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Broadman VOLUME

PARTE

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Broadman


Volume 1 Comentário Bíblico Broadman


Comentário Bíblico Broadman Volume 1 Artigos Gerais Gênesis-Êxodo TRADUÇÃO DE ADIEL ALMEIDA DE OLIVEIRA


Todos os direitos reservados. Copyright (c) 1969 da Broadman Press. Copyright (c)1987 da JUERP,para a língua portuguesa, com permissão da Broadman Press. O texto bíblico, nesta publicação, é da Versão da Imprensa Bíblica Brasileira, baseada na tradução em português de João Ferreira de Almeida, de acordo com os melhores textos em hebraico e grego.

220.7 All-Com Allen, Clifton J., ed. ger. Com entário Bíblico Broadman: Velho Testam ento. E ditor geral: Clifton J. Alien. T radução de Adiei Almeida de Oliveira. Rio de Janeiro, Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1987. Vol. 1 Título original: The Broadman Bible Commentary 1. Bíblia — Velho Testam ento — Comentários. 2. Velho Testam ento — Comentários. I. Título.

3.000/1987 Código para Pedido: 21.636 Junta de Educação Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira Caixa Postal 320 — CEP: 20001 Rua Silva Vale, 781 — CEP: 21370 Rio de Janeiro, RJ, Brasil Impresso em gráficas próprias


Junta de Consultores

Clifton I. Allen, ex-Secretário Editorial, Junta Batista de Escolas Dominicais da SBC J. P. Alien, Pastor, Igreja Batista de Broadway, Forth Worth John E. Barnes, Jr., Pastor, Igreja Batis­ ta de Main Street, Hattiesburg Olin T. Binkley, Presidente, Seminário Teológico Batista do Sudeste, Wake Forest, North Carolina William J. Brown, Gerente, Departamen­ to Oriental, Livrarias Batistas, Junta Batista de Escolas Dominicais John R. Claypool, Pastor, Igreja Batista de Crescent Hill, Louisville, Kentucky Howard P. Colson, Secretário Editorial, Junta Batista de Escolas Dominicais Chauncey R. Daley, Jr., Editor, Western Recorder, Middletown, Kentucky Joseph R. Estes, Secretário, Departa­ mento de Obra Relacionada aos Nãoevangélicos, Junta Batista de Missões Nacionais da Southern Baptist Con­ vention William J. Fallis, Editor-Chefe, Livros Religiosos em Geral, Broadman Press Allen W. Graves, Deão, Escola de Edu­ cação Religiosa, Seminário Teológico Batista do Sul, Louisville, Kentucky Joseph F. Green, Editor, Livros de Estu­ do Bíblico, Broadman Press Ralph A. Herring, ex-Diretor, Departa­ mento de Extensão Seminarial, Con­ venção Batista do Sul Herschel H. Hobbs, Pastor, Primeira Igreja Batista, Oklahoma City

Warren C. Hultgren, Pastor, Primeira Igreja Batista, Tulsa Lamar Jackson, Pastor, Igreja Batista Meridional, Birmingham L. D. Johnson, Capelão, Universidade Furman J. Hardee Kennedy, Professor de Velho Testamento e Hebraico, Seminário Teológico Batista de New Orleans Herman L. King, Diretor, Divisão de Pu­ blicação, Junta Batista de Escolas Dominicais da SBC William W. Lancaster, Pastor, Primeira Igreja Batista, Decatur, Georgia Randall Lolley, Pastor, Primeira Igreja Batista, Winston-Salem C. DeWitt Mathews, Professor de Prega­ ção, Seminário Teológico Batista do Centro-Oeste John P. Newport, Professor de Filosofia da Religião, Seminário Teológico Ba­ tista do Sudoeste Lucius M. Polhill, ex-Secretário Exe­ cutivo, Associação Geral Batista de Virgínia Porter Routh, Secretário Executivo Te­ soureiro, Comissão Executiva, Con­ venção Batista do Sul John L. Slaughter, ex-Pastor, Primeira Igreja Batista, Spartanburg R. Houston Smith, Pastor, Primeira Igre­ ja Batista, Pineville, Louisiana James L. Sullivan, Secretário Executivo, Junta Batista de Escolas Dominicais Ray Summers, Presidente, Departamen­ to de Religião, Universidade de Bay­ lor Charles A. Trentham, Pastor, Primeira Igreja Batista, Knoxville Keith von Hagen, Diretor, Divisão de Livraria, Junta Batista de Escolas Dominicais J. R. White, Pastor, Primeira Igreja Ba­ tista, Montgomery Conrad Willard, Pastor, Igreja Batista Central, Miami Kyle M. Yates, Jr., Professor de Reli­ gião, Universidade Estadual de Okla­ homa


Colaboradores

Clifton J. Alien, Junta Batista de Escolas Dominicais (aposentado): Artigo Ge­ ral Morris Ashcraft, Seminário Teológico Batista do Centro-Oeste: Apocalipse G. R. Beasley-Murray, Faculdade Spur­ geon, Londres: II Coríntios T. Milles Bennett, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Malaquias Reidar B. Bjornard, Seminário Teológico Batista do Norte: Ester James A. Brooks, Seminário Teológico Batista de New Orleans: Artigo Geral Raymond Bryan Brown, Seminário Teo­ lógico Batista do Sudeste: I Coríntios John T. Bunn, Universidade Campbell: Cântico dos Cânticos; Ezequiel Joseph A. Callaway, Seminário Teológico Batista do Sul: Artigo Geral E. Luther Copeland, Seminário Teoló­ gico Batista do Sudeste: Artigo Geral Bruce C. Cresson, Universidade Baylor: Obadias Edward R. Dalglish, Universidade Bay­ lor: Juizes; Naum John I. Durham, Seminário Teológico Batista do Sudeste: Salmos; Artigo Geral Frank E. Eakin, Jr., Universidade de Richmond: Sofonias Clyde T. Francisco, Seminário Teológico Batista do Sul: Gênesis; I e I I Crôni­ cas; Artigo Geral D. David Garland, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Habacuque A. J. Glaze, Jr., Seminário Internacional Teológico Batista, Buenos Aires: Jo­ nas

James Leo Green, Seminário Teológico Batista do Sudeste: Jeremias Emmett Willard Hamrick, Universidade de Wake Forest: Esdras; Neemias William L. Hendricks, Seminário Teoló­ gico Batista do Sudoeste: Artigo Ge­ ral E. Glenn Hinson, Seminário Teológico Batista do Sul: I e I I Timóteo; Tito; Artigo Geral Herschel H. Hobbs, Primeira Igreja Ba­ tista, Oklahoma City: I e I I Tessalonicenses Roy L. Honeycutt, Jr., Seminário Teoló­ gico Batista do Centro-Oeste: Êxodo; I I Reis; Oséias William E. Hull, Seminário Teológico Batista do Sul: João Page H. Kelley, Seminário Teológico Ba­ tista do Sul: Isaías J. Hardee Kennedy, Seminário Teológi­ co Batista de New Orleans: Rute; Joel Robert B. Laurin, Seminário Americano Batista do Oeste: Lamentações John William Macgorman, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Gálatas Edward A. McDowell, Seminário Teoló­ gico Batista do Sudeste (aposentado): I, I I e I II João Ralph P. Martin, Seminário Teológico Fuller: I Reis Dale Moody, Seminário Teológico Batis­ ta do Sul: Romanos William H. Morton, Seminário Teológi­ co Batista do Centro-Oeste: Josué Barclay M. Newman, Jr., Sociedade Bí­ blica Americana: Artigo Geral


John P. Newport, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Artigo Geral John Joseph Owens, Seminário Teológico Batista do Sul: Números; Jó (com Tate e Watts); Daniel Wayne H. Peterson, Seminário Teológico Batista Golden Gate: Eclesiastes Ben F. Philbeck, Jr., Faculdade CarsonNewman: I e II Samuel William M. Pinson, Jr., Seminário Teo­ lógico Batista do Sudoeste: Artigo Geral Ray F. Robbins, Seminário Teológico Batista de New Orleans: Filemom Eric C. Rust, Seminário Teológico Batistista do Sul: Artigo Geral B. Elmo Scoggin, Seminário Teológico Batista do Sudeste: Miquéias; Artigo Geral Burlan A. Sizemore Jr., Seminário Teo­ lógico Batista do Centro-Oeste: A r­ tigo geral David A. Smith, Universidade Furman: Ageu Ralph L. Smith, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Amós

T. C. Smith, Universidade Furman: Atos; Artigo Geral Harold S. Songer, Seminário Teológico Batista do Sul: Tiago Frank Stagg, Seminário Teológico Ba­ tista do Sul: Mateus; Filipenses Ray Summers, Universidade Baylor: I e I I Pedro; Judas; Artigo Geral Marvin E. Tate, Jr., Seminário Teológico Batista do Sul: Jó (com Owens e Watts); Provérbios Malcolm O. Tolbert, Seminário Teológi­ co Batista de New Orleans: Lucas Charles A. Trentham, Primeira Igreja Batista, Knoxville: Hebreus; Artigo Geral Henry E. Turlington, Igreja Batista Uni­ versitária, Chapel Hill, Carolina do Norte: Marcos John S. W. Watts, Faculdade Serampore, Serampore. índia: Deuteronômio\ Jó (com Owens e Tate); Zacarias R. E. O. White, Faculdade Teológica Batista, Glasgow: Colossenses


Prefácio O COMENTÁRIO BÍBLICO BROADMAN apresenta um estudo bíblico atualizado, dentro do contexto de uma fé robusta na autoridade, adequação e confiabilidade da Bíblia como a Palavra de Deus. Ele procura oferecer ajuda e orientação para o crente que está disposto a empreender o estudo da Bíblia como um alvo sério e compensador. Desta forma, os seus editores definiram o escopo e propósito do COMENTÁRIO, para produzir uma obra adequada às necessidades do estudo bíblico tanto de ministros como de leigos. As descobertas da erudição bíblica são apresentadas de forma que os leitores sem instrução teológica formal possam usá-las em seu estudo da Bíblia. As notas de rodapé e palavras são limitadas às informações essenciais. Os escritores foram cuidadosamente selecionados, tomando-se em consideração sua reverente fé cristã e seu conhecimento da verdade bíblica. Tendo em mente as necessidades de leitores em geral, os escritores apresentam informações especiais acerca da linguagem e da história onde elas possam ajudar a esclarecer o significado do texto. Eles enfrentam os problemas bíblicos — não apenas quanto à linguagem, mas quanto à doutrina e à ética — porém evitam sutilezas que tenham pouco a ver com o que devemos entender e aplicar da Bíblia. Eles expressam os seus pontos de vista e convicções pessoais. Ao mesmo tempo, apresentam opiniões alternativas, quando estas são esposadas por outros sérios e bem-informados estudantes da Bíblia. Os pontos de vista apresentados, contudo, não podem ser considerados como a posição oficial do editor. O COMENTÁRIO é resultado de muitos anos de planejamento e preparação. A Broadman Press começou em 1958 a explorar as necessidades e possibilidades deste trabalho. Naquele ano, e de novo em 1959, líderes cristãos — especialmente pastores e professores de seminários — se reuniram, para considerar se um novo comentário era necessário e que forma deveria ter. Como resultado dessas deliberações, em 1961, a junta de consultores que dirige a Editora autorizou a publicação de um comentário em vários volumes. Maiores planejamentos levaram, em 1966, à escolha de um editor geral e de uma Junta Consultiva. Esta junta de pastores, professores e líderes denominacionais reuniu-se em setembro de 1966, revendo os planos preliminares e fazendo definidas recomendações, que foram cumpridas à medida que o COMENTÁRIO se foi desenvolvendo. No começo de 1967, quatro editores consultores foram escolhidos, dois para o Velho Testamento e dois para o Novo Testamento. Sob a direção do editor geral, esses homens trabalharam com a Broadman Press e seu pessoal, a fim de planejar o COMENTÁRIO detalhadamente. Participaram plenamente na escolha dos


escritores e na avaliação dos manuscritos. Deram generosamente do seu tempo e esforços, fazendo por merecer a mais alta estima e gratidão da parte dos funcionários da Editora que trabalharam com eles. A escolha da Versão da Imprensa Bíblica Brasileira “de acordo com os melhores textos em hebraico e grego” como a Bíblia-texto para o COMENTÁRIO foi feita obviamente. Surgiu da consideração cuidadosa de possíveis alternativas, que foram plenamente discutidas pelos responsáveis pelo Departamento de Publica­ ções Gerais da Junta de Educação Religiosa e Publicações. Dada a fidelidade do texto aos originais bem assim à tradução de Almeida, amplamente difundida e amada entre os evangélicos, a escolha justifica-se plenamente. Quando a clareza assim o exigiu, foram mantidas as traduções alternativas sugeridas pelos próprios autores dos comentários. Através de todo o COMENTÁRIO, o tratamento do texto bíblico procura estabelecer um a combinação equilibrada de exegese e exposição, reconhecendo abertamente que a natureza dos vários livros e o espaço destinado a cada um deles modificará adequadamente a aplicação desta abordagem. Os artigos gerais que aparecem no Volume 8 têm o objetivo de prover material subsidiário, para enriquecer o entendimento do leitor acerca da natureza da Bíblia. Focalizam-se nas implicações do ensino bíblico com as áreas de adoração, dever ético e missões mundiais da igreja. O COMENTÁRIO evita padrões teológicos contemporâneos e teorias mutáveis. Preocupa-se com as profundas realidades dos atos de Deus na vida dos ho­ mens, a sua revelação em Cristo, o seu evangelho eterno e o seu propósito para a redenção do mundo. Procura relacionar a palavra de Deus na Escritura e na Palavra viva com as profundas necessidades de pessoas e da humanidade, no mundo de Deus. Mediante fiel interpretação da mensagem de Deus nas Escrituras, portanto, o COMENTÁRIO procura refletir a inseparável relação da verdade com a vida, do significado com a experiência. O seu objetivo é respirar a atmosfera de relação com a vida. Procura expressar a relação dinâmica entre a verdade redentora e pessoas vivas. Possa ele servir como forma pela qual os filhos de Deus ouvirão com maior clareza o que Deus Pai está-lhes dizendo.


Nota do Editor Para o Volume 1 Revisado A Editora Broadman é o departamento geral de publicação de livros da Junta de Escolas Dominicais da Convenção Ba­ tista do Sul dos Estados Unidos e, por­ tanto, está sujeita ao controle da Con­ venção. O seu programa de publicações é executado por oficiais administrativos que agem segundo a orientação e a polí­ tica de membros eleitos pela Convenção. Em 1969, a Editora Broadman publicou o primeiro volume do THE BROAD­ MAN BIBLE COMMENTARY, uma obra em doze volumes, destinada ao sério estudo da Bíblia, como parte dos com­ promissos programáticos correntes da Junta de Escolas Dominicais. Esta revisão do Volume 1 é publicada em resposta às decisões dos mensageiros de 1970 e 1971 da Convenção Batista do Sul, tendo sido estas decisões interpreta­ das pelos membros eleitos da Junta de Escolas Dominicais e implementadas pe­ los oficiais administrativos da Junta. Clyde T. Francisco foi encarregado de escrever um novo comentário sobre o li­ vro de Gênesis, para este volume. Bar-

clay H. Newman, Jr., foi convidado a escrever um novo artigo a respeito de “As Escrituras Traduzidas” , visto que o escritor deste artigo anteriormente pu­ blicado pediu que a sua obra não fosse usada neste Volume 1 revisado. A lista de colaboradores para todo o Comentário foi atualizada. Todo o outro material é idêntico ao do volume publicado em 1969. Abreviaturas ASV Heb. IBB

— American Standard Version — Hebraico — Imprensa Bíblica Brasileira (Versão Revisada) IDB — Interpreter’s Dictionary o f the Bible Int. — Introdução JBL — Journal o f Biblical Literature KJV — King James Version lit. — literalmente LXX — Septuaginta marg. — margem RSV — Revised Standard Version


Sumário Artigos Gerais O Livro da Fé Cristã

Clifton J. A lle n ....................

17

As Escrituras Traduzidas

Barclay M. Newmàn, Jr. ..

35

A Interpretação da Bíblia

John P. N ew port..................

51

A Geografia da Bíblia

B. Elmo Scoggin..................

63

A Arqueologia e a Bíblia

Joseph A. Callaway ............

73

O Cânon e o Texto do Velho Testamento

Burlan A. Sizemore, Jr . . . .

83

A História de Israel

Clyde T. Francisco ............

93

A Teologia do Velho Testamento

E .C .R u s t............................

111

Abordagens Contemporâneas no Estudo do Velho Testamento

John I. D urhan....................

131

Gênesis

Clyde T. Francisco

Introdução..............................................................................................................

145

Comentário Sobre o T ex to ....................................................................................

171

Êxodo

Roy L. Honeycutt, Jr.

Introdução.................................................... .........................................................

367

Comentário Sobre o T e x to ....................................................................................

385


Artigos Gerais


O Livro da Fé Cristã Clifton J. Allen Começamos com a afirmação de que a Bíblia é a Palavra de Deus. Mas não po­ demos parar neste ponto. Os crentes pre­ cisam fazer algo mais do que simples­ mente louvar a Bíblia. Precisam estar preparados para se haverem com sérias interrogações a respeito da Bíblia. Estas interrogações são feitas não apenas por céticos e cínicos; são feitas também por estudantes devotos e aplicados da Bíblia. Empenhar-se em um estudo assim apli­ cado acarreta a necessidade de enfrentar todas as interrogações válidas a respeito da natureza e da autoridade da Bíblia, e uma mente aberta para avaliar a vali­ dade de suas declarações e a integridade de seu testemunho. Não temos razão para evitar essas interrogações. A Bíblia não está correndo o perigo de embaraço ou de extinção! Os crentes também precisam tornar-se mais conscientes dos questionamentos realistas, mas freqüentemente hostis e céticos do mundo incrédulo e secular a respeito da Bíblia. Esses questionamen­ tos exigem respostas, que são dadas por um conhecimento exato e profundo da Bí­ blia e por uma fé reverente, nutrida por uma compreensão inteligente desse Li­ vro. Uma opinião acerca da Bíblia que não sofreu ataques da ignorância do pre­ conceito, da incredulidade ou do orgulho humanista, pode não ser de confiança, porque não foi testada. Uma fé que não faz perguntas dificilmente é fé, porque não procura significado nenhum. Apropriadamente, perguntamos a res­ peito da Bíblia: Qual é a sua natureza? Como chegou até nós? Qual é a base de sua autoridade? Qual é a sua importân­ cia e qual o seu significado? Ao conside­

rarmos estas perguntas, é essencial ter­ mos em mente o que é a Bíblia. Mais do que qualquer outra coisa, ela é um re­ gistro e uma interpretação da auto-revelação de Deus ao homem: é a narrativa autêntica da revelação de Deus em Jesus Cristo, para a redenção do homem. É a história da salvação:1 o propósito salva­ dor, os atos salvadores, a graça salvadora e o poder salvador do Senhor; a missão salvadora do povo de Deus; e a consuma­ ção da obra salvadora de Deus através do senhorio de Cristo. Este conceito sobre que é a Bíblia é a perspectiva básica, da qual este artigo procurará explorar inter­ rogações importantes a respeito da Bí­ blia.

I. A Natureza da Bíblia Está na hora de perguntar agora: Qual é a natureza da Bíblia? Em que sentido a Bíblia é a Palavra de Deus? Por que ela é tão difícil de se entender? Como é que um livro tão antigo tem importância atemporal? As respostas a estas pergun­ tas — e a outras de igual importância — exigem uma compreensão amadurecida do que é a Bíblia e uma percepção pene­ trante quanto aos seus antecedentes, suas características e seu propósito central. 1. Origem, Ambiente Formativo e Cultura Antes de tudo, que seja observado que a Bíblia é de origem antiqüíssima. Os primeiros capítulos falam a respeito da criação do Universo e do homem, a res­ 1 Cf. A. M. H unter, The Message of the New, Testa­ ment, particularm ente as p. 11 e 12.

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peito de Deus e de sua maneira de agir para com o homem, desde o começo do mundo, e a respeito de acontecimentos que precedem uma identificação históri­ ca exata. E, em seguida, a narrativa co­ meça a contar a história de Abraão e seus descendentes, estando estes fatos locali­ zados em cerca de 2000 a.C. O relato es­ crito da história contínua de Deus e seu povo se estende até cobrir o primeiro século da era cristã. Desta forma, a Bí­ blia precisa ser entendida como um livro muito antigo. Além disso, a Bíblia chegou a nós a partir de um cenário semita, isto é, o cenário do Oriente Próximo antigo. A Bí­ blia tem a ver especialmente com os descendentes de Abraão, o povo escolhi­ do de Deus, que habitou a terra de Canaã, uma faixa estreita ao longo do litoral oriental do Mediterrâneo. Essa pequena área era uma espécie de ponte ou via de contato entre o povo da região do vale do Tigre-Eufrates, a leste, e o povo do vale do Nilo, a sudoeste. O próprio Abraão representava o povo se­ mita que vivia no sudoeste da Ãsia: babi­ lônios, assírios, arameus, cananeus e fe­ nícios. Reconhecemos também que o povo da Bíblia expressa a cultura que era a sua herança e o seu ambiente formativo. O Velho Testamento reflete o ambiente agrícola e a experiência vivencial do povo de Israel, mas revela também a crescen­ te influência do desenvolvimento urba­ no. A maneira de o povo pensar em Deus em termos antropomórficos, como inti­ mamente associado com as coisas da natureza, como vingador e como sendo parcial, em favor do povo de Israel, ex­ pressa o impacto de sua herança cul­ tural. E a maneira como esse povo pen­ sava a respeito da família — da figura autoritária do marido e pai, da subser­ viência e inferioridade das mulheres e da importância de ter filhos — era também influenciada pela sua cultura. O seu con­ ceito da ordem material como expressão 18

imediata da presença e do poder de Deus e as suas fortes tendências para a ido­ latria mostram o impacto entre os con­ ceitos culturais e a prática. As formas de pensamento e conceitos que aparecem no decorrer da Bíblia são a expressão na­ tural da experiência desse povo. Ao tempo do Novo Testamento, os judeus da Palestina sentiam grande anti­ patia e até amarga hostilidade, em mui­ tos casos, contra os gentios. Através do mundo romano, o envolvimento no co­ mércio e negócios, nas grandes cidades do império, contribuiu para a comuni­ cação, o entendimento e, em alguns ca­ sos, para um certo grau de boa vontade. Todavia, o Novo Testamento propria­ mente dito, com o seu evangelho dinâ­ mico da redenção de Deus em Cristo, reflete a sua origem e ambiente cultural na herança judaico-cristã no contexto da civilização greco-romana. O Novo Tes­ tamento chegou até nós a partir de um ambiente judaico, através da língua gre­ ga, vindo de uma vida sob o controle de Roma, e de uma intenção divina, me­ diante a qual o evangelho não reconhece diferença de raça, língua ou cultura, e se destina a todos os povos, todas as cultu­ ras e todas as gerações. 2. Literatura de Muitos Tipos e Formas A Bíblia é muito mais do que uma coleção de obras literárias religiosas. Pa­ ra ser entendida adequadamente, ela precisa ser considerada como literatura de diferentes espécies e formas. Se al­ guém analisa a Bíblia cuidadosamente, para distinguir várias formas literárias, encontrará exemplos das seguintes: his­ tória, lei, poesia, drama, profecia, litera­ tura de sabedoria, literatura apocalípti­ ca, hinos, antemas, sermões, discursos, cartas, epopéias, acrósticos, genealogias, listas estatísticas, parábolas, alegorias e histórias. Para fins práticos, não é essen­ cial um conhecimento das distinções mais refinadas das formas literárias; mas, para uma compreensão madura da


Bíblia, o reconhecimento de que ela é literatura de vários tipos é imperativo. Os primeiros cinco livros da Bíblia vieram a ser chamados de “a Lei” . Mas o Pentateuco é muito mais do que Lei, como forma literária. O livro de Gênesis é histórico, biográfico e teológico. Há material semelhante nos quatro livros se­ guintes. Mas nesses quatro livros temos a lei, que se tornou o mandato e o livro de texto para a adoração de Deus, para a conduta moral do homem, e para a vida do homem em comunidade e nas rela­ ções interpessoais. Inevitavelmente, mui­ tas das leis refletem o impacto da situa­ ção cultural de Israel, a imaturidade do povo, em seu desenvolvimento espiritual e moral, e o esforço dos líderes divina­ mente chamados para cultivar fidelidade a Deus e justiça e retidão entre o povo. A parte seguinte, do Velho Testamen­ to, é geralmente considerada como uma seção de livros históricos. Na Bíblia he­ braica, os livros de Josué a II Reis eram conhecidos como os Profetas Antigos. Os Profetas Posteriores incluíam Isaías e Jeremias e os últimos doze livros do Velho Testamento. Estes dois grupos, comumente chamados de Profetas, como seção das Escrituras Hebraicas, desta forma incluíam a maior parte do mate­ rial histórico do Velho Testamento, e quase todos os materiais proféticos — uma combinação de história e profecia. A História — e isto incluiria livros que não os mencionados acima — conta a história desse povo e outros aconteci­ mentos: de sofrimento, luta, sucesso, fra­ casso, apostasia, arrependimento e reno­ vação, fidelidade e rebeldia. Os fatos da História eram recordados com realismo, mostrando o povo no que tinha de pior e de melhor, mostrando como ele entende­ ra mal os propósitos de Deus e por vezes agira de maneira completamente estra­ nha à natureza de Deus, embora dissesse estar fazendo a vontade de Deus, e mos­ trando como Deus agia para revelar-se, para executar juízo, para derramar mise­

ricórdia e bênçãos, para vencer a igno­ rância e a perversidade de seu povo e para levar avante o seu propósito em Israel. A história de Israel não pode ser enten­ dida à parte da profecia. È bom que seja lembrado que os profetas declararam a palavra de Deus ao povo em suas respec­ tivas gerações. Profecia não é primordial­ mente uma predição dos eventos futuros, mas uma proclamação de julgamento ou consolação ou dever ou propósito em relação ao povo quanto à sua necessida­ de. Entendemos melhor os escritos profé­ ticos não como predições místicas de acontecimentos futuros, mas como decla­ rações intemeratas do propósito de Deus para com o seu povo em sua situação imediata. Dado este fato, contudo, não podemos deixar passar despercebido que muitos dos profetas declararam a pala­ vra de Deus com aplicação no futuro, indicando as direções do propósito de Deus para com o seu povo, a promessa iniludível de sua redenção para lodo o povo, e a consumação inarredável de seu reino de justiça e paz. Grande parte do Velho Testamento é de poesia. Tirando-se os livros estrita­ mente poéticos, poemas são encontrados nos livros da lei, nos históricos e nos pro­ féticos. É importante reconhecer que a poesia precisa ser entendida como poe­ sia, embora seja um veículo de revelação divina. Ela depende de imagens e figuras de linguagem. O elemento de sensações e emoção é dominante. A verdade é ex­ pressa imaginativamente, e precisa ser entendida através da imaginação. Um esforço para entender a poesia com base na redação literal ignora a natureza da poesia, e leva a um inevitável mal-enten­ dido de seu significado. A poesia da Bíblia, em consonância com a natureza da verdadeira poesia, é a expressão de intensos sentimentos, que incluem temor, tanto quanto confiança; ira, bem como bondade; concupiscência, assim como pureza; ódio, como amor; 19


autopiedade, assim como autoconfiança; e desespero, como esperança. O indício para a interpretação exige aplicação de percepção poética. O livro de Jó é quase inteiramente poético. Mas ele é também um exemplo de drama. Daí, uma outra forma literá­ ria é usada para ensinar a necessidade de uma verdadeira compreensão do proble­ ma do sofrimento humano. A intensida­ de do sofrimento de Jó e a natureza do problema enfrentado fizeram do drama o meio mais eficiente da verdade, a verda­ de finalmente revelada a Jó através da auto-revelação de Deus, em sua sobera­ nia, sua justiça e sua grandeza. Outro tipo de literatura é conhecido como literatura de sabedoria. Ele é re­ presentado especialmente por Provérbios e Eclesiastes, no Velho Testamento, e pela Epístola de Tiago, em o Novo Testa­ mento. O livro de Jó também pode ser identificado como literatura de sabedo­ ria. As obras de sabedoria, embora ado­ tando várias formas literárias, represen­ tam a sabedoria destilada da experiência humana e estabelecem os valores e virtu­ des, os princípios e discernimentos que podem compor a filosofia de vida de uma pessoa, particularmente em termos da escolha de alvos e do seguimento de padrões que contribuam para a integri­ dade, harmonia, reverência, castidade, diligência, confiança própria e realiza­ ção. Quando chegamos ao Novo Testamen­ to, imediatamente nos defrontamos com os Evangelhos. Quanto à forma literária, eles combinam história, biografia, pará­ bola, discursos extensos, diálogo e ora­ ção. Mas os Evangelhos são peculiares. Eles são documentos de fé. Falam de uma figura central: Jesus Cristo. São o registro dramático de Jesus em ação, do que ele disse e fez, do impacto de sua personalidade sobre outras pessoas, do que outras pessoas pensaram a respeito dele e como elas reagiram a ele, e, final­ mente, da auto-entrega de Jesus na cruz 20

e sua ressurreição dentre os mortos. Os Evangelhos como literatura nunca po­ dem ser separados da realidade viva e do impacto dinâmico do Filho do Homem. O livro de Atos é a segunda parte da história de Lucas-Atos. Por conseguinte, ele mantém a relação mais íntima possí­ vel com os Evangelhos — e é quase uma série de reportagens. Ele fala do que os seguidores de Jesus fizeram e ensinaram na consciência de sua presença viva com eles e através do poder de Seu Espírito. As cartas do Novo Testamento têm muito em comum, como forma literária, mas variam grandemente em extensão, propósito e estilo literário, e auditório pretendido. Algumas delas foram escri­ tas para igrejas, algumas para indiví­ duos, algumas para grupos esparsos de cristãos, e algumas para destinatários desconhecidos, não identificados. Estas cartas, inclusive as dirigidas às sete igre­ jas, no livro do Apocalipse, constituem uma interpretação do evangelho de Cris­ to, um retrato da vida e da prática da igreja neotestamentária, e um registro do m inistério, fidelidade, perseguição, luta e esperança da parte de pessoas empenhadas no serviço de Jesus Cristo. Uma característica dessas cartas, natu­ ralmente, é o elemento pessoal, a relação do escritor com os seus leitores (em al­ guns casos, com uma pessoa). Ele escre­ veu para compartilhar a sua experiência e preocupação, consciente do laço de co­ munhão cristã. A Bíblia inclui ainda outro tipo de li­ teratura conhecida como apocalíptica. Os dois principais livros de literatura apocalíptica são Daniel e Apocalipse. Esta espécie de literatura foi o produto de épocas de intensa crise para o povo de Deus. Ela era marcada por uma forte preocupação escatológica, uma expecta­ tiva e uma focalização na manifestação dinâmica de Deus em juízo. O estilo da literatura apocalíptica era a apresenta­ ção de verdades por meio de imagens e símbolos que representavam forças ma­


lignas, o sofrimento e a recompensa do povo de Deus, e os atos poderosos de Deus em juízo, em libertação e vitória, Deve-se abordá-la com a percepção inteli­ gente de que o arcabouço de símbolos e imagens aponta para pessoas, aconte­ cimentos e forças no longo e distante passado. Mesmo assim, a verdade a res­ peito da completa soberania e do eterno propósito de Deus, que deu encoraja­ mento e consolo ao seu povo no passado, é igualmente relevante para o povo de Deus através dos séculos que se vão pas­ sando. Portanto, entenderemos que a Bíblia é um exemplo de variegadas formas literá­ rias. Deus usou a habilidade e os inte­ resses de muitos escritores como veículo de sua revelação. Os muitos tipos de obras literárias contribuíram para uma riqueza de significado e uma diversidade e profundidade de interesse humano. Uma percepção adequada dos elementos característicos de estilo e forma literária propiciarão chaves para uma compreen­ são mais plena da mensagem da verdade. 3. Revelação Divina Através de Veículos Humanos A Bíblia é uma revelação divina. Este é, na verdade, o aspecto mais significa­ tivo de sua natureza, a explicação de seu significado e a base de sua autoridade. Não podemos parar, todavia, nestas afir­ mações. Precisamos explorar em profun­ didade o que significa revelação, o que significa inspiração, como estes dois ele­ mentos se relacionam, como devem ser entendidos à luz de tudo o que podemos conhecer a respeito da natureza da Bíblia e como ela nos chegou às mãos pela pro­ vidência de Deus. O que é revelação? — Revelação é a verdade que nos veio de Deus. Deus falou ao homem de muitas maneiras: através do mundo natural, através dos julgamen­ tos da história humana, através de provi­ dências na experiência pessoal e através

da voz interior da consciência. Mas a Bíblia é o relato peculiar do autodesvendamento de Deus. Ela é o relato escrito de suas palavras e atos. Desde o princípio até o fim, a Bíblia declara que Deus se revelou ao homem, e que ela mesma, a Bíblia, é uma narrativa de crédito dessa revelação. Frases como as seguintes ocorrem repetidamente no decorrer do Velho Testamento: “Disse Deus” ; “o Senhor falou” ; “Deus orde­ nou” ; “ a palavra de Deus veio” ; “Deus tomou conhecido” ; “o Senhor apare­ ceu” . Elas representam um número mui­ to maior de fórmulas de revelação. A Bí­ blia também fala repetidamente do que Deus fez, dos seus atos de criação, de julgamento, de libertação, de eleição, de direção, de consolação, de destruição, de manifestação, de cura e de soberania dominante. Deus agiu para se fazer co­ nhecido de seu povo e para realizar o seu propósito através dele. Mas o supremo ato da revelação de Si próprio, por parte de Deus, a respeito de que a Bíblia fala, foi a Sua vinda em Jesus Cristo. “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigénito do Pai” (João 1:14). A palavra de Deus foi falada ao homem pela Palavra viva. “ Havendo Deus anti­ gamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nes­ tes últimos dias a nós nos falou pelo Filho” (Heb. 1:1,2). Esta declaração su­ blime da Epístola aos Hebreus congrega toda a verdade a respeito de revelação, e nos apresenta a chave da Bíblia como uma revelação de Deus. O Velho Testa­ mento apontava para a vinda de Alguém que seria o agente da redenção de Deus. O Novo Testamento fala de sua vinda, de sua vida sem pecado e de seu ministério autodoador, de sua morte, de sua ressur­ reição, de sua salvação e de seu senhorio; e declara que nele toda a plenitude da divindade habitou corporalmente (Col. 2:9). 21


Agora estamos preparados para consi­ derar a Bíblia como um todo. Ela deve ser considerada à luz da perfeita revela­ ção de Deus em Jesus Cristo. A suprema revelação de Deus é uma Pessoa. Tudo o que a Bíblia nos fala a respeito de Deus, sua natureza, seus atos e do que várias pessoas entenderam a respeito dele ou lhe atribuíram, precisa ser interpretado e colocado em harmonia com a natureza, a verdade, o amor e o propósito de Deus em Cristo. Este fato reconhece que mui­ tas pessoas a quem Deus falou “ de mui­ tas maneiras” antes da vinda de Cristo não entenderam Deus perfeitamente, não apreenderam o seu propósito plenamente e não podiam conhecer a sua vontade claramente. Os exemplos do Velho Testamento, de aparente conflito com o fato de que Deus é amor, segundo muita gente diz, são simplesmente mistérios de onisciência, e, portanto, não devem ser questionados. Tais pessoas abordarão quaisquer misté­ rios desnorteantes das Escrituras desta forma, e ficarão satisfeitas. Por outro lado, muitas outras pessoas insistirão que a Bíblia, embora seja a revelação de Deus que tem autoridade completa, pode ser corretamente entendida, corretamen­ te interpretada, tão-somente à luz plena da verdade de Jesus Cristo, a Palavra viva, a completa e perfeita revelação de Deus. Essas pessoas afirmarão que isto está em harmonia com o propósito eterno de Deus de que todas as coisas no céu e na terra e debaixo da terra se submete­ rão ao senhorio de Cristo. As Sagradas Escrituras devem ser melhor entendidas à luz do que ele ensinou, do que ele fez e de quem ele é, como a Palavra de Deus. Inspiração e revelação. — Duas passa­ gens da Escritura imediatamente vêm à nossa mente: primeiro, as palavras de Paulo a Timóteo: “Toda Escritura é divi­ namente inspirada e proveitosa para en­ sinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o ho­ mem de Deus seja perfeito, e perfeita­ 22

mente preparado para toda boa obra” (II Tim. 3:16,17); depois, de II Pedro: “Ne­ nhuma profecia da Escritura é de par­ ticular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos ho­ mens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo” (1:20,21). Estas passagens, e outras, di­ reta ou indiretamente, afirmam que a Bíblia é uma revelação inspirada. Termos como os seguintes são usual­ mente aplicados a inspiração: inspira­ ção verbal, inspiração plenária e inspira­ ção dinâmica. A conotação ou significa­ do ligado a estas palavras varia ampla­ mente. A questão, em grande parte, resi­ de no grau de inerrância das palavras da Escritura e o conceito de unidade na mensagem da Escritura. A opinião da inspiração verbal é geral­ mente aplicada às Escrituras na língua original, e não a traduções subseqüen­ tes, embora, na verdade, esta opinião freqüentemente seja entendida e defen­ dida principalmente em relação a tradu­ ções para o vernáculo. Na Inglaterra e nos Estados Unidos há um grande movi­ mento que defende a inspiração verbal da tradução King James (do Rei Tiago, de 1011). Embora aqui, mais uma vez, haja variações do significado dado à ins­ piração verbal, os defensores desta opi­ nião dizem que os escritores da Bíblia foram inspirados ao ponto de usar as próprias palavras dadas por Deus para expressar a sua verdade. Portanto, as Escrituras são inerrantes e infalíveis. Isto, obviamente, reduz o escritor qua­ se ao equivalente a uma ferramenta nas mãos de Deus, e torna-o virtualmente um agente completamente controlado por Deus. Embora poucas pessoas pensantes concordem que inspiração verbal seja essencialmente um ditado divino, escrito quase que mecanicamente, o processo não deixa quase campo para uma ação responsável ou um envolvimento pessoal da parte do escritor. Há muitas pessoas que esposam este ponto de vista acerca


da inspiração, e o consideram plenamen­ te satisfatório, em consonância com o seu conceito da soberania e sabedoria de Deus, e da iniciativa de Deus na revela­ ção. Elas acham que qualquer transigên­ cia desta posição leva a um abalo da autoridade bíblica. Outra opinião acerca da Bíblia pode ser descrita como inspiração plenária. Este termo tem várias conotações. O cerne deste ponto de vista é que a Bíblia é plenamente inspirada, mas não verbal­ mente inspirada. Os escritores não eram agentes controlados ao ponto de não terem utilizado a sua experiência e o seu conhecimento. Mas eles foram ilumina­ dos tão completamente, tão guiados pelo Espírito de Deus e cheios de seu poder, que foram preservados de qualquer erro, ao transmitir a revelação divina. Daí, a Bíblia é totalmente inspirada, e a revela­ ção, inerrante, quanto a fatos, aconteci­ mentos e doutrina. Esse ponto de vista acerca da inspiração, satisfatório e aceito por um grande número de crentes sinceros e interessados, inclusive eruditos compe­ tentes, procura evitar uma parte do ex­ tremo literalismo e dos elementos rigida­ mente controlados de inspiração verbal, enquanto, ao mesmo tempo, mantém um conceito de inerrância prática de toda a Bíblia e de suas diferentes partes. Outro conceito de inspiração pode ser identificado como dinâmico. Admitimos que esta designação carece de precisão, porque a realidade que ela identifica é marcada por mistério e complexidade. No entanto, essencialmente, este ponto de vista sustenta que as Escrituras Sagra­ das vieram a existir e receberam o seu caráter de revelação de Deus com autori­ dade através da ação do Espírito de Deus, cujo poder vivificador, iluminador e orientador fez de homens escolhidos os veículos do propósito de Deus. As Escri­ turas são de fato inspiradas (“sopradas por Deus”), porque a sua verdade é de Deus e acerca de Deus. “Homens da parte de Deus falaram movidos pelo Es­

pírito Santo” (II Ped. 1:21). De maneiras que não podemos entender e através de processos que não podemos identificar, Deus escolheu e equipou muitas pessoas para registrar os seus atos, para interpre­ tar os seus propósitos e para declarar a sua palavra. De acordo com esta opinião, a inspira­ ção da Bíblia é muito mais o fato de ela ser completa e adequada como registro escrito da auto-revelação de Deus e como guia para o homem em todos os assuntos de fé e prática, do que uma questão de inerrância em redação e analogia e certos detalhes a respeito de pessoas e aconteci­ mentos. A inspiração é mais uma ques­ tão da mensagem da salvação de Deus do que o método ou processo pelo qual ela foi reduzida à forma escrita. A autorida­ de da Bíblia reside em sua integridade e unidade, à luz da verdade de Deus em Cristo. A opinião de inspiração dinâmica re­ pousa solidamente na repetida declara­ ção, encontrada nas Escrituras, de que através delas Deus fala ao homem. Esta opinião se baseia, mais uma vez, em a natureza inerente das Escrituras como tesouro peculiar de sabedoria divina, que se enquadra na totalidade da experiência humana quanto à fé religiosa, ao dever moral e à responsabilidade ética. A Bí­ blia continua a falar, em princípio bási­ co, a todas as gerações, com relevância e atualidade: ela continua a declarar a palavra do Deus vivo ao homem vivo, na situação humana contemporânea. Este ponto de vista se baseia, além disso, no fato de que as Escrituras são eficientes na experiência humana para alcançar os propósitos de Deus. Exem­ plos importantes desta verdade são en­ contrados nas seguintes passagens: Sal­ mos 119:9,11; João 5:39; 20:31; Roma­ nos 15:4; Hebreus 4:12; II Pedro 1:1619; e Romanos 1:16. A evidência e prova da inspiração da Escritura é que ela é de fato “proveitosa para ensinar, para re­ preender, para corrigir, para instruir em 23


justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra” (II Tim. 3:16,17). A verdade da revelação bíblica é sopra­ da por Deus. Ela é habitada pelo Espí­ rito do Deus vivo. Ela é eficiente para a regeneração e santificação. Ë redentora e reconciliadora. Conseqüentemente, uma opinião dinâmica de inspiração se foca­ liza na verdade que tem sua essência, propósito e autoridade em Jesus Cristo. Portanto, um ponto de vista dinâmico de inspiração não depende de uma inerrância mística, inexplicável e não verifi­ cável de cada palavra da Escritura ou do conceito de que a inspiração não pode permitir erros de fato ou de substância. Pelo contrário, ele aceita a Bíblia total­ mente como inspirada: inerrante como a única testemunha completamente autên­ tica da auto-revelação de Deus em Cristo e de sua salvação através de Cristo; iner­ rante porque a sua verdade é o perfeito instrumento do Espírito para levar os homens à fé, justiça e esperança; e iner­ rante porque o seu ensinamento, inter­ pretado pela vida e obra de Cristo, é o guia infalível de como o povo de Deus deve viver e no que ele deve crer, sem dúvida alguma, sob a direção do Espírito de Cristo. Talvez haja necessidade, a esta altura, de enfatizar que as diferentes opiniões acerca da inspiração não subsistem sem problemas nem sem interrogações não respondidas. Estas devem ser enfrenta­ das com honestidade e objetividade. Os seguintes problemas são inerentes à opinião de inspiração verbal: (1) Visto que pessoas falíveis copiaram os manus­ critos originais através de centenas de anos, com exatidão meticulosa, mas não sem erros, e visto que outras pessoas falíveis traduziram as Escrituras origi­ nais para diferentes línguas, e visto que há variações textuais nos manuscritos existentes mais dignos de confiança, o valor de um original verbalmente infalí­ vel está perdido para a presente e para as 24

futuras gerações, não estando disponível nenhuma cópia da obra original. (2) Cuidadosa leitura e exame das Es­ crituras revelam algumas contradições óbvias ou discrepâncias, não envolvendo nenhuma doutrina de maior importância ou questão básica, mas suficiente para constituir um problema quanto à invali­ dez da inspiração verbal. Dois exemplos servem para ilustrar este ponto: A refe­ rência a Abiatar (Mar. 2:26) e a Abimeleque (I Sam. 21:1) é inconsistente. Em um lugar se diz que o Senhor incitou Davi a fazer um recenseamento; em ou­ tro, que foi Satanás (II Sam. 24:1; ICrÔn. 21:1). (3) A inspiração verbal parece submer­ gir a instrumentalidade humana ao pon­ to de que os escritores da Bíblia eram menos do que livres em sua reação à vontade do Espírito de Deus. (4) A inspiração verbal tende a colocar toda a Bíblia no mesmo nível de inspira­ ção e revelação divina. (5) A inspiração verbal acarreta sérias dificuldades quanto à interpretação, por­ que a redação de várias passagens, direta ou indiretamente, parece atribuir a Deus atos e atitudes em desarmonia com a sua natureza como de santo amor e clara­ mente em conflito com o exemplo e o ensino de Jesus (cf. Deut. 17:2-7; II Sam. 21:1-9 em relação com Deut. 24:16; Sal. 69:22-28; 109:6-19; 137:7-9; I Crôn. 13: 9,10). (6) A inspiração verbal parece requerer explicações que tornam a própria inspi­ ração verbal irreal. Por exemplo, Maria se refere a José como pai de Jesus (Luc. 2:48). O que Maria queria dizer é facil­ mente explicado, a não ser que o intér­ prete esteja restrito à inerrância verbal. (7) A inspiração verbal parece irrecon­ ciliável com o que parecem ser fatos que se originam de pesquisa objetiva e estudo sério da Bíblia. As evidências confirmam uma autoria múltipla do Pentateuco, aproveitando-se de fontes orais e escritas, e por fim envolvendo compilação e edi­


ção, coisas que parecem forçar a opinião de inspiração verbal ao ponto de ser irreal. Grande parte do Velho Testamen­ to acarretaria um problema semelhante. Lucas explica com cuidado (1:1-4) o seu método de pesquisa e fontes de informa­ ção, coisa de pequena importância se cada palavra que ele escreveu foi virtual­ mente ditada pelo Espírito Paulo admite que algumas de suas declarações são suas, e não de Deus (I Cor. 7:12,25; cf. 8-10,40). Sem dúvida, muitas das con­ clusões dos estudos críticos não podem ser provadas dogmaticamente, mas fatos estabelecidos e identificáveis servem para trazer à tona as questões a respeito da exeqüibilidade da inspiração verbal, mais do que para confirmá-la como pon­ to de vista aceitável. Uma opinião de inspiração plenária acarreta grande parte dos problemas já mencionados a respeito da inspiração verbal, sendo as diferenças especialmen­ te uma questão de grau. Particularmen­ te, esta opinião acarreta os problemas de uma vontade divina virtualmente impos­ ta aos escritores da Bíblia, a subserviên­ cia dos achados dos estudos críticos como controvertendo a plena inspiração e atri­ buindo a Deus atos e atitudes aparente­ mente em desarmonia com a sua revela­ ção em Cristo. Ela legitima muitas das declarações das Escrituras como revela­ ção, embora elas pareçam ser resultado da fraqueza humana e uma compreensão errada de Deus. Este ponto de vista reconhece muito pouco o aspecto pro­ gressivo da revelação. A opinião da inspiração dinâmica se­ melhantemente acarreta problemas; pro­ blemas peculiares a si própria. (1) Ela enfrenta a necessidade de reconhecer e de dar o devido valor a muitas declara­ ções bíblicas que parecem dar a entender ou enfatizar o elemento de inspiração plena, se não verbal. E também ela pre­ cisa explicar estas declarações sem a distorção de pressuposição e interpretálas sem perder o impulso de sua impli­

cação sobrenatural. (2) Este ponto de vis­ ta acarreta a tentação de depender de­ masiadamente dos critérios e da sabedo­ ria humanos, para distinguir entre o que é claramente a palavra falada do Senhor e os mal-entendidos dos homens a res­ peito dos propósitos e da vontade do Senhor. (3) Este ponto de vista acarreta a tendência — que se toma real em dema­ siados casos — de minimizar o elemento de inspiração divina e dar mais atenção ao veículo humano de inspiração. (4) Es­ te ponto de vista acarreta a obrigação — muitas vezes menosprezada pelos erudi­ tos críticos — de reconhecer o elemento de fé reverente como a chave para o entendimento das Escrituras e de reco­ nhecer que muitas questões difíceis a res­ peito da natureza da Bíblia não são resol­ vidas com os recursos da pesquisa crí­ tica, mas pela confiança em Deus com humildade. (5) Os que advogam esta opi­ nião têm a obrigação de carrear para a Bíblia um maior grau de estudo discipli­ nado, para encontrar os níveis mais pro­ fundos de verdade e um grau maior de sensibilidade para a dinâmica do Espí­ rito vivo, a fim de ouvir a voz do Senhor através do Espírito. Para o escritor deste artigo, os proble­ mas da opinião de inspiração dinâmica, embora reais, não invalidam esta opinião acerca das Escrituras. Os problemas são resolvidos por fé reverente no Senhor das Escrituras e nas próprias Escrituras co­ mo a Palavra de Deus, em integridade e unidade em Cristo. Eles são resolvidos com a abertura da mente para a verdade e os frutos de pesquisa objetiva. E, além disso, são resolvidos pela submissão ao Espírito Santo, que interpreta a Palavra de Deus em Cristo para todas as pessoas que desejam conhecer a mente de Cristo e fazer a vontade do Senhor. Pessoas de propósitos fervorosos para com Deus e de fortes convicções a res­ peito da revelação dele nas Escrituras te­ rão opiniões diferentes a respeito de sua inspiração. Cada pessoa pode buscar 25


uma compreensão mais plena da Bíblia como base para achar o ponto de vista que torna a Bíblia mais significativa no contexto de sua própria experiência. Algumas declarações sumárias, relati­ vas à revelação e à inspiração, podem ser feitas agora. (1) A opinião que uma pes­ soa tem a respeito de revelação e inspi­ ração não deve ignorar os achados da pesquisa objetiva e do exame crítico. (2) Uma opinião aceitável acerca da ins­ piração e da revelação precisa permitir a tradução das línguas originais das Escri­ turas e admitir as variações nos textos disponíveis das Escrituras Hebraica e Grega e suas implicações, baseadas em conhecimento irrefutável. (3) Muitas questões que não têm perspectiva de serem resolvidas. “Prova” , em qualquer sentido exato ou dogmático, é dificilmen­ te apropriada para a opinião que uma pessoa tenha quanto à revelação e inspi­ ração. Crença no fato da inspiração é essencial; uma opinião acerca do método da inspiração é secundária em impor­ tância. (4) Deve-se lembrar que títulos e inscrições e assuntos deste jaez, na Bí­ blia, são adições editoriais, e não parte dos textos originais das Escrituras. (5) Algumas declarações a respeito de revelação são o resultado da afinidade hebraica-com o antropomorfismo — co­ mo a declaração de que Deus deu a Moisés duas tábuas de pedra escritas pelo dedo de Deus (Êx. 31:18). (6) Os textos de prova são muitas vezes aplica­ dos a um ponto de vista de revelação e inspiração, para sustentar conclusões questionáveis. Por exemplo, Jesus disse que nem um jota nem um til passará da lei — evidentemente a Lei mosaica — sem que tudo seja cumprido (Mat. 5:18); e isto é alegado por algumas pessoas para estabelecer a inerrância e infalibilidade das Escrituras. Indubitavelmente, Jesus, com infinita sabedoria, usou uma figura de linguagem para enfatizar uma ver­ dade. Ele dificilmente queria fazer uma referência a pequenos sinais de es­ 26

crita; de outra forma, como poderia ele separar palavras explícitas da Lei (Mat. 5:33,34, 38-39; cf. Êx. 21:24; Lev. 19:12; Núm. 30:2; Deut. 19:21; 23:21)? (7) As Escrituras são uma revelação progressiva de Deus, e, por isso, uma revelação pro­ gressiva com a sua culminação perfeita e absoluta no Verbo que se fez carne em Cristo. (8) O fato da revelação e inspi­ ração divinas não é, de forma alguma, dependente de uma opinião determinada acerca da inspiração, e não corre ne­ nhum perigo por causa da pesquisa críti­ ca e do estudo erudito. Deus usa veículos humanos. — Atra­ vés desses veículos, a revelação inspirada é dada aos homens. A Bíblia é um livro divino-humano. Deus revelou-se a pes­ soas vivas. Deus falou aos homens, e eles relataram o que ele disse: contaram o que ele fez. Eles passaram esse registro à geração seguinte, e à seguinte, e à se­ guinte, e assim por diante. Por um pe­ ríodo desconhecido de tempo, a revela­ ção foi comunicada quase que totalmente por tradição oral. Com o correr do tem­ po, a tradição tornou-se narrativas escri­ tas das palavras e atos do Senhor. Quan­ do isto transpirou pela primeira vez, e até que ponto, ninguém sabe. Moisés escre­ veu as palavras do Senhor (Êx. 24:4). Quanto Moisés escreveu não pode ser determinado com qualquer exatidão, mas as referências à parte que ele teve em comunicar a revelação de Deus — espe­ cialmente mandamentos e estatutos — justificam a conclusão de que o que ele escreveu foi uma fonte importante, da qual, muitos anos mais tarde, os escrito­ res do Pentateuco se aproveitaram para fazer um relato confiável da revelação de Deus aos filhos de Israel e dos tratamen­ tos a que ele os submeteu. A ênfase que verificamos aqui é que Deus ordenou veículos humanos como canais de uma revelação escrita. Quantos escritores? Não o sabemos. Quem eram eles? Não o sabemos. Moisés, Samuel, Davi, Salomão e Esdras — Deus os usou.


Amós, Isaías, Jeremias e Ezequiel — Deus os usou. Mas houve outros, muitos outros, conhecidos e desconhecidos, que viveram durante um período de vários séculos, que foram movidos pelo Espírito Santo, para colocar em forma escrita a palavra de Deus. E, juntamente com os escritores, devem ser lembrados os que copiaram e compilaram os escritos e fi­ nalmente lhes deram a forma em que eles se tomaram, por fim, as Escrituras He­ braicas. Aconteceu semelhantemente com o Novo Testamento. Quantos foram os es­ critores e quem eram eles — não pode­ mos ter certeza. Mencionamos os nomes familiares: Paulo, Lucas, Marcos, Ma­ teus, João, Tiago, Judas e Pedro, e é forte a evidência para confirmar a contribui­ ção que eles fizeram. Mas, semelhante­ mente, as evidências suscitam interroga­ ções com respeito a pelo menos alguns deles. A identidade de outros escritores é um mistério ainda maior. O fato de que a revelação de Deus veio através de veículos humanos explica mui­ ta coisa a respeito da Bíblia. Explica, em grande parte, a sua grande variedade de forma e qualidade literária, aspectos de seu interesse humano e diferentes dispo­ sições de ânimo, e vários níveis de per­ cepção espiritual e testemunho ético. Permitam-nos enfatizar este princípio de revelação. O tesouro de revelação inspirada, a verdade da revelação bíbli­ ca, chegou até nós através de “vasos de barro” . Os escritores eram homens. Eles eram finitos e falíveis. Eram humanos, e, por isso, sujeitos a limitações de conhe­ cimentos e entendimento. Mas eram pes­ soas através de quem o poder transcen­ dente de Deus operou — vivificando, iluminando, guiando e capacitando-os para serem os canais da mensagem sal­ vadora de Deus em Cristo. As Sagradas Escrituras têm o seu caráter essencial em sua natureza como revelação inspirada de Deus. Apontando para Cristo e en­ contrando a sua unidade e o seu signifi­

cado em Cristo, elas são a Palavra de Deus.

II. Da Revelação Para o Livro Outra pergunta que merece conside­ ração é: Como foi que a revelação de Deus se tomou o Livro da Escritura Sagrada? Os desenvolvimentos não são determináveis por evidências objetivas, catalogadas e verificadas. Chega-se a eles por implicações e deduções, a partir do testemunho interno das Escrituras e do que a pessoa crê acerca da forma como Deus realiza o seu propósito para se re­ velar. A princípio, a revelação foi preservada e comunicada por transmissão oral, que se tomou, com o passar dos tempos, tradição oral. Aqui, tradição de forma alguma subentende irrealidade ou algo que seja indigno de confiança. Desde quando o homem foi criado, Deus reve­ lou-se ao homem; e este começou a pas­ sar às gerações sucessivas a narrativa da experiência e o depósito de verdade que se originavam dos tratamentos de Deus para com ele e a sua maneira de entender os propósitos de Deus. Parece que a mente hebraica tinha uma capacidade peculiar de memória. Daí a variegada experiência cultural, de pessoas e lugares, de geografia e de his­ tória, de ritual e de adoração, de leis e costumes, foi entregue à memória. Os líderes de tribos e de famílias assumiram um papel responsável em passar adiante essas tradições, sendo as mais impor­ tantes as que se relacionavam com as palavras e atos do Senhor. A crescente experiência religiosa do povo que adorava a Deus tomou-se outro meio para se receber, interpretar e comu­ nicar a revelação. Deus tratou com o seu povo — disciplinou-o, deu-lhe manda­ mentos, manifestou-lhe a sua glória, exe­ cutou julgamento sobre ele, libertou-o, abençoou-o, entrou em aliança com ele e vocacionou líderes e profetas para lhe de­ clarar as suas palavras. Os anos torna27


ram-se décadas, e as décadas, séculos. Nesse ínterim, a experiência religiosa dos filhos de Israel, enriquecida:, por vezes, pela observância das festas e pela fideli­ dade na adoração, e pervertida, outras vezes, pela idolatria e iniqüidade e hipo­ crisia, tornou-se um veículo de revelação. Os acontecimentos da história de que os filhos de Israel participaram foram outro meio de revelação. Deus colocou o seu povo na terra de Canaã, cercado pelas nações do antigo Oriente Próximo. Os israelitas estavam na estrada das na­ ções, e, inevitavelmente, na corrente da História. O que aconteceu dentro e fora de Israel, nunca à parte do propósito e do poder soberanos de Deus, forneceu um veículo de acontecimentos de revelação. Neste mesmo contexto de experiência religiosa e acontecimentos históricos, Deus chamou profetas para declararem a sua palavra ao seu povo. A palavra de Deus veio aos profetas, e eles a declara­ ram fielmente. O ministério profético tornou-se o veículo mais excelente, na vida de Israel, para o depósito da revela­ ção. Foi a mensagem profética, tanto falada quanto escrita, que enunciou mais plenamente e interpretou mais claramen­ te a verdade a respeito de Deus, o seu propósito para com o seu povo e a sua vontade e o caminho que ele preconizava para todos os homens. Estas todas eram fontes, quer diretas, quer indiretas, de que os sacerdotes, escribas, reis e profetas se aproveitaram para escrever as Escrituras do Velho Tes­ tamento. Em muitos casos, Deus falou diretamente a indivíduos escolhidos, que escreveram a verdade a eles revelada. Em muitos outros casos, as evidências suge­ rem fortemente, os escritores relataram os acontecimentos, mandamentos e ex­ periências de tradições e anais anteriores à sua época. E, desta forma, os oráculos de Deus se tornaram a revelação escrita do Velho Testamento. Exatamente quando as várias partes, os muitos livros, do Velho Testamento foram escritos é fato que não pode ser 28

determinado. O labor de escrita abran­ geu centenas de anos. Há um consenso quase geral, entre os eruditos, de que editores compilaram material escrito, produzido a partir das fontes descritas acima, e lhe deram forma permanente. Um estudo bíblico confiável mostrará que o Pentateuco existia essencialmente em sua forma presente deste 400 a.C., aproximadamente. Os livros de Josué, Juizes, I e II Samuel e I e II Reis eram conhecidos pelos judeus como os “Profe­ tas Anteriores” e, provavelmente, che­ garam à sua forma presente, em grande parte, entre 650 e 550 a.C. Os “Profetas Posteriores” — os livros de Isaías, Je­ remias e Ezequiel, e de Oséias até Malaquias — chegaram, provavelmente, à sua forma presente por volta de 200 a.C. Os “Salmos” — os livros poéticos, junta­ mente com Rute, Ester, Daniel, Eclesiastes, Esdras, Neemias e I e II Crônicas — foram escritos no decorrer de um longo período de tempo, e se tornaram uma coleção por volta de 132 a.C. Um concílio de rabis judaicos, em cerca de 90 d.C., aceitou os 39 livros do Velho Testamento como o Cânon Hebraico das Escrituras. Os mesmos 39 livros foram semelhante­ mente aceitos na tradição cristã. Algo da mesma espécie de desenvolvi­ mento aconteceu — em princípio, mas não em padrão — relativamente ao Novo Testamento. A suprema diferença foi que Jesus Cristo veio, a Palavra viva entre os homens. Alguns dos escritores o viram na carne, ouviram-no, tocaram-no e co­ nheceram o magnetismo de sua presença física, bem como o poder do seu Espírito vivo dentro deles. Os apóstolos eram pessoas que acompanharam Jesus desde o seu batismo por João até a hora de sua ascensão (At. 1:21,22). Os outros escri­ tores, podemos presumir seguramente, como Lucas, conheceram e conversaram com algumas pessoas “ que desde o prin­ cípio foram testemunhas oculares e mi­ nistros da palavra” (Luc. 1:2). Desta forma, o Novo Testamento originou-se de um relacionamento face a face dos após-


tolos com Jesus e de suas conversas face a face com ele depois de sua ressurreição, das tradições orais de testemunhas oculares do Senhor, da experiência re­ dentora de seguidores que haviam crido, dos acontecimentos históricos de teste­ munhas apostólicas, da koinonia da Igre­ ja viva, das tribulações, sofrimentos e perseguições pelo nome de Cristo, da visão do Cristo vivo e da comunicação direta da sua palavra de verdade, graça e vitória. Tanto quanto em relação ao Velho Testamento, o período em que foram escritos os 27 livros do Novo Testamento não pode ser fixado de maneira defini­ da. Cada livro, em certo sentido, subsis­ te isoladamente. Os eruditos têm opi­ niões várias, que serão abordadas na» introduções do comentário de cada livro. As evidências aceitas genericamente deli­ mitam o período em que esses livros foram escritos entre 50 e 100 d.C., em­ bora algumas evidências confirmem uma data posterior, para alguns livros, por exemplo, algumas das cartas gerais. Du­ rante o mesmo período, muitos livros cristãos foram escritos. Surgiu a questão: Quais dentre todas essas obras deviam ser reconhecidas como inspiradas e con­ tadas como parte das Escrituras? O teste de sua aceitação e valor por mais de três séculos — guiado, podemos estar certos, pelo Espírito Santo — levou à aceitação dos 27 livros que se tornaram o Novo Testamento. Por volta do fim do quarto século, esses livros haviam ganho aceita­ ção como sendo revelação dada por Deus, para os cristãos, através das eras futuras. “O cânon foi determinado pelo uso, pelo consentimento comum da co­ munidade cristã, testando os livros em sua vida diária, no decorrer de séculos; e não por autoridade formal” (F. W. Beare, IDB, I, 531). Uma palavra precisa resumir a ver­ dade, e dar a chave para o mistério e a realidade de a revelação inspirada ter-se tornado as Escrituras Sagradas: o sobe­

rano Espírito de Deus. Ele chamou e iluminou, guiou e capacitou, e moveu homens para falar da parte de Deus e em nome de Deus.

III. O Significado da Bíblia O significado da Bíblia baseia-se em características óbvias e importantes, a saber, a sua autoridade e a sua importân­ cia. 1. A Autoridade da Bíblia A autoridade da Bíblia, indubitavel­ mente, origina-se no fato de ela ser reve­ lação inspirada de Deus,. Considerada em sua integridade e unidade, ela é a Palavra de Deus. Por isso ela tem a autoridade de Deus por detrás dela. Ela é o mandato divino para a fé religiosa e para o dever moral da humanidade. Porém é necessário que se diga muito mais do que isto. Como é que a autorida­ de da Bíblia se relaciona com Jesus Cris­ to? Ele dizia ter toda a autoridade no céu e na terra. Ele exerceu autoridade sobre a natureza, a doença, os demônios e a morte. Deus “o fez Senhor e Cristo” (At. 2:36). A autoridade final e última sobre todas as pessoas e todas as coisas é o Cristo vivo. Segue-se, portanto, que a autoridade da Bíblia deve sempre ser vistá à luz do senhorio de Cristo. A sua autoridade reside não na inerrância de palavras e frases, ou na coerência per­ feita de todos os números e acontecimen­ tos ou no entendimento perfeito de Deus, da parte dos seus servos escolhidos. Pelo contrário, a sua autoridade está em seu testemunho autêntico de Jesus Cristo como o Verbo de Deus. E é bom que seja enfatizado que a maneira de uma pessoa entender quem é Cristo como o Filho de Deus e como o Verbo feito carne, enten­ der a sua obra salvadora através da sua morte e ressurreição e o seu senhorio eterno precisa ser testada pelo Novo Tes­ tamento. Uma verdadeira compreensão de Cristo e do que significa a sua autori­ dade não pode ser determinada por jul29


gamento subjetivo nem somente pela ex­ periência. A autoridade da Palavra escri­ ta encontra-se na autoridade da Palavra viva, através da direção do Espírito San­ to. Nesta base, o Novo Testamento deve ser aceito pelos crentes como o guia de autoridade para todos os assuntos de fé e prática. Portanto, a autoridade da Bíblia não é algo legal e judicial nem a compulsão do literalismo nem a obrigação de prova, mas a liberdade do senhorio de Cristo e a voz de seu Espírito. Essa autoridade é confirmada por aceitação interior, e não por declaração exterior. Por conseguinte, para concluir, “a autoridade da Escritu­ ra encontra-se no poder do Senhor vivo de autenticar a si mesmo, quando fala ao coração humano através das palavras e da Escritura” (Rolston: The Bibie and Christian Teaching, p. 34). 2. A Importância da Bíblia Mais uma vez, o significado da Bíblia deve-se à sua importância. Ela fala a todas as gerações. Isto é verdade, porque ela é a Palavra de Deus, que é eterna e imutável. E, também, ela fala a pessoas nos níveis mais profundos da experiência humana, às suas necessidades, aspira­ ções, possibilidades e responsabilidades como pessoas feitas à imagem de Deus. A Bíblia é sempre contemporânea, por­ que ela é a palavra da vida vinda do Senhor da vida. A relevância da Escritura é verificada também em sua dimensão universal. Ela declara a mensagem de Deus ao homem como homem — daí, a todos os grupos culturais, a todas as raças, a todas as nações e a todas as pessoas, não importa qual seja a sua condição social ou eco­ nômica, qual a sua situação humana. A Bíblia é importante para toda a humanidade, porque declara a mensa­ gem da salvação. Ela conta as boas-novas do amor de Deus por uma raça pecadora, fala da redenção de Deus através de Je­ 30

sus Cristo, de seu desejo de que todas as pessoas cheguem ao arrependimento e das riquezas da graça em Cristo, pelas quais todo aquele que invocar o nome do Se­ nhor será salvo (Rom. 10:13). Em ne­ nhum ponto a Bíblia é mais importante do que quando declara o fato da culpa universal do homem, devido ao pecado, o fato de que Jesus morreu pelos pecados do mundo, o fato de que Jesus ressusci­ tou dentre os mortos e o fato da certeza de que Jesus Cristo “pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, porquanto vive sempre para inter­ ceder por eles” (Heb. 7:25). Por esta razão, acima de tudo, a Bíblia é o Livro da fé cristã. A Bíblia é importante porque confron­ ta os crentes com o significado e as exi­ gências do discipulado cristão. Para eles, a Bíblia é o guia de doutrina e prática, de adoração e ministério, de comunhão e testemunho, de certeza e esperança, que tem autoridade divina. Visto que Jesus é Senhor, os ensinamentos de Jesus em o Novo Testamento e o exemplo de sua vida na carne precisam ser o critério mediante o qual se viva a vida cristã no mundo. A importância da Bíblia é expressa pelo apaixonado interesse de Deus pelo bem-estar de todos os homens. Por isso, ela declara a dignidade e o valor de todo homem, seja qual for a sua raça ou si­ tuação, como pessoa feita à imagem de Deus. Ela declara também o juízo de Deus sobre as pessoas que por orgulho, cobiça e concupiscência exploram outras pessoas e lhes roubam as oportunidades legítimas de realizar os mais elevados potenciais da personalidade. A Palavra de Deus proclama contra a opressão, a injustiça e a corrupção, e advoga a causa dos famintos, doentes e necessi­ tados. A Bíblia declara o senhorio de Cristo sobre a vida toda, sobre a ordem social e todas as pessoas que estão nela. O homem deve amar o seu próximo como


a si mesmo. O Livro da fé cristã é uma carta patente de justiça e paz na terra, e um comissionamento de ministério para pessoas necessitadas, em qualquer parte. A importância da Bíblia se origina do fato de que ela fala de maneira signifi­ cativa e confiante aos problemas da hu­ manidade em um universo dinâmico. Ciência, tecnologia, cibernética, pesqui­ sa, exploração do espaço, energia atômi­ ca e mudança social refletem as leis do Universo. Encontramos, na Bíblia, a pa­ lavra que nos dá uma perspectiva cristã: Deus em Cristo é o criador de todas as coisas (João 1:3); “nele subsistem todas as coisas” (Col. 1:17). O Deus que criou e controla o universo material é plena­ mente capaz de, com infinita sabedoria e poder, controlar o universo moral.Com Jó, podemos dizer: “Bem sei que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido” (Jó. 42:2). A Bíblia é importante porque ela en­ frenta honestamente as interrogações cruciantes da humanidade: Quem é Deus? Como é Deus? Que é o homem? Qual é o destino do homem? Como o homem pode conhecer Deus? Se um ho­ mem morrer, viverá de novo? Qual é o significado da existência? Qual é o signi­ ficado da História? Para que serve a vida? As respostas devem ser encontra­ das não na lógica ou na dogmática ou na prova cientifica, mas na experiência do homem com Deus, através da fé em Jesus Cristo, e na confiante comunhão com ele, através do Espírito. A Bíblia é importante porque ela enco­ raja esperança em Jesus Cristo. A sua ressurreição da sepultura declarou a sua vitória sobre o pecado e a morte. O seu reino é eterno. Ele voltará em glória e triunfo. “Segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova ter­ ra, nos quais habita a justiça” (II Ped. 3:13). O propósito eterno de Deus para a redenção do homem chegará ao seu cum­ primento em Cristo (Ef. 1:9,10).

IV. Como Se Aproximar da Bíblia Visto que a Bíblia é a Palavra de Deus para a vida do homem e visto que ela é o guia que tem autoridade em questões de experiência moral e espiritual e em todos os assuntos de fé religiosa e conduta moral, qual é a maneira correta de se aproximar da Bíblia? Com que atitude e objetivos os crentes devem ler e estudar a Bíblia? 1. A abordagem da Bíblia exige o reconhecimento de sua natureza e seu propósito e também a percepção dos atributos dela que influenciam a com­ preensão de sua mensagem e sua impor­ tância para a vida em nossa época. A Bí­ blia não é mágica. Ela é revelação. Ela é um livro divino-humano. Teve muitos es­ critores. Veio à existência através de um longo período, que cobre cerca de doze séculos ou mais. A princípio foi escrita em hebraico, aramaico e grego. A chave de sua mensagem e significado é Jesus Cristo, a Palavra viva. 2. A abordagem da Bíblia deve ser de reverência e fé. Ela fala acerca de Deus. A energia, sabedoria e direção do Espí­ rito Santo estão nela. O propósito de Deus é realizado por ela. A verdade re­ dentora, reconciliadora e santificadora de Deus é o seu conteúdo e dinâmica. Ela transpira interesse amoroso da parte do Deus de graça. Declara o julgamento moral do Deus justo. Fala com a autori­ dade do Deus soberano. Testifica da graça salvadora de Deus em Cristo. Co­ mo pode qualquer pessoa ousar manu­ sear o Livro sagrado sem que seja com reverência para com Deus e reverência pela verdade e poder de Deus em Cristo? Este livro reclama fé — não fé impen­ sada e bisonha, mas inteligente e con­ fiante. Ele é a narrativa única completa­ mente digna de confiança a respeito da plena revelação de Deus em Cristo e sua salvação através de Cristo. Para a pessoa que está disposta a crer na Bíblia, quan­ 31


do ela busca a verdade a respeito da Bíblia e na Bíblia, ela se tom ará vivifi­ cada, com significado e certeza. 3. A abordagem da Bíblia exige aber­ tura de mente, um espírito apto para aprender e uma sede de aprender. As laboriosas pesquisas empreendidas por lingüistas, arqueólogos, historiadores e eruditos bíblicos propiciaram um vasto acervo de conhecimento e percepção que enriquecem o estudo bíblico. O estudan­ te sério das Escrituras precisa estar dis­ posto a se empenhar em um estudo disci­ plinado, para aprender do trabalho dos outros. Porém, com abertura de mente para a verdade, sejam quais forem as suas fontes, ele precisa desenvolver pes­ soalmente faculdades críticas para testar os conceitos e pontos de vista dos outros, sempre provando novas idéias e concei­ tos, mediante a própria Bíblia e no labo­ ratório do discipulado obediente. Preci­ sa, além disso, pôr à prova esses concei­ tos e pontos de vista, lendo abundante­ mente a obra de muitos autores e usando o laboratório de experiência que os cris­ tãos maduros possuem. Finalmente, o teste de toda a verdade a respeito da Bí­ blia é a questão se ela contribui para uma fé mais vital na Bíblia, obediência mais completa aos seus ensinos e uma dedica­ ção mais significativa a Cristo, como Senhor. 4. A abordagem da Bíblia propria­ mente requer prontidão para obedecer aos seus mandamentos e prática discipli­ nada de seus ensinos. Ela é a voz da auto­ ridade divina. É a prescrição para rela­ cionamentos harmoniosos. É a diretriz para excelência moral na vida pessoal, princípios retos e amor cristão nos rela­ cionamentos sociais, e autodoação (abne­ gação) como a de Cristo e ministério às necessidades das outras pessoas. Acima de tudo, ela é uma conclamação a uma fé voluntária em Jesus Cristo como Salva­ dor e plena dedicação a ele como Senhor. A palavra de Deus penetra no coração obediente. Sua palavra deve ser trans­ 32

formada em experiência. “ A chave para a compreensão das Escrituras, tanto do Velho quanto do Novo Testamento, é o reconhecimento de Jesus como Senhor” (Rolston: ibid., p. 33). 5. A abordagem da Bíblia exige um senso de dependência do Espírito Santo e uma comunhão dinâmica com ele. Ho­ mens movidos pelo Espírito Santo fala­ ram da parte de Deus. Daí, pessoas aten­ tas ao Espírito, guiadas pelo Espírito, que receberam poder do Espírito e estão ansiosas para fazer a vontade do Espírito ouvem melhor a palavra que vem de Deus. Ele é o divino Conselheiro, o su­ premo Intérprete. Ele conhece a vontade de Deus. Ele faz da Palavra escrita uma palavra viva, escrita no coração, para ser “conhecida e lida por todos os homens” (II Cor. 3:2). Para Leitura Adicional CARTLEDGE, SAMUEL A. The Bible: God’s Word to Man. Philadelphia: Westminster Press, 1961. DODD, C. H. The Authority of the Bible. London: Collins Clear Type Press, Edição Revisada, 1960. HENRY, CARL F. H. Revelation and the Bible. Grand Rapids: Baker Book House, 1958. HUNTER, A. M. The Message of the New Testament. Philadelphia: Westminster Press, 1944. HUXTABLE, John. The Bible Says. Richmond: John Knox Press, 1962. Interpreter’s Dictionary of the Bible. Nashville: Abingdon, 1962. Veja os artigos: “Canon of the Old Testa­ ment” , R. H. Pfeiffer, Vol. A-D; “Canon of the New Testament” , F. W. Beare, Vol. A-D; “ Inspira­ tion and Revelation” , G. W. H. Lampe, Vol. E-J; “ Scripture, Au­ thority of” , Alan Richardson, Vol. R-Z. KELLY, BALMER H., Editor. Intro­ duction to the Bible. “The Layman’s


Bible Commentary” , Volume 1. Richmond: John Knox Press, 1959. ROLSTON, HOLMES. The Bible in Christian Teaching. Richmond: John Knox Press, 1962.

ROWLEY, H. H. The Relevance of the Bible. Carter Lane: England: James Clarke and Co., 1941. SMART, JAMES D. The Interpretation of Scripture. Philadelphia: West­ minster Press, 1961.

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As Escrituras Traduzidas Barclay M. Newman, Jr. Um engenheiro aeronáutico certa vez disse a um tradutor da Biblia que no campo da aeronáutica “translação é ques­ tão de vida e morte.” (*) Historicamen­ te, os tradutores da Bíblia têm sentido a mesma coisa em relação à sua responsa­ bilidade. A tradução das Escrituras co­ munica a mensagem que de fato faz di­ ferença entre vida e morte para todos nós. A tradução da Bíblia teve início séculos antes de Cristo, e continua hoje em uma escala mais ampla do que nun­ ca.

I. Antigas Traduções da Bíblia Targuns Aramaicos do Velho Testa­ mento. As “traduções” mais antigas (na verdade, paráfrases) de alguma porção da Bíblia são os targuns aramaicos do Velho Testamento, que surgiram para suprir as necessidades dos judeus pales­ tinos, que entendiam aramaico melhor do que o hebraico, que era a linguagem do Velho Testamento. Depois do Exílio, tornou-se costume, nas sinagogas pales­ tinas, acompanhar a leitura das Escri­ turas em hebraico com uma tradução aramaica. Hoje, manuscritos do targum existem para o Pentateuco, os livros pro­ féticos e a maior parte do restante do Velho Testamento. A Tradução Grega do Velho Testa­ mento. A tradução grega das Escrituras Hebraicas foi produzida especialmente para suprir as exigências de judeus nãopalestinos, cuja língua cotidiana era o grego. Tiáham necessidade disso espe(*) NOTA DO TRADUTOR: Em inglês, “ transla­ ção” e “ tradução” são a mesma palavra. Dai, um jogo de palavras impossível de seguir em português.

cialmente os judeus do Egito, e foi ali, em Alexandria, que o Pentateuco foi traduzido durante o reinado de Ptolomeu Filadelfo (285-246 a.C.). Durante os dois séculos seguintes o restante das Escritu­ ras Hebraicas foi traduzido para o grego. A tradição é de que esta obra foi feita por um grupo de setenta (ou setenta e dois) eruditos. Por isso, ela veio a ser conheci­ da como Septuaginta (LXX), que signifi­ ca “setenta” . Versões Siríacas. Já em 150 d.C., o Novo Testamento foi traduzido para o siríaco, dialeto do aramaico falado na Síria e na Mesopotâmia. Perto do fim do quarto século as versões siríacas existen­ tes foram revisadas, com base no grego, e a tradução resultante tornou-se conheci­ da como Peshitta, ou versão “simples” . Versões Latinas. A versão Latina An­ tiga, segundo se crê, data, aproximada­ mente, do mesmo tempo que as primei­ ras versões siríacas, e parece ter-se origi­ nado no Norte da Ãfrica, embora algu­ mas pessoas argumentem que tenha sido Antioquia da Síria, ou Roma, o seu lugar de origem. O Velho Testamento não foi traduzido diretamente do hebraico, mas da Septuaginta. Aparentemente, no quarto século havia várias versões latinas competindo umas com as outras. Desta forma, o Papa comissionou Jerônimo para revisar a Bíblia latina, o que ele fez usando o texto hebraico como base para a sua versão do Velho Testamento. A tradução de Jerônimo é conhecida como a Vulgata ou versão “comum” . Versões Cópticas. O cóptico é a forma modernizada da antiga língua egípcia; é escrito com caracteres gregos, com a adição de várias letras que representam 35


sons consonantais que não existem no grego. Já em 200 d.C., o Novo Testamen­ to foi traduzido para o saídico, um dos mais importantes dialetos cópticos, e no decorrer de um século a maior parte dos livros da Bíblia apareceu em saídico. Os tradutores usaram a Septuaginta como base para o trabalho com o Velho Testa­ mento. Mais tarde, foram feitas tradu­ ções em outros dialetos cópticos, sendo a mais importante a em boaírico, que final­ mente superou as outras versões cópticas. Outras Versões Antigas. A primeira versão em uma língua teutônica foi a Versão Gótica, feita pelo erudito Bispo Ulfilas, nos meados do quarto século. Uma tradução armênia foi feita no quin­ to século, por Meshrop, que inventou o alfabeto armênio, e por Sahak, o Patriar­ ca. Meshrop também inventou o alfabeto geórgio, embora não seja conhecido o autor da tradução das Escrituras em geórgio (quinto século).

II. A Bíblia em Inglês 1. Antes da Versão King James Indubitavelmente, a Versão do Rei Tiago (King James Version — KJV) é a mais notória de todas as traduções da Bíblia em inglês, e foi uma importante história de acontecimentos que levou à publicação desta versão. De fato, pode-se dizer que a história da Bíblia inglesa começou com a introdução do cristia­ nismo na Bretanha durante a primeira parte do terceiro século. Nesse primeiro estágio, a mensagem bíblica deve ter passado adiante em primeiro lugar oral­ mente, época em que os homens apresen­ tavam interpretações livres da Bíblia la­ tina no vernáculo. E também, através da arte, do cântico, do drama e do ritual, as verdades bíblicas foram comunicadas às massas. Pelo menos dois fatores impedi­ ram qualquer trabalho sério de tradu­ ção. O primeiro foi o medo da Igreja de perder o controle sobre as mentes do 36

povo, se lhe fosse permitido estudar as Escrituras por si mesmo; o segundo foi o analfabetismo generalizado. Tanto quanto se sabe, a primeira tra­ dução da Bíblia toda em inglês foi reali­ zada por John Wycliffe, que produziu o Novo Testamento no ano de 1380, se­ guido por toda a Bíblia um ou dois anos mais tarde. Visto que Wycliffe não co­ nhecia o grego, a sua tradução foi feita a partir do latim, e incluía os Livros Apó­ crifos. A esperança de Wycliffe era que a sua tradução alcançasse o povo comum; e isto foi por fim conseguido através da revisão de sua obra por seus colegas, pouco depois de sua morte, em 1384. William Tyndale produziu a primeira edição impressa da Bíblia inglesa. Por volta de 1510, ano em que Tyndale foi a Oxford, para estudar, havia acontecido um reavivamento de interesse por línguas antigas, inclusive pelo hebraico e o gre­ go, as línguas das Escrituras. Assim, quando Tyndale começou o seu trabalho com o Novo Testamento, por volta de 1522, foi capaz de usar o texto grego como base para a sua obra. Incapaz de receber apoio das autoridades eclesiásti­ cas inglesas, para os seus esforços, ele dirigiu-se à Alemanha, para conseguir esse apoio. Finalmente, na cidade de Worms, lugar em que Martinho Lutero havia sido levado a julgamento quatro anos antes, Tyndale publicou a sua pri­ meira edição do Novo Testamento, em 1525. No começo do ano seguinte, cópias de sua obra começaram a ser contraban­ deadas para a Inglaterra, onde foram ansiosamente recebidas pelas massas. Em 1530, Tyndale publicou o Pentateuco, e, no ano seguinte, o livro de Jonas. Em 1535, saiu uma edição corrigida de seu Novo Testamento revisado. Naquele mesmo ano, ele foi traído por um “ami­ go” , aprisionado e, um ano e meio mais tarde, morto por estrangulamento e quei­ mado em uma estaca. As suas últimas palavras foram: “ Senhor, abre os olhos do rei da Inglaterra.”


No outono de 1535, um monge agostiniano, chamado Miles Coverdale, tradu­ ziu o Novo Testamento. A sua obra, que ele admitiu ser baseada no latim e no alemão, e talvez ainda mais na obra de Tyndale, se destinava a tomar-se a pri­ meira Bíblia completa em inglês. Ele dedicou o seu trabalho ao Rei Henrique VIII, eliminou notas controversas e res­ taurou termos eclesiásticos favoritos, que haviam sido alterados por Tyndale, fa­ tores que fizeram de sua tradução um trabalho mais aceitável para os que esta­ vam em posição de autoridade. A primeira Bíblia a receber aprovação oficial na Inglaterra foi a chamada Bí­ blia de Matthew, por causa de sua cone­ xão com um certo Thomas Matthew. Mas, na verdade, Thomas Matthew pare­ ce ter sido o pseudônimo de John Rogers, amigo de Tyndale, que foi o primeiro dos protestantes a ser condenado à morte durante o reinado da infame Maria Tudor, mais conhecida como Bloody Mary (Maria, a Sanguinária). Em 1537, a Bí­ blia de Matthew foi publicada e aprova­ da por Henrique VIII para uso em leitu­ ras privadas. Até então não havia uma Bíblia que fosse oficialmente sancionada pelo rei e pelas autoridades eclesiásticas para uso na adoração pública. Foi oferecida a Coverdale a responsabilidade desta tare­ fa, cujo resultado foi a Bíblia Grande, publicada em 1539, única versão já auto­ rizada por um rei da Inglaterra. Até mesmo a KJV, freqüentemente mencio­ nada como Versão Autorizada, nunca recebeu o reconhecimento como tal por decreto oficial. Ordenou-se que a Bíblia Grande fosse colocada em todas as igre­ jas da Inglaterra. Durante os anos se­ guintes, restrições foram impostas à lei­ tura pública da Bíblia propriamente dita, e, em 1546, iniciou-se um esforço organizado para queimar todas as Bí­ blias, exceto a Bíblia Grande. As instáveis condições políticas da In­ glaterra, em seguida ao reinado de Hen­

rique VIII, fizeram necessário que os clérigos evangélicos e reformadores pro­ curassem refúgio fora do país. Um dos principais centros para onde essas pes­ soas fugiram foi Genebra, onde apare­ ceu, em 1560, a Bíblia de Genebra, com a ajuda de eruditos, como Coverdale, John Knox, João Calvino e Theodore Beza. Por várias razões, esta foi, sem comparação, a melhor Bíblia inglesa produzida até então: o Velho Testamen­ to seguia o texto hebraico mais de perto do que qualquer tradução anterior; as notas marginais não eram tão controver­ sas como nas traduções anteriores; e essa foi a primeira vez que foi usada a divisão em versículos na Bíblia toda, como à co­ nhecemos hoje. Além do mais, os tradu­ tores tiveram a vantagem de ser capazes de usar como base de seu trabalho a Bí­ blia Grande e a edição do Novo Testa­ mento feita por William Whittingham, em 1557. Por fim, a Bíblia de Genebra provou ser demasiada competição para a Bíblia Grande, mas houve forte oposição à sua adoção como Bíblia oficial para a Igreja da Inglaterra. Como tentativa para re­ solver essa situação, Matthew Parker, Arcebispo de Cantuária, propôs uma re­ visão da Bíblia por uma equipe de estu­ diosos. Por causa da predominância de bispos, nessa comissão, a tradução ficou conhecida como Bíblia dos Bispos. Ime­ diatamente depois de sua publicação, em 1568, ela tomou-se a Bíblia oficial da Igreja da Inglaterra, mas não podia com­ petir em popularidade com a Bíblia de Genebra. Embora a Igreja Romana, em princí­ pio, se opusesse à indiscriminada disse­ minação da Bíblia entre o povo comum, ela sentiu-se compelida a produzir uma Bíblia sua. O Novo Testamento apareceu em 1582 e recebeu o seu nome de Rheims, cidade francesa em que a tradu­ ção foi feita e impressa. Em 1609-1610, o Velho Testamento foi publicado em Douay, França. A Bíblia toda, conhecida 37


como Versão Douay, tornou-se a Bíblia oficial da Igreja Católica de fala inglesa. Ela se baseava na Vulgata, e não nas línguas originais da Escritura. 2. A Versão do Rei Tiago Quando o rei Tiago VI, da Escócia, tornou-se o rei Tiago I da Inglaterra, havia pelo menos três versões da Bíblia, em competição umas com as outras: a Bíblia de Genebra, a Bíblia Grande e a Bíblia dos Bispos. Tiago tinha pontos de vista fortemente protestantes, bem como um pronunciado interesse em estudos bíblicos e tradução da Escritura. Por isso, quando os puritanos lhe apresenta­ ram uma petição, em janeiro de 1604, requerendo que fosse feita uma nova tradução, eles se dirigiram ao homem certo. O trabalho da nova tradução começou em 1607, com um total de 47 tradutores trabalhando em seis comissões, duas das quais se reuniam em Cambridge, duas em Oxford e duas em Westminster. Cada comissão trabalhava em partes diferentes da Bíblia, e, mais tarde, uma comissão de revisão, consistindo de dois represen­ tantes de cada uma das seis comissões, se reuniu diariamente, durante nove meses, revisando as traduções. Uma revisão fi­ nal foi então feita por uma comissão de duas pessoas: Miles Smith, um dos tra­ dutores, e Thomas Bilson, que estava fora do grupo. A tradução, ou melhor, a revisão, foi publicada em 1611. Muito pode-se aprender a respeito do trabalho de tradução lendo-se as regras de procedimento e o prefácio. Infeliz­ mente, o prefácio não é incluído na maioria das edições da KJV; se ele tivesse sido publicado e lido cuidadosamente pelos leitores da KJV, muitos conceitos errados teriam sido evitados. Uma das regras mais importantes foi que a Bíblia dos Bispos devia ser seguida tanto quan­ to possível. Devia-se comparar o traba­ lho com outras traduções, especialmente as de Tyndale, Matthew, Coverdale, a 38

Bíblia Grande e a Bíblia de Genebra; e, de fato, a tradução de Tyndale e a Bíblia de Genebra foram seguidas mais de perto do que a Bíblia dos Bispos, o que pode considerar-se crédito para os revisores. “As velhas palavras eclesiásticas” de­ viam ser conservadas; as notas marginais deviam ser limitadas a explicações das palavras hebraicas e gregas; e as divi­ sões em capítulos e versículos deviam ser alteradas o mínimo possível da linha tradicional. Como acontece com muitas outras tra­ duções, a KJV teve que enfrentar uma longa luta para conseguir a aceitação po­ pular. Por decreto oficial, ela substituiu a Bíblia dos Bispos, mas levou meio século para tomar o lugar da Bíblia de Genebra, no uso popular. Houve muitas edições subseqüentes da KJV, algumas delas contendo numerosas modificações da edição “original” . De fato, a primeira impressão foi feita por duas imprensas, e não houve exata uniformidade entre as duas publicações. Então, a edição de 1613 teve bem mais de 300 alterações, decorrentes das duas publicações ini­ ciais. A “edição-padrão” da KJV, aquela com que os leitores estão familiarizados hoje em dia, é a edição de 1769, revisada por Benjamin Blayney, de Oxford. Pou­ cas modificações foram feitas desde en­ tão. Os homens envolvidos com a KJV re­ presentavam uma ampla variedade de antecedentes eclesiásticos, bem como a mais elevada erudição da época. E o fruto de seu trabalho deixou uma in­ fluência ampla e duradoura sobre a lite­ ratura inglesa e em outros aspectos da vida do mundo de fala inglesa. Não obs­ tante, a obra que eles realizaram não foi feita sem limitações. O texto grego dis­ ponível para eles era essencialmente o texto corrompido de Erasmo, e àquela época não havia nenhuma edição-padrão do Velho Testamento hebraico. Sobretu­ do, eles não tinham acesso a importantes versões antigas, como a Velha Latina e a


Velha Siríaca, e as descobertas de papi­ ros ainda deviam ser feitas posterior­ mente. 3. A Bíblia Inglesa Desde a Versão do Rei Tiago (KJV) The English Revised Version. Já em 1810, Herbert Marsh de Cambridge decla­ rou: “É provável que a nossa Versão Auto­ rizada sej a tão fiel como representação das Escrituras originais como podia sê-lo na­ quela época. Mas quando considera­ mos... que as fontes mais importantes de inteligência para a interpretação das Es­ crituras originais foram semelhantemen­ te abertas depois daquele período, não podemos pretender que a nossa Versão Autorizada não requeira emendas.” As suas palavras, evidentemente, represen­ tavam um sentimento disseminado entre os eruditos bíblicos de sua época. Porém só em 1870 a Igreja empreendeu uma ação oficial para iniciar a revisão neces­ sária. O propósito declarado era revisar a KJV, introduzindo, no texto, o mínimo possível de alterações; mas, no cômputo final, a quantidade de modificações foi enorme. Um total de 65 eruditos traba­ lhou na revisão. O Novo Testamento foi publicado em maio de 1881; o Velho e o Novo Testamentos foram publicados juntos em maio de 1885; e a revisão dos Livros Apócrifos foi completada em 1895. O Novo Testamento tomou-se imedia­ tamente um sucesso de vendas. Mas a sua popularidade teve vida curta, mesmo entre aqueles cujas simpatias eram as maiores. A razão para esta reação nega­ tiva foi o estilo do inglês, ou melhor, a falta de estilo do inglês. Os revisores haviam sido tão fiéis à ordem de pala­ vras no grego, que o inglês soava antinatural e era, muitas vezes, obscuro. The American Standard Version. Al­ guns eruditos americanos foram consul­ tados durante a preparação da ERV, mas o Comitê Americano não ficou in­ teiramente satisfeito com a publicação

final. Eles queriam uma eliminação mais ampla de palavras arcaicas e mais aten­ ção ao uso do inglês americano. Assim, o Comitê Americano decidiu publicar uma edição americana separada, e esta apa­ receu em agosto de 1901. Em alguns pontos houve melhoras sensíveis em rela­ ção à ERV, mas a ASV foi muito critica­ da, por usar “Jeová” onde os revisores ingleses haviam conservado “ Senhor” ou “Deus” . Mais do que isto, a ASV conser­ va a mesma fraqueza básica da ERV: o inglês não é natural. De ambas as ver­ sões tem sido dito corretamente que elas são fortes em hebraico e grego, mas fracas em inglês. Algumas das Primeiras Traduções Mo­ dernas Para o Inglês. Pelo menos três fatores contribuíram para o aparecimen­ to de várias traduções modernas para o inglês na primeira parte deste século. O primeiro foi a descoberta de importan­ tes manuscritos bíblicos antigos, que ca­ pacitaram o tradutor a chegar mais perto do que nunca do texto original. O segun­ do foi a descoberta de grande número de documentos no Egito, escritos em papiro, dados escritos miscelâneos da época do Novo Testamento, indicando que o grego do Novo Testamento era o grego comum da época. Terceiro, a cons­ ciência cada vez mais profunda de que traduções em linguagem arcaica ou em frases de som estranho simplesmente não comunicavam adequadamente a mensa­ gem da Bíblia. A primeira tentativa digna de nota para se fazer uma tradução modema para o inglês foi The Twentieth Century New Testament, que apareceu de uma forma experimental por um grupo anôni­ mo de vinte eruditos, entre 1898 e 1901, e em forma final em 1904. Na Inglaterra, Richard F. Weymouth, competente eru­ dito em Novo Testamento, fez uma tra­ dução que esperava fosse suplementar as versões “padrão” ; ela foi publicada pos­ tumamente em 1903. Em 1924, um gru­ po de três estudiosos publicou uma edi39


ção revisada de sua obra. Em 1943, foi publicada uma edição americana. Em 1913, James A. Moffatt, um es­ cocês que havia-se unido ao corpo do­ cente do Seminário Teológico União, em New York, publicou a sua tradução do Novo Testamento. Ele trouxe a lume o seu Velho Testamento em 1924, e a Bíblia toda em 1926 — e, mais tarde, uma versão revisada em 1935. O objetivo de Moffatt era “ apresentar os livros do Velho e Novo Testamentos em um inglês eficiente e inteligível” e “ ser exato e idio­ mático” . The New Testament, an American Transiation, feita por Edgar J. Goodspeed e publicada em 1923, fez para os que falam o inglês americano o que Mof­ fatt havia feito para os que falam o inglês britânico. Em 1927, um grupo de estu­ diosos, dirigido por J. M. P. Smith, levou ao prelo um Velho Testamento em jar­ gão americano, e, em 1931, este foi pu­ blicado juntamente com o Novo Testa­ mento de Goodspeed, com o título de The Complete Bible; An American Transiation. The Revised Standard Version. Antes da publicação da ASV, em 1901, várias publicações “ não-autorizadas” da ERV apareceram, com “melhoramentos” , pa­ ra o leitor americano. Para proteger o texto contra modificações ulteriores, a ASV teve reservados os direitos de publi­ cação (copyright) em 1901; e, em 1928, estes direitos reservados foram adquiri­ dos pelo International Council of Religious Education, e assim tomou-se pro­ priedade das igrejas batistas dos Estados Unidos e Canadá. Uma comissão de es­ tudiosos foi indicada para ver se era ne­ cessária uma outra revisão. Depois de estudar a questão durante mais de dois anos, ela decidiu que uma revisão era necessária, e, pelo voto do Concílio, em 1937, o objetivo da revisão foi definido: “Incorporar os melhores resultados da erudição moderna quanto ao significado das Escrituras e expressar este significa­ 40

do em linguagem moderna, e que se designe a ser usada na adoração pública e privada, e preserve as qualidades que deram à King James Version um lugar supremo na literatura inglesa.” Pelo me­ nos três fatores contribuíram para o re­ conhecimento da necessidade de revisão: o aumento de conhecimento bíblico des­ de a época da KJV, a disponibilidade de textos gregos e hebraicos melhores do que os que estavam disponíveis para os tradutores anteriores e as mudanças da língua inglesa desde 1611. A comissão foi dividida em uma seção para o Velho Testamento e outra para o Novo Testamento; e o trabalho de cada seção foi sujeito à revisão pela outra, sendo que as modificações requeriam dois terços dos votos dos membros da comissão toda. Um total de 32 eruditos serviu nessa comissão, que eram estudio­ sos da Bíblia e também homens escolhi­ dos por suas qualificações em literatura inglesa e por sua experiência em dirigir cultos. O Novo Testamento foi publicado em 1946, e a Bíblia toda, em 30 de setem­ bro de 1952. Ã semelhança da KJV, a RSV tem tido os seus oponentes. Porém a maior parte dos veementes ataques contra ela cessa­ ram, e a RSV encontrou o seu lugar na vida da Igreja, onde ela é amplamente usada na literatura para a Escola Bí­ blica Dominical e nos cultos públicos. Se os números que revelam as vendas e a distribuição dizem algo, é digno de nota que cinco milhões de cópias foram vendi­ das durante os cinco primeiros anos de publicação, e mais de doze milhões de cópias, durante os primeiros dez anos. Algumas das Mais Recentes Tradu­ ções para o Inglês. Uma das mais popu­ lares e imaginosas traduções do Novo Testamento para o inglês modemo é The New Testament in Modern English, de J. B. Phillips. Esta tradução, publicada em 1958, reúne em um só volume as suas quatro publicações anteriores, a primeira


das quais fora Letters to Young Churches, em 1947. (*) Phillips entendia que os testes essenciais de tradução são três, e estes o guiaram em seu trabalho: “O pri­ meiro é que ela simplesmente não pode soar como tradução, de forma alguma... que o tradutor deve realizar a sua obra introduzindo o mínimo possível da sua própria personalidade... O terceiro teste, o final... é de ser capaz de produzir nos corações e mentes de seus leitores um efeito equivalente ao produzido pelo au­ tor sobre os seus leitores originais.” Outro tradutor perito e criativo é o erudito católico romano Ronald Knox, cujo Novo Testamento foi publicado em edição limitada em 1944 e em edição final em 1945, com muito poucas mu­ danças. Em 1948 e 1949, foi publicado o Velho Testamento em dois volumes, completando, desta forma, a Bíblia. A sua obra foi “uma tradução da Vulgata Latina, à luz dos originais hebraico e grego” ; foi publicada com autorização das hierarquias católicas romanas da In­ glaterra, Gales e Escócia. Uma tradução católica que teve gran­ de circulação entre católicos e protes­ tantes igualmente é a Bíblia de Jerusa­ lém, publicada em 1966, como equiva­ lente inglesa da popular La Bible de Jérusalem francesa. Com a esperança de “se­ guir o ritmo dos tempos” e de “o pensa­ mento teológico cada vez mais profun­ do” , The Jerusalem Bible foi traduzida na “linguagem que usamos hoje” , com notas que não são “nem sectárias nem superficiais” . Em sua maior parte, a tradução em inglês foi feita diretamente dos originais hebraico e grego e depois comparada com a tradução francesa quanto ao significado; não obstante, em uns poucos livros do Velho Testamento a tradução foi feita do francês e depois comparada com o original hebraico, ou (*) NOTA D O TRADU TO R: Temos um a trad u ­ ção desta obra de Phillips, com o título de “ C artas às Igrejas Novas” .

aramaico, para “garantir completa con­ formidade com o texto antigo” .(*) A mais recente contribuição católica para as traduções da Bíblia em inglês é The New American Bible, publicada em julho de 1970. Os editores-chefes “devo­ taram vinte e cinco anos a este trabalho” , que é “ a realização de cerca de cinqüen­ ta eruditos bíblicos, cujo maior número, se não todos, são católicos” . A tradução pretende ser “adequada para o uso litúr gico, leitura particular e os objetivos dos estudantes” , sendo dada prioridade ao objetivo mencionado em último lugar. O alvo é que seja tão contemporânea quanto possível, sem distorcer as carac­ terísticas estilísticas peculiares dos escri­ tores originais. Tradução que recebeu muita publici­ dade foi a The New English Bible. Os líderes eclesiásticos que iniciaram as dis­ cussões a respeito das possibilidades des­ te projeto estavam, na verdade, pensan­ do em termos de uma revisão da KJV. Contudo, por fim foi decidido que devia ser feita uma tradução completamente nova e que “os tradutores deviam sentirse com a liberdade de empregar uma linguagem contemporânea, em vez de reproduzir o inglês ‘bíblico’ tradicional” . Uma comissão conjunta foi nomeada para encarregar-se desse projeto, e três painéis de eruditos bíblicos de várias uni­ versidades britânicas foram escolhidos para tratarem, respectivamente, do Ve­ lho Testamento, do Novo Testamento e dos Livros Apócrifos. Um painel de con­ selheiros literários foi também designa­ do, para revisar a obra dos eruditos bíblicos. A obra propriamente dita foi feita em vários estágios: um rascunho inicial de um livro era preparado por um tradutor, individualmente; uma revisão era feita detalhadamente pelo painel de tradução; outra revisão, pelo painel lite­ rário; depois, revisão novamente pelo (*) NOTA DO TRADU TO R: Veja a tradução já existente em português.

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painel de tradução. Finalmente, depois que mútuo acordo era alcançado entre os tradutores e o painel literário, o manus­ crito era submetido à comissão conjunta, que se reunia duas vezes por ano. Este procedimento foi seguido desde 1948 até que o trabalho de tradução foi completa­ do. O Novo Testamento foi publicado em 1961, e a Bíblia toda, em 1970. Em 1962, a Sociedade Judaica de Pu­ blicações editou The Torah, a primeira porção da New Jewish Version, que ainda está para ser publicada como Velho Tes­ tamento completo. Este é um afastamen­ to consciente do padrão de uma tradução literal palavra por palavra, estabelecido pelos tradutores judeus da Septuaginta há mais de dois mil anos. A nova tradu­ ção será trabalho de uma comissão de eruditos “escolhidos pela capacidade de erudição, perspectivas amplas e condição reconhecida” . O seu alvo será produzir um trabalho que leve em consideração tanto “os antigos comentários... quanto os materiais extrabíblicos recentemente descobertos que tenham algo realmente pertinente para oferecer ao tradutor da Bíblia” . The Living Bible, Paraphrased (1971) é a compilação das paráfrases, de Kenneth Taylor, das Escrituras, que começa­ ram com a publicação de Living Letters, em 1962.(*) Embora ela não tenha sido traduzida diretamente dos textos grego e hebraico, o prefácio indica que “foi sub­ metida ao exame cuidadoso de uma equi­ pe de peritos em grego e hebraico, quan­ to ao conteúdo, e de críticos em inglês, quanto ao estilo” ; e o objetivo é definido como: “ dizer tão exatamente quanto pos­ sível o que os escritores da Bíblia que­ riam dizer, e dizê-lo de maneira simples, expandindo, onde for necessário, para dar uma compreensão clara ao leitor (*) NOTA DO TRADUTOR: A E ditora M undo Cristão publicou, em português, “ A Bíblia Vi­ va” , com os mesmos objetivos das traduções similares em outras línguas.

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moderno” . O tradutor afirma que, “ quando o grego ou o hebraico não é claro, a teologia do tradutor é o seu guia” , e ele indica que “ a estrela-guia teológica desta obra foi uma posição rigidamente evangélica” . Embora ainda não esteja publicada como Bíblia completa, Good News for Modern Man, publicada pela Sociedade Bíblica Americana em 1966, tem tido um impacto tremendo e recebido aclama­ ção geral. Esta tradução do Novo Testa­ mento é baseada no texto grego das So­ ciedades Bíblicas Unidas, tendo sido pre­ parada por uma Comissão internacional de eruditos do Novo Testamento; e a tradução propriamente dita “procura se­ guir, neste século, o exemplo dado pelos autores dos livros do Novo Testamento que, em sua maior parte, escreveram na forma-padrão ou comum da língua grega usada no Império Romano” . Robert G. Bratcher, que preparou o esboço básico para o Novo Testamento, é o relator da comissão que ora está trabalhando no Velho Testamento. Em 1969, foram pu­ blicados os Salmos, Jó em 1971 e Provér­ bios e Eclesiastes em 1972. Prevê-se que a Bíblia toda, que deverá chamar-se To­ day’s English Version, será publicada em 1975 ou 1976. The New American Standard Bible, publicada em 1970, foi “completada de­ pois de nove anos e sete meses de traba­ lho intensivo de cinqüenta e oito estudio­ sos consagrados e dedicados” . Neste pro­ jeto, “nenhuma tradução foi feita indivi­ dualmente. Os eruditos trabalharam em comissões e depois o material foi revisa­ do por consultores críticos. O trabalho dos consultores críticos foi, então, revi­ sado pelos eruditos que fizeram a tradu­ ção, e esta tarefa foi feita em sessão plenária.” O impulso primordial para esta revisão foi o desejo de preservar a ASV “como herança para as gerações vindouras” . A tentativa foi feita para “expressar a gramática e a terminologia da ASV no inglês contemporâneo” .


III — Traduções da Bíblia em Português(*) É um verdadeiro milagre o fato de possuirmos a Bíblia em português. Até o último quarto do século XVI não havia versão alguma completa e impressa das Escrituras em português. A zelosa rainha D. Leonor, esposa de D. João II, tentou popularizar as Escrituras. Ela mandou traduzir e imprimir, em 1495, às suas expensas, A Vida de Cristo, que foi originalmente escrita na língua latina, pelo Dr. Ludolfo, de Saxônia, e que con­ tinha muitas citações da Bíblia. Dez anos depois ela mandou publicar na língua lusitana os Atos dos Apóstolos e as Epís­ tolas Universais de Tiago, Pedro, João e Judas. Esta nobre senhora faleceu em 1525. Em 1554, organizaram-se diversas companhias comerciais para o desenvol­ vimento das várias colônias dos países europeus. Entre estas, a Companhia das Índias Orientais, que se organizou em 1602, cuja carta patente exigiu que cui­ dasse em plantar a Igreja entre os povos e procurasse a sua conversão, nas posses­ sões tomadas aos portugueses nas índias Orientais. Foi essa Companhia que mais tarde patrocinou a revisão do Novo Tes­ tamento de João Ferreira de Almeida, em 1693. Versões de Almeida João Ferreira de Almeida nasceu em 1628, no local chamado Torre de Tavares — Portugal. Converteu-se em 1642. Co­ meçou a traduzir o Novo Testamento para o português em 1644, com 16 anos de idade, usando latim, espanhol, italia­ no e francês. Faleceu em 1691. (*) Agradecemos aos Pastores Edgar Francis Hallock e Zilm ar Ferreira Freitas, da Im prensa Bí­ blica Brasileira, o preparo deste breve histó­ rico da Bíblia em português, que é aqui acres­ centado ao texto original, como contribuição aos leitores interessados no assunto — Nota do Departamento de Publicações Gerais.

1681 — PrimeiraediçãocompletadoNovo Testamento em português — impresso na cidade de Amsterdam — Holanda. 1753 — Primeira edição completa do Velho Testamento em portu­ guês — em dois volumes: 1 .° Volume, de Gênesis a Ester; 2.° Volume, de Jó a Malaquias. Foi impresso na cidade de Batávia. 1819 — Bíblia completa de João Ferrei­ ra de Almeida publicada em um só volume, pela primeira vez, sob os auspícios da Socie­ dade Bíblica Britânica. 1840 — Primeira revisão e correção do texto da Bíblia de Almeida, chamada Revista e Emenda­ da. Foi feita por E. Whitely, capelão inglês, na cidade de Porto — Portugal, e incluiu correções de ortografia e a subs­ tituição de algumas palavras obsoletas. 1847 — Segunda revisão, que apareceu publicada pela Trinitarian Bible Society de Londres. Foi obra de um inglês radicado em Portugal, Rev. Thomas Boys. Esta revisão é conhecida pelo nome de Revista e Reformada. 1875 — Apareceu ainda outra versão, chamada Revista e Correcta. Seus revisores principais foram: Manoel Soares e R. B. Girdlestone — superintendente edito­ rial da Sociedade Bíblica Britâ­ nica e Estrangeira. 1894 — Apareceu a Versão Revista, ba­ seada na Revista e Correcta. Por iniciativa da Sociedade Bí­ blica Britânica, a comissão de revisões, liderada por J. N. Chaves e R. Stewart, com a aju43


da de 3 irmãos portugueses, resolveu corrigir “erros óbvios” e melhorar a ortografia da Ver­ são Revista e Correcta. 1898 — Desta vez, já era a 5 .a revisão no texto de Almeida, desta feita chamada Revista e Corrigida. Surgiu como resultado da soma do trabalho de todas as outras revisões efetuadas anteriormen­ te. Tornou-se a versão mais querida, como é até hoje. 1922 — Houve uma ligeira revisão na versão de Almeida, chamada Ligeiramente Revisada, feita por Moreton, J. dos Santos Fi­ gueiredo e A. H. da Silva. 1944 — Primeira Bíblia impressa no Brasil — IMPRENSA BÍBLI­ CA BRASILEIRA — 4 de agosto de 1944 — Tiragem ini­ cial: 22.208 Bíblias da Versão Revista e Corrigida de Almeida. 1958 — Versão Revista e Atualizada no Brasil, publicada pela Socieda­ de Bíblica do Brasil. A comis­ são revisora desta versão tra­ balhou sob a direção do Rev. Antônio Campos Gonçalves. Esta é uma excelente versão, e tem sido usada em algumas das Bíblias de estudo como tex­ to bíblico. 1967 — Surgiu a mais recente revisão da Bíblia de Almeida, chamada Versão Revisada, e já está se impondo no meio evangélico, devido à sua fidelidade às lín­ guas originais e a precisão de sua tradução. Ê conhecida pela frase que traz no frontispício: De Acordo com os Melhores Textos em Hebraico e Grego — Revisão efetuada pela Im­ prensa Bíblica Brasileira. 44

Versões de Figueiredo Antônio Pereira de Figueiredo nasceu em Mação — Portugal, em 14 de feverei­ ro de 1725, e faleceu em 14 de agosto de 1797. 1778-1781 — Figueiredo traduziu o la­ tim da Vulgata e produziu o seu Novo Testamento em 6 volumes. 1783-1790 — Seguiu logo o Velho Tes­ tamento, impresso em 17 volumes. 1821 — Primeira edição da Bíblia em português, em um só volume, versão de Figueiredo, em Lon­ dres — na oficina de B. Bensley — em Bolt Coult — Fleet Street. Versões Diversas 1917 — Edição Brasileira — A Versão Fiel, que surgiu como fruto do trabalho iniciado pelas Socie­ dades Britânica e Americana em 1902, com o objetivo de preparar uma nova tradução do hebraico e grego, aproveitando as versões de Figueiredo e Al­ meida. Foi considerada versão excelente quanto à tradução. O estilo e a linguagem não aju­ daram, e finalmente deixou de ser publicada. 1927-1934 — Edição Mattos Soares, que foi traduzida da Vul­ gata, adaptando-se a lin­ guagem à semântica da época. Esta versão tem servido muito aos católi­ cos tanto da Europa quanto do Brasil. 1957 — Apareceu a Bíblia preparada pelo Centro Bíblico Católico, publicada pela Editora Ave


Maria Ltda, seguindo a tradu­ ção da Versão dos Monges Be­ neditinos de Maredsous — Bél­ gica. 1966 — As Edições Paulinas lançaram a 1® edição da Bíblia, baseada no texto do Instituto Bíblico Pontifício de Roma. Vários tra­ dutores. Coordenação e revisão dos padres Lucas Caravina e Honório Dalbosco. 1967 — Apareceu a Bíblia das Teste­ munhas de Jeová. Baseada na versão inglesa, consultando o hebraico, grego e aramaico. 1982 — A Bíblia de Jerusalém foi lan­ çada pelas Edições Paulinas. È obra monumental, tanto na tradução quanto nas notas co­ piosas, preparadas em grande parte pela Escola Bíblica de Je­ rusalém, de onde recebe o seu título. 1983 — Apareceu a Bíblia Sagrada — Edições Loyola, preparada pela Liga de Estudos Bíblicos. 1983 — Apareceu também a Bíblia Sa­ grada — Vozes, fruto de muitos anos de trabalho, incorporando as contribuições de vários tra­ dutores, cujas obras já tinham sido publicadas. 1986 — A Bíblia na Linguagem de Hoje. Está sendo preparada pa­ ra lançamento este ano, pela Sociedade Bíblica do Brasil, sob a supervisão do Dr. Wemer Kaschel.

nosa no uso desses recursos de lingua­ gem. Um dos fatores que têm contribuí­ do para a contínua popularidade da KJV é a sua maneira artística de usar a lín­ gua; enquanto a razão primária para a vida curta da popularidade da ASV é a sua “fraqueza” de estilo. A conclusão de que o estilo literário é importante levou muitas comissões de tradução modernas a incluir, entre os seus membros, não apenas eruditos bíblicos, mas também estilistas da língua. Um aspecto importante da arte da tradução é de ser capaz de expressar o significado do original de forma a apelar para o interesse do leitor pretendido. O nível da linguagem da TEV, por exem­ plo, é bem diferente da de J. B. Phillips, porque o auditório pretendido é diferente para cada uma dessas duas traduções. Phillips foi capaz de usar os plenos recur­ sos da língua inglesa, porque estava tra­ duzindo para um grupo mais sofisticado de leitores, enquanto o tradutor da TEV originalmente pretendia que a sua tradu­ ção alcançasse as pessoas para quem o inglês era a sua segunda língua. Não é necessária habilidade menor para produ­ zir uma tradução como a TEV do que uma como a que J. B. Phillips fez. Am­ bas requerem um toque criativo e artís­ tico, e é de se duvidar que o tradutor de uma poderia ter feito a outra igualmente bem. Pode-se ser um excelente erudito bíblico, mas um tradutor fraco, se não se tem a habilidade artística de usar a lín­ gua e um senso do nível apropriado de linguagem que apele à mente dos leitores em perspectiva. 2. A Tradução Como Ciência

IV. As Traduções da Bíblia Como Arte e Ciência 1. A Tradução Como Arte A tradução da Bíblia é, certamente, uma arte, pois requer uma pessoa que tenha conhecimento dos recursos de sua língua e que seja perita, criativa e imagi­

No entanto, por mais importante que os assuntos de estilo sejam, a responsa­ bilidade básica do tradutor é fidelidade ao original, e isto significa que a tradução da Bíblia é uma ciência que precisa seguir certas diretrizes claramente defi­ nidas. Tradicionalmente, “fidelidade ao original” tem sido levada a significar fi­ 45


delidade à forma do original, porém cada vez maior número de tradutores começou a reconhecer que esta expressão precisa ser entendida de forma a significar fide­ lidade ao significado do original. Isto é, a tarefa do tradutor consiste em comunicar o significado do original de forma que os seus leitores tenham essencialmente a mesma reação que o escritor original pre­ tendia por parte de seus leitores origi­ nais. Para satisfazer estas necessidades básicas, o tradutor precisa exercer perí­ cia e tirocínio em quatro áreas. ConsideraçSes textuais. É axiomático que o tradutor, como o exegeta, precisa basear a sua obra nos melhores manus­ critos hebraicos e gregos disponíveis; e à luz deste axioma, os eruditos bíblicos têm preparado edições críticas dos testa­ mentos hebraico e grego. Um exemplo interessante de problema textual do Velho Testamento encontra-se em Provérbios 26:10, que aparece na KJV como: “O grande Deus que formou todas as coisas recompensa tanto o louco como os transgressores.” A versão da IBB, em português, diz: “Como o fle­ cheiro que fere a todos, assim é aquele que assalaria ao transeunte tolo, ou ao ébrio”; esta é essencialmente a tradução das versões inglesas RSV e NEB. Na TEV, este versículo está traduzido da seguinte forma: “Um empregador que contrata qualquer louco que aparece está apenas ferindo todas as pessoas envolvi­ das.” Em todas essas traduções moder­ nas em inglês há uma nota de rodapé, in­ dicando que o hebraico, neste versículo, é obscuro. Este é simplesmente um dos vários milhares de lugares do Velho Tes­ tamento em que precisa ser tomada uma decisão textual antes de o tradutor ser capaz de verter o texto em outra língua. As ilustrações de problemas textuais do Novo Testamento também podem ser multiplicadas. Algumas das mais conhe­ cidas se referem ao problema do término original do Evangelho de Marcos, se ele 46

originalmente terminava em 16:8 ou com epílogo mais longo em 16:20 ou com outro epílogo que é encontrado em vá­ rios manuscritos antigos; e a questão de se João 7:53-8:11 (a história da mulher apanhada em adultério) fazia parte do Evangelho original. Considerações exegéticas. A importân­ cia das considerações exegéticas é tam­ bém facilmente reconhecida, visto que é impossível para o tradutor transferir o significado do original, a não ser que ele compreenda o que o escritor pretendia dizer. Uma boa regra, simples e prática, é que o tradutor deixe que a exegese de uma dada passagem seja guiada pelas conclusões dos comentários e traduções padrão; e, em casos em que a passagem permite mais de uma interpretação, ele poderá incluir uma versão alternativa no rodapé. Por exemplo, I Tessalonicenses 4:4 (ASV) diz: “Que cada um de vós saiba como possuir o seu próprio vaso em santificação e honra." Mas, o que se deseja dizer com “vaso”? No contexto, a referência é obviamente ao corpo da pes­ soa, embora possa ser ao seu próprio corpo ou ao corpo, de seu cônjuge. Por isso, o tradutor pode traduzir como a NEB: “Cada um de vós precisa aprender como obter domínio sobre o seu corpo, para santificá-lo e honrá-lo”, ou como a RSV: “Que cada um de vós saiba como conseguir para si mesmo esposa em san­ tidade e honra.” Porém, visto que a pas­ sagem é passível de qualquer uma dessas interpretações, o tradutor pode querer apresentar uma versão no texto e outra em uma nota de rodapé, como possi­ bilidade alternativa. Considerações lingüísticas. £ necessá­ rio que se entendam as características e requerimentos lingüísticos das línguas de origem e receptoras. O hebraico (e o grego do Novo Testamento, que foi in­ fluenciado por padrões hebraicos de pen­ samento) usa “e” para iniciar quase to­ das as sentenças e cláusulas, mas isto não é natural em inglês ou português.


