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Mara Luiza Gonçalves Freitas

GEADA NEGRA Coletânea sobre uma década de reflexões sobre o agronegócio café

Edições O.L.M. São Paulo 2013


© 2013 - Mara Luiza Gonçalves de Freitas Projeto gráfico e Capa Flávio Peralta/Edições O.L.M. www.estudioolm.com.br • estudioolm@terra.com.br Telefone/Fax (11) 4702-8094 Imagem da capa 09.11.2006 - Camilla Maia - EL - O “Boom do Café” Escola do Café, Itaipava. Xícará de café. Agência O Globo. Revisão de Texto Os textos apresentados nesta obra são fidedignos aos originais publicados em diversos meios de comunicação especializados do agronegócio café brasileiro. Tratou-se de uma opção da autora em mantê-los dessa forma, porque retratam um processo evolutivo consolidado ao longo de dez anos. Prova que as pessoas têm sempre a aprender e que o processo de melhoria é contínuo. Ao reproduzir qualquer trecho de qualquer um dos artigos e identificar um erro gramatical, ortográfico ou de concordância, finesse, conforme padrão da Associação Brasileira de Normas Técnicas, indicar após o trecho citado a partícula (sic)’.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Freitas, Maria Luiza Gonçalves de Geada negra [livro eletrônico] : coletânea de uma década de reflexões sobre o agronegócio café / Mara Luiza Gonçalves de Freitas. — São Paulo : Edições O. L. M., 2013. 218 Kb ; ePUB ISBN 978-85-86630-18-7 1. Agroindústria - Brasil 2. Agronegócios - Brasil 3. Café - Comércio - Brasil 4. Café - Indústria - Brasil 5. Cafeicultura I. Título. 13-00952 CDD-338.173730981 Índices para catálogo sistemático: 1. Brasil : Cafeicultura : Agronegócios : Economia 338.173730981

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Rir muito e com frequência; ganhar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; merecer a consideração de críticos honestos e suportar a traição de falsos amigos; apreciar a beleza, encontrar o melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma saudável criança, um canteiro de jardim ou uma redimida condição social; saber que ao menos uma vida respirou mais fácil porque você viveu. Isso é ter tido sucesso.

Ralph Waldo Emerson


À Instrução Normativa nº 16, de 24 de maio de 2010, que jaz.


Sumário

Apresentação, 12 Uma das melhores invenções do mundo, 14 Publicado no Usina de Letras, em 11 de abril de 2004

Café para a Indústria, 16 Publicado no Jornal O Diário do Comércio de Minas Gerais, em 05 de novembro de 2003.

Questões da e para a Indústria de Café, 18 Publicado em 03 de maio de 2004, no Caderno Agropecuário do Jornal Estado de Minas.

O lugar do DECAF é no MDIC, 20 Publicado em 18 de junho de 2004, no Coffee Break, O Portal do Agronegócio Café.

Indicação geográfica e agroindústria, 22 Publicado em 28 de junho de 2004, no Caderno Agropecuário do Jornal Estado de Minas.

Desafios do Café Nacional, 25 Publicado em 13 de Setembro de 2004, no Caderno Agropecuário do Jornal Estado de Minas.

Um olhar sobre o 4 C’s: como o Código Comum para a Comunidade Cafeeira impactará na competitividade do Segmento Agroindustrial do Café Brasileiro, 28 Publicado em 17 de dezembro de 2004, na Agência Safras e Mercados.

Mais valor ao café brasileiro, 36 Publicado em 25 de Abril de 2005, no Caderno Agropecuário do Jornal Estado de Minas.

Sobre Cafeologia, 38 Publicado em 23 de maio de 2005, no Coffee Break, O Portal do Agronegócio Café.

Glocalização na Cafeicultura, 40 Publicado em 19 de Setembro de 2005, no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Tendências do Mercado Cafeeiro, 43 Publicado em 02 de janeiro de 2006, no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Café torrado brasileiro além das fronteiras, 46 Publicado em 16 de janeiro de 2006, no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas. Participação do Prof. Dr. Antônio Carlos dos Santos, Departamento de Administração da UFLA.


Mudanças nas regras do jogo em prol da consolidação do consumo de café de qualidade no Brasil: uma reflexão, 49 Publicado em 23 de maio de 2006, no Coffee Break – O portal do Agronegócio Café.

Parceria que pode dar certo, 54 Publicado em 05 de junho de 2006, no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Drawback: um novo cenário para a cadeia do café, 57 Publicado em 23 de junho de 2006, no portal Café Point.

Um olhar sobre o agronegócio, 60 Publicado em 18 de setembro de 2006, no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Obsessão pela qualidade, 62 Publicado em 20 de setembro de 2006 no Coffee Break, o Portal do Agronegócio café.

A energia que vem da agricultura, 65 Publicado em 30 de outubro de 2006 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Política do café sem o leite, 68 Publicado em 25 de janeiro de 2007 no Coffee Break, o Portal do Agronegócio Café.

Importação de café torrado no Brasil, 71 Publicado em 19 de fevereiro de 2007 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Sustentabilidade e negócios do café, 74 Publicado em 25 de julho de 2007 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Política Internacional e Cafeicultura, 77 Publicado em 28 de agosto de 2007 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Cafés especiais: vai um europeu aí?, 80 Publicado em 11 de fevereiro de 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

A ALADI e os negócios do café, 83 Publicado em 04de março de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

Abate humanizado e biocombustíveis, 86 Publicado em 24 de março de 2008 no Caderno Agropecuário, do Jornal O Estado de Minas.

Uma breve ideia sobre a federalização do Centro de Inteligência do Café, 88 Publicado em 28 de março de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

O potencial do café conillon para a produção de etanol celulósico, 90 Publicado em 01 de abril de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

O papel do aparato legal na cafeicultura., 92 Publicado em 10 de abril de 2008 na Revista Calfeicultura, Portal do Agronegócio Café.

O que tem no tanque seu moço? Babaçu, my darling!, 98 Publicado em 21 de abril de 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Atratividade do Mercado Brasileiro de Café, 101 Publicado em 02 de maio de 2008 na Revista Cafeicultura, O Portal do Agronegócio Café.


Um beijo, um queijo, biocombustíveis, 104 Publicado em 12 de maio de 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Café: minha paixão nacional, 106 Publicado em 25 de maio de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

30 anos de constituinte, 29 sem IBC, 17 com CDPC: Reflexões sobre a cafeicultura e uma moça querida chamada democracia, 109 Publicado em 29 de maio de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

Uma releitura da política do pão e circo e do assassinato de Sócrates no contexto da política cafeeira brasileira, 112 Publicado em 29 de junho de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

A Starbucks, a Rodada de Doha e os Combustíveis, 115 Publicado em 07 de julho de 2008 na CBM Agroenergia.

Barismo na realidade brasileira, 118 Publicado em 23 de julho de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

Construção da sustentabilidade do café pela embalagem verde, 120 Publicado em 31 de julho de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

Cafeólogos: os caçadores de raridades, 123 Publicado em 06 de agostode 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

Heráclito e o dilema da insegurança alimentar, 127 Publicado em 18 de agostode 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Do bairrismo ao drawback: um registro sobre uma mudança de paradigmas no coração da cafeicultura mineira, 130 Publicado em 21 de agostode 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

The attraction of the Brazilian coffee market, 132 Publicado em 25 de agostode 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

Quando o santo de casa pode fazer milagre, 135 Publicado em 15 de outubro de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

Água, o alicerce da cafeicultura, 138 Publicado em 29 de outubro de 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Cafeicultura: há idéias melhores que a moratória, 141 Publicado em 03 de novembro de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

País tem suporte e resistência, 144 Publicado em 03 de novembro de 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Mama África, fonte de alimentos, 147 Publicado em 08 de dezembro de 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Algumas coisas sobre importação de café no Brasil, 150 Publicado em 11 de fevereiro de 2009 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.


O que a Le Creseut pode ensinar ao negócio do café brasileiro, 155 Publicado em 19 de março de 2009 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

A crise econômica e a agricultura, 159 Publicado em 13 de abril de 2009 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

A relação do Decreto Lei nº 399 e a inclusão do café na merenda escolar, 162 Publicado em 21 de abril de 2009 na Revista Cafeicultura, o Portal do Agronegócio Café.

Um voto pelo equilíbrio financeiro do setor cafeeiro, 166 Publicado em 29 de maio de 2009 na Revista Cafeicultura, o Portal do Agronegócio Café.

Diplomacia corporativa no agronegócio, 169 Publicado em 22 de junho de 2009 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Uma nota sobre a abertura de capital da Café Toko, 172 Publicado em 21 de julho de 2009 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

A ética coordena?, 174 Publicado em 28 de julho de 2009 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

A língua e a competividade agroindustrial, 176 Publicado em 19 de outubro de 2009na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

Uma dor que não espera, 179 Publicado em 25 de janeiro de 2010 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Agriculture, je t’aime, 182 Publicado em 29 de março de 2010 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Café Brasileiro na ICE Exchange: um indicador de internacionalização, 184 Publicado em 10 de maio de 2010 na Revista Cafeicultura, o Portal do Agronegócio Café.

Voltemos ao IBC, 187 Publicado em 24 de maio de 2010 na Revista Cafeicultura, o Portal do Agronegócio Café.

O mar e a importação de café, 190 Publicado em 30 de maio de 2010 na Revista Cafeicultura, o Portal do Agronegócio Café.

Agronegócio e narcotráfico, 192 Publicado em 07 de junho de 2010 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Da privatização da marca Cafés do Brasil: uma reflexão, 195 Publicado em 30 de junho de 2010 na Revista Cafeicultura, O Portal do Agronegócio Café.

Café Conillon: o ‘boi de piranha’ da cafeicultura, 198 Publicado em 12 de julho de 2010 na Revista Cafeicultura, O Portal do Agronegócio Café.

Comentários sobre o negócio dos micro-lotes de cafés, 201 Publicado em 12 de julho de 2010 na Revista Cafeicultura, O Portal do Agronegócio Café.

Sobre a Café Damasco, 203 Publicado em 24 de novembro de 2010 no Portal Administradores.


Sobre a alta do preço do cafezinho, 205 Publicado em 27 de março de 2011 no Portal Administradores.

Coisas para se pensar no Dia Internacional do Café, 207 Publicado em 14 de abril de 2011 no Portal Administradores.

Cafeicultura, governança pública e a IN 16/2010, 209 Publicado em 16 de abril de 2011 no Portal Administradores.

Substituição do Brasil como fornecedor global de café, 212 Publicado em 18 de abril de 2011 no Portal Administradores.

IN 16/2010 e os princípios constitucionais da Administração Pública, 215 Publicado em 24 de abril de 2011 no Portal Administradores.

O verbo tentar e sua relação com a política cafeeira, 218 Publicado em 25 de abril de 2011 no Portal Administradores.

Bastidores do café nosso de cada dia, 221 Publicado em 03 de maio de 2011 no Portal Administradores.

Especulação no mercado cafeeiro, 225 Publicado em 04 de maio de 2011 no Portal Administradores.

Carta ao bom-senso cafeeiro mineiro, 227 Publicado em 04 de maio de 2011 no Portal Administradores.

Nota sobre o Bureau do Café, 229 Publicado em 13 de setembro de 2010 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

Os homens alfa, a IN 16/2010 e a gôndola do supermercado, 230 Publicado em 12 de maio de 2011, no Portal Administradores.

