.7,8). A fé-conhecimento focaliza o Deus encarnado, o homem Cristo Jesus, o mediador entre Deus e nós pecadores, por meio de quem vimos a conhecer seu Pai como nosso Pai (Jo 14.6). A fé procura conhecer a Cristo e seu poder especificamente (Fp 3.8-14). O conhecimento da fé é o fruto da regeneração, a doação de um coração novo (Jr 24.7; 1 Jo 5.20), e da iluminação pelo Espírito (2 Co 4.6; Ef 1.17). O conhecimento-relacionamento é recíproco, implicando afeição pactuai de ambos os lados: conhecemos a Deus como nosso, porque Ele nos conhece como dele (Jo 10.14; G1 4.9; 2 Tm 2.19). Toda a Escritura nos foi dada para ajudar-nos a conhecer a Deus deste modo. Trabalhemos para usá-la para seu adequado propósito.

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CRIAÇÃO

DEUS É O CRIADOR Que variedade, SENHOR, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das luas riquezas. SALMO 104.24 |

“No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Ele os fez por meio do fiat (latim: faça-se), sem qualquer material pré-existente; sua decisão de que as coisas deveriam existir (“Haja...”) fez com que elas surgissem e formou-as em ordem com uma existência que dependia de sua vontade, e que era, no entanto, distinta de sua essência divina. Pai, Filho e Espírito Santo envolveram-se juntam ente (Gn 1.2; SI 33.6,9; 148.5; Jo 1.1-3; Cl 1.15,16; Hb 1.2; 11.3). Os seguintes pontos devem ser assinalados: (a) O ato da Criação é um mistério para nós; há mais nele do que podemos com preender. Não podemos criar por fiat, e não sabemos como Deus pôde. Dizer que Ele criou “do nada” é confessar o mistério e não explicá-lo. Em particular, não podemos conceber como a existência dependente pode ser existência distinta, nem como anjos e seres humanos em sua existência dependente podem não ser robôs, mas criaturas capazes de decisões livres, pelas quais são m oralm ente responsáveis perante Aquele que os fez. E ntretanto, a Escritura em todos os lugares ensina que é assim. (b) Espaço e tempo são dimensões da ordem criada; Deus não está “em ” um ou outro; nem está sujeito a um ou outro, como nós estamos. 19


(c) Como a ordem universal não foi autocriada, ela tampouco é auto-sustentável, como Deus é. A estabilidade do universo depende da constante manutenção divina; este é um ministério específico do Filho de Deus (Cl 1.17; Hb 1.3), e sem isso toda criatura de toda espécie, nós inclusive, cessaria de ser. Como Paulo disse aos atenienses, “ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais. . . . pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17.25,28). (d) A possibilidade de intromissões criativas (p. ex., mila­ gres de poder criativo; criação de novas pessoas mediante a atividade procriativa humana; reorientação dos corações humanos e redirecionamento das vontades e energias hum a­ nas na regeneração) é tão velha como o próprio cosmos. Até quando Deus, em sua atividade m antenedora, realmente continuará a criar novas coisas, que não podem ser explicadas em termos de qualquer coisa que foi antes, está além de nosso poder de saber; porém, certamente este mundo perm anece aberto ao seu poder criativo em todos os pontos. Saber que Deus criou o m undo à nossa volta, e nós mesmos como parte dele, é básico à verdadeira religião. Deus deve ser louvado como Criador, em razão de sua maravilhosa ordem, variedade e beleza de suas obras. Os salmos, como o 104, são modelos desse louvor. Deus deve ser crido como o Senhor soberano, com um plano eterno abrangendo todos os eventos e destinos, sem exceção, e com poder de redimir, recriar e renovar; tal crença torna-se racional quando nos lembramos de que é no Criador toclo-pocleroso que estamos crendo. Reconhecer a cada mom ento nossa dependência do Deus Criador para nossa existência faz com que se torne apropriado viver vida de devoção, compromisso, gratidão e lealdade para com Ele, sem qualquer impureza. A retidão começa aqui, com Deus, o soberano Criador, como o prim eiro ponto de convergência de nossos pensamentos.

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AUTO-REVELAÇÃO

“ESTE É O MEU NOME” Disse Deus ainda mais a Moisés: “Assim dirás aos filhos de Israel: ‘O SENHOR, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, me enviou a vós outros este é o meu nome eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração. ” ÊXODO 3.15 No m undo m oderno, o nom e de um a pessoa é | meramente uma etiqueta de identificação, como um núm ero, que pode ser m udado sem prejuízo. Os nomes bíblicos, entretanto, têm seu cenário na ampla tradição em que os nomes pessoais dão informações, revelando, de certa forma, quem são as pessoas. O Velho Testamento constante­ mente celebra o fato de que Deus tornou seu nom e conhe­ cido a Israel, e os os salmos dirigem louvor ao nome de Deus incessantemente (SI 8.1; 113.1-3; 145.1,2; 148.5,13). “N om e” aqui quer dizer o próprio Deus, tal como Ele se revelou por palavras e atos. No âmago desta auto-revelação é o nome pelo qual Ele autorizou Israel a invocá-lo — Yahweh, como os eruditos modernos escrevem; Jeová, como se usa traduzido; o SENHOR, como ele é impresso nas versões do Velho Testa­ mento em português. Deus declarou este nome a Moisés, quando lhe falou do meio da sarça ardente que não se consumia pelo fogo. Deus iniciou por identificar-se como o Deus que em penhou a si mesmo em um pacto com os patriarcas (cf. Gn 17.1-14); depois, quando Moisés lhe perguntou qual ele diria ao povo ser o nome desse Deus (pois a antiga pressuposição era que a oração seria ouvida somente se fosse citado corretam ente c> I

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nome daquele a quem era dirigida), Deus primeiro disse “EU SOU O que SOU” (ou “serei o que serei”), depois o encurtou para “EU SOU”, e finalm ente cham ou a si mesmo “o SENHOR (hebraico Yahweh, um nome que soa como “EU SOU” em hebraico), o Deus de vossos pais” (Êx 3.6,1.3-16). O nome, em todas as suas formas, proclama sua realidade sobe­ rana eterna, auto-sustentada, autodeterm inada — o modo sobrenatural de existência que o sinal da sarça ardente tinha significado. A sarça, podemos dizer, foi a ilustração divina tridimensional de sua vida inexaurível. “Este é o meu nome eternam ente”, disse Ele — isto é, o povo de Deus deveria sempre pensar nele como o rei vivo, reinante, potente, irrestrito, irreduzível, que a sarça ardente dem onstrou (Êx 3.15). Mais tarde (Êx 33.18-34.7) Moisés pede para ver a “glória” de Deus, e, em resposta, Deus “proclamou o seu nom e” assim: “SENHOR, SENHOR Deus compassivo, clemente e longânimo, e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniqüidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado...” Na sarça ardente Deus tinha respondido à pergunta: De que forma Deus existe? Aqui Ele responde à pergunta: De que forma Deus procede? Esta proclamação fundamental de seu caráter moral é muitas vezes reiterado em passagens poste­ riores (Ne 9.17; SI 86.15; J1 2.13; Jo 4.2). É tudo parte de seu “nom e”, isto é, sua revelação de sua natureza, pelo qual Ele deve ser adorado para sempre. Deus completa esta revelação da glória de seu caráter moral chamando a si mesmo “zeloso” “pois o nome do Senhor é Zeloso [cium ento]” (Êx 34.14). Isto repete, com ênfase, o que Ele disse de si mesmo na sanção do segundo mandam ento (Êx 20.5). O zelo afirmado é pactuai: é a virtude do amante comprometido, que deseja lealdade total daquele a quem sujeitou a si para honrá-lo e servir-lhe. No Novo Testamento, as palavras e atos de Jesus, o Filho encarnado, constituem um a plena revelação da m ente, perspectiva, caminhos, planos e propósitos de Deus Pai (Jo 22


14.9-11; cf. 1.18). “Santificado seja o teu nom e”, na oração do Senhor (Mt 6.9), expressa o desejo de que a prim eira pessoa da Divindade seja reverenciada e louvada, como o esplendor de sua auto-revelação merece. A Deus deve ser dada glória por todas as glórias de seu nome, isto é, sua gloriosa autorevelação na criação, providência e graça.

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AUTO-EXISTÊN CIA

DEUS TEM SIDO SEMPRE Antes que os montes nascessem e se formassem a terra, e o mundo, de eternidade a eternidade tu és Deus. SALMO 90.2 Algumas vezes, as crianças perguntam , “Quem fez | Deus?” A resposta mais clara é que Deus nunca precisou ser feito, porque Ele sempre esteve lá. Ele existe de uma maneira diferente de nós: nós, criaturas suas, existimos em forma dependente, derivada, finita e frágil, mas nosso Criador existe em forma eterna, auto-sustentada e necessária — neces­ sária quer dizer no sentido de que Deus não tem, por sua imanência, de sair da existência, como, inversamente, não temos em nós a faculdade de viver para sempre. Nós necessariamente envelhecemos e morremos, porque c nossa presente natureza fazer isso; Deus necessariamente continua para sempre imutável, porque é sua natureza eterna fazer isso. Este é um dos muitos contrastes entre a criatura e o Criador. A auto-existência de Deus é uma verdade básica. No início de sua apresentação do Deus desconhecido aos idólatras atenienses, Paulo explicou que esse Deus, o Criador do mundo, “nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais” (At 17.25). Os sacrifícios oferecidos aos ídolos nas religiões tribais de hoje, como na antiga Atenas, são tidos como algo que mantém a idolatria, porém o Criador não precisa de tal sistema de apoio. A palavra aseidade, significando que Ele tem vida própria e que extrai 24


sua inexaurível energia de si mesmo {a se significa em latim “de si mesmo”), foi cunhada pelos teólogos para expressar esta verdade, que a Bíblia faz clara (SI 90.1-4; 102.25-27; Is 40.28-31; Jo 5.26; Ap 4.10). Em teologia, equívocos infindáveis resultam de se supor que as condições e os limites de nossa própria existência finita se aplicam a Deus. A doutrina de sua aseidade perm anece como um baluarte contra tais equívocos. Em nossa vida de fé, facilmente nos empobrecemos por abraçar uma idéia tão pequena e limitada de Deus, e, de novo, a doutrina da aseidade de Deus ergue-se como um baluarte para cessar essa ocorrência. E vital para a saúde espiritual crer que Deus é grande (cf. SI 95.1-7), e com preender a verdade de sua aseidade é o primeiro passo na estrada dessa crença.

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TRANSCENDÊNCIA

A NATUREZA DE DEUS É ESPIRITUAL Assim diz o SENHOR: O céu é o meu trono, e a terra o estrado dos meus pés; que casa me edificareis vós ? E qual ê o lugar do meu repouso ? ISAÍAS 66.1 “Deus é espírito”, disse Jesus à m ulher samaritana junto ao poço (Jo 4.24). Embora plenam ente pessoal, Deus não vive em um corpo e por meio dele, como nós, e, por isso, não está ancorado em uma m oldura espaço-tempo. Deste fato, além do fato adicional de que Ele é auto-existente e não marcado, como nós somos, pela desintegração pessoal (falta de concentração e controle), que o pecado produziu em nós, várias coisas decorrem. ! Primeiro, Deus não é limitado nem pelo espaço (Ele está continuam ente em todo lugar em sua plenitude) nem pelo tempo (não há o “mom ento presente”, no qual Ele esteja contido, como nós estamos). Os teólogos se referem à liberdade limitativa de Deus como sua infinidade, sua imensidade e sua transcendência (1 Rs 8.27; Is 40.12-26; 66.1). Como Ele mantém todas as coisas existentes, assim tem Ele todas as coisas em todos os lugares sempre diante de sua mente, cada qual em sua própria relação com seu plano e propósito totalmente abrangente para todo item e toda pessoa em seu m undo (Dn 4.34,35; Ef 1.11). Segundo, Deus é imutável. Isto significa que Ele é totalmente consistente: por ser necessariamente perfeito, Ele não pode mudar, seja para m elhor ou para pior; e porque não está limitado no tempo, Ele não está sujeito a mudança, como

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as criaturas (2 Pe 3.8). Longe de estar afastado e imóvel, Ele está sempre ativo em seu mundo, constantem ente fazendo novas coisas surgirem (Is 42.9; 2 Co 5.17; Ap 21.5); mas, em tudo isso, Ele expressa seu perfeito caráter com perfeita consistência. E precisamente a imutabilidade de seu caráter que garante sua fidelidade às palavras que tem falado e aos planos que tem feito (Nm 23.19; SI 33.11; Ml 3.6; Tg 1.16-18); e é essa imutabilidade que explica porque, quando as pessoas mudam sua atitude para com Ele, Ele muda sua atitude para com elas (Gn 6.5-7; Êx 32.9-14; 1 Sm 15.11; Jn 3.10). A idéia de que a invariabilidade de Deus envolve indiferença ao que se passa neste m undo é precisamente o oposto da verdade. •Terceiro, os sentimentos de Deus não estão fora de seu controle, como os nossos freqüentem ente estão. Os teólogos expressam isto dizendo que Deus é impassível e insensível, porém aquilo que Ele sente, como o que Ele faz, é uma questão de sua própria escolha deliberada e voluntária e está incluída na unidade de seu ser infinito. Deus jamais é nossa vítima no sentido de que o fazemos sofrer naquilo que Ele não tinha previamente escolhido sofrer. Contudo, são abundantes as passagens que expressam a realidade das emoções de Deus (alegria, tristeza, ira, deleite, amor, ódio, etc.), sendo um grande equívoco esquecer que Deus sente — em bora em form a de necessidade que transcende a experiência emocional de um ser finito. 'Quarto, todos os pensamentos e ações de Deus envolvem todo o seu ser. Esta é a sua integração, às vezes chamada “sua simplicidade”. Ela se coloca em completo contraste com a com plexidade e falta de integração de nossa própria existência pessoal, na qual, como resultado do pecado, raram ente ou talvez nunca somos capazes de concentrar a totalidade de nosso ser e todos os nossos poderes sobre qualquer coisa. Um aspecto da maravilha de Deus, entretanto, é que Ele simultaneamente dá total e indivisa atenção não apenas a uma coisa de cada vez, mas a todas as coisas e a todas as pessoas em todo lugar em seu m undo passado, presente e futuro (cf. Mt 10.29,30). 27


Quinto, o Deus que é espírito deve ser adorado em espírito e verdade, como Jesus ensinou (Jo 4.24). “Em espírito” quer dizer “com um coração renovado pelo Espírito Santo”. Nem rituais, movimentos de corpo ou formalidades devocionais constituem adoração, sem o envolvimento do coração, o qual somente o Espírito Santo pode induzir. “Em verdade” significa “com base na revelação da realidade de Deus, que culmina na Palavra encarnada, Jesus Cristo”. Antes de mais nada, esta é a revelação do que somos como pecadores perdidos e do que Deus é para nós como Criador-Redentor pelo ministério mediador de Jesus. Nenhum lugar sobre a terra é atualmente determ inado como único centro para adoração. A habitação simbólica de Deus na Jerusalém terrena foi substituída, quando veio o tempo (Jo 4.23), por sua morada na Jerusalém celestial, de onde Jesus agora ministra (Hb 12.22-24). No Espírito, “perto está o SENHOR de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade”, onde quer que estejam (SI 145.18; cf. Hb 4.14-16). Esta disponibilidade universal de Deus é parte das boas novas do evangelho; ela é um precioso benefício, e não deve ser apenas considerada superficialmente.

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ONISCIENCIA

DEUS VÊ E CONHECE Os olhos do SENHOR estão em lodo lugar, contemplando os maus e os bons. PROVÉRBIOS 15.3 ^ Onisciência é uma palavra que significa “conhecer todas ""fc as coisas”. A Escritura declara que os olhos de Deus percorrem todos os lugares (Jó 24.23; SI 33.13-15; 139.13-16; Pv 15.3; Jr 16.17; Hb 4.13). Ele busca todos os corações e observa os caminhos de cada um (1 Sm 16.7; 1 Rs 8.39; 1 Cr 28.9; SI 139.1-6,23; Jr 17.10; Lc 16.15; Rm 8.27; Ap 2.23) — em outras palavras, Ele conhece cada coisa entre todas as coisas e sobre todas as pessoas por todo o tempo. Ele também conhece o futuro, não menos que o passado e o presente, e possíveis eventos que nunca acontecem, não menos que os eventos reais que acontecem (1 Sm 23.9-13; 2 Rs 13.19; SI 81.14,15; Is 48.18). Nem tem Ele de “acessar” informações sobre as coisas, como um com putador que restaura os dados de um arquivo; todo o seu conhecim ento está imediata e diretam ente em sua m ente. Os escritores bíblicos se surpreendem com a capacidade da m ente de Deus a este respeito (SI 139.1-6; 147.5; Is 40.13,14,28; cf. Rm 11.33-36). O conhecimento de Deus associa-se à sua soberania: Ele conhece cada coisa, tanto em si mesma como em relação a todas as outras coisas, porque Ele a criou, sustenta e a faz funcionar a todo momento, de acordo com seu plano para ela (Ef 1.11). A idéia de que Deus pode saber, e prever, todas as coisas sem controlar todas as coisas parece não somente nãoescriturística, mas ilógica. 29


Para o cristão, o conhecimento da onisciência de Deus traz a certeza de que ele não foi esquecido, mas está sendo e será cuidado de acordo com a promessa de Deus (Is 40.27-31). A qualquer um, porém, que não seja cristão, a verdade do conhecimento universal de Deus deve causar pavor, pois ela vem como um lembrete de que não se pode ocultar seja a si mesmo ou a seus pecados da vista de Deus (SI 139.7-12; 94.111; Jo 1.1-12).

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SOBERANIA

DEUS REINA Mas ao fim daqueles dias eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. DANIEL 4.34 A asserção da absoluta soberania de Deus na criação, providência e graça é fundam ental à crença bíblica e ao louvor bíblico. A visão de Deus no trono, isto é, reinando, retorna à lembrança (1 Rs 22.19; Is 6.1; Ez 1.26; Dn 7.9; Ap 4.2; cf. SI 11.4; 45.6; 47.8,9; Hb 12.2; Ap 3.21); e somos constantem ente lembrados em termos explícitos de que o SENHOR (Yahweh) reina como rei, exercendo domínio sobre as coisas grandes e também as minúsculas (Ex 15.18; SI 47; 93; 96.10; 97;99.1-5; 146.10; Pv 16.33; 21.1; Is 24.23; 52.7; Dn 4.34,35; 5.21-28; 6.26; Mt 10.29-31). O domínio de Deus é total: Ele decide à medida que escolhe e executa tudo aquilo que decide, e ninguém pode parar sua mão ou im pedir seus planos. E claro em toda a Escritura que as criaturas racionais de Deus, angélicas e humanas, têm livre ação (poder de decisão pessoal naquilo que fazem); não seríamos seres morais, responsáveis perante Deus o Juiz, se assim não fosse, nem seria possível distinguir, como faz a Escritura, entre os maus propósitos dos agentes humanos e os bons propósitos de Deus, que soberanam ente governa a ação hum ana como meio planejado para seus próprios objetivos (Gn 50.20; At 2.23;

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13.26-39). Não obstante, o fato da livre ação nos confronta com o mistério, uma vez que o controle de Deus sobre nossas atividades livres e autodeterminadas é tão completo quanto o é sobre qualquer outra coisa, e como isto pode ser escapa ao nosso conhecimento. Regularmente, porém, Deus exerce sua soberania perm itindo que as coisas tomem seu curso natural, em lugar de intervir miraculosamente causando uma ruptura. No Salmo 93, a realidade do governo soberano de Deus é afirmado para (a) garantir a estabilidade do mundo contra todas as forças do caos (v. lb-4), (b) confirmar a fidelidade de todos os testemunhos e instruções de Deus (v. 5a), e (c) requerer de seu povo reverência à santidade (v. 5b). Todo o salmo expressa alegria, esperança e confiança em Deus, e não é de admirar. Faremos bem em abrigar seu ensino no coração.

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ONIPOTÊNCIA

DEUS É ONIPRESENTE E ONIPOTENTE “Ocultar-se-ia alguém em esconderijos, cie modo que eu não o veja ? — diz o SENHOR; porventura, não encho eu os céus e a lerra?” — diz o SENIIOR. JEREMIAS 23.24 Deus está presente cm todos os lugares; não devemos, | porém, imaginá-lo ocupando espaços, porque Ele não tem dimensões físicas. E como puro espírito que Ele perm eia todas as coisas, em uma relação de imanência que é mais do que nós, criaturas corpóreas, podemos com preender. Uma coisa clara, contudo, é que Ele está presente em toda parte na plenitude de tudo o que Ele é e de todos os poderes que possui, de sorte que as almas necessitadas que oram a Ele em qualquer lugar do m undo recebem a mesma plenitude de sua atenção indivisa. Por ser Deus onipresente, Ele é capaz de dispensar sua atenção a milhões de indivíduos ao mesmo tem po. A crença na onipresença de Deus, assim com preendida, é refletida em: Salmo 139.7-10; Jerem ias 23.23,24; Atos 17.24-28. Quando Paulo fala do Cristo elevado ao céu para encher todas as coisas (Ef 4.10), a disponibilidade de Cristo em toda parte na plenitude de seu poder é certam ente parte do sentido que está sendo expresso. E verdadeiro dizer que Pai, Filho e Espírito Santo estão hoje juntam ente onipresentes, embora a presença do Filho seja espiritual (por meio do Espírito Santo), não física (no corpo). “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2). Assim, Jó testifica a onipotência de 33


Deus. Onipotência significa, na prática, o poder de fazer todas as coisas que em sua perfeição racional e moral (isto é, sua sabedoria e bondade) Deus deseja fazer. Isto não quer dizer que Deus pode fazer literalmente todas as coisas: Ele não pode pecar, mentir, m udar sua natureza, ou negar as exigências de seu caráter santo (Nm 23.19; 1 Sm 15.29; 2 Tm 2.13; Hb 6.18; Tg 1.13,17); nem pode Ele fazer um círculo quadrado, pois a noção de um círculo quadrado é, em si mesma, contraditória; nem pode Ele cessar de ser Deus. Porém, tudo o que Ele deseja e promete Ele pode fazer e fará. Teria sido demasiado para Davi dizer — “Eu te amo, ó SENHOR, força minha. O SENHOR é a minha rocha, a minha cidadela, o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo em que me refugio; o meu escudo, a força da minha salvação, o meu baluarte” (SI 18.1,2)? Teria sido excessivo para outro salmista declarar “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações” (46.1)? Não quando eles conheciam Deus como onipresente e onipotente, embora, de outra forma, pudesse ter sido. Conhecimento da grandeza de Deus (e sua onipresença e onipotência são aspectos de sua grandeza) naturalm ente produz grande fé e grande louvor.

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PREDESTINAÇÃO

DEUS TEM UM PROPOSITO “Eu vos tenho amado ”, diz o SENHOR; “mas vós dizeis: Em que nos tens amado?’ ‘N ão foi Esaú irmão de facóT’ — disse o SENHOR; “todavia amei a facó, porém aborreci a Esaú... ” MALAQUIAS 1.2,3 Os quarenta ou mais escritores que produziram os sessenta e seis livros da Escritura no espaço de tempo aproximado de mil e quinhentos anos viram-se, e a seus leito­ res, envoltos na realização do propósito soberano de Deus para este mundo, propósito que o levou a criar, que o pecado depois rompeu, e que sua obra de redenção está presente­ m ente restaurando. Esse propósito era, e é, em essência, a incessante expressão e gozo do amor entre Deus e suas criatu­ ras racionais — amor manifesto em sua adoração, louvor, gra­ tidão, honra, glória e serviço prestados a Ele, e na comunhão, privilégios, alegrias e dádivas que Ele lhes dá. Os escritores lançam um olhar àquilo que já se fez para promover o plano salvífico no planeta terra danificado pelo pecado, e olham à frente o dia de sua completitude, quando o planeta terra será recriado com glória inimaginável (Is 65.17-25; 2 Pe 3.10-13; Ap 21.1-22.5). Eles proclamam Deus como o todo-poderoso Criador-Redentor e se apóiam constan­ tem ente nas multiformes obras da graça que Deus realiza na história para assegurar para si um povo, uma grande compa­ nhia de indivíduos reunidos, com os quais seu propósito original de dar e receber amor possa ser cumprido. E os escri­ tores insistem que, como Deus se mostra absoluto no controle 35


dos fatos ao conduzir seu plano ao ponto atingido no m om en­ to em que eles escrevem, assim Ele continuará com o total controle, executando todas as coisas de acordo com sua pró­ pria vontade, completando assim seu projeto redentor. E dentro desta moldura de referência (Ef 1.9-14; 2.4-10; 3.8-11; 4.11-16) que se inserem as questões sobre predestinação. Predestinação é uma palavra freqüentem ente usada para significar a preordenação de Deus de todos os eventos da história universal, passados, presentes e futuros, e este uso é bem apropriado. Contudo, na Escritura e na linha teológica prevalecente, predestinação significa especificamente a deci­ são de Deus, tomada na eternidade antes da existência do m undo e de seus habitantes, com respeito ao destino final dos pecadores individuais. De fato, o Novo Testamento usa as palavras predestinação e eleição (ambas sinônimas), somente para indicar a escolha divina de pecadores particulares para a salvação e a vida eterna (Rm 8.29; Ef 1.4,5,11). Muitos, entretanto, têm chamado a atenção para o fato de a Escritura também atribuir a Deus uma decisão antecipada sobre aqueles que não se salvarão (Rm 9.6-29; 1 Pe 2.8; Jd 4), e assim tornouse comum na teologia protestante definir a predestinação de Deus como incluindo tanto a decisão de salvar alguns do pecado (eleição) como, paralelam ente, sua decisão de condenar os restantes por seu pecado (reprovação). A pergunta, “Sobre que base Deus escolhe indivíduos para a salvação?”, responde-se ocasionalmente: com base em sua presciência de que, quando se defrontassem com o evangelho, eles escolheriam Cristo como seu Salvador. Nessa resposta, presciência significa uma previsão passiva da parte de Deus daquilo que os indivíduos se inclinam a fazer, sem que Ele predeterm ine sua ação. Porém (a) Antever e m Romanos 8.29; 11.2 (cf. 1 Pe 1.2 e 1.20, onde a Bíblia NVT traduz o grego antevisto por “escolhido”) significa “am or prévio” e “designação prévia”: não expressa a idéia de uma antecipação do espectador sobre o que acontecerá espontaneamente. 36


(b) Uma vez que todos estão naturalm ente mortos em pecado (isto é, excluídos da vida de Deus e indiferentes a E le), ninguém que ouve o evangelho jamais chegará ao arrependi­ mento e à fé sem um toque íntimo que somente Deus pode transmitir (Ef 2.4-10). Jesus disse: “Ninguém poderá vir a mim, se pelo Pai não lhe for concedido” (Jo 6.65, cf. 44; 10.25-28). Os pecadores escolhem Cristo somente porque Deus os escolheu para essa escolha e os inspirou a fazê-lo pela reno­ vação de seus corações. Embora todos os atos humanos sejam livres no sentido de autodeterminados, nenhum deles está livre do controle de Deus, conforme seu eterno propósito e preordenação. Os cristãos devem, portanto, agradecer a Deus sua conver­ são, olhar para Ele para que os guarde na graça para a qual os trouxe, e confiantemente esperar seu triunfo final, de acordo com seu plano.

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TRINDADE

DEUS É UM E SÃO TRÊS Assim diz o SENHOR, Rei de Israel, seu Redentor, o SENHOR dos Exércitos: “Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há Deus. ” ISAÍAS 44.6 0 Velho Testamento insiste constantemente em que há somente um Deus, o auto-revelado Criador, que deve ser adorado e amado com exclusividade (Dt 6.4,5; Is 44.645.25). O Novo Testamento confirma-o (Mc 12.29,30; 1 Co 8.4; Ef 4.6; 1 Tm 2.5), porém fala de três agentes pessoais, Pai, Filho e Espírito Santo, que operam juntos em forma de equipe para efetivar a salvação (Rm 8; Ef 1.3-14; 2 Ts 2.13,14; 1 Pe 1.2). A formulação histórica da Trindade (derivada da palavra latina trinitas) procura circunscrever e salvaguardar este mistério (não explaná-lo, pois ele está além de nossa compreensão), e nos confronta com a mais difícil noção talvez que a m ente hum ana já teve de assimilar. Ela não é fácil; mas é verdadeira. A doutrina origina-se dos fatos que os historiadores do Novo Testamento relatam, e do ensino revelador que, hum a­ nam ente falando, decorreu desses fatos. Jesus, que orou a seu Pai e ensinou seus discípulos a fazerem o mesmo, convenceuos de que Ele era pessoalmente divino, e de que a crença em sua divindade e na retitude de dedicar-lhe adoração e oração é basica à fé neotestam entária (Jo 20.28-31; cf. 1.18; At 7.59; Rm 9.5; 10.9-13; 2 Co 12.7-9; Fp 2.5,6; Cl 1.15-17; 2.9; Hb 1.112; 1 Pe 3.15). Jesus prom eteu enviar outro Paráclito (Ele

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mesmo tendo sido o prim eiro), e Paráclito significa um minis­ tério pessoal m ultiform e, como conselheiro, advogado, ajudador, confortador, aliado, sustentador (Jo 14.16,17,26; 15.26,27; 16.7-15). Este outro Paráclito, que veio no Pentecoste para cum prir este ministério prom etido, era o Espírito Santo, reconhecido desde o início como uma terceira pessoa divina: m entir a Ele, diz Pedro não muito depois do Pentecoste, é m entir a Deus (At 5.3,4). Assim, Cristo prescreveu o batismo “em nome (singular: um Deus, um nome) do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” — as três pessoas que são um Deus, a quem os cristãos se submetem (Mt 28.19). Portanto, encontramos as três pessoas no relato do próprio batismo de Jesus: o Pai reconheceu o Filho, e o Espírito mostrou sua presença na vida e no ministério do Filho (Mc 1.9-11). E assim que lemos a bênção trinitária de 2 Coríntios 13.14, e a oração por graça e paz do Pai, Espírito e Jesus Cristo, em Apocalipse 1.4,5 (teria João colocado o Espírito entre o Pai e o Filho, se não reconhecesse o Espírito como divino no mesmo sentido em que Eles são?). Estes são alguns dos mais notáveis exemplos da perspectiva e ênfase trinitárias do Novo Testamento. Embora a linguagem técnica do trinitarianismo não seja aí encontrada, a fé e o pensam ento trinitários estão presentes por meio de suas páginas, e, neste sentido, a Trindade deve ser reconhecida como doutrina bíblica: uma eterna verdade a respeito de Deus, que, embora não explícita no Velho Testamento, é clara e m arcante no Novo. A afirmação básica desta doutrina é que a unidade de um Deus é complexa. As três “subsistências” pessoais (como são chamadas) são centros co-iguais e co-eternos de autocons­ ciência, cada qual sendo “Eu” em relação aos dois que são “Vós”, e cada qual participando da plena essência divina (a “substância” da deidade, se assim podemos chamá-la) junta­ m ente com os outros dois. Eles não são três papéis represen­ tados por uma pessoa (o que seria modalismó), nem são eles três deuses agrupados (o que seria triteísmo); o Deus (“Ele”) é, igualmente, “Eles”, e “Eles” estão sempre juntos e sempre 39


cooperando, com o Pai iniciando, o Filho aquiescendo e o Espírito executando a vontade de ambos, que também é sua. Esta é a verdade acerca de Deus, a qual foi revelada mediante as palavras e obras de Jesus, e que dá suporte à realidade da salvação, à medida que o Novo Testamento a expõe. A importância prática da doutrina da Trindade é que ela requer que demos igual atenção e igual honra às três pessoas na unidade de seu gracioso ministério para conosco. Esse ministério é o ponto central do evangelho, que, como de­ monstra a conversa de Jesus com Nicodemos, não pode ser declarado sem incluir seus diferentes papéis no plano da graça de Deus (Jo 3.1-15; notem-se especialmente os w. 3, 5-8, 13-15, bem como os comentários expositivos de João, que a Bíblia NVI traduz como parte da própria conversação, w. 1621). Todas as formulações não-trinitárias da mensagem cristã são, pelos padrões bíblicos, inadequadas e, de fato, fundam en­ talmente falsas, tendendo naturalmente a deformar a vida cristã.

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SANTIDADE

DEUS E LUZ Eu sou o SENHOR, vosso Deus; portanto, vós vos consagrareis e sereis santos, porque eu sou santo... ” LEVÍTICO 11.44 Quando a Escritura chama “santo” a Deus, ou a pessoas individuais da Divindade (como ela freqüentem ente faz: Lv 11.44,45; Js 24.19; 1 Sm 2.2; SI 99.9; Is 1.4; 6.3; 41.14,16,20; 57.15; Ez 39.7; Am 4.2; Jo 17.11; At 5.3,4,32; Ap 15.4), a palavra significa tudo a respeito de Deus que o coloca separado de nós e faz dele objeto de nossa reverência, ado­ ração e temor. Ela cobre todos os aspectos de sua grandeza transcendente e perfeição moral, e, assim, é um atributo de todos os seus atributos, salientando a “Divindade” de Deus em cada ponto. Cada faceta da natureza de Deus e cada aspecto de seu caráter pode apropriadamente ser chamado santo, precisamente porque Ele o é. A essência do conceito, porém, é a pureza de Deus, que não pode tolerar qualquer forma de pecado (Hc 1.13) e, por isso, impõe aos pecadores a constante autocontrição em sua presença (Is 6.5). Justiça, que significa fazer em todas as circunstâncias coisas que são corretas, é uma expressão da santidade de Deus. Deus manifesta sua justiça como legislador e juiz, e também como guardador da promessa e perdoador do pecado. Sua lei moral, que requer conduta que se equipare à sua própria, é “santa, justa e boa” (Rm 7.12). Ele julgajustam ente, de acordo com o mérito real (Gn 18.25; SI 7.11; 96.13; At 17.31). Sua “ira”, isto é, sua ativa hostilidade judicial ao pecado, é 41


totalmente justa em suas manifestações (Rm 2.5-16), e seus “julgam entos” específicos (castigos eqüitativos) são gloriosos e dignos de louvor (Ap 16.5,7; 19.1-4). Toda vez que Deus cum­ pre a promessa de sua aliança, agindo para salvar seu povo, pratica um gesto de “eqüidade”, isto é, justiça (Is 51.5,6; 56.1; 63.1; 1 Jo 1.9). Quando justifica os pecadores pela fé em Cristo, Ele o faz com base na justiça aplicada, isto é, o castigo de nossos pecados na pessoa de Cristo, nosso substituto; portanto, a forma tomada por sua misericórdia justificadora mostra que Ele é absoluta e totalmente justo (Rm 3.25,26), e nossa própria justificação se revela judicialmente justificada. Quando João diz que Deus é “luz”, não havendo nele treva alguma, a imagem está afirmando a santa pureza de Deus, o que torna impossível a comunhão entre Ele e o profano inten­ cional, e requer a busca da santidade e retidão de vida como objetivo central do povo cristão (1 Jo 1.5-2.1; 2 Co 6.14-7.1; Hb 12.10-17). A convocação dos crentes, regenerados e perdoa­ dos que são, a praticarem uma santidade que se equipare à própria santidade de Deus, e desta forma agradando a Ele, é constante no Novo Testamento, como certamente o foi no Velho Testamento (Dt 30.1-10; Ef 4.17-5.14; I Pe 1.13.22). Porque Deus é santo, o povo de Deus deve também ser santo.

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BONDADE

DEUS É AMOR Rendei graças ao SENHOR, por que ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre. SALMO 136.1 | A declaração “Deus é am or” é freqüentem ente expli| cada em termos de (a) revelação, dada por meio da vida e ensino de Cristo, da vida sem fim do Deus triúno como sendo de mútuo afeto e honra (Mt 3.17; 17.5; Jo 3.35; 14.31; 16.13, 14; 17.1-5,22-26), ligada a (b) reconhecim ento de que Deus fez os anjos e os humanos para glorificar seu Criador, compartilhando o jubiloso intercâmbio dessa vida divina, ã feição de sua própria maneira humana. Porém, verdadeiro como isto pareça ser, quando João diz “Deus é am or” (1 Jo 4.8), o que ele quer dizer (como continua a explanar) é que o Pai, por meio de Cristo, verdadeiramente nos salvou, a nós outrora pecadores perdidos que agora cremos. “Nisto se manifestou o am or de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigénito ao mundo, para vivermos por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus,” — nós não o fizemos — , “mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (w. 9,10). Como sempre, no Novo Testamento, “nós”, como objetos e beneficiários do amor redentor, significa “nós os que cremos”. Nem aqui nem em outro lugar “nós” ou “nos” se refere a cada indivíduo pertencente à raça humana. O ensino do Novo Testamento sobre a redenção é inteiram ente particularista, e quando se diz que “o m undo” foi objeto de amor e redenção 43


(Jo 3.16,17; 2 Co 5.19; 1 Jo 2.2), a referência é ao grande núm ero dos eleitos de Deus dispersos por todo o mundo no meio da incrédula com unidade hum ana (cf. Jo 10.16; 11.52,53), não para cada e toda pessoa que existiu, existe ou existirá. Se assim não fosse, João e Paulo estariam contradi­ zendo o que disseram em outros textos. Este am or redentor soberano é uma faceta da qualidade que a Escritura chama bondade de Deus (SI 100.5; Mc 10.18), isto é, a gloriosa benignidade e generosidade que toca todas as suas criaturas (SI 145.9,15,16) e que deve levar todos os pecadores ao arrependim ento (Rm 2.4). Outros aspectos dessa bondade são a misericórdia e a compaixão ou piedade, que mostra benignidade às pessoas infortunadas, livrando-as de suas desventuras (SI 107,136), bem como a paciência, clemência e demora em irar-se que continuam a mostrar bondade para com as pessoas que persistem no pecado (Ex 34.6; SI 78.38; Jo 3.10-4.11; Rm 9.22; 2 Pe 3.9). A expressão suprem a da bondade de Deus ainda é, contudo, a surpreendente graça e inexprimível am or que revela bondade ao salvar pecadores que merecem unicamente condenação: salvando-os, sobretudo, ao custo espantoso da morte de Cristo no Calvário (Rm 3.22-24; 5.5-8; 8.32-39; Ef 2.1-10; 3.14-18; 5.25-27). A fidelidade de Deus a seus propósitos, promessas e pessoas é um outro aspecto de sua bondade e louvabilidade. Os humanos mentem e quebram sua palavra; Deus não. Nos piores tempos ainda se pode dizer: “As suas misericórdias não têm fim”; “A tua benignidade, SENHOR, chega até aos céus” (Lm 3.22,23; SI 36.5; c f SI 89, especialm ente os w. 1,2,14,24,33, 37,49). Embora os meios de Deus expressar sua fidelidade sejam algumas vezes inesperados e desconcertantes, parecendo antes infidelidade ao observador ocasional em curto espaço de tempo, o testemunho final dos que andam com Deus ao longo dos altos e baixos da vida é que “todas [promessas] vos sobrevieram, nem uma delas falhou” (Js 23.14,15). A fidelidade de Deus, ao lado de outros aspectos de sua bondade gratuita demonstrados em sua Palavra, é sempre 44


o terreno firm e sobre o qual depositamos nossa fÊ e esperança.