Embora comum no grego, não é natural no inglês ou em português iniciar um discurso direto com uma fórmula como: “E ele abriu a sua boca e começou a ensinar-lhes, dizendo.” O mesmo acon­ tece com “e aconteceu”, quando se faz uma transição em uma narrativa. O que dizer das muitas repetições de “de”, que aparecem nas traduções tradi­ cionais? Expressões como “o Deus de paz” (Rom. 15:33), “o Espírito Santo da promessa” (Ef. 1:13), “o evangelho de Jesus Cristo” (Mar. 1:1), “o livro de Moisés” (Mar. 12:26) e inúmeras outras, têm a mesma estrutura superficial; mas a relação definida por “de” difere signifi­ cativamente. “O Deus de paz” é o Deus que dá paz; “o Espírito Santo da promes­ sa” é o Espírito que prometeu; “o evan­ gelho de Jesus Cristo” é o evangelho a respeito de Jesus Cristo; e “o livro de Moisés” é o livro que Moisés escreveu. Será que o leitor sem treinamento teoló­ gico saberá que “o Espírito de verdade” significa o Espírito que revela a verdade (a respeito de Deus)? A marcação dos participantes em uma narrativa é importante, embora muitos tradutores tenham deixado de perceber como isto é realmente importante. Em muitos casos, o texto hebraico ou grego usa um pronome, onde é mais natural em inglês ou português usar um substantivo; e no inglês não há distinção entre o sin­ gular e o plural de “you” (que pode signi­ ficar tu, você, vós ou vocês), de forma que uma distinção que é clara na língua original não está ao alcance dos leitores atuais, a menos que a linguagem reque­ rida pelo inglês seja reconhecida. Considerações culturais. O tradutor precisa estar consciente das vastas dife­ renças entre o contexto histórico-cultural do relato bíblico e o de seus leitores hodi­ ernos. Note-se, por exemplo, Lucas 4:1620. O que significa que o Espírito “un­ giu” Jesus, e tem a preposição “sobre” mais do que um sentido locativo, na frase

“o Espírito do Senhor está sobre mim”? Mais do que isto, qual é o significado do fato de Jesus ter-se sentado depois de ler as Escrituras? Será que ele fez algo inu­ sitado? Foi por isso que todos “fixaram os seus olhos nele”? A responsabilidade de entender não deve ser colocada sobre o leitor, mas sobre o tradutor, de forma que o significado do original se expresse bem para os leitores contemporâneos. O que está claramente implícito no texto precisa ser tomado explícito. Um exem­ plo disso aparece em Jeremias 7:18, em que se faz referência às mulheres que “amassam a farinha para fazerem bolos à rainha do céu” . Todos os leitores de Jeremias sabiam que a “rainha do céu” era uma deusa adorada pelo povo; mas, a fim de expressar este significado para o leitor moderno, necessário se faz tradu­ zir: “amassam a farinha para fazerem bolos para a deusa a quem chamam de rainha do céu.” Qual é o significado de “o Cristo” ou “o Messias”, quando aplicado a Jesus? No máximo, esta expressão tem pequeno significado para o leitor brasileiro co­ mum, e por isso várias traduções apre­ sentam uma nota de rodapé ou um glos­ sário para explicar o seu significado, quando seria muito mais simples tradu­ zir o título como “o Rei prometido” ou “o Salvador prometido”. Além do mais, qual é o significado de “reino de Deus” para os leitores brasileiros hoje em dia? Geralmente é considerado por eles como significando o território sobre que Deus govema, e não como o reinado ativo de Deus, que é o significado bíblico básico. As traduções precisam levar a sério a re­ estruturação deste termo em suas muitas ocorrências em o Novo Testamento. A este respeito, não são muitos os leitores que compreendem que “reino dos céus”, em Mateus, é equivalente a “reino de Deus” nos outros Evangelhos. Portanto, se o tradutor está focalizado nas necessi­ dades dos leitores, e não na reprodução verbal do texto, talvez seja melhor tra­ 47


duzir “reino de Deus” nas passagens de Mateus onde ocorre “reino dos céus” . Para outras línguas, pode-se também multiplicar exemplos da necessidade de levar em consideração o ambiente cultu­ ral dos leitores. Para o povo de Penang, que vive em Sarawak (Boméu, na Malá­ sia), Mateus 24:28 é traduzido assim: “Onde quer que houver uma árvore com frutas maduras na floresta, os passari­ nhos estarão enxameando.” Isto pode parecer um modo um tanto estranho de se traduzir um versículo que aparece na versão portuguesa como: “Pois onde esti­ ver o cadáver, aí se ajuntarão os abu­ tres.” Porém aves que vivem de carniça são desconhecidas daquela gente, e, de qualquer forma, a idéia desse provérbio não tem nada a ver com cadáveres nem com abutres. A intenção deste provérbio é indicar que se pode descobrir a presen­ ça de um objeto pela presença de outros objetos, e este é precisamente o significa­ do que o tradutor tentou reproduzir para os seus leitores de Penang. Como nôma­ des da floresta, eles sabem onde podem ser encontradas essas tão procuradas ár­ vores frutíferas na floresta, por causa dos passarinhos que estarão enxameando so­ bre ela quando as frutas estiverem madu­ ras. Embora as palavras em si possam soar bem diferentes das do original, o significado se expressa claramente e exa­ tamente para o leitor de Penang.

V. Traduções da Bíblia e Estudo da Bíblia É óbvio que este escritor está argumen­ tando em favor de traduções inteligíveis, baseadas nos melhores manuscritos gre­ gos e hebraicos disponíveis, e de uma exegese sadia. Isto é especialmente ne­ cessário se se espera que a tradução seja entendida pelas massas que ainda estão fora da comunidade cristã. Uma tradu­ ção literal ou formal pode ser valiosa para alguém que deseje saber a ordem de palavras na língua original, mas, como 48

um todo, ela pode comunicar um signi­ ficado insuficiente, pois deixa de reco­ nhecer que cada língua tem a sua manei­ ra característica de expressar as idéias. Portanto, se a pessoa estiver realmente interessada em saber o que dizem as Es­ crituras, que use uma tradução orientada por estas quatro considerações. Muitas traduções modernas incluem outros subsídios valiosos para os leitores, tais como introduções à Bíblia em geral e a cada livro da Bíblia, um glossário de termos técnicos (v.g., fariseu, saduceu, Festa dos Tabernáculos, etc.), notas his­ tóricas e culturais, redações alternativas ou traduções variantes e mapas. Se o leitor comum, que não tem treinamento especial, usar uma Bíblia assim, terá uma das melhores ferramentas disponí­ veis para um genuíno estudo bíblico. Para Leitura Adicional DAICHES, DAVID. The King James Version of the English Bible. Chica­ go: University of Chicago Press, 1941. GREENSLADE, S.L., ed. The West from the Reformation to the Present Day, Vol. Ill de The Cambridge History of the Bible. Cambridge: University Press, 1963. HUNT, GEOFFREY. About the New English Bible. Oxford: University Press, 1970. MacGREGOR, GEDDES. The Bible in the Making. Philadelphia: I. B. Lippincott Co., 1959. NIDA, EUGENE. God’s Word in Man’s Language. New York: Harper and Brothers, 1952. ________Toward a Science of Transla­ ting. Leiden: E. J. Brill, 1964. ORLINSKY, HARRY M. Notes on the New Translation of the Torah. Phi­ ladelphia: The Jewish Publication Society of America, 1969.


ROBINSON H. WHEELER, ed. The Bi­ ble in Its Ancient and English Ver­ sions. Oxford: Clarendon Press, 1940. WEIGLE, LUTHER A. The English New Testament from Tyndale to the Revised Standard Version. New

York and Nashville: Abingdon-Cokesbury Press, 1949. WONDERLY, WILLIAM L. Bible Translations for Popular Use. Ann Arbor, Michigan: Cushing Mallory, Inc., para as Sociedades Bíblicas Unidas, 1968.

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A Interpretação da Bíblia John P. Newport Dado o fato de que a Bíblia é a nossa regra de fé e prática divinamente inspi­ rada, como deve ela ser interpretada? Não é suficiente aceitar a autoridade da Bíblia — ela precisa ser adequadamente utilizada e apropriada. O alvo da interpretação é encontrar o processo de pensamento e o significado que o escritor quis ou os escritores quise­ ram dar ao livro ou passagem a ser es­ tudada. O intérprete deve, desta forma, expressar esse significado para uma pes­ soa contemporânea. Há princípios que propiciem diretrizes para esta interpre­ tação? Há advertências e diretrizes que devam ser aprendidas com a história da interpretação bíblica? A interpretação é especialmente im­ portante em relação a um livro como a Bíblia. Para o crente, a Bíblia requer interpretação exata e adequada, por cau­ sa de seu lugar de autoridade. Ela tam­ bém necessita de interpretação porque contém idéias e pensamentos escritos en­ tre dois mil e três mil e quinhentos anos atrás. Ela foi formulada em um meio ambiente e em línguas diferentes das do mundo ocidental.

I. Lições da História da Interpretação Uma perspectiva histórica mune o in­ térprete contemporâneo de advertências e diretrizes. Durante os últimos dois mil anos, numerosos exemplos do mau uso e da distorção da Bíblia ocorreram. Em outros casos, foi conseguida uma per­ cepção que nos propicia muita ajuda.

1. A Procura de um Significado Oculto — Alegoria A alegoria ensina que por debaixo do significado comum e óbvio de uma pas­ sagem encontra-se o significado verda­ deiro ou espiritual. O principal alvo do intérprete alegórico é procurar decifrar esses pretensos significados espirituais e ocultos. Embora desenvolvido pelos gre­ gos, este sistema de interpretação já es­ tava sendo usado pelos intérpretes judeus no primeiro século d.C. Ignorando o exemplo de Jesus, este método foi depois adotado pela maioria dos intérpretes cristãos; dominou a exegese até a Refor­ ma Protestante. Dizia-se que os versículos da Bíblia tinham dois, três e até quatro significa­ dos. Mickelson indica que “Jerusalém”, para os intérpretes medievais, podia fa­ zer referência à cidade literal na Palesti­ na. Alegoricamente, podia significar a Igreja. Moralmente, podia referir-se à alma. De uma perspectiva futura, refe­ ria-se à cidade celestial. A interpretação histórica — o significado claro, evidente — era descrito como leite, enquanto a interpretação alegórica era descrita como vinho, que produz alegria. A Bíblia foi feita para significar o que não diz abertamente. Ela se tomou uma caixa de mágica, da qual os intérpretes tiravam mistérios e verdades para deco­ rar os seus mundos imaginários. Esta busca de significados múltiplos é real­ mente uma abordagem mágica dos as­ pectos lingüísticos e literários da Bíblia. Ela remove qualquer certeza quanto ao seu significado. 51


A busca de significados ocultos tor­ nou-se tão extrema que foi oferecido um prêmio para o inusitado. Agostinho, no quinto século d.C., encontrou interpreta­ ções frutíferas em proporção com a sua dificuldade. Por exemplo, a arca repre­ sentava a Igreja, que é resgatada pelo madeiro em que Cristo foi dependurado. As suas próprias dimensões significam o corpo humano de Cristo, e a porta em seu lado significa a ferida do lado de Cristo. Em épocas mais modernas, homens como Emanuel Swedenborg, da Suécia, e grupos como a Unity e a Ciência Cristã utilizaram a interpretação alegórica. Tanto na Unity quanto na Ciência Cristã, a gramática, o contexto e a história são ignorados. Os significados importantes são significados ocultos ou espirituais. É óbvio que quando a abordagem gra­ matical e histórica é abandonada, não há maneira de controlar ou governar a exe­ gese. 2. Literalismo Extremo Alguns sadios princípios de interpreta­ ção foram desenvolvidos por intérpretes rabínicos como Hillel e Eliezer. Uma ên­ fase infeliz no “letrerismo” ou hiperliteralismo, todavia, desenvolveu-se entre a maioria dos intérpretes judeus. Eles se encurvavam sobre trivialidades e sobre o incidental, e deixavam passar desperce­ bido o significado de uma dada passa­ gem. No período posterior à Reforma, os protestantes do século XVII manifesta­ ram, em vários casos, a tendência de ido­ latrar a Bíblia a tal ponto que deixaram passar despercebido o seu significado essencial. A Bíblia não devia ser vista como livro histórico e literário, mas sim­ plesmente como um dogma. Em tempos mais recentes, os Testemunhas de Jeová, outras seitas que tais e os fundamentalistas manifestaram uma tendência na direção do hiperliteralismo. Os conteú­ dos gramaticais, históricos e literários, 52

bem como os temas bíblicos centrais, são em grande parte ignorados. 3. Interpretação Controlada pela Igreja Concorda-se, geralmente, que, em ma­ téria de interpretação, o ponto decisivo, na Idade Média, foi a obra de Agosti­ nho. Em sua obra intitulada A Doutrina Cristã, ele esboçou princípios para a interpretação da Bíblia. Nesta mesma obra, ele estabeleceu a doutrina de que a Igreja e a tradição da IgTeja são as bases para a interpretação. Através da Idade Média, desta forma, a interpretação foi limitada por uma conformidade obtusa. A tradição da Igreja era suprema. Este tipo de interpretação foi usado pelas autoridades eclesiásticas para esta­ belecer o poderio eclesiástico. Embora apenas uma pequena quantidade da Bí­ blia fosse oficialmente interpretada, mui­ tas doutrinas oficiais acarretavam a in­ terpretação de certos versículos que se tomava obrigatória. Em reação à Reforma Protestante, o Concílio Católico Romano de Trento reuniu-se de 1545 a 1563. A Vulgata Latina foi declarada a versão autêntica para se fazerem exposições. A interpretação não devia ser contrária aos ensinamentos da Igreja Católica. Isto significava que não era possível nenhuma discussão de inter­ pretações alternativas. Para opor-se à interpretação controla­ da pela Igreja, Calvino conclamou a dis­ cussão religiosa de passagens obscuras e difíceis entre os eruditos cristãos. Sem isto, disse Calvino, não haveria liberdade nem oportunidade para que nova luz irrompesse da Bíblia. A abordagem dogmática é freqüente­ mente chamada de “cristalização da doutrina” . Uma dedicação simulada é prestada à idéia de que a doutrina deve ser subordinada à Bíblia. De fato, a Igreja, personificada pela hierarquia eclesiástica, é considerada como mestra e intérprete infalível. A “cristalização da doutrina” é ponto de vista também encontrado em algumas


formas de ortodoxia protestante. Por exemplo, muitas denominações e grupos confessionais afirmam que as interpreta­ ções ensinadas pelo fundador ou pelos primeiros líderes daquele grupo são semi-sagradas. Na segunda geração da Re­ forma Protestante, houve uma tendência de se aceitar as declarações doutrinárias do século XVI como completamente ver­ dadeiras e bíblicas quanto ao seu conteú­ do. Na época atual, contudo, novas ma­ neiras de entender as línguas bíblicas, a história bíblica e a pesquisa científica re­ velaram os condicionamentos históricos de muitas interpretações tradicionais. A erudição crítica, combinada com uma devotada fé cristã, é a resposta para uma interpretação dogmática controlada pela Igreja. Essa erudição deve reveren­ ciar a Bíblia, e jamais sancionar qual­ quer crítica irresponsável que venha a minar a fé positiva. 4. Tentativas Para Estabelecer Princí­ pios Gramaticais, Históricos e Teo­ lógicos de Interpretação Os Reformadores Protestantes. Embo­ ra alguns esforços tenham sido envidados nos primeiros séculos, a principal tenta­ tiva de estabelecer princípios gramati­ cais, históricos e teológicos aconteceram com a Reforma Protestante, no século XVI. Em oposição à interpretação elabo­ rada e complicada dos eruditos patrísticos e medievais, os reformadores enfati­ zavam o sentido literal da Bíblia como única fonte de autoridade. A Bíblia devia ter prioridade sobre a tradição e devia ser o juiz da tradição, em vez de ser sua serva. Martinho Lutero abandonou a quá­ drupla interpretação do período medie­ val, e enfatizou o significado inerente e fundamental. A alegoria, disse Lutero, consistia em “truques de macaco” , para mostrar a esperteza do exegeta. O texto devia ser entendido em termos de seu significado claro e dentro de todo o con­ texto bíblico. Como o indicou Mays, isto aconteceu para garantir que o texto guia­

ria o entendimento, e não uma teologia que não se podia provar. O ponto de vista dos reformadores não era o extremo literalismo do biblicismo rabínico. Cristo e o Novo Testamento eram centrais. Os princípios de interpre­ tação deviam derivar da Bíblia. Lutero enfatizou o sentido gramatical e a neces­ sidade de estudo diligente das línguas originais e da História. João Calvino, indubitavelmente o maior intérprete da Reforma, semelhantemente interpretou as Escrituras gramatical e historica­ mente. Os Críticos Históricos do Século XIX. A tentativa seguinte para estabelecer princípios gramático-históricos (se não teológicos) de interpretação, foi a ascen­ são da crítica histórica. Reagindo contra o escolasticismo protestante do século XVII, Herder e Semler começaram, no século XVIII, a tratar a Bíblia como li­ teratura. No século XIX, os críticos his­ tóricos afirmaram que o cenário e o de­ senvolvimento históricos eram indispen­ sáveis para se compreender o significado da Bíblia. Muitos resultados úteis se originaram desse estudo. A humanidade de Jesus foi considerada seriamente, e a natureza literária da Bíblia foi reconheci­ da plenamente. Infelizmente, em muitos casos, pres­ supostos filosóficos e não-bíblicos guia­ ram a investigação histórica e a crítica da Bíblia. Pressupostos naturalistas eram geralmente aceitos. Reconstruções teóri­ cas do Velho e Novo Testamentos se ba­ seavam na filosofia dialética de Hegel e no pensamento evolucionista de Spencer. Os eruditos críticos haviam rejeitado os pressupostos dogmáticos dos escolásti­ cos protestantes. Por sua vez, no entanto, como indicou Mays, eles os substituíram pelas novas premissas dogmáticas de uma teologia determinada pelo idealis­ mo, pelo romantismo e pelo iluminismo. Os críticos históricos tiveram sucesso no trabalho textual, na gramática, na história literária e na arqueologia, mas 53


deixaram de enxergar o significado teoló­ gico da Bíblia. Um grande sortimento de fatos e dados foi analisado e classificado. O interesse do intérprete treinado focalizou-se na reconstrução histórica. O sig­ nificado ou arcabouço de referência, to­ davia, estava faltando. Os princípios teo­ lógicos e práticos, em grande parte, fo­ ram ignorados. Os Intérpretes Teológicos. Desde a Primeira Guerra Mundial, a interpreta­ ção bíblica foi recondicionada, em im­ portantes círculos teológicos, de maneira que dá mais ênfase aos princípios teoló­ gicos e práticos de interpretação bíblica. Os léxicos teológicos estão fornecendo ferramentas para essa abordagem. Os comentários enfatizam a unidade estru­ tural subjacente da Bíblia. Em grande parte do trabalho exegético atual, os intérpretes estão mais uma vez procurando ser fiéis à natureza da Bíblia. A questão histórica e a teológica são ambas abordadas, quando o intérprete se aproxima da Bíblia. O que aconteceu na Bíblia e a interpretação desses aconteci­ mentos estão sendo considerados como um evento inseparável.

II. Princípios de Interpretação Bíblica A teoria que está por detrás da inter­ pretação bíblica é chamada de herme­ nêutica. Interpretação ou exegese é a explicação do texto propriamente dita, usando princípios ou teoria. Há nume­ rosas maneiras como os princípios geral­ mente aceitos e básicos de interpretação bíblica podem ser apresentados. Uma abordagem conveniente e amplamente usada é considerar os princípios nas cate­ gorias gramatical, histórica, teológica e prática. Alguns escritores sugerirão mo­ dificações de arranjo, redação e de or­ dem, mas os princípios serão essencial­ mente os mesmos. As vantagens de se utilizar estes prin­ cípios são muitas. Esta abordagem exer­ ce algum controle sobre a interpretação. Uma coibição é exercida contra a tenta­ 54

ção dos intérpretes de procurar signifi­ cados ocultos na Bíblia. Eruditos e leigos que seguem estes princípios têm feito contribuições construtivas e permanen­ tes para o conhecimento e a compreensão da Bíblia. 1. Princípio Gramatical ou Lingüístico Da interpretação geral origina-se o pri­ meiro princípio básico: o princípio gra­ matical ou lingüístico. A Bíblia é um pro­ duto histórico. Embora, quanto à sua origem final e conteúdo essencial, ela seja divina, foi escrita por homens, em línguas humanas e em condições huma­ nas. Portanto, ela deve ser interpretada com subsídios semelhantes e com a uti­ lização de alguns dos mesmos princípios que os outros livros da antiguidade. No período da Reforma, João Calvino foi o homem que mais contribuiu para restaurar o princípio lingüístico. Em época mais moderna, Emesti, erudito alemão do século XVIII, foi um pioneiro na restauração deste princípio ao seu lugar de direito. A sua obra colocou o princípio gramatical em tal posição, di­ ante do mundo, que desde então manteve a sua importância fundamental. Ele pu­ blicou os seus Principies of Interpretationem 1761. Significado das Palavras — Etimolo­ gia. Um aspecto do princípio gramatical é a etimologia. Ê o segundo das raízes de que as palavras se derivaram. Na maio­ ria dos casos, o intérprete obterá mate­ rial concernente à etimologia de especia­ listas e comentários. Em Gálatas 3:24, a KJV sugere que “a lei foi o nosso mestreescola para nos levar a Cristo”. De acor­ do com a etimologia, esta não é uma tradução exata. A palavra traduzida co­ mo mestre-escola é derivada de duas palavras gregas que significam orienta­ dor de crianças. Evidentemente, esta pa­ lavra se refere ao servo da família que levava a criança à escola e a trazia para casa. Ele não ensinava, mas mantinha a disciplina. A tradução da IBB é mais


exata: “A lei se tomou nosso aio, para nos conduzir a Cristo.” Uso Corrente — Expressões Idiomáti­ cas. Outra parte do princípio gramatical abrange o uso corrente e as expressões idiomáticas. O uso do primeiro século sugere, de acordo com Stibbs, que a declaração de Lucas 15:13, “o filho mais moço, ajuntando tudo”, significa que ele calculou a sua herança e transformou-a em dinheiro. Relacionamento Entre Palavras — Sintaxe. Outro ponto a ser considerado, em relação ao princípio lingüístico ou gramatical, é a sintaxe ou relação ou ordem das palavras em uma sentença. Em loão 1:1, é afirmado que “o Verbo era Deus”. O significado é esclarecido pelo artigo que antecede “Verbo” e a omissão do artigo antes do predicado “Deus”. A sintaxe não permitirá a tra­ dução “Deus para o Verbo”. Teologica­ mente, esta última tradução, que não é permitida pela construção gramatical, significaria que Deus, em seu todo, é ex­ presso no “Verbo”. As boas traduções e os bons comentá­ rios dão grande importância aos delica­ dos significados de verbos, substantivos e cláusulas, e seus relacionamentos. O ver­ bo é especialmente importante no grego. No hebraico, o sistema verbal é menos complexo; não obstante, é importante. Método de Pensamento — Princípio Lógico. Intimamente relacionado com o princípio lingüístico e para os propósitos deste estudo, considerado como parte do princípio lingüístico, está o princípio ló­ gico ou método de pensamento de um autor. O intérprete precisa procurar en­ tender o método de raciocínio do autor bíblico. O povo da Bíblia vivia em um mundo cujo pensamento era mais fami­ liarizado com o paradoxo do que com a precisão. Eles se expressavam de manei­ ras que não podem ser forçadas nas categorias rígidas e exatas do pensamen­ to e da lógica ocidental moderna.

As interpretações tradicionais podem precisar de revisão à luz do conhecimento atual das maneiras hebraicas de pensar e falar. Stibbs menciona que a frase “Amei a Jacó, e aborreci a Esaú” (Mal. 1:2,3) é a maneira como o hebraico declara uma comparação, e não uma oposição direta. Esta frase seria melhor traduzida assim: “Amei a Jacó mais do que a Esaú.” Estilo literário — Princípio Retórico. Intimamente relacionado com esta ênfa­ se dada ao método de raciocínio está o princípio retórico. Cada tipo de literatu­ ra, na Bíblia, deve ser entendido à luz de seu próprio estilo literário. Em narrativa direta, as palavras são consideradas se­ gundo o seu valor aparente. Nas seções poéticas, toma-se necessário uma abor­ dagem diferente. Felizmente, a RSV, a versão da IBB e certas outras traduções modernas indicam pela maneira de im­ primir aquilo que é formalmente poético. Jesus disse: “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o” (Mat. 5:29). Ele está sugerindo automutilação? Obvia­ mente, este versículo não pode ser enten­ dido de maneira literal. Jesus freqüente­ mente usou hipérboles e linguagem figu­ rada para enfatizar a verdade. Herodes foi chamado de “raposa” (Luc. 13:32). Paulo referiu-se a Tiago, Cefas e João como “colunas” da igreja em Jerusalém (Gál. 2:9). A palavra coluna não pode ser entendida como referência a um pilar de cimento ou tijolos. O contexto literário toma claro o seu significado. Pedro des­ creve o Diabo como leão que ruge (I Ped. 5:8). A linguagem metafórica precisa ser reconhecida como tal. A declaração: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme à nossa seme­ lhança” (Gên. 1:26) não pode ser consi­ derada como descrição das diferentes partes do homem. Se um intérprete en­ tende o paralelismo hebraico, verificará que tanto imagem quanto semelhança têm exatamente o mesmo significado. A repetição é feita por amor da ênfase. 55


Contexto — Imediato e Geral. O con­ texto, tanto o imediato como o geral, é básico para qualquer compreensão de uma palavra ou versículo da Bíblia. Se os versículos são considerados em seu contexto, declara Mounce, as dificul­ dades de interpretação têm uma forma de se resolverem por si mesmas. A frase “efetuai a vossa salvação”, de Filipenses 2:12, faz sentido, se considerada em seu contexto. Ê uma conclamação para que se preocupassem com o bem-estar dos outros, como desígnio de Deus para a li­ bertação da igreja filipense de uma de­ sunião, que a ameaçava (cf. Fil. 2:1-5; 4:2,3). Esta frase pode desafiar o indiví­ duo com um senso de responsabilidade de tornar a salvação significativa em ter­ mos de entrega pessoal e crescimento. O contexto indica, todavia, que este é um significado secundário. Embora o princípio gramatical ou lin­ güístico seja básico, a descoberta do sen­ tido gramatical de forma alguma exaure a interpretação. Os princípios histórico, teológico e prático precisam também ser considerados, em relação a um determi­ nado versículo ou passagem da Bíblia, se queremos que ele seja adequadamente interpretado. 2. O Princípio Histórico O segundo princípio básico para a interpretação bíblica é geralmente desig­ nado como princípio histórico. Desde o meado do século XIX este princípio tem sido uma premissa básica para todos os intérpretes sérios. Ele inclui uma consi­ deração dos materiais geográficos (ante­ cedentes relacionados aos aspectos físi­ cos e de espaço), históricos (antecedentes temporais) e culturais (antecedentes ma­ teriais e sociais). Visto que a Bíblia se originou em um contexto histórico, ela só pode ser entendida exatamente e comple­ tamente quando este contexto é estuda­ do. De alguma forma, o intérprete pre­ cisa sair de sua pele de homem do sé­ culo XX e identificar-se com a vida e os sentimentos das épocas bíblicas. 56

Contudo, precisa ser lembrado que o estudo dos antecedentes históricos e da cultura da época não deve distorcer o conteúdo propriamente dito que estiver sendo considerado. Para um intérprete evangélico, os escritores bíblicos são con­ siderados como homens de sua época e, não obstante, como homens que estavam além de sua época. Lucas 9:62 sugere que “ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus”. A compreen­ são deste ensinamento de Jesus é melho­ rada pelo conhecimento dos implementos agrícolas da Palestina do primeiro sé­ culo. O arado era uma ferramenta que se manejava apenas com uma mão. Se o lavrador não prestasse muita atenção, o arado fugiria ao seu controle. O ensi­ namento é claro. O reino exige atenção imediata e consideração total, de todo o coração. Em I Coríntios 9:27, Paulo usa uma figura tirada dos jogos atléticos. Ele de­ clara que esmurra o seu corpo e o subju­ ga. Um estudo dos antecedentes históri­ cos informa ao intérprete que os gregos usavam luvas de boxe feitas com um pe­ daço de madeira dura ou metal, amarra­ do ao pulso com uma correia de couro. Uma característica dos coríntios era que os seus olhos tinham a tendência de serem saltados. A palavra traduzida como “esmurrar” ou “esbofetear” (pela RSV como na Almeida antiga ou Trad. Brasileira) significa atingir a pessoa de­ baixo do olho, levando-a a nocaute. Esta é uma expressão idiomática. O prin­ cípio é óbvio. Paulo considera o seu corpo como seu oponente, e afirma que lhe dá um golpe decisivo e o leva à servidão. Isto é feito para que ele não seja desqualificado como pregador e missio­ nário. De acordo com I Coríntios 11:5, as mulheres de Corinto deviam conservar as cabeças veladas, ao orarem. Cartledge sugere que o contexto histórico ajuda a iluminar esta declaração. Na antiga Co-


rinto, as mulheres de caráter casto usa­ vam seus véus em público. Algumas das mulheres cristãs coríntias haviam decidi­ do desfazer-se dessa restrição. Paulo pro­ testou, pois não queria que as mulheres cristãs fossem confundidas com as sacer­ dotisas prostitutas do culto de Afrodite, em Corinto. O conhecimento da administração po­ lítica do Império Romano, no primeiro século d.C., ilumina inúmeras passa­ gens, como a de Filipenses 1:27. A tradu­ ção inglesa KJV declara: “Que a vossa conversação seja somente a que convém ao evangelho de Cristo.” A palavra con­ versação significa “vida de cidadão” ou “modo de vida”. Filipos era uma colônia romana (At. 16:12). Filipenses 3:20 de­ clara que a cidadania do crente está no céu. Com o conhecimento dos anteceden­ tes históricos, o intérprete pode entender o que significavam estes versículos para os leitores do primeiro século. Eles en­ tenderiam que deviam viver sob a consti­ tuição e as obrigações dos céus, da mes­ ma forma como o cidadão político vivia sob a constituição e as obrigações de Roma. Felizmente, há muito material dispo­ nível hoje em dia para estudar a História e a cultura. O intérprete deve munir-se de volumes de história da Bíblia, de atlas e estudos dos povos bíblicos e sua cul­ tura. 3. O Princípio Teológico A Bíblia é apenas incidentalmente lin­ guagem e história. Ela não foi escrita apenas com objetivos históricos e esté­ ticos. Essencialmente, ela foi escrita co­ mo livro de fé. A convicção primordial dos escritores da Bíblia é que um Deus gracioso agiu na História a fim de criar em Cristo um povo para si mesmo. A in­ terpretação precisa procurar entender es­ tes critérios teológicos. Felizmente, desde a Segunda Guerra Mundial, novas ferramentas têm sido produzidas, tais como léxicos teológicos.

Estes estudos indicam, por exemplo, que Jesus não era apenas o Mestre refinado da Regra Ãurea e da paternidade geral de Deus. Pelo contrário, ele foi aceito como o Messias que cumpriu, em sua vida, morte e ressurreição, as promessas dos profetas do Velho Testamento, de que Deus na plenitude dos tempos agiria redentoramente na História. Ás narrativas bíblicas não descrevem acontecimentos externos objetivos, apre­ sentados em termos satisfatórios para os métodos classificatórios das ciências na­ turais. Os escritores e repórteres se en­ volveram nos acontecimentos, e tanto lembraram quanto interpretaram. O que aconteceu e a interpretação deles foram fundidos. Os escritores do Novo Testa­ mento receberam o impacto e ficaram atônitos com a realidade do encontro com Deus em Jesus Cristo. Eles encon­ traram nova vida nesse encontro. Seguese, portanto, que Jesus é descrito, na Bíblia, por homens que creram nele como o Messias. O mesmo princípio se aplica ao relato da fuga dos hebreus atra­ vés do Mar Vermelho: ele é feito por homens que a lembraram, foram incluí­ dos na libertação e a consideraram como ato de Deus. Em muitos casos, há um intervalo entre os fatos bíblicos e a fixação literá­ ria da testemunha. Como o indicou Mays, a Bíblia é o resultado de um pro­ cesso complexo de formação, modelação e crescimento. Este intervalo de tempo entre os fatos e o texto não é neutro nem vazio. Ã medida que foram contados e, talvez, recontados, os acontecimentos ga­ nharam uma nova e dinâmica contemporaneidade. As próprias testemunhas con­ firmaram e aprofundaram a sua maneira de entender e os seus conceitos sobre o evento original. O intérprete também contribui para o caráter da interpretação. Ele não é como um experimentador em química; tem pressupostos, dos quais precisa estar 57


cônscio. Eles precisam ser provados em suas confrontações com a Bíblia; ele pre­ cisa admitir distorções e preconceitos. Em certo sentido, o intérprete teoló­ gico plenamente adequado precisa estar relacionado com um grupo cristão, de que, por fé, seja membro. A Bíblia não pode ser plenamente compreendida a partir de seu lado externo, isto é, pela gramática, lógica, retórica e história so­ mente. Ela precisa ser entendida a partir de seu centro ou imo. O centro ou imo da Bíblia revela-se melhor ao homem que tem uma relação pessoal com Deus, atra­ vés de Jesus Cristo, e que é habitado pelo Espírito de Deus. O princípio teológico também inclui o que é chamado de interpretação doutri­ nária. A interpretação deve ser feita de acordo com as ênfases centrais da Bíblia. Esta idéia ou abordagem foi recomenda­ da fortemente por Lutero, Calvino e os outros reformadores protestantes do sé­ culo XVI. Os reformadores insistiam que havia uma verdade central na Bíblia que agia como base ou pedra de toque para a interpretação. Lutero encontrou esta pedra de toque no conceito paulino de justificação pela fé, especialmente da maneira como ele é apresentado em Romanos e Gálatas. Ê óbvio que Lutero enfatizou exageradamente este tema, por causa de sua luta contra o legalismo e o sacramentalismo medieval católico romano. No século XIX, o conceito pauliíio de “em Cristo” foi considerado, por muitos, como a chave do pensamento de Paulo. Esta divergência do ponto de vista da Reforma levou, em anos recentes, à rea­ bertura da questão da qual é realmente a chave central de interpretação da Bíblia. Os eruditos voltaram a interrogar à pró­ pria Bíblia, para desvendar o seu centro teológico. Geralmente concorda-se que Lutero tinha conceitos válidos no afã de pro­ curar uma pedra de toque para a inter­ pretação, quando começou com Paulo. 58

Contudo, muitos eruditos sustentam, hoje em dia, que a doutrina da justifica­ ção pela fé e o conceito de se estar em Cristo são ambos inadequados e carecem de compreensão. O tema da história sa­ grada, da história redentora ou da histó­ ria da salvação parece, para muitos teó­ logos, ser chave mais adequada para a vida e o pensamento de Paulo e também para a mensagem central da Bíblia. Esta perspectiva redentora-histórica abrange tanto o conceito de justificação pela fé como o de estarmos em Cristo, e acres­ centa dimensões adicionais. Outros estudiosos competentes acres­ centam uma palavra qualificadora à ex­ pressão “história da redenção”. Esta pa­ lavra é “escatológica” (últimas coisas). Nos primeiros anos deste século, Albert Schweitzer indicou que a escatologia é o tema dominante da Bíblia. Até então, nenhum intérprete cuidadoso fora capaz de eliminar, de seu pensamento, a centralidade da orientação futura no ponto de vista do mundo bíblico. O Velho Testamento fala da contínua atividade de Deus na História; não obs­ tante, para os escritores do Velho Testa­ mento, a plenitude dos propósitos de Deus está sempre no futuro. Em o Novo Testamento, reconhecia-se que Cristo fez, por assim dizer, o primeiro paga­ mento das realidades da redenção, uma antecipação. Não obstante, a plenitude dessas realidades e a plenitude do poder que elas têm permanecem no futuro. Em Cristo, o futuro (a era por vir) veio para o presente (I Cor. 10:11). Parece que a maneira mais frutífera de expressar a chave para a interpretação da Bíblia é em termos de uma combinação das ênfases escatológica e da história sagrada. Esta abordagem pode ser de­ signada como “história escatológica sa­ grada”. O intérprete deve ir além do significa­ do verbal e histórico precisos do texto, para entender a teologia que o texto in­ forma. Isto significa que o intérprete


procura descobrir, por exemplo, não me­ ramente que diretrizes Paulo deu aos coríntios, mas também a teologia que o levou a dar essas diretrizes. Por detrás das parábolas de Jesus estão as afirma­ ções a respeito do reino de Deus, vindo na pessoa de Cristo, e o desafio de uma resposta radical a ele. Bright insiste que essa abordagem teológica não é uma violação dos princípios sadios de inter­ pretação. Expor o conteúdo teológico do texto é coisa que está incluída na tarefa da interpretação gramatical, histórica e teológica. Além da pedra de toque teológica cen­ tral da abordagem da história escatológica sagrada, as ênfases subordinadas de­ vem ser notadas. O Novo Testamento é a norma para se interpretar o Velho Testamento. A pro­ fecia não é auto-interpretável, mas deve seguir os conceitos neotestamentários. Isto não significa que o Novo Testamento rejeita o Velho Testamento — ele o cum­ pre. As passagens sistemáticas devem ter precedência sobre as passagens inciden­ tais. Por exemplo, a justificação é tra­ tada de forma sistemática em Romanos e em Gálatas. Estes livros devem ser os guias primordiais para a discussão desta doutrina. Versículos incidentais e am­ bíguos devem ser subordinados, ou con­ siderados à luz de ênfases mais amplas e mais claras. Esta abordagem é, na ver­ dade, o tipo de procedimento que têm as pessoas eruditas, quando qualquer con­ junto de material ou sistema de pensa­ mento está sob exame. Os princípios universais devem ser procurados no meio de cerimônias locais. Foi através do lavapés que Jesus Cristo ensinou o princípio de amor e humilda­ de. A ordem de Paulo, “saudai-vos uns aos outros com ósculo santo” (Rom. 16: 16), deve ser considerada como ensina­ mento do princípio de fraternidade cris­ tã através do veículo da cerimônia co­ mum no primeiro século.

As doutrinas não devem basear-se sim­ plesmente em um versículo ou em uns poucos versículos variados. Pelo contrá­ rio, o teor geral da Bíblia deve ser pro­ curado. Inevitavelmente, haverá aspectos da verdade bíblica que parecerão contra­ ditórios para as mentes finitas. Um estu­ dante reverente da Bíblia, reconhecendo que é finito, viverá com estas verdades aparentemente contraditórias. A soberana ênfase da Bíblia, em rela­ ção ao propósito salvador de Deus na História, é fator básico de todas estas ên­ fases subordinadas. Cada parte da Bíblia deve ser considerada em relação a este propósito orgânico e teleológico. No mi­ nistério público de Cristo, Deus é con­ siderado no processo de agir. Uma vinda do reino mais ampla e mais decisiva foi vista na cruz e na ressurreição. A pleni­ tude do reino, todavia, só acontecerá na Parousia. Visto da perspectiva da história escatológica sagrada, o conceito do mistério discutido nas parábolas de Mateus 13 é mais bem entendido. O mistério é que o reino que deve vir em poder apocalíptico já entrou no mundo antecipadamente, para operar de maneira mais ou menos aberta e dramática entre os homens. O reino, na época do ministério de Jesus, pode ter parecido fermento ou uma pe­ quena semente de mostarda, mas ainda virá em poder e glória. A ênfase da história escatológica sa­ grada propicia uma estrutura para a es­ pécie apropriada de tipologia. O Velho Testamento tem muitas figuras que têm existência e significado reais por si mes­ mas, porém representam uma coisa ou acontecimento maior e permanente, cuja materialização plena ou antítipo encontra-se em o Novo Testamento. Alguns in­ térpretes consideram o Velho Testamen­ to demasiadamente figurado. Outros são céticos demais com respeito à tipologia. Os intérpretes moderados e construtivos tomam o Novo Testamento como seu ponto de partida, nos estudos tipológi59


cos. O significado emprestado aos tipos do Velho Testamento pelo Novo Testa­ mento é de importância fundamental. O princípio teológico também inclui uma consideração da literatura de inter­ pretação. A Bíblia foi escrita há centenas de anos. Muitos eruditos devotos têm es­ tudado a Bíblia. Verificando como ou­ tras pessoas a interpretaram, o intérprete contemporâneo recebe os benefícios da sabedoria e dos erros do passado. 4. O Princípio Prático O quarto princípio de exegese bíblica é o princípio prático. A culminação da interpretação bíblica é a aplicação da mensagem bíblica ao mundo moderno. Tendo encontrado o que ela quis dizer, o intérprete precisa perguntar: O que ela quer dizer? Alguns intérpretes são peritos em tor­ nar claro o que os escritores bíblicos queriam dizer em sua época. Percebem as convicções teológicas que guiaram os profetas e os apóstolos. Contudo, têm menor habilidade para relacionar este significado com o mundo contemporâ­ neo. Outros intérpretes conduzem dis­ cussões contemporâneas que têm peque­ na relação com o significado e a men­ sagem bíblica. Um intérprete cuidadoso procurará apresentar a palavra bíblica como o que Deus quer dizer aos homens em situações específicas, hoje em dia. Tal interpretação resultará em tradução em jargão moderno. Além do mais, ele procurará levar os seus ouvintes ou lei­ tores a uma implementação responsável da verdade bíblica em ação. A narrativa da criação, em Gênesis l:l-2:4, retrata o cosmos em termos de um quadro do mundo compreensível pa­ ra o mundo antigo. Um intérprete perito dirá que Deus não está interessado em apresentar ao homem os detalhes de cos­ mologia ou a metodologia detalhada de sua atividade criativa. Encontra-se, to­ davia, no relato de Gênesis, uma visão do mundo que coloca o Senhor vivo como o 60

Criador e fim de todas as coisas. O in­ térprete deve aplicar esta ênfase central da história antiga às necessidades das pessoas que estão vivendo em uma era de vacuidade, fastio e niilismo. Isaías 6:1 descreve Deus com trono, veste a aparência corporal. Utilizando a doutrina de acomodação sugerida por João Calvino há quatro séculos, um in­ térprete contemporâneo reconhece que esta é a maneira como Deus foi represen­ tado por Isaías. A verdade para então, expressa em termos do oitavo século a.C., e para hoje, é que existe um Deus pessoal de santidade e transcendência por detrás dessa linguagem dramática. Para Isaías, Calvino e os homens de fé contemporâneos, o uso de metáforas su­ blimes, para descrever Deus, preserva a diversidade e a transcendência de Deus. A declaração de Isaías refutará para sempre qualquer identificação monista ou mística de Deus com o homem, como alguns hindus e budistas ensinam hoje em dia. O teste de uma aplicação prática é saber se o texto bíblico comunica ou não a intenção nele implícita. Por exemplo, no primeiro século, a ressurreição de Cristo significava que havia começado a nova era, Cristo havia sido entronizado, e o homem podia viver pelo poder da nova era, aqui e agora. Este princípio é apli­ cável hoje, tanto quanto sempre o foi. Depois que aprende o significado ori­ ginal de uma passagem, o intérprete está em condições de aplicá-la à vida hodier­ na. Mas a ênfase deve exercer-se em princípios, e não em minúcias específi­ cas. Os escritores do Novo Testamento constantemente avançaram através de es­ pecíficos para os princípios. É óbvio que ninguém deve tentar vestir-se como o povo do primeiro século nem seguir os seus estilos de penteado. No entanto, o princípio do que é apropriado, isto é, de mansidão e modéstia, é atingido pelos materiais bíblicos que tratam de vesti­ menta e aparência (I Ped. 3:3; I Tim. 2:9).


Os princípios esboçados acima não devem ser considerados como regras rí­ gidas e mecânicas. Devem ser diretrizes úteis, contudo, quando o crente procurar aumentar o seu entendimento da Bíblia e apropriar-se dos recursos e da orientação que Deus deu ao homem na Bíblia e atra­ vés dela. Hábitos impróprios de inter­ pretação bíblica devem ser francamente admitidos e rejeitados. A prática cons­ tante e o diálogo com outros intérpretes devem ser encorajados. Em uma cultura em que dezenas de seitas radicais dizem estar interpretando a Bíblia adequada­ mente, é imperativo que se dê atenção ao entendimento e à prática destes princí­ pios geralmente aceitos. Para Leitora Adicional BLACKMAN, M. C. Biblical Interpreta­ tion. Philadelphia: Westminster Press, 1957. BRIGHT, JOHN. The Authority of the Old Testament. Nashville: Abing­ don Press, 1967.

CARTLEDGE, SAMUEL A. The Bible: God’s Word to Man. Philadelphia: Westminster Press, 1961. DENBEAUX, FRED J. Understanding the Bible. Philadelphia: Westmins­ ter Press, 1958. MAYS, JAMES LUTHER. Exegesis as a Theological Discipline. Rich­ mond: Union Theological Seminary, 1960. MICKELSEN, A. BERKELEY. Inter­ preting the Bible. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1963. RAMM, BERNARD. Protestant Biblical Interpretation. Boston: W. A. Wil­ de Co., 1956. STIBBS, ALAN M. Understanding God’s Word. Chicago: Inter-Varsity Press, 1950. WOOD, JAMES D. The Interpretation of the Bible: An Historical Introduc­ tion. London: Duckworth Press, 1958.

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A Geografia da Bíblia B. E lm o Através da História, a Palestina tem tido uma importância inteiramente des­ proporcional em relação ao seu tamanho. Ela é a ponte que liga as duas maiores massas de terra deste planeta: a Eurásia e a Ãfrica. Está situada de tal forma que todas as grandes rotas terrestres entre esses dois continentes e também as prin­ cipais rotas marítimas orientais e ociden­ tais convergem para ela. Como resulta­ do, tem havido constante movimento de povos através da “Terra da Bíblia” , com os objetivos de migração, comércio e guerra.

I. O Mundo do Velho Testamento O mundo do Velho Testamento, que em parte alguma tem mais do que algu­ mas centenas de quilômetros de compri­ mento, e, provavelmente, cento e cin­ qüenta quilômetros de largura, era cons­ tituído primordialmente de três partes: a Palestina no centro, o Egito a oeste-sudoeste e a Mesopotâmia a leste-nordeste. Estas regiões, com áreas menores entre elas, constituíram o que veio a ser conhe­ cido como o “Crescente Fértil” . A Palestina. Esta parte do mundo do Velho Testamento é a menor, mas a mais importante das três partes. As fronteiras tradicionais ao norte e ao sul da Palestina, de Dã a Berseba, ficam a cerca de 240 quilômetros de distância uma da outra. Embora tenha havido breves períodos em que a fronteira sul se estendeu até o Golfo de Ãcaba e à cidade de Eziom-Geber, a 450 quilômetros de

S c o g g in

Dã, durante a maior parte do tempo os hebreus se consideraram possuidores apenas da terra desde Dã até Berseba. A margem do deserto ficava no máximo a não mais de 120 quilômetros ao leste da costa do Mediterrâneo. O centro do mundo do Velho Testa­ mento, portanto, é um retângulo de mais ou menos 120 por 240 quilômetros, cons­ tituído de montanhas, desertos, desfila­ deiros e planícies. Os vizinhos ao leste e ao oeste da Pa­ lestina, a Mesopotâmia e o Egito, eram as “terras do rio” . Cada uma delas é caracterizada por um sistema fluvial de monta, que percorre toda a sua extensão, e cada uma delas é separada da Pales­ tina por faixas de deserto. O deserto do Sinai, entre a Palestina e o Egito, é par­ ticularmente severo, e serviu de “párachoque” entre os dois países. Egito. Este vizinho, ao sudoeste da Palestina, muitas vezes enviou os seus exércitos em direção ao norte. Em certa ocasião, eles marcharam contra os gran­ des poderes do Oriente: Síria, Babilônia, Assíria e Pérsia. Freqüentemente, os egípcios lutaram contra os habitantes da Palestina. Os depósitos de mineral ao sul da Palestina e as suas florestas ao norte também atraíram comerciantes e solda­ dos egípcios. A economia do Egito está ligada inse­ paravelmente ao rio Nilo. Ele tem partes desérticas ao leste e ao oeste do rio, mas está centralizado ao redor da faixa longa e estreita de solo de depósitos de aluvião 63


em ambas as margens do Nilo. Esses depósitos se abrem no rico delta do rio, ao norte, onde ele se encontra com o Mar Mediterrâneo. Os palestinos mandavam emissários ao fértil vale do Nilo, para comprar cereal, quando o seu país não conseguia produzi-lo. Mesopotamia e Síria. Os vizinhos ao nordeste da Palestina constituíam o bra­ ço oriental do “ Crescente Fértil” e, da mesma forma como o Egito ao sudoeste, são caracterizados por sistemas fluviais muito importantes: o Tigre e o Eufrates. Esses dois rios têm origem nas monta­ nhas ao sul do Mar Cáspio, e estão su­ jeitos a inundações sazonais. Canais, di­ ques e represas eram usados para contro­ lar essas inundações até certo ponto e pa­ ra irrigar os campos. Ruínas desses siste­ mas de irrigação ainda são visíveis em muitos lugares. A vida era mais difícil e menos estável na Mesopotâmia do que no vale do Nilo. Essa região fica ao norte do Egito e tem invernos mais frios. Os desertos e outras fronteiras que a separavam de seus vizi­ nhos eram menos restritivas, de forma que sucessivos invasores conquistaram a terra e estabeleceram as suas dinastias. A Palestina muitas vezes foi vítima dos conflitos entre o Egito e a Mesopotâmia, que travavam as suas guerras em solo pa­ lestino. A Síria não tem fronteiras geográficas fixas na Bíblia, e em várias épocas in­ cluiu a região entre o Sinai e a Mesopo­ tâmia. A Bíblia hebraica usa o nome de Harã para designá-la como o país dos arameus, que estabeleceram-se na re­ gião, colocando Damasco como sua capi­ tal, por volta do décimo terceiro século a.C. Eles chegaram ao auge de seu poder quase simultaneamente com os hebreus, na Palestina. A costa fenícia, partes do vale do Eu­ frates e partes da Palestina eram pouco mais do que províncias sírias, em uma época ou outra da história síria. 64

II. O Mundo do Novo Testamento Logo depois da ressurreição de Jesus, os cristãos começaram a viajar para mui­ to além dos limites do mundo veterotestamentário. As perseguições, as via­ gens missionárias e o comércio enviaram seguidores do Cristo por todas as terras mediterrâneas. Aí eles pregaram a sua nova fé, se reuniram em comunidades de adoradores e, mais tarde, estabeleceram igrejas. Lucas 2:1 diz que Augusto César rei­ nava sobre “ todo” o mundo habitado. Esse Império Romano se estendia, a grosso modo, do Atlântico até o Eufra­ tes, e do Reno e Danúbio até os desertos Arábico e do Saara. Àsia Menor. Esta subdivisão é limita­ da ao sul pelo Mar Mediterrâneo e a Mesopotâmia; ao norte, pelo Mar Negro e o Mar Cáspio; ao leste, pela Armênia e Média; e ao oeste, pelas Ilhas Gregas e o Estreito de Bósforo e Helesponto. A Asia Menor teve considerável impor­ tância durante o período neotestamentário. As viagens missionárias de Paulo se demonstraram frutíferas, nessa região, e resultaram em igrejas em muitas cida­ des. Foi da Asia Menor que o Espírito chamou Paulo para a Macedônia e a Grécia. Grécia. A disseminação do evangelho para o oeste logo aconteceu como resul­ tado da “chamada para a Macedônia” . As principais cidades gregas — entre elas, Corinto, Filipos e Tessalônica — tomaram-se as bases de fortes comunida­ des cristãs e contribuíram para o cres­ cimento e a disseminação da nova fé. Itália. Ao oeste da Grécia, atravessan­ do-se o Mar Adriático, fica a península italiana, com as ilhas de Sicília, Sarde­ nha e Córsega ao oeste. O evangelho foi bem estabelecido em Roma, no decorrer de uma geração, após a ressurreição de Jesus. Egito e África do Norte. As principais cidades do mundo mediterrâneo tinham


comunidades judaicas bem estabelecidas antes da época de Cristo. Foi a essas comunidades que as notícias do evange­ lho chegaram em primeiro lugar. A gran­ de cidade de Alexandria tornou-se um forte centro da nova fé cristã, e até che­ gou a competir com Roma e Jerusalém, em termos de predomínio. De Alexan­ dria, a fé cristã se espalhou em direção ao oeste, ao longo da costa norte-africana, a Cirene, Cartago e, possivelmente, até Gibraltar. O Mediterrâneo Ocidental. Hâ pessoas que pensam que Társis, cidade para onde Jonas fugiu (Jon. 1:3), pode ser a Espanha, e que o contato entre a Pales­ tina e a Espanha remonte à época veterotestamentária. Sabemos, de Romanos 15:28, que Paulo pretendia ir à Espa­ nha. Pode ser que Paulo ou alguém que fosse membro das comunidades ociden­ tais, influenciado por ele, tenha levado o evangelho à Inglaterra, invadida pelos romanos em 43 d.C.

III. Palestina A Palestina é a terra a que estão li­ gadas a história e a geografia bíblicas. Embora o país seja pequeno, a sua posi­ ção é muito importante. 1. Fronteiras A Palestina é limitada pelo Mar Medi­ terrâneo ao oeste; pelo deserto ao leste; pela Síria ao norte; e pelo Egito ao sul. A fronteira setentrional mudou com fre­ qüência, por causa da sorte mutável da Síria ou de algum outro vizinho. A fron­ teira meridional era bem mais estável, devido ao deserto, que servia de limite natural entre a Palestina e o Egito. 2. Subdivisões Há pelo menos quatro zonas distintas na Palestina, como faixas que correm do norte ao sul. A Planície Costeira. Essa área se es­ tende em larguras variáveis, desde a “Es­ cada de Tiro” até o “Ribeiro do Egito” . A planície costeira dividia-se, natural­

mente, em três partes. A primeira delas era Zebulom. A planície chega a ter 7 quilômetros de largura ao norte, perto da Baía de Aco, mas no cume do Monte Carmelo não é mais larga do que uma ou duas centenas de metros. O Monte Car­ melo forma quase que uma saliência, que se projeta para o mar, neste ponto, e forma a belíssima Baía de Aco, em cujo lado norte ficava o porto de Aco (Juí. 1:31). A segunda divisão era Sharon. Do cume do Carmelo para o sul, a planície começa novamente a se ampliar, alcan­ çando uma largura de 23 quilômetros ou mais, em alguns pontos. Esta parte da planície fica entre o Monte Carmelo e o rio Yarkon, e é mencionada comumente como Sharon. Nos tempos bíblicos, ela era coberta por espessas florestas e tinha regiões pantanosas. A terceira divisão era a Filístia, nome dado à planície costeira do Yarkon para o sul. Os filisteus não apenas tinham as suas cinco maiores cidades nessa região — Asdode, Ascalom, Ecrom, Gate e Gaza — mas também emprestaram o seu nome a toda a região. A planície filistéia era mais monta­ nhosa do que Sharon. Não recebia tanta chuva quanto a região norte, e, por con­ seguinte, não era pantanosa nem densa­ mente arborizada. Essas suaves terras baixas eram adequadas para colheitas de cereais, oliveiras e uvas, embora, conti­ nuando para o sul, a água fosse de fato escassa. Gaza era a última cidade flores­ cente antes do deserto. A Cordilheira Ocidental. Conhecida como Cordilheira do Líbano, Planalto Ocidental ou Altiplano Judeu, esta cor­ dilheira começa alta, no Líbano, e conti­ nua para o sul, até a região do Sinai. Fendas, na superfície da terra, correndo de leste para oeste, fizeram que essas montanhas desçam em uma série de de­ graus. De Esdraelom para o norte, essa re­ gião é identificada como Galiléia. O ex­ tremo norte da cordilheira fica perto da 65


costa. É conhecida hoje como o Líbano, mas nos tempos bíblicos era conhecida como Fenícia. Era distinguida por suas grandes florestas de enormes cedros, que aumentavam a dificuldade de se passar por sobre as montanhas. Havia muitos portos excelentes nas costas rochosas da Fenícia, e as suas florestas propiciavam abundante madeira para os navios fení­ cios. O primeiro degrau, descendo-se das alturas do Líbano, é o planalto da Galiléia superior. A montanha mais proe­ minente dessa região é o Monte Canaã, que tem mais de 1.000 metros de altura, sendo a montanha mais alta da Palesti­ na, ao oeste do vale do Jordão. Todo o norte da Palestina é visível do alto do Monte Canaã. A Galiléia inferior fica ao sul de uma linha que corre para o leste de Aco, até o extremo norte do Mar da Galiléia. A sua característica dominante é que ela é composta de montanhas e vales ou pequenas planícies. É a região que, na conquista de Canaã, foi atribuí­ da a Zebulom e Naftali (Jos. 19:10,32). Esta região é comparativamente bem regada e importante para a produção de uvas, olivas, cereais e vegetais. A Planície de Esdraelom fica entre o planalto da Galiléia inferior e as monta­ nhas de Samária. Esta planície de forma triangular é ligada ao Mediterrâneo pelo ribeiro de Quisom, na Baía de Aco, e, ao vale do Jordão, pelo vale de Jizreel. Es­ draelom era mal drenada nos tempos bíblicos, e muitos exércitos antigos foram retidos em seus lodaçais traiçoeiros. O Monte Tabor, no canto nordeste dessa planície, é um dos locais que se considera tradicionalmente como o da transfiguração de Jesus (Mat. 17). As Montanhas Centrais se levantam da planície de Esdraelom, para formar, ao sul, a região conhecida como Samária, composta dos territórios de Manassés e Efraim. A Cordilheira do Carmelo tem menos de 700 metros de altura, mesmo em seus 66

pontos mais altos, ao noroeste e ao su­ deste, e é muito mais baixa no meio, perto de Megido, onde é atravessada pelo Passo de Megido. Manassés é uma grande bacia que rodeia Siquém. Tem a aparência de um pires, por causa das terras altas que circundam as suas margens. Efraim, para o sul de Manassés, tem a forma de uma grande cúpula. É uma formação de cal de, aproximadamente, 1.000 metros de altitude, em alguns lugares, e, por­ tanto, é uma das áreas mais bem regadas da Palestina. O seu solo é fértil e excelen­ te para olivas, uvas e outros produtos agrícolas. A região de Benjamim fica entre Efraim e Judá. Talvez ela seja mais ca­ racterística devido ao seu fácil acesso pelo vale de Aijalom, vindo do oeste, e pelo vale que leva a Jericó, vindo do leste. O território benjamita era bordejado, ao norte, por Betei, e, ao sul, por Jerusalém. Judá e o Shephelah eram o território dos altiplanos de Judá. Esta região come­ ça pouco ao norte de Jerusalém, e estende-se até o ponto em que as montanhas cessam, ao norte da antiga cidade de Arade. Shephelah é o nome dado pelos antigos hebreus às colinas de pedra calcárea que ficam entre a planície filistéia e as montanhas de Judá. Esse termo signi­ fica “terras baixas” e referia-se à região imediatamente abaixo das regiões mon­ tanhosas habitadas pelos hebreus. Era uma “terra de ninguém” entre os he­ breus e os filisteus, e eles lutavam fre­ qüentemente para controlá-la. O Negev fica além do extremo sul das terras altas judaicas. Ele, na verdade, inclui a região que fica pouco ao oeste do extremo sul do Mar Morto, até a costa do Mediterrâneo, ao sul de Gaza. Berseba fica na fronteira norte do Negev. Ao sul, ele se perde nas vastidões desérticas do Sinai. Há poucas fontes e poços nessa área, e uma limitada atividade agrícola pode ser exercida em alguns lugares bai­ xos.


O vale do Jordão. Mais exatamente conhecido como vale da Grande Fenda, o Jordão é uma depressão de diferentes profundidades, que corre através de toda a extensão da Palestina. A sua largura média é de dezesseis quilômetros. O rio Jordão está contido inteiramente nela. Em seu extremo norte, o vale está 600 metros acima do nível do mar, embora já tenha caído 500 metros quando chega à Palestina, nos pântanos de Huleh. Está 210 metros abaixo do nível do mar, no Mar da Galiléia, e cerca de 430 metros abaixo do nível do mar, nas margens do Mar Morto. Daí em diante, ele se eleva, até alcançar 250 metros acima do nível do mar, no Arabá, antes de cair nova­ mente para o nível do mar, no Mar Ver­ melho, em Elate. Por causa da profundidade do vale, há muitos declives íngremes e precipícios. As montanhas ao oeste estão 1.000 me­ tros ou mais acima do vale, em alguns lu­ gares, e são muito mais altas do que as que estão ao leste. O vale tem um clima caracteristica­ mente seu. É quente o ano todo, mesmo no norte, e tem condições desérticas ao sul. Onde ele é regado por fontes ou torrentes, a vegetação tropical é abun­ dante. O vale pode ser subdividido da se­ guinte maneira: Vale de Huleh, algumas vezes chama­ do de Ãguas de Merom. Esta região pan­ tanosa, muito úmida, fica a 70 metros acima do nível do mar, e é o lugar onde se encontram os vários braços do rio Jordão. Nos tempos bíblicos, era uma planície pantanosa, onde cresciam jun­ cos e arbustos. O Mar da Galiléia, no Velho Testa­ mento (Núm. 34:11), era chamado de Mar de Quinerete. O Novo Testamento (Luc. 5:1) o chama de lago de Genezaré.(*) Esse mar fica apenas 16 quilôme­ (*) NOTA DO TRADUTOR: O Evangelho de João chama este mar de Mar de Tiberíades (João 6 : 1 ; 2 1 : 1).

tros ao sul de Huleh, distância em que o vale cai abruptamente 280 metros, fazen­ do com que as praias da Galiléia fiquem 210 metros abaixo das do mar Mediterrâ­ neo. É o único lago de água doce da Palestina. Tem 21 quilômetros de exten­ são e 11 a 14 quilômetros de largura. As suas águas frias, claras, de cor azul es­ cura, fervilham de peixes. Do alto das montanhas vizinhas, ele parece uma jóia bela e calma. Não obstante, é capaz de formar tempestades violentas. Os pequenos vales e planícies ao redor do mar são férteis e bem regados. O clima tropical os toma produtivos com profusão: ali se colhe uma grande varie­ dade de frutos e vegetais o ano todo. Cidades importantes, Magdala e Cafarnaum, por exemplo, ficavam às suas margens nos tempos bíblicos. A cidade de Tiberíades sobrevive até hoje. O vale do Jordão, entre o Mar da Galiléia e o Mar Morto, tem menos de 112 quilômetros de comprimento. Na sua extremidade norte, este vale é fértil e de luxuriante vegetação, especialmente ao norte da confluência dos rios Jordão e Iarmuque. Daí para o sul, o Jordão cortou o seu leito através de marga (cal­ cário argiloso) azul-cinza, e as margens do rio estão cheias de flora e fauna. Aproximadamente 24 quilômetros ao sul do Mar da Galiléia, o vale de Jizreel começa do oeste. O vale do Jordão se estreita aqui, até ter cerca de 40 qui­ lômetros, onde o Wadi Far’ah se junta a ele novamente, do lado do oeste. A mar­ gem oeste, do Wadi Far’ah até o Oásis de Jericó, é uma terra deserta, com poucas fontes e ribeiros. Ao leste do rio há muito mais fontes e ribeiros. Os dois maiores são o Iarmuque, mencionado acima, e o Jaboque. À margem leste se desenvolve­ ram mais cidades do que à margem oeste, por causa do suprimento superior de água. O Mar Morto era conhecido, nas épo­ cas bíblicas, como Mar Salgado. Ele fica na fissura mais profunda da terra, sem se 67


contar o fundo dos oceanos. A linha de suas praias fica a cerca de 430 metros abaixo do nível do mar, e o mar, na sua metade norte, tem a profundidade de 400 metros. El-Lisan, “ a língua” , é a penín­ sula em formato de barco, que forma uma protuberância a partir do lado leste. Acima dela, o mar tem 45 quilômetros de comprimento. Cerca de 22 quilômetros do mar ficam ao sul de El-Lisan, e ali ele não tem mais de 12 metros de profundi­ dade. A largura do Mar Morto varia de 3 quilômetros a 800 metros em El-Lisan, e de 13 a 16 quilômetros pouco acima desse lugar. A terra ao redor do mar é constituída de marga salgada. As praias são, em sua maioria, estreitas. Ao redor do mar, o calor é quase insuportável durante a maior parte do ano. Os famosos “ Rolos do Mar Morto” foram descobertos em 1947, numa caver­ na do lado noroeste do Mar Morto. Ex­ plorações ulteriores e intensivas escava­ ções revelaram também um cemitério e restos de uma biblioteca e de alojamen­ tos, que pertenciam aos escribas que copiavam e preservavam esses antigos documentos. O Arabá é o nome geralmente dado à parte do vale da Grande Fenda, que per­ corre 176 quilômetros, desde o Mar Mor­ to até o Mar Vermelho. Este deserto desolado eleva-se desde 430 metros abai­ xo do nível do mar até 250 metros acima do nível do mar, e, depois, em degraus sucessivos, desce novamente para o nível do mar em Elate. A precipitação pluvial é esporádica; não obstante, algumas ve­ zes acontece uma violenta inundação no vale, por causa da água das chuvas que caem sobre as montanhas vizinhas. Os depósitos de cobre, em ambos os lados do Arabá meridional, têm sido explorados desde épocas pré-salomônicas. As minas de cobre e a estrada que liga Elate e o Mar Vermelho a regiões ao norte, são as características mais impor­ tantes do Arabá. 68

Planalto Oriental. As montanhas des­ sa região são geralmente mais altas do que as do oeste. íngremes encostas, que descem para o Jordão, caracterizam o lado ocidental desse planalto. Não há uma linha de demarcação claramente definida entre o planalto e os desertos sírio e arábico ao leste. Uma precipitação pluvial comparati­ vamente grande resulta do elevamento e esfriamento do ar pelo elevado planalto. O deserto tem uma poderosa influên­ cia sobre a região ao leste do Jordão. Ventos quentes sopram durante a prima­ vera e o outono. Ventos congeladores chicoteiam do deserto no inverno. O planalto é caracterizado por quatro rios: Iarmuque, Jaboque, Amom e Zerede. Eles começam perto do deserto orien­ tal, e correm para o norte, antes de se desviarem para o oeste. Há também mui­ tos regatos menores, que fluem na mes­ ma direção. Desta forma, a maior parte da água das chuvas que caem sobre o planalto mais tarde flue para o Jordão. A Transjordânia está dividida em qua­ tro subdivisões: A parte mais ao norte é Bashan. Fica, geralmente, ao norte do rio Iarmuque. É famosa por sua fertilidade e produtivi­ dade. Nos dias de Amós, era uma terra fabulosa, de riqueza e lazer, cujas mu­ lheres ele podia chamar de “vacas de Basã” (4:1). Gileade inclui, ao sudeste, o território amonita. Ele abrange a parte central da região leste do Jordão. É mais elevada e mais acidentada do que as outras re­ giões, elevando-se, ocasionalmente, a mais de 1.000 metros. O deserto fica apenas a 40 quilômetros do Jordão, em alguns lugares. O terreno é difícil de se atravessar, especialmente a parte oeste, que é coberta de florestas. As tribos de Rúben e Gade ocuparam a parte do sul de Gileade, onde Rúben continuou a sua existência nômade (I Crôn. 5:9). A parte norte de Gileade tomou-se um centro de população israelita ao leste do


Jordão, quando a Palestina do oeste tornou-se super-povoada. A tribo de Manassés era a presença dominante ali. A margem oeste de Moabe é formada pelo litoral oriental do Mar Morto. Não existe uma linha definida separando-a de Gileade ao norte. É um platô elevado, que corre por toda a extensão do Mar Morto. O rio Amom divide Moabe em duas partes. O rio Zerede a separa do Edom, ao sul. Esses platôs variam de 600 metros ao norte de Amom até mais de 1.300 metros ao sul. De acordo com II Reis 3:4, a ati­ vidade era a pastoril. Edom começa mais ou menos na ex­ tremidade sul do Mar Morto e continua para o sul. Consiste de montanhas eleva­ das de granito e arenito, elevando-se ao leste do Arabá. Em alguns lugares, essas montanhas têm mais de 1.700 metros de altitude. Nas encostas ocidentais, elas têm uma precipitação pluvial adequada. A região é acidentada, e foi difícil de conquistar.

mais longa do que descrevemos aqui, embora algumas vezes seja muito mais curta. O verão longo e seco é minorado pelo abundante orvalho, tão característi­ co da região. A história do velo de Gideão, em Juizes 6:38, e as referências ao “orvalho da manhã” , em Oséias 6:4 e 13:3, ilustram a sua ocorrência. A estação chuvosa é muito menos re­ gular do que a seca do verão. Um in­ verno típico é quase que igualmente divi­ dido entre dias chuvosos e dias com pouca chuva ou nenhuma. Há anos, con­ tudo, em que a chuva começa somente em janeiro, e outros, quando ela vem abundantemente já em outubro. Granizo e neve não são desconhecidos, mas tam ­ bém não acontecem com regularidade. Para o povo da Bíblia, o tempo era in­ teiramente dependente de Deus, e ele o usava à vontade, para abençoar e para castigar os seus filhos e os vizinhos des­ tes (Is. 5:6; I Reis 17:1-7).

3. Montanhas

O vale do Jordão é, em todos os as­ pectos, o vale mais importante da Pales­ tina. Tem o seu próprio rio, e recebe os ribeiros que correm dos vários oásis que há ao longo de toda a sua extensão, além dos rios que fluem para ele, vindos das montanhas. O vale de Jizreel corre do oeste, atra­ vés da planície de Esdraelom, e dirige-se para o leste, para o Jordão, no ponto onde ficava a antiga Bete-Seã. Agora é ele uma estrada do Mediterrâneo, em Aco, para o vale do Jordão, que percorre essa depressão. Aijalom, Sorek e Elá são vales menores e mais estreitos, nas terras altas de Judá, correndo da planície da Filístia até os cumes das montanhas. Estes e outros vales e planícies serviam não apenas para conter as águas do inverno e dos ribeiros perenes, como o Jordão, mas também de centros agríco­ las, como desfiladeiros entre as monta­ nhas, e como rotas para as principais es­ tradas da antiguidade. Os grandes exér-

As montanhas serviram de barreiras para passagem fácil através da Palestina. As passagens ou desfiladeiros entre elas eram guardados por cidades estratégicas. Os vales e planícies estreitas serviam à economia agrícola da Palestina. As montanhas e colinas propiciavam proteção contra os intrusos, localização para as cidades e solo para os campos e planícies. Também impediam o ar quen­ te de soprar durante as estações chuvo­ sas, fazendo-o elevar-se e resfriar-se, e depois precipitar a sua umidade em for­ ma de chuva. 4. Clima Duas estações principais caracterizam o clima da Palestina: o verão seco, de meados de maio até meados de outubro, e a estação chuvosa, durante os meses de novembro a abril. A estação chuvosa varia de ano em ano. Ela dificilmente é

5. Rios e Vales

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eitos da História se moveram através desses vales, por toda a Palestina. 6. Estradas e Caminhos A Palestina é a região que serve de ponte entre as duas “terras dos rios” , Egito e Mesopotâmia, ponte através da qual o tráfego comercial e militar viajou desde muito antes da época dos hebreus. A estrutura geográfica do país, a dis­ tribuição de planícies, vales e monta­ nhas eram tais que várias culturas e po­ vos podiam viver lado a lado em semi-isolamento. Esta mesma geografia, contudo, ditou a localização de importantes rotas internacionais, que permaneceram, vir­ tualmente, sem alteração até hoje. Estas estradas estratégicas também tomaram possível o fato de que esse país fragmen­ tado fosse unificado em várias épocas, muitas vezes sob controle estrangeiro. Havia quatro estradas principais que atravessavam a Palestina: A mais importante era a estrada cos­ teira, conhecida pelos geógrafos como a ViaMaris, “a via do m ar” (Is. 9:1). Ela vai do Egito para o norte, entrando para o interior através do desfiladeiro de Megido, continuando pelo litoral como uma estrada de importância secundária. Em Megido, a estrada se bifurca, quando um dos braços margeia o Esdraelom ao oes­ te, depois passando por Jizreel, dirigin­ do-se para Aco, no caminho para o lito­ ral fenício. O segundo braço passa atra­ vés de Esdraelom, ao nordeste, perto do Monte Tabor, e segue o vale da Fenda, além do Mar da Galiléia e Hazor, em direção a Damasco. Os poderosos exér­ citos do Egito, Assíria, Babilônia e Pa­ lestina marcharam nessa estrada. A Estrada do Rei é o termo bíblico usado (Núm. 20:17) para designar a es­ trada que corre de Damasco para o sul, ao longo do Planalto Transjordaniano, para Elate e pontos além desse lugar. Pelo menos a parte sul-central desta es­ trada foi usada pelos filhos de Israel durante o Êxodo. 70

A estrada da montanha ao oeste do Jordão era menos importante, embora não insignificante. Começava em Megi­ do, e se dirigia para o sul, passando por Siquém, Betei, Jerusalém e Hebrom, chegando a Berseba, onde cruzava com outras estradas. O vale do Jordão também propiciava uma topografia adequada para viagens. Havia duas estradas, uma de cada lado do rio. Essas estradas ficavam princi­ palmente entre Bete-Seã e Jericó, lugares em que se encontravam com outras estra­ das. Estas quatro estradas longitudinais fa­ ziam conexão com muitas vias latitudinais de importância secundária. Conclusão A geografia física da Palestina deixou a sua estampa indelével sobre o “povo do livro” . A sua própria pequenez contri­ buiu para que eles fossem fundidos em uma comunidade única. A sua topogra­ fia acidentada, montanhosa, ajudou a formar o seu espírito e influenciou a sua linguagem (Is. 5:1-7; 44:3; 51:1). A sua rochosidade forçou-os a labutar de ma­ neira inusitadamente árdua para obter “ o fruto da vide” e o “ p��o do solo” . As suas estações climáticas alternadas de chuva e seca, orvalho e sequidão, calor e frio, abundância e fome, afetaram não apenas a rotina de sua existência diária, mas também tiveram muito a ver com o caráter de sua religião. Quando os israelitas falavam do “ monte da casa do Senhor” (Is. 2:2), podiam imaginá-lo “alto e sublime” (Is. 6:1). Eles representavam a força e o po­ der de Deus com a figura de uma grande rocha de salvação e força (Sal. 62:6,7). Só precisa-se ver as maciças montanhas pétreas de muitas partes da Palestina, para entender a força desta e de outras figuras semelhantes de linguagem. Esta é a terra para onde Deus chamou Abraão e sua família. Insignificante em tamanho, contendo uma incrível varieda-


de de panoramas, não obstante, ela tem permanecido como terra de grande im­ portância por causa do drama desempe­ nhado ali, quando Deus trabalhou no povo que escolhera. Ele agiu poderosa­ mente na História, usando esse pequeno palco para realizar uma obra redentora que tem significado ímpar para toda a família dos homens. Para Leitura Adicional AHARONI, YOHANAN. The Land of the Bible. Trad, por A. F. RAINEY. Philadelphia: Westminster Press, 1967. AVI-YONAH, MICHAEL. The Holy Land. Grand Rapids: Baker Book House, 1966. BALY, DENIS. Palestine and the Bi­ ble. New York: Association Press, 1959.

________ The Geography of the Bible. New York: Harper & Brothers, 1957. ________ Geographical Companion to the Bible. New York: McGraw-Hill, 1963. SMITH, GEORGE ADAM. The Histori­ cal Geography of the Holy Land. Edição revisada. New York: Harper & Row, 1967. McCOWN, C. C. “Palestine, Geography of” , IDB, III. 626-639. SCHOFIELD, J. N. “The Geography of Palestine” , Peake’s Commentary on the Bible, p. 29-36. WRIGHT, G. E. e F. V. FILSON. The Westminster Historical Atlas to the Bible. Philadelphia: Westmins­ ter Press, 1956. Oxford Bible Atlas, (ed.) Herbert G. May. London: Oxford University Press, 1962.

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A Arqueologia e a Bíblia Joseph A. Callaway A 5 quilômetros ao norte de Jerusalém fica um monte alto e redondo encimado por um montículo de terra rochosa. Os árabes, durante séculos, o têm chamado de Tell el-Ful, ou “o Monte dos Feijões” , porque esse alto é um bom lugar para se plantar feijões ou ervilhas. Este é o prin­ cipal ingrediente de um saboroso prato do Oriente Médio, popular durante pelo menos cinco mil anos. Ficando no alto do Monte dos Feijões, a pessoa pode ver, ao nordeste, um mon­ tículo alongado, de regular tamanho, na forma de um túmulo gigante. O povo chama esse local de Et-Tell, ou "A Ruí­ na” , porque era uma ruína quando os árabes chegaram à Palestina no século VII. Durante pelo menos treze séculos, ali se plantou trigo. Diretamente ao norte do Monte dos Feijões e do outro lado de um vale largo, está uma pequena aldeia de cabanas de teto chato, espalhadas pelo cume e pela encosta sul de outra montanha. Ela é chamada de Er-Ramah, nome que tem sido passado de geração em geração pelos habitantes do local. E, ao oeste, está outra aldeia, chamada de El-Jib, localizada-no ponto mais ele­ vado de outro montículo. O seu minare­ te, em forma de lápis, aponta para cima, para Alá, a divindade muçulmana. Num raio de 60 quilômetros, há, li­ teralmente, centenas de aldeias e montí­ culos de antigas cidades que descansam silenciosamente no alto de montes, perto de fontes de água. Eles são impressio­ nantes, mesmo para o observador casual. Um leitor da Bíblia percebe imediata­ mente em Er-Ramah o nome da cidade natal de Samuel, R am á(I Sam. 7:15-17). E El-Jib não é outra senão Gibeom,

cidade dos heveus, que negociaram paz com Josué (Jos. 9:3-15). Et-Tell é a bíbli­ ca Ai. E o Monte dos Feijões é, provavelmen­ te, a antiga Gibeá, a aldeia de Saul (I Sam. 10:26), cujas ruínas de sua cidadefortaleza ficaram sem serem notadas du­ rante séculos, a poucos centímetros abai­ xo do sulco do arado do lavrador. Cobertas pelo pó dos séculos permane­ cem as cidades e aldeias da Bíblia, sobre­ vivendo pelo menos alguns de seus mora­ dores, de geração em geração. Aqui, num raio de 60 quilômetros, desenro­ lou-se a maior parte do drama da revela­ ção bíblica — muito antes que ela fosse escrita em um livro. E esta revelação foi experimentada por pessoas que viveram aqui antes que ela fosse escrita em um livro. E o livro, a nossa Bíblia, foi afe­ tado por toda sorte de influências que formam as experiências de um povo, isto é: raça, língua, geografia, instituições religiosas, política interna e externa, tra­ dições culturais, conhecimento cientí­ fico, literatura, arte, economia, conflitos de classes, etc. Para entender e inter­ pretar a Bíblia, devemos conhecer o povo que a passou para nós como legado de sua experiência com Deus. Ê verdade que podemos ficar familia­ rizados com o povo da Bíblia encontran­ do-o nas páginas da Escritura. Mas essas páginas são escritas apenas em duas di­ mensões, e uma tendência comum é su­ prir uma terceira dimensão, que faz com que o povo bíblico viva segundo as nossas experiências, e não as dele. Por exemplo, quantos programas de construção de igrejas têm sido promovidos com o texto: “Onde não há visão, o povo perece” 73


(Prov. 29:18, KJV)! Na verdade, a pala­ vra visão, neste versículo, significa reve­ lação de Deus, termo comum no Oriente Médio, usado em relação à profecia de Isaías (1:1), mas que descreve a sua vo­ cação original em 6:1 e ss. 1 Não é errado admoestar uma congre­ gação para exercer visão em planejar e edificar, mas encontrar este significado prático neste provérbio é impor a nossa própria maneira de pensar sobre uma palavra da Escritura, roubando-lhe o seu significado sagrado. A verdadeira dimensão de realidade e de importância, na Bíblia, é a sua pró­ pria vida, e não a nossa. Quando o povo da Bíblia vive a sua própria vida, ele nos fala. Por outro lado, se impusermos a experiência de nossa própria vida e ma­ neiras de pensar à Bíblia, o seu significa­ do torna-se confuso e a sua mensagem se perde. Uma busca importante dos cren­ tes conscientes, portanto, deve ser encon­ trar o povo de Deus que viveu na Escritu­ ra, pois ele é que comunica a Palavra viva. Encontrá-lo de verdade, é entrar em suas casas, comer a comida que ele come, conversar com ele nos seus santuá­ rios, pensar com ele em sua literatura, arte e símbolos, sofrer com ele por seus ideais e sua fé. A arqueologia bíblica é dedicada à tarefa de orientar o homem moderno na maneira como o mundo bíblico antigo vivia. Os restos materiais de cidades co­ mo Jerusalém são escavados com técni­ cas científicas cuidadosas. Desta forma, podemos conhecer e recuperar o exci­ tante drama da vida em Jerusalém, como, por exemplo, Isaías o experimen­ tou. O livro de sua profecia era o seu diálogo com o seu mundo. No contexto do santo matrimônio de sua profecia com 0 mundo ao qual ele falou nasceu a palavra legítima que ele nos fala. A arqueologia, portanto, procura descobrir 1 J. Lindblom, Prophecy ín Anctent Israel (Oxford: Basil Blackwel, 1962), p. 122-37, apresenta uma discussão compreensível do fenômeno de visões proféticas na Bí­ blia e no Oriente Próximo da antiguidade.

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as interações da História em qualquer período determinado, o uso de palavras que lhe emprestam significado e as equivalências de dinheiro, pesos e medidas que focalizam a vida em termos con­ cretos. A arqueologia procura, igualmen­ te, descobrir os símbolos da arte e da literatura que comunicam a alma de um povo, as marcas de nível de informações concretas que o teólogo precisa levar em conta em sua doutrina, e um conheci­ mento do povo de Deus em seu con­ texto internacional que, no decorrer dos anos, cultiva as perspectivas e o entendi­ mento. Em suma, o legado da arqueo­ logia para a Bíblia é vida, a vida do povo que nos deu o livro.

I. A Descoberta do Mundo Bíblico Há dois séculos o mundo bíblico era praticamente desconhecido. Os eruditos bíblicos desperdiçaram muito tempo de­ batendo problemas que poderiam ter sido rapidamente resolvidos com algu­ mas informações concretas. Por exem­ plo, nos dias de Martinho Lutero houve uma controvérsia não pequena sobre o fato de o mundo ter sido criado em 4004 ou em 6000 a.C. Na verdade, os dois lados seguiam cronologias em dois textos do Velho Testamento: o Texto Massorético, que contém uma genealogia que apresenta a data de 4004 para a criação, e a Septuaginta, que apresenta a data de 6000 a.C. O Bispo Iightfoot, da Uni­ versidade de Cambridge, resolveu esse problema, em um clássico exemplo de como se pode sustentar informação limi­ tada com uma porção extra de imagina­ ção, quando estabeleceu o momento da criação como 9 horas da manhã de 23 de outubro de 4004 a.C. Nesse ínterim, a maior parte da histó­ ria do Egito dormia, em sinais ininteligí­ veis e símbolos desconhecidos, em hec­ tares de monumentos, em toda a exten­ são do Nilo. A história do imperialismo assírio e babilónico era conhecida, em grande parte, devido às narrativas sele­ cionadas da Bíblia. A biblioteca de


Assurbanipal, em Nínive, escondia as narrativas do dilúvio babilónico e da criação, em uma curiosa escrita em for­ ma de cunha, bem no fundo do coração do outeiro formado pelas ruínas da an­ tiga cidade . 2 A impressionante cidade de Jericó cobria os seus alicerces de 8000 a.C. debaixo de 25 metros de cidades e cidades sucessivas (Kenion, 39-42). E os ossos de um homem que viveu há 600.000 anos, ao sul do Mar da Galiléia, jazeu até recentemente entre os restos de 40 espé­ cimens de animais extintos debaixo do solo de aluvião de um campo de algodão (Emmanuel Anati descreve as primeiras evidências da presença do homem na Palestina na Parte II). Durante os últimos 150 anos, todavia, a história do mundo bíblico foi novamen­ te visualizada de maneira inteligível. O primeiro grande sucesso aconteceu quan­ do Champollion, brilhante lingüista fran­ cês, ainda jovem, decifrou a escrita pictória dos egípcios na Pedra de Rosetta, em 1822. Nos calcanhares do que ele realizou, um inglês persistente, Henry Rawlinson, encontrou a chave para a es­ tranha escrita em forma de cunha ou cuneiforme, existente nos monumentos e nas tabuinhas de argila encontrados no vale do Eufrates. Outras realizações igualmente significativas foram alcança­ das. A biblioteca real dos reis assírios, desde Senaqueribe até Assurbanipal, com o seu acervo de mais de 24.000 ta­ buinhas de barro inscritas, foi encontra­ da em Nínive em 1853. E o Capitão Char­ les Warren inaugurou escavações de campo, na Palestina, com a sua explo­ ração da Jerusalém subterrânea, em 1867. As escavações de campo têm sido exe­ cutadas em todos os países do Oriente Próximo onde e quando as voláteis con­ dições políticas o permitem. No entanto, uma estimativa conservadora foi publi­ 2 Cf. Pritchard, onde se encontram traduções do Enuma Elish (narrativa da criação), p. 60-72, e da Epopéia de Gilgamesh (história do dilúvio), p. 72-99.

cada, de que apenas dois por-cento das antiguidades palestinas foram escavadas nestes últimos cem anos. Lingüistas bri­ lhantes têm esquadrinhado cada mate­ rial escrito conhecido em todo o Oriente Próximo, e as palavras dos antigos têm sido lidas, desde a alvorada da própria arte de escrever, em cerca de 3000 a.C. E a vasta pré-história (antes da invenção da escrita) do homem tem sido perscru­ tada obstinadamente até meio milhão de anos atrás na Palestina, e até quase dois milhões de anos na África Oriental. O que o próximo século tem reservado é algo imprevisível, mas, se as realizações do passado servem de parâmetro, os pró­ ximos dois por-cento da informação to­ tal serão suficientemente revolucionários para requerer, em todo momento, uma mente aberta e uma posição flexível dian­ te de qualquer problema histórico com que nos defrontemos no estudo bíblico.

n . A Integridade da História da Bíblia O resultado de um século de descober­ tas tem sido um novo respeito pela his­ toricidade dos acontecimentos e das pes­ soas revelados pela Bíblia. Através das Escrituras, o alicerce histórico da revela­ ção é reivindicado. Agora podemos tecer as linhas dessa história, formando o teci­ do de história extrabíblica e estabele­ cendo firmemente a sua integridade bá­ sica. Os eruditos bíblicos, geralmente, não empreendem mais a tarefa de literalizar toda a Bíblia como história, porque ela é um livro complexo de poesia, profecia, hinos, provérbios e tradições, bem como de história concreta. E descobrimos que a história concreta é escrita nas formas contemporâneas dos tempos bíblicos. Contudo, a recuperação de numerosos sincronismos com acontecimentos extrabíblicos e registros de outros países capa­ cita o estudioso da Bíblia a empreender o seu estudo com uma confiança nova e 75


sólida, que é essencial para uma fé bem firme na revelação. 3 Os anais assírios e babilónicos apre­ sentam muitas das referências que fazem eco e suplementam os acontecimentos relatados na Bíblia. O Obelisco de Salmaneser III, uma coluna quadrada de cerca de dois metros de altura, encon­ trada em Nimrode, Assíria, registra o pagamento de tributos feito por vários reis da Síria-Palestina durante o décimo nono século a.C. (cf. Pritchard, p. 120: 351;290:351). Um painel mostra Jeú, rei de Israel, curvando-se diante do grande monarca, na única representação pictória conheci­ da de um rei israelita. Outro monumento de Salmaneser III menciona Acabe como um dos reis que lutou contra os assírios na batalha de Carcar, em 853 a.C. Sargão II deixou um registro de sua invasão de Samária em cerca de 721 a.C., e chegou às minúcias de notar que 27.290 cativos foram levados para a Assíria (cf. II Reis 17). Senaqueribe, arrogante con­ quistador, que devastou Judá na época de Isaías, registrou, em baixo-relevo, a captura de Laquis, em uma parede de seu palácio em Nínive. O seu cronista também deixou um relato do cerco de Jerusalém, em que ele diz trancado Ezequias na cidade “como um passarinho em uma gaiola” ! Os sofrimentos de Judá, ao enfrentar a destruição, são descritos em II Reis 18:13-19:36 e Isaías 36 e 37. Um grande número de tabuinhas de barro inscritas, chamadas “A Crônica Babilónica” , registram a queda da Assí­ ria e o primeiro cativeiro de Judá na Babilônia. A data da rendição de Jeru­ salém a Nabucodonozor, em 597 a.C., corresponde a 16 de março, em nosso calendário !4 Este registro nos capacita a 3 Edwin R. Thiele, The Mysterious Nnmbers of the He* brew Kings (Chicago: Univ. Press, 1951), reconstrói a complexa cronologia da história do Velho Testamento, e a sincroniza com a história extrabíblica, usando principalmente registros assírios. 4 Cf. D . Winton Thomas (ed.), Documenta from Old Testam ent U m es (London: Thomas Nelson & Sons, Ltd., 1958), p. 8 0 e 8 1 .

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calcular a destruição final de Jerusalém como tendo ocorrido em 587 a.C. Outras tabuinhas, encontradas perto da Porta de Ishtar na Babilônia, registram a en­ trega de rações ao rei Jeoiaquim de Judá, que permaneceu em prisão domiciliar, na Babilônia, de 597 até 562 a.C. E as Tabuinhas de Murashu, de Nipur, ao sudeste da Babilônia, relacionam clien­ tes judeus da casa bancária de Murashu, que alugavam terra e obtinham emprés­ timos no quinto século a.C. Eles, aparen­ temente, tinham lucrativos interesses co­ merciais, ao mesmo tempo que judeus zelosamente religiosos estavam recons­ truindo Jerusalém, sob a direção de Neemias. Outras descobertas, que se relacionam com a história bíblica, de maneira mais indireta, nos levam ao mundo inusitado dos patriarcas. Harã, em Gênesis 12:4, fora o ponto de início da emigração para a terra de Canaã, e uma comunicação regular foi mantida entre Canaã e a região de Harã até a descida para o Egito. As Tabuinhas de Mari, descober­ tas no Eufrates, ao sul de Harã, e data­ das de cerca de 1800 a.C., expressam a proximidade e intimidade das associa­ ções dos patriarcas com Harã. Várias cidades ostentam os nomes dos parentes de Abraão, possivelmente ten­ do-os recebido de suas respectivas famí­ lias. Por exemplo, há a cidade de TilTurakhi, nome equivalente a Terá, em Gênesis 11:24. Harã, irmão de Abraão e filho de Terá, é o nome da cidade de onde o patriarca emigrou para Canaã. Era um florescente centro de caravanas e de comércio no décimo oitavo século a.C. O nome de Naor, irmão de Abraão, a quem Eliézer se dirigiu para conseguir uma esposa para Isaque, foi dado a uma cidade mencionada nos textos de Mari. Serugue e Pelegue, ancestrais de Abraão, são representados pelos nomes das al­ deias de Sarugi, ao oeste de Harã, e Phaliga, às margens do Eufrates, ao sudoeste de Harã (cf. Wright, p. 41).


A coincidência destes nomes é dificil­ mente acidental. Pelo contrário, as Tabuinhas de Mari propiciam um registro extrabíblico de lugares que têm os nomes de parentes de Abraão. Isso reflete os laços históricos básicos das narrativas patriarcais com uma região específica, na época em que devíamos esperar. Outros incontáveis exemplos de laços históricos entre a história bíblica e a extrabíblica poderiam ser citados, alcan­ çando até o período neotestamentário. Contudo, as referências selecionadas mencionadas acima são representativas, e devem indicar, sem dúvida, que a revela­ ção bíblica de fato foi apreendida no pal­ co dos acontecimentos históricos mencio­ nados. A união da revelação com a Histó­ ria não pode ser anulada!

III. Ilustração de Palavras, Costumes e Idéias Bíblicas Durante o fim do século XIX, a ar­ queologia foi usada para sustentar idéias preconcebidas a respeito da Bíblia. Ela tomou-se uma serva na casa da teologia. Alguns eruditos estavam preocupados em provar acontecimentos bíblicos, e as informações históricas provenientes da arqueologia eram agarradas avidamente para confirmar as suas alegações. Sir Leonard Woolley descobriu uma camada de terra lodosa em Ur; esta des­ coberta foi citada como evidência his­ tórica do dilúvio de Noé (Gên. 6-9).5 O fato de que nenhuma camada de lodo foi encontrada a oito quilômetros dali foi ignorado, como o foram as evidências encontradas em Kish, Shurrupak, Nínive e Nipur, onde ocorreram inundações em épocas diferentes. Evidências como esta foram usadas, sem se levar em conta todos os fatos relacionados, para provar certas posições teológicas. A idéia, aqui, não é o proble­ ma do acontecimento bíblico do dilúvio, mas o uso de evidências arqueológicas. 5 Cf. W emer KeUer, The Blble as History (London: Hodder & Stoughton, 1959), p. 48*51.

A arqueologia, na verdade, sustenta o conteúdo histórico da revelação bíblica, mas deve ser usada com integridade e nunca desprezando qualquer evidência, quer interna, quer extema, relacionada com a revelação bíblica. No século XIX, alguns eruditos com interesses teológicos diferentes usaram descobertas arqueológicas para ilustrar a Bíblia, porque resolviam os problemas históricos ou eles pensavam que resol­ viam. As descobertas serviram para ilu­ minar a casa teológica que esses estudio­ sos haviam edificado. Todavia, por volta de 1940, a iluminação penetrou até os alicerces de suas teorias históricas da evolução da religião de Israel, e os pres­ supostos dos liberais do século XIX fo­ ram modificados à luz das evidências concretas. Felizmente, a arqueologia logo se emancipou de seu papel de serva dos pressupostos teológicos. O homem que mais fez para liberar a arqueologia foi W. F. Albright, cujo discurso presiden­ cial, feito diante da Sociedade da Li­ teratura Bíblica em 1939, com efeito requereu um novo papel da arqueologia como uma espécie de moderadora entre as disciplinas bíblicas.6 O resultado tem sido uma geração de emocionantes des­ cobertas da Bíblia. Como moderadora entre as disciplinas de história, língua, literatura e teologia, significativas cate­ gorias de informações foram acumula­ das, que propiciaram diretrizes para o intérprete e uma base para entender o povo que ficava por detrás do livro. O papel de ilustração da Bíblia, con­ tudo, ainda é importante, quando as suas limitações são reconhecidas. Mui­ tas palavras ficariam sem significado, se o seu uso arcaico não tivesse sido redescoberto. Por exemplo, somos informa­ dos, em I Samuel 13:19 e ss., que os filisteus tinham o monopólio da fabrica­ ção de ferro, e que os hebreus levavam as suas ferramentas agrícolas, feitas de fer6 “The Ancient Near East and the Religion of Israel” , Jotnmal of BIbiical Lite?ature, LIX, 85-112.

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ro, para que os filisteus as afiassem. A palavra hebraica pim, no versículo 21, desafiava a tradução nas versões mais antigas, porque o seu uso não era conhe­ cido. Ela é traduzida como “lima” na versão da IBB, como na KJV, em vista do fato de que as ferramentas estavam sen­ do afiadas. Porém o seu verdadeiro significado foi descoberto em escavações que apresenta­ ram pequenos pesos de pedra marcados com a palavra pim em hebraico. Vários desses pesos foram descobertos nas esca­ vações de Jerusalém em 1963.7 É eviden­ te, partindo-se do peso do pim, que era cobrado um “pim” para serem afiados os arados, enxadões, etc., como a RSV inglesa traduz no versículo. Alguns costumes sociais obscuros e estranhos são expressos nas narrativas intensamente pessoais dos patriarcas. Por exemplo, há uma ansiedade incomum, em Abraão, por um herdeiro do sexo masculino (Gên. 15-17). Quando Sara não concebeu nenhum filho, ela deu Agar, sua serva egípcia, ao seu marido, como esposa secundária (Gên. 16:1 e ss.). Agar deu a Abraão um filho, e, em seguida, incorreu no ciúme de Sara, que a expulsou para o deserto (Gên. 21:10 e ss.). Os arquivos de cinco gerações de uma família hurriana, descobertos em Nuzi, lançam alguma luz realista sobre o pro­ blema familiar de Abraão (Wright, p. 43). Aparentemente, os herdeiros do sexo masculino eram necessários para a con­ tinuidade do sistema social e religioso da época patriarcal. No caso de nenhum herdeiro do sexo masculino nascer, para perpetuar o nome da família, praticavase a adoção. As Tabuinhas de Nuzi con­ têm um regulamento a respeito da ado­ ção de um herdeiro, juntamente com a provisão de que um filho verdadeiro nas­ cido posteriormente teria precedência so­ 7 R. B. Y. Scott, “The Scale-Weights from Ophel, 196364”, Paleftine Exploration Qnartaty, 1965, p. 128-139, e também as Figs. 5 e 7.

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bre o herdeiro adotado. Esta prática es­ clarece o dilema de Abraão, quando ele renovou a aliança em Gênesis 15:1 e ss., mas o herdeiro de sua casa era Eliézer, de Damasco, aparentemente adotado. Os contratos de casamento, segundo as Tabuinhas de Nuzi, obrigavam uma esposa sem filhos a conseguir uma serva para o seu marido, que gerasse filhos no lugar dela. Não há contratos semelhan­ tes declarados na Bíblia, mas a entrega de Agar a Abraão é evidência desse cos­ tume. Além do mais, em Gênesis 21:1014, quando Sara exigiu que Abraão lan­ çasse fora Agar, a escrava, porque Isaque era o herdeiro legal, o desprazer de Abraão foi mais do que emocional. As Tabuinhas de Nuzi declaram a obrigação do marido para com uma esposa secun­ dária, o que indica que Abraão tinha o dever legal de abrigar Agar, e a inveja de Sara o forçou a agir injustamente para com Agar e Ismael. A vida familiar e os costumes sociais de Abraão são, por conseguinte, expres­ sos exatamente, e o patriarca simples­ mente viveu a sua vida na Escritura da mesma forma como a viveu na História. Com fraqueza humana, tanto quanto com força, e obrigado pelos costumes comumente aceitos em sua época, Abraão ainda teve fé para alcançar uma revelação que o vocacionou e à sua pos­ teridade a um propósito mais elevado de Deus na História. Talvez a idêia mais profunda da Bí­ blia, isto é, a da aliança, realmente não seja entendida por alguém que não con­ siga considerá-la segundo o seu signifi­ cado no Oriente Próximo. A aliança é mais do que um acordo, ou mesmo do que uma dedicação. É um estado de exis­ tência, uma relação profunda. Lemos, em Gênesis 15:17,18, por exemplo, que o Senhor fez uma aliança com Abraão, e que houve “um fogo fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre” os pedaços de um sacrifício. Um possível paralelo, encon-


trado na Ãsia Menor, ilustra o significa­ do deste ritual de aliança e expressa a sua seriedade. Quando uma aliança era “cortada” (a palavra arcaica usada no Velho Testamento para a celebração de uma aliança), um sacrifício era prepara­ do, cortado na metade, e os participantes da aliança passavam entre os pedaços do sacrifício, como, presumivelmente, o faz uma representação da divindade. Ê pro­ vável que a tocha flamejante de Gênesis 15:17 representasse a presença de Deus e que o próprio Abraão andou entre as metades do sacrifício, costume ainda co­ nhecido na época de Jeremias (cf. Jer. 34:18 e ss.). Portanto, uma aliança era efetivada através de sacrifício, a doação de vida de que as duas partes precisavam ser confir­ madas em um novo relacionamento. A vida é misturada com a vida, e as duas partes entram em um estado espiritual e psicológico que tem analogia física no relacionamento de sangue.

IV. Diretrizes Para a Interpretação da Bíblia Certos marcos de informação histórica têm sido descobertos e têm guiado o intérprete da Escritura. Ele não pode ignorá-los. O intérprete é, indubitavel­ mente, livre para procurar a mão de Deus na História, testemunhada pela Bíblia. Mas ele não está livre para criar a história de sua imaginação, em que a sua noção da revelação melhor se encaixar. Desta forma, a história é uma disciplina para o intérprete, uma disciplina tão inflexível quanto a lei. E para o intérpre­ te não há escape, pela fé, da disciplina da História. Talvez a descoberta recente mais co­ nhecida seja a figura rapidamente emer­ gente do homem pré-histórico. As evi­ dências encontradas em Jericó integram uma reconstrução cultural razoavelmen­ te completa do homem “natufiano” , por exemplo (cf. Anati, p. 139-80). De cons­ tituição delgada, ele tinha cerca de

l,65m de altura, mas era muito ativo e criativo — um produtor de trigo e cons­ trutor de casas. A sua capacidade cra­ niana, de cerca de 1.500 cm3, sugere que ele tinha tanto cérebro quanto a pessoa moderna comum. E ele era um homem religioso — pelo menos, fundou a cidade de Jericó como santuário, em cerca de 8000 a.C. Não podemos saber qual era a reação de sua alma em relação a Deus nem a articula­ ção de sua adoração, porque ele viveu 5.000 anos antes da invenção da escrita. Mas ele adorava à sua maneira e segundo o seu entendimento, e vivia pacificamen­ te. De fato, o homem natufiano talvez fosse menos selvagem e sedento de san­ gue do que o homem moderno, que se tem empenhado em uma considerável guerra de morte e destruição em quase todas as gerações. Os objetos de arte do natufiano que foram encontrados sugerem que já há 10.000 anos ele tinha um ponto de vista compreensivo a respeito do mundo, uma protofilosofia que pode ter inspirado os desenvolvimentos revolucionários e novos de produção de alimentos e de edificação de cidades. O homem natufiano pertence à era do homem moderno, e não à vida aborígene. Ele é nosso. Encontrando-se em uma encruzilhada da pré-história, bem mais no passado, está o homem do Monte Carmelo. (Há 12 esqueletos desse período no Monte Car­ melo; cf. Anati, p. 105-9). Cerca de 50.000 anos atrás, do terraço de sua cavema-casa, no Monte Carmelo, ele ob­ servava cada dia o sol se levantar sobre a floresta da Palestina central. A sua face larga e plácida deixa trair o fato de que ele se rendeu aos caprichos da natureza quanto à casa — a caverna que ele pu­ desse encontrar — e quanto à comida, onde quer que acontecesse ela crescer. Da mesma forma como a maioria das pessoas que servem a senhores capricho­ sos, ele via uma pequena perspectiva na vida, e, desta forma, vivia sem pressa. Mas quando ele se levantava, no terraço 79


de sua caverna, eram l,65m de ho­ mem! O homem do Monte Carmelo tinha os atributos físicos do homem mo­ derno, inclusive cérebro, e os escassos res­ tos que sobreviveram à erosão do tempo sugerem que ele adorava a um deus des­ conhecido. E há outros: uma longa procissão de pessoas surgindo do passado, que está sendo iluminado cada vez à maior distân­ cia, a cada geração de pesquisas. Ali estão elas, e nenhum teólogo precisa dizer-lhes para irem embora. Precisa-se abrir caminho para o homem pré-históri­ co da época de Adão. O intérprete da Es­ critura não deve falar mais a respeito da criação do homem em 4004 a.C., porque os fatos da História não o permitem. Portanto, onde estão as diretrizes que a arqueologia fornece? A arqueologia descobriu o homem pré-histórico, e tor­ nou insustentável a opinião medieval simplista a respeito da origem do ho­ mem. Mas também propicia orientação para a descoberta do verdadeiro signifi­ cado do relato bíblico a respeito da ori­ gem do homem. A orientação provém de textos literários fora da Bíblia, que esclarecem o significado da narrativa bí­ blica. Em primeiro lugar, Adão, da mesma forma que o homem original encontrado em outros textos do Oriente Próximo, é um homem representativo, sendo derra­ mada em um indivíduo toda a humani­ dade. Ele é diferente do homem natufiano, porque ele é a humanidade indivi­ dualizada que vive no mundo do pensa­ mento, que tem capacidade para comu­ nhão com Deus e é moralmente respon­ sável. Em segundo lugar, a sua linhagem é encontrada na literatura e na arte, e não em locais de sepultamento que os ar­ queólogos possam descobrir. A sua ge­ nealogia é muito mais sofisticada do que os eruditos suspeitavam, duzentos anos atrás, porque ela tem origem na revela­ ção progressiva da interpretação do ho­ 80

mem, e não na evolução física de seu corpo. E, em terceiro lugar, Adão se alimenta de símbolos, e não de pão. De fato, o fruto que ele come é freqüentemente pintado como uma fruta literal, porque os símbolos têm raízes nas coisas con­ cretas e literais. Mas o fruto que Adão comeu evoca um significado que não po­ de ser contido em uma simples maçã. O fato de ele ter comido o fruto proibido gerou um potencial para a culpa nas ge­ rações da raça humana que ainda não haviam nascido, e a terrível verdade a respeito do ato de Adão criou uma emer­ gência nos céus, até mesmo nos conse­ lhos da Divindade. Adão é um homem, mas um homem representativo, que abrange de forma compacta e inteligível todos os homens, inclusive o homem préhistórico e o homem moderno. Uma espécie diferente de perícia é necessária para escavar Adão e seu mun­ do. Por exemplo, como é que se pode conseguir uma datação da árvore da vida com Carbono 14? Na arte antiga, ela é uma palmeira, mas é a árvore da vida em seu significado simbólico em selos cilín­ dricos, ou descrita, por escrito, em tabuinhas de barro ou na Bíblia. Ou como poderia um laboratório da Universidade Hebraica de Jerusalém descobrir os grãos de pólen da árvore do conhecimento do bem e do mal na amostra de terra apre­ sentada por um arqueólogo? Ou como poderia um geógrafo encontrar a latitude e a longitude do Jardim do Éden? Ele é um jardim representativo, um protótipo de todas as áreas templárias sagradas do vale do Eufrates inferior, compactadas em uma só. Para escavar Adão, começamos lendo as línguas mortas da Suméria, Babilônia, Assíria, bem como o hebraico. O apren­ dizado acumulado destas grandes cultu­ ras está bem trancado em sua literatura. Grande parte dele é comunicado em sím­ bolos, que são tão simples como Adão, o homem representante, ou como a árvore da vida; mas os símbolos são, ao mesmo


tempo, tão profundos que o escavador literário nunca alcança razoavelmente o leito rochoso, ao sondar o seu significado pleno. É neste mundo de símbolos históricos profundos, que fossilizaram a experiên­ cia e a sabedoria vivas, que descobrimos os ancestrais de Adão, e chegamos a conhecê-lo. E, quando encontramos Adão, encontramo-nos a nós mesmos. Por outro lado, quando encontramos o homem natufiano, o encontramos, e não a nós mesmos. Será isto falsificar Adão? De forma alguma. Ê encontrar a essência da subs­ tância histórica que existe nele, e tam ­ bém o significado final, que é muito mais profundo do que os pedaços de esquele­ tos de qualquer homem, rodeado por suas ferramentas de corte e armas. A hu­ manidade, o Adão histórico, emergiu da criação, mas relacionou-se fisicamente com a terra. O seu parentesco físico é com o seu meio ambiente terrestre, algo que até os alunos de biologia aprendem no ginásio e algo que os sábios antigos sabiam antes da invenção da escrita. O seu parentesco espiritual é com Deus, em cuja imagem o homem foi criado, como ser moral, algo que aprendemos da Bíblia e aceitamos por fé. Se roubarmos a Adão o seu significado simbólico e simplesmente o literalizarmos, o reduziremos a um indivíduo his­ tórico, para que o antropologista o es­ tude. O seu esqueleto pode ser medido, a capacidade de seu cérebro, calculada, possivelmente a contagem de seus glóbu­ los sanguíneos ser obtida por centrifu­ gação do pó de sua carne. Se isto, para nós, esgota o significado do homem da criação, teremos abandonado Adão de­ pressa demais! Perdemos o homem! Temos uma diretriz, que a arqueologia nos dá, portanto, para a interpretação dos primórdios do homem na Bíblia. Há muito mais que poderia ser dito, mesmo sobre os primórdios do homem. E também há diretrizes significativas

para a interpretação da história narrada pela Bíblia, para a compreensão das vá­ rias formas de literatura e até para a interpretação das doutrinas de inspira­ ção e de revelação na Bíblia. Estas são desenvolvimentos recentes, que só agora estão encontrando expressão em periódi­ cos e livros. Mas são desenvolvimentos necessários e sadios do estudo da Bíblia, em uma época quando as descobertas científicas têm superado a pesquisa teo­ lógica, que em demasiadas vezes é me­ dieval demais em seus alicerces e sua perspectiva. Redescobrindo o mundo intelectual e espiritual da Bíblia, mediante a pesquisa arqueológica, temos a possibilidade de acrescentar, à Bíblia, nova percepção à sua verdade atemporal. Somos capacita­ dos para abordar a revelação bíblica assistidos pelas diretrizes firmes da his­ tória e da cultura do Oriente Próximo. E, trabalhando dentro das diretrizes ou da história propriamente dita, somos le­ vados ao mundo vivo da Bíblia, ao povo que nos deu a Bíblia. O legado da arqueologia à Bíblia é, portanto, vida, a sua própria vida. Para Leitura Adicional ADAMS, J. McKEE, e JOSEPH A. CALLAWAY. Biblical Backgroun­ ds, ed. rev. Nashville: Broadman Press, 1965, 232 páginas. ALBRIGHT, W. F. The Archaeology of Palestine. London: Penguin Books, 1954, 271 páginas. ANATI, EMMANUEL. Palestine Before the Hebrews. New York: Alfred A. Knopf, Inc., 1962, 453 + xvii pági­ nas. Biblical Archaeologist, The. Periódico publicado pela American School of Oriental Research, Cambridge, Massachusetts 02138. KENYON, KATHLEEN M. Archaeolo­ gy in the Holy Land. New York: 81


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O Cânon e o Texto do Velho Testamento Burlan A. Sizemore, Jr. I. O Cânon 1. O Conceito de um Cânon A palavra cânon, da maneira como é usada no contexto do estudo das Escritu­ ras, refere-se à coleção rigidamente li­ mitada de livros que, segundo a comuni­ dade religiosa crê, foram dados por inspi­ ração de Deus, e são o guia básico para a regulamentação da vida religiosa e das instituições religiosas. A maior parte das grandes religiões do mundo possui uma coleção assim, com maior ou menor ên­ fase em sua origem como palavra divina, vinda da parte de Deus. A palavra portuguesa cânon pode ser procurada, quanto às suas origens, atra­ vés de uma palavra grega, até uma raiz semita antiga, que significa caniço. No grego, essa palavra veio a denotar qual­ quer coisa reta, tal como uma vara ou uma régua de carpinteiro. A palavra grega veio a ser usada metaforicamente, para referir-se a qualquer norma ou pa­ drão. Da maneira como é aplicada a uma coleção normativa de obras literárias, a palavra cânon foi, a princípio, usada pelos cristãos do quarto século. O con­ ceito de uma coleção sagrada, todavia, é muito mais antigo do que o uso dessa palavra. Antes desta designação, a lite­ ratura normativa das comunidades ju ­ daicas e cristãs (essencialmente o Velho Testamento) era mencionada como a “Escritura” ou as “Sagradas Escritu­ ras” . Estas referências ocorrem em fon­ tes como Filo (primeira metade do pri­ meiro século), Josefo (que morreu pouco depois de 100 d.C.) e o Novo Testamen­ to. Embora descrito de maneiras diferen-

tes, este conceito de uma literatura nor­ mativa reconhecida como a Palavra de Deus remonta, na tradição hebraica, a pelo menos à época da reforma de Josias e à descoberta do livro da lei (parte de Deuteronômio, II Reis 22 e 23), em 621 a.C. O processo do desenvolvimento e fixação do cânon devia, contudo, levar muitos séculos. 2. Os Livros do Cânon e a sua Ordem É importante reconhecer dois arranjos distintos do Velho Testamento: a ordem da Bíblia Hebraica e a ordem do Velho Testamento cristão. Quando o cânon das Escrituras Hebraicas finalmente foi fixa­ do, continha 24 livros, arranjados em três principais divisões. O número e a ordem dos livros, na Bíblia Hebraica, difere dos do Velho Testamento cristão, embora o conteúdo seja o mesmo, exceto que as tradições católicas romanas e al­ gumas das católicas ortodoxas incluem os Livros Apócrifos, que não faziam par­ te do cânon hebraico, fixado na Pales­ tina. Nas Bíblias hebraicas impressas, os li­ vros são: (1) A Lei: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio; (2) Os Profetas: profetas anteriores — Josué, Juizes, Samuel e Reis; profetas posterio­ res — Isaías, Jeremias, Ezequiel e O Li­ vro dos Doze (os profetas menores); (3) Os Escritos: Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, Rute, Lamenta­ ções, Ester, Daniel, Esdras-Neemias e I e II Crônicas. A diferença da ordem que prevalece na tradição cristã resulta do uso cristão pri­ mitivo de traduções gregas do Velho Tes­ tamento hebraico. Essas traduções gre83


gaseram arranjadas segundo os tópicos e cronologicamente (pelo menos isto era tentado — as decisões com respeito a datas não eram exatas, em todos os casos), enquanto a ordem hebraica re­ presenta um arranjo anterior, que, até certo ponto, expressa a ordem em que os materiais passaram a ser reconhecidos como Escritura. 3. A Formação do Cânon O estabelecimento do cânon do Velho Testamento foi um desenvolvimento do judaísmo posterior ao exílio. O processo pelo qual o cânon se tornou realidade tem sido rodeado de mistério, todavia o ponto de vista tradicional formulado pelo judaísmo antigo tem prevalecido através da maior parte da história da Igreja e através do judaísmo posterior. Josefo foi um dos primeiros a falar definitivamente de uma coleção de obras sacras, descrevendo uma coleção de 22 livros (provavelmente o mesmo material de que consistem os costumeiros 24, mas com Lamentações ligado a Jeremias, e Rute, a Juizes), dos quais ele disse que todos se originaram entre o tempo de Moisés e a época de Artaxerxes I da Pér­ sia, que fora contemporâneo de Esdras (Contra Apionem, I. 8, 95 d.C.). Josefo não dá a Esdras o crédito de nenhuma participação na formação do cânon, a não ser na última parte dele, mas outros escritores do período antigo davam ex­ pressão à opinião muito persistente de que Esdras fora responsável pela compi­ lação e preservação final do cânon. Contudo, é reconhecido geralmente, hoje em dia, que o processo através de que uma certa coleção de livros veio a ser considerada normativa era um desenvol­ vimento histórico que cobria um período bem extenso. Os materiais do Velho Tes­ tamento, aparentemente, receberam a sanção da canonicidade da ordem das três divisões do Velho Testamento na Bíblia Hebraica, e em cada caso o mate­ rial gozava de uma aceitação popular de 84

longa data, antes que qualquer reconhe­ cimento de suas qualidades como palavra de Deus com autoridade lhe fosse em­ prestado. A Lei ou Tora. É inegável que a lei de Moisés ou Tora (Pentateuco) tenha sido a primeira parte do Velho Testamento a alcançar a condição de Escritura. Pa­ rece que uma parte da Tora recebeu o “status” de Escritura sagrada no período pré-exílico. O livro da lei encontrado por Hilquias, o sacerdote, que foi usado como base para a reforma de Josias (II Reis 22 e 23), era formado pelo menos de uma parte do livro de Deuteronômio. A honra emprestada a esse livro de lei indica pelo menos os primórdios do re­ conhecimento de uma coleção de leis que tinham autoridade. Depois do exílio, o ministério de Es­ dras demonstra uma expansão desta lei, e talvez indique a sua coleção quase com­ pleta. A Lei üda ao povo (Neemias 8) por Esdras evoca nele uma reação emocional profunda, seguida de atos de obediência que indicam uma submissão à autori­ dade dessa coleção. Até que ponto essa coleção estava completa não se pode sa­ ber, mas não é improvável que ela con­ tivesse a grande coleção sacerdotal de material primitivo, inclusive as narrati­ vas J e E incorporadas. Deuteronômio, já respeitado, pode ter sido juntado a essa coleção naquela época, ou, se não, isto certamente foi feito logo depois. A data destes acontecimentos é incerta, mas não foi posterior a 398 a .C .1 A Lei, a partir deste ponto, é a prin­ cipal força a moldar a comunidade ju­ daica pós-exílio. Pode ser que ela tenha sido modificada em algo e podem ter sido feitas adições nos anos subseqüentes, mas as mudanças não podem ter sido 1 A data da volta de Esdras tem sido motivo de muita dis­ cussão nos tempos modernos. Se a sua volta aconteceu no sétimo ano de Artaxerxes I, então a data tradicional de 457 é exata. Se o que significa é o sétimo ano de Arta­ xerxes II, o ano foi 398. Algumas pessoas, por emenda textual, datam a volta de Esdras em 428. Cf. John Bright, A History of Israel (Philadelphia: Westminster, 1959), p. 375-86.


substanciais. Esta Lei foi distribuída en­ tre os judeus por toda parte, e mui rapi­ damente recebeu uma posição canônica, que tomou literalmente impossível qual­ quer modificação de monta em seu con­ teúdo. Certamente a Lei foi basicamente aceita mais ou menos na época do cisma samaritano, porque ela foi conservada essencialmente na mesma forma pelas duas comunidades. A data do cisma sa­ maritano é incerta, mas não pode ser posterior a cerca de 300 a.C., e talvez foi anterior . 2 O prestígio canônico da lei, na antigui­ dade, é também atestado pela Septuaginta, tradução na língua grega que foi feita nos meados do terceiro século a.C. Traduções não eram coisa comum no mundo antigo, e não é provável que uma obra de fôlego como esta fosse feita, a não ser que tivesse supremo valor reli­ gioso. Desta forma, estamos, provavelmente, certos, ao afirmar que a Lei recebeu prestígio canônico, isto é, alcançou uma forma fixa e final, e foi reconhecida como autoridade peculiar, por volta de 400 a.C. ou não muito depois. Os Profetas. A literatura profética está dividida em duas seções: os Profetas An­ teriores, seção comumente conhecida co­ mo livros históricos na Bíblia em portu­ guês, e os Profetas Posteriores, que inclui os três profetas maiores e os doze profe­ tas menores. Embora a literatura pro­ fética tivesse recebido muito respeito no período pré-exílico, ela, como o mate­ rial do Pentateuco, não alcançou o “status” de um corpo de Escritura com auto­ ridade, e estritamente limitado, senão depois do exílio, provavelmente bem de­ pois que o Pentateuco alcançou este “status” . A vindicação da mensagem préexílica de destruição, mediante os acon­ tecimentos, foi importante para o desen­ volvimento do interesse a respeito de um cânon profético, além da mensagem pro­ 2 O cisma tem sido datado de 432 a.C. a 122 a.C. Cf. Bright, p. 393-95.

fética de esperança, que emprestou alen­ to à comunidade judaica, que muitas vezes quase fracassou, no período pósexílico. É provável que o interesse sério pela coleção de um corpo de literatura profé­ tica com autoridade tenha acontecido depois que a instituição da profecia co­ meçou a se enfraquecer e a cair em des­ crédito. O esforço para formar uma co­ leção provavelmente desenvolveu-se no quarto século a.C., embora seja impossí­ vel dizer exatamente quando o cânon profético foi fixado firmemente. Parece claro que o processo foi completado pelo menos em 200 a.C., porque Jesus ben Sirac, em cerca de 190 a.C., refere-se a cada um dos indivíduos cujo nome é emprestado a livros no cânon profético, incluindo uma referência aos Doze Pro­ fetas (os profetas menores), como se eles fossem representados por um único livro, desta forma dando a entender toda a coleção. O fato de que o livro de Daniel, que recebeu a sua forma final no se­ gundo século a.C., não conseguiu entrar no cânon profético, mas foi incluído na terceira seção, sugere que o cânon pro­ fético foi encerrado antes de seu apareci­ mento. É bem provável que, para muitos dos judeus, o cânon profético foi encerrado e já gozava de um lugar de importância semelhante ao gozado pela Tora no fim do terceiro século a.C., embora, para grande parte do judaísmo, a lei mosaica devia permanecer como a regulamenta­ ção básica para a vida. Os Escritos. Há uma homogeneidade literária no Pentateuco e nos Profetas, que falta aos Escritos ou Hagiógrafa, a terceira seção do cânon do Velho Testa­ mento. Esta seção inclui uma tremenda variedade de materiais, que se origina­ ram em períodos enormemente diferen­ tes da História. A primeira indicação clara de que esta coleção de literatura estava alcançando condição canônica apareceu em uma declaração do neto de 85


Jesus ben Sirac, no prólogo de sua tradu­ ção da obra de seu avô para o grego, em cerca de 132 a.C. Ele menciona “a Lei e os Profetas e os outros livros dos nossos antepassados” , sendo presumivelmente feita esta última alusão essencialmente aos materiais que posteriormente vieram a compor a terceira parte do cânon he­ braico. O material que veio a compor a Hagió­ grafa provavelmente nunca se igualou à Lei e aos Profetas, em significado, para a comunidade hebraica, e, de fato, os ma­ teriais canônicos anteriores provavelmen­ te serviram como uma das bases para o julgamento do uso dos materiais poste­ riores. Dentre os materiais que constam dos Escritos, o Saltério, provavelmente, foi o mais importante, e foi o primeiro a ser honrado como a Palavra de Deus. Ele é, de fato, algumas vezes usado como nome da coleção toda (Luc. 24:44). Fatores vários, provavelmente, entra­ ram no processo da elevação dos vários livros à canonicidade. Muitos dos livros eram associados com nomes de pessoas meritórias, da antiguidade, e isto facili­ tou a sua aceitação (v.g., o nome de Salo­ mão com Provérbios, Eclesiastes, Cânti­ co dos Cânticos, Daniel com um profeta do sexto século, etc.). Alguns dos livros aparentemente gozavam de uso litúrgico regular, especialmente Salmos e Lamen­ tações, e Ester era associado com a popu­ lar Festa de Purim. Rute pode ter sido associado com o livro de Juizes, visto que ele se desenrola no mesmo período; e Esdras-Neemias e as Crônicas represen­ tam uma obra histórica semelhante à dos Profetas Anteriores, e também podem ter sido importantes por causa de sua exal­ tação da Lei e da adoração. Sejam quais tenham sido as razões para a canonização, houve discordância substancial acerca do fato de alguns des­ ses livros merecerem ou não um lugar no cânon da Escritura sagrada (especial­ mente Ester, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes), e finalmente determinou-se 86

que alguns deles eram Escritura tão-somente por ato de um Concílio. As deci­ sões tomadas pelo Concílio de Jâmnia, em aproximadamente 90 d.C., a respei­ to do conteúdo do cânon, provaram ser definitivas, embora nem mesmo essas decisões não ficassem sem serem desafia­ das. O fato de Josefo e IV Esdras po­ derem falar do que parece ser um cânon terminado, em cerca de 100 d.C., indica que não houve discordância substancial depois deste ponto. O trabalho do Con­ cílio de Jâmnia foi, provavelmente, es­ timulado pelos desafios feitos ao judaís­ mo normativo, que fez com que fosse muito importante decidir sobre um câ­ non fixo da Escritura, que serviria como base para a fé e a prática religiosa ju ­ daicas. Os Apócrifos e Pseudepígrafes. Os ma­ teriais que finalmente vieram a compor o cânon fixo indubitavelmente não exau­ rem os materiais que eram considerados importantes pela comunidade primitiva. Muitos livros, que para muitas pessoas tinham a autoridade de Escritura, nunca foram incluídos no cânon. O cânon foi produto da vida judaica na Palestina, e, na Diáspora, especialmente em Alexan­ dria, houve outras obras que parece te­ rem sido honradas de maneira igual à deferência prestada aos materiais que foram incluídos no cânon palestino. Es­ tas obras foram traduzidas para o grego, e circularam com o restante das Escri­ turas Gregas. Esses livros, que foram incluídos nas Escrituras Gregas, mas nunca haviam sido aceitos no cânon palestino, são mui­ to importantes para o cristianismo, por­ que a igreja primitiva usava as Escrituras Gregas, e, desta forma, para a maior parte dos cristãos primitivos, esses livros eram usados juntamente com o mate­ rial incluído no cânon palestino, e usa­ do presentemente como Velho Testa­ mento pela cristandade protestante. Es­ tes livros, contidos nas antigas Escrituras Gregas, mas nunca no cânon palestino, são hoje em dia conhecidos comumente


como os Apócrifos. Eles aparecem como Escritura na Bíblia Católica Romana e na de certas comunhões ortodoxas, e foram usados extensivamente no seio da cristandade até a época da Reforma Pro­ testante, quando o cânon hebraico pales­ tino se tornou normativo para um grande segmento da cristandade. Esses livros, de valor variado, são I e II Esdras, Tobias, Judite, adições ao livro de Ester, Sabe­ doria de Salomão, Eclesiástico, Baruque, História de Susana, Cântico dos Três Fi­ lhos, História de Bei e o Dragão, Oração de Manassés e I e II Macabeus. Houve outros materiais hebreus im­ portantes, que não foram aceitos nem nas Escrituras Hebraicas nem nas Bíblias Gregas. Estes livros são geralmente cha­ mados de Pseudepígrafes, palavra que significa “títulos falsos” . Esta descrição não é inteiramente exata, mas origina-se do costume de atribuir novos materiais a homens da antiguidade, tais como os “Testamentos dos Doze Patriarcas” e “O Livro de Enoque” . Alguns desses materiais, contudo, são tão antigos quanto materiais que foram incluídos no cânon; por isso parece que, em sua maior parte, eles foram rejeitados deliberada­ mente. Muitos deles mereceram elevada consideração da comunidade da igreja primitiva, e, em sua grande parte, nós o conhecemos por causa de sua preserva­ ção, efetuada pela igreja primitiva, fre­ qüentemente na linguagem da comuni­ dade eclesiástica que os usava.