De quem é a culpa do Brasil importar café industrializado (T&M)?, 233 Publicado em 16 de maio de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café.

Da segmentação dos dogmas de fé ao pragmatismo político na cafeicultura, 238 Publicado em 22 de junho de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café.

O risco e a competitividade internacional do café industrializado, 241 Publicado em 27 de junho de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café.

Novos fatores de impacto no mercado interno de café, 244 Publicado em 29 de junho de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café.

Coalizão política e café, 246 Publicado em 06 de julho 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café.

Convênios institucionais e cafeicultura, 248 Publicado em 12 de julho 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café.

Nota sobre o Sou Agro e o Efeito China, 251 Publicado em 19 de julho 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café.


Sobre a essencial política cafeeira – Parte I, 254 Publicado em 19 de agosto 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café.

Sobre a essencial política cafeeira – Parte II, 257 Publicado em 26 de outubro de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café.

Cenários globais, governança do Estado Brasileiro, agronegócio e cafeicultura – Parte I, 263 Publicado em 31 de agosto de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café.

A ABIC e a defesa dos pequenos, 268 Publicado em 12 de setembro de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café.

Ferdinand Lassalle e a sua relação com a CF-88 e a Previsão de Safra de Café no Brasil, 271 Publicado em 01 de novembro de 2011,no Coffee Break, Portal de Notícias do Café.

Algumas coisas sobre artes e o planejamento estratégico da cafeicultura, 275 Publicado em 15 de fevereiro de 2012, no Portal Administradores.

Novos cenários, velhas questões, 277 Publicado em 15 de fevereiro de 2012, no Portal Administradores.

Sobre a autora, 280


Apresentação

Os fenômenos climáticos no campo da agricultura sempre são decisivos, por que são a expressão máxima do poder de Deus. Mesmo durante grandes atos de destruição, onde a morte se faz presente, verifica-se que cada situação revela a busca constante do equilíbrio. Às vezes, os impactos profundos causados por tais fenômenos mudam o destino de nações ou de continentes, como no caso de tsunamis, furações, terremotos. Em outros momentos, apenas conduzem às adaptações anuais decorrentes de processos milenares, como as cheias dos rios, as secas, os ritos de El Niño e La Niña. De qualquer forma esses processos podem e devem ser compreendidos como testes de caráter e resiliência propostos com veemência pela natureza. Dentre as quatro forças da natureza, a terra, a água, o fogo e o vento, talvez este último seja o que mais destaque, por se tratar de uma força fascinante e incontrolável. Há bilhões de anos, seu papel é o mesmo: movimentar as massas de ar frio e quente, posicionando-as sobre as terras, de acordo com a instrução divina inscrita em seu DNA, como se fosse uma partitura de uma música clássica perfeita e inenarrável. Às vezes, ele traz a bonança. Às vezes, a destruição. E isso tem muito haver com a cafeicultura brasileira e seus desdobramentos econômicos e políticos, desde a sua introdução no país. Dentre os momentos mais dramáticos, pode-se citar a geada negra de 1975. Foi o choque de massas de ar, o responsável pela mudança do cenário da cafeicultura brasileira, em 1975. Naquele ano, a pujante cafeicultura do Paraná, que fazia as vezes que hoje Minas Gerais faz, como liderança nacional dessa cadeia produtiva, sucumbiu de uma única vez, sob os pés de um gigante silencioso: a geada. Essa advecção da massa de ar polar, recebeu o nome de Geada Negra, porque simplemesmente o fenômeno dizimou o negócio no Paraná e fez com que o mapa da cafeicultura do Brasil mudasse. Esse momento tem uma relação com a minha vida. 12


A beleza branca que cobriu os campos e que marcou a capital curitibana com a última grande nevasca do século XX naquela região foi uma forma da natureza indicar a morte e ao mesmo tempo o processo de inovação. Frente a destruição, nada mais há o que se fazer, senão reunir forças e recomeçar. O impacto econômico inquestionável naquele momento obrigou milhares de brasileiros a buscarem novas fronteiras em uma região até inóspita, o Cerrado Brasileiro. De modo geral, a morte, trouxe no longo prazo a vida e ao mesmo tempo, a prosperidade que faz do Brasil a principal referência no agronegócio global atualmente. O vento permitiu que o meu país deixasse de ser economicamente dependente da cafeicultura e desenvolvesse outras potencialidades. No meu caso particular, mudou o meu cerne. Escolhi o nome desse fenômeno climático para intitular este livro porque ele toca o legado humano, mais especificamente o meu. A obra que aqui se apresenta, então, é uma tradução plena da paixão vibrante que morreu agonizante junto com a minha juventude que se foi. Geada Negra: coletânea sobre uma década de reflexões sobre o agronegócio café trata-se de uma lápide delicada que contém o que durante muito tempo, valeu mais do que a minha própria vida e ao mesmo tempo, o período de término do meu longo luto emocional em relação ao meu físico afastamento da cafeicultura. Marca, após seis anos, o momento que eu paro de chorar, encerrando um ciclo. Logo, é um marco schumperteriano no contexto da minha trajetória acadêmica. Ressalto ao leitor que é um documento público, de cunho pessoal que ajuda em definitivo, a dirimir minhas mágoas. A parte disso trata-se de uma obra pessoalmente importante, é o meu primeiro exercício solo, alinhado com as novas tecnologias. Espero que os leitores apreciem o trabalho, uma coletânea de textos selecionados. Ele reúne 88 textos que selecionei dentre os 128 que publiquei entre 2002 e 2012, em importantes canais de notícias como o Portal Coffee Break, Revista Cafeicultura, Café Point, Jornal O Estado de Minas, Portal Administradores, Safras e Mercado, editorias a quem faço aqui um agradecimento muito especial, pelo espaço concedido para divulgação desses trabalhos, nas oportunidades em outrora, nas quais eles foram submetidos. A autora 13


1 Uma das melhores invenções do mundo Publicado no Usina de Letras, em 11 de abril de 2004.

Foi num dia desses, depois de lavrar a terra, que a beira do fogão de lenha meu avô contou essa história: “E foi assim que Deus inventou o tal do agricultor: um ser humano que pode até ser de pouco estudo, mas que possui a sabedoria dos tempos e da natureza”. Deus, depois da trabalheira toda de criar o mundo em apenas seis dias, resolveu descansar no sétimo. Conta-se que então, sonolentamente, estendeu uma rede entre a árvore do Bem e do Mal e um pé de laranja serra d’água (como o pé estava todo carregado porque era safra, era só ele estender a mão e colher uma fruta quando lhe conviesse) e dormiu. Então ele teve um sonho terrível, de que toda a sua criação iria por água abaixo porque ele se esqueceu de definir quem iria cuidar de tudo. Ele iria precisar de um ser que ouvisse os sons da terra, que tivesse paixão pela natureza e que naquela paciência que só as mães têm, deitasse a semente no solo e esperasse ela nascer e crescer. Eis que o Senhor despertou, passou a mão no queixo, olhou para Adão e Eva e começou a andar pelo paraíso a pensar. Dizem que enquanto caminhava, a danada da Eva mordeu o fruto proibido e convenceu Adão a comer também. Eles então, descobrindo o pecado original, se esconderam. O Senhor já estava desistindo da idéia, quando procurou por Adão e Eva e acabou descobrindo o mal-feito dos dois. Maria Santíssima! Ficou bravo demais e mandou os dois procurarem seu destino. Ficou muitos dias triste, porque não entendera onde havia errado em sua obra. Eis que então, por iluminação do Espírito Santo, Ele conseguiu visualizar uma luz no fim do túnel. O Senhor imaginou alguém, capaz de amar a terra como Ele, de reproduzir sua criação de tempos em tempos, de colher os frutos e tirar dali o seu sustento e da sua nação. Ele imaginou um ser que com o seu coração sustentaria Nações, porque nele estava 14


contido o que há de mais caro em qualquer outro ser que havia criado: o sentimento de doação ao mundo. Ah! Como o Senhor ficou satisfeito! Eis que então, esculpiu mais uma vez o barro e soprou seu hálito sobre a sua criatura. Pegou também um pouco de palha e fez um chapéu e colocou sobre a cabeça da sua obra, porque não queria que o sol o maltratasse de todo. E ainda, aproveitou a madeira de uma de suas árvores e forjou o aço retirado do solo e fez um instrumento ao qual deu o nome de enxada. Entregou a tal enxada ao ser que acabara de criar e deu o nome a ele de agricultor, dizendo: “Que caiam todas as cidades, mas que não caia você, pois se tiveres a terra para cultivar, as cidades ressurgirão.” O melhor de tudo é que Deus colocou sob os braços do agricultor um pé de café muito bonito e disse, dando adeus: “Espera crescer, colhe quando estiver tudo bem madurinho, seca, descasca, torra, moí e por último, ferve um cadim de água, põe o pó num coador que te ensinarei a tecer e coloca a água por cima. Depois adoça! Fica bão dimais, ainda mais se tiver um queijinho pra acompanhar!” E foi assim que surgiu a primeira tradição mineira”.

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2 Café para a Indústria Publicado no Jornal O Diário do Comércio de Minas Gerais, em 05 de novembro de 2003.

O mercado cafeeiro ao longo de sua história, cerca de quase dois séculos, tem sido um termômetro do desempenho da política e da economia brasileira, principalmente em razão da praxe intervencionista estatal. Desde a sua introdução no território brasileiro, percebe-se que a cafeicultura, responsável sem dúvida pelo processo de modernização nacional, tornou-se uma refém do Estado, que ora deixava-a submetida às regras do livre mercado e ora utilizava-a como escore político, principalmente no período áureo do café, onde o Brasil chegou a responder por até 70% do consumo mundial. Embora o Brasil detenha hoje apenas 27% do mercado mundial, sua produção ainda é a maior do globo. Essa condição, dada a concorrência com os demais países produtores, tem exigido uma atuação mais dinâmica do Estado que pauta suas ações a partir das demandas da sociedade – membros do agronegócio, pois problemas que outrora podiam ser contornados com a queima dos estoques reguladores, tal como o excesso de produção, hoje exigem ações calcadas na qualidade e no marketing, elementos-chave do processo de transposição do conceito de commodity para o conceito de especialidade. O despertar para o novo perfil do mercado, ganhou mais força, quando da extinção do Instituto Brasileiro do Café, cujo escopo era orientar e defender o setor, como elemento responsável pelo equilíbrio entre a oferta e a procura. O agronegócio deparou-se com a estabilização do consumo, estagnado pela não renovação do público consumidor. O risco de extinção e a substituição drástica por outros produtos, fez com que todos os elos, em especial a indústria, desenvolvessem estratégias que recuperassem o prestígio e a cultura do café. No que tange ao mercado interno, segundo maior do mundo, a in16


dústria tem importante papel, tanto pela redução do consumo entre a década de 60 e 80, quanto pela sua recuperação nos anos 90. A chave de toda essa mudança está na qualidade que passou a ser imprescindível para a sobrevivência das empresas num mercado globalizado, formado por consumidores mais informados, decididos e exigentes. O processo de transição para o setor industrial tem sido árduo, principalmente em razão dos hábitos arraigados em nossa cultura, da concorrência autofágica, das exigências impostas pelo Estado e outros setores privados e pelos baixos investimentos em pesquisa que permitam o desenvolvimento de novos produtos e formas de utilização. Embora a torra dos grãos tenha sido desenvolvida pelos árabes, foi somente no século XIX que o processamento tomou proporção com o surgimento das primeiras torrefadoras nos Estados Unidos, que desde aquela época é o maior consumidor mundial. Esse segmento do agronegócio surgiu como uma alternativa à queda do consumo, pois até então o processo de torra era caseiro, o que proporcionava diversos padrões de bebida, ainda que o grão fosse o mesmo. A padronização da torra em escala foi a primeira forma de fidelizar o consumo e garantir qualidade. Ao longo dos anos a indústria de café evoluiu, não apenas com o desenvolvimento e introdução de equipamentos, mas também com o aparecimento de metodologias, como o sistema de classificação dos grãos por tipo e qualidade e a introdução das ligas de grãos, que permitiram à indústria lançar mão de um número maior de matérias-primas. Outrossim, a evolução da legislação e dos meios de fiscalização fizeram com que as mutações fossem sentidas mais rapidamente na gôndola. Mais do que a eliminação de fraudes, a extinção das empresas clandestinas que desmoralizam o setor com a oferta de produtos impróprios, a melhoria dos blends (ligas), com a utilização de matérias-primas de melhor qualidade, centra-se nas mãos da indústria nacional a responsabilidade da ampliação do consumo interno e recuperação do prestígio do café junto aos novos consumidores.