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SABEDORIA

A DUPLA VONTADE DE DEUS É UMA Seja bendito o nome de Deus de eternidade a eternidade, porque dele é a sabedoria e o poder. DANIEL 2.20 Sabedoria na Escritura significa escolher o fim m elhor e mais nobre a que visamos, servindo-nos dos meios mais apropriados e efetivos para isso. A sabedoria hum ana é exposta nos livros da Sabedoria do Velho Testamento (Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cânticos de Salomão, mostrando-nos como sofrer, orar, viver, desfrutar e amar, respectivamente) e na carta de Tiago (recom endando uma consistente conduta cristã): isto significa desenvolver o “tem or” de Deus — ou seja, culto e serviço reverente a Ele — o propósito do homem (Pv 1.7; 9.10; Ec 12.13), e cultivar a prudência, constância, paciência e zelo, como meios de alcançá-la. A sabedoria de Deus é vista nas suas obras da criação, preservação e redenção: é sua escolha para sua própria glória como alvo (SI 46.10; Is 42.8; 48.11), e sua deci­ são de alcançá-la, primeiro pela criação de uma variedade maravilhosa de coisas e pessoas (SI 104.24; Pv 3.19,20), segundo, por suas bondosas providências de toda sorte (SI 145.13-16; At 14.17), e terceiro, pela “sabedoria” redentora do “Cristo crucificado” (1 Co 1.18-2.16), bem como pela igreja universal resultante (Ef3.10). A operação da sabedoria de Deus envolve a expressão de sua vontade em ambos os sentidos que essa frase contém. No primeiro e fundamental sentido, a vontade de Deus é sua

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decisão, ou decreto, acerca do que acontecerá — “seu eterno propósito, de acordo com o conselho de sua vontade, pelo qual, para a sua própria glória, ele predestinou tudo quanto sucede” (Catecismo M enor de Westminster, Pergunta 7). Esta é a vontade de Deus sobre os eventos, referida em Efésios 1.11. No segundo e secundário sentido, a vontade de Deus é sua ordem, isto é, sua instrução, dada na Escritura, de como as pessoas devem e não devem conduzir-se: é algumas vezes chamada sua vontade de preceito (ver Rm 12.2; Ef 5.17; Cl 1.9; 1 Ts 4.3-6). Algumas dessas exigências têm raízes em seu caráter santo, que nos cumpre imitar: como são os princípios do Decálogo e dos dois grandes mandam entos (Ex 20.1-17; Mt 22.37-40; cf. Ef 4.32-5.2). Algumas de suas exigências em anam simplesmente da divina instituição: como são a circuncisão e as leis sacrificiais e purificadoras do Velho Testamento, e como são o batismo e a Ceia do Senhor em nossos dias. Todas, porém, obrigam igualmente a consciência, e o plano de Deus para os eventos já inclui as “boas obras” de obediência que os que crêem realizarão (Ef 2.10). E às vezes difícil acreditar que a penosa obediência, que nos coloca em desvantagem no m undo (como a obediência leal a Deus comumente faz), seja parte de um plano predestinado a promover tanto a glória de Deus como nosso próprio bem (Rm 8.28). Porém, temos de glorificar a Deus crendo que assim é, e que um dia veremos como será; porquanto sua sabedoria é suprem a e infalível. Uma das formas em que Deus realiza a sua vontade de eventos, ou decretos, é tornando conhecida a sua vontade de preceitos, sua instrução, e admi­ nistrando a resposta de livre arbítrio a ela, mesmo quando essa resposta do homem for de incredulidade e desobediên­ cia. Paulo ilustra isto quando diz aos Romanos que a descren­ ça de Israel tem seu lugar no plano de Deus para o progresso do evangelho (Rm 11.11-15,25-32): um a compreensão que induz ao clamor: “O profundidade da riqueza... da sabedoria... de Deus! ... A ele, pois, a glória eternam ente. Amém” (w. 33,36). Seja este também nosso clamor. 47


MISTÉRIO

DEUS É INSUPERAVELMENTE GRANDE Teu, SENHOR, é o poder, a grandeza, a honra, a vitória e a majestade; porque ieu ê tudo quanto há nos eéus e na terra; teu, SENHOR, é o reino, e tu le exaltaste por chefe sobre todos. 1 CRÔNICAS 29.11 |

Deus é grande, diz a Escritura (Dt 7.21; Ne 4.14; SI 48.1; 86.10; 95.3; 145.3; Dn 9.4): maior do que possamos com­ preender. A teologia afirma isto retratando-o como incompre­ ensível — não no sentido de que a lógica seja algo diferente para Ele do que é para nós, de sorte que não possamos acom panhar de forma alguma as obras de sua mente, mas no sentido de que nunca poderemos compreendê-lo plenam en­ te, exatamente por ser Ele infinito e nós sermos finitos. A Escritura fala de Deus habitando não somente em espessa e impenetrável obscuridade, mas também em luz inalcançável (SI 97.2; 1 Tm 6.16), ambas imagens expressando a mesma idéia: nosso Criador está acima de nós, e está além de nosso poder tomar sua medida em qualquer hipótese. Isto é expresso algumas vezes ao se falar do mistério de Deus, usando esta palavra não no sentido bíblico de um segredo que Deus revelou agora (Dn 2.29,30; Ef 3.2-6), mas no sentido, desenvolvido mais recentem ente, de uma realidade que não temos capacidade de com preender adequadamente, a despeito do muito que se tem dito sobre ela. Deus nos diz na Bíblia que a criação, o governo providencial, a Trindade, a Encarnação, a obra regeneradora do Espírito, a união com Cristo em sua morte e ressurreição, e a inspiração da Escritura 48


— para não ir além — são fatos, e tomamos sua palavra pelo que eles são; acreditamos, porém, que eles o são sem conheci­ mento de como podem ser. Como criaturas, somos incapazes de com preender plenam ente quer o ser quer as ações do Criador. Assim como seria equivocado, de qualquer modo, nos supormos conhecedores de todas as coisas sobre Deus (e com isso aprisioná-lo na caixa de nossa própria noção limitada sobre Ele), do mesmo modo seria errado duvidar quanto ao nosso conceito constituir ou não um real conhecim ento dele. Parte do significado de nossa criação à imagem de Deus é que somos capazes tanto de saber a respeito dele como de conhecê-lo relacionalmente em um verdadeiro ainda que limitado sentido de “conhecer”; e o que Deus diz na Escritura sobre si mesmo é verdade quanto a isso. Calvino fala a respeito de Dni.s com o tendo transigido com nossa fraqueza e se acomo­ dado á nossa capacidade, seja na inspiração das Escrituras, seja na encarnação do Filho, de sorte que Ele pudesse dar-nos uma genuína compreensão sobre si. A forma e substância do modo de falar dos pais a um bebê não se compara com o conteúdo total da m ente dos pais, que ele ou ela pode expressar plena­ m ente ao falar a outro adulto; mas a criança recebe por meio desse modo de falar como bebê a informação factual, real ainda que limitada, sobre os pais, e o amor e a confiança responsiva cresce conseqüentem ente. Esta é a analogia neste caso. Vemos agora por que nosso Criador se apresenta a nós antropomorficam ente, como tendo um rosto (Ex 33.11), uma mão (1 Sm 5.11), um braço (Is 53.1), ouvidos (Ne 1.6), olhos (Jó 28.10), e pés (Na 1.3), bem como sentando-se em um trono (1 Rs 22.19), voando ao vento (SI 18.10), e lutando em batalha (2 Cr 32.8; Is 63.1-6). Estas não são características do que Deus é em si mesmo, mas do que Ele é para nós, a saber, o Senhor transcendente que se dirige a seu povo como Pai e amigo, e que age como seu aliado. Ele se coloca diante de nós desta forma para nos atrair à sua adoração, amor e confiança, muito embora conceitualmente sejamos sempre como as 49


criancinhas que ouvem a voz dos pais falando como bebês e conhecem somente em parte quem fala (1 Co 13.12). Não devemos esquecer-nos jamais do que, em qualquer caso, a teologia é para a doxologia: a expressão mais verdadeira de confiança em um grande Deus será sempre a adoração, e uma adoração apropriada para louvá-lo por ser muito maior do que podemos imaginar.

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PROVIDÊNCIA

DEUS GOVERNA ESTE MUNDO A sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda decisão. PROVÉRBIOS 16.33 | “As obras da providência de Deus são a mais santa, sábia | e poderosa preservação e direção de todas as criaturas e de todas as ações” (Breve Catecismo de Westminster, P. 11). Se a Criação foi um exercício único da energia divina ao fazer que o m undo existisse, a providência é um exercício contínuo da mesma energia, pela qual o Criador, de acordo com sua própria vontade, (a) mantém todas as criaturas como seres, (b) envolve-se em todos os eventos, e (c) dirige todas as coisas a seu fim determ inado. O modelo é de orientação pessoal intencional com total e efetivo controle: Deus tem o comando completo deste mundo. Sua mão pode estar escondida, mas seu governo é absoluto. Alguns têm restringido a providência de Deus à presciência sem controle, ou sustentação sem intervenção, ou supervisão geral sem preocupação com detalhes, porém o testem unho da providência, conform e form ulado acima, é extraordina­ riamente preponderante. A Bíblia ensina claramente o controle providencial de Deus (1) sobre o universo como um todo, Sl 103.19; Dn 4.35; E f 1.11; (2) sobre o mundo físico, Jó 37; Sl 104.14; 135.6; Mt 5.45; (3) sobre a criação irracional, Sl 104.21,28; Mt 6.26; 10.29; (4) sobre os negócios das nações, Jó 12.23; Sl 22.28; 66.7; A t 17.26; (5) sobre o nascimento e o destino na vida humana, 1 Sm 16.1; Sl 139.16; ls 45.5; Gl 51


1.15,16; (6) sobre os sucessos e fracassos aparentes na vida dos homens, Sl 75.6,7; Lc 1.52; (7) sobre coisas aparentemente acidentais ou insignificantes, Pv 16.33; Mt 10.30; (8) na proteção ao justo, Sl 4.8; 5.12; 63.8; 121.3; Rm 8.28; (9) suprindo as necessidades do povo de Deus, Gn 22.8,14; Dt 8.3; Fp 4.19; (10) dando respostas a orações, 1 Sm 1.19; Is 20.5,6; 2 Cr 33.13; Sl 65.2; Mt 7.7; Lc 18.7,8; e (11) na execração e punição do iníquo, Sl 7.12,13; 11.6. (L. Berkof, Teologia Sistemática, 3- ed., Luz Para o Caminho)

Uma clara noção sobre o envolvimento de Deus no processo universal e nos atos das criaturas racionais requer um conjunto complementar de afirmações, como: uma pessoa pratica uma ação, ou um evento é desencadeado por causas naturais, ou Satanás se manifesta — contudo, Deus prevalece. Esta é a mensagem do livro de Ester, em que o nome de Deus não aparece em parte alguma. Outra: fazem-se coisas que se opõem ao conselho da vontade de Deus — não obstante, elas cumprem seu propósito por meio dos acontecimentos (Ef 1.11). Outra: os humanos intentam fazer o mal — porém Deus, que superintende, usa suas ações para o bem (Gn 50.20; At 2.23). Outra: os humanos, sob o domínio de Deus, pecam — entretanto Deus não é o autor do pecado (Tg 1.13-17); antes, Ele é seu juiz. A natureza do envolvimento “simultâneo” ou “confluente” de Deus em tudo o que acontece em seu mundo — sem violar a natureza das coisas, o avanço dos processos causativos, ou a livre intervenção hum ana — que faz com que sua vontade resultante ocorra, é um mistério para nós, mas o consistente ensino bíblico sobre o envolvimento de Deus é como afirma­ mos acima. Dos males que infestam o m undo de Deus (perversidade moral e espiritual, desperdício de bens, desordens físicas e rupturas de um cosmos arruinado), podemos dizer em resumo que: Deus permite o mal (At 14.16); pune o mal com o mal (Sl 81.11,12; Rm 1.26-32); transforma em bem o mal (Gn 50.20; At 2.23; 4.27,28; 13.27; 1 Co 2.7,8); usa o mal para testar e disciplinar aqueles a quem ama (Mt 4.1-11; Hb 12.452


14); e um dia Ele restaurará completamente o seu povo do poder e presença do mal (Ap 21.27; 22.14,15). A doutrina da providência ensina aos cristãos que eles nunca estão sob o domínio de forças cegas (ventura, oportu­ nidade ou sorte); tudo quanto acontece a eles é divinamente planejado, e cada evento é acom panhado de um novo chama­ mento à crença, obediência e regozijo, sabendo que tudo é para o bem espiritual e eterno de cada um (Rm 8.28).

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MILAGRES

DEUS MOSTRA SUA PRESENÇA E PODER O SENHOR atendeu à voz de Elias; e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu. 1 REIS 17.22 J

A Escritura não tem um a palavra específica para | milagre. O conceito é uma combinação de idéias ex­ pressas por três termos: maravilha (ou prodígio), obra poderosa e sinal. » Maravilha é o primeiro conceito. (Milagre, do latim miraculum, tem o sentido de algo que evoca admiração ou espanto.) Um milagre é um acontecimento observado que desperta a consciência da presença e do poder de Deus. Providências e coincidências surpreendentes, e eventos admiráveis como um parto, tão significativos quanto as obras de um novo poder criativo, são apropriadam ente chamados milagres, uma vez que comunicam esta consciência. Ao menos neste sentido, há milagres hoje em dia. A obra poderosa focaliza a impressão produzida pelos milagres e aponta para a presença na história bíblica dos atos sobrenaturais de Deus, envolvendo o poder que criou o m undo do nada. Assim, a restauração à vida dos mortos, que Jesus realizou três vezes, sem contar sua própria ressurreição (Lc 7.11-17; 8.49-56; Jo 11.38-44), e que Elias, Eliseu, Pedro e Paulo fizeram uma vez cada um (1 Rs 17.17-24; 2 Rs 4.18-37; At 9.36-41; 20.9-12), é obra desse poder criativo; ela não pode ser explicada em termos de coincidência ou pela natureza no 54


desenvolvimento de seu curso. O mesmo é verdadeiro nas curas orgânicas, muitas das quais são narradas pelos Evan­ gelhos; elas também demonstram recriação e restauração sobrenaturais. O sinal, como um rótulo para os milagres (o rótulo usado regularm ente no Evangelho de João, onde sete milagres-chave são registrados), indica que eles significam alguma coisa; em outras palavras, eles carregam uma mensagem. Os milagres na Escritura estão quase todos agrupados no tem po do êxodo, de Elias e Eliseu, e de Cristo e seus apóstolos. Antes de mais nada, eles consagram os operadores de milagres como represen­ tantes e mensageiros de Deus (cf. Ex 4.1-9; 1 Rs 17.24; Jo 10.38; 14.11; 2 Co 12.12; Hb 2.3,4); e também anunciam algo do poder de Deus na salvação e julgam ento. Tal é o seu significado. A crença no miraculoso é inerente ao Cristianismo. Teólogos que refutam todos os milagres, obrigando-se assim a negar a encarnação e a ressurreição de Jesus — os dois mila­ gres supremos da Escritura — não devem alegar que são cristãos: a alegação não é válida. A rejeição de milagres pelos cientistas de ontem não resultou da ciência, mas do dogma de um universo de absoluta uniform idade que os cientistas incorporaram a seu trabalho científico. Nada há de irracional na crença de que Deus, que fez o mundo, pode ainda penetrar nele criativamente. Os cristãos devem entender que não é a fé nos milagres bíblicos, e na capacidade de Deus operar mila­ gres hoje, se assim o quisesse, mas a dúvida acerca destas coisas é que é irracional.

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GLÓRIA

A GLÓRIA MANIFESTA DE DELJS REQUER A GLÓRIA CONCEGIDA Corno o aspecto do arco que. aparece na nuvem em. dia de chuva, assim era, o resplendor em redor. EZEQUIEL 1.28 | O alvo cie Deus é sua glória, mas isto necessita de cuida™Y™ dosa explanação, pois é facilmente mal interpretado. Ele aponta não para o egoísmo divino, como se imagina algu­ mas vezes, mas para o amor divino. Certamente, Deus deseja ser louvado por seu merecimento de louvor e exaltado por sua grandeza e bondade; Ele deseja ser apreciado pelo que é. Mas a glória, que é seu alvo, é um relacionamento de dois lados, de duas etapas: é, precisamente, uma conjunção de (a) atos reveladores de sua parte, por meio dos quais Ele mostra sua glória aos homens e aos anjos com espontânea generosi­ dade, com (b) adoração responsiva da parte deles, por meio da qual lhe prestam glória de gratidão pelo que têm visto e recebido. A alternância de contemplar a glória de Deus e darlhe glória é a verdadeira realização da natureza hum ana em sua essência, o que traz suprema alegria ao homem, tanto quanto a Deus (cf. Sf 3.14-17). “Glória” no Velho Testamento encerra associações de peso, valor, riqueza, esplendor e dignidade, todas as quais estão presentes quando se diz que Deus revelou sua glória. Deus estava respondendo ao apelo de Moisés para que mostrasse sua glória quando Ele lhe proclamou seu nome (isto é, sua natureza, caráter e poder; Êx 33.18-34.7). Com aq u ela proclamação houve uma manifestação física que inspirou 56


medo e reverência, o Shekina (habitação de Deus), uma nuvem brilhante que era vista como um fogo consumidor. O Shekinah era Ele mesmo chamado glória de Deus; Ele apareceu em momentos significativos da história bíblica como sinal da presença ativa de Deus (Ex 33.22; 34.5; cf. 16.7,10; 24.15-17; 40.34,35; Lv 9.23,24; 1 Rs 8.10,11; Ez 1.28; 8.4; 9.3; 10.4; 11.22,23; Mt 17.5; Lc 2.9; cf At 1.9; 1 Ts 4.17; Ap 1.7). Os escritores do Novo Testamento proclamam que a natureza, caráter, poder e>propósito da glória de Deus é agora aberta à nossa visão na pessoa e papel do Filho encarnado de Deus, Jesus Cristo Qo 1.14-18; 2 Co 4.3-6; Hb 1.1-3). A glória de Deus, anunciada no plano e obra da graça, pela qual Ele salva os pecadores, deve gerar o louvor (Ef 1.6,12,14), isto é, a expressão de glória a Deus por palavras faladas (cf. Ap 4.9; 19.7). Todas as atividades da vida devem também ser exercidas com o objetivo de prestar a Deus homenagem, honra e prazer, o que significa a concessão de glória em nível prático (1 Co 10.31). Deus não dividiria com ídolos o louvor para a restauração do seu povo, porque os ídolos, sendo irreais, em nada contri­ buem para esta obra de graça (Is 42.8; 48.11); e Deus hoje não dividirá o louvor pela salvação com os seres humanos, porque nós também sendo objetos desta salvação nada contribuímos para ela além de nossa necessidade dela. Do princípio ao fim, e em todas as etapas do processo, a salvação vem do Senhor, e nosso louvor deve mostrar nossa consciência disto. É por isso que a teologia da Reforma foi tão insistente no princípio “Glória a Deus somente” (soli Deo gloria), e é por isso que preci­ samos m anter este princípio com igual zelo hoje.

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IDOLATRIA

DEUS EXIGE TOTAL DEVOÇÃO “Castigá-la-ei pelos dias dos baalins, nos quais lhes queimou incenso, e se adornou com as suas arrecadas e com, as suas jóias, e. andou atrás de seus amantes, mas de mim se esqueceu”, di,z o SENHOR. OSÉIAS 2.13 |

Embora haja somente um Deus e somente uma fé verdadeira, a saber, a que é ensinada na Bíblia, nosso m undo apóstata (Rm 1.18-25) sempre esteve cheio de religiões, e o antiqüíssimo impulso em direção ao sincretismo, pelo qual aspectos de uma religião assimilam-se a outra, m udando assim ambas, ainda está entre nós. Na realidade, ele revive de forma alarmante em nosso tempo por meio da renovada busca acadêmica de uma unidade transcendente de religiões e o desabrochar do amálgama popular das idéias do Oriente e do Ocidente, que se autodenom ina Nova Era. Esta pressão não é nova. Tendo ocupado Canaã, Israel era constantemente tentado a introduzir o culto cananita dos deuses e deusas da fertilildade no culto de Yahweh, e a fazer imagens do próprio Yahweh — mudanças ambas proibidas pela lei (Ex 20.3-6). A questão espiritual era se os israelitas se lembrariam de que Yahweh, o Deus do pacto, era plenamente suficiente para eles, e além disso reivindicava sua fidelidade exclusiva, de sorte que adorar outros deuses era adultério espiritual (Jr 3; Ez 16; Os 2). Este foi um teste em que a nação falhou grandemente. De modo semelhante, o sincretismo foi muito difundido e aprovado no primeiro século do império rom ano, em que 58


predominava o politeísmo e em que floresceu toda sorte de cultos. Os mestres cristãos lutaram muito para m anter a fé a salvo de ser assimilada pelo gnosticismo (uma espécie de teo­ sofia em que não havia lugar para a encarnação e a expiação, uma vez que, para ela, o problem a do homem era a ignorân­ cia, não o pecado), e mais tarde pelo neoplatonism o e pelo maniqueísmo, ambos os quais, como o gnosticismo, viam a salvação no expediente da separação física do m undo. Estes conflitos foram relativamente bem-sucedidos, e as form ula­ ções clássicas do credo sobre a Trindade e a Encarnação são parte de seu perm anente legado. A Escritura é rigorosa a respeito do mal de praticar a idolatria. Os ídolos são escarnecidos como ilusórios, não exis­ tentes (SI 115-4-7; Is 44.9-20), mas escravizam seus adoradores em uma superstição cega (Is 44.20), que significa infidelidade perante Deus (Jr 2), e Paulo acrescenta que os demônios ope­ ram por interm édio dos ídolos, fazendo deles uma ameaça espiritual concreta; o contato com os falsos deuses somente corrom pe (1 Co 8.4-6; 10.19-21). Em nossa cultura ocidental pós-cristã, que está preparada para preencher o vazio espiri­ tual que as pessoas sentem ao voltar-se com simpatia para o sincretismo, a feitiçaria e os experimentos com o ocultismo, as advertências bíblicas contra a idolatria precisam ser tomadas com sensibilidade (cf. 1 Co 10.14; 1 Jo 5.19-21).

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ANJOS

DEUS UTILIZA AGENTES SOBRENATURAIS Então perguntei: “Meu senhor, quem são estes?” Respondeu-me o anjo que falava comigo: “Em te mostrarei quem são eles. ” Então, respondeu o homem que estava entre as murteiras, e disse: “São os que o SENHOR tem enviado para percorrerem a terra. ” ZACARIAS 1.9,10 |

Anjos (seu nome significa “mensageiros”) são uma das duas classes de seres pessoais que Deus criou, sendo a outra o gênero humano. Há muitos deles (Mt 26.53; Ap 5.11). São agentes morais inteligentes, não encarnados ou visíveis de forma usual, embora capazes de mostrar-se aos humanos no que se parece como forma física (Gn 18.2-19.22; Jo 20.10-14; At 12.7-10). Eles não se casam e não estão sujeitos à morte (Mt 22.30; Lc 20.35,36). Podem mover-sc de um ponto no espaço para outro, e muitos deles podem congregar-se em áreas dimi­ nutas (Lc 8.30, onde a referência é aos anjos caídos). Como os seres humanos, os anjos foram originalmente postos sob provação, e alguns deles caíram em pecado. Os muitos que passaram no teste estão agora, evidentemente, confirmados em um estado de santidade e glória imortal. O céu é seu centro de operações (Mt 18.10; 22.30; Ap 5.11), onde continuam ente adoram a Deus (SI 103.20,21; 148.2) e de onde saem para prestar serviço aos cristãos por ordem de Deus (Hb 1.14). Estes são os anjos “santos” e “eleitos” (Mt 25.31; Mc 8.38; Lc 9.26; At 10.22; lTm 5.21; Ap 14.10), a quem a obra da graça de Deus por meio de Cristo está presente­ 60


mente dem onstrando mais da sabedoria e glória divinas do que eles antes conheciam (Ef 3.10; 1 Pe 1.12). Os santos anjos guardam os crentes (SI 34.7; 91.11), os pe­ queninos em particular (Mt 18.10), e constantem ente observam o que se passa na igreja (1 Co 11.10). Está implícito que eles são mais instruídos a respeito das coisas divinas do que os humanos (Mc 13.32), e que exercem um ministério especial para os crentes no mom ento de sua morte (Lc 16.22), porém não dispomos de detalhes sobre qualquer destes ofícios. E bastante ressaltar a relevância dos anjos dizendo que, se em algum tempo estivermos necessitando de seu mi­ nistério, nós o receberemos; e que, assim como o m undo espia os cristãos na esperança de vê-los tropeçar, assim também os bons anjos olham os cristãos na esperança de ver o triunfo da graça em suas vidas. O misterioso “anjo do SENHOR” ou “anjo de Deus”, que aparece com freqüência nos primórdios da história do Velho Testamento e que algumas vezes se identifica com o Deus de quem se distingue em outras ocasiões (Gn 16.7-13; 18.1-33; 22.11-18; 24.7,40; 31.11-13; 32.24-30; 48.15,16; Êx 3.2-6; 14.19; 23.20-23; 32.34-33.5; Nm 22.22-35; Js 5.13-15; Jz 2.1-5; 6.11-23; 9.13-23), é, em um certo sentido, Deus agindo como seu pró­ prio mensageiro, sendo comumente visto como um apareci­ mento pré-encarnado do Deus Filho. A atividade angélica foi proem inente nos grandes m om en­ tos decisivos do plano divino da salvação (os dias dos patriar­ cas, o tempo do êxodo e da entrega da lei, o período do exílio e restauração, e o nascimento, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo), e será proem inente novamente quando Cristo voltar (Mt 25.31; Mc 8.38).

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DEMÔNIOS

DEUS TEM OPOSITORES SOBRENATURAIS Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus; a deuses que não conheceram, novos deuses que vieram há pouco, dos quais não se estremeceram seus pais. DEUTERONÔMIO 32.17 |

“Demônio” ou “Diabo”, como as versões mais antigas traduziram as palavras, é o grego daimon e daimonion, os termos usuais dos Evangelhos para designar os seres espiri­ tuais, corruptos e hostis a Deus e ao homem, os quais Jesus muitas vezes exorcizou de suas vítimas durante seu ministério terrestre. Os demônios eram anjos caídos, criaturas imortais que servem a Satanás (Jesus equiparou Belzebu, seu suposto príncipe, a Satanás: Mt 12.24-29). Tendo aderido à rebelião de Satanás, foram eles expulsos do céu para aguardar o julgamento final (2 Pe 2.4; Jd 6). Suas mentes estão perm a­ nentem ente voltadas ã oposição a Deus, à bondade, à verdade, ao reino de Cristo e ao bem-estar dos seres humanos, tendo um poder e liberdade de movimento reais embora limitados, porém, na frase pitoresca de Calvino, eles arrastam suas correntes aonde quer que vão e jamais esperam suplantar a Deus. O nível e intensidade das manifestações demoníacas nas pessoas durante o ministério de Cristo eram peculiares, não tendo paralelo nos tempos do Velho Testamento; era indubi­ tavelmente parte da desesperada batalha de Satanás por seu reino contra o ataque de Cristo sobre ele (Mt 12.29). Os demônios foram revelados como possuidores de conhecim en­ 62


to e força (Mc 1.24; 9.17-27). Eles infligiram, ou pelo menos exploraram , enferm idades físicas e m entais (Mc 5.1-15; 9.17,18; Lc 11.4). Reconheciam e temiam a Cristo, a cuja autoridade estavam sujeitos (Mc 1.25; 3.11,12; 9.25), embora, por sua própria confissão, somente por meio de esforço em oração era Ele capaz de expeli-los (Mc 9.29). Cristo autorizou e deu condições aos Doze e aos Setenta para exorcizar em seu nome (isto é, por seu poder — Lc 9.1; 10.17), e o ministério do exorcismo continua ainda como um a necessidade pastoral ocasional. A igreja luterana do século dezesseis aboliu o exorcismo, crendo que a vitória de Cristo sobre Satanás havia suprimido a invasião dem oníaca para sempre, porém isto foi uma precipitação. O exército de demônios de Satanás usa também estratégias mais sutis, ou seja, o embuste e o desânimo em suas muitas formas. A oposição a estes artifícios é a essência do combate espiritual (Ef 6.10-18). Ainda que os demônios possam causar transtornos de muitos tipos às pessoas regeneradas, em quem habita o Espírito Santo, eles não podem im pedir o propósito de Deus de salvar seus eleitos, do mesmo modo que não podem evitar seu próprio torm ento eterno. Assim como o Diabo é o Diabo de Deus (esta é a frase de Lutero), os demônios são os demônios de Deus, inimigos derrotados (Cl 2.15), cujo poder limitado é prolongado apenas para o pro­ gresso da glória de Deus, enquanto seu povo contende com eles.

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SATANAS

OS ANJOS CAÍDOS TÊM UM LÍDER Um dia em que os filhos de Deus (anjos) vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles. JÓ 1.6 Satanás, líder dos anjos caídos, surge, como eles, em | plenitude somente no Novo Testamento. Seu nom e significa “adversário” (opositor de Deus e de seu povo), e é assim que o Velho Testamento o apresenta (1 Cr 21.1; Jó 1-2; Zc 3.1,2). O Novo Testamento dá a ele títulos reveladores: “Diabo” ( diabolos) significa “acusador” (a saber, do povo de Deus: Ap 12.9,10); “Apoliom” (Ap 9.11) significa destruidor; “o tentador” (Mt 4.3; 1 Ts 3.5) e “o maligno” (1 fo 5.18,19) significam o que os títulos indicam; “príncipe” e “deus deste m undo” apontam Satanás presidindo sobre os estilos de vida anti-Deus da espécie hum ana (Jo 12.31; 14.30; 16.11; 2 Co 4.4; cf. Ef 2.2; 1 Jo 5.19; Ap 12.9). Jesus disse que Satanás foi sem­ pre um homicida e é o pai da m entira — ou seja, ele é tanto o mentiroso original como o patrocinador de toda a falsidade e dolos subseqüentes (Jo 8.44). Finalmente, ele é identificado como a serpente que enganou Eva no Éden (Ap 12.9; 20.2). O retrato é de inimaginável torpeza, malícia, fúria e crueldade dirigidas contra Deus, contra a verdade de Deus e contra aqueles a quem Deus estendeu seu amor salvador. A astúcia enganosa de Satanás é ressaltada pela afirmação de Paulo de que ele se torna um anjo de luz, disfarçando o mal como sendo o bem (2 Co 11.14). Sua ferocidade destruti­ va aparece em sua descrição como um leão que ruge e devora 64


(1 Pe 5.8), e como um dragão (Ap 12.9). Como foi inimigo jurado de Cristo (Mt 4.1-11; 16.23; Lc 4.13; Jo 14.30; cf. Lc 22.3,53), assim é ele hoje dos cristãos, sempre esquadri­ nhando as fraquezas, desviando as forças e solapando a fé, a esperança e o caráter (Lc 22.32; 2 Co 2.11; 11.3-15; Ef 6.16). Ele deve ser tomado seriamente, pois a malícia e a astúcia o fazem temível; porém, não tão seriamente a ponto de provo­ car um medo horroroso dele, uma vez que ele c um inimigo derrotado. Satanás é mais forte do que nós, mas Cristo triunfou sobre ele (Mt 12.29), e os cristãos também triunfarão sobre ele, se lhe resistirem com os recursos supridos por Cristo (Ef 6.10-13; Tg 4.7; 1 Pe 5.9,10). “Maior é aquele que está em vós do que aquele que está no m undo” (1 Jo 4.4). Admitindo a realidade de Satanás, tom ando seriamente sua oposição, observando sua estratégia (qualquer que seja, exceto o Cristianismo bíblico), e considerando que estamos sempre em guerra contra ele — isto não significa um a incli­ nação por um conceito dualístico de dois deuses, um bom, outro mau, lutando entre si até as últimas conseqüências para ambos. Satanás é uma criatura, super-humana mas não divina; ele tem muito conhecimento e poder, porém não é nem onisciente nem onipotente; ele pode movimentar-se de formas que os humanos não podem, mas não é onipresente; e é já um rebelde derrotado, não tendo mais poder do que Deus lhe permite e estando destinado ao lago de fogo (Ap 20.10).

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HUMANIDADE

DEUS FEZ OS SERES HUMANOS À SUA IMAGEM Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. GÊNESIS 1.27 | A declaração no início da Bíblia (Gn 1.26,27, com ecos I™" em 5.1; 9.6; 1 Co 11.7; Tg 3.9) de que Deus fez o ho­ mem à sua própria imagem, de modo que os humanos são semelhantes a Deus como nenhum a outra criatura terrestre o é, nos diz que a dignidade especial de sermos humanos é que, como tais, podemos refletir e reproduzir em nosso próprio nível de criaturas as santas características de Deus, e, assim, agir como seus representantes diretos na terra. Foi para isso que nós humanos fomos criados, e, em certo sentido, somos humanos somente na medida em que o estamos fazendo. A extensão da imagem de Deus no homem não é definida em Gênesis 1.26,27, mas o contexto a torna clara. Gênesis 1.125 mostra Deus como pessoal, racional (com inteligência e vontade, capaz de formar planos e executá-los), criativo, competente para controlar o m undo que fez, e moralmente admirável, no sentido de que tudo o que Ele criou é bom. Obviamente, a imagem de Deus inclui todas estas qualidades. Os versículos 28-30 mostram Deus abençoando as criaturas humanas recém-criadas (o que deve significar dizer-lhes seu privilégio e destino) e outorgando-lhes o governo sobre a cria­ ção como seus representantes e assistentes. A capacidade hum ana de comunicação e relacionamento tanto com Deus como com outros humanos, e o domínio que lhes foi atribuí­ 66


do por Deus sobre a criação inferior (ressaltada no Salmo 8 como resposta à pergunta ‘Que é o hom em ?’), despontam como facetas adicionais da imagem. A imagem de Deus no homem na Criação consiste, pois, (a) em ser o homem uma “alma” ou “espírito” (Gn 2.7, que a NVI corretam ente traduz “ser vivo”; Ec 12.7), isto é, um a criatura pessoal, autoconsciente, divina, com um a capacidade divina para o conhecimento, pensam ento e ação; (b) em ser o hom ­ em moralmente íntegro, uma qualidade perdida na queda e que está sendo agora progresssivamente restaurada em Cristo (Ef 4.24; Cl 3.10); (c) no domínio sobre o ambiente. Comum ente e racionalmente, acrescenta-se que (d) a imortalidade divina do homem e (e) o corpo hum ano, por meio do qual experimentamos a realidade, expressamos nossa identidade e exercitamos nosso domínio, pertencem também à imagem. O corpo pertence à imagem, não diretam ente, uma vez que Deus, como notamos antes, não possui um corpo, mas indire­ tamente, visto que as atividades divinas de exercer domínio sobre a criação material e dem onstrar afeição a outros seres racionais tornam nossa corporificação necessária. Não há vida hum ana plena sem um corpo funcional, quer aqui ou na vida futura. Esta verdade, implícita em Gênesis 1, tornou-se explí­ cita na encarnação e na ressurreição de Jesus Cristo: como imagem verdadeira de Deus em sua hum anidade, bem como em sua divindade. O Senhor Jesus glorificado é corporificado por toda a eternidade, exatamente como serão os cristãos. A queda diminuiu a imagem de Deus não somente em Adão e Eva, mas em todos os seus descendentes, isto é, em toda a raça humana. Retemos a imagem estruturalmente, no sentido de que nossa hum anidade é intacta, porém não funcional­ mente, porque somos agora escravos do pecado e incapazes de usar nossos poderes para espelhar a santidade de Deus. A regeneração inicia o processo de restauração da imagem m oral de Deus em nossa vida, porém , enquanto não estivermos plenam ente santificados e glorificados, não refletiremos Deus perfeitamente em pensamento e ação, do modo como a espécie hum ana foi criada para fazer e como o 67


Filho encarnado de Deus fez em sua hum anidade e faz atualmente (Jo 4.34; 5.30; 6.38; 8.29,46; Rm 6.4,5,10; 8.11).

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A RAÇA HUMANA

OS HUMANOS SÃO CORPO E ALMA, EM DOIS GÊNEROS Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente. GÊNESIS 2.7 Homem, e mulher os criou. GÊNESIS 1.27 | Cada ser hum ano neste m undo consiste de um corpo | material animado por um eu distinto e imaterial. A Escritura dá a este eu o nome de “alma” ou “espírito”. “Alma” enfatiza a distinção da individualidade consciente de uma pessoa como tal; “espírito” contém as nuanças do eu derivado de Deus, dependência dele e distinção do corpo como tal. O uso bíblico leva-nos a dizer que temos e somos tanto almas como espíritos, mas é um equívoco pensar que alma e espírito são duas coisas diferentes; uma visão “tricotômica” do homem como sendo corpo, alma e espírito é incorreta. A idéia comum de que a alma é apenas um órgão da consciência temporal e que o espírito é um órgão distinto de comunhão com Deus trazido à vida na regeneração cria um descompasso entre o ensino bíblico e o uso da palavra. Além disso, Ela conduz a um anti-intelectualismo deformado, segundo o qual o discerni­ m ento espiritual e o pensamento teológico são separados para em pobrecim ento de ambos, sendo a teologia tida como “próalma” e não espiritual, enquanto a percepção espiritual se 69


imagina desvinculada do ensino e aprendizado da verdade revelada de Deus. A corporificação da alma é inerente ao desígnio de Deus para o gênero humano. Por interm édio do corpo, como foi dito antes, devemos experim entar nosso ambiente, desfrutar e controlar as coisas à nossa volta, e relacionar-nos com outras pessoas. Nada havia de mau ou corruptível no corpo feito inicialmente por Deus, e não tivesse o pecado surgido, a doença, envelhecimento e deterioração física que levam à morte, como a conhecemos, não fariam parte da vida hum ana (Gn 2.17; 3.19,22; Rm 5.12). Agora, porém, os seres humanos são corruptos do começo ao fim em seu ser psicofísico, como comprovam claramente seus desejos desordenados, tanto físicos como mentais, os quais guerreiam entre si e também contra os princípios da sabedoria e da retidão. Na morte a alma deixa o corpo inanimado para trás, porém esta não é a feliz libertação que os filósofos gregos e alguns cultistas imaginaram. A esperança cristã não é redenção por libertar-se do corpo, mas redenção do próprio corpio. Ante­ vemos nossa participação na ressurreição de Cristo na ou por meio da ressurreição de nossos próprios corpos. Embora a exata composição de nossos futuros corpos glorificados seja atualmente desconhecido, sabemos que será alguma espécie de continuidade de nossos corpos terrenos (1 Co 15.35-49; Fp 3.20,21; Cl 3.4). Os dois gêneros, macho e fêmea, pertencem ao modelo da Criação. Homens e mulheres são igualmente portadores da imagem de Deus (Gênesis 1.27), e sua dignidade é, conse­ qüentem ente, igual. A natureza complementar dos gêneros é vista como conducente a uma cooperação enriquecida (ver Gn 2.18-23), uma vez que seus papéis são desempenhados não apenas no casamento, procriação e vida familiar, mas também em atividades mais amplas da vida. A percepção da insondável diferença entre pessoas de gêneros distintos converte-se em uma escola para o aprendizado da prática e alegria da apre­ ciação, abertura, honra, serviço e fidelidade, todas as quais pertencem ã cortesia que a realidade misteriosa do outro 70


gênero requer. A ideologia do “unissexo”, que deprecia a significação dos dois gêneros, perverte assim a ordem de Deus, enquanto o estribilho francês sobre a distinção dos gê­ neros, “vive la différence!” (viva o contraste), expressa o ponto de vista bíblico.

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PACTe DOIT

DEUS REVELADO COMO REDENTOR


A QUEDA

O PRIMEIRO CASAL HUMANO PECOU Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do jruto e comeu, e deu também ao marido, e ele comeu. GÊNESIS 3.6 Paulo, em Romanos, afirma que todo o gênero hum ano | está naturalm ente sob a culpa e o poder do pecado, do reino da morte, e sob a inevitável ira de Deus (Rm 3.9,19; 5.17,21; 1.18,19; cf. todo o trecho, 1.18-3.20). Ele retrocede até ao pecado de um homem, a quem, falando em Atenas, descreve como nosso ancestral comum (Rm 5.12-14; At 17.26; cf. 1 Co 15.22). Esta é a autorizada interpretação apostólica da história registrada em Gênesis 3, onde encontram os a narrativa da queda, a desobediência do homem original a Deus e à religiosidade resultando no pecado e na perdição. Os pontos principais nessa história, vistos através da lente da interpretação paulina, são os seguintes: (a) Deus fez do primeiro hom em representante de toda a posteridade, do mesmo modo que ia fazer de Jesus Cristo o representante de todos os eleitos de Deus (Rm 5.15-19 com 8.29,30; 9.22-26). Em cada caso o representante devia envolver todos os que ele representava nos frutos de sua ação pessoal, fosse para o bem ou para mal, exatamente como um líder nacional envolve seu povo nas conseqüências de sua ação quando, por exemplo, declara guerra. O plano divinamente escolhido, por meio do qual Adão determ inaria o destino de 75


seus descendentes, foi chamado pacto de obras, embora esta não seja uma expressão bíblica. (b) Deus colocou o primeiro homem em um estado de felicidade e prom eteu continuar isso para cie e sua posterida­ de, se ele mostrasse fidelidade por meio de um comporta­ mento de obediência positiva perfeita, e especificamente por não comer de uma árvore descrita como a árvore do conheci­ mento do bem e do mal. Parecia que a árvore trazia este nome porque a questão era saber se Adão deixaria que Deus lhe dissesse o que era bom e o que era mau, ou procuraria decidir isso por si mesmo, desconsiderando o que Deus havia dito. Comendo daquela árvore, Adão estaria, de fato, reivindicando que poderia conhecer e decidir o que era bem ou mal para ele, sem qualquer referência a Deus. (c) Adão, guiado por Eva, que, por sua vez, foi guiada pela serpente (Satanás disfarçado: 2 Co 11.3 com v. 14; Ap 12.9), desafiou Deus comendo o fruto proibido. Os resultados foram, primeiro, que o anti-Deus, auto-enaltecido e obstina­ do, expresso no pecado de Adão tornou-se parte dele e da natureza moral que ele transmitiu a seus descendentes (Gn 6.5; Rm 3.9.20). Segundo, Adão e Eva viram-se dominados por um senso de poluição e culpa que os fez envergonhados e atemorizados perante Deus — com boa razão. Terceiro, foram amaldiçoados com expectativa de sofrimento e morte, e expulsos do Éden. Ao mesmo tempo, contudo, Deus começou a mostrar-lhes a misericórdia salvadora; Ele fez para eles vestes de pele para cobrir sua nudez, e prometeu-lhes que a semente da m ulher esmagaria um dia a cabeça da serpente. Isto pre­ nunciava Cristo. Embora narrando a história em um estilo um tanto figurado, o Gênesis nos pede que a leiamos como história; no Gênesis, Adão liga-se aos patriarcas e com eles ao resto da raça hum ana pela genealogia (caps. 5,10,11), o que faz dele parte significativa da história no tempo e no espaço, tanto quanto Abraão, Isaque e Jacó. Todos os principais personagens do livro, exceto José, são apresentados como pecadores, de uma forma ou de outra, e a morte de José, como a de quase todos 76


os demais na história, é cuidadosamente registrada (Gn 50.2226); a afirmação de Paulo “em Adão todos m orrem ” (1 Co 15.22) apenas torna explícito o que Gênesis já claramente implica. Pode-se argum entar razoavelmente que a narrativa da queda proporciona a única explanação convincente da per­ versidade da natureza hum ana que o m undo jamais viu. Pascal disse que a doutrina do pecado original parece um a ofensa à razão, mas, uma vez aceita, ela faz sentido total com toda a condição humana. Ele estava certo, e a mesma coisa pode e deve ser dita da própria narrativa da queda.