II. O Texto 1. O Problema do Estudo do Texto Sempre que uma comunidade religio­ sa depende de tradição escrita, para a sua identidade básica, é extremamente importante, para essa comunidade, que o texto de sua literatura sagrada seja pre­ servado, sem modificação de sua forma mais antiga e mais pura. Visto que o Velho Testamento é básico tanto para a comunidade judaica quanto para a cris­ tã, uma atenção substancial tem sido

dada à preservação de seu texto, e isto tem sido feito em uma variedade de situações históricas. Por mil anos o texto do Velho Tes­ tamento tem permanecido estável. As nossas Bíblias Hebraicas são baseadas em manuscritos do nono e décimo sé­ culos d.C. Tal estabilidade, no entanto, pertence à era moderna, visto que o pro­ cesso através de que se alcançou esta estabilidade foi longo e confuso. A prin­ cipal tarefa da crítica textual do Velho Testamento é a de traçar as origens, tão longe quanto possível, da transmissão do texto do Velho Testamento através dos anos da sua formação, e procurar des­ cobrir as formas textuais mais antigas e melhores, embora isto nunca possa signi­ ficar a recuperação de um texto original. Embora isto possa ser teoricamente pos­ sível, precisamos presumir que nunca podemos esperar ter algo melhor do que o resultado de muitas gerações de copis­ tas. Precisamos presumir que toda a lite­ ratura do Velho Testamento passou por um período de uso em que não lhe foi concedida a condição de literatura canô­ nica, até que mais tarde houve um grau de esforço para preservar a sua exatidão em todos os detalhes. Além disso, somos forçados a reconhecer que mesmo depois que foi estabelecida a canonicidade, hou­ ve tradições textuais divergentes e só muitos anos depois uma única tradição textual prevaleceu. 2 A História do Texto do Velho Testa­ mento O texto hebraico que serve de base para a Bíblia Hebraica que usamos atualmente é chamado de Texto Massotérico, nome advindo dos eruditos ju ­ deus conhecidos como massoretas, que conscientemente se dedicavam à preser­ vação da tradição textual que haviam recebido. O texto básico que eles preser­ varam tão cuidadosamente parece ter sido aceito como normativo por muitos judeus (especialmente na Palestina) no começo do segundo século d.C.

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Alguns estudiosos acham que um úni­ co manuscrito foi aceito como texto de autoridade, em cerca de 100 d.C., e foi a base de todas as tradições textuais que se seguiram. A maioria dos eruditos agora argu­ menta que pode ser que não tenha havido um único manuscrito que fosse aceito como normativo, mas grande parte deles concorda que deve ter havido um estrei­ tamento e restrições severas de formas textuais nessa época. É bem provável que a fixação de uma forma de autoridade do texto tenha coincidido com a fixação do texto do cânon do Velho Testamento (veja acima). O término da tarefa é geral­ mente associado com a obra do Rabi Akiba, que morreu em 132 d.C. O estabelecimento de uma forma tex­ tual de autoridade, no fim do primeiro século, não significou o fim de diferentes tradições concernentes à forma apropria­ da dos textos bíblicos. Desenvolveramse, obviamente, mais do que um conjun­ to de tradições a respeito da forma apro­ priada do texto, tendo sido preservadas as principais versões delas na Babilônia e na Palestina. Havia importantes concen­ trações de atividade de escribas judeus nessas regiões, especialmente depois do drástico abalo infringido à vida judaica em seguida ao fim da rebelião de Bar Cochba e à vigorosa supressão dos judeus executada pelos romanos em 135 d.C. A forma palestina do texto estava destina­ da a tornar-se definitiva. O texto básico estandardizado ou pa­ dronizado no começo da era cristã era essencialmente um texto consonantal. Isto é, não havia maneira de se escrever todas as vogais necessárias para se pro­ nunciar as palavras.3 Durante o período massorético, desen­ volveu-se um sistema padrão de se es­ crever as vogais hebraicas. Parece que durante esse período houve tradições 3 Muito antes disto, as consoantes haviam sido usadas no texto para indicar algumas vogais, embora este siste­ ma fosse incompleto e irregular. Esses sinais vocálicos eram chamados de Matres Lectiones.

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substancialmente diferentes em relação à maneira apropriada como o antigo texto hebraico devia ser pronunciado, e, à medida que as divergências e os proble­ mas de memória cresciam, com o passar dos anos, tomou-se gradativamente im­ portante que as vogais fossem escritas no texto. Técnicas para se escrever as vogais se desenvolveram entre escolas de massoretas palestinos e babilónicos, e o processo parece ter recebido impulso bem subs­ tancial com o aparecimento de uma seita de judeus conhecidos como Caraítas, que se preocupavam extremamente com a transmissão e interpretação exata das Escrituras Hebraicas. Embora eles não pertencessem a comunidades rabínicas que mais tarde desenvolveram o sistema de pontos vocálicos que prevaleceu, a ênfase deles provocou os eruditos rabínicos a desenvolverem um sistema com­ pleto de pontos vocálicos e a padroniza­ rem a pronúncia. O sistema de vocalização que poste­ riormente prevaleceu foi o desenvolvido entre os massoretas palestinos na comu­ nidade de Tiberíades. O seu sistema era o esquema de pontos vocálicos familiar ao moderno estudante de hebraico. Há mui­ tas evidências de que a reconstrução de um sistema de vocalização pode ter sido um tanto artificial, porque algumas tes­ temunhas textuais indicam uma pronún­ cia inteiramente diferente para algumas palavras. O novo sistema é chamado de tiberiano, e deve ser distinguido dos sis­ temas palestino e babilónico anterio­ res. O término da atividade massorética, o oitavo e o décimo séculos d.C., aconteceu em Tiberíades, onde havia duas famílias massoréticas principais: ben Asher e ben Naphtali. Essas duas famílias preserva­ ram edições revisadas do texto ligeira­ mente diferentes, com variações na voca­ lização. O texto ben Asher veio a ser o texto geralmente aceito, embora reda­ ções ben Naphtali muitas vezes tenham sido usadas em manuscritos posteriores.


3. O Texto Protomassorético A tarefa de se determinar a condição do texto do Velho Testamento na época pré-cristã é ingente. Os antigos Sopherim (homens do Livro), antecessores dos massoretas, começaram já no quarto século a.C. a estabelecer elaboradas salvaguar­ das contra a intrusão de erros no texto. O seu trabalho foi executado muito antes do surgimento do texto consonantal, que se tornou a base do Texto Massorético, e o problema tem sido determinar se esses escribas preservaram uma variedade de formas textuais que competiam entre si ou se um texto foi aceito unanimemente como normativo, em época bem remota. Até bem recentemente não havia nenhu­ ma evidência disponível que lançasse luz sobre este problema, exceto a presença do texto da Septuaginta, que obviamente subsistia em uma forma muito mais anti­ ga do que o texto hebraico recebido do décimo século d.C. A antiguidade do texto da Septuaginta não dá, entretanto, nenhuma indicação verdadeira de que ela preservou uma edição revisada me­ lhor do texto do que os seus correspon­ dentes hebraicos, representados por ma­ nuscritos posteriores. A Septuaginta tem permanecido sus­ peita para muitos estudiosos, antes de tudo porque é muito difícil chegar a qualquer consenso definitivo a respeito do caráter do texto original dela. Ele é representado em muitas variedades, de diferentes períodos e lugares, e é até representado por traduções em línguas estrangeiras, para as quais serviu de base. A dificuldade em se determinar um texto original da Septuaginta é manifes­ ta quando qualquer tentativa significati­ va é feita para se comparar a Septuagin­ ta com o Texto Massorético. Outro aspecto do problema do uso da Septuaginta para a crítica textual é a contínua incerteza a respeito da qualida­ de da tradução. Será que as diferenças com o Texto Massorético realmente ex­ pressam uma forma textual diferente, ou

são simplesmente indicações de que os tradutores eram ineptos ou inclinados ao excessivo uso de paráfrases, quando fize­ ram a sua tradução? Outra fonte possível para a crítica textual tem sido o Pentateuco Samaritano, a Escritura da seita palestina cuja origem remonta a um cisma com o ju ­ daísmo pós-exílico. Não há dúvida de que o Pentateuco Samaritano representa uma tradição textual diferente, embora tam ­ bém seja provável que algumas de suas variações representem um colorido sectá­ rio ou redações introduzidas pelos escri­ bas de sua comunidade, na transmissão do texto. As possibilidades de uma crítica sig­ nificativa do texto hebraico foram modi­ ficadas com o aparecimento dos rolos de Qumran, em 1947.4 Há muito tempo se supunha que ma­ nuscritos hebraicos genuinamente anti­ gos não existiam, e, desta forma, presu­ mia-se que a crítica teria que permanecer altamente especulativa. As descobertas iniciais, com os grandes rolos de Isaías, foram emocionantes, mas estas foram seguidas muito rapidamente pelas volu­ mosas descobertas da Caverna IV e ou­ tras localidades. Muito rapidamente a maioria dos livros do Velho Testamento estavam representados, pelo menos em forma fragmentária, e o mundo erudito defrontou-se com a tarefa de examinar uma grande quantidade de material que era mais antigo do que o Texto Masso­ rético fixado. Os rolos, provavelmente, datam do fim do terceiro século a.C. até os primeiros anos da era cristã. Embora até agora o trabalho de inter­ pretação dos rolos não esteja completa­ do, e muitos estudiosos ainda estejam dando atenção a eles, várias observações podem ser feitas a respeito de seu signifi­ cado. Em sua maior parte, os rolos não representam nenhuma variante impor­ 4 Outros rolos antigos do Wadi Murabba’at, datando de cerca de 135 d.C., oferecem testemunhos textuais adi­ cionais. Os rolos do Wadi Murabba’at confirmam o Texto Massorético recebido.

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tante de nossas tradições textuais, que demandem uma reconsideração séria do significado do material canônico. Contudo, é muito importante observar que os rolos representam várias tradições textuais, e é significativo notar que aque­ les sectários não tinham nenhum escrú­ pulo em preservar diferentes tradições textuais dentro de sua comunidade. Há lugares em que o texto dos rolos de Qumram confirma claramente a tradi­ ção textual sustentada pela Septuaginta, em contraposição ao Texto Massorético. Isto torna-se evidente a partir de um es­ tudo cuidadoso dos livros históricos e es­ pecialmente do livro de Jeremias, cujo texto difere substancialmente na Septua­ ginta, em contraposição ao Texto Masso­ rético. 5 As evidências são suficientes para con­ firmar o significado da Septuaginta para a crítica textual. As evidências dos rolos também tomam claro que o Pentateuco Samaritano, semelhantemente, represen­ ta tradições textuais antigas. Os rolos também representam, substancialmente, o Texto Protomassorético. Os rolos tornam claro que houve vá­ rias tradições textuais estabelecidas, em existência, antes da fixação substancial do texto, no começo do segundo século d.C. Havia, provavelmente, formas do texto transmitidas primordialmente no Egito, na Palestina e na Babilônia. Eles também demonstram que o texto padro­ nizado na época do Rabi Akiba não foi um texto criado na época, mas represen­ tava uma escolha ou seleção dos textos disponíveis. Desta forma, podemos estar certos de que o nosso texto recebido tem sido preservado, sem modificações subs­ tanciais desde épocas bem remotas. 4. Versões do Velho Testamento Várias versões antigas propiciam in­ formações adicionais para um estudo do 5 Grande parte das informações disponíveis para a inter­ pretação desses dados provieram de publicações de Frank Cross. Cf. Para Leitora Adicional.

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texto do Velho Testamento. A dissemi­ nação da Bíblia em línguas do mundo todo começou cedo, e nunca cessou. Logo depois do exílio babilónico, pará­ frases populares do Velho Testamento apareceram na língua aramaica. A prin­ cípio elas eram orais, porém, mais tarde, foram reduzidas à forma escrita, e che­ garam a nós em uma forma estabilizada, durante o começo da era cristã. Essas traduções aramaicas, chamadas Targuns, foram preservadas em várias for­ mas, sendo a mais importante o Targum Onkelos (o Pentateuco) e o Targum Jonathan (os Profetas). Temos tido ocasião de mencionar a Septuaginta, porém houve outras impor­ tantes versões gregas. Uma das mais importantes foi a de Ãqüila, um judeu prosélito de Ponto, que fez uma tradu­ ção literal, de baixa qualidade, do he­ braico, em cerca de 130 d.C. Uma segun­ da e importante tradução, a de Teodócio, é também do segundo século. Teodócio demonstra ter dependido muito da Sep­ tuaginta. Ainda mais tarde, naquele mesmo século, apareceu uma terceira tradução para o grego, de Symmachus, um trabalho no grego fluente, algumas vezes até ao ponto de sacrificar o sentido do hebraico. O cristianismo primitivo foi, provavel­ mente, responsável pela primeira tradu­ ção no siríaco, aparecendo estas obras no segundo século ou pouco antes. A tradu­ ção siríaca padrão veio a ser chamada de Peshita. A tradução siríaca, provavel­ mente, foi levada para o Ocidente por missionários cristãos primitivos. As primeiras versões latinas do Velho Testamento apareceram no Norte da Ãfrica, no fim do segundo século d.C. Estas primeiras traduções, chamadas de versões Velhas Latinas, foram substituí­ das pela Vulgata, traduzida por Jerônimo, em resposta a um pedido do Papa Damascus, em cerca de 382 d.C. A Vul­ gata tomou-se a Bíblia da Igreja Católica Romana.


Outras versões antigas apareceram em conexão com a disseminação da cristan­ dade primitiva. Entre essas, estão a Góti­ ca (século IV), a Armênia (século V), a Georgiana (século V), a Etíope (século IV) e as versões arábicas (a data da pri­ meira versão é desconhecida, mas exis­ tem até hoje fragmentos do século IX). Para Leitura Adicional CROSS, FRANK M. The Ancient Libra­ ry of Qumran. London: Gerald Duckworth & Co., Ltd., 1958, p. 124-45. EISSFELDT. OTTO. The Old Testa­ ment. Trad, para o inglês por PE­ TER R. ACKROYD. New York: Harper & Row, 1965, p. 560-721. JEFFEREY, ARTHUR. “The Canon of the Old Testament” , The Interpre­ ter’s Bible. Nashville: Abingdon, 1952, p. 32-45.

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A História de Israel Clyde T. Francisco O Velho Testamento não tenta escre­ ver uma história de Israel. Pelo contrá­ rio, ele dá o seu testemunho da obra de Deus no estabelecimento da nação. Os hebreus foram o primeiro povo da anti­ guidade a ter um senso de história. Os seus contemporâneos pensavam em ter­ mos cíclicos e concebiam a história em termos de repetição. O Velho Testamen­ to considera Deus como dirigindo os acontecimentos em direção ao alvo da re­ denção de sua criação. Os seus escritores estavam interessados nos marcos ao lon­ go do caminho. Detalhes que nos teriam fascinado não eram de interesse para eles. Pelo contrário, cada acontecimento apresentado pelos escritores bíblicos é usado com um objetivo teológico. Aos primeiros livros do Velho Testa­ mento (Gênesis a Deuteronômio), que tratamos como história, eles chamavam de lei (Pentateuco); de Josué a II Reis eles chamavam de Profetas Anteriores. Para os hebreus, a história devia ensinar aos homens a vontade de Deus e adver­ ti-los a respeito de seu futuro. Eles pre­ gavam a sua história e criam que ela pre­ figurava o futuro do povo de Deus. De fato, ela era a “ história da salvação” . 1 Neste estudo, tentaremos fazer o que os escritores bíblicos nunca pretenderam fazer. Procuraremos alcançar o que está por detrás do testemunho que eles deram acerca dos acontecimentos, para destilar a essência da História a partir da inter­ pretação deles. Visto que os escritores da Bíblia apresentam dados tão incompletos e frustrantes, muitos eruditos dizem que tal empreendimento não pode ter suces1 Alan Richardson, “Salvation”, IDB, IV, 170-71.

so. Contudo, a arqueologia está preen­ chendo rapidamente as lacunas. Os acontecimentos da história de Israel fo­ ram os alicerces sobre que eles edifica­ ram a sua teologia. A teologia hebraica sem acontecimentos é semelhante a um espírito sem um corpo. Embora seja apropriado dizer que a teologia do Velho Testamento é a principal preocupação do intérprete, o edifício não pode permane­ cer em pé sem um alicerce firme. O testemunho histórico dos hebreus é apresentado a partir de três fontes bá­ sicas: (1) tradições populares antigas, especialmente em Gênesis-Êxodo; (2) a interpretação deuteronômica do passado de Israel, encontrado em DeuteronômioII Reis; e (3) a história sacerdotal, que forma o arcabouço de Gênesis-Números, mas é suplementada por I e II Crônicas, Esdras e Neemias. As primeiras tradi­ ções de Gênesis remontam à antiguida­ de, mas foram escritas pelo menos por volta de 950-850 a.C., na época de Salo­ mão ou Josafá. A história deuteronômi­ ca, contendo materiais primitivos, mui­ tos dos quais são tão antigos quanto a época de Moisés, foi colocada em sua forma final mais ou menos na época da queda de Jerusalém (587 a.C.) e apresen­ ta a perspectiva daqueles tempos. Por outro lado, a história sacerdotal, que semelhantemente usou tradições an­ tigas, algumas muito mais antigas do que Moisés, foi escrita durante o exílio babi­ lónico (c. 500 a.C.) e revela os pontos de vista do grupo sacerdotal daquele perío­ do. Além do mais, o cronista fala a partir da situação vivencial de 350 a.C. Segun­ do a vontade de Deus, esses vários teste­ munhos foram preservados para serem 93


usados com o fim de se alcançar uma perspectiva significativa da história de Israel. É óbvio que as fontes falam-nos com mais clareza quando tratam de aconte­ cimentos que haviam ocorrido em época próxima àquela em que foram escritos. Quanto mais tempo os materiais foram sendo transmitidos oralmente, antes de serem escritos, mais fragmentados fica­ ram e mais sujeitos foram a revisões du­ rante a transmissão. Não obstante, em todo este processo, um cerne sólido de dados permanece, fornecendo-nos evi­ dências confiáveis dos atos poderosos de Deus na História. As tradições primeiras de Israel são mais claras e mais comple­ tas do que quaisquer outras no mundo antigo.2 Outro problema surge: distinguir entre a natureza do evento preservado na in­ terpretação e a interpretação dada a esse evento por diferentes escritores. Embora tanto os escritores deuteronômicos quan­ to os escritores sacerdotais tratem em comum de muitos acontecimentos, eles muitas vezes lhes dão diferentes inter­ pretações (cf. II Sam. 24:1 e ss. e I Crôn. 21:1 e ss.; a primeira interpretação atri­ bui a Deus o que a última aplica a Sata­ nás). Estas perspectivas diferentes preci­ sam ser consideradas seriamente, mas quando elas são vistas como suplementadoras uma da outra, enriquecem a nossa compreensão da ocorrência original.

I. Promessa e Cumprimento As antigas tradições de Israel se agru­ pam ao redor do tema da eleição-promessas de Deus e sua fidelidade à sua palavra. Isto é apresentado contra o som­ brio pano de fundo do pecado e da infi­ delidade do homem. No entanto, Deus continua avançando firmemente em dire­ ção ao cumprimento de seu propósito. O que ele começou em sua. graça, com­ pletará no devido tempo. Ele apenas espera a reação do homem que, embora 2 W. F. Albright, “The Biblical Period” , Tbe Jews, ed. Louis Finkelstein (New York: Harper, 1949), 1,3.

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lenta em manifestar-se, precisa preceder os seus atos confirmadores. As velhas histórias que eram comuns ao povo do Oriente Próximo da antigui­ dade, a respeito da criação e do dilúvio, eram consideradas pelos hebreus à luz dos propósitos redentores do Deus de Israel; e as narrativas de seus ancestrais, transmitidas de pai para filho, se unifi­ cavam ao redor desse tema obrigatório. O homem fora criado para servir a este Deus santo, e todos os seus problemas se originavam de sua recusa em fazê-lo. As antigas histórias de Abraão, Isaque e Jacó eram consideradas como fase ini­ cial de um padrão claro: a iniciativa de Deus no meio do trágico fracasso do ho­ mem. O que ele prometera voluntaria­ mente a Abraão, cumprira para Israel, que não era merecedor, preservando mi­ raculosamente, livrando e estabelecendo os israelitas como nação. 1. A Época Patriarcal As narrativas a respeito dos ancestrais dos hebreus não têm paralelo no mundo antigo. Em riqueza de detalhes, qualida­ de literária e percepção teológica, elas são ímpares. Elas nos informam que os antecessores dos hebreus migraram da Mesopotâmia para Canaã, e vaguearam pela Palestina sustentados pela promessa de Deus de que um dia aquela região pertenceria à sua posteridade. Muito pouco se sabe a respeito desse estágio preparatório da história de Israel, exceto o que lemos em Gênesis. A arqueologia tem confirmado o qua­ dro veterotestamentário dos tempos pa­ triarcais. Nomes semelhantes aos regis­ trados em Gênesis eram comuns na Me­ sopotâmia durante a época quando os patriarcas devem ter vivido. E também foi somente durante esse período que eles poderiam ter vagueado livremente atra­ vés de Canaã, como Gênesis relata. Os costumes revelados pelas histórias são coerentes com o que agora sabemos ter sido a situação durante aquela época. A exatidão com que as condições políti-


cas e sociais foram apresentadas é evi­ dência significativa do cuidado com que as tradições foram preservadas. Podemos presumir com segurança, portanto, que os antepassados dos he­ breus lhes transmitiram uma convicção de que o seu Deus tinha um objetivo especial para com eles na História, que incluía a futura posse de Canaã como terra da Promessa. Eles nunca viveram para ver o cumprimento de seus sonhos, mas morreram confiantes em que uma geração posterior veria confirmadas as promessas inabaláveis de Deus. A única parte da Palestina que eles possuíram foi uma caverna para sepultamento em Macpela, onde os seus corpos foram co­ locados, como amostras de sua esperan­ ça. Eles não foram enterrados em terra estranha, mas em sua própria terra. 2. O Êxodo do Egito Geralmente os eruditos hodiernos con­ sideram que os séculos catorze e treze a.C. marcam os primórdios de Israel como nação, embora os patriarcas tives­ sem vivido vários séculos antes (c. 1700 a.C.). Foi na experiência do Êxodo (c. 1250 a.C.) que uma família tomou-se uma nação — várias tribos, um povo. A fuga do Egito. Embora não haja razão para se questionar o fato do Êxo­ do, restam muitos problemas difíceis de resolver. Eles giram em tomo do número de pessoas que participaram da experiên­ cia, da constituição das tribos partici­ pantes e da rota da viagem do Egito à Palestina. Com respeito aos números, Israel, quando entrou em Canaã, devia ser su­ ficientemente numeroso para efetuar a destruição de grandes cidades da Pales­ tina. Com respeito à constituição das tribos, é possível que nem todos os he­ breus tenham ido ao Egito com Jacó. Ou­ tros, provavelmente, deixaram o Egito antes que tivesse terminado a peregrina­ ção de todo o povo ali. Ê também pro­ vável que elementos não-hebreus tenham

sido absorvidos pela vida tribal de Israel. Dentre esses estavam Calebe (Núm. 14:6)(*) e Hobabe (Núm. 10:29). Quan­ do eles se juntaram a Israel, poderia ter sido dito, com verdade, que, mediante esse ato de identificação, eles se tom a­ ram parte desse povo, e verdadeiramente poderiam reivindicar Abraão como seu pai, da mesma forma como os crentes gentios o fazem hoje em dia. Os debates a respeito da rota do Êxo­ do residem principalmente ao redor do lugar em que eles atravessaram o mar. Aparentemente, a expressão “Mar Ver­ melho” (em hebraico, Mar de Juncos ou Mar dos Sargaços) pode ser aplicada a toda a expansão de água na região do Mar Vermelho, não podendo ser confi­ nada a qualquer ponto em particular. Contudo, para nós, é tão desnecessá­ rio saber o ponto exato em que eles atra­ vessaram quanto saber onde Jesus foi enterrado depois da crucificação. Durante a peregrinação no Egito, a fé dos hebreus nas promessas feitas aos pais foi duramente provada, mas a experiên­ cia do Êxodo apresentou uma confirma­ ção que testificou para sempre acerca do destino de Israel entre as nações. Sem a promessa feita aos pais, o Êxodo poderia ter sido considerado como mera coinci­ dência; sem o Êxodo, a esperança de Abraão teria parecido um sonho vão. No Êxodo, o poder latente da fé de Israel recebeu um impulso que nunca lhe foi negado. Da mesma forma como Abraão olhou para o futuro, para a posse da terra como frutificação de sua fé, o Israel de época posterior iria olhar para o pas­ sado, para a libertação do Egito, para conservar viva a sua fé. O Deus de Israel havia demonstrado que era mais podero­ so do que os deuses das nações. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó provou ser o Senhor de tudo. Ê isto que os pais ha­ (*) NOTA DO EDITOR: De acordo com Números 13:6, Calebe pertencia à tribo de Judá; portan­ to, é questionável o autor dizer que ele era ele­ mento “ não hebreu absorvido por Israel”.

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viam crido, sendo agora confirmado na História. A Experiência do Sinai. No Sinai, Is­ rael tornou-se o povo de Deus. Até então eles eram os herdeiros de uma promessa. Agora, se uniam com o seu Deus em um propósito comum. Podia ser que o nome de Yahweh lhes fosse conhecido antes, preservado na tradição quenita, mas agora ele assumia um novo significa­ do. Era um nome pactuai, que devia ser usado exclusivamente por Israel. No uso antigo, o ato de compartilhar o nome era uma experiência íntima. Ao dar o seu nome a Israel, Deus estava oferecendo-se a si mesmo. Até o Sinai, os hebreus eram leais ao Deus que lhes havia prometido a sua bên­ ção. Eles conheciam pouco a respeito de sua verdadeira natureza. Foi no Sinai que Deus revelou-lhes a lei (torah, “re­ velação”), dando-lhes um vislumbre de seu caráter e de seus requisitos morais. Abraão podia ter mentido a Faraó sem sentir dores de consciência, mas agora os israelitas conheciam que não deviam dar falso testemunho; Jacó podia roubar a bênção de seu pai friamente, mas agora o seu povo era informado que não devia roubar. Eles já sabiam que deviam ser fiéis somente a Deus, mas agora era confir­ mado que eles serviam a um Deus cuja semelhança nunca podia ser feita, pois ele estava sempre além do conhecimento deles, e devia ser conhecido apenas da maneira como ele resolvesse revelar-se a eles. Desta forma, foram injetados na história de Israel os elementos que a fizeram uma nação peculiar dentre todas as outras nações do Oriente Próximo. O propósito de Deus, em direção ao qual Israel se esfalfava, ainda estava para ser completamente revelado. Deus não apenas revelou o seu verda­ deiro caráter e as suas exigências no Sinai, mas foi ali que Israel, como povo, se dedicou a Deus e ao seu propósito a seu respeito. Na aliança celebrada no 96

Sinai, Israel prometeu viver à luz das expectativas de Deus, cônscio, em todo o tempo, da bênção divina que resultaria da fidelidade àquele pacto. Essa aliança foi condicional, mas Israel foi dedicado à sua observância. Desde então, eles eram não apenas herdeiros de uma promessa, mas foram dedicados a uma causa. 3. A Conquista de CanaS O fato de que Israel hesitou no limiar de Canaã e recusou-se a entrar na terra é uma das mais surpreendentes reviravol­ tas da História. Na verdade, os espias haviam relatado que havia gigantes e cidades muradas na terra. Não obstante, como Calebe replicou, o Deus que havia feito recuar as forças de Faraó podia dar-lhes a vitória. No entanto, eles se rebelaram, para inteira surpresa de Moi­ sés. No decorrer dos longos e miseráveis anos das peregrinações pelo deserto (38 anos), ele alimentou o seu sonho e a nova geração de israelitas. Tendo morrido an­ tes de ter conseguido realizar o seu so­ nho, ele o transmitiu a Josué. Cabia a ele cumpri-lo. As Campanhas de Josué. A conquista da terra é retratada como tendo ocorrido em três estágios. Antes de tudo, houve um ataque rápido através da Palestina central, em direção a Jericó e Ai, divi­ dindo, desta forma, a terra entre o norte e o sul (Jos. 6-9). Depois os reis do sul foram vencidos (Jos. 10); e, finalmente, as fortalezas do norte foram tomadas (Jos. 11). Desta forma, Israel estabele­ ceu-se rápida e decisivamente na terra. Algumas passagens no livro de Josué parecem dar a entender que Josué con­ quistou completamente cada cidade e cada hectare de Canaã. Josué 11:23 diz: “Assim Josué tomou toda esta terra.” Mas 13:1 declara: “Ainda fica muitíssi­ ma terra para se possuir.” Ê difícil, para o leitor ocidental hodier­ no, compreender como duas opiniões di­ vergentes como estas podem aparecer no mesmo material histórico. Os editores do


livro de Josué que declararam que ele havia conquistado toda â terra são os que incluíram o material, dizendo que a con­ quista fora apenas parcial. Uma solução é encontrada quando entendemos a ma­ neira como funcionava a mente hebraica e as formas costumeiras de expressão na literatura hebraica. Tendo escrito em época posterior e sabendo qual fora a natureza original da conquista primitiva, os escritores idealizaram a era de Josué, porque viam, no espírito dele, os recursos que certamente conquistariam a terra. Depois da contribuição dele na conquista inicial, a conquista final era apenas uma questão de tempo. Por ocasião de sua morte, ela estava praticamente realiza­ da. 3 O fato de que eles incluíram os ma­ teriais originais mais historicamente ori­ entados, é a sua forma de dizer que as declarações mais compreensivas devem ser entendidas à luz desse pano de fun­ do. Eles eram homens honestos, que viam, em um momento da História, mais do que registros estatísticos podiam mos­ trar. Quanto do método da conquista de Josué era a maneira de se conduzir a guerra naquela época e quanto era or­ dem específica de Deus, é impossível descobrir. No entanto, precisamos reco­ nhecer que a ordem dada por Deus para conquistar a terra não foi, necessaria­ mente, ditada por Deus a Josué palavra por palavra. Josué entendeu a ordem da única forma possível: em termos da cul­ tura e dos tempos em que vivia. O Período dos Juizes. O livro dos Juizes continua a história de Israel após a morte de Josué. Este período foi um dos mais difíceis da história de Israel. Eles estavam na terra, mas ainda não a ha­ viam possuído totalmente. O desafio da primeira conquista acabara, mas os seus inimigos ainda estavam por lá. Eles ti­ nham espaço para viver, mas não para 3 Considerar um acontecimento futuro como já realizado é característica estilística hebraica comum, expressa por um perfeito profético. Cf. Is. 53:1 e ss.

crescer. Eles podiam sobreviver sem fa­ zer nada, mas só podiam se expandir mediante um novo esforço heróico. Baalismo contra Yahweísmo. — A principal tentação que confrontou Israel foi a constante atração da adoração a Baal, praticada pelos seus vizinhos cananeus. Baal, suprema divindade cananéia, era conhecido em cada comunidade por um título pessoal, que lhe era atribuído. É neste sentido que a sua adoração era tamanha ameaça para a religião de Is­ rael. O israelita típico não via razão por que não podia considerar Yahweh como seu deus nacional, e ainda assim expres­ sar lealdade a Baal, em sua comunidade local. O nosso conhecimento da natureza da adoração de Baal tem sido imensamente aumentado pelas descobertas ocorridas em Ugarite (Ras Shamra), um porto abandonado, no norte da Síria, pouco ao sul de Antioquia. Várias centenas de tabuinhas de barro foram encontradas ali durante os anos 1929-39. Todas elas são datadas do primeiro terço do século catorze a.C.. Essas tabuinhas contém rituais sacrificiais, epopéias mitológicas e poemas religiosos. Nelas é revelada a ver­ dadeira natureza da religião cananéia e o segredo de sua atração para os antigos israelitas. Em primeiro lugar, ela apelava para a natureza sensual. Cria-se que as relações sexuais com as prostitutas sagradas no templo de Baal garantiria a fertilidade do solo, dos animais e até da esposa do adorador. O baalismo também prometia uma forma pela qual o homem podia fazer com que os deuses fizessem a sua vontade. O baalismo ensinava que, se uma pessoa realizasse os rituais apro­ priados, ser-lhe-ia garantido o favor de Baal sobre as colheitas do ano. Quando os israelitas entraram na ter­ ra, eram pastores, e não agricultores. É certo que eles perguntaram aos nativos cananeus quais eram os segredos do su­ cesso na agricultura. Ê também igual97


mente certo que eles foram informados que a coisa mais importante era asse­ gurar o favor do Baal local. Desta forma, os israelitas foram levados à deriva, ser­ vindo a Yahweh como o grande e excelso Deus dos exércitos, da batalha, e servin­ do também a Baal como o deus que devia ser considerado o doador de conforto material. As massas dos israelitas foram desviadas, da austera adoração de Yah­ weh, para o materialismo e o sensualismo do baalismo. Um ciclo desencorfyador. — A carac­ terística primordial do livro dos Juizes é a estrutura que liga as narrativas original­ mente separadas. Ele enfatiza a filosofia deuteronômica de história que caracteri­ za a literatura histórica dos hebreus, desde o Deuteronômio até Reis: Se Israel fosse fiel a Yahweh, prosperaria econô­ mica e politicamente; se fosse infiel, in­ dubitavelmente experimentaria a catás­ trofe. A situação descrita em Juizes 2:1123 é a chave para a organização de todo o livro. Uma fórmula automática é reapli­ cada a cada nova crise de Israel: (1) os hebreus cedem à tentação; (2) a aposta­ sia leva à opressão; (3) defrontando-se com a adversidade, o povo se arrepende e clama a Deus, pedindo ajuda; e (4) ele ouve o seu clamor e lhe envia um liberta­ dor. Este sumário desanimador, do perío­ do, faz lembrar a visão cíclica da história que os vizinhos de Israel tinham. A pri­ meira vista, parece que os escritores ha­ viam perdido de vista qualquer alvo para o qual Israel estivesse avançando, soh a mão da divina providência. No entanto, por detrás deste sumário está a sugestão subliminar de que, embora Israel estives­ se aparentemente em um ciclo sem espe­ ranças, em sua condição pecaminosa, Deus ainda estava entronizado, guiando pacientemente o curso da História, para levá-los ao propósito que ele tinha para com eles. O ofício de juiz. — Durante este perío­ do, os juizes foram enviados a fim de 98

conservar Israel vivo, até que pudesse ser providenciado um caminho melhor. Es­ ses juizes eram convocados de várias clas­ ses sociais, para liderar Israel em sua luta contra os seus inimigos. Alguns de seus mandatos, nesse ofício, aparente­ mente eram paralelos entre si, visto que o número total de anos atribuído a cada juiz ultrapassa, se somado, o período de tempo geralmente atribuído ao período (c. 1200-1050 a.C.). Nenhum deles, tanto quanto sabemos, jamais liderou um Is­ rael completamente unido. Os diferentes juizes tinham caracterís­ ticas pessoais e piedade bastante variega­ das. Todos eles, contudo, compartilha­ vam de uma coisa: haviam sido escolhi­ dos por causa da evidência de que Deus lhes havia dado qualidades pessoais de liderança. Tais qualificações são men­ cionadas como carismáticas (a posse dos dons do espírito). Este método de reco­ nhecer os governantes contrasta aguda­ mente com o costume posterior, em Judá, de escolher um rei simplesmente porque ele era o herdeiro da linhagem de Davi.

II. A Monarquia Unida No fim do período dos juizes (c. 1050 a.C.), Israel estava em tristes condições. A dominação de Canaã pelos filisteus era quase completa. Esse povo marítimo, que se havia estabelecido na Palestina, tivera mais sucesso em conquistar a terra do que os hebreus. Embora os profetas de Israel dissessem que isso era devido à falta de fidelidade dos israelitas a Deus, muitos anciãos achavam que pensar as­ sim era simplificar demais o assunto; eles achavam que um rei era necessário, mas reconheciam que isso era contrário às tradições de Israel. O ideal de Israel era uma teocracia, uma nação governada por Deus, e não pelo homem. Deus era o seu rei, e eles não deviam ter outro (cf. Juiz. 8:23; 9:1 e ss.). Agora os anciãos de Israel estavam tão desesperados que estavam dispostos a


tentar ter um rei. O sistema filisteu de reinado parecia oferecer mais estabilida­ de do que Israel fora capaz de alcançar através das libertações carismáticas es­ pasmódicas, durante a era dos juizes. Muitos dos anciãos amavam (Samuel, mas temiam o futuro. Eles exerceram pressão sobre o relutante juiz para que desse a bênção de Deus sobre um rei para Israel. Que Deus continuasse a ser rei, mas que ele estabelecesse um sistema hu­ mano mais estável do que a libertação carismática dos juizes. Embora os temores de Samuel a res­ peito do reinado fossem confirmados pe­ los acontecimentos posteriores, a sabedo­ ria divina em permitir um rei provou ser ainda mais judiciosa. Como os editores do livro de Juizes perceberam, um rei era necessário para dispersar as forças cen­ trífugas que ameaçavam Israel (cf. 21: 25). O juiz ocasional não podia dar a estabilidade que uma monarquia empos­ sada propiciaria. Foi também através da monarquia que Israel começou a tomar o seu lugar entre as nações. Até o estabele­ cimento da monarquia, os hebreus se ha­ viam contentado em adquirir a sua terra e em nela viver. Logo depois eles toma­ ram consciência do mundo fora dos limi­ tes da Palestina. A coroação de um rei automaticamente propeliu Israel à comu­ nidade das nações. Foi a monarquia, tão causticamente condenada em muitas ocasiões, que, não obstante, forneceu aos profetas os con­ ceitos que elaboraram o seu sonho acerca do futuro: o reino de Deus, o rei ideal por vir e Israel supremo entre as nações. 1. O Reinado de Saul O trágico governo do filho de Quis começou em cerca de 1020 a. C. A des­ peito de seus defeitos pessoais, ele deixou uma impressão duradoura no povo de Israel, tanto como herói militar quanto como o seu primeiro rei. Davi herdou um reino já preparado para ele por Saul. A primeira vista, o regime de Saul parece

ter sido um afastamento completo da antiga ordem dos juizes. O título de “rei” era estranho à cultura israelita. Havia também uma permanência da unção, coisa que os juizes não possuíam. Saul esperava que os seus filhos reinassem após a sua morte. O seu domínio, dife­ rentemente do de Abimeleque, incluía todas as tribos. No entanto, o governo de Saul afastouse o mínimo possível do papel comum ao juiz. Conservou a peculiaridade do governo de Israel no contexto do novo título. Pouca modificação foi exercida na estrutura interna da nação. A organiza­ ção tribal foi deixada intacta. Não houve nenhuma máquina governamental com­ plexa. Saul não tinha um harém; a vida, em sua corte, como a arqueologia revela, era simples e rústica. È óbvio que Israel, certamente, a princípio, embora cedendo à pressão exercida no sentido de ter um rei, da mesma forma como o tinha o inimigo filisteu, não pretendia imitar ab­ jetamente os seus vizinhos, mas, pelo contrário, adaptar o que considerava um sistema superior de governo à vida caracteristicamente israelita. O profeta de Deus, tão fielmente retratado por Samuel, faria com que a coroa repousas­ se sempre pouco à vontade sobre a cabe­ ça do rei. Nenhuma outra nação dos tempos antigos permitia uma repreensão assim tão aberta de um monarca reinan­ te. Era o profeta o comissionado para preservar a peculiaridade dos hebreus diante de uma situação difícil. Mesmo quando o povo apedrejou os seus profe­ tas, substituiu-os por outros que, segun­ do julgava, falavam da parte de Deus. Quando o rei sustentou os profetas cul­ tuais em época posterior, que diziam o que ele queria ouvir, ele estava cedendo às exigências de que o ofício profético fosse mantido. Era na tensão entre o rei e o profeta que a peculiaridade da fé de Israel foi preservada, nas crises de sua história. O rei era necessário para conseguir a uni­ dade nacional; o profeta, para declarar a 99


fé. Em cada crise, por mal ou por bem, os dois estavam lado a lado. 2. O Reino Davídico O governo de Davi se estendeu de c. 1000 a 961 a.C. Embora ele tenha encon­ trado dificuldades iniciais, devido à re­ cusa do Israel setentrional de aceitá-lo como rei, mais tarde tomou-se o gover­ nante de maior influência em toda a história de Israel. Esta não era mera­ mente a opinião ideal de uma era pos­ terior, mas a tendência dos registros que possuímos. O reino davídico foi estabelecido em uma base bem diferente da do reinado de Saul. Saul foi declarado rei por causa de um esforço conjunto da parte de todas as tribos. Davi tomou-se primeiramente rei de Judá, e depois uniu as tribos. Desta forma, a união era precária, coisa que Davi reconhecia plenamente. Ela podia ser dissolvida tão rapidamente quanto fora formada. De fato, ao se permitir ser proclamado rei de Judá an­ tes de ser aceito pelas outras tribos, Davi reconheceu a rivalidade entre as tribos do norte e do sul, de maneira tal que esse provou ser sempre um fator importante na história que se seguiu. Agora que ele era rei de todo o Israel, contudo, estava ansioso para efetuar uma ordem nacional permanente. No entanto, em primeiro lugar ele precisava enfrentar o perigo fora da nação de Israel. Os filisteus sabiam bem que a elevação dele ao poder era uma ameaça à sua supremacia na Palestina. Imediata­ mente eles tentaram fazer frente ao desa­ fio que ele apresentava. Procurando se­ parar Judá das tribos do norte, eles ata­ caram perto de Jerusalém. O resultado foi uma derrota catastrófica, em dois embates, que deixou a planície filistéia aberta para uma ofensiva por Davi (II Sam. 5:17-25). Ele apressou-se a explo­ rar esta circunstância imediatamente, le­ vando os filisteus a se curvarem até o pó e quebrando o seu poderio para sempre 100

(II Sam. 8:1). Mais tarde, os filisteus apareceram como soldados profissionais no exército de Davi! Sendo removida a ameaça filistéia, Davi agora estava livre para consolidar o seu reinado sobre Israel. Nesse ponto, o seu gênio é aparente em cada decisão. Primeiramente ele precisava decidir em relação a uma capital. Se ele se man­ tivesse em Hebrom, sede do govemo de Judá, estaria alienando as tribos do norte desnecessariamente. Uma capital ao nor­ te, iria criar antagonismo em seus leais seguidores de Judá. O fato de ele ter es­ colhido Jerusalém emerge como uma das decisões mais importantes da história hebraica. Ele não somente uniu Israel ao redor de uma localidade central, não associada com a rivalidade tribal, mas também edificou em um lugar que su­ portaria todas as tentativas de assalto por cinco séculos. Davi conhecia o valor es­ tratégico dessa localização, pois a cidade já havia suportado os ataques tanto de Israel quanto da Filístia por mais de duzentos anos. Todavia, o destino de Israel não estava limitado a uma dinastia política. A não ser que Davi pudesse estabelecer uma síntese dos aspectos religioso e político da vida de Israel, o seu reinado seria tãosomente um outro momento da História. Por isso, ele começou a tomar providên­ cias para trazer a arca para Jerusalém e declarar-se o preservador das instituições religiosas peculiares de Israel. Dal em diante Jerusalém seria a capital religiosa e política de Israel. Enquanto Saul havia alienado Samuel, pelo fato de ter usurpa­ do as suas funções sacerdotais, Davi esta­ beleceu os sacerdotes em uma posição segura, sob a proteção do monarca, ga­ nhando, desta forma, a sua lealdade à coroa. Havia ainda outras tarefas a realizar. Espalhadas pelo território de Israel, ha­ via fortalezas cananêias que ainda não haviam sido subjugadas permanente­ mente aos hebreus. Davi as conquistou


uma a uma, sujeitando-as ao domínio israelita. Embora nos primeiros dias os cananeus houvessem sido assimilados pe­ los hebreus, em sua vida tribal, agora Israel conservava os seus novos súditos segregados e separados (Noth, p. 193). Esta decisão apresentou novos problemas de ajustamento em relação à cultura e à religião cananéias. Ainda estava por ser efetuada a vitória sobre inimigos que estavam fora das fronteiras de Israel. Esses eram mais do que uma ameaça, agora que os filisteus não eram mais poderosos. Primeiro, Davi subjugou os países que colocavam em perigo as suas posições na Transjordânia, Amom, Moabe e Edom. O seu mais terrível inimigo era a Síria mas esta nação também caiu depressa diante dos exércitos israelitas. O poder de Davi se estendeu até Hamate e até o rio Orontes, sendo Damasco o seu maior prêmio. Proezas como tais chamaram a atenção de Hirão, rei de Tiro, que negociou um tratado de paz com Davi. Desta forma, em poucos anos, Davi havia estendido o seu território desde a tribo de Judá até a Ãsia Menor e a Mesopotâmia. Para conservar subjugado este territó­ rio recém-adquirido, uma máquina go­ vernamental mais centralizada e comple­ xa se tornava necessária. Israel já não era mais composto de doze tribos, que se go­ vernavam em uma federação de organi­ zação frouxa, mas agora era uma nação unida sob a direção de um poderoso monarca, que ainda procurava expandir mais os seus domínios. 3. A Era Salomônica Com a ascensão de Salomão, começou o período mais glorioso da história de Israel. As nações ao redor dele estavam sujeitas a Salomão ou pagavam tributos regulares a ele. A sua fama se estendera além das fronteiras do território sobre que ele reinava. Isto acontecera, em grande parte, devido às suas atividades comer­ ciais, que marcaram o verdadeiro gênio

de sua administração. Não era tarefa de Salomão aumentar as fronteiras de seu reino, pois ele havia herdado o seu domí­ nio de Davi, seu pai, que até o fim de sua vida havia conquistado toda a terra atri­ buída a Israel. A responsabilidade de T Salomão era explorar os ricos recursos I que agora estavam ao seu alcance. Isto r^ õ i feito mediante notáveis esforços industriais e comerciais^ Salomão percebeu a vantagem de Is­ rael como terra-ponte entre Leste eT)este, Norte e Suí. Ele também viu as possi­ bilidades que se encontravam no mar, quando de sua aliança com Hirão de Tiro. Sob a orientação de Hirão, ele construiu uma armada que navegava pelo Mar Vermelho e trazia de volta as riquezas do sul, até da Somália. A meiraviagem levou um ano, e trouxe3T volta tesouros como ouro, prata, madei­ ras raras, pedras preciosas e marfim. As suas caravanas de cajnelos viajavam ãcT Egito, através de Arábia e até o vale do Eufrates. Uma das mais importantes indústrias de Salomão eram a slüas minas Be cobre." ao sul do Mar Morto, perto de Eziom-Geber (cf. Thomas, p. 437 e ss.). Outro projeto notável era o seu comércio de cavalos (I Reis 10:28,29). A princípio ele os trouxe para o seu reino para fortificar o seu exército, mas logo descobriu que podia vender essas estratégicas armas militares a outras nações, com grande lucro. Mais tarde, esta se tomou uma das suas melhores fontes de renda. Toda esta atividade comercial era um monopólio real. Os mercadores indivi­ duais trabalhavam para o governo, indo a maior parte do lucro para a corte do rei. O mercador independente, por ser pequeno, não tinha os meios financeiros para financiar empreendimentos tão grandiosos em termos comerciais. O rei era o único que podia ser considerado como Independentemente rico. Õs súdi­ tos, até mesmo os mais poderosos, po­ j

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diam aproveitar-se apenas das migalhas que caíam de sua mesa. Projetos como as minas de cobre, a armada real, as caravanas de camelos, o palácio e o Templo não podiam ser reali­ zados sem que um preço fosse pago. Os impostos eram pesados, exaustivos. O aspecto mais antipático, porém, era o esquema de mão-de-obra para o traba­ lho. Embora os israelitas não fossem feitos escravos, enquanto eles trabalha­ vam nos campos de trabalho, muitas vezes eram maltratados (I Reis 12:4).

III. O Reino Dividido A divisão do reino ocorreu por ocasião da morte de Salomão, em c. 922 a.C. Vários fatores levaram ao inevitável: um jovem impetuoso (Roboão), um líder de trabalhadores esperto (Jeroboão), Impos­ tos excessivos, a inveja entre as tribos de Raquel e Lia (José e Judá), diferenças de localização geográfica, o medo da dita­ dura sobre um povo livre e a apostasia de Salomão. Para os que podiam ver, a dissolução do reino dava testemunho das terríveis conseqüências do esquecimento do destino divino de Israel. 1. Luta Pela Estabilidade Com a morte de Salomão, Roboão tornou-se rei de Judá (922-915 a.C.),4 e Jeroboão, do reino de Israel, ao norte (922-901 a.C.). As hostilidades foram contínuas entre os dois reinos. Jeroboão, que acabava de ser influenciado pela adoração dos egípcios, e apelando à in­ clinação dos israelitas, tão antiga quanto o Sinai (Êx. 32:4), colocou bezerros de ouro em Dã e em Betei, para estabelecer rivais à adoração em Jerusalém. Ele bem sabia que não poderia conservar a inde­ pendência política por muito tempo, se o seu povo continuasse a atravessar as fron­ teiras nacionais, para adorar em Sião. 4 Cf. Bright, quanto à cronologia hebraica. Estas datas são muitas vezes contestadas, visto que os registros do Velho Testamento contêm poucos pontos fixos, em re­ ferência à história mundial, e os reinados de pais e filhos freqüentemente se sobrepunham.

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Do que têm aprendido a respeito da adoração naquele período, muitos erudi­ tos crêem que a intenção não era levar Israel a adorar os bezerros de ouro por si próprios, mas que se supunha que eles representavam o Deus Yahweh. Os he­ breus estavam adorando o invisível Yah­ weh através dos bezerros que simboliza­ vam a sua presença. O perigo, indubita­ velmente, era que bem depressa eles iriam adorar o que enxergavam, em vez de adorar o Deus oculto. Não obstante, só no tempo de Oséias foi que um pro­ feta do Reino do Norte, segundo estã registrado, se opôs aos bezerros de ouro. Elias e Eliseu ficaram bem silenciosos a respeito. Abias (915-913), filho de Roboão, teve sucesso onde o seu pai falhou: derrotou Jeroboão, em batalha. O neto de Roboão Asa (913-873), foi um dos poucos reis recomendados pelos editores deuteronômicos dos livros de Reis, primordialmen­ te porque ele instituiu uma extensiva campanha contra a idolatria, chegando a remover a mãe idólatra de sua posição real. O seu reinado é também notável pela derrota de Zerá, rei etíope, o que revela o crescimento efetivo do poderio militar durante o seu longo reinado. Nesse ínterim acontecia uma luta con­ tínua pelo trono no Reino do Norte: Israel. O filho de Jeroboão, Nadabe, reinou apenas dois anos, antes de ser morto, e desta forma terminou a primei­ ra dinastia. Baasa (900-877) foi um rei militarmente forte, mas foi estorvado pela elevação ao poder de Ben-Hadade I da Síria (c. 880-842). O seu filho Elá (877-876) sofreu o mesmo destino que o seu pai havia dado a Nadabe. O seu assassino Zinri reinou apenas sete dias, queimando o seu palácio sobre a sua cabeça, para evitar ser capturado pelo seu rival Onrí (876-869). 2. Os Onritas Embora os escritores da Bíblia se des­ cartem de Onri com uma rápida palavra


de condenação por seus costumes idóla­ tras, do ponto de vista secular, ele talvez tenha sido o rei mais influente que Is­ rael do norte teve. Até a sua época, o Reino do Norte havia sofrido pela falta de unidade, especialmente por­ que não havia capital permanente para simbolizar os ideais da nação. Sabia­ mente, Onri comprou a colina que se tomaria Samária, e estabeleceu o gover­ no como nenhum outro rei havia sido capaz de fazer. Ele deixou uma impres­ são permanente sobre o ascendente Im­ pério da Assíria, cujos reis daí em diante se refeririam ao rei de Israel como “filho de Onri” , e ao próprio Israel, como “terra de Onri” . Preocupado com os ne­ gócios internacionais, ele casou o seu filho Acabe com Jezabel, filha do rei de Sidom. Embora essa decisão tenha sido inteiramente condenada pelo escritor bí­ blico, ela parece ter sido uma esperta manobra política. Acabe, filho de Onri (869-850), em­ bora mais fraco que seu pai, foi, não obs­ tante, guerreiro de grande capacidade. De fato, o famoso filho de Asa, Jeosafá (873-849), pouco antes da batalha de Ramote-Gileade(I Reis 22:1 e ss.), pare­ ce ter sido vassalo de Acabe, porque não teve outra escolha, senão vestir, durante a batalha, a armadura de Acabe. Embo­ ra não fosse o guerreiro que Acabe era, Jeosafá conseguiu incomum sucesso no campo doméstico. Ele foi um rei popu­ lar, além de reformador religioso e polí­ tico. Devido ao seu incentivo, a lei foi ensinada por todo o território de Judá, e empreendimentos pacíficos prosperaram em sua mão. Com a chegada de Jezabel ao Reino do Norte, porém, o oposto estava aconte­ cendo ali. A princípio houve guerra aber­ ta entre ela e os profetas de Yahweh. A intenção dela era substituir a religião de Israel pela sua. Quando ela colidiu com Elias, encontrou um homem que estava em contato com o poder de Deus e era agente de seus julgamentos.

Durante o reinado de Acabe, um novo império mundial estava se desenvolven­ do: a Assíria, a primeira a usar carrua­ gens de ferro na guerra. Ela bem depres­ sa tomou-se o flagelo do mundo. Foi a ameaça assíria que fez com que Acabe poupasse Bene-Hadade, quando ele esta­ va irremediavelmente em suas mãos. Acabe precisava de uma Síria forte, como um pára-choque entre ele e a Assíria. Os profetas sabiam que Deus podia oferecer proteção melhor do que Bene-Hadade, mas Acabe não cogitava de Deus. A batalha de Carcar (Qarqar) foi tra­ vada em 853 a.C., a primeira data da his­ tória do Velho Testamento a ser localiza­ da com exatidão. Esta foi uma grande batalha, entre uma coalisão de países ocidentais (inclusive Israel e Síria) e Salm aneserlll, da Assíria (859-824). Embo­ ra o embate, provavelmente, tenha ter­ minado num empate, a maré bem logo deveria voltar-se em favor da Assíria. 3. A Dinastia de Jeú Jeorão (849-842), filho de Josafá, ca­ sou-se com Atalia, filha de Acabe e Jeza­ bel. Ela era uma verdadeira filha de Jeza­ bel. Quando o seu marido foi eliminado, no expurgo conduzido no Reino do Norte por Jeú (842-815), ela tentou m atar toda a descendência real em Judá, e declarouse rainha (842-837). Ela não conseguiu descobrir o nenê Joás, que fora escondido no Templo pelo sumo sacerdote Joiada, e, por sua vez, ela foi morta quando Joás foi coroado (837-800). O expurgo de Jeú também produziu a morte de Jeorão, filho de Acabe (849842), que havia sucedido o seu infortuna­ do irmão Acazias (850-849), que morrera como resultado de uma queda acidental. O reinado de Jeú tomou-se notório por ele ter destruído o baalismo sírio no Reino do Norte, embora a adoração dos baais locais de fertilidade ainda conti­ nuasse. Em 842 a.C., Jeú também pagou tributo a Salmaneser III, reconhecendo 103


pela primeira vez a supremacia da Assí­ ria no Ocidente. Salmaneser III foi seguido, na Assíria, por um rei fraco, capacitando a Síria a levantar-se novamente, ascendendo ao poder. Conseqüentemente, leoacaz (815801), filho de Jeú, tornou-se vassalo de Hazael, que chegou a aproximar-se de Jerusalém, mas foi comprado por Joás, por meio dos tesouros do palácio e do templo. Contudo, a elevação de HadadeNinrari III ao trono da Assíria (811-783) logo sujeitou a Síria mais uma vez, capa­ citando Jeoás (801-786), filho de Jeoacaz, a recuperar o território anteriormente perdido para a Síria. Nesse ínterim, Amazias (800-783) havia sucedido o seu pai Joás no trono de Judá. Sentindo o seu poderio, depois de ter derrotado os edumeus, ele atacou Jeoás, de Israel, mas foi fragorosamente derrotado. Em represá­ lia, o rei de Israel pilhou Jerusalém, der­ rubando uma parte de seu muro. 4. Prosperidade e Colapso Com a morte de Amazias e a coroação de Uzias (Azarias) como rei de Judá (783742), foi inaugurado um período de pros­ peridade incomum desde os dias de Salo­ mão. Este período teve paralelo em Is­ rael com o reinado de Jeroboão II (786746), cujo mandato foi marcado por su­ cesso semelhante. A razão para estes acontecimentos era dupla. Por um lado, a Assíria se fizera impotente durante esses anos e a Síria estava exaurida, dei­ xando os hebreus livres para prospera­ rem, sem serem interrompidos pela guer­ ra. Por outro lado, Uzias e Jeroboão dei­ xaram em paz um ao outro. Os grandes profetas do oitavo século (Amós, Oséias, Isaías e Miquéias) viram, por debaixo da prosperidade superficial, as sementes de uma sociedade enferma. A riqueza não era devida ao favor de Deus, como muitos pensavam, mas a uma bonança temporária nas hostilida­ des. Era a calma antes da tempestade. O fim de Israel veio rapidamente. Zaca­ 104

rias, filho de Jeroboão, reinou apenas seis meses, antes de ser morto por Salum, que permaneceu no trono apenas um mês. Menaém, seu assassino, conseguiu reinar alguns anos mais (745-738), mas foi forçado a pagar tributo ao novo rei da Assíria, o implacável Tiglate-Pileser III (745-727). O seu filho Pecaías (738-737) foi morto, da mesma forma como seu pai havia matado um rei antes dele, por Peca (737-732). Por sua vez, este foi morto por Oséias (732-722), que era nada mais do que um títere de Tiglate-Pileser. Quando ele se rebelou contra o rei seguinte da Assíria, Salmaneser V (727-722), Samária foi sitiada por este monarca, e final­ mente capturada por Sargão II (722705), em 722 a.C. Quais foram as causas que contribuí­ ram para a desintegração do Reino do Norte e a sua posterior extinção? (1) Des­ de 922 a.C., Israel e Judá se haviam exaurido em contender um contra o ou­ tro, sendo o Reino do Norte mais exposto ao ataque estrangeiro. (2) O trono era instável. Em um período de quase 200 anos, houve nove dinastias e dezenove reis, dez dos quais sofreram mortes vio­ lentas. (3) A chocante imoralidade do povo e a falta de preocupação pela jus­ tiça social foi fatal, trazendo o juízo de Deus contra uma nação devotada à autogratificação. 5. Judá e Assíria Uzias foi seguido por seu filho Jotão (742-734), durante cujo reinado Mi­ quéias começou a profetizar. O seu filho, o idólatra Acaz (735-715), subiu ao trono bem a tempo de herdar de seu pai a Guerra Siro-Efraimita. Esta fora uma tentativa, da parte de Peca, rei do Reino do Norte, e Rezim, da Síria, de forçar Judá a entrar em uma aliança contra Tiglate-Pileser. Desesperado, Acaz ape­ lou para o monarca assírio, pedindo aju­ da. Atendendo alegremente, este avançou contra os atacantes e levantou o cerco. Judá pagou um preço elevado em tributo


por esse favor, e ficou desde então sem um pára-choque entre si mesmo e a Assíria. Foi durante esta crise que Isàías pronunciou o seu famoso oráculo, acerca de Emanuel, para Acaz (Is. 7:1 e ss.). Quando Sargão morreu, em 705 a.C., isto foi ocasião para nova rebelião na Palestina, insuflada pelo Egito, e incluin­ do Ezequias (715-686 a.C.). Os assírios disseram que fecharam Ezequias “como um passarinho em um a gaiola” . II Reis 18:13-16 e as declarações de Senaqueribe estão notavelmente de acordo. Contudo, II Reis 18:17-19:37 fala de um desastre que ocorreu ao exército assírio, em que 185.000 homens pereceram. Judá não aprendeu nada com o desti­ no que feriu o Reino do Norte. O bom rei Ezequias foi sucedido por um dos piores reis de Judá, Manasses (686-638). Du­ rante o seu longo remado, a nação hebréia afastou-se dos elevados propósitos de Deus, e cultos e costumes estrangeiros foram estimulados. A adoração no Tem­ plo deixou de ser enfatizada, e deixou-se que o próprio edifício do Templo se deteriorasse. Manassés foi assinalado, pelo autor dos livros de Reis, como o pior rei a sentar-se no trono de Davi (cf. II Reis 21:9-15; 23:3 e s.). O quadro mudou radicalmente depois de Josias (640-609) ter subido ao trono, com oito anos de idade. Nada se sabe dos anos que seguiram imediatamente à sua coroação, mas, por volta de 628 a.C., Judá (que agora era tudo o que restava de Israel) estava começando a recuperar o território perdido para a Assíria, quando Samária havia caído, um século antes. A reforma do Templo começou, em pre­ paração para a renovação da antiga fé de Israel. Em cerca de 622 a.C., uma desco­ berta emocionante foi feita. O livro da lei foi achado no Templo. Este livro, de um modo geral associado com o livro de Deuteronômio, tomou-se a base para reformas drásticas. Judá e o território de Israel foram purificados de todas as prá­ ticas estranhas, e a adoração pública de

Yahweh foi reinstituída no Templo de Jerusalém. Abertamente, esta reforma foi política tanto quanto religiosa. Ela significou um rompimento completo com a Assíria. 6. Os Dias Finais de Judá Em 612 a.C. Nínive, capital da Assí­ ria, caiu diante de Ciáxares, rei da Mé­ dia, e Nabopolassar, rei da Babilônia. O exército assírio continuou a luta, ao retirar-se para o oeste, em direção ao seu aliado, o Egito. Em 609, o Faraó Neco decidiu juntar-se aos assírios, em um desesperado esforço para afastar o ata­ que fulminante que vinha do Oriente contra ele. Percebendo o objetivo egíp­ cio, e esperando, aparentemente, que ele se sairia melhor em face de uma vitória babilónica, Josias tentou fazer Neco pa­ rar. Ao invés disso, Josias foi morto, e a tristeza abateu-se sobre Judá. O seu filho Jeoacaz (Salum) foi feito rei em Jerusalém. Temendo mais problemas da parte de Judá, Neco, que nessa épo­ ca estava na Síria, deportou Jeoacaz para o Egito, depois que ele esteve apenas três meses no trono. Em seu lugar, Neco colo­ cou o seu irmão Eliaquim, cujo nome se tomou Jeoiaquim (609-597), e certificouse de que ele permaneceria como vassalo egípcio. Tributos pesados foram exigidos de Judá. Jeoiaquim provou ser um fracasso desanimador. As velhas seitas pagãs da época de Manassés se insinuaram novamente, com a imoralidade que as acompanha­ vam. O ímpeto das reformas de Josias, contudo, conservou em pleno vigor a adoração no Templo, pois era também o centro das esperanças nacionalistas de Israel. Os acontecimentos estavam-se apres­ sando na direção de um clímax. Em 605 a.C., Nabucodonozor derrotou fragorosamente os egípcios em Carquemis, e Jeoiaquim foi forçado a transferir a sua lealdade para a Babilônia. Em cerca de 598, ele havia-se rebelado novamente, fa105


zendo com que uma vez mais a Babilô­ nia mandasse um exército contra Jerusa­ lém. A misteriosa morte de Jeoiaquim, nessa ocasião, ocasionou a coroação de seu filho Joaquim (Conias), que reinou apenas três meses e em seguida foi levado cativo para a Babilônia, em 597. Junta­ mente com ele foram levados os princi­ pais cidadãos de Judá, totalizando pelo menos dez mil, bem como utensílios do Templo, de valor inestimável. Zedequias (Matanias) foi colocado no trono por Nabucodonozor. Mais tarde, ele também participou de uma rebelião contra a Ba­ bilônia. Mais uma vez Nabucodonozor dirigiuse a Judá, e logo estava acampado diante de Jerusalém. Quando a cidade final­ mente caiu, em 587 a.C., Nabucodono­ zor, enfurecido com as constantes provo­ cações de Judá, matou a maior parte do povo e fez, comparativamente, poucos prisioneiros. Entre esses, todavia, estava Zedequias, a quem vazaram os olhos, levando-o em cadeias para a Babilônia. Foram deixados aldeões para cultivarem a terra, enquanto alguns dos principais da terra, que eram pró-Babilônia, foram deixados em Mispá, sob o domínio de um vice-rei judeu. Antes de 597 a.C., aproxi­ madamente 150.000 pessoas estavam vi­ vendo na Palestina. Em cerca de 520, haviam sido reduzidas a não mais do que 50.000 (Bright, p. 347).

IV. O Exílio e a Restauração A destruição da monarquia não signi­ ficou o fim de Israel, pois a confederação tribal havia existido durante os dois sé­ culos anteriores ao estabelecimento do reino. Israel era um povo antes da as­ censão de seus reis, e sobreviveu depois que eles cessaram de reinar. A monar­ quia havia sido apenas um episódio de sua história contínua (Noth, p. 290). Ainda permaneciam os sonhos proféticos de conquista do mundo, e havia os que ainda criam que isto estava ligado à es­ trutura política que eles haviam conheci­ 106

do anteriormente. Não obstante, os anos que se seguiram indicaram cada vez mais que o destino de Israel precisava ser en­ tendido em termos da nova situação vivencial em que os judeus se encontra­ vam. Desde o princípio, as tensões referen­ tes à monarquia se haviam centralizado ao redor do perigo de Israel perder o seu caráter distintivo de povo de Deus. A his­ tória do reino é, em grande parte, um re­ trato de suas tentativas frustradas de se estabelecer a si próprio militar e politica­ mente como nação típica. Visto que não era mais possível, depois da queda de Jerusalém, a realização desses sonhos materialistas, o seu futuro só podia estar em uma direção. O exílio e a restauração propiciaram o cadinho em que foi deter­ minada a contribuição característica de Israel. 1. A Vida Hebraica Durante o Exílio O Velho Testamento não faz nenhuma tentativa para descrever minuciosamente as condições que prevaleceram durante o exílio, quer na Palestina quer na Babilô­ nia. Embora a população tivesse sido dizimada, a Palestina não estava tão desolada quanto podemos supor. Jerusa­ lém estava em ruínas, mas a vida agrí­ cola continuava. Gradualmente, uma nova aristocracia agrícola se desenvol­ veu para substituir os nobres que haviam sido deportados. Com o passar dos anos, os cultos babilónicos e cananeus chega­ ram a permear a adoração de Yahweh na Judéia (Ez. 8:3,14; Is. 57:3-8; 65:3-5; 66:3,17). Não obstante, havia alguns adoradores fiéis de Jeová que haviam permanecido na terra natal, pois Jeremias menciona oitenta peregrinos, de Siquém, Siló e Samária, que levaram ofertas para serem apresentadas no lugar do Templo des­ truído (Jer. 41:4 e ss.). Nesse ínterim, na Babilônia, os lideres judeus estavam tentando reunir os peda­ ços de suas vidas abaladas. Embora em


587 a.C. os cativos fossem tratados sem misericórdia e reduzidos à escravidão, os que foram levados para a Babilônia em 597 mereceram considerável liberdade (Jer. 29:5-7; Ez. 8:1). Foi-lhes permitido conduzirem os seus próprios negócios e adquirirem propriedade, embora lhes fosse proibida a volta para o torrão natal. Privados da oportunidade de sacrificar no Templo, eles aprenderam que Yahweh podia ser adorado sem tais liturgias. A obediência substituiu o sacrifício. O je­ jum tornou-se mais comum, e o sábado, mais proeminente. Embora não possa­ mos ter a certeza de quando começou a adoração formal nas sinagogas, 5 algu­ mas formas simples de reunião religiosa devem ter ocorrido, com antecedentes que remontam à vida religiosa das comu­ nidades primitivas em Judá, especial­ mente depois que Josias havia destruído os altares locais. Essas reuniões mais tarde seriam chamadas sinagogas. O sincretismo que se estava desenvol­ vendo na Palestina contrastou aguda­ mente com as decisivas tentativas dos exilados de preservar a sua identidade em uma terra estranha. A liberdade da vida comunal, que lhes foi permitida pelos babilônios, deu-lhes a oportunida­ de de reter os seus padrões culturais e religiosos essenciais. Estes padrões foram observados com diligência dedicada. Ta­ manha fidelidade, em circunstâncias di­ fíceis, encorajou um exclusivismo, que exalçou as diferenças não apenas entre eles e os babilónicos, mas também entre eles e os que haviam permanecido na Judéia. Eles não apenas haviam sofrido mais do que o povo que ficara na terra, mas, ao darem ouvidos às palavras dos grandes profetas de Israel, haviam sido beneficiados pelos seus infortúnios. Quando retomaram à terra, este senti­ mento de superioridade os forçou a esta­ belecer uma separação entre eles e os que haviam permanecido (Esd. 4:1 e ss.). Se 5 H. H. Rowley, W orahip In A ncicnt Israel (London: SPCK, 1967), p. 213-245.

esta atitude era completamente justifica­ da ou não, não o podemos dizer; contu­ do, devido ao desenvolvimento subse­ qüente da seita samaritana, depois deste cisma, podemos chegar à conclusão de que os exilados estavam enveredando por um caminho errado (Robinson, p. 15760). 2. A Era P ena O ano de 559 a.C. é um marco da história mundial. Naquele ano, Ciro su­ cedeu o seu pai como rei de Anshan. Bem depressa ele estava ameaçando Astíages, rei da Média. Em 550 a.C., Ciro dirigiu um exército vitorioso através das ruas de Ecbatana, capital da Média, saquean­ do-a e levando as suas riquezas para Anshan. Conquistas ulteriores, no Orien­ te, conservaram Ciro ocupado até 539 a.C., quando ele começou a marchar contra a Babilônia. Nabonido, rei da Babilônia, não estava em condições de resistir, se o desejasse. Os seus recursos haviam sido gastos em restaurar e edifi­ car os templos dos deuses. O seu povo estava descontente com o seu rei. Achan­ do que havia desagradado à divindade principal, Marduque, eles não tinham ânimo para resistir a Ciro. Depois da queda da Babilônia, Ciro tomou-se o soberano de toda a Ãsia ocidental, estendendo-se os seus domí­ nios até as fronteiras setentrionais do Egito. Visto que essa nação era a única ameaça para o seu poder no Sul, ele começou imediatamente a meditar em alguma forma de conservá-la de fora mediante algum ardil. O seu território incluía a Palestina. Se o povo dessa re­ gião lhe fosse fiel, o seu reino estaria mais seguro contra a ambição dos faraós egípcios. Desta forma, não é estranho que ele tenha permitido o retomo dos judeus da Babilônia para a sua terra an­ cestral — embora a soberana providência seja a nossa verdadeira chave para o que aconteceu (Is. 45:1-6). A reação de al­ guns dos judeus mais prósperos não foi 107


entusiástica, pois um grande número de­ les preferiu permanecer na Babilônia. Muitos outros voltaram para a Palestina com Zorobabel, em cerca de 538 a.C. A cansativa marcha consumiu um tempo considerável, bem como os problemáti­ cos preparativos necessários ao estabele­ cimento da nova comunidade. Conse­ qüentemente, os alicerces do Templo só foram lançados em 536. 3. A Restauração O Templo só foi completado em 516 a.C., depois do encorajamento ministra­ do por Ageu e Zacarias, em 520. A ci­ dade ainda não era um lugar seguro, visto que não tinha muro protetor. Ele foi levantado por Neemias em 444 a.C., qua­ se cem anos depois de a primeira leva de judeus ter voltado da Babilônia. Ciro foi sucedido por seu filho Cambises, que era mentalmente perturbado. Com a ascen­ são de Dario, o Grande (Histaspes, 522486), um outro momento importante aconteceu no reinado persa. A política internacional da Pérsia era bem diferente da Assíria, perpetuada pela Babilônia. O sistema de deportação foi abandonado, permitindo-se que os povos cativos voltassem para a terra na­ tal. Um governo próprio considerável foi permitido. Os persas desejavam apenas uma certeza de que um tributo regular seria pago por um governador por eles nomeado. Dario. foi sucedido por Xerxes (486465), que foi, provavelmente, o Assuero do livro de Ester. Artaxerxes I (Longimanus, 465-424) seguiu-se a ele. Na or­ dem cronológica, os outros reis persas foram Xerxes II (423), Dario II Nothius, 423-404), Artaxerxes II (Mnemon, 404358), Artaxerxes III (Ochus), 358-338), Arses (338-336) e, finalmente, Dario III (Codomannus, 336-331), que rendeu-se ao império de Alexandre, o Grande. Há grande dificuldade em localizar Esdras neste esquema cronológico. O lu­ gar tradicional que se lhe dá é em 458 108

a.C., durante o ano sétimo de Artaxer­ xes I. Muitos eruditos contendem, toda­ via, em que ele voltou durante o sétimo ano de Artaxerxes II (398 a.C.). Outros ainda sugerem que “o sétimo ano” origi­ nalmente era “o trigésimo sétimo ano” , e o colocam durante o reinado de Arta­ xerxes I (428). Não há exatidão a respeito deste assunto, embora a data de 398 pareça mais improvável, visto que o sóli­ do testemunho bíblico insista que Esdras e Neemias estiveram em cena conjunta­ mente. 4. Os Primórdios do Judaísmo Sem sombra de dúvida, o judaísmo posterior desenvolveu as suas ênfases ca­ racterísticas durante a era persa. O de­ senvolvimento da escatologia caracteri­ zou esse período. Frustrados com a época contemporânea, eles se mostraram mais receptivos a pensamentos a respeito do futuro. Quando Israel foi influenciado pelo pensamento do zoroastrismo é as­ sunto de debate (Robinson, p. 165). A despeito das influências externas, os he­ breus estavam sendo levados a refinar e a desenvolver a sua própria teologia, no contexto de seu monoteísmo convicto. Não apenas estavam mudando as ati­ tudes concernentes ao futuro, mas tam­ bém os pontos de vista a respeito das responsabilidades presentes. Com a vin­ da de Esdras, uma nova direção foi im­ primida à vida dos israelitas: ênfase na lei. Enquanto, no passado, a lei havia servido aos hebreus, agora eles se tor­ navam servos da lei.6 O instrumento divino para a expressão de sua fé muitas vezes tornou-se um fim em si mesmo. A lealdade nacional estava sendo substituí­ da por lealdade à tradição, escrita e oral. Outros desenvolvimentos significativos resultaram do sistema persa de governar as suas províncias. Embora conservas­ sem o controle estrito de toda a vida polí­ tica, os persas permitiam completa li­ berdade de religião. Os hebreus, priva6 Gerhard von Rad, Old Testament Tbeology (London: Oliver & Boyd, 1962), I, 91.


dos de independência política, encontra­ ram um derivativo na articulação e apli­ cação novas da sua fé histórica. As frus­ trações políticas foram compensadas pelo zelo religioso. A ênfase peculiar que marcou a vida de Israel desde então encontrou expressão durante essa época: um rico vocabulário de oração e louvor (encontrado nos Salmos do Segundo Templo), uma aplicação prática dos princípios proféticos à vida diária (ex­ pressa na Literatura de Sabedoria) e, especialmente, uma recusa obstinada de ceder a qualquer pressão, social ou polí­ tica, no sentido de apostatar. Em tudo isso Deus estava guiando o seu povo na direção do propósito que tinha para com ele. Aqueles que haviam estado esperan­ do o Segundo Davi estavam sendo prepa­ rados para o Servo Sofredor. Para Leitura Adicional ALBRIGHT, W. F. From the Stone Age to Christianity. Baltimore: John Hopkins Press, 1946. ANDERSON, G. W. The History and Religion of Israel. (“The New Clarendon Bible” , Old Testament, Vol. I.) Oxford: University Press, 1966.

BRIGHT, JOHN. A History of Israel. Philadelphia: Westminster Press, 1960. DANIEL-ROPS. Israel and the Ancient World. London: Eyre & Spottiswoodè, 1949. MANSON, T. W. A Companion to the Bible. Edinburgh: T. & T. Clark, 1943. NOTH, MARTIN. The History of Israel. 2a ed. rev. Trad, para o inglês por P. R. ACKROYD. New York: Har­ per & Row, 1960. OESTERLY, W. O. E., e T. H. ROBIN­ SON. A History of Israel. Oxford: Clarendon Press, 1932. ROBINSON, H. WHEELER. The His­ tory of Israel. London: Duckworth, 1938. SNAITH, NORMAN H. The Jews from Cyrus to Herod. Wallington: Reli­ gious Education Press, 1949. THOMAS, D. W. Archaeology and Old Testament Study. Oxford: Claren­ don Press, 1967. WELLHAUSEN, JULIUS. Prolegomena to the History of Israel. London: Adam & Charles Black, 1885.

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A Teologia do Velho Testamento E. C. Rust As idéias teológicas do Velho Testa­ mento referem-se à natureza e à ativida­ de do próprio Deus, à medida que ele se revela ao povo hebreu; ao relacionamen­ to da natureza para com Deus como seu Criador e Sustentador; à relação respon­ sável do homem para com Deus; e ao inter-relacionamento do homem com os seus semelhantes e com o seu meio am­ biente natural, sob os auspícios de Deus.

I. A Metodologia da Teologia do Velho Testamento Precisamos lembrar que, ao estudar o pensamento do Velho Testamento, es­ tamos tratando com tradições e do­ cumentos que cobrem mil anos de his­ tória hebraica. E, porque estamos tra­ tando de revelação histórica, e não de padrões de pensamento de um período circunscrito de tempo, a teologia do Ve­ lho Testamento apresenta um problema peculiar. Precisamos decidir a respeito de alguma norma ao redor da qual edi­ fiquemos o pensamento teológico. Preci­ samos estabelecer a diferença entre os elementos permanentes do pensamento de Israel e os que são transitórios. Pre­ cisamos sistematizar, mas a sistematiza­ ção precisa ser coerente com um desvendamento, através dos longos proces­ sos da História. Ela precisa representar fielmente o diálogo do Deus vivo com o seu povo. Como resultado destes proble­ mas, a metodologia e a atitude adotada pelos teólogos do Velho Testamento fo­ ram variegadas. Antes de tudo, precisamos diferenciar cuidadosamente a teologia do Velho Tes­ tamento da história da religião hebraica. Esta última estuda a religião de Israel

como fenômeno histórico, tratando de suas estruturas em mutação e de seus elementos transitórios tanto quanto dos permanentes. Ela se preocupa com o que é característico da religião de Israel, mas também se interessa pela relação da re­ ligião hebraica com as religiões das cul­ turas vizinhas. Além disso, ela considera o desenvolvimento da experiência religio­ sa de Israel e estuda a religião hebraica cronologicamente. Esse estudo é um pano de fundo valioso e um bom suple­ mento para a teologia do Velho Testa­ mento, mas a abordagem da última é diferente. Neste estudo, estamos interes­ sados nos elementos permanentes que persistem, no desenvolvimento histórico da fé de Israel, e não desaparecem de cena. Mais uma vez: a teologia do Velho Testamento procura o significado teoló­ gico das idéias teológicas de Israel, e procura edificá-las em um padrão siste­ mático. Em segundo lugar, precisamos nos perguntar como avaliar o que é de signi­ ficado permanente na fé de Israel. Visto que a maior parte dos teólogos do Velho Testamento está participando da fé cris­ ta, o tribunal de recursos final deve ser cristológico. Esses teólogos chegaram a um acordo quanto ao seguinte: de algu­ ma forma a fé do Velho Testamento aponta para a fé do Novo Testamento e propicia ao segundo o seu contexto his­ tórico. O que é de significado perene relaciona-se com o testemunho teológi­ co do Novo Testamento. Os teólogos do Velho Testamento divergem em suas opi­ niões, tanto quanto Th. C. Vriezen e G. von Rad concordam com Otto Procksch que o Velho e o Novo Testamentos são 111


tão interdependentes que o Velho Testa­ mento sem o Novo é como um corpo sem cabeça. O nosso padrão final para o julgamento do que é importante precisa ser, portanto, cristológico, a saber, o que aponta para o Novo Testamento e se cumpre na fé que ele esposa. Ficamos ainda com o terceiro proble­ ma: o padrão em que ordenar as idéias teológicas da fé do Velho Testamento. Aqui enfrentamos o problema de um desenvolvimento histórico em que tais idéias atingem dimensões mais ricas e também o fato de que o desvendamento de Deus está intimamente ligado ao mo­ vimento histórico da vida de Israel. Evi­ dentemente, é mais satisfatório, aqui, um padrão existencial envolvendo o con­ ceito de diálogo e do relacionamento entre Deus e a sua ordem criada. Os teólogos modernos do Velho Testa­ mento têm manifestado a tendência de avançar de uma forma puramente siste­ mática para uma abordagem mais dinâ­ mica, enfatizando a atividade divina e a relação de Deus com a sua ordem criada. No contexto desta estrutura, eles têm procurado sistematizar de várias manei­ ras. Aqui adotaremos uma posição si­ nóptica ou sistemática, centralizandonos na relação dinâmica do Deus vivo com as suas criaturas, enfatizando as idéias teológicas que são reunidas de for­ ma transfigurada na fé neotestamentária. A chave precisa ser o contínuo des­ vendamento do Deus vivo diante de Israel.

II. Os Padrões Característicos do Pensamento Hebraico O hebreu era pessoa essencialmente realista. Ele aceitava o mundo da forma como ele lhe aparecia, no nível dos sen­ tidos, e percebia muito bem as forças tre­ mendas e a beleza majestosa da ordem natural. Isto é evidenciado exaustiva­ mente nos Salmos que fazem alusão à natureza (v.g., 65; 104; 148), porém ma­ nifesta-se também nas imagens usadas pelos profetas, que se aproveitaram gran­ 112

demente da natureza em seus símiles poéticos. O hebreu também confiava em suas intuições morais e em suas visões religiosas. Em cada nível de sua expe­ riência, ele cria que estava em contato com a realidade. O seu realismo era, contudo, carac­ terizado por um peculiar senso de “intei­ reza” . Bem evidente em sua opinião a respeito da natureza e das “espécies” de animais, este senso de inteireza o é espe­ cialmente no caso do homem. O indiví­ duo, especialmente nos primeiros dias do pensamento hebraico, é sempre conside­ rado em seu contexto de um todo coleti­ vo. Ele está dentro da família, do clã, da tribo, da nação — da humanidade como um todo. Há um senso de personalidade coletiva em nível social. O que um ho­ mem faz é responsabilidade não apenas sua, mas também de sua família. Isto explica o terrível castigo infligido a toda a família e propriedade de Acã por causa do pecado dele (Jos. 7:24). A personali­ dade do indivíduo e as conseqüências do que ele faz se estendem àqueles que se relacionam com ele. Esta “extensão de personalidade” de­ pende, para sua amplitude, do significa­ do dos relacionamentos sociais do indiví­ duo em pauta. Desta forma, o rei incor­ pora em si mesmo toda a nação, e o bem-estar da nação depende do bemestar do próprio rei. Em nível familiar, desenvolveu-se o seguinte provérbio: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram” (Ez. 18:2). Isto se reflete na aceitação da máxima de que os pecados dos pais serão visitados nos filhos até à terceira e quarta gerações (Êx. 20:5). Ao nível de qualquer grupo intimamente unido, o costume da vin­ gança do sangue requeria que o crime de um membro do grupo fosse pago pelo sangue de outro membro (II Reis 9:26). A idéia de extensão de personalidade nos ajuda a entender como todos os Sal­ mos podiam ser descritos como existentes dentro da personalidade coletiva ou ex-


tensiva de Davi, o salmista típico; todas as leis dentro da de Moisés, legislador tí­ pico; toda a sabedoria no contexto da de Salomão, o sábio típico. Finalmente, precisamos notar que a própria palavra Adão é mais um a palavra coletiva do que um nome próprio. Ela está no lugar do homem típico, e toda a humanidade deve ser descrita pela humanidade inclusive de Adão. Psicologia Hebraica. O senso de intei­ reza também permeia a maneira de o hebreu entender o próprio homem. O ho­ mem é considerado como um todo psi­ cossomático. O seu corpo é parte inte­ grante de seu ser pessoal. Isto é bastante evidente na maneira hebraica de enten­ der a “alma” . Esta palavra é muito di­ ferente, quanto ao significado, da nossa idéia comumente concebida de alma, que se origina mais do pensamento grego. O significado inicial de alma é “princípio animado” , o que faz a diferença entre os mortos e os vivos. Para o hebreu, o ho­ mem não é uma alma encarnada em nosso sentido moderno, mas um corpo animado. O hebreu não tinha uma pala­ vra para designar “corpo” ou “persona­ lidade” . Aqui verificamos o realismo he­ braico, com a sua ênfase nas coisas con­ cretas, e não nas abstratas. O corpo é o homem, e o homem é caracterizado pelo fato concreto de que o seu corpo é ani­ mado. As coisas físicas e psíquicas estar» intimamente interligadas. Se o sangue de um homem for derramado, a sua vida será literalmente derramada. Neste ní­ vel de pensamento, o significado de “alma” pode ser traduzido como “vida” (II Sam. 1:9). Em um nível mais alto, “alma” signifi­ ca o homem em sua totalidade como um “ego” pessoal, e, desta forma, é equiva­ lente a “eu” . Além disso, há a referência concreta, pois a personalidade do ho­ mem está ligada à sua condição corporal (Gên. 27:25; Sal. 13:2). A atitude psicos­ somática ainda está presente. Da forma como o homem é interiormente, ele o é

exteriormente. O bem-estar da alma é comparada à gordura (Is. 55:2; cf. Jer. 31:25). A “alma” é o homem em sua unidade pessoal do princípio animado com a carne. Contudo, há uma conotação mais inte­ rior de alma, quando esta palavra é usada para descrever os desejos íntimos de um homem, tanto os físicos quanto os espirituais. Um homem de fortes desejos físicos é uma “ alma gananciosa” (cf. Is. 56:11, texto hebraico), e uma alma tam­ bém tem sede de Deus (Sal. 42:2 e ss.). As emoções de amor (I Sam. 20:17) e ódio (Is. 1:14) centralizam-se na alma. Isto se tom a claro na maneira do hebreu entender “coração” . O coração é o centro do pensamento e da intenção, e passa a significar especialmente o aspec­ to intrínseco do homem, que chamamos de caráter. O hebraico, por conseguinte, pode falar de “colocar uma coisa no coração” ou de “colocar o seu coração em uma coisa” , quer dizer, deixar um pensamento ou palavra agir sobre ele (Is. 57:1; Jer. 12:11; Mal. 2:2). O cora­ ção, desta forma, representa a vida ínti­ ma ou o caráter do homem. O homem é uma alma, mas também tem um cora­ ção. O coração pode, contudo, significar toda a personalidade. O coração do ho­ mem pode ser consolado, ou pode ser derramado (Gên. 18:5; Lament. 2:19). O hebreu cria que, mediante a sua pala­ vra, a pessoa podia esvaziar parte de süa “alma” em outra, e dar-lhe forças para agir. A sede dos sentimentos é semelhante­ mente considerada como as entranhas (Jer. 4:19; Is. 16:11), enquanto os rins também podem executar funções físicas, tanto quanto psíquicas (Jó 16:13). Em tudo isto, a inteireza psicossomática do homem é enfatizada. As suas condições externas e o seu estado íntimo de espí­ rito, ou caráter, são ligados e se refletem mutuamente. Daí chegamos à fácil con­ clusão de que as calamidades externas sempre resultam de um afastamento in113


terior de Deus, problema que deixava perplexo o autor de Jó. A Cosmologia Hebraica e o Ponto de Vista Hebraico da Natureza. Da mesma forma como o hebreu não compartilhava de nosso entendimento psicológico mo­ derno, ele também era pré-científico em sua maneira de entender a natureza. O seu mundo é um universo disposto em três camadas. Ele retrata uma terra cha­ ta, como um disco, com montanhas nas margens, sobre as quais repousa a cúpu­ la sólida do céu, o firmamento. Sob a terra está a sepultura familiar ampliada, o Sheol, para onde vão as sombras dos que se findam. Acima da cúpula do céu está o palácio de Deus. Gênesis 1 e Salmos 104 ilustram igualmente esta cos­ mologia. O hebreu retrata este todo como rodeado pelo “abismo” . O fato de que uma opinião semelhante prevalecia em outras partes do Oriente Próximo antigo é uma recordação de que, em sua perspectiva pré-científica, os hebreus compartilhavam de algumas das opiniões de seus contemporâneos. Quanto à natureza propriamente dita, o hebreu a entendia com o mesmo senti­ do de inteireza com quem entendia o homem. A natureza, como uma totalida­ de, e os vários grupos de fenômenos na­ turais, no contexto da totalidade, são considerados como “todos” . Sobretudo, tais “todos” são considerados como ca­ pazes de uma reação ou resposta psí­ quica. A terra, como um todo psíquico, tem um laço psíquico tanto com Deus como com o seu povo. Ela pode ser a terra de “ Beulá” , casada com Deus (Is. 62:4). Os animais domésticos formam um todo psíquico e podem manifestar uma rea­ ção psíquica para com o homem. Eles têm um pacto com o homem, pelo qual se tomaram seus servos, enquanto as cria­ turas selvagens não o têm (Jó 41:4). O hebreu não tinha idéia das estrutu­ ras mecânicas de causa e efeito, com que a ciência moderna nos tomou familiari­ zados. Pelo contrário, ele pensava em 114

cadeias de reação psíquica. Oséias pôde pensar em Deus provocando uma cadeia de reações psíquicas nos céus: o trigo, o vinho e o óleo; e Jizreel (2:21,22). Até o sol e os outros corpos celestes são retra­ tados tanto física quanto psiquicamente. O Salmo 19:4-6 tom a esta idéia clara, no caso do sol, e, no Salmo 148, o sol, a lua e as estrelas são convocados para louvar a Deus. As estrelas possuem tanta vida psíquica que podiam lutar contra Sísera (Juiz. 5:20), enquanto o autor de Jó retrata as estrelas da manhã gritando juntas quando Deus criou o mundo (Jó 38:7). Isto não é mera poesia, mas um aspecto do realismo hebreu, com o seu senso de inteireza psíquica.

III. O Desvendamento Divino O Velho Testamento é o testemunho do desvendamento divino na história do povo hebreu. Os hebreus, diferentemente dos gregos, não chegavam ao seu enten­ dimento de Deus pelos processos da ra­ zão humana. Deus não era considerado como um Ser estático, um padrão racio­ nal, que emprestava significado ao Uni­ verso. Ele era visto como o Deus vivo, um Ser pessoal dinâmico, que era conhecido pelo que fazia. Ele era vivo e pessoal. Essencial para esta maneira de entender Deus era a sua vontade, expressando a sua intenção, o seu propósito. Além dis­ so, a reação do homem para com Deus era o caminho da vontade, da confiança e dedicação ao desvendamento divino. Deus agia como pessoa, entregando-se ao homem, revelando-se a ele, nas vicissitu­ des de sua vida histórica. Ele não era um sistema abstrato de idéias racionais. Esta natureza pessoal e viva de Deus esclarece o testemunho do Velho Testa­ mento em todos os seus pontos. Como tal, Deus é continuamente ativo na his­ tória dos hebreus, transformando o seu curso, tratando redentoramente com Is­ rael, em juízo e em misericórdia. A per­ cepção da fé apreendia a sua realidade através dos fatos históricos e do ambiente


natural da existência hebréia. Daí, poder o homem jurar pela vida de Deus (Juiz. 8:19). Como Deus vivo, ele fala do Sinai com a voz do trovão (Deut. 5:26) e vem socorrer o seu povo quando da invasão da Palestina (Jos. 3:10). O Nome de Deus — Yahweh. Por conseguinte, Deus se dâ aos homens em forma pessoal. Isto é verificado especial­ mente na revelação de seu nome. Para o hebreu, dar o seu nome a outrem era, em sentido real, compartilhar o conhecimen­ to do mais íntimo de seu ser. Assim, quando Deus deu o seu nome “Yahweh” a Moisés, esta foi uma auto-revelação pessoal. Este é o principal nome de Deus no Velho Testamento. De acordo com a tradição E (ou Do­ cumento Eloísta), o nome de Yahweh foi revelado a princípio a Moisés (Ex. 3:15). Há, contudo, indicações de que esse nome não era inteiramente nova para alguns grupos hebreus. A tradição J o faz remontar aos tempos primevos e o associa com Abraão (Gên. 4:26; 9:26; 15:7). Estas duas tradições não precisam ser consideradas como contraditórias. Sabemos que a invasão da Palestina, pe­ los hebreus, foi feita pouco a pouco, e pode ser que, para alguns grupos tribais, o nome de Yahweh já fosse conhecido, por exemplo, para as tribos de Lia (cf. Jacob, p. 49 e ss.). É bem evidente que o Deus vivo era conhecido dos patriarcas como ’El, o Deus dos pais. Vários indivíduos e gru­ pos de indivíduos o conheciam como o amigo e guia familiar, que os acompa­ nhava em suas peregrinações. Muitos eruditos afirmam que, entre os grupos semitas, havia um monoteísmo original, primitivo. Certamente a tradição P de­ clara que, antes do Êxodo, Deus era co­ nhecido pelo povo hebreu como ’El Shaddai, Deus todo poderoso, e, como tal, nesta tradição, ele se havia revelado a Abraão (Êx. 6:3; Gên. 17:1; cf. 28:3). O encontro de Melquisedeque com Abraão introduz o nome ’El ‘Elyon, Deus

Altíssimo. É claro que a religião dos pa­ triarcas estava associada a Deus como ’El, e este nome era associado especial­ mente a poder. Pode ter sido que o nome Yahweh também fosse usado nesse passado remo­ to e obscuro. Não obstante, para Moi­ sés, este nome veio como um novo desvendamento da natureza Intima de Deus. Há muito tempo se perderam as vogais, na verdade, usadas no nome original, pois a devoção posterior proibiu a enun­ ciação do nome divino. Só permanecem as consoantes YHWH e, no texto sagra­ do, a sua ocorrência era sempre acompa­ nhada, na leitura, pela sua substituição pelo nome “o Senhor”, Adonai. Conse­ qüentemente, as vogais desta última pa­ lavra foram ajustadas às consoantes da primeira, para produzir o nome de Jeo­ vá. Contudo, esta não é a forma original. Paralelos primitivos e fragmentos de evi­ dências parecem indicar que a forma original é Yahweh. No entanto, se Yahweh era conhecido dos patriarcas, não o era como na reve­ lação que sobreveio a Moisés. O ’El de poder tornou-se o Deus de atividade pes­ soal, na revelação da sarça, que se quei­ mava. Deus veio a Moisés como o Deus dos pais, mas ele agora se desvendou de maneira nova. Embora fosse conhecido anteriormente, este nome teve um novo_ significado. Deus passou a ser entendido como “Aquele que é” , uma atualidade viva, contínua. As consoantes do nome divino se tornaram ligadas, na consciên­ cia de Moisés, com o verbo ser. A coisa importante é que Deus é, sendo o alicerce perene e vivo da vida de Israel. O Deus de poder tornou-se mais pessoa, a garan­ tia da redenção, de seu povo, da escravi­ dão. Deus é Yahweh, e Yahweh expres­ sa, em sua estrutura consonantal, o desvendamento de “Eu sou” . O Desvendamento Divino — a Glória Divina. O hebreu tinha muita consciên­ cia do fato de Deus ser oculto e trans­ cendente. Deus era pessoal, e, como tal, 115


também estava envolvido em mistério. Deus, ao mesmo tempo, era revelado através de suas ordens criadas, e oculto por elas. Ele era o Deus de mistério, a quem o homem não podia achar, ao procurá-lo (Is. 40:28; Jó 11:7). Ele estava além dos processos da natureza e da História, o Santo que habitava na eterni­ dade (Is. 57:15), no entanto, ele era também imanente neles. Não havia parte de seu mundo que não estivesse aberto para ele e onde ele não estivesse presente (cf. Sal. 139). Deus podia operar dentro da natureza e da História e desvendar-se pessoalmente nelas. Quando os hebreus procuravam enten­ der esta divina atividade de desvendamento, certas palavras características eram empregadas. Encontramos a ex­ pressão “glória divina” usada bem fre­ qüentemente. A glória de Deus é a ma­ neira como ele se manifesta — a sua apa­ rência visível, com o sentimento conse­ qüente de solenidade, da parte do ho­ mem. As teofanias em a natureza, tais como fogo e fenômenos de tempestade, manifestam a glória de Deus com apa­ rência de fogo — a sarça ardente (Êx. 3:2 e ss.), a coluna de fogo (Êx. 13:21), o fogo que queimou o sacrifício de Elias (I Reis 18:24 e ss.). A nuvem de tempes­ tade se tomou a teofania para Exeqtüel (1:26-28). O relâmpago, é, possivelmen­ te, a base física para a semelhança de serpente atribuída ao serafim nas visões proféticas (Is. 6:2 e ss.; Ez. 1:5 e ss.). No entanto, Deus se esconde ao se mostrar. A sua glória é oculta pela nu­ vem. As nuvens de incenso que se levan­ tam escondem, de Isaías, a presença de Yahweh (6:1 e ss.). Moisés vê apenas Deus pelas costas. Ver a glória de Deus em todo o seu esplendor fulgurante sig­ nifica morte (Êx. 33:17-23). Podemos dizer que a glória de Deus é o seu esplendor radiante, que ele irradia, quando aparece na tempestade e no re­ lâmpago fulgurante. O Espírito e a Palavra. Muito mais 116

significativos para o entendimento da revelação do Velho Testamento são o Espírito e a Palavra. No pensamento he­ breu, a idéia do Espírito tem sido mais de um poder impessoal do que de uma presença pessoal, especialmente no pe­ ríodo pré-exílico. A palavra tem conota­ ções físicas. Ela também pode significar vento. O espírito ou vento das narinas de Deus faz erguerem-se num montão as águas do M ar Vermelho (Ex. 15:8). Ezequiel, na visão do vale de ossos secos, faz um jogo de palavras com o sentido duplo desse vocábulo, como “vento” e “espí­ rito” (Ez. 37:1-14). Neste sentido físico, o Espírito divino podia, nos primeiros dias, ser associado particularmente com aspectos manifestamente violentos do comportamento humano, como, por exemplo, a força de Sansão e os paroxis­ mos de ira e loucura de Saul (Juiz. 14:6, 19; I Sam. 16:14). Todos os dons extra­ ordinários são também devidos ao Espí­ rito: a perícia de Bezaleel e a capacidade de José para interpretar sonhos (Êx. 28:3; Gên. 41:25 e ss.). O Espírito de Deus é uma extensão de sua personali­ dade em atividade poderosa, tomando posse do homem. O Espírito passou a ser associado espe­ cialmente com os profetas. Saul profeti­ zou quando o Espírito de Deus veio po­ derosamente sobre ele (I Sam. 10:10). Desta forma, o Espírito toma-se o ins­ trumento da revelação divina (cf. Miq. 3:8; Ez. 2:2; 11:5). Outro termo intimamente ligado com o desvendamento divino é a “palavra” de Yahweh. No nível humano, a palavra pode significar ato ou coisa, bem como expressão vocal, no pensamento hebrai­ co. Ao se comunicar com os outros, algo do homem impregnava a sua palavra. Tomando forma visível ou audível, ela continha em si mesma algo do próprio ser e intenção do orador. Como uma extensão de seu ser pessoal, ela minis­ trava ao ouvinte a intenção da pessoa que a havia enviado. Desta forma, a palavra


humana era um instrumento poderoso, capaz de operar o bem ou o mal naqueles a quem era dirigida. Da mesma forma, a palavra divina era uma extensão do ser pessoal de Deus, em seu mundo. Ela comunicava, em forma poderosa, a intenção divina. Quando ela era pronunciada pelo profeta, iniciava a intenção divina, em microcosmo, na si­ tuação para a qual era dirigida. Então, ela já teria iniciado o seu trabalho obje­ tivo no mundo, e não poderia voltar vazia para Deus (Is. 55:10 e s.). Conseqüente­ mente, o profeta podia prefaciar os seus oráculos com: “Assim diz o Senhor.” Uma vez pronunciada, a palavra de Yahweh seguia o seu caminho, contendo em si o próprio poder de Deus, e agindo independentemente da pessoa do profe­ ta. Assim sendo, a palavra podia ser enviada por Yahweh e acender-se sobre Israel em julgamento catastrófico (Is. 9:8 e ss.). O profeta não tinha uma palavra de Yahweh; ele tinha a palavra de Yah­ weh, dando a entender a plena revelação divina para a sua situação peculiar. O profeta era inspirado pelo Espírito de Yahweh, e ao mesmo tempo tinha a palavra de Yahweh. Estas características representam a imanência e a atividade reveladora de Deus em seu mundo e na História. O Desvendamento Divino e a Cons­ ciência Profética. O desvendamento divi­ no na História centraliza-se na consciên­ cia profética. Foi a presença do profeta que transformou as atualidades históri­ cas em acontecimentos revelatórios e criou uma situação de desvendamento para Israel. A palavra profética de Moi­ sés, por ocasião do Êxodo, transformou um acontecimento natural, o vento que fazia as águas recuar, em um desvenda­ mento da redenção de Yahweh para o seu povo. A palavra de Yahweh, através de Isaías, criou, a partir da invasão históri­ ca das forças assírias, um desvendamen­ to do julgamento divino e uma conclamação ao arrependimento (10:5 e ss.). Deu-

tero-Isaías pode declarar que Ciro, o conquistador persa, iria cumprir a inten­ ção divina, e restaurar à sua terra os exilados na Babilônia (Is. 44:28-45:7). Desde Moisés, as figuras notáveis na vida de Israel são os profetas. Esses homens se caracterizavam por uma percepção inspirada da vontade e intenção divinas. Eles sentiam o que Deus sentia, e eram constrangidos a falar e agir sob a direção dele. Podemos dizer, em linguagem moderna, que lhes havia sido dada uma percepção intuitiva dos propósitos divinos. Eles podiam enxergar o padrão da mente divina, e comparti­ lhar dos pensamentos de Deus. Eles se consideravam como extensões temporá­ rias do ser divino, em atividade histórica. O que distingue os profetas não é a psicologia de sua atividade, mas o con­ teúdo do que eles diziam e faziam. Ge­ ralmente eles parecem ser classificados em dois tipos: os extáticos e os videntes — ambos presentes em Israel. O tipo extático, que se lançava num frenesi e manifestava comportamento anormal, pode ser que anteriormente fosse conhe­ cido pela palavra agora traduzida como “profeta” . Exemplos disso podem ser encontrados nas “escolas de profetas” associadas com a obra de Samuel, Elias e Eliseu, sob o contágio de cuja influência emocional Saul também começou a pro­ fetizar (I Sam. 10:10; cf. 18:10). O tipo de vidente era caracterizado por percep­ ção calma e intuitiva, julgamento me­ diante reflexão, como Samuel e Moisés. As palavras hebraicas características tra­ duzidas como “vidente” descrevem vi­ dência e audição. Esses homens estavam intuitivamente em contato com a mente e o propósito divinos. No entanto, Samuel podia às vezes mostrar fenômenos caris­ máticos como um profeta extático. Pareceria que, ao tempo em que as nossas tradições foram reduzidas à forma escrita, a palavra profeta havia-se torna­ do um termo descritivo genérico, cobrin­ do todas as variedades de atividades pro117


féticas (cf. I Sam. 9:9). Além do mais, a maior parte das grandes figuras profé­ ticas mostra uma fusão dos dois tipos de psicologia. Há elementos extáticos, em seus sonhos, visões, audições, senso de compulsão e comportamento anormal. Contudo, o aspecto extático encontra-se mais na periferia de sua consciência. No centro da consciência das grandes figuras proféticas encontramos uma percepção intuitiva firmada na mente e no propósi­ to divinos, e o exercício de um juízo moral reflexivo sobre os problemas que se levantam diante deles. Todos eles po­ dem, em certas ocasiões, ser classificados como extáticos, porém, igualmente, to­ dos eles mostram as características de videntes. A característica distintiva do conteúdo de sua mensagem é indicada, não pelo padrão psicológico do seu comportamen­ to, mas pela luta contra os falsos profe­ tas. Eles eram profetas associados com os santuários onde Yahweh era adorado: Betei, Gilgal e o Templo de Jerusalém. Indubitavelmente, muitos desses homens eram seguidores devotos e honestos de Yahweh. No entanto, uma instituição religiosa inevitavelmente dá origem a al­ guma forma de profissionalismo. Levan­ taram-se falsos profetas, que manifesta­ vam o mesmo comportamento psicológi­ co exterior, mas emitiam oráculos deso­ nestos, como, por exemplo, no episódio de Micaías ben Inlá (I Reis 22). Miquéias descreve os profetas mentirosos, no original hebraico, como sacos de ven­ to (2:11). A agonia de espírito de Je­ remias era ainda mais difícil de agüen­ tar, por causa dos espíritos falsos que pregavam “paz” , quando ele estava de­ clarando julgamento e exílio a Judá (23: 15 e ss.; 29:21 e ss.; cf. Miq. 3:5,11). Esses homens imitavam a maneira de os profetas se expressarem. Exteriormente, eles eram idênticos. A sua mensagem precisava ser provada de duas maneiras. O teste extrínseco era a confirmação de seus oráculos nos próprios acontecimen­ 118

tos históricos. Micaías consiste em um bom exemplo (cf. Zac. 1:6). O teste in­ trínseco está na coerência ética da men­ sagem do profeta com a sua vida. Jere­ mias ataca os falsos profetas por causa de sua promessa de paz sem requisitos mo­ rais (22:17). Por que os falsos profetas diziam ter o Espírito de Yahweh, os profetas canô­ nicos antes do exílio enfatizavam que ti­ nham a palavra de Yahweh. Só com Ezequiel, profeta do exílio, volta a ênfase no Espírito. Porém, quer dizendo ter o Espírito quer a palavra, os profetas criam ser mensageiros de Yahweh, ex­ tensões temporárias de sua presença pes­ soal neste mundo, agentes de sua ativi­ dade. Eles consideravam Deus como ro­ deado pelo seu concílio celestial, a sua assembléia de santos, de cujas delibera­ ções eles participavam, e de onde haviam sido enviados, para declarar os decretos divinamente ordenados (Jer. 23:18,22; cf. I Reis 22:19 e ss.). Como mensagei­ ros, eles haviam sido absorvidos tempo­ rariamente na vida do próprio Deus. As suas palavras eram palavras dele, e os seus atos, atos dele. Os seus atos eram importantes. Eles falavam a palavra de Yahweh, mas tam ­ bém colocavam-na em prática. Isaías re­ presenta a escravidão sob os egípcios, andando com roupa de escravo (cap. 20). Jeremias toma um vaso de barro e o arrebenta, para simbolizar o juízo de Deus (cap. 19). Ezequiel abre um buraco na parede de sua casa e tira por ele os seus móveis, retratando o cerco de Jeru­ salém, as brechas em seus muros e o povo indo para o exílio (12:1 e ss.). O profeta cria que desta forma Deus estava inician­ do, em miniatura, a sua intenção a res­ peito do seu povo. O ato iniciava a reali­ zação dos propósitos de Deus. O profeta não era apenas o guardião e porta-voz do oráculo divino, mas tam ­ bém um especialista em oração intercessória. Verificamos este fato no caso de Abraão (Gên. 20:7; Jó 42:8); Moisés (Êx.


