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SALVADOR SÁBADO 22/12/2012

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ENTREVISTA Cassio Nobre

“CONHECEMOS POUCO DO QUE É PRODUZIDO DE MÚSICA” Como surgiu a ideia de fazer esse projeto e quais os objetivos do cadastramento? O Mapa Musical da Bahia surgiu da necessidade de conhecer melhor o setor da música na Bahia. Principalmente pensando o interior do estado. Daqui da Funceb, em Salvador, conhecemos muito pouco do que é produzido nos 27 territórios. Conhecemos o que está em volta, no máximo até Recôncavo. Fora isso, é muito pouco o que chega até aqui. A atual gestão da Fundação tem se preocupado bastante em ir para outros locais do interior e tentar ampliar a rede de conhecimento sobre os setores. Então, o Mapa é uma ferramenta fundamental para termos um conhecimento mais detalhado do setor. Pela estrutura que temos na Coordenação de Música, não seria possível ir até o artista. Por isso pensamos nesse formato de cadastramento através de sistema online, para que a informação viesse até nós. Além de mapear e conhecer o setor da música no Estado, os dados recolhidos servirão para propor novos projetos. Que projetos são esses? Uma coisa interessante é que o Mapa traz muitas possibilidades de ações. Em primeiro lugar, vamos ter um quadro de informação melhor e conseguiremos visualizar mais claramente o setor. Pelo panorama que já temos nessa primeira inscrição, percebemos lugares em que nitidamente há pouca produção. Então, temos que interpretar esses dados e nos perguntar o porquê de lá ter pouca produção. Será que divulgamos pouco e na próxima seleção teremos que divulgar mais? Ou será por que lá tem pouca produção mesmo e precisamos fomentar. Não chegamos, como é no edital, com as ações definidas. Aqui buscamos a informação para tentar perceber as necessidades. Outra possibilidade, que é mais imediata, é a de compor uma Rádio Online. Essa ideia, passaremos para uma comissão, que vai pegar todo o material e escutar, analisar e fazer uma seleção pensando na diversidade da música que está ali representada. A ideia é usar isso como um meio de difusão para a música.

MARCELO ARGÔLO

A necessidade de conhecer a produção musical nos 27 territórios da Bahia levou a Coordenação de Música da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), comandada por Cassio Nobre, a organizar o Mapa Musical da Bahia. 518 artistas se cadastraram entre setembro e novembro. Esse material será analisado por uma comissão formada por Alexandre de Siqueira e Silva (produtor musical), João Omar de Carvalho Mello (compositor), Fábio Giorgio Santos Azevedo (gestor cultural), Carlos Alberto Bonfim (doutor em Comunicação e Cultura), Mário Celso Sartorello (presidente da Associação das Rádios Públicas do Brasil) e será publicado em um portal a partir de março. Mila Cordeiro / Ag. A TARDE

E essa rádio vai funcionar no portal que será lançado em março? Exatamente, a rádio vai funcionar nesse portal. E a partir da seleção para compor a rádio, podemos pensar depois em premiações, coletâneas ou outras ações de difusão. Mas ainda não há nada fechado porque a gente quer ouvir essa comissão.

Os inscritos estão bem distribuídos entre os 27 territórios do Estado? Sim, quase todos os territórios têm algum inscrito. Agora tem alguns com um inscrito, o que é muito pouco, enquanto que outros, como Salvador e Região Metropolitana, têm muitos. Temos que avaliar isso. Muita gente pode achar que as inscrições pela internet é limitante, mas eu acho que é interessante. Nós não excluímos a possibilidade da pessoa enviar um disco, mas foram muito poucos. Vamos continuar com esse sistema, mas intensificando a divulgação na seleção do próximo ano nos locais onde teve pouca representação.