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PECADO ORIGINAL

A DEPRAVAÇÃO CONTAMINA A TODOS Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe. SALMO 51.5 A Escritura diagnostica o pecado como uma defor­ midade universal de natureza humana, em todas as circunstâncias e em todas as pessoas (1 Rs 8.46; Rm 3.9-23; 7.18; 1 jo 1.8-10). Am bos Testamentos têm nom es para ele que revelam seu caráter ético como rebelião contra os preceitos de Deus, errando o alvo fixado por Deus para nós, transgredindo a lei de Deus, desobedecendo às instruções de Deus, maculando a pureza de Deus com nossa corrupção e incorrendo em culpa perante Deus o Juiz. Esta deformidade moral é dinâmica: o pecado perm anece patente como uma energia em reação irracional, negativa e rebelde ao chamado e comando de Deus, lutando contra Deus com o intento de manipulá-lo. A raiz do pecado é o orgulho e inimizade contra Deus, espírito que é visto na primeira transgressão de Adão; e atos pecaminosos sempre têm atrás de si pensamentos, moti­ vos e desejos que, de uma forma ou de outra, expressam a oposição obstinada do coração decaído às reivindicações de Deus em nossa vida. [O pecado pode ser compreensivelmente definido como falta de conformidade à lei de Deus em ação, hábito, atitude, perspectiva, disposição, motivação e modo de viver. Os textos que ilustram diferentes aspectos do pecado incluem Jeremias 17.9; Mateus 12.30-37; Marcos 7.20-23; Romanos 1.18-3.20; 7.7-25; 8.5-8; 14.23 (Lutero disse que Paulo escreveu Romanos para “superlativar o pecado”);

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Gálatas 5.16-21; Efésios 2.1-3; 4.17-19; Hebreus 3.12; Tiago 2.10,11; 1 João 3.4; 5.17. Carne em Paulo usualmente significa um ser hum ano levado por desejo pecaminoso; a NVI traduz estes exemplos da palavra por “natureza pecaminosa”. As faltas e vícios peculiares (isto é, formas e expressões do pecado) que a Escritura detecta e denuncia são muito num e­ rosos para relacionar aqui. Pecado original, significando o pecado derivado de nossa origem, não é uma expressão bíblica (foi Agostinho quem a cunhou), mas é uma expressão que traz a uma proveitosa focalização a realidade do pecado em nosso sistema espiritual. A asserção de pecado não significa que o pecado pertence à natureza hum ana como Deus a fez (“Deus fez o hom em reto”, Ec 7.29), nem que o pecado está envolvido no processo de reprodução e nascimento (a impureza ligada à menstruação, esperma e parto, em Levítico 12 e 15 era somente típico e cerimonia], não mora) e reaJ), mas sim que (a) a pecabihdade marca todos desde o nascimento, e está lá na forma de um coração motivacionalmente torcido, anterior a quaisquer pecados reais; (b) esta pecabilidade interior é a raiz e fonte de todos os pecados reais; (c) ela nos vem por derivação de uma forma real, embora misteriosa, desde Adão, nosso primeiro representante diante de Deus. A afirmação do pecado original indica intrinsicamente que não somos pecadores porque pecamos, mas sim que pecamos porque somos pecadores, nascidos com a natureza escravizada ao pecado. A expressão depravação total é comumente usada para tornar explícitas as implicações do pecado original. Ela significa uma corrupção de nossa natureza moral e espiritual que é total não em grau (pois ninguém é tão mau quanto pode ser), mas em extensão. Ela declara que nenhum a parte de nós é intocável pelo pecado e, portanto, nenhum a ação nossa é tão boa como deve ser, e conseqüentem ente nada em nós ou acerca de nós jamais parece meritório aos olhos de Deus. Não podemos con­ quistar o favor de Deus, não im portando o que venhamos a fazer; a menos que a graça nos salve, estamos perdidos. 79


A depravação total vincula a capacidade total, isto é, o estado de não poder em si mesmo responder a Deus e à sua Palavra de modo sincero e prazenteiro (Jo 6.44; Rm 8.7,8). Paulo chama a este alheamento do coração decaído um esta­ do de morte (Ef 2.1,5; Cl 2.13), e a Confissão de Westminster diz: “O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso.”

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INCAPACIDADE

OS SERES HUMANOS DECAÍDOS SÃO TANTO LIVRES COMO ESCRAVIZADOS Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá ? JEREMIAS 17.9 | Uma idéia clara a respeito da condição degradada do ""V" homem requer uma distinção entre o que nos dois últi­ mos séculos tem sido chamado livre agência e o que desde o começo do Cristianismo tem sido chamado livre arbítrio. Agostinho, Lutero, Calvino e outros falaram do livre arbítrio em dois sentidos, o primeiro trivial, o segundo importante; mas isto era confuso, sendo m elhor sempre usar livre agência para o seu primeiro sentido. A livre agência é uma marca dos seres humanos como tais. Todos os seres humanos são agentes livres no sentido de que tomam suas próprias decisões a respeito do que devem fazer, escolhendo o que lhes agrada à luz de seu discernimento do que é certo e errado e das inclinações que sentem. Assim, eles são agentes morais, responsáveis para com Deus e entre si por suas escolhas voluntárias. Assim foi Adão, antes e depois de pecar; assim somos nós agora, e assim são os santos glorifi­ cados que estão confirmados na graça em tal sentido que eles não mais têm em si esta inclinação para cometer pecado. A incapacidade para pecar será um dos deleites e glórias do céu, mas não extinguirá a hum anidade de ninguém; os santos glorificados farão ainda escolhas de acordo com sua natureza, e essas escolhas não serão de forma alguma o produto da livre 81


agência humana, exatamente porque elas serão sempre boas e retas. O livre arbítrio, porém, tem sido definido por eruditos cristãos, a partir do segundo século, como a capacidade de escolher todas as opções morais que uma situação oferece, e Agostinho afirmou contra Pelágio e a maioria dos Pais gregos que o pecado original nos tirou o livre arbítrio neste sentido. Não temos capacidade natural de discernir e escolher os caminhos de Deus, porque não temos inclinação natural em direção a Deus; nossos corações são cativos do pecado, e somente a graça da regeneração pode libertar-nos desta escravidão. Isto, em substância, foi o que Paulo ensinou em Romanos 6.16-23; somente a vontade libertada (Paulo fala em homens libertados) livre e fervorosamente escolhe a retidão. Um amor perm anente pela retidão — isto é, uma inclinação do coração pelo modo de vida que agrada a Deus — é um aspecto da liberdade que Cristo nos dá (Jo 8.34-36; G1 5.1,13). Vale a pena notar que vontade é uma abstração. Minha vontade não é parte de mim no sentido de que eu decida mover-me ou ficar parado, tal como minhas mãos ou meus pés; é precisamente a escolha de agir e, em seguida, de entrar em ação. A verdade sobre a livre agência, e sobre Cristo liber­ tando o escravo do pecado do domínio do pecado, pode ser mais claramente expresso se a palavra vontade for eliminada e cada pessoa diga: Eu sou o agente livre moralmente responsá­ vel; eu sou o escravo do pecado que Cristo deve libertar; eu sou o ser degradado que tenho unicamente em mim a escolha contra Deus até que Ele renove meu coração.

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ALIANÇA

DEUS FAZ COM OS HUMANOS PECADORES UMA ALIANÇA DE GRAÇA Disse o SENHOR a Abrão: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome,. Sé tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra. ” GÊNESIS 12.1-3 Alianças ou pactos na Escritura são acordos solenes, negociados ou impostos unilateralmente, que impõem a ambas as partes permanentes relações definidas, com promes­ sas específicas, reivindicações e obrigações de ambos os lados (por exemplo, a aliança do casamento, Ml 2.14). Quando Deus faz uma aliança com suas criaturas, somente Ele estabelece seus termos, como mostra sua aliança com Noé e com cada criatura vivente (Gn 9.9). Quando Adão e Eva falharam em obedecer aos termos da aliança de obras (Gn 3.6), Deus não os destruiu, mas revelou-lhes sua aliança de graça, prometendo-lhes um Salvador (Gn 3.15). A aliança de Deus apóia-se em sua promessa, como está claro em sua alian­ ça com Abraão. Ele chamou Abraão para ir à terra que Ele lhe daria, e prom eteu abençoá-lo e a todas as famílias da terra por meio dele (Gn 12.1-3). Abraão atendeu ao chamado de Deus porque acreditou em sua promessa; foi sua fé na promessa que lhe foi imputada para justiça (Gn 15.6; Rm 4.18-22). A aliança de Deus com Israel no Sinai tom ou a forma de um

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tratado de suserania do Oriente Próximo, isto é, uma aliança real imposta unilateralmente sobre um rei vassalo e um povo servil. Embora aquela aliança requeresse obediência às leis de Deus sob a ameaça de sua maldição, ela foi uma continuação de sua aliança de graça (Êx 3.15; Dt 7.7,8; 9.5,6). Deus deu seus mandamentos a um povo que Ele já havia redimido e reivindicado (Êx 19.4; 20.2). A promessa da aliança de Deus tornou-se mais forte por meio dos tipos e sombras da lei dada a Moisés. O malogro dos israelitas em guardar a aliança mosai­ ca mostrou a necessidade de uma nova redenção e aliança, se é que o povo de Deus devia ser verdadeiramente dele e Ele deles (Jr 31.31-34; 32.38-40; cf. Gn 17.7; Êx 6.7; 29.45,46; Lv 11.44,45; 26.12). A aliança de Deus com Israel era uma preparação para a vinda do próprio Deus, na pessoa de seu Filho, para cum prir todas as suas promessas e dar substância às sombras lançadas pelos tipos (Is 40.10; Ml 3.1;Jo 1.14; Hb 7-10). Jesus Cristo, o m ediador da nova aliança, ofereceu-se como o verdadeiro e final sacrifício pelo pecado. Ele obedeceu à lei perfeitamente, e como o segundo cabeça representante da raça humana, tor­ nou-se o herdeiro de todas as bênçãos pactuadas de perdão, paz e comunhão com Deus em sua criação renovada, as quais bênçãos Ele agora confere aos crentes. As providências típicas e temporárias para a concessão daquelas bênçãos foram abolidas pela realização do que elas anteciparam. O envio do Espírito de Cristo do trono de sua glória sela o povo de Deus como seu, ainda que Ele tenha dado a si mesmo por ele (Ef 1.13,14; 2 Co 1.22). Como assinala Hebreus 7-10, Deus providenciou uma versão avançada de sua única aliança eterna com os pecadores (13.20) — uma aliança melhor com promessas melhores (8.6), baseadas em um sacrifício m elhor (9.23), oferecido por um sumo sacerdote m elhor em um santuário m elhor (7.268.6; 8.11,13,14), e garantindo uma melhor esperança que a da primitiva versão da aliança, nunca tornada explícita, a saber, glória sempiterna com Deus em uma “pátria superior, isto é, celestial” (11.16; cf. v. 40). 84


O cumprimento da velha aliança em Cristo abre a porta da fé aos gentios. A “semente de Abraão”, a comunidade defi­ nida, com a qual a aliança se fez, foi redefinida em Cristo. Gentios e judeus, que estão unidos a Cristo pela fé, tornam-se a semente de Abraão por meio dele (G1 3.26-29), ao passo que ninguém que esteja fora de Cristo pode estar em aliança com Deus (Rm 4.9-17; 11.13-24). O alvo dos procedimentos na aliança de Deus é, como sempre foi, a reunião e santificação do povo da aliança “de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7.9), que um dia habitarão a nova Jerusalém em uma renovada ordem universal (21.1,2). Aqui o relacionamento pactuai encontrará sua mais plena expressão — “eles serão povos de Deus e Deus mesmo estará com eles” (21.3). Em direção a este alvo, a moldagem de Deus sobre os eventos do m undo continua em ação. A estrutura da aliança com preende a inteira administração da graça soberana de Deus. O ministério celestial de Cristo continua a ser a do “mediador de uma nova aliança” (Hb 12.24). A salvação é a salvação da aliança; a justificação, a adoção, a regeneração e a santificação são as misericórdias da aliança; a eleição foi a escolha de Deus dos futuros membros da comunidade de sua aliança, a igreja; o batismo e a Ceia do Senhor, correspondendo à circuncisão e à Páscoa, são ordenanças da aliança; a lei de Deus é a lei da aliança, e sua observância é a expressão mais verdadeira de gratidão pela aliança da graça e de lealdade ao nosso Deus da aliança. Pactuar com Deus em resposta à sua aliança conosco deve constituir um exercício devocional regular para todos os crentes, seja na privacidade ou na Ceia do Senhor. Uma compreensão da aliança da graça guia-nos do começo ao fim e íyuda-nos a apreciar as maravilhas do amor salvífico de Deus.

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A LEI

DEUS LEGISLA E EXIGE OBEDIÊNCIA Chamou Moisés a todo o Israel e disse-lhe: “Ouvi, ó Israel, os estatutos e juízos que hoje vos falo aos ouvidos, para que os aprendais e cuideis em os cumprirdes. ” DEUTERONÔMIO 5.1 | O homem não foi criado autônomo, ou seja, livre para ""l™ servir de lei a si mesmo, mas teônomo, isto é, compelido a guardar a lei de seu Feitor. Isto não era sacrifício algum, por­ quanto Deus o havia construído de tal modo que a obediência grata lhe daria a maior felicidade; dever e deleite seriam coincidentes, como o foram em Jesus (Jo 4.34; cf. SI 112.1; 119.14,16,47,48,97-113,127,128,163-167). O coração hum ano degradado não aprecia a lei de Deus, tanto por ser lei como por ser de Deus; aqueles, porém, que conhecem a Cristo descobrem não somente que amam a lei e desejam observá-la, agradecidos pela graça (Rm 7.18-22; 12.1,2), mas também que o Espírito Santo os leva a um grau de obediência, iniciando no coração, obediência esta que antes não tinham (Rm 7.6; 8.4-6; Hb 10.16). A lei moral de Deus foi abundantem ente anunciada na Escritura — o Decálogo (os Dez Mandamentos) —, outros estatutos mosaicos, os sermões dos profetas, o ensino de Jesus, e as cartas do Novo Testamento. Ela reflete seu caráter santo e seus propósitos para os seres humanos criados. Deus reco­ menda a conduta que Ele tem prazer de ver e proíbe aquela que o ofende. Jesus resume a lei moral em dois grandes mandamentos: ame a seu Deus e ame a seu próximo (Mt 86


22.37-40), dos quais dependem todas as instruções morais do Velho Testamento. O ensino moral de Cristo e de seus apóstolos é a velha lei aprofundada e reaplicada a novas circunstâncias — vida no reino de Deus, onde reina o Salva­ dor, e na era pós-Pentecoste do Espírito, em que o povo de Deus é conclamado a viver em seu meio a vida do céu, e a ser a contracultura de Deus no mundo. A lei bíblica é de vários tipos. As leis morais determ inam o comportamento, que temos sempre o dever de observar. As leis políticas do Velho Testamento aplicam princípios da lei moral à situação nacional de Israel, quando o povo era uma igreja-estado, o povo de Deus na terra. As leis do Velho Testa­ mento acerca dos cerimoniais de purificação, dieta e sacrifício eram decretos temporários para fins instrutivos, os quais o Novo Testamento aboliu (Mt 15.20; Mc 7.15-19; 1 Tm 4.3-5; Hb 10.1-14, 13.9,10), porque seu sentido simbólico tinha sido preenchido. A justaposição da lei moral, judicial e ritual nos livros mosaicos continha a mensagem de que a vida sob Deus deve ser vista e vivida não compartimentalmente, mas como uma unidade multifacetada, e também de que a autoridade de Deus como legislador deu força igual a todo o código. Entre­ tanto, as leis eram de diferentes espécies, com diferentes propósitos, e as leis políticas e cerimoniais eram de aplicação limitada, e isto parece claro tanto pelo contexto imediato como pelo restante do ensino de Jesus, cuja afirmação de uma força universal imutável da lei de Deus diz respeito à lei moral como tal (Mt 5.17-19; cf. Lc 16.16,17). Deus requer a total obediência da pessoa total às totais implicações de sua lei como foram dadas. Ela obriga “o homem todo... a uma inteira obediência para sempre”; “é espiritual, e assim alcança a compreensão, vontade, afeições e todos os outros poderes da alma, como também as palavras, obras e gestos” (em outras palavras, o desejo deve ser justo, assim como as ações; e a exterioridade farisaica não é suficiente: (Mt 15.7,8; 23.25-28); e os corolários da lei são parte de seu conteúdo — “onde um dever é prescrito, o pecado contrário é proibido; e onde um pecado é proibido, o dever contrário é prescrito” (Catecismo Maior de Westminster, P. 99). 87


A LEI EM AÇÃO

A LEI MORAL DE DEUS TEM TRÊS PROPÓSITOS Eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei. ROMANOS 7.7 | A Escritura mostra que Deus destinou sua lei para funm\ cionar de três modos, que Calvin o cristalizou em uma forma clássica para o benefício da igreja como o tríplice uso da lei. Sua primeira função é ser um espelho que reflete para nós tanto a justiça perfeita de Deus como nossa própria pecaminosidade e deficiências. Assim, “a lei nos obriga, à medida que tentamos atender a suas exigências, e nos torna fatigados em nossa fraqueza debaixo dela para sabermos como pedir a ajuda da graça” (Agostinho). A lei destina-se a dar-nos conhe­ cimento do pecado (Rm 3.20; 4.15; 5.13; 7.7-11) pois nos mostra o perigo da condenação e nossa necessidade de perdão. A lei destina-se também a conduzir-nos em arrependi­ mento e fé a Cristo (G1 3.19-24). Sua segunda função é restringir o mal. Embora não possa mudar o coração, a lei pode, em certa extensão, inibir a ilega­ lidade por suas ameaças de julgam ento, especialm ente quando amparada por um código civil que aplica no presente punições por violações provadas (Dt 13.6-11; 19.16-21; Rm 13.3,4). Assim, ela garante alguma ordem civil e, de certo modo, protege o justo do injusto. Sua terceira função é guiar os regenerados às boas obras que Deus planejou para eles (Ef 2.10). A lei diz aos filhos de Deus o que agrada ao Pai celestial. Ela pode ser chamada seu 88


código de família. Cristo estava falando deste terceiro uso da lei quando disse que os que se tornam seus discípulos devem ser ensinados a guardar a lei e a fazer tudo o que ela ordena (Mt 5.18-20; 28.20), e que é sua obediência a seus m anda­ mentos que prova a realidade de seu am or por Ele (Jo 14.15). O cristão é livre da lei como um suposto sistema de salvação (Rm 6.14; 7.4,6; 1 Co 9.20; G1 2.15-19; 3.25), mas está “sob a lei de Cristo”, como uma regra de vida (1 Co 9.21; G1 6.2).

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A CONSCIÊNCIA

DEUS INSTRUI O CORAÇÃO E LIMPA-O A terra está contaminada por causa dos seus moradores, porquanto transgridem as leis, violam os estatutos e quebram a aliança eterna. ISAÍAS 24.5 | A consciência é o poder inato de nossas mentes de | exercer autojulgamentos morais, aprovando ou desa­ provando nossas atitudes, ações, reações, pensamentos e planos, e dizendo-nos, em caso de desaprovação, que devemos sofrer por isto. A consciência tem em si dois elementos, (a) um discernimento de certas coisas como sendo certas ou erradas, e (b) uma capacidade de aplicar leis e regras a situações específicas. A consciência, distinta de nossos outros poderes mentais, não tem paralelo; parece uma pessoa separada de nós, falando freqüentem ente, quando gostaría­ mos que estivesse em silêncio, e dizendo coisas que preferi­ ríamos não ouvir. Podemos decidir prestar atenção à consciência, porém não podemos decidir se ela nos ouvirá ou não; nossa experiência mostra que ela decide isto por si mesma. Por sua insistência em nos julgar pelos padrões mais altos que conhecemos, nós a chamamos a voz de Deus na alma, e nesta extensão assim é ela. Paulo diz que Deus escreveu algumas das exigências de sua lei em cada coração hum ano (Rm 2.14,15), e a experiência confirma isto. (“Coração” na Escritura é freqüentem ente sinônimo de “consciência”: a NVI corretamente traduz o hebraico “sentiu Davi bater-lhe o coração” como “Davi sentiu 90


remorso, em 1 Sm 24.5, e há outros exemplos.) Mas a consciência pode ser malformada, ou condicionada a ver o mal como bem, ou insensível ou dopada por repetidos pecados (1 Tm 4.2), e em tais casos ela será menos do que a voz de Deus. Os julgamentos particulares da consciência devem ser recebidos como a voz de Deus somente quando se harmonizam com a própria verdade e lei de Deus expressas na Escritura. Por conseguinte, as consciências devem ser educadas para julgar escrituristicamente. As consciências dos indivíduos comumente refletem os padrões da família ou da comunidade, ou a falta deles. O livro de Juizes conta histórias terríveis de coisas feitas em uma época em que “cada qual fazia o que achava mais reto” (17.6; 21.25). A superstição ou escrúpulo pode levar uma pessoa a ver como pecaminosa uma ação que a Palavra de Deus declara não ser pecaminosa; mas, para uma consciência assim “fraca" (Rm 14.1,2; 1 Co 8.7,12), fazer o que ela considera pecami­ noso transforma-se efetivamente em pecado (Rm 14.23), e, portanto, tais pessoas nunca devem ser pressionadas a fazer o que conscientemente não querem. O ideal do Novo Testamento é uma consciência “boa” e “limpa” (pois a justiça é o propósito e o pecado deve ser evitado: At 24.16; 1 Tm 1.5,19; Hb 13.18; 1 Pe 3.16). Mas, para isso, nossa consciência deve primeiramente ser “limpa” pelo sangue de Cristo; devemos reconhecer que, por ter Cristo em sua morte sacrificial suportado o sofrimento que nos era destinado, ein razão de nossas más ações, elas não mais constituem uma barreira à nossa comunhão com Deus (Hb 9.14).

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A ADORAÇÃO

DEUS OFERECE UM MODELO LITÚRGICO Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do SENHOR, que nos criou. Ele é o nosso Deus, e nós, povo do seu pasto e ovelhas de sua mão. SALMO 95.6,7 | Adoração na Bíblia é a resposta devida pelas criaturas | racionais à auto-revelação de seu Criador. E uma honra­ ria e glorificação a Deus por meio de um grato oferecimento retribuidor a Ele por todas as boas dádivas, e todo o conheci­ mento de sua grandeza e graça a nós concedidas. Isto inclui o louvor a Ele pelo que Ele é, agradecendo-lhe os seus feitos, desejando-lhe glória adicional por seus atos de misericórdia, julgamento e poder, e crendo nele pelo futuro bem-estar nosso e de outrem. Posturas de mística solenidade c celebra­ ção animada, todas fazem parte dela: Davi dançou com ardente entusiasmo “diante do SENHOR”, quando trouxe de volta a arca a Jerusalém, e se pôs humildemente perplexo “perante o SENHOR”, quando lhe foi prometida uma dinas­ tia, e sua adoração evidentemente agradou a Deus em ambas ocasiões (2 Sm 6.14-16; 7.18). Aprender com Deus é também adoração: atenção à sua palavra de instrução honra-o; a desatenção é um insulto a Ele. Uma adoração aceitável requer “mãos limpas e um coração puro” (SI 24.4), como também a disposição de expressar a devoção em atos de serviço e em palavras de adoração. A base da adoração é o relacionamento pactuai, por meio do qual Deus se associou àqueles a quem salvou e reivindicou 92


para si. Isto foi verdadeiro na adoração a Ele prestada no Velho Testamento, como agora na adoração cristã. O espírito da adoração pactuai, como o Velho Testamento o m odelou, é uma mescla de temor respeitoso e alegria pelo privilégio de aproximar-se do poderoso Criador com total auto-humilhação e confissão honesta de pecado, insensatez e necessidade. Sendo Deus santo e nós, humanos, imperfeitos, isto deve ser sempre assim neste mundo. E como a adoração deve ser o ponto central na vida celestial (Ap 4.8-11; 5.9-14; 7.9-17; 11.1518; 15-2-4; 19.1-10), assim deve ser na vida da igreja sobre a terra, e deve ser desde já a principal atividade, tanto individual como corporativa, na vida de cada crente (Cl 3.17). Na legislação mosaica, Deus deu a seu povo da aliança um modelo completo para adoração. Todos os elementos da verdadeira adoração foram incluídos nele, embora alguns fossem típicos, apontando para Cristo e deixando de valer após sua vinda. No livro de Salmos, hinos e preces para uso na adoração dos israelitas foram providenciadas. Os cristãos corretamente os utilizam em sua adoração hoje, fazendo ajustes mentais quando a referência é dirigida a características peculiares da dispensação da aliança de Deus no Velho Testamento — rei terreno de Israel, reino, inimigos, batalhas e experiências de prosperidade, empobrecimento e disciplina divina, além do que era típico do modelo judaico de adoração. Os principais aspectos no modelo litúrgico que Deus deu a Israel foram os seguintes: (a) O sábado, cada sétimo dia seguinte aos seis dias de trabalho: um dia santo de descanso, a ser observado como um memorial da Criação (Gn 2.3; Êx 20.8-11) e redenção (Dt 5.12-15). Deus insistiu na guarda do sábado (Êx 16.21-30; 20.8,9; 31.12-17; 34.21; 35.1-3; Lv 19.3,30; 23.3; cf. Is 58.13,14) e fez da quebra do sábado um pecado mortal (Ex 31.14; Nm 15.32-36). (b) Três festas anuais nacionais (Êx 23.14-17; 34.23; Dt 16.6), nas quais o povo se reunia no santuário de Deus para oferecer sacrifícios, celebrando sua generosidade, para buscar 93


e agradecer a reconciliação e comunhão com Ele, e para comer e beber juntos como expressão de alegria. A festa da Páscoa e do Pão Asmo, realizada no décimo quarto dia do pri­ meiro mês, comemorava o êxodo (Ex 12; Lv 23.5-8; Nm 28.1625; Dt 16-1-8); a Festa das Semanas, também chamada Festa da Colheita e Dia dos Primeiros Frutos, marcava o fim da colheita dos grãos, e era realizada cinqüenta dias após o sábado que iniciava a Páscoa (Êx 23.16; 34.22; Lv 23.15-22; Nm 28.26-31; Dt 16.9-12); e a Festa dos Tabernáculos ou Tendas, também chamada Festa do Ajuntamento, realizada do décimo quinto ao vigésimo segundo dia do sétimo mês, celebrada no fim do ano agrícola e também como lembrança de como Deus guiou Israel pelo deserto (Lv 23.39-43; Nm 29.12-38; Dt 16.13-15). (c) O Dia da Expiação, comemorado no décimo dia do sétimo mês, quando o sumo sacerdote levava o sangue ao pro­ piciatório no centro do santuário para expiar os pecados de Israel durante o ano anterior, e o bode emissário saía para o deserto como sinal de que aqueles pecados tinham então ido embora (Lv 16). (d) O sistema sacrificial regular, envolvendo diariamente e mensalmente as ofertas queimadas (Nm 28.1-15), e mais uma variedade de sacrifícios pessoais, características comuns aos quais eram que qualquer coisa ofertada devia ser sem defeitos e que, quando um animal era oferecido, seu sangue devia ser esparzido sobre o altar das ofertas queimadas para que fosse feita a expiação (Lv 17.11). Rituais de purificação pessoal (Lv 12-15; Nm 19) e devoção (por exemplo, a consagração dos primogênitos, Ex 13.1-16) também faziam parte do modelo dado por Deus. Sob a nova aliança, em que os tipos do Velho Testamento cederam lugar a seus antítipos, o sacerdócio, sacrifício e inter­ cessão de Cristo substituíram todo o sistema mosaico de expia­ ção do pecado (Hb 7-10); o batismo (Mt 28.19) e a Ceia do Senhor (Mt 26.26-29; 1 Co 11.23-26) substituíram a circun­ cisão (G1 2.3-5; 6.12-16) e a Páscoa (1 Co 5.7,8); o calendário festivo judaico não mais obriga (G1 4.10; Cl 2.16); noções do cerimonial de purificação, imposto por Deus para a conscien94


tização de que algumas coisas afastavam o homem de Deus, cessaram de ser aplicadas (Mc 7.19; 1 Tm 4.3,4); o sábado foi renovado com a casuística de fazer o bem do que nada fazer (Lc 13.10-16; 14.1-6), e recontado na base de um dia mais seis e não mais seis mais um. Parece claro que os apóstolos ensina­ ram os cristãos a adorar no primeiro dia da semana, o dia da ressurreição de Jesus, “o dia do Senhor” (At 20.7; Ap 1.10), tratando-o como o sábado cristão. Estas mudanças foram importantes, porém o modelo do louvor, agradecimento, gozo, crença, pureza e serviço, que constitui a verdadeira adoração, continua imutável até estes dias.

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OS PROFETAS

DEUS ENVIOU MENSAGEIROS PARA DECLARAREM SUA VONTADE Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a, ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. DEUTERONÔMIO 18.18 | Os profetas canônicos, cujos livros ocupam mais de uma | quarta parte do Velho Testamento, foram chamados por Deus para serem órgãos e canais de revelação. Eram ho­ mens de Deus que permaneceram no seu conselho (Jr 23.22), conheceram sua mente e estavam capacitados a declará-la. Deus Espírito Santo manifestou-se neles e por meio deles (2 Pe 1.19-21; Is 61.1; Mq 3.8; At 28.25-27; 1 Pe 1.10-12). Eles sabiam que Ele estava fazendo isso; por isso ousaram iniciar suas mensagens com “isto diz o SENHOR” ou “um oráculo do SENHOR” e apresentar o próprio Yahweh como o que falava o que eles estavam transmitindo. A profecia compreendia a predição (antecipação), mas usualmente isto se fazia em um contexto ao pronunciar as advertências e exortações de Deus ao povo da aliança no pre­ sente (julgamento). As predições se relacionavam com avinda do rei e do reino de Deus após os julgamentos purificadores; a preocupação principal dos profetas era exortar ao arrepen­ dimento, na esperança de que, para o momento, os julgamen­ tos fossem evitados. Eles eram, antes de tudo, reformadores, inculcando a lei de Deus e relem brando ao povo sua fidelidade pactuai, que nunca deveriam ter negligenciado. 96


À sua pregação ã nação somava-se a oração por ela: eles se dirigiam a Deus a respeito do povo tão fervorosamente como quando se dirigiam ao povo a respeito de Deus, e cumpriam um único ministério de intercessão (Ex 32.30-32 [Moisés]; 1 Sm 7.5-9; 12.19-23 [Samuel]; 2 Rs 19.4 [Isaías]; cf. Jr 7.16; 11.14; 14.11). Falsos profetas eram uma calamidade para Israel. Ligados profissionalmente com o culto organizado de Israel, diziam o que o povo queria ouvir e falavam de seus próprios sonhos e opiniões, em vez de comunicar as palavras de Deus (1 Rs 22.128; Jr 23.9-40; Ez 13). No Novo Testamento, um livro, Apocalipse, anuncia-se como a profecia verdadeira e digna de confiança, recebida diretamente de Deus (na realidade, de Deus Pai por meio de Jesus Cristo: Ap 1.1-3; 22.12-20). O ministério dos apóstolos trouxe instrução diretamente de Deus a seu povo, exatamente como o ministério profético do Velho Testamento havia feito, embora a forma de apresentação fosse diferente. Os profetas do período neotestamentário estavam ligados aos apóstolos na fundação da igreja (Ef 2.20; 3.5); como expositores do cumprimento em Cristo das esperanças do Velho Testamento (Rm 16.25-27). O livro de Hebreus pode ser bem um exemplo deste tipo de ministério profético.

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ENCARNAÇÃO

DEU ENVIOU SEU FILHO PARA NOS SALVAR E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio cie graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigénito do Pai. JOÃO 1.14 | A Trindade e a Encarnação são temas que se relacio| nam. A doutrina da Trindade declara que o homem Jesus é verdadeiramente divino; a da Encarnação declara que o divino Jesus é verdadeiramente humano. Juntas, elas procla­ mam a plena realidade do Salvador que o Novo Testamento apresenta, o Filho que veio da parte do Pai, pela vontade do Pai, para tornar-se o substituto do pecador sobre a cruz (Mt 20.28; 26.36-46; Jo 1.29; 3.13-17; Rm 5.8; 8.32; ,2 Co 5.19-21; 8.9; Fp 2.5-8). O m omento decisivo sobre a doutrina da Trindade ocorreu no Concílio de Nicéia (325 d.C.), quando a igreja rejeitou a idéia ariana de que Jesus era a primeira e mais nobre criatura de Deus, e afirmou que Ele era da mesma “substância” ou “essência” (isto é, a mesma entidade existente) do Pai. Assim, há somente um Deus, não dois; a distinção entre Pai e Filho está dentro da unidade divina, e o Filho é Deus no mesmo sentido em que o Pai o é. Dizendo que o Filho e o Pai são “de uma substância”, e que o Filho e “gerado” (“único gerado, ou unigénito”, João 1.14,18; 3.16,18, e notas ao texto da NVI), mas “não feito”, o Credo Niceno inequivocamente reconhece a deidade do homem da Galiléia. 98


Um evento crucial para a confissão da doutrina da Encarnação aconteceu no Concílio de Calcedônia (451 d.C.), quando a igreja rejeitou tanto a idéia nestoriana de que Jesus era duas personalidades — o Filho de Deus e um hom em — sob a mesma pele, como a idéia eutiquianista de que a divin­ dade de Jesus tinha absorvido sua hum anidade. Rejeitando ambos, o concílio afirmou que Jesus é uma pessoa divinohum ana em duas naturezas (isto é, dois conjuntos de capaci­ dades para a experiência, expressão, reação e ação); e que as duas naturezas são unidas em seu ser pessoal, sem mistura, confusão, separação ou divisão; e que cada natureza retém seus próprios atributos. Em outras palavras, todas as qualida­ des e poderes que estão em Deus, estavam, estão e sempre estarão real e distintamente presentes na pessoa do homem da Galiléia. Assim, a fórmula calcedônia afirma, em termos categóricos, a plena hum anidade do Senhor (nascido homem pela ação divina). A Encarnação, este milagre misterioso no coração do Cristianismo histórico, é o ponto central do testem unho do Novo Testamento. E surpreendente que os judeus tenham chegado a aceitar tal crença. Oito dos nove escritores do Novo Testamento, como os discípulos originais de Jesus, eram judeus instruídos no axioma judaico de que há somente um Deus e nenhum homem é divino. Todos eles, no entanto, ensinam que Jesus é o Messias de Deus, o filho de Davi ungido pelo Espírito prometido no Velho Testamento (por exemplo, Is 11.1-5; Christns, “Cristo”, é a palavra grega para Messias). Todos eles o apresentam em um tríplice papel de mestre, portador de pecados (dos seres humanos) e governante — profeta, sacerdote e rei. E, em outras palavras, todos insistem que Jesus o Messias deve ser pessoalmente adorado e crido — o que significa dizer que Ele é Deus não menos do que é homem. Observe-se como os quatro mais habilitados teólogos do Novo Testamento (João, Paulo, o escritor de Hebreus e Pedro) falam sobre isto. O Evangelho de João emoldura as narrativas do testem unho visual do escritor (Jo 1.14; 19.35; 21.24) com as declarações de 99


seu prólogo (1.1-18): que Jesus é o eterno Logos (Palavra) divino, agente da Caiação e fonte de toda vida e luz (w. 1-5,9), que, tornando-se “carne”, foi revelado como Filho de Deus e fonte de graça e verdade, naturalmente como “o unigénito de Deus” (w. 14,18; notas de texto da NVI). O evangelho é pródi­ go em declarações “Eu sou”, que têm significação especial porque Eu sou (grego: ego eimi) foi usado para traduzir o nome de Deus na tradução grega de Êxodo 3.14; toda vez que João se refere a Jesus dizendo ego eimi, está implícita uma alegação de divindade. Exemplos disto são João-& 28,58.,. e as sete. decla­ rações de sua graça como (a) o Pão da Vida, dando alimento espiritual (6.35,48,51); (b) a Luz do Mundo, banindo ..a escuridão (8.12; 9.5); (c.) a porta das ovelhas, dando acesso a Deus (10.7,9); (d) o Bom Pastor, protegendo do perigo (10.11,14); (e) a Ressurreição e a Vida, dominando nossa morte (11.25); (f) o Caminho, a Verdade e a Vida, guiando à comunhão com o Pai (14.6); (g) a Videira verdadeira, nutrin­ do para a fertilidade (15.1,5). Tomé, com intensa emoção, adora a Jesus como “Senhor meu e Deus meu!” (20.28). Jesus então pronuncia uma bênção sobre todos os que comparti­ lham a fé de Tomé, e João insta seus leitores ajuntarem -se a eles (20.29-31). .Paulo cita o que parece ser um hino que declara a divin­ dade pessoal de Jesus (Fp 2.6); declara que “nele habita corpo­ ralmente toda a plenitude da Divindade” (Cl 2.9; cf. 1.19); aclama Jesus o Filho como a imagem do Pai e seu agente na criação e manutenção de todas as coisas (Cl 1.15-17); declara ser Ele “Senhor” (um título de realeza, com nuanças divinas), a quem se deve rogar por salvação, de acordo com a prescrição para invocar Yahweh em Joel 2.32 (Rm 10.9-13); chama-lhe “Deus sobre todos” (Rm 9.5) e “Deus e Salvador” (Tt 2.13); c faz preces diretamente a Ele (2 Co 12.8,9), olhando para Ele como fonte da graça divina (2 Ço 13.13). O testem unho é explícito: a fé na divindade de Jesus é fundamental para a teologia e religião de Paulo. O escritor da carta aos Hebreus, pretendendo expor a perfeição do sumo sacerdócio de Cristo, começa declarando a 100


plena divindade e conseqüente única dignidade do Filho de Deus (Hb 1.3,6,8-12), cuja plena hum anidade ele então celebra no capítulo 2. A perfeição, e certam ente a própria possibilidade, do sumo sacerdócio que ele assinala cumprido por ("listo depende da união de uma vida divina infindável e infalível com uma experiência hum ana plena de tentação, aflição e sofrimento (Hb 2.14-17; 4.14-5.2; 7.13-28; 12-2,3). Não menos significativo é o uso que Pedro faz de Isaías 8.12,13 (1 Pe 3.14). Ele cita a versão grega (dos Setenta), esti­ mulando as igrejas a não temerem o que outros temem, mas a santificarem o Senhor. Onde, porém, o texto de Isaías diz, “a Ele [Senhor dos Exércitos] santificai”, Pedro escreve, “santi­ ficai a Cristo, como Senhor” (1 Pe 3.15). Pedro tributaria a adoração em temor devida ao Todo-Poderoso a Jesus de Nazaré, seu Mestre e Senhdr. O Novo Testamento proíbe a adoração de anjos (Cl 2.18; Ap 22.8,9), mas ordena a adoração de Jesus e focaliza consistentem ente o divino-humano Salvador e Senhor como o perm anente objeto próprio da fé, esperança e amor, aqui e agora. A religião a que faltam estas ênfases não é Cristianismo. Que não haja nenhum engano sobre isto!

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DUAS NATUREZAS

JESUS CRISTO É INTEIRAMENTE HUMANO Muitos enganadores têm saído pelo ■mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo. 2 JOÃO 7 ^ Jesus foi um homem que convenceu os que estavam ^ próximos dele de que Ele era também Deus; portanto, sua condição humana não está em dúvida. A condenação de João daqueles que negavam que “Jesus Cristo veio em carne” (1 Jo 4.2,3; 2 Jo 7) visava aos docetas(*), que substituíram a Encarnação pela idéia de que Jesus foi um visitante sobrena­ tural (não Deus), que parecia hum ano, mas era realmente uma espécie de fantasma, um mestre que, na realidade, não morre pelos pecados. Os Evangelhos mostram Jesus experim entando as limita­ ções humanas (fome, Mt 4.2; cansaço, Jo 4.6; ignorância de um fato, Lc 8.45-47) e sofrimento humano (choro junto ao túmulo de Lázaro, Jo 11.35,38; agonia no Getsêmani, Mc 14.32-42; cf. Lc 12.50; Hb 5.7-10; e sofrimento na cruz). Hebreus enfatiza que, se Ele não tivesse experimentado as afli­ ções humanas — fraqueza, tentação, sofrimento — Ele não estaria qualificado para ajudar-nos quando passamos por essas coisas (Hb 2.17,18; 4.15,16; 5.2,7-9). Nestas circunstâncias, sua experiência humana é de modo a garantir que, em qualquer mom ento de pretensão ou premência em nossa relação e caminhada com Deus, podemos ir a Ele, confiantes de que de

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alguma m aneira Ele esteve lá antes de nós, sendo assim o ajudador de que necessitamos. Os cristãos, focalizando a divindade de Jesus, têm às vezes pensado que minimizar sua hum anidade é honrá-lo. A primitiva heresia do monofisismo (a idéia de que Jesus tinha somente uma natureza) expressava esta suposição, como fazem as modernas deduções de que Ele apenas fingiu ser ignorante de fatos (na suposição de que Ele utilizava sua onisciência e, portanto, estava ciente de todas as coisas), e estar com fome e cansado (na suposição de que sua divindade sobrenaturalm ente nutria de forças sua hum anidade todo o tem po, colocando-o acima das dem andas da existência comum). Mas a Encarnação significa, antes, que o Filho de Deus viveu sua vida divino-humana em e através de sua m ente e corpo humanos em todos os aspectos, maximizando sua identificação e empatia com aqueles que Ele viera salvar, e lançando mão dos recursos divinos para transcender os limites hum anos de conhecim ento e energia som ente quando exigências particulares da vontade do Pai assim o requeressem. A idéia de que as duas naturezas de Jesus eram como circuitos elétricos alternados, de sorte que algumas vezes Ele agia em sua hum anidade e algumas vezes em sua divindade, é também equivocada. Ele realizou e suportou todas as coisas, incluindo seus sofrimentos na cruz, na unidade de sua pessoa divino-humana (isto é, como o Filho de Deus que havia toma­ do para si todos os poderes humanos de agir, reagir e expe­ rimentar, em sua forma não decaída). Dizer isto não contradiz a impassibilidade divina, pois impassibilidade não significa que Deus nunca experim entou angústia, mas que o que Ele experimenta, angústia inclusive, é experim entado por sua própria vontade e por sua própria decisão predeterm inada. Jesus, sendo divino, era impecável (não podia pecar), mas isto não quer dizer que Ele não podia ser tentado. Satanás tentou-o a desobedecer ao Pai por autogratificação, autoexibição e autoglorificação (Mt 4.1-11), e a tentação para recuar da cruz foi constante (Lc 22.28; Mt 16.23; e a oração de 103


Jesus no Getsêmani). Sendo humano, Jesus não podia vencer a tentação sem luta, mas, sendo divino, era sua natureza fazer a vontade do Pai (Jo 5.19,30) e, portanto, resistir e lutar contra a tentação até vencê-la. Do Getsêmani podemos inferir que suas lutas foram bem mais agudas e agônicas do que qualquer outra que possamos imaginar. O final feliz resultante é que “naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados” (Hb 2.18). (*) Partidários do docetismo, doutrina gnóstica do segundo século desta era.

