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MARCELO ARGÔLO

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Yo-Yo Ma chegou a Salvador para realizar o concerto de abertura da Série TCA – Ano XVIII no último sábado com uma série de prêmios e títulos. Ele foi considerado “o maior violoncelista do nosso tempo”, pelo júri do Prêmio Polar no ano passado, em Estocolmo, Suécia; foi apresentado como um “superstar da música erudita” pela organização da Série TCA e coleciona mais de 20 prêmios, entre eles 15 Grammy. Pela reação do público, o violoncelista americano de origem chinesa fez jus às premiações e títulos na sua primeira apresentação na cidade. Uma plateia silenciosa e atenta às interpretações de Yo-Yo Ma e Kathryn Stott, ao piano, lotou o Teatro Castro Alves. No bis, o público de pé insistia para ouvir mais. Foram três entradas no palco que estenderam o concerto. Na última, ele gesticulou com ar de brincadeira como se dissesse que queria continuar tocando, mas Kathryn queria ir dormir. Esse foi o único momento de comunicação entre o violoncelista e o público.

SALVADOR SEGUNDA-FEIRA 6/5/2013

COBERTURA Fenômeno da música erudita, violoncelista se apresentou pela primeira vez em Salvador no sábado à noite, no Teatro Castro Alves, ao lado da pianista Kathryn Stott

Yo-Yo Ma inaugura Série TCA para uma plateia silenciosa e atenta

Pela recepção da plateia, Yo-Yo Ma fez jus aos muitos prêmios da carreira

ra fechar a primeira parte, Siete Canciones Populares Españolas, do espanhol Manuel de Falla. Após o intervalo, a dupla executou Louange à l’Éternité de Jésus, o destaque da noite. A interpretação concentrada e expressiva se harmonizou com a melancolia presente na composição do francês Oliver Messiaen. As notas longas traduzem o sentimento do autor, que a escreveu entre 1940 e 1941, quando esteve preso na Alemanha sob o comando de Hitler. Ao final da execução, por alguns segundos um silêncio absoluto tomou conta do teatro. Foram instantes entre a espera por mais alguma nota e a convicção do fim da interpretação. Para encerrar o programa, a dupla executou a Sonata nº 3 em Ré menor, op. 108, do alemão Johannes Brahms. Todo o concerto foi feito sem o auxílio de equipamento de som e com apenas Yo-Yo Ma e Kethryn Stott no palco. O público obedeceu todo o ritual que envolve os espetáculos de música erudita, com aplausos e silêncio nos momentos corretos.

Próximas atrações

A Série TCA – Ano XVIII segue até novembro com atrações internacionais de música erudita, jazz e fado. A próxima apresentação, que acontece no dia 14 deste mês, às 21 horas, é da pianista francesa Hélène Grimaud. No concerto, ela será acompanhada pela Orquestra Sinfônica da Bahia sob regência do maestro Carlos Prazeres, que também é diretor artístico da orquestra.

Repertório

A dupla abriu o concerto com Suite Italienne, do russo Igor Stravinsky, que é um arranjo feito pelo compositor a partir de alguns trechos do balé Pulcinella para piano e violoncelo. Depois tocaram Três Peças, nome dado por Yo-Yo Ma para a junção de três compositores latinos, os brasileiros Heitor Villa-Lobos e Camargo Guarnieri e do argentino Astor Piazzolla. PaAdenor Godim / Divulgação

O Diário de Genet investe em tom político e visceralidade para falar dos preconceitos Eduarda Uzêda euzedaluna@gmail.com

O espetáculo O Diário de Genet, realização da Cia Ateliê Voador, com direção de Djalma Thürler, é um trabalho de rica pesquisa, engajado, mas não alcança todo tipo de público. Os leitores e estudiosos da obra do escritor, poeta e dramaturgo francês Jean Genet (1910- 1986), entretanto, terão uma melhor recepção da montagem, que estreou no último sábado e que aposta no tom político e visceralidade dos atores para falar das prisões sem grades, dos preconceitos. Djalma Thürler traz o pensamento do autor que afrontava os valores vigentes e as convenções sociais, criticando as estruturas disciplinadoras, alternando narrações do processo cênico, de fatos cotidianos (o Carnaval, por exemplo) e relatos da vida e obras de Genet. Mas esta opção não funciona em todos os momentos.

O início do espetáculo é um tanto frouxo, demasiado informal, embora a metáfora de varrer a sujeira para fora do tapete seja interessante, bem como os signos de um varal de papéis que integra o cenário. Excelente. Genet não “vestia”, mais que roupas, idéias contestadoras?

Margarida Neide/Ag. A TARDE

Impactante

No decorrer da encenação, entretanto, a peça cresce, ganha corpo e se torna mais impactante . O pensamento de Genet, autor de obras como Nossa Senhora das Flores, Querelle – Amar e Matar, Diário de um La-

Djalma costura as cenas dos dois intérpretes com elegância, sem apelos desnecessários

drão, além das peças O Balcão e Os Negros se instala de vez, bem como a sua fascinação pelo submundo com seus personagens marginais e delinquentes. “Sempre tive tesão pelo crime” é uma das falas de Genet. Duda Woyda e Rafael Medrado harmonizam-se em cena e mostram expressivo trabalho corporal e entendimento do autor, “pederasta assumido, homem, mulher, ambíguo”, que deu voz aos estigmatizados e questionava a identidade.

Entrega

Os atores Rafael Medrado e Duda Woyda harmonizam-se em cena

Rafael Medrado prova, mais uma vez, seu talento. É um ator que não tem medo de se arriscar e traz a nuance do humor. Um dos melhores de sua geração. Duda Woyda tem grande magnestismo no palco e se iguala na entrega cênica. Bonito de ver o bate-bola teatral dos dois. Djalma costura as cenas dos dois intérpretes com elegância, sem apelos desnecessários. A nudez é integrada ao contexto. O que não quer dizer que não haja equívocos. Em determinado trechos da peça, por exemplo, os textos de

Genet são entoados em francês. Quem não sabe a língua com fluência, fica sem saber o significado.

Trilogia

O Diário de Genet, que teve estreia nacional no Festival de Curitiba, no mês passado, finaliza a Trilogia Sobre o Cárcere, que contou com os espetáculos O Melhor do Homem e Salmo 91. Trata-se da encenação anfíbia, assim chamada por Djalma, já que traz em si o hibridismo entre arte e política. Em tempos de tanta discussão sobre diversidade sexual e homofobia, a peça O Diário de Genet vai além, pois trata da questão do poder, que permeia as relações humanas. Os atores que usam preto e branco e trocam entre si o figurino trazem também o signo do jogo da inversão de papéis: o dominado e o dominador, o solar e o sombrio alternam-se. O DIÁRIO DE GENET/ SÁB E DOM 20H/ ATÉ 2 DE JUNHO/ SALA DO CORO DO TEATRO CASTRO ALVES/(71) 3535-0600/ PÇA DOIS DE JULHO, S/N CAMPO GRANDE, R$ 20 (INTEIRA) E R$ 10

Yo yo ma  
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