32:11-14); Amós 7:2 e ss.); e Jeremias. Em sentido muito real, os profetas eram promessas da encarnação. Eles eram me­ diadores, colocando-se entre Yahweh e o seu povo, desvendando a sua vontade para o povo e intercedendo diante dele como representantes do rebelde Israel. A Lei e o Sacerdócio. Em torno do Decálogo, dado através de Moisés no alto do Sinai, cresceu um considerável código de leis e regras. As leis propriamente ditas eram apresentadas de várias manei­ ras. Elas compreendiam, por um lado, injunções morais e cerimoniais, exempli­ ficadas pelo primeiro livro da lei, o Códi­ go do Pacto (Êx. 20:22-23:33). Lado a lado com estas, encontramos os juízos — leis civis e criminais — administrados pelo rei e pelos juizes locais. Estas leis seculares encontram-se em Êxodo 21:122:7. O primeiro grupo é o cerne da Lei. Ele cristaliza as concepções do movimen­ to profético desde Moisés em diante e também os costumes sacerdotais dos san­ tuários locais. Mas o rei e os juizes também eram estabelecidos por indica­ ção divina. A unção do rei indicava a sua natureza sagrada. Assim, todas as leis eram, em última análise, alicerçadas na vontade de Deus. Assim, cresceu em Israel um código de leis que consistiam de injunções morais, regras cerimoniais, leis civis e juízos cri­ minais. Ele incluía leis que se haviam originado dos costumes sociais, dos de­ cretos de reis e juizes, das práticas litúrgicas e cerimoniais e de injunções morais baseadas em oráculos proféticos. Por fim, todas elas foram incorporadas em nosso Pentateuco, e passaram a consti­ tuir a Lei Judaica. Deuteronômio mani­ festa bem claramente os ensinamentos dos profetas do oitavo século a.C. a res­ peito do juízo divino. Quando a consciên­ cia profética se desvaneceu, depois do exílio, a Lei começou a ocupar o seu lugar. Deus, que havia falado aos pais através dos profetas, agora falava através das injunções de sua “lei” . A Lei foi

aplicada a todos os aspectos da vida do homem, e, quando Nosso Senhor veio, os fariseus e seus mestres, os rabis, eram zelosos em sua mais detalhada aplicação. Nos dias da antiguidade, os sacerdotes se preocupavam especialmente em pre­ servar e declarar as tradições legais. Daí, Arão e seus filhos deviam ensinar a Is­ rael os estatutos divinos (Lev. 10:11). O livro de Deuteronômio declara que os sacerdotes deviam ensinar a Israel a lei deDeus(Deut. 33:10). Jeremias e Oséias associam a lei com o sacerdote (Jer. 18:18; Os. 4:6). Desta forma, os sacerdotes, bem como os profetas, eram tipo da mediação e das promessas do Senhor encarnado. Eles declaravam a vontade de Deus para o povo, da forma como estava incorporada em seus estatutos. Eles representavam o povo diante de Deus no aspecto sacri­ ficial da adoração de Israel.

IV. O Deus Pactuai da Fé de Israel O Modelo Pactuai. O modelo central para a relação de Israel com Yahweh originava-se da revelação divina da ma­ neira hebraica de entender aliança ou pacto. Esta forma de relacionamento, encontrada também entre outros povos do Oriente Próximo, implicava em dedi­ cação e obrigação mútua das pessoas envolvidas. Ela aplicava-se aos rela­ cionamentos entre homens e tribos, e a descrição característica é “cortar” ou “gravar” um pacto. Isto criava uma ir­ mandade artificial entre as partes da aliança, e, desta forma, estendia o paren­ tesco de sangue para fora de seus limi­ tes naturais. Ela expressava um anseio comum, a aceitação de uma vontade e um propósito comuns. Gravar um pacto é de fato fazer “paz” (Ez. 37:26). Um exemplo típico de pacto entre indivíduos é o celebrado entre Davi e Jônatas (I Sam. 18:1 e ss.). Em um pacto, duas 119


“almas” são ligadas intimamente em uma. Jônatas dá até as suas roupas e a sua armadura a Davi, pois elas são ex­ tensões de sua alma. Desta iorma, a alma de Davi é envolvida pela de Jônatas. Quando os celebrantes de um pacto têm o mesmo nível, as obrigações são mútuas. Quando um celebrante é supe­ rior, como no caso de um tratado após uma guerra, este estabelece as obrigações do outro (v.g., I Reis 20:29-34). Esse tipo de pacto indica o caminho para o uso teológico do pacto. A aliança de Yahweh com Israel não é entre duas partes que estejam em pé de igualdade. O homem não pode “pechinchar” com seu Criador. Assim, no Sinai, é Yahweh quem de­ clara, através de Moisés, as suas condi­ ções, expressas no Decálogo. Tudo o que os hebreus podem fazer, sob a sombra de uma grande libertação, é aceitar. Eles não podem estabelecer nenhuma condi­ ção para o seu Libertador. Deus inicia esses relacionamentos pactuais, e só ele estabelece as condições. A relação de Israel para com Deus mostra que a ligação de Yahweh com o seu povo não era naturalista, porém mo­ ral. Ele não era um ancestral naturalista. Ele havia escolhido Israel, e Israel o havia escolhido. O relacionamento entre ambos era moral. Conseqüentemente, o modelo de marido e mulher pode ser usado para descrever o pacto divino (Os. 2; Jer. 3:20), pois o casamento é um rela­ cionamento pactuai, com implicações éti­ cas. O Deus Que Elege. Esta ênfase em escolha é imperativa. Deus havia escolhi­ do Israel, e ele o havia escolhido sem nenhuma obrigatoriedade, a não ser a de seu amor. Daí, era uma escolha voluntá­ ria. Ele havia focalizado o seu amor em Israel (Deut. 10:15). Israel não era um povo grande (Deut. 7:7 e s.), nem foi ele escolhido por causa de sua retidão de coração (Deut. 9:4 e s.). Israel não tinha nada pelo que pudesse reivindicar tal 120

escolha. Yahweh o escolhera voluntaria­ mente dentre todas as nações. O vocabulário desta eleição divina é variegado. Deus “escolhe” Israel (Is. 43: 10; 44:1). Ele “conhece” Israel (Am. 3:2; Os. 5:3), como uma pessoa conhece ou­ tra, especialmente a sua esposa. Ele “compra” Israel (Deut. 32:6; Êx. 15:15 e s.; Sal. 74:2). A eleição remonta a tradições bem antigas, ao tempo de Abraão (Gên. 15:7; 28:13 e s.; Jos. 24:2 e s.). Ela é mais freqüentemente associada pelos profetas com o êxodo do Egito (Am. 2:10; 3:1; Os. 11:1; Ez. 20:5 e ss.; Deut. 32:10). Pelo fato de as duas tradições pertenceíem a grupos históricos diferentes, den­ tre os hebreus, as diferenças são históri­ cas. Para os grupos tribais do Egito, o êxodo se tomou o ponto focal. Para outros grupos, a memória de Yahweh remontava a Abraão e sua chamada de Abraão era mais central. A idéia é que o Deus de Israel é um Deus que elege. A estrutura pactuai da vida de Israel devia-se ao fato de Yahweh tê-lo escolhi­ do voluntariamente como seu povo. O Amor de Yahweh — Amor Que Elege e Amor Leal. A auto-revelação de Yahweh a Israel centraliza-se em seu amor. Aqui estão implicadas duas pala­ vras hebraicas. A primeira é geralmente traduzida como amor, mas tem a conota­ ção de escolha ou eleição. Ela é usada especialmente no livro de Deuteronômio, mas a encontramos também nos profetas (Deut. 7:6 e s.; 10:15; Os. 11:8 e s.; Ez. 16:8). Esta palavra tem a acepção de preferido. O seu antônimo ê “odiar” , que dá a entender não um ódio ativo, mas de “não preferido” . No entanto, essa preferência ou escolha se origina da natureza intrínseca de Yahweh. O amor é a essência de seu ser, embora seja este envolvido em mistério. Yahweh está con­ tinuamente doando-se e procurando a sua amada, uma antecipação da decla­ ração constante do Novo Testamento de que Deus é amor. Conseqüentemente,


temos os modelos, dados por Deus, de pai e filho, e do casamento, que percor­ rem toda a Bíblia (Os. 11:1; Ez. 16). A segunda palavra é traduzida de vá­ rias maneiras: longanimidade, amor ina­ balável, amor leal. As duas últimas acep­ ções são a tradução mais freqüente na RSV. Esta palavra tem a idéia de fideli­ dade ou lealdade e freqüentemente está ligada com palavras traduzidas como “fi­ delidade” (v.g., Deut. 7:9). Ela também está intimamente" ligada com o modelo do.pacto — ela é amor pactuai. No nível humano, as duas partes de um pacto se comprometem a permanecer leais ou fiéis uma a outra. Elas demonstrarão amor inabalável, como Davi e Jônatas. No nível divino, o amor de Deus, no contexto do pacto, tem esta mesma qua­ lidade de firme fidelidade (Is. 54:10; Dan. 9:4). Yahweh não abandonará o seu pacto, e permanecerá fiel ao seu povo (Os. 2:18 e s.). Estaé a base da atividade salvadora de Deus. Embora Israel não consiga observar o pacto, continua sendo seu povo, mesmo em sua rebeldia. E, porque ele é fiel, ele os buscará. O seu amor inabalável, a sua graça, não falha­ rá (Os. 2; Jer. 2:2 e s.; 3:1-4; 31:20). Da parte de Yahweh, o pacto é incondi­ cional. Mais um a vez pressagia-se a reve­ lação neotestamentária de graça divina. Yahweh Ê Justo. No entanto, os ho­ mens do Velho Testamento estavam cer­ tos de que Yahweh é um Deus justo. A palavra justo é baseada em um modelo forense. Ela tom a alguém um juiz justo. Geralmente, esta palavra descreve con­ formidade com um padrão ou norma. As “veredas da justiça” são veredas que se conformam com o caminho reto ou justo, e os “sacrifícios de justiça” são os que se conformam com as regulamentações ri­ tuais (Sal. 23:3; 4:5; 51:19). A palavra justiça é freqüentemente associada com juízo, com a sentença de um juiz. Por isso pode ser chamada de justiça. No nível religioso, um ato justo é aquele que

se conforma com a lei ou a justiça de Deus. Para os hebreus, justiça ou retidão é o padrão que Deus estabeleceu em seu mundo. Ao lidar com o homem, ele per­ manece fiel aos seus próprios estatutos (Deut. 32:4). As suas normas são exara­ das mediante os requisitos éticos dos pro­ fetas, inclusive o Decálogo. Ora, estas normas se originam no ca­ ráter intrínseco de Deus. Em seus juízos, ele permanece fiel a si mesmo. Ele age de acordo com a sua natureza. Ele é fiel a si mesmo, e espera que as suas criaturas sejam fiéis aos requisitos que expressam o mais íntimo de seu ser. Ele não se des­ viará, e requer que elas não o façam (Sof. 3:5). Ê nisto que se baseia o julgamento que ele faz delas. A sua justiça é a quali­ dade dinâmica de seu caráter. Ela é veri­ ficada em seus atos. Exatamente aqui o problema profético foi focalizado. Deus é amor, e exige que o seu povo se conforme com esse amor. Mas Israel é um povo rebelde e obstina­ do. Não obedece. De fato, parece inca­ paz de obedecer. Portanto, está sob o julgamento divino. Não obstante, Deus também é amor. De algum modo, o amor precisa encontrar uma forma de Deus poder ser fiel a si mesmo pelo fato de ser amor e ao mesmo tempo como sendo alguém que exige conformidade com as suas normas. Aqui está a semente da visão neotestamentária da divina graça em Cristo, pois graça é amor satisfazen­ do as suas próprias exigências na pessoa de Nosso Senhor. A Santidade de Deus. Os homens do Velho Testamento sabiam muito bem que, neste ponto, haviam tocado no mis­ tério divino. Justiça e amor se encontra­ vam na personalidade de Deus. Os seus caminhos não eram os caminhos deles nem os seus pensamentos os pensamen­ tos deles (Is. 55:8). Deus era diferente de suas criaturas. Este mistério e a persona­ lidade característica de Deus eram ex­ pressos, algumas vezes, em termos di121


mensionais. Deus habitava a eternidade (Is. 57:15). O seu palácio ficava acima do firmamento (Sal. 104:2,3). O modelo di­ mensional é também igualado pela pala­ vra santidade. Deus é o Santo no decor­ rer de todo o livro de Isaías. A palavra “santo” descreve a natureza íntima de Deus. Outras pessoas e objetos são san­ tos tão-somente porque são apropria­ dos, e dedicados ao serviço de Deus, e usados por ele — o sábado, o primogê­ nito, o sacerdote, o santuário, e até Israel e os céus. “Santidade” , assim sendo, expressa a personalidade e transcendência misterio­ sas de Deus. Coloca Deus em uma cate­ goria exclusiva e desvenda o abismo que há entre Deus e o homem. Deus é Espí­ rito, e o homem é carne (Is. 31:3). Deus se reveste de mistério, velando a sua gló­ ria na nuvem, como na visão inaugural de Isaías. Diante de tal desvendamento de transcendência moral, o homem cai, ferido pela visão, e confessa a sua fraque­ za de criatura e debilidade moral (Is. 6:5; Ez. 1:28). Desta forma, a santidade de Deus, nos grandes profetas, tem um con­ teúdo moral. Ela descreve a peculiarida­ de e personalidade do amor e justiça divinos. Por causa desta transcendência moral, Deus tem maneiras de agir, para com o seu povo, por meio de que os seus requi­ sitos ainda serão cumpridos e o seu amor triunfará. Eles ainda serão o seu povo.

V. O Povo do Deus Vivo A Estrutura Pactuai da Vida de Israel. O modelo pactuai de relacionamento para com Yahweh caracteriza a vida do povo hebreu. A idéia de aliança está cen­ tralizada no relacionamento pactuai do Sinai, estabelecida através da consciên­ cia profética de Moisés. Para essa idéia os profetas pré-exílicos voltam-se fre­ qüentemente, como norma para se en­ tender Yahweh e seus propósitos (Am. 3:2; Os. 2:15; 11:1; Jer. 31:30). Este pacto foi renovado na formação da liga 122

tribal em Siquém (Jos. 24). Da parte de Yahweh, ele era incondicional. Ele per­ manecia firme nele. Da parte de Israel, era condicionado pela obediência de Is­ rael. Se o povo recuasse dele e transgre­ disse o pacto, este ato seria considerado como traição e rebelião, mas ele conti­ nuaria sendo ainda o povo de Deus (Os. 8:1; Is. 1:2,4; Jer. 3:20). Dentro desta estrutura pactuai do Si­ nai, outros pactos foram estabelecidos. As condições morais do Sinai foram pre­ enchidas, no pacto de tradição, que re­ monta a Abraão, pela fé de Abraão (Gên. 15:6,18). Mais uma vez ele é obri­ gatório da parte de Yahweh, com uma promessa incondicional. A descendência ou semente de Abraão se tom ará uma grande nação, e através dela todas as nações da terra invocarão a bênção (Gên. 12:2 e s.; 18:18; 22:17 e s.). Esta pro­ messa divina, Israel jamais poderia es­ quecer. Mais uma vez, dentro deste pacto, havia o pacto real incondicional com Davi e seus descendentes (II Sam. 7:1316; 23:1-39; Sal. 89:35 e ss.; 132:17 e s.). Deus havia escolhido a linhagem davídica e, embora ela tivesse fracassado em muito, ele iria estabelecer o seu Rei davídico sobre o trono. O rei era uma pessoa sagrada. Ele representava tanto Deus quanto o povo. A sua justiça, a sua rela­ ção reta com Deus, garantia a justiça de seu povo. Se ele fosse injusto, o povo seria injusto (Sal. 72). Associado com este tema de realeza, muitos eruditos sugerem que havia um festival anual de ano-novo, para a renovação do pacto, em que o rei desempenhava um papel im­ portante. Muitos salmos confirmam esta teoria. A Natureza do Pecado. O tema dos grandes profetas era que Israel agira trai­ çoeiramente para com Yahweh e quebra­ ra continuamente o pacto. Por que o pac­ to era com a nação, os profetas estavam mais preocupados com o pecado coletivo do que com o pecado individual, antes do


exílio. As palavras mais características, por meio de que eles descreviam a obs­ tinação de Israel, são traduzidas, geral­ mente, como pecado e transgressão. A primeira palavra ocorre freqüentemente e significa fundamentalmente um desvio dos padrões éticos estabelecidos pelas exigências de Yahweh no pacto (Deut. 19:15; Êx. 32:32,34; Lev. 4:3). Desta forma, ela se refere menos ao aspecto interior da pecaminosidade do que ao comportamento externo. A relação com Deus está condicionada à obediência, e isto é manifesto nos atos do homem. Israel havia-se desviado do caminho cer­ to. Esse “pecado” podia ser não intencio­ nal; um comportamento errado não se origina, necessariamente, de motivações erradas. O “pecado” se aplica a atos, e é usado freqüentemente no plural. A outra palavra importante ocorre fre­ qüentemente em forma verbal. Muitas vezes traduzida como transgressão e transgredir, ela é mais bem traduzida como rebelião e rebelar-se (Am. 4:4; Os. 14:9; Is. 1:2,28; 43:27; 44:22; 50:1; 53:5, 8; Jer. 2:29). Aqui fomos além das esti­ pulações, e chegamos a atitudes pessoais. O pecado toma-se rebelião contra Deus, uma arrogante oposição da vontade, de todo o homem, contra as graciosas rei­ vindicações de Yahweh. Ele se relaciona com o espírito interior. Desta forma, Is­ rael tem “o espírito de prostituição” (Os. 4:12; 5:4). A análise mais profunda de pecado se acha na história do Jardim do Éden (Gên. 3). Nela, o homem se levanta como figura representativa de toda a humani­ dade. A sugestão da mulher a ele, “ Serás como Deus” , é a chave. O homem é tentado a tomar em suas próprias mãos a sua vida e os poderes dela. Parcialmente, devido ao orgulho que há em si mesmo, parcialmente por medo de que Deus não dirija as coisas tão bem quanto ele, su­ cumbe à arrogância pecaminosa. As se­ qüelas da rebeldia do homem são tam ­ bém significativas. De maneira simbó­

lica, é pintado um quadro dos terríveis resultados da motivação rebelde do ho­ mem. Ele se vê de volta ao deserto, do qual Deus o chamara, com sua falta de significado, frustração e separação de Deus. O homem não pode nem voltar àquela comunhão com Deus que a vida no jardim simboliza. O portão fechado e o anjo com a espada flamejante se inter­ põem em seu caminho. Julgamento e Arrependimento. Salva­ ção e graça são exibidas, no contexto da história hebraica, à luz de um pano de fundo de julgamento. A História propi­ cia a arena em que Yahweh está pondo em prática a sua intenção e levando à consumação o seu relacionamento pac­ tuai. No entanto, a História foi também a cena da rebeldia de Israel. A traição ao pacto devia, inevitavelmente, acarretar conseqüências terríveis. Os grandes pro­ fetas sabiam muito bem quais eram os elementos do julgamento na História. Nós os encontramos também nas obras históricas deuteronômicas (Deut., Jos., Juí., I e II Reis), que foram especial­ mente influenciadas por preceitos pro­ féticos. Por detrás do julgamento encon­ tra-se a ira divina (Deut. 1:34; 9:18 e s.). A Assíria é a vara da ira de Deus (Is. 10:5 e s.). Deus entrega o seu povo nas mãos da Babilônia, em sua ira (Is. 47:6). Nessa atitude divina de rejeição, Deus entrega os homens às forças da natureza e da História (Sal. 21:9; 89:38; 90:11). Essa ira se dirigia especialmente contra o povo do pacto, mas também funcionava con­ tra as nações estrangeiras, especialmente as usadas como instrumentos do julga­ mento contra Israel (Is. 10:5-19). O juízo divino de Israel era efetuado através de forças históricas, como As­ síria ou Babilônia, ou através de forças naturais, como fome, seca, locustas, pes­ tilência (cf. Am. 4:6-11). No pensamento prê-exílico, a ênfase principal era coleti­ va — a nação (Am. 9:1-4) e a família (Os. 1:4; Êx. 34:7). Contudo, havia tam ­ bém a ênfase individual, embora mesmo 123


aí a família também fosse incluída, como no caso de Amazias (Am. 7:17). Com o exílio, e depois dele, a ênfase mudou do grupo para o indivíduo. O provérbio popular: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram” foi atacado tanto por Ezequiel (cap. 18) como por Jeremias (31:29,30). Cada ho­ mem deverá morrer devido à sua própria iniqüidade. Esta ênfase individual tem eco em Deuteronômio 24:7. Não obstan­ te, mesmo assim os inocentes são incluí­ dos com os culpados, e o aspecto coletivo permanece. A injustiça de um governan­ te pode acarretar desastre para o seu povo. O elemento de ira e juízo permane­ ce, como um aspecto permanente do tes­ temunho bíblico. No entanto, este juízo tinha um alvo evangelístico. O juízo tinha o interesse de levar Israel ao arrependimento. A palavra arrependimento tinha uma cono­ tação ativa. Ela não significava meros sentimentos, mas uma mudança ativa da vontade. Arrependimento significava uma volta a Yahweh, em obediência ativa aos requisitos de seus pacto (I Reis 8:45-50). Era um ato da vontade, e in­ cluía uma confissão do pecado, um ato de submissão penitente, um afastamento da idolatria (Os. 14:2,3). Nessa base, o homem podia apelar para o perdão di­ vino (Sal. 51:1,17). A última palavra de Deus é misericórdia, e assim encontra­ mos os profetas insistindo com Israel (Am. 5:14; Os. 10:12; Is. 30:18). Perdão e Salvação. As três palavras hebraicas que significam perdão são tra­ duzidas de diferentes maneiras, mas geralmente têm o sentido de perdão, com a conseqüente remoção da culpa (Êx. 34:9; II Crôn. 30:18). Tal perdão divino é alicerçado na magnanimidade divina (Is. 55:7-9), porém as condições morais precisam ser satisfeitas. Israel precisa buscar o perdão ardentemente. Uma vez que ele se tenha arrependido verdadeira­ mente e o seu coração tenha sido reno­ vado, o perdão de Deus é certo (Jer. 124

31:34). Perdão sempre significa restau­ ração ao relacionamento do pacto com Yahweh. A palavra salvação, no Velho Testa­ mento, parefce ter pouco a ver com peca­ do, e, desta forma, não tem uma cono­ tação espiritual. Contudo, precisamos lembrar a íntima relação entre as coisas exteriores e interiores no pensamento hebraico. A natureza psicossomática do homem significava que a retidão interior com Deus tinha as correspondências ex­ teriores de saúde e prosperidade — cren­ ça que mais tarde levantou verdadeiros problemas para homens como o autor de Jó! Desta forma também acontecia com a nação. Retidão para com Deus signifi­ cava prosperidade nacional e paz. Conseqüentemente, salvação dos inimi­ gos externos podia também significar salvação no nível espiritual — uma res­ tauração ao relacionamento pactuai. Neste sentido, algumas passagens falam de Yahweh salvando Israel das mãos de nações estrangeiras (Êx. 14:30 e s.; I Sam. 10:18). Todos os salvadores terrestres, tais como os reis e juizes, são eficientes tãosomente porque recebem seu poder de Yahweh. Eles triunfam apenas na sal­ vação dele (Sal. 20:5,6). Tal salvação, quando se trata da mãó de Deus, signi­ fica paz, palavra pactuai característica que implica em saúde, perfeição, pros­ peridade. Todavia, o aspecto interno e espiritual da salvação é desvendado nos Salmos. Ali a ênfase recai não tanto nas bênçãos materiais, como na comunhão espiritual com Deus (Sal. 69:1,3; 31:1, 2.5). O indivíduo salvo conhece a alegria da presença de Deus em sua vida. Além da palavra salvação, temos as duas palavras que dão a idéia de salva­ ção. Uma palavra, na verdade, é mais bem traduzida como “resgatar” , embora seja costumeiramente traduzida como “redimir” . Intimamente ligada com ela está o substantivo resgate. A ênfase no


resgate pago encontra-se em Isaías 43:3. Israel havia sido resgatado e Yahweh havia pago o resgate. Mais freqüente­ mente, contudo, o pensamento de um preço de resgate desaparece (Deut. 9:26). Aqui também há uma progressão da nação como um todo para o indivíduo; v.g., Sal. 34:22; 49:15. Uma vez mais é o aspecto exterior que é enfatizado. Só em Salmos 130:8 a re­ denção é especificamente relacionada com iniqüidade e pecado. Outras passa­ gens enfatizam a libertação de calami­ dades externas; não obstante, essa liber­ tação é sinal de perdão e restauração ao relacionamento pactuai. A outra palavra traduzida com reden­ ção é muito mais importante teologica­ mente. Ela dá a idéia do parente vinga­ dor, pessoa que fazia o papel de parente e cumpria as obrigações de parente. Ele redime a sua parentela da escravidão (Lev. 25:48 e s.). Boaz, desempenhando um papel semelhante, redime a terra e salva a família de Rute da extinção (Rute 4:1-11). O próprio Yahweh é o parente remidor do infeliz Jó, mesmo depois da morte deste (Jó 19:25). Isaías usa fre­ qüentemente esta palavra em relação a Yahweh (v.g., Is. 44:6,22,24; 52:3). Aqui temos a promessa da encarnação, uma identificação de Deus com o homem, em que Deus desempenha o papel de parente e ele mesmo cumpre as obri­ gações disso decorrentes. A Esperança Escatológica. Israel per­ manecera obstinado e impenitente (Os. 4:16; cf. Jer. 13:23). O Festival de Reno­ vação do Pacto devia ser realizado em todo outono, mas o ritual exterior não significava nenhum arrependimento in­ terior. De fato, ele bem podia dar a idéia de que tudo ia bem. Eles ainda eram o povo de Deus, e ele se havia obrigado a cuidar deles! Os profetas enfatizam esta idéia. Jeremias adverte contra uma falsa confiança no Templo como sinal da pre­ sença de Yahweh entre o seu povo (7: 26). Amós fala dos que esperavam um

futuro glorioso a despeito de seus desvios morais. O Dia de Yahweh era uma caracterís­ tica central da esperança profética. Este era aquele tempo futuro que estaria cheio do reinado de Yahweh, o dia de seu triunfo. Esta esperança se alicerçava na promessa feita a Abraão. O fracasso do Dia da Renovação do Pacto uma vez por ano também pode ter fixado os olhos dos homens em um Dia futuro, quando o pacto seria de fato renovado, e cumpri­ do o propósito de Yahweh. No pensa­ mento popular, ele parece ter sido pin­ tado, antes do exílio, como um tempo de glória para Israel. No entanto, os pro­ fetas pré-exílicos, de Amós em diante, o consideravam primordialmente como um dia de juízo e purificação (Am. 5:18; Os. 5:9; Miq. 2:4; Is. 2:12,17; 7:18 e ss.; 10:3; 13:9-11,13; Sof. 1:7,8,14 e s.; Jer. 25:33). Eles eram, em certo sentido, profetas do desastre. Depois do exílio, a ênfase mudou. Ezequiel, DeuteroIsaías, Joel e os outros consideram o Dia de Yahweh como de salvação e restau­ ração para o seu povo, embora o tema de juízo ainda permaneça. A diferença entre escatologia préexílica e pós-exílica é mais do que apenas de ênfase. No período pré-exílico, o Dia de Yahweh seria iniciado por forças his­ tóricas, como Assíria e Babilônia. Acon­ tecimentos naturais incomuns podem acompanhar esses conquistadores, mas a cena histórica propicia o veículo do ato final de Deus e a consumação tem lugar nesta terra. Contudo, do exílio em di­ ante, os intermediários humanos dão lugar a uma intervenção divina direta (v. g., Zac. 14), a transcendência de Deus é enfatizada, convulsões anormais da natureza acompanham o ato, e o movi­ mento é na direção de uma ordem dife­ rente da que existe neste mundo, como consumação final. A escatologia pós-exí­ lica vai-se tornando apocalíptica, embora Daniel seja o único representante verda­ deiro deste tipo de pensamento. Nos 125


Evangelhos, tanto a ênfase histórica da escatologia pré-exílica quanto a ênfase supra-histórica da escatologia pós-exílica são reunidas na pessoa de Nosso Senhor. O Dia de Yahweh manifesta o início de um padrão, vários fragmentos do qual foram apreendidos e enfatizados por alguns profetas individualmente. Ne­ nhum deles, todavia, alinhavou esses diversos elementos, fazendo deles um padrão integrado, nem apreendeu o pleno significado do que estava dizendo. Não obstante, a sua esperança e a sua promessa apontavam para aquele ato cristológico em que Deus agiu em seu Filho para libertar o homem e restabe­ lecer um povo de Deus: a Igreja. Um elemento do padrão é o remanascente que sobreviverá à purificação e julgamento de Israel (Is. 1:25 e s.; 4:2-4; 10:20-22; Sof. 2:3; Joel 2:32; Am. 9:8-10; Miq. 4:4-7; Mal. 3:16-18; 4:2). Sobre o “povo de Deus” restaurado, Yahweh estabelecerá como rei o seu Messias, o Ungido da linhagem davídica (Jer. 23:5,6; Sal. 2:6-9; 110). Possuindo uma medida especial do Espírito de Yahweh, o Ungido é um rei humano, cuja justiça vai garantir a justiça de seu povo. (Is. 9:6,7; 11:1-5). Ele não é re­ tratado como homem de guerra. Pelo contrário, é Yahweh que o estabelecerá em seu trono (Sal. 2:6). Ele reina pela força de Yahweh (Miq. 5:2-4). O reinado do Messias será mundial (Miq. 5:4; Zac. 9:9 e s.). Aqui, a atitude para com as outras nações varia. Al­ gumas vezes temos um nacionalismo exclusivo e inflexível. Ester é o exemplo supremo. Era uma promessa de judaís­ mo futuro. Em outras ocasiões, temos um espírito missionário manifesto em vários graus de intensidade. Jonas dá um bom exemplo deste aspecto, mas este é expresso em grau inferior em passagens como Malaquias 1:11 e Isaías 19:18-25. Pessoas de todas as nações clamarão ao nome de Yahweh. A Assíria e o Egito 126

compartilharão com Israel das bênçãos dessa época futura. O tema missionário e evangelístico é focalizado na figura do Servo Sofredor (Is. 42:1-4; 49:1-6; 50:4-9; 52:13-53:12). Aqui, também temos um tema escatológico. A identificação do Servo varia entre os eruditos. É ele uma figura coletiva, representando Israel, ou é individual? Se a última hipótese é a verdadeira, é ele alguma figura profética, trazida de volta à vida, como Moisés, por exemplo, ou é ela messiânica? A melhor solução parece apegar-se ao reconhecimento de que uma figura individual como a de um rei pode, não obstante, ser também coletiva, visto que, em sentido bem real, a nação do remanescente remido é corporificada nele. Se assim é, o Servo, que aparece em alguns poemas como indivíduo e em outros como Israel, na verdade, pode ser uma figura messiânica, agindo em lugar do remanescente e com ele. Temos aí a visão messiânica mais sublime do Velho Testamento — alguém que redime atra­ vés de seus sofrimentos e traz a nação para perto de si através da oferta de si mesmo pela culpa, feita a Yahweh. A visão de Isaías 52:13-58:12 é plena de significado evangélico. Ela é o evangelho em promessa antes de se ter tomado verdadeira em Nosso Senhor. Se, através de seu sofrimento, o Servo constitui o remanescente, outros profetas propiciam outros aspectos da dimensão redentora do “Dia” . Ezequiel vê Deus recriando o homem de dentro para fora, dando-lhe um coração novo e um espírito reto, fazendo com que ele se torne o seu povo (11:19; 18:31; 36:26). Jeremias vê Yahweh fazendo um novo pacto com o seu povo, que será interior e individual (31:31-34). Ezequiel capta a visão do vale dos ossos secos, em que um Israel morto é ressuscitado pelo Espírito de Deus (37:1-14). Assim, a promessa de um novo Espírito dentro do homem, um novo pacto e um rompimento criativo do Es­ pírito Santo apontam para o futuro,


para a “plenitude do tempo” . Esta nova situação será, contudo, individual. O povo de Deus ressuscitará com base no tratamento de Deus para com cada indi­ víduo, e não para com a nação como um todo.

VI. O Deus Vivo e o Homem Individualmente Á Imagem de Deus. A ênfase no indi­ víduo, sem dúvida, nunca esteve ausente. Porém é significativo que a compreensão mais profunda da natureza humana aconteceu com o exílio, quando Jeremias e Ezequiel enfatizaram a responsabili­ dade individual. A este período pertence a versão final de Gênesis 1:26 e ss., com a sua descrição do homem na imagem di­ vina. As duas palavras — imagem e seme­ lhança — são tentativas de salvaguardar contra qualquer idéia de réplica exata, sendo que a segunda qualifica a primei­ ra, neste ponto. Para os hebreus, o ho­ mem era um todo psicossomático, e, como tal, é a imagem de Deus. Não no sentido de uma divindade em miniatura, mas no de ser capaz de comunhão com Deus. A história anterior de Gênesis 2 expressa a mesma idéia. Yahweh anda com o homem no jardim. O homem tem a capacidade de manter um relaciona­ mento responsável com Deus. Sobre­ tudo, ele mostra a sua imagem divina ao viver responsavelmente diante de seus semelhantes. O homem e a mulher são feitos conjuntamente à imagem de Deus, tipo de todas as relações sociais. O ho­ mem é social e moralmente responsável. Finalmente, a imagem divina do homem é vista em sua autoridade sobre o seu mundo. Ele tem capacidade para a ciên­ cia e para a tecnologia, para moldar e controlar a criação de Deus. Juntamente com esta referência solitá­ ria ao homem na imagem divina, preci­ samos colocar a compreensão crescente do lugar do espírito. À época do exílio, espírito já não era mais apenas uma

descrição do Espírito de Yahweh, invasivo e inspirador. O homem também tinha um “espírito” como posse perma­ nente. Ele servia à mesma função que o coração, na psicologia hebraica. Com ele, a vontade e o intelecto se associavam — todas as mais elevadas qualidades espirituais do homem tinham sua sede em seu espírito (Jó 32:8; Is. 26:9). Assim, existe no homem, algo que lhe propicia uma espécie de parentesco com Deus, que é Espírito. Sobrevivência Humana. Uma vez que a ênfase no indivíduo se tornou central, o problema da vida além da morte tam­ bém se tornou central. Enquanto se pensava que Deus se relacionava com o indivíduo através do grupo, uma pessoa podia pensar que iria sobreviver à morte na vida de seus descendentes. Eles eram extensões de sua pessoa, através do tem­ po. Assim, ele queria ter quantos filhos possível fosse, e, para si mesmo, uma vida que durasse setenta anos (Jó 5:25; II Sam. 14:7). Quanto a si mesmo, cercado pelo nas­ cimento e pela morte, o israelita pensava em sua vida na terra como sua verda­ deira existência. Além da morte, ele ain­ da tinha um grau um tanto vago de existência no Seol. Essa caverna subter­ rânea era o todo que abrangia todas as sepulturas familiares. Para ele, os ho­ mens iam como “sombras” , como “en­ fraquecidos” , como “almas” esvaziadas de sua vitalidade e capacidade de verda­ deira vida. Ali cessavam todas as distin­ ções morais e sociais (Jó 3:17 e ss.; cf. Ez. 32:18-32). Os mortos nada sabem (Ecl. 9:4 e ss.). Não pode haver adora­ ção a Deus no Seol (Sal. 6:5). O amor pactuai de Deus não opera ali (Sal. 88: 10-12). O sepulcro é o vestíbulo do Seol, terra de trevas, corrupção e dos vermes (Jó 10:21 e s.; 17:14 e ss.). A vida real termina com a morte, e o Seol é quase uma não-existência. Porém, uma vez que a ênfase no indi­ víduo se tornou central, dois problemas 127


surgiram: sofrimento imerecido e sobre­ vivência individual. A pessoa não podia mais culpar os pecados de seus pais pelos seus sofrimentos (Ez. 18); e também não podia pensar em sobrevivência na pessoa de seus filhos. Jó trata de ambos os pro­ blemas. O sofrimento imerecido do justo Jó é enfrentado com três respostas. Os seus amigos ortodoxos dizem que o seu sofrimento era necessário porque ele pecou. Ele sabe que isso não é verdade. No fim, Jó enfrenta a terrível majestade e o mistério de Deus, e encontra consolo em sua crença de que Deus entende (42:1-6). Esta é a segunda resposta. O sofrimento precisa ser deixado nas mãos de Deus, que deve ter um significado para ele. Assim, vem a terceira resposta, oculta de Jó, e contida no prólogo. Ele precisava sofrer para provar que a sua fé não dependia da prosperidade exterior. Jó mostra, nesse drama, que amava a Deus por amor ao próprio Deus. Ligado à segunda resposta, encontrase o primeiro vislumbre de sobrevivência pessoal. Jó morrerá e irá para o Seol, mas no fim Deus se lembrará dele. Yahweh chamará Jó do túmulo e, fora de sua pele, ele verá Deus e será vindicado (14:13-15; 19:25-27). Esta vaga expres­ são de esperança ganhou conteúdo no desvendamento divino. Visto que o ho­ mem é um todo psicossomático, esta esperança não é a imortalidade da alma grega, mas ressurreição do todo pessoal. Encontramos esta expressão, depois do exílio, em Isaías 25:6-8; 26:19 e Daniel 12:2. Em dois Salmos encontra-se a chave. O homem sobrevive à morte por­ que está em comunhão com Deus aqui e agora (49:15; 73:23 e ss.). Assim, o cami­ nho estava preparado para a fé do Novo Testamento. Soava para o hebreu piedo­ so o clamor da esperança quando se dava significado individual a esta idéia.

VII. Deus, o Criador O interesse dos hebreus em Yahweh como Salvador de Israel continha impli­ 128

cações a respeito da origem do homem e de seu mundo. Por ocasião do êxodo, Yahweh havia criado Israel como nação. Efe havia demonstrado que era o Reden­ tor de Israel, através das vicissitudes de sua história. Deutero-Isaías, retratando a volta de Israel do exílio babilónico, considera Yahweh nivelando e transfor­ mando o deserto, para que o seu povo possa voltar em segurança (Is. 42:14 e ss.; 55:10 e ss.). Este profeta combina o modelo do Criador com o do Redentor, em sua descrição de Yahweh (Is. 43:1, 14 e ss.). A lógica implícita do desven­ damento divino pareceria ser que ele que pode refazer a natureza deve ter dado origem a ela. Já antes do exílio fora preparado o caminho para esta fé, mediante a mol­ dagem da tradição de Israel, represen­ tada pelas sagas da criação de Gênesis l:l-2:4a e 2:4b-25. Embora tivessem sido influenciadas grandemente pelas his­ tórias da criação dos povos circunvizi­ nhos, as sagas hebraicas são cheias de conteúdo revelador do desvendamento divino a Israel. A ênfase teística subs­ titui toda associação naturalista. Toda a estrutura das idéias acerca da criação tem sido historiada e exalçada na ex­ periência histórica de Israel com o Deus vivo. A criação de Israel pela mão de Yahweh no m ar dos juncos tomourse a base histórica. Aqui, ele age no meio do caos, para produzir o seu povo, da mes­ ma forma como inicialmente dera forma ao abismo caótico e ao vazio sem forma, para produzir o seu mundo bem orde­ nado (Is. 51:9 es.). A história da criação, em Gênesis 1, pertence à tradição P ou de Jerusalém, e recebeu a sua forma presente mais ou menos no mesmo período em que Deutero-Isaías desempenhou o seu minis­ tério. Tanto a história quanto o profeta usam uma palavra que é traduzida como “criar” . Diferentemente das palavras traduzidas como “fez” e “formou” (RSV), este verbo é usado somente tendo Deus como sujeito. Ele nunca é qualifi-


cado pela referência a qualquer material preexistente, do qual essa entidade ti­ vesse sido criada. Implícita, mas não explícita, está a fé em Deus como Cria­ dor absoluto. A criação é inicialmente “do nada” . Gênesis 1:1 pinta um quadro de Deus moldando o caos: este tema da luta de Yahweh com o abismo sem forma é um elemento constante no pensamento veterotestamentário. Mas quando levado a este ponto, a mente hebraica teria confessado que até o caos existia pela vontade de Deus. Álém do mais, criação do mundo e do homem é um ato da vontade de Deus, a sua presença ativa no cosmos em desen­ volvimento. Deus fala e o mundo se toma. Da mesma forma como a palavra pronunciada é um a extensão da perso­ nalidade do orador, a palavra de Deus é Deus se estendendo em um ato criativo, a sua imanência em sua ordem criativa — por isso João 1 está alicerçado no pensa­ mento do Velho Testamento. Seme­ lhantemente, o Espírito de Yahweh paira sobre o abismo caótico (Gên. 1:2). A transcendência de Deus é, desta forma, igualada pela sua imanência. Ele se en­ volve com a sua criação. A imanência de Deus é a razão da preocupação hebraica com a dimensão vertical de profundidade e de altura, mais do que com dimensão horizontal de causa física, que preocupa a ciência mo­ derna. No mesmo ponto em que o cien­ tista contemporâneo procura as rela­ ções causais ou observáveis entre as enti­ dades do mundo, os hebreus se preo­ cupavam com a relação dessas entidades com Yahweh (cf. Os. 2:21 e s.). Todas as coisas, inclusive o homem e os seus “tem­ pos” , se apoiavam diretamente em Deus. Até um milagre ou um “prodígio” não era uma interrupção ou quebra das leis fixas de Deus, um “rompimento” divino, mas uma manifestação especial da pre­ sença graciosa de Deus, que ao mesmo tempo estava em toda parte, ordenando o mundo de Yahweh. Um prodígio podia

ser normal ou anormal, a formação de um embrião (Sal. 139:14), uma tempes­ tade trovejante ou um acontecimento extraordinário (Gên. 18:14). Os hebreus não reconheciam a aguda divisão entre as coisas naturais e sobrenaturais, que levantou tantas interrogações em nossa época. Paia Leitura Adicional EICHRODT, W. Theology of the Old Testament. Vols. I e IL Philadel­ phia: Westminster Press, 1961, 1967. JACOB, E. F. Theology of the Old Testa­ ment. Trad, para o inglês por A. W. HEATHCOTE e P. J. ALLCOCK. New York: Harper & Brothers, 1958. KOHLER, L. Old Testament Theology. Trad, para o inglês por A. S. TODD. Philadelphia: Westminster Press, 1957. ROBINSON, H. W. Inspiration and Re­ velation in the Old Testament. Oxford: Clarendon Press, 1946. ________ Religious Ideas of the Old Testament. London: Gerald Duck­ worth & Co., Ltd., 1956. RUST, E. C. Salvation History. Rich­ mond: John Knox Press, 1963.

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Abordagens Contemporâneas no Estudo do Velho Testamento John I. Durham O estudo do Velho Testamento hoje em dia é vigoroso e extensivo, em termos de abordagem. O erudito contemporâ­ neo precisa reconhecer que tem uma dívida de gratidão para com os eruditos que trabalharam antes dele, e que ele faz parte de um processo contínuo de pes­ quisas e testes que se fazem com essas pesquisas. Mas ele deve também reco­ nhecer, como os que viveram antes dele o fizeram, que a palavra que ele der não será final; o estudo bíblico, acima de tudo, convence o estudioso da qualidade vivente da palavra do Deus que continua a falar. O objetivo deste artigo é descrever em breves palavras os caminhos básicos de abordagem que há no estudo contem-« porâneo do Velho Testamento. Devido às limitações de espaço, pouco pode ser dito a respeito da história dessas abordagens. Pela mesma razão, precisam ser omitidos os detalhes da pesquisa bíblica realizada para o uso dessas abordagens. Nas pági­ nas que se seguem, os problemas, méto­ dos e recursos fundamentais do estudo atual do Velho Testamento são enume­ rados e tratados, resumidamente, em três categorias básicas: ( 1) o texto do Velho Testamento como o temos; (2) como esse texto veio a existir; e (3) aspectos do significado do texto.

I. Abordagem do Texto do Velho Testamento O Velho Testamento é um livro e, ao mesmo tempo, uma biblioteca. Ele é de grande importância para três das maio­ res religiões do mundo. Contudo, não se tem conhecimento da existência de có­ pias originais dele, e há muitas e dife-

rentes versões de seu texto. Além disso, ele foi composto durante um longo pe­ ríodo de tempo, em uma língua que, embora outrora tivesse sido viva, cessou de ser uma língua viva há muito tempo. Portanto, é apropriado que o estudo de um livro assim comece com o próprio texto, e depois passe a uma compreensão do que o texto diz, palavra por palavra. 1. Crítica Textual do Velho Testamento A crítica textual ou crítica baixa pro­ cura fazer a reconstrução a mais exata possível do texto, com atenção à sua forma mais primitiva conhecida, e à his­ tória de sua transmissão dos tempos pri­ mitivos até o presente. O seu objetivo é abordar tão de perto quanto possível a forma mais pura e mais original do texto do Velho Testamento. Com exceção de pouco mais de nove capítulos , 1 este texto foi escrito em he­ braico. Através da gama dos 39 livros, que constituem o Velho Testamento, o estilo e qualidade da língua hebraica variam consideravelmente, fato que di­ ficilmente é surpreendente, se levarmos em conta que o Velho Testamento é a criação de muitas mentes inspiradas, no decorrer de um período que chega a ser de mil e duzentos a mil e quinhentos anos. O estado de preservação deste texto hebraico também varia consideravel­ mente de livro para livro, e algumas vezes de texto para texto, dentro de um mesmo livro. A tarefa do especialista textual é tão complicada quanto possibilitada 1 Esdras 4:8-6:18; 7:12-26; D aniel 2:4-7:28; Jeremias 10: 11 e palavras ocasionais estão no aram aico.

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pela herança afortunada de uma varie­ dade de tradições do texto hebraico do Velho Testamento, tanto como um todo quanto como em suas várias partes. Ele precisa procurar chegar à melhor apro­ ximação do Velho Testamento da ma­ neira como ele foi originalmente compi­ lado, e o faz mediante uma análise mi­ nuciosa e exaustiva de todas as versões disponíveis; antes de tudo, as versões hebraicas, e depois outras versões antigas que são traduções do original hebraico nessas línguas, como o grego, o aramaico, o siríaco ou o latim. Na busca de um texto puro, o espe­ cialista se defronta com omissões, erros dos escribas e outras corrupções que se insinuam no texto bíblico durante o longo processo da transmissão. Visto que as palavras do texto hebraico eram origi­ nalmente escritas sem vogais e sem pon­ tuação, alguns manuscritos preservam a adição de pontos vocálicos errados e uma divisão imprópria de palavras e até de sentenças. Em alguns casos, letras e pa­ lavras foram omitidas; em outros, foram acrescentadas. A tarefa do especialista nos estudos textuais é tomar nota de todos esses erros e omissões, e reconstruir o texto hebraico como deve ter sido originalmente, com base em uma análise comparativa de to­ das as evidências textuais disponíveis, tão exatamente quanto possível. Em alguns casos, os críticos textuais têm sido inca­ pazes de fazer uma só reconstrução que seja plenamente satisfatória. Nesses casos, pode ser que se apresente ao leitor uma alternativa .2 É claro, pelo que tem sido dito acima, que o estudo do texto do Velho Testamen­ to precisa ser um estudo contínuo. Isto é exigido não apenas pelo surgimento de novas evidências, mas também pela necessidade de um reexame periódico das evidências antigas. A pesquisa tex­ tual só pode terminar quando um texto 2 Note-se, por exemplo, o texto da RSV em Gên. 4:8, Deut. 28:2 2 ,1 Sam. 3:13 e Sal. 74:11.

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original é descoberto e então estabele­ cido como tal, e isto ainda não aconteceu na história do texto bíblico. Da mesma forma, esta abordagem do estudo contemporâneo do Velho Testa­ mento também não é tal que não ofereça um desafio contínuo. A coleção de rolos e de fragmentos de rolos da região do Mar Morto, que se torna cada vez maior, e a expansão de recursos materiais para a análise textual na era dos computadores oferecem ao erudito textual um campo mais amplo do que nunca. A Privilegierte Würtenbergische Bibelanstalt continua a fazer as necessárias revisões na edição crítica padrão do Velho Testamento hebraico, levando avante a obra de R. Kittel e seu capaz sucessor, o falecido Paul Kahle. O Projeto da Bíblia da Uni­ versidade Hebraica tem estado em ope­ ração há doze anos, e agora publicou o seu primeiro exemplar de uma edição nova e muito necessária do Velho Testa­ mento hebraico .3 O fato de que esta publicação apresenta nada menos do que oito páginas impressas de notas acerca de quatro capítulos do livro de Isaías é um claro testemunho da intensidade do estu­ do textual do Velho Testamento nos dias hodiernos. Finalmente, deve notar-se que o texto do Velho Testamento é notavelmente bem preservado, considerando-se a dura­ ção de sua história e as circunstâncias complicadas em que ele foi transmitido. 2. A Filologia e a Compreensão da Gra­ mática do Velho Testamento Uma segunda abordagem do texto do Velho Testamento, embora dependa da crítica textual, vai além dos limites da pesquisa acerca do que o texto é, che­ gando ao que o texto diz. Esta aborda­ gem refere-se a três coisas: vocabulário hebraico, gramática hebraica e padrões hebraicos de pensamento. 3 M. H. Goshen-Gottstein, The Book of Iaaiah: Sample Edition with Introductlon (Jerusalém: At the Magnes Press, 1965).


O primeiro passo da abordagem do tradutor ao Velho Testamento, ao estudá-lo, precisa ser um conhecimento ope­ racional do vocabulário hebraico, e isto inclui consultas aos dicionários hebrai­ cos. Armado com este conhecimento fundamental, o tradutor pode, então, expandir o seu entendimento a respeito de uma determinada palavra ou de uma família de palavras (cognatas) através do uso de uma concordância e do uso de palavras cognatas e de grupos de palavras em línguas relacionadas. A concordân­ cia, relacionando, como o faz, todas as vezes em que uma dada palavra ocorre na Bíblia, capacita o pesquisador a che­ gar à sua própria definição. No caso da maioria das palavras da Bíblia, não é uma tarefa difícil examinar a maneira diversa como uma palavra importante é usada em cada caso, processo que muitas vezes lança muita luz sobre o seu signi­ ficado. O exame dos sinônimos do Velho Testamento e de palavras equivalentes, em línguas da mesma família do hebrai­ co da Bíblia, muitas vezes se estende além do alcance do entendimento adqui­ rido pelas palavras do texto. Há muito interesse no vocabulário do Velho Testamento nos dias de hoje. Nos anos 1951-53 foi publicado um novo léxico do Velho Testamento que tem quase 1.500 páginas,4 e agora mesmo ele está sendo publicado novamente em uma edição completamente revisada. Inu­ meráveis artigos de extensão vária, tra­ tando de palavras e frases hebraicas, têm sido publicados em anos recentes, e erudi­ tos, como Thorlief Boman e James Barr, se têm empenhado em um aceso debate a respeito dos problemas mais amplos da semântica hebraica. Da mesma forma como as palavras que compõem um texto precisam ser conhecidas tão plenamente quanto pos­ sível por si mesmas, a maneira como elas 4 L. Koehler e W. Baumgartner, Lexicon in Veteris Testa­ ment! Libros and Suplementum (Leiden: £ . J. Brill, 1958).

são arranjadas em frases e sentenças também precisa ser estudada e compre­ endida. O hebraico, como o inglês e o português, perdeu os sufixos indicadores dos casos (como no latim), que outrora tomavam característica a função gra­ matical das principais palavras de uma sentença, e por isso depende tantas vezes do arranjo das palavras para obter a nuança específica de significado. Por­ tanto, é essencial que o tradutor entenda tanto as formas específicas5 em que as palavras aparecem, como também a relação dessas palavras umas com as outras dentro da sentença,6 se ele quiser traduzir exatamente em outra língua o que o texto bíblico, na verdade, está dizendo. O estudo contemporâneo do Velho Testamento está levando em considera­ ção cada vez mais o fato de que os gra­ máticos hebreus clássicos, a despeito de sua laboriosa atenção aos detalhes e sua incalculável contribuição, muitas vezes forçaram a gramática hebraica a entrar em formas gramaticais ocidentais. Isto obscureceu muitas das melhores expres­ sões do hebraico bíblico, e hoje em dia existe uma preocupação justificada de remediar esta deficiência através de uma análise intensiva das formas da narrativa e da poesia hebraica, e através de um estudo comparativo da forma gramatical em línguas relacionadas com o hebraico da Bíblia. Estudiosos como G. R. Driver, D. W. Thomas, A. Sperber, C. H. Gordon, M. Dahood e o falecido C. Brockelmann representam um número cres­ cente de especialistas em Velho Testa­ mento interessados nestes problemas. Outra preocupação do estudo contem­ porâneo do Velho Testamento relacionase com o pensamento hebraico. Mesmo quando o texto já foi estabelecido e as suas palavras adequadamente definidas, analisadas gramaticalmente e relaciona­ das com o seu contexto, não obstante, é 5 Isto é chamado de morfologia. 6 Isto é chamado de sintaxe.

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possível ainda produzir traduções como: “O meu humor (secreção líquida do corpo) se tornou em sequidão de estio” (Sal. 32:4) ou: “Turbadas estão as mi­ nhas entranhas, o meu fígado se derra­ mou pela terra” (Lam. 2:11). Aqui, obviamente, há necessidade de comuni­ car idéias hebraicas em termos mais correlatos à expressão moderna; assim, a passagem dos salmos pode ser melhor traduzida como: “A minha força foi gasta como no calor do verão” ; e a sen­ tença de Lamentações: “ Sinto um nó no estômago, o meu coração está peque­ nininho.” Muita atenção, por conseguinte, tem sido dada nos anos recentes às peculia­ ridades especiais do pensamento hebrai­ co, e grande parte desta atenção tem sido estimulada, de uma forma ou de outra, pela monumental obra de Johannes Pedersen , 7 que apareceu primeiramente em inglês, em 1926 (Vols. I-II) e em 1940 (Vols. III-IV). A lista de eruditos que abordaram o entendimento do texto do Velho Testamento desta maneira teria que incluir estudiosos não só como H. Wheeler Robinson, A. R. Johnson, C. Tresmontant e G. E. Wright, mas tam­ bém os teólogos do Velho Testamento. O seu trabalho tem sido realizado, em parte, com o objetivo de que idéias pro­ fundas não se tornem ridículas na tra­ dução literal, mas, pelo contrário, sejam compreendidas e então convertidas aos padrões contemporâneos de pensamento.

II. As Abordagens da História Literária do Velho Testamento Outra abordagem do estudo do Velho Testamento, empreendida hoje em dia, se refere ao que está por detrás do texto. Quem compôs originalmente o texto e quando? Em que formas e estilos foi ele composto, e como chegou à forma em que o recebemos? Esta pesquisa, cha7 Israel« Its Life and Culture, Vols. I-IV (London: Oxford University Press, 1959).

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mada de alta crítica, pode ser descrita amplamente em três categorias: estudo das fontes da literatura do Velho Testa­ mento; estudo das formas da literatura do Velho Testamento; e estudo da histó­ ria da literatura do Velho Testamento. 1. Análise das Fontes da Literatura do Velho Testamento O estudo das fontes da literatura do Velho Testamento começou com os cinco primeiros livros da Bíblia, chamados de Pentateuco. O Velho Testamento pro­ priamente dito não designa um autor para estes livros, mas a tradição os atri­ buiu a Moisés, tanto por causa de sua identificação com este material em refe­ rências como Deuteronômio 1:1, II Reis 14:6, Esdras 6:18, II Crônicas 25:4; Marcos 12:26, quanto porque a litera­ tura judaica primitiva 8 expressamente menciona Moisés como seu autor. Esta tradição foi aproveitada pela igreja pri­ mitiva, embora não sem sofrer restrições em alguns de seus quadros .9 Nos pri­ meiros mil anos da era cristã, contudo, vários versículos e curtas passagens fo­ ram atribuídas a outros autores, e a unidade literária do Pentateuco foi ques­ tionada repetidamente. Depois da Idade Média, tanto o número quanto a precisão dessas interrogações aumentaram, e os eruditos bíblicos apresentaram longas listas de passagens, que pareciam ser contra a autoria mosaica e a unidade do Pentateuco .10 A abordagem, do estudo contempo­ râneo do Velho Testamento, da crítica do Pentateuco deve muito às interrogações destes eruditos do passado. Mas ela tam ­ bém tem uma dívida de gratidão para com o trabalho de isolamento e análise de várias fontes dentro do Pentateuco, começado no século XVIII e continuado, com tentativas, erros e grande proveito, 8 Veja Filo, Josefo e o T alm ude. 9 Veja Porfírio e Celso, e vários escritores gnósticos. 10 Veja C arlstad, M asius, Hobbes, Spinoza e R ichard Slmon.


desde então. Ele está associado princi­ palmente com eruditos como Julius Welhausen, H. Holzinger, S. R. Driver, A. C. Welch, W. O. E. Oersterley, T. H. Robinson, e, mais recentemente, com R. H. Pfeiffer, A. Bentzen, C. A. Simpson, C. R. North, Otto Eissfeldt, S. Mowinckel, Martin Noth, G. von Rad e Karl Elliger. Esta abordagem, reconhecendo, dentro do Pentateuco, anacronismos, repetição, narrativas conflitantes, uma variedade de pequenas e grandes discrepâncias, concepções diferentes a respeito de Deus, e várias diferenças marcantes em termos de estilo literário, levou a maioria dos eruditos contemporâneos a esposar a opinião de que o Pentateuco que conhe­ cemos não é nem uma unidade nem, considerado como um todo, uma com­ posição de Moisés. Isto não quer dizer que Moisés não fez nenhuma contribuição para o Pentateuco ou que a tradição bíblica que o associa com a “lei” e o “livro da lei” não é confiável. Embora alguns eruditos mo­ dernos neguem até a historicidade de Moisés, a grande maioria esposa o ponto de vista de que há dentro do Pentateuco conceitos e acontecimentos que são ge­ nuinamente mosaicos. O estudo atual do Pentateuco reco­ nhece, em termos amplos, dentro do Pentateuco, a presença de três níveis de fontes: fontes orais, fontes escritas e fontes redatoriais ou editoriais. De fato, pode ser notado que uma estrutura si­ milar é aplicada, quanto a fontes, em vários graus, aos outros livros do Velho Testamento. A possibilidade de que tradições orais servem de base para as fontes escritas do Velho Testamento foi apresentada com alguma convicção no fim do século XIX. Contudo, foi nos últimos quarenta anos que o caso das fontes orais foi apresen­ tado mais persuasivamente, especial­ mente por eruditos como H. S. Nyberg, Ivan Engnell e Eduard Nielsen.

A palavra falada tinha para o homem do Velho Testamento muito mais signi­ ficado do que para os homens de hoje em dia; tinha uma dinâmica toda sua. A palavra falada surgiu, em criatividade espontânea, das situações reais da vida e da fé que os homens enfrentaram, e, até certo ponto, também preservou esta mesma criatividade espontânea. De fato, foi pela palavra falada que a maioria dos homens aprendeu as histórias da fé e as afirmações nelas baseadas. As histórias familiares e emocionantes dos pais e de sua fé, os hinos e poesias devocionais, a pungente sabedoria dos sábios, as declarações pessoais de depen­ dência de um Deus presente e ativo, os discursos de políticos, os oráculos e jul­ gamentos de sacerdotes e até os sermões dos profetas, pronunciados para serem lembrados e repetidos, foram lembrados e repetidos. Além disso, a presença de fontes orais, no desenvolvimento do Velho Testamen­ to, não foi descontinuada quando come­ çou um estágio verdadeiramente literá­ rio. No decorrer de, virtualmente, toda a história da composição do Velho Testa­ mento, uma tradição oral contínua sus­ tenta o verdadeiro desenvolvimento lite­ rário. Esta tradição oral era, sem dúvida, extensiva, antes que a escrita se tomou mais normativa, com o advento da verda­ deira nacionalidade; desse ponto em diante ela diminuiu em proporção, à medida que ia sendo reduzida à forma escrita. Mas nunca cessou de ter influ­ ência, enquanto o texto do Velho Testa­ mento não foi fixado de maneira mais ou menos definida, e por uma boa razão: uma criatividade verbal inspirada está na base do processo criativo do desenvolvi­ mento de grande parte da literatura do Velho Testamento. Os grandes profetas se referiam a tais verbalizações, trazidas a eles pelo ruah ou espírito de Yahweh, como “a palavra de Yahweh” . 11 11 Cf. I Reis 22; Miq. 1:1; Is. 43:1 e ss.; Jer. 23:16-22; Ez. 3:4.

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Em sua forma mais básica, essas uni­ dades orais eram breves, consistindo de histórias isoladas, leis, ditados, poemas e coisas semelhantes. No entanto, com o tempo, narrativas orais relacionadas entre si foram reunidas, processo que se tomou um estímulo para o estágio lite­ rário, e também foi incrementado pelo processo literário, por sua vez. É a este verdadeiro período literário que devemos a maior parte do Velho Testamento, como o conhecemos. Quan­ do as fontes orais começaram a ser reu­ nidas e reduzidas à forma escrita, o resultado não foi livros bíblicos inteiros, como os conhecemos, mas, sim, o que agora são passagens ou livretes dentro de nossos livros maiores. Ao lado dessas coleções escritas, de fontes originalmente orais, havia, mui provavelmente, blocos de material composto inicialmente por escrito, alguns inspirados por material oral mais antigo e alguns sem nenhum estágio pré-literário. Há boas razões para se crer que parte desse material escrito era de fato muito antigo, antedatando até algumas das fontes orais. E então, com o tempo, essas coleções escritas se tornaram as fontes que vieram a constituir os livros de nosso Velho Testamento. O livro de Salmos é um bom exemplo deste processo. Grande parte desses poemas foram criações da comunidade adoradora de Israel, e fa­ ziam parte da tradição oral viva do culto. Gradualmente, foram sendo feitas cole­ ções desses hinos, de acordo com os objetivos, pela influência de grupos espe­ ciais de musicistas e com base em seu conteúdo. Assim, há hinos de louvor, hinos da coleção de Asafe, coleções para ocasiões especiais, e assim por diante. Essas coleções, por sua vez, foram rearranjadas de acordo com critérios ainda diferentes, como, por exemplo, a divisão um tanto arbitrária, em cinco livros, do Saltério bíblico. Nesse estágio, indu­ bitavelmente, toda a coleção foi reunida 136

para formar o nosso atual livro de Sal­ mos. Processo semelhante é observável na maioria dos outros livros maiores do Ve­ lho Testamento, embora isso seja muito menos óbvio em uma leitura superficial e apesar de, sem dúvida, a abordagem ao estudo de cada livro precisar levar em consideração a natureza especial desse livro. A terceira camada de fontes presentes no Velho Testamento é o resultado do trabalho editorial. No que concerne à extensão do material, esta é a menor das três camadas relativas a fontes. Ao mes­ mo tempo, ela é fonte mais determinante no que tange ao nosso Velho Testamen­ to, pois é a fonte que em grande parte governou a compilação final do Velho Testamento que chegou às nossas mãos. O material adicionado ao Velho Tes­ tamento pelas mãos dos que o compila­ ram consiste, na maior parte, das notas introdutórias e explicativas, seções de transição e, em alguns casos, de comen­ tários expositivos. A verdadeira contri­ buição dos editores está em sua seleção e arranjo das fontes disponíveis. Em alguns casos, a sua tarefa foi realizada com tal respeito pelo material e com tal perícia que a mão do editor é virtual­ mente invisível. Em outros livros (e algu­ mas vezes no mesmo livro), as suturas são óbvias e evidentes. Assim, por exem­ plo, as duas narrativas da criação, no livro de Gênesis,12 provêm, obviamente, de duas fontes diferentes — representam interesses diferentes e o editor não fez nenhum esforço para conciliá-los. Assim também acontece com o primeiro versí­ culo do livro de Amós, que representa o que um publicador moderno colocaria na página de rosto, de um livro, ou no prefácio. Em alguns casos, a obra dos editores foi feita com grande objetividade; assim, por exemplo, se dá com o fato de eles terem incluído a grande “História da 12 Gên. 1:1,2:4a vis-à-vis com 2:4b-25.


Corte do Rei Davi” , 13 qué relaciona de maneira muito cândida a sucessão ao trono de Davi. Em outros casos, interes­ ses especiais influenciaram muito, como nos livros das Crônicas, que apresentam uma imagem glorificada da dinastia davídica, excluindo tanto quanto pos­ sível a história do Reino do Norte. 2. Análise da Forma da Literatura do Velho Testamento Outra abordagem fundamental da literatura do Velho Testamento procura isolar e analisar as maneiras especiais como esta literatura foi estruturada. Esta abordagem, chamada de crítica da for­ ma, foi sugerida no começo deste século por Hermann Gunkel. Ela foi empre­ gada com crescente entusiasmo por eru­ ditos do Velho Testamento, porque lança luz não apenas sobre as formas literárias em si, mas também sobre as fontes que as utilizaram e sobre os temas teológicos que aparecem repetidamente nessas fon­ tes. Seguindo a direção de Gunkel, vie­ ram eruditos como Hugo Gressmann, Leonhard Rost, Albrecht Alt, Martin Noth, Gerhard von Rad, T. H. Robinson, E. A Leslie, e, ainda mais recente­ mente, Claus Westermann, B. W. Anderson e Walter Beyerlin. A questão que temos aqui, sem dúvi­ da, é como o texto foi composto; isto é, em que formas e estilos, não importa se a composição foi escrita ou oral. A subs­ tância dessa abordagem, no estudo do Velho Testamento, reside nas seções e unidades menores de material discemíveis dentro das fontes que perfazem os livros de nosso Velho Testamento atual. O estudo de crítica formal revelou, por exemplo, que estilos e padrões consis­ tentes são empregados em sermões pro­ féticos, em bênçãos e maldições sacer­ dotais, em exposições da lei, em louvor através de hinos ou no lamento do ado­ rador individual, através de todo o Velho 13 II Samuel 6-1 Reis 2.

Testamento. Ainda maior iluminação deve ser encontrada na comparação das formas literárias do Velho Testamento com a literatura dos vizinhos de Israel antigo no Oriente Próximo — literatura que nos tem sido provida em abundância pelas escavações arqueológicas. Desta forma, Gunkel, e depois Sigmund Mowinckel, e ainda mais recente­ mente Artur Weiser, Westermann e H. J. Kraus, procuraram entender melhor os Salmos e o contexto de vida do qual eles vieram, colocando juntos salmos de conteúdo e forma similares. Hinos de louvor, por exemplo, são encontrados sempre contendo uma conclamação im­ perativa à adoração (105:1-4; 113:1-3) e uma base doutrinária, como a de um credo, para louvor em adoração (105:5 e s.; 113:4 e s.). Um trabalho semelhante, na análise formal da literatura legal do Velho Testamento, foi feito por Alt, G. E. Mendenhall, J. J. Stamm e R. Smend; na literatura histórica, por Alt, Noth e John Bright; e na literatura profética, por H. Wildberger, E. Würthwein, Wes­ termann, H. W. Wolff e H. Reventlow. As vantagens mais expressivas desta útil abordagem são: (1) que ela nos capa­ cita a ver o Velho Testamento em sua forma mais básica, embrionária e (2) que ela, muitas vezes, faz jorrar abundante luz sobre passagens em particular, aju­ dando-nos a vê-las em comparação com o padrão literário mais amplo, tanto den­ tro quanto fora do Velho Testamento, de que elas fazem parte. Muitos tipos de literatura e estilos de composição estão presentes, sem dúvida, no Velho Testamento, e essas Introduções-padrão ao Velho Testamento, como as de Eissfeldt, Bentzen, Weiser e Fohrer, apresentam listas extensas. Contudo, com o objetivo mais geral que temos em vista, consideraremos três categorias: poesias, prosa e declarações formais de estado e de culto. Aproximadamente um terço do Velho Testamento consiste de poesia. Esta 137


poesia está delimitada por formas cuida­ dosamente reguladas, que variam sur­ preendentemente pouco, mesmo no de­ correr do período de tempo que levaram a composição e a compilação do Velho Testamento. Estas formas são formas compartilhadas, aparecendo também na poesia dos vizinhos dos hebreus — cananeus, babilônios e egípcios. Ê o conteúdo da poesia hebraica, e não a sua forma ou estilo, que é peculiar, mas o estilo é importante, porque descreve e ajuda a interpretar o seu conteúdo. O poeta hebreu não era livre, como os poetas de hoje em dia, para improvisar formas novas e originais; a forma que a sua poesia assumia era ditada, em grande medida, pelo assunto que ele ia abordar. Ê por esta razão que o isolamento e análise da forma poética hebraica pro­ piciaram tanta ajuda para o entendi­ mento do Velho Testamento. A característica interna mais impor­ tante da poesia hebraica é, felizmente, uma característica que não se perde com a tradução. É pelo ritmo do pensamen­ to, ou paralelismo, que uma segunda linha reforça, mediante a repetição, de alguma forma, a idéia da primeira li­ nha. Há algumas elaborações complica­ das deste princípio básico, mas a teoria básica permanece virtualmente a mes­ ma. 14 O reconhecimento deste artifício é básico para se entender a poesia do Ve­ lho Testamento, mas é um dos artifícios poéticos mais óbvios de todos e reaparece no decorrer de toda a poesia hebraica. A métrica e artifícios como rima e ono­ matopéia são muito mais complicados, sendo claro que são intraduzíveis. Eles são importantes para o especialista em hebraico, para quem eles são recom­ pensadores por si mesmo e para quem eles muitas vezes propiciam chaves úteis a respeito de problemas textuais.

De importância ainda maior para o estudo geral do Velho Testamento, con­ tudo, é o estudo das formas externas da poesia hebraica. O isolamento e análise dos tipos de poesia lança muita luz sobre cada tipo separado como espécie, cada poema separado dentro de uma dada espécie, e, sem dúvida, sobre a poesia como substrato substancial do texto do Velho Testamento. Parte da poesia do Velho Testamento consiste de cânticos de muitos tipos: cân­ ticos de trabalho (Núm. 21:17,18),15 cânticos de amor (Cant. 2:8-14), cânticos de batalha (Juí. 5:2-31), cânticos para funerais (II Sam. 1:19-27), cânticos para ocasiões festivas (Is. 22:13), cânticos de zombaria e escárnio (Núm. 21:27-30). Ela apresenta muitos “ ditados” : provér­ bios folclóricos (Ez. 18:2), enigmas (Juí. 14:14), fábulas (Juí. 9:8-15), aforismos (Prov. 11:22), lições sucintas dos sábios mestres de Israel (Prov. 1:7). Além disso, há a poesia do culto, uma coleção espalhada por todo o Velho Testamento e que constitui a maior por­ ção da poesia do Velho Testamento. Nes­ ta poesia religiosa encontram-se: as fór­ mulas sacerdotais de ritual sacrificial (Lev. 9:1-4) e de bênção (Núm. 6:24-26), de maldição (Deut. 27:15-19), os orá­ culos (Is. 14:28-32) e partes dos sermões dos profetas (Am. 3:3-11), os grandes hinos de louvor dos salmos confessionais em responsório (Sal. 95:1-7), os poemas de lamentação e declaração de fé indi­ viduais (Sal. 13) e uma variedade de hinos e salmos para ocasiões especiais (Sal. 45, celebrando um casamento real). Cada um desses tipos poéticos tem uma forma exclusivamente sua, que é facilmente reconhecível e geralmente varia apenas um pouquinho em suas várias ocorrências. O estudo de uma dada forma, em seu uso repetido, lança grande luz não apenas sobre a forma

14 Veja, por exemplo, Salmos 24:1*3, onde cada versículo sucessivo contém a mesma idéia duas vezes. Ou cf. Provérbios 14:28, Saimos 14:1,2, Isaías 1:3, para en­ contrar variações deste principio.

15 £ claro que os exemplos podem se multiplicar, mas só um é apresentado a respeito de cada tipo, devido às limitações de espaço.

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como padrão, mas também sobre os poemas, individualmente, que usam essa forma. Da mesma forma, esse estudo compa­ rativo do estilo literário não tem sido restringido à literatura poética do Velho Testamento. Embora as formas poéticas sejam mais fáceis de identificar, o uso deste mesmo processo revelou padrões literários que se repetem também na prosa do Velho Testamento. O tipo lite­ rário mais usado em prosa é a narrativa, que, por seu turno, é subdividida em variegadas formas de narrativa, como as que descrevem os primórdios dos povos (Gên. 27) e suas instituições (Gên. 28: 10-22); as que preservam fábulas (II Reis 14:9) e histórias populares (Juí. 15:1-8); e as que recontam a história de maneira mais oficial (II Sam. 9-20). Tipos de prosa mais curtos existem nos discursos de políticos (II Sam. 15:1-6); nos sermões dos sacerdotes e profetas (Deut. 4); nos documentos sociais e co­ merciais, como cartas (I Reis 21:8-10); nos contratos (I Reis 5:2-9); em genea­ logias (Gên. 5) e relações de pessoal (II Sam. 8:15-18); nos comentários edito­ riais (Jer. 1:1-3), porém mais do que tudo no que pode ser chamado de declara­ ções formais que dizem respeito ao esta­ do e culto. A esta categoria pertencem a literatura legal extensa do Velho Testa­ mento, os regulamentos e instruções do culto, as notícias e editos reais, as leis da terra e os mandamentos de Deus. Aqui, também, cada tipo tem a sua forma distinta; e aqui, também, o tipo de con­ teúdo dita a forma a ser empregada. 3. Análise Histórico-Tradicional da Li­ teratura do Velho Testamento Uma terceira abordagem ampla do estudo contemporâneo do Velho Testa­ mento combina os resultados da pesquisa de fontes e da análise de formas, em uma tentativa de chegar a uma história lite­ rária do Velho Testamento. A preocupa­ ção, aqui, é estabelecer o Velho Testa­

mento em seu contexto histórico e, usan­ do todas as evidências disponíveis, re­ construir a sua biografia seqüencial. Basicamente, a questão, neste caso, é a autoria, mas a resposta é muito com­ plexa, no caso do Velho Testamento. Ela precisa se preocupar com a origem do conteúdo e das formas em que este con­ teúdo é expresso, o tempo e as circuns­ tâncias da composição das várias partes do Velho Testamento e a sua compilação na ordem de livros que conhecemos. E, também, esta questão não pode ser res­ pondida de forma tradicional, pois o Velho Testamento é produto de vários autores, dos quais não poucos perma­ neceram completamente anônimos. Muito trabalho útil tem sido realizado pelos eruditos, no sentido da reconstru­ ção de uma história literária do Velho Testamento, e este trabalho pode ade­ quadamente ser chamado de contem­ porâneo, visto que a maior parte dele tem sido feito neste século. Estes esforços podem ser associados, antes de tudo, com Hermann Gunkel e Hugo Gressmann, que enfatizaram o estudo das formas e temas literários do Velho Testa­ mento em relação ao seu contexto do Oriente Próximo antigo. Edificando sobre esta pesquisa e utilizando as exten­ sivas descobertas da arqueologia bíblica moderna, eruditos como Johannes Hempel, Otto Eissfeldt, Martin Noth, Gerhard von Rad, Gustaf Hõlscher, Adolphe Lods, Artur Weiser, e, ainda mais recen­ temente, H. H. Rowley, A. Robert, A. Feuillet, P. Auvray, G. W. Anderson, S. Sandmel, L. Rost, e G. Fohler procura­ ram recuperar a “situação vivencial” dos escritos do Velho Testamento. Estes eruditos traçaram a história da literatura do Velho Testamento desde um estágio pré-literário, onde ele existia em tradições orais sucintas, através de um estágio intermediário e verdadeira­ mente literário de composição escrita, até um estágio final de composição edito­ rial. Desde o início deste processo e 139


através de seu desenvolvimento, a influ­ ência dos povos e nações de quem surgi­ ram os israelitas e com quem eles convi­ veram, pode ser facilmente reconhecida. Porém desde o início a estampa distintiva de um povo cujo espírito tutelar era a presença de seu Deus pode ser desco­ berta, moldando o conteúdo e utilizando a forma e o estilo com propósitos mais elevados e com declarações mais pro­ fundas. Desde o princípio da transmissão e da composição por escrito, a mão anônima do editor é verificada, arranjando, rearranjando, propiciando cenário e contexto e, algumas vezes, declarando aquela verdade de maneira diferente. A primei­ ra tarefa desses editores, segundo se pensa, era coletar e preservar, na melhor forma possível, o que chegara às suas mãos. Mas eles também sentiam profun­ damente a necessidade de tornar a he­ rança literária tão significativa e rele­ vante quanto possível, para a sua época, e, com esta preocupação, algumas vezes eles tornavam o texto mais difícil para as gerações posteriores. Obviamente, também é verdade que esse texto em crescimento algumas vezes se tomou inadvertidamente complicado, por causa de erros dos copistas e da transmissão, e mesmo devido à perda de uma parte de um manuscrito. Em alguns casos, o material dado aos escribas, para copiar, estava mal organizado ou mes­ mo em forma fragmentária. Este é o caso, sem dúvida, especialmente dos livros proféticos, cuja freqüente desor­ dem muitas vezes os tom a muito difícil de entender. É precisamente por estas razões que o estudo contemporâneo do Velho Testa­ mento tem-se preocupado tanto com a história da literatura do Velho Testa­ mento. E, embora essa . preocupação tenha significado muito trabalho esta­ fante, ela continua a pagar grandes divi­ dendos em termos de compreensão do texto. Além disso, o resultado final deste 140

estudo tem salientado a natureza pro­ videncial da composição e da preservação do texto do Velho Testamento, como também tem revelado a riqueza do Velho Testamento em muitas dimensões novas. Finalmente, não pode ser esquecido que as abordagens do estudo do Velho Testamento esboçadas acima são ferra­ mentas empregadas com um propósito. Esse propósito é uma melhor compreen­ são do Velho Testamento que temos. Para conseguir esse entendimento, sem dúvida, é necessário considerar o Velho Testamento em suas partes constituintes: as mais amplas fontes literárias, os livros que as contêm e as unidades menores que compreendem os livros. Porém o Velho Testamento é um livro por si mesmo. Além do mais, o arranjo do texto na forma em que o recebemos tem também um objetivo. Por iluminador que continue a ser o estudo das fontes individuais e das formas literárias, precisamos ao mesmo tempo ter em vista o texto todo como um produto final. Da mesma forma como as pessoas que com­ puseram as tradições orais e as que com­ puseram as fontes escritas foram inspira­ das, também o foram os compiladores e editores que deram ao nosso Velho Tes­ tamento a sua forma atual.

III. As Abordagens do Significado do Velho Testamento Armados com as informações a res­ peito do que é o texto do Velho Testa­ mento, como ele veio a existir e o que ele diz, a nossa abordagem final do estudo do Velho Testamento é concernente ao que o texto significa. Esta correlação é manifesta, sobretudo, em duas direções: (1) o significado do texto para os que o compuseram e para os seus contemporâ­ neos, e (2) o seu significado para o homem hodierno. Algumas vezes, nesta busca, uma consideração acerca do que o texto significou, através da História, para as pessoas que o leram e estudaram


é de grande valia. E é sempre de interes­ se, porque o Velho Testamento é uma parte tão grande de nossa Bíblia, é uma consideração do seu significado para o homem em todas as épocas. 1. O Significado da Adoração no Velho Testamento Durante a segunda metade do século passado, e até o primeiro quarto do atual, havia muito interesse entre os estu­ diosos do Velho Testamento quanto à natureza e à história das instituições reli­ giosas de Israel. O fascínio contemporâ­ neo pela teologia do Velho Testamento, que pode convenientemente ser datado desde o aparecimento, em 1933, do pri­ meiro volume da Theologie des Alten Testaments, de Walther Eichrodt, eclip­ sou esse interesse. Contudo, recente­ mente surgiu um novo interesse pela religião do Velho Testamento. Embora nenhum outro erudito tenha tido influ­ ência tão profunda, sobre este reavivamento, quanto Sigmund Mowinckel, muitos outros fizeram importantes con­ tribuições a ele. Entre estes encontram-se R. de Vaux, H. J. Kraus, H. Ringgren, Th. C. Vriezen e H. H. Rowley, que publicaram obras importantes, a esse respeito, desde 1960. Embora seja verdade que estes erudi­ tos, necessariamente, estão interessados na história da religião do Velho Testa­ mento e nas suas formas de adoração, eles estão também muito ocupados com o seu significado para a fé israelita e para a compreensão bíblica contemporânea. Desta forma, a abordagem do signifi­ cado da adoração do Velho Testamento procura isolar, dos períodos aos quais elas estão subordinadas, as formas de adoração do Velho Testamento. Feito isto, o significado destas formas é consi­ derado como chave para uma compreen­ são mais profunda do povo que as empre­ gou e de sua concepção do Deus a quem ele dirigia o seu culto.

Tal estudo precisa, indubitavelmente, considerar assuntos como os lugares, rituais, pessoal envolvido, regulamentos, tempos, cerimônias especiais, equipa­ mento, música e literatura da adoração do Velho Testamento, com referência aos antecedèntes e circunstâncias do Ori­ ente Próximo antigo. Acima de tudo, entretanto, precisa considerar a base ló­ gica desta adoração. Ésse estudo não pode, também, ser feito apenas uma vez, e ser aplicado em seguida a todo o Velho Testamento. Vis­ to que tão grande espaço de tempo se passou e tanta diferenciação de circuns­ tâncias aconteceu, o estudo precisa ser feito em relação ao seu contexto, e depois reunido em uma revisão da evolução contínua de uma religião viva. Porém, quando isto for feito, as formas de ado­ ração do Novo Testamento e, depois, as nossas formas de adoração, hoje em dia, assumirão dimensões novas e emocio­ nantes de significado. 2. O Significado da Fé do Velho Testa­ mento Uma segunda abordagem do signifi­ cado do Velho Testamento refere-se ao significado de sua teologia ou fé. O obje­ tivo dos eruditos, aqui, é descobrir, do texto do Velho Testamento, que é a afirmação da fé do homem hebreu, o que essa fé na verdade era. Não poucos eruditos têm dado impor­ tantes contribuições a esta abordagem, mas os mais importantes de todos eles são W. Eichrodt e G. von Rad. Eichrodt, em particular, teve uma influência for­ madora sobre a exposição contempo­ rânea da fé veterotestamentária; mas o impacto da principal obra de von Rad, dois volumes da qual foram publicados em 1957 e 1960, respectivamente, tam­ bém é crescentemente evidente. Espe­ cialmente valiosas também são as pes­ quisas, a respeito deste assunto, feitas por H. H. Rowley, E. Jacob, Th. C. 141


Vriezen, R. C. Dentan, G. E. Wright, G. A. F. Knight e Norman Porteous. Estes eruditos reconhecem que o estu­ do da teologia do Velho Testamento pre­ cisa, antes de tudo, se concentrar na teologia de períodos determinados da história do Velho Testamento, cada qual com as suas circunstâncias históricas e seus problemas. Isto quer dizer que o pesquisador precisa considerar as teologias do Velho Testamento, cada qual em relação à sua própria época, antes de poder considerar a teologia do Velho Testamento. Esses estudiosos dizem que, não obstante, existe uma teologia do Velho Testamento, da mesma forma como há uma teologia bíblica mais am­ pla, que ela preconiza (e da qual, sem dúvida, é parte constituinte). Em contraste com o estudo da religião do Velho Testamento, que é concernen­ te, entre outras coisas, à metodologia e à base lógica da adoração, a teologia do Velho Testamento se preocupa com a crença — fé — da forma como ela é de­ clarada e vivida pelo povo de Israel. In­ cluído neste interesse está o conceito de Deus, que tinha o homem hebreu, à medida que ele experimentava a autorevelação de Deus e também à medida que ele correspondia a essa revelação. Desta forma, a teologia do Velho Tes­ tamento trata de assuntos como a natu­ reza de Deus no Velho Testamento — o que é a pessoa de Deus, quais são os seus atributos, os seus atos, como ele se torna conhecido e quais são os seus propósitos e planos? Neste processo, ela considera assuntos como os nomes e títulos dados a Deus no Velho Testamento; as maneiras como Deus se revela aos homens; o envol­ vimento ativo de Deus no mundo, da criação em diante; a base das exigências de Deus sobre o homem; o entendimento de Deus, manifestado em diferentes níveis de vida e em épocas diferentes; e o relacionamento de Deus com toda a criação e com todos os homens. Em suma, pode ser dito que a teologia do Velho 142

Testamento se preocupa, como o seu nome diz, com as declarações de Deus e com Deus no Velho Testamento. 3. O Significado da História do Velho Testamento O estudo do significado da história de Israel pode ser chamado de abordagem, por parte dos teólogos, da história do Velho Testamento, dependendo da abor­ dagem do historiador, mas ao mesmo tempo diferente dela. O historiador pro­ cura, primeiramente com base no que o texto do Velho Testamento diz e utili­ zando as valiosas informações secundá­ rias das fontes extrabíblicas da antigui­ dade e das pesquisas arqueológica e geo­ gráfica, reconstruir a história de Israel. A história do Velho Testamento é abor­ dada desta forma no estudo contempo­ râneo, e os excelentes livros e artigos de homens como Albrecht Alt, W. F. Albright, M artin Noth, Johannes Hempel, Kurt Galling, John Bright e G. W. Anderson são resultados desta abordagem. Graças a esse trabalho, agora somos capazes de dizer que conhecemos bas­ tante da história do povo do Velho Tes­ tamento com um elevado grau de exa­ tidão. Esta história, todavia, permanece como história reconstruída e bem dife­ rente, em termos de ênfase básica, da apresentação que o próprio Velho Testa­ mento faz da história. Em anos recentes, os eruditos têm dado cada vez mais aten­ ção à história de Israel tal como é regis­ trada pelo Velho Testamento, principal­ mente por causa do que esse estudo revela a respeito da fé de Israel. C. R. North contribuiu com um dos primeiros estudos desse assunto, em 1946, e foi seguido por uma hoste de estudiosos, entre os quais se destacam R. C. Den­ tan, Millar Burrows, H. H. Rowley, G. E. Wright, G. von Rad, R. A. F. Mackenzie e John Bright. Ultimamente, também tem havido muito interesse na ênfase especial e nos estilos da redação


da história no Velho Testamento, e fo­ ram publicados muitos artigos e mono­ grafias que tratam do estudo da crítica da forma da história de Israel. A abordagem, por parte do teólogo, da redação da história do Velho Testa­ mento reconhece que a história apresen­ tada no texto do Velho Testamento tem um propósito mais elevado do que de fazer reportagem. É um a história com significado, uma história que apropria­ damente foi chamada de história da sal­ vação. É história teologicamente inter­ pretada, que procura primordialmente estabelecer o movimento ativo e propo­ sital de Deus na vida de seu povo. Ê uma história confessional, e, desta forma, é uma fonte bastante recompensadora, na busca do significado do Velho Testa­ mento. 4. O Significado da Mensagem Bíblica Uma quarta abordagem do significado do Velho Testamento focaliza-se em um significado que é mais amplo do que o próprio Velho Testamento. De fato, esta abordagem abrange o significado do Velho Testamento para a mensagem bíblica como um todo e para o homem no passado, no presente e nas eras futuras. Esta questão fascinante atraiu conside­ rável interesse para o estudo bíblico con­ temporâneo e provocou não pequena ati­ vidade entre os eruditos do Velho Testa­ mento, em parte por causa de sua rela­ ção com a importante questão da auto­ ridade do Velho Testamento. Ela inclui, de uma forma ou de outra, quase todas as abordagens do estudo do Velho Tes­ tamento. A erudição bíblica recentemente referiu-se a este assunto de maneira gené­ rica, com a ampla designação de “her­ menêutica” , que, essencialmente, abran­ ge a interpretação. Para o Velho Testa­ mento, pode-se dizer que esta interpre­ tação tem três níveis. Antes de tudo, qual é o significado preciso do texto propria­ mente dito? Literalmente, o que desejava

o escritor dizer à sua própria época? Isto só pode ser determinado com base em uma pesquisa gramatical e histórica cuidadosa. Em segundo lugar, qual é o significado teológico do texto em seu contexto? Qual é a base, na fé, para o que o texto está dizendo? O que motivou a declaração? De que forma é ele uma expressão da teologia mais ampla de que ele faz parte? A teologia de que o texto se origina é que apresenta uma importância mais uni­ versal, a mensagem viva da Palavra de Deus. Terceiro, qual é o significado do texto para a teologia bíblica, em relação ao Novo Testamento, tanto quanto ao Velho Testamento? É neste ponto, particular­ mente, que o crente precisa focalizar as abordagens do estudo do Velho Testa­ mento e aplicá-las ao entendimento bíbli­ co. É neste ponto também que a recente discussão acerca da hermenêutica do Velho Testamento foi mais acesa e pro­ vocante, visto que há grandes diferenças de opinião a respeito de como os Testa­ mentos se relacionam. Desta forma, eru­ ditos como G. von Rad e H. W. Wolff sugerem uma conexão tipológica entre os Testamentos, representando o Velho Testamento a prefiguração, o início do que o Novo Testamento é o fim. W. Vischer continua sendo o mais completo expoente do ponto de vista cristológico: “Em todas as partes a escritura referese apenas a Cristo.” R. E. Brown, J. Coppens e N. Lohfink têm advogado a idéia de que o “ sentido mais completo” está por detrás do sentido literal da Escritura do Velho Testamento. Muito influenciados por von Rad, eruditos como W. Zimmerli, G. E. Wright e, até certo ponto, John Bright, esposam um rela­ cionamento de promessa-cumprimento. Juntamente com esses estudiosos, ho­ mens como Claus Westermann, B. W. Anderson, F. Bâumgartel, W. Eichrodt, Franz Hesse, W. Pannemberg, James Barr e Daniel Lys escreveram impor­ 143


tantes artigos ou livros a respeito do assunto. Sem dúvida, é verdade que a relação entre os Testamentos é muito complexa, acarretando tanto continuidade quanto descontinuidade, e, até agora, nenhum princípio interpretativo sugerido é ade­ quado em todos os pontos. Para uma adequada compreensão do Velho Testa­ mento, é essencial a honestidade, por parte do leitor, de permitir que ele fale a sua palavra de Deus característica. Igualmente importante para o crente é o significado da mensagem do Velho Tes­ tamento, em vista da presença, em sua própria vida, de Cristo como Senhor res­ suscitado. Afinal de contas, é a vinda de Cristo que cumpre o Velho Testamento e torna o Novo Testamento verdadeira­ mente novo. Quando, através do exer­ cício de todas as abordagens do texto do Velho Testamento, o erudito vem a co­ nhecê-lo como ele era, a saber, também o que ele está dizendo e qual era o seu significado para os que o ouviram ou leram em primeiro lugar, então ele pre­ cisa torná-lo pessoalmente seu, fazendo a descoberta mais proveitosa de todas: o que é que ele está lhe dizendo, em sua situação e em sua época? Ê neste pro­ cesso que o estudante começa a conhe­ cer a unidade da Bíblia, que o Velho Testamento e o Novo Testamento na verdade são um, e também o que a Bíblia está dizendo ao homem em todas as épocas. Estas, em amplitude e num esboço resumido, são as principais abordagens do estudo contemporâneo do Velho Tes­ tamento. Elas requerem longa prepara­ ção e a disciplina de uma mente dedi­ cada. Requerem trabalho árduo e cansa­ tivo — trabalho que, muitas vezes, se refere aos menores detalhes, até mesmo às próprias letras do texto. Porém, não se pode esquecer que estas minúcias, até essas letras, fazem parte da palavra viva de Deus. Não se pode esquecer que, neste 144

texto, desde a época de sua composição, Deus não cessou de falar. Desta forma, o estudo do Velho Testa­ mento, manejando as suas ferramentas com cuidado e honestidade amorosos, continua na busca de um propósito basi­ camente religioso, um propósito motiva­ do pela mesma força que compeliu os que iniciaram o longo processo com a primeira composição. A tentativa per­ pétua é ouvir Deus falando cada vez mais claramente. Para Leitura Adicional AP-THOMAS, D. R. A Primer of Old Testament Text Criticism. 2® ed. rev. Philadelphia: Fortress Press, 1966. AUVRAY, PAUL. “Hebrew and Ara­ maic” , em The Sacred Languages, por AUVRAY, POULAIN e BLAI­ SE. Trad, para o inglês por S. J. TESTOR. London: Bums & Oates, 1960, p. 11-71. BRIGHT, JOHN. The Autority of the Old Testament. Nashville: Abing­ don Press, 1967. HAHN, HERBERT F. The Old Testa­ ment on Modem Research, com “A Survey of Recent Literature” , por H. D. HUMMEL. Philadelphia: Fortress Press, 1966. JACOB, EDMOND. Theology of the Old Testament. Trad, para o inglês por A. W. HEATHCOTEe P. J. AL­ LCOCK. New York: Harper & Bro­ thers Publishers, 1958. OTWELL, JOHN H. I Will Be Your God. Nashville: Abingdon Press, 1967. KOCK, KLAUS. The Book of Books: The Growth of the Bible. Trad, para o inglês por M. KOHL. London: SCM Press Ltd., 1968. RINGGREN, HELMER. Israelite Religion. Trad, para o inglês por D. E. GREEN. Philadelphia: For­ tress Press, 1966.


SCHOFIELD, J. N. Introducing Old Testament Theology. Philadelphia: Westminster Press, 1964. WESTERMANN, CLAUS. Handbook to the Old Testament. Trad, para o ingles e edit, por R. H. BOYD.

Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1967. WRIGHT, ERNEST e R. H. FULLER. The Book of the Acts of God. An­ chor Book 222. Garden City: Dou­ bleday & Company Inc., 1960.

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Gênesis — Êxodo


Gênesis CLYDE T. FRANCISCO Introdução

I. O Livro de Gênesis 1. O Título Este livro é chamado de “Gênesis” (começo, origem) devido ao título da Septuaginta grega, seguida mais tarde peía Vulgata Latina. Esta é a palavra grega usada para traduzir a hebraica toledoth (origens, gerações) em Gênesis 2:4a. Os judeus simplesmente o chama­ vam de Bere’shith, primeira palavra he­ braica em 1:1 (no principio). O título em grego é bem escolhido, pois o livro foca­ liza os primórdios do povo hebraico (caps. 12-50), tendo como pano de fundo o cenário das origens do Universo, da ter­ ra e da humanidade (caps. 1-11). Este li­ vro retrata a entrada do pecado no mun­ do, os problemas da primeira família, os inícios das civilizações antigas e as lutas iniciais em busca de uma fé. Não obstante, o seu âmbito vai além de um interesse em antiguidades. Israel é apresentado como saindo do seio das nações, a fim de mostrar que Deus tem um destino mundial para o seu povo (12:1 e ss.). No entanto, Israel está sob as luzes dos refletores do palco do mundo. Este livro dos começos reflete profunda­ mente os conceitos israelitas sobre o des­ tino dessa nação e do tempo do fim. Quando os grandes profetas perscru­ taram o futuro ideal, viram Israel entre as nações, tendo recuperado o Paraíso. Os escritores do Novo Testamento sem­ pre estavam cônscios do cumprimento do Velho Testamento na fé cristã. De fato,,

temas apresentados em Gênesis tornamse conceitos de importância em o Novo Testamento: a responsabilidade do ho­ mem diante do seu Criador, a instituição divina do casamento, a queda do ho­ mem, o julgamento do dilúvio, a salva­ ção pela fé, a vida piedosa como uma peregrinação e a promessa que aguarda cumprimento. 2. A Estrutura Há uma indisfarçável tentativa, neste livro, de arranjar o seu conteúdo sob o título: “Eis as origens” ou “estas são as gerações (toledoth, gerações) de...” Esta expressão ocorre pela primeira vez em 2:4, mas neste caso vem em seguida ao material ao qual ela se refere, e não antes, como nas outras ocorrências. A sua posição incomum, em 2:4, é, prova­ velmente, devida ao desejo do escritor de colocar Deus em primeiro lugar na nar­ rativa. De outra forma, pareceria que o Universo se gerou a si mesmo. Em 5:1, esta fórmula introduz os descendentes de Adão, em 6:9 a história familiar de Noé. Os filhos de Noé vêm em seguida, em 10:1, Sem em 11:10, Tera em 11:27. As gerações de Isaque (25:19) ocorrem entre as de Ismael (25:12) e de Esaú (36:19). Jacó é o último que tem as suas gerações relacionadas (37:2). Desta for­ ma, o material do livro de Gênesis é arranjado dentro dos títulos gerais de dez gerações. Sem considerações quanto à natureza de suas fontes, ele dá todas as 149


indicações de ter sido, em última análise, arranjado em um padrão unificado. 3. Gênesis e o Pentateuco Gênesis não se apresenta por si mesmo na Bíblia. Desde séculos pré-cristãos, ele tem sido considerado como o primeiro livro do Pentateiico. Os judeus o consi­ deravam como parte integrante da Tora (Lei), e não como um livro separado, e como o princípio da “Tora de Moisés” . A referência à autoria mosaica no Talmude (Baba Bathra, fólio 14b) é bem conhecida. Esta opinião antiquíssima merece uma análise cuidadosa. Obvia­ mente, os judeus não criam que Moisés escrevera todo o Pentateuco, pois a Josué se dá o crédito do relato da morte de Moisés, nos últimos oito versículos de Deuteronômio. A referência especial à “seção de Balaão” certamente reflete discussões entre os rabis, e talvez Moisés não fosse o autor desse material, reque­ rendo, desta forma, uma afirmação especial, da parte das autoridades. O nome de Moisés não ocorre no livro de Genesís, exceto nos títulos que apa­ recem modernamente nas versões oci­ dentais. Não há referências específicas à sua autoria nem no Velho Testamento nem em o Novo Testamento. Contudo, é claro que, quando a Bíblia fala na “lei de Moisés” (cf. Mal. 4:4; Dan. 9:13; Luc. 2:22; At. 15:5), está-se referindo a todo o Pentateuco, inclusive Gênesis, visto que os judeus daquela época consideravam esta parte da Bíblia uma unidade. To­ davia, esta não ê uma declaração irres­ trita de autoria, mas de relacionamento. O restante do Pentateuco trata do perío­ do em que Moisés viveu, enquanto Gênesis relata a história da redenção até um tempo vários séculos anterior à época de Moisés. Numerosas passagens indicam o ponto de vista de um escr >r posterior a Moisés (cf. 12:6: “Nesst tempo estavam os cananeus na terra” ; 13:8, a menção de Hebrom, que não parece assumir esse 150

nome senão na época de Josué, como em Jos. 14:15; 15:13; Gên. 22:14: “ donde se diz até o dia de hoje” ; 36:31: “antes que reinasse rei algum sobre os filhos de Israel” ; 40:15: “ da terra dos hebreus”). A relação de Moisés com Gênesis deve ter sido mais de compilador do que de autor, e o processo de redação deve ter conti­ nuado depois de sua época, com mate­ rial posto em ordem e adicionado. A opinião sólida dos escritores bíblicos é que Moisés é a principal figura da Tora. Desta forma, qualquer ponto de vista que procure ser coerente com a deles procurará a mão de Moisés em Gênesis, bem como em todo o Pentateuco.

II. Data e Autoria 1. Os Primórdios da Pesquisa Histórica Por mais de 1.600 anos sustentou-se, entre os cristãos, que Moisés era o autor do Pentateuco, e, portanto, de Gênesis. Contudo, freqüentemente foi evocado o problema se o livro de Gênesis fora colo­ cado na forma presente depois da época de Moisés, Irineu (antes de 130 d.C.) questionou a autoria mosaica dos pri­ meiros cinco livros do Velho Testamento, e o debate foi continuado por Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano e Jerônimo. O eminente erudito judeu Ibn Ezra (1088-1167) duvidava especialmente que Moisés escrevera T2:6 ou 22:14. O pri­ meiro ataque concatenado contra a opi­ nião tradicional ocorreu, porém, entre 1650 e 1250, liderado por Hobbes, Spinoza e Richard Simon. Em 1753, um físico francês, Jean Astruc, publicou uma obra que deu imcio à crítica moderna. Ele pensava que havia encontrado, em Gênesis, dois documentos principais, um empregando, para referir-se a Deus, Elohim, e o outro, Jeová (por isso cha­ mados “eloístico” e “jeovístico”) e, de­ pois, documentos menores. A Introduction to the Old Testament (1782), de Eichhom, fortificou a divisão imaginada


por Astruc, aduzindo argumentos oriun­ dos das diferenças de estilo. Astruç e Eichhron, embora separando Gênesis em vários documentos, diziam que Moisés era o autor do Pentateuco. Tudo isto parecia especulação inofensiva, mas era o início de uma nova direção na pesquisa bíblica. Em 1800, Alexander Geddes decompôs o Pentateuco em vários fragmentos sem conexão lógica ou cronológica. Vater (1802-1805) e Hartmann (1831) ensina­ ram que o Pentateuco consistia de vários fragmentos breves pós-mosaicos, que cresceram, até serem combinados em nosso Pentateuco atual. A ordem e a unidade das narrativas, contudo, eram aparentes demais para permitir que uma hipótese destas ganhasse aceitação. O caminho para uma nova hipótese foi aberto por De Wette, que, em 1805, escreveu um livro que marcou época a respeito da data em que Deuteronômio foi escrito, data que ele colocou pouco antes da reforma realizada por Josias, em 621 a.C. Bleek (1830), Tuch (1838), Staehelin (1843) e Knobel (1852) perten­ ceram a esta escola. De acordo com esta hipótese, o documento Elohim formou a base do Pentateuco sobre que o escritor da seção Jeová baseou o seu trabalho, ao fazer ulteriores adições e modificações. Esta escola também negava a autoria mosaica. O suposto documento original, quan­ do separado das chamadas adições jeovísticas, era incompleto, faltando-lhe as passagens atribuídas ao jeovístico. Além disso, na seção eloística havia referências a eventos registrados nas seções atribuí­ das à jeovística. Keil, Hengstenberg e outros defenderam a unidade e autenti­ cidade do Pentateuco. O termo “Hexateuco” então começou a ser usado, pois o livro de Josué havia chegado a ser consi­ derado como parte necessária da história primitiva, visto que continha evidências desses documentos.

2. A Hipótese Documentária Clássica Hupfeld (1853) afirmou que, além de Deuteronômio^ há três composições his­ tóricas na base do Pentateuco, duas eloísticas e uma jeovística. Desde 1853 até hoje, os eruditos têm insistido em quatro fontes principais (J, E, D, P). Esta teoria foi sustentada imediatamente por Schrader, Noeldeke, Dillman e outros. Em 1865, Graf transferiu toda a legis­ lação, como agora se encontra em Êxo­ do, Levítico e Números, para um tempo subseqüente ao exílio babilónico (586 a.C.). Ele, a princípio, afirmou que as seções históricas espalhadas através des­ ses livros eram mais antigas, porém depois as levou, de maneira semelhante, ao período posterior ao cativeiro. WelIhausen adotou esta teoria e colocou o importante documento Sacerdotal em cerca de 500 a.C. Desta forma há, de acordo com os eruditos modernos, qua­ tro partes componentes principais do Hexateuco: J. Narrativa do décimo século a.C. (c. 950), escrita em Judá, em que JHWH (Senhor) é o nome da divindade. Ela é chamada de javista ou yahwista. O autor é considerado como patriótico e é o mes­ tre do estilo de narrativa. E ele que inclui os detalhes de interesse humano que tomam tão inesquecíveis as histórias do Pentateuco. A sua concepção de Deus é definidamente antropomórfica (cf. a lista de Driver, de nada menos de 16 verbos, usados, pelo escritor, para des­ crever as atividades de Deus, p. xx e s.). Esta fonte se encontra em 2:4b-3:26; 6:1-8; 7:1-5,7-10,12,16b,22,23; 8:2b,3a, 6-12,13b,20-22; 9:18-27; 11:1-9; “e (exceto aqui e ali, um versículo ou dois — raramente mais alguns versículos — per­ tencem a E ou P)” 12; 13; 15; 16; 18; 19; 24; 25:21-34; 26; 27:1-45; 29:2-14; 29: 31-30:24 (a narrativa principal); 44; 46: 28-34; 47; 49; 50:1-11,14 (Driver, p. xii). E. Narrativa do oitavo século a.C. (c. 750), por um profeta de Efraim (Rei­ 151


no do Norte), usando Elohim (Deus) co­ mo o nome da divindade até Êxodo 3, quando o nome JHWH (Yahweh) foi re­ velado a Moisés. Depois desta ocorrên­ cia, ambos os nomes são usados para designar Deus. O autor é chamado de eloísta (anteriormente chamado de se­ gundo eloísta). Este documento não é descoberto até Gênesis 15, pois começa com Abraão. O eloísta tem mais interesse antiquário do que o autor do documento J. Para ele, Deus é sublime e majestoso e é concebido em termos menos antro­ pomórficos do que em J. No entanto, ele parece mais remoto dos homens. Por­ tanto, mais ênfase é dada em meios se­ cundários de revelação, como sonhos e anjos. O eloísta também parece estar mais cônscio de questões morais do que o anterior autor de J. Esta fonte se encon­ tra em 15:1,2,5; 20; 21:6-21,22-32a; 22; 1-14,19; 28:11-12,17,18,20-22; 29:1, 1523,25-28a,30; 30:1-3,6,17-20a,c,21-23; 31:2,4-18a,19-45,51-55; 32:1; 33:18b-20; 35:1-8; 37:5-11,19,20,22-25a,28a,c,2930,36; 40-42 (exceto algumas poucas passagens isoladas); 45 (com exceções semelhantes); 46:1-5; 48:1,2,8-22; 50:1526. Os documentos J e E, verificou-se esta­ rem intimamente relacionados em estilo e espírito e serem mais difíceis de serem desemaranhados. Afirma-se que eles fo­ ram fundidos em uma narrativa por um escritor que usava JHWH (Yahweh) para designar Deus, a quem Wellhausen chama de jeovista. A narrativa profética combinada é representada pelo símbolo JE. D. Autor de Deuteronômio, cuja mão também é detectada em partes de Josué; datado de antes de 621 a.C., durante o remado de Manassés. Há uma tendência mais recente de datar as passagens bási­ cas de Deuteronômio em período ante­ rior a Manassés. A fonte D, contudo, não se acredita que esteja em Gênesis. 152

P. Escritor (ou escola de escritores) sacerdotal, que compôs as seções legis­ lativas e a história ligada com as leis; datado de cerca de 500 a.C. O estilo do documento P é ineludível. (Cf. Gênesis 1 e o livro de Levítico.) Ele é formal, repe­ titivo, preciso e abstrato na descrição de Deus. No entanto, é minuciosamente concretado na descrição de olyetos de interesse sacerdotal, tais como o taberná­ culo ou métodos de sacrifício. O autor (ou autores) tinha uma mente legal, estando interessado especialmente em ge­ nealogias e detalhes estatísticos. Os seus personagens estão mais afastados da vida do que os de J e E. Ele difere tanto de J e E quanto o autor de Crônicas da atitu­ de dos escritores dos livros de Samuel e Reis. A maior parte do material não atribuído a J e E é contribuição do escri­ tor sacerdotal (cf. Driver para uma aná­ lise detalhada). O escritor ou escola de escritores, provavelmente, colocou o Pentateuco na forma atual, e particular­ mente Gênesis-JVúmeros. 3. Análise da Crítica da Forma No início do século, a análise de GrafWellhausen sofreu severos ataques da parte dos eruditos que eram da opinião de que o Pentateuco se havia originado de várias tradições orais e escritas. Essas tradições, ou strata, têm certas afinida­ des naturais de estilo e conceito, que dão a impressão de documentos. Grande par­ te dessa tradição remonta a épocas con­ sideravelmente anteriores às datas suge­ ridas por Wellhausen. Os escritores do Pentateuco não inventaram a história, mas, pelo contrário, escreveram o que era a tradição do povo hebraico daquela época, nairativas que haviam sido trans­ mitidas durante séculos. Os pioneiros neste campo foram Her­ mann Gunkel e Hugo Gressmann, que enfatizaram as formas estilizadas (Gattungen) através das quais os antigos, ao se expressarem, revelaram a situação vivencial original que existia na época em


que os relatos se originaram. Desta for­ ma, o contexto de uma passagem básica (perícope) não é apenas o seu contexto atual, na literatura do Velho Testamen­ to, mas a base original a qual ela perten­ cia. Embora a crítica da forma muitas vezes difira de Wellhausen, a respeito de como as fontes J, E e P vieram a existir, no cômputo geral, o agrupamento de materiais nessas três categorias ainda caracteriza essa abordagem. Há muito menos inclinação, contudo, de se dividir versículos em fragmentos e crescente dúvida de que a análise detalhada de S. R. Driver possa ser seguida ininter­ ruptamente através do livro de Gênesis. 4. Análise Histórico-Tradicional Tendo como pioneira a obra de Hermann Gunkel e Hugo Gressmann, esta metodologia foi ulteriormente refinada pelos eruditos escandinavos Ivan Engnell e Sigmund Mowinckel, bem como por Albrecht Alt e Martin Noth (Alemanha) e H. H. Rowley (Inglaterra). Estes eru­ ditos, embora usem a metodologia de crítica literária e de forma, estão mais preocupados com a história da literatura do que com a maneira como ela come­ çou. Eles se concentram em traçar as origens do material desde o estágio oral, através do processo contínuo de edição, até a forma final. Este ponto de vista final é da maior importância, pois revela o propósito que está por detrás da Escri­ tura, como ela agora se nos apresenta, a verdadeira razão por que, afinal de contas, a narrativa foi incluída na Bíblia (cf. John I. Durham: “Abordagens Con­ temporâneas do Estudo do Velho Testa­ mento” , p. 87-98 deste volume, para uma discussão mais detalhada). 5. A Situação Atual Durante a maior parte do período mo­ derno, os eruditos judeus estavam igno­ rando Wellhausen ou adaptando as suas interpretações ao sistema dele. Há pouco mais de uma década, um grupo de cultos

eruditos israelenses começou a atacar a abordagem de Wellhausen. Yehezkel Kauffmann1 afirmou que o Pentateuco é pré-exílico, e que a fonte P veio antes da D. Umberto Cassuto fez um ataque fron­ tal contra a hipótese documentária, em 1941. Nessa obra, ele disse ter destruído todos os argumentos sobre que se basea­ va essa hipótese. Em 1963, Marvin Pope revisou a obra dele, com esta observação: “Embora Cassuto pensasse ter remo­ vido os alicerces da hipótese documen­ tária, ainda há eruditos que não deser­ taram inteiramente dessa estrutura, mas estão ocupados em remodelar e redecorar o seu interior.” 2 No entanto, deve ser notado que ele disse que ainda há eruditos que não desertaram “inteiramente” dessa estru­ tura. Mesmo entre os defensores mais leais da hipótese, está em andamento uma revisão total de análise e de datas. A hipótese documentária não está sen­ do atacada apenas pelos israelitas, mas muitos de seus dogmas originais estão sendo questionados, por parte de muitas outras instâncias.3 Em 1969, Morton Smith observou que “ qualquer revisão honesta do estado presente dos estudos a respeito do Velho Testamento precisa reportar-se ao fato de que não há, de forma alguma, qualquer moda que esteja prevalecendo; a verdadeira situação não tem paralelo no estudo de qualquer outro grupo de documentos do mundo medi­ terrâneo antigo. O campo é uma cena de intensa pesquisa, resultando em desa­ cordo generalizado.” 4 No entanto, parece ainda haver algum consenso. Raramente é argumentado, 1 The Religion of Israel (Chicago: University of Chicago Press, 1960). 2 Journal of Biblical Literature, LXXXII, p. 360. 3 Na escola de Upsala (Suécia), o grupo de eruditos de Albright (cf. W. F. Albright, From The Stone Age to Christianity; Garden City: Doubleday & Co., Inc., 1957); O. Eissfeldt, The Old Testament, an Introduc­ tion (New York: Harper & Row, 1965); e Derek Kidner, Genesis ( “The Tyndale Old Testament Commentaries”); Downers Grove, Illinois: Inter-Varsity Press, 1968. 4 Journal of Biblical Literature, LXXXVIII, p. 19.

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por um lado, que Moisés j j ô s Gênesis em sua forma atual, embora haja grande controvérsia a respeito da extensão de sua contribuição. Por outro lado, a for­ ma Clássica da hipótese documentária é universalmente rejeitada, com os seus pressupostos hegelianos e sua tendência em direção à dissecação subjetiva da lite­ ratura em fragmentos. No entanto, mes­ mo Cassuto ou a escola escandinava precisa postular algo muito semelhante à posição Jiistôrica crítica tradicional. O que C. R. North disse, em 1951, ainda é verdade: “Parece bem claro que, se enterrarmos os ‘documentos’- precisa-, remos ressuscitá-los — ou algo muito semelhante a eles” .5 Nos anos futuros, esta intensiva inves­ tigação dos materiais que formam as fontes de Gênesis continuará. Conclusões ulteriores, provavelmente, serão alcança­ das a respeito do delineamento desses materiais. Novos esquemas de datação serão sugeridos, tanto para os estratos originais quanto para os materiais com­ pletos. No entanto, continua sendo ver­ dade que há dois grupos básicos de mate­ riais em Gênesis, que são geralmente designados como P e J (E como fonte distinta, e não como uma coleção limita­ da de materiais independentes, é cada vez mais questionada). Quando esta ter­ minologia é usada, não significa, neces­ sariamente, que Moisés escreveu ou não esta obra. Há claramente duas maneiras distintas de a história do passado de Israel ser contada. Ê necessário que o estudante perceba a sua presença, não importa como as date. Neste comentário de Gênesis, essas fontes primárias, por causa das conotações ambíguas da ter­ minologia clássica, serão chamadas de fonte Judia e fonte Sacerdotal. O mate­ rial comumente atribuído a E será ano­ tado como sendo da fonte Israelita do Norte, Precisa ser lembrado que o problem 5 The Old Testament and Modem Studj, H. H. Rowley. ed. (Oxford: Clarendon Press), p. 77.

