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Os números de (1)berto Gessinger Em vez de aprisionar, a relação metódica do músico com as quantificações liberta seu processo criativo

Enquanto, para uns, os números expressam exatidão e limitação, para outros, podem ser libertadores. A maneira de se relacionar com eles varia para cada pessoa. Uns podem fazer conta. Outros podem fazer música. A música é matemática pura, na rima, na métrica e até na afinação. O músico Humberto Gessinger, fundador da banda Engenheiros do Hawaii, vivencia os números em sua amplitude. Já fez conta, faz muita música, já fez livros com nome de números e até música com nome de Números. Para Gessinger, a matriz matemática da música, que pouco se modificou nos últimos séculos, tem o poder de acalmar ou excitar o cérebro. “Tem alguma coisa estrutural na música que eu não vejo nas artes plásticas, não vejo na literatura, no teatro”, explica. Nunca foi muito bom em matemática, porém, na hora de prestar vestibular, escolheu nas Ciências Exatas o curso de Arquitetura da UFRGS. “Um curso que está na esquina entre a engenharia e as artes plásticas”, acrescenta. Essa escolha Gessinger vê como um complemento às suas competências para as áreas humanas. Ou então uma busca nada fácil na tentativa de alinhar e afinar as várias variáveis existentes dentro dele. “Desde moleque todo mundo falava que eu ia ter a minha vida ligada à palavra escrita e todo mundo achava que eu ia fazer uma coisa assim, letras, jornalismo. E nunca passou pela minha cabeça, sempre fiquei a fim de fazer algo mais pro lado das exatas mesmo. Eu acho que tu buscas fora coisas que te complementem.” O curso de Arquitetura Humberto Gessinger não concluiu, mas ainda preserva a mania de brincar com módulos. Ele monta e remonta músicas, como se fossem blocos, construindo novos sentidos e contextos para as canções. Depois de tantos anos de carreira, confessa um medo: virar cover de si mesmo. “É muito raro pintar uma música do início ao fim. Poucas aconteceram na minha carreira assim. A gravação da música é a fotografia de como ela estava naquele momento, mas tu não é a foto que tu bateu quando tu tinha 15 anos, tu é a foto que tu bateu hoje, então é uma constante evolução. Eu acho que as músicas são assim também.”


O músico comenta no seu livro Pra Ser Sincero: 123 Variações Sobre Um Mesmo Tema a característica de recompor e remontar algumas composições. Trata-se de uma espécie de autobiografia dividida em três partes: a história do músico; 123 letras comentadas e uma parte final escrita pelo professor Luís Augusto Fischer, na qual escreve sobre a importância da banda Engenheiros do Hawaii na cena cultural do País. Em todas as situações numéricas que aparecem no livro, Gessinger utiliza o “123” para quantificar, como nos 123 anos da tia Rosina ou os 123% de teor alcoólico do licor que ela preparava. Ao escolher as 123 letras, se obrigou a ter um olhar mais analítico sobre sua carreira. “Se eu colocasse todas, eu nem ia olhar, ia colocar direto. Escolher foi uma armadilha que eu fiz contra mim mesmo. Aí eu arbitrei esse número, mais pela abobrinha dele mesmo 1, 2, 3. Poderia ser qualquer outro número. E depois eu fiz o livro Mapas do acaso: 45 variações sobre um mesmo tema, que vai seguindo essa escadinha. E é uma abobrinha formal, a arte é muito feita disso, muito feita de arbítrio.” A sequência 1, 2, 3 e o próprio número 3 tem um significado na história do músico, que ultrapassa o valor numérico das letras impressas no livro. Durante muito tempo, os Engenheiros do Hawaii foram um trio. Uma trilogia é formada pelos discos A Revolta dos Dandis, Ouça o que eu Digo, não Ouça Ninguém e Várias Variáveis. As cores de fundo da capa de cada álbum formam as três cores da bandeira do Rio Grande do Sul. “O três é início, meio e fim”, acredita Humberto, para quem os três lados do triângulo representam uma forma muito estável. “O um é unidade, o dois é simetria, no três que a coisa começa a ficar interessante, é aí que tu começa a poder fazer jogos internos”. Gessinger já usou o número três diversas vezes em sua discografia. O número está presente nos versos de Longe Demais das Capitais, que dá nome ao primeiro disco dos Engenheiros. “O 3º sexo, a 3ª guerra, o 3º mundo”. Os três patetas e os três poderes também viraram música em A Revolta dos Dândis II. Esse três não é por acaso. A canção Três minutos, do álbum Minuano, também exprime essa afeição pelo número.

