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PASSADO PRESERVADO

À base de água e fogo A Ferraria do Guido, fundada há 116 anos no interior do Estado, guarda memórias da evolução histórica da cidade e do trabalho

Diz o ditado: casa de ferreiro, espeto de pau. Mas a 13 quilômetros do centro de Farroupilha, cidade no interior do Rio Grande do Sul, em uma casa cercada de histórias, Élio Rigatti é a exceção que confirma a regra. Ao chegar, a campainha da família é uma demonstração da tradição deixada pelo avô. Para alguém atender a porta, uma marreta de ferro precisa ser tocada em um pedaço de trilho pendurado próximo ao portão. O som dos metais anuncia a visita. É claro que nem os mais de cem anos de história da Ferraria do Guido foram capazes de impedir a chegada da modernidade. O portão é aberto eletronicamente. Ao acionar o controle, o ferreiro abre um sorriso e convida para entrar. Vestido de camisa xadrez, chinelo de pano e chapéu de palha, ele representa a figura típica da cultura italiana. Aos 65 anos, Élio tem muita história para contar. Neto de Angelo Rigatti, fundador da ferraria, e filho de Guido, que dá nome ao local, ele guarda lembranças centenárias dentro do pátio da sua casa. Hoje desativada, a empresa se tornou um lugar de exposição aos visitantes. Inaugurada em 1897, em Linha Muller, 3º Distrito, a Ferraria do Guido produzia machados, enxadas, foices e ferraduras de cavalos. Essas ferramentas garantiam o transporte e o trabalho rural dos imigrantes italianos chegados à Serra Gaúcha no final do século 19. Com oito anos, Élio começou a ajudar o pai. Como não tinha altura suficiente, foi necessário um banquinho. Ele segurava a peça e seu pai batia com a marreta. Foi ainda naquela época que conheceu a paixão pelo engenho da família. Uma paixão que demonstra aos visitantes do agora ponto turístico. Ao mostrar cada peça, lembra dos detalhes, do ano, da época em que era produzida. Além da alegria de Élio ao detalhar os instrumentos, outro aspecto chama a atenção: o funcionamento. Nada de maquinário industrial. Tudo é feito pela força da água e do fogo. A água que desce do Arroio Pinhal faz girar uma roda de madeira, e, com sua força, faz todo o maquinário funcionar. Em 1920, Angelo criou outra roda, que, ao ser acionada, aumenta a força do fogo, necessário para “cozinhar” o ferro na hora de ser ajustado. Até criar essa roda, o


fogo era abanado somente pelo fole, que tem aproximadamente 160 anos. “Quando foi criado, aquilo era como uma tecnologia que hoje é a internet. Coisa de primeiro mundo”, conta Élio. Estragado com o tempo, a solução foi instalar um motorzinho elétrico. Sem contar que para trabalhar com o fole era necessária uma pessoa manuseando o tempo todo.

Rotina facilitada

Juntar água do poço, fazer um churrasco ou produzir materiais para trabalhar nunca foi um problema para a família Rigatti. E as ferramentas para essas atividades não eram feitas com molde, em que basta bater em cima para saírem praticamente prontas. Com 16 filhos, Angelo precisava colocá-los para trabalhar. Havia a agricultura, mas a terra começou a escassear. Ferrarias eram necessárias, praticamente os postos de combustível da época. “Aqui na Linha Muller, num raio de três quilômetros, existiam oito. Todas elas sobreviviam. Hoje só existe a minha, que no início era maior que a Tramontina”, lembra Élio, que agora é funcionário público estadual. De acordo com ele, nos anos 1970, se a Tramontina, hoje líder do segmento no Brasil, vendesse uma enxada, eles vendiam 100 dúzias da mesma peça. A matéria prima da produção até os anos 1960 era trilho de trem e de bonde. Com a proliferação da indústria, começaram a ser utilizadas molas de caminhão e de automóvel que, segundo Rigatti, eram feitas com um aço melhor. “A região nunca se desenvolveu, porque só tinha água do rio e no verão escasseava. Faltava para trabalhar. E sem água não dava para movimentar a roda. Então a gente não se dedicava somente à ferraria. Quando tinha água, se trabalhava. No inverno nunca faltava”, comenta. Dos produtos, poucos se modernizaram. Alguns ainda não existem para o consumidor. O principal motivo é que a família Rigatti, por ter uma produção manual, os personalizava. Um exemplo são ferramentas para canhotos, como foices. Fazer máquina para embutidos também era função das ferrarias. “Os italianos chegaram no Brasil e sabiam da tecnologia para a gente fazer o salame e o presunto embutido. Só que muitos deles vieram fugidos. Eles não trouxeram máquinas. Então, foram em ferrarias e fizeram essa máquina para dar enchimento no salame.” Até os produtores de leite eram auxiliados pelos ferreiros. Na época da Segunda Guerra Mundial, os produtores conseguiam transportar a pé 20 litros de leite para vender, 10 em cada balde, e carregavam um em cada mão. Mas era necessário aumentar a produção. Para isso, as