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3 Questões da e para a Indústria de Café Publicado em 03 de maio de 2004, no Caderno Agropecuário do Jornal Estado de Minas

A tradição de país produtor de café, ao longo dos últimos dois séculos, galgou importantes inserções do Brasil na política internacional, todavia não possibilitou o fomento de uma indústria nacional forte, atualmente em xeque. Num ambiente de ineslasticidade da demanda, retração do consumo provocada pela queda da renda e do poder de compra, aliado à substituição do produto por outros que na ótica do consumidor estão maiscompatíveis com a sua qualidadede vida; afunilamento do acesso a mercados, proporcionado pela concentração do segmento supermercadista; a autofagia que atualmente vive o setor em função da guerra de preços, além dos transtornos proporcionados por uma carga tributária aviltante e as atuais políticas industriais, que, embora um pouco mais agressivas que as anteriores, ainda são tímidas, criam um ambiente propício para que a indústria de café de torne-se uma forte candidata auma vaga em uma UTI. É certo que existe capital investido pela iniciativa privada, além do esforço de implementação de programas de incrementode consumo calcado na qualidade, por parte dos sindicatos regionais e associação nacional, mas a grande questão a ser discutida é até quando haverá fôlego financeiro das indústrias de modo geral, para resistirem à hostilidade das forças ambientais, principalmente aquelas ligadas às políticas públicas? Os recursos da iniciativa privada, que são escassos e que deveriam conferir maior competitividade ao setor, infelizmente estão sendo exauridos pelos cofres públicos e não retornam à sociedade. A indústria de café é, portanto, um ícone muito representativo dessa conjuntura vivida por toda a indústria nacional, relegada à política do salve-se quem puder e quem pode mais na redução das margens de lucros, o que não deixa de ser um atrativo fascinante para o exercício da informalidade. 18


A alteração da estrutura industrial cria um enigma em potencial para um segmento que almeja a inovação, até mesmo por uma questão de sobrevivência do agronegócio como um todo, uma vez que o Brasil é o segundo mercado consumidor mundial em volume. Se por um lado há a necessidade de melhorar a qualidade do café ofertado, por outro não há equalização dos recursos e tampouco a desburocratização dos órgãos de fomento, de modo a facilitar a distribuição de recursos para a aquisição de tecnologia da modernização do parque industrial e nem para grandes injeções de recursos em pesquisa e desenvolvimento, que gerem novos usos para o café, no âmbito industrial, além da bebida, parte nobre do produto. Outrossim, não há investimentos suficientes em pessoal que favoreçam o funcionamento do sistema público de fiscalização sanitária, de modo a coibir a pirataria existente no setor, tampouco a implementação de normas válidas para a comercialização em todo o mercado nacional que limitem o padrão mínimo da qualidade física e sensorial do café. As indústrias não são homogêneas pelo seu posicionamento institucional, mas o seu produto, infelizmente, aos olhos do consumidor ainda o é, o que sugere a necessidade de não considerar como commodity o café ofertado no mercado, providência quejá vem sendo tomada pela iniciativa privada. Todavia, mesmo com a massificação de campanhas de marketing calcadas no desenvolvimento de novas percepções de consumo, fica a dúvida se o governo (que compra pelo menor preço) subsidiará o acesso das populações de baixa renda ao café com qualidade superior, considerando este investimento como elemento estratégico para um setor que gera 12 milhões de empregos e que pode ir além, principalmente se for levada em conta a vertente do comércio internacional.

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4 O lugar do DECAF é no MDIC Publicado em 18 de junho de 2004, no Coffee Break, O Portal do Agronegócio Café

A comercialização de produtos com alto valor agregado como alternativa à exportação de produtos “in natura”, esteve sob os holofotes do discurso do secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Kofi Annan, durante a abertura da XI Unctad (Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento),que ocorre em São Paulo. Esta provocação vai de encontro com a necessidade de ruptura com a cultura da “commodity”, cujo mote foi lançado pelo governo FHC, e que agora vem sendo reforçado pelo estilo mascate do governo Lula. Não faz muito tempo, o critério de análise do agronegócio café mundial era uma oposição entre o desempenho dos países centroamericanos (inclua-se aí a Colômbia, país sul-americano), calcados nos seus suaves, e o Brasil, com a política de comercialização gerenciada pelo IBC (Instituto Brasileiro do Café), cuja teoria convencional era de que o maior sucesso relativo brasileiro decorreria da adoção de um modelo de crescimento baseado nas exportações de commodities. E foi assim, desde sua fundação, em 1952, até sua extinção, em 1990, cujo fato foi seguido de um traumático período de readaptação do segmento, que teve que aprender a ser competitivo num ritmo frenético. Percebe-se hoje que a cadeia nacional do café, após os 38 anos sob a batuta do IBC e um pouco mais de 10 anos num processo de reestruturação, encontra-se num novo estágio evolutivo, o qual prima pela valorização da origem Brasil, a partir do mote um país, muitos sabores, a partir do prisma da promoção comercial dos seus cafés industrializados. Embora a participação desse segmento ainda seja tímida no comércio internacional, verifica-se que o potencial nacional em café é um motivo, por si só, para a intensificação de políticas que superem o aspecto industrial, considerado básico, e se transformem em políticas de competitivida20


de. Para tal, arranjos políticos e departamentais em nível de governo são imperativos. Mudanças desta ordem podem significar rupturas profundas com o passado em prol do futuro, principalmente quando estas estão arraigadas a tradições seculares. Na verdade, a importante discussão sobre os rumos da SPC (Secretaria de Produção e Comercialização) e, conseqüentemente, do Decaf (Departamento do Café), não deveriam tangenciar sua incorporação ou não por alguma outra Secretaria do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), mas sim, deveriam fortalecer a campanha pela transferência do Decaf para o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio), em função do caráter estratégico que o café tem para nosso país e economias estaduais. A tônica que tem animado as discussões a respeito do tema, é a mesma que falta para que o agronegócio café saia do lugar comum, tornando-se de fato uma cadeia realmente competitiva, coordenada e auto-sustentável. A transferência configuraria então, o marco de entrada da cafeicultura nacional no século XXI.

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5 Indicação geográfica e agroindústria Publicado em 28 de junho de 2004, no Caderno Agropecuário do Jornal Estado de Minas.

O modelo de gestão na atualidade passou a ser regido por princípios e diretrizes socioambientais, os quais são perceptíveis não apenas no modus vivendi do cidadão local, cada vez mais global, mas também no comportamento estatal e organizacional. O Estado, assim como as empresas, dadas as necessidades urgentes de se adaptarem às exigências de mercado e suprirem carências profundas como por exemplo o aumento de vagas no mercado de trabalho, buscam alternativas que envolvem a intensificação da conectividade setorial como meio de redução dos custos de transação e aumento da competitividade. Uma dessas alternativas consiste na valorização dos produtos nacionais, através do que a legislação brasileira (Lei 9.279, de 14/05/96) convenciona como indicação geográfica, a qual envolve a indicação de procedência e a denominação de origem. Importante instrumento de agregação de valor, as indicações geográficas têm como principal objetivo a preservação da identidade dos produtos ou serviços, características e formas de produção ou até mesmo a fama de uma área geográfica pela comercialização ou obtenção de um determinado produto, a qual pode contribuir para a elevação do valor do produto no mercado e respectivamente do lucro. Alguns exemplos desta natureza são: o Champagne– vinho espumante proveniente daquela região francesa; os vinhos tintos da região de Bordeaux; o presunto de Parma; os charutos cubanos, os queijos Roquefort e Grana Padano, e mais recentemente, os vinhos do Vale dos Vinhedos e os Cafés do Cerrado (Brasil). Além disso, seu outro objetivo é garantir a fidelização do consumidor, em função de inserir no processo de consumo o conceito de rastreabilidade, intima22


mente relacionado com a questão da segurança alimentar, partindo da padronização dos procedimentos de produção e qualidade,bem como da valorização da sua raridade. Dada a relevância do tema, os países que compõem a Organização Internacional do Comércio (OMC), desde a Rodada de Doha (Catar), vêm discutindo a criação de um registro multilateral que envolva todos os produtos comercializados no mercado internacional,visando a proteção dosconsumidores em relação ao erro no momento de aquisição de algum produto, bem como impedir a concorrência desleal entre os países. Este registro que inicialmente envolverá os vinhos e modalidades de bebidas espirituosas acenam para uma discussão importante: se a indicação geográfica cria um fator de diferenciação de determinados produtos em relação a outros comercializados no mercado, tornando-os mais atrativos e confiáveis, percebe-se, num ambiente que tem impulsionado maior participação brasileira no mercado internacional, que a questão demanda maior atenção tanto da iniciativa privada quanto do Estado, por se tratar de importante elemento de competitividade. Regionalizando a questão, seria de bom tom criar e efetivar as condições para se valorizar aappellation Minas Gerais, em função de todo um conjunto de características que remete às tradições, qualidades, aromas e sabores aqui produzidos e principalmente, industrializados que o Estado possui. No âmbito agroindustrial, esta valorização parte do princípio da coordenação das cadeias produtivas, via arranjos produtivos, que favoreçam a conversação entre os participantes de cada segmento da cadeia, bem como a participação do Estado, via instrumentalização legal e fomento econômico para o nivelamento da base tecnológica mineira (através de investimentos em extensão rural, programas de boas práticas de produção e industrialização, financiamento de plantas industriais mais modernas, difusão da cultura exportadora). Se hoje a agricultura nacional, já é responsável por cerca de 42% da pauta de exportações brasileiras, através da agregação de valor, via industrialização e indicação geográfica, poderemos mais. Minas Gerais tem de cumprir o seu papel na dinâmica do desenvolvimento nacional, sendo capaz de transacionar entre o estigma de mero produtor de commodities

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agrĂ­colas para o de grande exportador de produtos de primeira qualidade com alto valor agregado, garantindo aos seus setores produtivos, maior rentabilidade e, por conseguinte, mais oportunidades de oferta de trabalho no mercado nacional. Parafraseando Milton Nascimento, que nossos produtos sejam do mundo, mas de Minas Gerais.

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6 Desafios do Café Nacional Publicado em 13 de Setembro de 2004, no Caderno Agropecuário do Jornal Estado de Minas.