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NASCIMENTO VIRGINAL

JESUS CRISTO NASCEU DE UM MILAGRE Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: ‘Deus conosco j. ” MATEUS 1.22,23 | Mateus 1.18-25 e Lucas 1.26-56; 2.4-7, duas histórias ^ harmônicas e complementares, porém nitidam ente independentes, unem-Se no testem unho do nascimento de Jesus como conseqüência de uma concepção miraculosa. Maria tornou-se grávida pela ação criativa do Espírito Santo, sem qualquer relação sexual (Mt 1.20; Lc 1.35). A maioria dos cristãos aceitou o nascimento virginal sem hesitação, até que a teologia liberal do século dezenove fez objeção aos milagres. Ele se converteu então no ponto de controvérsia no debate acerca do sobrenaturalismo cristão e da divindade de Jesus. O liberalismo, procurando eliminar o sobrenatural da fé e reinterpretar Jesus como não mais que um mestre piedoso e de grande discernimento, cercou o nascimento virginal com um espírito de ceticismo indigente e irracional. Na realidade, o nascimento virginal se entrelaça harm onio­ samente com a mensagem do restante do Novo Testamento sobre Jesus. Ele próprio realizou milagres e ergueu-se miracu­ losamente dentre os mortos; portanto, nenhum novo proble­ ma se interpõe à afirmação de que Ele entrou no m undo miraculosamente. Ele deixou o m undo sobrenaturalmente, pela ressurreição e ascensão, de modo que um meio sobrena105


tural em sua chegada era perfeitam ente apropriado. A ênfase dada à dignidade e glória do Jesus pré-encarnado (Jo 1.1-9; 17.5; 2 Co 8.9; Fp 2.5-11; Cl 1.15-17; Hb 1.1-3; 1 Jo 1.1) fez o modo de sua entrada na vida encarnada, que envolveu a proclamação do glorioso papel que Ele vinha cumprir (Mt 1.21-23; Lc 1.31-35), mais natural do que qualquer alternativa. E digno de nota que Mateus e Lucas se mostram muito mais interessados no cum prim ento do propósito redentor de Deus do que na concepção virginal como maravilha física ou arma apologética ou indicador da dupla natureza cristológica. Embora não possamos afirmar que uma pessoa divina não podia ter entrado neste nfiundo de outra maneira que não fosse pelo nascimento virginal, o nascimento miraculoso de Jesus de fato aponta para a sua divindade e também para a realidade do poder criativo que opera em nosso novo nasci­ mento (Jo 1.13). E, por outro lado, embora não possamos afirmar que Deus não podia ter produzido uma humanidade sem pecado, separada do nascimento virginal, a hum anidade de Jesus era sem pecado, e as circunstâncias de seu nascimen­ to chamam a atenção para o milagre que estava envolvido quando Maria, uma pecadora (Lc 1.47), deu à luz alguém que não estava “em Adão”, como ela estava, nem, portanto, necessitava de um Salvador, como ela. Antes, Jesus foi destina­ do, por meio da não pecarriinosidade de sua natureza hum ana imaculada, a tornar-se o perfeito sacrifício para os pecados humanos, e, assim, o Salvador de sua mãe e, com ela, do restante da igreja.

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MESTRE

JESUS CRISTO PROCLAMOU O REINO E A FAMÍLIA DE DEUS Quado Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina; porque ele. as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas. MATEUS 7.28,29 |

Jesus foi o Filho de Deus encarnado, e seu ensino, dado a Ele por seu Pai (Jo 7.16-18; 12.49,50), perm anecerá para sempre (Mc 13.31), e por fim julgará seus ouvintes (Jo 12.48; Mt 7.24-27). A importância de dar atenção a este ensino não pode, portanto, deixar de ser enfatizada. Jesus ensinou como os rabinos judeus geralmente faziam, aos poucos, em fragmentos, e não por meio de discursos correntes, estando muitos de seus pronunciamentos vitais em parábolas, provér­ bios e manifestações isoladas, respondendo a perguntas e reagindo a situações. Todo o seu ensino público foi marcado por uma autoridade que causou assombro (Mt 7.28,29; Mc 1.27; Jo 7.46), mas alguns de seus ensinos foram expressos de forma enigmática, exigindo reflexão e discernimento espiritual (“ouvidos”, Mt 11.15; 13.9,43; Lc 14.35) e confundindo o ouvinte ocasional e cheio de si. A razão por que Jesus apenas emitiu noções obscuras e parcas a respeito (por exemplo) de seu papel messiânico, expiação, ressurreição e reino vindouro, é dupla: primeiro, de qualquer modo, somente os eventos poderiam tornar claras essas coisas; e segundo, a preocupação de Jesus foi chamar as pessoas ao seu discipulado por meio de seu im­ pacto pessoal sobre elas, e a seguir ensiná-las a respeito dele 107


mesmo no contexto desse relacionamento, em vez de oferecer instrução teológica detalhada ao não comprometido com a fé. Entretanto, as afirmações de Jesus são freqüentem ente claras, e as numerosas apresentações ampliadas nas epístolas são m elhor lidas como muitas notas de rodapé do que Jesus disse. O ensino de Jesus tinha três pontos regulares de referência. O primeiro era seu Pai divino, que o havia enviado e estava agora dirigindo-o (Mt 11.25-27; 16.13-17,27; 21.37; 26.29,53; Lc 2.49; 22.29; Jo 3.35; 5.18-23,26,27,36,37; 8.26-29; 10.2530,36-38), e a quem seus discípulos devem referir-se como seu Pai celestial (Mt 5.43-6.14,25-33; 7.11). O segundo era o povo, tanto indivíduos como m ultidões em sua condição de perdidos (Mt 9.36; Mc 10.21), os que eram objeto de seus constantes e variados apelos ao arrependim ento e a uma nova vida (Mt 4.17; 11.20-24; Mc 1.15; Lc 5.32; 13.3-5; 15.7; 24.47). O terceiro era Ele mesmo, o Filho do Homem, um título mes­ siânico (Mt 16.13-16). “Um como o Filho do hom em ” assume o reino em Daniel 7.13,14. Para confirmarmos o próprio uso feito por Jesus deste título, ver Marcos 8.38; 13.26; 14.62 (fazendo eco a Daniel); Mateus 12.40; Marcos 8.31; 9.31; 10.33,45; 14.21,41; Lucas 18.31-33 (predizendo sua m orte e ressurreição); João 3.13-15; 6.27 (declarando seu ministério salvífico). Como decorrência do testemunho de Jesus a seu Pai, às necessidades do povo, e a seu próprio papel, três temas teoló­ gicos tomam forma: 1. O reino de Deus. Esta é uma realidade relacional que veio com Jesus como cumprimento do plano de Deus para a histó­ ria, da qual os profetas do Velho Testamento tinham constan­ tem ente falado (Is 2.1-4; 9.6,7; 11.1-12.6; 42.1-9; 49.1-7; Jr 23.5,6). O reino está presente com Jesus; seus milagres são sinais dele (Mt 11.12; 12.28; Lc 16.16; 17.20,21). O reino torna-se real e crucial na vida de uma pessoa quando ela se submete com fé ao senhorio de Cristo, um significativo com­ promisso que traz salvação e vida eterna (Mc 10.17-27; Jo 5.24). O reino será pregado e crescerá (Mt 24.14; 13.31-33) até que o Filho do Homem, agora reinando no céu, reapareça 108


para julgam ento e, no caso de seus fiéis servos, para alegria (Mt 13.24-43,47-50). 2. A obra salvadora de Jesus. Tendo descido do céu pela vontade do Pai para resgatar pecadores escolhidos para a glória, Jesus morre por eles, convida-os e atrai para si mesmo, perdoa seus pecados e conserva-os seguros até o dia de sua ressurreição, glorificação e introdução na bem-aventurança do céu (Lc 5.20,23; 7.48; Jo 6.37-40,44,45; 10.14-18,27-29; 12.32; 17.1-26). 3. A ética da família de Deus. A nova vida, que vem aos pecadores como dádiva da livre graça de Deus, deve ser expre­ ssa em um novo estilo de vida. Os que vivem pela graça devem praticar a gratidão; os que têm sido intensamente amados devem mostrar um grande amor pelos outros; os que vivem por terem sido perdoados devem perdoar; os que conhecem a Deus como seu amoroso Pai celestial devem aceitar suas provi­ dências sem amargor, honrando-o em todo o tempo pela crença em seu cuidado protetor. Em uma palavra, os filhos de Deus devem ser como seu Pai e seu Salvador, o que significa ser totalmente distinto do mundo (Mt 5.43-48; 6.12-15; 18.2135; 20.26-28; 22.35-40).

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IMPECABILIDADE

JESUS CRISTO ERA TOTALMENTE ISENTO DE PECADO [Cristo] não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca. 1 PEDRO 2.22 |

O Novo Testamento insiste que Jesus era totalmente isento de pecado (Jo 8.46; 2 Co 5.21; Hb 4.15; 7.26; 1 Pe 2.22; 1 Jo 3.5). Isto quer dizer que não somente Ele nunca desobedeceu a seu Pai, mas que amava a lei de Deus e sentia sincero prazer em cumpri-la. Nos seres humanos degradados há sempre alguma relutância em obedecer a Deus, e algumas vezes ressentimento que se transforma em ódio diante das alegações que Ele faz sobre nós (Rm 8.7). Mas a natureza moral de Jesus era inocente, como foi a de Adão antes de seu pecado, e em Jesus não havia nenhum a inclinação prévia de afastar-se de Deus que permitisse a Satanás tirar proveito disso, como há em nós. Jesus amava seu Pai e a vontade do Pai de todo seu coração, mente, alma e força. Hebreus 4.15 diz que Jesus foi “tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado”. Isto significa que todas as tentações que enfrentamos — para satisfazer erradam ente os desejos naturais do corpo e da mente, evitar assuntos mo­ rais e espirituais, desviar-se da moral e buscar caminhos fáceis, ser menos do que amável, solidário e bondoso para com os outros, tornar-se autoprotetor e autocomiserativo etc. — vieram sobre Ele, mas Ele não cedeu a nenhum a delas. A oposição opressora não o subjugou, e diante da agonia do Getsêmani e da cruz lutou contra a tentação e resistiu ao 110


pecado, a ponto de ter seu sangue derramado. Os cristãos devem aprender com Ele a proceder da mesma maneira (Hb 12.3-13; Lc 14.25-33). A impecabilidade de Jesus era necessária para a nossa salva­ ção. Não fosse Ele “um cordeiro sem defeito e sem mácula”, seu sangue não teria sido “precioso” (1 Pe 1.19). Ele mesmo teria necessitado de um salvador, e sua m orte não nos teria redimido. Sua obediência ativa (perfeita conformidade per­ m anente à lei de Deus para a raça humana, e à sua vontade revelada para o Messias) qualificou Jesus a tornar-se nosso Salvador ao m orrer por nós sobre a cruz. A obediência passiva de Jesus (suportando o castigo da lei violada de Deus como nosso substituto imaculado) coroou sua obediência ativa para assegurar o perdão e aceitação daqueles que colocaram sua fé nele (Rm 5.18,19; 2 Co 5.18-21; Fp 2.8; Hb 10.5-10).

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OBEDIÊNCIA

JESUS CRISTO CUMPRIU A VONTADE REDENTORA DE SEU PAI Então lhes falou Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo que o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que este fizer, o Filho também semelhantemente o faz. ” JOÃO 5.19 | A humildade na Escritura não significa fingir não ter | valor e recusar posições de responsabilidade, mas co­ nhecer e m anter o lugar que Deus designou a cada um. Ser humilde é uma questão de adaptar-se ao plano de Deus, quer seja uma elevada posição de liderança (Moisés era humilde como líder, Nm 12.3) ou a obscuridade da subserviência. Quando Jesus afirmou que era “humilde de coração” (Mt 11.29), Ele quis dizer que estava conscienciosamente seguindo o plano do Pai para sua vida terrena. Nisto Ele estava m antendo seu lugar como a segunda Pessoa da Divindade. As três Pessoas da Santa Trindade são eternas e auto-existentes, participando igualmente de todos os aspectos e atributos da Divindade, e sempre agindo juntos em coope­ ração solidária. Mas o modelo cooperativo imutável é que a segunda e a terceira Pessoas se identificam com o propósito da primeira, de sorte que o Filho se torna o executivo do Pai e o Espírito age como agente de ambos. E da natureza e alegria do Filho fazer a vontade de seu Pai (Jo 4.34). Com respeito à redenção, a vontade do Pai para o Filho é às vezes chamado pacto de redenção, uma vez que ele tem a forma de um acordo entre duas partes sobre um programa e 112


um a promessa. A Confissão de Westminster resume o acordo (propósito do Pai aceito pelo Filho), como segue: Aprouve a Deus, em seu eterno propósito, escolher e ordenar o Senhor Jesus, seu Filho Unigénito, para ser o Mediador entre Deus e o homem, o Profeta, Sacerdote e Rei, o Cabeça e Salvador de sua igreja, o Herdeiro de todas as coisas e o Juiz do mundo; e deu-lhe desde toda a eternidade um povo para ser sua semente e para, no tempo devido, ser por ele remido, chamado, justificado, santificado e glorificado. (VIII. 1)

(Para confirmação das idéias e fraseologia desta declaração, ver Ef 3.11; 1 Pe 1.20; 1 Tm 2.5; At 3.22; Hb 5.5,6; Lc 1.33; Ef 5.23; Hb 1.2; At 17.31; Is 53.10; Jo 17.6; 1 Co 1.30; Rm 8.29,30.) Este propósito do Pai para o Filho tinha dois estágios. O primeiro estágio foi a humilhação. O Filho eterno abriu mão de sua glória e, mediante a encarnação, tornou-se um pobre homem e um religioso intruso. Finalmente, por meio de um julgamento-exibição e de uma inescrupulosa manipulação da fraqueza moral de Pilatos, Ele se tornou um criminoso condenado, sofrendo uma terrível morte como portador do pecado da raça hum ana (Fp 2.6-8; 2 Co 8.9; Cl 3.13; 4.4,5). O segundo estágio foi a exaltação. Cristo ressuscitou, subiu ao céu, e agora, por designação de seu Pai, reina como rei sobre o m undo e a igreja (Fp 2.9-11), enviando o Espírito Santo (Jo 15.26; 16.7; At 2.33) e, por Ele, aplicando a nós a redenção que pela morte conquistou para nós. Atraindo para si aqueles que lhe foram dados (Jo 12.32), intercedendo por eles (Rm 8.34; Hb 7.25; Jo 17), protegendo, guiando e cuidando deles como um pastor cuida de suas ovelhas (Jo 10.27-30), Ele está presentem ente trazendo muitos filhos à glória (Hb 2.10), de acordo com o plano do Pai, e Ele conti­ nuará a fazer isso até que todos os eleitos de Deus cheguem ao arrependim ento e à nova vida (2 Pe 3.9). Em tudo isto o Filho está obedecendo ao Pai com ver­ dadeira hum ildade, vivendo uma subordinação natural, 113


voluntรกria e jubilosa. Enquanto isto, o objetivo do Pai de ter o Filho adorado e glorificado igualmente com Ele prรณprio estรก sendo firmemente realizado (Jo 5.19-23).

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VOCAÇÃO

A MISSÃO DE JESUS CRISTO FOI REVELADA EM SEU BATISMO Naqueles dias veio Jesus de Nazaré da Galiléia e por João foi batizado no rio Jordão. Logo ao sair da água, viu os céus rasgarem-se e o Espírito descendo como pomba sobre ele. Então foi ouvida uma voz dos céus: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo. ” MARCOS 1.9-11 | Há continuidade entre o batismo de João para arrepenI™ dimento (Mc 1.4) e o batismo trinitário instituído por Jesus (Mt 28.19). Ambos eram símbolos de purificação e visa­ vam ã remissão de pecados (Mc 1.4; At 2.38). Não eram idên­ ticos, porém, e os que eram batizados por João necessitavam também do batismo cristão (At 19.5). O batismo cristão era um sinal iniciatório apontando para um relacionam ento com o Cristo que viera (é chamado batismo em nome de Cristo, em Atos 2.38; 10.48; 19.5); o batismo de João era um rito prepara­ tório, significando a preparação para a vinda de Cristo e para seu julgam ento (Mt 3.7-12; Lc 3.7-18; At 19.4). O batismo de João era um a inovação radical. Ante­ riorm ente, apenas dos gentios convertidos ao Judaísmo se requeria que passassem por uma lavagem simbólica. Agora, contudo, por interm édio de João, Deus estava ordenando que todos os judeus expressassem seu arrependim ento por meio de uma lavagem simbólica pública. A maioria dos líderes judaicos achava que a exigência de João era herética e insultuosa (Mt 21.25,26). 115


Jesus insistiu que João, seu primo, devia batizá-lo, tendo de contornar a hesitação de João (Mt 3.13-15). Em seu papel como Messias, “nascido sob a lei” (G1 4.4), Jesus tinha de submeter-se a todas as prescrições de Deus que havia para Israel e identificar-se com aqueles cujos pecados Ele tinha vindo carregar. Seu batismo proclamou que Ele viera para tomar o lugar do pecador sob o julgamento punitivo de Deus. Este é o sentido em que Ele foi batizado para “cumprir toda a justiça” (Mt 3.15; cf. Is 53.11). Seu batismo foi uma manifestação da Trindade: o Pai falou do céu, e a pomba desceu, um sinal da unção do Espírito. O sentido da pomba descendo e pousando sobre Ele não indi­ cava que Jesus não estivesse previamente cheio do Espírito, mas que estava agora sendo marcado como o portador do Espírito, e que se tornaria o batizante com o Espírito (Jo 1.32,33), trazendo assim a era do Espírito que devia cumprir as esperanças de Israel (Lc 4.1,14,18-21).

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TRANSFIGURAÇÃO

COMO FOI REVELADA A GLÓRIA DE JESUS CRISTO Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os sós, à parle, a um alto monte. Foi transfigurado diante deles; e as suas vestes tornaram-se resplandecentes e sobremodo brancas, como nenhum lavandeira na terra as poderia alvejar. Apareceu-lhes Elias com Moisés, e estavam falando com Jesus. MARCOS 9.2-4 Registrada em três dos Evangelhos (Mt 17.1-8; Mc 9.2-8; Lc 9.28-36), e evidentemente planejada por Jesus para que Pedro, Tiago e João vissem e testificassem (Mt 17.9; cf. 2 Pe 1.16-18; Jo 1.14), a Transfiguração foi um evento signifi­ cativo na revelação da divindade de Jesus. A transformação por que passou o Senhor divino-humano enquanto orava (Lc 9.29) foi de um certo ponto de vista uma prova das coisas que virão: foi uma transição m om entânea da glória divina, nele escondida e que marcou seus dias na terra, para a revelação daquela glória que Ele terá quando retornar e que nos permi­ tirá vê-lo como Ele é. Foi também uma transição da condição humana, tal como é em nós agora, para a que será no Dia da Ressurreição (Fp 3.20,21). A luz resplandecente que emanou de Jesus através de suas vestes, quando seu rosto se transformou (Lc 9.29), era a glória intrínseca a Ele como o Filho divino, “o resplendor da glória de Deus” (JJb 1-3). A voz de dentro da nuvem confirmou a identificação que a visão já havia dado. 117


A Transfiguração era também um evento significativo na revelação do reino de Deus (isto é, o reino do Messias, o Salvador-Rei profetizado de Deus, em termos do qual o reino de Deus é definido). Moisés e Elias representavam o teste­ m unho da lei e dos profetas a Jesus e sendo por Ele substituí­ dos. A “partida” (em grego exodos), da qual eles e Jesus falaram (Lc 9.31) deve ter sido a sua morte, ressurreição e ascensão. Este não foi tão-somente um meio de deixar este mundo, mas também um meio de redimir seu povo, tal como o exodos do Egito, que Moisés liderou, foi a redenção de Israel da escravidão. Em seguida à Transfiguração, Jesus encobriu sua glória e desceu do monte para ministrar uma vez mais e, no devido tempo, sofrer para nossa salvação. F. B. Meyer comenta: “A porta através da qual Moisés e Elias chegaram perm aneceu aberta, e por ela nosso Senhor poderia ter retornado. Mas, se o fizesse, Ele jamais poderia ter sido o Salvador do gênero humano. Ele sabia disto, e por isso voltou sua face para o Calvário.”

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RESSURREIÇÃO

JESUS CRISTO RESSUSCITOU DENTRE OS MORTOS No primeiro dia da semana, alta madrugada, foram elas ao túmulo, levando os aromas que haviam preparado. E encontraram a pedra removida do sepulcro, mas, ao entrarem, não acharam o corpo do Senhor Jesus. LUCAS 24.1-3 | A ressurreição de Jesus, que foi um ato divino envolven""|™ do as três Pessoas da Divindade (Jo 10.17,18; At 13.3035; Rm 1.4), não foi exatamente um ressuscitamento do corpo físico arruinado que foi descido da cruz para o sepultamento. Foi, antes, uma transformação da hum anidade de Jesus, que o capacitava a aparecer, esvaecer-se e mover-se sem ser visto de um local para outro (Lc 24.31,36). Era a renovação criativa do seu corpo original, o corpo que é agora plenam ente glorifi­ cado e imortal (Fp 3.21; Hb 7.16,24). O Filho de Deus no céu ainda vive naquele e por meio daquele corpo, e assim será para sempre. Em 1 Coríntios 15.50-54, Paulo concebe que os cristãos que estiverem vivos no mom ento do retorno de Cristo passarão por uma transformação semelhante, embora em 2 Coríntios 5.1-5 ele se mostre cônscio de que os cristãos que m orrerem antes da Segunda Vinda serão “revestidos” com um novo corpo (a “casa eterna no céu”), como um acontecimento distinto, no mom ento do retorno ao pó do velho corpo, ou depois disso (Gn 3.19). A Cristandade descansa na certeza da ressurreição de Jesus como uma ocorrência no espaço-tempo da história. Todos os quatro Evangelhos o destacam, focalizando o túmulo vazio e 119


as aparições do Cristo rcssurreto, e Atos insiste nisto (At 1.3; 2.24-35; 3.15; 4.10; 5.30-32; 13.33-37). Paulo olhava a Ressur­ reição como uma prova indiscutível de que a mensagem acerca de Jesus como Juiz e Salvador é verdadeira (At 17.31; 1 Co 15.1-11,20). A ressurreição de Jesus dem onstrou sua vitória sobre a morte (At 2.24; 1 Co 15.54-57), reivindicou-o como justo (Jo 16.10) e indicou sua identidade divina (Rm 1.4). Ela o conduziu ã sua ascensão e entronização (At 1.9-11; 2.34; Fp 2.9-11; cf. Is 53.10-12) e ao seu presente reino celestial. Ela assegura o presente perdão e justificação do crente (Rm 4.25; 1 C>) 15.17) e é a base da ressurreição para a vida em Cristo do crente aqui e agora (Jo 11.25,26; Rm 6; Ef 1.18-2.10; Cl 2.9-15; 3.1-4).

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ASCENSÃO

JESUS CRISTO FOI ELEVADO AO CÉU Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu. LUCAS 24.51 | A ascensão de Jesus foi um ato de seu Pai ao retirá-lo do | olhar fixo cle seus discípulos nas alturas (um sinal de exaltação) e envolvê-lo em uma nuvem (um sinal da presença de Deus). Esta não foi uma forma de viagem espacial, mas a segunda parte (sendo a Ressurreição a primeira) do retorno de Jesus das profundezas cla morte ao apogeu da glória. Jesus predisse a Ascensão (Jo 6.62; 14.2,12; 16.5,10,17,28; 17.5; 20.17), e Lucas a descreveu (Lc 24.50-53; At 1.6-11). Paulo a celebrou e afirmou o conseqüente senhorio de Cristo (Ef 1.20; 4.8-10; Fp 2.9-11; 1 Tm 3.16), e o escritor de Hebreus aplicou esta verdade para o incitamento dos corações pusilâ­ nimes (Hb 1.3; 4.14; 9.24). O fato de ter sido Jesus Cristo entronizado como senhor do universo deve servir de enorm e estímulo para todos os crentes. A Ascensão foi, de um ponto de vista, a restauração da glória que o Filho tinha antes da Encarnação; de outro ponto de vista, a glorificação da natureza hum ana de um m odo jamais acontecido antes; e de um terceiro ponto de vista o começo de um reino que nunca havia sido exercido desta forma. A Ascensão estabelece três fatos: 1. A subida pessoal de Cristo. Jesus ascendeu ao lugar de poder, concebido como um trono, à mão direita do Pai. Sentar-se nesse trono, como o grão-vizir da corte persa costu­ mava fazer, é ocupar a posição de governador executivo como 121


representante do monarca (Mt 28.18; Ef 1.20-22; 1 Co 15.27; 1 Pe 3.22). 2. A onipresença espiritual de Cristo. No santuário celestial da Sião celestial (Hb 9.24; 12.22-24), Jesus é acessível a todos os que o invocam (Hb 4.14), e Ele é poderoso para ajudá-los, em qualquer parte do mundo (Hb 4.16; 7.25; 13.6-8). 3. Ministério celestial de Cristo. O Senhor reinante intercede por seu povo (Rm 8.34; Hb 7.25). Embora a petição ao Pai seja parte da atividade intercessória (Jo 14.16), a essência da inter­ cessão de Cristo é a intervenção em nosso interesse (desde seu trono), e não súplica em nosso favor (como se sua posição fosse de compaixão sem status ou autoridade). Com sobera­ nia, Ele agora nos concede profusamente os benefícios que seu sofrimento conquistou para nós. “Ele advoga [em nosso favor] — por sua presença no trono de seu Pai” (B. F. Wescott). “A vida de nosso Senhor no céu é sua oração” (H. B. Swete). De seu trono ele envia o Espírito Santo constante­ mente para enriquecer seu povo (At 2.33; Jo 16.7-14) e prepara-o para o serviço (Ef 4.8-12).

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ENTRONIZADO

JESUS REINA NO CÉU Depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade nas alturas. HEBREUS 1.3 | O papel atual de Cristo na glória é comumente mencio| nado como sua “sessão celestial”. Sessão (do latim sessio) significa “assentada”, ou ato de se reunir. O Novo Testamento refere-se à atividade celestial de Jesus como estar em posição de agir (At 7.56; Ap 1.1-16; 14.1), andando no meio de seu povo (Ap 2.1) e cavalgando para a batalha (Ap 19.11-16), mas em geral expressa sua atual autoridade, dizendo que Ele está sentado à mão direita do Pai — não para descansar, mas para governar. O quadro não é de inatividade, mas de autoridade. No Salmo 110 Deus coloca o Messias a seu lado direito como rei e sacerdote — como rei para ter todos os seus inimi­ gos sob seus pés (v. 1), e como sacerdote para servir a Deus e canalizar a graça de Deus para sempre (v. 4). Embora pessoal­ mente o Messias possa estar lutando (w. 2,3,5-7), sua posição normal é sempre sentado à direita de Yahweh. Em Atos 2.34,35, Hebreus 1.13 e 10.12, e Mateus 22.44, esta imagem é aplicada diretam ente a Jesus Cristo, que reina ativamente desde a Ascensão no reino medianeiro de Deus. Cristo governa sobre todas as esferas de autoridade que existem, tanto angelicais como humanas (Mt 28.18; 1 Pe 3.22). Seu reino, em um sentido direto, é a igreja, que Ele lidera como seu corpo e governa por sua Palavra e Espírito (Ef 1.22,23). O estado não é a forma do reino de Deus, como era 123


no Velho Testamento: a espada não é usada para impor o reino de Cristo (Jo 18.36), mas Cristo de seu trono usa a autoridade secular para m anter a paz civil e a ordem, e ordena a seus discípulos que se submetam a suas regras (Mt 22.21; Rm 13.1-7). Os cristãos sentem-se grandem ente confortados sabendo que Cristo é o Senhor de todos; eles procuram em todas as esferas da vida fazer sua vontade e lembrar-se e a outros de que todos são responsáveis perante Cristo como Juiz, sejam eles governadores ou governados, maridos ou esposas, pais ou filhos, empregadores ou empregados. Todos os seres racionais prestarão finalmente contas de seus atos a Cristo como Juiz (Mt 25.31; At 17.31; Rm 2.16; 2 Co 5.10). A sessão de Cristo continuará até que todos os seus e nossos inimigos, incluindo a morte, sejam reduzidos a nada. A morte, o último inimigo, cessará de ser quando Cristo em sua volta ressuscitar os mortos para o julgamento (Jo 5.28,29). Uma vez executado o julgamento, o trabalho do reino mediador terminará e Cristo triunfantem ente entregará seu reino ao Pai (1 Co 15.24-28).

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MEDIAÇÃO

JESUS CRISTO É O MEDIADOR ENTRE DEUS E O HOMEM Há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem. 1 TIMÓTEO 2.5 | O ministério salvador de Jesus Cristo está resumido na ™| afirmação de que Ele é o “M ediador entre Deus e os hom ens” (1 Tm 2.5). O mediador aproxima as partes que não estão em comunicação e que podem alhear-se, afastar-se e guerrear-se. O mediador deve ter ligações com ambos os lados, a fim de identificar-se com os interesses de ambos e assegurá-los, representando ambas as partes em uma base de boa vontade. Assim, Moisés foi o mediador entre Deus e Israel (G1 3.19), falando a Israel da parte de Deus, quando foi dada a Lei (Ex 20.18-21), e falando a Deus da parte de Israel, quando Israel tinha pecado (Ex 32.9-33.17). Cada membro de nossa raça degradada e rebelde é, por natureza, hostil a Deus (Rm 8.7) e permanece sob a ira de Deus (isto é, da rejeição punitiva pela qual, como Juiz, Ele expressa uma ira ativa contra nossos pecados, Rm 1.18; 2.5-9; 3.5,6). E desejável a reconciliação entre as partes beligerantes, mas isto somente pode ocorrer se a ira de Deus for de algum modo absorvida e aplacada, e se o coração do homem hostil a Deus, e que motiva sua vida contra Ele, for de alguma forma mudado. Em misericórdia, Deus, o Juiz irado, enviou seu Filho ao m undo para promover a reconciliação necessária. Não que o bondoso Filho tenha agido para aplacar seu severo Pai; a iniciativa foi do próprio Pai. Nas palavras de Calvino, “de 125


um modo inconcebível Ele nos amou, mesmo quando nos odiava”, e sua dádiva para nós na pessoa de seu Filho como portador de nosso pecado foi o fruto daquele amor (Jo 3.1416; Rm 5.5-8; 1 Jo 4.8-10). Em todo o seu ministério mediador, o Filho estava fazendo a vontade de seu Pai. Objetiva e definitivamente, Cristo realizou a reconciliação para nós mediante a substituição do objeto da pena. Ele tomou sobre a cruz nosso lugar, assumiu por assim dizer nossa identidade, carregou a maldição que devia ser nossa (G1 3.13), e por meio do derram am ento de seu sangue sacrificial prom o­ veu a paz para nós (Ef 2.16; Cl 1.20). Paz aqui significa fim à hostilidade, culpa, e exposição ao castigo retribuidor, que, de outra forma, seria inevitável — em outras palavras, perdão para todo o passado e perm anente aceitação pessoal para o futuro. Aqueles que receberam a reconciliação por meio da fé em Cristo são justificados e têm paz com Deus (Rm 5.1,10). A obra atual do mediador, desenvolvida por interm édio de mensageiros humanos, tem o propósito de persuadir aqueles para quem Ele obteve a reconciliação a recebê-la verdadei­ ramente (Jo 12.32; Rm 15.18; 2 Co 5.18-21; Ef 2.17). Jesus é o “mediador de uma nova aliança” (Hb 9.15; 12.24) — ou seja, o iniciador de uma nova relação de paz consciente com Deus, indo além do que as menos eficazes práticas do Velho Testamento para eliminar a culpa pelo pecado poderia assegurar (Hb 9.11-10.18). Uma das grandes contribuições de Calvino para a compreensão cristã foi a de que os escritores do Novo Testa­ mento expõem o ministério mediador de Jesus em termos do ofício tríplice (“ofício” quer dizer tarefa fixada ou papel definido) de profeta, sacerdote e rei. Os três aspectos da obra de Cristo são encontrado reunido na carta aos Hebreus, onde Jesus é tanto o rei messiânico, exaltado a seu trono (1.3,13; 2.9; 4.16), como também o grande Sumo Sacerdote (2.17; 4.14-5.10; caps. 7-10), que se oferece a Deus como um sacrifício para nossos pecados. Além disto, Cristo é o mensageiro (“apóstolo”, o enviado para anun­ ciar, 3.1), por meio de quem a mensagem, da qual Ele é a 126


substância, foi primeiro proclamada (2.3). Em Atos 3.22 Jesus é chamado profeta pela mesma razão que Hebreus o chama apóstolo, a saber, porqüe Ele instruiu seu povo declarando-lhe a Palavra de Deus. Enquanto no Velho Testamento os papéis mediadores de profeta, sacerdote e rei foram preenchidos por indivíduos separados, todos os três ofícios se aglutinam na pessoa única de Jesus. E sua glória, dada a Ele pelo Pai, ser assim o Salvador todo suficiente. Nós, os que cremos, somos chamados a com­ preender isto e mostrar-nos seu povo pela obediência a Ele como nosso rei, crendo nele como nosso sacerdote, e apren­ dendo dele como nosso profeta e mestre. Centralizar em Jesus Cristo desta forma é o selo de qualidade do Cristianismo autêntico.

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SACRIFÍCIO

JESUS CRISTO FEZ-SE EXPIAÇÃO POR NOSSO PECADO A quem [Jesus Cristo] Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé... ROMANOS 3.25 | Expiação significa consertar, apagar a ofensa e dar | satisfação por erros cometidos, reconciliando assim as pessoas separadas e restaurando entre elas a relação rompida. A Escritura menciona todos os seres humanos como neces­ sitados de reparação de seus pecados, porém faltos de todo o poder e recursos para fazê-lo. Ofendem os nosso santo Criador, cuja natureza é odiar o pecado (Jr 44.4; Hc 1.13) e puni-lo (SI 5.4-6; Rm 1.18; 2.5-9). Nenhuma aceitação haverá da parte desse Deus, ou comunhão com Ele, a menos que a reparação se faça, e considerando que há pecado mesmo em nossas melhores ações, qualquer coisa que façamos na espe­ rança de repará-lo pode somente agravar nossa culpa ou piorar nossa situação. Isto torna danosa a insensatez de pro­ curar instituir um a justiça própria diante de Deus (Jó 15.1416; Rm 10-2,3); isto simplesmente não pode ser feito. Entretanto, contra este pano de fundo da desesperança humana, a Escritura anuncia o amor, a graça, a misericórdia, a piedade, a bondade e a compaixão de Deus — o Criador ofendido, que provê em si mesmo a expiação que aquele pecado tornou necessária. Esta maravilhosa graça é o centro focal da fé, esperança, adoração, ética e vida espiritual do Novo Testamento; de Mateus ao Apocalipse ela refulge com opulenta glória. 128


Quando Deus tirou Israel do Egito, Ele instituiu como parte do relacionamento pactuai um sistema de sacrifícios que tinha no seu centro o derram am ento e oferta do sangue de animais sem defeito “para fazer expiação para vossas almas” (Lv 17.11). Esses sacrifícios eram típicos (isto é, tipos, pois apon­ tavam para algo mais adiante). Embora os pecados fossem, de fato, “deixados im punes” (Rm 3.25) quando os sacrifícios eram oferecidos fielmente, o que efetivamente os apagava não era o sangue do animal (Hb 10.11), mas o sangue do antítipo, 0 Filho de Deus sem pecado, Jesus Cristo, cuja morte na cruz fez expiação por todos os pecados cometidos antes do evento, bem como por todos os pecados cometidos depois dele (Rm 3.25,26; 4.3-8; Hb 9.11-15). As referências do Novo Testamento ao sangue de Cristo são comumente sacrificiais (por exemplo, Rm 3.25; 5.9; Ef 1.17; Ap 1.5). Como sacrifício perfeito pelo pecado (Rm 8.3; Ef 5.2; 1 Pe 1.18,19), a morte de Cristo foi nossa redenção (isto é, nosso livramento por resgate: o pagamento de um preço que nos tornou livres do perigo da culpa, escravização ao pecado e expectativa da ira; Rm 3.24; Cl 4.4,5; Cl 1.14). A morte de Cristo foi o ato de Deus de reconciliar-nos com Ele, superando sua própria hostilidade contra nós, provocada pelo pecado (Rm 5.10; 2 Co 5.18,19; Cl 1.20-22). A Cruz foi a propiciação de Deus (isto é, aplacou sua ira contra nós pela expiação de nossos pecados e, assim, os removeu de sua vista). Os textoschave aqui são Romanos 3.25; Hebreus 2.17; 1 João 2.2 e 4.10, em todos os quais o grego expressa explicitam ente a propiciação. A cruz tinha seu efeito propiciatório, porque em seu sofrimento Cristo assumiu nossa identidade, por assim dizer, e suportou o julgamento retribuidor a nós destinado (“a maldição da lei”, Cl 3.13), como nosso substituto, em nosso lugar, com o registro condenatório pregado por Deus em sua cruz como uma relação dos crimes pelos quais Ele estava então m orrendo (Cl 2.14; cf. Mt 27.37; Is 53.4-6; Lc 22.37). A morte expiatória de Cristo ratificou a inauguração da nova aliança, pela qual o acesso a Deus em todas as circuns­ tâncias é garantido pelo só sacrifício de Cristo, que cobre 129


todas as transgressões (Mt 26.27,28; 1 Co 11.25; Hb 9.15; 10.12-18). Aqueles que pela fé em Cristo receberam a recon­ ciliação, nele são “feitos justiça de Deus” (2 Co 5.21). Em outras palavras, eles são justificados e recebem o status de filhos adotivos na família de Deus (G1 4.5). Depois disto, vivem sob o amor motivador de Cristo para com eles, o qual os constrange e controla, amor que se fez conhecido e medido pela cruz (2 Co 5.14).

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REDENÇÃO DEFINITIVA

JESUS CRISTO MORREU PELOS ELEITOS DE DEUS Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. JOÃO 10.14,15

A redenção definitiva, algumas vezes chamada “reden­ ção particular”, “expiação eficaz” e “expiação limitada”, é uma doutrina histórica da Reforma a respeito da intenção do Deus triúno na morte de Jesus Cristo. Sem duvidar do valor infinito do sacrifício de Cristo, ou da genuinidade do convite de Deus, “quem quiser”, a todos os que ouvem o evangelho (Ap 22.17), a doutrina afirma que a morte de Cristo eliminou os pecados de todos os eleitos de Deus e garantiu-lhes que serão trazidos à fé por meio da regeneração e mantidos na fé para a glória, e que isto é o que foi planejado alcançar. Deste caráter definitivo e eficaz resulta sua limitação: Cristo não m orreu neste sentido eficaz para todos. A prova disto, como a Escritura e a experiência se unem para nos ensinar, é que nem todos são salvos. As únicas alternativas possíveis são (a) universalismo real, sustentando que a morte de Cristo garantiu a salvação a cada membro da raça humana, passada, presente e futura, ou (b) universalismo hipotético, sustentando que a morte de Cristo tornou a salvação possível para todos, mas real somente para os que acrescentam a ela uma resposta de fé e arrependim en­ to, que não é assegurada por ela. As escolhas são, portanto, um a expiação de eficácia ilimitada, mas de extensão limitada

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(particularismo Reformado), um de ilimitada extensão, mas de eficácia limitada (universalismo hipotético), ou uma de ilimitada eficácia e ilimitada extensão (universalismo real). A Escritura deve ser o guia na escolha entre estas possibilidades. A Escritura diz que Deus escolheu para a salvação um gran­ de núm ero de membros de nossa raça caída c enviou Cristo ao m undo para salvá-los (Jo 6.37-40; 10.27-29; 11.51,52; Rm 8.2839; Ef 1.3-14; 1 Pe 1.20). Considera-se comumente que Cristo morreu em favor de grupos ou pessoas particulares, com a clara implicação de que sua morte garantiu sua salvação (Jo 10.15-18,27-29; Rm 5.8-10; 8.32; Cl 2.20; 3.13,14; 4.4,5; 1 Jo 4.9,10; Ap 1.4-6; 5.9,10). Diante da paixão, Ele orou somente por aqueles que o Pai lhe havia dado, não pelo “m undo” (isto é, o restante do gênero humano, Jo 17.9,20). E concebível que Ele deixasse de orar por alguma pessoa por quem Ele preten­ dia morrer? A redenção definitiva é a única dessas três visões que harmoniza com estas condições. Não há nenhum a inconsistência ou incoerência no ensino do Novo Testamento, cle um lado, sobre o oferecimento de Cristo nos Evangelhos, o qual os cristãos devem tornar conhe­ cido em toda parte, e, por outro lado, sobre o fato de que Cristo alcançou uma redenção totalmente eficaz para os elei­ tos de Deus na cruz. E uma verdade clara que todos os que vão a Cristo com fé encontrarão misericórdia (Jo 6.35,47-51,54-57; Rm 1.16; 10.8-13). Os eleitos ouvem o oferecimento de Cristo, e, pelo ouvir, são eficazmente chamados pelo Espírito Santo. Tanto o convite como a vocação eficaz fluem da morte expia­ tória de Cristo. Os que rejeitam o oferecimento de Cristo fazem-no por sua própria e livre vontade (isto é, porque assim o escolhem, Mt 22.1-7; Jo 3.18), de modo que seu pereci­ mento final decorre de sua própria falta. Os que recebem a Cristo aprendem a agradecer-lhe a cruz como peça central do plano de Deus da soberana graça salvadora.