ferrarias passaram a desenvolver um taro, que servia como uma terceira opção. Esse objeto era pendurado no ombro e aumentava em 50% a produção. E para espetar o churrasco? Uma ponteira criada pelo avô de Élio era encaixada em uma vara para espetar a carne. “Essa peça é centenária”, salienta ao retirá-la de um armário para mostrar. Aliás, peças antigas não faltam na casa dos Rigatti. Descascador de arroz, cartucho de canhão, arma do exército. Sem contar com o guarda louças, construído em 1899, e que agora funciona como uma espécie de mini museu.

Ferraria que dá luz

Para os Rigatti, energia elétrica nunca foi problema. Os maquinários não precisavam, já que eram movidos pela força da água. Mas a casa de seu Élio tem luz quando o abastecimento convencional falha. Isso porque a família aciona uma roda, instalada ainda antes de a energia elétrica chegar à comunidade, que conta com a força da água para garantir o funcionamento de equipamentos dependentes desta fonte energética. “Em dezembro deu temporal, ficamos 48 horas sem luz. Então, de noite, eu puxava um cabo e tinha uma lâmpada lá dentro de casa. É uma engenharia”, conta ao fazer a demonstração. Élio também faz questão de exemplificar como se faz a tempra, que se trata da maneira de deixar o ferro na consistência certa. Para isso, o ferreiro tem de colocar fogo na peça, ajustar seu tamanho e esfriá-la. Por Élio ter se destacado pela perfeição do trabalho, um livro o descreveu como o “Pelé da Tempra”. Mas nem tudo ele faz sozinho. Quando precisa de ajuda, o ferreiro aciona a esposa. Algumas batidas na bigorna, utilizada para ajustar o tamanho do ferro, são suficientes para ela chegar correndo. “Eu me sinto orgulhosa. É raro ter uma ferraria como a nossa. Ela é muito antiga. Não entendo muito, mas gosto de ajudar”, diz Dulce, casada há 40 anos com Élio. As peças que ajuda a produzir e as histórias contadas pelo marido são conhecidas por turistas do mundo inteiro. A ferraria já recebeu russos, americanos, canadenses, coreanos e japoneses. A maioria se dirige à Serra para passear pela turística Bento Gonçalves. Aproveitam a proximidade para visitar outro ponto referencial da região, a cascata do Salto Ventoso. Nessas visitas, esporadicamente, ele ainda produz algum material. “Esses dias vieram dois italianos. Me comunico bem com eles. Uma


mulher disse que queria uma ferradura porque dá sorte. Daí eu fiz. Às vezes, o pessoal pede uma foice pequena também.” As lembranças acionadas pelo contato com os objetos fazem com que os visitantes também queiram levar para casa uma recordação de seu passado. Em abril, uma turista italiana ficou encantada com a arma que Élio ganhou do seu avô quando tinha oito anos. Ela quis tirar uma foto com a espingarda, chamada pelo ferreiro de “espera um pouco”, já que para cada tiro é necessário carregá-la manualmente. A caça era um meio de sobrevivência, então, na época, a arma veio a calhar. “Que presente”, comenta Élio, feliz pela peça ainda preservada. Mas há quem queira mais que uma foto. Em uma excursão de Belo Horizonte, em 2003, uma senhora comprou uma ferradura por 10 reais. Justificou a compra dizendo que quando era moça ferrava o cavalo para ir à missa e visitar o namorado. A oportunidade de visitar uma ferraria tanto tempo depois despertou na senhora uma espécie de nostalgia. Há quem duvide da “façanha” de não precisar de energia elétrica. Até a força da água provoca desconfiança. Em 2003, nesta mesma excursão, um homem pegou Élio pelo braço. Insistiu para saber onde estava o motor que mexia a água e fazia a roda girar. O ferreiro reforçou que não havia motor. O turista ficou brabo. “Ele me disse: se não quer contar não conta. Vou sair chateado daqui”, rememora. Dessas recordações, a vida de Élio está cheia. Elas servem para fortalecer a relação dele com a terra onde vive desde que nasceu e que não troca por nada. “Meu sonho é que quando eu estiver morrendo abram a janela do meu quarto para eu ver as araquãs cantando. Isso eu sempre digo que gostaria de ver. E não saio daqui”, emociona-se o ferreiro.


Dieverson Colombo