O laissez-faire, proposto pela Revolução Francesa e fundamento econômico da época, favoreceu um importante movimento no processo de evolução da humanidade: a revolução industrial. Este movimento teve início na Inglaterra, por volta de 1760 e alastrou-se pelos demais países do mundo. O homem camponês cedeu espaço ao homem industrial. A terra lavrada, organizada em processos produtivos, que remetiam ao modelo feudal, abriu espaço aos núcleos urbanos, aos cortiços, a um novo modelo de trabalho, que envolvia o uso de novas fontes de energia, máquinas para favorecer a produção em escala, pela a divisão e especialização do trabalho, impulsionando ciências importantes como a administração (Frederich W. Taylor, Henry Fayol e Henry Ford) e a economia (Adam Smith, Thomas Malthus e David Ricardo). Eles defendiam a crença de que o acúmulo de capital era uma fonte fundamental de crescimento e que, o desenvolvimento no setor agrícola e no industrial era distinto em razão dos métodos de divisão de trabalho e inovações tecnológicas. Para eles, a indústria tinha vantagem considerável em relação à agricultura, que usa as tendências de crescimento tecnológico como forma a possibilitar retorno de investimentos confortáveis, mesmo em períodos de estagnação econômica.Tal perspectiva ainda é auxiliada pela política de gerenciamento de mão-de-obra, que aumenta em razão da necessidade de atender à demanda de consumo, além do fato de ter seu salário ajustado ao valor fixado pelo estado, quando do seu aumento, a fim de não reduzir a lucratividade do capital investido. Esse processo de transição também atingiu a atividade cafeeira mundial, até então rural. Conforme Delfim Neto (1979), em 1865, nos Estados Unidos, começou a processar-se uma revolução tecnológica da mais alta

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importância para a generalização do consumo de café. O café até então era vendido cru no país, de modo que o consumidor o torrava a seu gosto em casa. O processo de industrialização proporcionou uma importante evolução mercadológica, que foi a padronização do aroma e sabor do café, já que para a industrialização do produto, partia-se do pressuposto do estabelecimento de mesclas (misturas de grãos), definição de um ponto específico de torra e consequente sistema de comercialização em embalagens prontas para o consumo. Embora a oficialização da industrialização do café tenha acontecido apenas no século XIX, no ano de 1997, em escavações arqueológicas realizadas próximas a Dubai (Emirados Árabes) encontrou-se um grão de café torrado datado do século XIII (L’ABCdaire du Café, 1998). Sem a submissão do grão ao calor do fogo, sem dúvida, o produto não teria prosperado como bebida, já que os aromas e sabores característicos do grão somente se desenvolvem durante o processo de torra. No Brasil, a introdução do café no hábito alimentar acontece juntamente com a ascensão da cultura, sendo inclusive elemento de inspiração da obra Negras vendedoras de café torrado, de Debret. Ainda assim, percebe-se que a indústria de café brasileira é muito jovem, dado que os registros mais remotos no Brasil, datam de 1902, sendo que as indústrias mais tradicionais em atuação no País são de 1945. Sua juventude não impediu, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), que o setor tenha 1.170 indústrias de café, responda por cerca de 13,7 milhões de sacas de café consumidas (2003), fature anualmente R$ 3,88 bilhões em vendas, realize investimentos de R$ 1,6 bilhão em insumos neste mesmo ano e exporte, em 2003, R$ 12,8 bilhões, uma alta de 124%em relação a 2002. E falando em exportação, a inserção brasileira no mercado internacional não parece ser uma das tarefas mais fáceis, em função das barreiras técnicas que os países consumidores impõem a produtos industrializados, que possam ser mais competitivos que os de suas indústrias nacionais. Infelizmente, é fato também que não há como elevar a participação brasileira no bolo que gira US$ 60 bilhões por ano, só no segmento agroindustrial do café mundial, com o engessamento da estrutura industrial nacional pelo estado, que não resolve seu problema de ingerência e quer fazer com que a sociedade arque cada dia mais com uma carga tributária escorchante (a novidade agora é a PIS/Cofins). Enquanto isso, o café, sacro 26


ouro verde, continua a ser exportado in natura (graças à Lei Kandir) para compor mesclas com outras origens, que recebem a fama e os dólares, tal como Colômbia e demais países centro-americanos, asiáticos, oceânicos e africanos. O desafio da indústria de café brasileira passa a ser não só as bandeiras da qualidade, da elevação do consumo interno e da exportação de produtos com valor agregado. O desafio maior é o de manter as portas abertas, suportando a política romanado “pão, circo e altos tributos” que está governando o País há muitos anos.

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7 Um olhar sobre o 4 C’s: como o Código Comum para a Comunidade Cafeeira impactará na competitividade do Segmento Agroindustrial do Café Brasileiro Publicado em 17 de dezembro de 2004, na Agência Safras e Mercados

Não faz muito tempo, o critério de análise do agronegócio café mundial era uma oposição entre o desempenho dos países centro-americanos (inclua-se aí a Colômbia, país sul-americano), calcados nos “suaves” e o Brasil, com a política de comercialização gerenciada pelo Instituto Brasileiro do Café, cuja crença era de que o maior sucesso relativo brasileiro decorreria da adoção de um modelo de crescimento baseado nas exportações de commodities. Este pensamento norteou as ações do instituto desde sua fundação em 1952 até sua extinção em 1990, estratégia esta que deu certo enquanto o café era a única commodity representativa na pauta de exportações nacional. Com a ruptura deste paradigma intervencionista, a cafeicultura nacional viu-se obrigada a adotar um modelo calcado nas regras de mercado. A qualidade e especialmente a valorização da origem nacional como importante diferencial competitivo passaram a dar o tom das ações de marketing e desenvolvimento de mercados. O realinhamento em direção a este foco vem assumindo importante posição no contexto da cafeicultura brasileira, refletida na construção do aparato legal que aos poucos vai se alinhando às exigências do mercado internacional. Juntamente com esta modernização da legislação, observa-se que a cadeia agroindustrial do café está se movimentando de forma a favorecer a criação de toda uma estrutura que permitirá ao Brasil transitar de seu atual estigma de maior produtor da commoditty para o um contexto que privilegie a visibilidade de sua origem. Esse processo que se iniciou no

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segmento produtor, tem agora permeado o segmento industrial do café, justamente na intenção de agregar mais valor ao produto. A agregação de valor, diga-se de passagem, no contexto do agronegócio café é uma combinação sinérgica das ações desenvolvidas nas macroestruturas do negócio: produção, indústria e comercialização. Esta sinergia torna-se visível na xícara com café servida ao consumidor, não importa onde este esteja. Contudo, esta mescla de ações dos agentes, no contexto nacional, vem sendo construída de forma a privilegiar maior rentabilidade, principalmente no que tange à comercialização, onde ocorre maior remuneração do produto. A comercialização de produtos com alto valor agregado como alternativa à exportação de produtos “in natura”, esteve sob os holofortes do discurso do secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, durante a abertura da XI Unctad - Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento, ocorrida em São Paulo, neste ano. Esta provocação vai de encontro com a necessidadede ruptura com a cultura da “commodity”, cujo mote foi lançado durante o governo FHC e que agora vem sendo reforçado pelo estilo “mascate” adotado pelo governo Lula. Isso exige que o país adote uma postura agressiva frente aos players internacionais, principalmente quando se trata de um negócio que atinge cifrasde US$ 80 bilhões ao ano. Este posicionamento está diretamente relacionado não apenas com ações diplomáticas que envolvem missões empresariais ou painéis junto à Organização Mundial do Comércio. Envolve também a compreensão minuciosa da potencialidade dos países que possam ser possíveis parceiros comerciais, percebendo ainda onde cada produto brasileiro se encaixa e desenvolvendo habilidades na negociação e principalmente inteligência comercial que fomentem todas as ações. Dessa maneira, acordos que privilegiem a polarização entre países produtores de produtos “in natura” e países que industrializam e comercializam estes produtos, já com maior valor agregado devem ser vistos com certa reserva. No âmbito da cafeicultura mundial, o último acordo que possui características dessa ordem e que foi adotado no último dia 23 de setembro pela Organização Internacional do Café é o Código Comum para a Comunidade Cafeeira ou 4C’s. O que é o Código Comum? O 4C’s configura-se num novo instrumento que propõem a criação de um mercado comum do café. Esta iniciativa que foi criada em janeiro 29


de 2003 pela Associação Alemã do Café, Cooperação Alemã para o Desenvolvimento - GTZ e Ministério Federal da Economia, Cooperação e Desenvolvimento da Alemanha e que habilmente envolveu grande gama de agentes do segmento agroindustrial do café mundial (vide quadro Membros Participantes), tem como principal escopo o desenvolvimento de um código de conduta para garantir a produção e sustentabilidade da cadeia do café verde. O seu enfoque principal que é a sustentabilidade, baseia-se nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas, conferindo ao código três importantes dimensões: uma social, uma ambiental e outraeconômica. Dimensões do Código Comum da Comunidade Cafeeira Dimensão Social: A produção de café só pode ser sustentável se possibilitar condições decentes de trabalho e de vida para os agricultores e suas famílias e para os empregados. Isto inclui o respeito pelos direitos humanos e pelas normas trabalhistas e a consecução de um padrão de vida decente. Dimensão Ambiental: A proteção do meio ambiente como, por exemplo, as florestas primárias e a conservação de reservas naturais como a água, o solo, a biodiversidade e a energia são elementos centrais da produção cafeeira e do processamento pós-colheita numa base sustentável. Dimensão Econômica: A viabilidade econômica é o fundamento da sustentabilidade social e ambiental. Ela inclui ganhos razoáveis para todos os participantes da cadeia cafeeira, livre acesso aos mercados e meios de vida sustentáveis. Fonte: Common Code for the Coffee Community, 2004.