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PARTG TRGÇ

DEUS REVELADO COMO SEMOR DA GRAÇA


PARÁCLITO

O ESPÍRITO SANTO MINISTRA AOS CRENTES “Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar. ” JOÃO 16.13,14 Antes da paixão de Jesus, Ele prom eteu que o Pai e Ele | enviariam a seus discípulos “putro Consolador” (Jo 14.16,26; 15.26; 16.7). O Consolador ou Paráclito (ou Paracleto, da palavra grega parakletos, que significa o que dá auxílio), é um ajudador, conselheiro, fortalecedor, estimulador, aliado e advogado. Outro indica que Jesus foi o prim eiro Paráclito e está prom etendo um substituto, que, após sua partida, continuará o ensino e o testemunho que Ele havia iniciado (Jo 16.6,7). O ministério do Paráclito, por sua própria natureza, é um ministério pessoal e relacional, implicando a plena pessoalidade de quem o consuma. Embora o Velho Testamento tenha dito muito acerca da atividade do Espírito na Criação (por exemplo, Gn 1.2; SI 33.6), na revelação (p. ex., Is 61.1-6; Mq 3.8), na capacitação para o serviço (p. ex., Ex 31.2-6; Jz 6.34; 15.14,15; Is 11.2), e na renovação interior (p. ex., SI 51.10-12; Ez 36.25-27), ele não torna claro que o Espírito é uma Pessoa divina distinta. No Novo Testamento, contudo, fica claro que o Espírito é verdadeiramente uma Pessoa distinta do Pai, assim como é o Filho. Isto é evidente não somente pela 135


promessa de “outro Consolador”, mas também pelo fato de que o Espírito, entre outras coisas, fala (At 1.16; 8.29; 10.19; 11.12; 13.2; 28.25), ensina (Jo 14.26), testemunha (Jo 15.26), busca (1 Co 2.10,11), determina (1 Co 12.11), intercede (Rm 8.26,27), é alvo de mentira (At 5.3), e pode ser afligido (Ef 4.30). Somente de um ser pessoal podem scr ditas tais coisas. A divindade do Espírito surge cla declaração de que mentir ao Espírito é m entir a Deus (At 5.3,4), e da associação do Espí­ rito com o Pai e o Filho nas bênçãos (2 Co 13.14; Ap 1.4-6) e na fórmula do batismo (Mt 28.19). O Espírito é chamado “os sete espíritos” em Apocalipse 1.4; 3.1; 4.5; 5.6, em parte, pare­ ce, porque sele é um núm ero que significa a perfeição divina e, em parte, porque o Espírito ministra em sua plenitude. Portanto, o Espírito é “Ele”, não “ele”, e deve ser obedecido, amado e adorado, juntamente com o Pai e o Filho. Testem unhar a Jesus Cristo, glorificá-lo, mostrando a seus discípulos quem e o que Ele c (Jo 16.7-15), e fazê-los cônscios do que são nele (Rm 8.15-17; Gl 4.6) é o ministério central do Paráclito. O Espírito nos ilumina (Ef 1.17,18), regenera (Jo 3.5-8), guia-nos à santidade (Rm 8.14; Gl 5.16-18), transformanos (2 Co 3.18; Gl 5.22,23), dá-nos certeza (Rm 8.16), e dons para ministério (1 Co 12.4-11). Todo trabalho cle Deus em nós, tocando nossos corações, nosso caráter e nossa conduta, é feito pelo Espírito, embora aspectos desse trabalho sejam, às vezes, atribuídos ao Pai e ao Filho, de quem o Espírito é executivo. O pleno ministério do Espírito começa na manhã do Pentecoste, logo depois cla ascensão de Jesus (At 2.1-4). João Batista predisse que Jesus batizaria com o Espírito Santo (Mc 1.8; Jo 1.33), de acordo com a promessa do Velho Testamento de um derram am ento do Espírito de Deus nos últimos dias (J1 2.2832; cf. Jr 31.31-34), e Jesus havia repetido a promessa (At 1.4,5). A significação da manhã do Pentecoste foi dupla: ela marcou o início da era final da história do mundo antes do retorno de Cristo, e, comparada com a era do Velho Testa­ mento, marcou uma formidável intensificação do ministério do Espírito e da experiência de viver para Deus. 136


Os discípulos cie Jesus foram evidentemente crentes nasci­ dos do Espírito antes do Pentecoste, de sorte que seu batismo no Espírito, que trouxe poder à sua vida e ministério (At 1.8), não foi o começo cle sua experiência espiritual. Para todos, porém, que chegaram à fé desde a m anhã do Pentescoste, começando com os convertidos naquele evento, o recebim en­ to do Espírito na plena bênção da nova aliança tem sido um aspecto cle sua conversão e novo nascimento (At 2.37; Rm 8.9; 1 Co 12.13). Todas as aptidões para o serviço que surgem subseqüentemente na vida de um cristão devem ser vistas como a seiva emanada desse batismo espiritual inicial, que une vitalmente o pecador ao Cristo ressurreto.

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SALVAÇÃO

JESUS LIVRA SEU POVO DO PECADO Não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos. ATOS 4.12 0 tema fundamental do evangelho cristão é a salvação. Salvação é uma palavra de ampla aplicação que expressa a idéia de resgate do perigo e da miséria para um estado de segurança. O evangelho proclama que o Deus que livrou Israel do Egito, Jonas do ventre do peixe, o salmista da morte e os soldados do naufrágio (Êx 15.2;Jn 2.9; SI 116.6; At 27.31), livra do pecado e suas conseqüências todos os que confiam em Cristo. Como esses livramentos foram totalmente obra de Deus, e não casos de pessoas salvando-se com a ajuda de Deus, o mesmo também ocorre com a salvação do pecado e da morte. “Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, [seja a fé ou a salvação e a fé juntas] é dom de Deus” (Ef 2.8). “Ao SENHOR pertence a salvação!” (Jn 2.9). Do que os crentes são libertados? De sua primeira condição sob a ira de Deus, do domínio do pecado e do poder da morte (Rm 1.18; 3.9; 5.21); de sua natural condição de serem dominados pelo mundo, pela carne e pelo Diabo (Jo 8.23,24; Rm 8.7,8; 1 Jo 5.19); dos temores causados por uma vida pecaminosa (Rm 8.15; 2 Tm 1.7; Hb 2.14,15), e dos muitos hábitos viciosos que são parte dela (Ef 4.17-24; 1 Ts 4.3-8; Tt 2.11-3.6).

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Como os crentes são libertados dessas coisas? Por meio de Cristo e em Cristo. O Pai está tão preocupado em exaltar o Filho, como em libertar os perdidos (Jo 5.19-23; Fp 2.9-11; Cl 1.15-18; Hb 1.4-14), e é tão verdadeiro dizer que os eleitos foram designados por Cristo, o Filho amado, como é verda­ deiro dizer que Cristo foi designado pelos eleitos (Mt 3.17; 17.5; Cl 1.13; 3.12; 1 Pe 1.20; 1 Jo 4.9,10). Nossa salvação com preende, prim eiram ente, Cristo m orrendo por nós e, em segundo lugar, Cristo vivendo em nós (Jo 15.4; 17.26; Cl 1.27) e nós vivendo em Cristo, unidos com Ele em sua m orte e vida ressurreta (Rm 6.3-10; Cl 2.12,20; 3.1). Esta união vital, que é sustentada pelo Espírito, do lado divino, e pela fé, do nosso lado, a qual se forma em nosso novo nascimento e mediante ele, pressupõe um a união pactuada no sentido de nossa eterna eleição em Cristo (Ef 1.4-6). Jesus foi preordenado a ser nosso líder representante e portador substituto de nosso pecado (1 Pe 1.18-20; cf. Mt 1.21), e nós fomos escolhidos para ser efetivamente chamados, confor­ mados à sua imagem e glorificados pelo poder do Espírito (Rm 8.11,29,30). Os crentes são salvos do pecado e da morte, mas para que foram eles salvos? Para viver no tempo e na eternidade em am or a Deus — Pai, Filho e Espírito — e a seu próximo. A fonte do nosso am or a Deus é o conhecimento do seu am or redentor por nós, e a evidência do nosso amor a Ele é o amor pelo próximo (1 Jo 4.19-21). O propósito de Deus, aqui e na vida futura, é continuar expressando seu amor em Cristo a nós, e nossa meta deve ser continuar expressando nosso am or às três Pessoas do único Deus por meio da adoração e serviço em Cristo. A vida de amor e adoração é nossa esperança de glória, nossa salvação agora e nossa felicidade para sempre.

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ELEIÇÃO

DEUS ESCOLHE OS SEUS Pois ele [Deus] diz a Moisés: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. ”Assim, pois, não depende cle quem quer, ou de quem. corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. ROMANOS 9.15,16 J

O verbo eleger significa “selecionar ou escolher”. A | doutrina bíblica da eleição consiste em que, antes da Criação, Deus selecionou da raça humana, antevista como decaída, aqueles a quem Ele redimiria, traria à fé, justificaria e glorificaria em Jesus Cristo e por meio dele (Rm 8.28-39; Ef 1.3-14; 2 Ts 2.13,14; 2 Tm 1.9,10). Esta escolha divina é uma expressão da graça livre e soberana, porque ela é não cons­ trangida e incondicional, não merecida por qualquer coisa naqueles que são seus objetos. Deus não deve aos pecadores nenhum a misericórdia de qualquer espccie, mas somente condenação; por isso, é surpreendente, e razão de sempiterno louvor, que Ele tenha decidido salvar alguns de nós; e louvor duplicado porque sua escolha incluiu o envio de seu próprio Filho para sofrer, como portador do pecado, pelos seus eleitos (Rm 8.32). A doutrina da eleição, como toda verdade acerca de Deus, envolve mistério e, algumas vezes, incita à controvérsia. Mas na Escritura é uma doutrina pastoral, incluída ali para ajudar os cristãos a verem quão grande é a graça que os salva, concluzindo-os à humildade, confiança, alegria, louvor, fidelidade e santidade como resposta. E o segredo cle família dos filhos de 140


Deus. Não sabemos quem mais Ele escolheu entre aqueles que ainda não crêem, nem tampouco a razão por que nos esco­ lheu em particular. O que de fato sabemos é que, primeiro, se não tivéssemos sido escolhidos para a vida, não seríamos crentes agora (pois somente o eleito é trazido à fé), e, em segundo lugar, como crentes eleitos podemos confiar que Deus completará em nós a boa obra que Ele começou (1 Co 1.8,9; Fp 1.6; 1 Ts 5.23,24; 2 Tm 1.12; 4.18). Assim, o conheci­ mento da eleição por parte de uma pessoa traz conforto e alegria. Pedro nos diz. que devemos “confirmar a [nossa] vocação e eleição” (2 Pe 1.10) — isto é, certificá-la. A eleição é conhe­ cida por seus frutos. Paulo sabia da eleição dos tessalonicenscs por sua fé, esperança e amor, a transformação interna e externa que o evangelho tinha operado em sua vida (1 Ts 1.36). Quanto mais as qualidades para as quais Pedro exortou seus leitores aparecerem em nossa vida (virtude, conhe­ cimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraterni­ dade, amor: 2 Pe 1.5-7), mais seguros estaremos da própria eleição que nos foi concedida. Os eleitos são, de um ponto de vista, a dádiva de Deus ao Filho (Jo 6.39; 10.29; 17.2,24). Jesus testifica que veio a este m undo especificamente para salvá-los (Jo 6.37-40; 10.14-16,2629; 15.16; 17.6-26; Ef 5.25-27), e qualquer relato de sua missão deve enfatizar isto. Reprovação é o nome dado à eterna decisão de Deus a respeito dos pecadores que Ele não escolheu para a vida. Sua decisão é, em essência, não para mudá-los, como os eleitos são destinados a ser mudados, mas deixá-los ao pecado, como em seus corações eles já desejam fazer, e finalmente para julgá-los como m erecem pelo que têm feito. Q uando em casos particulares Deus os entrega a seus pecados (isto é, remove as restrições à prática de coisas desobedientes que desejam fazer), isto já é o começo do julgamento. Ele se chama “endu­ recim ento” (Rm 9.18; 11.25; cf. Sl 81.12; Rm 1.24,26,28), que leva inevitavelmente culpa maior. 141


A reprovação é um a realidade bíblica (Rm 9.14-24; 1 Pe 2.8), mas não a que se relaciona diretam ente com a conduta cristã. Até onde os cristãos saibam, os reprovados não têm face, não nos cabendo tentar identificá-los. Devemos, antes, viver à luz da certeza de que qualquer um pode ser salvo, se ele ou ela arrepender-se e colocar sua fé em Cristo. Devemos ver todas as pessoas que encontramos como possivelmente incluídas entre os eleitos.

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VOCAÇÃO EFICAZ

DEUS ATRAI SEU POVO A SI Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade, para o que também vos chamou, mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo. 2 TESSALONICENSES 2.13,14 | Vocação eficaz é uma frase inglesa (effectual calling) do I™ século dezesseis, que se tornou o título do capítulo X da Confissão de Westminster, de 1647. O capítulo começa assim: Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é Ele servido, no tempo por Ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua Palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto Ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente, a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dandolhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que ê bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça.

O que está sendo dito aqui é a realidade multiforme da conversão cristã, envolvendo iluminação, regeneração, fé e arrependim ento. E está sendo analisada como uma obra sobe­ rana de Deus, “eficazmente” (isto é, efetivamente) realizada pelo poder do Espírito Santo. O conceito corresponde ao uso 143


que Paulo faz do verbo chamar (significando “trazer à fc”) e chamado (significando “convertido”) em Romanos 1.6; 8.28,30; 9.24; 1 Coríntios 1.24,26; 7.18,21; Gálatas 1.15; Efésios 4.1,4; e 2 Tessalonicenses 2.14, contrastando com a idéia de um convite meramente externo e ineficaz, como encontrado em Mateus 22.14. O pecado original torna todos os seres humanos natural­ mente mortos (não responsivos) perante Deus, mas, pela vocação eficaz, Ele vivifica os mortos, to m o o chamado exte­ rior de Deus à fé em Cristo é comunicado por meio da leitura, pregação e explanação do conteúdo da Bíblia, o Espírito San­ to ilumina e renova o coração dos pecadores eleitos, de modo que eles compreendam o evangelho c o abracem como verdade de Deus, e Deus em Cristo torna-se para eles objeto de desejo e afeição. Sendo agora regenerados e capazes pelo uso de sua vontade libertada para escolher Deus e o bem, eles abandonam seu padrão de vida anterior para receber Jesus Cristo como Senhor e Salvador, e para iniciar uma nova vida com Ele.

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ILUMINAÇÃO

O ESPÍRITO SANTO DÁ ENTENDIMENTO ESPIRITUAL O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode eniendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. ] CORÍNTIOS 2.14 0 conhecim ento das coisas divinas, para o qual os cristãos são atraídos, é mais do que uma intimidade formal com as palavras bíblicas e as idéias cristãs. E uma cons­ cientização da realidade e relevância das atividades do Deus triúno, as quais a Escritura testifica. Tal conscientização não é normal nas pessoas, por mais familiaridade que tenham com as idéias cristãs (como o homem sem o Espírito em 1 Co 2.14, que não aceita o que os cristãos lhe dizem, ou os cegos guias de cegos, de quem Jesus falou tão causticamente em Mt 15.14, ou como o próprio Paulo antes do seu encontro com Jesus na estrada de Damasco). Somente o Espírito Santo, perscrutador das profundezas de Deus (1 Co 2.10), pode efetuar essa cons­ cientização em nossas mentes e corações obscurecidos pelo pecado. E por isso que é chamada “entendim ento espiritual” (espiritual significa “dado pelo Espírito”, Cl 1.9; cf. Lc 24.25; 1 Jo 5.20). Aqueles que, ao lado de uma sólida instrução verbal, possuem “unção que vem do Santo... [têm] conhecimento da verdade” (1 Jo 2.20). A obra do Espírito de conceder esse conhecim ento é chamada “iluminação”. Não é uma nova revelação que esteja sendo dada, mas uma obra dentro de nós que nos capacita a com preender e amar a revelação que está ali diante de nós no

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texto bíblico ouvido ou lido, e explanado por professores e escritores. O pecado em nosso sistema mental e moral anuvia nossas mentes e vontades, de modo que não compreendemos a força da Escritura e resistimos a ela. Deus parece-nos remo­ to, ao extremo da irrealidade, e diante da sua verdade somos embotados e apáticos. O Espírito, contudo, abre e desanuvia nossas mentes, sintonizando nossos corações para que com­ preendamos (Ef 1.17,18; 3.18,19; 2 Co 3.14-16; 4.6). Como pela inspiração Ele nos proveu a verdade bíblica, assim agora pela iluminação Ele no-la interpreta. A iluminação é, pois, a aplicação da verdade revelada de Deus aos nossos corações, a fim de que apreendamos como realidade para nós o que o texto sagrado anuncia. A iluminação, que é um ministério perm anente do Espírito Santo aos cristãos, inicia antes da conversão com uma crescente compreensão da verdade acerca de Jesus Cristo e uma crescente sensação de estar sendo avaliado e exposto por ela. Jesus disse que o Espírito “convenceria o m undo” do pecado de não crer nele, do fato de Ele estar à direita de Deus Pai (como seu bom acolhimento na volta ao céu o provou), e da realidade do julgam ento tanto aqui como na vida futura (Jo 16.8-11). Este convencimento triplo é ainda o meio de Deus fazer que o pecado seja repulsivo e Cristo adorável aos olhos das pessoas que antes amavam o pecado e não tinham nenhum interesse pelo divino Salvador. A forma de ser plenam ente beneficiado pelo ministério da iluminação do Espírito é o estudo sério da Bíblia, a oração séria e a séria correspondência obediente a todas e quaisquer verdades que já tenham sido expostas. Isto corresponde à máxima de Lutero sobre as três coisas que fazem um teólogo: oratio (oração), meditatio (pensar na presença de Deus sobre o texto), e tentatio (provação, a luta pela fidelidade bíblica diante da pressão para desatender o que a Escritura diz).

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REGENERAÇÃO

O CRISTÃO NASCEU DE NOVO Respondeu Jesus: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. ” JOÃO 3.3 Regeneração é um conceito do Novo Testamento que cresceu, ao que parece, a partir da frase alegórica usada por Jesus para mostrar a Nicodemos a interioridade e pro­ fundidade da mudança a que mesmo os religiosos judeus deveriam submeter-se, se quisessem ver o reino de Deus e entrar nele, e, assim, alcançar a vida eterna (Jo 3.3-15). Jesus alegorizou a mudança como sendo “novo nascim ento”. O conceito é Deus renovando o coração, o âmago do ser humano, implantando nele um novo princípio de desejo, pro­ pósito e ação, uma propensão dinâmica que encontra expres­ são na resposta positiva ao evangelho e a seu Cristo. A frase de Jesus, “nascido da água e do Espírito” (Jo 3.5), volta ao tema de Ezequiel 36.25-27, onde Deus é representado como lim­ pando simbolicamente as pessoas da poluição do pecado (por água) e dando-lhes um “novo coração” ao colocar o Espírito dentro deles. Por ser isto tão explícito, Jesus censurou Nicode­ mos, “mestre de Israel”, por não entender como o novo nasci­ mento ocorre (Jo 3.9,10). A posição de Jesus desde o começo é que não há prática de fé em sua pessoa como o Salvador sobrenatural, nem arrependim ento, nem verdadeiro discipulado fora desse novo nascimento. Em outra parte, João ensina que a crença na Encarnação e na Expiação, com fé e amor, santidade e justiça, é o fruto e a

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prova de quem é nascido de Deus (1 Jo 2.29; 3.9; 4.7; 5.1,4). Conseqüentemente, parece que, como não há conversão sem novo nascimento, assim também não há novo nascimento sem conversão. Embora a regeneração infantil possa ser uma realidade quando Deus assim o pretende (Lc 1.15,41-44), o contexto usual do novo nascimento é o da vocação eficaz — isto é, confrontação com o evangelho e iluminação quanto à sua verdade e significação como mensagem de Deus para a pes­ soa. A regeneração é sempre o elemento decisivo na vocação eficaz. A regeneração é monergista, isto é, obra inteiramente de Deus Espírito Santo. Ela suscita o eleito dentre os mortos espiritualmente para uma nova vida em Cristo (Ef 2.1-10). E uma transição da morte espiritual para a vida espiritual, sendo a fé consciente, intencional e ativa em Cristo seu fruto ime­ diato, não sua causa imediata. A regeneração é a obra do que Agostinho chamou graça “preveniente”, a graça que precede nossos impulsos de coração em direção a Deus.

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OBRAS

BOAS OBRAS SÃO UMA EXPRESSÃO DE FÉ Verificais que uma pessoa éjustificada por obras e não por fé somente. TIAGO 2.24 IMü No Novo Testamento, fé (confiança crente, ou crença

| confiante, baseada no testemunho recebido da parte de Deus) é essencialmente im portante por ser o meio ou a causa instrumental da salvação. É pela fé que os cristãos são justi­ ficados diante de Deus (Rm 3.26; 4.1-5; G1 2.16), vivem suas vidas (literalmente “andam ”, 2 Co 5.7), e sustentam sua esperança (Hb 10.35-12.3). A fé não pode ser definida em termos subjetivos, como uma opinião fixa confiante e otimista, ou em termos passivos, como ortodoxia complacente ou confiança em Deus sem com pro­ misso com Ele. A fé é uma resposta orientada para o objeto, modelada por aquele que é crido, a saber, o próprio Deus, as promessas de Deus, e Jesus Cristo, todos expostos nas Escri­ turas. E a fé é uma devotada resposta, que envolve mente, coração, vontade e afeições. A teologia Reformada mais antiga analisou a fé como notitia (“conhecim ento”, isto é, familia­ ridade com o conteúdo do evangelho), mais assensus (“confor­ midade”, isto é, reconhecimento de que o evangelho é verda­ deiro), mais fiducia (“crença e certeza”, isto é, segurança pessoal na graça do Pai, Filho e Espírito para a salvação, com grata cessação de todas as tentativas de salvar-se com base na própria justiça: Rm 4.5; 10.3). Sem fiducia não há fé, mas sem notitia e assensus não pode haver fiducia (Rm 10.14). 149


O dom divino da fé é um fruto da iluminação aplicadora do Espírito Santo, e ele tem geralmente em si alguma medida de certeza consciente por meio do testemunho do Espírito (Rm 8.15-17). Calvino definiu a fé como “um firme e seguro conhe­ cimento do favor divino para conosco, fundado sobre a verda­ de de uma promessa graciosa em Cristo, revelada a nossas mentes e selada em nossos corações pelo Espírito Santo”. A justificação pelas obras (as coisas que temos feito) é a heresia do legalismo. A justificação, como Lutero insistiu, é somente pela fé (“fé independentem ente das obras da lei”, Rm 3.28), porque ela se dá em Cristo e unicamente por meio de Cristo, e depende da distinção entre o que Ele é e o que nós somos. Porém, se “boas obras” (atividades de serviço a Deus e a outros) não decorrem de nossa profissão de fé, estamos ainda crendo com a cabeça, não com o coração: em outras palavras, a fé justificadora (fiducia ) ainda não nos per­ tence. A verdade é que, embora sejamos justificados pela fé sozinha, a fé que justifica nunca está sozinha. Ela produz frutos morais; expressa-se “pelo am or” (G1 5.6); transforma o modo de viver da pessoa; gera a virtude. Isto não ocorre apenas porque a santidade é exigida, mas também porque o coração regenerado, do qual a fiducia é a expressão, deseja a santidade e pode encontrar pleno contentam ento apenas em buscá-la. Quando Tiago diz que a fé sem obras é morta (isto é, um cadáver), ele está usando a palavra fé no sentido limitado de noticia mais assensus, que é como aqueles a quem ele se dirige o estavam usando. Quando ele diz que se é justificado pelo que se faz, e não pela fé isolada, ele quer dizer por “justi­ ficado” o que foi “provado ser genuíno; defendido da suspeita de ser hipócrita e fraudulento”. Tiago está ressaltando a ques­ tão de que a ortodoxia estéril não salva ninguém (Tg 2.14-26). Paulo teria concordado, e toda a carta de Tiago mostra-o concordando com Paulo, que a fé deve m udar a vida da pessoa. Paulo denuncia a idéia da salvação por obras mortas; Tiago rejeita a salvação pela fé morta. 150


Embora as obras do crente não mereçam a salvação, haven­ do sempre alguma coisa imperfeita nelas (Rm 7.13-20; G1 5.17), em seu caráter como expressões do amor e fidelidade que a fé inspira, são elas a base sobre a qual Deus prom ete galardões no céu (Fp 3.12-14; 2 Tm 4.7,8). Para Deus, portan­ to, premiar-nos de acordo com nossas obras é, como notou Agostinho, seu gracioso coroam ento de seus próprios dons graciosos.

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ARREPENDIMENTO

O CRISTÃO MUDA RADICALMENTE Anunciei primeiramente... que se arrependessem e se convertessem a Deus, praticando obras dignas de arrependimento. ATOS 26.20 | A palavra arrependim ento no Novo Testamento signi| fica mudança da mente, de forma que as idéias, valores, metas e costumes são alterados e toda a vida é vivida de modo diferente. A mudança é radical, tanto interior como exterior­ mente; ânimo e opinião, vontade e afetos, conduta e estilo de vida, motivos e propósitos são todos envolvidos. Arrependi­ mento significa começo de uma nova vida. O chamado ao arrependim ento era a primeira mensagem na pregação de João Batista (Mt 3.2), de Jesus (Mt 4.17), dos Doze (Mc 6.12), de Pedro no Pestecoste (At 2.38), de Paulo aos gentios (At 17.30; 26.20), e do Cristo glorificado a cinco das sete igrejas da Ásia (Ap 2.5,16,22; 3.3,19). Ele foi parte do resumo feito por Jesus do evangelho que deveria ser levado ao m undo (Lc 24.47). Ele corresponde a constantes apelos dos profetas do Velho Testamento a Israel para que se voltasse para Deus, de quem se desviara (por exemplo, Jr 23.22; 25.4,5; Zc 1.3-6). O arrependim ento é sempre apontado como cami­ nho para a remissão de pecados e restauração ao favor de Deus, e a impenitência é indicada como a estrada para a ruína (por exemplo, Lc 13.1-8). O arrependim ento é fruto da fé, que é, ela própria, fruto da regeneração. Contudo, na vida real, o arrependim ento é inseparável da fé, sendo o aspecto negativo (a fé é o aspecto 152


positivo) de voltar-se para Cristo como Senhor e Salvador. A idéia de que pode haver fé salvadora sem arrependim ento, e que uma pessoa pode ser justificada por aceitar Jesus como Salvador, e ao mesmo rejeitá-lo como Senhor, é um a ilusão destrutiva. A fé reconhece Cristo como o que Ele realm ente é, nosso rei designado por Deus, como também nosso sacerdote dado por Deus, e a verdadeira confiança nele como Salvador será expressa em submissão a Ele também como Senhor. Recusar isto é procurar a justificação por meio de uma fé impenitente, que não é fé. Sobre arrependim ento, diz a Confissão de Westminster: Movido pelo reconhecimento e sentimento, não só do perigo, mas também da impureza e odiosidade do pecado como contrários à santa natureza e justa lei de Deus; apreendendo a misericórdia divina manifestada em Cristo aos que são penitentes, o pecador, pelo arrepen­ dimento, de tal maneira sente e aborrece os seus pecados, que, deixando-os, se volta para Deus, tencionando e procurando andar com Ele em todos os caminhos dos seus mandamentos. (XV. 2)

Esta declaração ressalta o fato de que o arrependim ento incompleto, às vezes chamado “contrição” (remorso, autoacusação, pesar pelo pecado gerado por medo do castigo, sem qualquer vontade ou determinação de renunciar ao pecado) é insuficiente. O verdadeiro arrependim ento é “contrição”, como exemplificado por Davi no Salmo 51, tendo em seu coração um sério propósito de não mais pecar, mas sim viver doravante um a vida que mostre que o arrependim ento foi completo e real (Lc 3.8; At 26.20). Arrepender-se de qualquer vício significa tomar a direção oposta, praticar as virtudes mais diretam ente contrárias a ele.

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JUSTIFICAÇÃO

A SALVAÇÃO É PELA GRAÇA POR MEIO DA FÉ E é evidente que, pela lei, ninguém ê justificado diante de Deus, porque “o justo viverá pela fé ”. GÁLATAS 3.11 A doutrina da justificação, centro da tempestade da

"^1 Reforma, foi a maior preocupação do apóstolo Paulo.

Para ele, ela era o coração do evangelho (Rm 1.17; 3.21-5.21; G1 2.15-5.1), moldando tanto sua mensagem (At 13.38,39) como sua devoção e vida espiritual (2 Co 5.13-21; Fp 3.4-14). Embora outros escritores do Novo Testamento afirmem subs­ tancialmente a mesma doutrina, os termos por meio dos quais os protestantes a afirmaram e defenderam durante quase cinco séculos foram extraídos basicamente de Paulo. A justificação é um ato judicial de Deus, perdoando pecadores (o iníquo e o descrente, Rm 4.5; 3.9-24), aceitandoos como justos e, assim, tornando-os perm anentem ente acei­ tos em seu antes alheio relacionamento com Ele. Esta senten­ ça justificadora é o dom da justiça de Deus (Rm 5.15-17), sua concessão de um status de aceitação pela intermediação de Jesus (2 Co 5.21). O julgam ento de justificação de Deus parece estranho, porquanto considerar justos os pecadores pode parecer precisamente a ação injusta da parte do juiz, que a própria lei de Deus proibiu (Dt 25.1; Pv 17.15). No entanto, trata-se realmente de um julgam ento justo, porque sua base é a justiça de Jesus Cristo, que, como “o último Adão” (1 Co 15.45), nosso representante agindo em nosso favor, obedeceu à lei 154


que nos sujeitava e suportou o castigo pela ilegalidade que era nossa dívida e, assim (para usar um termo técnico medieval), “m ereceu” nossa justificação. Portanto, somos justificados legitimamente, com base na justiça feita (Rm 3.25,26), e a justiça de Cristo foi levada a nosso crédito (Rm 5.18,19). A decisão justificadora de Deus é o julgam ento do Ultimo Dia — declarando onde deveremos passar a eternidade — antecipado e pronunciado nos tempos atuais. E o último julgam ento que indicará definitivamente nosso destino; Deus jamais revogará sua sentença, embora Satanás possa apelar contra seu veredito (Zc 3.1; Ap 12.10; Rm 8.33,34). Ser justificado é estar eternam ente seguro (Rm 5.1-5; 8.30). O meio necessário, ou causa instrumental, da justificação é a fé pessoal em Jesus Cristo como Salvador crucificado e Senhor ressurreto (Rm 4.23-25; 10.8-13). Isto porque a base meritória de nossa justificação está inteiram ente em Cristo. A medida que nos entregamos pela fé a Jesus, Ele nos concede seu dom de justiça, de sorte que, no mesmo ato de “fechar com Jesus”, como os velhos mestres Reformados diriam, recebemos o perdão divino e a aceitação, que, de outra forma, não poderíamos obter (G1 2.15,16; 3.24). A teologia oficial católica rom ana inclui a santificação na definição da justificação, que ela considera mais um processo do que um evento decisivo isolado, e afirma que, ao mesmo tempo que a fé contribui para nossa aceitação diante de Deus, nossas obras de caridade e mérito também contribuem. Roma considera o batismo, visto como um canal de graça santificadora, como a causa instrumental da justificação, e o sacra­ m ento da penitência, por meio do qual um coerente mérito é alcançado por meio das obras de caridade, como causa suple­ m entar restauradora, sempre que a graça da aceitação inicial de Deus é perdida em razão de pecado mortal. Mérito coeren­ te, distinto de condigno, significa mérito que é apropriado, em bora não absolutam ente necessário, para que Deus recompense com um novo fluxo de graça santificadora. Pela visão católica romana, portanto, os crentes se salvam com a ajuda da graça que flui de Cristo por interm édio do sistema 155


sacramental da igreja, e nesta vida nenhum sentido de confianรงa na graรงa de Deus pode geralmente ser tido. Tal ensino estรก muito distante do ensino de Paulo.

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ADOÇÃO

DEUS FAZ DE SEU POVO SEUS FILHOS Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei... a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. GÁLATAS 4.4,5 |

Paulo ensina que a dádiva da justificação (isto é, a presente aceitação por Deus como o Juiz do m undo) traz consigo o status de filiação por adoção (isto é, perm a­ nente intimidade com Deus como seu Pai celestial, G1 3.26; 4.4-7). No m undo de Paulo, a adoção era geralmente de jovens homens adultos de bom caráter para que se tornassem herdeiros e mantivessem o nome de família de um rico sem filho. Paulo, contudo, proclama a adoção graciosa de pessoas de mau caráter para se tornarem “herdeiras de Deus e coherdeiras com Cristo” (Rm 8.17). A justificação é a bênção básica, sobre a qual a adoção se fundamenta; a adoção é a bênção do coroamento, para a qual a justificação abre o caminho. A adoção do status pertence a todos os que recebem a Cristo (Jo 1.12). O status de adotados dos crentes significa que em Cristo e por meio dele Deus os ama como ama seu Filho unigénito e partilhará com todos eles a glória que é agora de Cristo (Rm 8.17,38,39). Aqui e agora, os crentes estão sob o cuidado e disciplina paternal de Deus (Mt 6.26; Hb 12.5-11), e são dirigidos, especialmente por Jesus, a viver sua vida integral à luz do conhecimento de que Deus é seu Pai no céu. Eles devem orar a Ele nesta condição (Mt 6.5-13), imitá-lo nesta condição (Mt 5.44-48; 6.12,14,15; 157


18.21-35; Ef 4.32-5.2), e confiar nele nesta condição (Mt 6.2534), expressando assim o instinto filial que o Espírito Santo im plantou neles (Rm 8.15-17; G1 4.6). A adoção e a regeneração acompanham uma a outra como dois aspectos da salvação que Cristo traz (Jo 1.12,13), mas devem ser distinguidas. Adoção é a concessão de um relacio­ namento, enquanto regeneração é a transformação de nossa natureza moral. Entretanto, a ligação é evidente; Deus quer que seus filhos, a quem ama, tenham seu caráter, e ajam de acordo com esta conformidade.

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SANTIFICAÇÃO

O CRISTÃO CRESCE EM GRAÇA Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? ... Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados, em o nome do SenhorJesus Cristo e no Espírito de nosso Deus. 1 CORÍNTIOS 6.9,11 Santificação, diz o Breve Catecismo de Westminster (P. 35), é “a obra da livre graça de Deus, pela qual somos renovados em todo o nosso ser, segundo a imagem de Deus, e habilitados a m orrer cada vez mais para o pecado e a viver para a retidão”. O conceito não é de ser o pecado totalmente erradicado (o que seria exigir demasiado) ou m eram ente contrabalançado (o que seria dizer muito pouco), mas de uma mudança do caráter divinamente foijado, libertando-nos de hábitos pecaminosos e form ando em nós afeições, disposições e virtudes cristãs. A santificação é uma transformação progressiva dentro de um a consagração que se mantém, e que produz um a justiça real emoldurada pela santidade relacional. A santificação relacional, o estado de estar perm anentem ente separado para Deus, em ana da cruz, onde Deus por meio de Cristo nos com­ prou e reivindicou para si mesmo (At 20.28; 26.18; Hb 10.10). A renovação moral, pela qual estamos m udando de modo crescente em relação àquilo que fomos, decorre da agência do Espírito Santo em nosso coração (Rm 8.13; 12.1,2; 1 Co 6.11,19,20; 2 Co 3.18; Ef 4.22-24; 1 Ts 5.23; 2 Ts 2.13; Hb 13.20,21). Deus chama seus filhos para a santidade e dá-lhes graciosamente o que Ele ordena (1 Ts 4.4; 5.23).

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Regeneração é nascimento; santificação é crescimento. Na regeneração, Deus implanta desejos onde antes não havia: desejo de Deus, de santidade, e de santificação e glorificação do nome de Deus neste mundo; desejo de orar, adorar, amar, servir, honrar e agradar a Deus; desejo de demonstrar amor e prestar benefício aos outros. Na santificação, o Espírito Santo “efetua em vós tanto o querer como o realizar”, de acordo com o propósito de Deus; o que Ele faz é inspirar a “desenvol­ ver a vossa salvação” (isto é, expressá-la em ações) pela realização desses novos desejos (Fp 2.12,13). Os cristãos se tornam cada vez mais identificados com Cristo à medida que o perfil moral de Jesus (o “fruto do Espírito”) se forma pro­ gressivamente neles (2 Co 3.18; G\ 4.19; 5.22-25). O uso que Paulo faz da palavra glória em 2 Coríntios 3.18 mostra que para ele santificação do caráter é glorificação iniciada. Depois, a transformação física que nos dá um corpo como o de Cristo, o qual se identificará com nosso caráter totalmente transfor­ mado e será um meio perfeito de expressá-lo, será completada a glorificação (Fp 3.20,21; 1 Co 15.49-53). A regeneração foi um ato monergista mom entâneo para despertar os espiritualmente mortos. Como tal, foi uma obra exclusiva de Deus. A santificação, contudo, é em certo sentido sinérgica — é um processo cooperativo em progressão, no qual as pessoas regeneradas, vivas para Deus e libertas do domínio do pecado (Rm 6.11,14-18), são solicitadas a mani­ festar sólida obediência. O m étodo de Deus para a santifica­ ção não é nem ativismo (atividade autoconfiante) nem apatia (passividade confiante em Deus), mas sim esforço dependente de Deus (2 Co 7.1; Fp 3.10-14; Hb 12.14). Sabendo que, se Cristo não nos tornar aptos, nada poderemos fazer, moral­ mente falando, como deveríamos, e que Ele está pronto a nos fortalecer em tudo o que temos por fazer (Fp 4.13), perm ane­ cemos em Cristo, suplicando constantemente sua ajuda, e a receberemos (Cl 1.11; 1 Tm 1.12; 2 Tm 1.7; 2.1). O padrão para o qual se dirige a obra divina de santificar os santos é sua própria lei moral revelada, como foi exposta e moldada pelo próprio Cristo. O amor, humildade e paciência 160


de Cristo sob pressão devem ser conscientemente imitados (Ef 5.2; Fp 2.5-11; 1 Pe 2.21), pois um espírito e atitude cristãos são parte do que a guarda da lei envolve. Os crentes encontram dentro de si mesmos desejos que se opõem. O Espírito mantém seus desejos e propósitos regene­ rados; seus instintos adâmicos degenerados (a “carne”), que, embora destronados, não estão ainda destruídos, constante­ m ente os desviam de executar a vontade de Deus e os fasci­ nam ao longo dos caminhos que levam à morte (G1 5.16,17; Tg 1.14,15). Para esclarecer a relação entre a lei e o pecado, Paulo analisa de forma pessoal e dramática a sensação de impotência para a completa guarda da lei, e a escravização ao com portam ento reprovável, que a tensão Espírito-carne produz (Rm 7.14-25). Este conflito e frustração estarão com os cristãos enquanto eles estiverem no corpo. Entretanto, vigian­ do e orando contra a tentação, e cultivando virtudes opostas, eles podem com a ajuda do Espírito “mortificar” (isto é, exaurir a vida, enfraquecer como meio de matar) maus hábi­ tos particulares, e neste sentido m orrer cada vez mais para o pecado (Rm 8.13; Cl 3.5). Eles experim entarão muitos livra­ mentos e vitórias particulares em sua infindável batalha contra o pecado, além de nunca serem expostos a tentações que são impossíveis de resistir (1 Co 10.13).