E a comissão terá alguma outra função além de selecionar o que vai para a rádio? A comissão é formada por pessoas representantes do setor da música. Tem um produtor musical que pode analisar o potencial de difusão dos artistas; tem um músico que pode analisar de forma mais técnica esse material; tem também uma pessoa que trabalhou com mapeamento cultural em outro estado; e tem dois críticos que trabalham com rádios. Chamamos estes dois porque já pensávamos nessa rádio no portal. Todos eles não irão apenas selecionar o material, eles vão também traçar um panorama para mostrar o que este Mapa Musical está representando. Essa análise será publicada no site como um texto ou pode ir para uma coletânea também.

Então a ideia é abrir para cadastramento todo ano? Exatamente. Isso não é um sistema estático, precisa estar sempre recebendo propostas novas. O mesmo artista que se inscreveu esse ano, vai poder se inscrever de novo se tiver uma outra obra ou uma outra vertente. Além de artistas que não se inscreveram este ano.

Esse número de 518 artistas cadastrados atingiu as expectativas do projeto? Até superou um pouco porque recebemos em média de 300 propostas por edital. No último edital setorial tivemos cerca de 400 propostas, foi o maior número. Quando chega o Mapa com mais de 500, isso é bem significativo. Agora teve casos de pessoas que mandaram músicas que não são autorais, o que está fora do regulamento. Por conta dessas infrações ao regulamento, o número de 518 inscritos pode cair. Qual era esse regulamento que foi infringido? Só poderia ter obras autorais? O foco era obras autorais mesmo. Na inscrição tinha uma ficha para colocar alguns dados básicos e campos para declarar-se autor ou coautor. Uma outra possibilidade era a de ele ser um arranjador para uma música de domínio público. Isso para não haver problemas com autoria. En-

tão quem inscreveu uma música, está se declarando responsável legalmente pelo direito daquela obra. Com as músicas de domínio público, também não há problemas em relação à autoria.

518 artistas 995 obras

Se cadastraram de forma voluntária no site. Mas alguns inscritos, em número ainda não confirmado, infringiram o regulamento e enviaram músicas que não eram de autoria própria

Essa foi a quantidade de obras cadastradas pelos artistas. O número inclui as duas possibilidades de trabalhos: obras autorais e os novos arranjos para músicas de domínio público

vam casas e ali construiu com pedras e blocos de piçarra o seu castelo. Por mais que subisse, o rio jamais poderia farejar em volta; tranquilo, em segurança, o homem obstinado poderia progredir, juntar dinheiro, fundar uma dinastia, assestar uma luneta para as estrelas, consultar almanaques e saber qual a melhor época do plantio e da poda. Mas a velhice lhe devolveu a antiga insegurança, aquele temor que o tempo apenas embota – e mais do que a velhice devem tê-lo preocupado as notícias de desmandos da natureza no Vale do Açu, nos campos do Rio Grande do Sul, no Paraná, no Japão e Tailândia, nas encostas de Nova Friburgo: avalanchas em áreas montanhosas, rios de nomes difíceis que crescem e alagam planícies, a terra que em apenas um segundo estremece e racha e sepulta, o vômito ardente do vulcão. E o velho, a passear nos beirais da sua fortaleza, voltou a investigar o rio que de novo ameaçava subir, acompanhou o

regime das águas e lhes sondou a coloração, tentando nelas descobrir vestígios de terra arrancada às cabeceiras. Com certeza acompanhou o solene desfile das baronesas, o ímpeto das primeiras correntezas túrgidas. E é possível que despertasse de madrugada, pensando ouvir à porta o sussurro das águas, julgando escutar a mão do rio na aldrava. Visto de longe, o castelo na encosta parece gravura antiga: janelas altas e estreitas, beirais, paredes de pedras e um mirante. Dizem que havia um telescópio no mirante; dali, o homem obstinado aproximava a

Vamos ter um quadro de informação melhor e conseguiremos visualizar mais claramente o setor

Como eram pensadas as ações da Coordenação de Música da Funceb antes do Mapa? Existe uma superintendência da Secretaria de Cultura que se chama Sudecult (Superintendência de Desenvolvimento Territorial da Cultura). Ela tem representações em cada território do Estado e conseguem manter um contato, uma programação e uma comunicação mais próxima com os municípios que fazem parte do território. Através dessa superintendência chegam informações sobre música, mas com o mapa vamos direto no artista. É justamente esse foco que queremos, tentar se aproximar cada vez mais do artista. Agora pretende-se usar as informações do mapa? Com certeza, justamente porque é uma visão mais próxima do artista que responde uma série de questões.