“Só acredito no que pode ser dito em 3 minutos; Eu grito e repito, só te peço 3 minutos” (3 Minutos , álbum Minuano, 1997).

“Na época em que escrevi a música, estava bem obcecado por essa coisa do três. Eu tinha lista de coisas que eram três, os três astronautas, os três patetas. No rock’n roll o Power Trio (guitarra, baixo e bateria) é a unidade mínima, a célula.”


É na letra de Números, do álbum 10.000 Destinos, que o músico deixa mais explícito o seu pensamento em relação às quantificações. Quando compôs a letra, o artista transformou em melodia muito do que palpitava na mente, ou pelo menos na televisão de milhares de brasileiros. Era o início dos ibopes em tempo real na TV, que levavam diretores e produtores à loucura. Foi mais ou menos esse fenômeno que o músico quis expressar na letra de Números, acrescentando a frase de Santo Agostinho sobre a medida imensurável do amor.

“Última edição do Guiness Book, corações a mais de mil, e eu com esses números? Traço de audiência, tração nas quatro rodas e eu, o que faço com esses números?” (Números, álbum 10.000 Destinos, 2000).

“Eu achava supersurreal os caras ficarem histéricos nos programas e sem saber que o número precisa ser interpretado. Por si só ele é uma coisa fria. O número é um indício, mas ele não dá informação total sobre as coisas. Isso acontece na música também. E acho muito perigoso, é uma maneira errada de interpretá-los. Antes, era vender não sei quantos discos, agora, é não sei quantos clicks.” Gessinger diz que não relaciona fatos e números, nem os utiliza de uma forma mística. “Isso é forçação”, sustenta. Assim, a maneira como ele se relaciona com o relógio revela uma pontualidade quase neurótica. Quem acompanha o artista na web sabe que sempre no dia 11 de cada mês ele faz uma twitcam. No seu blog ele posta toda a semana pontualmente sempre que segunda vira terça. Gessinger garante que a escolha é arbitrária. Para ele, vale a máxima “disciplina é liberdade.” “Muita gente me pergunta por que eu faço sempre as twitcans no dia 11. Essa coisa da disciplina é muito importante pra mim. Quer dizer, eu arbitrei o número 11, podia ser dia 13. Pra mim é mais libertador do que restritivo. Muito mais prisioneiro eu seria se a minha atitude em relação à twitcam ou ao meu blog fosse ‘ah vou postar quando eu tô a fim’, aí eu seria escravo do quando eu tô afim, quem sabe quando tu tá a fim? Mas não é pelo viés do número que eu cheguei nisso, é pelo viés da regularidade, da disciplina. Isso me interessa muito.” Para Humberto Gessinger, os números acalmam, organizam e até iludem, como quando a gente olha algum anúncio com o preço com vírgula 99 centavos. Os números também podem dar à vida uma ilusão de simetria. A necessidade de se criar um padrão


que se repete, fazendo pensar que a vida é simétrica, é abordada por ele no livro Nas Entrelinhas do Horizonte. “É difícil tu conviver com a ideia de que a história, a vida, não é uma coisa linear, que melhora ou piora de um dia pro outro. Eu também acho que os números acalmam um pouco a gente. Eles parecem coisas frias e objetivas, mas eles têm essa psicologia também.”

“A gente faz as contas, projeta uma vida na outra, tenta se enxergar como se fosse outra pessoa... a gente busca espelhos porque viver é solitário, busca simetria porque a vida é torta. A simetria acalma (...). A gente idealiza simetrias que não existem. Buscamos fatos que se repitam, uma ordem, um sentido, um padrão, um padrão...um padrão que não há” (Livro Nas Entrelinhas do Horizonte, 2012).

O tempo parou no alto da parede da casa de Humberto. O calendário em escala maximizada, cujas folhas deveriam ser trocadas todos os dias, estacionou no dia 31 de dezembro. “Como é difícil subir ali pra botar no dia certo, acabou ficando ali”, justifica. Para ele, o calendário é outra abstração que nos ajuda a entender e quantificar o tempo, mesmo que nenhum dia tenha a mesma duração do outro.

“O tempo parou, feito fotografia, amarelou tudo que não se movia. O tempo passou, claro que passaria, como passam as vontades que voltam no outro dia” (Não Consigo Odiar Ninguém, álbum Novos Horizontes, 2007).

“A gente quantifica coisas para tentar entende-las, é uma escada pra gente não ficar tão no ar. É uma abstração que faz nos relacionarmos com coisas não concretas, como a passagem do tempo. Para isso, os números são fundamentais”, conclui.

Ananda Franco Garcia  

Reportagem de Ananda Franco Garcia para a revista Primeira Impressão.

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