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LIBERDADE

A SALVAÇÃO TRAZ LIBERDADE Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão. GÁLATAS 5.1 O Novo Testamento vê a salvação em Cristo como ^ libertação e a vida cristã como vida de liberdade — Cristo nos libertou para a liberdade (G1 5.1; Jo 8.32,36). A ação libertadora de Cristo não é uma questão de desenvol­ vimento sócio-político-econômico, como algumas vezes se insinua atualmente, mas diz respeito aos três pontos seguintes: Primeiro, os cristãos foram libertados da lei como sistema de salvação. Sendo justificados pela fé em Cristo, eles não mais estão sob a lei de Deus, mas debaixo de sua graça (Rm 3.19; 6.14,15; G1 3.23-25). Isto significa que sua posição perante Deus (a “paz” e o “acesso” de Rm 5.1,2) repousa totalmente no fato de terem sido aceitos e adotados em Cristo. Isto não de­ pende e jamais dependerá do que eles fazem; e nunca estará sujeito a risco pelo que eles deixarem de fazer. Eles vivem, e enquanto estiverem neste mundo viverão, não por serem perfeitos, mas por serem perdoados. Toda religião natural, portanto, é negada, porque o instinto natural do homem pecador, expresso em todas as formas de religião que o m undo já imaginou, é supor que se alcança e mantém um a relação justa com a realidade suprema (seja ela concebida como um Deus pessoal ou em outros termos) por disciplinas de observância à lei, ritual correto e ascetismo. E assim que as crenças que há no mundo preceituam a institui162


ção de sua própria justiça — a mesma coisa que Paulo viu os judeus não-crentes tentando fazer (Rm 10.3). A experiência de Paulo ensinou-lhe que esta é uma iniciativa frustrante. Nenhum desempenho hum ano é suficientemente bom, pois sempre há desejos errados no coração, além da falta de desejos retos, a despeito de quão bem-intencionados sejam os impulsos exteriores do indivíduo (Rm 7.7-11; cf. Fp 3.6), e é primeiro para o coração que Deus olha. Tudo o que a lei pode fazer é caracterizar, expor e conde­ nar o pecado que permeia nossa estrutura moral, e assim nos tornar cônscios de sua realidade, profundidade e culpa (Rm 3.19; 1 Co 15.56; G1 3.10). Portanto, a futilidade de tratar a lei como um pacto de obras, e procurar a justiça por meio dela, torna-se evidente (G1 3.10-12; 4.21-31), como a penúria de não saber o que mais fazer. Este é o jugo da lei de que Cristo nos liberta. Segundo, os cristãos foram libertados da escravidão do pecado (Jo 8.34-36; Rm 6.14-23). Eles foram regenerados de forma sobrenatural e tornados vivos para Deus m ediante a união com Cristo em sua morte e vida ressurreta (Rm 6.3-11), e isto significa que agora o desejo mais profundo de seu cora­ ção é servir a Deus pela prática da justiça (Rm 6.18,22). O domínio do pecado envolveu não somente atos constantes de desobediência, mas também uma falta constante de zelo na observância da lei, suscitando ás vezes ressentimento e ódio para com a lei. Agora, porém, sendo mudados no coração, motivados pela gratidão para a aceitação por meio da livre graça, e animados pelo Espírito Santo, eles servem “em novi­ dade de espírito e não na caducidade da letra” (Rm 7.6). Isto significa que seus esforços para obedecer são agora alegres e integrados de um a forma que não era verdadeira antes. O pecado não os governa mais. Neste sentido, também, foram libertados da escravidão. Terceiro, os cristãos foram libertados da superstição que trata a matéria e o prazer físico como intrinsicamente maus. Contra esta idéia, Paulo insiste que os cristãos são livres para desfrutar como dádivas de Deus todas as coisas criadas e os 163


prazeres que elas proporcionam (1 Tm 4.1-5), contanto somente que não transgridam a lei moral em seus prazeres ou estorvem seu próprio bem-estar ou de outrem (1 Co 6.12,13; 8.7-13). Os Reformadores reiteraram esta ênfase contra várias formas de legalismo medieval.

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LEGALISMO

AS OBRAS FEITAS EM FAVOR DE DEUS NÃO TÊM VALOR “Não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem. Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, ete.s mesmos nem com o dedo querem movê-los. Praticam, porém, todas as suas obras com, o fim de'serem vistos dos homens... ” MATEUS 23.3-5 |

O Novo Testamento vê a obediência cristã como a prática de “boas ações” (obras). Os cristãos devem ser “ricos em boas obras” (1 Tm 6.18; cf. Mt 5.16; Ef 2.10; 2 Tm 3.17; Tt 2.7,14; 3.8,14). A boa obra é a que é feita (a) segundo o modelo justo (a vontade revelada de Deus, isto é, sua lei moral); (b) de um motivo justo (o amor a Deus e aos outros, que marca o coração regenerado); (c) com um propósito justo (agradar e glorificar a Deus, honrar a Cristo, promover seu reino e beneficiar o próximo). O legalismo é uma distorção da obediência que jamais pode verdadeiramente produzir boas obras. Sua primeira falha é que ele distorce motivos e propósitos, vendo as boas obras essencialmente como meios para obter mais do favor de Deus do que se obtém no momento. Sua segunda falha é a arro­ gância. A crença de que o trabalho de alguém conquista o favor de Deus provoca desrespeito àqueles que não trabalham da mesma forma. Sua terceira falha é o desamor no sentido que seu propósito de autopromoção oprime a bondade humilde e a compaixão criativa que emanam do coração. 165


No Novo Testamento encontramos o legalismo farisaico e o judaizante. Os fariseus pensavam que sua condição de filhos de Abraão tornara possível que Deus se agradasse deles, e que sua observância diária formal da lei, levada aos mais perfeitos detalhes, tornaria isso real. Os judaizantes viam a evangeli­ zação dos gentios como uma forma de proselitismo em favor do Judaísmo; eles acreditavam que o gentio crente em Cristo devia continuar a se tornar judeu pela circuncisão e observân­ cia do calendário das festas e da lei cerimonial, e que, assim, ele obteria crescente favor de Deus. Cristo atacou os fariseus; Paulo, os judaizantes. Os fariseus eram formalistas, focalizando fundam en­ talmente a aparência da ação, negligenciando motivos e pro­ pósitos, e reduzindo a vida à guarda mecânica de regras. Eles se imaginavam guardiães fiéis da lei, embora (a) realçassem as coisas mínimas, esquecendo-se do que mais importava (Mt 23.23,24); (b) sua casuística negava o espírito e alvo da lei (Mt 15.3-9; 23.16-24); (c) eles tratavam as tradições da prática como parte da lei impositiva de Deus, obrigando, assim, as consciências naquilo que Deus os deixara livres (Mc 2.16-3.6; 7.1-8); (d) eram hipócritas, buscando em todo o tempo a aprovação dos homens (Lc 20.45-47; Mt 6.1-8; 23.2-7). Jesus foi muito severo com eles sobre estes pontos. Em Gálatas, Paulo condena a mensagem “Cristo é insufi­ ciente sem a lei” pregada pelos judaizantes, a qual obscurece e, na verdade, nega a toda suficiente graça revelada em Jesus (G1 3.1-3; 4.21; 5.2-6). Em Colossenses, ele trava uma polêmica semelhante contra a fórmula “Cristo mais a lei” para a “pleni­ tude” (isto é, a completitude espiritual: Cl 2.8-23). Qualquer mais que requeira de nós uma tomada de ação para acres­ centar algo ao que Cristo nos deu é um retorno ao legalismo e, de fato, um insulto a Cristo. Até agora, pois, antes de enriquecer nossa relação com Deus, como procura fazer, o legalismo em todas suas formas faz o oposto. Ele coloca essa relação em risco e, impedindonos de focalizar Cristo, ele enfraquece nossas almas, enquanto 166


alimenta nosso orgulho. A religi達o legalista em todas as suas formas deve ser evitada como um a praga.

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ANTINOMIANISMO

NÃO SOMOS LIVRES PARA PECAR Filhinhns, não vos deixeis enganar por ninguém; aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele [Cristo] é justo. 1 JOÃO 3.7 |

Antinomianismo, que significa ser “antilei”, é um nome aplicável a diversas opiniões que têm negado que a lei de Deus na Escritura deve controlar diretamente a vida do cristão. O antinomianismo dualístico aparece nos gnósticos he­ réticos, contra os quais Judas e Pedro escreveram (Jd 4-19; 2 Pe 2). Esta corrente considera que a salvação é somente da alma, e o comportamento do corpo é irrelevante, seja no inte­ resse de Deus ou da saúde da alma, de modo que podemos agir dissolutamente sem qualquer implicação negativa. O antinomianismo centrado no Espírito coloca tal confian­ ça na ação inspiradora do Espírito Santo a ponto de rejeitar qualquer necessidade de ensino da lei sobre como viver. A libertação da lei como meio de salvação é admitida para trazer consigo a libertação da lei como guia de conduta. Nos primei­ ros 150 anos da Reforma, esta espécie de antinomianismo ameaçava freqüentem ente, e a insistência de Paulo de que uma pessoa verdadeiramente espiritual reconhece a autori­ dade da Palavra de Deus por meio dos apóstolos de Cristo (1 Co 14.37; cf. 7.40) sugere que a igreja de Corinto obcecada pelo Espírito estava sob domínio da mesma obstinação. O antinomianismo centrado em Cristo argum enta que Deus não vê pecado nos crentes, porque eles estão em Cristo, 168


que cumpriu a lei por eles, e, portanto, o que eles fazem real­ m ente não faz nenhum a diferença, contanto que continuem crendo. Mas 1 João 1.8-2.1 (explanando 1.7) e 3.4-10 apontam para uma direção diferente, mostrando que não é possível estar em Cristo e, ao mesmo tempo, admitir o pecado como um meio de vida. O antinomianismo dispensacional sustenta que não é neces­ sário em nível algum que os crentes guardem a lei moral, considerando que já vivemos sob a dispensação da graça, não da lei. Mas Romanos 3.31 e 1 Coríntios 6.9-11, mostram clara­ m ente que a observância da lei é uma obrigação contínua dos cristãos. “Não [estou] sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo”, diz Paulo (1 Co 9.21). O antinomianismo dialético, como em Barth e Brunner, nega que a lei bíblica seja m andam ento direto de Deus e afir­ ma que as declarações imperativas da Bíblia ensejam a Palavra do Espírito, a qual, quando vem, pode ou não corresponder exatamente ao que está escrito. E evidente aqui a inadequabilidade da visão neo-ortodoxa da autoridade bíblica, que explica a inspiração da Escritura em termos da instrumentalidade da Bíblia como canal para os pronunciam entos de Deus a seu povo na atualidade. O antinomianismo situacionista diz que um motivo e inten­ ção do amor é tudo o que Deus requer agora dos cristãos, e os mandam entos do Decálogo e outras partes éticas da Escritura, por mais que sejam atribuídas diretam ente a Deus, são meras regras e métodos de amar, regras que o amor pode a qualquer mom ento rejeitar. Porém Romanos 13.8-10, texto ao qual esta visão recorre, ensina que, sem o amor como motivo, estes mandam entos específicos não podem ser cumpridos. Vem à tona, mais uma vez, uma visão inaceitavelmente fraca da Escritura. Deve ser ressaltado que a lei moral, cristalizada no Decálogo e reiterada no ensino ético de ambos Testamentos, é um a lei coerente, dada para ser um código de prática para o povo de Deus em todas as épocas. Além disto, o arrependim ento significa a decisão de, doravante, buscar a ajuda de Deus ao 169


guardar essa lei. O Espírito é dado para capacitar a obediência à lei e tornar-nos cada vez mais semelhantes a Cristo, o arqué­ tipo cum pridor da lei (Mt 5.17). Esta observância da lei é, de fato, o cumprimento de nossa natureza humana, e a Escritura não oferece nenhum a esperança de salvação para qualquer um que, seja qual for sua profissão de fé, não procura mudar do pecado para a justiça (1 Co 6.9-11; Ap 21.8).

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AMOR

O AMOR É BÁSICO NA CONDUTA CRISTÃ O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, nãio se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo suporta. 1 CORÍNTIOS 13.4-7 | O Cristianismo do Novo Testamento é essencialmente ™|"" resposta à revelação do Criador como um Deus de amor. Deus é um Ser tríplice que ama de tal maneira os hum a­ nos incrédulos que o Pai deu seu Filho, o Filho deu sua vida, e Pai e Filho juntos agora dão o Espírito para salvar os pecadores da miséria inimaginável e levá-los à glória inima­ ginável. A crença nesta maravilhosa realidade do amor divino e a sujeição a ele geram e sustentam o am or das criaturas a Deus e ao próximo, que os dois grandes mandam entos de Cristo requerem (Mt 22.35-40). Nosso am or consiste em ex­ pressar nossa gratidão pelo gracioso amor de Deus por nós, e ser moldados por ele (Ef 4.32-5.2; Jo 3.16). O selo de legitimidade da vida cristã é, pois, o amor cristão. A medida e teste do amor a Deus é a obediência sincera e completa (1 Jo 5.3; Jo 14.15,21,23); a medida e o teste do am or do nosso próximo é dar a nossa vida por eles (1 Jo 3.16; cf.Jo 15.12,13). Este am or sacrificial envolve dar-se, consumirse e empobrecer-se até o limite do bem-estar do próximo. A história contada por Jesus da bondade do samaritano para 171


com o odiado judeu permanece como sua definição-modelo do am or ao próximo (Lc 10.25-37). O amor ao próximo está caracterizado em 1 Coríntios 13.48. Sua total falta de egoísmo é comovente. O amor ao próximo busca o bem do próximo, e sua verdadeira medida é o quanto ele dá para esse fim. O amor é um princípio de ação e não de emoção. E um propósito de honrar e beneficiar a outra parte. E uma questão de dar coisas para as pessoas por pura compaixão de sua necessidade, quer sintamos ou não afeição pessoal por elas. E por seu amor ativo aos outros que os discípulos de Jesus devem ser reconhecidos (Jo 13.34,35).

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ESPERANÇA

ESPERAR É FUNDAMENTAL NA PERSPECTIVA CRISTÃ Tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança. ROMANOS 15.4 | Vivendo entre as duas vindas de Cristo, os cristãos têm I™ de olhar para o passado e para o futuro: no passado, para a manjedoura, a cruz e o túmulo vazio, por meio dos quais a salvação foi assegurada para eles; no futuro, para seu encontro com Cristo além deste mundo, sua ressurreição pessoal, e a alegria de estar com seu Salvador na glória para sempre. A devoção no Novo Testamento é consistentemente orientada para essa esperança; Cristo é “nossa esperança” (1 Tm 1.1) e servimos ao “Deus da esperança” (Rm 15.13). A própria fé é definida como “a certeza de coisas que se espe­ ram ” (Hb 11.1), e o compromisso cristão é definido como tendo de “lançar mão da esperança proposta, a qual temos por âncora da alma” (Hb 6.18,19). Quando Jesus orientou seus discípulos a ajuntar tesouros no céu, porque “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6.21), Ele estava com efeito dizendo, como Pedro diria mais tarde, “esperai inteiram ente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo” (1 Pe 1.13). Uma ética da esperança permeia o Novo Testamento. E uma ética da peregrinação: devemos ver-nos neste mundo como estrangeiros em dem anda do lar (1 Pe 2.11; Hb 11.13). E uma ética da pureza: todo aquele que realm ente espera ser 173


como Jesus quando Ele aparecer “a si mesmo se purifica... assim como ele é puro” (1 Jo 3.3). E uma ética da preparação: devemos estar prontos a deixar este m undo para um relacionamento mais íntimo com Cristo, nosso Senhor, a qual­ quer tempo em que vier a convocação (2 Co 5.6-8; Fp 1.21-24; cf. Lc 12.15-21). E uma ética da paciência: “se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos” (Rm 8.25; cf. 5.1-5, onde a palavra grega para “paciência” se traduz por “perseverança” para acentuar sua nuança de persistência obstinada em face de pressões). E é uma ética do poder: a esperança gera força e confiança, vitalizando o esforço para correr no estádio, combater o bom combate, e suportar a “leve e m om entânea tribulação” (2 Co 4.17) que ainda subsis­ te antes de irmos para o lar (Rm 8.18; 15.13; 2 Tm 4.7,8). Embora a vida cristã seja comumente marcada mais por sofrimento do que por triunfo (1 Co 4.8-13; 2 Co 4.7,18; At 14.22), nossa esperança é segura e nosso ânimo deve ser de confiança inextinguível: estamos do lado da vitória.

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INICIATIVA

O CRISTÃO VTVE PARA AGRADAR A DEUS Falamos, não para que agrademos a homens, e sim a Deus, que prova o nosso coração. 1 TESSALONICENSES 2.4 1 ^ É uma verdade familiar que todo o propósito da vida cristã deve ser glorificar a Deus. Esta é a vocação oficial do crente. Todas as coisas que dizemos e fazemos, toda nossa obediência aos mandamentos de Deus, todas as nossas rela­ ções com outros, todo o uso que fazemos dos dons, talentos e oportunidades que Deus nos dá, toda nossa paciência e perse­ verança diante de situações adversas e hostilidade humana, deve ser conduzido de tal forma para dar a Deus honra e louvor por sua bondade para com aqueles a quem Ele con­ cede seu amor (1 Co 10.31; cf. Mt 5.16; Ef 3.10; Cl 3.17). Igualmente importante é a verdade que a atividade integral de cada cristão deve ser a de agradar a Deus. Isto pode ser definido apropriadam ente como vocação pessoal do cristão. Jesus não viveu para agradar a si mesmo, nem podemos nós fazê-lo (Jo 8.29; Rm 15.1-3). Agradar a Deus em todas as coisas deve ser nossa meta (2 Co 5.9; Cl 1.10; 1 Ts 2.4; 4.1). Fé (Hb 11.5,6), louvor (SI 69.30,31), generosidade (Fp 4.18; Hb 13.16), obediência à autoridade divinamente instituída (Cl 3.20), e sinceridade no serviço cristão (2 Tm 2.4) se associam para formar o meio prescrito de fazê-lo. Deus nos capacita para este tipo de vida e tem prazer em nossa prática dela. E seu procedim ento comum pela graça soberana dar o que 175


ordena e deleitar-se com os resultados (Hb 13.21; cf. Fp 2.12,13). Por meio do chamado controlado pela vida para agradar a Deus, aprendemos o sentido preciso no qual a verdadeira piedade é relacional e criativa. Deus se relaciona com os cristãos não somente como Pai para filho, mas também como Amigo para amigo. Abraão foi chamado amigo de Deus (2 Cr 20.7; Is 41.8; Tg 2.23); Cristo chama seus discípulos de amigos (Lc 12.4; Jo 15.14). A medida da graça de Deus é que Ele faz dos pecadores amigos; a medida da piedade do cristão é que ele procura agradar o Amigo celestial, exatamente como os esposos procuram agradar um ao outro para mostrar seu amor (1 Co 7.32-35). O Cristianismo é um caso de amor, e a piedade é, em essência, uma questão de expressar amor reco­ nhecido e reverente, procurando agradar. Criatividade é parte da imagem de Deus no homem, e ela se propõe a encontrar expressão em um vigoroso estilo de vida, à medida que procuramos mostrar gratidão a Deus. O amor sempre perguntará se mais pode ser feito para agradar, e mais am or ao próximo, mais serviço às necessidades de outros, sempre será uma parte da resposta (1 Jo 3.11-18). Se nossos planos para agradar a Deus envolvem risco, devemos lembrar que a parábola de Jesus sobre os talentos elogia aqueles que arriscaram seu dinheiro no mercado e condena o que pratica uma ação tímida (Mt 25.14-30).

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ORAÇÃO

OS CRISTÃOS PRATICAM A COMUNHÃO COM DEUS Então ele os ensinou: “Quando orardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; o pão nosso cotidiano dá-nos de dia em dia; perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo o que nos deve. E não nos deixes cair em tentação. LUCAS 11.2-4 |

Deus nos fez e nos redimiu para a com unhão com Ele, e isto é o que diz a oração. Deus nos fala no conteúdo da Bíblia e por meio dele, o qual conteúdo o Espírito Santo esclarece e aplica a nós, e nos capacita a compreender. Então, falamos com Deus sobre Ele, sobre nós mesmos, e sobre as pessoas no seu mundo, adaptando o que dizemos como res­ posta ao que Ele disse. Esta forma única de conversação a dois continua enquanto dura a vida. A Bíblia ensina e exemplifica a oração como uma atividade quádrupla, a ser desem penhada pelo povo de Deus individual­ mente, tanto em privacidade (Mt 6.5-8) como em companhia de outros (At 1.14; 4.24). A adoração e o louvor devem ser expressados; deve ser feita a confissão contrita do pecado e buscado o perdão; devem ser oferecidos agradecimentos por benefícios recebidos; e petições e súplicas por nós e por outros devem ser proferidas. A Oração do Senhor (Mt 6.9-13; Lc 11.2-4) incorpora adoração, petição e confissão; o livro dos Salmos contém modelos de todos os quatro elementos da oração. 177


A petição, na qual as pessoas, orando humildemente, reconhecem sua necessidade e se mostram confiantemente dependentes de Deus para satisfazê-la, graças aos recursos divinos de sabedoria e bondade soberanas, é a dimensão de oração mais freqüentem ente ressaltada na Bíblia (p. ex., Gn 18.16-33; Êx 32.31-33.17; Ed 9.5-15; Ne 1.5-11; 4.4,5,9; 6.9,14; Dn 9.4-19; Jo 17; Tg 5.16-18; Mt 7.7-1 l;Jo 16.23, 24; Ef 6.18-20; 1 Jo 5.14-16). A petição, ao lado de outros exemplos de oração, deve comumente ser dirigida ao Pai, como mostra a Oração do Senhor, mas Cristo pode ser invocado para salva­ ção e cura, como nos dias de sua vida na carne (Rm 10.8-13; 2 Co 12.7-9), e também o Espírito Santo, para graça e paz (Ap 1.4). Não é errado apresentar petições a Deus como triúno ou requerer qualquer bênção espiritual de qualquer uma das três Pessoas, mas é sábio seguir o modelo do Novo Testamento. Jesus ensina que a petição ao Pai deve ser feita em seu nome (Jo 14.13,14; 15.16; 16.23,24). Isto significa invocar sua mediação, como aquele que assegura nosso acesso ao Pai, e contando com seu apoio, como nosso intercessor na presença do Pai. Contudo, podemos somente contar com seu apoio quando o que pedimos se harmoniza com a vontade revelada de Deus (1 Jo 5.14) e os nossos próprios motivos ao pedir são justos (Tg 4.3). Jesus ensina que podemos apropriadam ente pressionar a Deus com fervorosa persistência quando lhe apresentamos nossas necessidades (Lc 11.5-13; 18.1-8), e que Ele responderá a tal oração em termos positivos. Mas devemos lembrar que Deus, que sabe o que é m elhor de uma forma que não sabe­ mos, pode negar nossos pedidos específicos quanto ao modo como as necessidades devem ser satisfeitas. Se Ele o faz, entre­ tanto, é porque tem alguma coisa m elhor a dar do que o que pedimos, como foi o caso em que Cristo negou a Paulo a cura de seu espinho na carne (2 Co 12.7-9). Dizer “seja feita tua vontade”, sujeitando sua própria preferência expressa à sabedoria do Pai, como Jesus fez no Getsêmani (Mt 26.39-44), é a maneira mais explícita de manifestar a fé na excelência do que Deus planejou. 178


Não há nenhum a tensão ou inconsistência entre o ensino da Escritura a respeito da predeterm inação soberana de Deus para todas as coisas e a eficácia da oração. Deus predeterm ina os meios, bem como o fim, e nossa oração é predeterm inada como o meio pelo qual Ele faz com que se realize sua sobe­ rana vontade. Os cristãos que oram a Deus sinceramente, com reverência e humildade, com um senso de privilegio e um coração puro (isto é, purificado, penitente), encontrarão em si mesmos um instinto filial inspirado pelo Espírito que estimula a oração ao Pai celestial e confia nele (G1 4.6; Rm 8.15), e um desejo de orar que ultrapassa sua incerteza quanto aos pensamentos que devem expressar (Rm 8.26,27). A realidade misteriosa da ajuda do Espírito Santo na oração somente se torna conhecida daqueles que realmente oram.

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JURAMENTOS E VOTOS

OS CRISTÃOS DEVEM SER VERDADEIROS Então, responderam: “Restituir-lhes-emos, e nada lhes pediremos; faremos assim como dizes. ” Então chamei os sacerdotes e os fiz jurar que fariam segundo prometeram. Também sacudi o meu regaço, e disse: “Assim, o faça Deus, sacuda de sua casa e de seu trabalho a todo homem que não cumprir esta promessa; seja sacudido e despojado. ” E toda a congregação respondeu: “Amém!”E louvaram ao SENHOR; e o povo fez segundo a sua promessa. NEEMIAS 5.12,13 A verdade nos relacionamentos, especialmente entre cristãos, é ordenada por Deus (Ef 4.25; Cl 3.9), e dizer a verdade é especificado como parte integrante da religiosida­ de (SI 15.1-3). Deus proíbe a mentira, a fraude e a informação falsa (Ex 20.16; Lv 19.11). Jesus atribui a origem da m entira a Satanás (Jo 8.44), e aqueles que, como Satanás, mentem para enganar e prejudicar outras pessoas são condenados na Escri­ tura como ímpios de forma detestável e horrível (SI 5.9; 12.14; 52.2-5; Jr 9.3-6; Ap 22.15). Um meio de respeitar a digni­ dade de nosso próximo, que traz em si a imagem de Deus, é admitir que ele ou ela tem direito à verdade. O ato de dizer a verdade mostra apropriadam ente respeito aos fatos, ao próximo e a Deus, tornando-se assim um elemento fundam en­ tal na verdadeira religião e no verdadeiro amor ao próximo. Expondo o nono mandamento, a proibição divina do falso testemunho (Ex 20.16), em termos do princípio de que o ne­ gativo implica o positivo (isto é, o m andam ento requer tudo o

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que é necessário para evitar o que proíbe), diz o Catecismo Maior de Westminster (P. 144): Os deveres exigidos no nono mandamento são conservar e promover a verdade entre os homens e a, boa reputação do próximo, assim como a nossa; manter e defender publicamente a verdade e dizê-la sincera, livre, clara e plenamente do coração, e em questões de julgamento e justiça e em, todas as mais coisas, quaisquer que, sejam, dizer a verdade, e só a, verdade.

Juramentos são declarações solenes que envolvem Deus como uma testemunha das declarações e promessas de uma pessoa, sendo Ele invocado para punir aquele que estiver mentindo. A Escritura aprova o juram ento, quando apro­ priado, em ocasiões solenes (Gn 24.1-9; Ed 10.5; Ne 5.12; cf. 2 Co 1.23; Hb 6.13-17), embora no tempo da Reforma os anabatistas tenham declinado dessa prática como parte de sua recusa de envolvimento na vida secular. Eles se apoiavam na condenação que Jesus proferiu contra os juram entos maqui­ nados e destinados a ludibriar, como sendo uma rejeição do juram ento tomado como tal, e não como uma disposição de falar honestamente e uma advertência contra a tentação de usar palavras que dão uma falsa impressão, com manipulação e exploração do propósito real da pessoa (Mt 5.33-37; cf. Tg 5.12). Os votos a Deus são o equivalente dcvocional dos jura­ mentos e devem ser tratados com igual seriedade (Dt 21.23; Ec 5.4-6). O que a pessoa jura fazer, ou faz um voto de cum­ prir, deve ser honrado a todo custo (SI 15.4; cf. Js 9.15-18). Deus requer que tomemos seriamente não somente suas pala­ vras, mas também as nossas. Contudo, “ninguém deve prom e­ ter fazer coisa alguma que seja proibida na palavra de Deus ou que embarace o cumprimento cle qualquer dever nela orde­ nado” (Confissão de Westminster, XXII.7).

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O REINO DE DEUS

OS CRISTÃOS DEVEM MANIFESTAR A VIDA DO REINO Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: “Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: ‘Ei-lo aqui! ’ ou: ‘L á está!’Porque o reino de Deus está dentro de vós. ” LUCAS 17.20,21 ^ O tema do reino de Deus passa por ambos os Testa| mentos, focalizando o propósito de Deus para a história do mundo. Nos tempos do Velho Testamento, Deus declarou que exerceria seu reinado (sua soberania, Dn 4.34,35), estabe­ lecendo seu reino (seu governo ou reinado sobre a vida e circunstâncias das pessoas) por meio de seu rei escolhido (o Messias davídico, Is 9.6,7), em uma idade de ouro de bênçãos. Esse reino veio com Jesus, o Messias, como uma realidade rela­ cional universal, existindo onde quer que o senhorio de Jesus seja reconhecido com arrependim ento, fé e nova obediência. Jesus, o soberano designado, ungido pelo Espírito e cheio do Espírito (Lc 3.21,22; 4.1,14,18-21,32-36,41), morreu, ressusci­ tou, ascendeu c está agora entronizado no céu como gover­ nador sobre todas as coisas (Mt 28.18; Cl 1.13), Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 17.14; 19.16). A idade de ouro de bênçãos é uma era de benefício espiritual atual (salvação do pecado e comunhão com Deus), que conduz a um estado futuro de pura alegria num universo reconstruído. O reino é presente em seus primórdios, embora seja futuro em sua plenitude; em um sentido, ele já está aqui, mas, no sentido 182


mais rico, ele está ainda por vir (Lc 11.20; 16.16; 17.21; 22.16,18,29,30). O reino veio não somente como misericórdia, mas também como julgam ento, exatamente como João Batista, seu precur­ sor, disse que seria (Mt 3.1-12). Aqueles que obedientem ente receberam a Palavra de Jesus e puseram seu destino em suas mãos, encontraram misericórdia, ao passo que a liderança judaica, que não o fez, foi julgada. Estritamente falando, os líderes judaicos eram autojuízes, pois decidiram viver em trevas, afastando-se do Salvador (Jo 3.17-20). A tarefa da igreja é fazer visível o reino invisível por meio da vida e testemunho de cristãos fiéis. O evangelho de Cristo ainda é o evangelho do reino (Mt 4.23; 24.14; At 20.25; 28.23,31), as boas novas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo por meio do acesso a um relacionamento de discípulo com o Senhor vivo (Rm 14.17). A igreja deve fazer com que sua mensagem seja crível por meio de sua manifestação da realidade da vida no reino. A vinda do reino significou um novo estágio no programa redentor-histórico de Deus. O Messias chegou, redimiu e retirou-se para seu reino com a promessa de que viria novamente. Tudo o que era típico, temporário e imperfeito nas disposições dadas por Deus para a comunhão de Israel com Ele, tornou-se uma coisa do passado. O Israel de Deus, semente de Abraão, foi redefinido como o grupo dos crentes em Jesus (G13.16,26-29). O Espírito foi derramado e um novo modo de vida, a saber, a vida em Cristo e com Cristo, tomouse uma realidade neste mundo. Assim, o novo intemacionalismo da comunhão da igreja e a evangelização global foi instaurada (Ef 2.1118; 3.6,14,15; Ap 5.9,10; 7.9; Mt 28.19,20; Cl 1.28,29). Embora essas mudanças tivessem sido grandes, nenhuma delas significou que um novo conjunto de padrões morais tenha emergido, como é algumas vezes admitido. A lei moral para os cristãos, a lei do atual reino de Deus, é a lei que está nos Dez Mandamentos e nos profetas, agora aplicada à nova situação. Jesus não aboliu a lei, mas tão-somente completou seu sentido (Mt 5.17-48). 183


APÓSTOLOS

OS REPRESENTANTES DE JESUS EXERCERAM SUA AUTORIDADE E os lançaram em sortes, vindo a sorte a recair sobre Malias, sendo-Uie, então, votado lugar com os onze apóstolos. ATOS 1.26 | Embora os Evangelhos chamem as mesmas pessoas de | “discípulos” e “apóstolos” (Mc 3.7,14,20), os termos não são sinônimos. Discípulo quer dizer “aluno, aprendiz”; apóstolo significa “emissário, representante”, no sentido da pessoa enviada com a plena autoridade de quem o enviou. Os “doze apóstolos do Cordeiro” (Ap 21.14), distintos dos apóstolos (“representantes”) das igrejas (2 Co 8.23) e dos restantes discí­ pulos de Jesus, foram escolhidos e enviados por Jesus (Mc 3.14), do mesmo modo que o próprio Jesus, “o apóstolo... da nossa confissão” (Hb 3.1), foi escolhido e enviado pelo Pai (1 Pe 1.20). Assim como rejeitar Jesus é rejeitar o Pai, assim também rejeitar os apóstolos é rejeitar Jesus (Lc 10.16). O Novo Testamento mostra os apóstolos agindo como evangelistas, formadores de igrejas (no sentido de fundadores de comunidades), e pastores, tal como Jesus havia funcionado nestes três papéis durante seu ministério terrestre. Tal como Jesus reivindicou a autoridade divina para suas palavras (Jo 12.49,50; 14.24), assim também os apóstolos reivindicaram a autoridade divina de Cristo para as suas (1 Ts 2.13; 2 Ts 3.6; cf. 1 Co 2.12,13; 14.37). Atos 1.15-26 mostra-nos a igreja antes do Pentecoste pedin­ do a Cristo em oração que escolhesse, por meio de sorteio (entre dois candidatos) o sucessor de Judas. Se estavam certos em fazê-lo, e Paulo seria então o décimo terceiro apóstolo de 184


Cristo, ou se Paulo era o substituto de Judas pretendido por Cristo, sendo a escolha de Matias um equívoco, não está claro em Atos; o próprio Lucas pode não ter sabido. Paulo, o “após­ tolo dos gentios” (Rm 11.13; Cl 2.8), que se anuncia nas pala­ vras de abertura da maioria de suas cartas, insistia no fato de que, por ter visto Cristo na estrada de Damasco e ter sido comissionado por Ele (At 26.16-18), era uma testem unha da ressurreição de Jesus (que um apóstolo devia ser, At 1.21,22; 10.41,42) tão válida como foram os outros. Tiago, Pedro e João aceitaram Paulo na companhia apostólica (Cl 2.9), e Deus confirmou seu status por meio dos sinais de um apóstolo (milagres e manifestações, 2 Co 12.12; Hb 2.3,4) e pela fecundidade de seu ministério (1 Co 9.2). Os apóstolos eram agentes das verdades da revelação de Deus, as quais se tornariam a regra de fé e vida. Como tais, e mediante a sua nomeação por Cristo como seus represen­ tantes autorizados (2 Co 20.8; 13.10), os apóstolos exerceram uma autoridade única e funcional na igreja nascente. Não há apóstolos hoje, embora alguns cristãos exerçam ministérios que são, em certos aspectos, de estilo apostólico. Nenhum a revelação canônica nova está sendo dada presentem ente; a autoridade do ensino apostólico reside nas Escrituras canôni­ cas, das quais os próprios escritos dos apóstolos são a essência e a chave. A ausência de revelação nova, contudo, não coloca a igreja contem porânea em qualquer desvantagem em relação à igreja dos dias apostólicos, pois o Espírito Santo interpreta c aplica continuamente essas Escrituras para o povo de Deus.

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IGREJA

DEUS ESTABELECE SEU POVO EM UMA NOVA COMUNIDADE Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a fjedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. EFÉSIOS 2.19-22 | A igreja (grego: ecclesia, significando “assembléia”) | existe em, por meio de e por causa de Jesus Cristo. Neste sentido, é uma realidade distintiva do Novo Testamento. Todavia é, ao mesmo tempo, uma continuação — por meio de uma nova fase da história redentiva — de Israel, a semente de Abraão, povo da aliança com Deus nos tempos do Velho Testamento. As diferenças entre a igreja e Israel estão enrai­ zadas na novidade da aliança, pela qual Deus e seu povo estão ligados um ao outro. A nova aliança sob a qual a igreja vive (1 Co 11.25; Hb 8.7-13) é uma nova forma de relação mediante a qual Deus diz a uma comunidade escolhida: “Tomar-vos-ei por meu povo e serei vosso Deus” (Ex 6.7; Jr 31.33). Tanto a continuidade como a discontinuidade entre Israel e a igreja reflete esta mudança na forma da aliança, que teve lugar na vinda de Cristo. As novas características da nova aliança são as seguintes: Primeiro, os sacerdotes, os sacrifícios e o santuário do Velho Testamento são substituídos pela mediação de Jesus, o Deus186


homem crucificado, ressurgido e reinante (Hb 1-10), em quem os crentes encontram agora sua identidade como semente de Abraão e povo de Deus (G1 3.29; 1 Pe 2.4-10). Segundo, o exclusivismo étnico da velha aliança (Dt 7.6; SI 147.19,20) é substituído pela inclusão em Cristo, em termos iguais, de todos os crentes de todas as nações (Ef 2-3; Ap 5.9,10). Terceiro, o Espírito é derram ado tanto sobre cada cristão como sobre a igreja, de modo que a com unhão com Cristo (1 Jo 1.3), ministério de Cristo (Jo 12.32; 14.18; Ef 2.17), ante­ gozo do céu (2 Co 1.22; Ef 1.14) tornam-se realidades da expe­ riência eclesiástica. A descrença da maioria dos judeus (Rm 9-11) levou a uma situação explanada por Paulo como corte feito por Deus dos ramos naturais de sua oliveira (a comunidade histórica da aliança), substituídos por rebentos de oliveira brava (Rm 11.17-24). O caráter predom inantem ente gentio da igreja se deve não aos termos da nova aliança, mas à rejeição judaica deles, e Paulo ensinou que um dia isto será m udado (Rm 11.15,23-31). O Novo Testamento define a igreja em termos do cumpri­ mento das esperanças e modelos do Velho Testamento por meio de uma relação com todas as três Pessoas da Divindade, efetuada pelo ministério mediador de Jesus Cristo. A igreja é vista como a família e rebanho de Deus (Ef 2.18; 3.15; 4.6; Jo 10.16; 1 Pe 5.2-4); seu Israel (G1 6.16); o coipo e noiva de Cristo (Ef 1.22,23; 5.25-28; Ap 19.7; 21.2,9-27); e o templo do Espírito Santo (1 Co 3.16; cf. Ef 2.19-22). Os que estão na igreja são chamados “eleitos” (escolhidos), “santos” (consagra­ dos, separados para Deus), e “irmãos” (filhos adotivos de Deus). Essencialmente, a igreja era, é e sempre será uma comuni­ dade adoradora única, reunida perm anentem ente no verda­ deiro santuário, que é ajerusalém celestial (G1 4.26; Hb 12.2224), o lugar da presença de Deus. Aqui, todos os que estão vivos em Cristo, os vivos fisicamente e os mortos fisicamente (isto é, a igreja militante com a igreja triunfante), adoram 187


continuamente. No mundo, porém, esta igreja aparece na forma de congregações locais, cada qual chamada a exercer o papel de um microcosmo (uma amostra representativa em pequena escala) da igreja como um todo. Isto explica como, para Paulo, a única igreja universal é o corpo de Cristo (1 Co 12.12-26; Ef 1.22,23; 3.6; 4.4), e assim também a congregação local (1 Co 12.27). E comum caracterizar a igreja na terra como “una” (porque assim ela é em Cristo, como mostra Ef 4.3-6, a despeito do grande núm ero de igrejas locais e agremiações denominacionais), “santa” (porque é consagrada a Deus corporativamente, como o é cada cristão individualmente, Ef 2.21), “católica” (porque é universal em extensão e procura deter a plenitude da fé), e “apostólica” (porque foi fundada sobre o ensino dos apóstolos, Ef 2.20). Todas as quatro qualidades estão ilus­ tradas em Efésios 2.19-22. Há uma distinção que deve ser estabelecida entre a igreja como nós, humanos, a vemos e como somente Deus a vê. E a distinção histórica entre a “igreja visível” e a “igreja invisível”. Invisível significa não que não possamos ver o sinal de sua presença, mas que não podemos saber (como Deus, que lê os corações, sabe, 2 Tm 2.19) quais dos que são batizados, mem­ bros professos da igreja como instituição organizada, são interiorm ente regenerados e, assim, pertencem à igreja como comunidade espiritual de pecadores que amam seu Salvador. Jesus ensinou que na igreja organizada haveria sempre pes­ soas que pensariam ser cristãos e passariam por cristãos, alguns certamente tornando-se ministros, mas que não foram renovados no coração e, portanto, seriam expostos e rejeita­ dos no Juízo iMi 7.15-27; 13.24-30,36-43,47-50; 25.1-46). A distinção “visível-invisível” é traçada para que se tenha isto em consideração. Não porque haja duas igrejas, mas porque a comunidade visível comumente contém falsos cristãos, que Deus sabe não serem reais (e que podem saber isso por si mesmos, se o quiserem, 2 Co 13.5). O Novo Testamento admite que todos os cristãos desejam ter comunhão na vida de uma igreja local, reunindo-se para 188


adorar (Hb 10.25), aceitando sua orientação e correção (Mt 18.15-20; G1 6.1), e participando de seu trabalho de testemunhar. Os cristãos desobedecem a Deus e se em pobre­ cem ao se recusarem a unir-se a outros crentes, quando há uma congregação local à qual podem pertencer. Deus não prescreve para os cristãos a adoração segundo a forma minuciosa dos tempos do Velho Testamento, mas o Novo Testamento mostra claramente quais são os ingredien­ tes da adoração cristã comunitária, a saber, louvor (“salmos, hinos e cânticos espirituais”, Ef 5.19), oração e pregação, com administração regular da Ceia do Senhor (At 20.7-11). Cantar louvores a Deus era evidentemente uma grande coisa na igreja apostólica, como tem sido em todos os movimentos de êxtase espiritual desde então: Paulo e Silas, ao lado de sua oração (em voz alta), cantaram hinos na prisão de Filipos (At 16.25), e o Novo Testamento contém um bom núm ero do que parece ser fragmentos de hinos (Ef 5.14; Fp 2.6-11; 1 Tm 3.16; e outros), enquanto “novos cânticos” do Apocalipse são tanto numerosos como exuberantes, na verdade extáticos (Ap 4.8,11; 5.9,10,12,13; 7.10,12; 11.15,17,18; 12.10-12; 15.3,4; 19.1-8; 21.3,4). Qualquer igreja local que esteja espiritualmen­ te viva tomará, sem dúvida, muito seriamente seus cânticos, orações e pregações, e será zelosa destas três partes do culto.