Estas dimensões serão o cerne das ações a serem desenvolvidas por parte dos participantes, em prol do desenvolvimento permanente e melhoria contínua dos processos da cadeia do café verde. Para se atingir este objetivo, o Código Comum tomou como origem diversas normas e códigos

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que operam no setor cafeeiro mundial, estruturando a partir daí, um alicerce normativo que pretende intensificar a cooperação com as atuais estruturas existentes nos países participantes, não desprezando a identidade de cada um. Além disso, corroborará para uma nova compreensão de qualidade que inclui a qualidade intrínseca e sensorial do café verde, bem como a qualidade da sustentabilidade no processo produtivo. Como mecanismos do código comum, estão previstas a transferência de renda em direção aos produtores, otimizando a cooperação e a conscientização acerca das responsabilidades ao longo da cadeia, proporcionando ao consumidor e à sociedade um sistema confiável que permita acompanhar a sustentabilidade deste café comum. O princípio para o funcionamento do código centra-se no espírito de cooperação entre as entidades dospaíses produtores, do comércio, da indústria e da sociedade civil participantes, bem como organismos e instituições multilaterais que apoiaram o processo. Dessa maneira, embora a pretensão não seja solucionar a crise atual do café, conforme o próprio texto do Código afirma, esta cooperação oferecerá uma perspectiva para o desenvolvimento de longo prazo para os fornecedores e estabelece uma nova base paraa competição com referência a qualidade tanto do produto como dos métodos de produção sustentável. [Vantagens para os] produtores: 1. Aquisição de poder e de maior capacidade de gestão; 2. Obtenção de melhores retornos da produção; 3. Demanda previsível por café do Código Comum; 4. Melhor acesso ao mercado; 5. Melhoria dascondições de vida; 6. Melhores condições sociais para os trabalhadores e suas famílias; 7. Preservação do meioambiente. [Vantagens para o] comércio e indústria: 1. Fornecimento garantido de café verde de qualidade; 2. Mercado de cafégarantido para o futuro;

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3. Empenho para com a responsabilidade e sustentabilidade social da empresa; 4. Maior sustentabilidade para o mercado principal; 5. Maior transparência e rastreabilidade de mercado; 6. Preservaçãodo meio ambiente. De acordo com o Código, a participação é aberta para qualquer agente da cadeia produtiva, contudo, o acesso ao mercado do café comum exigirá que produtores, processadores e comerciantes satisfaçam às exigências presentes no Código Comum, por meio da criação das Unidades do Código Comum, que evitarão por exemplo, uso de mão-de-obra infantil ou trabalho escravo ou servil na produção de café, falta de atendimento a direitos sociais dos funcionários e uso de pesticidas proibidos. Estas Unidades do Código Comum serão responsáveis pelo acompanhamento das metas previstas, conforme a Matriz do Código, descrita no quadro abaixo sucintamente: Dimensão Social 1. Liberdade de associação; 2. Liberdade de negociação; 3. Discriminação; 4. Direito à infância e à educação; 5. Condições de trabalho; 6. Desenvolvimento de capacidades e aptidões; 7. Condições de vida e educação Dimensão Ambiental 1. Biodiversidade; 2. Agroquímicos; 3. Fertilidade do Solo; 4. Água; 5. Detritos; 6. Energia.

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Dimensão Econômica 1. Informações sobre o mercado; 2. Acesso ao mercado; 3. Qualidade; 4. Comércio; 5. Cadeia da Oferta. Fonte: Common Code for the Coffee Community, 2004.

O controle de cada variável acima descrita possui um sistema de “semáforo” que indica as ações a serem mantidas, suspensas ou excluídas do dia-a-dia dos agentes participantes. Os impactos Avaliando o Código, verifica-se a intenção de oferecer a cadeia produtiva do café verde mundial uma estrutura de governança que permita, de um lado, uma elevação da renda do pequeno produtor, todos situados em países em desenvolvimento, e de outro, garantir à indústria e comércio participantes, garantia de um produto sustentável, rastreável e com características organolépticas nobilíssimas, que somente osmelhores cafés possuem. Ora, a princípio, considerando que a expectativa é de beneficiar cerca de 25milhões de famílias de produtores ao redor do mundo, a iniciativa parece excelente. Todavia, para o Brasil esta cooperação pode vir a ser uma grande ameaça no médio prazo para o programa brasileiro de exportações de cafés industrializados, porque claramente o documento enfatiza a sustentabilidade dacadeia de cafés verdes. A leitura que fazemos deste código é que ele configura-se numa formalização do colonialismo europeu noséculo XXI, do qual, por uma questão diplomática e comercial, não podemos deixar de participar, porsermos o maior produtor da commoditty. Embora o colonialismo, isso não é de todo ruim, seconsiderarmos que agora, a produção, no seu todo, se quiser manter mercado, terá que se ajustarindependente do tamanho da propriedade, profissionalizando-se em definitivo, no menor espaço de tempopossível. O problema é que a estrutura pública nacional e estadual em termos de assistência técnica está acada dia mais complicada por falta de investimentos e contratação de pessoal, deixando o cafeicultor depequeno

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e médio porte desassistido. Além disso a formação cultural do cafeicultor (pequeno e médioprincipalmente) na parte da comercialização ainda é restrita. Muitos desconhecem por exemplo, aqualidade da bebida dos cafés que produzem, aceitando o critério de bebida “dura para melhor”, padrãoinexistente na Instrução Normativa n 08/2003, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento,que regula a classificação oficial do café verde no país. Do ponto de vista técnico, por mais certificados e por mais sustentável e rastreável que um café verdepossua e seja, ao chegar à indústria este mesmo grão será uma matéria-prima pela qual o mercado paga umprêmio financeiro pela qualidade. Mas não passa disso. O que agrega valor verdadeiramente é aindustrialização e a comercialização, onde a rastreabilidade, sustentabilidade e certificação tornam-seagregados das estratégias de marketing ante o mercado consumidor. A ênfase na cadeia do café verde dadapelo 4C’s portanto, polariza o negócio do café mundial, colocando de um lado os países produtores e deoutro, os que são responsáveis pela industrialização. De acordo com o Relatório da Comissão Especial daCafeicultura Mineira, realizado em 2003, o mercado de cafés está concentrado nas mãos de apenas cincograndes empresas, que respondem por 69% das aquisições dos grãos no mundo (Nestlé, Kraft, Sara Lee,Tchibo, Procter). Para a indústria brasileira, que não está participando diretamente como membro do Código, os riscos sãoaltos, dado que é muito mais fácil desestruturar um futuro inimigo antes que ele se fortaleça, do quepermitir que o Brasil chegue à vanguarda da industrialização e comercialização do café no mercadomundial. Como chegaremos a ser grandes exportadores de café industrializado, se não formos capazes deacessar importantes mercados, em função de barreiras técnicas que a cada dia os mercados consumidoresimpõem? Como muito bem disse Alberto Torres “uma nação pode ser livre, ainda que bárbara, semgarantias jurídicas; não pode ser livre entretanto, sem o domínio de suas fontes de riqueza, dos seus meiosde nutrição, da indústria e do comércio”. Estas palavras, do início do século passado, sintetizam bem umsentimento de brasilidade que deve permear as ações que visem a defesa dos interesses nacionais,estendidos agora ao mercado externo, que garantem os dólares para a economia nacional. Mesmo diante de um contexto que vai de encontro com o modelo 34


cepalino, não compete mais ao nossopaís continuar a manter a postura de fornecedor de matéria-prima. No momento, estamos diante de um fatoque demanda elucidarmos nossa inteligência comercial, de forma a não permitirmos a ruptura do processode posicionamento da indústria, neste complexo tabuleiro de xadrez, que é o de comercialização de cafésindustrializados, com alto valor agregado.

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8 Mais valor ao café brasileiro Publicado em 25 de Abril de 2005, no Caderno Agropecuário do Jornal Estado de Minas.

Muito tem se falado sobre a agregação de valor ao café. Este tema ganhou maior importância, principalmente nos anos 90,com a extinção do Instituto Brasileiro do Café – IBC, conduzindo o mercado cafeeiro brasileiro a desenvolver ou adotar ferramentas de elevação da competitividade,como por exemplo, o fortalecimento das ações de marketing. Embora no Brasil o marketing seja confundido com uma de suas ferramentas, a comunicação; o seu significado diz respeito ao processo de gestão pelo qual os indivíduos e grupos obtêm o que querem, por meio da criação, oferta e troca de produtos e valores por outros. De acordo com professor e especialista em marketing Marcos Fava Neves, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP de Ribeirão Preto, após determinar-se os segmentos-alvo da empresa ou propriedade, parte-se para a diferenciação dos produtos e serviços, tornando-os perceptíveis frente aos consumidores. Para isso, lança-se mão, no caso do café, da aparência visual, origem, sanidade, qualidade, sabor, teor de ingredientes, desempenho, durabilidade, estilo, freqüência e forma de entrega, instalação, treinamento do consumidor, desenvolvimento de credibilidade, reputação, entre outros. Considerando a dinâmica do mercado, o marketing é o elemento que responde pela organização das informações oferecidas pelo processo de agregação de valor realizada pelos agentes que compõem um determinado agronegócio. A organização aqui, acompanha as variáveis produto, preço, praça e promoção, de forma a gerar uma especificidade daquilo que é fisicamente oferecido ao consumidor, perceptível no produto propriamente dito. Conforme Philip Kotler &Armstrong,os produtos podem ser organizados em três níveis distintos: básico, real e ampliado. O produto básico, diz respeito aos benefícios básicos que o consumidor está compran36


do (café). O produto real ocorre a partir do básico. Ele apresenta cinco particularidades: nível de qualidade, características, design, marca e embalagem (café gourmet envasado a vácuo e acondicionado em embalagem cartonada). E o terceiro e último nível, o produto ampliado, surge a partir do produto básico e do produto real, responde pela oferta de serviços e benefícios adicionais ao consumidor (busca de uma recordação, por meio do aroma e do sabor. Por exemplo, cheiro de fazenda). Especificamente, na construção do produto real, além das informações do mercado e respectivos nichos de atuação, levam-se em consideração critérios de criação dos atributos do produto, marca, embalagem, rótulo e serviço de apoio ao cliente. Neste sentido, o cafeicultor pode ser considerado o principal contribuinte para a geração de informações para o agronegócio café, as quais, por meio da ação industrial, atingem o consumidor. A agregação de valor ao café depende da conectividade entre cada processo existente ao longo da cadeia agroindustrial. Permeia as condições edafoclimáticas (altitude); origem; tipos de cultivares (Bourbon, por exemplo); sistema de produção (orgânico, tradicional); método de preparo(natural, cereja descascado ou desmucilado); classificação física (tipos 2, 2/3, 4, peneiras 16 ac,17/18); classificação sensorial (bebidas estritamente mole, mole, apenas mole e dura); mesclas de grãos; ponto de torra; certificados; serviço; modo de preparo (percolação, expresso). A variedade de aromas e sabores, tanto em território brasileiro como no mercado internacional, a infinidade de misturas possíveis no ambiente industrial, as formas de processamento, envase e distribuição geram especificidades pelas quais determinados estratos de consumidores estão dispostos a pagar mais. Ao estar predisposto, o nível de exigência do consumidor em relação à informação aumenta, devido à ampliação do nível de confiança no produto. Tem-se aí um “contrato” nem sempre verbal, mas que, após asedução na gôndola, se efetiva no caixa do supermercado. Dependendo do desempenho do produto em relação à sua capacidade de suprir as expectativas do consumidor, gera-se uma relação comercial freqüente. Agregar valor ao café é uma arte que supera o aporte técnico, contratual e institucional. É um delicado tear, comparável ao da renda de bilro, cuja beleza e nobreza são enaltecidas pelos elementos do marketing. Esse complexo forma o ambiente ideal para a condução à sustentação financeira do agronegócio. 37


9 Sobre Cafeologia Publicado em 23 de maio de 2005, no Coffee Break, O Portal do Agronegócio Café

Fundada em setembro de 2005, a Cafeoteca de Paris faz parte do projeto Connaissance du Café e chancela todo o movimento global rumo à elevação do padrão de qualidade do café servido ao redor do mundo. Esse projeto, coordenado pela Dra. Glória Montenegro e que tem Néstor Osorio, diretor-executivo da OIC (Organização Internacional do Café), como presidente de honra, tem o objetivo básico de criar um banco de amostras dos melhores cafés do mundo (legrand crus), eleitos por meio de concursos, e o conseqüente fomento da atividade de cafeólogo, profissional que se similariza ao enólogo, no âmbito da vitinivicultura. A título de explicação, a Cafeologia, conforme a Associação de Cafeologia, sediada na França, é a arte de degustação visual, olfativa e gustativa de cafés finos e raros, provenientes das chamadas terroirs d’appellacion (denominação de origem). Esse profissional se distingue do barista, que é considerado o sommelier da cafeicultura, por não se voltar com maior ênfase ao processo de preparo dos cafés, embora em ambos os casos a arte inerente ao cotidiano do barista seja imprescindível. O cafeólogo combina a arte da degustação, realizada dentro do ritual do consumo, preparado pelo barista, visando a interpretação da personalidade de cada café,estando sua ação voltada exclusivamente ao segmento de alta astronomia, porque aprecia apenas os chamados grand crus. Essa área do agronegócio café somente se tornou possível depois do desenvolvimento da tábua de aromas do café, que contempla essencialmente trinta e seis aromas diferentes, indo desde aromas que lembram frutas até aromas menos agradáveis, como o cheiro de animais. Essas nuances formam a personalidade de cada café, tal como acontece com os vinhos e azeites finos e são mais ou menos intensificadas, conforme o método e condições de preparo de cada bebida. 38