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essencial, no estudo do Pentateuco, não é a existência de fontes para a sua redação, mas a sua inspiração e confiabilidade. No século XVII, Melchior Canus escre­ veu: “Não é tanto o problema material... se qualquer livro foi escrito por este õu aquele autor, conquanto que se creia que foi o Espírito de Deus que foi o seu a u to r .P o is não importa com que pena o Rei escreve a sua carta, se é verdade que ele a escreveu.” 6

III. A Natureza do Material O livro de Gênesis é dividido em três partes principais: capítulos 1-11; 12-36; 37-50. Cada uma dessas unidades trata de um diferente período da história e tem características distintivas. Os capítulos 1-11 se preocupam com eventos prime­ vos e temas característicos à literatura do Oriente Próximo antigo. Os capítulos 12-36 se concentram em tradições carac­ teristicamente hebraicas, que não se encontram em nenhuma outra parte do mundo, e os capítulos 37-50 contêm a história inigualável de José, através da qual há uma perfeita e dramática uni­ dade literária. Cada uma dessas divisões precisa ser analisada, se quisermos re­ conhecer as suas características salientes. 1. A História Primeva (1-11) As maiores ênfases desta seção, a cria­ ção e o dilúvio, têm paralelo na literatura do Oriente Próximo antigo, especial­ mente na da Babilônia (cf. Pritchard, ANET, para as fontes primárias). Duas obras literárias da antiguidade ajudam a lançar luz sobre os padrões de pensamento de Gênesis: 1) A Narrativa Babilónica da Criação7 Esta narrativa, chamada de Enuma Elish, começa com estas duas palavras, 6 Briggs, C. A ., GeneralIntrodnction to the Study of Hol; Scripture(New York: C. Scribner, 1899), p. 249. Para uma discussão mais ampla deste assunto pelo crit r deste comentário, cf. The Blbllcal World, Charv i . Pfesffer, ed. (Grand Rapids: Baker Book House, ’66) p 224-29


que em português são traduzidas como “quando acima” ou “ quando nas altu­ ras” . Esta grande epopéia era desconhe­ cida do mundo moderno até os anos 1848-1876, quando Austen H. Layard, Hormuz Rassam e George Smith desco­ briram fragmentos de sete tabuinhas de barro, sobre as quais estava escrita esta história, na biblioteca de Assurbanipal, rei da Assíria no sétimo século a.C. Data da Composição. — Não podemos ter certeza quando este poema foi com­ pletado em sua forma semítica clássica. Embora as cópias constantes da biblio­ teca de Assurbanipal sejam do sétimo século a.C., as evidências internas, tanto de língua quanto de contexto, colocariam a epopéia original em cerca de 1700 a.C. Semelhanças com a Narrativa da Cria­ ção no Velho Testamento. — O fenô­ meno mais surpreendente que se apre­ senta ao leitor é a sua conspícua corres­ pondência do esboço. Ambas as narra­ tivas têm a seguinte ordem: caos prime­ vo, vinda da luz, criação do firmamen­ to, aparecimento da terra seca, criação dos luminares, criação do homem e o descanso da divindade. Tem havido muita discussão a respeito da relação de Tiamate com a palavra hebraica tehom (abismo) em Gênesis 1:2. Contudo, há muita discordância a respeito de qualquer relação etimológica íntima. Parece melhor concluir que tehom, ao invés de ser derivado de Tia­ mate, se relaciona com uma palavra mais antiga, da qual ambas derivam. Todas as evidências confirmam que o quadro de um universo em três camadas, na Enuma Elish, se reflete em a narrativa hebraica. Em ambas as fontes, um fir­ mamento fixo divide as águas acima dele das que estão debaixo dele. Sob a terra há as águas do abismo. Desta forma, há três níveis de água, conservadas em limites determinados pelo firmamento e pela terra seca. A palavra hebraica que se traduz como firmamento tem a idéia de “algo martelado” como um metal que é

trabalhado. A palavra portuguesa sim­ plesmente significa algo firme ou sólido. Diferenças nas Narrativas. — Um poli­ teísmo cru permeia a Enuma Elish. Os primeiros estágios da criação são atri­ buídos à união sexual. De todas as for­ mas os deuses se comportam como os piores dos seres humanos. Um avô decide m atar os seus netos porque eles pertur­ bam o seu descanso. Inveja e ambição descontrolada lançam os deuses em cons­ tante torvelinho. Eles chegam a se em­ briagar quando deviam participar de uma assembléia séria, tendo as suas mentes claras e alerta. O contraste no Velho Testamento é tão aparente que dificilmente é necessário mencioná-lo. Ali, o Deus de Israel nunca é retratado com uma consorte do sexo feminino. Só pronomes masculinos são associados com a divindade. Até os anjos são sempre masculinos, ao contrário da opinião popular. Embora Deus seja re­ tratado algumas vezes em termos antro­ pomórficos, ele nunca é caracterizado pelos vícios ou pela atividade sexual do homem. Há uma unidade em sua natu­ reza que não dá lugar para um céu dividido. Em sua pessoa, ele transcende toda a natureza, e nunca faz parte dela. Relação do Gênesis com a Enuma Elish. — Não há dúvida de que existe uma relação genética entre as duas nar­ rativas. O problema reside em a natureza dessa relação. Obviamente, há várias opiniões. Primeiro, há os que procuram provar que os babilônios tomaram em­ prestado dos hebreus, mas isto dificil­ mente é provável, porque a epopéia ba­ bilónica é muito mais antiga do que a forma final da hebraica. Uma segunda teoria supõe que os he­ breus tomaram emprestado dos habilônios. Esta opinião tem sido muito popu­ lar desde a descoberta da Enuma Elish. Contudo, as correspondências não são tão notáveis, ao ponto de tomar essa conclusão inevitável. Na verdade, é errô­ 155


neo sugerir que os hebreus se aproveita­ ram da narrativa babilónica. É bem pos­ sível que tal literatura como a Enuma Elish tenha sido apropriada pela própria cultura hebraica. Tendo adotado como sua a língua cananéia, os hebreus assi­ milaram grande parte da cultura da re­ gião, ao mesmo tempo. Existe ainda outra posição: Ê provável que tanto o relato hebraico quanto o babilónico se tenham originado de uma fonte mais antiga do que qualquer um dos dois. De que outra forma pode ser explicada a diferença de nomes pessoais? Sabe-se muito bem que o relato sumério está baseado em uma história suméria mais antiga. Possivelmente, as duas nar­ rativas estão baseadas em temas antigos da criação, que remontam à época muito mais antiga na História. Se isto ocorreu, séculos de desenvolvimento independente teriam deixado menos numerosas cor­ respondências do que agora existem. Uma conclusão mais plausível seria que os patriarcas levaram consigo uma his­ tória da criação proveniente de antece­ dentes semelhantes aos da Enuma Elish. Contatos literários posteriores com a Babilônia modificaram ainda mais o relato hebraico e influenciaram a sua abordagem, tornando-a semelhante à história da criação que então circulava. Importância Para a Interpretação. — Comparando-se a narrativa hebraica com a babilónica, é óbvio que Deus estava operando na primeira, tanto para guiar como para inspirar. É igualmente óbvio que Deus não ditou as passagens para os escritores da Escritura. Eles ex­ pressaram a revelação que lhes sobre­ veio, nos padrões de pensamento comuns e significativos para a sua época. Preci­ samos ser livres para expressar a mesma revelação em termos que vão ao encontro da nossa geração de homerts, onde quer que eles vivam. Se a Escritura original falou, à geração com que se defrontou, em sua própria linguagem, precisamos constantemente estar alerta para permi­ 156

tir que ela fale de maneira igualmente significativa para a nossa. 2) A Epopéia de Gilgamesh: História Babilónica do Dilúvio Essa importante narrativa foi escrita, provavelmente, antes da Enuma Elish e conta a história de um herói, Gilgamesh, que sai em busca do segredo da vida eterna. Ele ouviu falar que certo homem, Utnapishtim, recebera a vida eterna por­ que preservara a raça humana durante uma grande inundação. Depois de mui­ tas aventuras, ele encontra o homem, que corresponde a Noé nos relatos bíbli­ cos. Gilgamesh é informado que Utna­ pishtim conseguira a imortalidade co­ mendo uma planta vivificadora. Depois de viajar até onde ela ficava, o herói a arranca e se prepara para comê-la. Po­ rém, cansado de sua longa jornada, Gil­ gamesh mergulha na água para se refres­ car. Então uma serpente sai da água e devora a planta. Desta forma a imorta­ lidade é perdida para a humanidade para sempre. Além da referência à serpente como agente que privou o homem da vida eterna, a epopéia de Gilgamesh corres­ ponde intimamente à narrativa do Velho Testamento, em sua descrição do dilúvio. Aqui as correspondências com a nar­ rativa bíblica são, obviamente, mais evi­ dentes do que qualquer passagem da Enuma Elish. É claro que a história hebraica depende da babilónica, ou ambas derivam de uma fonte comum. A última hipótese é mais provável, visto que os nomes, nas duas histórias, são tão diferentes. E também as duas versões diferem fundamentalmente em seus con­ ceitos de Deus. Além disso, na Babilô­ nia, uma antiga história de uma grande inundação é contada, para descrever as aventuras de seu herói frustrado; entre os hebreus ela é contada a fim de testificar acerca de como o Senhor controla a História. Como no exemplo da Enuma Elish, está claro que Deus não contou aos


hebreus a história do dilúvio, para que eles a pudessem escrever. Eles usaram uma narrativa que já possuíam, para ensinar o que Deus colocara em seus corações a respeito de seus tratamentos para com o homem. Portanto, a inter­ pretação válida precisa fazer distinção entre a revelação original e o veículo cultural através de que ela foi expressa. 3) Literal e Figurada? Quanto de Gênesis 1-11 é figurado e quanto é literal? Algumas pessoas diriam que, visto que as narrativas estão na Bíblia, todas elas devem ser interpre­ tadas literalmente. Não obstante, o leitor mais casual observará que a Bíblia con­ tém prosa e poesia. Faz parte da própria natureza da poesia a licença de ela ser interpretada com imaginação. Inter­ pretar um poema como prosa é fazer violência à forma de literatura usada por um escritor inspirado da Escritura. Igualmente desastrosa é a interpretação de uma passagem em prosa, como se fosse poesia. O problema é literário, e não teológico. A questão importante é descobrir a forma literária da passagem, e entendê-la sob essa luz. Se, mediante a declaração “A Bíblia é literalmente ver­ dadeira” , entende-se que sempre pode­ mos crer no que ela diz, então essa declaração é verdadeira. No entanto, a Bíblia nem sempre usa linguagem literal. Quando Jesus disse que os seus segui­ dores precisam comer a sua carne e beber o seu sangue, ele não pretendia ser en­ tendido literalmente, e sim, ser levado a sério. Todavia, Adão não é tanto um homem simbólico, como um homem representa­ tivo. Em Gênesis 4 e 5, ele tem filhos, a quem dá nomes. Gênesis 5 chega a apre­ sentar a sua idade quando morreu. Em sua tradição, o escritor havia recebido Adão como o primeiro homem, e ele usa a história para ilustrar ainda mais a nossa ascendência comum.

Pelo fato de uma passagem ser consi­ derada figurada, isso não significa que ela não seja verdadeira. Freqüentemente, mais profundas verdades são encontra­ das em literatura figurada do que em literatura literal. O fato de que algo aconteceu pode não ser tão importante quanto o que isso significa. Não obstan­ te ambas as coisas são importantes. O acontecimento é o pino em que está dependurado o significado. Um casaco é útil por si mesmo, quer dependurado em um pino, quer não; mas que utilidade tem o pino se não for para dependurar algo nele? A questão é: Como podemos saber se uma passagem é literal ou figurada? Há muitas pessoas que acham mais simples considerar tudo literalmente, enquanto outras a interpretam simbolicamente, quando têm dificuldade em crer nela. Como podemos ter a certeza de que forma literária temos diante de nós? Este problema não é simples, e precisa ser abordado com toda a humildade, reconhecendo que temos a responsabili­ dade de reconhecer a natureza do mate­ rial. Todavia, há algumas regras que ajudam nesse mister. (1) Devemos reco­ nhecer o tipo literário. Se é poesia, ela é certamente figurada. Algumas espécies de prosa são figuradas, como as parábo­ las ou alegorias. (2) O escritor pode dizer claramente que está usando linguagem simbólica. (3) Se a forma literária é incerta, devemos tentar primeiramente o significado literal, mas se ele não é ade­ quado, devemos tentar o figurado. Seja qual for a chave que abrir a passagem, provavelmente ela é a correta. No en­ tanto, é necessário ter cuidado, para não preferir uma interpretação à outra de maneira distorcida. Não há substituto para a sensibilidade à direção do Espírito Santo. 2. O Período Patriarcal (12-36) O tipo literário básico desta seção é a história de tradição (saga), que também 157


é ocasionalmente encontrada em 1-11. Essas narrativas contam fatos, nas vidas dos ancestrais do povo hebreu, que ha­ viam sido passados aos israelitas. Essas narrativas geralmente são contadas de maneira abreviada (tendo em média me­ nos de vinte versículos) e são arranjadas como pérolas em um cordão. São facil­ mente reconhecíveis, visto que cada nar­ rativa conta uma história completa. Exemplos notáveis deste tipo literário são Gênesis 12:10-20 (peregrinação de Abra­ ão ao Egito); 13:2-13 (Abraão e Ló); 15:1-21 (a aliança com Abraão); 20:1-18 (Sara e Abimeleque); 22:1-13 (o sacrifí­ cio de Isaque). Estas histórias circulavam separada­ mente, e foram coligidas, para o uso, no livro de Gênesis. Dizer que elas tiveram um longo período de transmissão não significa que não sejam narrativas histó­ ricas confiáveis. As velhas histórias no­ rueguesas a respeito de sua descoberta da América, segundo agora se sabe, preser­ vam a verdadeira história daquele perío­ do. Não há razão para se ver menos autenticidade nos relatos hebraicos. Naquilo em que a arqueologia tem sido capaz de investigar as histórias do Gêne­ sis, a respeito dos ancestrais dos hebreus, ela tem verificado a sua veracidade. Agora temos textos aos milhares que são contemporâneos do período da origem de Israel: os textos de Mari, do décimo oitavo século na Babilônia; os textos capadócios (décimo nono século); os textos de Nuzi da Babilônia (décimo quinto século); as tabuinhas de Alalakh (décimo sétimo e décimo quinto séculos); e os textos de Execração, do Egito (vi­ gésimo e décimo oitavo séculos). O conforto das viagens da Babilônia para Canaã é revelado nos textos de Mari. Nomes semelhantes aos dos pa­ triarcas são comuns. Os textos de Exe­ cração, do Egito, indicam que a Pales­ tina estava aberta para uma nova popu­ lação, naquela época. O território atra­ vessado por Abraão, em Canaã, não era

uma região de paz em sua época. As condições sociais das épocas reveladas nos textos de Nuzi são as retratadas nas histórias patriarcais, e não as de uma época posterior (cf. Speiser, p. xl-xliii). Embora a arqueologia não tenha pro­ vado a existência de Abraão, ela demons­ trou que as histórias a respeito dele têm um sabor de autenticidade, reforçando, desta forma, a historicidade das narra­ tivas que se referem a ele. A transmissão das histórias de Israel, a respeito de seus primórdios, certamente teve controles mais fortes do que simplesmente a reci­ tação popular de contos do passado ao redor de fogos de acampamentos tribais. Grande parte do material deve ter sido preservado em santuários, e, desta forma, a sua integridade foi preservada. Estas histórias de tradição natural­ mente ostentam a marca de sua origem na História e de sua transmissão através dos séculos. O ponto mais saliente a ser reconhecido, todavia, é de que o escritor bíblico de Gênesis recebeu essas histórias em sua tradição, e as usou em seu teste­ munho. Ele não as modificou, para se coadunarem com a sua época ou seus conceitos. Tendo recebido as suas reve­ lações de Deus, ele usou as antigas his­ tórias como veículo para expressar a ver­ dade que Deus havia colocado em seu coração. A interpretação válida de Gê­ nesis precisa distinguir entre a revelação original e a história usada para expressála. O escritor não supõe um dilúvio uni­ versal; a sua tradição ',á o declara de antemão. Até que ponto o acontecimento origi­ nal foi remodelado na transmissão da tradição? Quão extensivo foi o dilúvio, realmente? Na verdade, quanto tempo viveu Matusalém? Estas interrogações têm a ver com a diferença entre Geschichte (história interpretada) e Historie (acontecimentoem si). Infelizmente, não temos as ferramentas críticas para deter­ minar a resposta. Da maneira como o livro de Gênesis está agora, ele é Geschichte.


Alguns teólogos presumem que ele está baseado em Historie confiável. Outros eruditos enfatizam a autoridade dos ensi­ namentos exarados pela passagem, e não a sua historicidade. A posição deste co­ mentarista, visto que as passagens estão na Bíblia, cuja autoridade foi verificada por Jesus Cristo, em seus ensinos e em sua ressurreição, é que fazemos bem em presumir a historicidade das narrativas, até que seja provado, além de qualquer dúvida (o que ainda não aconteceu), o contrário; mas também reconhecer que, se puder ser provado que certas perícopes não são históricas, a autoridade de seu impulso básico não será afetada. Elas assim mesmo continuam sendo o veículo da revelação, e não a revelação propria­ mente dita — tesouro em vasos de barro. 3. A História de José (Gên. 37:1-50:26) A história de José é o melhor exemplo de narrativa histórica de Gênesis. Ela difere das outras histórias patriarcais pelo fato de não ser uma coleção mal alinhavada de tradições independentes, mas uma unidade dramática, com uma trama claramente concebida. As prin­ cipais fontes, Judia e Israelita do Norte, foram tão bem fundidas em uma só estrutura literária, que é difícil, se não impossível, desemaranhá-las. Como de costume, o material Sacer­ dotal é facilmente reconhecido, mas é fragmentário, e parece ter sido imposto à narrativa básica. Ele é geralmente identificado em 37:1,2a; 41:46; 46:6-27; 47:5,6a, 7-11,27b,28; 48:3-6,7; 49:1a, 28b-33; 50:12,13. No capítulo 38, a história de Judá e Tamar é claramente uma inserção edito­ rial da tradição Judia, e 49:1-27, a bên­ ção de Jacó, é uma unidade anterior independente. O restante do material é a história original de José. A despeito das dificuldades de análise, várias unidades têm sido atribuídas a fontes diferentes, com a alegação de que a diferença do

material anterior reside na presença de longas seções de cada um, e não de seções curtas alternadas (cf. Driver, Skinner, Speiser, von Rad). Desta forma, todo o capítulo 39 é atribuído à fonte Judia, os capítulos 40-42 à Israelita do Norte (exceto 41:46a, Sacerdotal, e 42: 27,28, Judia), e os capítulos 43-44 nova­ mente à Judia. Com exceções de menor importância, Driver atribuiu o capítulo 45 ao relato Israelita do Norte, mas Speiser acha impossível separar as fon­ tes, nesta passagem, e designa o material como JE. Os capítulos 37 e 46-50 são comumente considerados como compos­ tos, mas, comparativamente, mais fáceis de desemaranhar. Os eruditos estão cada vez mais céti­ cos, todavia, a respeito de sua capaci­ dade de separar os materiais das fontes Judia e Israelita do Norte, na história de José. O problema é que os critérios usu­ ais para fazer distinção entre os relatos das fontes Judia e Israelita do Norte não aparecem aqui: vocabulário, estilo, teo­ logia e o uso dos nomes divinos Yahweh e Elohim. O nome “Yahweh” (Senhor) aparece apenas oito vezes, em toda a seção, e somente em um capítulo (39). No entanto, o estilo e a teologia deste capítulo são os mesmos das seções que usam “Elohim” (Deus). Uma base prin­ cipal para se identificar as duas fontes é o uso das palavras distintivas (“ Israel” na Judia, “Jacó” na Israelita do Norte e na Sacerdotal; duas palavras diferentes para o saco de grãos carregado pelos irmãos). Os nomes de Israel e Jacó, todavia, são usados indiferentemente em 46:2 e 48:2. A palavra judia supostamente exclusiva para designar o saco de cereal (’amtachat) é encontrada no meio de uma re­ conhecida passagem Israelita do Norte (42:27,28), que introduz a necessidade de uma separação um tanto arbitrária desses versículos do restante do capí­ tulo. O método primário de se distinguir entre as duas fontes, contudo, é enfatizar 159


as aparentes contradições das duas nar­ rativas — declarações que os expositores mais conservadores defendem também fortemente como compatíveis. Precisa ser admitido que a análise dos materiais das fontes Judia e Israelita do Norte, nos capítulos 37-50, está hoje em um estado de alteração contínua. Sem se considerar a sua história, o material é hoje uma unidade tal que precisa ser tratado como um todo. Esta unidade pode ser devida, como o suspeita Skinner, e Eissfeldt sustenta, a uma fonte original, da qual dependem os relatos Judeu e Israelita do Norte» ou a história pode ser uma obra literária independen­ te, que, embora sofrendo a influência das fontes Judia ou Israelita do Norte, não segue o material de nenhuma delas muito de perto. A narrativa de José tem sido avaliada, por Driver, como satisfazendo, inques­ tionavelmente, os padrões de drama for­ mulados por Aristóteles: “reversão” de um efeito pretendido e “reconhecimen­ to” pelo herói atribulado. Ela também é comparada com a história de Ulisses, contada por Homero, em relação a que, em muitos aspectos, é superior, em ter­ mos de conceito. Nesta narrativa, há um tema básico: a soberania de Deus (45:4 e ss.; 50:19,20), mas esse tema é seguido por uma história “secular” , que raramente menciona o lugar de Deus nela. Não há milagres propriamente ditos, e, em contraste com as histórias anteriores, os homens de­ sempenham os papéis principais, com Deus sempre em segundo plano. No en­ tanto, Deus determina o resultado. O herói é José, o homem ideal. Como observa Skinner, ele é “o filho ideal, o irmão ideal, o servo ideal, o administra­ dor ideal” . Isto entra em agudo contraste com o retrato geralmente apresentado, de um patriarca, com todos os seus defei­ tos, bem como com todas as suas virtu­ des. Por que o quadro é tão radical­ mente diferente? T. G. Smothers, notan­ 160

do a correspondência entre as histórias de José e a literatura de sabedoria, tanto em termos de vocabulário, quanto de pontos de vista, chegou à conclusão de que a história fora, obviamente, contada como instrumento de ensino, para co­ municar, em forma de narrativa, os pa­ drões morais do homem sábio.8 As vir­ tudes básicas ensinadas pelo livro de Provérbios são encontradas aqui nas histórias de José: sabedoria, temor do Senhor, respeito pelos anciãos, autodisciplina e paciência. Este uso da narrativa explicaria por que José sempre se conduziu de maneira tão exemplar. A história era contada a fim de encorajar comportamento seme­ lhante. Contudo, há nuanças que não devem ser ignoradas. O mexerico de José para o seu pai não era uma característica nobre nem o foi o seu casamento com a filha de um sumo sacerdote egípcio, mas isso foi deixado para as gerações poste­ riores discernirem. A história de José, especialmente o capítulo 41, revela um surpreendente conhecimento dos costumes e da cultura egípcia, que só podiam ter vindo de uma tradição autêntica, talvez do próprio Moisés (cf. comentários sobre 50:1-14). O escritor, conhecendo de alguma forma que Faraó e sua corte se barbeavam totalmente, fez com que José se bar­ beasse (cabelo e barba) antes de entrar na presença de Faraó. O posto que Faraó deu a José, agora se sabe ter sido o ofício típico de vizir (41:43). O vizir era cha­ mado de o “portador do selo do Rei” , e a José foi dado o selo real (41:42). Outro costume egípcio era o presente de uma corrente de ouro. Os nomes associados com a família em que José se casou são tipicamente egípcios (41:45). O grito de “Abrek” diante de sua carruagem é tão egípcio que nem os eruditos hebreus nem os arqueólogos modernos têm certe­ 8 “The Joseph Narrative and Wisdom” (tese n&o publicada: The Southern Baptist Theological Seminary, Louisville, Ky., 1964).


za quanto ao seu significado. Em 41:1-8, há três palavras emprestadas do egípcio, traduzidas como “Nilo” , “carriçal” (“canas” , na tradução Novo Mundo) e “adivinhadores” 9,. Quem era o Faraó diante de quem José apareceu, aquele que “conhecia José” ? 0 indício mais forte é o fato de que, em 41:39, ele se referiu a Deus com reve­ rência óbvia. Os faraós egípcios nativos se consideravam como deuses. Isto suge­ re que este faraó, provavelmente, era um governante hicso (c. 1720-1750 a.C.). pois esses governantes hicsos eram es­ trangeiros, de origem semelhante à dos hebreus. Isto também explicaria a sua cordialidade para com José e sua família. Os dados cronológicos do Velho Testa­ mento favorecem esta era (cf. Êx. 12:40; 1 Reis 6:1). Porém, tanto as evidências arqueo­ lógicas modernas quanto os dados genea­ lógicos do Velho Testamento (cap. 46; Êx. 6; Núm. 26) favorecem uma data posterior, durante a era Amarna (c. 1417-1362 a.C.). (Veja o comentário so­ bre Êxodo, neste volume, para discussões mais detalhadas.) Speiser (p. 316) é exato, quando obser­ va que “a narrativa que está diante de nós fornece uma base fraca demais para que dela tiremos uma dedução histó­ rica” . Isto também pode ser dito em relação às evidências arqueológicas. O debate continua, sem amainar.

IV. Interpretação do Livro de Gênesis Quando um homem diz que crê que a Bíblia é a Palavra de Deus, isso pode significar muito pouco. A questão básica é o método usado para interpretá-la. É bem comum o povo ler na Bíblia o que realmente crê ou obter dela o que deseja ouvir. 9 Cf. J. Vergote, Joseph en Egypte (Louvain, 1959), para uma discussão completa a respeito dos elementos egí­ pcios autênticos dessa história.

1. Metodologia Errônea Na história da Igreja, foram usadas, prejudicialmente, muitas abordagens de interpretação, mas algumas delas apre­ sentam mais perigos do que valor posi­ tivo. Alegoria. O verbo grego que significa alegorizar originalmente quer dizer “fa­ lar diferentemente” . Uma alegoria, por­ tanto, é um discurso figurado, em que as idéias abstratas são personificadas. Onde há alguma alegoria na Bíblia, como em Juizes 9:7 e ss. ou Ezequiel 16:1 e ss., ela deve ser interpretada como tal. A refe­ rência, feita por Paulo, em Gálatas 4:21 e ss. tem encorajado o uso do método alegórico. Neste exemplo, Agar era um símbolo, e o Monte Sinai, outro. Paulo diz ao povo que não são filhos de escra­ vos. No versículo 24, ele diz: “O que se entende por alegoria.” O método alegó­ rico ignora o contexto histórico de uma passagem. Embora Paulo use aqui o método rabínico, ele não ignora o con­ texto. Allegoroumena não é um substan­ tivo, mas um particípio. Paulo disse: “Isto é falar em outro sentido.” Ele admite, com esta expressão, que não está apresentando o significado histórico lite­ ral da passagem, mas procurando encon­ trar a idéia principal aplicável. Ele não nega o fato de Agar nem o fato do Monte Sinai, mas procura descobrir o significa­ do básico, ao dizer: “De modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre.” Ele cria uma alegoria, em vez de interpretar a passagem como alegoria. Ao alegorizar, a Bíblia torna-se, por toda parte, a serva de seu intérprete. Gênesis 14 é tão significativo para nós quanto Mateus 1. Se alguém alega que todo o Velho Testamento é alegórico, então palavras encontradas em qualquer' parte da Escritura são tão importantes quanto as encontradas nas outras partes. Onde o sentido histórico de uma passa­ gem é negligenciado, não pode haver nenhum princípio regulador válido que governe a sua interpretação. 161


Espiritualização. Neste método de interpretar as Escrituras, a pessoa tam­ bém ignora o seu sentido histórico, ten­ tando ler verdades neotestamentárias no Velho Testamento. Tertuliano, ao fazer comentário a Amós 2:6 — “Vendem o justo por dinheiro, e o necessitado por um par de sapatos” — disse que esta era uma predição feita por Amós de que Judas iria vender Jesus por um preço. Na Epístola de Bamabé, que foi escri­ ta em cerca de 100 a.C., o escritor, ao referir-se a Gênesis 14, disse que os 318 homens treinados (que se escreve TIE em grego) representam a cruz. O “T” era a cruz, e o “ IE” (as duas primeiras letras do nome de Jesus em grego) prediziam que Jesus iria morrer na cruz. Ser culpa­ do de espiritualizar é fazer do Velho Testamento um enigma, para o qual supostamente o Novo Testamento supre a resposta. Tipologia. O tipo (cópia, figura), da maneira como é visto pelo tipologista costumeiro, é um desvendamento divi­ namente planejado, de eventos futuros, revelados em uma pessoa, lugar, acon­ tecimento, objeto ou instituição. Por exemplo, Abraão é figura ou tipo de Jesus. Em Hebreus 9:23 e ss. e em He­ breus 10: 1 , não podemos negar a apli­ cação prática desta teoria. Mas o povo de Gênesis não era simples figura. Eles eram pessoas reais. Contudo, há outra tipologia, que é mais realista. A idéia que é a princípio apenas implícita, mais tarde se torna clara. Há uma definida seme­ lhança de impulso, quando o primeiro e o segundo exemplo são comparados. Von Rad emprega uma abordagem seme­ lhante, em seu comentário a Gênesis. Apogese. O estudante deve tomar cui­ dado com a falácia da eisegese, isto é, de ler na Escritura o que realmente não está ali, mas também deve tomar cuidado com um erro ainda mais mortal, que podemos chamar de apogese, isto é, deixar de tirar da passagem o seu verda­ deiro significado. Embora a erudição 162

histórica tenha advertido corretamente contra o primeiro erro, ela tem dema­ siadas vezes se caracterizado por ser useira e vezeira do segundo. É signifi­ cativo que Jesus nunca advertiu os ho­ mens a respeito do perigo de verem mais dele no Velho Testamento do que está ali, mas de verem menos: “Õ néscios, e tardos de coração para crerdes tudo o que os profetas disseram!” (Luc. 24:25). 2. Uma Hermenêutica Bíblica Básica: Princípios de Interpretação O único corretivo confiável para os erros a que os métodos acima citados estão sujeitos é uma exegese sadia, histó­ rica. Deve-se tentar entender as Escri­ turas em seu contexto original. Reconhecer a Situação Vivencial. — A Escritura precisa ser estudada a fim de se descobrir o que ela significou para a sua própria geração. Só depois que aprende­ mos o que ela disse ao povo de sua época, ela pode falar a nós com clareza. Este pressuposto está por detrás de todos os estudos históricos minuciosos deste co­ mentário. Isto é verdade especialmente em relação aos fatores sociais e econô­ micos. Sabemos muito a respeito dessas condições durante a época dos patriar­ cas, pois os registros antigos dos babilô­ nios, cananeus, egípcios, hititas e hurianos têm sido recuperados aos milhares. É especialmente importante localizar os patriarcas na época em que viveram, pois seria irreal julgá-los pelos padrões morais que passamos a reconhecer pela lei de Moisés, que veio muito mais tarde, e especialmente pelos padrões cristãos. De acordo com Speiser (p. xl), quando Abraão anunciou que Sara era sua irmã, ele não estava meramente protegendo-se, estava também estabelecendo os direitos de sua esposa. Pela lei huriàna, uma esposa gozava de proteção especial se fosse declarada irmã de seu marido, quer isso fosse verdade, mediante as linhagens sanguíneas, quer não. Semelhantemente, ele assevera que era costume aceito um


pai declarar em testamento o direito de primogenitura para um filho favorito, quer ele fosse o mais velho, quer não. A sugestão de Sara para que Abraão mantivesse relações sexuais com a sua escrava também era costume comum da época. A criança seria o filho legal da esposa principal. O fato de Abraão ser instruído a sacrificar o seu filho Isaque deve ser visto à luz dos padrões éticos da época. Por esses é que ele deve ser julga­ do. Sem dúvida, os homens de hoje em dia não gostariam de ser julgados pelos padrões e pela consciência mais fina­ mente sintonizada de amanhã. Julgados pelos padrões de sua época, os patriarcas saíram-se muito melhor do que a maioria de nós, que, a despeito de nosso conhe­ cimento mais amplo, não nos elevamos tanto. Identificar a Forma Literária. — Só depois que o tipo de literatura é identi­ ficado é que a literatura pode ser adequa­ damente interpretada (cf. comentários acima, a respeito das três principais partes de Gênesis). Se uma passagem tem o objetivo de ser figurada, e nós a interpretamos literalmente, pecamos con­ tra ela. Sobretudo, se ela é história, e nós a espiritualizamos, erramos de maneira semelhante. O tipo literário é o veículo da revelação. Se o seu caráter funda­ mental for ignorado, nunca poderemos abrir a porta, e descobrir o seu tesouro. Descobrir o Motivo. — Embora cada palavra, em uma determinada perícope, seja importante e contribua para uma compreensão do significado, o propósito do intérprete deve ser descobrir a preo­ cupação primária da passagem. Isto é feito de maneira mais perfeita verifican­ do-se o que ela significava em seu ambi­ ente original. Para quem ela foi escrita, e por quê? O que ela dizia àquelas pes­ soas? Quando as respostas destas inter­ rogações são definidas, as chaves do ímpeto básico são difíceis de ignorar. Contudo, quando há pequena concor­ dância, entre os eruditos, a respeito do

ambiente original, pode-se ainda per­ guntar: Não importa a quem foi escrita ou quando, qual é o objetivo essencial da passagem? Fazer esta pergunta é evitar demorar-se demasiadamente em concei­ tos periféricos, e colocar-se na torrente central da revelação bíblica. É óbvio, por exemplo, que o motivo de Gênesis 1 é que Deus fez o homem à sua própria imagem, para representá-lo neste mundo. Os que são versados em ciência precisam debater a importante questão de Gênesis e a ciência. A pessoa comum fará bem, entretanto, em escutar com atenção o debate, mas depois rela­ cionar o problema ao ímpeto de Gênesis 1: Não importa como ou quando o ho­ mem foi criado, Deus o criou, e o homem é responsável diante de Deus pelo que faz com a sua vida. Os cientistas podem saber mais acerca do mundo natural do que o escritor de Gênesis, mas assim mesmo eles são responsáveis diante do Deus desse escritor. A principal ênfase deste comentário se centralizará no ímpeto básico de cada perícope. Os assuntos críticos históricos serão enfrentados realisticamente, mas não se permitirá que um exame deles obscureça o significado mais importante de uma passagem. Pelo contrário, tais estudos serão realizados a fim de ajudar o leitor a entender a mensagem.

V. Os Ensinamentos Religiosos de Gênesis 1. Importantes Contribuições das Fontes As três fontes básicas de Gênesis va­ riam em sua ênfase a respeito da natu­ reza de Deus. A narrativa da fonte Judia fala de Deus em termos altamente antro­ pomórficos: Ele forma o homem com as suas mãos como um oleiro molda o bar­ ro; ele faz Eva de uma costela tirada de Adão; ele anda pelo jardim na viração do dia; ele “ desce” para ver a torre de Babel. Não obstante, ele é ta m b é m o Deus da criação e o Senhor da História. 163


Não se pode cometer o erro de supor que estas descrições podem ser coloca­ das de lado, como irrelevantes para a nossa era mais sofisticada. A ênfase é exercida vigorosamente sobre o relacio­ namento íntimo que pode haver entre Deus e seu povo. Ele não é o “movedor inamovível” da filosofia grega, mas o Criador que se preocupa com o seu mun­ do e que está intimamente envolvido em tudo o que está acontecendo aqui. A fonte Israelita do Norte é menos extensiva do que a Judia e muito menos unificada em sua perspectiva. Ao con­ trário da narrativa da fonte Judia, ela não fala de Deus como Yahweh (Se­ nhor) antes de Êxodo 3:14 e s., quando ele apareceu a Moisés. Esta fonte está interessada em esclarecer alguns dos problemas morais associados com as his­ tórias tradicionais dos patriarcas (os materiais começam com Abraão). Nela Deus é mais remoto de um relaciona­ mento direto com o homem. As suas experiências com Deus são retratadas em termos de sonhos e de visitações angé­ licas. A grande obra-prima desta fonte é o capítulo 22, a história em que Abraão sacrifica Isaque. Aqui, as exigências de Deus, de obediência completa, são apre­ sentadas claramente. A narrativa Sacerdotal apresenta Deus como transcendente e santo. Logo no começo, no capítulo 1, Deus é retratado criando (um ato exclusivo de Deus) pelo simples ato de proferir a sua palavra. Daquele momento em diante ele está no controle absoluto do curso da História. O interesse da fonte em genealogias vem de duas direções: o interesse sacerdotal por esses registros, devido ao seú dever, e o processo de funil, pelo qual Deus moveu-se da humanidade em geral até Abraão em particular. Foi a escola Sa­ cerdotal que editou o livro de Gênesis, e a sua mão é vista claramente em sua estrutura genealógica. O interesse da narrativa nos acontecimentos cósmicos e 164

mundiais baseia-se no lugar que Israel ocupava ou devia ocupar na História. O processo da História é seguido desde a criação, avançando para o dilúvio, a chamada de Abraão, os seus anos desfru­ tando Canaã e a peregrinação ao Egito. Depois, em Êxodo 6:2 e s., chega-se ao clímax, quando Deus apareceu a Moisés e disse: “Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó, como o Deus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome Jeová, não lhes fui conhe­ cido.” Todos os acontecimentos regis­ trados em Gênesis haviam sido prepara­ tórios de uma nova revelação da natu­ reza de Deus a Moisés. Foi então que o verdadeiro caráter de Deus foi revelado. O Deus que apareceu a Moisés era o mesmo Deus que falara aos patriarcas, mas a Moisés ele apareceu em uma nova dimensão. As diferenças de ênfase, nessas narra­ tivas, não obscurecem a sua concordân­ cia básica a respeito da natureza de Deus e de sua relação para com o homem. Foi ele que fez da humanidade uma unidade e que considera o homem responsável pela direção de sua vida. O homem tem resistido obstinadamente aos esforços de Deus para que ele viva de acordo com a vontade divina, mas Deus, inexoravel­ mente, avança em direção ao seu alvo para com o homem: a livre expressão da imagem de Deus, que lhe foi dada por ocasião da criação. 2. O Deus dos Patriarcas O problema mais sério, no fato de o livro de Gênesis retratar Deus, é se os conceitos da natureza de Deus que os seus escritores esposavam eram com­ partilhados pelos próprios patriarcas. Èm um ensaio definitivo a respeito de “The God of the Fathers” (O Deus dos Pais) Albrecht Alt assumiu a posição de que havia tanto diferenças quanto seme­ lhanças. 10 Ele negou que os patriarcas 10 Cf. Essays In Old Testament History and Religion (Garden City: Doubleday & Co., 1967).


chamassem o seu Deus de “Yahweh” , mas cria que cada patriarca chamava o seu Deus pessoal por um nome diferente (“O Deus de Abraão” , “ o Temor de Isaque” , “o Poderoso de Jacó”). Só bem depois estes três “ deuses” foram com­ binados sob o título de Yahweh. Porém, a despeito do fato de que os “ deuses” de Abraão, Isaque e Jacó tinham nomes diferentes, a espécie de “ deus” era a mesma, diferindo radicalmente dos deuses de Canaã, que eram sempre rela­ cionados com um lugar. O “ deus dos país” estava ligado a cada tribo em sepa­ rado por um pacto pessoal, e ia com eles onde quer que viajassem. Desta forma, ali estava a semente que levaria ao Deus da criação, que se relacionaria pessoal­ mente com a humanidade, onde quer que ele estivesse. Sob o título de Yahweh, adotado na era mosaica, estes velhos conceitos foram unidos e ampliados até o ponto como os temos hoje. A narrativa de Gênesis apresenta um quadro diferente. A fonte Judia diz que os homens clamaram ao “nome de Yahweh” antes do dilúvio (4-'26). Isto não significa, necessariamente, que o nome propriamente dito foi usado, pois não existe evidência arqueológica segura de que esse título fosse usado antes da era mosaica, mas que o mesmo Deus que era adorado pelos patriarcas mais. tarde apareceu a Moisés. Até as narrativas bíblicas (Israelita do Norte e Sacerdotal) sugerem que Deus era conhecido ante­ riormente por um nome diferente, mas era o mesmo Deus. Abraão mandou buscar, em Harã, uma esposa para Isaque, da mesma for­ ma como Jacó voltou lã para buscar a esposá, não apenas porque eles eram parentes, mas porque compartilhavam da mesma herança religiosa. Labão usa o nome de Yahweh, que só os crentes^ podiam usar (24:31,50,51). Alt afirma que o Deus de Jacó e o Deus de Labão são deuses diferentes, visto que na decla­ ração “O Deus de Abraão e o Deus de

Naor, o Deus do pai deles, julgue entre nós” (31:53) o verbo está no plural. Desta forma, a tradução seria “os deu­ ses... julguem” . Contudo, o nome dado a Deus (Elohim) algumas vezes usa o verbo no plural, por concordância gramatical (cf. 35:7), mesmo quando se está falando do Deus de Jacó. Em 31:49, Labão refe­ re-se a Deus como Yahweh (o Senhor), coisa que não é permitida a um incrédulo fazer, segundo as fontes bíblicas. Ao con­ trário de Alt, Labão não jura pelo seu deus e Jacó pelo seu. Só Jacó jura, e o faz pelo Deus de seu pai Isaque. Parece, portanto, que “o Deus dos Pais” era o mesmo que o Deus de Moisés e o da narrativa patriarcal. Ele atendia por diferentes nomes, em épocas dife­ rentes, e os ancestrais hebreus também adoravam outros deuses ao mesmo tem­ po (Jos. 24:2,14 e s.). Abraão não foi chamado para abandonar o Deus de seu pai Terá, mas para purificar a fé. Moisés não seguiu um novo Deus, más foi-lhe dada uma revelação maior do Deus de seus pais, que desde então desejou ser chamado e conhecido como Yahweh. 3. A Mensagem Religiosa de Gênesis Os escritores de Gênesis falam não apenas da natureza de Deus, mas, ainda mais, com as implicações dessa reálidade na vida do homem. Se o homem está fora da comunhão com o seu Criador santo e justo, existe alguma forma de reatá-la? Que evidências há de que Deus está ainda interessado no mundo que ele for­ mou, e que ele está fazendo a este res­ peito? O ímpeto das perícopes de Gênesis não apenas nos leva para a torrente prin­ cipal da revelação bíblica, mas também nos propicia orientação para meditação em Deus e para agirmos por sua direção. As passagens que enfatizam temas signi­ ficativos sempre acarretam implicações corolárias para a vida do homem. Os Propósitos de Deus (cap. 1). — Embora Deus tenha criado o Universo e entrado em seu dia de descanso, ainda há 165


trabalho para o homem realizar. A sua tarefa é levar toda a natureza ao domí­ nio de Deus (fazer com que ela realize o propósito divinamente pretendido), mas primeiramente o homem precisa, ele mesmo, andar nessa vontade divina. A Condição Decaída do Homem (caps. 2 e 3). — A descrição da recusa obstina­ da de Adão em reconhecer a sua condi­ ção de criatura chama a atenção para a rebelião de todos os homens contra Deus e para a sua alienação dele, com o mes­ mo resultado desastroso. A Ira de Deus (caps. 4-8). — Em sua separação de Deus, a vida do homem é algumas vezes caracterizada por atos religiosos sinceros, porém inaceitáveis (cap. 4), por mera existência biológica (nascer, ter filhos, cap. 5), ou por imora­ lidade grosseira (cap. 6). O primeiro padrão resulta em alienação entre os homens, que diferem acerca de religião, o segundo na ausência de qualquer senso de propósito significativo, e o terceiro em julgamento direto da parte de Deus. Desta forma, a ira de Deus se manifesta tanto em conseqüências naturais como em ação pessoal específica. A Ünica Família dos Homens (caps. 9 e 10). — Os sobreviventes do dilúvio, todos pertenciam a uma só família. To­ dos os homens que viveram sobre a terra desde então são descendentes deles, e, desta forma, se relacionam uns com os outros por parentesco. Por conseguinte, nenhuma raça de homens é, por natu­ reza, inferior a qualquer outra. A Impropriedade da Ira (caps. 9-11). — Embora o dilúvio tenha eliminado os piores dentre os pecadores, ele não rea­ lizou nenhum resultado positivo. Os so­ breviventes continuaram a demonstrar as suas inclinações pecaminosas: Noé, por ter exposto inconscientemente a sua própria vergonha; Cão, expondo cons­ cientemente a fraqueza de seu pai; e os edificadores de Babel, lutando para alcançar os seus alvos distorcidos. 166

A Intervenção de Deus (caps. 9-12). — O Senhor não deixa o homem por sua própria conta. Ele está julgando-o (Cão e Noé), perturbando-o (Babel) ou cha­ mando-o (Abraão). Salvação Pela Fé (caps. 12-21). — O único cantinho para o homem voltar a uma existência que tem significado sob os auspícios de Deus é pela fé. Um homem de fé é aceito, não por causa de seus méritos, mas por causa do que agora Deus pode fazer com ele. A Natureza da Fé Salvadora (caps. 15, 22). — Embora a salvação tenha início com uma aberta responsividade para com Deus (cap. 15), o supremo teste de sua validade não é tanto o que o homem crê que Deus possa fazer por ele, quanto o que ele está disposto a dar a Deus (cap. 22). O Perigo da Apostasia (cap. 24). — Quando Abraão proibiu que Isaque vol­ tasse a Harã, estava consciente do risco quanto ao cumprimento da promessa, se Isaque não voltasse da terra que Abraão fora vocacionado a abandonar. Para o povo de Deus não pode haver retomo. A Presciência de Deus (caps. 25-28). — Jacó e Esaú tinham que descobrir a sua maneira de funcionar da forma já pre­ vista por Deus. Tanto eles quanto seus pais tentaram usurpar essa vontade ou opor-se a ela. Os resultados desalentadores de ambos os lados indicam que precisa haver um método melhor: reco­ nhecer a primazia da vontade de Deus, e reagir criativamente a ela. Os Resultados Negativos da Poligamia (caps. 29 e 3 0).- Os múltiplos problemas e tensões resultantes da rivalidade entre Lia e Raquel para obter a aceitação de Jacó são argumentos suficientes em favor da monogamia. Persistência na Oração (cap. 32). — Se as bênçãos de Deus são asseguradas, não é porque pechinchamos com ele (cap. 28) ou porque temos força de vontade (lutan­ do com o anjo), mas, pelo contrário, porque rogamos tenazmente pela bên­


ção. Importunação é a chave para as orações respondidas, não porque Deus precisa ser persuadido, mas porque esta atitude reconhece a verdadeira fonte da bênção, a confiança do homem no doa­ dor da bênção e a sua desesperada neces­ sidade de ajuda. A Soberania de Deus (caps. 37-50). — A história de José ilustra vivamente o fato de que os atos mais egoísticos dos homens podem ser usados por Deus para alcançar os seus propósitos, embora ele possa usar melhor aqueles que dese­ jam a sua vontade. Embora a sua mão raramente, seja vista mesmo pelos seus, Deus está constantemente em ação. O seu cuidado providencial é visto melhor em retrospecto (45:5-7; 50:20). Base dos Valores Éticos (cap. 39). — A vitoriosa resistência de José à esposa de Potifar foi primeiramente devida à sua consciência dos padrões estabelecidos por Deus. Os mais fortes códigos de ética estão arraigados em a natureza de um Deus que está cônscio de sua infração. Perdão e Reconciliação (caps. 42-45). O que parece ser a manipulação dos irmãos, feita por José, pelo contrário, é uma tentativa cuidadosa de determinar se a reconciliação é possível Isto pode ser alcançado somente onde há verdadeiro arrependimento. A capacidade de José de perdoar os seus irmãos se baseava não apenas em seu amor por eles, mas em sua consciência de que os propósitos de Deus a serem alcançados, para todos eles, incluindo ele próprio, eram mais impor­ tantes do que as ofensas passadas. A Chave Para o Futuro (caps. 49 e 50). — O futuro pertence aos que, tendo promessas para cumprir, não as negli­ genciam. As esperanças de Israel já esta­ vam começando a se centralizar na vinda de um governante prometido para a tribo de Judá (49:10).

Esboço do Livro de Gênesis I. História Primeva (1:1-11:32) 1. A Criação (l:l-2:4a)

1) 2) 3) 4) 5) 6)

O Princípio (1:1,2) O Primeiro Dia (1:3-5) O Céu e a Terra (1:6-13) O Sole a L ua(1:14-19) Os Peixes e as Aves (1:20-23) Os Animais e o Homem (1:2431) 7) Descanso da Criação (2: l-4a) 2. A Queda do Homem (2:4b-3:24) 1) O Jardim do Éden (2:4b-17) 2) A Criação de Eva (2:18-25) 3) A Tentação e a Queda (3:1-7) 4) As Conseqüências da Queda (3:8-24) 3. A História de Caim (4:1-26) 1) Caim e Abel (4:1-16) 2) Caim e a Civilização (4:17-26) 4. Os Patriarcas Antediluvianos (5: 1-32) 1) De Adão a Enoque (5:1-20) 2) De Enoque a Noé (5:21-32) 5. O Grande Dilúvio (6:1-9:29) 1) A Causa do Dilúvio (6:1-8) 2) Preparação (6:9-22) 3) Instruções Adicionais (7:1-5) 4) A Extensão do Dilúvio (7:6-8: 19) 5) O Sacrifício de Noé (8:20-22) 6) A Aliança com Noé (9:1-17) 7) A Maldição de Canaã (9:18-29) 6. Os Descendentes de Noé (10:1-32) 7. A Torre de Babel (11:1-9) 8. Os Ancestrais de Abraão (11:1026) 9. A Família de Terá (11:27-32) II. As Narrativas Sobre Abraão (12:125:18) 1. A Chamada de Abrão(12:l-3) 2. Abrão em Canaã (12:4-9) 3. A Peregrinação no Egito (12:1013:1) 4. Abrão eLó (13:2-18) 1) A Separação (13:2-13) 2) Renovação da Promessa (13: 14-18) 5. Abrão, o Cidadão do Mundo (14: 1-24) 1) Ló e os Reis Tiranos (14:1-12) 167


6.

7.

8.

9.

2) Abrão e Melquisedeque (14:1324) O Pacto com Abrão (15:1-21) 1) A Fé de Abrão (15:1-6) 2) Prevendo o Pacto (15:7-11) 3) As Promessas do Pacto (15:1216) 4) Confirmando o Pacto (15:1721) Abrão eA gar (16:1-16) 1) Sarai eA gar (16:1-6) 2) Promessa Divina a Agar (16:716) O Pacto da Circuncisão (17:1-27) 1) Bênçãos do Pacto (17:1-8) 2) O Rito da Circuncisão (17:914) 3) A Promessa de um Herdeiro (17:15-21) 4) A Confirmação de Abraão (17: 22-27) Abraão É Visitado por Deus (18: 1-33) 1) Um Hospedeiro Ansioso (18:18)

2) Uma Hospedeira Incrédula (18:9-15) 3) Conversa Intima (18:16-21) 4) Sondagem de Mentes (18:2233) 10. A Destruição de Sodoma (19:138) 1) A Degradação de Sodoma (19: 1 - 11 )

2) A Fuga de Sodoma (19:12-23) 3) Ira e Graça (19:24-29) 4) Ló e Suas Filhas (19:30-38) 11. Sara eAbimeleque (20:1-18) 1) Abimeleque É Enganado (20: 1-7) 2) Abimeleque Restitui (20:8-18) 12. Tensão Entre Isaque e Ismael (21: 1- 21)

1) O Nascimento de Isaque (21:17) 2) A Inveja de Sara (21:8-14) 3) Promessa Divina a Agar (21: 15-21) 13. Pacto com Abimeleque (21:22-34) 168

14. O Sacrifício de Isaque (22:1-24) 1) A Fidelidade de Abraão (22:114) 2) A Promessa Renovada (22:1519) 3) Notícias da Família (22:20-24) 15. A Morte de Sara (23:1-20) 1) Os Preparativos Para o Sepultamento (23:1-16) 2) Uma Sepultura da Família (23: 17-20) 16. Conseguindo uma Esposa Para Isaque (24:1-67) 1) O Encargo de Eliézer (24:1-9) 2) A Oração de Eliézer (24:10-14) 3) Rebeca Junto ao Poço (24:1527) 4) A Resposta de Labão (24:2833) 5) O Discurso de Eliézer (24:3449) 6) O Sucesso da Visita (24:50-61) 7) Isaque Se Encontra com Rebe­ ca (24:62-67) 17. Os Ültimos Dias de Abraão (25:118) 1) A Terceira Família de Abraão (25:1-6) 2) A Morte de Abraão (25:7-11) 3) A Genealogia de Ismael (25:1218) III. As Narrativas Sobre Isaque (25:1928:9) 1. O Nascimento de Esaú e Jacó (25: 19-26) 2. A Barganha de Jacó com Esaú (25:27-34) 3. As Passagens Sobre Isaque (26:135) 1) A Fome de Isaque (26:1-5) 2) Abimeleque e Rebeca (26:6-11) 3) A Inveja dos Filisteus (26:1216) 4) Conflitos a Respeito de Poços (26:17-22) 5) Teofania em Berseba (26:2325) 6) Tratado com Abimeleque (26: 26:33)


7) Tristeza por Causa das Esposas de Esaú (26:34,35) 4. A Usurpação de uma Bênção (27: 1-45) 1) Conspiração e Contraconspiração (27:1-17) 2) A Bênção de Jacó (27:18-29) 3) A Bênção de Esaú (27:30-40) 4) O Ódio de Esaú Contra Jacó (27:41-45) 5. A Bênção de Isaque Como Despe­ dida (27:46-28:5) 6. O Casamento Tardio de Esaú (28: 6-9) IV. As Narrativas Sobre Jacó (28:10-35: 29) 1. Jacó em Betei (28:10-22) 2. Os Casamentos de Jacó (29:1-30) 1) Jacó Se Encontra com Raquel (29:1-14) 2) Labão Engana Jacó (29:15-30) 3. A Rivalidade Entre Léia e Raquel (29:31-30:24) 1) Os Filhos Mais Velhos de Léia (29:31-35) 2) Os Filhos da Serva de Raquel (30:1-8) 3) Os Filhos da Serva de Léia (30: 9-13) 4) O Trato por Meio de Mandrágoras(30:14-24) 4. O Contrato com Labão (30:25-43) 1) A Parte de Jacó (30:25-36) 2) O Estratagema de Jacó (30:3743) 5. Jacó Separa-se de Labão (31:1-55) 1) Ordens de Marcha de Jacó (31: 1-16) 2) A Partida Secreta (31:17-24) 3) A Inquirição de Labão (31:2535) 4) A Resposta Irada de Jacó (31: 36-42) 5) O Pacto em Mizpá (31:43-55) 6. O Reencontro de Jacó e Esaú (32: 1-33:20) 1) A Caminho (32:1,2) 2) A Ameaça de Esaú (32:3-8) 3) A Oração de Jacó (32:9-12)

4) A Sua Espera Estratégica (32: 13-21) 5) Jacó no Jaboque (32:22-31) 6) O Encontro com Esaú (33:111)

7) Trilham Caminhos Separados (33:12-20) 7. Jacó em Siquém (34:1-31) 1) O Defloramento de Diná (34:17) 2) As Exigências dos Hebreus (34: 8-17) 3) Concordância Bisonha (34:1824) 4) O Massacre dos Siquemitas (34:25-31) 8. De Volta a Betei (35:1-15) 1) A Preparação (35:1-4) 2) Acontecimentos em Betei (35: 5-15) 9. As Conseqüências de Betei (35: 16-29) 1) A Morte de Raquel (35:16-21) 2) Os Filhos de Jacó (35:22-26) 3) A Morte de Isaque (35:27-29) V. As Genealogias de Esaú (36:1-43) 1. A Família de Esaú (36:1-19) 1) A Genealogia Básica (36:1-5) 2) Esaú e Seir (36:6-8) 3) Genealogia Ampliada (36:9-14) 4) Líderes Tribais Edomeus (36: 15-19) 2. A Genealogia Horéia (36:20-30) 3. Reis e Chefes Edomeus (36:31-43) VI. As Histórias de José (37:1-50:26) 1. José em Canaã (37:1-36) 1) Sonhos de Juventude (37:1-11) 2) Ã Procura dos Irmãos (37:1224) 3) José É Traído (37:25-36) 2. Judá e Tamar (38:1-30) 1) O Infortúnio de Tamar (38:1-

H)

2) Tamar É Enganada (38:12-23) 3) Ela É Vingada (38:24-30) 3. José e Potifar (39:1-23) 1) O Favor de Potifar (39:l-6a) 2) A Esposa de Potifar (39:6b-18) 3) José É Preso (39:19-23) 169


4. José na Prisão (40:1-23) 1) Os Oficiais de Faraó (40:1-8) 2) O Sonho do Copeiro (40:9-15) 3) O Sonho do Padeiro (40:16-19) 4) O Cumprimento dos Sonhos (40:20-23) 5. O Enigmático Sonho de Faraó (41:1-57) 1) O Fracasso dos Videntes (41: 1- 8 )

2) José Diante de Faraó (41:9-24) 3) O Significado do Sonho (41:2536) 4) A Recompensa de José (41:3745) 5) Os Anos de Abundância (41: 46-57) 6. Os Irmãos de José no Egito (42:138) 1) Em Canaã(42:l-5) 2) Os Irmãos Diante de José (42: 6-17) 3) Ê Exigido um Refém (42:1825) 4) A Volta Para Casa (42:26-34) 5) A Reação de Jacó (42:35-38) 7. Benjamim no Egito (42:1-34) 1) A Petição de Judá a Jacó (43:115) 2) Diante do Mordomo de José 43:16-25) 3) O Banquete com José (43:2634) 8. Benjamim em Perigo (44:1-34) 1) O Incidente do Copo de Adivi­ nhação (44:1-17) 2) Os Fervorosos Rogos de Judá (44:18-34) 9. O Reconhecimento (45:1-28) 1) A Reconciliação com os Irmãos (45:1-15) 2) A Palavra Encoraj adora de Faraó (45:16-21) 3) A Viagem de Volta a Jacó (45: 22-28) 10. A Reunião da Família (46:1-47:

12) 1) A Viagem Para o Egito (46:1-7) 2) A Genealogia de Jacó (46:8-27) 170

3) Jacó no Egito (46:28-47:12) 11. A Fome Continua (47:13-26) 1) Um Povo Desesperado (47:1319) 2) Novos Impostos Reais (47:2026) 12. Os Ultimos Dias de Jacó (47:2748:22) 1) O Pedido de Jacó Quanto ao Seu Sepultamento (47:27-31) 2) Os Filhos de José Entre os Do­ ze (48:1-7) 3) As Bênçãos de Efraim e Manassés (48:8-22) 13. O Testamento de Jacó (49:1-27) 1) As Tribos de Léia (49:1-15) 2) As Tribos das Concubinas (49: 16-21) 3) As Tribos de Raquel (49:22-27) 14. A Morte e o Sepultamento de Jacó (49:28-50:14) 1) A Morte de Jacó (49:28-33) 2) O Sepultamento de Jacó (50:114) 15. Os Anos de José (50:15-26)

Bibliografia Selecionada CASSUTO, UMBERTO. A Commentary on the Book of Genesis, 2 vols. Trad, para o inglês por Israel Abra­ hams. Jerusalém: Magnes Press, 1961,’64. ________The Documentary Hypothesis. Trad, para o inglês por Israel Abra­ hams. Jerusalém: Magnes Press, 1961. DAVIES, G. HENTON. “Genesis” , The Broadman Bible Commentary, Vol. 1. Nashville: Broadman Press, 1969. DELITZSCH, FRANZ. New Commenta­ ry on Genesis, 2. vols. Edinburgh, 1888, 89. DRIVER, SAMUEL ROLLES. The Book of Genesis. (“Westminster Commentaries”). London: Methuen and Co., 1904. EISSFELDT, OTTO. The Old Testa­ ment. Trad, para o inglês por Peter


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Comentário Sobre o Texto I. História Primeva (1:1-11:32) Esta seção de Gênesis é um a introdu­ ção à história específica de Israel, que começa com Abraão. Ela coloca a cha­ mada de Abraão onde ela deve ser enten­ dida: à luz do propósito de Deus no mundo e para o mundo. Os materiais

usados pelo escritor, ou escritores, fo­ ram, em grande parte, os recebidos em suas tradições, as narrativas de seus an­ cestrais, passadas até eles de geração em geração. Essas fontes pertencem primor­ dialmente a dois grupos tradicionais bá­ sicos: um sacerdotal e um popular. A fonte Sacerdotal preserva o legado do 171


passado do ponto de vista dos líderes reli­ giosos, enquanto a fonte popular contém as histórias como eram conhecidas entre o povo. Essas duas linhas tradicionais não devem ser consideradas como con­ tradições, mas como duas maneiras legí­ timas, embora diferentes, de ver a mes­ ma história. O tema básico de Gênesis 1-11 resume o pensamento de todos os escritores bíbli­ cos. Dá-se constante ênfase à promessa de Deus, seguida pelo pecado do homem e a ira de Deus, mas sempre com um raio de esperança. Portanto, em última aná­ lise, precisamos interpretar Gênesis não como um livro que contém histórias sepa­ radas, diferentes, mas como um livro em que as várias histórias dos pais foram combinadas, a fim de apresentar um registro unificado da obra de Deus no seu mundo. O capítulo 1 (relato sacerdotal) abre-se com um glorioso quadro dos atos criadores de Deus e de seus encargos e promessas ao homem. Mas é seguido pela narrativa da queda, nos capítulos 2 e 3 (narrativa judaica). Narrativas de duas tradições diferentes foram coloca­ das lado a lado, a fim de apresentar o quadro completo do que aconteceu. Não somente Deus está operando neste mun­ do, com o seu bom propósito para tudo, mas a serpente também está presente; a personalidade demoníaca está semeando dúvida e discórdia no mundo. Os editores (ou redatores) de Gênesis foram tão indispensáveis à mensagem deste livro quanto os responsáveis pelas fontes Judia ou Sacerdotal. O processo todo deve ser visto à luz da obra criativa de Deus entre o seu povo. Gênesis 1-11 foi, obviamente, escrito para nos preparar para entender por que Deus escolheu o povo hebreu como seu povo. A história primeva do homem ilus­ tra claramente o fracasso universal da humanidade. O primeiro casal falhou miseravelmente. Abel, o justo, foi assas­ sinado por seu irmão invejoso. Noé, um homem “perfeito em suas gerações” , 172

depois do dilúvio teve a oportunidade de construir um desafiador mundo novo, mas ficou bêbado em sua tenda. O esfor­ ço mais ambicioso do homem, em termos de construção, a torre de Babel, acabou abortivamente em hostilidade e divisão. O homem mais uma vez estava de volta para viver, ter filhos e morrer (cf. o cap. 5 com 11:10 e ss.). Da mesma forma como Enoque quebrou o ciclo de exis­ tência sem significado, no capítulo 5, Abrão entrou em cena no fim das genea­ logias, no capítulo 11. Deus estava fazen­ do uma nova tentativa de alcançar o seu propósito no mundo. Em Abraão ele teria sucesso. 1. A Criação (1: l-2:4a) Esta é a passagem mais notável da fonte Sacerdotal. A sua beleza sugere que ela é o resultado de longa labuta de amor. Os seus conceitos ainda são desa­ fiadores para a mente científica. A des­ crição básica do processo da criação é surpreendentemente coerente com os conceitos modernos. A criação é consi­ derada como tendo ocorrido durante um período indefinido de tempo, e tendo procedido das formas inferiores para as superiores. Não existe maneira de os dias de Gê­ nesis 1 poderem ser limitados a 24 horas. O termo “ dia” (heb., yom) é usado de três maneiras diferentes nos capítulos le2. Em 1:5a, ele é usado a respeito da luz, em contraste com as trevas. Em 1:5b, ele é usado a respeito da combina­ ção da luz e trevas (tarde e manhã). Em 2:4b, todo o período da criação é mencio­ nado como um dia. O sol, que é respon­ sável pelo nosso dia de 24 horas, não foi colocado em seu lugar senão no quarto dia. O fim de cada dia é marcado pela fórmula “e foi a tarde e a manhã” , porém não é usada essa fórmula nem outra semelhante a respeito do sétimo dia. O escritor do livro de Hebreus afir­ ma que o dia do descanso de Deus nunca terminou, mas que Deus tem estado em


seu descanso desde a criação. Obviamen­ te, o sétimo dia não pode ser um dia de 24 horas nem a redação de Gênesis re­ quer que os outros sejam. Eles podem ser de 24 horas, mas o escritor não pretende que eles sejam, necessariamente, limita­ dos a essa duração de tempo. Não há necessidade de se considerar o Gênesis e as teorias científicas como sen­ do conflitantes entre si. Gênesis não foi escrito como obra científica. Gênesis foi escrito como testemunho do fato de que foi Deus que nos fez, e que somos seus. As ciências naturais não são capazes de nos fornecerem as chaves para o propó­ sito ou as primeiras causas da criação. Com as suas evidências, elas apenas des­ crevem o processo natural. O teólogo fala da experiência intuitiva de um crente a respeito de um mundo que ele conhece tão bem quanto o cientista conhece o seu. As suas descobertas se suplementam, ao invés de se contradizerem. Onde a ciên­ cia desiste, a revelação bíblica se aplica. Sem a ciência, a religião pode tomar-se superstição. Sem fé, a ciência torna-se materialismo crasso. Depois de notar as características da fonte Sacerdotal, neste primeiro capí­ tulo, reconhecemo-la facilmente em ou­ tros lugares. O seu estilo é formal e preciso. As frases são repetidas, e há uma redundância de linguagem, reve­ lando uma predileção por certas palavras ou expressões. “Frutificai e multiplicaivos” é uma expressão favorita (1:22,28), que podemos esperar de um grupo sacer­ dotal. A despeito de sua tendência de ser preciso e prosaico, o escritor Sacerdotal alcança o ápice de sua excelência lite­ rária em Gênesis 1. Mediante o seu uso de repetição, ele causa uma impressão inesquecível ao leitor. De fato, esta passagem, provavelmente, era usada liturgicamente. Ela era recitada pelo sa­ cerdote ou pelo povo reunido em adora­ ção pública, e devia ser ouvida, e não dissecada. Ao ouvir, os homens sentem

que estão participando de novo dos pri­ mórdios do Universo. 1) O Princípio (1:1,2) 1 N o p rin c íp io c rio u D eu s os c é u s e a te r r a . 2 A t e r r a e r a s e m fo rm a e v a z ia ; e h a v ia tr e v a s so b re a fa c e do a b ism o , m a s o E s p í­ rito d e D eu s p a ir a v a so b re a fa c e d a s á g u a s .

O versículo 1 descreve a atividade de Deus que l:2-2:4a apresentarão em deta­ lhes. Os céus e a terra é uma expressão que significa todo o Universo, todo o mundo. Neste versículo, o escritor está dizendo: “Deus criou tudo o que há no mundo.” Começando com o versículo 2, ele descreve o processo da criação de maneira mais específica. A condição da terra é mencionada como sem forma (tohu) e vazia (bohu). Este, sem dúvida, é um jogo de palavras, pois os dois termos hebraicos têm um som muito semelhante. Tohu significa que a terra ainda não alcançara forma. Bohu significa que não havia nada na terra. Ela não tinha conteúdo. Estas expressões são a forma de o escritor dizer que a terra, como a conhecemos, não existia nem tinha qualquer outra forma ou conteúdo. Contudo, ele não parece ir tão longe ao ponto de dizer que a terra não existia nessa época, mas, se existia, éra só na mèfftè de Deus, e não em qualquer forma objetiva. Alguns eruditos, ao abordar este pro­ blema, asseveram que o versículo 2 des­ creve uma catástrofe, que sobreveio à terra depois da criação mencionada no versículo 1. Eles assim interpretam esta passagem: “A terra se tomou sem forma e vazia (desolada e vazia).” Eles fazem uma conexão deste acontecimento com a queda de anjos, os ossos de homens e animais pré-históricos e a idade antiga da terra. Há três razões por que esta teoria amplamente aceita não é satisfatória: (1) O' verbo hebraico está no passado per­ feito, que descreve uma condição (era), e não ação subseqüente (se tornou). Uma 173


ação subseqüente requereria uma conjun­ ção com um passado imperfeito, em uma passagem de narrativa. (2) A condição da terra não era apenas desolada e vazia. Ela era sem forma e vazia. Não existe nenhum sinal de um estado anterior, e certamente de nenhuma rocha ou ossos antigos. (3) João, em Apocalipse 21:1, considerou a terra em que vivemos como a primeira terra, e não a segunda. A sua interpretação deve merecer o peso de um intérprete cristão. Deve-se notar que o primeiro versículo não diz literalmente (heb.): “ No princí­ pio.” Não existe artigo. Pelo contrário, a expressão hebraica diz: “Em princípio Deus...” Gênesis 1 não começa no prin­ cípio propriamente dito, pois não houve o princípio. Deus sempre existiu. Claro que houve um princípio do Universo, e o capítulo 1 começa aí. Contudo, o abismo aquoso (heb., tehom) parece qüe existira nessa época, estando a terra em uma condição informe e vazia no meio de profundas trevas. Nada se diz, em Gêne­ sis, a respeito de ter Deus criado o abis­ mo. Aparentemente, ele já estava ali. Será que Gênesis 1 começa com a origem do mundo material, ou existia matéria antes que Deus começou a operar em Gênesis 1? Isto é um tanto perturbador para al­ guns leitores, pois parece que esta passa­ gem pode ensinar a existência eterna da matéria ou uma perspectiva dualista do Universo (espírito e matéria). Isto certa­ mente não è verdade. É lógico supor que Deus havia criado o abismo anterior­ mente, e que a terra só existia em sua mente. Isto é indicado ainda pelo verbo criar (bara). Embora bara venha de uma raiz que significa apegar-se ou partir ao meio, e descreva a atividade de um car­ pinteiro, esta forma usada em Gênesis nunca ê aplicada a ninguém mais a não ser a Deus. O homem não pode bara. Só Deus pode Bara. Isto è atividade exclu­ siva de Deus. Este verbo nunca é usado com o acusativo dos materiais emprega­ 174

dos; desta forma, ele certamente aponta para a direção da criação ex nihilo (do nada). Embora o versículo 2 comece depois que o abismo foi criado, é lógico concluir-se que ele foi trazido à existên­ cia por Deus anteriormente, e que a criação mencionada no versículo 1 inclui o abismo. O versículo 2 começa depois disto, e não no princípio da criação. Este problema, todavia, não consistia em preocupação para o escritor Sacer­ dotal. Ele não estava interessado na questão da origem do abismo, ou como a terra podia exístír, embora sem forma e vazia. O seu significado é que quando Deus decidiu criar o Universo, não havia nada que pudesse impedi-lo. A criação foi um ato que só Deus podia executar, e, se o abismo reagiu a cada palavra de Deus, por que teria ele que ficar preo­ cupado a respeito de como ele veio a existir? Os hebreus preferiam fé à espe­ culação filosófica. A sua fé certamente não é contraditada pelo pensamento filo­ sófico sadio, mas eles manifestavam a tendência de ir até o cerne do problema da fé. Ao invés de ficarem imobilizados pela especulação, a sua fé exigia a sua devoção leal a um Deus que podia fazer o que desejava, no seu mundo, quer eles o entendessem, quer não. Admitimos que não podemos ficar satisfeitos sem mais inquirição filosófica, mas isto não nos deve cegar quanto à centralidade da fé. O verbo bara é uma forma masculina no singular. O sujeito que o governa, Deus (’Elohim), está no masculino plu­ ral. Deus é considerado como sendo, em certo sentido, tanto singular como plu­ ral. Há várias explicações para o fato de ’Elohim estar no plural. (1) Alguns di­ zem que esta palavra retém algo de seus antecedentes politeístas. Embora ’Elo­ him geralmente use um verbo no singular, quando é usado em relação aos deuses pagãos esta palavra rege um verbo no plural. O singular e constantemente usa­ do quando o Deus de Israel é o seu sujeito. Contudo, o verbo no plural é


usado a respeito do Deus de Israel em 1:26: “Façamos o homem.” (2) Oütros consideram-na como um plural de ma­ jestade. Freqüentemente os hebreus pluralizavam um substantivo, para enf atizar a sua importância ou magnificência. Isto certamente seria apropriado em relação a Deus. (3) Alguns dizem que ela fala da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. A melhor maneira de abordar este problema, visto que não sabemos a razão para este fenômeno, parece ficar com aquilo do que podemos ter certeza. Gê­ nesis 1 está dizendo que, em algum sen­ tido, Deus é tanto singular quanto plu­ ral. Para o judeu, dizer que ele é apenas singular, é algo contrário ao Velho Testa­ mento. Por outro lado, o cristão dizer que Gênesis fala da Trindade é mais do que podemos provar. É suficiente notar que esta passagem ensina a unidade e a pluralidade da Divindade. Deste fato, a doutrina posterior da Trindade se desen­ volveu logicamente. Aqui estão as suas raízes, mas ainda não o conceito plena­ mente desenvolvido. O Espírito (ruach) de Deus pode ser interpretado como o “vento de Deus” ou “vento poderoso” , e, provavelmente, é um quadro de um forte vento, como o de um furacão* agitando frementemente o abismo caótico. O versículo 2, portanto, não é uma descrição de Deus pairando sobre o abismo como um pássaro, ou flutuando sobre éle, a fim de impregnálo. Os atos criativos que interessam ao escritor começam com a palavra de Deus no versículo 3. O versículo 2 coloca a terrível confusão do abismo tenebroso em contraste com a condição ordenada que resultou do “haja” de Deus, que se se­ gue. O “cala-te, aquieta-te” de Jesus faz eco com a tranqüilízação do abismo pri­ mevo, pela palavra de Deus na criação. Como já vimos, este versículo não dá a entender que antes de ter Deus começado a criar a terra o abismo estava fora do domínio da criação. Visto que se diz que Deus criou o céu e a terra (o Universo), o

abismo é incluído sob esta rubrica. O versículo 2 não começa no princípio da criação, mas com os atos de criação imediatamente relacionados com a terra. O capítulo 1 não se refere aos atos da criação anteriores â formação da terra. Eles não são descritos, porém presumidos. 2) O Primeiro Dia (1:3-5) 3 D isse D e u s: H a ja lu z. E h o u v e lu z. 4 V iu D eu s q u e a luz e r a b o a ; e fez se p a ra ç ã o e n tr e a lu z e a s tr e v a s . 5 D e u s c h a m o u à lu z d ia , e à s tr e v a s n o ite . E foi a ta r d e e a m a n h ã , o d ia p rim e iro .

O versículo 3 assevera que a criação foi realizada pela palavra de Deus. Ele fa­ lou, e aconteceu. A sua palavra é lei. Esta passagem, que trata da criação da luz, é a primeira das “ dez declarações" de Deus na criação. As outras tratam do firmamento, da terra seca, das plantas, das estrelas, dos peixes e pássaros, dos animais, do homem, da tarefa do homem e do alimento do homem. A luz, a primeira criação da palavra de Deus, é, neste sentido, a sua primogênita. Da mesma forma como o Logos (Verbo) em João 1:1-14 fez todas as coisas, tor­ nou-se carne e foi visto como o Unigénito do Pai, assim também a luz reflete a natureza da palavra que a trouxe à exis­ tência. Nas trevas das perplexidades da vida, a palavra de Deus ainda ilumina o homem em seu caminho. Depois de separar a luz das trevas, Deus se dirige a cada uma delas por sua vez. O hebraico é palpitante: “E Deus chamou à luz ‘Dial’ e às trevas, noite!’ ” Estes seriam os seus nomes para sempre. O Criador tinha o direito de dar nome à sua nova criação, mas também de dar nome às trevas primevas. Isto também éstava dentro de seu domínio. A fórmula “E foi a tarde e a manhã” vem no fim de cada novo dia da criação. Literalmente, a palavra traduzida como “tarde” (‘erev) significa lusco-fusco. A palavra traduzida como “manhã” (boker) literalmente significa alvorada. 175


Alvorada e ocaso compuseram o primeiro dia e cada dia subseqüente. Esta expres­ são pode ser um exemplo de sinédoque, isto é, do uso de parte no lugar do todo, mas é uma expressão idiomática incomum, neste contexto. Ela pode ser uma indicação adicional de que os dias não são de 24 horas, com o nosso ocaso, noite, alvorada e dia. Esta frase possi­ velmente descreve um longo período de ocaso durante um novo processo criativo, seguido por uma erupção de luz plena, quando esse aspecto da criação era com­ pletado. Pode ser feita esta pergunta: A criação da luz foi a primeira luz que Deus co­ nheceu? Será que ele habitava nas trevas até o primeiro dia da criação? Claro que não. Como declara Apocalipse 22:5: “E ali não haverá mais noite, e não neces­ sitarão de luz de lâmpada nem de luz do sol, porque o Senhor Deus os alumiará.” A luz criada era um reflexo da luz eterna da pessoa de Deus. 3) OCéueaTerra(l:6-13) 6 E d is se D e u s: H a ja u m firm a m e n to no m elo d a s á g u a s , e h a ja s e p a r a ç ã o e n tre á g u a s e á g u a s . 7 F e z , p o is, D eu s o f i r m a ­ m e n to , e se p a ro u a s á g u a s q u e e s ta v a m d eb aix o do firm a m e n to d a s q u e e s ta v a m p o r c im a do firm a m e n to . E a s s im foi. 8 C h am o u D eu s a o firm a m e n to c éu . E foi a ta r d e e a m a n h ã , o d ia seg u n d o . 9 E d isse D e u s: Ajunte m -se n u m só lu g a r a s á g u a s q u e e stã o d eb aix o do c é u , e a p a r e ç a o e le m e n to seco. E a s s im foi. 10 C h am o u D e u s a o e le m e n to seco te r r a , e a o a ju n ta m e n to d a s á g u a s m a r e s . E v iu D eu s q u e isso e r a b o m . 11 E d isse D e u s: P ro d u z a a t e r r a re lv a , e rv a s qu e d ê e m se m e n te , e á rv o r e s fr u tíf e ra s que, seg u n d o a s s u a s e sp é c ie s, d ê e m fru to que te n h a e m sl a s u a se m e n te , so b re a t e r r a . E a s s im foi. 12 A t e r r a , p o is, p ro d u z iu re lv a , e rv a s q u e d a v a m s e m e n te se g u n d o a s s u a s e sp é c ie s, e á rv o r e s q u e d a v a m fru to que tin h a e m si a s u a s e m e n te , seg u n d o a s su a s e sp é c ie s. E v iu D eu s q u e isso e r a b o m . 13 E foi a ta r d e e a m a n h ã , o d ia te rc e ir o .

A palavra firmamento originalmente significava ‘‘algo martelado” , e, portan­ to, normalmente dá a entender uma 176

substância sólida. Muitos eruditos estão convencidos de que este versículo expres­ sa o conceito de um Universo em três andares, comum no Oriente Próximo da antiguidade. Os antigos criam que havia três camadas de água no mundo: sob a terra, sobre a terra e acima da terra. Da mesma forma como a terra separava as águas abaixo e sobre ela, um céu sólido (firmamento) continha a água acima da terra. Quando vinham chuvas pesadas, elas saíam de janelas ou portas abertas no firmamento (cf. Mal. 3:10). Desta forma, o escritor de Gênesis pode estar usando os conceitos de sua época, para dar o seu testemunho acerca da criação (cf. a Introdução). Contudo, esta palavra também pode ter um uso figurado, e significar “uma expansão” , sem denotar, necessariamente, uma substância sólida. A ordem de Deus, aos mares, para recuarem, expondo a terra seca, foi um testemunho do controle que ele exercia sobre o caos primevo, mas também era um lembrete de que, se ele removesse a sua palavra proibitiva, o mar tragaria a terra novamente. No livro de Apocalipse, João não fica satisfeito enquanto a amea­ ça do mar não é eliminada para sempre (Apoc. 21:1). 4) O Sole a Lua (1:14-19) 14 E d isse D e u s : H a ja lu m in a re s no f ir m a ­ m e n to do c éu , p a r a fa z e re m se p a ra ç ã o e n tr e o d ia e a n o ite ; s e ja m e le s p a r a sin a is e p a r a e sta ç õ e s, e p a r a d ia s e a n o s ; 15 e s irv a m d e lu m in a r e s no firm a m e n to do céu , p a r a a lu m ia r a t e r r a . E a s s im foi. 16 D e u s, p o is, fez os d o is g ra n d e s lu m in a r e s : o lu m i­ n a r m a io r p a r a g o v e rn a r o d ia , e o lu m in a r m e n o r p a r a g o v e rn a r a n o ite ; fez ta m b é m a s e s tre la s . 17 E D eu s os p ô s n o firm a m e n to do cé u p a r a a lu m ia r a t e r r a , 18 p a r a g o v e r­ n a r o d ia e a n o ite , e p a r a fa z e r s e p a ra ç ã o e n tr e a lu z e a s tr e v a s . E v iu D eu s q u e isso e r a b o m . 19 E foi a ta r d e e a m a n h ã , o d ia q u a rto .

O sol e a lua só foram colocados em seus lugares no quarto dia. Alguns intér­ pretes sugerem que o sol foi criado ante­ riormente, e subseqüentemente a terra


foi atraída à sua esfera de influência. Outros dizem que uma pesada capa de nuvens escondia o sol de quem estivesse na terra. A menção do sol, a esta altura, é, provavelmente, mais teológica do que cronológica. É significativo que os nomes hebraicos para o sol e lua não ocorrem neste capítulo, mas apenas luminar maior e luminar menor. O escritor he­ breu não tinha o desejo de encorajar a adoração desses corpos celestes, mencio­ nando-os em a narrativa da criação, par­ ticularmente no primeiro dia, o que teria sugerido aos adoradores da natureza que eles eram divindades primárias, somente a um passo do grande Deus, Elohim. A declaração de que ele fez também as estrelas é um exemplo notável da ma­ neira como o interesse do escritor estava sendo influenciado pela época em que vivia. A astronomia moderna dificil­ mente teria se descartado das estrelas de maneira tão sumária. Para o escritor bíblico, elas eram remotas e desconhe­ cidas demais para requererem qualquer atenção mais detida. Contudo, todo o nosso Universo é captado nessa frase, que tudo inclui. (5) Os Peixes e as Aves (1:20-23) 20 E d isse D e u s : P ro d u z a m a s á g u a s c a r ­ d u m e s de s e r e s v iv e n te s ; e v o em a s a v e s a c im a d a t e r r a no firm a m e n to do céu . 21 C riou, pois, D eu s o s m o n s tro s m a rin h o s, e todos os s e r e s v iv e n te s q u e se a r r a s ta m , os q u a is a s á g u a s p ro d u z ira m a b u n d a n te m e n te seg u n d o a s s u a s e s p é c ie s ; e to d a a v e q u e v o a, seg u n d o a s u a esp é c ie . E v iu D eu s q u e isso e r a b o m . 22 E n tã o D e u s o s ab en ço o u , d izen d o : F ru tific a i e m u ltip lica i-v o s, e e n ­ ch ei a s á g u a s dos m a r e s ; e m u ltip liq u e m -se a s a v e s so b re a te r r a . 23 E foi a ta r d e e a m a n h ã , o d ia q u in to .

A primeira menção da vida animal é enfatizada pelo uso de bara’ (criar) no versículo 21. Esta vida originalmente consistia de criaturas que enxameavam no mar, porém culminavam nos grandes monstros marinhos, e, posteriormente, nos pássaros. O autor observa sabia­ mente a íntima relação entre animais

aquáticos e aves. Eles foram criados no mesmo dia. Gênesis insiste que a evolu­ ção aconteceu dentro das espécies, e não de uma para outra. Era segundo as suas espécies. 6) Os Animais e o Homem (1:24-31) 24 E d is se D e u s: P ro d u z a a t e r r a s e r e s v iv e n te s se g u n d o a s s u a s e s p é c ie s : a n im a is d o m éstic o s, r é p te is , e a n im a is se lv a g e n s seg u n d o a s s u a s e sp é c ie s. E a s s im foi. 25 D eu s, p o is, fez o s a n im a is se lv a g e n s se g u n ­ do a s s u a s e sp é c ie s, e os a n im a is d o m éstic o s se g u n d o a s s u a s e sp é c ie s, e to d o s o s ré p te is d a t e r r a seg u n d o a s s u a s e sp é c ie s. E v iu D eu s q u e isso e r a b o m . 28 E d isse D e u s : F a ç a m o s o h o m e m à n o ss a im a g e m , c o n fo rm e a n o ssa s e m e lh a n ç a ; d o m in e e le so b re os p e ix e s do m a r , so b re a s a v e s do c é u , so b re o s a n im a is d o m é stico s, e so b re to d a a te r r a , e so b re todo ré p til q u e se a r r a s t a so b re a te r r a . 27 C riou, p o is, D eu s, o h o m e m à s u a im a g e m ; à im a g e m d e D e u s o c rio u ; h o m e m e m u lh e r os c rio u . 28 E n tã o D e u s os a b e n ço o u e lh e s d is s e : F ru tific a i e m u ltip lic a i-v o s; en c h e i a t e r r a e s u je ita i-a ; d o m in a i so b re os p e ix e s do m a r , so b re a s a v e s do c é u e so b re to d o s os a n im a is q u e se a r r a s t a m so b re a t e r r a . 29 D isse-lh es m a is : E is q u e v o s te n h o d a d o to d a s a s e rv a s q u e p ro d u z e m se m e n te , a s q u a is se a c h a m so b re a fa c e d e to d a a te r r a , b e m com o to d a s a s á rv o r e s e m q u e h á fru to q u e d ê s e m e n te ; ser-v o s-ã o p a r a m a n ti­ m e n to . 30 E a to d o s os a n im a is d a t e r r a , a to d a s a s a v e s do cé u e a todo s e r v iv e n te q u e se a r r a s t a so b re a te r r a , te n h o d a d o to d a s a s e r v a s v e rd e s co m o m a n tim e n to . E a s s im foi. 31 E v iu D e u s tu d o q u a n to fiz e ra , e e is q u e e r a m u ito b o m . E foi a ta r d e e a m a n h ã , o d ia sex to .

Esta passagem destaca dois fatos im­ portantes. O homem compartilha sua natureza tanto com os animais quanto com Deus. Ele foi criado no mesmo dia em que os animais de ordem mais ele­ vada foram formados, e, desta forma, está aparentado com eles, mas ele tam­ bém possui a imagem de Deus. Esta imagem de Deus no homem é carac­ terística de todos os homens, mas não dos animais. Uma imagem é “algo entalhado” , como um ídolo (II Reis 11:18). Ela des­ creve uma semelhança exata, como um 177


filho que é a própria imagem do pai. Os reis antigos colocavam tais efígies de si mesmos nas cidades que governavam. Semelhança (aparência) é um termo mais indefinido e enfatiza que, embora o ho­ mem seja como Deus, ele não é Deus. O homem não é divindade, mas reflete a natureza divina em sua humanidade. Portanto, o que é a imagem de Deus no homem, que o tom a tão peculiar? As respostas sugeridas são numerosas. A explicação mais comum, hoje em dia, é que o homem tem uma alma, e os animais não. Contudo, Gênesis 2:7 de­ clara que o homem tomou-se “ alma vi­ vente” . O original diz “uma nephesh viva” , palavra que, no hebraico, signi­ fica alma. No pensamento hebraico, o homem não tem uma alma; ele é uma alma. A alma é a pessoa total. Em 2:19, a idéia é semelhante. “Tudo o que o homem chamou a todo ser vivente” lite­ ralmente é “cada nephesh vivente” . Os animais também são almas — neste sentido. A diferença entre o homem e os animais não está em que um tem uma alma e os outros não, mas no tipo de alma que o homem é. E esta é uma diferença radical! Temos a tendência de pensar na ima­ gem de Deus em termos da revelação total de Deus na Escritura. O escritor do Velho Testamento estava, provavel­ mente, pensando em a natureza de Deus em relação à maneira que ele próprio retratava as características de Deus. Em Gênesis 1, Deus é retratado criando li­ vremente. Da mesma forma o homem, embora incapaz de atingir a criatividade que é peculiar a Deus, também tem a capacidade de fazer um novo começo, tomar o mundo melhor ou pior. Os animais vivem por instinto, mas o ho­ mem é feito para coisas melhores. Aos animais foi dito apenas que procriassem. O homem tem a atribuição adicional de estabelecer domínio e subjugar. Se um homem está com frio, ele pode acender um fogo; se está com calor, pode cons­ 178

truir um condicionador de ar. Os ani­ mais, dentro dos limites de seus instin­ tos, precisam ajustar-se ao meio ambi­ ente, que não conseguem mudar. O ho­ mem pode mudá-lo para melhor ou para pior. Na criação, Deus levou a terra até certo ponto e depois colocou-a nas mãos do homem, para que dela se encarre­ gasse. Ela não fora ainda “ subjugada” nem ainda colocada completamente sob o domínio de Deus. O homem devia apressar este processo. Era seu privilégio e desafio. Tem sido a tragédia da história do homem que ele pensou que o domínio sobre a natureza, que lhe havia sido dado, era para o seu benefício pessoal. Assim pensando, ele esbanjou os recur­ sos da terra. Agora está começando a perceber que o seu domínio consiste na responsabilidade de ajudar cada aspecto da natureza a atingir o seu alvo mais elevado. Em certo sentido, ele deve juntar-se a Deus, na tremenda tarefa de continuar a obra da criação. Esta imagem de Deus em nós também toma disponível uma comunhão entre o homem e Deus, que não é possível para as outras criaturas. Pertencemos à famí­ lia de Deus. Embora em Gênesis Deus não ordene adoração, é claro que o ho­ mem não pode executar as suas tarefas sem tal comunhão (Jó 35:10,11). O pró­ prio Deus deseja tanto a confiança do homem quanto a sua companhia (Gên. 2 e 3). É curioso notar que, originalmente, nem o homem nem os animais receberam licença de comer carne. Eles deviam ser vegetarianos (v. 29 e 30). Isto não signi­ fica que a “lei de unhas e dentes” não tivesse prevalecido desde o princípio, mas que ela não tem lugar no alvo supre­ mo da História. De fato, só foi permi­ tido ao homem comer came depois do dilúvio (9:1-3). Posteriormente, contudo, Deus ainda pretende que todo morticínio seja eliminado (Is. 11:6-9).


7) Descanso da Criação (2:l-4a) 1 A ssim fo ra m a c a b a d o s os c é u s e a te r r a , co m todo o se u e x é rc ito . 2 O ra , h av en d o D eu s c o m p le ta d o no d ia s é tim o a o b ra que tin h a feito, d e sc a n s o u n e sse d ia d e to d a a o b ra qu e fiz e ra . 3 A bençoou D eu s o sé tim o d ia , e o sa n tific o u ; p o rq u e n e le d e sc a n so u de to d a a s u a o b ra q u e c r i a r a e fiz e ra . 4 E is a s o rig e n s dos c é u s e d a te r r a , q u an d o fo ra m c ria d o s.

Quando o escritor diz que Deus des­ cansou de toda a obra que fizera, não dá a entender que, exausto de seus esforços, ele se deitou para tirar uma soneca. A fórmula que encerra cada dia (“e foi a tarde e a manhã”) não ocorre em refe­ rência ao sétimo dia. Com discernimento incomum, o escritor do livro de Hebreus conclui, com isto, que o sétimo dia nunca teve fim (4:1-7). Desde a criação Deus tem estado em seu dia de descanso. Pela fé, precisamos nos juntar a ele. Obvia­ mente, o “ descanso de Deus” não signi­ fica inatividade, mas uma mudança de atividade. Deus parou de criar, e come­ çou as obras de providência. O nosso descanso no céu não serão férias infindá­ veis, mas uma ocasião de desafio agra­ dável sem fim. 2. A Queda do Homem (2:4b-3:24) Esta passagem é bem diferente de Gênesis 1, em sua forma literária. Ela não usa um padrão litúrgico, mas apre­ senta-se em simples estilo de narrativa. Ela tem algo da forma de uma parábola, pois a história dos inícios do homem é contada a fim de ensinar uma lição. Todavia, ela não é uma história inventa­ da, para ilustrar uma afirmação, como as parábolas dos ensinamentos de Jesus, mas está baseada nas antigas tradições a respeito do passado primevo do ho­ mem. A queda do homem é considerada como um acontecimento real da história, e Gênesis 2 e 3 testificam a respeito do significado desse trágico momento. Ao contar esta história, o escritor com­ bina eficientemente a descrição literal

com as imagens eloqüentes. A serpente que tenta Eva também representa o po­ der do mal no mundo (3:15), pois a guerra descrita não é apenas entre pes­ soas e cobras, mas entre a humanidade e o reino demoníaco. A árvore da vida fala de vida eterna, que o homem não possuía na criação, devendo alcançá-la posteriormente. A árvore do conheci­ mento era a cultura que o homem podia adquirir por si mesmo, sem fé em Deus. Embora Adão e Eva sejam, na verdade, nossos ancestrais (é-nos informada, em 5:5, a idade de Adão quando morreu), a descrição deles é colorida pelo conhe­ cimento do escritor da maneira como os homens e as mulheres agiam em sua época. 1) O Jardim do Éden (2:4b-17) No d ia e m q u e o S e n h o r D eu s fez a t e r r a e os c é u s 5 n ã o h a v ia a in d a n e n h u m a p la n ta do c a m p o n a t e r r a , p o is n e n h u m a e r v a do c a m p o tin h a a in d a b r o ta d o ; p o rq u e o Sen h o r D eu s n ã o tin h a feito c h o v e r so b re a te r r a , n e m h a v ia h o m e m p a r a la v r a r a te r r a . 6 U m v a p o r, p o ré m , su b ia d a te r r a , e re g a v a to d a a fa c e d a te r r a . 7 E fo rm o u o S en h o r D eu s o h o m e m do p ó d a t e r r a , e so p ro u -lh e n a s n a rin a s o fôlego d a v id a ; e o h o m e m to m o u se a lm a v iv e n te . 8 E n tã o p la n to u o S en h o r D eu s u r a ja r d im , d a b a n d a do o rie n te , no É d e n ; e p ô s a li o h o m e m q u e tin h a fo rm a d o . 9 E o S en h o r D eu s fez b r o ta r d a t e r r a to d a q u a lid a d e d e á r v o r e s a g ra d á v e is à v is ta e b o a s p a r a c o m id a , b e m c o m o a á rv o r e d a v id a n o m eio d o ja r d im , e a á rv o r e do co ­ n h e c im e n to do b e m e do m a l. 10 E s a ía u m rio do É d e n p a r a r e g a r o ja r d im ; e d a li se d iv id ia e se to r n a v a e m q u a tr o b ra ç o s . 11 O n o m e do p rim e iro é P is o m : e s te é o q u e ro d e ia to d a a t e r r a d e H a v ilá , o nde h á o u ro ; 12 e o o u ro d e s s a t e r r a é b o m ; a li h á o b délio, e a p e d ra d e b e rilo . 13 O n o m e d o seg u n d o rio é G io m : e s te é o q u e ro d e ia to d a a t e r r a de C uche. 14 O n o m e do te r c e ir o rio é T ig re : e s te é o q u e c o rr e p elo o rie n te d a A ssíria . E o q u a rto rio é o E u fra te s . IS T o m o u , p o is, o S en h o r D eus o h o m e m , e o p ô s no ja r d im do É d e n , p a r a o l a v r a r e g u a rd a r . 16 O rd en o u o S en h o r D eu s a o h o m e m , d izen d o : D e to d a á rv o r e do ja r d im p o d e s c o m e r liv re m e n te ; 17 m a s d a á rv o r e do c o n h e c im en to do b e m e do m a l, d e s s a n ã o c o m e r á s ; p o rq u e no d ia e m q u e d e la c o m e re s, c e rta m e n te m o r ­ rerás.

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Em contraste com o tema de caos cósmico de Gênesis 1, esta passagem fala de deserto e oásis, e é claramente da fonte Judia (cf. A Introdução). Até o tempo em que o homem foi criado não tinha havido chuva na terra, porém ela era regada por um vapor ou, mais pro­ vavelmente, por uma fonte artesiana que jorrava do oceano subterrâneo. Esta fonte era, provavelmente, a fonte do rio que fluía do Jardim do Éden (v. 10). Nesta narrativa, o homem foi formado quando Deus moldou o pó da terra como um oleiro molda o seu barro. Depois que Deus sopra o seu próprio fôlego nele, o homem toma-se alma vivente. E também é igualmente certo que Deus pode retirar o seu fôlego, e o homem voltará ao pó, de onde veio. Éden significa lugar agradável. Mais tarde, a LXX traduziu esta palavra he­ braica, que significa jardim, com uma palavra emprestada do persa: paradeisos, paraíso. Algumas árvores foram colocadas no jardim para propiciar co­ mida, mas oufras ali foram colocadas apenas para torná-lo mais bonito. Ê cla­ ro que Deus queria que a vida de Adão fosse de prazer e felicidade. Os versículos 10-14 são uma perícope independente, que revela a localização geográfica do Jardim do Éden. Dois dos rios, Tigre e o Eufrates, são facilmente identificáveis, mas os outros dois têm desafiado todas as tentativas de locali­ zação específica. O Pisom, embora iden­ tificado como o Indo, mais provavelmente devia encontrar-se na Arábia. Se o Giom é o Nilo, como muitos crêem, por que o escritor não usa o nome comumente dado ao Nilo, como faz com o Tigre e o Eufrates? Não existe região que satisfaça à descrição de um rio se abrindo em quatro braços, dois dos quais são o Tigre e o Eufrates. À luz destes problemas, há três expli­ cações primárias possíveis desta passa­ gem. (1) O escritor, que não é estudante de geografia, está dizendo que todos os 180

rios da terra vieram de uma só fonte primeva (von Rad). (2) Esta passagem está considerando estes rios do ponto de vista de um marinheiro, sendo a fonte dos rios o Golfo Pérsico, e a foz dos quatro rios encontra-se nele (Kidner). (3) Os quatro rios expressam tradições a respeito das grandes civilizações do mundo antigo: Extremo Oriente (Indo), Egito (Nilo) e Mesopotâmia (Tigre e Eufrates). Essas civilizações tiveram a sua fonte em uma cultura original, o Jardim do Éden ideal. A responsabilidade de Adão era lavrar o solo do jardim. Desta forma, Gênesis ensina a dignidade do trabalho na cria­ ção original. O resultado da queda não foi o trabalho, mas a labuta em face de forças intoleráveis. A tarefa de Adão era simples e agradável, sem espinhos, car­ dos ou ervas daninhas para tomá-lo frus­ trado. Sem um trabalho construtivo, o homem não pode obter da vida uma verdadeira satisfação. Ócio não era o modo de vida no Éden. A árvore do conhecimento do bem e do mal (heb., “ árvore do conhecimento, bem e mal” , o que significa que ela incluía todo conhecimento) foi proibida ao homem, porque ela o destruiria. Co­ mo pode acontecer o conhecimento des­ truir o homem? Freqüentemente, o ho­ mem modemo é incünado a pensar que o conhecimento (cultura) resolverá os seus problemas. Contudo, com toda a cultura que a nossa geração obteve, não somos, na maioria, tão realizados quanto os nossos antepassados. Gênesis está dizen­ do que quando a busca do conhecimento substitui a confiança na palavra de Deus, o naufrágio é inevitável. O conhecimen­ to, que é potencialmente bom, destruirá o homem que não tem a fé, para enten­ dê-lo ou direcioná-lo. Que conexão tem a árvore do conhe­ cimento com o sexo? O verbo “conhecer” (4:1) é usado para designar relações sexuais. Depois que Adão e Eva peca­ ram, eles cobriram os seus órgãos geni-


tais (3:7). A opinião popular é que o pecado original do primeiro casal foi o contato sexual. Nada podia estar mais longe da verdade. Há várias razões por que isto não pode ser verdade. (1) Em Gênesis 1, Deus lhes havia ordenado para serem frutíferos e se multiplicarem (v. 28). (2) Eva cometeu o pecado quando estava sozinha. (3) Menciona-se que Deus tinha a espécie de conhecimento que eles obtiveram da árvore (3:22). A explicação mais plausível é que, quando eles comeram da árvore do co­ nhecimento, tomaram consciência de sua diferença como homem e mulher. O que antes fora natural e sadio, agora se tomara uma fonte de vergonha. 2) A Criação de Eva (2:18-25) 18 D isse m a is o S en h o r D e u s: N ão é b o m qu e o h o m e m e s te ja só ; fa r-lh e -e i u m a aju d a d o ra q u e lhe s e ja id ô n e a. 19 D a t e r r a fo rm o u , p o is, o S en h o r D eu s to d o s os a n i­ m a is do c a m p o e to d a s a s a v e s do céu , e os tro u x e a o h o m e m , p a r a v e r co m o lh e s c h a m a r ia ; e tu d o o qu e o h o m e m c h a m o u a todo s e r v iv e n te , isso foi o se u n o m e . 20 A ssim o h o m e m d eu n o m e s a todos o s a n i­ m a is d o m éstico s, à s a v e s do c é u e a to d o s os a n im a is do c a m p o , m a s p a r a o h o m e m n ã o se a c h a v a a ju d a d o r a id ô n e a . 21 E n tã o o S en h o r fez c a ir u m sono p e sa d o so b re o h o m em , e e s te a d o rm e c e u ; to m o u -lh e, e n ­ tã o , u m a d a s c o ste la s, e fech o u a c a rn e e m seu lu g a r ; 22 e d a c o ste la q u e o S e n h o r D eu s lh e to m a ra , fo rm o u a m u lh e r e a tro u x e ao h o m em . 23 E n tã o d is se o h o m e m : E s ta é a g o ra osso dos m e u s o sso s e c a rn e d a m in h a c a r n e ; e la s e r á c h a m a d a v a ro a , p o rq u a n to do v a rã o foi to m a d a . 24 P o rta n to , d e ix a r á o h o m e m a se u p a i e a s u a m ã e , e u n ir-se -á à s u a m u lh e r; e s e rã o u m a só c a rn e . 25 E a m b o s e s ta v a m n u s, o h o m e m e s u a m u ­ lh e r ; e n ão se e n v e rg o n h a v a m .

Ao fim de cada ato criador por parte de Deus, Gênesis 1 diz “E viu Deus que isso era bom .” Agora, quando Deus olha para Adão, observa que o que vê não é bom! O homem necessitava de uma companheira “correspondente a ele” . Não se dá nenhum indício da infe­ rioridade da mulher. Da mesma forma como haverá um leão e uma leoa, haverá

um homem e uma mulher. Com uma profunda compreensão do senso de co­ munidade da humanidade, o escritor nota que primeiramente os animais são trazidos ao homem, para ver se algum deles satisfaria as suas necessidades, mas eles não se qualificam. Finalmente, Deus formou (construiu) Eva de uma costela de Adão, e apresentou-a a ele. Um velho ditado nota: “Deus não tirou um osso da cabeça de Adão, para que ela dominasse sobre ele; nem de seu pé, para que ele dominasse sobre ela; mas de debaixo de seu braço, para que ele a protegesse, de perto de seu coração, para que ele a amasse.” Um comentarista modemo diz, joco­ samente, que a razão por que Deus usou a costela era que este era o único osso que ele podia tirar do corpo de Adão sem aleijá-lo! Todavia, a idéia apresentada é que, pelo fato de que Adão e Eva originalmente eram um, eles podiam tomar-se um mais uma vez. Ao ver Eva, Adão irrompe, muito apropriadamente, em um poema: Esta é ela! Osso dos meus ossos, Carne de minha carne! Mulher será ela chamada, Porque do homem foi tomada.

Há treze palavras hebraicas neste pequeno poema. A primeira é “esta uma” , bem como a décima terceira e a sétima, que está exatamente no meio. Não há dúvida de que Adão está dizendo: “Esta mulher, em primeiro lugar, em último e sempre!” Não há dúvida quanto ao seu júbilo; ele quer que Deus não vá adiante na busca de uma companheira para ele. O versículo 24 é uma palavra dirigida a todas as gerações, proclamando o prin­ cípio de colonização no casamento. Cada novo casamento é uma nova colônia, com as suas lealdades primordiais aos seus próprios relacionamentos internos. A incomum declaração deve ser notada, de que o homem deve deixar seu pai e sua 181


mãe, e apegar-se à sua esposa. Era de se esperar o oposto, que a mulher aban­ donasse os seus pais. 3) A Tentação e a Queda (3:1-7) lO ra , a s e rp e n te e r a o m a is a s tu to de to d o s o s a n im a is do c a m p o q u e o S en h o r D eu s tin h a feito . E e s ta d isse à m u lh e r: É a s s im q ue D eu s d is s e : N ão c o m e re is d e to d a á rv o r e do ja r d im ? 2 R e sp o n d eu a m u lh e r à s e r p e n te : D o fru to d a s á rv o r e s do ja r d im p o d em o s c o m e r, 3 m a s do fru to d a á rv o r e q u e e s tá n o m eio do ja r d im , d is se D e u s : N ão c o m e re is d e le , n e m n e le to c a re is , p a r a que n ão m o r ra is . 4 D isse a s e rp e n te à m u lh e r: C e rta m e n te n ã o m o r re re is . 5 P o rq u e D eu s s a b e qu e no d ia e m q u e c o m e rd e s d e sse fru to , v o sso s olhos se a b r ir ã o , e s e r e is com o D eu s, conhecen d o o b e m e o m a l. 6 E n tã o , v endo a m u lh e r q ue a q u e la á r v o r e e r a b o a p a r a se c o m e r, e a g r a d á v e l a o s olhos, e á rv o r e d e s e já v e l p a r a d a r e n te n d im e n to , to m o u do se u fru to , co m eu , e d e u a se u m a rid o , e e le ta m b é m c o m e u . 7 E n tã o fo­ r a m a b e rto s os olhos d e a m b o s , e c o n h ec e ­ r a m q u e e s ta v a m n u s ; p elo q u e c o s e ra m fo lh as de fig u e ira s , e fiz e ra m p a r a s i a v e n ­ ta is .

A tragédia desta primeira família é retratada como um fracasso tanto quanto como uma queda. Foi uma queda, por­ que o homem se afastou das decisões responsáveis concernentes ao seu desti­ no, e deixou os seus desejos dominaremno. O escritor judeu, considerando o homem da maneira como ele se havia tomado, sabia que Deus não podia ter criado a humanidade daquela forma. Algo que acontecera de errado no prin­ cípio havia desde então colocado o ho­ mem em situação desvantajosa. O ho­ mem nunca veio a ser o que Deus pre­ tendia que ele fosse; assim, falhou em realizar o propósito de Deus para com ele. Ele se recusa continuamente a admi­ tir que é criatura, e a se submeter à vontade de Deus. A idéia de que Adão e Eva eram completos antes da queda dificilmente pode ser coerente com as Escrituras. Eles eram sem pecado, mas não completos. O corpo do homem havia alcançado o seu pleno potencial, a sua mente, a sua saga­ 182

cidade pretendida, mas o homem ideal precisa ser mais do que uma mente sã em um corpo são. Deus o criou e o colocou no jardim para que ele se tornasse uma pessoa responsável. Defrontando-se com a escolha entre os seus próprios desejos e a vontade de Deus, o homem rejeitou o propósito de Deus para com ele, e seguiu o seu cami­ nho de forma egoísta. Ele nunca chegou ao seu fim. Tanto a palavra hebraica quanto a grega, que significam pecado, dão a idéia de “errar o alvo” ou falhar. O pecado não é apenas a prática de imoralidade, mas também a insubmissão à vontade de Deus na vida. Gênesis 3 começa apresentando a ser­ pente. Ela não é retratada aqui como Satanás, mas como o mais astuto animal que Deus fizera. O escritor toma o cuida­ do de mostrar que o problema no Jardim do Éden não começou de fora da ordem criada. Gênesis não vê nenhuma tensão entre Deus e uma força maligna inde­ pendente. Seja o que for que tenha ini­ ciado o problema do mal, está dentro do domínio de Deus, e, portanto, sujeito às suas disposições. Quem é esta serpente, portanto, que começou tudo? É claro que ela é um animal mesmo. A conexão do mal com serpentes é um tema familiar. De fato, a Epopéia de Gilgamesh, do segundo mi­ lênio a.C., na Babilônia, diz que uma serpente foi responsável pelo fato de o homem não ter alcançado a vida etema (cf. Pritchard, p. 96). No relato de Gênesis, a serpente é con­ denada a rastejar sobre o seu ventre, uma referência óbvia ao estilo de vida das cobras. Isto leva alguns estudiosos a ver, nesta narrativa, uma explicação etiológica de por que as cobras rastejam. No entanto, a serpente significa mais do que uma cobra. A luta entre a des­ cendência da serpente e a raça humana (3:15) ê mais do que uma contenda entre homens e ofídios. Como assevera von Rad, o escritor de Gênesis vê na serpente


“um ser maligno que assumiu forma, que está inexplicavelmente presente em nosso mundo atual e que focalizou contra o homem os seus ataques, está à sua es­ preita, e, por toda parte, trava contra ele uma batalha de vida ou morte” (p. 89 e 90). Embora von Rad tivesse negado anteriormente que a serpente corporifica um poder “ demoníaco” (p. 85), aqui ele admite que o conceito é estranhamente ligado àquele. A explicação mais simples deste pro­ blema é que o escritor de Gênesis usou uma antiga história que explica por que as serpentes rastejam sobre os seus ven­ tres, para ensinar o papel do poder de­ moníaco na queda do homem. O homem caiu quando foi influenciado por forças que estavam dentro da criação de Deus, mas fora de si próprio. A serpente primeiro atrai a atenção de Eva por insinuação, chegando a dizer: “É verdade o que eu ouvi, que Deus não permitirá que vocês comam de nenhuma das árvores do jardim?” Foi a primeira vez que ela ouvira alguém duvidar de Deus. Não sabia que isso era uma opção existente. Como qualquer pessoa confi­ ante, cuja fé em Deus é desafiada, ela ficou indignada. Deus de fato era bom; ele havia proibido apenas uma árvore. Contudo, como nunca antes, a atenção dela foi atraída para esse objeto. Agora a serpente alega que Deus está privando a mulher de seus direitos. Deus está conservando-a ignorante, porque não quer compartilhar sua sabedoria com ela. Além disso, a serpente assegura-lhe que a ameaça de Deus era vazia. Ela não morreria. Ao admirar a árvore, que não ousara examinar mais detidamente antes, ela nota que ela parecia boa para comer, atraente para pegar e certamente iluminadora para a sua mente (visto que se chamava de a árvore do conhecimento). Impulsivamente, ela estende a mão, toca-a, esperando que Deus a fulmine. Em vez disso, aparentemente ela é dei­

xada inteiramente só, e pode saborear o fruto. Rapidamente ela o reparte com seu marido. Deve-se notar que a queda de Adão foi arranjada mais facilmente do que a de Eva. Para a serpente tentar Eva com sucesso, foi necessário astúcia incomum, mas tudo o que foi necessário para a queda de Adão foi Eva oferecer-lhe o fruto! O restante do capítulo trata dos resul­ tados desta aventura aparentemente bem-sucedida. A princípio nada acon­ teceu. Depois, eles notaram que estavam nus, e assim se cobriram com folhas de' figueira. A serpente havia dito a Eva que eles teriam o conhecimento que Deus possuía. O que haviam eles aprendido? Que estavam nus. Que profundo! Com todo o extasiante conhecimento que o homem adquiriu neste século, onde este o deixou quanto à sua alma? Vencido por uma esmagadora sensação de culpa a respeito de si mesmo e da sociedade em que vive. Sempre acontece assim, está dizendo o escritor, quando a busca do conhecimento não é dirigido pela fé (veja os comentários sobre 2:17). 4) As Conseqüências da Queda (3:8-24) 8 E , o u vindo a voz do S e n h o r D e u s, q u e p a s s e a v a n o ja r d im à ta r d in h a , e sc o n d e ­ ra m -s e o h o m e m e s u a m u lh e r d a p re s e n ç a do S e n h o r D eu s, e n tr e a s á rv o r e s d o ja r d im . 9 M as cham ou o Senhor D eus ao hom em , e p e rg u n to u -lh e : O nde e s tá s ? 10 R espondeulh e o h o m e m : O uvi a tu a voz n o ja r d im e tiv e m ed o , p o rq u e e s ta v a n u ; e e sco n d i-m e . 11 D eu s p e rg u n to u -lh e m a is : Q u em te m o s tro u q u e e s ta v a s n u ? C o m e ste d a á rv o r e q u e te o rd e n e i que n ã o c o m e s se s? 12 Ao q u e r e s ­ p o n d eu o h o m e m : A m u lh e r q u e m e d e ste p o r c o m p a n h e ira d eu -m e d a á rv o r e , e eu co m i. 13 P e rg u n to u o S en h o r D e u s à m u lh e r : Q ue é is to q u e fiz e ste ? R e sp o n d e u a m u lh e r: A s e rp e n te en g a n o u -m e , e e u co m i. 14 E n tã o o S e n h o r D e u s d is se à s e r p e n te : P o rq u a n to fiz e ste isso, m a ld ita s e r á s tu d e n tre to d o s os a n im a is d o m é stic o s, e d e n tre to d o s o s a n im a is do c a m p o ; so b re o te u v e n tr e a n d a r á s , e p ó c o m e rá s to d o s os d ia s d a tu a v id a .

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I

15 P o re i in im iz a d e e n tr e ti e a m u lh e r, e e n tr e a tu a d e sc e n d ê n c ia e a s u a d e sc e n d ê n c ia ; e s ta te f e r ir á a c a b e ç a , e tu lh e f e r ir á s o c a lc a n h a r. 16 E á m u lh e r d is se : M u ltip lic a re i g ra n d e m e n te a d o r d a tu a c o n ceição ; e m d o r d a r á s à lu z filh o s; e o te u d e se jo s e r á p a r a o te u m a rid o , e e le te d o m in a rá . 17 E a o h o m e m d is s e : P o rq u a n to d e s te ouvid o s à voz d e tu a m u lh e r, e co m e s te d a á rv o r e d e q u e te o rd e n e i, d iz e n d o : N ão c o m e r á s d e la ; m a ld ita é a t e r r a p o r tu a c a u s a ; e m fa d ig a c o m e r á s d e la to d o s o s d ia s d a tu a v id a . 18 E la te p ro d u z irá esp in h o s e a b ro lh o s; e c o m e rá s d a s e r v a s do c a m p o . 19 Do s u o r do te u ro s to c o m e rá s o te u p ão , a té q u e to rn e s à te r r a , p o rq u e d e la fo ste to m a d o ; p o rq u a n to é s pó, e a o pó to r n a r á s . 20 C h am o u A dão à s u a m u lh e r E v a , p o r­ qu e e r a a m ã e d e to d o s os v iv e n te s. 21 E o S en h o r D eu s fez tú n ic a s d e p e le s p a r a A dão e s u a m u lh e r, e os v e stiu . 22 E n tã o d is se o S en h o r D e u s: E is q u e o h o m e m se te m to m a d o com o u m d e n ó s, co n h ecen d o o b e m e o m a l. O ra , n ã o su c e d a q u e e s te n d a a s u a m ã o , e to m e ta m b é m d a á r v o r e d a v id a , e c o m a e v iv a e te r n a m e n te . 23 O S e n h o r D eu s, p ois, o la n ç o u fo ra do ja r d im do É d e n , p a r a la v r a r a t e r r a , de q u e f o r a to m a d o . 24 E h av e n d o la n ç a d o f o r a o h o m e m , p ô s a o o r i­ e n te do ja r d im do É d e n o s q u e ru b in s, e u m a e s p a d a fla m e ja n te q u e se v o lv ia p o r to d o s os la d o s , p a r a g u a r d a r o c a m in h o d a á rv o r e d a v id a .