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PALAVRA E SACRAMENTO

COMO IDENTIFICAR UMA IGREJA GENUÍNA ... a igreja em, Efeso... a igreja em Esmirna... a igreja em Pérgamo... a igreja em Tiatira ... a igreja em Sardes... a igreja em Filadélfia... a igreja em Laodicéia... APOCALIPSE 2.1,8,12,18; 3.1,7,14 | Cada igreja local é uma projeção da igreja universal una | e incorpora a natureza daquela igreja como família de Deus regenerada, pastoreio do corpo de Cristo e comunidade sustentada pelo Espírito Santo. O m undo contém igrejas de estilo próprio com credenciais duvidosas ou falsas (por exem­ plo, as igrejas unitaristas e a igreja mórmom, ambas as quais negam a Trindade). Além disso, congregações que uma vez mantiveram a fé de forma inequívoca se desviaram a tal ponto que é difícil saber se ainda são igrejas. Portanto, é necessário discernimento. Quando se opuseram ao papado e se separa­ ram da igreja católica romana, os Reformadores tiveram de determ inar as marcas da verdadeira igreja. Encontraram na Escritura a resposta em termos de dois critérios: 1. A pregação fiel da Palavra de Deus. Isto significa que o grupo em questão ensina pela Escritura os pontos essenciais do evangelho cristão. Negações da Trindade, da divindade de Cristo, da expiação dos pecados e da justificação pela fé, por exemplo, associam grupos contemporâneos anômalos com os separatistas docetas, cujas negações da Encarnação e da 190


Expiação (1 Jo 4.1-3) levaram João a dizer: “Eles saíram de nosso meio, entretanto não eram dos nossos” (1 Jo 2.19). 2. O uso correto dos sacramentos. Isto significa que o batismo e a Ceia do Senhor são vistos e explanados na proclamação do evangelho para evocar, confirmar e fortalecer a fé em Cristo. Superstições que suprimem a fé, transformando os sacra­ mentos em ritos mágicos, são intoleráveis. Tais superstições chocam-se com a identidade da igreja de uma forma radical, como faz qualquer outra coisa que obstrua a fé em Cristo. A recepção na igreja visível é parte do que significa ser batizado; a confirmação do lugar da pessoa nela é parte do que significa a comunhão na Ceia do Senhor. O uso correto dos sacra­ mentos envolve um elem ento da disciplina da igreja, pela qual as profissões de fé são testadas e a conduta em público, examinada. De modo ideal, uma congregação cristã exibe outras marcas de sua identidade, ao lado dessas duas mínimas. Lutero espe­ cificou as chaves da disciplina (Mt 16.19), um ministro autori­ zado (At 14.23; 20.28), culto público (Hb 10.25), e sofrimento sob a cruz (At 14.22; 20.29). As igrejas Reformadas especifica­ ram um sistema de funcionam ento da disciplina e falaram da disciplina como um terceiro critério ou marca da igreja visível (Tt 1.13; 2.15; 3.10). Hoje, os carismáticos e outros especifi­ cam o ministério ativo de cada membro com o outra marca da igreja verdadeira (Ef 4.7-16). Estas marcas adicionais não são, contudo, essenciais do mes­ mo modo que são as duas mínimas. Uma igreja que não as tem é certamente deficiente, mas não seria verdadeiro dizer que ela não é uma igreja.

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PRESBÍTEROS

OS PASTORES DEVEM CUIDAR DA IGREJA [Ele deve ser] apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder, tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que contradizem. TITO 1.9 | Os apóstolos disseram a todos os cristãos que zelassem | uns pelos outros com amor fraternal e oração (G1 6.1,2; 1 Jo 3.16-18; 5.16; Hb 12.15,16), mas também nomearam em cada congregação tutores, chamados “presbíteros” (At 14.23; Tt 1.5), os quais cuidariam do povo como os pastores cuidam das ovelhas (At 20.28-31; 1 Pe 5.1-4), guiando-os pelo exemplo (1 Pe 5.3) para longe de tudo o que é nocivo e para perto daquilo que é bom. Em virtude de seu papel, os presbíteros (grego: preshuteroi) são também chamados “pastores” (grego: poirnenes, Ef 4.11) e supervisores (grego: episkopoi, ou “bispos”, At 20.28, cf. v. 17; Tt 1.5, cf. v. 7; 1 Pe. 5.1,2), e são mencio­ nados em outros termos que expressam liderança (Rm 12.8; 1 Ts 5.12; Hb 13.7,17,24). A congregação, por seu turno, deve reconhecer a autoridade outorgada por Deus a seus líderes e seguir sua liderança (Hb 13.17). Este modelo já está presente no Velho Testamento, onde Deus é o pastor de Israel (SI 80.1) e reis, profetas, sacerdotes e presbíteros (governadores locais) são chamados a atuar como seus agentes no papel de subpastores (Nm 11.24-30; Dt 27.1; Ed 10.8; SI 77.20; Jr 23.1-4; Ez 34; Zc. 11.16,17). No Novo Testamento, Jesus o Bom Pastor (Jo 10.11-30) é também o Supremo Pastor (1 Pe 5.4), e os presbíteros são seus

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subordinados. O apóstolo Pedro chama-se a si mesmo presbítero sob Cristo (1 Pe 5.1), lembrando-se talvez de que o pastorado espiritual era a tarefa específica que Jesus lhe deu quando o restaurou para o ministério (Jo 21.15-17). Alguns presbíteros ensinam, embora nem todos (1 Tm 5.17; Tt 1.9; Hb 13.7), e Efésios 4.11-16 diz que Cristo deu à igreja “pastores-mestres” (uma classe de pessoas com um papel duplo) para equipar todas as pessoas para o serviço por meio da descoberta e desenvolvimento dos dons espirituais de cada pessoa (w. 12-16). Nos grupos de liderança congregacional imaginados pelos apóstolos, deve ter havido mestres que não eram presbíteros (2 Tm 2.2), bem como presbíteros que não ensinavam e presbíteros que tanto governavam como ensinavam. O papel pastoral dos presbíteros requer caráter cristão ama­ durecido e estável e uma vida pessoal bem ordenada (1 Tm 3.1-7; Tt 1.5-9). Sinceridade e fidelidade no ministério do presbiterato serão recompensadas (Hb 13.17; 1 Pe 5.4; cf. 1 Tm 4.7,8). As responsabilidades pastorais dos apóstolos e seus agentes, como Timóteo e Tito, eram mais amplas do que as dos pres­ bíteros congregacionais (2 Co 11.28; Tt 1.5), enquanto as responsabilidades dos diáconos congregacionais (grego: diakonoi, ou “servos”, talvez assistentes dos presbíteros, 1 Tm 3.8-13; Fp 1.1) eram mais estreitas, com responsabilidade particular pelo ministério de misericórdia (At 6.2-6; Rin 16.1,2). Toda igreja precisa de funcionários ministeriais para completar o papel do presbiterato, e deve estabelecer um m é­ todo sábio de selecioná-los e nomeá-los.

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SACRAMENTOS

CRISTO INSTITUIU DOIS SINAIS DA ALIANÇA DE DEUS [Abraão]... recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso. ROMANOS 4.11 Cristo instituiu dois ritos que seus seguidores deveriam | observar: o batismo, um rito definitivo de iniciação (Mt 28.19; G1 3.27), e a Ceia do Senhor, um rito habitual rememorativo (1 Co 11.23-26). São eles chamados “sacramentos” na igreja ocidental, “mistérios” na igreja ortodoxa oriental, e “ordenanças” por alguns protestantes que consideram as duas outras palavras maculadas por associações. A Escritura não tem nenhum a palavra classificatói ia para esses dois ritos e suas contrapartidas no Velho Testamento, ou seja, a circuncisão dos machos como um rito de iniciação (Gn 17.9-14,23-27) e a Páscoa anual como um rito recordatório (Ex 12.1-27). O ensino bíblico, contudo, permite classificá-los todos juntos como sinais e selos de uma relação pactuada com Deus. Sacramento vem da palavra latina sacramenlum, que significa um rito sagrado em geral, e em particular um juramento sa­ grado de obediência de um soldado. O estudo dos ritos em si mesmos enseja o conceito de um sacramento como uma ação ritual instituída por Cristo, na qual os sinais percebidos pelos sentidos mostram-nos a graça de Deus em Cristo e as bênçãos de sua aliança. Eles comunicam, selam e confirmam a posse daquelas bênçãos para os crentes, os quais, recebendo os sa­ cramentos de forma responsiva, dão expressão à sua fé e submissão a Deus. O efeito de receber os sacramentos é “fazer 194


uma diferença visível entre os que pertencem à igreja e o resto do mundo, e solenemente obrigá-los ao serviço de Deus em Cristo, seeundo a sua palavra” (Confissão de Westminster,

X X V II.l).

Foi um erro medieval classificar como sacramentos outros cinco ritos (confirmação, penitência, casamento, ordenação e extrema-unção). Além de não serem selos de uma relação pactuai com Deus, eles “não têm natureza semelhante aos sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor, em razão de não terem qualquer sinal visível ou cerimônia ordenada por Deus” (Trinta e Nove Artigos XXV). Os sacramentos são vistos corretam ente como meios de graça, pois Deus os faz meios para a fé, usando-os para forta­ lecer a confiança da fé em suas promessas c produzir atos de fé para receber as boas dádivas significadas. A eficácia dos sacramentos para este fim não reside na fé ou virtude do ministro, mas na fidelidade de Deus, que, tendo dado os sinais, agrada-se agora de usá-los. Sabendo disto, Cristo e os apóstolos não somente falam do sinal, como se fosse a coisa significada, mas falam também como se receber o prim eiro é o mesmo que receber a última (p. ex., Mt 26.26-28; 1 Co 10.1521; 1 Pe 3.21,22). Como a pregação da Palavra faz o evangelho audível, assim os sacramentos o fazem visível, e Deus induz a fé por ambos meios. Os sacramentos fortalecem a fé correlacionando as crenças cristãs com o testemunho de nossos sentidos. O Catecismo de Heidelberg ilustra isto em sua resposta à Pergunta 75. As palavras-chave são tão certo como. Cristo ordenou-me... comer deste pão partido e beber deste cálice em memória dele,, e com isso deu certeza: primeiro, que seu corpo foi... partido na cruz por mim, e seu sangue derramado por mim, tão certo como vejo com meus olhos o pão... partido por mim e o cálice administrado a mim; e, além disso, que, com seu corpo crucificado e seu sangue derramado, ele mesmo supre e alimenta minha alma para a vida eterna, tão certo como eu tomo e provo o pão e o cálice... que me são dados como símbolos do corpo e do sangue de Cristo. 195


Os sacramentos funcionam como meios de graça sobre o princípio que, literalmente, ver é (isto é, leva a) crer.

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BATISMO

ESTE RITO REVELA UNIÃO COM CRISTO Ou, porventura, ignorais que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte ? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. ROMANOS 6.3,4 |

O batismo cristão, que tem a forma de um a lavagem cerimonial (como o batismo pré-cristão de João), é um sinal de Deus que significa limpeza interior e remissão de pecados (At 22.16; 1 Co 6.11; Ef 5.25-27), regeneração forjada pelo Espírito e nova vida (Tt 3.5), e a presença duradoura do Espírito Santo como selo de Deus testificando e garantindo que o batizando será mantido seguro em Cristo para sempre (1 Co 12.13; Ef. 1.13,14). O batismo traz estes significados por­ que primeiro e fundamentalm ente ele significa união com Cristo em sua morte, sepultamento e ressurreição (Rm 6.3-7; Cl 2.11,12); e esta união com Cristo é a fonte de cada elem en­ to em nossa salvação (1 Jo 5.11,12). Receber o sinal com fé assegura às pessoas batizadas que a dádiva de Deus de uma nova vida em Cristo é-lhes dada livremente. Ao mesmo tempo, ela os compromete a viver doravante de uma nova maneira como discípulos totalmente leais a Jesus. O batismo significa um a linha divisória na vida humana, porque significa um novo enxerto criador na vida ressurreta de Cristo. 197


Cristo instruiu seus discípulos a batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19). Isto quer dizer que a relação pactuai que o batismo confere formalmente é a de aceitação por, comunhão com e consagração a todas as três Pessoas da Divindade. Quando Paulo diz que os israelitas foram “batizados em Moisés” (1 Co 10.2), ele quer dizer que eles foram colocados sob o controle e direção dc Moisés. Assim, o batismo em nome do Deus triúno significa controle e direção pelo próprio Deus. O sinal exterior não transmite automaticamente ou por milagre as bênçãos interiores que ele representa, e as profis­ sões de fé dos candidatos nem sempre são genuínas. Pedro teve de dizer ao recém-batizado Simão, o mágico, que ele não tinha ainda o seu coração renovado (8.13-24). Como sinal de um evento perm anente, o batismo deve ser administrado somente uma vez a uma pessoa. O batismo é real e válido se forem usados a água e o nome do Deus triúno, mes­ mo que seja de um adulto cuja profissão acabe se revelando hipócrita. Simão recebeu o batismo uma vez, e, se chegou à fé real mais tarde, seria incorreto batizá-lo novamente. Nenhum a prescrição de uma forma particular de batismo pode ser encontrada no Novo Testamento. A ordem para bati­ zar pode ser cumprida por imersão, efusão e aspersão; todas as três formas satisfazem o sentido do verbo grego baptizo e a condição de passar sob a, ou emergir da, água purificadora. Batizar os bebês dos cristãos, na crença de que isto está de acordo com a vontade revelada de Deus, tem sido uma prática histórica da maioria das igrejas. Contudo, a comunidade batis­ ta universal, que inclui distintos pensadores da Reforma, o contesta. Isto associa-se à insistência batista de que a admissão de membros das congregações locais é somente para aqueles que professaram publicamente sua fé pessoal: uma ênfase freqüen­ temente apoiada na alegação de que Cristo instituiu o batismo fundam entalm ente sobre a profissão de fé, e que tal profissão é parte da definição do batismo, de sorte que o batismo das crianças não é realmente um batismo legítimo. (Assim, as 198


igrejas batistas usualmente rebatizam as pessoas crentes batiza­ das na infância e que tenham chegado à fé; de acordo com a visão batista, elas não estão ainda batizadas.) A teologia Refor­ mada nega a visão de que o batismo do crente é o único batis­ mo e rejeita as recusas batistas de um lugar para os filhos dos crentes no corpo de Cristo por força de sua paternidade, e, conseqüentem ente, desde o nascimento. Estas diferenças na igreja visível formam o cenário para todas as discussões sobre o batismo infantil como tal. O caso do batismo de bebês de cristãos (uma prática que o Novo Testamento nem ilustra, nem prescreve nem proíbe) consiste na alegação de que a transição da “velha” para a “nova” forma da aliança de Deus, que ocorreu com a vinda de Cristo, não afetou o princípio da solidariedade familiar na comunidade da aliança (isto é, a igreja, como é agora chama­ da). As crianças deviam, portanto, ser batizadas, como as crianças judias tinham sido anteriom ente circuncidadas, não para conferir a elas o status da aliança, mas para atestar o status da aliança que, pela indicação soberana de Deus, sua paternidade já lhes havia dado. Em 1 Coríntios 7.14, Paulo resolve a questão sobre se Deus aceita um casamento em que somente um parceiro se tornou cristão, invocando a certeza de que os filhos de tal casamento são relacionalmente e pactualmente “santos”, isto é, dedica­ dos a Deus e aceitos por Ele em companhia do parceiro cristão. Portanto, o princípio da solidariedade pai-filho ainda permanece, como Pedro também assinalou em seu sermão no Pentecoste (At 2.39). Porém, se as crianças compartilham o status da aliança com seus pais, é apropriado, sendo as demais coisas iguais, dar-lhes o sinal daquele status e de seu lugar na comunidade da aliança, sendo inadequado para a igreja impedi-lo. Esta adequação é dem onstrada pelo fato que, quando a circuncisão era o sinal do status da aliança e da inclusão na comunidade, Deus o ordenou explicitamente (Gn 17.9-14). Contra isto os batistas afirmam que: (a) a circuncisão era originalmente um sinal da identidade étnica judaica, por isso o paralelo alegado entre ela e o batismo cristão é um erro; (b) 199


sob a nova aliança, a exigência da fé pessoal antes do batismo é absoluta; (c) as práticas que a Escritura não reconhece e aprova explicitamente não devem ser trazidas para a vida da igreja. Certamente, todos os membros adultos da igreja devem ter professado a fé pessoalmente perante a igreja, e as comuni­ dades que batizam crianças providenciam para isso um rito de confirmação ou seu equivalente. A educação cristã das crian­ ças batistas e pedobatistas (isto é, batizadas na infância) será semelhante: dedicadas a Deus na infância, seja pelo batismo ou por um rito de dedicação (que alguns vêem como um batis­ mo a seco), serão então preparadas para viver para o Senhor e levadas ao ponto de professarem publicamente sua fé, por sua própria decisão, por confirmação ou batismo (que alguns vêem como uma confirmação com água). Depois disto, elas desfrutarão pleno status comungante, a menos que estejam sob disciplina por alguma falta. O debate contínuo não é sobre a educação, mas sobre a forma de Deus definir a igreja.

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A CEIA DO SENHOR

ESTE RITO REVELA COMUNHÃO COM CRISTO Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graça, o partiu e disse: “Isto é o meu corpo que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. ” Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue; jazei isto todas as vezes que beberdes, em memória, de mim. ”Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha. 1 CORÍNTIOS 11.23-26 |

A Ceia do Senhor é um ato de adoração na forma de uma refeição cerimonial, em que os servos de Cristo participam do pão e do vinho em memória de seu Senhor cru­ cificado e em celebração da relação com Deus na nova aliança mediante a morte de Cristo. Na noite em que foi traído, nosso Senhor Jesus Cristo instituiu o sacra­ mento do seu corpo e sangue, chamado Ceia do Senhor, para ser obser­ vado em sua igreja até o fim do mundo, a fim de lembrar fjerpetuamente o sacrifício que em sua morte Ele fez de si mesmo; selar aos verdadeiros crentes os benefícios provenientes desse sacrifício para o seu nutrimento espiritual e crescimento nele e a sua obrigação de cumprir todos os seus deveres para com Ele; e ser um vínculo e penhor da sua comunhão com Ele e de uns com os outros, como membros do seu corpo místico. (Confissão de Westminster, XXIX. 1) 201


As passagens que tratam da Ceia, nas quais a declaraçao acima se baseia, são as quatro narrativas da sua instituição (Mt 26.26-29; Mc 14.22-25; Lc 22.17-20; 1 Co 11.23-25) e 1 Coríntios 10.16-21; 11.17-34. O sermão de Jesus (Jo 6.35-38) sobre si mesmo como Pão da Vida, e a necessidade de alimentar-nos dele comendo sua carne e bebendo seu sangue, foi pregado antes de a Ceia existir e é melhor com preendido como sendo acerca do que a Ceia significa (isto é, com unhão com Cristo pela fé) do que sobre a própria Ceia. No tempo da Reforma, questões sobre a natureza da presença de Cristo na Ceia e a relação do rito conr sua morte expiatória foram objeto de tempestuosa controvérsia. Sobre a primeira questão, a igreja católica rom ana afirmava (e ainda afirma) a transubstanciação, definida pelo Quarto Concílio Lateranense, em 1215. Transubstanciação significa que a subs­ tância do pão e do vinho era miraculosamente transformada na substância do corpo e do sangue de Cristo, de modo que já não eram mais pão e vinho, embora parecessem ser. Lutero modificou isto, afirmando o que mais tarde se chamaria “consubstanciação” (um termo que Lutero não estimulou), ou seja, que o corpo e sangue de Cristo está presente em, com e sob a forma de pão e vinho, os quais se tornam assim mais do que pão e vinho, e não menos. As igrejas ortodoxas orientais e algumas anglicanas dizem quase a mesma coisa. Zuínglio negou que o Cristo glorificado, agora no céu, esteja presente em qualquer forma que as palavras corporalmente, fisicamente ou localmente se adaptem. Calvino sustentou que, embora o pão e o vinho se mantivessem inalterados (ele concordou com Zuín­ glio que o é de “isto é meu corpo... meu sangue” significa “representa”, não “constitui”), Cristo, por meio do Espírito, concede aos adoradores um verdadeiro gozo de sua presença pessoal, atraindo-os à comunhão com Ele no céu (Hb 12.2224), de forma gloriosa e bem real, não obstante indescritível. Sobre a segunda questão, todos os Reformadores insistiram que à mesa damos graças a Cristo por sua obra de expiação completada e aceita, em lugar de repeti-la, renová-la, reofertá202


la, torná-la presente e reativá-la, como afirma a doutrina católica rom ana da missa. O ritual prescrito para a Ceia tem três níveis de significado para os participantes. Primeiro, ele tem uma referência pas­ sada à morte de Cristo, que relembramos. Segundo, ele tem um a referência presente á nossa nutrição comunitária advinda dele pela fé, com implicações sobre como tratamos nossos co­ irmãos de fé (1 Co 11.20-22). Terceiro, ele tem uma referência futura ao olharmos à frente o retorno de Cristo, sendo recon­ fortados por este pensamento. Recomenda-se um auto-exame preliminar, para que se esteja certo de que a disposição da m ente está como deve ser; e a sabedoria da recom endação é óbvia.

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DISCIPLINA

A IGREJA DEVE APOIAR OS PADRÕES CRISTÃOS “Se teu irmão pecar [contra ti], vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se. ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano. ” MATEUS 18.15-17 0 conceito cristão de disciplina tem a mesma amplitude da palavra latina disciplina, que significa toda a extensão dos métodos educativos, instrucionais e de treinamento que a formação de um discípulo requer. Quando a teologia Refor­ mada ressalta a importância da disciplina na igreja, insistindo que não há saúde espiritual sem ela e que ela é uma marca vital da verdadeira igreja, ela tem mais coisa em mente do que processos punitivos contra pessoas imorais e hereges. Somen­ te onde as disciplinas pessoais de aprendizado e devoção, culto e comunhão, justiça e serviço estão sendo ensinadas com firmeza num contexto de atenção e responsabilidade (Mt 28.20; Jo 21.15-17; 2 Tm 2.14-26; Tt 2; Hb 13.17) há lugar apropriado para o disciplinamento judicial. Todavia, o Novo Testamento mostra claramente que nesse contexto judicial o disciplinamento encontra lugar apropriado ao amadureci­ mento das igrejas e dos indivíduos (1 Co 5.1-13; 2 Co 2.5-11; 2 Ts 3.6,14,15; Tt 1.10-14; 3.9-11).

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Jesus instituiu a disciplina na igreja autorizando os apóstolos a ligarem e desligarem (isto é, proibirem e permitirem, Mt 18.18) e a declararem os pecados perdoados ou retidos (Jo 20.23). As “chaves do reino”, dadas prim eira­ mente a Pedro e definidas como poder para ligar e desligar (Mt 16.19), têm sido comumente entendidas como autoiádade para formular doutrina e im por disciplina, autoridade dada presentemente por Cristo à igreja em geral e, em parti­ cular, a pastores investidos. A Confissão de Westminster declara: As censuras eclesiásticas são necessárias para chamar e ganhar para Cristo os irmãos ofensores, para impedir que outros pratiquem ofensas semelhantes, para purgar o velho fermento que poderia corromper a massa inteira, para vindicar a honra de Cristo e. a santa profissão do evangelho e para evitar a ira de Deus, a qual com justiça poderia cair sobre a igreja, se ela permitisse que o pacto divino e os selos dek fossem profanados por ofensores notórios e obstinados. (XXX.3)

As censuras na igreja podem ser escalonadas desde a sim­ ples admoestação, pela exclusão da Ceia do Senhor, até a expulsão da congregação (excomunhão), a qual é referida como entrega da pessoa a Satanás, o príncipe deste m undo (Mt 18.15-17; 1 Co 5.1-5,11; 1 Tm 1.20; Tt 3.10,11). Os peca­ dos públicos (isto é, aqueles que são expostos à vista de toda a igreja) devem ser punidos publicamente na presença da igreja (1 Tm 5.20; cf. G1 2.11-14). Jesus ensina um procedim ento para tratar com privacidade aqueles que cometem ofensa pes­ soal, na esperança de que não seja necessário pedir para eles a censura pública da igreja (Mt 18.15-17). ■O propósito da censura da igreja em todas suas formas não é o de punir pelo só motivo da punição, mas de exortar ao arrependim ento e, assim, recuperar a ovelha extraviada. Concluindo, há somente um pecado em virtude do qual o membro da igreja é excomungado — a impenitência. Quando 205


o arrependim ento 茅 not贸rio, a igreja deve declarar o pecado perdoado e receber o ofensor uma vez mais na comunidade.

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MISSÃO

CRISTO ENVIA A IGREJA AO MUNDO Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: “Paz seja convosco! Assim, como o Pai me enviou, eu também vos envio. ” JOÃO 20.21 Missão vem do latim missio, que significa “enviar”. As | palavras que Jesus falou aos seus primeiros discípulos na qualidade de seus representantes — “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (cf. Jo 17.18), ainda se aplicam. A igreja universal e, por conseguinte, cada congregação local e cada cristão dessa congregação é enviado ao m undo para cum prir uma tarefa definida e definitiva. Jesus, Senhor da Igreja, deu a ordem de marchar. Individual e coletivamente, todo o povo de Deus está agora no m undo a serviço do rei. A tarefa atribuída é dupla. Primeira e fundam entalm ente, é a obra do testem unho universal, da conquista de discípulos e da plantação de igrejas (Mt 24.14; 28.19,20; Mc 13.10; Lc 24.47,48). Jesus Cristo deve ser proclamado em toda parte como Deus encarnado, Senhor e Salvador; e o convite insis­ tente de Deus para encontrar vida ao voltar-se para Cristo com arrependim ento e fé (Mt 22.1-10; Lc 14.16-24) deve ser esten­ dido a todo o gênero humano. O ministério do plantador de igrejas Paulo, evangelista a todo o m undo (até quando as forças e as circunstâncias lhe permitiram) (Rm 1.14; 15.17-29; 1 Co 9.19-23; Cl 1.28,29), é o modelo deste compromisso fundamental. Segundo, todos os cristãos, e, portanto, cada congregação da igreja na terra, são cham ados a praticar ações de 207


misericórdia e compaixão, um amor extremo ao próximo que responde irrestritamente a todas as formas de necessidade hum ana como elas se apresentam (Lc 10.25-27; Rm 12.20,21). A compaixão era o aspecto interior do am or ao próximo que levou Jesus a curar os enfermos, alim entar os famintos e ensi­ nar os ignorantes (Mt 9.36; 15.32; 20.34; Mc 1.41; Lc 7.13), e os que são novas criaturas em Cristo devem ser de igual modo compassivos. Por este meio, eles cumprem o segundo grande m andam ento e dão também credibilidade à sua proclamação de um Salvador que transforma os pecadores em pessoas que amam a Deus e aos seres humanos seus iguais. Se os que expõem esta mensagem não exibem seu poder em suas pró­ prias vidas, a credibilidade é destruída. Se o fazem, a credibi­ lidade é intensificada. Esta foi a intenção de Jesus ao consi­ derar a antevisão das boas obras de suas testemunhas levando as pessoas a glorificar o Pai (Mt 5.16; cf. 1 Pe 2.11,12). As boas obras devem ser visíveis para servirem de apoio às boas palavras. Embora Jesus antecipasse a missão gentílica (Mt 24.14; Jo 10.16; 12.32), Ele viu seu ministério terrestre dirigido “às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15.24). Paulo, o após­ tolo dos gentios, sempre procurava primeiro os judeus, onde quer que evangelizasse (At 13.5,14,42-48; 14.1; 16.13; 17.14,10; 18.4-7,19; 19.8-10; 28.17-28; Rm 1.16; 2.9,10). O direito de os judeus serem os primeiros a ouvir o evangelho é uma questão de determinação divina (At 3.26; 13.26,46), e a evan­ gelização estendida aos judeus deve continuar a ser uma prioridade, à medida que a igreja procura cum prir sua missão. Os cristãos judeus estão livres da lei cerimonial, mas estão livres também para seguir seus costumes judaicos, que expres­ sam sua cultura étnica. A expectativa de há muito existente de que os cristãos judeus deixem para trás sua identidade judaica, em lugar de regozijar-se por serem “plenam ente” judeus, é um preconceito cultural sem nenhum a base bíblica.

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DONS ESPIRITUAIS

O ESPÍRITO SANTO PREPARA A IGREJA E a graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo... E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho de seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo. EFÉSIOS 4.7,11,12 | O Novo Testamento retrata as igrejas locais, em que | alguns cristãos exercem ofícios ministeriais formais e oficiais (presbíteros-supervisores e diáconos, Fp 1.1), enquan­ to todos desempenham serviços em papéis informais. O ministério de cada membro no corpo de Cristo é o ideal neotestamentário. E claro que os oficiais que supervisionam não devem restringir os ministérios informais, mas sim facilitá-los (Ef 4.11-13), do mesmo modo que é claro que os que minis­ tram informalmente não devem ser provocadores ou produzir rupturas, mas devem permitir que os supervisores dirijam seus ministérios por meios que sejam ordeiros e edificadores (isto é, confortando e edificando, 1 Co 14.3-5,12,26,40; Hb 13.17). O corpo de Cristo cresce na maturidade em fé e amor, “segun­ do a justa cooperação de cada parte” (Ef 4.16) e cumpre sua forma de serviço doadora de graça (Ef 4.7,12). A palavra dom (literalmente “dádiva” ou “doação”) aparece em conexão com serviço espiritual somente em Efésios 4.7,8. Paulo explica a frase Ele... concedeu dons aos homens referindose ao Cristo assunto ao céu dando à sua igreja pessoas chama­ 209


das e preparadas para os ministérios de apóstolo, profeta, evangelista e pastor-mestre. Outrossim, por meio do minis­ tério capacitador desses oficiais, Cristo está concedendo um papel ministerial de uma forma ou de outra a cada cristão. Em outras partes (Rm 12.4-8; 1 Co 12-14), Paulo chama esses po­ deres dados divinamente para servir charismata (dons que são manifestações específicas de charis ou graça, o amor ativo e criativo de Deus, 1 Co 12.4), e também pneumatika (dons espi­ rituais como demonstrações específicas da energia do Espírito Santo, pneuma de Deus, 1 Co 12.1). Entre as muitas obscuridades e questões debatidas com respeito ao charismata do Novo Testamento, três certezas des­ pontam. Primeira, um dom espiritual é uma capacidade de certa forma para expressar, celebrar, expor e, portanto, trans­ mitir Cristo. Sabemos que os dons, corretam ente usados, edificam os cristãos e as igrejas. Mas somente o conhecimento de Deus em Cristo edifica; portanto, cada charisma deve ser uma capacitação de Cristo para mostrar Cristo e participar dele de um modo edificante. Segundo, os dons são de dois tipos. Há dons de falar e de amar, de ajuda prática. Em Romanos 12.6-8, a lista de Paulo sobre os dons alterna entre as categorias: um, três e quatro (profetizar, ensinar e exortar) são dons de falar; itens dois, cinco, seis e sete (servir, dar, guiar e mostrar misericórdia) são dons de ajuda. A alternância implica que nenhum a idéia de superioridade de um dom sobre o outro pode ser introduzida. Apesar do quanto os dons diferem como formas de atividade humana, todos são de igual dignidade, e a única questão é se o cristão usa apropriadam ente o dom que possui (1 Pe 4.10,11). Terceiro, nenhum cristão é falto de dom (1 Co 12.7; Ef 4.7), sendo responsabilidade de todos encontrar, desenvolver e usar plenam ente quaisquer capacidades para o serviço que Deus lhes concedeu.

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CASAMENTO

O MATRIMÔNIO DEVE SER UM PACTO DE RELAÇÃO PERMANENTE “Eu odeio o divórcio”, [diz o SENHOR Deus de Israel...] MALAQUIAS 2.16 (BLH) |

O casamento é uma relação exclusiva em que um homem e uma m ulher se entregam um ao outro num pacto para a vida, e com base neste voto solene tornam-se fisicamente “uma só carne” (Gn 2.24; Ml 2.14; Mt 19.4-6). “O matrimônio foi ordenado para o mútuo auxílio de ma­ rido e mulher, para a propagação da raça hum ana por uma sucessão legítima e da igreja por uma semente santa, e para im pedir a impureza [licença sexual e imoralidade] (Confissão de Westminster, XXIV.2; Gn 2.18; 1.28; 1 Co 7.2-9). O ideal de Deus para o casamento é que o homem e a m ulher experi­ mentem o mútuo completamento (Gn 2.23) e participação em sua obra criativa de gerar novas pessoas. O casamento é para todos os seres humanos, mas é desejo de Deus que seu próprio povo se case somente com parceiros da mesma crença (1 Co 7.39; cf. 2 Co 6.14; Ed 9-10; Ne 13.23-27). A intimidade em sua maior profundidade é impossível quando as partes não estão unidas na fé. Usando a relação de Cristo com sua igreja para ilustrar o que deve ser o casamento cristão, Paulo ressalta a responsabili­ dade especial do marido como líder e protetor de sua esposa, e concita a esposa a aceitar seu marido neste papel (Ef 5.2133). A distinção de papéis não implica, porém, que a esposa seja uma pessoa inferior: como portadores da imagem de 211


Deus, o marido e a m ulher têm igual dignidade e valor, deven­ do cum prir seu papel no relacionamento com base num res­ peito mútuo fixado no reconhecim ento deste fato. Deus odeia o divórcio (Ml 2.16), entretanto provê paia isto um procedim ento que proteja a esposa divorciada (Dt 24.1-4); isto, disse Jesus (Mt 19.8), acontecia “por causa da dureza do vosso coração”. O meio natural de com preender seu ensino em Mateus 5.31,32 e 19.8,9 ê que a infidelidade conjugal (o pecado do adultério) destrói o pacto do casamento e justifica o divórcio (embora seja preferível a reconciliação); mas aque­ le que divorcia sua esposa por qualquer motivo m enor tornase culpado de adultério, quando ele se casa novamente e levaa ao adultério quando ela se casa com outro. Nisto Jesus está simplesmente afirmando o princípio de que todos os casos de divórcio e novo casamento envolvem o rom pimento da idéia de Deus para o relacionamento sexual. Ele respondeu à per­ gunta, “Quando é lícito o divórcio?”, dizendo que ele é sem­ pre deplorável (Mt 19.3-6), mas não negou que seus corações continuavam endurecidos; assim, pois, o divórcio, embora sempre um mal em si mesmo, pode algumas vezes ser perm i­ tido sobre uma base menos ruim. Paulo diz que alguém que se tornou cristão e foi abandona­ do pelo parceiro não-crente não está “obrigado” (1 Co 7.15). Isto evidentemente significa que ele ou ela pode considerar terminada a relação. Se isto deve servir de apoio para conferir o direito a novo casamento tem sido discutido, e a opinião Reformada há muito está dividida sobre o assunto. A Confissão de Westminster (XXIV.5,6) afirma com caute­ losa sabedoria o que a maioria dos cristãos Reformados, refletindo sobre os textos citados acima, no correr dos séculos se mostraram concordes a respeito do divórcio: No caso de adultério depois do casamento, à parte inocente é lícito propor divórcio, e depois de obter o divórcio casar com outrem, corno se a parte infiel fosse morla.

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Posto que a corrupção do homem seja tal que o incline a procurar argumentos a fim de indevidamente separar aqueles que Deus uniu em matrimônio, contudo só é causa suficiente para dissolver os laços do matrimônio o adultério ou deserção tão obstinada que não possa ser remediada nem pela igreja nem pelo magistrado civil; para a dissolução do matrimônio é necessário haver um processo público e regular, não se devendo deixar ao arbítrio e discrição das partes o decidir em seu próprio caso.

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A FAMÍLIA

O LAR CRISTÃO É UMA UNIDADE ESPIRITUAL ...sujeiiando-vos u,ns aos outros no temor de Cristo. EFÉSIOS 5.21 | A família (isto é, o lar consistindo de pais e filhos, com | ou sem parentes, amigos e criados acrescidos) é uma das instituições mais antigas e fundamentais. A Bíblia acentua sua importância como uma unidade espiritual e terreno de prepa­ ração para um caráter adulto amadurecido. A família tem uma estrutura de autoridade natural, pela qual o marido é líder da esposa e ambos são líderes dos filhos. Toda liderança é uma forma de ministério, e não de tirania, e esses papéis de liderança devem ser desempenhados com am or (Ef 5.22-6.4; Cl 3.18-21; 1 Pe 3.1-7). O quarto m anda­ mento requer que o chefe da casa lidere toda sua família na guarda do sábado; o quinto requer que os filhos respeitem seus pais e se submetam a eles (Êx 20.8-12; Ef 6.1-3). O próprio Jesus deu um exemplo disto (Lc 2.51). Mais tarde, Ele se opôs duram ente a supostos gestos de piedade que eram, na verdade, evasões de responsabilidade para com os pais (Mc 7.6-13), e seu último ato antes de m orrer foi providenciar o amparo futuro de sua mãe (Jo 19.25-27). A família deve ser um a com unidade de ensino e aprendizado acerca de Deus e da piedade. Os filhos devem ser instruídos (Gn 18.18,19; Dt 4.9; 6.6-8; 11.18-21; Pv 22.6; Ef 6.4) e devem ser estimulados a tomar a instrução seriamente como base para sua vida (Pv 1.8; 6.20). A disciplina, que significa treinam ento orientativo e corretivo, é necessária para levar os

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filhos além da insensatez pueril do saber autocontrolado (Pv 13.24; 19.18; 22.15; 23.13,14; 29.15,17). Do mesmo m odo que há na família de Deus a disciplina determ inada pelo am or (Pv 3.11,12; Hb 12.5-11), assim deve ser na família humana. A família deve funcionar como uma unidade espiritual. A Páscoa no Velho Testamento era um acontecim ento familiar (Ex 12.3). Josué estava firmando um exemplo quando disse: “Eu e a m inha casa serviremos ao SENHOR” (Js 24.15). As famílias tornaram-se unidades de consagração nos tempos do Novo Testamento (At 11.14; 16.15,31-33; 1 Co 1.16). A aptidão de candidatos a ofício na igreja era avaliado observando se tinham governado bem suas famílias (1 Tm 3.4,5,12; Tt 1.6). Uma família solidamente constituída deve estar sempre prioritariamente a serviço de Deus.

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O MUNDO

OS CRISTÃOS ESTÃO NA SOCIEDADE PARA SERVI-LA E TRANSFORMÁ-LA Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: “Não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro ”, segundo os preceitos e doutrinas dos homens ? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem. CGLOSSENSES 2.20-22 |

Mundo, no Novo Testamento, às vezes significa o mesmo que no Velho Testamento, a saber, esta terra, a boa ordem natural que Deus criou. Comumente, porém, significa a raça hum ana como um todo, agora caída em pecado e desordem moral, tornando-se radicalmente anti-Deus e má. Ocasionalmente, os dois sentidos parecem mesclar-se, de sorte que afirmações sobre o m undo carregam a complexa nuança de pessoas perversas incorrendo em culpa e vergonha por seu mau uso das coisas criadas. Os cristãos são enviados ao m undo por seu Senhor (Jo 17.18) para testemunhar acerca do Cristo de Deus e seu reino (Mt 24.14; cf. Rm 10.18; Cl 1.6,23) e para atender a suas neces­ sidades. Mas, devem fazer isso sem cair vítimas de seu mate­ rialismo (Mt 6.19,24,32), sua indiferença a respeito de Deus e da vida futura (Lc 12.13-21), e a busca altiva do prazer, lucro e posição com exclusão cle qualquer outra coisa (1 Jo 2.15-17). 0 m undo é, no presente, reino cle Satanás (fo 14.30; 2 Co 4.4; 1 Jo 5.19; cf. Lc 4.5-7), e a perspectiva e fixação das sociedades humanas refletem mais o orgulho visto em Satanás do que a humildade vista em Cristo. 216


Os cristãos, como Cristo, devem agir com empatia em relação às ansiedades e necessidades das pessoas, para servi-las e comunicar-se eficazmente com elas. Devem fazê-lo, porém, com base em um desinteresse pelas motivações deste m undo, pelo qual estão de passagem m om entânea em dem anda do lar celestial, e no qual seu sincero propósito deve ser o de agradar a Deus (Cl 1.9-12; 1 Pe 2.11). O retiro monástico para afastarse do m undo não é sancionado (Jo 17.15), nem o é tampouco o mundanismo (isto é, qualquer incorporação da autoabsorção terrena das pessoas deste mundo: Tt 2.12). Jesus estimula seus discípulos a equiparar-se à engenhosidade das pessoas mundanas no uso de seus recursos para favorecer suas metas, porém especifica que suas próprias metas não devem apoiar-se na segurança terrena, mas na glória celestial (Lc 16.9). A primeira exigência de Deus para os cristãos neste m undo é que sejam diferentes dos que vivem à sua volta, observando os preceitos morais de Deus, praticando o amor, evitando a licença indecente e não perdendo sua dignidade como porta­ dores da imagem de Deus em razão de qualquer forma de auto-indulgência irresponsável (Rm 12.2; Ef 4.17-24; Cl 3.511). Requer-se uma ruptura completa com os sistemas de valores e estilos de vida do mundo, como base para praticar a similitude com Cristo em termos positivos (Ef 4.25-5.17). A tarefa designada ao cristão é tríplice. O principal m an­ dato da igreja é a evangelização (Mt 28.19,20; Lc 24.46-48), e cada cristão deve procurar, por todos os meios, promover a conversão dos incrédulos. O impacto da mudança na própria vida do cristão será significativo (1 Pe 2.12). O am or ao próximo deve também levar constantem ente o cristão a ações de misericórdia de todos os tipos. Mas, além disso, os cristãos são convocados para cum prir o “mandato cultural” dado por Deus à raça hum ana na Criação (Gn 1.28-30; SI 8.6-8). O homem foi feito para administrar o m undo de Deus, e esta administração é parte da vocação hum ana em Cristo. Ela exige trabalho fatigante, tendo como alvo honrar a Deus e prover o bem-estar dos outros. Este é o real “trabalho ético” 217


protestante. Ele é essencialmente uma disciplina religiosa, o cumprimento de um “chamado” divino. Sabendo que Deus em sua benignidade e clemência conti­ nua, em face do pecado humano, a preservar e enriquecer seu m undo errante (At 14.16,17), os cristãos devem envolver-se em todas as formas de atividade hum ana lícita, e fazendo isto em termos do sistema de valores e visão da vida cristã, tornarse-ão sal (um preservativo que faz as coisas melhores ao pala­ dar) e luz (uma iluminação que mostra o caminho a seguir) na comunidade hum ana (Mt 5.13-16). Assim, à medida que os cristãos cumprem sua vocação, o Cristianimo se torna uma força cultural transformadora.