Embora o preparo tradicional do cafezinho, feito em coador, seja muito utilizado no Brasil e se combine com as mais caras tradições culinárias brasileiras, verifica-se, ante a necessidade de formar novos consumidores, a importância do desenvolvimento do segmento de cafés expressos. Há uma explicação para isso: os grãos do café possuem óleos aromáticos que, nesta modalidade de preparo, são convertidos na emulsão que formam o creme do café expresso. Nesse creme estão presentes os aromas e os sabores que conferem, ao apreciador, a sensação de prazer no momento do consumo. Aqui cabe ressaltar a importância capital do barista. A cafeologia, ciência/arte em emersão, abre um precedente importante para o Brasil, que ocupa o posto de maior produtor de cafés do mundo e que, até 2010, tornar-se-á o primeiro mercado consumidor mundial. Não significa simplesmente uma elitização do consumo do café, mas, sim, um processo de valorização de cadabrasileiro como porta-voz do que há de melhor no país. Para isso, aprender a apreciar é preciso. O Brasil, para quem ainda não conhece esse universo, possui 14 regiões produtoras de cafés distintas (é válido considerar que somos ricos em microrregiões também) capazes de oferecer experiências sensoriais únicas e a primeira Appellation Controllê de cafés do Brasil — Cafés do Cerrado (considerada pela Connaissance du Café uma região produtora de grand crus, tornando-o equivalente ao Blue Montain e a outros cafés exóticos). O país oferece também, como maior produtor mundial, a certeza do acesso do cidadão brasileiro à melhor experiência gastronômica e saudável do mundo, na cafeteria mais próxima, a preços acessíveis, para todas as idades.

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10 Glocalização na Cafeicultura Publicado em 19 de Setembro de 2005, no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Embora a discussão fosse implícita anteriormente, é certo que desde a extinção do Instituto Brasileiro do Café, em1989, a agregação de valor tornou-se tema norteador das discussões e práticas dos agentes envolvidos com o agronegócio, por tratar-se de fenômeno/atitude glocalizada. Mas o que é glocalização? Trata-se de um conceito que reúne as perspectivas econômicas e sociais oferecidas pelas discussõessobre globalização e território (no sentido de espaço local). Esse conceito avalia estruturas de relações interpessoais e institucionais peculiares, capazes de seguirem processos de modernização compatíveis com as tendências mundiais, sem perder o fio histórico e a personalidade que fazem de cada espaço um conjunto único de pessoas, regras, cultura, entre outros. No contexto da cafeicultura, a glocalização pode ser entendida como a capacidade de cada nação participante da atividade dese enquadrar às novas tendências da cafeicultura mundial, sem perder de vista sua tradição e as respectivas características emblemáticas inerentes a cada região produtora de cafés, inseridas num contexto de economia de mercado. Se ponderarmos que atualmentea cafeicultura como negócio gera cerca de 62 milhões de empregos diretos e indiretose US$ 80 bilhões/ano, podemos dizer que a discussão em relação ao significado da agregação de valor, ante o contexto da glocalização, passa a eleger como fundamento o seu cunho social, por configurar-se força motriz para a expansão da oferta de empregos (embora este crescimento não seja no curto prazo, equivalente à distribuição equânime de renda). Além disso, essa bandeira alavanca o processo desenvolvimento ao mesmo tempo em que fortalece o processo de coordenação das cadeias produtivas de cada país inserido na atividade, dentro do espírito “da semente à xícara” (esse espírito, dado o processo evolutivo do agronegócio café brasileiro, também deve refletir40


-se na marca Cafés do Brasil, que atualmente não expressa a coordenação do agronegócio na sua totalidade). Nesse sentido, a modernização das políticas públicas em âmbito nacional, que confiram maior competitividade e sustentabilidade ao setor adquire um caráter de urgência, ao mesmo tempo em que rompe com o modelo político baseado em favoritismos, que culminam no engessamento do desenvolvimento. Em outras palavras, isso significa construir uma estrutura política macro, inspirada em princípios de sustentabilidade, segurança alimentar, qualidade e respeito aos direitos humanos, mas sem abrir mão de um olhar individualizado sobre a realidade de cada cafeicultor, de cada industrial, de cada membro responsável pela distribuição e preparo dos nossos cafés. É certo que um arranjo desta natureza é extremamente complexo, já que supera a capacidadede investimento do empresário. Ele está mais diretamente relacionado à vontade política, à convergência de interesses setoriais, ao nível de agilidade dos legisladores e tomadas de decisão e à capacidade de realizar/captar investimentos por parte do estado. Contudo, esse arranjo é crucial frente à nova realidade da cafeicultura mundial. Apontam-se como exemplos a realização da 2ª Conferência Mundial do Café (organizada pela Organização Internacional do Café, Governo Brasileiro e Associação de Irrigantes do Oeste Baiano/Aiba) e a implementação do Centro de Inteligência do Café (CIC), que recentemente empossou seu Conselho Gestor. Esse último detém a participação de todos os agentes institucionais da cadeia produtiva nacional, incluindo estado, universidades e centros de pesquisa. Quando tratamos de glocalização, passamos a observar melhor os movimentos das peças que compõem o xadrez da cafeicultura. Embora outras conversações cruciais estejam acontecendo, nesta oportunidade chamamos a atenção para dois cenários importantes que estão se delineando e que certamente já influenciam o contexto daqueles envolvidos com o agronegócio. O primeiro e que promete seruma revolução mercadológica no contexto do café verde no curto e médio prazos, é o Código Comum da Comunidade Cafeeira, também conhecido como 4C, que ainda está em discussão no foro da Organização Internacional do Café, mas que já representa um sistema que já responde por uma fatia de mercado igual ou superiora 38 milhões de sacas de café. 41


O segundo, diz respeito à gradativa transferência da liderançado ranking do consumo per capita/ano mundial dos Estados Unidos para o Brasil. Essa conquista deverá se consolidar até 2010, quando o mercado brasileiro atingirá a meta de 23 milhões de sacas consumidas ao ano. Essa mudança traz à tona a necessidade de investimentos em qualidade tanto na produção quanto na indústria, dado que este crescimento se consolida sobre o processo da formação da cultura de consumo (especialmente cafés gourmet e sistema de rotulagem e certificação nacional para industrializados). Por outro lado, ela também demanda melhor preparo gerencial, já que esta expansão tornará inevitável a abertura do mercado nacional para a importação de cafés de outras origens (observa-se que a vinda da famosa rede americana de cafeterias Starbucks para o Brasil é uma mostra de que esta não é uma realidade muito distante. A rede trabalha com um portfólio de cafés especiais de diversas origens e vem realizando negociações com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Especulando um pouco, sabe-se que é o ministério que realiza toda a fiscalização aduaneira e fitossanitária quando se trata da exportação/importação de produtos de origem vegetal e animal. (É aquela história de 2+2...). Finalizando, ressalta-se que a questão da glocalização não se esgota aqui, mesmo porque a cafeicultura é um negócio em plena ascensão, ainda que as dificuldades relacionadas a preço não tenham sido resolvidas, e talvez não o sejam, considerando que o café é a segunda commodity mais negociada no mundo, perdendo apenas para o petróleo. Pelo contrário, esta reflexão oferece um importante precedente para o exercício do livre arbítrio setorial, neste novo século.

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11 Tendências do Mercado Cafeeiro Publicado em 02 de janeiro de 2006, no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Estudos realizados pelo Banco Mundial e pelos principais agentes institucionais no mundo e no Brasil e discussões realizadas durante a 2ª Conferência Mundial do Café definem claramente que o mercado cafeeiro passará perto da qualidade tanto dos segmentos voltados para a produção de cafés diferenciados com quantidade, quanto daqueles voltados para a produção de cafés diferenciados com especificidade. Ambas vertentes conduzem à tomada de ações importantes, principalmente no nível do produtor, que precisa readequar-se às chamadas boas práticas de produção (preliminarmente), para atender o novo mercado que ora se configura. Qualidade é um fator determinante para a sobrevivência e é uma condição irreversível para competitividade no mercado. Contudo, parece que esta realidade para muitos ainda apresenta-se como uma fronteira distante, principalmente quando lida-se com processos de certificação. Ao passo que a certificação diferencia e atesta qualidade do processo, ela torna-se excludente pelo seu custo de acesso. Infelizmente, o cenário que se desenha mais à frente para a maioria é o de exclusão, ante a convergência do mercado para as normas internacionais voltadas à produção de cafés de altíssima qualidade. Cafés diferenciados, produzidos dentro de normas que preservem a sanidade e rastreabilidade dos grãos são uma exigência cada vez maior dos consumidores que, sem dúvida, já mobilizam a indústria de café, especialmente a nacional, que realmente são os grandes compradores de todo o café produzido no mundo. Não coordenam a cadeia, apenas seguem as tendências de mercado ditadas por consumidores que cada vez mais detêm informações e anseiam por produtos saudáveis que mantenham sua qualidade de vida.

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Por outro lado, lidamos com o investimento limitado em marketing de origem e respectivamente com o problema de formação de preços que muitas vezes também engessa o desenvolvimento de uma forma mais intensiva deste foco na qualidade na lavoura. Sem recurso, não há investimento, nem acesso a crédito (dispensando aqui comentários sobre as taxas de juros do país). Faltou marketing no passado e continua faltando. Não temos um rosto e nem um Juan Valdez para dizer quem somos e o que de fato produzimos. Nosso posicionamento não é agressivo como o dos centro-americanos e dos colombianos. Cita-se como exemplo mais recente a avaliação da instalação de uma cafeteria com a marca Juan Valdez no Brasil, pela Federação dos Cafeicultores da Colômbia. De quem éa culpa desse atestado de incompetência nacional? Do extinto Instituto Brasileiro do Café, dos agentes institucionais, da política cafeeira que ainda não se encontrou mas já está fazendo alguma coisa, da perda da representatividade da cafeicultura nocontexto de formação da balançacomercial nacional nas últimas quatro décadas ou de cada um de nós que fica a espera que o outro faça pela gente? Um bom marketing institucional de origem é formado por um conjunto de atributos e que no caso do café, supera a fronteira da qualidade do grão em si. Depende de certas chancelas internacionais, como por exemplo, o reconhecimento da origem. Há um pouco mais de sete décadas que o Brasil tenta o reconhecimento do café brasileiro como origem no contrato “C” negociado na Bolsa de Nova York, sem êxito. Sem este reconhecimento, o café nacional continuará a ser submetido às oscilações de preço negociados em bolsa. Essas oscilações dependem da formação dos números relacionados à previsão de safra, oferta e o consumo mundial, bianualidade, existência ou não de fatores climáticos e a contínua ação de investidores e fundos de pensão, os quais comumente contrariam as análises técnicas. 2006 neste aspecto, pelo menos promete ser um ano que deixará o cafeicultor mais feliz, considerando que as projeções de preço são otimistas, ante a possível escassez de café que vem se delineando no mercado internacional: consumo mundial de 118 milhões de sacas, contra uma produção mundial estimada em 105 milhões (dados da Organização Internacional do Café, 2005). Em função disso, hoje fala-se em renovação do parque nacional

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como forma a garantir a permanência brasileira no curto prazo, como principal país produtor e fornecedor de café no mundo. Fica o recado para que esta renovação dê-se dentro de um foco estratégico voltado à qualidade. Basta observarmos as mudanças profundas que vem sendo promovidas no mercado brasileiro pela indústria e setor de serviços. Não plantemos por plantar, porque é certo que essa demanda uma hora se estabilizará novamente e o excedente de oferta gerará mais instabilidade de preços também, ainda que o lastro de consumo que vem sendo desenvolvido no Brasil – 21 milhões de sacas até 2010 se confirme. E o problema mais uma vez ficará nas mãos do produtor, se faltar o tal olhar estratégico. É o que a história da cafeicultura nacional conta. Poder-se-ia ir além nas reflexões, mas concentremo-nos nestas aqui postas, em razão do seu impacto e relevância para os novos rumos da cafeicultura brasileira. Que a partir delas, seja possível a ação necessária para que nos adequemos ao novo cenário, sem mais uma vez deixar que o trem da história e do mundo dos negócios nos ultrapasse novamente. Reflitamos e olhemos para frente, deslumbrando um futuro grandioso e bem-sucedido.