A consciência de sua nudez, depois de ter adquirido o conhecimento provindo do fruto proibido por Deus, era essen­ cialmente o resultado de sua alienação de Deus no processo. Anteriormente, Adão e Eva estavam vivendo em uma comu­ nhão sadia um com o outro e com Deus. Eles não se consideravam em contrapo­ sição a Deus e um com o outro, mas aceitavam cada relacionamento sem questionar. Agora repentinamente tor­ navam-se cônscios das diferenças exis­ tentes entre eles. “Adão está olhando 184

para mim” , cisma Eva, e ela precisava esconder-se dele, e vice-versa. “Não pos­ so deixar Deus me ver desta forma” , sentiam ambos. “Eu e tu” substituem o “nós” de seu relacionamento anterior. Quando Eva foi induzida pela serpente a pensar que Deus, na verdade, não se interessava por ela, a alienação já tivera início. Quando ela comeu do fruto, a dita alienação foi consumada. “Deus é Deus e eu sou eu, e eu estou preparada para me virar sozinha.” O que Jesus ensina tão claramente, que a separação de Deus resulta na separação de nossos seme­ lhantes, o Velho Testamento também dramatiza nesta passagem. Hoje em dia os objetivos do homem não devem ser apenas minimizar as diferen­ ças que descobriu existirem entre ele e outrem, mas enfatizar a sua unidade essencial. Isto pode ser conseguido ape­ nas se a cerca quebrada for consertada no lugar certo, onde a princípio o ho­ mem abandonou o domínio de seu Cria­ dor. Só quando os homens se tomam u m ' com Deus e se perdem na vontade divina, é que podem abandonar o seu próprio senso de vergonha em relação a outrem ^ Originalmente, Adão e Eva eram um, porque nunca haviam notado particular­ mente como eram diferentes. Uma vez tendo sido feitos conscientes disso, os nossos ancestrais originais jamais pude­ ram esquecê-lo. Parar aí, contudo, é permanecer em uma condição decaída. Avançar em uma unidade por entre a diversidade é o alvo da criação. O homem, em sua alienação, se escon­ de de Deus, que não o deixará por conta própria, mas vem, para lembrar-lhe as conseqüências do fato de ele ter negado o seu relacionamento apropriado com ele. O destino da serpente enfatiza o golpe dado em seu orgulho; a sua astúcia é rasteira e limitada à sua trilha através do pó. A condição da mulher é tríplice: as dores do parto, a criação de muitos filhos (Mais do que ela pode dar conta? O verbo hebraico “multiplicar” também


govema “conceição” . A RSV a considera como hendíadis, figura em que se usam dois substantivos ligados por e, em vez de um substantivo e um adjetivo) e a domi­ nação de seu marido. (Note-se que esta é uma regra pelo consentimento da gover­ nada. Ê porque ela o deseja, que ele pode governar sobre ela!) Ê nestas três áreas que as mulheres têm lutado para se liber­ tarem, neste último século: o uso de anestésicos no parto, o controle da nata­ lidade e os direitos iguais da mulher perante a lei. Ê nas culturas cristãs que estes alvos têm sido alcançados em pri­ meiro lugar. A declaração da guerra que iria ser travada entre a serpente e a mulher tem sido chamada de Protevangelium, o primeiro evangelho, as primeiras boasnovas. Dificilmente este era o significado para Adão e Eva. Significava, para eles, uma luta de morte entre os poderes de­ moníacos e humanos, com pequena espe­ rança de sobrevivência para ambos ou um dos dois. Algum consolo pode ser encontrado na destruição certa do pode­ rio demoníaco (esmagada a cabeça da serpente). Pois os dentes inoculadores mortais da serpente, para ferir o calca­ nhar da humanidade até que ela seja esmagada, normalmente implicam em morte também para o homem. Obvia­ mente, este versículo, por si mesmo, oferece pouca esperança — só uma re­ mota possibilidade. A esperança é en­ contrada claramente no contexto, po­ rém, quando Deus mesmo veste Adão e Eva. Outro elemento de esperança encon­ tra-se no fato de que a porta do jardim não foi trancada nem o jardim destruído como a vinha de Isaías 5. O portão foi guardado pelos querubins (misteriosos protetores da santidade de Deus, seme­ lhantes às figuras aladas, parcialmente humanas e parcialmente animais, que guardavam os templos antigos), dando a entender, possivelmente, que estavam ali não apenas para impedir que os homens

entrassem, mas também para permitir a entrada, no caso de que alguém que tivesse ganho o favor de Deus aparecesse. Alguns expositores sugerem que a ser­ pente estava certa em sua declaração a Eva, de que eles não morreriam como resultado de terem comido o fruto proi­ bido, pois eles não morreram “no dia em que dela” comeram, e posteriormente teriam morrido de qualquer forma. To­ davia, 2:17b pode ser lido desta forma: “No dia em que dela comeres, começarás a morrer.” O processo da morte espi­ ritual começou quando eles pecaram, em sua alienação de Deus, fonte de toda a vida. Se eles não tivessem pecado, ainda podiam ter morrido fisicamente, mas esta seria a forma de entrar em um estado de existência ainda mais aben­ çoado. Quando o pecado separou os homens de Deus, a morte já lhes havia sobrevindo. A morte do corpo físico so­ mente enfatizou o seu estado irreme­ diável de prisão às coisas terrenas. O fato de Adão ter dado à sua mulher o nome de Eva (vivente), em face da sentença de Deus com respeito a morte sem significado, acentuou a determina­ ção obstinada do homem de perseverar, a despeito de perspectivas impossíveis, e a sua consciência de que qualquer espe­ rança do futuro estava ligada e dependia do ventre fértil de sua esposa. A morte lhe sobreviria e à sua esposa, mas através dela uma nova vida surgiria para gera­ ções que ainda não haviam nascido. O homem precisa abandonar o jardim, para impedir que ele coma da árvore da vida, pois, em tal condição de rebeldia, a sua existência contínua na terra iria apenas poluir o Universo. A árvore da vida representa a vida eterna, perdida para ele, a menos que lhe seja facultada por Deus. Em a narrativa acerca da árvore da vida e da árvore do conheci­ mento, alguns expositores encontram um conflito entre os dois relatos, achando que no original ocorre, na verdade, apenas uma árvore (Simpson e von Rad). 185


Ambas as árvores, contudo, estão agora em a narrativa e são necessárias para o seu entendimento. Pelo fato de ter comi­ do da árvore do conhecimento, o homem perdeu o direito à árvore da vida. Como estão erradas as pessoas que pensam que no cristianismo o principal propósito de Deus é propiciar a vida eterna! Adão podia tê-la conseguido sim­ plesmente se tivesse sido deixado por sua própria conta no jardim. A ênfase da Escritura é que Deus não permitirá que o homem viva para sempre, enquanto ele não o capacitar a tomar-se um bom mordomo de sua existência. Em Cristo, somos as novas criaturas a quem ele deu o poder de viver a vida proposta por ele, não em perfeição, enquanto neste corpo, mas movendo-nos em direção a esse alvo quando a obstinação da came será anu­ lada, e substituída por submissão, sendo assim glorificada na ressurreição final. 3. A História de Caim (4:1-26) Estas passagens estão arraigadas pro­ fundamente na antiguidade. No hebrai­ co, a palavra Caim é similar ao nome dos “queneus” (Núm. 10:29 e s.), um a tribo nômade do deserto cuja história é, pro­ vavelmente, expressa aqui (cf. von Rad, p. 104). A narrativa, como a temos, todavia, não parece ser uma história tribal disfarçada, pois os descendentes de Caim não seguem o seu modo de vida. Eles eram, provavelmente, urbanos (Cassuto). No capítulo 4, conforme consta, existe uma tensão considerável entre pastor e lavrador (v. 1-16) e entre a sociedade rural e a urbana (v. 17-26). Os ancestrais dos hebreus eram originalmente pasto­ res; os cananeus, que foram desapossa­ dos, eram lavradores. 1) Caim e Abel (4:1-16) 1 C onheceu A dão a E v a , s u a m u lh e r; e la co n ceb eu e , te n d o d a d o à lu z a C aim , d is se : A lcan cei do S en h o r u m v a r ã o . 2 T o rn o u a d a r à luz a u m filho — a se u ir m ã o A bel.

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A bel foi p a s to r d e o v e lh a s, e C a im foi la v r a ­ d o r d a te r r a . 3 Ao cab o d e d ia s tro u x e C a im do fru to d a t e r r a u m a o fe rta a o S en h o r. 4 A bel ta m b é m tro u x e dos p rim o g ê n ito s d a s su a s o v e lh a s, e d a s u a g o rd u ra . O ra , a te n to u o S en h o r p a r a A bel e p a r a a s u a o fe rta , 5 m a s p a r a C a im e p a r a a s u a o fe r ta n ã o a te n to u . P e lo q u e iro u -se C a im fo rte m e n te , e d e sc aiu -lh e o s e m b la n te . 6 E n tã o o S en h o r p e rg u n to u a C a im : P o r q u e te ir a s te ? e P o r qu e e s tá d e sc a íd o o te u s e m b la n te ? 7 P o r ­ v e n tu r a se p ro c e d e re s b e m , n ã o se h á de le v a n ta r o te u s e m b la n te ? e se n ã o p ro c e ­ d e re s b e m , o p e c a d o ja z à p o rta , e so b re ti s e r á o se u d e se jo ; m a s so b re e le tu d e v e s d o m in a r. 8 F a lo u C a im co m o se u irm ã o A bel. E , e sta n d o e le s n o c a m p o , C a im se le v a n to u c o n tr a o se u irm ã o A bel, e o m a to u . 9 P e rg u n to u , p o is, o S en h o r a C a im : O nde e s tá A bel, te u irm ã o ? R e sp o n d e u e le : N ão se i; sou eu o g u a r d a d o m e u ir m ã o ? 10 E d isse D e u s: Q ue fiz e ste ? A v o z d o s a n g u e d e te u irm ã o e s t á c la m a n d o a m im d e sd e a te r r a . 11 A g o ra m a ld ito é s tu d e sd e a te r r a , q ue a b riu a s u a b o c a p a r a d a tu a m ã o r e c e ­ b e r o sa n g u e d e te u irm ã o . 12 Q u ando la v r a ­ re s a te r r a , n ã o te d a r á m a is a su a fo rç a ; fu g itiv o e v a g a b u n d o s e r á s n a te r r a . 13 E n ­ tã o d isse C a im a o S e n h o r: É m a io r a m in h a p u n iç ã o do q u e a q u e e u p o s s a s u p o r ta r. 14 E is q u e h o je m e la n ç a s d a f a c e d a t e r r a ; ta m b é m d a tu a p re s e n ç a fic a re i esco n d id o ; s e r e i fu g itiv o e v ag a b u n d o n a t e r r a ; e q u a l­ q u e r q u e m e e n c o n tr a r m a ta r-m e -á . 15 O S en h o r, p o ré m , lh e d is s e : P o rta n to , q u e m m a t a r a C aim , s e te v e z e s so b re e le c a ir á a v in g a n ç a . E pô s o S en h o r u m sin a l e m C aim , p a r a q u e n ã o o fe ris s e q u e m q u e r q u e o e n c o n tra s s e . 16 E n tã o sa iu C a im d a p re s e n ­ ç a d o S en h o r, e h a b ito u n a t e r r a d e N ode, a o o rie n te do É d e n .

No Velho Testamento, a palavra “co­ nhecer” é usada a respeito de relações sexuais, como no versículo 1. Richardson descreve a sua forma de pensamento: “Isto não ê um mero eufemismo. No pensamento hebraico “conhecer’ não é meramente acadêmico ou ‘intelectual’; sempre dá a entender a entrada em rela­ ções pessoais ativas com a pessoa conhe­ cida.” Os escritores bíblicos sabiam que a este respeito o conhecimento sexual é uma das experiências mais significativas possíveis para os seres hutiianos. O uso de ish (homem) para um recémnascido não se encontra em nenhuma


outra parte do Velho Testamento. Pode ser que aqui esteja enfatizando o poten­ cial dessa criança. Caim é “um homen­ zinho” ou esta expressão pode mais sim­ plesmente estar significando “um ma­ cho” . Com a ajuda do Senhor, ou alcan­ cei do Senhor, significa literalmente “com o Senhor” . Das muitas sugestões a respeito do significado da palavra hebrai­ ca eth (sinal do acusativo, ou a prepo­ sição com), a mais provável é a tradução da RSV, “com a ajuda de” . Eva consi­ dera o nascimento de seu filho como um dom de Deus. Mesmo agora, que sabe­ mos mais acerca de hereditariedade, o mistério da vida ainda continua com Deus. Cada nascimento é ainda um novo milagre. Abel significa vaidade ou fraqueza, mas o significado do nome não é indica­ do na história. Neste contexto, é um apelido estranho. Seria ele débil fisica­ mente? Se assim era, ele venceu essa fraqueza, pois a vida de pastor era bem rude. Alguns expositores têm sugerido que talvez Eva esperava que Caim fosse a “descendência” que iria esmagar a ser­ pente. Se assim foi, ela notou logo a natureza teimosa dele, mesmo enquanto pequeno. O nome que ela deu ao segun­ do filho pode ter expressado a sua deses­ perança diante de mais um filho, pois a maldição de Deus sobre ela estava fazendo-se sentir. A despeito da maldição sobre a terra, Caim tomou-se lavrador, enquanto Abel decidiu-se pela profissão de pastor. E, então, cada um deles trouxe volun­ tariamente uma oferta a Deus, pois ela não fora ordenada. Caim apropriada­ mente trouxe de seu produto, enquanto Abel trouxe ovelhas. No entanto, Deus aceitou Abel e sua oferta, e rejeitou Caim e sua dádiva. O que acontecera de erra­ do? Ambos haviam sido sinceros. Eles haviam trazido os seus presentes por vontade própria. Mas nem então nem agora a sinceridade é suficiente. A dife­ rença estaria nos materiais ofertados?

Será que Deus rejeitou Caim porque trouxe produto da terra, em vez de fazer oferenda de sangue? Dificilmente isto seria verdade, pois a oferta de cereais (“ofertas de manjares” , Lev. 2:1) era uma das principais ofertas do sistema sacrificial posterior. Obviamente Deus se agradara mais da oferta de sangue, que era a principal no Velho Testamento, mas não teria rejeitado a de cereais, a não ser como uma oferta pelo pecado (holocausto). Não há, aqui, nenhuma indicação de que o caso é de uma oferta pelo pecado. Uma chave valiosa é encontrada na menção de primogênitos na oferta de Abel. O termo “primícias” é usado cor­ respondentemente em relação a produtos da terra, no Velho Testamento. Da mes­ ma forma como os primogênitos eram os mais preciosos entre os animais, as “pri­ mícias” o eram entre os cereais. A ausên­ cia desse termo correspondente em refe­ rência a Caim é óbvia. A despeito da opinião de Gunkel, bem como de grande parte dos comentaristas modernos, de que o contexto dá a entender que Caim trouxe “a fina flor” dos cereais, ou, do ponto de vista do Talmude, de que a sua oferta era da pior qualidade, esta pas­ sagem dá a entender, obviamente, que, em contraste com o melhor que Abel havia trazido, Caim simplesmente trouxe a Deus algo. Não que fosse da pior qualidade; não era o melhor do que ele tinha. Caim estava agradecido a Deus por um rendoso ano agrícola; ele queria agra­ decer-lhe pela sua ajuda; por isso trouxelhe um presente. Abel, ao dar a Deus o que tinha de melhor, como mais tarde os homens iriam fazer diante dos gover­ nantes humanos, testificou de sua com­ pleta dependência de Deus e do quanto devia a ele. Caim agradeceu a Deus por servi-lo. Abel confessou-se servo de Deus. Não somos informados como foi que estes homens descobriram a reação de Deus à sua oferta. Talvez isto se tornou 187


aparente quando o rebanho de Abel se multiplicou, enquanto a colheita seguin­ te de Caim foi um fracasso. Seja como for que Deus a tenha feito conhecida, a reação de Caim foi hostil, evidência sufi­ ciente de sua atitude errada para com o seu Criador. Um verdadeiro homem de fé ainda continua crendo na bondade de Deus, mesmo quando as circunstâncias são difíceis (v. 7a). Caim é advertido de que o seu ressentimento poderia levá-lo ao desastre, se ele não o reprimisse. Saiamos ao campo é uma adição feita pela RSV (versão da Bíblia em inglês que serve de base para este Comentário em inglês) ao texto recebido do hebraico, seguindo várias versões antigas, espe­ cialmente a LXX e o Pentateuco Samaritano. Faltam, ao texto hebraico, as palavras que Caim disse. Há muitas ten­ tativas para resolver o problema, quer por emenda textual, quer por significa­ dos alternativos do verbo falou. É bem possível que o que ele disse tenha-se perdido para a posteridade. Onde está... teu irmão? Agora se se­ gue a “Onde estás?” de 3:9. Desta for­ ma, as duas perguntas fundamentais, que Deus propõe ao homem, já foram feitas. Ao redor destas duas questões se agruparão os Dez Mandamentos, o rela­ cionamento do homem com Deus e de­ pois com o seu irmão. A sarcástica res­ posta de Caim: Sou eu o guarda (pastor) do meu irmão? não é respondida por Deus de maneira direta, mas a parábola do bom samaritano é a resposta. Neste contexto, esta parábola não significaria que um homem é qualificado para tomar as decisões finais a respeito do papel ,de outra pessoa na vida, como um pastor governa o seu rebanho, porque poucos homens querem ser “guardados” neste sentido. Pelo contrário, esta resposta de Caim dá a entender que ele não se sente responsável pelo que acontece ao seu irmão. A impropriedade óbvia desta res­ posta não requeria resposta. 188

A expressão usada a respeito da terra, que abriu a sua boca, concorda com o conceito, encontrado no decorrer de todo o Velho Testamento, de que as entra­ nhas da terra (Seol, a sepultura) têm um apetite insaciável de homens, devorando em todas as oportunidades. Deus nada tem dessa insensibilidade. O Seol não é tão profundo que Deus não possa ouvir o clamor dos sangues (plural em heb., como acontece muitas vezes em refe­ rência a sangue derramado, cf. I Reis 2:5,31; Is. 1:15; 9:5) de Abel. É quase tão difícil esconder um homicídio dos outros homens quanto de Deus, pois esse clamor vem da própria terra, para ser ouvido por aqueles que o desejarem. O castigo de Caim foi adequado. A parceria dele com a terra que o alimen­ tava com os seus produtos, e que ele acabara de alimentar com o sangue de seu irmão, é dissolvida. Nunca mais ele se sentiria à vontade na terra, nem ela produziria para ele a sua força (produ­ tos). Ele responde, dizendo, literalmen­ te: “Minha iniqüidade é mais do que eu posso carregar” , com ênfase no castigo de Deus, que automaticamente se segue. De fato, esta é a condição de todos os homens. Ninguém consegue carregar o peso de sua própria iniqüidade. É signi­ ficativo que o Servo Sofredor, de Isaías 53, diz esse texto, levou as tristezas e iniqüidades do homem (Is. 53:4, 11b, 12b). Aqui, Deus não promete carregar as iniqüidades de Caim, mas de fato alivia a sua carga, protegendo-o da pro­ babilidade de ser morto, colocando sobre ele uma marca especial. Deve-se notar que a marca colocada em Caim, seja ela o que possa ter sido, não fazia parte de seu castigo, mas era um ato de misericórdia. Quando se diz que Saiu Caim da presença do Senhor, o significado não é que ele abandonou o domínio de Yahweh propriamente dito, pois, em Gênesis, ele é o Deus de toda a terra. Pelo contrário, a idéia é que entre eles não havia comunhão possível. Isto


não é porque o homicídio é pecado sem perdão, mas porque Caim não expres­ sara nenhum arrependimento pelo seu pecado e não fizera nenhum pedido de reconciliação com Deus. Não era que Deus tivesse falta de misericórdia; era que Caim tinha falta de fé. 2) Caim e a Civilização (4:17-26) 17 C onheceu C a im a s u a m u lh e r, a q u a l con ceb eu , e d e u à lu z a E n o q u e . C a im e d ifi­ cou u m a c id a d e , e lh e d e u o n o m e do filho, E n o q u e. 18 A E n o q u e n a s c e u I r a d e , e I r a d e g e ro u a M e ü ja e l, e M e ü ja e l g e ro u a M e tu sa e l, e M e tu sa e l g e ro u a L a m e q u e . 19 L a m e q u e to m o u p a r a si d u a s m u lh e re s : o n o m e d u m a e r a A da, e o n o m e d a o u tr a Z ila. 20 E A da d eu à luz J a b a l ; e s te foi o p a i dos que h a b ita m e m te n d a s e p o ssu e m g a d o . 21 O n o m e do se u ir m ã o e r a J u b a l; e s te fo i o p a i d e to d o s os q u e to c a m h a r p a e fla u ta . 22 A Zila. ta m b é m n a s c e u u m filho, T u b al-C aim , fa b ric a n te d e todo in s tru m e n to c o rta n te de c o b re e d e f e r r o ; e a ir m ã d e T u b al-C aim foi N aam a. 23 D isse L a m e q u e a s u a s m u lh e re s : A da e Z ila, ouvi a m in h a voz; e s c u ta i, m u lh e re s d e L a m e q u e , a s m in h a s p a l a v r a s ; p ois m a te i u m h o m e m p o r m e fe r ir, e u m m a n c e b o p o r m e p is a r. 24 Se C a im h á de s e r v in g a d o s e te v e ze s, co m c e rte z a L a m e q u e o s e r á s e te n ta e se te v ezes. 25 T orn ou A dão a c o n h e c e r s u a m u lh e r, e e la d eu à lu z u m filho, a q u e m pôs o n o m e d e S e te ; p o rq u e , d is se e la , D eu s m e d eu o u tro filho e m lu g a r de A b el; p o rq u a n to C aim o m a to u . 26 A S ete ta m b é m n a s c e u u m filho, a q u e m p ô s o n o m e d e E n o s. F o i n e sse te m p o q ue os h o m e n s c o m e ç a ra m a in v o c a r o n o m e do S enhor.

Conheceu Caim a sua mulher. Onde ele a conseguiu? Eruditos rabínicos e cristãos têm sugerido que ele casou-se com uma de suas irmãs, pois se diz que Adão teve filhas (5:4). Parece que o escritor desta narrativa presume que Caim não teve dificuldade em encontrar uma esposa na terra de Node, como se já existisse outro povo vivendo ali. Caim anteriormente havia expresso o seu temor de que qualquer pessoa que o encontrasse o matasse. De quem teria ele medo? Naquela época

existiam apenas o seu pai e a sua mãe. Parece que ele estava sabendo da exis­ tência de outras pessoas “lá fora, al­ gures” . Contudo, a explicação mais provável do casamento de Caim é a tradicional. Quando Caim diz que qualquer pessoa que o encontrasse o mataria, na mente do escritor isto significava que qualquer pessoa era parente, pois o clã era res­ ponsável pela vingança do sangue derra­ mado, naquela época. Esta perícope (v. 17-26, mas especial­ mente os v. 17-24) era originalmente independente de 4:1-16. Ela foi colocada aqui para descrever o desenvolvimento da linhagem de Caim, em contraste com a de Sete. Os descendentes de Caim começaram todas as principais iniciati­ vas da civilização material: cidades, do­ mesticação do gado, música e trabalho em metal. Muitos expositores conside­ ram imprecisão do escritor dizer que o ferro era trabalhado naquela época re­ mota, mas não sabemos quando ele foi usado pela primeira vez. A Idade do Ferro (quando armas de ferro eram co­ muns) foi muito posterior. A tragédia foi que o progresso mate­ rial da linhagem de Caim não foi igua­ lado pelas conquistas morais e religiosas. Eles não apenas deram início à poliga­ mia, mas também Lameque representa o fim da linhagem — homem que não precisa mais da proteção de Deus, que se ufana de que com armas que ele mesmo manufaturou pode defender-se. O ho­ mem é um “rapaz novo” (yeledh). Neste contexto, esta palavra pode significar jo­ vem em seus verdes anos, mas não é este o seu sentido costumeiro. Esta cantiga pode estar expondo ironicamente a jac­ tância vazia de um homem oco. Jesus inverte a jactância de Lameque de uma vingança setenta e sete vezes, ensinando uma quantidade correspondente de perdão (Mat. 18:22). Em contraste com a linhagem de Caim, uma nova direção tem início, com 189


o nascimento de Sete a Adão e Eva. Desta vez, a alegria de Eva é misturada com tristeza, e ela usa um termo mais impessoal para referir-se a Deus. Quan­ do nasceu um filho a Sete, que lhe deu o nome de Enos (fraqueza), os homens começaram a invocar o nome do Senhor (Yahweh). Em sua força, a linhagem de Caim não sentira necessidade de Deus; em sua fraqueza, Enos reconheceu que tinha necessidade dele. A força de Caim por fim de nada lhe adiantaria. Enos iria estabelecer uma linhagem que nunca teria fim. A declaração desta fonte (Judia), de que o nome de “Yahweh” era usado nesta época remota, está aberta à acusa­ ção de que ela pode ser anacrônica. Tanto Êxodo 3:13 e ss. (fonte Israelita do Norte) quanto Êxodo 6:2 e ss. (fonte Sacerdotal) dizem que este nome foi dado a Moisés por revelação de Deus. Elas não usam esse nome até a época de Moisés. A fonte Judia retrata os homens usando-o desde a época de Adão. Isto pode significar simplesmente que o Deus adorado pelos patriarcas era Yahweh, seja qual for o nome pelo qual ele era chamado; ou é bem possível que o nome “Yahweh” fosse usado em época anterior à de Moisés e que um conteúdo revelador novo tivesse sido aplicado a esse título, na época mosaica (cf. Speiser). 4. Os Patriarcas Antediluvianos (5:1-32) Esta passagem continua o relato Sa­ cerdotal de Gênesis 2:4a. Ela tornou-se famosa como o “capítulo gerou” por cau­ sa da maneira como as traduções em por­ tuguês bem assim a KJV traduzem o refrão hebraico que a RSV verte como “ele tornou-se o pai de” (5:4,6,9, et ál). O impacto primordial deste capítulo so­ bre o leitor comum é a inusitada longe­ vidade dos patriarcas, que alcançaram a média superior a novecentos anos. Al­ guns intérpretes supõem que havia uma forma diferente de contar os anos entre os antigos. Embora sempre tenha havido 190

maneiras diferentes de contar o número de dias em um ano, quando as estações voltam, um ano é um ano em qualquer civilização. Outros têm sugerido que temos a duração da vida de tribos rela­ cionadas neste capítulo, mas dificilmente Enoque e Noé seriam tribos. O problema é complicado, pelo fato de que a LXX e o Pentateuco Samaritano diferem ambos do Texto Massorético e um do outro. O argumento de Cassuto, de que o Texto Massorético, provavel­ mente, é mais confiável, neste capítulo, do que as outras versões, possivelmente é correto, mas, em alguns lugares, os outros podem estar preservando uma redação mais antiga. A Lista de Reis Sumérios também precisa ser considerada. Ela chegou até nós tanto através de Berossus, historia­ dor grego, como através de textos sumé­ rios pertencentes ao fim do terceiro milê­ nio a.C. ou ao começo do segundo mi­ lênio. Da mesma forma como no capí­ tulo 5, há em Berossus e em um texto sumério dez notáveis dignitários entre a criação e o dilúvio. O outro texto sumé­ rio tem oito nomes, correspondentes aos oito patriarcas constantes no texto acerca de Caim, em Gênesis 4. Os nomes das listas sumérias não se parecem com os do Velho Testamento, mas há uma correspondente diminuição ou encurtamento da longevidade depois do dilúvio, e o seu sétimo dignitário, como Enoque, é removido sobrenatural­ mente. A duração da vida de seus reis ultrapassa a idade de qualquer patriarca do Velho Testamento; variam de 18.000 a 65.000 anos. É também significativo que os seus dignitários da antiguidade eram reis que eram parcialmente divinos, enquanto os patriarcas do Velho Testa­ mento eram inteiramente humanos. Não pode haver dúvida de que há alguma relação entre a lista suméria e a que está na Bíblia. Seria o relato hebrai­ co um desenvolvimento posterior do sumério, como o sugerem Speiser e Cas-


suto, ou ambos descendem de um relato mais antigo do que eles? Grande parte dos intérpretes modernos presume que os hebreus adaptaram a Lista dos Reis Sumérios aos seus objetivos teológicos, encurtando a duração da vida deles a uma extensão mais razoável, mas fazen­ do os patriarcas antediluvianos viverem mais do que os que vieram depois do dilúvio, a fim de enfatizar o contínuo preço do pecado sobre a raça humana. Todavia, não é provável que os histo­ riadores hebraicos tivessem distorcido a história para satisfazer às suas idéias teológicas. Sem dúvida, eles rearranjaram e remterpretaram a história, a fim de enfatizar a sua própria perspectiva, mas não fizeram nenhuma tentativa para inventá-la. Eles tinham demasiado res­ peito pela História e pelo lugar de Deus naqueles acontecimentos do passado. £ muito mais provável que os relatos he­ braico e sumério tivessem descendido de uma fonte comum. Não há nenhuma forma de provar que os patriarcas não viveram tanto quanto o Velho Testamento diz que viveram. Con­ tudo, seria bem natural que, no processo de contar e repetir a história, anos fos­ sem adicionados à vida dos patriarcas antediluvianos. Certamente os escritores bíblicos não adicionaram ou subtraíram anos das genealogias que receberam. As idades registradas refletem o contexto da tradição quando as fontes foram compostas. 1) De Adão a Enoque (5:1-20) 1 E s te é o liv ro d a s g e ra ç õ e s d e A dão. No d ia e m q u e D e u s crio u o h o m e m , à s e m e ­ lh a n ç a d e D eu s o fez. 2 H o m e m e m u lh e r os c rio u ; e o s a b en ço o u , e os c h a m o u p elo n o m e d e h o m e m , no d ia e m q u e fo r a m c ria d o s. 3 A dão v iv eu ce n to e tr in t a a n o s, e g e ro u u m filho à s u a s e m e lh a n ç a , c o n fo rm e à s u a im a g e m , e p ôs-lhe o n o m e d e S e te . 4 E fo r a m os d ia s de A dão, d ep o is q u e g e ro u a S e te , o ito cen to s a n o s ; e g e ro u filh o s e filh a s . 5 T odos os d ia s q u e A dão v iv e u fo r a m n o v e ­ ce n to s e tr in t a a n o s ; e m o r re u . 6 S ete v iv e u c e n to e cin co a n o s, e g e ro u a E n o s. 7 V iv eu

S ete , d ep o is q u e g e ro u a E n o s, o ito c e n to s e s e te a n o s ; e g e ro u filh o s e filh a s. 8 T odos os d ia s d e S ete fo ra m n o v e c e n to s e doze a n o s ; e m o rre u . 9 E n o s v iv e u n o v e n ta a n o s, e g e ro u a Q u en ã. 10 V iveu E n o s, d ep o is q u e g e ro u a Q u en ã, o ito c en to s e q u in ze a n o s ; e g e ro u filhos e filh a s. 11 T odos os d ia s d e E n o s fo ra m n o v e ce n to s e cin co a n o s ; e m o rre u . 12 Q u en ã v iv e u s e te n ta a n o s, e g e ro u a M aa la le l. 13 V iveu Q u en ã, d ep o is q u e g e ro u a M a a la le l, o ito c en to s e q u a r e n ta a n o s ; e g e ­ ro u filh o s e filh a s. 14 T odos os d ia s d e Q u en ã fo ra m n o v e c en to s e d ez a n o s ; e m o rre u . 15 M a a la le l v iv e u s e s s e n ta e cin co an o s, e g e ro u a J a r e d e . 16 V iv eu M a a la le l dep o is q u e g e ro u a J a r e d e , o ito cen to s e tr in t a a n o s ; e g e ro u filhos e filh a s. 17 T odos os d ia s de M a a la le l fo ra m o ito ce n to s e n o v e n ta e cinco a n o s ; e m o r r e u . 18 J a r e d e v iv eu ce n to e s e s ­ s e n ta e d o is a n o s, e g e ro u a E n o q u e . 19 V i­ v e u J a r e d e , d ep o is q u e g e ro u a E n o q u e, o ito c e n to s a n o s ; e g e ro u filh o s e filh a s. 20 T odos os d ia s de J a r e d e fo ra m n o v ec en to s e se s s e n ta e do is a n o s ; e m o rre u .

Este é o livro das gerações de Adão pode significar que outrora havia um livro com esse nome, que era usado como fonte de material para o livro de Gênesis, pelos editores Sacerdotais. Esta obra forneceu, presumivelmente, o esboço básico do livro de Gênesis. Outros mate­ riais foram reunidos de várias fontes e inseridos nessa estrutura. Contudo, livro significa, literalmente, escrito, e pode ser simplesmente uma declaração referente ao que deve seguir-se no capítulo 5. Quando se diz que Adão gerou um filho à sua semelhança, conforme à sua imagem, afirma-se o fato de que ele passou para o seu filho tanto a imagem que lhe fora dada por Deus quanto a forma contaminada dela, que o pecado havia deixado nele. A fonte Sacerdotal não tem uma história da qued$ do ho­ mem, como a Judia (caps. 2 e 3), mas dá-o a entender aqui e no encurtamento da vida do homem depois do dilúvio. É a fonte Sacerdotal que se interessa parti­ cularmente pelas idades exatas dos ho­ mens quando os seus filhos nasceram, e quando morreram, e ela, conseqüente­ mente, preservou estes dados. 191


O solene refrão que se repete neste capítulo propicia notável percepção da natureza da existência para o homem médio. Tudo o que pode ser dito a res­ peito dele é que ele nasceu, teve filhos e morreu. O mundo não fica melhor nem pior por ele ter estado nele; ele é apenas um elo entre gerações. O obituário médio hoje em dia ainda consiste da mesma sorte de informações. Embora esta passagem seja o livro das gerações de Adão, não se menciona Caim na fonte Sacerdotal, a não ser que Quenã deva ser identificado com ele (v. 9-14). Isto significaria que em uma tradição Caim seria um bisneto de Adão (mas, assim mesmo, no sentido hebraico, seu filho). Se isto era verdade, o problema de onde ele arrumou a sua esposa estaria facilmente resolvido. Contudo levantaria outros problemas, especialmente um conflito com o capítulo 4, em que Adão e Eva são retratados como um casal que fica sem filhos, quando Caim mata Abel e é expulso de casa. Portanto, é mais satisfatório concluir que Caim é deixado fora da genealogia Sacerdotal porque ele não estava na “verdadeira linhagem da igreja, de Adão até Noé” (Richardson, p. 90). O cronista segue a mesma prática em sua genealogia. Gênesis 5 não se propõe a ser um registro familiar com­ pleto. 2) De Enoque a Noé (5:21-32) 21 E n o q u e v iv eu s e s s e n ta e cinco a n o s, e g ero u a M a tu sa lé m . 22 A ndou E n o q u e com D eu s, d ep o is q u e g e ro u a M a tu s a lé m , t r e ­ z en to s a n o s ; e g e ro u filhos e filh a s. 23 T odos os d ia s d e E n o q u e fo r a m tre z e n to s e s e s ­ s e n ta e cinco a n o s. 24 E n o q u e a n d o u co m D e u s; e n ão a p a re c e u m a is , p o rq u a n to D eus o to m o u . 25 M a tu s a lé m v iv eu c e n to e o ite n ta e se te an o s, e g ero u a L a m e q u e . 26 V iveu M a tu sa lé m , dep o is q u e g e ro u a L a m e q u e , s e te c e n to s e o ite n ta e dois a n o s ; e g ero u filhos e filh a s. 27 T odos os d ia s d e M a tu s a ­ lé m fo ra m n o v ecen to s e s e s s e n ta e n ove a n o s ; e m o r re u . 28 L a m e q u e v iv e u cen to e o ite n ta e d o is a n o s, e g e ro u u m filho, 29 a q u em c h a m o u N oé, d izen d o : E s te n o s c o n ­ s o la rá a c e r c a d e n o ss a s o b ra s e d o tra b a lh o

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d e n o ss a s m ã o s , os q u a is p ro v ê m d a t e r r a q u e o S en h o r a m a ld iç o o u . 30 V iveu L a m e ­ q u e, d ep o is q u e g e ro u a N oé, q u in h e n to s e n o v e n ta e cin co a n o s ; e g e ro u filhos e filh a s. 31 T odos os d ia s d e L a m e q u e fo ra m s e te ­ c e n to s e s e te n ta e s e te a n o s ; e m o rre u . 32 E e r a N oé d a id a d e d e q u in h en to s a n o s ; e g e ro u N oé a S em , C ão e J a f é .

A inclusão da perícope de Enoque neste capítulo é um golpe de pena magis­ tral. O solene refrão é subitamente que­ brado pela revelação de que para um homem a vida foi diferente. Embora tivesse começado da mesma forma que para os outros, ela desenvolve-se de maneira bem diferente, porque Enoque andou com Deus. Esta é uma forma vívida de retratar uma íntima comunhão entre os dois. Pretende esta passagem dizer que o caminhar com Deus começou quando Matusalém nasceu? É possível, pois o nascimento de um primogênito muitas vezes leva o homem a ter pensa­ mentos mais sérios. No entanto, o cami­ nhar de Enoque com Deus podia ter sido um relacionamento que durou a vida toda. E não apareceu mais significa que ele subitamente desapareceu, e não pôde ser encontrado na terra. Sem ter conhe­ cido a morte da forma como a experi­ mentamos, ele foi trasladado, para estar com Deus. Aqui está o destino ideal que Deus devia ter para Adão, se ele não tivesse pecado. Esta passagem é colocada aqui para dispersar o pessimismo de Gênesis 3. Por fim se permite que alguém entre no Jardim do Éden espiritual. Eno­ que andou com Deus. Este se tornou o ideal que guiou as gerações futuras. Em Salmos 73:24, o verdadeiro crente decla­ ra: “e depois me receberás em glória.” O verbo traduzido como “receberás” é o mesmo vertido como tomou no v. 24. Deus não faz acepção de pessoas. Se ele tomou Enoque, que andou com ele, tomará qualquer crente verdadeiro. Matusalém ostenta a distinção de ter vivido mais do que qualquer outro ho­ mem na Bíblia. Todavia, tudo o que


pode ser dito dele é que ele viveu, teve filhos e morreu. O seu pai viveu, nesta terra, um terço do que ele viveu, mas realizou muito mais. O verdadeiro signi­ ficado da vida não consiste na longevi­ dade, mas na qualidade dos anos vividos De acordo com a cronologia Sacerdo­ tal, Matusalém morreu no ano do dilú­ vio. Se o dilúvio não tivesse acontecido, talvez ele teria estabelecido recordes ainda maiores! No entanto, o Texto Samaritano lhe dá apenas setecentos e vinte anos. Obviamente, não se pode exagerar a sua longevidade. O versículo 29 parece ter sido tirado da fonte Judia, pois contém o nome de Yahweh e duas frases familiares dos capítulos 3 e 4; do trabalho de nossas mãos (cf. 3:17, 19) e a terra que o Senhor amaldiçoou (cf. 3:17; 4:11). O editor Sacerdotal o incluiu a fim de fazer uma preparação apropriada para Noé, outro homem que andou com Deus (6:9). O consolo mencionado por Lameque pro­ vavelmente se relacionava com a pers­ pectiva de ter outro trabalhador em suas plantações. Contudo, ela foi cumprida além de seus sonhos, com a remoção da maldição lançada sobre a terra, como tributo de Deus à parte que Noé desem­ penhou no dilúvio (8:21). Alguns expo­ sitores supõem que isto tinha referência ao cultivo da vinha por Noé (Cassuto). No versículo 32, pela primeira vez a genealogia menciona mais de um filho de um dos patriarcas; diz que Noé é o pai de Sem, Cão e Jafé. A sua presença na arca deu-lhes posição especial na lista. Outros homens tiveram filhos e filhas demais para serem mencionados. Os filhos de Noé foram todos os homens que restaram na terra. Por analogia, só Sem devia ser mencionado, se não fosse o dilúvio. Ã época em que o livro de Gênesis foi escrito, a combinação dos nomes de Sem, Cão e Jafé, provavelmente, já era pro­ verbial. De acordo com este capítulo, o tempo que se passou entre a criação de Adão e o

dilúvio foi 1.656 anos. Abraão nasceu, de acordo com a fonte Sacerdotal, cerca de 300 anos depois. Isto significa que se passaram cerca de dois mil anos entre a criação e Abraão. Visto que se sabe que Abraão viveu cerca de dois mil anos antes de Cristo, o Bispo Ussher (1650-54 d.C.) deduziu que o mundo foi criado em cerca de 4004 a. C. Outros relacionamentos interessantes são aparentes nas genealogias. De acordo com elas, nove dos dez patriarcas antediluvianos estiveram vivos ao mesmo tempo, num dado momento. Adão só morreu depois de nascer Lameque, pai de Noé. Noé ainda estava vivo quando Abraão nasceu, e também Sem, que alguns intérpretes supõem ser Melquisedeque! De fato, Abraão morreu antes de Sem. Será que a fonte Sacerdotal pretendia dar a entender uma sociedade contem­ porânea de patriarcas? Von Rad (p. 70), persuadido quanto a esta afirmativa, cita Martinho Lutero: Foi realmente uma idade de ouro, em compa­ ração com a qual a nossa mal pode ser chamada de uma droga, pois nove patriarcas viveram ao mesmo tempo, com todos os seus descendentes... Esta é a maior glória do primeiro mundo, que nele ao mesmo tempo estavam pessoas que eram muito mais piedosas, sábias e santas.

Esta interpretação está aberta ao ques­ tionamento. Como é que uma era tão ideal podia produzir a degeneração que requereu um dilúvio, para apagá-la? Nada se diz a respeito da retidão de qualquer um dos patriarcas antediluvianos, a não ser a de Enoque, e ele foi re­ movido daquele mundo pecador. Há pequena probabilidade de que a terra tenha sido criada em 4004 a.C. Os arqueólogos insistem que a civilização remonta a pelo menos 7000 a.C., e que o homem tem estado aqui há muito mais tempo. Ou a cronologia bíblica está er­ rada, ou ela precisa ser entendida sob luz diferente: que os anos do relato do Gê­ nesis não são, necessariamente, conse­ cutivos. Ao invés de dizer que nove pa­ 193


triarcas viveram ao mesmo tempo, a fonte simplesmente conta a história da forma como foi recebida. É interessante que o capítulo 5 não soma os seus alga­ rismos para chegar a um número total de anos. Nem uma só vez a narrativa fala de um contato pessoal entre os patriarcas de gerações tão separadas. Os escritores de Gênesis têm um senso muito mais exato de história do que de fazer tal tentativa. A fonte Sacerdotal “escolheu dez no­ mes (e, em 11:10e ss., outros dez, de Noé a Abraão) como marcos separados, e não como elos contínuos” (Kidner). Quando se diz que com a idade de noventa anos Enos gerou Quenã, pode ser que ele gerou um ancestral de Quenã, e então viveu outros oitocentos e quinze anos, antes de morrer. Quanto tempo se pas­ sou até que, na verdade, Quenã nasceu não é importante; o fato de que Enos era seu pai é a verdade básica. Nesse mesmo padrão, a fim de formar três grupos de quatorze nomes, Mateus, em 1:8b, diz que Jorâo “gerou” Uzias, que, na ver­ dade, era seu tataraneto. 5. O Grande DUúvio (6:1-9:29) Histórias referentes a um grande dilú­ vio encontram-se em meio à maioria dos povos da terra, (*) mas as tradições mais próximas da narrativa bíblica foram preservadas entre os babilônios, espe­ cialmente na Epopéia de Gilgamesh. As correspondências entre os relatos hebraico e babilónico são tão notáveis, que não podem ser apenas coincidência. Ê provável que os dois tenham sido ba­ seados em um antecedente comum, do qual se desenvolveram, com suas ênfases características. As diferenças, entre essas narrativas são ainda mais significativas do que as semelhanças, e consistem, pri­ mordialmente, na razão dada para o dilú­ vio e em a natureza do Deus que a enviou (cf. a Introdução). (•) NOTA D O EDITOR: Interessante ê verificar a tradição dos índios brasileiros a este respeito.

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O relato bíblico não exige que se inter­ prete que cada metro quadrado da terra tenha sido coberto pela água, assim como também a declaração de Atos 2:5, de que estavam em Jerusalém “homens piedosos de todas as nações que há de­ baixo do céu” não significa que até habi­ tantes das Américas estavam lá! Da mesma forma como Atos declara que estavam em Jerusalém homens de todo o mundo civilizado, a declaração essencial em Gênesis 6 é que as águas cobriram toda a terra habitada. Visto que Gênesis 5 não pode ser usado como base para cronologia (cf. os comentários sobre o cap. 5), não pode haver exatidão quanto a este assunto. Alguns expositores judeus afirmam que Ezequiel 22:24: “Tu és uma terra que não está purificada, nem rega­ da de chuvas no dia da indignação” , significa que a terra de Canaã não foi coberta pelo dilúvio. O próprio Monte Arará (8:4) tem 5.700 metros de altura, mas não se diz que a arca repousou sobre ele, mas sobre “os montes de Arará” . Diz-se, todavia, que as águas cobriram todas as montanhas das regiões abran­ gidas, o que certamente inclui o Monte Arará. Se o dilúvio foi primevo, como certa­ mente foi, pode ser que tenha coberto toda a terra. Alguns intérpretes dizem que os arqueólogos têm evidências conclu­ sivas em favor de um dilúvio universal, mas este não é o caso. (Há evidências de inundações em todas as partes da terra, mas estas não foram, necessariamente, simultâneas.) Da mesma forma, a ar­ queologia também não pode produzir evidências contra um dilúvio primevo universal. Alguns escritores propõem que, ao tempo dessa inundação, os mon­ tes não eram tão altos como são agora. Salmos 104:6-8 pode ser assim inter­ pretado: as águas estavam sobre as montanhas. Ã tua repreensão fugiram; à voz do teu trovão puseram-se em fuga. Elevaram-se as montanhas,


desceram os vales, até o lugar que lhes determinaste.

É mais provável, porém, que esta pas­ sagem se refira à criação, e não ao di­ lúvio. A abordagem essencial a este proble­ ma é reconhecer que, quando o escritor recebeu esta história, o dilúvio já estava sendo descrito como universal. Ele certa­ mente não tomou o relato de uma inun­ dação local e a universalizou para alcan­ çar os seus objetivos pessoais. Ele usou a história como a recebeu, a fim de ensi­ nar os caminhos de Deus para com os homens (cf. a Introdução). Ele não teria sido levado a usar uma história que não estava arraigada na verdadeira história do homem. Por outro lado, a história original podia ter ganho acréscimos em sua transmissão. É claro que o dilúvio foi um aconte­ cimento ímpar, que não se repetiu (9:11 e ss.); portanto, ele, obviamente, não po­ dia ser a inundação de um rio, como é proposto por Woolley.11 A expressão bíblica dá a entender que houve quase uma volta ao caos original, com águas de cima e de baixo convergindo uma vez mais (7:11). Um tufão, acompanhado por uma onda gigantesca, produzida por um maremoto do Golfo Pérsico, pode ter dado origem à catástrofe, seguida por outras reações em cadeia, em outros lugares. 1) A Causa do Dilúvio (6:1-8) 1 S ucedeu q u e , q u a n d o os h o m e n s c o m e ­ ç a r a m a m u ltip lic a r-s e so b re a te r r a , e lh e s n a s c e r a m filh a s, 2 v ir a m os filh o s d e D eu s que a s filh a s d o s h o m e n s e r a m fo rm o s a s ; e to m a r a m p a r a s i m u lh e re s d e to d a s a s q u e e sc o lh e ra m . 3 E n tã o d isse o S e n h o r: O m e u E s p írito n ã o p e rm a n e c e rá p a r a s e m p re no h o m em , p o rq u a n to e le é c a rn e , m a s os se u s d ia s s e rã o ce n to e v in te a n o s. 4 N a q u e le s d ia s e s ta v a m os n efilin s n a t e r r a , e ta m b é m d epois, q u a n d o os filhos d e D eu s c o n h e­ c e ra m a s filh a s d o s h o m e n s, a s q u a is lh e s d e r a m filhos. E s s e s n efilin s e r a m os v alen 11 Leonard Woolley, F.xcavationsat Ur (New York: Apollo Editions, 1954).

te s , os h o m e n s d e re n o m e , q u e h o u v e n a a n tig u id a d e . 5 V iu o S e n h o r q u e e r a g ra n d e a m a ld a d e do h o m e m n a te r r a , e q u e to d a a im a g in a ç ã o dos p e n s a m e n to s d e se u c o r a ­ ção e r a m á c o n tin u a m e n te . 6 E n tã o a r r e ­ p en d e u -se o S e n h o r d e h a v e r fe ito o h o m e m n a te r r a , e isso lh e p e so u n o c o ra ç ã o . 7 E d isse o S e n h o r: D e s tr u ire i d a fa c e d a t e r r a o h o m e m q u e c rie i, ta n to o h o m e m co m o o a n im a l, os ré p te is e a s a v e s do c é u ; p o rq u e m e a rr e p e n d o d e os h a v e r fe ito . 8 N oé, p o ­ ré m , a c h o u g r a ç a s a o s o lhos d o S en h o r.

Norman Gottwald declara que “não há exemplos mais gritantes de mito hebrai­ co” 12 do que em Gênesis 6:1-4. Con­ tudo, como a história está, ela, obvia­ mente, não é um mito. Um mito teria declarado abertamente que os gigantes (nefilins) da terra eram descendentes do casamento “misto” entre seres divinos e humanos. A história hebraica evita cui­ dadosamente dizer tanto, mas declara recatadamente apenas que havia gigan­ tes na terra quando aquele casamento “misto” estava tendo lugar (cf. von Rad). Por esta razão, alguns eruditos chamam esta passagem de “mito quebrado” e presumem que ela era originalmente uma explicação etiológica do apareci­ mento de gigantes, mas então servia a um propósito diferente. Cassuto sugere que esta passagem refuta a declaração do mito original de que os seres humanos foram elevados à divindade mediante esse casamento dos filhos de Deus (anjos) com mulheres. Pelo contrário, a narra­ tiva declara que o homem precisa ainda ser mortal, a despeito dessa união com seres divinos. Outros comentaristas negam que esta declaração tenha referência a seres divi­ nos. Os filhos de Deus são os filhos de Sete (homens piedosos) e as filhas dos homens são as filhas de Caim. O argu­ mento mais forte para esta posição é o fato de que têm lugar casamentos legais. Por que seria que os anjos iriam se preo­ cupar em legitimar essas ligações? 12 A Light to the Nations (New York: Harper & Brothers, 1959), p. 26.

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No versículo la , contudo, a referência é a homens em geral, e não a um grupo específico. As suas filhas se casam com os filhos de Deus. Esta mesma expressão idiomática aparece, em outras passa­ gens, somente em Jó 1:6; 2:1; 38:7. Ali, ela se refere claramente a anjos. Por­ tanto, esta narrativa diz claramente que anjos se casaram com mulheres, e pode dar a entender que os nefilins ("gigan­ tes” , na LXX) foram os seus descenden­ tes, visto que a palavra nephilim é o particípio ativo plural do verbo hebraico “cair” . Os “ decaídos” ou “ decadentes” estavam na terra naquela época. Tal acontecimento não seria estranho ao conceito hebraico a respeito dos anjos. Eles nunca têm asas e sempre aparecem como homens. Eles comem com Abraão e parecem ser tão humanos que os sodo­ mitas tentam pecar com eles. É impossível determinar se o escritor de Gênesis está apresentando esta histó­ ria como literal ou usando uma narrativa antiga, para ensinar, de maneira simbó­ lica, que a pecaminosidade do Jiomem era devida à invasão da terra por esses anjos decaídos. Em qualquer caso, a lição é a mesma. Da mesma forma como, no Jardim do Éden, a serpente tentou Eva, agora seres divinos decaídos cor­ rompem a humanidade. O homem está sendo perturbado por algo que está fora dele próprio e que não pode ser repre­ sentante de um Deus santo, sendo, sem dúvida, demoníaco. (*) O verbo permanecerá, no versículo 3, é de significado incerto, mas as outras versões, bem como palavras em línguas semitas da mesma família sugerem este significado. Deus permitirá que o ho­ mem viva apenas cento e vinte anos, pois a carne não pode herdar o espírito. Notese o mesmo contraste na declaração de I Pedro 3:18: “morto na carne, mas vivi­ ficado no espírito.” Em Gênesis 6:1-4, (*) NOTA DO EDITOR: Quanto aos nefilins, veja-se Números 13:33, onde a mesma pala­ vra é usada. Veja-se também Judas 6.

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o mundo espiritual estava sendo puxado para baixo, para o nível da carne. Em Cristo, o Espírito venceu a batalha con­ tra a carne. Os cento e vinte anos dados ao homem são interpretados, por algumas pessoas, como aplicação à duração da vida depois do dilúvio (Richardson e von Rad), mas os homens continuam a viver mais do que isso, através de Gênesis. Ê mais provável que “o período de cento e vinte anos se toma um tempo de provação, em face de todos os sinais de que a destruição não pode ser evitada” (Speiser, p. 46). A declaração do v. 5 é a afirmação mais forte do Velho Testamento à res-~— peito da depravação humana. A situação não podia ser pior: toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente. Obviamente, os fatos dos versículos 1 a 4 precedem esta de­ claração, para explicar como este estado de coisas veio a existir. O verbo arrependeu-se (literalmente, suspirar) descreve o fato de se arrepender e de ficar triste apenas em sentido derivadp. O escritor não cjuer dizer que Deus lamenta ter criado o homem, mas que ele suspira de tristeza com o que está acon­ tecendo. Üma coisa era prever o pecado do homèm; outra, enfrentá-lo. Os três verbos deste versículo: arrependeu-se, feito e pesou provêm da mesma raiz, da mesma forma como as três principais palavras da declaração de Lameque, em 5:29: “consolará... obras... trabalho.” “Da mesma forma como ás obras dos seres humanos lhes produziam dores, os seus atos na esfera moral causaram so­ frimentos ao seu Criador” (Cassuto). Destruirei literalmente significa apa­ gar, como se faz com borracha ou apa-~ gãdor. Esta declaração parece significar que a intenção de Deus, em sua tristeza^ era remover toda a raça- humana da terra, bem como os animais, mas en­ quanto ele estava esperando que se pas­ sassem os cento e vinte anos da graça, para sua grande alegria, a sua atenção


foi chamada para uma diferente espécie de homem: Noé. A ousada linguagem antropomórfica, usada nesta passagem, é característica do Velho Testamento. Estas descrições não consistiam em tentativa para huma­ nizar Deus, mas para torná-lo acessível ao homem, e revelá-lo como pessoa. 2) Preparação (6:9-22) 9 E s ta s sá o a s g e ra ç õ e s d e N oé. E r a e le h o m e m ju s to e p e rfe ito e m s u a s g e ra ç õ e s , e a n d a v a co m D eu s. 10 G ero u N oé tr ê s ÍU hos: S em , C ão e J a f é . 11 A t e r r a , p o ré m , e s ta v a c o rro m p id a d ia n te de D e u s, e c h e ia d e v io ­ lê n c ia . 12 V iu D eu s a te r r a , e e is q u e e s ta v a c o rro m p id a ; p o rq u e to d a a c a r n e h a v ia c o r ­ ro m p id o o se u c a m in h o so b re a te r r a . 13 E n tã o d is se D eu s a N o é : O fim d e to d a c a rn e é ch eg a d o p e r a n te m im ; p o rq u e a te r r a e s t á c h e ia d a v io lê n c ia d o s h o m e n s ; e is q u e os d e s tru ire i ju n ta m e n te co m a te r r a . 14 F a z e p a r a ti u m a a r c a d e m a d e ir a d e g ô fe r: f a r á s c o m p a rtim e n to s n a a r c a , e a r e v e s ­ ti r á s de b e tu m e p o r d e n tro e p o r fo ra . IS D e s ta m a n e ir a a f a r á s : o co m p rim e n to d a a r c a s e r á d e tre z e n to s c ô v ad o s, a s u a l a r ­ g u ra d e c in q ü e n ta e a s u a a lt u r a d e tr in ta . 16 F a r á s n a a r c a u m a ja n e la e lh e d a r á s u m cô v ad o d e a l t u r a ; e a p o r ta d a a r c a p o rá s no se u la d o ; fá -la -á s c o m a n d a r e s : b aix o , seg u n d o e te rc e ir o . 17 P o rq u e e is q u e eu tr a g o o d ilú v io so b re a t e r r a , p a r a d e s ­ tr u ir , d e d e b a ix o d o céu , to d a a c a rn e e m q ue h á e s p írito d e v id a ; tu d o o q u e h á n a t e r r a e x p ir a r á . 18 M a s co n tig o e s ta b e le c e re i o m e u p a c to ; e n tr a r á s n a a r c a , tu e co n tig o te u s filhos, tu a m u lh e r e a s m u lh e re s d e te u s filhos. 19 D e tu d o o q u e v iv e , d e to d a a c a rn e , dois d e c a d a e sp é c ie , f a r á s e n t r a r n a a r c a , p a r a o s c o n se rv a re « v iv o s c o n tig o ; m a c h o e fê m e a se rã o . 20 D a s a v e s se g u n d o a s s u a s e sp é c ie s, do g a d o se g u n d o a s s u a s esp é c ie s, d e to d o r é p til d a t e r r a se g u n d o a s s u a s e sp é c ie s, d o is d e c a d a e sp é c ie v irã o a ti, p a r a o s c o n s e rv a re s e m v id a . 21 L e v a c o n ­ tig o d e tu d o o q u e s e co m e , e a ju n ta -o p a r a ti; e te s e r á p a r a a lim e n to , a ti e a e le s. 22 A ssim fe z N o é; seg u n d o tu d o o q u e D e u s lh e m a n d o u , a s s im o fez.

Gênesis 6:1-8 é geralmente atribuído à fonte Judia, e 6:9-22, à Sacerdotal, pois muitas das formas estilísticas familiares vistas nesta última fonte em Gênesis agora aparecem (cf. os comentários sobre o cap. 1). Noé é descrito em maiores

detalhes do que na passagem anterior, onde não somos informados por que ele encontrara favor diante de Deus. Agora ficamos sabendo que foi porque ele era justo e perfeito (heb., perfeitamente justo), em uma geração em que tais ca­ racterísticas eram quase desconhecidas. Ã semelhança de Enoque, ele andava com Deus. Por que, portanto Deus não o tomou também? Foi porque tinha um trabalho para ele realizar. Quando Noé, mais tarde, pecou, essa íntima comu­ nhão foi manchada, e disso resultou morte. Existe um trágico contraste entre Viu Deus a terra, e eis que estava corrom­ pida e a declaração de 1:31: “E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.” Que diferença os anos haviam feito! A palavra hebraica traduzida como arca é uma palavra emprestada do egíp­ cio, ocorrendo no Velho Testamento apenas no relato do dilúvio, em Gênesis, e em Êxodo 2:3 e s. Richardson (p. 99) chama a arca de “grande engradado flu­ tuante” ; Kidner (p. 81) refere-se a ela como um “caixão” ; enquanto von Rad (p. 123) a chama de “casa-barco” . Na literatura egípcia, esta palavra podia significar caixão de defuntos ou caixa em geral ou (com sufixo feminino) gaiola de pássaros. Em a narrativa babilónica, a inferência é claramente de um navio, pois a sua navegação foi confiada a mari­ nheiros, mas, em Gênesis, o único obje­ tivo da arca era sobreviver ao dilúvio. As suas dimensões (calculando um cô­ vado como 44 centímetros) eram, apro­ ximadamente, de 135 metros de compri­ mento, 23 de largura e 13,5 de altura. Isto era mais ou menos a metade do comprimento do Queen Elizabeth e mais do que a metade de sua largura. Ri­ chardson acha que a forma da arca era oblonga, enquanto Cassuto está certo de que era um paralelepípedo! Certamente ela não foi construída para navegar, mas para subsistir. 197


A natureza da madeira de gôfer (pala­ vra hebraica transliterada) não é conhe­ cida. Algumas pessoas sugerem cipreste (cf. von Rad). Este termo era desconhe­ cido para a LXX, que a traduz como “madeira quadrangular” . A Vulgata a chama de “madeira alisada” . Devia ser uma qualidade rara e especialmente adequada. As árvores que supriram essa madeira de uso marítimo devem ter sobrevivido ao dilúvio e ter continuado a se propagar. A menção do pacto com Noé (v. 18) é a primeira vez em que esta palavra é usada no Velho Testamento. Ele abrange a família de Noé e dois exemplares de cada espécie de animal. A sugestão a respeito do alimento é previdente: tudo o que se come. A mesma dieta poderia ser problemática durante um ano a bordo da arca. Como podiam eles arma­ zenar suprimento para alimentar os ani­ mais durante um ano? Muitas de suas necessidades, consideravelmente dimi­ nuídas pela inatividade, foram supridas por ovos e leite! Finalmente, somos infor­ mados de que Noé executou todas as instruções de Deus, que não era tarefa simples. Ela, contudo, foi aliviada pelo fato de que Deus trouxe os animais a Noé; ele não teve que procurá-los (v. 20b).

de cada espécie de animal, mas os ani­ mais limpos totalizam sete pares, pois mais tarde eles iriam ser usados para sacrifício e para alimentação. A fonte Sacerdotal não menciona sacrifício até a época de Moisés, quando o sistema sa­ crificial recebeu sanção de Yahweh. Isto não significa que o escritor Sacerdotal não tinha conhecimento desse costume anteriormente. De fato, os sacerdotes foram, provavelmente, os editores finais do Pentateuco, e conscientemente incluí­ ram esse material da fonte Judia. A sua relutância em mencionar sacrifícios anteriores era devida ao seu desejo de enfatizar a importância do sacerdócio levítico. As diferenças entre a fonte Judia e a Sacerdotal são questões de ênfase, e não de discordância básica. 4) A Extensão do Dilúvio (7:6-8:19)

6 T in h a N oé se isc e n to s a n o s de id a d e , q u a n d o o dilú v io veio so b re a te r r a . 7 Noé e n tro u n a a r c a co m se u s filhos, s u a m u lh e r e a s m u lh e re s d e se u s filhos, p o r c a u s a d a s á g u a s do dilú v io . 8 D os a n im a is lim p o s e dos que n ão são lim p o s, d a s a v e s , e de todo ré p til so b re a te r r a , 9 e n tr a r a m dois a d ois p a r a ju n to de N oé n a a r c a , m a c h o e fê m e a , com o D eu s o rd e n a r a a N oé. 10 P a s s a d o s os se te d ia s, v ie ra m so b re a t e r r a a s á g u a s do d ilú ­ vio. 11 No a n o se isc e n to s d a v id a de N oé, no m ê s seg u n d o , a o s d e z e sse is d ia s do m ê s, ro m p e ra m -s e to d a s a s fo n tes do g ra n d e a b ism o , e a s ja n e la s do céu se a b r ir a m , 12 e c a iu c h u v a so b re a t e r r a q u a re n ta d ia s e 3) Instruções Adicionais (7:1-5) q u a re n ta n o ite s. 13 N e sse m e s m o d ia e n tro u 1 D epois d isse o S en h o r a N oé: E n tr a n a N oé n a a r c a , e ju n ta m e n te co m e le se u s a r c a , tu e to d a a tu a c a s a , p o rq u e te n h o v isto filhos S em , C ão e J a f é , com o ta m b é m su a que és ju s to d ia n te de m im n e s ta g e ra ç ã o . m u lh e r e a s tr ê s m u lh e re s d e sé u s filh o s, 14 2 D e todos os a n im a is lim p o s le v a r á s contigo e co m e le s to d o a n im a l se g u n d o a s u a e s p é ­ se te e se te , o m a c h o e su a fê m e a ; m a s dos c ie, todo o g ad o seg u n d o a s u a e sp é c ie, todo a n im a is q ue n ão sã o lim p o s, dois, o m a c h o ré p til q u e se a r r a s t a so b re a t e r r a seg u n d o a e s u a f ê m e a ; 3 ta m b é m d a s a v e s do c éu sete su a e sp é c ie , e to d a a v e se g u n d o a s u a e s p é ­ e se te , m a c h o e fê m e a , p a r a se c o n s e rv a r cie, p á s s a ro s d e to d a q u a lid a d e . 15 E n tr a ­ e m v id a s u a e sp écie so b re a fa c e d e to d a a r a m p a r a ju n to d e N oé n a a r c a , d ois a dois de te r r a . 4 P o rq u e , p a s s a d o s a in d a s e te d ias, to d a a c a rn e e m q u e h a v ia e sp írito d e v id a . fa r e i c h o v e r so b re a t e r r a q u a re n ta d ia s e 16 E os que e n tr a r a m e r a m m a c h o e fê m e a q u a re n ta n o ite s, e e x te r m in a re i d a fa c e d a d e to d a a c a rn e , co m o D e u s lh e tin h a o rd e ­ t e r r a to d a s a s c r ia tu r a s q u e fiz. 5 E N oé fez n a d o ; e o S en h o r o fech o u d e n tro . 17 Veio o seg u n d o tu d o o q ue o S en h o r - lh e o rd e n a ra . d ilúvio so b re a t e r r a d u ra n te q u a re n ta d i a s ; e a s á g u a s c re s c e ra m e le v a n ta ra m a a r c a , Esta passagem continua a fonte Judia, e e la se elev o u p o r c im a d a te r r a . 18 P r e v a ­ que apresenta uma nota adicional. Não le c e ra m a s á g u a s e c re s c e ra m g ra n d e m e n te apenas estavam na arca dois exemplares so b re a t e r r a ; e a a r c a v o g a v a so b re a s

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á g u a s . 19 A s á g u a s p re v a le c e ra m e x c e s s iv a ­ m e n te so b re a t e r r a ; e todos os a lto s m o n te s que h a v ia d eb a ix o do cé u fo ra m c o b e rto s. 120 Q uinze cô v ad o s a c im a d e le s p re v a le c e ­ r a m a s á g u a s ; e a s s im fo r a m c o b e rto s. 21 P e re c e u to d a a c a rn e q u e se m o v ia so b re a te r r a , ta n to a v e com o g ad o , a n im a is s e lv a ­ g en s, todo ré p til q u e se a r r a s t a so b re a te r r a , e todo h o m e m . 22 T udo o q u e tin h a fôlego do e sp írito de v id a e m su a s n a rin a s , tudo o qu e h a v ia n a t e r r a s e c a , m o rre u . 23 A ssim fo ra m e x te r m in a d a s to d a s a s c r i a ­ tu r a s qu e h a v ia so b re a fa c e d a te r r a , ta n to o h o m e m com o o g ad o , o ré p til, e a s a v e s do c éu ; todos fo r a m e x te rm in a d o s d a t e r r a ; ficou so m e n te N oé, e os q u e co m ele e s t a ­ v a m n a a r c a . 24 E p re v a le c e ra m a s á g u a s so b re a te r r a ce n to e c in q ü e n ta d ia s . 1 D eu s lem b ro u -se de N oé, de to d o s os a n im a is e de todo o gado, q ue e s ta v a m co m ele n a a r c a ; e D eus fez p a s s a r u m v en to so b re a t e r r a , e a s á g u a s c o m e ç a ra m a d im in u ir. 2 C e r r a ­ ra m -s e a s fo n tes do a b is m o e a s ja n e la s do céu, e a c h u v a do céu se d e te v e ; 3 a s á g u a s se fo ra m re tira n d o de so b re a t e r r a ; no fim de ce n to e c in q ü e n ta d ia s c o m e ç a ra m a m in ­ g u a r. 4 No sé tim o m ê s , no d ia d e z e sse te do m ê s, rep o u so u a a r c a so b re os m o n te s de A ra rá . 5 E a s á g u a s fo ra m m in g u a n d o a té o d écim o m ê s ; no d écim o m ê s , no p rim e iro d ia do m ê s , a p a r e c e r a m os c u m e s dos m o n ­ te s . 6 Ao cab o d e q u a re n ta d ia s , a b riu N oé a ja n e la q ue h a v ia feito n a a r c a ; 7 so lto u u m corvo q u e, sain d o , ia e v o lta v a a té q u e a s á g u a s se s e c a r a m de so b re a te r r a . 8 D epois soltou u m a p o m b a , p a r a v e r se a s á g u a s tin h a m m in g u a d o d e so b re a fa c e d a te r r a ; 9 m a s a p o m b a n ã o a c h o u o nde p o u s a r a p la n ta do p é, e voltou a e le p a r a a a r c a ; p o rq u e a s á g u a s a in d a e s ta v a m so b re a fa c e de to d a a t e r r a ; e N oé, e ste n d e n d o a m ã o , tom o u -a e a re c o lh e u con sig o n a a r c a . 10 E sp e ro u a in d a o u tro s s e te d ia s , e to rn o u a s o lta r a p o m b a fo ra d a a r c a . 11 Â ta r d in h a a p o m b a voltou p a r a e le , e eis no se u bico u m a folha v e rd e de o liv e ira ; a s s im soube Noé que a s á g u a s tin h a m m in g u a d o d e so b re a te r r a . 12 E n tã o e sp e ro u a in d a o u tro s se te d ia s, e soltou a p o m b a ; e e s ta n ã o to rn o u m a is a ele. 13 No an o se isc e n to s e u m , no m ê s p rim e iro , no p rim e iro d ia do m ê s , secara m -s e a s á g u a s de so b re a t e r r a . E n tã o N oé tiro u a c o b e rtu ra d a a r c a , e olhou, e e is q ue a fa c e d a t e r r a e s ta v a e n x u ta . 14 No seg u n d o m ê s, a o s v in te e se te d ia s do m ê s, a t e r r a e s ta v a se c a . 15 E n tã o falo u D eu s a N oé, dizendo: 16 S ai d a a r c a , tu , e ju n ta m e n te contigo tu a m u lh e r, te u s filh o s e a s m u lh e ­ r e s de te u s filhos. 17 T odos os a n im a is que e stã o contigo, d e to d a a c a rn e , ta n to a v e s

com o g a d o e to d o ré p til q u e se a r r a s t a so b re a te r r a , tra z e -o s p a r a fo ra co n tig o ; p a r a que se re p ro d u z a m a b u n d a n te m e n te n a te r r a , fru tifiq u e m e se m u ltip liq u e m so b re a te r r a . 18 E n tã o sa iu N oé, e co m e le se u s filh o s, su a m u lh e r e a s m u lh e re s d e se u s filh o s; 19 todo a n im a l, todo ré p til e to d a a v e , tu d o o q u e se m o v e so b re a te r r a , segu n d o a s s u a s f a m í­ lia s, s a iu d a a r c a .

Nestas narrativas, a análise das fontes toma-se muito mais difícil, pois elas estão entremeadas, não mais sendo con­ secutivas, daqui por diante. Várias gerações de eruditos elaboraram um esquema de análise que Skinner (p. 147) descreveu como “justamente reconhecido como uma das mais brilhantes realiza­ ções da crítica literária” . O seu con­ senso é como se segue: Fonte Judia 6 : 1-8

7:1-5,7-10,12 7:16b (as últimas seis palavras) 7:17b,22,23 8:2b-3a,6-12 8:13b,20-22

Fonte Sacerdotal 6:9-22 7:6,ll,13-16a 7:18-21,24 8:l,3b-5,13a 8:14-19 9:1-17

Se esta análise é legítima, as duas fontes primárias estão em agudo desa­ cordo a respeito da extensão do dilúvio. A fonte Judia declara que choveu duran­ te quarenta dias. No fim daquele período Noé abriu a janela da arca e soltou o corvo. O relato Sacerdotal posterior diz que o dilúvio durou mais de um ano, e chegou a cobrir as montanhas. Desta forma, da maneira como a tradição era contada, o dilúvio tornou-se de duração maior, e as águas mais profundas. Esta situação é possível, visto que os relatos ainda estariam concordando ba­ sicamente, cada um deles dando teste­ munho independente a respeito do acon­ tecimento original do dilúvio catastró­ fico. Não obstante, tal análise de “tesou­ ra e cola” está sendo questionada seria­ mente hoje em dia. Eruditos responsá­ veis estão não apenas fazendo análises mais detalhadas, mas também outros 199


estão duvidando do próprio método. Pre­ cisamos considerar seriamente a obser­ vação de Cassuto, que passa zelosamente a refutar a posição crítica aceita com a confiança de um líder em uma guerra santa (Vol. II, p. 33-42). Embora ele não tenha sucesso em convencer o leitor não influenciado anteriormente a respeito da não existência de dois relatos dessa his­ tória, de fato prova que o processo de análise detalhada deve ser questionado seriamente. De fato, não há razão válida por que a narrativa do dilúvio não possa ser inter­ pretada de maneira direta, sem colocar declarações contraditórias a respeito de sua extensão. Depois que choveu sobre a terra por quarenta dias e as fontes do abismo se haverem aberto, as águas per­ maneceram em nível de inundação até um total de cento e cinqüenta dias (7:24), quando seu nível baixou o suficiente para a arca repousar em terra firme. Só um mês depois, os topos das montanhas apa­ receram (8:5). Levou mais dois meses para as águas se escoarem do resto da terra (8:13), mas levou mais do que outro mês para que ela estivesse suficien­ temente seca para se poder andar nela. O período total de tempo foi pouco mais de um ano. A observação de que o Senhor o fechou dentro é uma declaração importante. Com homens se afogando ao seu redor, o justo Noé certamente não era surdo aos seus clamores. Quando Deus o fechou dentro da arca, ele não tinha mais como abrir a porta. Deus lembrou-se de Noé, de todos os animais e de todo o gado. Isto não signi­ fica que ele os tinha esquecido, mas que parecia para eles que estavam abando­ nados. Este pode ser o significado do grito de Cristo na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mat. 27:46). Quando se diz que Deus lembrou-se de Noé, este ousado antropomorfismo mar­ ca o que von Rad chama de “uma virada 200

para a salvação, em direção à salvação até o evento em Jesus Cristo” . Deus não havia desistido de operar no mundo, embora pudesse parecer a Noé que tudo estava perdido, que Deus, depois de tê-lo instruído tão cuidadosamente, o havia deixado sobre as ondas revoltas de um mar sem fim, para morrer ali. Deus não havia esquecido Noé nem os propósitos que tinha para com a humanidade. Quando se diz que repousou a arca, a mesma raiz de que deriva o nome de Noé é usada. A promessa que havia em seu nome por fim havia sido cumprida. O envio de um corvo e de uma pomba é mencionado também na Epopéia de Gilgamesh, com a adição de uma ando­ rinha, mas a ordem é inversa, sendo enviada em primeiro lugar a pomba, e em último, o corvo. Esta história expres­ sa o costume antigo de levar pássaros em longas viagens marítimas. A direção para onde voavam quando eram soltos reve­ lava onde, possivelmente, se encontraria terra. Corvo e pomba constituem um agudo contraste na Escritura. Um é preto, e a outra, branca; um impuro, e a outra, pura; o primeiro selvagem, e a outra, domesticada. Era bem adequado que a mansa pomba trouxesse boas notícias a Noé. A folha verde de oliveira era rebento de uma árvore que começara a brotar de novo. O fato de que o corvo ia e voltava não era vôo constante sem descanso, mas indo e voltando para a arca, até poder aterrizar. Embora o retorno da pomba tivesse indicado que a terra estava começando a secar, Noé continuou esperando duran­ te quase dois meses, antes de sair da arca; ele estava esperando uma direção de Deus. Esse deve ter sido um período de provação, mas sair da arca cedo de­ mais iria expor os passageiros a doenças e outros problemas. Libertar um animal colocaria em risco a perda de uma espé­ cie. Tanto Jesus como Paulo sabiam co­ mo esperar as ordens de Deus para eles.


A vida de Noé de fato é uma lição de paciência. 5) O Sacrifício de Noé (8:20-22) 20 E d ifico u N oé u m a l t a r a o S e n h o r; e to m o u de todo a n im a l lim p o e d e to d a a v e lim p a , e o fe re c e u holocau sto » so b re o a lt a r . 21 S en tiu o S en h o r o su a v e c h e iro e d isse e m seu c o ra ç ã o : N ão to r n a r e i m a is a a m a ld i­ ç o a r a t e r r a p o r c a u s a do h o m e m ; p o rq u e a im a g in a ç ã o do c o ra ç ã o do h o m e m é m á d e sd e a s u a m e n in ic e ; n e m to m a r e i m a is a f e r ir todo v iv e n te , com o a c a b o d e fa z e r. 22 E n q u a n to a t e r r a d u r a r , n ã o d e ix a r á d e h a v e r s e m e n te ira e c e ifa , frio e c a lo r, v e rã o e in v e rn o , d ia e no ite.

Sentiu o Senhor o suave cheiro tem um paralelo claro na Epopéia de Gilgamesh. Os antigos criam que os deuses eram de fato revigorados e sustentados pelo fumo fortificante das ofertas queimadas. O relato do Velho Testamento não apre­ senta indícios de politeísmo, e a idéia é, provavelmente, já figurada na mente do escritor. O escritor bíblico é surpreendente­ mente ousado, ao dizer que conhecia a mente de Deus: ele disse em seu coração. Um homem não podia ser mais presun­ çoso do que isto, a não ser que, na verdade, Deus lhe tivesse revelado a sua mente. Esta é a reivindicação da Bíblia. Ou ela é verdadeiramente a Palavra de Deus, ou é patentemente enganosa. Esta conclusão da narrativa Judia do dilúvio revela o propósito primário em contar essa história. Embora a intenção do dilúvio fosse purificar a terra de seus habitantes ímpios, ele não resolveu o problema do pecado de uma vez por todas. Logo depois o justo Noé ficaria bêbado em sua tenda, e o seu filho exploraria a situação. Conhecendo a contínua pecaminosidade do homem, os preocupados habitantes da terra teme­ riam outro dilúvio universal, a cada chu­ va pesada. A história do dilúvio é conta­ da não tanto para enfatizar a ira de Deus, quanto a sua graça. Com a volta regular das estações do ano, o homem

podia ficar seguro de sua graça contínua. A ira de Deus contra o pecado pode ter precisado tomar outras formas, mas a ameaça da volta do caos aquoso primevo estava removida para sempre. 6) A Aliança com Noé (9:1-17) 1 A bençoou D e u s a N oé e a se u s filh o s, e d isse -lh e s: F r u tif ic a i e m u ltip lic a i-v o s, e e n c h e i a te r r a . 2 T e rã o m ed o e p a v o r de vós todo a n im a l d a te r r a , to d a a v e do c é u , tu d o o q u e se m o v e so b re a t e r r a e to d o s os p e ix e s do m a r ; n a s v o ss a s m ã o s sã o e n tre g u e s . 3 T udo q u a n to se m o v e e v iv e v o s s e r v ir á de m a n tim e n to , b e m co m o a e r v a v e rd e ; tu d o v o s te n h o d ad o . 4 A c a rn e , p o ré m , co m s u a v id a , is to é, co m se u sa n g u e , n ã o c o m e re is . 5 C e rta m e n te re q u e r e re i o v o sso sa n g u e , o sa n g u e d a s v o ss a s v id a s ; d e todo a n im a l re q u e r e re i; com o ta m b é m do h o m e m , sim , d a m ã o do ir m ã o d e c a d a u m re q u e r e re i a v id a d o h o m e m . 6 Q u em d e r r a m a r sa n g u e de h o m e m , p elo h o m e m t e r á o se u sa n g u e d e rr a m a d o ; p o rq u e D eu s fez o h o m e m à su a im a g e m . 7 M a s vós fru tific a i, e m u ltip lica ivos ; p o v o ai a b u n d a n te m e n te a te r r a , e m u lti­ p licai-v o s n e la . 8 D isse ta m b é m D eu s a N oé, e a se u s filhos co m e le : 9 E is q u e e s ta b e ­ leço o m e u p a c to convosco e co m a v o ssa d e sc e n d ê n c ia d ep o is d e vós, 10 e co m todo s e r v iv e n te q u e convosco e s t á : c o m a s a v e s, co m o ga d o e co m to d o a n im a l d a t e r r a ; co m todos os q u e s a í r a m d a a r c a , sim , co m todo a n im a l d a te r r a . 11 S im , e sta b e le ç o o m e u p a c to co n v o sco ; n ã o s e r á m a is d e s tru íd a to d a a c a rn e p e la s á g u a s do d ilú v io ; e n ão h a v e r á m a is d ilúvio, p a r a d e s tr u ir a te r r a . 12 E d isse D e u s: E s te é o m e u sin a l do p a c to q u e firm o e n tr e m im e vós e to d o s e r v iv e n te q u e e s tá convosco, p o r g e ra ç õ e s p e rp é tu a s : 13 O m e u a rc o te n h o p o sto n a s n u v e n s, e ele s e r á p o r s in a l d e h a v e r u m p a c to e n tr e m im e a te r r a . 14 E a c o n te c e rá q u e , q u a n d o eu tr o u x e r n u v e n s so b re a te r r a , e a p a r e c e r o a rc o n a s n u v e n s, 15 e n tã o m e le m b ra r e i do m e u p a c to , q u e e s tá e n tr e m im e vós e todo s e r v iv e n te d e to d a a c a r n e ; e a s á g u a s n ão se to m a r ã o m a is e m dilú v io p a r a d e s tru ir to d a a c a rn e . 16 O a rc o e s t a r á n a s n u v e n s, e o lh a re i p a r a ele a fim d e m e le m b r a r do p a c to p e rp é tu o e n tr e D e u s e to d o s e r v iv e n te de to d a a c a rn e q u e e s tá so b re a t e r r a . 17 D isse D eu s a N oé a in d a : E s s e é o s in a l do p a c to q u e te n h o e sta b e le c id o e n tr e m im e to d a a c a rn e q u e e s tá so b re a te r r a .

Da mesma forma como Deus abençoa­ ra Adão e Eva no Jardim do Éden, ele 201


agora abençoa Noé e seus filhos. De fato, este foi um novo começo. Não havia outros homens na terra, exceto esta famí­ lia, e até mesmo os sobreviventes dentre os animais eram os que reagiam mais favoravelmente a Deus, pois eles haviam obedecido ao seu chamado à arca (6: 20b). Adão e Eva haviam tido a desvan­ tagem de ter que começar em um mundo onde ninguém havia andado antes. Noé e sua família tinham o conhecimento da longa e frustrante história do homem até aquele dia. Agora, por fim, podia ser estabelecido um mundo segundo a von­ tade de Deus, embora a natureza exata das expectativas de Deus não fosse ex­ pressa de forma positiva. Noé e seus filhos não foram informados de como jogar o jogo da vida, mas informados claramente onde estariam fora dos limi­ tes. Devia ser claro para a família de Noé, depois da experiência do dilúvio, que Deus iria continuar a olhar favora­ velmente para um homem justo, e não iria tolerar o pecado de forma alguma. Instruções específicas foram dadas a Noé em relação ao respeito que o homem precisa ter pela vida dos animais e de seu semelhante. Ã luz do dilúvio, quando Deus havia destruído a vida de maneira tão coletiva, era fácil os homens terem a impressão de que a vida tinha pouco valor, e tirá-la sendo assunto de somenos importância. Deus tornou claro que esta inferência seria falsa. Por que então Deus permitiu que o homem comesse carne, visto que o havia proibido a princípio? Era uma extensão do domínio original do homem. “O ho­ mem primitivo vivia em constante medo das bestas selvagens; agora o domínio do homem devia ser demonstrado pelo temor e pavor que elas tinham dele” (Richardson, p. 107). O fato de que os animais devem a sua própria existência a Noé é também um fator importante, em adição à situação vivencial. Algum tempo se passaria antes que se colhesse alguma coisa. Nesse ínterim Noé podia 202

comer a carne dos animais, alguns dos quais deviam ter-se multiplicado consi­ deravelmente durante um ano que ha­ viam passado na arca. O homem havia errado grandemente, ao supor que a entrega dos animais em suas mãos dava a entender que ele pode matar à vontade e explorar o mundo animal. O lembrete de que ele deve res­ peitar a vida (heb., alma) que há no sangue indica que há algo alheio à verda­ deira natureza da existência no fato de o homem comer carne. Isaías previu que chegaria o tempo quando nem homem nem animais comerão mais carne (Is. 11:6-9). Enquanto não chega esse tempo, o entendimento deste comentarista é que o mundo ainda não alcançou o alvo estabelecido para ele, que estava na men­ te de Deus desde o princípio. A razão dada para a seriedade do ho­ micídio é o respeito devido não somente à vida, mas também à imagem de Deus que há em cada homem. Quando o ho­ mem não tem respeito a Deus, tem pouco respeito ao valor de outro homem. Nesta passagem, Deus decreta que o homem terá a responsabilidade de vingar a morte de outro homem. É aqui que é dada a sanção divina para o governo civil da sociedade humana, com o poder de vida e morte sobre os seus membros. Richard­ son (p. 110) cita William Temple, que disse: “É dada ao Estado a força para que ele possa impedir que os marginais usem a força” (cf. Rom. 13:1-7; I Ped. 2:13-17; I Tim. 2:1-3). Como o refere Alan Richardson: “O Estado não ‘mur­ chará’ nesta era mundial, pois ele é estabelecido pelo ‘pacto eterno’ de Deus com a humanidade” (p. 109). O pacto previsto em 6:18 agora é feito com Noé e seus descendentes, desta for­ ma, com todos os homens que viverão. Ele é entre Deus e a humanidade, dife­ rindo a este respeito do efetuado com Abraão (Gên. 12) e com Israel (Êx. 19). Não é na forma de um acordo mútuo, como o que foi feito com Israel. Pelo


contrário, Deus inicia o acordo, decla­ rando o que fará; ele nunca mais des­ truirá a terra por um dilúvio. As palavras são mais uma declaração do que um pacto, se vistas isoladamente. Isto é o que Deus, em sua graça, fará, não im­ porta o que o homem faça. Portanto, como é que isto pode ser considerado um pacto, se apenas uma das partes envol­ vidas fala? Pacto, neste contexto, pro­ vavelmente, significa um vínculo ou acordo, não necessariamente mútuo. Em sua graça, Deus concorda em nunca mais enviar outro dilúvio universal. Con­ tudo, envolvida neste pacto, está a sua expectativa de que o homem respeitará a vida, como é declarado na passagem anterior, pois ele é baseado nessa admo­ estação. Espera-se que o homem mani­ feste esta consciência, como base das declarações de Deus. Se o homem falhar em suas responsabilidades, Deus ainda assim não negará a sua promessa. Ele pagará a desobediência do homem de outras formas (v. 5). 7) A Maldição de Canaã (9:18-29) 18 O ra , os filhos de N oé, q u e s a ír a m d a a r c a , fo ra m S em , C ão e J a f é ; e C ão é o p a i de C a n a ã . 19 E s te s tr ê s fo ra m os filhos de N oé; e d e ste s foi p o v o ad a to d a a te r r a . 30 E c o m eço u N oé a c u ltiv a r a t e r r a e p la n to u u m a v in h a. 21 B eb eu do vinho, e e m b riag o u se ; e a c h a v a -s e nu d e n tro d a s u a te n d a . 22 E C ão, p a i d e C a n a ã , viu a n u d ez de seu p a i, e o contou a se u s dois irm ã o s , q u e e s ta v a m fo ra . 23 E n tã o to m a ra m S em a J a f é u m a c a p a , e p u s e ra m -n a so b re o s se u s o m b ro s, e a n d a n d o v ira d o s p a r a tr á s , c o b rira m a n u ­ d ez de seu p a i, ten d o os ro s to s v ira d o s, de m a n e ira q ue n ão v ir a m a n u d ez de seu p a i. 24 D e sp e rta d o q ue foi N oé do se u vinho, soube o qu e se u filho m a is m o ço lhe fiz e ra ; 25 e d is s e : M aldito s e ja C a n a ã ; se rv o dos se rv o s s e r á de se u s irm ã o s. 26 D isse m a i s : B endito s e ja o Sen h o r, o D eu s de S e m ; e se ja -lh e C a n a ã p o r se rv o . 27 A larg u e D eu s a Ja f é , e h a b ite J a f é n a s te n d a s de S em ; e se ja -lh e C a n a ã p o r se rv o . 28 V iveu N oé, dep o is do dilú v io , tre z e n to s e c in q ü e n ta a n o s. 29 E fo ra m todos os d ia s

de N oé n o v ec en to s e c in q ü e n ta a n o s ; e m o rre u .

Dificilmente encontraremos uma pas­ sagem do Velho Testamento mais difícil de interpretar.13 Esta passagem era o texto favorito dos pregadores sulistas, durante a Guerra Civil nos Estados Uni­ dos, ao declararem o direito do homem branco de escravizar os negros. Usada freqüentemente, em tempos recentes, para defender a segregação, esta passa­ gem é a fonte não reconhecida do ditado comum nos Estados Unidos (e quiçá na Ãfrica do Sul): “Um negro está bem em seu lugar” , pelo qual se infere que a sua posição apropriada é secundária, em relação ao branco. Esta passagem começa mencionando os três filhos de Noé em sua ordem comum: Sem, Cão e Jafé, dos quais todos os homens são considerados descenden­ tes. As dificuldades de interpretação começam com o versículo 20. A versão da IBB diz: E começou Noé a cultivar a terra, e plantou uma vinha, que não apresenta nenhum problema para o lei­ tor brasileiro. Se ele pudesse ler a RSV inglesa, porém, ficaria em dúvida; ela diz: “Noé foi o primeiro lavrador do solo. Ele plantou uma vinha.” Isto está em direta contradição com as passagens anteriores de Gênesis, que asseveram que Adão era jardineiro e Caim lavrador. Os que esposam esta tradução admitem prontamente este fato, mas consideram que o versículo vem de fonte diversa. Dizem que o hebraico não pode permitir outra tradução. Quais sãos os fatos? Uma tradução literal seria: “E Noé, o homem da terra, começou e plantou uma vinha.” O termo peculiar “homem da terra” pode dar a entender um lavrador, ou, como suge­ re Cassuto, “senhor da terra” . Antes do dilúvio, provavelmente, existiam vinhas; mas até essa época, aparentemente, Noé não havia plantado uma. Porém é até 13 Cf. artigo por Clyde T. Francisco, em Chrfstfaníty Today, 24 de abril de 1964, p. 8-10.

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possível que ele cultivasse vinhas antes do dilúvio. Esta passagem não resolve esta questão, mas dá a entender um novo empreendimento de Noé. O seu pai, Lameque, era lavrador, e esta, provavel­ mente, era a ocupação de Noé antes do chamado de Deus para preparar-se para o dilúvio (5:29). Não somos informados se Noé estava familiarizado com os efeitos do vinho. Certamente devia estar. Jesus disse que “comiam e bebiam” antes do dilúvio (Mat. 24:38), frase que, provavelmente, se refere a beber vinho (cf. I Sam. 30:16; Mat. 11:18,19). Talvez a tentação de provar o produto de seu trabalho tenha sido forte demais para Noé, e ele logo ficou bastante bêbado, revelando que não estava acostumado com aquele hábi­ to. A pessoa que se embriaga apenas uma vez não é um bêbado; é um tolo. Emerge da bebedeira como um homem açoitado. A cena que se segue é familiar. O justo Noé havia sido o veículo do triunfo de Deus sobre as forças do mal no mundo. Os ímpios haviam sido destruídos, e Noé e sua família haviam sido poupados, para edificarem um novo mundo. Mas o homem que havia enfrentado ser ridi­ cularizado por seus vizinhos e toda a tempestade do dilúvio não era capaz de enfrentar o desafio dos tempos de paz. Com a oportunidade de dar início a uma sociedade ideal, Noé foi encontrado bê­ bado em sua tenda. Alguns comentaristas notam que não há nenhuma palavra de condenação contra Noé por sua bebedice; toda a culpa parece recair sobre Cão. No entan­ to, dificilmente se pode ignorar os versí­ culos 28 e 29 à luz de 6:9, onde se diz que Noé “andava com Deus” . No capítulo 5 é usada a mesma expressão a respeito de Enoque, cuja recompensa foi a sua trasladação para o céu. Teria sido esta também a experiência de Noé, se ele não tivesse pecado? 204

Qual foi o pecado de Cão? Alguns sugerem que o versículo 24 dá a entender que ele havia cometido um ato homos­ sexual com seu pai (cf. Lev. 18:7 e ss.). Esta interpretação não se justifica, e revela uma falta de compreensão tanto da atitude hebraica a respeito da nudez quanto da passagem. O mundo moderno tem sido influenciado tão fortemente pela glorificação grega do corpo, que é bem difícil entender as atitudes dos antigos hebreus. No Jardim do Éden, as folhas de figueira não podiam cobrir suficiente­ mente a nudez de Adão e Eva; por isso Deus os vestiu com peles. Quando os profetas descrevem os horrores do exílio, um dos mais terríveis é a nudez forçada dos cativos. Durante o fim da era dos Macabeus, os judeus piedosos ficaram grandemente perturbados pela inaugura­ ção, em Jerusalém, de um ginásio grego, onde se exercitavam homens nus. O que foi que Cão fez ao seu pai? Ele desonrou-o, expondo ao mundo a sua vergonha. Cão não poderia ter sido cul­ pado por tropeçar em seu pai bêbado, mas foi culpado por relatar aos outros a condição de seu pai. O que seus irmãos fizeram, ele deveria ter feito: devia ter coberto seu pai, e não ter dito nada a respeito. Há dois argumentos convin­ centes contra a idéia de que Cão cometeu um ato homossexual: (1) ele contou a seus irmãos, sem que eles tenham ficado irados contra ele; (2) “Se cobrir a nudez foi o remédio adequado, segue-se que o delito fora confinado a ver” (Cassuto, II, p. 151). Como foi que Noé ficou sabendo o que Cão lhe havia feito? Será que Sem e Jafé lho contaram? Isto é de se duvidar, pois, se eles o tivessem feito, seriam também culpados de expor a vergonha de seu irmão, da mesma forma como ele fizera com a de seu pai. Noé, provavelmente, ficou curioso por causa da roupa estra­ nha que estava sobre ele, e fez inqui­ rições.


Alguns comentaristas enfatizam que Noé estava em um estupor de embria­ guez ou no meio de uma terrível “res­ saca” , quando pronunciou as suas famo­ sas palavras. As observações de um ho­ mem, em tal condição, não deviam ser levadas a sério, concluem eles. Contudo, Noé parece que estava suficientemente bem para perceber o que lhe havia acon­ tecido. Não somos informados quanto tempo se passou, mas é evidente que Noé estava na posse de todas as suas facul­ dades quando pronunciou o seu oráculo. Mesmo que não estivesse, as suas pala­ vras teriam sido levadas a sério pelos hebreus. Como observa S. R. Driver: “Era crença dos antigos que a maldição ou bênção de um pai não era meramente a expressão de uma esperança ou desejo intensos, mas que ela exercia um poder real na determinação do futuro de um filho” (p. 109). A tarefa mais perturbadora que se defronta com a interpretação tradicional desta passagem é a de dar uma explica­ ção adequada para o fato de a maldição ter caído sobre Canaã, e não sobre Cão. Há várias soluções aventadas para este enigma, sendo uma delas considerar o oráculo de Noé como uma predição de maldição. Noé, tendo recebido per­ cepção a respeito do futuro das nações, vê as conseqüências do pecado de Cão manifestando-se no destino de seu filho. Com um pai como Cão, o filho estava perdido. Outra possibilidade é que a história do pecado de Cão foi contada por muitos anos entre semitas e hebreus. Depois que os hebreus se estabeleceram na Palestina e se tornaram familiarizados com os cananeus, perceberam que o pecado de Cão estava se cumprindo em Canaã. As con­ seqüências de seu pecado estavam sendo sentidas pelos seus descendentes, na Palestina. Os versículos 25 a 27 foram compostos para expressarem este fato em poesia imortal. O desprazer de Noé havia caído sobre Canaã. Desta forma, a mal­

dição não é um exemplo de como um homem inocente estava sendo culpado pelo pecado de seu pai, mas de como um povo estava sofrendo as conseqüências do pecado de um seu ancestral. Eram os çananeus de fato descenden­ tes de Cão? Pouco sabemos a respeito de sua origem, mas é certo que etnicamente ou politicamente ou de ambas as formas eles eram descendentes de Cão. Outra coisa é clara: eles não eram negros. A maldição sobre Canaã de forma alguma tem algo a ver com os vexatórios pro­ blemas entre brancos e pretos, em nossos dias. Alguns expositores insistem, toda­ via, que a maldição de Noé deve ter caído sobre todos os descendentes de Cão. Canaã foi individualizado por Noé; mas, obviamente, dizem eles, o próprio Cão deve ter sido amaldiçoado, se o seu filho sofreu golpe tão rude, de outra forma, Deus não seria justo. Portanto, dizem eles, os negros, como descendentes de Cão, devem também ter sofrido a mal­ dição! Objeções óbvias se levantam contra esta posição. Primeiro, embora seja apa­ rente que Cão recebeu a culpa pelo seu pecado, não sabemos qual foi o seu cas­ tigo. A Escritura silencia a este respeito, e qualquer conjetura é perigosa. Segun­ do, significa isto que os outros povos camíticos — egípcios, líbios, sul-arábios — também serviriam aos europeus e hebreus? Em outras palavras, um ho­ mem livre deveria escravizar a outro? Poucas pessoas esposariam este ponto de vista. Terceiro, se nos tempos de igno­ rância, Deus permitiu tal servidão, as implicações do Novo Testamento elimi­ nariam tal tipo de relacionamento para o crente, hoje em dia. 6. Os Descendentes de Noé (10:1-32) 1 E s ta s , p o is, sã o a s g e ra ç õ e s d o s filh o s de N oé: S em , C ão e J a f é , a o s q u a is n a s c e r a m filhos d ep o is d o d ilú v io . 2 O s filh o s d e J a f é : G o m er, M ág o g u e, M a d a i, J a v ã , T u b a l, Mese q u e e T ira s . 3 O s filh o s d e G o m e r: A squen az , R ifa te e T o g a r m a . 4 O s filh o s d e J a v ã : E lis á , T á rs is , Q u itim e D o d a n im . 5 P o r e s te s

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fo ra m r e p a r tid a s a s Ilh a s d a s n a ç õ e s n a s su a s te r r a s , c a d a q u á l seg u n d o a s u a lín g u a, segu n d o a s s u a s fa m ília s , e n tr e a s su a s n a ç õ e s. 6 O s filhos de C ão : C u ch e, M iz ra im . P u te e C a n a ã . 7 O s filhos d e C u c h e : S eb a , H av ilá , S a b tá , B a a m á e S a b te c á ; e os filh o s de R a a m á sã o S eb á e D ed ã. 8 C u ch e ta m b é m gero u a N in ro d e, o q u a l foi o p rim e iro a s e r p oderoso n a te r r a . 9 E le e r a p o d ero so c a ç a ­ d o r d ia n te do S en h o r; p elo q u e se d iz : C om o N in ro d e, po d ero so c a ç a d o r d ia n te do S en h o r. 10 O p rin cíp io do se u re in o foi B ab e l, E re q ue, A cad e e C aln é, n a t e r r a d e S in a r. 11 D e s ta m e s m a t e r r a s a iu e le p a r a a A s­ s íria e ed ifico u N ínive, R e o b o te -Ir, C a lá , 12 e R é se n , e n tr e N ín iv e e C a lá (e s ta é a g ra n d e c id a d e ). 13 M iz ra im g e ro u a L u d im , A n am im , L e a b im , N a ftu im , 14 P a tr u sim , C a slu im (d o n d e s a í r a m os filiste u s) e C a fto rim . IS C a n a ã g e ro u a S idom , seu p rim o g ên ito , e H e te , 16 e a o je b u s e u , o a m o r re u , o g irg a s e u , 17 o h e v e u , o a rq ueu, o sin eu , 18 o a rv a d e u , o z e m a re u e o h a m a te u . D ep o is se e s p a lh a r a m a s fa m í­ lia s dos c a n a n e u s. 19 F o i o te rm o dos can a n e u s d e sd e S idom , e m d ire ç ã o a G e ra r, a té G a z a ; e d a í e m d ire ç ã o a S o d o m a, G o m o rra , A d m á e Z eboim , a té L a s a . 20 S ão e s s e s os filhos d e C ão seg u n d o a s s u a s fa m ília s , se ­ gundo a s s u a s lín g u a s, e m s u a s te r r a s , e m s u a s n a ç õ e s. 21 A S em , q u e fo i o p a i de to d o s os filhos d e E b e r e o irm ã o m a is v elho de J a f é , a e le ta m b é m n a s c e r a m filh o s. 22 O s filh o s de S em fo r a m : E lã o , A ssu r, A rfax a d e , L u d e e A rão . 23 O s filh o s d e A rã o : Uz, H ul, G e te r e M ás. 24 A rfa x a d e g e ro u a S e lá ; e S e lá g e ro u a E b e r . 25 A E b e r n a s ­ c e r a m dois filh o s: o n o m e d e u m foi P eleg ue, p o rq u e nos s e u s d ia s foi d iv id id a a t e r r a ; e o n o m e de se u irm ã o foi J o c tã . 26 J o c tã g e ro u a A lm o d á, S elefe, H a z a rm a v é , J e r á , 27 H a d o rã o , U sai, D ic la , 28 O b al, Abim a e l, S ebá, 29 O fir, H a v ilá e J o b a b e : todos e ss e s fo ra m filhos d e J o c tã . 30 E foi a su a h a b ita ç ã o d e sd e M e s sa a té S e fa r, m o n ta n h a do o rie n te . 31 E s s e s sã o os filh o s d e Sem segu n d o a s s u a s fa m ília s , se g u n d o a s su a s lín g u a s, e m s u a s te r r a s , seg u n d o a s su a s n a ç õ e s. 32 E s s a s sã o a s fa m ília s d o s filhos d e N oé, seg u n d o a s s u a s g e ra ç õ e s , e m su a s n a ç õ e s ; e d e la s fo r a m d is s e m in a d a s a s n a ç õ e s n a t e r r a dep o is do d ilúvio.

Não existe um relato da situação inter­ nacional da antiguidade tão compreen­ sivo como a tabela de nações encontra­ da neste capítulo da Bíblia. O âmbito geográfico dos povos se estende, ao nor­ te, até o Mar Negro, ao leste, até o

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planalto iraniano, ao sul, até as nascentes do Nilo, e, ao oeste, até a Espanha. Este capítulo não faz nenhuma tentativa para incluir todas as nações debaixo do sol, pois ele mesmo dá a entender que havia outros povos não mencionados (cf. 10: 4b, 30b). São incluídas as nações que tinham fronteira com a Palestina ou nela viviam. Há considerável evidência de que há um arranjo esquemático definido nesta lista. O número de nações totaliza, apro­ ximadamente, setenta, total que era pre­ sumido pelos comentários rabínicos pos­ teriores. Esses setenta devem ser com­ parados com as setenta pessoas da famí­ lia de Jacó que desceram ao Egito. O hebraico de Deuteronômio 32:8 significa literalmente: “Ele fixou os limites dos povos de acordo com o número dos filhos de Israel” , comentário que certamente identifica o número como esses mesmos setenta. Israel era considerado como “um microcosmo, similar ao macrocosmo, quanto à forma” (Cassuto, II, p. 180). A RSV segue a LXX, que, provavelmente, preserva uma opinião rabínica de que havia setenta anjos mi­ nistrando ao redor do trono de Deus. Quando Jesus enviou os setenta (Luc. 10:1), isso pode ter simbolizado a sua missão, em última análise, ao mundo todo. Também existe um aparente jogo com os números 7 e 12, nesta lista. Jafé tem sete filhos, e os seus netos também são sete. O total de filhos e netos de Cuche é sete, bem como a soma dos descendentes do Egito (Mizraim). Canaã teve doze filhos; Sem tem doze descendentes, até Pelegue; e Joctã tem quatorze. Ao invés de ser vista como uma lista étnica com­ pleta, ela deve ser considerada como artifício mnemónico para ajudar a lem­ brar o nome dos habitantes do mundo na região palestina. Toda uma literatura tem sido criada ao redor deste capítulo. Speiser fez as mais valiosas contribuições para o nosso


conhecimento. (Veja o seu comentário, onde há uma análise detalhada de iden­ tificações possíveis.) Contudo, muitos desses nomes são-nos desconhecidos, exceto a sua menção nesta lista. É bem possível que muitos deles não fossem entendidos nem mesmo pelos compila­ dores desta lista, mas foram incluídos porque faziam parte de sua informação tradicional. Há muitas correspondências entre os nomes de Gênesis 10 e o livro de Ezequiel (cf. Ez. 27-28; 32; 38-39); mas não é provável que Ezequiel meramente copiou de Gênesis, pois ele está ciente de material diferente do encontrado aqui. Deve ter havido outras fontes das quais ambos os compiladores conseguiram os seus materiais. Quando foi compilada a lista de Gêne­ sis 10? Von Rad sugere que foi durante o último século do Reino de Judá. Cassuto insiste que foi muito antes. Tudo o que pode ser dito com certeza é que grande parte deste material é bem antigo, como pode ser toda a lista. A análise das fontes tradicionais divide este capítulo como se segue: fonte Sacer­ dotal, versículos 1-7,20,22,31,32; fonte Judia, versículos 8-19,21,24-30. Este pro­ cesso é seriamente debatido nos anos recentes, e é necessário proceder-se com grande cautela, nesta área. A me­ lhor parte da sabedoria, em face de tanta incerteza, é trabalhar com o fluxo básico da passagem, que é fiel, sem se considerar quando ela foi compilada. A opinião de muitos eruditos é que o material desta lista tem valor pequeno ou nulo para se reconstruir a relação étnica verdadeira dos povos em questão. “As pessoas mencionadas são epônimas; isto quer dizer que são pessoas chamadas à existência para dar razão ao nome de um povo ou país... Esta lista tem pequeno valor científico, à luz da etnologia mo­ derna” (Richardson, p. 116-17). Kidner tem opinião diferente: “A maior parte desses nomes parece ser de indivíduos, embora eles se encontrem mais tarde no

Velho Testamento como povos, tanto quanto os nomes pessoais de Israel, Edom e Moabe” (p. 105). O fato de que alguns desses nomes da lista estão cla­ ramente na forma plural (os que termi­ nam em im, como “Quitim”) não signi­ fica que todos eles estejam no plural; pelo contrário, o autor está combinando nomes individuais com nomes étnicos. Esta lista é, obviamente, mais orienta­ da geograficamente do que etnicamente, embora o fator étnico não possa ser ignorado. As tribos de Jafé se localizam na região do Egeu e da Ãsia Menor; o povo camita ao sul e leste da Palestina, os semitas ao nordeste (primariamente a região do Crescente Fértil). Se uma nação vivia em território ocupado por certo grupo étnico, podia ser classificada com o grupo prevalecente. Desta forma os cananeus podem ser considerados aparentados com Cão, porque naquela época eles estavam sujeitos ao Egito. Os assírios chamavam os reis do Reino do Norte (Israel) de “filhos de Onri” muito tempo depois que a dinastia de Onri foi destruída. Samuel foi considera­ do filho de Levi depois de sua adoção por Eli. Quando um povo se mudava para território de outra nação, tornava-se “filho” desse país. Não importa a origem nacional, todos os brasileiros são consi­ derados pelos outros povos como parte da mesma cepa étnica. Desta forma, Seba e Havilá podiam ser colocados tanto no grupo de Cão como no de Sem, pois, embora um homem possa ter um só pai, um povo pode colocar-se sob a influência de várias culturas. O pior insulto que Ezequiel podia fazer a Israel era dizer: “Teu pai era amorreu, e a tua mãe hetéia” (Ez. 16:3). Aqui, ele não está descrevendo ascendência étnica, mas a influência sofrida pelo seu modo de vida. Desta forma, Oséias fez insulto seme­ lhante a Israel, quando vociferou: “Canaã!” (Os. 12:7, heb. lit.). Seu pai era Canaã, e não Abraão. 207


Esta lista das nações é a primeira tentativa do mundo antigo de compor um relato compreensivo dos habitantes do mundo. Revela como os escritores bíbli­ cos tinham consciência de que Israel precisava ser considerado em relação ao resto do mundo. O escritor não se con­ tenta em avançar em um processo de afunilamento, de Adão até Abraão. Antes de se voltar para Abraão, ele faz os seus leitores se lembrarem do mundo em que ele veio à luz. 0 seu objetivo principal não pode ser perdido de vista, em meio ao exame minucioso de dados antropológicos. Ele está asseverando que todos os povos são descendentes de um só homem, Noé, e que, portanto, pertencem a uma só famí­ lia. Quando ele diz que elas se espalha­ ram, está usando o mesmo verbo empre­ gado em 2:10, a respeito do rio que sai do jardim, abrindo-se em quatro braços. A tragédia da história humana é que os homens se tornaram tão divididos que a sua irmandade essencial foi obscure­ cida. Se os homens pertencem a uma só família, devem ser capazes de viverem juntos, em paz; e, como os profetas de Israel sonharam, um dia eles o farão. A tarefa de cada pessoa e de todas as gerações é aproximar-se desse alvo final o máximo possível. 7. A Torre de Babel (11:1-9) 1 O ra , to d a a t e r r a tin h a u m a só lín g u a e u m só id io m a . 2 £ deslo c an d o -se os h o m en s p a r a o o rie n te , a c h a r a m u m v a le n a t e r r a de S in a r; e a li h a b ita r a m . 3 D is s e ra m u n s a o s o u tro s: E ia , pois, fa ç a m o s tijo lo s, e q u e i­ m em o-los b e m . O s tijo lo s lh e s s e r v ir a m de p e d ra s e o b e tu m e d e a r g a m a s s a . 4 D iss e ­ r a m m a is : E ia , ed ifiq u e m o s p a r a n ó s u m a c id a d e e u m a to r r e cu jo c u m e to q u e n o céu, e fa çam o -n o s u m n o m e , p a r a q u e não. s e ja ­ m o s e sp a lh a d o s so b re a fa c e d e to d a a t e r r a . 5 E n tã o d e sc e u o S en h o r p a r a v e r a c id a d e e a to r re q ue os filhos d o s h o m e n s e d ific a v a m ; 6 e d is s e : E is q u e o povo é u m , e todos tê m u m a só lín g u a ; e is to é o q u e c o m e ç a m a f a z e r ; a g o r a n ã o h a v e r á re s tr iç ã o p a r a tu d o o q ue e le s In te n ta r e m fa z e r. 7 E ia , d e s ç a ­ m o s, e co n fu n d am o s a li a s u a lin g u a g e m , p a r a q u e n ão e n te n d a u m a lín g u a do o u tro . 8 A ssim o S en h o r os e sp a lh o u d a li so b re a

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fa c e d e to d a a t e r r a ; e c e s s a r a m de e d ific a r a c id a d e . 9 P o r isso se c h a m o u o seu n o m e B a b e l, p o rq u a n to a li c o n fu n d iu o S en h o r a lin g u a g e m d e to d a a te r r a , e d a li o S en h o r os e sp a lh o u s o b re a fa c e d e to d a a to r r a .

Os acontecimentos descritos neste ca­ pítulo precedem grande parte da disper­ são mencionada no capítulo 10. A Lista das Nações é colocada em primeiro lu­ gar, tanto porque a ocasião da morte de Noé requeria um sumário genealógico, como se a dispersão ocorrida depois do incidente na torre de Babel devesse ser vista à luz da unidade essencial do ho­ mem. O objetivo principal desta passagem não é dar resposta à questão das dife­ renças de linguagem diretamente suge­ ridas. Ela procura falar a respeito desse problema, porém é, primordialmente, uma condenação da insensibilidade e do orgulho que caracterizaram aquele pro­ jeto. O acontecimento central, nesta histó­ ria, é a edificação de uma torre ciyo cume toque os céus. Expressões seme­ lhantes de fato eram usadas pelos babi­ lônios a respeito de seus templos, parti­ cularmente o dedicado a Marduque, na Babilônia. Quando os versículos 1 a 19 foram escritos, o zigurate existente na Babilônia, construído, provavelmente, no período de Hamurabi (décimo oitavo e décimo sétimo séculos a.C.) estava em ruínas, que falavam eloqüentemente de sua glória passada. Contudo, esta refe­ rência não é a uma catástrofe que ocor­ rera tão perto da época de Abraão, mas a uma bem mais anterior. Speiser está correto em presumir que esta narrativa depende mais da história da criação dos babilônios do que do zigurate da Babi­ lônia propriamente dito. Sem dúvida, os hebreus tinham as suas tradições a res­ peito de uma tentativa, antes mesmo que o local se chamasse Babel, de edificar ali um templo que precedera o esforço de Hamurabi. Este último fora uma tenta­ tiva de reconstruir as ruínas anteriores, à luz da Enuma Elish.


Desde a análise minuciosa desta pas­ sagem, feita por Gunkel, os eruditos têm manifestado a tendência de ver aqui duas edições revisadas: uma história da “tor­ re” e uma história da “cidade” . Cassuto, de maneira característica, responde a esses esforços com a seguinte observação: “Nenhum escritor hebreu inteligente teria produzido textos insípidos assim” (II, p. 236). Ele acha que esta narrativa é um exemplo chocante de arte literária (p. 231-34). É suficiente observar que esta passagem passa facilmente de cida­ de para torre, não porque há duas edi­ ficações, mas porque em uma cidade ba­ bilónica típica a área do templo era a sua razão de ser. A cidade era um adjunto do zigurate, que era a sua estrutura mais evidente. Bem semelhante às cidadezinhas do interior brasileiro, onde a torre da igreja católica é a estrutura mais im­ ponente. O que havia de errado em se construir uma torre ciyo cume toque no céu (um arranha-céu)? Para o escritor da narra­ tiva de Gênesis, o pecado residia em sua motivação. Façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados. O homem fora feito para viver para a glória de Deus, e a sua busca legítima de um nome bom e permanente precisa ser realizado nesse contexto. Deus apelou para Abraão com base no engrandecimento de seu nome (12:1-3), mas isso devia ser reali­ zado no serviço de Deus. Desde o prin­ cípio, Deus tinha ordenado ao homem para ser frutífero e multiplicar-se e en­ cher a terra, e a ordem fora reiterada a Noé. O homem devia encher a terra toda, e não apenas um canto dela. Até o dia de hoje o problema populacional não é essencialmente de falta de espaço na terra para todo o seu povo, mas o fato de que as pessoas desejam viver no mesmo lugar (as cidades) e não se preocupam com as partes do mundo menos afortu­ nadas do que aquela em que estão. Para os babilônios, a palavra Babel significava “portão de Deus” . Para o

escritor inspirado, ela passou a ter um significado hebraico: “lugar de confu­ são” . Todos os esquemas utópicos em que os homens se preocupam apenas consigo mesmos e com a sua prosperi­ dade pessoal terminam em caos seme­ lhante a esse. Os homens egoístas sem­ pre serão insensíveis aos pensamentos e às necessidades dos outros, e as suas tentativas de edificar por fim fracas­ sarão. O escritor não diz como aconteceu a confusão de línguas. Ele está mais inte­ ressado na razão para ela, em quem a ocasionou e o seu resultado final. Deus usa várias maneiras de efetivar a sua vontade, mas ele reage sempre de manei­ ra semelhante ao comportamento do homem, com resultados comparáveis. A intenção do escritor é ensinar que, sem­ pre que o homem se preocupar apenas com as suas tentativas pessoais de alcan­ çar a fama, esses esforços estão conde­ nados ao fracasso. Enquanto os homens não se espalharem voluntariamente, ele os dispersará compulsoriamente, em­ pregando os diversos meios que lhe estão à disposição, para realizar os seus pro­ pósitos finais. Uma só língua e um só idioma. Esta não é uma tradução satisfatória. O es­ critor certamente estava cônscio de que, na ocasião de tal acontecimento, os ho­ mens haviam desenvolvido um vocabu­ lário extenso. O hebraico mais literal é “uma linguagem e uma (a mesma) pala­ vra (s)” . Os povos português e brasileiro falam a mesma língua, mas nem sempre usam as mesmas palavras (moço-garçom, etc.). Naquela época remota, está dizendo o escritor, eles não falavam ape­ nas a mesma língua: usavam as mesmas palavras. Não se haviam desenvolvido ainda dialetos diferentes. Isto significa que considera-se que este acontecimento teve lugar em épocas bem remotas, bem distantes do escritor. Não precisamos procurar esta situação vivencial no ter­ ceiro e segundo milênios a.C. A época 209


exata está perdida nas brumas do pas­ sado, mas a sua memória continua. Eía, edifiquemos. Note-se a repetição desta expressão no v. 4, e a resposta idên­ tica de Deus no v. 7. Os tjjolos lhes servi­ ram de pedras. O escritor palestino não estava impressionado com os materiais de construção, em que eles haviam feito investimento tão grande. Então desceu o Senhor. Não para descobrir (ele já sa­ bia), mas para inspecionar mais de perto. Esta expressão constitui uma iro­ nia antropomórfica. Eles estavam edifi­ cando uma torre até o céu, e Deus tinha que “ descer” para inspecioná-la. Filhos dos homens é a exata contrapartida he­ braica da frase “filhos de Deus” em 6:2. Agora não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer. Um grande elogio. Só um fator impede determinados homens de alcançarem os seus objetivos: a vontade de Deus. Deixados por conta própria, os homens podem alcançar os alvos que planejam e pelos quais traba­ lham criativamente. Contudo, a não ser que trabalhem dentro da vontade de Deus, eles não serão deixados à vontade. 8. Os Ancestrais de Abraão (11:10-26) 10 E s ta s sã o a s g e ra ç õ e s d e S em . T in h a ele c e m a n o s, q u an d o g ero u a A rfa x a d e , dois an o s d ep o is do d ilú v io . 11 E v iv e u S em , dep o is q u e g e ro u a A rfa x a d e , q u in h en to s a n o s ; e g e ro u filhos e filh a s. 12 A rfa x a d e v iv eu tr in t a e cin co a n o s , e g e ro u a S elá . 13 V iveu A rfa x a d e , d ep o is q u e g e ro u a S elá, q u a tro c e n to s e tr ê s a n o s ; e g e ro u filh o s e filh a s. 14 S elá v iv e u tr in t a a n o s, e g e ro u a E b e r. 15 V iveu S elá, dep o is q u e g e ro u a E b e r , q u a tro c e n to s e tr ê s a n o s ; e g e ro u filhos e filh a s. 16 E b e r v iv e u tr in t a e q u a tro a n o s, e g e ro u a P e le g u e . 17 V iveu E b e r, dep o is q u e g e ro u a P e le g u e , q u a tro c e n to s e tr in ta a n o s ; e g ero u filho s e filh a s. 18 P e le ­ gue v iv eu tr in t a a n o s, e g e ro u a R e ú . 19 V iveu P e le g u e , d ep o is q u e g e ro u a R eú , d u zen to s e n ove a n o s ; e g e ro u filhos e filh a s. 20 R e ú v iv eu tr in t a e do is a n o s, e g e ro u a S eru g u e. 21 V iveu R e ú , d ep o is q u e g e ro u a S eru g u e, d u zen to s e s e te a n o s ; e g e ro u filh o s e filh a s. 22 S eru g u e v iv e u tr in ta a n o s, e g ero u a N a o r. 23 V iveu S e ru g u e , d ep o is que g ero u a N a o r, d u zen to s a n o s ; e g e ro u filhos

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e filh a s . 24 N a o r v iv e u v in te e nove a n o s, e g e ro u a T e ra . 25 V iveu N a o r, d ep o is que g e ro u a T e ra , c e n to e d ezen o v e a n o s ; e g e ro u filh o s e filh a s. 26 T e ra v iv e u s e te n ta a n o s, e g e ro u a A b rã o , a N a o r e a H a rã .