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O ESTADO

OS CRISTÃOS DEVEM RESPEITAR O GOVERNO CIVIL Todo homem, esteja sujeito às autoridades superiores; porque, não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem, foram por ele instituídas. De modo que aquele qu.e se opõe, à autoridade, resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. ROMANOS 13.1,2 O governo civil é um instrum ento ordenado por Deus para reger a vida das comunidades. Ele é um dentre numerosos meios, incluindo ministros na igreja, pais na famí­ lia e professores na escola. Cada um desses meios tem sua própria esfera de autoridade sob Cristo, que agora rege o universo em nome de seu Pai, e cada esfera tem de ser delimi­ tada em referência às outras. Em nosso m undo decaído, estas estruturas de autoridade são instituições da “graça com um ” de Deus (providência bondosa), colocadas como um baluarte contra a anarquia, a lei da selva e a dissolução da sociedade ordenada. Baseando-se em Romanos 13.1-7 e 1 Pedro 2.13-17, a Confis­ são de Westminster proclama a esfera do governo civil como segue: Deus, o Senhor Supremo e Rei de todo o mundo, para a sua glória e para, o bem, jmblico, constituiu, sobre o povo magistrados civis que lhe são sujeitos, e, a este, fim, os armou com o poder da espada para defesa e incentivo dos bons e castigo dos malfeitores. ... Os magistrados civis 219 \


nao podem tomar sobre si a administração da palavra e dos sacramentos ou o poder das chaves do Reino do Céu. (XXIII.1,3)

Porque o governo civil existe para o bem-estar de toda a sociedade, Deus dá-lhe o poder da espada (isto é, o uso lícito da força para impor leis justas: Rm 13.4). Os cristãos devem reconhecer isto como parte da ordem de Deus (Rm 13.1,2). Mas as autoridades civis não devem usar este poder para perseguir os adeptos ou não adeptos de qualquer religião particular, ou para defender qualquer forma de mal. O estado pode apropriadam ente cobrar taxas por serviços prestados (Mt 22.15-21; Rm 13.6,7). Porém, se proibir o que Deus requer ou requerer o que Deus proíbe, alguma forma de desobediência civil, com aceitação de suas conseqüências penais (mostrando assim que se reconhece a autoridade atri­ buída por Deus aos governos como tais), torna-se inevitável (At 4.18-31; 5.17-29)." Os cristãos devem instar com os governos a cumprir seu papel corretamente. Devem orar por eles, obedecer-lhes e zelar por eles (1 Tm 2.1-4; 1 Pe 2.13,14), recordando-lhes que Deus os ordenou para dirigir, proteger e m anter a ordem, mas não para exercer a tirania. Num mundo degradado, em que o poder costumeiramente corrompe, as instituições democrá­ ticas que dividem o poder executivo entre muitos e fazem todos seus detentores responsáveis perante o povo, em geral oferecem a melhor esperança de evitar a tirania e assegurar a justiça para todos.

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PARTG QUATRO

DEUS REVELADO COMO SEMOR DO DESTINO


PERSEVERANÇA

DEUS GUARDA SEU POVO Aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. ROMANOS 8.30 Diga-se primeiramente que, afirmada a eterna seguran­ ça do povo de Deus, fica mais claro falar de sua preser­ vação, como se faz comumente, do que de sua perseverança. Perseverança significa persistência sob desânimo e pressão. A asserção de que os crentes perseveram na fé e obediência a despeito de todas as coisas é verdadeira, mas a razão disto é que Jesus Cristo, por meio do Espírito, persiste em preserválos. A Escritura enfatiza isso. João diz que Jesus Cristo, o Bom Pastor, está sob promessa a seu Pai (Jo 6.37-40) e diretam ente a suas ovelhas (Jo 10.28,29) para guardá-las, de modo que elas nunca pereçam. Em sua oração sacerdotal antes de sua paixão, Jesus pediu que aqueles que o Pai lhe havia dado (Jo 17.2,6,9,24) fossem preservados para a glória, sendo inconcebível que sua oração, que ainda continua (Rm 8.34; Hb 7.25), não seja atendida. Paulo vê o plano soberano de Deus para a salvação de seus eleitos como um todo unitário, do qual faz parte a glorificação dos justificados (Rm 8.29,30). Sobre esta base ele construiu a triunfante peroração de Romanos 8.31-39, na qual celebra a segurança presente e futura dos santos no amor todo-poderoso de Deus. Em outras passagens ele se regozija na certeza de que Deus completará a “boa obra” que começou na vida de

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todos a quem Paulo se dirige (Fp 1.6; cf. 1 Co 1.8,9; 1 Ts 5.23,24; 2 Ts 3.3; 2 Tm 1.12; 4.18). A teologia Reformada ecoa esta ênfase. A Confissão de Westminster declara: Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, os que ele chamou eficazmente e santificou pelo seu Espírito, não podem decair do estado da graça, nem total, nem finalmente; mas, com toda a certeza, hão de perseverar nesse estado até o fim e serão eternamente salvos. (XVII. 1)

A doutrina afirma que os regenerados são salvos pela perseverança na fé e na vida cristã até o fim (Hb 3.6; 6.11; 10.35-39), e que é Deus quem os mantém perseverantes. Isso não significa que todos os que um dia professaram sua conversão serão salvos. Fazem-se falsas profissões; entusiastas efêmeros abandonam a fé (Mt 13.20-22); muitos que dizem a Jesus, “Senhor, Senhor” não serão reconhecidos (Mt 7.21-23). Somente aqueles que se mostram regenerados pela busca de um coração santificado e genuíno amor ao próximo em sua passagem por este mundo estão habilitados a se acreditarem seguros em Cristo. Perseverar na fé e na penitência, não ape­ nas pelo formalismo cristão, é o caminho para a glória. Supor que a crença na perseverança conduz a uma vida negligente c arrogante presunção é um juízo totalmente falso. As vezes, os regenerados apostatam e caem em grave peca­ do. Mas nisto eles agem fora de seu caráter, violentam sua própria nova natureza e fazem-se profundam ente miseráveis, até que finalmente buscam e encontram sua restauração à vida de retidão. Ao rever sua falta, ela lhes parece ter sido uma loucura. Quando os crentes regenerados agem de acordo com seu caráter, manifestam um desejo humilde e prazenteiro de agradar a Deus que os salvou; e o conhecimento de que Ele prom ete mantê-los seguros para sem pre sim plesm ente aumenta esse desejo.

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PECADO IMPERDOÁVEL

SOMENTE A IMPENITÊNCIA NÃO PODE SER PERDOADA Em verdade vos digo que ludo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e, as blasfêmias que proferirem. Mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo não tem perdão para sempre, visto que é réu de pecado eterno. MARCOS 3.28,29 | Quando Jesus advertiu os fariseus de que a blasfêmia | contra o Espírito Santo era imperdoável tanto neste m undo como no próximo (Mt 12.32; Mc 3.29,30), o motivo foi eles dizerem que Ele expulsava demônios por estar ligado a Satanás (Bclzebu). Sua advertência revelou sua visão do esta­ do espiritual deles. Ele podia, e mais tarde o fez, orar pelo perdão daqueles cu­ ja blasfêmia contra Ele era fruto de ignorância: “Pai, perdoalhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34). Mas não era assim que Ele via os fariseus. E possível que as pessoas sejam iluminadas a ponto de saberem no seu íntimo que Jesus é o Salvador divino que Ele disse ser, e, mesmo assim, não desejarem admiti-lo publica­ mente, em razão de todas as mudanças comportamentais que tal atitude torna necessárias. E possível tentar fazer que uma pessoa se sinta bem acerca de sua própria desonestidade moral, forjando razões, por mais absurdas que sejam, por não tratar Jesus como digno de sua fidelidade. Jesus evidente­ mente percebeu que, tendo-o chamado súdito de Satanás, os fariseus estavam fazendo exatamente isso. Eles não eram ignorantes; estavam sufocando a prova de sua culpabilidade e 225


ofuscando o real, ainda que indesejável, conhecimento; eles estavam determ inadam ente fechando os olhos à luz e endurecendo sua consciência por chamá-la escuridão. A tolice a que Jesus os expôs por aquilo que estavam dizendo (Mt 12.25-28) era um sinal da pressão da culpabilidade que esta­ vam sentindo; o raciocínio irracional é um sinal comum da resistência contra a convicção. Atribuindo os exorcimos operados por ato do Espírito Santo (Mt 12.28) ao poder satânico, os fariseus estavam blasfe­ m ando (falando impiamente) contra o Espírito. Tal pecado tornava-se imperdoável quando a consciência tinha sido tão endurecida por chamar o bem de mal que todo o sentido da glória moral das poderosas obras de Jesus (que eram em um sentido real suas credenciais: Mt 11.2-6; Jo 10.38; 14.11) foi destruído. Esse endurecim ento do coração contra Jesus impe­ de qualquer remorso em qualquer estágio por causa da blasfêmia. Mas a não existência de arrependim ento torna impossível o perdão. A calosidade de uma consciência por causa de raciocínios desonestos, como o de justificar a negação do poder de Deus em Cristo, e a rejeição de suas reivindicações desse poder são, portanto, a fórmula do pecado imperdoável. Outra versão dele, desta vez nos cristãos professos que se afastaram de Cristo, é exposta em Hebreus 6.4-8. Os cristãos, temerosos de que possam ter cometido um pecado imperdoável, mostram por sua mesma ansiedade que não o cometeram. As pessoas que o cometem não demonstram remorso nem preocupação; de fato, estão comumente insconscientes do que fizeram e a que destino se auto-sentenciaram. Jesus viu que os fariseus estavam perto de cometer esse pecado, e por isso lhes falou na esperança de que retrocedessem, evitando incorrer nele definitivamente.

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MORTALIDADE

OS CRISTÃOS NÃO PRECISAM TEMER A MORTE Para mim, o viver ê Cristo, e o morrer é lucro. Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu traballw, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Mas, por vossa causa, é mais necessário permanecer na carne. FILIPENSES 1.21-24 | Não sei como os seres humanos deveriam deixar este | mundo, se não tivesse havido a Queda; alguns duvidam se teriam de fazê-lo. Mas, nas condições atuais, a separação do corpo e da alma em razão da morte, que ocorre como fruto do pecado e sentença de Deus (Gn 2.17; 3.19,22; Rm 5.12; 8.10; 1 Co 15.21), é uma das certezas da vida. Esta separação da alma (pessoa) do corpo c um sinal e símbolo da separação espiritual de Deus que trouxe inicialmente a morte física (Gn 2.17; 5.5) e que se aprofundará para aqueles que deixam este m undo sem Cristo. Naturalmente, portanto, a morte aparece como uma inimiga (1 Co 15.26) e um terror (Hb 2.15). Para os cristãos, o terror da morte física é abolido, embora permaneça o dissabor de morrer. Jesus, seu Salvador ressurreto, passou por uma morte mais dramática do que qualquer cristão jamais tem de enfrentar, e vive agora para amparar seus servos quando eles se transferem deste mundo para o lugar preparado para eles no mundo vindouro (Jo 14.2,3). Os cristãos devem ver sua própria morte como um compromisso registrado na agenda de Jesus, que Ele manterá fielmente. Paulo podia dizer: “Para mim o viver é Cristo, e o m orrer é 227


lucro. ... tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente m elhor” (Fp 1.21,23), uma vez que “deixar o corpo” significa “habitar com o Senhor” (2 Co 5.8). Na morte, as almas dos crentes (isto é, os próprios crentes, como individualidades) são tornados perfeitos em santidade e entram na vida de reverência do céu (Hb 12.22-24). Em outras palavras, são glorificados. Alguns, descrentes clisto, pressu­ põem uma disciplina purificadora após a morte, que é, na verdade, um estágio de santificação, purificando progressiva­ mente o coração e refinando o caráter como preparação para a visão de Deus. Mas esta crença não é nem escriturística nem racional, pois, se na vinda de Cristo os santos que estiverem vivos na terra serão aperfeiçoados moral e espiritualmente no momento de sua transformação corpórea (1 Co 15.51-54), é simplesmente natural supor que o mesmo se dá com cada crente no momento da morte, quando o corpo mortal fica para trás. Outros supõem a inconsciência (sono da alma) entre a morte e a ressurreição, mas a Escritura fala de relacio­ namento consciente, envolvimentos e alegrias (Lc 16.22; 23.43; Fp 1.23; 2 Co 5.8; Ap 6.9-11; 14.13). A morte é decisiva para o destino. Após a morte não há possibilidade de salvação para os perdidos (Lc 16.26); a partir daí, tanto os piedosos como os incrédulos colhem o que semearam nesta vida (G1 6.7,8). A morte é ganho para os crentes (Fp 1.21), porque, após a morte, eles estarão mais perto de Cristo. Mas a desencarnação (ou separação do corpo), como tal, não é ganho; os corpos são para expressão e experiência, e ficar sem o corpo é ficar limitado, na realidade empobrecido. E por isso que Paulo deseja ser “vestido” com seu corpo ressurreto (isto é, recorporificado), e não “nu” (isto é, descorporificado, 2 Co 5.1-4). Ressurgir para a vida do céu é a verdadeira esperança do cristão. Como a vida no estado “interm ediário” entre a morte e a ressurreição é melhor do que a vida neste mundo que a precede, assim a vida da ressurreição será ainda melhor. Será, na verdade, a melhor. E isto é o que Deus tem reservado para todos os seus filhos (2 Co 5.4,5; Fp 3.20,21). Aleluia! 228


A SEGUNDA VINDA

JESUS CRISTO RETORNARÁ À TERRA EM GLÓRIA Irmãos, relativamente aos tempos e às épocas, não há necessidade de que eu vos escreva; pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o Dia do Senhor vem como ladrão de noite. Quando andarem dizendo: “Paz e segurança ”, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores do parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão. Mas, vós, irmãos, não estais em trevas, para que esse Dia como ladrão vos apanhe de surpresa. 1 TESSALONICENSES 5.1-4 | O Novo Testamento anuncia repetidam ente que Jesus | Cristo voltará algum dia. Essa será sua “visita real”, seu “aparecim ento” e “vinda” (grego: parousia). Cristo voltará a este mundo em glória. O segundo advento do Salvador será pessoal e físico (Mt 24.44; A tY ll; Cl 3.4; 2 Tm 4.8; Hb 9.28), visível e triunfante (Mc 8.38; 2 Ts 1.10; Ap 1.7). Jesus vem para encerrar a história, levantar os mortos e julgar o mundo (Jo 5.28,29), conceder aos filhos de Deus sua glória final (Rm 8.17,18; Cl 3.4), e introduzi-los em um universo reconstruído (Rm 8.19-21; 2 Pe 3.10-13). Sua execução desta agenda será a última fase e triunfo final de seu reino mediatário. Uma vez que essas coisas se cumpram, a apliação da redenção contra a oposição satânica, que era a obra específica do reino, termi­ nará. Quando Paulo diz que Cristo então “entregará o reino” e se tornará sujeito ao Pai (1 Co 15.24-28), ele não está insi­ nuando qualquer diminuição da honra subseqüente de Cristo, mas está significando o completamento do plano para

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trazer os eleitos ao céu que o Filho ressurreto foi entronizado para realizar. Os eleitos em glória, purificados e aperfeiçoa­ dos, honrarão para sempre o Cordeiro como aquele que foi capaz de abrir o livro do plano de Deus para o cumprimento e aplicação da redenção na história, e fazer acontecer o que estava planejado (Ap 5). Na nova Jerusalém, Deus e o Cor­ deiro estão entronizados e reinam juntos para sempre (Ap 22.1,3). Mas este reinado é a crescente conexão servo-Senhor entre Deus e os justos que se segue à era do reino mediatário, e não a continuação daquele reino como tal. Em 1 Tessolonicenses 4.16,17, Paulo ensina que a vinda de Cristo terá a forma de uma descida desde o céu, anunciado por um ressôo de trombeta, um clamor, e a voz do arcanjo. Os que morreram em Cristo já terão sido levantados e estarão com Ele, e todos os cristãos na terra serão “arrebatados” (isto é, levados às nuvens para o encontro com Cristo no espaço), para que possam em seguida retornar à terra com Ele, como parte de sua escolta triunfante. A idéia de que o arrebata­ mento os leva para fora deste mundo por um período antes de Cristo aparecer uma terceira vez para uma segunda “segunda vinda” tem sido amplamente defendida, mas falta-lhe apoio escri turístico. Embora alguns dos detalhes dados por Paulo tenham significação simbólica (a trombeta, como um clarim militar, chama a atenção para a atividade de Deus, Ex 19.16,19; Is 27.13; Mt 24.31; 1 Co 15.52; as nuvens significando a presença ativa de Deus, Êx 19.9,16; Dn 7.13; Mt 24.30; Ap 1.7), ele pare­ ce estar falando literalmente, e o fato de o que ele descreve estar além de nosso poder de imaginação não nos deve impedir de tomar suas palavras no sentido de que isso será assim. O Novo Testamento especifica muito do que sucederá entre as duas vindas de Cristo, mas, afora a queda de Jerusalém em 70 d.C. (Lc 21.20,24), as predições sugerem processos e não eventos isolados identificáveis, e não revelam sequer uma data aproximada do reaparecimento de Jesus. O mundo gentio será chamado à fé (Mt 24.14); os judeus serão trazidos ao 230


reino (Rm 11.25-29, um a passagem que pode ou não antecipar uma conversão nacional); haverá falsos profetas e falsos Cristos ou anticristos (Mt 24.5,24; 1 Jo 2.18,22; 4.3). Haverá apostasia da fé e tribulação para os fiéis (2 Ts 2.3; 1 Tm 4.1; 2 Tm 3.1-5; Ap 7.13,14; cf. 3.10). Um “homem da iniqüi­ dade”, aparentem ente não identificável, acerca do qual Paulo havia falado aos tessalonicenses em um ensino oral que não possuímos (2 Ts 2.5), devia ou deve aparecer (2 Ts 2.3-12). Se o período de mil anos de Apocalipse 20.1-10 é realm ente a história do m undo entre as duas vindas de Cristo, haverá uma última e apical luta de poder de alguma forma entre as forças anticristãs do m undo e o povo de Deus (w. 7-9). Nenhum a data, contudo, pode ser inferida desses dados; o tempo do retorno de Jesus perm anece completamente desconhecido. A volta de Cristo terá o mesmo significado para os cristãos que estiverem vivos quando acontecer como a morte tem para os cristãos que morrem antes de acontecer: será o fim da vida neste m undo e o início da vida naquilo que tem sido retratado como “um am biente desconhecido com habitante bem conhecido” (cf. Jo 14.2,3). Cristo ensina (Mt 24.36-51) que será um trágico desastre se a pnrousia encontrar alguém despreparado. Em vez disso, a idéia do que virá deve estar constantem ente em nossas mentes, incentivando-nos em nosso atual serviço cristão (1 Co 15.58) e ensinando-nos a viver, como se ela fosse iminente, prontos a nos encontrarm os com Cristo a qualquer mom ento (Mt 25.1-13).

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RESSURREIÇÃO GERAL

OS MORTOS EM CRISTO RESSUSCITARÃO EM GLÓRIA Mas alguém dirá: “Como ressuscitarão os mortos ? E em que corpo vêm ?” Insensatos! O que semeias não nasce, se primeiro não morrer; e, quando semeias, não semeias o corpo que há de ser, mas o simples grão, como de trigo ou de qualquer outra semente. ... Pois assim, também, é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita, na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se, em fraqueza, ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual. 1 CORÍNTIOS 15.35-37,42-44 | Jesus foi o primeiro a levantar-se dentre os mortos (At | 26.23), e, quando retornar a este mundo, Ele levantará seus servos para a ressurreição da vida como a sua própria (1 Co 15.20-23; Fp 3.20,21). Ele ressuscitará, na verdade, toda a raça humana; aqueles que não pertencem a Ele por meio da fé, ressuscitarão para o juízo (Jo 5.29). Os cristãos que estive­ rem vivos quando Ele vier passarão por uma transformação maravilhosa (1 Co 15.50-54), enquanto os cristãos que já tiverem morrido antes desse evento experimentarão uma gloriosa recorporificação (isto é, receberão um corpo glorificado (2 Co 5.1-5). Haverá continuidade entre o corpo mortal e o imortal, como houve no caso de Jesus, pois Ele foi assunto ao céu com o corpo que teve ao morrer. Paulo compara a relação entre o corpo da ressurreição e o corpo mortal à relação entre a semente e a planta que cresce dela (1 Co 15.35-44), uma espécie de continuidade, devemos notar, permite grandes diferenças entre o ponto inicial (a semente) e o produto final. 232


Paulo diz ainda que haverá em cada caso um contraste de qualidade. Nossos corpos presentes, como o de Adão, são naturais e terrenos, sujeitos a toda sorte de fraqueza e deterio­ ração, até que finalmente perecem. Porém, nossos corpos ressuscitados, como o de Cristo, serão espirituais (criados, habitados e sustentados pelo Espírito Santo) e pertencerão à eterna, imperecível, imortal e celestial ordem de coisas (1 Co 15.45-54). Contudo, como o Jesus ressurreto foi reconhecido por seus discípulos a despeito da mudança operada nele pela ressur­ reição, e como os recorporificados Moisés e Elias foram reco­ nhecidos na Transfiguração (Mt 17.3,4), e ainda como os santos judeus recorporificados que se levantaram dos túmulos em seguida à ressurreição de Jesus (Mt 27.52,53), assim também os cristãos ressurretos serão reconhecidos uns pelos outros, e jubilosos encontros são esperados além deste mundo com os crentes que amamos e depois perdemos pela morte. Isto é implícito em 1 Tessalonicenses 4.13-18, que foi escrito porque as pessoas que estavam vivas em Cristo temiam que tivessem perdido aqueles que tinham morrido em Cristo; Paulo escreveu-lhes, como havia feito acerca da volta de Cristo, para confortá-los e animá-los, porquanto certamente veriam de novo seus amados cristãos. dom o o sincero amor e humildade de Jesus são o modelo segundo o qual Deus está conformando nosso caráter regene­ rado, assim também seu corpo glorificado, a forma atual do corpo através do quai Ele expressou perfeitamente estas quali­ dades quando estava na terra, é o modelo para o refazimento de nossos corpos (Fp 3.21). Os corpos que os cristãos tem agora são, na melhor das hipóteses, instrumentos insuficientes para expressar os desejos e propósitos dos corações regene­ rados, e muitas das fraquezas com as quais os santos lutam — timidez, temperamento agressivo, luxúria, depressão, frieza nos relacionamentos, e outras — estão intimamente ligadas à nossa constituição e sua projeção em nosso comportamento. Os corpos que se tornam nossos na ressurreição geral serão corpos que harmonizam com nosso caráter aperfeiçoado e se 233


revelarão instrumentos perfeitos para santa auto-expressão por toda a eternidade. A glorificação (assim chamada porque é uma manifestação de Deus em nossas vidas, 2 Co 3.18) é o nome escriturístico para o completamento de Deus naquilo que Ele começou quando nos regenerou, a saber, nossa reconstrução moral e espiritual, de modo a ser perfeita e perm anentem ente confor­ mada a Cristo. A glorificação é uma obra de poder transfor­ mador pelo qual Deus finalmente nos torna criaturas sem pecado em corpos imortais. A idéia de nosso estado final glori­ ficado inclui: (a) conhecimento perfeito da graça, mediante a extensão ilimitada de nossas faculdades de compreensão (1 Co 13.12); (b) perfeita alegria de contemplar o Pai e o Filho c estar com Eles; (c) perfeita adoração e serviço a Deus por meio de uma natureza perfeitamente integrada e um coração tornado perfeitamente livre para o amor e a obediência; (d) perfeito livramento de tudo quanto foi experimentado como pecaminoso, mau, debilitante e frustrante; (e) perfeita reali­ zação de todos os desejos dos quais estamos cônscios (não desejos sexuais, Mt 22.30; ou fome e sede, Ap 7.16; ou desejo de dormir, Ap 22.5; mas sim desejos por mais comunhão com Deus); (f) perfeito completamento de tudo quanto era bom e valioso na vida deste mundo, mas que teve de ser deixado incompleto porque o desejo ultrapassou a capacidade de sua realização; e (g) crescimento pessoal incessante na abrangên­ cia de todas essas coisas perfeitas. Paulo termina sua análise em Romanos 8.30 da ação pela qual Deus salva seus eleitos usando um significativo tempo passado dos verbos: “...aos que justificou, a esses também glori­ ficou.” A glorificação era nos dias de Paulo, e ainda é, futura para todas as pessoas, à exceção do próprio Jesus, porém a idéia de Paulo é evidentemente que, uma vez que nossa glorificação é aqui e agora um ponto fixado no plano soberano de Deus, ela é já tão boa como se já fosse feita. O uso do tempo passado tem o propósito de fazer-nos cientes de que é absolutam ente impossível que nossa glorificação não aconteça. Tal é a segurança e certeza da esperança cristã. 234


O TRIBUNAL DO JUÍZO

DEUS JULGARÁ TODA A HUMANIDADE Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: “Aparlai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos. ” MATEUS 25.41 | A certeza do julgam ento final forma a moldura em que | se coloca a mensagem do Novo Testamento sobre a graça salvadora. Paulo em particular acentua esta certeza, ressaltando-a para os sofisticados atenienses (At 17.30,31) e expondo-a minuciosamente na primeira parte de Romanos, o livro do Novo Testamento que contém a apresentação mais completa do evangelho (Rm 2.5-16). E da “ira vindoura” no “dia da ira de Deus, quando seu justo juízo será revelado”, diz Paulo, quejesus Cristo nos salva (1 Ts 1.10; Rm 2.5; cf. Rm 5.9; Ef 5.6; Cl 3.6; Jo 3.36; Ap 6.17; 19.15). Por toda a Escritura, a indignação, ira, fúria de Deus, de que se fala com freqüência, é judicativa; estas palavras sempre indicam o santo Criador jul­ gando ativamente o pecado, do modo como a ira faz aqui. A mensagem do juízo vindouro para toda a humanidade, com Jesus Cristo completando a obra de seu reino mediatário, agindo como juiz em nome de seu Pai, estende-se por todo o Novo Testamento (Mt 13.40-43; 25.41-46; Jo 5.22-30; At 10.42; 2 Co 5.10; 2 Tm 4.1; Hb 9.27; 10.25-31; 12.23; 2 Pe 3.7; Jd 6-7; Ap 20.11-15). Quando Cristo voltar e a história se completar, todos os humanos de todas as eras ressuscitarão para o juízo e tomarão seu lugar perante o tribunal de Cristo. O evento é inimaginável, sem dúvida, mas a imaginação hum ana não é a medida do que o Deus soberano pode fazer e fará. 235


No juízo todos darão conta de si mesmos a Deus, e Deus, por meio de Cristo, “dará a cada um segundo o que tiver feito” (Rm 2.6; cf. SI 62.1-2; Mt 16.27; 2 Co 5.10; Ap 22.12). Os rege­ nerados, que, como servos de Cristo, aprenderam a amar a justiça e desejar a glória de um céu sagrado, serão reconhe­ cidos, e com base na expiação e mérito de Cristo em seu lugar, receberão o galardão que buscaram. Os restantes terão um destino proporcional ao modo cle vida ímpio que escolheram, e esse destino lhes virá de acordo com seu próprio demérito (Rm 2.6-11). O quanto eles conheceram cla vontade de Deus será o gabarito pelo qual seu demérito será medido (Mt 11.2024; Lc 11.42-48; Rm 2.12). O juízo demonstrará, e portanto finalmente reivindicará, a perfeita justiça de Deus. Em um mundo de pecadores, em que* Deus “permitiu que todos os povos andassem nos seus pró­ prios caminhos” (At 14.16), não é de admirar que a impie­ dade seja desmedida e haja dúvidas sobre se Deus, sendo soberano, pocle ser justo, ou, sendo justo, pode ser soberano. Mas, para Deus, julgar com justiça é sua glória, e o Juízo Final será sua autodefesa final contra a suspeita de que Ele cessará de preocupar-se com a justiça (SI 50.16-21; Ap 6.10; 16.5-7; 19.1-5). No caso daqueles que professam que são de Cristo, o retrospecto de suas palavras e obras reais (Mt 12.36,37) terá o mérito especial de revelar a evidência que mostra se sua profis­ são é fruto cle um coração regenerado honesto (Mt 12.33-35) ou meramente a repetição oral de uma religiosidade hipócrita (Mt 7.21-23). Todas as coisas sobre todas as pessoas serão expostas no Dia do Juízo (1 Co 4.5), e cada um receberá de Deus segundo o que realmente é. Aqueles cuja fé professada não se expressou em um novo estilo de vida, marcado por aversão ao pecado e obras de serviço consagrado a Deus e aos outros, estarão perdidos (Mt 18.23-35; 25.34-46; Tg 2.14-26). Os anjos caídos (demônios) serão julgados no último dia (Mt 8.29; Jd 6), e os santos serão envolvidos no processo (1 Co 6.3), embora a Escritura não revele seu exato papel. 236


O conhecimento do juĂ­zo futuro ĂŠ sempre um chamamento ao arrependim ento presente. Somente o arrependido estarĂĄ preparado para o juĂ­zo quando ele vier.

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INFERNO

OS MAUS SERÃO DESTINADOS AO INFORTÚNIO PERPÉTUO A morte e o inferno foram lançados para, dentro do lago de fogo. Esta é a, segunda morte, o lago do fogo. E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo. APOCALIPSE 20.14,15 | O secularismo sentimental da moderna cultura ociden| tal, com seu exaltado otimismo a respeito da natureza humana, sua idéia encolhida de Deus e seu ceticismo quanto a se a moralidade pessoal realmente importa — em outras palavras, seu declínio de consciência — torna difícil para os cristãos considerar seriamente a realidade do inferno. A reve­ lação do inferno na Escritura pressupõe uma profundidade de discernimento cla santidade divina e cla pecaminosidade hum ana e demoníaca que a maioria de nós não tem. Contudo, a doutrina do inferno aparece no Novo Testamento como algo cristão essencial, sendo nós chamados a com preen­ dê-la como Jesus e seus apóstolos a compreenderam. O Novo Testamento visualiza o inferno (geena, como Jesus o chama, o lugar de incineração, Mt 5.22; 18.9) como a morada final dos destinados ao castigo eterno no Juízo Final (Mt 25.41-4(5; Ap 20.11-15). Pensa-se nele como um lugar de fogo e escuridão (Jd 7,13), de choro e ranger de dentes (Mt 8.12; 13.42,50; 22.13; 24.51; 25.30), de destruição (2 Ts 1.7-9; 2 Pe 3.7; 1 Ts 5.3), e de torm ento (Ap 20.10; Lc 16.23) — em outras palavras, de total angústia e infortúnio. Se, como parece, estes 238


termos são simbólicos e não literais (fogo e escuridão seriam m utuam ente excludentes em termos literais), podemos estar seguros de que a realidade, que está além da nossa imagi­ nação, excede em terror o símbolo. O ensino do Novo Testa­ mento acerca do inferno apavora-nos e faz-nos mudos de horror, assegurando-nos que, como o céu será m elhor do que podemos sonhar, assim o inferno será pior do que podemos conceber. Tais são as perspectivas da eternidade, que precisam ser encaradas realisticamente agora. O conceito de inferno é o de uma relação negativa com Deus, uma experiência não tanto de sua ausência quanto de sua presença em ira e desagrado. A experiência da ira de Deus como um fogo consumidor (Hb 12.29), sua justa condenação por desafiá-lo e agarrar-nos aos pecados que Ele detesta, e a privação de tudo aquilo que é valioso, agradável e conveniente será a figura da experiência do inferno (Rm 2.6,8,9,12). O conceito é formado pela negação sistemática de cada elem en­ to na experiência da bondade de Deus, como os crentes a conhecem por meio da graça e como toda a hum anidade conhece por intermédio de misericordiosas providências (At 14.16,17; SI 104.10-30; Rm 2.4). A realidade, como acima foi dito, será mais terrível do que o conceito; ninguém pode imaginar quão ruim será o inferno. A Escritura vê o inferno como incessante (Jd 13; Ap 20.10). As especulações sobre uma “segunda oportunidade” após a morte, ou aniquilamento pessoal dos ímpios em algum está­ gio, não tem o endosso bíblico. A Escritura vê o inferno como auto-escolha; os que estive­ rem no inferno perceberão que sentenciaram a si mesmos ao castigo, amando as trevas e não a luz, preferindo não ter seu Criador como seu Senhor, escolhendo o pecado auto-indulgentc do que a retidão autonegada, e (se conheceram o evangelho) rejeitando Jesus em vez de ir a Ele (Jo 3.18-21; Rm 1.18,24,26,28,32; 2.8; 2 Ts 2.9-11). A revelação geral confronta toda humanidade com esta questão, e, deste ponto de vista, o inferno parece um gesto de respeito de Deus pela escolha humana. Todos recebem o que realmente escolheram, seja 239


para estar com Deus para sempre, adorando-o, ou sem Deus para sempre, adorando a si mesmos. Os que estiverem no inferno saberão não somente que o merecem por seus feitos, mas também que em seus corações o quiseram. O propósito do ensino bíblico sobre o inferno é levar-nos a apreciar, acolher com gratidão e preferir racionalmente a graça de Cristo, que nos livra dele (Mt 5.29,30; 13.48-50). É realmente uma compaixão pela humanidade o fato de Deus ser tão explícito na Bíblia acerca do inferno. Não podemos dizer que não fomos alertados.

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CÉU

DEUS ACOLHERÁ SEU POVO COM JÚBILO PERENE “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muüas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também. ” JO Ã O 14.1-3

| Céu, que tanto no hebraico como no grego é uma "™|™ palavra que significa “firmamento”, é o termo bíblico para casa ou morada de Deus (SI 33.13,14; Mt 6.9), onde está seu trono (SI 2.4); o lugar de sua presença, ao qual o Cristo glorificado retornou (At 1.11); onde a igreja militante c triunfante agora se unem para a adoração (Hb 12.22-25); e onde um dia o povo de C.ris to estará com seu Salvador para sempre (Jo 17.5,24; 1 Ts 4.16,17). Ele é retratado como um lugar de descanso (Jo 14.2), uma cidade (Hb 11.10), e um país (Hb 11.16). Em algum ponto futuro, ao tempo da volta cle Cristo para o juízo, ele tomará a forma de um cosmos recons­ truído (2 Pc 3.13; Ap 21.1). Pensar no céu como um lugar é mais correto do que errado, embora a palavra possa iludir. O céu aparece na Escritura como uma realidade espacial que toca e interpenetra todo o espaço criado. Em Efésios, Paulo localiza no céu tanto o trono de Cristo à mão direita do Pai (Ef 1.20) como as bênçãos espirituais c a vida ressurreta dos cristãos em Cristo (Ef 1.3; 2.6). Os “lugares ou regiões celestiais” cm Efésios 1.3,20; 2.6;

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3.10; e 6.12 é uma variante literária de “céu”. Paulo alude a uma experiência no “tcrceiro céu” ou “paraíso” (2 Co 12.2,4). Não há dúvida de que o céu do trono de Deus deve ser distinguido das regiões celestes ocupadas pelos poderes espirituais hostis (Ef 6.12). Um corpo de ressurreição adapta­ do à vida no céu espera por nós (2 Co 5.1-8), e naquele corpo veremos o Pai e o Filho (Mt 5.8; 1 Jo 3.2). Mas, enquanto estamos em nossos corpos atuais, as realidades do céu são invisíveis e normalmente imperceptíveis a nós, e as conhece­ mos somente pela fé (2 Co 4.18; 5.7). Entretanto, nossa conexão com o céu e seus habitantes, o Pai, o Filho, o Espírito, os santos anjos, e os espíritos demoníacos nunca devem ser esquecidos: porquanto é uma questão de sólido fato espiritual. A Escritura ensina-nos a formar nossa noção da vida no céu por (a) extrapolar da relação menos do que perfeita que temos agora com Deus o Pai, o Filho e o Espírito, com outros cristãos e com as coisas criadas para a idéia de uma perfeita relação, livre de toda limitação, frustração e fracasso; (b) eli­ minar de nossa idéia de uma vida vivida para Deus todas as formas de sofrimento, maldade, conflito e angústia, tais como as que experimentamos aqui na terra; e (c) enriquecer nossa imaginação com aquela felicidade futura, incluindo cada conceito de excelência e gozo natural que conhecemos. As visões da vida celestial em Apocalipse 7.13-17 e 21.1-22.5 aproximam-se de todas as três formas de concebê-la. De acordo com a Escritura, a constante alegria da vida no céu para os remidos será originada de (a) sua visão de Deus na face de Jesus Cristo (Ap 22.4); (b) sua contínua experiência do amor de Cristo, à medida que Ele lhes ministra (Ap 7.17); (c) sua comunhão com os amados e com todo o corpo dos re­ midos; (d) o contínuo crescimento, amadurecimento, apren­ dizado, enriquecim ento de capacidades e expansão de poderes que Deus tem em estoque para eles. O remido deseja todas estas coisas, e sem elas sua felicidade não pode ser completa. Mas no céu não haverá desejos insatisfeitos.

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Haverá diferentes graus de bem-aventurança e recompensa no céu. Todos serão abençoados até o limite do que possam receber, mas as capacidades serão variáveis de acordo com o que fazem neste mundo. Quanto às recompensas (uma área em que a irresponsabilidade atual pode trazer perm anente perda futura: 1 Co 3.10-15), dois pontos precisam ser enten­ didos. O primeiro é que, quando Deus recompensa nossas obras, Ele está coroando seus próprios dons, pois foi somente pela graça que aquelas obras foram realizadas. O segundo é que a essência da recompensa em cada caso será acima do que os cristãos mais desejam, ou seja, um aprofundam ento de sua relação de amor com o Salvador, que é a realidade para a qual aponta toda a imagétíca bíblica de coroas honoríficas, roupas e festas. A recompensa é semelhante à do namoro, com o enriquecimento da relação do mesmo amor por meio do casamento. Assim, a vida na glória celestial com preende ver a Deus em e por meio de Cristo e ser amado pelo Pai e pelo Filho, des­ cansar (Ap 14.13) e trabalhar (7.15), louvar e adorar (7.9,10; 19.1-5), e comunhão com o Cordeiro e seus santos (19.6-9). E essa vida não cessará (Ap 22.5). Sua eternidade é parte de sua glória; a continuidade infinita, podemos dizer, é a glória da glória.

Os corações na terra dizem no curso de uma jubilosa experiência: “Quero que isto nunca term ine.” Mas, invariavelmente, termina. Os corações dos que estão no céu dizem: “Quero que isto dure para sem pre.” E durará. Não pode haver melhor notícia que esla. 243


Indice de Assuntos por Ordem Alfabética s

Adoção 157 Adoração 92 Aliança 83 Amor 171 Anjos 60 Anüiiomiani.smo 168 Apóstolos 184 Arrependim ento 152 Ascensão 121 Auio-Existência 24 Auto-Revelação 21 Autoridade 15 Batismo 197 Bondade 43 Casamento 211 Ceia do Senhor 201 Céu 243 Conhecimento 17 Consciência 90 Criação 19 Culpa 11 Disciplina 204 Dons Espirituais 209 Duas Naturezas 102 Eleição 140 Encarnação 98 Entronizado 123 Esperança 173 Estado 219 Existência 24 Família 214 Glória 56 Hum anidade 66 Idolatria 58 Igreja 186 Iluminação 145 Impecabilidade 110 Incapacidade 81 Inferno 240 Iniciativa 175 Interpretação 6 Juram entos e Votos 180 Justificação 154 Legalismo 165 Lei 86 Lei em Ação 88 Liberdade 162

Mediação 125 Mestre 107 Milagres 54 Missão 207 Mistério 48 Mortalidade 227 Mundo 216 Nascimento Virginal 105 Obediência 112 Obras 149 Onipotência 33 Onisciência 29 Oração 177 Palavra e Sacramento 190 Paráclito 135 Pecado Imperdoável 225 Pecado Original 78 Perseverança 223 Predestinação 35 Presbíteros 192 Profetas 96 Queda 75 Raça Humana 69 Redenção Definitiva 131 Regeneração 147 Reino de Deus 182 Ressurreição 119 Ressurreição Geral 233 Revelação 3 Revelação Geral 9 Sabedoria 46 Sacramentos 194 Sacrifício 128 Salvação 138 Santidade 41 Santificação 159 Satanás 64 Segunda Vinda 230 Soberania 31 Testem unha Interior 13 Transcedência 26 T ransfiguração 117 Tribunal do Juízo 237 Trindade 38 Vocação 115 Vocação Eficaz 143


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