Page 12

Página 12

Jornal MARANDUBA News

Novembro 2015

“Chacina na Ilha Anchieta - Tiroteio na invasão e retomada da Ilha” Parte 19

Jornais da época enviaram seus melhores repórteres para descrever a maior rebelião do planeta que aconteceu em nossa região, sobreviventes ajudam a contar a história.

Ezequiel dos Santos “Revista Ultima Hora – Edição Extra nº 90, Rio de Janeiro, quarta-feira, 2 de julho de 1952, na pagina 2, o destaca são as primeiras declarações de Pereira Lima, que na edição anterior descrevemos sua captura e entrega a Penitenciaria do Estado. “ Desde a fuga até agora não atirei em ninguém”, diz Pereira Lima como destaque do jornal. Nas demais linhas sem disparar um único tiro ele havia se entregado é o destaque. Num outro box do jornal é descrito a exclusividade do repórter a ser o primeiro a falar com o mentor da fuga “Não maltratamos nem matamos, queríamos apenas fugir”, complementa o capturado. Os demais destaques são: Outro ficou com o dinheiro do presídio – O único abandonado era o “Gaguinho” – Havia banquetes políticos na ilha enquanto os presos passavam fome – Imperturbável serenidade antes e depois da captura. As cenas se passam na cidade de Cunha – Vale do Paraíba e divisa com Ubatuba na região norte de Ubatuba. Lá o repórter Norberto Esteves esteve cara a cara com o mais temido e inteligente personagem da maior rebelião conhecida na época. O repórter conseguiu o que muitos buscavam – ouvir Pereira Lima. Este declarou ao repórter que - “apesar de conseguir a liberdade, sinto-me confortável por me encontrar ainda com vida depois desta aventura. Assim por favor avisem minha família”. O repórter ainda descreve o capturado como um homem ainda forte e robusto e quem

em seu corpo não existe uma marca de “arranhadura”. O descreve ainda como um indivíduo gentil, risonho, quase satisfeito e que atende a todos – autoridades e repórteres - que o rodeiam, quase uma celebridade do crime. O que espanta é o nível de sinceridade, franqueza e educação de Pereira Lima, co mo se nada de anormal tivesse acontecido. Confessa que estava na região há quatro dias e que sentia a inutilidade da resistência. “ Vi quando os soldados se aproximaram e sabendo-me cercado por todos os lados achei que era tolice resistir”, declara ao repórter e as autoridades. Na entrevista ele insiste em declarar que se houve crueldade não foram as dos presos – “Os que fugiram da ilha comigo não mataram ninguém, se mortes houve ou crueldade, a culpa não me cabe ou a qualquer dos que me acompanharam. Uma prova de que não nos animava qualquer violência esta em garantirmos a vida do diretor, quando esteve em nossas mãos”, declara o chefe dos rebeldes perfeitamente calmo e seguro de si. Sobre a morte do soldado Hilário Rosa, Pereira Lima nega que houve assassinato. “ Na hora da luta, os soldados entrincheiram-se na casa do diretor. Houve tiroteio e eu garanti a vida do Capitão Sady, não esperava a morte de ninguém nesta revolta”, diz. Ainda acrescentou que “ pela nossa superioridade numérica e de armas esperava que todos se rendessem pacificamente”, fala o presidiário medindo as palavras. Disse ainda que não se pode responsabili-

zá-lo pelo que houve na ilha, a não ser os que ficaram na ilha e que acabaram fazendo tolices, reitera ao repórter que o objetivo era só fugir, ganhar a liberdade. Nega ainda participação da retirada do dinheiro dos cofres o presídio – “Eu pessoalmente não tirei nada. O único do nosso grupo que dispunha de dinheiro era o Gaguinho”, diz ao repórter. Os que o rodeavam ficavam impressionados com a calma de Pereira Lima, ele escolhe muito bem o que vai dizer, fala com correção, como se fosse um relatório sem importância. Do trucidamento do chefe de disciplina diz que na hora da confusão não chegou a ver o “Portugal”. Disse ainda que não houve planos de revolta, que tudo havia acontecido de improviso, de um momento para o outro. Comenta que sua fuga até Cunha havia sido “maios ou menos” fácil, que havia subido pelo picadão do telegrafo quando não havia tropas, de lá via a coisa “preta”, as coisas acontecendo. Na próxima edição o desenrolar da conversa e a carta da familia.

Jornal Maranduba News #78  

Notícias da Região Sul de Ubatuba

Jornal Maranduba News #78  

Notícias da Região Sul de Ubatuba

Advertisement