Fábula do homem obstinado

Hélio Pólvora Escritor, membro da Academia de Letras da Bahia

Conheci um homem obstinado. Tinha perdido a casa na grande enchente do rio, que costumava escorrer manso nos fundos do seu quintal – mas em poucos dias, na época das chuvas grossas, enfureceu-se, inchou o ventre e alargou a mandíbula. A enxurrada levou casas, afogou mulheres e crianças. Quando o tempo clareou, ele se viu exposto, sem teto, sem paredes. Deitara-se para dormir, acalentado por vago marulho sob o assoalho do quarto; dormira atropelado pela vaga certeza de que as águas avançavam por entre juntas e frinchas na madeira e reboco. De fato, o rio esmurrava de punhos cerrados a estrutura já carcomida. Despertou ainda cheio de sono invernal, bocejou e nada disse.

As pedras em que as lavadeiras batiam roupa estavam cobertas de lama e detritos, enquanto as baronesas passavam, imperiais e imperiosas, nas suas verdes coifas sobre pedaços de terra arrancados aos baixios. Desciam morosas para o estuário. O homem obstinado apareceu de calção à porta, da qual restavam duas traves tortas, e quando os olhares convergiram para ele, quando todos cessaram os afazeres caseiros e se puseram a olhá-lo em muda indolência, ele entrou no rio, nadou até o meio da correnteza e ali opôs o peito, como um dique, à enchente. Meia hora depois retrocedeu à ribanceira, encarou homens e mulheres e lhes falou, apontando o rio: — Nem ele nem eu. Tempos esses em que a cidade era um arruado à beira do rio por onde passavam matutos tangendo burros e os cascos dos burros arremessavam para os lados lâminas finas e espelhantes de lama; tempos igualmente obstinados em que o homem galgou uma colina onde rarea-

Pressinto que ele, ainda obstinado, deve rir-se às escondidas das previsões dos maias

lua nas noites de plenilúnio; dali observava o rio palpitar, intumescer e lamber as ribanceiras nas temporadas de inundações. Suponho que ele há de ter passado noites inteiras, nos seus últimos anos, a velar. Ignoro se ainda vive, e às vezes eu o imagino a perscrutar na noite fechada qual tempestade de breu a pulsação próxima de águas barrentas, a ouvir o tropel amortecido das águas subir a colina para o assalto. É provável que tenha soltado dentro da noite uma risada de escárnio ao ouvir o rio parar ofegante e exaurido a poucos metros do portão de ferro trançado. E na manhã seguinte, carregada de nuvens de chuva, ele abre uma janela e vê que o rio lateja, na ânsia de nova investida. É claro que o arruado se transformou em vila, a vila adquiriu foros de cidade e esta, a estender os tentáculos, acabou por envolver e sufocar o castelo. O homem obstinado se teria fechado como um recluso? Ou,

perdido na insensata multidão anódina, despojou-se de todo o carisma? Não sei. Sei apenas, ou melhor, pressinto que ele, ainda obstinado, deve rir-se às escondidas das previsões dos maias, Nostradamus e outros visionários, sobre o final dos mundos e dos tempos. Para ele, que tem peito largo e enfrenta correntes, não haverá apocalipses. Pois na sua obstinação cega de Lancelot do Lago, ou do argonauta Jasão, aquele homem, se preciso for, haverá de recolher as pedras soltas do castelo, a inútil aldrava, o telescópio e a obstinação, e com eles partir à procura de chão mais alto em que fincar novos alicerces. Eu que o conheci na juventude, e o situei acima dos super-heróis das histórias em quadrinhos, em força, coragem e determinação, convenci-me afinal de que existem castelos inacessíveis. Basta construí-los em lugar seguro e ter um óculo de alcance para não perder de vista as imediações – que são as fronteiras do infinito.


Cássio nobre ping pong