Até aqui, o pecado do homem havia sido sempre acompanhado por um ato de graça. Adão e Eva foram vestidos; Caim foi protegido; aos sobreviventes do dilú­ vio foi feita uma promessa. Para as famí­ lias dos homens dispersas não vem ne­ nhuma palavra confortadora de Deus, de fato, nenhuma palavra, absolutamen­ te. Significa isto que Deus finalmente desistiu de amparar o homem? Pode ter parecido que isto aconteceu durante sé­ culos, pois não há indícios de comuni­ cação direta entre Deus e o homem. Imediatamente depois da catástrofe da torre de Babel, a narrativa repete o mo­ nótono refrão de Gênesis 5: “Viveu, e gerou.” Mais uma vez o homem se havia acomodado a viver os seus dias sem esperança. Contudo, o leitor depressa olhará para diante, e verá que 11:10 e ss. está pre­ parando o palco para o ato mais signi­ ficativo desde a criação: a chamada de Abraão. A graça de Deus estava ali o tempo todo, esperando um receptáculo apropriado. A experiência da torre de Babel provou que só um refinamento radical nos relacionamentos entre Deus e o homem redundaria satisfatório. Nem a criação nem a ira haviam garantido o propósito de Deus para o homem. Onde estas iniciativas haviam falhado., a graça agora precisava ter êxito. Esta passagem está colocada aqui, cla­ ramente, para preparar para a chamada de Abraão. Não se menciona Israel no capítulo 10, na Lista de Nações, omissão que deve ser devida a uma grande restri­ ção da parte do escritor. Agora ele avan­ ça diretamente para o seu alvo: o nasci­ mento de Abraão. Quando as genealo­ gias desta passagem são comparadas com as do capítulo 5, há muitas seme­ lhanças, mas as diferenças são ainda mais notórias. Sem viveu apenas um


pouco mais da metade de um patriarca antediluviano típico, e a longevidade cai drasticamente para 400 anos, nas três gerações seguintes. Depois de Eber, ela é cortada novamente pela metade, e conti­ nua em cerca de 200 anos, até Tera. Obviamente, os 120 anos decretados por Deus em 6:3 não se aplicavam à duração da vida dos indivíduos, mas aos anos de graça antes do dilúvio. Será que era o pecado que estava encurtando a vida do homem? As evidências científicas dispo­ níveis indicam que a duração da vida do homem primitivo era menor do que hoje em dia, mas, obviamente, toda pessoa falecida não teve o seu corpo exumado e examinado. Aparentemente, o escritor está enfatizando o declínio gradual da energia dada ao homem por ocasião da criação. 9. A Família de Tera (11:27-32) 27 E s ta s sã o a s g e ra ç õ e s d e T e ra : T e ra g ero u a A b rão , a N a o r e H a r ã ; e H a r á g ero u a L ó. 28 H a r ã m o r re u a n te s d e se u p a i T e ra , n a t e r r a do se u n a sc im e n to , e m U r dos C ald eu s. 29 A b rão e N a o r to m a r a m m u lh e ­ r e s p a r a s i: o n o m e d a m u lh e r d e A b rão e r a S a ra i, e o n o m e d a m u lh e r d e N a o r e r a M il c a , filh a de H a rã , qu e foi p a i de M ilc a e d e Is c á . 30 S a ra i e r a e s t é r il; n ã o tin h a filhos. 31 T om ou T e ra a A b rão se u filho, e a Ló filho de H a rã , filho de se u filho, e a S a ra i s u a n o ra , m u lh e r de se u filho A b rã o , e s a iu co m e le s d e U r d o s C ald eu s, a fim d e i r p a r a a te r r a de C a n a ã ; e v ie r a m a té H a rã , e a li h a b ita ra m . 32 F o r a m o s d ia s d e T e ra d u ze n ­ to s e cin co a n o s ; e m o r re u T e r a e m H a rã .

Tanto Ur como Harã eram importan­ tes centros de adoração da lua, e o fato de Tera ter vivido lá provavelmente indi­ ca que ele estava envolvido com esse culto. Porém, o fato de que Tera prati­ cava a idolatria (Jos. 24:2) não significa que ele também não estivesse familia­ rizado com o verdadeiro Deus. Labão afirma que o Deus de Naor e Tera era o Deus de Abrão (31:53). Quando Abrão foi chamado, não lhe foi necessário aban­ donar o deus de seus pais, mas apenas purificar a sua adoração a ele. Muitas das tradições peculiares do Velho Testa­

mento foram preservadas pelos ances­ trais de Abraão, enquanto eles estavam também praticando a idolatria. Há uma variação significativa na fór­ mula usada para as genealogias do capí­ tulo 11* quando elas são comparadas com as do capítulo 5. A fórmula “viveu, gerou, morreu” , no capítulo 5, é revisa­ da, sendo omitida, no capítulo 11, em cada caso, a frase “e morreu” até o fale­ cimento de Harã, filho de Tera. No caso de Tera, é usada novamente a velha fórmula (v. 32). Esta omissão em relação às biografias anteriores deve ter sido intencional. O versículo 28 diz, literal­ mente, que Harã “morreu diante da face de seu pai” . As palavras “ele morreu” haviam sido excluídas anteriormente, a fim de enfatizar a importância da morte de Harã. Nas genealogias, era incomum o fato de os filhos morrerem antes de seus pais. Esta perda deve ter influenciado a família, levando-a a abandonar Ur e se mudar para a direção de Canaã. Uma família piedosa havia ficado absorvida demais com a vida pagã de Ur, e havia comprometido a sua fé. Gênesis 11:26 diz que “Tera viveu setenta anos, e gerou a Abrão, a Naor e a Harã” . Isto não significa que eles eram trigêmeos, pelo contrário, eles nasceram depois que ele completou setenta anos, tendo nascido o mais velho naquele ano. Abrão. Este nome pode ter várias interpretações. Há duas idéias básicas nesta palavra: “pai” e “exaltado” , mas a relação entre as duas é discutível. Signi­ fica “pai exaltado” , ou “aquele que exal­ ta o seu pai” ? Um pai daria a seu filho o nome de “pai exaltado” ? Embora este seja o significado mais provável, a situa­ ção sugere que este nome foi dado para expressar o orgulho do pai com o nasci­ mento de um filho. Ur dos Caldeus. Os caldeus não vie­ ram a controlar a região de Ur senão bem depois da época de Abraão. Esta pode ser simplesmente uma expressão explica­ tiva, usada para facilitar a compreensão 211


de uma geração posterior. Contudo, esta expressão deve ter sido usada em refe­ rência a tribos nômades semítico-ocidentais, localizadas nesta região na pri­ meira parte do segundo milênio a.C. (Cassuto). Sacai. Este nome significa princesa ou rainha. A forma dada a este nome, Sara, no pacto, é simplesmente uma redação variante. Ela dificilmente poderia supe­ rar este nome. Ali habitaram. Aparentemente, Tera foi a única causa de eles não terem ido adiante, pois fora ele quem os dirigira, ao sairem de Ur. O fato de que eles se dirigiam a Canaãindica que Abrão deve ter influenciado a sua decisão de sair de Ur. Uma coisa era sair de lá para Harã, pois essa região, provavelmente, era a terra natal de Tera; porém, sair de Harã importava em uma mudança no estilo de vida que, de alguma forma, ele não podia suportar. Desta forma, estava preparado o palco para o grande empreendimento de Abraão pela fé.

II. As Narrativas Sobre Abraão (12:1-25:18) Gênesis 11 nos faz lembrar que, depois dos notáveis eventos associados com o grande dilúvio, a vida voltou ao ciclo aparentemente sem significado de nascer, ter filhos e morrer. No capítulo 5, Eno­ que interrompera a cadeia de aconteci­ mentos, mas com seu filho Matusalém o estado de coisas anterior voltou. Com a chamada de Abrão, a história tomou uma nova direção, que nunca permitiria uma volta ã normalidade. Deus estava empreendendo algo novo; ele chamou Abrão para colocar esse empreendimento em movimento. Os capítulos 1-11 haviam sido preparatórios para este momento. De Agora em diante Deus não iria tra­ balhar apenas com indivíduos; ele iria chamar um povo para servi-lo. As narrativas preservadas nesta seção podem ser testadas pela arqueologia mo­ derna, não somente porque os eventos 212

descritos pertencem a períodos atestados pelos registros seculares, mas também porque numerosas escavações e desco­ bertas de manuscritos antigos têm lança­ do considerável luz sobre a situação cul­ tural geral da época.14 Com esses mate­ riais aprendemos que nomes semelhantes aos das genealogias hebraicas eram co­ muns na época (décimo oitavo século a.C.), que costumes peculiares mencio­ nados eram praticados nesse período, e não em Israel, posteriormente, e que as viagens de Abrão através de Canaã eram possíveis porque as regiões que ele mais freqüentemente ocupou com os seus re­ banhos eram habitadas bem esparsamente na época. Obviamente, estes fatos não provam, por si mesmos, a exatidão de cada declaração histórica desta seção de Gênesis. Nem sempre os arqueólogos têm sido capazes de verificar a exatidão das narrativas de Gênesis. E também não têm sido capazes de provar que elas são inexatas. Onde quer que eles tenham en­ contrado evidências, elas reforçaram as declarações bíblicas. 1. A Chamada de Abrão (12:1-3) 1 O ra , o S e n h o r d is se a A b rã o : S ai-te d a tu a t e r r a , d a tu a p a re n te la , e d a c a s a d e te u p a i, p a r a a t e r r a q u e e u te m o s tra r e i. 2 E u fa r e i d e ti u m a g ra n d e n a ç ã o ; a b e n ç o a r-teei, e e n g ra n d e c e re i o te u n o m e ; e tu , sê u m a b ê n ç ã o . 3 A b e n ç o a re i a o s q u e te a b e n ç o a ­ re m , e a m a ld iç o a r e i à q u e le q u e te a m a ld i­ ç o a r; e e m ti s e r ã o b e n d ita s to d a s a s f a m í­ lia s d a t e r r a .

Ora, o Senhor disse a Abrão. A cha­ mada de Abrão aconteceu em Ur ou em Harã? Em o Novo Testamento, Estêvão diz que ela aconteceu em Ur (At. 7:2). É bom que se note que Estêvão não foi um escritor da Escritura. O fato de que Estêvão conhecia o Senhor não prova mais o seu conhecimento detalhado do Velho Testamento do que de qualquer pessoa que tenha as mesmas caracterís­ ticas hoje em dia. Se ler o relato de 14 Cf. John Bright, A HIstory of Israel (Philadelphia: Westminster Press, 1959), p. 60-86.


Gênesis sem tomar conhecimento da pas­ sagem de Atos, nunca ocorrerá ao leitor que Abrão foi chamado em outro lugar que não tenha sido Harã. Contudo, não há razão por que não nos possamos identificar com Estêvão, e concluir que a chamada de Abrão aconteceu tanto em Ur quanto em Harã, não porque a passagem o diga claramente, mas porque isso está implícito, pois a família se dirigiu a Canaã quando saiu de Ur (11:31). Abrão, provavelmente, havia influenciado o seu pai a viajar para Canaã quando estavam em Ur. Agora Tera não queria ir além, e assim a chamada foi renovada de forma mais clara. Sai-te da tua teria, da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. Aqui temos as exigências cla­ ras que Deus fez a um homem de fé. Assim como Paulo ensina em Gálatas 3, estamos mais perto do Novo Testamento nesta passagem do que na lei do Sinai. Eu farei de ti. Como ensinavam os rabis do Talmude, a promessa feita a Abrão foi sétupla(cf. Cassuto): (1) Ele seria o pai de uma grande nação. A palavra hebraica usada aqui é goy, e não am (povo). É um conceito político, implicando em uma base terri­ torial (Speiser). Aqui de fato se encon­ trava o teste da fé de Abraão em Deus, porque com setenta e cinco anos ele ainda não tinha herdeiro! (2) Deus o abençoaria durante a sua vida. Isto significava que ele iria ser protegido de qualquer dano e que ele gozaria do favor de Deus de formas ainda não imaginadas. (3) O próprio Abrão seria uma figura mundial (o seu nome iria ser grande). Não se pode culpar um homem por que­ rer ser conhecido em círculos mais am­ plos. O erro está na razão indigna para esse desejo e nos métodos questionáveis empregados para alcançá-lo. (4) Ele seria uma bênção para outras pessoas. Não é suficiente querer um lugar de destaque só por amor à fama. Abrão

seria abençoado por Deus para que pu­ desse ajudar os outros. Cargos elevados devem inspirar um senso de responsa­ bilidade, e não de mero gozo dos privi­ légios especiais neles inerentes. (5) As suas bênçãos seriam comparti­ lhadas com aqueles que o recebessem, pois desta forma eles declarariam a sua abertura para com Deus. (6) Os que amaldiçoassem (degradas­ sem, desprezassem) Abrão, com esse ato revelariam insensibilidade para com Deus, que estava operando nele, e preci­ pitariam a ira de Deus sobre si próprios. (7) A sua influência benéfica seria uni­ versal. “Temos, aqui, a primeira alusão ao conceito do universalismo inerente na fé de Israel.” 2. Abrão em Canaã (12:4-9) 4 P a r tiu , p o is, A b rã o , com o o S en h o r lh e o rd e n a r a , e L ó foi c o m e le . T in h a A b rã o s e te n ta e cin co a n o s q u a n d o sa iu d e H a rã . 5 A b rã o levou co n sig o a S a ra i, s u a m u lh e r, e a L ó, filho d e se u ir m ã o , e to d o s os b e n s q u e h a v ia m a d q u irid o , e a s a lm a s q u e lh e s a c r e s c e r a m e m H a r ã ; e s a ír a m a fim d e ir e m à t e r r a d e C a n a ã ; e à t e r r a d e C anaã. c h e g a ra m . 6 P a s s o u A b rão p e la t e r r a a té o lu g a r d e S iq u ém , a té o c a rv a lh o d e M oré. N esse te m p o e s ta v a m os c a n a n e u s n a te r r a . 7 A p a re c e u , p o ré m , o S en h o r a A b rão , e d is s e : À tu a s e m e n te d a re i e s ta te r r a . A b rã o , p o is, ed ifico u a li u m a l t a r a o S en h o r, q u e lh e a p a r e c e r a . 8 E n tã o p a ss o u d a li p a r a o m o n te a o o rie n te d e B ete i, e a rm o u a s u a te n d a , fican d o -lh e B e te i a o o c id e n te , e Ai ao o rie n te ; ta m b é m a li ed ifico u u m a l t a r a o S en h o r, e inv o co u o n o m e do S en h o r. 9 D e ­ p o is co n tin u o u A b rã o o se u ca m in h o , s e ­ guindo a in d a p a r a o su l.

Esta passagem ensina claramente que a fé de Abrão era tal que ele tomou uma decisão positiva de aceitar o desafio de Deus. O único problema era o fato de que Ló o estava acompanhando. Isto acontecia, aparentemente, não por con­ vite de Abrão, mas por iniciativa de Ló. De fato, Abrão estava disposto a deixar Ló para trás, mas ainda não era neces­ sário. O homem que está disposto a abandonar tudo pode nem sempre ser 213


solicitado a fazê-lo. Acontecimentos pos­ teriores o tomariam necessário, mas agora isso não era requerido. As almas que lhes acresceram em Harã. Como observa Cassuto, não é pro­ vável que esta passagem se refira a escra­ vos, pois eles seriam incluídos nos bens mencionados; e o termo lhes acresceram (heb., fizeram) dificilmente seria a pa­ lavra usada para a aquisição de um escravo. É mais provável que ela se apli­ que às pessoas de Harã que haviam sido convencidas da causa de Abrão. Uma comunidade religiosa já estava come­ çando! O carvalho de Moré era, provavelmen­ te, a cena de um santuário cananeu. O lugar de Siquém pode indicar isto, pois este termo freqüentemente se aplicava a um lugar sagrado, embora não em todos os casos. Isto não significa que Abrão endossava a adoração pagã ali executa­ da, mas que ele demonstrava uma ado­ ração mais apropriada do verdadeiro Deus, como Paulo o faria em Atenas. Ele construiu um novo altar nesse lugar sa­ grado. Era para isso que a adoração cananéia estava apontando o tempo todo. Estavam os cananeus na terra. Isto não quer dizer, necessariamente, que na época do escritor eles não estavam mais na terra. O significado era que estava sendo dada a Abrão uma terra já ocupa­ da por outrem. Como é que ela podia tomar-se dele? Mais uma vez a sua fé estava sendo testada. A tensão é um tanto relaxada quando Deus informa a Abrão que ele a vai dar aos seus des­ cendentes. É-lhe dito que o processo levará séculos (15:12-16). Mais um a vez ele é chamado para crer em Deus. Devese notar que Abrão não sabia que terra deveria ser sua até tê-la percorrido. Ra­ ramente uma pessoa conhece antecipa­ damente a vontade final de Deus para com ela. Ela vai encontrá-la à medida que seguir o seu Senhor em fé. 214

3. A Peregrinação no Egito (12:10-13:1) 10 O ra , h a v ia fo m e n a q u e la t e r r a ; A b rão , p o is, d e sc e u a o E g ito , p a r a p e r e g r in a r a li, p o rq u a n to e r a g ra n d e a fo m e n a t e r r a . 11 Q uando e le e s ta v a p re s te s a e n t r a r no E g ito , d isse a S a ra i, s u a m u lh e r: O ra , b e m s e i q u e é s m u lh e r fo rm o sa à v is ta ; 12 e a c o n te c e rá q u e, q u a n d o os e g íp cio s te v ir e m , d irã o : E s ta é m u lh e r d e le . E m e m a ta r ã o a m im , m a s a ti te g u a rd a r ã o e m v id a . 13 D ize, p eço-to, q u e é s m in h a ir m ã , p a r a q u e m e v á b e m p o r tu a c a u s a , e q u e v iv a a m in h a a lm a e m a te n ç ã o a ti. 14 E a c o n te c e u q u e , e n tr a n ­ do A b rã o n o E g ito , v ir a m os e g íp cio s q u e a m u lh e r e r a m u i fo rm o sa . 15 A té os p rín c i­ p e s d e F a r a ó a v ir a m e g a b a ra m -n a d ia n te d e le ; e foi le v a d a a m u lh e r p a r a a c a s a d e F a r a ó . 16 E e le tr a to u b e m a A b rã o p o r c a u s a d e la ; e e s te v elo a t e r o v e lh a s, b o is e Ju m e n to s, s e rv o s e s e r v a s , ju m e n ta s e c a ­ m e lo s. 17 F e r iu , p o ré m , o S en h o r a F a r a ó e a s u a c a s a c o m g ra n d e s p ra g a s , p o r c a u s a d e S a ra i, m u lh e r d e A b rã o . 18 E n tã o c h a m o u F a r a ó a A b rã o , e d is se : Q ue é is to q u e m e fiz e ste ? p o r q u e n ã o m e d is se ste q u e e la e r a tu a m u lh e r? 19 P o r q u e d is s e s te : É m in h a ir m ã ? d e m a n e ir a q u e a to m e i p a r a s e r m in h a m u lh e r. A g o ra, p o is, e is a q u i tu a m u lh e r; to m a -a e v a i-te . 20 E F a r a ó d e u o rd e n s a o s se u s g u a rd a s a re s p e ito d e le , os q u a is o d e s p e d ira m a e le , e a s u a m u lh e r, e a tu d o o q u e tin h a . 1 Subiu, p o is, A b rã o do E g ito p a r a o N e g e b e , le v a n d o s u a m u lh e r e tu d o o q u e tin h a , e L ó o a c o m p a n h a v a .

Esta história tem paralelo em 20:1-18 (Sara e Abimeleque) e 26:6-11 (Rebeca e Abimeleque). Muitos eruditos (cf. von Rad) consideram estas três narrativas como edições revistas de uma história original de um patriarca expondo a sua esposa. O relato original agora está pre­ servado em três narrativas diferentes. Nome como o de Yahweh (Senhor) ocorre no capítulo 12, enquanto Elohim (Deus) aparece no capítulo 20. Como é que Abi­ meleque podia ser enganado duas vezes por esse estratagema, levado a efeito por pai e filho? Será que o justo Abrão seria capaz mais uma vez de manifestar tal du­ plicidade, depois de ter sido prejudicado no Egito? Tais considerações estão por detrás da teoria de uma história original comum.


Outros eruditos (cf. Kidner) defendem esses relatos como independentes. A pas­ sagem, da maneira como agora a temos, não diz que era costume de Abraão agir de maneira enganosa como essa (20:13, que alguns comentaristas consideram uma tentativa do redator de conciliar os dois relatos). Seria natural que um filho, especialmente Isaque, imitasse o seu pai. O Abimeleque do capítulo 26 pode não ser o mesmo do capítulo 20. Pais e filhos, da mesma forma como hoje em dia, tinham o mesmo nome de nobreza. Dentre outros problemas existentes nesta passagem, o principal é o de Sara ser tão bela com a idade de 65 anos. Cassuto argumenta que as idades não devem ser consideradas literalmente, mas elas aparecem desta forma pelo amor à “harmonia numérica” : Abrão viveu 75 anos com seu pai, 25, em Canaã, sem filho, e 75 com seu filho Isaque. Cassuto argumenta que os antigos não conservavam estatísticas de nascimentos da maneira como as sociedades ociden­ tais modernas fazem. Nenhuma tenta­ tiva era feita de serem exatos em termos de idade. O objetivo da história toda, no entan­ to, é dizer que Sara não era apenas velha demais para ter filhos, mas velha demais para ter prazer sexual (18:12). É o relato Sacerdotal que afirma que Abraão tinha 75 anos (e, por conseguinte, Sara tinha 65) quando eles entraram em Canaã. Muitos expositores acham que este pre­ sente relato da fonte Judia considerava Sara muito mais nova quando eles entra­ ram na Palestina. Ninguém pode negar como algumas mulheres de 65 anos de idade são atraentes. Faraó não teria hesi­ tado em acrescentar ao seu harém uma notável mulher de idade, para dar-lhe variedade. Era muito mais fácil conse­ guir jovens do que uma raridade dessas! Há algumas pessoas que tentam de­ fender Abrão. Speiser diz que, visto que alguns antigos freqüentemente elevavam a esposa à condição de irmã, foi isto que

Abraão fez. Gerações posteriores não sabiam que ato nobre fora aquele, e o confundiram com um ato de duplicida­ de! Essa solução levanta mais interroga­ ções do que o problema original. Cassuto sugere que Abrão queria ficar vivo para que pudesse rechaçar quaisquer tenta­ tivas de se apropriarem de Sara. Por outro lado, outras pessoas censu­ ram Abrão fortemente. Holzinger afirma que Abrão, “com vergonhosa baixeza, abandona a sua esposa à concupiscên­ cia de um potentado estrangeiro, e con­ segue vantagens materiais de seu negócio sujo” (traduzido por Cassuto, II, p. 348). Gunkel, todavia, enfatiza as falhas do autor do texto, que parece se deleitar com a capacidade de Abrão de exceder em esperteza os seus inimigos no Egito. Cassuto suspeita, com razão, que tais pontos de vista resultam de “uma falta de simpatia para com Israel e sua Tora” (uma forma indireta de acusar de antisemitismo!). Na realidade, o autor simplesmente registrou a história, sem comentários, da maneira como ela lhe chegou às mãos, nem endossando nem criticando o com­ portamento de Abrão. Ele, Abrão, é retratado como um homem desprepara­ do para um teste como esse, completa­ mente desmoralizado e agindo comple­ tamente sem compostura, como os me­ lhores homens o fazem tão freqüente­ mente. Não obstante, há uma corrente subjacente, nesta história, que critica claramente a duplicidade de Abrão. Era muito embaraçoso, para o pai dos ju­ deus, ser deportado do Egito por um Fara�� cujo senso de direito era mais elevado do que o seu. E não se deve igno­ rar que, provavelmente, entre os presen­ tes que ele aceitou de Faraó, estava uma serva egípcia, chamada Agar. Deve ter ocorrido muitas vezes, nos anos seguin­ tes, que Abrão deplorou ter aceito este presente. A ênfase primordial desta história, todavia, é freqüentemente esquecida, no 215


debate a respeito da análise das fontes e torpeza moral. Como o explica von Rad (p. 164 e s.) de maneira tão eloqüente: Yahweh não permite que a sua obra aborte logo no princípio; ele a resgata e preserva além de todos os fracassos humanos... Se Yahweh não se desviou em sua obra de história sagrada por causa do fracasso e da culpa dos receptores da promessa, então a sua palavra deve realmente merecer crédito.

A narrativa de como Abrão colocou em perigo a promessa é uma recordação de que a pessoa a quem a promessa é feita é muitas vezes o seu maior inimigo. 4. Abrão eL ó (13:2-18) Abrão é lembrado, em Israel, como um homem de fé (cf. 12:1 e ss.; 15:6; Rom. 4:3; Tiago 2:21,23); Ló é conhe­ cido como homem justo (cf. 19:1 e ss.; II Ped. 2:6-8). Estes conceitos derivaram corretamente da descrição feita, dos dois homens, nos relatos de Gênesis. Embora ambos cressem em Deus e numa vida reta, Abrão estava pronto para seguir a Deus até o desconhecido, enquanto Ló fazia o que achava correto. Quando co­ meçaram a sua viagem, a diferença entre os dois era notada apenas no fato de que Abrão dirigia a caravana. Mais tarde, as diferenças entre eles se tornaram tão marcantes que ambos verificaram a ne­ cessidade de seguirem caminhos sepa­ rados. 1) A Separação (13:2-13) 2 A b ra ã o e r a m u ito ric o e m g ad o , e m p r a t a e e m ouro. 3 N a s s u a s jo r n a d a s su b iu do N eg eb e p a r a B e te i, a té o lu g a r onde o u tr o ra e s tiv e r a a s u a te n d a , e n tr e B e te i e Ai, 4 a té o lu g a r do a lt a r , q u e d a n te s ali fiz e ra ; e a li invocou A b rão o n o m e do Se­ n h o r. 5 E ta m b é m L ó, q u e ia co m A b rão , tin h a re b a n h o s , g ad o e te n d a s . 6 O ra , a te r r a n ã o p o d ia su s te n tá -lo s, p a r a e le s h a b ita re m ju n to s ; p o rq u e os se u s b e n s e r a m m u ito s ; de m odo q u e n ã o p o d ia m h a b ita r ju n to s . 7 P e lo q ue h ouve g ra n d e c o n te n d a e n tr e os p a s to ­ re s do g a d o de A b rão , e os p a s to re s do g ad o de L ó. E n e s s e te m p o os c a n a n e u s e os p e riz e u s h a b ita v a m n a t e r r a . 8 D isse , pois, A b rão a L ó : O ra, n ã o h a ja c o n te n d a e n tr e m im e ti, e e n tr e os m eu s~ p a sto re s e os te u s

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p a s to re s , p o rq u e so m o s irm ã o s . 9 P o rv e n ­ tu r a n ã o e s t á to d a a t e r r a d ia n te d e ti? B ogo-te q u e te a p a r te s d e m im . Se tu e sc o ­ lh e re s a e s q u e rd a , ir e i p a r a a d ir e ita ; e s e a d ir e ita e sc o lh e re s, ir e i e u p a r a a e s q u e rd a . 10 E n tã o L ó le v a n to u os o lhos, e v iu to d a a p la n íc ie do J o rd ã o , q u e e r a to d a b e m re g a d a (a n te s d e h a v e r o S e n h o r d e stru íd o S o d o m a e G o m o rra ), e e r a c o m o o ja r d im do S en h o r, com o a t e r r a d o E g ito , a té c h e g a r a Z o ar. 11 E Ló e sc o lh e u p a r a si to d a a p la n íc ie do Jo rd ã o , e p a r tiu p a r a o o rie n te ; a s s im se a p a r t a r a m u m d o o u tro . 12 H a b ito u A b rão n a t e r r a d e C a n a ã , e L ó h a b ito u n a s c id a d e s d a p la n íc ie , e foi a rm a n d o a s s u a s te n d a s a té c h e g a r a S o d o m a. 13 O ra , os h o m e n s de S o d o m a e r a m m a u s e g ra n d e s p e c a d o re s c o n tra o S en h o r.

Abrão e Ló continuaram a sua viagem juntos, usando a mesma rota de sua peregrinação anterior, até Betei, mas não de volta a Siquém. Em Betei, Abrão reno­ vou os seus votos a Deus, e não avançou mais em direção à sua terra natal. Será que a tentação de voltar a Harã teria sido grande demais, se eles tivessem chegado até Siquém? A riqueza de Abrãc, gran­ demente aumentada pela aventura no Egito, consistia de ouro e prata, bem como de gado. A riqueza de Ló ainda se baseava em seus rebanhos e manadas. Com a ulterior multiplicação de seus animais, os dois parentes se defrontaram com outro teste de fé. Canaã não era apenas uma terra onde podiam ocorrer secas, com a conseqüente fome, mas os seus pastos podiam apenas sustentar limitados rebanhos (v. 6a). Os servos de Abrão e os pastores de Ló começaram a discutir a respeito do direito que tinham sobre as pastagens. Tendo os cananeus a rodeá-los por todos os lados (v. 7) tal conflito civil podia ser suicida. Desta forma, as diferenças que surgi­ ram por causa do problema da riqueza e crescimento tomaram necessária uma separação. Porém este foi apenas o ato final de um prolongado drama. Por al­ gum tempo os acontecimentos se haviam movido para essa direção. Geralmente amigos íntimos não concordam com uma separação final, só porque os seus servos


respectivos haviam estado a discutir. Primeiro vieram a dúvida, os pressenti­ mentos, e, finalmente, a certeza de que eles não poderiam mais peregrinar jun­ tos. As suas almas se haviam separado; o homem de fé e o homem justo. Isto é revelado claramente pela sua maneira de agir na hora da crise. (*) A Atitude de Abrão. — Seja qual tenha sido a perda material de Abrão, precisava haver paz entre esses irmãos de sangue. O homem mais favorecido deu preferência ao menos favorecido, embora ele pudesse dizer justificadamente a Ló: “Esta terra é minha, e se você não con­ seguir controlar os seus servos, vá embo­ ra” , ou: “Visto que não existe espaço suficiente aqui para nós dois, eu vou além; você fique com o que sobrar.” Pelo contrário, ele deu a Ló a oportunidade de escolher. A Atitude de Ló. — É claro que a escolha de Ló não foi sábia, à luz da conhecida depravação das cidades da planície (v. 13). Dois fatores levaram-no a escolher esse território: (1) A fertili­ dade daquela região. Para ele, ela pare­ cia com o Jardim do Êden, pois era como o Egito, quando pela primeira vez eles haviam chegado lá, fugindo da fome que havia em Canaã. Se eles vivessem em uma região assim, o medo da fome (ou mesmo da perda de sua esposa, em outra crise no Egito) seria removido para sem­ pre. (2) Ló não escolheu uma região que Abrão prezava. Ao escolher o Vale do Jordão, ele foi para uma área que Abrão não havia demonstrado nenhuma incli­ nação para visitar. De fato, Ló escolheu terra que desejava, mas também era ter­ ritório que ele sabia muito bem não interessar a Abrão. (*) NOTA DO EDITOR: Em tudo isto, a mão invi­ sível de Deus estava por detrás dos aconteci­ mentos. A palavra a Abrão (12:1) fora para sair do meio de seus parentes. Contudo, quiçá por ignorância, ele continuava com um parente, seu sobrinho Ló. Este acontecimento veio com­ pletar esse propósito de Deus para a vida de Abrão.

Contudo, a decisão de Ló, por lógica e correta que lhe parecesse, tinha várias falhas evidentes: (1) Ele agiu impulsiva­ mente demais. A atitude prudente teria sido reagir à generosidade de Abrão sugerindo que Abrão fizesse a escolha em primeiro lugar, e que ele ficasse com o que sobrasse. O imponente panorama da planície bem regada, com a chance de que ela fosse sua, foi mais do que a que ele podia resistir. (2) Ele não considerou as últimas conseqüências de sua decisão. Pensou que iria meramente viver fora das cidades ímpias (v. 12b), mas logo estava dentro delas, estando a sua famí­ lia exposta a todas as tentações a que a sua alma justa era imune. (3) Ele não fez tentativa para discernir a vontade de Deus no assunto. Talvez não soubesse como fazê-lo. Até então havia seguido a Abrão, e não a Deus. Quando Abrão o deixou à vontade, ele estava inteiramente por sua própria conta. Nessa hora, reti­ dão nunca é suficiente. Só a fé é sufi­ ciente. 2) Renovação da Promessa (13:14-18) 14 £ d is se o S e n h o r a A b rã o , d ep o is q u e Ló se a p a rto u d e le : L e v a n ta a g o r a os olhos, e o lh a d e sd e o lu g a r o n d e e s tá s , p a r a o n o rte , p a r a o su l, p a r a o o rie n te e p a r a o o c id e n te ; 15 p o rq u e to d a e s ta t e r r a q u e v ê s, te h ei de d a r a ti, e à tu a d e sc e n d ê n c ia , p a r a s e m p re . 16 E fa r e i a tu a d e sc e n d ê n c ia co m o o pó d a t e r r a ; d e m a n e ir a q u e se p u d e r s e r c o n tad o o pó d a te r r a , e n tã o ta m b é m p o d e rá s e r c o n ta d a a tu a d e sc e n d ê n c ia . 17 L e v a n ta -te , p e rc o r re e s ta t e r r a , no s e u c u m p rim e n to e n a s u a la r g u r a ; p o rq u e a d a r e i a ti. 18 E n tã o m u d o u A b rã o a s s u a s te n d a s , e foi h a b ita r ju n to d o s c a rv a lh o s d e M a n re , e m H e b ro m ; e a li ed ifico u u m a l t a r a o S en h o r.

As afirmações de Deus a Abrão são feitas não apenas em resposta à sua cuidadosa atuação em relação a Ló, mas à luz do fato de que finalmente Abrão havia cumprido a obrigação de deixar todos os seus parentes (12:1). A sua separação para o serviço de Deus agora estava completa. A promessa agora con­ tinha outras ênfases novas: (1) Pela pri­ meira vez Abrão era informado de que 217


aquela terra lhe seria dada. Em 12:7, ela devia ser dada aos seus descendentes. (2) Portanto, foi-lhe dito que percorresse a terra, não mais como peregrino, mas como seu novo proprietário. A posse propriamente dita precisava esperar séculos, mas a escritura já estava em suas mãos! (3) Os seus descendentes não se­ riam apenas numerosos (12:2), mas inu­ meráveis como o pó da terra sobre que os pés de Abrão estavam firmados (13:16). (4) Foi-lhe dito que olhasse na mesma direção que Ló olhara (cf. v. 10 com v. 14), bem como em todas as outras di­ reções. O que Ló escolhera, mais tarde pertenceria a Abrão e a seus descen­ dentes. O homem de fé tinha feito a decisão correta. Arriscando tudo, ele receberia ainda mais. Embora tivesse sido dito a Abrão para andar por toda a largura e comprimento da terra, reivindicando-a toda, ele se satisfez em mudar-se para Hebrom, como sua localização preferida. Mesmo um homem de fé fica cansado de conti­ nuar avançando para a cidade invisível. Descansar em Hebrom era suficiente­ mente tranqüilizador. Não obstante, Deus tinha outros planos. É desconhecido o lugar verdadeiro do altar de Abrão em Hebrom. Na anti­ guidade, grandes árvores caracterizavam esse lugar. Sozomen, historiador da Igre­ ja (quinto século d.C.), relata que o local de terebintos que lá havia era lugar de uma famosa feira, freqüentada por gran­ de número de judeus, cristãos e árabes. Escavações mais recentes indicaram que esse lugar foi ocupado desde a Era do Bronze até o período moderno, e parti­ cipara das civilizações cananéia, isra­ elita, romana, bizantina e árabe. Essa região ainda é sagrada, tanto para árabes quanto para judeus. 5. Abrão, o Cidadão do Mundo (14:1-24) Speiser expressa a opinião dos intér­ pretes do Velho Testamento em geral, quando observa que “Gênesis 14 se so­ 218

bressai como ímpar entre todos os relatos do Pentateuco, se não de toda a Bíblia. O palco é internacional, a abordagem é impessoal, e a narrativa, notável, por seu estilo e vocabulário inusitados” (p. 105). Este capítulo não tem nenhuma das características das outras fontes, e não pode ser classificado como material das fontes Judia, Israelita do Norte ou Sa­ cerdotal. De fato, ele apresenta evidências de ter-se derivado de uma fonte autentica­ mente não judia (cf. Speiser): (1) A guer­ ra é datada segundo o reinado de reis estrangeiros (os invasores), quando o costume era datar um evento segundo o reinado dos reis locais. (2) A fórmula com que este capítulo tem início (“Nos dias de”) não é tipicamente hebraica, porém mais provavelmente adaptação da palavra babilónica enuma (enquanto). (3) Os nomes dos invasores não são fictícios, e, sim, têm um toque de auten­ ticidade. (4) Os nomes dos defensores também não são imaginários, pois, do contrário, o escritor não teria hesitado em criar um nome para o rei de Belá (v. 2)! (5) Abrão é mencionado como “o hebreu” (v. 13), termo jamais aplicado no Velho Testamento a um judeu, exceto por alguém que não fosse judeu ou por um judeu identificando-se para um nãojudeu (cf. 39:14; 40:15; 43:32; Jon. 1:9). (6) O título do Deus de Melquisedeque, bem como a existência desse ofício de Sacerdote em Jerusalém, são atestados pelos materiais recentemente descobertos no Oriente Próximo. Por que os editores finais de Gênesis, de todos os materiais que lhes estavam disponíveis, estranhos às fontes Judia, Israelita do Norte e Sacerdotal, escolhe­ ram esta narrativa em particular, para incluí-la no livro? Parece haverem duas razões básicas: (1) Era o único material existente, em fontes estranhas a Israel, que atestava da existência histórica do homem Abrão. “Na falta de um texto não-israelita, mencionando um Abrão,


filho de Tera, ou um Isaque filho de Abrão, este é o mais próximo, a que podemos chegar, de um testemunho epigráfico direto do patriarca” (Speiser). (2) Esta narrativa reforça as reivindi­ cações da linhagem real de Davi sobre a lealdade israelita (cf. Sal. 110). Se Abrão reconheceu o sacerdócio real desse antigo rei de Jerusalém, Melquisedeque, os seus descendentes não deveriam fazer menos que isso. Abrão se curva apenas diante de Melquisedeque, dentre os imponen­ tes reis da narrativa. A referência implí­ cita ao governo davídico é, provavelmen­ te, a indicação mais convincente de uma data para a redação final do material constante do capítulo 14: a última parte do reinado de Davi. Isto não significa que o material histórico foi criado com objetivos de propaganda, mas, pelo con­ trário, já estava disponível em sua forma antiga, para utilização legítima naquela época. 1) Ló e os Reis Tiranos (14:1-12) 1 A conteceu nos d ia s d e A n ra fe l, re i de S in a r, A rioque, re i de E la s a r , Q uedorlaom e r, r e i de E lã o , e T id al, r e i d e G oiim , 2 que e ste s fiz e ra m g u e r r a a B e ra , r e i d e Sodom a, a B irs a , r e i d e G o m o rra , a S in ab e, re i de A d m á, a S e m e b e r, r e i de Z eboim , e a o r e i de B elá (e s ta é Z o a r). 3 T odos e s te s se a ju n t a ­ r a m no v a le d e S idim (q u e é o M a r S a lg a d o ). 4 D oze a n o s h a v ia m se rv id o a Q uedorlaom e r , m a s a o d é c im o te r c e ir o an o r e b e la ­ ra m -s e . 5 P o r isso, a o d é cim o q u a rto an o veio Q u e d o rla o m e r, e os re is q u e e s ta v a m co m e le, e f e r ir a m a o s re f a in s e m A stero teC a rn a im , a o s zuzins e m H ão, a o s e m in s e m S a v é -Q u iria ta im , 6 e a o s h o re u s n o se u m o n ­ te S eir, a té E l- P a r ã , q u e e s tá ju n to a o d e ­ se rto . 7 D epois v o lta ra m e v ie ra m a E nM isp ate (q u e é C a d e s), e fe r ir a m to d a a t e r r a dos a m a le q u ita s , e ta m b é m a o s a m o rre u s , q ue h a b ita v a m e m H a z a z o m -T a m a r. 8 E n tã o s a ír a m os re is d e S odom a, d e Go­ m o r ra , de A d m á, de Z eb o im e d e B e lá (e s ta é Z o a r), e o rd e n a r a m b a ta lh a c o n tra e le s no v ale d e Sidim , 9 c o n tra Q u e d o rla o m e r, re i de E lã o , T id al, r e i de G oiim , A n ra fe l, re i de S in a r, e A rioque, r e i d e E la s a r ; q u a tro re is c o n tra cinco. 10 O ra , o v a le d e S idim e s ta v a cheio de poços d e b e tu m e ; e fu g ira m os re is d e S odom a e d e G o m o rra , e c a ír a m a li; e os r e s ta n te s fu g ira m p a r a o m o n te . 11 T o m a ­

r a m , e n tã o , to d o s os b e n s d e S o d o m a e de G o m o rra com o to d o o se u m a n tim e n to , e se fo ra m . 12 T o m a ra m ta m b é m a L ó, filho do ir m ã o d e A b rão , q u e h a b ita v a e m Sodom a, e o s b e n s d e le , e p a r tir a m .

Não mais se sugere seriamente que Anrafel deva ser identificado com Hamurabi, pois as diferenças lingüísticas são insuperáveis, e o líder teria sido ele, Anrafel, e não Quedorlaomer. Contudo, estè nome é amorreu ou acádio; e Sinar é babilónico. Anrafel era, provavelmente, um príncipe de menor importância na Mesopotâmia Inferior (Speiser). O objetivo da invasão parece ter sido não apenas punir os reis insurgentes, mas também assegurar a importante rota comercial para o Mar Vermelho e as ricas minas na região do Golfo de Acaba. Isto explica a rota um tanto circular que eles seguiram, através do deserto, em direção a Cades, antes de enfrentarem, em batalha, a coalisão cananéia. É inte­ ressante notar que a conexão da batalha com Abrão não é mencionada antes do último versículo desta perícope (v. 12), o que dá provas da independência desta narrativa em relação à tradição bíblica costumeira. 2) Abrão e Melquisedeque (14:13-24) 13 E n tã o v eio u m q u e e s c a p a r a , e o contou a A b rã o o h e b re u . O ra , e s te h a b ita v a ju n to dos c a rv a lh o s d e M a n re , o a m o r re u , irm ã o d e E sc o l e d e A n e r; e s te s e r a m a lia d o s de A b rão . 14 O uvindo, p o is, A b rã o , que seu irm ã o e s ta v a p re so , lev o u os se u s h o m e n s tre in a d o s, n a sc id o s e m s u a c a s a , e m n ú m e ­ ro d e tre z e n to s e d ezo ito , e p e rs e g u iu os re is a té D ã. 15 D iv id iu -se c o n tra e le s d e n o ite , e le e os se u s se rv o s e os fe riu , p erseg u in d o -o s a té H obá, q u e fic a à e s q u e r d a d e D a m a sc o . 16 A ssim to rn o u a tr a z e r to d o s os b e n s, e to rn o u a tr a z e r ta m b é m a L ó, se u irm ã o , e os b e n s d e le , e ta m b é m a s m u lh e re s e o povo. 17 D epois q u e A b rã o v o lto u d e f e r ir a Q u e d o rla o m e r e a o s re is q u e e s ta v a m co m e le, sa iu -lh e a o e n c o n tro o r e i d e S o d o m a, no v ale d e S av é (q u e é o v a le do r e i) . 18 O ra , M elq u ised eq u e , r e i d e S alé m , tro u x e p ã o e v in h o ; p ois e r a s a c e rd o te do D eu s A ltís­ sim o ; 19 e ab en ç o o u a A b rão , d iz e n d o : B en d ito s e ja A b rã o pelo D eu s A ltíssim o , o C ria d o r dos c é u s e d a t e r r a !

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20 E b en d ito s e ja o D eu s A ltíssim o , que e n tre g o u os te u s in im ig o s n a s tu a s m ã o s! E A b rão deu-lhe o d ízim o d e tu d o . 21 E n tã o o re i d e S o do m a d isse a A b rã o : D á -m e a m im a s p e s s o a s ; e os b e n s to m a -o s p a r a ti. 22 A brão, p o ré m , re s p o n d e u a o r e i d e S o d o m a: L e v a n to m in h a m ã o a o S en h o r, o D eu s A ltís­ sim o, o C ria d o r d o s cé u s e d a te r r a , 23 j u ­ ra n d o q u e n ã o to m a re i c o isa a lg u m a d e tu d o o q u e é te u , n e m u m fio, n e m u m a c o rr e ia de sa p a to , p a r a q u e n ã o d ig a s : E u e n riq u e c i a A b rã o ; 24 sa lv o tão -so m e n te o q u e os m a n c e b o s c o m e ra m , e a p a r te q u e to c a a o s h o m e n s A n er, E sc o l e M a n re , q u e fo ra m c o m ig o ; q u e e s te s to m e m a s u a p a r te .

Nesta perícope, Abrão aparece da maneira como deve ter parecido aos seus contemporâneos: um xeque poderoso — e não da maneira como era lembrado entre os hebreus: o fundador de sua religião. No entanto, ambos os aspectos de seu caráter são genuínos. Evidências contemporâneas revelam que esses potentados nômades usavam jumentos e asnos, para carregarem as suas merca­ dorias, e se equipavam com bandos armados, para a sua proteção pessoal. Quando a comunhão de Abrão com o seu sobrinho Ló foi ameaçada por dissensões internas, a respeito de direitos, ele preferiu renunciar a eles, por amor dos laços de família. Contudo, quando Ló foi capturado por um inimigo, Abrão estava pronto a lutar por ele. Uma coisa é insistir nos direitos pessoais, e outra é defender os direitos dos outros. O comportamento de Abrão, quando ouviu falar da captura de Ló, é um exemplo vivo da atitude certa a ser to­ mada quando um irmão está em dificul­ dades. (1) Ele agiu prontamente. A expressão hebraica traduzida como levou significa esvaziar, como quando se tira a espada da bainha (cf. Êx. 15:9). Não havia tempo a perder. Qualquer demora teria significado a perda de toda a oportunidade de ajudar. (2) Ele agiu decisivamente. Tomando os seus homens mais leais e bem treinados, ele os dividiu, de forma a tirar o máximo proveito de suas forças limitadas, e caiu sobre o inimigo de noite, provavelmente depois 220

que ele estava celebrando a sua vitória. O fato de ter agido rapidamente teria sido de pequeno valor, se ele não soubes­ se o que fazer. (3) Ele prosseguiu até ter certeza de que a vitória seria perma­ nente. Se ele não os tivesse perseguido até o norte de Damasco, eles se teriam reagrupado e voltado. O histórico encontro de Abrão com Melquisedeque é cheio de mistério e desafio. Esse nome significa “o rei é justo” (zedek, palavra certamente em voga na antiga Canaã; cf. Adoni-zedeque, Jos. 10:1). Possuímos, agora, por­ ções de correspondência entre Faraó e reis das cidades da Palestina, e uma carta é de um príncipe de Jerusalém. Salem deve, certamente, ser identificada como Jerusalém. De fato, não era incomum, na antiga Canaã, que um rei ser­ visse também de sacerdote. O título Deus Altíssimo (’El Elyon) tem sido en­ contrado em materiais ugaríticos. Desta forma, neste capítulo, Melqui­ sedeque é retratado como um verdadeiro sacerdote-rei, funcionando em Jerusa­ lém, ministrando tanto a gentios quanto a Abrão, o hebreu. Assim, a “ sua ordem” (Sal. 110) era servir como sacer­ dote universal, tanto a judeus quanto a gentios. O escritor do livro aos Hebreus injeta neste quadro outro aspecto, quan­ do acrescenta: “ Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre” (7:3). Com isto, ele não quer dizer que Melquisedeque, na ver­ dade, não tinha pai nem mãe nem fim de governo, referindo-se, desta forma, a Jesus Cristo pré-encarnado, mas está fazendo uma comparação literária. Da mesma forma como Melquisedeque aparece subitamente em Gênesis 14, sem genealc^ia e sem menção de sua morte, assim também Cristo, na verdade, não teve princípio e não terá fim. O autor do livro de Hebreus também ficara impres­ sionado com a independência desta nar­


rativa, em relação ao restante de Gênesis! Qual era a natureza do Deus de Melquisedeque, chamado de Deus Altíssimo (’El Elyon)? Ele era semelhante, quanto à natureza, ao Deus de Abrão, pois ambos os homens haviam procedido de antecedentes amorreus. De fato, no texto hebraico, Abrão identifica ’El Elyon como Yahweh (o Senhor), seu Deus, no v. 22. A LXX não apresenta esta identificação, provavelmente porque os tradutores acharam este conceito difícil demais, e o diluíram. Ele está dizendo principalmente ao rei de Sodoma: “Melquisedeque chama o Deus dele de ’El Elyon, eu chamo o meu de Yahweh, mas adoramos o mesmo Deus.” Esta declaração a respeito de um Deus cananeu não tem paralelo no Velho Testa­ mento e dá testemunho do tipo peculiar de fé que Abrão reconheceu em Melqui­ sedeque, que certamente devia com­ partilhar da tradição dos ancestrais de Abrão, como o faziam Labão e sua famí­ lia (cf. 31:53). O encontro pacífico entre Abrão e o rei-sacerdote coloca-se em agudo con­ traste com o havido entre ele e o rei de Sodoma. Para um, ele respeitosamente deu o seu dízimo; do outro, ele não quis pegar nem um cordão. O homem de fé recusou-se a transigir diante dos presen­ tes de um rei tão ímpio. Mesmo antes que a oferta fosse feita a ele, a sua decisão já havia sido tomada (v. 22). Escolhas assim difíceis são mais bem feitas quando elas mereceram antecipa­ damente a devida consideração. O que parecia uma oferta generosa era, na verdade, um estratagema desesperado. O fato de que Abrão dera o dízimo dos despojos levara o rei de Sodoma a pensar que ele estava reivindicando tudo o que havia capturado. A sua sugestão era uma tentativa para obter algo para si. A recusa de Abrão, de reter qualquer propriedade do rei de Sodoma, coloca-se também em agudo contraste em relação à sua aceitação irrestrita dos presentes

anteriormente feitos por Faraó. Esta mudança de atitude devia-se, certa­ mente, a vários fatores: (1) a má repu­ tação do rei de Sodoma; (2) o fato de que Abrão já estava rico; (3) o fato de que ele aprendera, com a experiência no Egito, a confiar mais em Deus, com respeito ao seu futuro. A sua sugestão, quanto aos quinhões de seus confedera­ dos, revela como ele compreendia a diferença entre eles e ele próprio. Eles precisavam de seu quinhão, e o haviam ganho em uma causa que não era deles. 6. O Pacto com Abrão (15:1-21) Muitos eruditos descobrem, neste capítulo, a primeira evidência da pre­ sença de uma fonte do Pentateuco até então não aparente em Gênesis: O estra­ to Israelita do Norte. Há evidências claras de que estão presentes, aqui, duas fontes diferentes. Nos versículos 1 a 6, a ação se desenvolve à noite (Abrão pode ver as estrelas), enquanto nos versículos 7 e ss. é durante o dia. Os versículos 2 e 3 contêm duas formas diferentes da mesma declaração, talvez indicando edições diferentes das tradições antigas. Nenhum desses grupos de materiais pode ser atribuído à fonte Sacerdotal, e os versículos 7 e ss. são claramente da fonte Judia. O segundo tipo de tradição tem as características da fonte Nortista. Em­ bora não esteja presente ’Elohim, o nome divino que caracteriza esse estrato, outras marcas distintivas aparecem. Os habitantes da Palestina são chamados de “amorreus” (v. 16), termo preferido no Norte. A forma profética do material, nos versículos 1 a 6, é incomum no Hexateuco. A expressão “veio a palavra do Senhor” (v. 1 e 4) não ocorre em outros textos dos primeiros sete livros do Velho Testamento, mas é comum nos profetas. A fonte Israelita do Norte não foi completada, provavelmente, antes do oitavo século a.C., quando deve ter-se tornado comum a terminologia profética. Exceto nas narrativas acerca de Balaão, 221


de material um tanto independente (Núm. 24:4,6), não há outra referência a uma visão profética no Hexateuco. Embora haja alguma evidência da presença de pelo menos duas fontes no capítulo 15, elas foram interligadas tão bem, que não é possível desemaranhálas agora, de forma a diferenciar uma da outra. 1) A Fé de Abrão (15:1-6) 1 D epois d e s ta s c o is a s v eio a p a la v r a do S en h o r a A b rão n u m a v isã o , d izen d o : N ão te m a s , A b rã o ; e u so u o te u escu d o , o te u g a la rd ã o s e r á g ra n d íssim o . 2 E n tã o d isse A b rão : Ó S e n h o r D eu s, q u e m e d a r á s , v isto q u e m o rro se m filhos, e o h e rd e iro d e m in h a c a s a é o d a m a s c e n o E lié z e r? 3 D isse m a is A b rão : A m im n ã o m e te n s d a d o filh o s; eis q u e u m n a sc id o n a m in h a c a s a s e r á o m e u h e rd e iro . 4 Ao q ue lh e v eio a p a la v r a do S en h o r, d izen d o : E s te n ã o s e r á o te u h e r ­ d e iro ; m a s a q u e le q u e s a i r d a s tu a s e n tr a ­ n h a s, e ss e s e r á o te u h e rd e iro . 5 e n tã o o levou p a r a fo r a , e d is s e : O lh a a g o r a p a r a o céu , e c o n ta a s e s tre la s , se a s p o d e s c o n ta r; e a c re s c e n to u -lh e : A ssim s e r á a tu a d e s ­ c e n d ê n c ia . 6 E c re u A b rão n o S en h o r, e o S en h o r im p u to u -lh e is to com o ju s tiç a .

Não temas, Abrão. Aparentemente, o patriarca estava ficando um tanto ansioso a respeito do cumprimento das promessas divinas. Porque este versícu­ lo, segundo se pensa, dá início à fonte Israelita do Norte, alguns eruditos insis­ tem que ele forma um paralelo com o material da fonte Judia de 12:1, que é o relato Nortista da chamada de Abrão. Contudo, esta crise de fé aconteceu bem mais tarde, na carreira de Abrão, pois ele tivera tempo de se preocupar a respeito do cumprimento da promessa (morro sem filhos). A referência a Deus como escudo é um termo litúrgico encontrado nos Salmos (3:3; 28:7; 33:20). Esta palavra ocorre em Gênesis apenas nesta passagem. Deus podia estar dizendo: “Eu sou teu escudo tanto quanto galardão” , como Lutero o traduziu, mas o infinitivo absoluto usado aqui (traduzido como “galardão”) é mais naturalmente um predicado, como na versão da IBB e 222

RSV. Galardão, na literatura posterior, significa o dom gratuito de Deus (Is. 40:10; 62:11; Jer. 31:16). O herdeiro de minha casa. O hebraico, aqui, é estranho, dizendo literalmente: “ ... o filho da propriedade de minha casa é Damasco Eliézer.” A palavra tradu­ zida como propriedade (meshek) é, apa­ rentemente, usada, por amor da rima, com Dammesek (Damasco). Contudo, não há conexão sintática entre Damme­ sek e Eliézer; ambos são substantivos independentes. É possível que haja, aqui, alguma corrupção textual, mas o sentido é esclarecido pelo versículo 3. Um nascido na minha casa. Sabemos que tais artifícios eram comuns no Ori­ ente Próximo antigo, embota o Velho Testamento não o menciofte em ne­ nhuma outra parte (Speiser). Conta as estrelas. Este é um interes­ sante contraste com a referência encon­ trada na fonte Judia, para contar o pó, em Gênesis 13:16. Ali, a atenção foi chamada para a promessa da terra; aqui, para as ilimitadas perspectivas do futuro. E creu Abrão no Senhor. O verbo traduzido como “creu” é aman, do qual deriva a nossa palavra “amém” . A raiz simples significa “ ser forte” , a causativa “apoiar-se em” , “confiar na força de” . Uma tradução mais exata seria: “E ele se apoiou (confiou) no Senhor” , ou uma verdadeira paráfrase: “E ele levou o Senhor ao pé da letra.” Também deve ser notado que o verbo é um passado per­ feito, com uma conjunção simples. O sentido é: “E ele estava se apoiando no Senhor.” Abrão estivera todo o tempo confiando em Deus. Agora ele precisava de uma palavra de reafirmação. E o Senhor imputou-lhe isto como justiça. Literalmente: “Ele considerou isto como justiça para ele.” Justiça, no Velho Testamento, não é uma norma absoluta, mas uma relação dinâmica entre o homem e Deus, que torna o ho­ mem aceitável a Deus. Imputação era uma função dos sacerdotes (Lev. 7:18;


17:4; Núm. 18:27). Aqui, o procedi­ mento não era dirigido por um oficial eclesiástico, mas pelo próprio Deus. A base para a declaração de justiça não era nada que Abrão tivesse produzido ou feito, tal como um sacerdote teria exi­ gido. A sua firme aceitação da palavra de Deus era a única base de sua justificação. Todavia, como 12:1 ensina, a sua acei­ tação incluía um estilo de vida coerente com as suas convicções. Esta declaração da justiça de Abrão (a satisfação dos requisitos de Deus para se ter comunhão com ele) esclarece para sempre o.papel da fé e das obras. O que Deus deseja, antes de tudo, é confiança nele. Se um homem é aberto e responsivo para com o Criador, Deus pode fazer o resto, ao trabalhar com ele em um relacionamento de amor e confiança. 2) Prevendo o Pacto (15:7-11) 7 D isse-lhe m a i s : E u so u o S en h o r, q u e te tire i de U r d o s C ald eu s, p a r a te d a r e s ta t e r r a e m h e ra n ç a . 8 Ao q u e lh e p e rg u n to u A b rã o : Ó S e n h o r D eu s, c o m o s a b e r e i q u e h ei d e h e rd á -la ? 9 R esp o n d e u -lh e: T o m a -m e u m a n o v ilh a de tr ê s a n o s, u m a c a b r a d e tr ê s an o s, u m c a rn e iro de tr ê s a n o s , u m a ro la e u m p o m binho. 10 E le , pois, lh e tro u x e to d o s e s te s a n im a is , p a rtiu -o s p elo m elo , e pôs c a d a p a r te d e le s e m f r e n te d a o u tr a ; m a s a s a v e s n ão p a rtiu . 11 E a s a v e s d e ra p in a d e sc ia m so b re os c a d á v e re s ; A b rã o , p o ré m , a s e n x o ta v a .

Eu sou o Senhor. Isto é freqüentemen­ te chamado de “auto-kérigma” , a autoproclamação de Deus, pois é a declara­ ção feita por Deus acerca de sua natu­ reza. Esta frase é absoluta. Deus é o que ele é, conhecido do homem apenas das maneiras pelas quais ele escolhe revelarse. As qualidades específicas de Deus, dentro dessas fórmulas auto-revelatórias, são costumeiramente declaradas por uma cláusula relativa, que começa com “quem” , como aqui. Essas cláusulas descritivas são parciais, pois excluem todas as outras. A forma mais plena de se descrever Deus, portanto, é a simples: “Eu sou o Senhor.”

Ê significativo que, depois que a con­ fiança de Abrão nas promessas de Deus foi declarada de forma tal que ele se tomou aceitável para com Deus, ele ainda precisava de uma ulterior reafir­ mação da fidelidade de Deus. É ainda mais surpreendente que Deus fosse tão paciente com ele. Isto ilustra o fato de que Deus é amigo de uma pessoa que duvida honestamente, alguém que o ama e confia nele, mas ainda tem a tendência de falsear o pé. Desta vez, Deus não lhe daria apenas uma promes­ sa, a sua palavra, mas faria um contrato formal com ele. Abrão recebeu ordens para preparar animais sacrificiais, como prelúdio de uma cerimônia em que se faria o pacto. Esse ritual era conhecido na época de Abrão. Ele é descrito em Jeremias 34: 17-19. Parece que o significado era que quando as pessoas que celebravam o pacto caminhavam entre as carcaças dissecadas, estavam declarando sole­ nemente um destino semelhante para si próprios, se quebrassem o acordo. Mas as aves não partiu, provavelmen­ te, à luz de Levítico 1:17. Devido ao seu pequeno tamanho, os dois pássaros foram considerados como uma unidade e separados pelo espaço, e não pela faca, ao serem colocados opostos um ao outro. Abrão, porém, as enxotava. Isto simbo­ liza as dúvidas de Abrão e, mais tarde, de Israel, durante a opressão egípcia. 3) As Promessas do Pacto(15:12-16) 12 O ra , a o pôr-do-sol, c a iu u m p ro fu n d o sono so b re A b rã o ; e e is q u e lh e so b re v ie ra m g ra n d e p a v o r e d e n s a s tr e v a s . 13 E n tã o d isse o S en h o r a A b rã o : S a b e c o m c e rte z a q u e a tu a d e sc e n d ê n c ia s e r á p e re g r in a e m t e r r a a lh e ia , e s e r á re d u z id a a e s c ra v id ã o , e s e r á a flig id a p o r q u a tro c e n to s a n o s ; 14 sa b e ta m b é m q u e e u ju lg a r e i a n a ç ã o à q u a l e la te m d e s e r v ir ; e d ep o is s a i r á c o m m u ito s b e n s. 15 T u, p o ré m , ir á s e m p a z p a r a te u s p a is ; e m b o a v elh ic e s e r á s se p u lta d o . 16 N a q u a r ta g e ra ç ã o , p o ré m , v o lta rã o p a r a c á ; p o rq u e a m e d id a d a in iq ü id a d e d o s a m o rre u s n ã o e s tá a in d a c h e ia .

223


Caiu um profundo sono (cf. 2:21). Este fenômeno marcou outra ocasião momen­ tosa. Desta vez, porém, havia os terríveis presságios, antevendo os anos negros da opressão egípcia. Os versículos 13 a 16 são geralmente considerados como uma interpretação posterior do acontecimento, embora eles pudessem bem ser da fonte Israelita do Norte. Será que esta passagem represen­ ta uma declaração, na verdade, feita a Abrão antes da peregrinação no Egito, ou é comentário feito segundo a perspec­ tiva de uma época posterior? Poderia ser ambas as coisas. Abrão, certamente, foi informado que a promessa teria o seu cumprimento grandemente retardado. Gerações posteriores aprenderam os de­ talhes, e devem ter preenchido a seqüên­ cia cronológica incipiente na palavra ori­ ginal. E será afligida por quatrocentos anos. Aqui está um número redondo. Em Êxo­ do 12:40, consta 430 anos/*) Irás em paz para teus pais. Esta frase é usada mais freqüentemente a respeito do sepultamento no cemitério familiar, mas pode referir-se à unidade familiar no próprio Seol (cf. Deut. 32:50). Aqui, obviamen­ te, ela tem este significado, pois Abraão foi sepultado em Hebrom, e não na Babi­ lônia. O fato de que as famílias eram reunidas no Seol propiciava pouco con­ solo para os hebreus, pois se pensava que a existência naquele lugar era umbrosa, carecendo de consciência significativa (cf. Jó 10:21,22;3:13). Na quarta geração. Alguns expositores relacionam esta frase com Êxodo 6:1620, onde há quatro gerações, de Jacó a Moisés, e enfatizam a aparente contradi­ ção entre estas narrativas, dizendo que uma geração não pode ser de cem anos, e (») TíOTA DO EDITOR: Não há contradição entre estas duas passagens, pois o texto em pauta fala de 400 anos em que a descendência de Abrão será “ afligida” , enquanto Êxodo 12:40 afirma que os filhos de Israel “moraram” no Egito 430 anos. Obviamente durante 30 anos não foram afligidos.

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que a genealogia de Exodo 6 é completa. Todavia, a palavra traduzida como “ge­ ração” (dor) é um termo que geralmente significa duração de tempo indefinido. A narrativa de Êxocte pode ser uma abre­ viatura, mencionando apenas os nomes mais importantes. Speiser (p. 118) está correto, quando diz: “Portanto, não se podem tirar quaisquer conclusões desta passagem em relação à data do Êxodo.” Porque a medida da iniqüidade dos amorreus não está ainda cheia. Deus é justo em todos os seus caminhos. Ele não permitirá que os hebreus desapossem os cananeus enquanto estes não se tiverem desqualificado completamente como pos­ suidores de sua terra. A iniqüidade men­ cionada é a corrupção sexual dos habi­ tantes da Palestina (cf. Lev. 18:19-28). 4) Confirmando o Pacto (15:17-21) 17 Q uando o sol j á e s ta v a p o sto , e e r a e sc u ro , e is u m fogo fu m e g a n te e u m a to c h a de fogo, q u e p a s s a r a m p o r e n tr e a q u e la s m e ta d e s . 18 N a q u e le m e s m o d ia fez o S e ­ n h o r u m p a c to co m A b rão , d iz e n d o : À tu a d e sc e n d ê n c ia te n h o d ad o e s ta te r r a , d e sd e o rio do E g ito a té o g ra n d e rio E u f r a t e s ; 19 e o q u e n e u , o q u en ize u , o ca d m o n e u , 20 o h e te u , o p e riz e u , os re fa in s , 21 o a m o rre u , o c a n a n e u , o g irg a se u e o je b u se u .

Um fogo fumegante. Este era, prova­ velmente, um vaso de barro portátil, como os que ainda são usados no Orien­ te. Tinham cerca de um metro de altura, e a forma de um cone truncado. Podia ser também um incensário, como os que eram usados na adoração naquela época. A tocha de fogo era o fogo que saía da boca do vaso ou a tocha usada com os incensários antigos. Esta é uma cena inesquecível, diferente de qualquer outra mencionada no Velho Testamento. Spei­ ser (p. 113) nota que descrições seme­ lhantes foram feitas a respéito de encan­ tamentos mágicos na Acádia: “ Enviei repetidamente contra você um forno ‘pre­ parado’ (isto é, aceso), um fogo que pegou.” Pode ser que este processo fosse usado pelos que praticavam mágica na


Palestina. Assim, Deus estava enviando a sua palavra em uma forma especialmen­ te significativa para a geração de Abrão. Contudo, na referência de Speiser, a linguagem é figurada. Aqui, o vaso ou incensário é que passa por entre as par­ tes. Por que deveria ser usado um forno (ou vaso)? Era semelhante ao que Sara usava todos os dias para fazer os seus assados. Que símbolo melhor podia o Senhor usar para retratar a sua fideli­ dade às gerações futuras do que o objeto mais familiar de todas as casas? O in­ censário enfatizaria a solenidade da oca­ sião. O aspecto característico de todo o epi­ sódio é que só o Senhor garante o pacto. Geralmente, as duas partes de um pacto andavam entre os pedaços. Aqui, não foi nenhuma das duas partes: só o símbolo escolhido da presença de Yahweh. A responsabilidade de Abrão, quanto ao sucesso futuro do pacto, era aceitá-lo. Ele estava garantido para sempre somen­ te por Deus. É este tipo de pacto que Je­ remias prevê que um dia seria celebrado com todo o Israel (Jer. 31:31 e ss.) e que o Novo Testamento afirma que foi feito em Cristo (cf. Heb. 8:6 e ss.) Desde o rio do Egito. Esta expressão só pode dar a entender o Nilo. Geralmente, o limite meridional da Terra Prometida se localizava no wadi ou regato, agora chamado de Wadi el-Arish (I Reis 8:65). A palavra hebraica traduzida como rio tem as consoantes nhr. As consoantes da palavra hebraica que significa regato são nhl. Pode ser que haja alguma confusão textual aqui. A extensão da terra mencionada aqui é a que chegou a ser completamente con­ quistada durante o reinado de Salomão (I Reis 4:21). A maior parte dos povos relacionados aqui é encontrada nas listas do capítulo 10, mas deve notar-se que os queneus e quenizeus foram absorvidos pela tribo de Judá. Cadmoneu significa oriental.

7. Abrão eA gar (16:1-16) Esta narrativa tem notáveis paralelos em Gênesis 21:8-21, pois ambas as histó­ rias descrevem Agar em conflito com Sarai. Em cada narrativa Agar vai para o deserto, e um anjo a conforta, ao encon­ trá-la perto de um poço, e promete a bênção de Deus sobre Ismael. Há tam ­ bém diferenças impressionantes. No capítulo 16, Agar está grávida; no capítulo 21, Ismael é um rapaz feito. De acordo com 16:16, Ismael nasceu quando Abrão tinha 86 anos de idade. Quando Isaque nasceu, Abrão tinha cem anos de idade. Ao tempo do conflito registrado no capítulo 21, Isaque havia sido desmamado. Este fato normalmente ocorria aos três anos de idade, mais ou menos. Por esta cronologia, Ismael devia ter seus 17 anos de idade. No capítulo 16, Abrão entrega Agar à ira de Sarai, enquanto, no capítulo 21, ele a deixa ir-se só depois de ser instruído por Deus a fazê-lo e depois de ter dado a ela as provisões necessárias. Neste capí­ tulo, Agar foge de Abrão e Sarai; no outro, ela é enviada para o exílio. O nome de Deus, no capítulo 16, é Yahweh (Senhor), porém é Elohim (Deus) no ca­ pítulo 21. No capítulo 16, o mensageiro divino é chamado de anjo do Senhor; no outro, anjo de Deus. O anjo do Senhor se encontra com Agar perto de um poço, enquanto o anjo de Deus fala a ela dos céus. Aparentemente, temos um exemplo de relato da fonte Judia, no capítulo 16, e de relato da fonte Israelita do Norte, no capítulo 21. Esta narrativa tem a tendên­ cia de retratar Deus como mais transcen­ dente (o anjo fala dos céus) e tem muito maior consciência dos problemas éticos das narrativas. Uma identificação das duas narrativas não leva, necessariamente, à conclusão de que elas são meramente edições dife­ rentes da mesma história. O capítulo 21 se interessa claramente por um aconteci­ mento posterior na vida de Agar. A se225


melhança de forma da narrativa não deve obscurecer o testemunho bíblico de uma distinção entre os dois acontecimentos. 1) Sarai e Agar (16:1-6) 1 O ra , S a ra i, m u lh e r d e A b rão , n ã o lh e d a v a filh o s. T in h a e le u m a s e r v a e g íp c ia , q ue se c h a m a v a A g a r. 2 D isse S a ra i a A b rão : E is q u e o S en h o r m e te m im p ed id o d e t e r filh o s; to m a , p o is, a m in h a s e r v a ; p o rv e n tu ra te r e i filhos p o r m e io d e la . E o u ­ v iu A b rão a voz d e S a ra i. 3 A ssim S a ra i, m u lh e r d e A b rão , to m o u a A g a r a eg íp c ia , s u a s e r v a , e a d e u p o r m u lh e r a A b rã o se u m a rid o , d ep o is d e A b rã o t e r h a b ita d o d ez an o s n a t e r r a d e C a n a ã . 4 E e le c o n h eceu a A g a r, e e la co n c e b e u ; e v en d o e la q u e c o n ­ c e b e ra , foi s u a s e n h o ra d e s p re z a d a a o s se u s olhos. 5 E n tã o d is se S a ra i a A b rã o : Sobre ti s e ja a a f r o n ta q u e m e é d irig id a a m i m ; p u s a m in h a s e r v a e m te u re g a ç o ; v en d o e la a g o ra q u e co n ceb eu , so u d e s p re z a d a a o s se u s o lh o s; o S en h o r ju lg u e e n tr e m im e ti. 6 Ao q u e d isse A b rão a S a r a i : E is q u e tu a s e r v a e s tá n a s tu a s m ã o s ; faz e -lh e com o b e m te p a r e c e r . E S a ra i m a ltra to u -a , e e la fu g iu d e s u a fa c e .

Depois da imponente ratificação do pacto, feito no capítulo 15, a vida de Abrão continuou no mesmo jeito de an­ tes. Ainda não havia herdeiro para ele. Agora vemos que Sarai estava começan­ do a ficar ansiosa, e com boas razões. Deus ainda não dissera que o herdeiro seria, necessariamente, seu filho. Talvez Abrão tomasse outra esposa, que lhe desse um filho, e deixasse Sarai em des­ graça. Por isso, ela sugeriu o que agora sabemos que foi um arranjo perfeitamen­ te legal. A sua serva seria elevada à con­ dição de concubina, mas o filho que ela tivesse pertenceria a Sarai. Abrão obedientemente seguiu o conse­ lho de Sarai, pois esse era um costume social aceitável, e a coisa sensata a ser feita. Talvez Deus estivesse esperando que eles tomassem alguma iniciativa quanto a esse assunto. Esta foi, provavel­ mente, a maneira até então oculta de cumprir a promessa. Não há, aqui, ne­ nhuma indicação de qualquer interesse romântico em Agar, da parte de Abrão. Foi um casamento de conveniência. 226

O erro foi Abrão não ter procurado saber qual era a vontade de Deus, nesse assunto. De fato, pode ser que ele tives­ se receio de perguntar. É muito difícil que ele estivesse preparado para outra longa espera. Muitas vezes os atos que são legais e sensatos não são a vontade de Deus para a vida dos homens. A ação precipitada de Abrão foi executada mui­ to antes do tempo específico, determina­ do por Deus, para o nascimento de Isaque, através de Sarai (cap. 18). Os mais cuidadosos planos dos ho­ mens saem errados. Agar concebeu, mas, em vez de considerar Sarai como a mãe legítima, fê-la saber que agora se considerava como superior a Sarai. Esta, profundamente ferida, levou o assunto ao conhecimento de Abrão, que era o único que podia resolvê-lo. Ela não estava culpando o seu esposo por um casamento que ela mesma havia sugerido, mas chamou a sua atenção para a responsabilidade que tinha, de corrigir aquela situação inesperadamen­ te má. Ela chegou a apelar a Deus como testemunha de que Abrão precisava cum­ prir o seu dever de marido. A lei antiga declarava especificamente que, se uma escrava promovida a concubina ou espo­ sa não conseguisse manter-se na nova posição com o devido decoro, devia vol­ tar ao seu estado anterior. Ao entregar Agar a Sarai para o que ela desejasse lhe fazer, Abrão demons­ trou preocupação demasiadamente pe­ quena pela serva, mas a própria Agar é que era a culpada. Que homem tem a sabedoria necessária para colocar-se en­ tre duas mulheres ciumentas uma da ou­ tra? Pode-se dar a Abrão, aqui, o cré­ dito de ter tido sabedoria em uma situa­ ção difícil, mas também o débito de falta de interesse pela escrava. O tratamento severo que Sarai admi­ nistrou provavelmente foi castigo físico, mas consistiu de tarefas subalternas ex­ cessivamente numerosas e hostilização geral. Certamente, este episódio não


pode ser lançado ao crédito de Sarai, mas na época pareceu-lhe a coisa lógica a fazer. Aparentemente, funcionou em parte, pois, quando Agar voltou a Sarai, essa guerra aberta não recomeçou. Ela, evidentemente, foi substituída por uma guerra fria, como os acontecimentos pos­ teriores revelam. 2) Promessa Divina a Agar (16:7-16) 7 E n tã o o a n jo do S en h o r, a c h a n d o -a ju n to a u m a fo n te no d e se rto , a fo n te q u e e s tá no c a m in h o d e S u r, 8 p e rg u n to u -lh e : A g a r, s e r ­ v a d e S a ra i, d onde v ie s te , e p a r a onde v a is ? R e sp o n d e u e la : D a p re s e n ç a d e S a ra i, m i­ n h a se n h o ra , vou fu gindo . 9 D isse-lh e o a n jo do S en h o r: T o rn a -te p a r a tu a se n h o ra , e h u m ilh a -te d eb a ix o d a s s u a s m ã o s . 10 D isselh e m a is o a n jo do S e n h o r: M u ltip lic a re i s o b re m a n e ira a tu a d e sc e n d ê n c ia , d e m o d o que n ão s e r á c o n ta d a , p o r n u m e ro s a q u e s e r á . 11 D isse-lhe a in d a o a n jo d o S e n h o r: E is q ue c o n c e b e ste , e te r á s u m filho, a q u em c h a m a rá s Is m a e l; p o rq u a n to o S en h o r o u ­ viu a tu a a fliç ã o . 12 E le s e r á com o u m j u ­ m e n to s e lv a g e m e n tr e o s h o m e n s ; a s u a m ã o s e r á c o n tra to d o s, e a m ã o d e to d o s c o n tra e le ; e h a b ita r á d ia n te d a fa c e de todos o s se u s irm ã o s . 13 E e la c h a m o u o n o m e do S en h o r, q u e co m e la fa la v a , E lR ó i; p o is d is s e : N ão te n h o e u ta m b é m o lh a ­ do n e s te lu g a r p a r a a q u e le q u e m e v ê ? 14 P e lo q u e se c h a m o u a q u e le p oço B e e rL aai-R ó i; e le e s t á e n tr e C a d e s e B e re d e . 15 E A g a r d e u u m filho a A b rã o ; e A b rão pô s o n o m e de Is m a e l no se u filho q u e tiv e r a d e A g ar. 16 O ra , tin h a A b rão o ite n ta e se is an o s, q u an d o A g a r lh e d eu Is m a e l.

O aqjo do Senhor aparece aqui pela primeira vez no Velho Testamento. A pa­ lavra hebraica mal’ak significa mensa­ geiro de qualquer sorte, humano ou di­ vino. A grega angelos tem o mesmo significado. A latina angelus, na Vulgata, foi o primeiro termo fixo para se designar seres celestiais. Seres celestiais intermediários, que operam entre Deus e os homens, não eram comuns no concei­ to do Israel antigo a respeito de Deus, pois o próprio Senhor era ativo na his­ tória em todos os lugares. O aiyo do Senhor, todavia, é esse intermediário em algumas passagens do Velho Testamen­

to. Exceto para os inimigos de Deus, ele nunca é um ser temível, mas sempre beneficente. Ele é o instrumento dos atos graciosos de Deus em favor de Israel (cf. Êx. 14:19; 23:20; Núm. 22:22; I Reis 19:7; II Reis 19:35). Em Gênesis, toda­ via, o anjo do Senhor não é apenas o porta-voz de Deus, mas também não há nenhuma diferença entre ele e o próprio Senhor. Quando fala, ele é tanto um anjo quanto o Senhor (cf. 16:10,13; 21:17,19; 22:11). Ele é o próprio Deus aparecendo em forma humana, de maneira que os homens possam percebê-lo. Neste senti­ do, ele tem “conspícuas qualidades cristológicas... Ele é um tipo ou ‘sombra’ de Jesus Cristo” (von Rad, p. 189). Isto não significa que ele é Jesus Cristo pré-encarnado, mas que a manifestação temporá­ ria de Deus em forma humana, no Velho Testamento, aponta para a encarnação de Cristo. Agar se encontra com um anjo perto de uma fonte que ficava no caminho de Sur. Não sabemos qual seja a localiza­ ção exata de Sur, mas ficava perto da fronteira egípcia (cf. cap. 20; 25:18). Ela, obviamente, estava para atravessar a fronteira e entrar em sua terra natal. As duas perguntas que lhe são feitas, aqui, estão no âmago da existência hu­ mana: (1) De onde você está vindo e (2) para onde está indo? A resposta à primeira pergunta devia afetar a manei­ ra como ela compreendia a segunda. Visto que ela era escrava de Sarai, o que estava fazendo, dirigindo-se ao Egito? Quando os homens tentam determinar quem são e a direção futura de suas vidas, não podem ignorar as suas origens. O fato de Agar se divorciar do passado, ao enfrentar o futuro, era o mesmo que deixar de cumprir o seu destino. Ela devia voltar à sua senhora, e encontrar, naquele relacionamento, o seu lugar na História. O Senhor ouviu a tua aflição. O subs­ tantivo vem da mesma raiz de maltratou-a (v. 6). Portanto, esta é uma refe­ 227


rência não à sua tribulação presente, no deserto, mas aos maus-tratos infligidos a ela por Sarai. Esta passagem declara, de maneira insofismável, que Deus cuida da situação dos desprivilegiados, até mesmo de uma indefesa escrava do Egito. Não é de se admirar que ela tenha dado, ao Deus que a encontrou perto da fonte, o nome de aquele que me vê (heb., ’El roi), pois agora sabia que, afinal de contas, não se encontrava abandonada. A seme­ lhança entre esta passagem e Isaías 7:14 é notável. Ali, ‘almah também designa a criança, embora o homem geralmente executasse este ato. Jacó podia dominar Raquel (Gên. 35:18). O fato de a mulher dar o nome ao filho indica algo inusitado no relacionamento entre homem e mu­ lher naquela época remota. Em Isaias 7:14, este é um mistério que só pode ser esclarecido em Cristo. Ele será como um jumento selvagem entre os homens. Esta palavra pode signi­ ficar um jumento selvagem ou um cavalo selvagem (Speiser; cf. Jó 11:12; Gên. 49:11,14). Ele seria um beduíno nômade típico, não curvando a cabeça a homem algum, sendo livre até das limitações das lealdades familiares. Ele iria habitar di­ ante da face de todos os seus irmãos. Esta expressão geralmente significa “ a leste de” , e, literalmente, “ diante da face de” (cf. I Reis 11:7). Aqui, contudo, ela é usa­ da, provavelmente, no sentido de “contra a face de” , “cara a cara” (cf. Jó 1:11; 6: 28; 21:31). Um homem assim selvagem, independente, seria uma fonte de orgulho para a rebelde Agar. O que ela, como escrava de Sarai, não tinha a liberdade de fazer, o seu filho realizaria. A des­ crição dos ismaelitas não deve ser consi­ derada como depreciadora, pois reflete uma indisfarçável admiração por esses temerários xeques do deserto. Não tenho eu também olhado neste lu­ gar para aquele que me vê? Este é o signi­ ficado literal do original hebraico. Signi­ fica que Agar havia experimentado duas coisas, no encontro com o anjo. Desco­ 228

brira que, embora pensasse que ninguém se importava com ela, Deus estava cui­ dando dela. Este fato, por si só, foi re­ confortante. Ela não percebera apenas o providencial interesse de Deus por ela, como o têm feito as pessoas de fé em todas as épocas, mas havia “olhado” para ele (heb. ’achare) e reconhecido que, na verdade, era Deus que falava com ela. Outro aspecto da declaração de Agar é a sua surpresa pelo fato de aquele encontro com Deus ter ocorrido não em algum santuário religioso nem na tenda levanta­ da por Abrão, mas no deserto vazio: “Não tenho eu também olhado...?” Da mesma forma, Jesus disse, à mulher samaritana, que Deus pode ser adorado onde quer que corações estejam abertos para ele. O nome que Agar deu ao poço significa, literalmente, “o poço do vivente que vê” . Desde então, ela jamais duvidaria que Deus cuidava dela e estava vivo para ajudá-la. A serva egípcia logo afastou-se da torrente central dos eventos bíblicos, mas de fato ela estava no curso certo em sua maneira de entender Deus. Berede não nos é conhecido de forma alguma, mas a menção de Cades (a 50 milhas ao sul de Berseba) indica a sua localização aproximada no deserto. Os versículos 15 e 16 são geralmente de­ signados como parte da fonte Sacerdotal, por causa de seus interesses genealógi­ cos. Tal raciocínio, contudo, pode estar dando a questão como provada. Suspei­ ta-se que a outra fonte também tenha interesse nestes assuntos. Não aparece nenhuma outra marca da fonte Sacerdo­ tal. Aqui, somos informados que Abrão deu ao filho de Agar o nome de Ismael, como o anjo a havia instruído. Obvia­ mente, ela lhe contou por que havia volta­ do. A sua experiência certamente deve ter melhorado os relacionamentos fami­ liares. Encontros com um Deus comum ligavam, em uma nova comunidade de


interesses, pessoas que, de outra forma, eram incompatíveis. 8. OPactodaCircuncisão(17:l-27) Este capítulo contém o relato Sacerdotal do pacto com Abrão. Ele é paralelo do quadro da fonte Judia do capítulo 15. Ali, a ênfase era dada à fé de Abrão; aqui, ela é colocada sobre a sua fideli­ dade. Ali, ele era chamado para crer na palavra que Deus dera; aqui, precisa iniciar o ritual da circuncisão. Ali, Deus confirmara o pacto, enquanto aqui Abrão sela-o com o seu ato de obediên­ cia. Ambas as ênfases são necessárias em qualquer experiência religiosa sadia, pois a fé válida precisa, certamente, manifestar-se através de comportamento correto. A circuncisão era comum entre os vizi­ nhos de Israel: os egípcios, edomitas, amorreus e moabitas. Os filisteus não a praticavam (II Sam. 1:20), e ela também não era observada na Mesopotâmia. So­ mente Israel, contudo, executava esse ritual em criancinhas. Os outros povos o observavam quando os seus componentes do sexo masculino alcançavam a puber­ dade. A observação de que Ismael tinha treze anos de idade quando foi circunci­ dado (17:25) pode referir-se também à prática comum dos ismaelitas na história posterior. Os hebreus do sexo masculino eram circuncidados quando recém-nas­ cidos, para simbolizar a sua entrada na comunidade por ocasião do nascimento. Pelo fato de a fonte Sacerdotal ter sido completada, provavelmente, mais tarde (c. 500 a.C.) e visto que a fonte anterior, em Gênesis, não menciona a circuncisão, alguns eruditos têm achado que o costu­ me generalizado entre os judeus só come­ çou a ser praticado depois do exílio babi­ lónico. Contudo, o fato de que este ritual ocorria entre os vizinhos de Israel e que os filisteus eram proverbialmente “incircuncisos” indicaria que este costume, de fato, era tão velho quanto os patriarcas. Embora não haja razão para se duvidar de que Abraão foi quem deu início a este

ritual, é bem possível que gerações pos­ teriores o tenham reinterpretado, e que ele veio a ter um significado espiritual mais profundo em épocas posteriores. Isto significaria que o escritor Sacerdotal viu, na circuncisão, mais do que Abraão, mas que o significado estava presente o tempo todo. Por outro lado, não há argumentos convincentes de que os regulamentos re­ gistrados neste capítulo não se tenham originado no período patriarcal. De fato, tais regras deviam pertencer mais natu­ ralmente a um período anterior do que a um posterior. Dificilmente se pode pen­ sar na circuncisão como um avanço para uma religião mais amadurecida. Isto foi realizado por aqueles que mais tarde falaram da circuncisão do coração. Esta figura de linguagem teria pequeno signi­ ficado, se a circuncisão física não fosse já um costume comum em Israel (cf. Lev. 26:41; Deut. 10:16; Jer. 4:4; 9:25; Ez. 44:7). 1) BênçãosdoPacto(17:l-8) 1 Q uando A b rã o tin h a n o v e n ta e nove a n o s, a p a re c e u -lh e o S en h o r e lh e d is s e : E u sou D eu s T o d o -P o d ero so ; a n d a e m m in h a p re s e n ç a , e sê p e rfe ito ; 2 e fir m a r e i o m e u p a c to contigo, e s o b r e m a n e ira te m u ltip li­ c a re i. 3 Ao q u e A b rão se p ro s tro u co m ro sto e m te r r a , e D eu s falo u -lh e , d iz e n d o : 4 Q u a n ­ to a m im , e is q u e o m e u p a c to é contigo, e s e r á s p a i d e m u ita s n a ç õ e s ; 5 n ã o m a is s e r á s c h a m a d o A b rã o , m a s A b ra ã o s e r á o te u n o m e ; p o is p o r p a i d e m u ita s n a ç õ e s te h ei p o sto ; 6 fa r-te -e i f r u tif ic a r s o b re m a n e i­ r a , e d e ti fa r e i n a ç õ e s, e r e is s a ir ã o d e ti ; 7 e s ta b e le c e re i o m e u p a c to co n tig o e co m a tu a d e sc e n d ê n c ia d ep o is de ti e m s u a s g e r a ­ ções, co m o p a c to p e rp é tu o , p a r a te s e r p o r D eu s a ti e à tu a d e sc e n d ê n c ia d ep o is d e ti. 8 D a r-te-ei a ti e à tu a d e sc e n d ê n c ia d ep o is d e ti a t e r r a d e tu a s p e re g rin a ç õ e s , to d a a t e r r a d e C a n a ã , e m p e rp é tu a p o s s e s s ã o ; e s e re i o se u D eus.

O uso do título Deus Todo-Poderoso consiste em paralelo a “Eu sou Yahweh” do capítulo 15. Este fato é coerente com a afirmação da fonte Sacerdotal em Êxodo 6:3: “Apareci a Abraão, a Isaque e a 229


Jacó, como o Deus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome Jeová, não lhes fui conhe­ cido.” Isto não significa que o nome “o Senhor” não era usado em épocas mais remotas, mas que ele não continha o conteúdo de revelação dado a Moisés no Egito. A fonte Sacerdotal não usa o nome “ Senhor” (Yahweh) antes de Êxo­ do 6:2. A fonte Judia fala de maneira bem diferente, mas não se coloca em contradição com ela. Aquela fonte popu­ lar simplesmente usa o nome que era familiar para o povo de sua época. Por exemplo, Israel, provavelmente, chama­ va Deus de Yahweh, mas os modernos preferem o termo “o Senhor” (Adonai), porque é mais agradável aos ouvidos. O nome ’El Shaddai (Deus Todo-Poderoso) é misterioso. Albright tentou pes­ quisar as suas origens até uma palavra acádia que significa montanha (Deus da Montanha), mas este significado é duvi­ doso (cf. Speiser). A Septuaginta fre­ qüentemente o traduz por uma palavra que significa Todo-Poderoso (mas não aqui), e esta era a opinião dos rabis anti­ gos. Até que uma explicação melhor seja apresentada, Deus Todo-Poderoso ainda é preferível. Anda em minha presença. Enoque (5: 24) e Noé (6:9) são mencionados como pessoas que andaram com Deus. A des­ peito da fé de Abraão, a distância entre Deus e o homem parecia maior do que antes do dilúvio. Diz-se, em 17:22, que Deus “subiu... de diante dele (de Abra­ ão)” . Ele viera visitá-lo temporariamen­ te, mas agora ia embora para o céu, dei­ xando Abraão a andar na presença dele e a ser perfeito em sua maneira de viver. Esta última palavra é tamim, e significa completo, maduro. Não dá a entender perfeição moral, porém devoção a Deus de coração (cf. Deut. 18:13). Em 20:5, Abimeleque usa uma forma dessa palavra (tam), que a IBB traduz como sinceri­ dade ou “integridade". Literalmente, se­ ria “a integridade ou inteireza (sem mo­ tivações ulteriores) do meu coração” . 230

Abraão é desafiado a se dar ao serviço de seu Deus sem reservas. O requisito mí­ nimo a este respeito será a circuncisão. A resposta de Abraão à teofania foi sem palavras. Ele caiu sobre a sua face, em concordância silenciosa à soberana von­ tade de Deus. A resposta de Deus foi que ele faria um pacto formal com ele, que lhe garantiria uma multidão de descen­ dentes distintos. O seu nome seria mu­ dado de Abrão (“o pai é exaltado”) para Abraão. Os eruditos discordam quanto ao significado do novo nome. A fonte Sacerdotal liga-o com pai e multidão, conotação que o som dessa palavra cer­ tamente tem. Muitos comentaristas con­ sideram Abraão simplesmente como uma forma alongada de Abrão (von Rad). Mais importante do que o significado desse nome é o fato de que ele recebeu um novo nome. Isto significou o raiar de uma nova era para a humanidade. Deus estava estabelecendo um novo povo, e Abraão seria o pai dele. A maioria dos intérpretes associa as nações e os reis do versículo 6 com os idumeus, ismaelitas e filhos de Quetura. Von Rad, por outro lado, insiste que as nações mencionadas neste contexto de­ viam estar dentro da comunidade do pac­ to; ele o considera como uma promessa da conversão de nações gentílicas ao Deus de Abraão. Toda a terra de Canaã, em perpétua possessão. A palavra traduzida como perpétua é ‘olam, que provém da raiz “estar escondido” . Portanto, o significa­ do literal é “tão longe quanto se possa ver” ou “ até o obscuro desconhecido” . Não há palavra, no hebraico, para desig­ nar perpetuidade; ‘olam é mais bem tra­ duzida como perpétua. 2) O Rito da Circuncisão (17:9-14) 9 D isse m a is D eu s a A b ra ã o : O ra , q u a n to a ti, g u a r d a r á s o m e u p a c to , tu e a tu a d e sc e n d ê n c ia d ep o is d e ti, n a s s u a s g e r a ­ çõ es. 10 E s te é o m e u p a c to , q u e g u a rd a r e is e n tre m im e v ó s, e a tu a d e sc e n d ê n c ia de-


p o is d e t i : todo v a r ã o d e n tre v ó s s e r á c irc u n ­ cid ad o . 11 C ircu n cid ar-v o s-e is n a c a rn e do p re p ú c io ; e is to s e r á p o r s in a l d e p a c to e n tr e m im e vós. À id a d e d e o ito d ia s , todo v a rã o d e n tre vós s e r á c irc u n c id a d o , p o r to ­ d a s a s v o ss a s g e ra ç õ e s , ta n to o n a sc id o e m c a s a com o o c o m p ra d o p o r d in h e iro a q u a l­ q u e r e s tra n g e iro , q ue n ã o fo r d a tu a lin h a ­ g e m . 13 C om e fe ito s e r á c irc u n c id a d o o n a s ­ cido e m tu a c a s a , e o c o m p ra d o p o r te u d i­ n h e iro ; a s s im e s t a r á o m e u p a c to n a v o ss a c a rn e com o p a c to p e rp é tu o . 14 M a s o in c ircunciso, q u e n ã o se c irc u n c id a r n a c a rn e do p rep ú cio , e s s a a lm a s e r á e x tirp a d a do se u p o v o ; v iolou o m e u p a c to .

Israel devia observar o pacto da circun­ cisão nas suas gerações. Isto é mais claro do que ‘olam. Pode-se imaginar a dificul­ dade que os judeus cristãos primitivos tiveram quando começaram a entrar gen­ tios na igreja. Os judaizantes nem sem­ pre eram perturbadores cegos. Alguns deles eram bem sinceros. E o pacto abraâmico? Todos os que estivessem dentro dele deviam ser circuncidados. Claro que a fé em Cristo era mais im­ portante, mas o fato de deixar de ser circuncidado fazia com que a pessoa se colocasse fora do povo de Deus. O pro­ blema teve que ser resolvido com base em o novo ato de Deus em Cristo. Se Cornélio pôde ser salvo sem ter sido circun­ cidado, qualquer outra pessoa podia sêlo. Era uma transição difícil, todavia, para os que levavam as Escrituras judai­ cas a sério (cf. At. 15:1-29; 21:21; Rom. 2:25-4:12; I Cor. 7:19; Gál. 5:2-12; 6:12-16). Será por sinal de pacto. A circuncisão não era um fim em si mesma. Era um sinal da devoção a Deus de todo o cora­ ção, que devia caracterizar o seu povo. O cuidado deste em observar esse rito o encorajaria a observar os assuntos mais ponderosos do pacto. Todavia, negligen­ ciar este ponto significava excomunhão de Israel. Ser extirpado não significava morte, mas exclusão da comunidade. Je­ sus sugere isto, não para os incircuncisos, mas para os irreconciliáveis (Mat. 18).

3) APromessadeumHerdeiro(17:15-21) 15 D isse D eu s a A b ra ã o : Q u an to a S a ra i, tu a m u lh e r, n ão lh e c h a m a r á s m a is S a ra i, p o ré m S a r a s e r á o se u n o m e . 16 A bençoá-lael, e ta m b é m d e la te d a r e i u m filh o ; sim , ab e n ç o á-la -e i, e e la s e r á m ã e d e n a ç õ e s; re is d e povos s a irã o d e la . 17 Ao q u e se p ro s tro u A b ra ã o co m o ro s to e m te r r a , e riu se e d is se no se u c o ra ç ã o : A u m h o m em de c e m a n o s h á d e n a s c e r u m filh o ? D a r á à luz S a ra , q u e te m n o v e n ta a n o s? 18 D ep o is d isse A b ra ã o a D e u s : O x a lá q u e v iv a Is m a e l d ia n ­ te d e til 10 E D e u s lh e re s p o n d e u : N a v e r ­ d a d e , S a ra , tu a m u lh e r, te d a r á á lu z u m filho, e lh e c h a m a r á s I s a q u e ; co m e le e s t a ­ b e le c e re i o m e u p a c to com o p a c to p e rp é tu o p a r a a s u a d e sc e n d ê n c ia d ep o is d e le. 20 E q u a n to a Is m a e l, ta m b é m te te n h o ou v id o ; eis q u e o te n h o ab e n ç o a d o , e fá-lo-ei fr u tif i­ c a r, e m u ltip licá-lo -ei g ra n d is s im a m e n te ; doze p rín c ip e s g e r a r á , e d e le fa r e i u m a g ra n d e n a ç ã o . 210 m e u p a c to , p o ré m , e s t a ­ b e le c e re i co m Is a q u e , q u e S a ra te d a r á à luz n e ste te m p o d e te rm in a d o , no a n o v in d o u ro .

Agora Sarai também recebe um novo nome. Ambos os nomes aparentemente significam a mesma coisa: princesa. Sa­ rai é a forma mais antiga desse nome, e Sara, a mais comum. Na verdade, por­ tanto, era um nome novo, embora não tivesse um novo significado. Original­ mente, era ela chamada de “princesa” ; agora realmente se tornaria princesa. Pela primeira vez Deus declarou especifi­ camente que Sara seria a mãe do her­ deiro. Diante deste anúncio, Abraão fez mais do que questionar Deus; ele riu-se. Este verbo é um jogo com a palavra Isaque, que significa riso. Duas outras associa­ ções com este nome encontram-se em Gênesis: Sara rindo diante da idéia de ter um filho (18:12, fonte Judia) e outras pessoas rindo de alegria com a chegada do filho (21:6, fonte Israelita do Norte?). Estas passagens não são conflitantes, pois pode ser que todas estas reações tenham ocorrido. Alguns expositores traduzem “riu-se” como “regozijou-se” e dizem que o riso de Abraão foi de regozijo. A sua reação foi, provavelmente, uma combinação de 231


crença e dúvida, sendo provada a sua aceitação pelo fato de ele ter caído com o rosto em terra. “Combinado com o gesto patético de reverência, manifesta-se uma risada quase horrível, mortalmente in­ tensa, não de mofa, mas trazendo bem próximas a fé e a incredulidade” (von Rad, p. 198). Seguiu-se uma reação humana nor­ mal. Abraão sugeriu que Deus o poupas­ se de se envolver em tal paradoxo. Pa­ recia muito melhor edificar sobre o que Abraão já possuía: o seu filho Ismael. Depois de treze anos, o patriarca apren­ dera a amar muito o seu filho e a contar com ele como seu verdadeiro herdeiro. Deus não permitiu nenhuma vacilação, e negou categoricamente esse recurso. De fato Sara se tornaria mãe, e — que notí­ cias alegres! — seria dentro de um ano. O acontecimento há muito esperado esta­ va próximo. Novamente, a fórmula de nascimento foi usada, mas desta vez o pai daria nome ao filho. O pacto que estava sendo feito com Abraão seria transferido para Isaque, na geração se­ guinte. Estabelecerei o meu pacto. A forma costumeira para esta declaração é “cor­ tar” um pacto. Embora a narrativa da fonte Judia (cap. 10) tivesse a liberdade de retratar Deus ratificando o seu pacto em padrões culturais aceitos (bissecação dos animais), a fonte Sacerdotal evita fazer tal implicação. A confirmação da intenção de Deus está somente em sua palavra. Nenhum outro ato é necessário. Desde então, Abrão e Sarai serão cha­ mados sempre de Abraão e Sara. Até então, apenas os nomes anteriores ocor­ riam, mesmo em fontes que não a Sacer­ dotal, embora elas não registrassem a mudança de nomes. Isto pode ser devido à cuidadosa compilação dos outros ma­ teriais, feita pela escola Sacerdotal, e seria uma evidência a mais de que este grupo serviu como redator final do Pentateuco.

4) A Confirmação de Abraão (17:22-27) 22 Ao a c a b a r d e f a la r c o m A b ra ã o , su b iu D eu s d e d ia n te d e le . 23 L ogo to m o u A b ra ã o a se u filho Is m a e l, e a to d o s o s n a sc id o s n a s u a c a s a e a to d o s o s c o m p ra d o s p o r se u d in h e iro , todo v a rã o e n tr e os d a c a s a de A b raã o , e lh e s c irc u n c id o u a c a rn e do p r e ­ p úcio, n a q u e le m e s m o d ia , com o D eu s lh e o rd e n a r a . 24 A b ra ã o tin h a n o v e n ta e nove a n o s, q u a n d o lh e foi c irc u n c id a d a a c a rn e do p re p ú c io . 25 E Is m a e l, se u filho, tin h a tre z e a n o s, q u a n d o lh e foi c irc u n c id a d a a c a rn e do p re p ú c io . 26 No m e s m o d ia fo ra m c irc u n c id a d o s A b ra ã o e se u filho Is m a e l. 27 E to d o s os h o m e n s d a s u a c a s a , a s s im os n asc id o s e m c a s a , com o os c o m p ra d o s p o r d in h eiro a o e s tra n g e iro , fo ra m c irc u n c id a ­ dos co m e le .

A referência ao fato de que Deus “su­ biu tem paralelo em 35:13. Em outras passagens, ele fala do céu (21:17; 22:11). O que esta declaração significa essencial­ mente é que Deus está além da terra, e não pode, em termos de operação, ser limitado a ela. Como Israel veio a verifi­ car, Deus é imanente em todo o Univer­ so (Sal. 139), mas está também além dele, é maior do que a soma de suas partes, visto que ele foi criado por ele. Naquele mesmo dia. Esta expressão é usada duas vezes (v. 23 e 26), para mostrar o desejo de Abraão de obedecer, mas também a sua determinação de que nada de sua parte retardaria o cumpri­ mento da promessa. Este era um proce­ dimento perigoso e exigia considerável fé da parte de Abraão. Visto que todos os seus homens foram circuncidados no mesmo dia, o clã ficou indefeso diante de seus inimigos. Reminiscências desta ex­ periência devem ter dado, mais tarde, aos filhos de Jacó, a idéia de seu estra­ tagema contra os siquemitas (34:13 e ss.). Só os machos foram circuncidados, embora em algumas culturas se sabe ter sido praticada também a circuncisão das mulheres. Estas foram incjuídas no pacto com base no princípio da solidariedade da família.


9. Abraão Ê Visitado por Deus (18:1-33)

Este capítulo começa a narrativa da fonte Judia, da destruição de Sodoma e Gomorra, que continua no capítulo se­ guinte. Esta é uma das unidades mais longas do livro de Gênesis e é caracteris­ ticamente antropomórfica e vívida. De imediato, somos confrontados com uma das passagens mais misteriosas do Velho Testamento, e, por isso, uma das mais disputadas. A igreja primitiva era da opinião de que ela falava da Trindade, visto que o Senhor aparece em três pes­ soas. Muitos eruditos modernos estão convencidos de que uma exegese sadia não chegará a esta conclusão, como o demonstrará um exame mais detido des­ ta passagem. Contudo, dizer que ela não descreve a Trindade não é dizer que ela não tenha um peso ponderável no desen­ volvimento dessa doutrina. 1) Um Hospedeiro Ansioso (18:1-8) 1 D epois a p a re c e u o S en h o r a A b ra ã o ju n ­ to a o s c a rv a lh o s de M a n re , e sta n d o ele s e n ­ ta d o à p o r ta d a te n d a , no m a io r c a lo r do d ia . 2 L e v a n ta n d o A b ra ã o os olhos, olhou e e is tr ê s h o m e n s d e p é e m fre n te d e le . Q uando os viu, c o rre u d a p o r ta d a te n d a a o se u e n c o n ­ tro , e p ro stro u -se e m t e r r a , ã e d is s e : M eu S enhor, se a g o r a te n h o a c h a d o g r a ç a a o s te u s olhos, rogo-te qu e n ã o p a s s e s d e te u serv o . 4 E ia , tr a g a -s e u m p ouco d ’á g u a , e la v a i os p é s e re c o sta i-v o s d e b aix o d a á rv o d e ; 5 e tr a r e i u m b o cad o d e p ã o ; re fa z e i a s v o ssas fo rç a s , e dep o is p a s s a re is a d ia n te ; p o rq u a n to p o r isso c h e g a s te s a té o vosso serv o . R e s p o n d e ra m -lh e : F a z e a s s im com o d is se ste . 6 A b ra ã o , pois, a p re s so u -se e m i r te r com S a ra n a te n d a , e d is se -lh e : A m a s­ s a d e p re s s a tr ê s m e d id a s d e flo r de fa rin h a , e faze bolos. 7 E m se g u id a c o rre u a o g ad o , a p a n h o u u m b e z e rro te n ro e b o m e deu-lhe a o c ria d o , q u e se a p re s s o u e m p re p a rá -lo . 8 E n tã o to m o u q u eijo fre sc o , e le ite , e o b e z e rro que m a n d a r a p r e p a r a r , e pôs tu d o d ia n te d e le s, fican d o e m p é a o la d o d ele s d eb aix o d a á rv o r e , en q u a n to c o m ia m .

Este capítulo começa dizendo que o Senhor apareceu a Abraão no calor do dia, quando estava sentado à porta de sua tenda. Ao levantar os olhos, de re­

pente ali estavam três homens diante dele. Ele dirigiu-se a um deles como meu Senhor; a palavra hebraica usada é Adonai, termo veterotestamentário usado ex­ clusivamente para Deus. Com vogais di­ ferentes, ele pode significar “ meu se­ nhor” , título de respeito, que podia ser usado em relação a outro homem. Con­ tudo, o Texto Massorético, ou recebido, declara, insofismavelmente, que ele per­ cebeu imediatamente quem eram eles. De fato, provavelmente ele estava orando e esperando tal visita por muito tempo. As outras versões antigas também con­ firmam o texto tradicional. Os intérpre­ tes modernos o emendam, fazendo figu­ rar nele “ meu senhor” , porque acham que os antigos haviam interpretado na saudação o que Abraão percebeu apenas depois de algum tempo de conversa. Como é que ele podia saber que era Deus? Sem se considerar a base para que ele os reconhecesse, coisa que o escritor não discute, é óbvio que Abraão sabia quem eram. Ele não apenas chamou um dos homens de Adonai, como também os seus esforços frenéticos para acomodar os visitantes inesperados durante o ca­ lor do dia excedem até a proverbial hos­ pitalidade oriental. E também o seu medo de que os homens passassem dele dificilmente seria a atitude de um vetera­ no do deserto. Ele sabia bem que quando Deus viesse, ele precisaria aproveitar a ocasião ao máximo. Ele não viria daque­ la forma outra vez, e quanto muito, não permaneceria muito tempo. Embora esta seja claramente a base para se considerar que ele os reconheceu à primeira vista, não significa que a Trindade apareceu na forma de três ho­ mens. Abraão, usando pronomes singu­ lares no versículo 3, dirigiu-se a Adonai como líder do grupo. E então, nos versí­ culos seguintes, incluiu os outros, em seu convite geral. No versículo 22, os dois homens (chamados de anjos, em 19:1) foram para Sodoma, enquanto o Senhor 233


ficou para trás, para conversar com Abraão. Aqui, está claro que os dois homens devem ser diferenciados do Se­ nhor propriamente dito, que também aparecera em forma humana. Não obs­ tante, as evidências não são só estas. No versículo 21, o Senhor disse: “Des­ cerei agora, e verei” , mas ficou para trás, e os dois anjos desceram. Desta forma, quando eles entraram em Sodoma, o próprio Senhor entrou, senão não teria cumprido a sua palavra. E, novamente, um dos anjos que estava com Ló dis­ se que ele, pessoalmente, era capaz de subverter Sodoma. Quando esse ato foi realizado, “o Senhor, da sua parte, fez chover do céu enxofre e fogo sobre So­ doma e Gomorra” (19:24). Coerentemente, apesar de o Pai, o Filho e o Espírito Santo não serem apre­ sentados em Gênesis 18 e 19, o escritor não hesita em dar a entender que, embo­ ra os anjos não fossem o Senhor, o Se­ nhor foi representado neles. Portanto, este é um conceito muito fluido da natu­ reza da Divindade. “Todo o discurso de Abraão é um óti­ mo exemplo da cortesia profusa, deferen­ te, autodepreciadora, característica das boas maneiras orientais” (Skinner, p. 300). Ele lhes prometeu um pouco de água, mas trouxe tanto queijo fresco (em outras versões, uma espécie de iogur­ te) quanto leite. Ele propôs um bocado de pão, e fez Sara assar um considerável número de litros de farinha. A isso tudo ele adicionou a carne de um novilho cevado. De maneira tipicamente orien­ tal, ele ficou de pé, enquanto eles co­ miam, e atendeu a todas as suas necessi­ dades. Tal tipo de hospitalidade, teria sido oferecida a quaisquer estranhos que fossem bem-vindos. O que tomou a cena tão incomum foi o ritmo acelerado em um dia quente e sufocante. Algo inusitado estava para acontecer, e Abraão fora capaz de prevê-lo. O aspecto mais incomum da cena, todavia, foi o fato de o Senhor ter consen­ 234

tido em comer à mesa de Abraão. Isto é acontecimento sem precedentes no Velho Testamento. Em Juizes 13, o anjo do Senhor recusou-se a comer com Manoá. Um notável paralelo é o convite de Jesus em Apocalipse 3:20: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei...” 2) Uma Hospedeira Incrédida (18:9-15) 9 P e rg u n ta ra m -lh e e l e s : O nde e s tá S a ra , tu a m u lh e r? E le re s p o n d e u : E s tá a li n a te n d a . 10 E u m d e le s lh e d is s e : C e rta m e n te to rn a re i a ti n o a n o v in d o u ro ; e e is q u e S a ra tu a m u lh e r t e r á u m filho. E S a ra e s ta v a e sc u ta n d o à p o r ta d a te n d a , q u e e s ta v a a tr á s d e le . 11 O ra , A b ra ã o e S a ra e r a m j á v elh o s, e a v a n ç a d o s e m id a d e ; e a S a ra h a v ia c e ss a d o o in cô m o d o d a s m u lh e re s. 12 S a ra e n tã o riu -se consigo, d izen d o : T e re i a in d a d e le ite d ep o is d e h a v e r en v elh e cid o , sen d o ta m b é m o m e u se n h o r j á v elh o ? 13 P e rg u n to u o S en h o r a A b ra ã o : P o r que se r iu S a ra , d iz e n d o : Ê v e rd a d e qu e e u , que sou v e lh a , d a re i à lu z u m filh o ? 14 H á, p o rv e n ­ tu r a , a lg u m a c o isa d ifícil ao S en h o r? Ao te m p o d e te rm in a d o , no a n o v in d o u ro , to m a ­ re i a ti, e S a ra t e r á u m filho. 15 E n tã o S a ra n eg o u , d izen d o : N ão m e r i ; p o rq u a n to e la te v e m ed o . Ao q u e ele re s p o n d e u : N ão é a s s im ; p o rq u e te ris te .

Visto que os visitantes perguntaram por Sara, é evidente que ela ainda não se encontrara com eles, embora tivesse pre­ parado a refeição. Abraão, provavelmen­ te, não lhe tinha revelado a identidade deles. Mesmo que o tivesse feito, a sua incredulidade a respeito daquele anúncio é compreensível. Certamente tornarei a ti no ano vin­ douro possivelmente se refere ao período de nove meses de uma gestação. O ori­ ginal hebraico diz literalmente: “Eu vol­ tarei a você daqui ao intervalo de uma vida, mais ou menos.” O incômodo das mulheres é uma referência ao período menstrual. Depois de haver envelhecido é literalmente: “ depois que me gastei” co­ mo um vestido (cf. Deut. 8:4). Há, porventura, alguma coisa difícil ao Senhor? O hebraico literal é um pou-


quinho diferente desta tradução. “Algu­ ma coisa” não está presente, e o verbo empregado é “ ser diferente” , “ser ma­ ravilhoso” . Significa simplesmente: “É isso miraculoso demais para o Senhor?” O substantivo derivado do verbo “é difí­ cil” é a palavra que designa milagre no Velho Testamento, ou seja, algo inusita­ do, diferente do ordinário (cf. Is. 9:6). A idéia que o escritor deseja expressar não depende do reconhecimento de Sara de que o próprio Senhor estava falando. Ela havia rido da palavra de Deus. Quem a havia comunicado não era o caso. Por­ que ela vièra de Deus, devia ser honrada. Acostumada a guardar os seus pensa­ mentos para si mesma, Sara havia rido apenas interiormente, e ficou atônita porque o visitante pôde sondar o seu coração. A sua surpresa com esta revela­ ção a fez abrir-se. Agora ela reconhecia que estava em sérias dificuldades, e ten­ tava negar a sua leviandade. A sua ale­ gação de inocência foi negada categorica­ mente. Deus, como sempre, teve a última palavra. 3) Conversa Intima (18:16-21) 16 E le v a n ta ra m -s e a q u e le s h o m e n s d a li, e o lh a ra m p a r a a b a n d a d e S o d o m a ; e A b ra ã o ia com e les, p a r a os e n c a m in h a r. 17 E d isse o S e n h o r: O c u lta re i eu a A b raã o o q u e faço , 18 visto qu e A b ra ã o c e rta m e n te v ir á a s e r u m a g ra n d e e p o d e ro s a n a ç ã o , e p o r m eio dele s e r ã o b e n d ita s to d a s a s n a ç õ e s d a t e r ­ r a ? 19 P o rq u e e u o ten h o esco lh id o , a fim d e que e le o rd e n e a se u s filh o s e a s u a c a s a depois d e le , p a r a qu e g u a rd e m o ca m in h o do S enhor, p a r a p r a tic a r e m re tid ã o e ju s ti ç a ; a fim de q ue o S en h o r f a ç a v ir so b re A b ra ã o o que a re s p e ito d ele te m fa la d o . 20 D isse m a is o S en h o r: P o rq u a n to o c la m o r d e S odom a e G o m o rra se te m m u ltip lic a d o , e p o rq u a n to o seu p e cad o se te m a g ra v a d o m u ito , 21 d e s c e ­ re i a g o ra , e v e re i se e m tu d o tê m p ra tic a d o segundo o se u c la m o r, q u e a m im te m c h e ­ g a d o ; e se não , sabê-lo-ei.