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12 Café torrado brasileiro além das fronteiras Publicado em 16 de janeiro de 2006, no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas. Participação do Prof. Dr. Antônio Carlos dos Santos, Departamento de Administração da UFLA

O Brasil consolidou-se como tradicional exportador de café verde e solúvel, deixando como lacuna histórica a oportunidade de inserir-se no mercado internacional como grande vendedor também do produto torrado em grão e/ou moído (T&M). Ao contrário da indústria de café solúvel, estruturada para o atendimento do mercado internacional e que atualmente responde por um volume exportado de US$ 280 milhões anuais, o segmento de T&M voltou-se apenas para o mercado interno. Não se pode dizer que essa especialização no mercado consumidor nacional foi totalmente ruim, pois ela colaborou para que o país se tornasse o segundo maior mercado consumidor mundial per capita. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), o mercado brasileiro caminha para assumir a liderança mundial, a ser atingida até 2010, por meio do consumo de 21 milhões de sacas por ano. No que diz respeito à ação internacional do segmento de T&M, criou-se uma miopia e por que não dizer um certo receio deste segmento em atuar além das fronteiras, que começaram a ser superadas por algumas torrefações brasileiras no início da década de 90, colidindo com o processo de abertura da economia nacional. A compreensão desse recente processo de expansão internacional foi tema de dissertação de mestrado produzida no Programa de Pós-graduação em Administração e Economia da Universidade Federal de Lavras (Ufla), a qual buscou avaliar o olhar do executivo sobre essa nova modalidade de negócio da indústria de torrefação e moagem de café nacional. 46


De acordo com o estudo, a expansão internacional é um processo construído ao longo do tempo, para torrefações já consolidadas no mercado interno, mesmo que essas sejam fruto de investimento de grupos de produtores de café, fixados em território nacional e com histórico de atuação no comércio internacional de café in natura. Para que a internacionalizaçãoda torrefação dê-se deforma sólida e consistente, os resultados apontam para a necessidade prioritária de ampliarem-se investimentos em tecnificação das plantas industriais e, respectivamente, em processos de certificação acreditados internacionalmente, bem como para um aumento maciço de investimentos em marketing setorial/promoção internacional de marcas brasileiras. Nesse sentido, ressalta-se que a presença do Estado como principal fonte financiadora do processo de internacionalização é fundamental, especialmente para pequenas e médias empresas, na fase de acesso a mercados. Atualmente a presença do Estado concentra-se em atividades que envolvem diplomacia, organização de missões empresariais e de projetos bipartites, como os programas setoriais integrados (PSI), da Agência de Promoção das Exportações (Apex-Brasil). Além dos aspectos citados acima e não menos importante, está o uso das exportações de cafés industrializados de alta qualidade (gourmet) como estratégia de posicionamento dos exportadores nacionais, tanto para mercados tradicionais como para os emergentes. O investimento em qualidade, aliado ao aproveitamento da vocação natural do Brasil como principal país produtor, a proximidadeda indústria com o produtor e a capacidade instalada da torrefação nacional geram vantagens competitivas e comparativas ímpares: o melhor café brasileiro chega às gôndolas internacionais com preços até 50% mais baratos que os similares disponíveis no mercado externo, favorecendo a conquista de consumidores pelo gosto e pelo bolso. O preço médio negociado em 2005, de acordo com a Abic, foi de US$ 3,75, o quilo. A mensagem que esse estudo deixa é que o sucesso até então alcançado com a recente ação internacional da indústria de café

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oferece a força motriz para que, gradativamente, mais torrefações expandam seus negócios e ampliem a geração de emprego e renda. Isso significa contribuir para o desenvolvimento nacional, ao mesmo tempo em que se corrobora para a construção de um novo horizonte para a cafeicultura brasileira no cenário mundial.

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13 Mudanças nas regras do jogo em prol da consolidação do consumo de café de qualidade no Brasil: uma reflexão Publicado em 23 de maio de 2006, no Coffee Break – O portal do Agronegócio Café.

Todos os caminhos conduzem à qualidade. Pelo menos é isso que as linhas e entrelinhas dos discursos proferidos por todos os agentes que representam as principais instituições do agronegócio café têm defendido. Tanto que falar da não qualidade, que na verdade ainda representa a base do consumo per capita nacional, bem como do mercado marginal do café, ultimamente, é tido como um discurso ultrapassado e tabu. Mas, será? O fundamento da prática mercantil, dentro da perspectiva do marketing, centra-se na capacidade do ambiente de negócios interpretar ou até mesmo antever necessidades das pessoas e instigá-las o consumo. Nesse último, centra-se a magia do marketing: a de despertar ou criar o desejo no consumidor, levando-o a efetivar uma troca mercantil (moeda corrente por produto ou serviço, com distintos níveis de valor agregado). O mercado cafeeiro, considerando a expansão do mercado de cafés especiais no Brasil, tem se mostrado muito eficiente nesse sentido, ao despertarem consumidores mais exigentes o desejo de uma saborosa experiência sensorial, por meio da apreciação de uma xícara de café com maior valor agregado. Outrossim, verifica-se que boa parte das companhias, que têm seus negócios focados no consumidor, não tem medido esforços para diversificar seu portfólio de cafés, especializando boa parte dessa carteira, no mercado de cafés diferenciados. Sustentar esse processo, por sua vez, gera um custo que supera a verba de marketing de torrefações e canais de distribuição importantes, como cafeterias e o varejo. Esse custo se concentra, fundamentalmente, 49


no preço da saca do café verde, responsável por aproximadamente 60% do custo final do kg do café industrializado. A trava de preços do café (hedge), considerando a volatilidade das cotações internacionais desse produto, apresenta-se como importante alternativa de sustentação da lucratividade da cadeia agroindustrial do café, em função do seu caráter estratégico. De acordo com dados do último relatório publicado pelo CNC (Conselho Nacional do Café), em 2006, tratando sobre a situação da cafeicultura brasileira, esse agronegócio ainda continua acumulando prejuízos, principalmente na ponta produtora. Por sinal, registra-se aqui que, se o cafeicultor vai mal, todo o resto vai, uma vez que a base de sustentação da oferta da almejada qualidade do café parte dele. Sem recurso ou rentabilidade, não há como o produtor investir em produção de café, com qualidade técnica (cafés diferenciados). Assegurar, por sua vez, um patamar mínimo de preços ao cafeicultor é sinônimo de garantia de oferta de produto, com qualidade técnica, no médio e longo prazos. Nesse sentido, a aquisição de contratos (compra, venda e opções) da BM&F (Bolsa de Mercadorias &Futuros) e CPR (Cédulas de Produto Rural), apresentam-se como ferramentas importantes no processo de estabelecimento de estratégias de comercialização. Considerando que não existem sistemas de seletrons públicos disponíveis e tampouco processos industriais economicamente viáveis para utilização de grãos defeituosos (desvio de qualidade quesomente pode ser evitado nos processos de produção, colheita e pós-colheita do café), que poderiam, no curtíssimo prazo, resolver o problema da oferta de cafés de baixa qualidade no país é visível que há uma necessidade de melhor refletir sobre o estabelecimento de um mercado de contratos de café (futuro e spot), que atenda tanto objetivos empresariais das torrefações brasileiras, quanto dos cafeicultores e, ao mesmo tempo, reflita a realidade do mercado. Boa parte dos estudos que realizei, voltados ao agronegócio café, concentram-se na análise do segmento industrial, mais especificamente no setor de café torrado em grão e/ou moído. Esse setor, além de registrar importantes cases de sucesso empresarial, tem, no momento, executado duas ações importantes para o agronegócio nacional: uma relacionada ao processo de elevação doconsumo de cafés, por meio de certificação de indústrias e, respectivamente, de marcas de cafés nacionais (PQC — Pro50


grama de Qualidade do Café, da Abic); e outra relacionada ao processo de alavancagem da inserção internacional da torrefação brasileira, via comercialização de cafés diferenciados nacionais com valor agregado pela industrialização (PSI — Programa Setorial Integrado para Cafés Industrializados, da Apex). Ambas as ações, interdependentes, que são coordenadas pela Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café), demandam como pré-requisito para o seu sucesso, a garantia de oferta de padrões mínimos de qualidade, em escala, que permitam a preservação dos padrões dos cafés industrializados (mesclas ou blends) e o respeito a contratos, especialmente os internacionais. Refletindo sobre a necessidade apresentada pela Abic à BM&F, sugerindo a criação de um contrato para cafés arábica, no padrão tipo 8 (360 defeitos), verifica-se, nessa solicitação, um real empenho da instituição em conduzir as torrefações brasileiras à consolidação do processo da qualidade, que vem sendo construído a duras penas.Tipo 8 é o padrão mínimo de qualidade proposto pelo PQC/Abic aos industriais de café brasileiros. Esse programa de certificação privado, tem como escopo promover a elevação do consumo de cafés no mercado nacional, que responde pela absorção de 15,6 milhões de sacas (dados 2005), por meio da difusão de informações de uma forma mais clara e inteligente para o consumidor brasileiro, visando a criação de uma nova cultura de consumo de café no país. Por detrás dos selos de qualidade e o perfil de sabor, propostos pelo programa de qualidade da Abic, há uma crescente demanda por cafés diferenciados no mercado, combinada com uma mudança no perfil empresarial do industrial de café brasileiro, que, gradativamente, setorialmente falando, vem se profissionalizando. A imprescindível adequação tecnológica e as mudanças de percepção sobre qualidade do café, por parte de importantes canais de distribuição instalados no país (Carrefour e Pão de Açúcar, por exemplo), têm contribuído para a aceleração do processo, principalmente no estrato das 100 maiores torrefações do país. Embora para o agronegócio café o tipo 8 não seja a “menina dos olhos” de ninguém, é perceptível que, no momento, esse é o máximo dentro do possível, considerando a atual conjuntura do mercado. Num futuro próximo (entre três a seis anos, estimo), esse patamar de qualidade deve evoluir formalmente para o padrão BM&F, no contexto da grande torrefação. Ainda que as 100 maiores torrefadoras brasileiras respondam 51