Os expositores chamam os versículos 17 a 19 de “ Solilóquio de Deus” ,, pois aqui ele é descrito como alguém que pensa em voz alta, enquanto nos é permi­

tido ouvi-lo. Abraão precisava saber o que Deus estava para fazer, para que pudesse interpretar corretamente os ca­ minhos de Deus p ara os seus descenden­ tes. Do destino iminente de Sodoma e Gomorra ele aprenderia indelevelmente qual era a atitude de Deus para com o pecado e a desobediência. Sabendo-o an­ tecipadamente, Abraão não iria atribuir aquele desastre ao acaso. Da mesma forma, Deus mais tarde iria falar atra­ vés de seus profetas, antes de outras catástrofes históricas, para que Israel pudesse compreender os seus caminhos. Não era por acaso que os grandes pro­ fetas vieram em grupos. Eles estavam preparando Israel para as suas grandes decisões na História: Elias ei Eliseu na crise de Baal; Àmôs, Oséias, Miquéias e Isaías no período assírio; Sofonias, Habacuque, Jeremias e Ezequiel durante o cativeiro babilónico; Ageu, Zacarias e Malaquias na época da restauração. A fim de que o Senhor faça vir sobre Abraão o que a respeito dele tem falado. Para ser fiel a si mesmo, Deus não pode abençoar Abraão e seus descendentes, a não ser que eles se entreguem à justiça e à retidão. Ele trabalhará com eles cons­ tantemente, para ver isso acontecer! Em Cristo, nada menos do que isso pode acontecer. A palavra traduzida como clamor é ze’akah, termo técnico legal, que designa os gritos de uma pessoa que sofre grande injustiça. Na verdade, a palavra usada no hebraico, para clamores contra a injus­ tiça, era chamas: violência, procedimen­ to incorreto! (cf. Hab. 1:2; Jer. 20:8; Jó 19:7). Descerei agora, e verei (cf. os comen­ tários 11:5). Não que Deus não estivesse percebendo o que estava acontecendo, mas ele não destruiria nem mesmo a obviamente pecaminosa Sodoma sem que antes todas as evidências fossem exa­ minadas. Ele não aceita nada por ouvir falar, mas age apenas depois que todas as evidências são apresentadas. 235


4) Sondagem de Mentes (18:22-33) 22 E n tã o os h o m en s, v ira n d o o s se u s r o s ­ to s d a li, fo ra m -s e e m d ire ç ã o a S o d o m a ; m a s A b ra ã o fico u a in d a e m p é d ia n te do S e­ n h o r. 23 E ch eg an d o -se A b ra ã o , d is s e : D e s­ tr u ir á s ta m b é m o ju s to co m o ím p io ? 24 Se p o rv e n tu ra h o u v e r d n q U e n ta ju s to s n a c i­ d a d e , d e s tr u ir á s e n ã o p o u p a rá s o lu g a r p o r c a u s a d o s c in q ü e n ta ju s to s q u e a li e stã o ? 25 L onge d e ti q u e f a ç a s ta l c o isa , q u e m a te s o ju s to co m o ím p io , d e m o d o q u e o ju s to se ja com o o ím p io ; e s te ja is to longe d e ti. N ão fftrá ju s tiç a o J u iz d e to d a a te r r a ? 26 E n tã o d is se o S e n h o r: Se e u a c h a r e m S o d o m a c in ­ q ü e n ta ju s to s d e n tro d a c id a d e , p o u p a re i o lu g a r todo p o r c a u s a d e le s . 27 T ornou-lhe A b raão , d izen d o : E is q u e a g o ra m e a tr e v i a f a la r a o S enhor, a in d a q u e so u p ó e cin za . 28 Se p o rv e n tu ra d e c in q ü e n ta ju s to s f a l ta ­ re m cinco, d e s tr u ir á s to d a a c id a d e p o r c a u s a do s cin co ? R e sp o n d e u e le : N ão a d e s ­ tr u ire i, se e u a c h a r a li q u a re n ta e cin co . 29 C ontinuou A b ra ã o a in d a a fa la r-lh e , e d is s e : Se p o rv e n tu ra se a c h a r e m a li q u a re n ­ ta ? M ais u m a v ez a s s e n tiu : F o r c a u s a dos q u a re n ta n ã o o fa r e i. 30 D isse A b ra ã o : O ra , não se ir e o S en h o r, se e u a in d a f a la r . Se p o rv e n tu ra se a c h a r e m a li tr in ta ? D e novo a s s e n tiu : N ão o fa r e i, se a c h a r a li tr in ta . 31 T o rn o u A b ra ã o : E is q u e o u tr a v ez m e a tr e v i a f a l a r a o S en h o r. Se p o rv e n tu ra se a c h a re m a li v in te ? R e sp o n d e u -lh e : P o r c a u ­ s a dos v in te n ão a d e s tru ir e i. 32 D isse a in d a A b ra ã o : O ra , n ã o se ir e o S en h o r, p o is só m a is e s ta v ez fa la re i. Se p o rv e n tu ra se a c h a re m a li dez? A inda a s s e n tiu o S e n h o r: P o r c a u s a dos dez n ão a d e s tru ir e i. 33 E foise o S en h o r, logo q ue a c a b o u d e f a l a r com A b ra ã o ; e A b ra ã o v o lto u p a r a o se u lu g a r.

O solilóquio e a declaração feita nos versículos anteriores são seguidos por um diálogo entre Deus e Abraão, que sonda os caminhos secretos de Deus com os homens. Abraão ficou ainda em pé diante do Senhor. Os escribas posteriores ao exílio mudaram, o seu texto recebido, para a redação dada na versão da IBB e da RSV. Originalmente, ele declarava que “o Senhor ainda ficou na presença de Abraão” . Os eruditos modernos discor­ dam a respeito da legitimidade dessa mudança (cf. Skinner). Pode ser que tenhamos aqui um quadro incomum de Deus demorando-se um pouco mais, 236

para permitir que Abraão comece a son­ dar os seus caminhos. As perguntas de Abraão relacionamse com a qualidade preservadora de uma minoria piedosa entre uma grande maio­ ria de pessoas ímpias. Ele aprendera que “até mesmo um número muito pequeno de homens inocentes é mais importante aos olhos de Deus do que uma maioria de pecadores, e é suficiente para frustrar o julgamento” (von Rad, p. 209). É significativo que, à medida que Abraão continuou a interrogar a Deus, embora ficasse cada vez mais ousado em suas perguntas, jamais se esqueceu de que era a Deus que ele estava se dirigin­ do. A abertura de Deus para com ele era uma fonte de certeza de que ele estava dentro da vontade de Deus. De fato, Deus estava pronto a responder afirmati­ vamente a todas as sugestões de miseri­ córdia. Obviamente, ele estava mais pronto para perdoar do que para des­ truir. É uma surpresa o fato de Abraão ter parado em dez. No fundo, embora nunca o mencionasse, ele estava preocupado com Ló. Será que a presença deste salva­ ria a situação? Algumas pessoas sugerem que, na verdade, havia dez membros na família de Ló: Ló, a sua esposa, as suas duas filhas casadas e seus maridos, e as duas solteiras que saíram com ele (Speiser). Visto que Ló não conseguiu persua­ dir quatro dessas pessoas a saírem, não teve número suficiente de pessoas para salvar a cidade. Porém parece mais pro­ vável que Ló tinha apenas duas filhas (veja os comentários sobre o cap. 19). Abraão não prosseguiu de dez para me­ nos porque não era necessário que o fi­ zesse. Agora ele conhecia o coração de Deus. O Senhor salvaria a todos os que pudesse. Abraão podia deixar o resto por conta dele. 10. A Destruição de Sodoma (19:1-38) Este capítulo retoma a história de Ló onde a narrativa o deixara no capítulo


13. De fato, o cuidadoso delineamento psicológico da desintegração gradual do caráter de Ló é peculiar, único no Velho Testamento. E sugere que a história de Ló deve ter sido preservada como tradi­ ção separada, e incorporada à narrativa da fonte Judia (von Rad). De maneira semelhante, muitas facetas da narrativa da destruição de Sodoma podem ter sido preservadas independentemente, antes de serem incluídas no registro bíblico. Surpreende que “ Sodoma e Gomorra” geralmente sejam combinadas em união inseparável, mas nada se diz do que estava acontecendo em Gomorra. Apa­ rentemente, havia outras tradições a res­ peito dessa cidade, que não foram re­ gistradas no Velho Testamento. O que foi incluído é o material mais útil para se entender tanto o curso da vida de Abraão quanto a de seu sobrinho Ló, que esco­ lheu outro rumo. 1) A Degradação de Sodoma (19:1-11) 1 Â ta r d e c h e g a ra m o s d o is a n jo s a S odo­ m a . Ló e s ta v a s e n ta d o à p o r ta d e S odom a e, vendo-os, lev an to u -se p a r a o s r e c e b e r ; p ro stro u -se co m o ro sto e m te r r a , 2 e d is s e : E is a g o ra , m e u s se n h o re s, e n tr a i, peço-vos, e m c a s a de v o sso se rv o , e p a s s a i n e la a noite, e la v a i os p é s ; d e m a d r u g a d a vos le v a n ta re is e ir e is vosso c am in h o . R e sp o n ­ d e ra m e le s : N ã o ; a n te s n a p r a ç a p a s s a r e ­ m o s a n o ite. 3 E n tre ta n to , Ló In sistiu m u ito co m e le s, pelo q u e fo ra m co m e le e e n tr a ­ r a m e m s u a c a s a ; e ele lh e s d e u u m b a n q u e ­ te , assa n d o -lh e s p ã e s á z im o s, e e le s c o m e ­ r a m . 4 M a s a n te s q ue se d e ita s s e m , c e r c a ­ r a m a c a s a os h o m e n s d a c id a d e , is to é , os h o m en s d e S o d o m a, ta n to o s m o ç o s co m o os velhos, sim , todo o povo d e todos os la d o s ; 5 e , c h a m a n d o a L ó, p e rg u n ta ra m -lh e : O nde e stã o os h o m e n s q u e e n tr a r a m e s ta n o ite e m tu a c a s a ? T raze-o s c á fo ra a n ó s, p a r a q u e os co n h eçam o s. 6 E n tã o L ó saiu -lh e s à p o rta , fech an d o -a a t r á s d e si, 7 e d is s e : M eu s i r ­ m ã o s, rogo-vos q u e n ã o p ro c e d a is tã o p e r ­ v e rs a m e n te ; 8 e is a q u i, te n h o d u a s filh a s q ue a in d a n ã o c o n h e c e ra m v a r ã o ; e u v o -las tr a r e i p a r a fo ra , e lh e s f a r e is co m o b e m vos p a r e c e r ; so m e n te n a d a fa ç a is a e s te s h o ­ m e n s, p o rq u a n to e n tr a r a m d e b a ix o d a s o m ­ b r a do m e u te lh a d o . 9 E le s , p o ré m , d is s e ­ r a m ; Sai d a í. D is s e ra m m a is : E s s e in d i­

v íd u o , c o m o e s tra n g e iro v elo a q u i h a b ita r, e q u e r se a r v o r a r e m ju iz ! A g o ra te f a r e ­ m o s m a is m a l a ti do q u e a e le s. E a r r e m e s ­ s a ra m -s e so b re o h o m e m , is to é , so b re L ó, e a p ro x im a v a m -se p a r a a r r o m b a r a p o rta . 10 A q u eles h o m e n s, p o ré m , e ste n d e n d o a s m ã o s, fiz e ra m L ó e n t r a r p a r a d e n tro d a c a s a , e fe c h a r a m a p o r ta ; 11 e f e r ir a m de c e g u e ira os q u e e s ta v a m do la d o d e fo ra , ta n to p e q u en o s co m o g ra n d e s , d e m a n e ir a q u e c a n s a r a m d e p ro c u r a r a p o rta .

O leitor não precisa ficar surpreso com o fato de os dois mensageiros (anjos) terem chegado a Sodoma na mesma tar­ de do banquete com Abraão. A distância era de cerca de sessenta quilômetros, através de território acidentado, e nor­ malmente levaria dois dias. Mas aqueles não eram homens comuns. Sem dúvida, Ló não suspeitava disso. Como vimos, os acontecimentos que acabaram de descre­ ver-se no capítulo 18 não se referem a “sem o saberem, hospedaram anjos” (Heb. 13:2), pois Abraão reconheceu a presença de Deus. Ló, todavia, não tinha tanta percepção, embora fosse justo e hospitaleiro. O fato de ele ter curvado o rosto em terra, em contraste com a sau­ dação mais restrita de Abraão (18:2), era um sinal de impulsividade que emergiria mais visivelmente nos acontecimentos se­ guintes. Ló estava sentado à porta de Sodoma, onde se congregavam os homens. Só ele correu para saudar os estranhos e ofere­ cer-lhes a hospitalidade de seu lar. A princípio, eles recusaram abruptamente, pois não haviam vindo para uma visita social, como fora com Abraão. Porém, diante de sua insistência, aceitaram. A primeira vista, a sugestão de Ló de que eles fossem embora de madrugada pare­ ce uma falta da consideração apropriada para com a companhia deles, porém ela se originava do conhecimento que ele tinha da cidade. Seria do interesse de seu bem-estar que eles saíssem de Sodo­ ma o mais rápido possível. O pedido dos homens de Sodoma de conhecer os visitantes era, provavelmen­ te, uma exigência de relações homosse237


xuais. Desta forma, a palavra “sodomia” encontrou sua origem. De fato, a cidade era tão má quanto o “clamor” havia indi­ cado. Ló, com impulsividade ainda maior, saiu para fora de sua casa, fechou a porta detrás de si, para proteger os seus hóspedes, e tentou arrazoar ousadamen­ te com a turba. Chegou a oferecer-lhes as suas filhas. A sua sugestão é repulsiva para a mente moderna, mas para Ló era o supremo ato de hospitalidade. O seu dever era proteger os seus hóspedes a qualquer custo. Contudo, a oferta de suas filhas fora feita com demasiada facilidade, e talvez tenha influenciado a própria falta de respeito delas para com o pai, quando, mais tarde, se viram sozi­ nhas numa caverna com ele. A reação da malta foi fazer ameaças contra a pessoa do próprio Ló. Eles ha­ viam-se deixado levar demasiadamente longe em suas perversões, para voltarem atrás pela oferta das duas moças. Só a intervenção dos anjos salvou Ló. Os ho­ mens que estavam do lado de fora foram feridos com uma espécie temporária de cegueira (cf. II Reis 6:18), e a fútil tentativa de Ló de agir heroicamente resultou no fato de ele ser protegido pelos seus hóspedes! Então ele ficou sabendo que os seus hóspedes não eram homens mortais. 2) A Fuga de Sodoma( 19:12-23) 12 E n tã o d is s e ra m os h o m e n s a L ó : T en s m a is a lg u é m a q u i? T eu g en ro , e te u s filhos, e tu a s filh as, e to d o s q u a n to s te n s n a c id a ­ d e, tira -o s p a r a f o r a d e s te lu g a r ; 13 p o rq u e nós v a m o s d e s tr u ir e ste lu g a r , p o rq u a n to o seu c la m o r se te m av o lu m a d o d ia n te do S enhor, e o S en h o r n o s en v io u a d estru í-lo . 14 T endo saíd o L ó, falo u co m se u s g en ro s, que h a v ia m de c a s a r com s u a s filh a s, e d is ­ se-lh es: L e v an tai-v o s, s a �� d e ste lu g a r , p o r­ que o S en h o r h á d e d e s tr u ir a c id a d e . M as ele p a re c e u a o s se u s g e n ro s co m o q u em e s ta v a zo m bando. 15 E ao- a m a n h e c e r os a n jo s a p e r ta v a m com L ó, d izen d o : L e v a n ta te , to m a tu a m u lh e r e tu a s d u a s filh a s que a q u i e stã o , p a r a qu e n ã o p e re ç a s n o c a stig o d a c id a d e . 16 E le , p o ré m , se d e m o ra v a ; pelo q ue os h o m e n s p e g a ra m -lh e p e la m ã o ,

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a e le, à s u a m u lh e r, e à s s u a s d u a s filh a s, sendo-lhe m ise ric o rd io so o S en h o r. A ssim o tir a r a m e o p u s e r a m fo ra d a cid a d e . 17 Q uando os tin h a m tira d o p a r a fo ra , d isse u m d e le s : E s c a p a -te , s a lv a a tu a v id a ; n ão olhes p a r a t r á s d e ti, n e m te d e te n h a s e m to d a e s ta p la n íc ie ; e s c a p a -te lá p a r a o m o n ­ te , p a r a q u e não p e re ç a s . 18 R esp o n d eu -lh es L ó : Ah, a s s im n ã o , m e u S en h o r! 19 E is q u e a g o ra o te u se rv o te m a c h a d o g r a ç a a o s te u s olhos, e te n s e n g ra n d e c id o a tu a m is e ric ó r­ d ia que a m im m e fiz e ste , s a lv a n d o -m e a v id a ; m a s e u n ão posso e s c a p a r-m e p a r a o m o n te ; n ã o s e ja c a so m e a p a n h e a n te s e ste m a l, e e u m o r ra . 20 E is a li p e rto a q u e la cid ad e , p a r a a q u a l eu posso fu g ir, e é p e q u e n a . P e rm ite que e u m e e sc a p e p a r a lá (p o rv e n tu ra n ão é p e q u e n a ? ), e v iv e rá a m in h a a lm a . 21 D isse-lh e: Q uanto a isso ta m b é m te h ei a te n d id o , p a r a n ã o s u b v e rte r a cid ad e d e q u e a c a b a s d e fa la r. 22 A p ressate , e sc a p a -te p a r a lá ; p o rq u e n a d a p o d e re i fa z e r e n q u a n to n ã o tiv e re s a li ch e g a d o . P o r isso se c h a m o u o n o m e d a cid a d e Z o a r. 23 T i­ n h a sa íd o o sol so b re a te r r a , q u an d o Ló e n tro u e m Z oar.

Os anjos completaram a sua inquiri­ ção, e o julgamento foi declarado. Eles não sabiam o total dos membros da famí­ lia de Ló, ou usaram uma forma polida de apressá-lo a reunir os seus familiares. Teu genro, e teus filhos, e tuas filhas. Ê estranho que o genro (um só) é men­ cionado antes de filhos e filhas, e é possí­ vel que tenha havido alguma deslocação no texto. O anjo concorda com a possi­ bilidade de que houvesse um bom núme­ ro de pessoas associadas com Ló que quisessem abandonar a cidade com ele; se assim fosse, o total de pessoas chegaria a mais do que os dez do capítulo 18. Por que estavam eles tão decididos a destruir a cidade? O seu destino já não era iminente, visto que o verdadeiro número de justos fora determinado? É provável que o anjo já conhecesse a resposta à pergunta que fizera a Ló, mas o patriarca precisava descobrir a verdade por si mesmo. Ou será que esta passa­ gem está dizendo que Sodoma era pior do que havia transpirado? O que podia ser feito era apenas poupar os justos. Isto era o que realmente Abraão estava pe­


dindo: a libertação de Ló, e não de Sodoma. O Senhor nos enviou a destruí-lo. Mes­ mo antes da hora em que foi feita a inves­ tigação, a destruição da cidade já havia sido decretada. Durante todo o tempo em que Deus havia estado tranqüilizando Abraão, ele sabia a que missão havia enviado os anjos. Por que, então, ele se deu ao trabalho de investigar? Evidente­ mente, para estar absolutamente certo de que não estava cometendo nenhum erro. Deus estava disposto, no último momen­ to, mesmo depois de ter decretado a des­ truição de Sodoma, a mudar de idéia diante de qualquer sinal de esperança (cf. Jer. 18:1 e ss.; Jon. 1-3). Que haviam de casar com suas filhas. O hebraico pode dar a entender isto (von Rad) ou “que haviam-se casado com suas filhas” (Speiser, com reservas). É mais provável que a tradução da IBB, e da RSV, seja correta, pois, se não fosse, o escritor certamente teria mencionado os rogos de Ló por suas filhas casadas, e não apenas por seus genros. As suas únicas filhas estavam em casa. A ordem para não olhar para trás nos faz lembrar que, quando Deus intervém na terra, o homem não pode adotar a posição de espectador. Ou ele escapa, ou é destruído. Havia chegado a hora de Ló escolher. Não havia uma terceira alterna­ tiva. Muitos expositores sugerem que a história a respeito da esposa de Ló se originou a fim de explicar algumas for­ mações da região, em forma de mulher (von Rad). É mais provável que a história de sua morte trágica, já presente na tradição dos judeus, os levou a identifi­ car uma formação local como o seu corpo petrificado. E então Ló tomou-se incoerente. Ele não podia fugir para as montanhas de Moabe, pois a ascensão difícil retardaria os seus passos, de forma que a catástrofe iminente o apanharia. Com palavras tro­ peçando em palavras, ele rogou que lhe fosse permitido parar em Zoar, que era

tão pequena que certamente Deus a dei­ xaria passar despercebida em seu plano. Em outras palavras, para Ló, qualquer cidade serviria. O pensamento de viver fora de área urbana era insuportável para ele. Ele estava irremediavelmente orientado em direção à sociedade urba­ na. O anjo, admitindo que trazia ordens estritas para não destruir Sodoma en­ quanto Ló não estivesse a salvo, fez-lhe esta concessão. As promessas feitas a Abraão iriam ser cumpridas. A origem apresentada para a palavra Zoar (heb., pequeno) é uma das poucas explicações etimológicas do Velho Tes­ tamento que os eruditos geralmente acei­ tam como exata. A maioria delas é con­ siderada como conotações populares que têm pequena relação com o verdadeiro significado das palavras. A preservação de tais impressões populares, todavia, é também um valioso repositório das ex­ periências de Israel com a sua história. 3) Ira e Graça (19:24-29) 24 E n tã o o S en h o r, d a s u a p a r te , fez c h o ­ v e r do c é u e n x o fre e fogo so b re S o d o m a e G o m o rra . 25 E s u b v e rte u a q u e la s c id a d e s, e to d a a p la n íc ie , e todos os m o ra d o re s d a s c id a d e s, e o que n a s c ia d a te r r a . 26 M as a m u lh e r de Ló olhou p a r a t r á s e fico u c o n v e r­ tid a e m u m a e s tá tu a de sa l. 27 E A b ra ã o le ­ v an to u -se de m a d r u g a d a , e foi ao lu g a r onde e s tiv e ra e m p é d ia n te do S e n h o r; 28 e, c o n ­ te m p la n d o S o d om a e G o m o rra e to d a a t e r r a d a p la n íc ie , v iu que su b ia d a t e r r a fu m a ç a com o a d e u m a fo rn a lh a . 29 O ra , a c o n te c e u q ue, d e stru in d o D eu s a s c id a d e s d a p la n íc ie , lem b ro u -se de A b raã o , e tiro u Ló do m eio d a d e stru iç ã o , ao s u b v e r te r a q u e la s c id a d e s e m qu e L é h a b ita ra .

É possível que o enxofre e o fogo fossem gases de petróleo incendiados por fogos subterrâneos. A palavra subverteu pode preservar a memória de um terre­ moto, que abriu a terra, para permitir que esses gases escapassem. Tal cataclisma pode ter feito com que tenha cedido a terra ao sul do Mar Morto, e a água tenha coberto a região ocupada por So­ doma. Tradições concernentes a essa ca239


tástrofe ocorrem no decorrer de todo o Velho Testamento, embora as diferentes passagens descrevam o pecado de Sodoma de maneira diversa. Isaías põe a culpw em sua injustiça (1:10; 3:9), Ezequiel descreve o seu orgulho e ócio prós­ pero (16:49), enquanto Jeremias fala de adultério e mentira (23:14). As seme­ lhanças entre a cena diante da casa de Ló e a infâmia ocorrida em Gibéa (Juí. 19) sugerem uma relação entre essas his­ tórias, mas a sua natureza exata não é visível. Com toda a probabilidade, as categorias de pecado em Sodoma eram tão variadas que cada profeta podia es­ colher uma delas, para ilustrar os seus oráculos, sem exaurir as outras possibili­ dades! Enquanto Ló estava fugindo para Zoar, Abraão estava se levantando de madrugada, para ver o que estava acon­ tecendo em Sodoma. Tudo o que ele pôde ver foi o fumo que se elevava, mar­ cando o rasto do desastre. O seu silêncio foi eloqüente, pois deve ter-lhe parecido que todos os seus rogos diante de Deus em favor de Ló haviam sido em vão. Mal sabia ele que Deus havia cumprido a sua palavra, de maneira que lhe era des­ conhecida. Da mesma forma, os homens muitas vezes desesperam diante da perda aparente de um sonho que Deus conser­ vara vivo de maneiras que vão além da compreensão deles. Só um homem que tenha observado as ruínas fumegantes de suas orações a Deus pode compreender a dor que Abraão sentiu e como ele ficou desanimado. A maneira misteriosa como Deus cumpriu a sua palavra a Abraão deve ser uma fonte de ânimo para todos os fiéis que se lamentam diante de seus senhos desfeitos. O versículo 29 evidentemente provém da fonte Sacerdotal e acrescenta uma observação que falta em outros episó­ dios. Foi por amor a Abraão que Ló fora liberto. Desta forma, um homem justo fora a causa da libertação de outro me­ nos digno do que ele. O princípio que 240

Abraão descobrira em a natureza de Deus estava funcionando. 4) Lóe Suas Filhas (19:30-38) 30 E su b iu L ó d e Z o a r, e h a b ito u no m o n te , e a s s u a s d u a s filh a s c o m e le ; p o rq u e te m ia h a b ita r e m Z o a r; e h a b ito u n u m a c a v e rn a , e le e a s s u a s d u a s filh a s. 31 E n tã o a p rim o ­ g ê n ita d isse à m e n o r : N osso p a i é j á v elh o , e n ã o h á v a rã o n a t e r r a q u e e n tr e a n ó s, seg u n d o o c o stu m e d e to d a a t e r r a ; 32 v e m , d e m o s a no sso p a i vinho a b e b e r, e d eitem o nos co m e le , p a r a q u e c o n se rv e m o s a d e s ­ c e n d ê n c ia d e n o sso p a i. 33 D e ra m , p o is, a se u p a i vin h o a b e b e r n a q u e la n o ite ; e, e n tra n d o a p rim o g ê n ita , d eito u -se co m se u p a i ; e n ã o p e rc e b e u ele q u an d o e la se d eito u , n e m q u a n d o se le v a n to u . 34 No d ia se g u in ­ te d isse a p rim o g ê n ita à m e n o r : E is que e u o n te m à n o ite m e d e ite i co m m e u p a i; dem o s-lh e vin h o a b e b e r e tã m b é m e s ta n o ite ; e e n tã o , e n tra n d o tu , d e ita -te co m e le , p a r a qu e c o n se rv e m o s a d e sc e n d ê n c ia d e nosso p a i. 35 T o rn a ra m , p o is, a d a r a se u p a i v in h o a b e b e r ta m b é m n a q u e la n o ite ; e , le v a n ta n d o se a m e n o r, d eito u -se co m ele, e n ã o p e r c e ­ b e u ele q u an d o e la se d eito u , n e m q u an d o se le v an to u . 36 A ssim a s d u a s filh a s d e Ló c o n c e b e ra m de se u p a i. 37 A p rim o g ê n ita d e u à luz u m filho e c h am o u -lh e M o a b e ; e ste é o p a i dos m o a b ita s de h o je . 38 A m e n o r ta m b é m d eu à lu z u m filho, e cham o u -lh e B en-A m i; e s te é o p a i dos a m o n ita s d e h o je.

Ló não permaneceu por muito tempo em Zoar, pois, aparentemente, reconhe­ ceu naquela pequena cidade os mesmos sintomas que havia verificado em Sodo­ ma. Temendo outra manifestação da ira de Deus, ele finalmente fugiu, com suas filhas, para a montanha a princípio suge­ rida pelo anjo. Segue-se uma estranha história de incesto. Alguns intérpretes sugerem que esta história era contada em Israel para expli­ car a origem dúbia de seus vizinhos. Outros, que ela era recordada com orgu­ lho por moabitas e amonitas, para expli­ car a sua origem ou pedigree “puro” , mediante o ato corajoso de duas mulhe­ res fortes (Gunkel). Ainda outros fazem este relato remontar a uma história do homem primitivo, quando, depois de uma catástrofe universal, apenas um ho­


mem e suas duas filhas permaneceram vivos. A filha de Ló diz: Não há varão na terra que entre a nós (cf. von Rad). Contudo, esta expressão pode significar não que não havia restado nenhum ho­ mem, mas que as filhas — mantidas por seu pai quase como prisioneiras, como estavam, em uma caverna da montanha — pensavam que não sobrevivera ne­ nhum homem. O que tornou a situação pior era o fato que as moças estavam para se casar quando foram forçadas a abandonar Sodoma. Este não foi o fim do caso. Há um pequeno livro, no Velho Testamento, o livro de Rute, que fala de uma jovem moabita, descendente deste ato incestuo­ so. Ela se lança aos pés de um parente, Boaz, que a chama de sua “filha” (Rute 3:10), mas o propósito dela não era con­ seguir um filho através de engano. Me­ diante o seu ato, ela estava conclamando o mais elevado senso de dever daquele parente. Essa mulher nobre redimiu para sempre o nome de Ló. O bem que estava latente nele finalmente emergiu, de for­ ma que o Novo Testamento podia olhar para Ló com todas as suas fraquezas, e assim mesmo chamá-lo de “justo” (II Ped. 2:7). Não que ela tenha conseguido fazer expiação pelas falhas de Ló. Pelo contrário, uma descendente evidenciou características latentes que só Deus po­ dia perceber e aceitar originalmente. 11. Sara eAbimeleque (20:1-18) Esta história é semelhante a 12:10-20. Em ambas as narrativas, Abraão disse a um monarca que Sara era sua irmã. Em cada caso, o rei tomou-a como sua espo­ sa, e sofreu pragas por isso. Quando des­ cobriu que havia sido enganado, repreen­ deu Abraão asperamente. Contudo, Abraão emergiu de ambos os encontros mais rico do que antes. Há também marcantes diferenças en­ tre estas histórias. O nome divino de Yahweh (o Senhor) é usado no capítulo 12, mas Elohim (Deus) no que estamos

estudando. Em a narrativa anterior, Fa­ raó era o rei; nesta, foi Abimeleque. No Egito, o engano foi descoberto depois que pragas sobrevieram à casa de Faraó, ao passo que Deus veio a Abimeleque em sonhos. No capítulo 12, a relação marital de Sara com Faraó não está clara; no capítulo 20, se diz claramente que a união jamais foi consumada. A descober­ ta do engano fez com que Faraó expul­ sasse Abraão do Egito como persona non grata. Em Gerar, o patriarca recebeu um convite amável para permanecer na terra. Nenhuma tentativa foi feita para explicar a base para a prevaricação do capítulo 12; aqui, Abraão explicou que Sara era sua meia-irmã, bem como sua esposa. Todas as características da fonte Is­ raelita do Norte são encontradas no ca­ pítulo 20, levando muitos estudiosos a colocar a passagem em foco nesta clas­ sificação. O uso de um sonho, preocupa­ ção com problemas éticos, a ênfase na função profética de Abraão, tudo aponta para uma fonte diferente da Judia, que aparece no capítulo 12 (von Rad). Embora seja evidente que o capítulo 20 contém material bem diferente do que consta no capítulo anterior e provém, possivelmente, da fonte Israelita do Nor­ te, não está bem claro se ambas as histórias se baseiam no mesmo aconteci­ mento ou em duas ocorrências separa­ das. Muitos eruBitos acham que os três relatos da exposição da esposa de um patriarca (12:10-20; 20:1-18; 26:6-11) são edições diferentes do mesmo evento básico, especialmente os capítulos 12 a 20 (Skinner). Contudo, é bem possível que Abraão tenha tentado a mesma ma­ nobra uma segunda vez, que aparente­ mente funcionara bem da primeira vez. Se ele o fez, a sua integridade era um tanto menor do que comumente se supu­ nha. O fato de ter saído do Egito como indesejável e ter tentado a mesma espé­ cie de fraude mais uma vez dificilmente se ajustava com um caráter reto. 241


Os capítulos 20 a 23 são, em grande parte, da fonte Israelita do Norte, e preservam narrativas da vida de Abraão que se relacionam com sua permanência nas imediações de Berseba. Até então, ele estivera habitando em Hebrom. O fato de ele ter saído de Hebrom pode estar ligado com a destruição de Sodoma e Gomorra. Talvez ele tenha decidido se distanciar mais dessa região. Há a possi­ bilidade de que se iniciou algum comér­ cio entre ele e as cidades da planície. Mais provavelmente, porém, ele estava seguindo o costume de outros nômades do deserto, que raramente permaneciam um longo período no mesmo lugar, pois as condições de pasto se deterioravam, depois de vários anos nas mesmas ime­ diações. 1) Abimeleque Ê Enganado (20:1-7) 1 P a r t iu A b ra ã o d a li p a r a a t e r r a do N eg eb e, e h a b ito u e n tr e C a d e s e S u r; e p e r e ­ g rinou e m G e ra r. 2 E h a v e n d o A b ra ã o dito d e S a ra , s u a m u lh e r: É m in h a ir m ã ; en v io u A b im eleque, r e i de G e ra r, e to m o u a S a ra . 3 D eu s, p o ré m , v eio a A b im eleq u e, e m so ­ nhos, de n o ite, e d isse -lh e : E is q u e e s tá s p a r a m o r r e r p o r c a u s a d a m u lh e r q u e to ­ m a s te ; p o rq u e e la te m m a rid o . 4 O ra , A bi­ m ele q u e a in d a n ão se h a v ia c h e g a d o a e la ; p e rg u n to u , p o is : S en h o r, m a t a r á s p o rv e n ­ tu r a ta m b é m u m a n a ç ã o ju s ta ? 5 N ão m e d isse e le m e s m o : É m in h a ir m ã ? e e la m e s m a m e d is se : E le é m e u ir m ã o ; n a sin c e rid a d e do m e u c o ra ç ã o e n a in o c ê n c ia d a s m in h a s m ã o s fiz isto . 6 Ao q u e D eu s lh e re sp o n d e u e m so n h o s: B e m se i e u q u e n a sin c e rid a d e do te u c o ra ç ã o fiz e ste is to ; e ta m b é m te te n h o im p ed id o d e p e c a r c o n tra m im ; p o r isso n ã o te p e rm iti to c á -la ; 7 a g o ­ r a , p ois, re s titu i a m u lh e r a se u m a rid o , p o rq u e e le é p ro fe ta , e in te rc e d e r á p o r ti, e v iv e r á s ; se , p o ré m , n ão lh a r e s titu ír e s , sa b e qu e c e rta m e n te m o r r e r á s , tu e tu d o o q u e é teu .

Partiu Abraão dali. O lugar de onde ele iniciou a sua viagem certamente não era Moabe, do capítulo anterior. Desta forma, não podemos ter certeza quanto à seqüência cronológica desses aconteci­ mentos. A própria Gerar não ficava entre Cades e Sur. O que significa, provavel­ 242

mente, a declaração do versículo 1 é que Abraão regularmente vivia no Negebe, mas temporariamente se mudara para Gerar. Deus, porém, veio a Abimeleque. “Ê uma audácia de nosso narrador con­ siderar o pagão digno de uma visitação, de fato, de uma conversa pessoal com Yahweh” (von Rad, p. 223). Deus não apenas veio a Abimeleque, mas o rei chamou-o de Adonai (Senhor, v. 4), ter­ mo usado comumente pelos hebreus. Há uma semelhança definida entre o quadro de Abimeleque e o de Melquisedeque, pois a palavra hebraica que significa rei (melek) aparece em ambos os nomes. Embora fosse um monarca não-israelita, Abimeleque aparentemente adorava o mesmo Deus que Abraão, embora com outro nome. As suas idéias de moralida­ de neste caso eram de fato mais elevadas do que as de Abraão. De fato, o seu comportamento, depois da descoberta de que fora enganado, foi da mais elevada qualidade, mesmo me­ diante os padrões cristãos. Ao invés de expulsar Abraão, ele deu-lhe livre acesso a toda a sua terra, tomando providências para que fosse permitido a Abraão salvar as aparências diante da população. Ao dirigir-se a Sara, ele reconheceu Abraão de fato como “irmão” dela (seria sar­ casmo?), e deu-lhe um presente em di­ nheiro que tornaria claro, a qualquer pessoa, que ele não o considerava respon­ sável pela situação perigosa que havia sido criada. Na verdade, ele pagou o mal com o bem, e tudo foi devido ao seu respeito pelo Deus de Abraão, com quem tivera uma conversa íntima em seu so­ nho. Abraão não estava esperando en­ contrar tal piedade em Canaã (20:11). A verdadeira fé às vezes aparece nos luga­ res mais inesperados. Ora, Abimeleque ainda não se havia chegado a ela. Isto é bem estranho. Al­ guns expositores notam que, se este capítulo segue os capítulos 17 e 18 em termos cronológicos, Sara teria cerca de


noventa anos de idade. Ela dificilmente teria atraído o interesse de Abimeleque (von Rad). Todavia, pode ser que ele tivesse se casado com ela por razões alheias à atração física. Os haréns não eram formados apenas por causa dos apelos sexuais, e com jovens. Muitas vezes os reis colecionavam esposas de todas as sortes e idades por causa de uma variedade de razões pessoais e políticas. O casamento de Sara e Abimeleque po­ de ter selado um contrato comercial entre ele e Abraão. Se Sara era avançada em idade, mas ainda atraente, isso podia explicar a demora dele em se aproximar dela. É ainda mais provável que ele sofresse de uma enfermidade que limitas­ se a sua atividade marital (cf. 20:17). Desta forma Deus o impedira de pecar (v. 6). Visto que este capítulo não está ligado aos outros definidamente em uma se­ qüência cronológica, é bem provável que 0 acontecimento registrado aqui tenha ocorrido em época muito mais remota do gue os capítulos 17 e 18. Porque ele é profeta é a primeira refe­ rência do Velho Testamento a um “pro­ feta” . Usualmente os profetas viviam pregando. Aqui, Abraão está interceden­ do. Agora sabemos que esta era uma das funções mais importantes dos primeiros profetas, particularmente ao realizarem tarefas relativas ao culto (cf. Deut. 9:20; 1 Sam. 7:5; 12:19,23; Jer. 7:16; 27:18). Não é incomum haver uma passagem que fale que um homem é um verdadeiro profeta de Deus em época em que o seu comportamento ético foi menos do que ideal. Os profetas canônicos posteriores não teriam nada a ver com um compor­ tamento tão incoerente (cf. Jer. 23). No entanto, é importante notar que Deus" Abimeleque e a Escritura presumem que a função de Abraão como intercessor não dependia de sua perfeição moral, mas do fato de ele ter sido escolhido por Deus para ser o seu instrumento no mundo. Certamente Abraão haveria de pagar por

seus pecados; de fato, ele foi exposto ao escárnio público, que lhe sobreveio quan­ do um rei pagão foi obviamente mais correto do que ele. O convite de Abi­ meleque para Abraão mover-se livremen­ te em seu país expressou a sua convicção de que a presença do patriarca, a despei­ to de suas falhas, seria uma fonte de bênçãos divinas para o reino. Aqui te­ mos, portanto, o papel peculiar de Abraão como “ mediador culpado” (von Rad, p. 223). 2) Abimeleque Restitui (20:8-18) 8 L ev an to u -se A b im eleq u e d e m a n h ã c e d o e, c h a m a n d o a to d o s os se u s se rv o s, faloulh e s a o s ouvidos to d a s e s ta s p a la v r a s , e os h o m en s te m e r a m m u ito . 9 E n tã o c h a m o u A b im eleq u e a A b ra ã o e lh e p e rg u n to u : Que é q u e n o s fiz e ste ? e e m q u e p eq u e i c o n tra ti, p a r a tr a z e r e s so b re m im e so b re o m e u re in o ta m a n h o p e c a d o ? T u m e fiz e ste o que n ão se d e v e fa z e r. 10 P e rg u n to u m a is A b i­ m e le q u e a A b ra ã o : C om q u e in te n ç ã o fiz e s­ te isto ? 11 R esp o n d e u A b ra ã o : P o rq u e p e n ­ se i : C e rta m e n te n ã o h á te m o r d e D eu s n e ste lu g a r ; m a ta r-m e -ã o p o r c a u s a d a m in h a m u lh e r. 12 A lém d isso , e la é re a lm e n te m i­ n h a ir m ã , filh a d e m e u p a i, a in d a q u e n ã o d e m in h a m ã e ; e v eio a s e r m in h a m u lh e r. 13 Q u ando D eu s m e fez s a i r e r r a n te d a c a s a de m e u p a i, e u lh e d isse a e la : E s ta é a g r a ç a q ue m e f a r á s : e m to d o lu g a r ao n d e fo rm o s, dize d e m im : E le é m e u Irm ã o . 14 E n tã o to m o u A b im eleq u e o v e lh a s e b o is, e se rv o s e s e r v a s , e os d e u a A b ra ã o ; e lh e re s titu iu S a ra , s u a m u lh e r; 15 e d isse-lh e A b im e le q u e: E is q u e a m in h a t e r r a e s tá d ia n te d e ti ; h a b ita onde b e m te p a re c e r . 16 E a S a r a d is s e : E is q u e ten h o d ad o a te u irm ã o m il m o e d a s d e p r a t a ; isto te s e ja p o r v é u dos olhos a to d o s os q u e e s tã o c o n tig o ; e p e ra n te todos e s tá s re a b ilita d a . 17 O rou A b ra ã o a D eu s, e D eu s s a ro u A b im eleq u e, e a su a m u lh e r e a s s u a s s e r v a s ; d e m a n e ira q u e tiv e ra m filh o s ; 18 p o rq u e o S en h o r h a v ia fe c h a d o to ta lm e n te to d a s a s m a d r e s d a c a s a d e A b im eleq u e, p o r c a u s a d e S a ra , m u lh e r d e A b ra ã o .

Nesta seção, Abimeleque é retratado como pessoa reta que foi tratada mal por Abraão. O patriarca tentou apresentar algumas desculpas esfarrapadas por ter agido tão desonestamente, mas a fraque­ za de seus argumentos o traiu. A sua 243


resposta às acusações é uma ilustração clássica da tendência dos melhores ho­ mens de racionalizar os seus atos. Para trazeres sobre mim e sobre o meu reino tamanho pecado. Embora Abimeleque não soubesse que Sara já era casa­ da, assim mesmo pecou por levá-la para o seu harém. Fizeste o que não se deve fazer. Abimeleque revela uma consciência mais sensível do que Abraão, a este respeito. Como é fácil as pessoas que foram esco­ lhidas por Deus pensarem que o fato de terem sido escolhidas as torna isentas dos códigos morais que governam as outras pessoasl Esta situação não era devida ao fato de que Abraão não sabia que a sua atitude fora errada. Ele via a situação como uma exceção à regra. Visto que fora escolhido por Deus para abençoar o mundo todo, ele precisava tomar cuidado para não ser morto, e assim ser frustrado todo o propósito de Deus. Como falhou em fé o pai dos que crêem! Certamente o Deus que o havia chamado o havia de proteger. Ela é realmente minha irmã. A tenta­ tiva para se esconder por detrás de uma meia-verdade foi mais enganosa do que uma mentira sem rebuços. Não é difícil demais perceber a falsidade. É a meiaverdade que é mais difícil de identificar. Quando Deus me fez sair errante. Aqui, Abraão estava pondo a culpa de sua situação precária em Deus, bem seme­ lhantemente a Adão, antes dele. Um verbo plural é usado em relação a Deus, e poderia ser traduzido: “Quando deuses me fizeram.” Abraão parecia um pagão conversando com um pagão. Elohim, que é um substantivo plural, raramente é usado com um verbo plural para descre­ ver o Deus de Israel (cf. Gên. 35:7; Êx. 22:9; II Sam. 7:23). Em todo lugar. Isto pode ser uma tentativa de explicar a multiplicidade de histórias em que o patriarca pôs em risco a sua esposa. Mais uma vez, este pode ser 244

um retrato exato do comportamento de Abraão (cf. Kidner). A despeito da defesa obviamente fraca de Abraão, Abimeleque fez quatro coisas inusitadas e totalmente inesperadas: (1) Pagou o mal com o bem, deu a Abraão presentes semelhantes aos dados como dote. Quando cabia a Abraão fazer restituição, Abimeleque o fez por ele. O ato estranho de Abimeleque torna ainda mais notável o fracasso de Abraão em expressar qualquer tristeza pelo que havia feito. Por que Deus não exigiu o arrependimento de Abraão? É possível que esses antigos narradores bíblicos não vissem necessidade de que ele se arrependesse. De fato, pode ser que eles tenham achado que este era um exemplo da astúcia hebraica, necessária para sobreviver em uma terra estranha. Contudo, é provável que eles procuras­ sem dar a impressão de que o embaraço público foi castigo suficiente, e as descul­ pas desajeitadas, uma admissão óbvia da culpa. (2) Ao chamar Abraão de “irmão” de Sara, Abimeleque lhe deu o dinheiro que ordinariamente era pago aos parentes de uma mulher quando ela era injuriada (cf. Êx. 22:15 e s.; Deut. 22:23 e ss.). Ao chamar Abraão de “ irmão” dela, ele foi capaz de evitar a idéia ofensiva de que o patriarca estava sendo recompensado por sua astúcia no episódio. Como “ ma­ rido” , Abraão não fora injuriado; ele havia injuriado Abimeleque. Como “ir­ mão” , ele podia receber restituição pela ofensa. (3) Abimeleque deu a Abraão liberda­ de de se estabelecer onde quer que dese­ jasse, em sua terra. Pode-se pensar que ele teria ficado feliz em saber que o patriarca abandonara para sempre o seu país. De fato, o convite pode ser inter­ pretado como significando que ele devia sair da cidade e procurar pastos mais distantes, no território do reino. Contu­ do, ele, provavelmente, estava sendo sin­ cero. Abimeleque respeitava tanto o


Deus de Abraão, que recebia com prazer a presença de alguém a quem Deus havia escolhido, embora não pudesse confiar nesse alguém! (4) Abimeleque também declarou que Sara estava livre de qualquer culpa. Isso te seja por véu dos olhos é expressão literal que, provavelmente, significa que aquilo a protegeria de qualquer crítica. Desta forma, ele estava declarando que não a considerava culpada de qualquer ofensa. Como juiz supremo da terra, ele a havia declarado inocente. Até que ponto o comportamento de Abimeleque era devido a um espírito gra­ cioso e até que ponto a uma forma engenhosa de “ amontoar brasas de fogo” sobre a cabeça de Abraão, é impossível de determinar. Sem dúvida, entretanto, a mão de Deus estava operando aqui, preparando de maneira estranha e mis­ teriosa o povo de Israel para a vinda do Mediador lusto.

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12 Tensão Entre Isaque e Ismael ( 21 : 1- 21)

Esta seção continua a seqüência de Berseba-Gerar, dos capítulos 20 a 23, que provém primordialmente da fonte Israelita do Norte. Os cinco primeiros versículos são geralmente designados como fonte Sacerdotal, tentando a mão de um redator ligar 20:18 com 21:1, ao colocar “o Senhor” (Yahweh) no lugar do original “Deus” (Elohim). Contudo, é bem possível que o escritor Sacerdotal, que conhecia bem o nome de Yahweh, o tivesse usado ocasionalmente, embora ordinariamente tivesse o cuidado de não ser anacrônico. As marcas da fonte Sacerdotal se en­ contram claramente em 21:1-5. Há uma referência à circuncisão no oitavo dia, que continua o relato Sacerdotal do capí­ tulo 17. Chama-se a atenção para a idade de Abraão. Elohim é o nome costumeiro para a divindade, nesta passagem (v. 2 e 4).

A presença da fonte Israelita do Norte é sugerida pelo fato de que um relato paralelo da fonte Judia ocorre no capítu­ lo 16. Ali, Agar estava grávida; aqui, Ismael já nasceu. Em ambas as narrati­ vas um anjo a tranqüilizou, e ela refrescou-se num poço. As características típi­ cas da fonte Israelita do Norte encon­ tradas aqui são: (1) preocupação com problemas éticos (Abraão relutou em mandar Agar embora, enquanto, no cap. 16, ele deixou Sara fazer o que desejava); (2) preocupação com os menos privile­ giados (Agar era a escrava indefesa, que, aparentemente, não fizera nada de erra­ do); (3) uma ênfase na transcendência de Deus (o anjo fala do céu, em vez de encontrá-la na terra, como no cap. 16); (4) o uso de Elohim como nome da divin­ dade. Será que temos duas edições diferen­ tes do mesmo evento, relatos que se desenvolveram em diferentes direções, a partir de uma fonte comum? Skinner pensa que assim é, mas não pode haver uma conclusão definitiva a respeito deste assunto. É bem possível que Agar tenha sido expulsa para o deserto tanto antes quanto depois do nascimento de Ismael, e que o fato de a fonte Israelita do Norte ter lembrado esse episódio tenha sido colorido pela narrativa da fonte Judia. 1) O Nascimento de Isaque (21:1-7) 10 S e n h o r v isito u a S a ra , c o m o tin h a d ito , e lh e fez com o h a v ia p ro m e tid o . 2 S a ra c o n ceb eu , e d e u a A b ra ã o u m filho n a s u a v elh ice, a o te m p o d e te rm in a d o , d e q u e D eu s lh e f a l a r a ; 3 e A b ra ã o p ô s no filho q u e lh e n a s c e r a , q u e S a r a lh e d e ra , o n o m e d e I s a ­ q u e. 4 E A b ra ã o c irc u n c id o u a se u filho I s a ­ q u e, q u a n d o tin h a oito d ia s , co n fo rm e D eu s lh e o rd e n a r a . 5 O ra , A b ra ã o tin h a c e m a n o s, q u an d o lh e n a s c e u Is a q u e , se u filho. 6 P e lo q u e d isse S a r a : D eu s p re p a ro u riso p a r a m im ; to d o a q u e le q u e o o u v ir, se r i r á c o m i­ go. 7 E a c re s c e n to u : Q u em d ir ia a A b ra ã o q u e S a ra h a v ia d e a m a m e n ta r filh o s? No e n ta n to , lh e d e i u m filho n a s u a v e lh ic e .

As tentativas mais antigas para identi­ ficar a narrativa da fonte Judia, nos dois 245


primeiros versículos (cf. Skinner), foram abandonadas, em face da convicção mais recente de que as redundâncias e outras peculiaridades são devidas ao estilo Sa­ cerdotal propriamente dito e a revisões editoriais posteriores. No versículo 6, podemos ter a conota­ ção Israelita do Norte do nome de “ Isaque” . Todos rirão com Sara por causa do acontecimento incrível do nascimento de um filho, para os dois, em sua idade avançada. A fonte Sacerdotal havia rela­ cionado esse nome com a incredulidade de Abraão (17:17), enquanto o escritor da fonte Judia lembrou-se da increduli­ dade de Sara (18:12). Von Rad considera o significado como “possa a divindade sorrir (sobre a criança)” , mas, para con­ seguir este significado, ele precisa con­ jecturar que ’E l (divindade) perdeu-se desse nome. O significado literal de “Isaque” , como o temos agora, é “riso” ou “um sorriso” . As gerações posteriores encontraram, nesta palavra, significados que, possivelmente, eram desconhecidos para os que deram nome à criança. Não obstante, quem pode provar que as três conotações sugeridas pela Escritura não estavam presentes originalmente? O nas­ cimento dè I saque foi um acontecimento incongruente, de qualquer perspectiva possível. A maioria das tentativas moder­ nas de se definir o seu nome ignoram esta acepção do nome original — a natureza surpreendente do nascimento propria­ mente dito. 2) A Inveja de Sara (21:8-14) 8 C re sc e u o m en in o , e foi d e s m a m a d o ; e A b raão fez u m g ra n d e b a n q u e te n o d ia e m q u e Is a q u e foi d e s m a m a d o . 9 O ra , S a ra v iu b rin c a n d o o filho d e A g a r a e g íp c ia , q u e e s ta d e r a à luz a A b ra ã o . 10 P e lo q u e d isse a A b ra ã o : D e ita fo ra e s ta s e r v a e o se u filh o ; p o rq u e o filho d e s ta s e r v a n ão s e r á h e rd e iro com m e u filho, co m Is a q u e . 11 P a re c e u isto b e m d u ro a o s olhos d e A b ra ã o , p o r c a u s a de se u filho. 12 D eu s, p o ré m , d isse a A b ra ã o : N ão p a r e ç a isso d u ro a o s te u s olhos p o r c a u s a do m oço e p o r c a u s a d a tu a s e r v a ; e m tudo o q ue S a ra te diz, o uve a s u a voz;

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p o rq u e e m Is a q u e s e r á c h a m a d a a tu a d e s ­ c e n d ê n c ia . 13 M a s ta m b é m do filho d e s ta s e r v a fa r e i u m a n a ç ã o , p o rq u a n to ele é d a tu a lin h a g e m . 14 E n tã o , se le v a n to u A b raã o d e m a n h ã cedo e , to m a n d o p ã o e u m o d re de á g u a , os d e u a A g a r, pondo-os so b re o o m b ro d e la ; ta m b é m lh e d eu o m en in o e d e s p e ­ diu -a ; e e la p a r tiu e foi a n d a n d o e r r a n te pelo d e se rto de B eer-S eb a.

A época costumeira para o desmame era mais ou menos aos três anos de idade. Gênesis 17:24,25 (fonte Sacerdo­ tal) diz que Abraão tinha noventa e nove anos de idade quando foi circuncidado, e Ismael tinha treze. Agora Abraão tinha pelo menos cem, e Ismael quatorze. Se Isaque foi desmamado aos três anos, Ismael devia ter dezessete! Devido à avançada idade de Sara, contudo, Isa­ que, provavelmente, foi desmamado mais cedo. Sara viu brincando o filho de Agar. O nome de Ismael jamais é mencionado neste capítulo, embora haja um jogo de palavras com o seu nome, que significa “Deus ouviu” (v. 17). “Caçoava de Isa­ que” , é o que diz a Versão Atualizada da SBB. Deste verbo é que provém a pala­ vra Isaque. Falta, ao texto hebraico, a expressão “ de Isaque” , que aparece na LXX e na Vulgata. O problema é o significado do particípio. O sentido cos­ tumeiro do verbo é “brincar” , mas pode significar rir de alguém, insultar ou zom­ bar, como em 39:14,17, onde a esposa de Potifar acusou José. Nessa passagem a preposição be (sobre, a respeito de) é usada com o verbo. Aqui ela não ocorre, pois o verbo não tem nenhum objeto. Os rabis desenvolveram a teoria de que nesta passagem esta palavra não significa zombar, citando Êxodo 32:6, II Samuel 2:14 e Provérbios 26:19 como evidência de que este termo tinha uma conotação pejorativa. O apóstolo Paulo, quando se referiu a Ismael perseguindo Isaque, estava ba­ seando a sua opinião na interpretação rabínica. O fato de que eles tinham uma compreensão adequada da palavra é uma


opção viável, visto que as evidências pre­ sentes não são conclusivas. Ismael era suficientemente crescido para saber que Isaque o substituíra, e deve ter desen­ volvido algum ressentimento. É o contex­ to, e não a palavra isoladamente, que sugere o significado proposto pelos rabis. Pareceu isto bem duro aos olhos de Abraão. Muito antes, até mesmo de Isa­ que nascer, Abraão aprendera a amar Ismael, e esse amor não havia diminuído. O filho de Agar era também uma garan­ tia extra do cumprimento da promessa, no caso de que algo acontecesse com Isaque. Ouve a sua voz. Isto era difícil para um homem na época de Abraão. No capítulo 16, Sara apelara para ele, e ele lhe dera liberdade para agir. Aqui, ela exigiu o que desejava, e Abraão não estava acos­ tumado a receber ordens dela. Além disso, as exigências dela eram desapieda­ das e desumanas. O fato de Deus ficar do lado dela foi bastante inesperado. No Velho Testamento, ele geralmente está do lado dos oprimidos. Desta vez, po­ rém, ele está preparando Abraão para o teste do capítulo 22. Se Ismael ainda fosse uma opção para Abraão, o chama­ do para sacrificar Isaque não seria tão severo. Pondo-os sobre o ombro dela; também lhe deu o menino. Outras versões (a LXX e a Siríaca) dizem claramente que o menino foi colocado no ombro dela (cos­ tas), juntamente com o odre de água. O hebraico é ambíguo. Isto pode ser devido aos problemas que os editores en­ frentaram em relação à idade de Ismael. Se ele tinha quinze anos, dificilmente ela poderia tê-lo carregado.

m e n in o ; e o a n jo d e D e u s, b ra d a n d o a A g a r d esd e o céu , d isse -lh e : Q ue te n s , A g a r? n ã o te m a s , p o rq u e D e u s o u v iu a voz do m en in o d e sd e o lu g a r o n d e e s tá . 18 E rg u e -te , le v a n ta o m e n in o e to m a-o p e la m ã o , p o rq u e d ele fa r e i u m a g ra n d e n a ç ã o . 19 E a b riu -lh e os olhos, e e la .v iu u m p o ço ; e foi e n c h e r de á g u a o o d re e d e u d e b e b e r a o m en in o . 20 D eu s e s ta v a co m o m en in o , q u e c re s c e u , e, m o ra n d o no d e se rto , to m o u -se fle ch e iro . 21 E le h a b ito u n o d e se rto d e P a r ã ; e s u a m ã e to m o u-lh e u m a m u lh e r d a t e r r a do E g ito .

Levantou a sua voz. O hebraico diz que ela levantou a sua voz, mas seria estranho a passagem dizer que ela levan­ tou a voz e Deus ouviu a voz do menino (v. 17), e não a dela. Aparentemente, ambos estavam soluçando. Nenhum de­ les estava orando, mas Deus ouviu o seu clamor de tristeza como se fosse uma oração. Toma-o pela mão, foi dito a Agar, porque o futuro dele estava nas mãos dela. Não tendo pai, ele precisaria da constante devoção dela. Note-se que Agar teve que conseguir-lhe casamento, dever que geralmente era o pai que de­ sempenhava. Naturalmente, ela se voltou para a sua terra natal, o Egito, procuran­ do uma esposa para o seu filho. 13. Pacto com Abimeleque (21:22-34)

22 N aq u ele m e s m o te m p o A b im eleq u e, co m F ic o l, o ch efe do se u e x é rc ito , falo u a A b ra ã o , d iz e n d o : D eu s é contigo e m tu d o o que fa z e s ; 23 a g o ra , p o is, ju r a -m e a q u i p o r D eu s q u e n ão te h a v e rá s fa ls a m e n te c o m i­ go, n e m co m o m e u filho, n e m co m o filho do m e u filh o ; m a s , seg u n d o a b e n e fic ê n c ia que te fiz, m e f a r á s a m im , e à t e r r a onde p e re g r in a s te . 24 K esp o n d eu A b ra ã o : E u j u ­ r a r e i. 25 A b raã o , p o ré m , re p re e n d e u a A b i­ m e leq u e p o r c a u s a d e u m p oço d e á g u a , que os se rv o s de A b im eleq u e h a v ia m to m a d o à fo rç a . 28 R esp o n d eu -lh e A b im e leq u e : N ão se i q u e m fez is s o ; n e m tu m o fiz e ste sa b e r, 3) Promessa Divina a Agar (21:15-21) n e m ta m p o u c o ouvi e u f a la r n isso , sen ão 15 E c o n su m id a a á g u a do o d re , A g a r h o je . 21 T om o u , p o is, A b ra ã o , o v e lh a s e bois, d eito u o m e n in o d eb aix o de u m dos a rb u s to s , e os d e u a A b im e le q u e ; a s s im fiz e ra m e n tre 16 e foi a s s e n ta r-s e e m fre n te d ele, a b o a si u m p a c to . 28 P ô s A b ra ã o , p o ré m , à p a rte , d is tâ n c ia , com o a de u m tiro d e a r c o ; p o r ­ s e te c o rd e ira s do re b a n h o . 29 E p e rg u n to u que d iz ia : Q ue n ã o v e ja eu m o r r e r o m en in o . A b im eleq u e a A b ra ã o : Q ue sig n ific a m e s ta s A ssim s e n ta d a e m fre n te d e le , le v a n to u a s e te c o rd e ira s q u e p u se s te à p a r te ? 30 R e s ­ su a voz e ch o ro u . 17 M as D eu s ouviu a voz do po ndeu A b ra ã o : E s ta s s e te c o rd e ira s re c e -

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b e r á s d a m in h a m ã o p a r a q u e m e s ir v a m de te s te m u n h o d e q u e e u c a v e i e ste poço. 31 P e ­ lo q ue c h a m o u a q u e le lu g a r B ee r-S e b a , p o r­ qu e a li o s d o is ju r a r a m . 32 A ssim fiz e ra m u m p a c to e m B eer-S eb a. D epois se le v a n ta ­ r a m A b im eleq u e e F ic o l, o c h e fe do seu ex é rc ito , e to r n a r a m p a r a a t e r r a dos filis ­ te u s . 33 A b ra ã o p la n to u u m a ta m a r g u e ir a e m B eer-S eb a, e Invocou a li o n o m e do S e­ n h o r, o D eu s e te rn o . 34 £ p e re g rin o u A b ra ã o n a t e r r a dos filiste u s m u ito s d ia s.

Alguns expositores encontram, nesta seção, duas narrativas de pactos celebra­ dos: um selado pelo presente de Abraão, de ovelhas e bois, dando, desta forma, ao nome de Beer-Seba o significado de “Po­ ço do Juramento” (v. 22-24,27,31), e o outro, confirmado pelo presente de sete cordeiras, conferindo, desta forma, a Beer-Seba o significado de “Poço das Sete” (v. 25,26 28-30,32). Gunkel insis­ tiu que o último relato era da fonte Judia, mas von Rad e comentaristas mais recen­ tes asseveram que toda a passagem deri­ va da fonte Israelita do Norte, que con­ tém as duas narrativas do pacto. Speiser propõe que a história não requer recons­ trução tão radical, e a considera como ocorrendo em uma só peça. Houve uma cerimônia com duas partes. Na primeira parte, Abimeleque pediu a boa vontade de Abraão, e isso foi selado com os presentes de Abraão. Na outra, Abraão pediu de Abimeleque o reconhecimento de seus direitos sobre o poço de BeerSeba, e presenteou-o com as sete cordei­ ras como oferta de paz. A cerimônia desenrolou-se em dois estágios, porque um precisava tratar do problema de Abime­ leque, e o outro, o problema de Abraão. O aspecto estranho do caso, entretanto, foi que Abraão teve que fazer presentes em ambas as vezes. Geralmente, havia troca de presentes. Aqui, Abraão, o pere­ grino, reconhecia a soberania de Abi­ meleque. Segundo a benevolência que te fiz sig­ nifica, literalmente, “ mas de acordo com a chesed (lealdade) que pratiquei para com você” . Esta é uma declaração bas­ tante incomum. A palavra hebraica che­ 248

sed, traduzida como “bondade” , “ ama­ bilidade” ou “longanimidade” , é pala­ vra geralmente usada exclusivamente em termos de relações com o pacto entre Yahweh e Israel. É amor no contexto do pacto. Israel praticava chesed para com Deus, e Deus, para com Israel. Os he­ breus tinham chesed uns para com os outros, mas não para com os gentios, nem se diz que Deus tinha chesed para com os gentios. No entanto, aqui se faz menção de um relacionamento de chesed entre um rei gentio e Abraão. De fato, a fonte Israelita do Norte é sempre generosa para com Abimeleque. Talvez o escritor, estando fora de Judá, fosse geralmente mais condescendente para com os gentios. Ele sabia o que era ser rejeitado por não estar identificado com as instituições de Jerusalém. Ele também estava sendo profético, ao retra­ tar Abimeleque, tanto aqui como no capítulo 20, como sendo, em muitas ma­ neiras, moralmente superior a Abraão. Talvez ele estivesse dizendo que freqüen­ temente é verdade que os escolhidos de Deus são ultrapassados em virtude por aqueles que estão fora da fé. Nem tu mo fizeste saber. Com que freqüência um pastor tem feito esta ob­ servação, quando o povo se queixa a ele de negligência acerca de fatos de que ele não está sabendo! Como pode ele saber, se não lhe contarem? Invocou ali o nome do Senhor, o Deus etemo, é geralmente atribuído à fonte Judia, mas este é, na verdade, um dos conceitos mais antigos de Gênesis. Quan­ do Deus é chamado de ’El ‘Olam (Deus Sempiterno), significa que ele é o Deus do passado e do futuro. ‘Olam significa, literalmente, “oculto” , e se refere tanto ao passado quanto ao futuro ocultos, tão distantes quanto se possa imaginar. Esta referência pode significar que Deus já era adorado com este nome no santuário de Beer-Seba. Abraão verificou que o Deus de Beer-Seba era o seu Deus, e incorporou este conceito na estrutura


da adoração de Yahweh. Desta forma, os hebreus não conquistaram apenas a terra de Canaã; apropriaram-se dos as­ pectos da religião cananéia, que eram coerentes com a deles. Pode ser que Abraão não tivesse pensado em Yahweh como “eterno” até que notou que o povo de Beer-Seba estava chamando Deus de ’El ‘Omam. Então ele percebeu que Yah­ weh, na verdade, merecia também esse título. Isto não significa que ele adotou costumes cananeus de culto, mas que ele pode ter feito concessões aos seus concei­ tos, quando coerentes com a sua fé, para enriquecer ainda mais o seu entendi­ mento de Deus. Na terra dos filisteus. Esta declaração pode ser editorial. Von Rad declara-a “um grosseiro anacronismo” (p. 232). Os filisteus só invadiram a Palestina de­ pois da época de Abraão. Contudo, este anacronismo não seria um erro grosseiro. O escritor podia saber que os filisteus não estavam ali na época de Abraão, mas usou esta expressão para identificar a região, para os seus leitores, em uma época respectiva. 14. O Sacrifício de Isaque (22:1-24) Este capítulo expressa os conceitos mais profundos encontrados nas narrati­ vas patriarcais. Ele é elaborado mais cuidadosamente do que qualquer passa­ gem de Gênesis, exceto o capítulo 1. A sua narrativa faz inquirições à mais profunda compreensão do relacionamen­ to de Deus com o homem. Isaque não era apenas o filho amado de Abraão; ele representava o objetivo de toda a vida dele e todas as promessas que Deus havia feito a ele. Se ele entregasse Isaque a Deus, não restaria mais nada. O que Deus dera, parecia que agora estava to­ mando de volta. Não se esperava que Abraão entendesse; esperava-se apenas que ele obedecesse. Esta narrativa é atribuída à fonte Is­ raelita do Norte por quase todos os erudi­ tos. Há todas as indicações de que esta

pode ser a obra desse escritor. Deus fala do céu em seu anjo; Elohim (Deus) é o termo costumeiro que designa a divin­ dade; e a história é profundamente teo­ lógica. A retratação vívida dos aconteci­ mentos, em a narrativa, contudo, é mais semelhante à narrativa da fonte Judia. Isto leva Speiser a sugerir que esta his­ tória originalmente era material da fonte Judia, que foi modificado pela substitui­ ção de Yahweh (Senhor) por ’Elohim (Deus). É provável que o escritor da fonte Israelita do Norte, trabalhando com perí­ cia adicional, por causa de seu maior cuidado, produziu, aqui, sob a direção de Deus, a sua obra-prima. O uso de “o Senhor” , neste capítulo, é devido à obra de um redator, ou pode revelar o que ficou implícito acima, embora a pre­ ferência do nome de Elohim, para Deus, não seja adversa ao uso de Yahweh. 1) A Fidelidade de Abraão (22:1-14) 1 S u ced eu , d ep o is d e s ta s c o isa s, q u e D eu s p ro v o u a A b raã o , d izen d o -lh e: A b ra ã o t E e s te re s p o n d e u : E is-m e a q u i. 2 P ro s se g u iu D e u s: T o m a a g o r a o te u filho, o te u ú nico filho, Is a q u e , a q u e m a m a s ; v a i à t e r r a de M o riá , e o ferece-o a li e m h o lo cau sto so b re u m dos m o n te s q u e te h ei d e m o s tr a r . 3 L e ­ v an to u -se , p o is, A b raã o , d e m a n h ã cedo, a lb a rd o u o se u ju m e n to , e to m o u consigo dois dos se u s m o ç o s e Is a q u e , se u filh o ; e, te n d o c o rta d o le n h a p a r a o h o lo cau sto , p a r ­ tiu p a r a i r ao lu g a r q u e D eu s lh e d is s e ra . 4 Ao te rc e iro d ia le v a n to u A b ra ã o os o lhos, e viu o lu g a r de lo n g e. 5 E d is se A b ra ã o a se u s m o ç o s : F ic a i-v o s a q u i co m o ju m e n to , e e u e o m a n c e b o ire m o s a té lá ; d ep o is d e a d o r a r ­ m o s, v o lta re m o s a v ó s. 6 T o m o u , p o is, A b ra ã o a le n h a do h o lo cau sto e a p ô s so b re Is a q u e , se u filh o ; to m o u ta m b é m n a m ã o o fogo e o cu te lo , e fo ra m c a m in h a n d o ju n to s. 7 E n tã o d isse Is a q u e a A b ra ã o , se u p a i: M eu p a i! R esp o n d e u A b ra ã o : E is-m e a q u i, m e u filho! P e rg u n to u -lh e Is a q u e : E is o fogo e a le n h a , m a s o nde e s tá o c o rd e iro p a r a o h o lo ­ c a u sto ? 8 R esp o n d eu -lh e A b ra ã o : D eu s p r o ­ v e r á p a r a si o c o rd e iro p a r a o h o lo cau sto , m e u filho. E os d o is ia m c a m in h a n d o ju n to s. 9 H av en d o e le s c h e g a d o a o lu g a r q u e D eu s lh e d is s e ra , ed ific o u A b ra ã o a li o a l t a r e pôs a le n h a e m o r d e m ; e a m a r r o u Is a q u e , se u filho, e o d eito u so b re o a l t a r e m c im a d a le n h a . 10 E , e ste n d e n d o a m ã o , p eg o u no

249


cutelo p a r a im o la r a seu filho. 11 M a s o a n jo do S en h o r lh e b ra d o u d e sd e o c é u , e d is s e : A b raão , A b raão ! E le re s p o n d e u : E is-m e a q u i. 12 E n tã o d isse o a n jo : N ão e s te n d a s a m ã o so b re o m a n c e b o , e n ã o lh e f a ç a s n a d a ; p o rq u a n to a g o ra se i q u e te m e s a D e u s, v isto q ue n ão m e n e g a s te te u filho, o te u ú nico filho. 13 N isto le v a n to u A b ra ã o os olhos e olhou, e e is a t r á s d e s i u m c a rn e iro e m b a r a ­ çad o p elo s c h ifre s n o m a to ; e foi A b ra ã o , to m o u o c a rn e iro e o o fe re c e u e m h o lo cau sto e m lu g a r de se u filho. 14 P e lo q u e c h a m o u A b raão à q u e le lu g a r J e o v á -J l r é ; d onde se diz a té o d ia d e h o je : No m o n te do S en h o r se p ro v e rá .

Esta narrativa começa alertando o lei­ tor para o fato de que esta foi uma prova a que Deus estava para submeter Abraão. Não foi uma prova que Abraão apresen­ tou a si mesmo. Provavelmente, Abraão já se havia perguntado se amava o seu Deus tanto quanto os seus vizinhos pa­ gãos amavam os seus, quando lhes ofe­ reciam os seus filhos. Não estamos certos de como os sacrifícios humanos eram comuns naquela época, mas há evidên­ cias de que eles eram praticados (cf. Speiser). Embora Abraão pudesse ter-se feito pergunta tão difícil de responder, um homem dirigido e abençoado por Deus de maneira tão notória teria que ouvir do próprio Deus o imperativo para fazer tal sacrifício. Como podia o Deus de amor revelado por Jesus Cristo ter pedido tal coisa de um homem? Hoje em dia, ele certamente não faria isto, pois sabemos, através da própria lei de Israel e dos seus profetas, que certamente se basearam no resultado deste acontecimento, que o sacrifício hu­ mano não ê aceitável a Deus. Na época de Abraão não é provável que houvesse uma compreensão clara da atitude de Deus para uma oferta dessas. De fato, por meio desta ordem a Abraão, Deus, mais tarde, seria capaz de demonstrar positivamente que não queria esse sacri­ fício de forma alguma. Ele só desejava que Abraão estivesse disposto a fazê-lo. Embora Abraão não tenha demons­ trado nenhuma percepção deste fato, na época (I Ped. 1:19,20), Deus certamente 250

tinha em mente o que um dia realizaria através de seu Filho amado, Jesus Cristo. O mundo um dia entenderia melhor o coração de Deus, quando o visse permi­ tindo o sacrifício de seu próprio Filho. O que Deus não permitiu que um pai terreno fizesse, ele mesmo fez. A prova registrada aqui é diferente das outras registradas em Gênesis. No capí­ tulo 12, Deus pediu a Abraão para deixar o seu passado. Isto ele fez sem hesitação. Nos anos que se seguiram, Deus esperou que ele deixasse a sua ansiedade a respei­ to do fato de que Deus iria cumprir a sua palavra. No capítulo 15, ele passou nessa prova. Agora, ele lhe pedia que abrisse mão de seu futuro. Esta, embora fosse de todas a decisão mais dolorosa, ele tam­ bém estava disposto a tomar. Confiando em Deus, ele seguiria para onde ele o dirigisse, pois o futuro estava em Suas mãos. O teu único filho, Isaque. Que dizer de Ismael? Para Abraão, não havia voltar atrás. Este era, da parte de Deus, um lembrete a esse respeito. E também nos permite ver que Deus compreendia ple­ namente a agonia que esta decisão causa­ ria a Abraão. Vai à terra de Moriá. O único indício que temos a respeito da localização desta região é a declaração que consta em II Crônicas 3:1, de que o Templo de Salomão foi construído sobre o Monte Moriá. Contudo, o cronista relaciona esta localização com o encontro de Davi com o Senhor naquele lugar. Se o cronis­ ta soubesse que a prova de Abraão tam­ bém tivera lugar ali, não a teria mencio­ nado também? Por outro lado, ele sabia que os seus leitores já sabiam disso, pois, na sua época, o Pentateuco já estava completo. Levantou-se, pois, Abraão de manhã cedo, antes que Sara acordasse. Ele não ousava demorar-se. Voltaremos a vós. No verbo, é encon­ trada a mesma pessoa que na expressão anterior: “nós voltaremos a vós” — em


outras palavras, Abraão e Isaque volta­ riam. O escritor do livro de Hebreus devia ter este fato em mente, quando declarou: “Julgando que Deus era pode­ roso para até dos mortos o ressuscitar” (Heb. 11:19). Deus havia prometido a Abraão que seria através de Isaque que a promessa seria cumprida. Agora Deus estava pedindo a Abraão para entregarlhe Isaque, e parecia que este era o fim também da promessa. Mas Abraão con­ fiava que Deus cumpriria a sua promes­ sa. Como poderia isto acontecer, se Isa­ que estivesse morto? Ele não o sabia, mas cria que, de alguma forma, quando voltasse daquela montanha, ao descê-la, Isaque haveria de estar com ele: “volta­ remos a vós.” Se Isaque precisava mor­ rer, isso seria o prelúdio de outro milagre de Deus. Ou será que estas palavras foram usa­ das simplesmente para tranqüilizar os seus escravos, que a essa altura certa­ mente já estavam esperando o pior? Esta é a única alternativa da insinuação per­ cebida pelo autor do livro de Hebreus. A sua notável percepção continua sendo o melhor comentário deste versículo. A pôs sobre Isaque, seu filho. Isaque era suficientemente crescido para carre­ gar a lenha montanha acima e para se preocupar com o animal que precisariam para o sacrifício. Ele tinha, provavel­ mente, nove anos, no mínimo. Deus proverá. Isto não significa que Abraão previa que seria isentado de sua obrigação. Ele simplesmente falou as pa­ lavras de confiança, que seriam cumpri­ das além de sua compreensão. Com uma certeza nascida da coragem de Abraão, os pais fiéis, através dos séculos, têm usado essas mesmas palavras para con­ fortar os seus filhos. Agora sei que temes a Deus. “Temer” a Deus, no Velho Testamento, significa segui-lo em absoluta obediência (Gên. 20:11; 42:18; II Reis 4:1; Is. 11:2; Prov. 1:7; Jó 1:1). O que ele diz você fará. O que desejaria dizer o anjo (que realmen­

te era Deus, pois Abraão não havia nega­ do o seu filho “ de mim”), ao falar: “Agora sei...” ? Será que ele não sabia antes? Deus não conhece todas as coi­ sas? O verbo usado significa “conhecer por experiência” , e assim as palavras podem significar que Deus agora vira Abraão fazer, na verdade, o que sabia que estava em seu coração. Os atos de Abraão haviam confirmado a confiança que Deus depositava nele. Eis atrás de si um carneiro. Ele estive­ ra ali o tempo todo, mas se Abraão o tivesse visto antes, não teria feito diferen­ ça. Deve-se notar que Deus não pediu para Abraão sacrificar o cordeiro; ele apenas lhe disse para não sacrificar Isa­ que. O sacrifício do cordeiro foi a reação de Abraão à graça de Deus, pois ele o ofereceu em lugar de seu filho. O nome do lugar onde a prova ocorreu é citado como Yhaweh Yireh, “o Senhor proverá” (cf. 22:8, onde o mesmo verbo é usado; também significa ver, mas não neste contexto). É estranho que o autor não tenha dado o nome de um santuário mais familiar a esta história. Von Rad e outros ficam perplexos com isto, pois estas histórias geralmente se desenvol­ vem e são preservadas em torno de um santuário. Obviamente, esta não teve tal origem. Não é a história de um santuário cuja localização original se perdeu. Ela nunca esteve ligada com um santuário em particular. O escritor pretendia dei­ xar toda a narrativa no nível de mis­ tério, em que ninguém ousa entrar. A sua falta de localização definida é para­ lela ao mistério do lugar de sepultamento de Jesus. Ele era sagrado demais para ser secularizado por peregrinos curiosos. A mudança do verbo, nesse provérbio, do ativo para o passivo, indica que o ditado era usado em contextos religiosos à época do escritor. Talvez a sua relu­ tância de mencionar Jerusalém, mesmo neste contexto, devia-se ao fato de que esta é a fonte Israelita do Norte. Para ele, 251


a aplicação da verdade do provérbio não se limitava a Judá. 2) A Promessa Renovada (22:15-19) 15 E n tã o o a n jo do S en h o r b ra d o u a A b ra ã o p e la s e g u n d a v e z d e sd e o céu , 16 e d is s e : P o r m im m e s m o ju r e i, diz o Senhor, p o rq u a n to fiz e ste isto , e n ã o m e n e ­ g a s te te u filho, o te u ú nico filho, 17 q u e d e v e ­ r a s te a b e n ç o a re i, e g ra n d e m e n te m u ltip li­ c a re i a tu a d e sc e n d ê n c ia , com o a s e s tre la s do c éu , e com o a a r e i a q u e e s tá n a p r a i a do m a r ; e a tu a d e sc e n d ê n c ia p o s s u irá a p o rta dos se u s in im ig o s ; 18 e e m tu a d e sc e n d ê n c ia s e rã o b e n d ita s to d a s a s n a ç õ e s d a t e r r a ; p o rq u a n to o b e d e c e ste à m in h a voz. 19 E n tã o voltou A b ra ã o a o s se u s m o ço s e , le v a n ta n d o se, fo ra m ju n to s a B e e r-S e b a ; e A b ra ão h a b ito u e m B eer-S eb a.

Esta passagem, dizem alguns intérpre­ tes, é obra de um redator, especialmente os versículos 15 a 18. A menção de uma segunda vez nos alerta para a possibili­ dade de uma outra perícope. Todavia, a ocasião era ideal para uma renovação da promessa. Quer ela tenha sido ou não mencionada na primeira parte do capítu­ lo, certamente é apropriada. Aqui, os superlativos vão além de qualquer outra promessa anterior. A vitória em Moriá foi maior do que a conquista em Dã (Gen. 14). Por mim mesmo jurei. Esta é a única vez que esta expressão ocorre no livro de Gênesis, embora seja usada pelos profe­ tas. Deus jurou por si mesmo, pois não havia outro mais alto por quem jurar. Ele não precisava fazer isto para tom ar a promessa mais válida, mas para enfati­ zar a sua natureza compulsória em rela­ ção a si próprio. Não houve outras condi­ ções, pois a prova estava terminada. Diz o Senhor é uma expressão comum quando os profetas falam em lugar de Deus, mas aqui ela ocorre no meio de um discurso do próprio Deus, o que é incomum. Ela foi colocada aqui também para enfatizar a finalidade da promessa feita a Abraão. Desta vez, Deus deveras o abençoará. Pela primeira vez é-lhe asse­ gurado que os seus descendentes não 252

apenas impressionarão os seus inimigos, mas os vencerão, possuirão a porta deles. Em Mateus 16, Jesus aplica esta promes­ sa à Igreja, na batalha contra o Hades. Quando Abraão voltou a Beer-Seba, fica-se pensando o que ele disse a Sara. Nada se diz a respeito dos pensamentos dela durante aquela misteriosa semana. De fato, o capítulo seguinte apresenta o relato de sua morte. Poderia ela estar relacionada com aquelas horas de incer­ teza? Uma tradição judaica posterior diz que, quando Abraão lhe disse o que havia acontecido, ela emitiu sete gritos e morreu! 3) Notícias da Família (22:20-24) 20 D ep o is d e s ta s c o is a s a n u n c ia ra m a A b ra ão , d izen d o : E is q u e ta m b é m M Uca te m d a d o à luz filhos a N a o r, te u ir m ã o ; 21 Uz o se u p rim o g ê n ito , e B uz se u irm ã o , e Q uem uel, p a i d e A rão , 22 e Q u esed e, H azo , P ild a s, J id la fe e B etu el. 23 E B e tu el g e ro u R e b e ca . E s s e s oito d eu à luz M ilc a e N a o r, irm ã o d e A b ra ã o . 24 E a s u a co n cu b in a , que se c h a m a v a R e u m á , ta m b é m d e u à luz a T eb a, G a ã o , T a á s e M a a c á .

Quando Abraão se acomodou a uma idade avançada e tranqüila, em BeerSeba, chegaram-lhe notícias de seus pa­ rentes em Harã. Da mesma forma como nò caso de Ismael (25:13 e ss.) e Jacó, doze tribos procederam de Naor. Esta lista parece ser uma antiga genealogia araméia, que foi incluída em a narrativa, a fim de preparar para as histórias de Isaque e Rebeca. ~~ Quesede é, provavelmente, o ancestral dos caldeus (heb., Kasdim). Betuel é mencionado como pai de Rebeca. Con­ tudo, Labão, que é irmão dela, é men­ cionado em 29:5 como filho de Naor, o que a faria filha de Naor. No entanto, à luz da insofismável declaração de 24:15, 24, de que Rebeca era filha de Betuel, podemos concluir seguramente que a pa­ lavra “filho” foi usado por Jacó no senti­ do de “ descendente” , ocorrência que é comum no Velho Testamento.


15. A Morte de Sara (23:1-20)

Porque este capítulo tem as caracte­ rísticas básicas do material Sacerdotal — cronologia precisa e interesse em deta­ lhes — ele é comumente atribuído a essa fonte. Von Rad diz que tais qualidades removem toda a dúvida de que ele per­ tence à fonte Sacerdotal. No entanto, Speiser estava convencido de que apenas o primeiro versículo provém desse mate­ rial, pois o estilo vívido da narrativa é mais semelhante às histórias da fonte Judia. Uma frase que ocorre neste capí­ tulo, “todos os que entravam pela porta da sua cidade” (v. 10 e 18), tem paralelo em 34:24: “todos os que saíam da porta da cidade” , em uma narrativa reconheci­ damente da fonte Judia. Tal desacordo sublinha o fato de que as tradições bási­ cas de Gênesis não são identificadas tão facilmente como alguns intérpretes gos­ tariam de fazer os leitores crerem. Em alguns lugares, as várias fontes são evi­ dentes; em outros, elas são mais difíceis de se identificar. Só podemos ter a certe­ za de que estavam trabalhando escritores que hoje chamamos de Sacerdotais, Ju­ deus ou Israelitas do Norte. Onde ou quando eles, na verdade, escreveram, ou qual a amplitude de seu material, é coisa ainda discutível. Embora grupos identi­ ficáveis de material estejam evidentes em Gênesis, a sua verdadeira origem ainda está por ser descoberta. Seja qual for a fonte literária deste capítulo, ela baseou a sua narrativa, in­ questionavelmente, em materiais autên­ ticos. Ao retratar os costumes de compra e venda na época, ela descreve detalhes exatos, como o confirma a arqueologia moderna (cf. Speiser). O aspecto mais claro da narrativa é a sua natureza secular. Exceto em uma expressão idiomática, o nome de Deus não aparece de forma alguma. É uma história que trata dos momentos mais íntimos da existência: os problemas da vida e da morte. Ao tratar de emoções humanas tão intensas, ela fala apenas de

relacionamentos humanos. Visto que o homem desprezou, devido ao pecado, a sua oportunidade de uma vida com signi­ ficado depois da morte, não havia nada de sagrado a respeito da morte. Para os sobreviventes, havia apenas a patética tentativa dé enterrar o morto no lugar que ficasse fora da vista deles (v. 4-6), para que eles não tivessem que observar a decomposição do corpo daquele a quem amavam. Dentre todas as causas para lamentação nos Salmos, não há nem um único grito de tristeza acerca da perda de um ente querido pela morte. Claro que eles manifestavam tristeza intensa, como Abraão fez, mas a morte era o destino inevitável de cada pessoa. Ela precisava ser encarada com a resignação inflexível que cada homem precisa manifestar com todas as forças que lhe restarem, em sua batalha perdida contra o tempo. Por que, então, todo um capítulo foi dedicado às negociações de Abraão de um lugar de sepultamento para a sua família? Não era a maneira de o escritor dizer que essa compra lhe dava direito à posse da Terra da Promessa, pois era apenas parcial. Da mesma forma, não era simplesmente devido ao desejo de Abraão de ter o túmulo de Sara sob os seus cuidados, para que os ossos dela não fossem perturbados, embora este fosse o seu intento evidente. Gerações posterio­ res viram, nesse ato, mais importância do que apenas isso. Abraão não precisa­ va morrer sem ver cumprida uma peque­ na parte da promessa, pois agora possuía o seu próprio cemitério. Esta foi uma promessa do cumprimento final para os seus descendentes. A caverna de Macpela não foi apenas escatologia realizada; ela falou do escaton que ainda estava por acontecer. Gerações posteriores, de hebreus, apa­ rentemente não consideraram os túmulos de Macpela com tanta reverência quanto os árabes. A mesquita de Hebrom pode estar bem em cima do lugar onde este sepultamento teve lugar. Na época do 253


exílio, Hebrom já estava, provavelmente, fora de território judaico, não tendo feito os hebreus nenhuma tentativa para re­ cuperá-lo (cf. von Rad, p. 245). Obvia­ mente, portanto, o relato da compra da sepultura tem mais que dizer a respeito da reivindicação de Israel quanto à terra do que a respeito de qualquer atestado concernente ao significado da morte. Depois que Israel tomou posse da terra, Macpela perdeu grande parte de seu significado. A falta de um tema teológi­ co, nesta passagem, sublinha fortemente o interesse de Israel antigo na vida com Deus em sua própria terra. 1) Os Preparativos Para o Sepultamento (23:1-16) 1 O ra, os a n o s d a v id a d e S a ra fo r a m cen to e v in te e se te . 2 E m o r re u S a r a e m Q u iriateA rb a, q u e é H e b ro m , n a t e r r a d e C a n a ã ; e velo A b ra ã o la m e n tá - la e c h o ra r p o r e la . 3 D epois se le v a n to u A b ra ã o de d ia n te d o se u m o rto , e falo u a o s filhos d e H e te , d iz e n d o : 4 E s tr a n g e ir o e p e re g rin o sou e u e n tr e v ó s ; d ai-m e o d ire ito de u m lu g a r d e s e p u ltu ra e n tre v ó s, p a r a q u e e u se p u lte o m e u m o rto , rem oven do-o de d ia n te d a m in h a fa c e . S R esp o n d eram -lh e o s filhos de H e te : 6 O uve-nos, se n h o r; p rín c ip e de D eu s é s tu e n tr e n ó s; e n te r r a o te u m o rto n a m a is e sc o lh id a de n o ssa s s e p u ltu r a s ; n e n h u m d e n ó s te v e d a ­ r á a s u a s e p u ltu ra , p a r a e n te r r a r e s o te u m o rto . 7 E n tã o s e le v a n to u A b ra ã o e , inclin ando-se d ia n te do povo d a te r r a , d ia n te dos filhos de H ete, 8 falo u -lh es, d izen d o : Se é de v o ssa v o n ta d e q ue e u se p u lte o m e u m o rto d e d ia n te de m in h a fa c e , o uvi-m e e in t e r ­ ced ei p o r m im ju n to a E fro m , filho d e Z o ar, 9 p a r a q u e e le m e d ê a c o v a d e M a c p e la , que po ssu i no fim do se u c a m p o ; q u e m a d ê pelo devido p re ç o e m p o sse d e se p u lc ro no m eio de vós. 10 O ra , E fro m e s ta v a s e n ta d o no m eio d o s filh o s d e H e te ; e re s p o n d e u E fro m , o h e teu , a A b ra ã o , a o s ou vidos dos filh o s de H ete, is to é , de todos os q u e e n tr a v a m p e la p o rta d a su a c id a d e , d izen d o : 11 N ão , m e u se n h o r; o uv e-m e. O c a m p o te dou, ta m b é m te dou a co v a q u e n e le e s t á ; n a p re s e n ç a dos filhos do m e u povo t a d o u ; s e p u lta o te u m o rto . 12 E n tã o A b ra ã o se in clin ou d ia n te do povo d a t e r r a , 13 e fa lo u á E fro m , a o s ouvidos do povo d a t e r r a , d izen d o : Se te a g ra d a , peço -te q u e m e o u ç a s. D a re i o p re ç o do c a m p o ; to m a-o de m im , e s e p u lta re i a li o m e u m o rto . 14 R esp o n d eu E fro m a A b ra ã o :

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IS M eu se n h o r, o u v e-m e. U m te rre n o do v a lo r d e q u a tro c e n to s sic lo s d e p r a ta ! q u e é is to e n tr e m im e ti? S e p u lta , pois, o te u m o rto . 16 E A b ra ã o ouviu a E fro m , e pesoulh e a p r a t a d e q u e e ste tin h a fa la d o a o s ouvidos dos filh o s d e H e te , q u a tro c e n to s s i­ clo s d e p r a t a , m o e d a c o rre n te e n tr e os m e r ­ c a d o re s.

A idade de Sara é a única mencionada em relação a uma mulher, no Velho Tes­ tamento. Pode-se imaginar que ela fazia lembrar todas as pessoas de sua idade como Deus lhe dera um filho aos noventa anos. A sua morte antes da de Abraão também nos faz lembrar que, nos anos passados, os homens geralmente sobrevi­ viam às suas esposas, algumas vezes a várias esposas. O lugar da morte e sepultamento de Sara foi Hebrom, que anteriormente era chamada de Quiriate-Arba, “Cidade dos Quatro” . Este nome, aplicado ao antigo túmulo dos pais, pode ter inspirado o conceito da “ cidade quadrangular” , em Ezequiel e Apocalipse. Quando vimos Abraão pela última vez, em Gênesis 22, ele ainda estava em Beer-Seba. Estrangeiro e peregrino, Abraão não tinha direitos que lhe permitissem pos­ suir terras. Ele pediu um privilégio espe­ cial dos “filhos de Hete” , que é a expres­ são idiomática hebréia no decorrer deste capítulo, traduzida como “hititas” na RSV, versão em inglês que serve de base para este comentário nesta língua. A narrativa usa intencionalmente este no­ me para aplicá-lo aos aborígenes cananeus (15:20). Pode ser que eles tivessem descendido originalmente dos hititas da Ãsia Menor, mas haviam assimilado a cultura palestina (cf. 10:15). Este povo não-cananeu estava mais inclinado a ven­ der terra a Abraão do que os cananeus mais firmemente estabelecidos. Príncipe de Deus és tu. A versão ingle­ sa RSV diz: “tu és um príncipe podero­ so” , mas a versão da IBB traduz mais fielmente o original hebraico. Esta, pro­ vavelmente, era uma expressão idiomá-


tica que enfatizava o poderio de Abraão. A palavra traduzida como “ príncipe” provém da raiz “eleito” , e, geralmente, designava alguém eleito para cargo pú­ blico. Embora a expressão “eleito de Deus” fosse apenas um pouquinho de lisonja oriental, descrevia Abraão melhor do que eles sabiam! Um terreno do valor de quatrocentos siclos foi a maneira polida de Efrom dar preço ao campo. Não há maneira de avaliar comparativamente o preço que Abraão teve que pagar. Contudo, me­ diante todos os padrões que nos são conhecidos, ele foi exorbitante. Nos re­ gistros seculares existentes, a respeito dessa região, o preço médio para a venda de aldeias inteiras era de cem a mil siclos. Toda a colina de Samária foi comprada por Onri por seis mil siclos, ou dois talentos (I Reis 16:24). Obviamente, Efrom estava explorando a situação. Abraão não estava na posição de rega­ tear. Para ele, valia esse preço, embora não fosse o seu valor comercial. As igre­ jas que se recusam a pagar mais do que o valor comercial, por alguma propriedade de que necessitem, não demonstram tan­ ta sabedoria quanto Abraão. Para ele, o problema não era: “Estou sendo defrau­ dado?” mas: “ Sou capaz de comprar o que preciso obter?” Moeda corrente entre os mercadores. Naqueles dias não havia padrões estabe­ lecidos de peso e medida. O consumidor tanto quanto o produtor dependiam de padrões estabelecidos pelos mercadores da região. 2) Uma Sepultura da Família (23:17-20)

n e le e s ta v a fo r a m c o n firm a d o s a A b raã o p elo s filh o s d e H e te e m p o ss e ssã o d e s e p u l­ tu r a .

As especificações seguem de perto a terminologia de transações legais. A lavratura da escritura foi devidamente tes­ temunhada por toda a comunidade. Não se pouparam esforços para tornar a ven­ da de validade em qualquer tempo. Abraão sabia mui bem que o contrato legál haveria de sobreviver a ele próprio, e era a única proteção contínua para o sepulcro da família. Ali, ele iria ser se­ pultado, seguido por Rebeca, Isaque (35: 29), Léia (49:31) eJacó (50:13). Neste capítulo, vemos Abraão no mo­ mento de sua tristeza mais intensa, de­ monstrando uma notável clareza de ra­ ciocínio, negociando com os filhos de Hete com uma prontidão incomum em situações como essa. A fé não o capa­ citava apenas a caminhar com Deus; ela lhe dava dignidade em face aos seus vizinhos. 16. Conseguindo uma Esposa Para Isa­ que (24:1-67) Esta narrativa da fonte Judia é a mais longa e a mais encantadora de todas as histórias patriarcais. Sendo três vezes mais longa do que as narrativas indepen­ dentes, em média, é a unidade mais com­ prida de Gênesis. Não é uma história tradicional, mas uma historieta curta, em forma literária, um relato indepen­ dente em si mesmo. Chamá-lo de histo­ rieta independente não quer dizer que ele não esteja baseado em fatos, pois esta narrativa é, certamente, verdadeira e fiel à situação vivencial da época, como tem sido verificado por todos os critérios dis­ poníveis. É uma história baseada em evento que realmente ocorreu, mas con­ tada com a perícia consumada de um grande artista literário.

17 A ssim o c a m p o d e E fro m , q u e e s ta v a e m M a c p e la , e m fre n te de M a n re , o c a m p o e a c o v a que n ele e s ta v a , e todo o a rv o re d o q ue h a v ia n ele, p o r todos os se u s lim ite s ao re d o r, se c o n firm a ra m 18 a A b ra ã o e m p o s ­ se ssã o n a p r e s e n ç a dos filh o s d e H e te , isto é , d e to d o s os q u e e n tr a v a m p e la p o rta d a s u a c id a d e . 19 D epois sep u lto u A b ra ã o a S a ra 1) O Encargo de Eliézer (24:1-9) s u a m u lh e r n a c o v a do c a m p o d e M a cp e la , e m fre n te de M a n re , qu e é H e b ro m , n a te r r a 1 O ra , A b ra ã o e r a j á v elho e d e id a d e d e C a n a ã . 20 A ssim o c a m p o e a c o v a que a v a n ç a d a ; e e m tu d o o S en h o r o h a v ia a b e n ­

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çoado. 2 E d is se A b ra ã o a o se u se rv o , o m a is an tig o d a c a s a , q u e tin h a o g o v e rn o so b re tudo o q u e p o s s u ía : P õ e a tu a m ã o d e b a ix o d a m in h a co x a, 3 p a r a qu e e u te f a ç a j u r a r pelo S en h o r, D eu s do céu e d a te r r a , q ue n ã o to m a rá s p a r a m e u filho m u lh e r d e n tre a s filh as d o s c a n a n e u s, no m eio dos q u a is e u h a b ito ; 4 m a s q u e ir á s à m in h a t e r r a e à m in h a p a re n te la , e d a li to m a r á s m u lh e r p a r a m e u filho Is a q u e . 5 P e rg u n to u -lh e o s e rv o : Se p o rv e n tu ra a m u lh e r n ã o q u is e r seg u ir-m e a e s ta te r r a , fa r e i, e n tã o , to r n a r te u filho à t e r r a do n d e s a ís te ? 6 R esp o n d eu lh e A b ra ã o : G u a rd a -te d e fa z e re s to m a r p a r a lá o m e u filho. 7 O S en h o r, D eu s do céu , qu e m e tiro u d a c a s a d e m e u p a i e d a te r r a d a m in h a p a re n te la , e q u e m e falo u , e q u e m e ju ro u , d iz e n d o : À tu a s e m e n te d a r e i e s ta t e r r a ; e le e n v ia r á o se u a n jo a d ia n te de ti, p a r a q u e to m e s d e lá m u lh e r p a r a m e u filho. 8 Se a m u lh e r, p o ré m , n ã o q u is e r se g u ir-te , s e r á s liv re d e ste m e u ju r a m e n to ; so m e n te n ão f a r á s m e u filho to m a r p a r a lá . 9 E n tã o pôs o se rv o a s u a m ã o d eb aix o d a co x a de A b raão se u se n h o r, e ju ro u -lh e so b re e ste negócio.

Não somos informados qual era o nome do servo que é o centro de atenções neste capítulo, mas a declaração de 15:2 sugere que pode ter sido Eliézer. Se assim foi, encontrar uma esposa para Isaque era, para ele, o mais elevado ato de lealdade ao seu senhor Abraão. Se Isaque não encontrasse esposa e não tivesse herdeiros, Eliézer seria o seguinte na linhagem para receber a herança. Servo (heb., ‘ebed) pode significar o de qualquer papel, desde o de um escravo comum até o de ministro do conselho real. Aqui, o ofício devia ser o de um mordomo responsável. Embora a identi­ ficação não seja, de forma alguma, certa, na discussão deste capítulo, o servo que mereceu tanta confiança será menciona­ do como Eliézer, visto que não há outro nome mais conveniente para se usar. Põe a tua mão debaixo da minha coxa. Esta maneira de selar um juramento é apresentada apenas aqui e em 47:29, sendo ocasionadas ambas as ocorrências pela morte iminente de um patriarca. A palavra “coxa” é a costumeiramente usada para essa parte do corpo, signifi­ 256

cando a parte inferior do tronco ou a superior da perna. Alguns estudiosos (von Rad e Skinner) presumem que se refere aos órgãos genitais, pois a frase “ que saíram da sua coxa” é usada em relação à geração de filhos (cf. 46:26; Ex. 1:5). Admitem que se desconhece qualquer razão para este ato. Alguns su­ gerem que era a conservação da noção antiga da santidade dos órgãos de uma divindade; outros lembram a circunci­ são, o dever de futuras gerações de obser­ var o juramento ou uma maldição sobre a descendência daquele que quebrasse o juramento que estava fazendo. Contudo, nada sabemos a respeito de um toque nos órgãos genitais para fazer um juramento, quer no Velho Testamen­ to quer entre os povos antigos do Oriente Próximo. Por que Eliézer colocou a sua mão debaixo da coxa de Abraão, e não sobre ela? Também é possível que Eliézer simplesmente tivesse colocado a sua mão sob a coxa de Abraão, para simbolizar o fato de que Abraão estava dando o seu peso à (sentando sobre, confiando) sua promessa. Embora a mesma palavra não seja usada em 15:6, a mesma idéia está presente ali, quando se diz que Abraão “confiou” no Senhor, creu nele ou acre­ ditou nele. Deus do céu e da terra. Embora seja comum na literatura posterior, esta ex­ pressão, nas histórias patriarcais, só se encontra aqui. Tomarás mulher para meu filho signi­ fica literalmente “obterás uma esposa” : dá e faze o que for necessário para obtêla. Fosse qual fosse o preço, Abraão es­ tava disposto a pagá-los. Obviamente, o seu pedido não se baseava primordial­ mente em um desejo de conservar a pureza racial, mas de preservar as tra­ dições religiosas que eram propriamente comuns de sua família (cf. 24:50, em que Labão e Betuel já conheciam o Senhor e eram leais à sua palavra). Se a mulher, porém, não quiser. No versículo anterior, Abraão havia dito a


Eliézer que ele não precisava temer, pois o Senhor enviaria o seu anjo adiante dele, para assegurar o sucesso de seu empreen­ dimento. Se ela fizesse ouvidos moucos até para com o anjo de Deus (o próprio Deus), mesmo nesse caso, Eliézer não devia deixar Isaque voltar ao país natal. Para Abraão e seus descendentes, as pontes que os ligavam a Harã haviam sido queimadas para sempre. Os hebreus jamais teriam o direito de voltar, se o quisessem. Da mesma forma como a promessa de Deus e Abraão era irrevogá­ vel, a decisão de Abraão de segui-lo tam­ bém o era. 2) A Oração de Eliézer (24:10-14) 10 T om ou, pois, o se rv o dez dos c a m e lo s do se u se n h o r, p o rq u a n to to d o s os b e n s d e se u se n h o r e s ta v a m e m s u a m ã o ; e, p a rtin d o , foi p a r a a M eso p o tâ m ia , à c id a d e d e N a o r. 11 F e z a jo e lh a r os c a m e lo s fo ra d a c id a d e , ju n to a o poço de á g u a , p e la ta r d e , à h o ra e m que a s m u lh e re s s a ía m a t i r a r a á g u a . 12 E d is se : Ó S en h o r, D eus d e m e u se n h o r A b raão , d á -m e h o je, p eç o -te , b o m ê x ito , e u s a de b en e v o lê n c ia p a r a co m o m e u se n h o r A b raão . 13 E is q ue eu e sto u e m p é ju n to à fo n te, e a s filh a s dos h o m e n s d e s ta c id ad e v ê m sain d o p a r a t i r a r á g u a ; 14 fa z e , p o is, q ue a don zela a q u e m e u d is s e r: A b a ix a o te u c â n ta ro , p eço -te, p a r a q u e e u b e b a ; e e la re s p o n d e r: B eb e, e ta m b é m d a re i d e b e b e r a o s te u s c a m e lo s ; s e ja a q u e la q u e d e s ig n a s ­ te p a r a o te u se rv o Is a q u e . A ssim re c o n h e ­ c e re i q u e u s a s te d e b en e v o lê n c ia p a r a co m o m e u sen h o r.

As referências a camelos, nesta passa­ gem, têm ocasionado enorme debate. A certa altura, os estudiosos estavam certos de que os camelos ainda não haviam sido domesticados na época de Abraão, mas agora se sabe que, embora isto não fosse comum, era possível (cf. Speiser). Não há evidências suficientes em contrário, para negar a historicidade dos camelos nesta narrativa. O fato de Abraão ter possuído camelos era uma indicação de sua ri­ queza. A viagem, que levou cerca de um mês, é mencionada pelo escritor apenas de passagem. De repente estamos lá. Quan­

do os camelos se ajoelharam, Eliézer orou. Humildemente, em nome de Abraão (e não em seu próprio nome), ele pediu o favor de Deus. Dá-me... bom êxito é, literalmente: “Fá-lo encontrar-se” , “Faze as coisas se encontrarem” ou “acontecerem cor­ retamente” . Esta expressão, da mes­ ma forma como “prosperar o seu cami­ nho” (v. 21, 40, 42, 56), não faz parte do vocabulário tradicional, de piedade, no Velho Testamento. Um homem secular estava aprendendo a trabalhar com Deus. Assim conhecerei. Eliézer estava pe­ dindo um sinal, não a fim de fortalecer a sua fé (como Gideão), mas para ajudálo a tomar a decisão certa. O seu pedido não foi de um sinal arbitrário, para confirmar a obra de Deus (como no caso do relógio de sol de Acaz), mas o sinal pedido e o tipo de esposa que Isaque precisava estavam intimamente relaciodos. Isaque necessitava de uma esposa que fosse ambiciosa tanto quanto dispos­ ta a fazer mais do que se lhe requeria. 3) Rebeca Junto ao Poço (24:15-27) 15 A n tes q u e e le a c a b a s s e d e f a la r , e is q u e R e b e c a , filh a d e B e tu e l, filho d e M ilc a , m u ­ lh e r de N a o r, ir m ã o d e A b ra ã o , s a ia co m o seu c â n ta ro so b re o o m b ro . 16 A d o n zela e r a m u ito fo rm o sa à v is ta , v irg e m , a q u e m v a ­ rã o n ã o h a v ia c o n h e c id o ; e la d e sc e u à fo n te, en c h eu o se u c â n ta ro e su b iu . 17 E n tã o o se rv o c o rre u -lh e a o en c o n tro , e d is s e : D eix a-m e b e b e r, p eço -te , u m p ouco d e á g u a do te u c â n ta ro . 18 R e sp o n d e u e la : B eb e, m e u sen h o r. E n tã o c o m p re s te z a a b a ix o u o se u c â n ta ro so b re a m ã o e d eu-lhe d e b e b e r. 19 E q u a n d o a c a b o u d e lh e d a r d e b e b e r, d is se : T ira r e i ta m b é m á g u a p a r a os te u s ca m e lo s, a té q u e a c a b e m d e b e b e r. 20 T a m ­ b é m co m p re s te z a d esp e jo u o se u c â n ta ro no b eb ed o u ro e, c o rre n d o o u tr a v ez ao poço, tiro u á g u a p a r a to d o s os c a m e lo s d e le . 21 E o h o m e m a c o n te m p la v a a te n ta m e n te , e m silên cio , p a r a s a b e r se o S en h o r h a v ia to rn a d o p ró s p e ra a s u a jo r n a d a , o u n ã o . 22 D epois q u e o s c a m e lo s a c a b a r a m d e b e ­ b e r, to m o u o h o m e m u m p e n d e n te d e ou ro , de m eio siclo d e p e so , e d u a s p u ls e ira s p a r a a s m ã o s d e la , do p e so d e d ez siclo s d e o u ro ;

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23 e p e rg u n to u : D e q u e m é s filh a ? dize-m o, peço-te. H á lu g a r e m c a s a d e te u p a i p a r a nó s p o u sa rm o s? 24 E la lh e re s p o n d e u : E u sou filh a d e B e tu e l, filho d e M ilca, o q u a l e la d e u a N a o r. 25 D isse-lh e m a is : T e m o s p a lh a e fo r ra g e m b a s ta n te , e lu g a r p a r a p o u sa r. 26 E n tã o lnclinou-se o h o m e m e a d o ro u ao S en h o r; 27 e d is s e : B en d ito s e ja o S en h o r D eus d e m e u se n h o r A b ra ã o , q u e n ã o re tiro u do m e u se n h o r a s u a b e n e v o lê n c ia e a s u a v e rd a d e ; q u a n to a m im , o S e n h o r m e guiou no ca m in h o â c a s a d o s irm ã o s d e m e u sen h o r.

Enquanto Eliézer estava ainda orando — pois antes de ele poder terminar de expressar o seu pedido, Deus já estava providenciando as coisas — Rebeca che­ gou ao poço! Ela não apenas tomou a iniciativa de dar de beber aos camelos, mas era uma jovem bonita, uma virgem (bethulah), a quem nenhum homem ha­ via conhecido (cf. 4:1). Este capitulo tem várias referências que se relacionam com o significado de Isaías 7:14, onde ‘almah (jovem) ocorre. Se Isaías queria dizer que a mãe do menino era virgem, dizem al­ guns intérpretes, teria usado bethulah. No entanto, a fim de tom ar claro que Rebeca era virgem, o escritor teve que usar uma frase qualificadora., em adição à palavra bethulah. No versículo 43, Elié­ zer usou a palavra ‘almah como sinônimo de bethulah. Só duas vezes, no Velho Testamento, os tradutores da LXX usam parthenos (virgem) para traduzir ‘almah: em Isaías 7:14 e aqui no versículo 43, onde, pelo contexto, eles podiam ter cer­ teza que Rebeca era virgem.

veio o h o m e m & c a s a , e d e s a r re o u os c a m e ­ lo s ; d e r a m p a lh a e f o r ra g e m p a r a os c a m e ­ los, e á g u a p a r a la v a r os p é s d e le e d o s h o m e n s q u e e s ta v a m c o m e le . 33 D epois p u s e r a m c o m id a d ia n te d e le . E le , p o ré m , d is s e : N ã o c o m e re i, a té q u e te n h a e x p o sto a m in h a in c u m b ê n c ia . R esp o n d eu -lh e L a b ã o : F a la .

Labão é a personificação do arameu astuto. O quadro é claro quando o escri­ tor nos informa: Porquanto tinha visto o pendente, e as pulseiras... £ disse: En­ tra, bendito do Senhor. Comida foi colo­ cada diante de Eliézer, mas ele recusouse a comer enquanto não tivesse relatado o propósito de sua jornada. De fato, faminto e cansado como ele estava, assim mesmo nem comida nem descanso eram tão importantes, para ele, quanto o su­ cesso de seu empreendimento, que agora se aproximava tão rapidamente de sua fase final. 5) O Discurso de Eliézer (24:34-49)

34 E n tã o d is se : E u so u o se rv o d e A b ra ã o . 35 O S enh o r te m a b e n ç o a d o m u ito ao m e u se n h o r, o q u a l se te m e n g ra n d e c id o ; deulh e re b a n h o s e g ad o , p r a t a e o u ro , e s c ra v o s e e s c r a v a s , c a m e lo s e ju m e n to s . 36 E S a ra , a m u lh e r do m e u se n h o r, m e s m o d ep o is de v e lh a d e u u m filho a m e u se n h o r; e o p a i lh e d e u to d o s os se u s b e n s. 37 O ra , o m e u se n h o r m e fez j u r a r , d izen d o : N ão to m a r á s m u lh e r p a r a m e u filho d a s filh a s d o s c a n a n e u s, e m c u ja t e r r a h a b ito ; 38 ir á s , p o ré m , à c a s a d e m e u p a i, e à m in h a p a re n te la , e to m a r á s m u lh e r p a r a m e u filho. 39 E n tã o re sp o n d i ao m e u se n h o r: P o rv e n tu ra n ã o m e s e g u irá a m u lh e r. 40 Ao q u e e le m e d is se : O S en h o r, e m c u ja p re s e n ç a ten h o a n d a d o , e n v ia r á o seu a n jo co n tig o , e p r o s p e r a r á o te u c a m i­ 4) A Resposta de Labão (24:28-33) nho ; e d a m in h a p a re n te la e d a c a s a d e m e u 28 A d o n zela c o rre u , e re la to u e s ta s c o isa s p a i to m a rá s m u lh e r p a r a m e u filh o ; a o s d a c a s a d e s u a m ã e . 20 O ra , R e b e c a 41 e n tã o s e r á s liv re do m e u ju r a m e n to , tin h a u m irm ã o , cu jo n o m e e r a L a b ã o , o q u an d o c h e g a re s á m in h a p a r e n te la ; e se q u a l s a iu c o rre n d o a o en c o n tro d a q u e le h o ­ n ão ta d e re m , liv re s e r á s do m e u ju r a m e n to . m e m a té a fo n te ; 30 p o rq u a n to tin h a v isto o 42 E h o je c h e g u e i & fo n te, e d is s e : Ó S en h o r, p e n d e n te , e a s p u ls e ira s so b re a s m ã o s de D eu s d e m e u se n h o r A b ra ã o , se é q u e a g o ra su a ir m ã , e ouvido a s p a la v r a s d e s u a ir m ã p ro s p e ra s o m e u ca m in h o , o q u a l v en h o R e b e c a , qu e d iz ia : A ssim m e fa lo u a q u e le seg u in d o , 43 e is q u e e sto u ju n to à fo n te ; h o m e m ; e foi te r com o h o m e m , q u e e s ta v a fa z e, p o is, q u e a d o n zela q u e s a i r p a r a t i r a r e m p é ju n to a o s c a m e lo s a o la d o d a fo n te . á g u a , a q u e m e u d is s e r : D á-m e , p eço -te, de 31 E d is s e : E n tr a , b en d ito do S e n h o r; p o r b e b e r u m p ouco d e á g u a do te u c â n ta ro , que e s tá s a q u i fo ra ? p o is e u j á p re p a r e i a 44 e e la m e re s p o n d e r: B eb e tu , e ta m b é m c a s a , e lu g a r p a r a o s c a m e lo s. 32 E n tã o ti r a r e i á g u a p a r a os te u s c a m e lo s; s e ja a

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m u lh e r q u e o S en h o r d esig n o u p a r a o filho de m e u se n h o r. 45 O ra, a n te s q u e e u a c a b a s ­ se de f a la r no m e u c o ra ç ã o , e is q u e R e b e c a s a ía com o se u c â n ta ro so b re o o m b ro , d e s ­ c eu à fo n te e tiro u á g u a ; e eu lh e d is s e : D á-m e de b e b e r, p eço-te. 46 E e la , co m p re s te z a , a b a ix o u o se u c â n ta ro do o m b ro , e d is s e : B eb e, e ta m b é m d a re i d e b e b e r a o s te u s c a m e lo s ; a s s im b eb i, e e la d e u ta m b é m d e b e b e r a o s c a m e lo s. 47 E n tã o lh e p e rg u n ­ te i : D e q u e m é s filh a ? E e la d is s e : F ilh a de B etu el, filho de N a o r, q u e M ilca lh e d eu . E n tã o lhe p u s o p e n d e n te n o n a riz e a s p u ls e ira s so b re a s m ã o s ; 48 e , in clin an do m e , a d o re i e b e n d isse a o S en h o r, D eu s do m e u se n h o r A b ra ã o , q u e m e h a v ia c o n d u zi­ do pelo c a m in h o d ire ito p a r a to m a r p a r a se u filho a filh a do ir m ã o do m e u se n h o r. 49 A go­ r a , pois, se vós h a v e is d e u s a r d e b e n e v o ­ lê n c ia e d a v e rd a d e p a r a co m o m e u se n h o r, d e c la ra i-m o ; e se n ão , ta m b é m m o d e c la ­ ra i, p a r a q u e eu v á ou p a r a a d ir e ita ou p a r a a e sq u e rd a .

Este longo discurso parece inteiramen­ te desnecessário ao leitor moderno, pois grande parte dele repete o que acontece­ ra anteriormente. Contudo, tal “parti­ cularidade épica” era uma prática literá­ ria comum no antigo Oriente Próximo. Ela se encontra no relato babilónico da criação (Enuma Elish) e na história babi­ lónica do dilúvio (Epopéia de Gilgamesh). O autor deste capítulo usa a narrativa de Eliézer para fazer adições sutis à trama. Abraão havia dito que, se a jovem não estivesse disposta, Eliézer estaria li­ vre de seu juramento (24:8). Quando o servo se dirigiu à família de Rebeca, disse que, se a parentela não estivesse dispos­ ta, ele estaria desobrigado de seu dever. A decisão precisava ser a de membros responsáveis da família. Ele, provavel­ mente, havia previsto a reação afirmati­ va de Rebeca, pelo fato de ter ela agido de maneira tão notável no contexto da obra soberana de Deus. Começando o seu discurso com um relato deslumbrante da riqueza e da fama de Abraão, ele acrescentou