por aproximadamente 60% do café industrializado no país, boa parte do consumo dos 15,6 milhões de sacas, está sob a responsabilidade de micro, pequenas e médias torrefações, com forte perfil de atuação regional. Essas, por sinal, têm problemas semelhantes aos dos cafeicultores de pequeno e médio porte, com o gradativo processo de descapitalização e escassez de capital de giro, combinado com problemas de inadequação tecnológica e problemas de concorrência desleal e autofágica. Considerando esse perfil, verifica-se a inexistência de estimativas em relação ao tempo em que se levará para que todas as torrefações brasileiras produzam cafés dentro dos parâmetros propostos pelo PQC/Abic. É certo que, até o momento, nem todas as existentes no Brasil detêm o selo de Pureza da mesma instituição, uma vez que esse como aquele são de cunho privado, não compulsório. Isto é, para tê-los em sua embalagem, há a necessidade da torrefação se associar a Abic. Se houver uma maior adesão de industriais de café aos negócios realizados no mercado futuro, é certo que a prática de aquisição de matérias-primas, por meio da relação indústria e produtor, já institucionalizadas em cadeias produtivas como a do frango e do fumo, por exemplo, tende a conferir maior estabilidade de preços praticados no médio e longo prazos, inclusive no mercado físico. Tudo indica que, em breve, o maior mercado consumidor dos cafés brasileiros, será o próprio Brasil. E essa mudança nas relações torna-se importante. Além disso, é visível que a demanda por cafés diferenciados, para o atendimento do mercado internacional detorrados, também tem se posicionado de uma forma positiva e crescente em função do processo de diversificação dos negócios das torrefadoras. Em tese, o aproveitamento da expertise e da segurança oferecida pela solidez de uma bolsa de mercadorias situada em território nacional no processo de negociação futura de café, gera certa independência da volatilidade de preços do café imposta por bolsas internacionais, como a nova-iorquina (Nybot). Primeiro em funçãodo aumento do volume diário de negócios realizados num pregão ocorrido no Brasil. Segundo pela geração de garantias em termos de preços mínimos e a padronização da qualidade dos grãos ofertados ao mercado. A combinação de ambos é imprescindível para a sustentabilidade econômica dos negócios ao longo de toda a cadeia produtiva. Mudanças, tanto no comportamento empresarial (de cafeicultores e 52


industriais), quanto na forma de estabelecimento de contratos, combinadas com as ações de marketing atualmente empreendidas, sem dúvida, colocam o agronegócio café nacional com seus “dois pés” no século XXI. Então, primando pelo bom senso no agronegócio, que a convergência de interesses prevaleça.

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14 Parceria que pode dar certo Publicado em 05 de junho de 2006, no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

Com a proximidade de grandes eventos esportivos como a Copa do Mundo, os Jogos Pan Americanos (Rio de Janeiro –2007) e os Jogos Olímpicos (Pequim– 2008), as atividades esportivas voltam a assumir importante papel como vitrine promocional de marcas e respectivamente, como vendedora de estilos de vida mais saudáveis e menos dependentes do ritmo frenético da civilização moderna. Em termos de negócios, a opção por uma estratégia empresarial voltada ao marketing esportivo pode ser um investimento para aquelas empresas ou setores que buscam na qualidade de vida, o principal mote para a promoção de seus produtos e serviços. A procura dos consumidores por qualidade de vida causa impacto diretamente na forma como os setores produtivos passarão a conduzir suas ações no mercado. Além do investimento na diversificação de seu portfólio, as empresas investem também em processos de certificação e rastreabilidade, abrindo precedente inclusive para o uso de insumos e/ou matérias-primas produzidas no conceito da produção orgânica ou em sistemas que lancem mão de quantidades mínimas de agrotóxicos. Outro aspecto observado na indústria de alimentos é uma tendência gradativa pela diversificação de produtos, visando atender necessidades distintas dos consumidores. Exemplos são mais visíveis nos segmentos de óleos e derivados (óleo de girassol, óleo canola e algodão, margarinas vitaminadas e com ômega 3), frutas (produtos orgânicos, melancia produzida no formato quadrado, com 1kg, para atendimento do mercado japonês) legumes (batata-doce enriquecida com beta-caroteno, produção de mini-legumes, legumes e hortaliças pré-preparados e comercializados em bandejas). No caso do café, verifica-se que o investimento em qualidade ao longo da cadeia produtiva (plantio, industrialização e comercialização) tem 54


se calcado na combinação entre segmentação de mercado, fortalecimento de novas formas de consumo e investimento em pesquisa, tanto na área tecnológica (língua eletrônica, 100% nacional, desenvolvida para auxiliar no processo de análise do produto), quanto na descoberta dos benefícios para saúde, proporcionados pelo consumo da bebida. Os atributos positivos da bebida (vide www.cafeesaude.com.br) podem ser ressaltados por meio do investimento na atividade esportiva, como vitrine em potencial para a marca. Talvez o caso mais emblemático do agronegócio café nesse sentido, seja a vinculação da marca Juan Valdez a eventos esportivos como campeonatos de tênis, patinação no gelo e alpinismo. A estratégia usada colaborou diretamente para a fixação da qualidade do café colombiano na mente de consumidores em mercados tradicionais importantes, como o europeu e o americano. No caso de algumas marcas comercializadas no Brasil e até mesmo do próprio café do Brasil entendido aqui como instituição nacional (marca Cafés do Brasil) verifica-se que a opção pelo investimento no marketing esportivo pode ser uma via interessante. Experiências desse tipo já ocorreram durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, 1996, quando o setor cafeeiro investiu em marketing de marca, criando um espaço Cafés do Brasil paralelo ao evento. Recentemente, o consumo de café colaborou para que a Seleção Brasileira de futebol superasse o problema da altitude em Quito, capital do Equador. Embora nenhuma marca de café tenha sido vinculada àquela partida de futebol, verifica-se que outros esportes têm sido privilegiados por empresas que adotam estratégias diferenciadas em termos de sensibilização do consumidor. Atualmente há presença de marcas de café do país patrocinando eventos internacionais, como a stock car, bem como equipes de vôlei, basquete e equipes ou campeonatos de futebol. O investimento por meio de patrocínio a equipes, em função da visibilidade dada pela TV, jornais e revistas especializadas, favorece a fixação das marcas dos patrocinadores na mente do consumidor e respectivamente, o conceito de qualidade embutido na concepção do produto. Talvez um dia seja possível almejar a logomarca dos Cafés do Brasil na camisa verde-amarela da Seleção Brasileira de futebol ou nos uniformes de outros atletas... Pelo menos até Pequim 2008... Mas essa é uma prosa para outro dia... Na verdade, não importa o porte do investimento. O fundamental

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nesse caso, é oferecer visibilidade à marca de uma forma diferenciada e principalmente, resgatando hábitos de consumo. Além disso, o investimento em esporte, principalmente em equipes de base, formadas por adolescentes, pode ser uma opção inteligente das empresas exercitarem também sua responsabilidade social, resgatando jovens do risco social, contribuindo para o desenvolvimento de uma sociedade melhor.

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15 Drawback: um novo cenário para a cadeia do café Publicado em 23 de junho de 2006, no portal Café Point.

Vários são os pontos de vista quando se trata de política cafeeira brasileira. São interesses ora convergentes, ora divergentes, mas que, ao longo do tempo, têm delineado a face da cafeicultura nacional. Atualmente, além das discussões sobre investimentos nas áreas de ciência e tecnologia e marketing do café, o mercado cafeeiro depara-se com uma importante discussão: a implementação da prática de drawback no contexto do agronegócio café brasileiro. Os eventos que precedem essa adoção demandam uma breve retrospectiva histórica do agronegócio, uma vez que, pode-se dizer que o advento da vinda da Starbucks para o Brasil, em 2006, está para o setor de cafeterias brasileiras, assim como o da vinda da Melitta, ocorrida nos anos 1970, está para a indústria de café. O primeiro, pode ser considerado um indicador de franca internacionalização dos negócios do café, inclusive industriais, e mudança do perfil do mercado consumidor, em relação à qualidade e políticas de promoção; enquanto o segundo, um indicador de quebra de paradigmas num contexto de baixo nível tecnológico e carência de profissionalização. A entrada da Melitta no Brasil, nos anos 1970, ocorreu em função do fim da política econômica brasileira de substituição das importações, trazendo para o país uma nova configuração em termos de tecnologia de industrialização de cafés. Pela primeira vez, o Brasil teve acesso à chamada embalagem a vácuo (ou tijolo), que permite maior durabilidade do café torrado em grão e ou moído, na prateleira do supermercado. Após a chegada dessa multinacional alemã, o setor industrial do café ainda registrou a entrada da americana Sara Lee (dona da marca Pilão), da israelense Strauss-Elite (dona da marca Três Corações e que atual-

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mente é sócia de uma joint-venture formada com o grupo brasileiro Santa Clara - café Santa Clara), das italianas Segafredo Zanetti, Illy e Lavazza (as duas últimas apenas atuam no segmento de cafeterias, por meio da importação de café torrado já embalado, principalmente em sachês). Há ainda, a presença da portuguesa Delta, atuando também no segmento de cafeterias, com a comercialização de sachês. O acesso dessas multinacionais, além de ter forçado a elevação do padrão tecnológico das principais indústrias de café de capital brasileiro, sem dúvida contribuiu para o processo de redução do número total de indústrias de café existentes no país, saindo de um total de mais de 3.000 torrefações nos anos 90 para as atuais 1.100 companhias torrefadoras de café. A previsão é que até 2010, este número chegue a não mais que 100 empresas, em função do alto grau de competitividade no setor e a ativação do uso do drawback. Drawback, grosso modo, é uma prática de importação de matérias-primas realizada por determinada companhia do país, visando agregação de valor a produtos nacionais e sua posterior exportação. Pode ser utilizado também no processo de ampliação do leque de fornecedores de insumos, via a realização de cotações internacionais, onde se buscam os menores preços, dentro de padrão de qualidade predeterminado. É visível que a adoção do drawback não resolverá apenas o problema dos exportadores de café solúvel e torrado em grão e ou moído, que buscam a elevação do seu nível de competitividade, em função do preço e capacidade de atendimento a qualquer tipo de pedido. Resolve também a questão da chegada da Starbucks ao país. Ainda que o discurso adotado pela rede de cafeterias americana seja o da «abrasileirização» do cardápio de cafés servidos, trata-se de uma multinacional com perfil bem específico, ou melhor, dizendo, cosmopolita, filosofia nítida por meio de sua carta de cafés que oferece um passeio gastronômico pelos principais países produtores de café. A adequação do portfólio de produtos e serviços ao perfil local, normalmente só acontece em casos de mercados muito mais arraigados a cultura e religião do que o nosso, como no caso dos indianos em relação à carne de bovinos (para a religião hindu, a vaca é um animal sagrado), como fez o Mc Donalds. O brasileiro tem, em função de sua própria formação multicultural, a dádiva de receber bem novidades e incorpora-las como hábitos cotidianos. O drawback, aplicado ao contexto do agronegócio café, ampliará a 58


atratividade de investimento de multinacionais no país em função dos seguintes aspectos: 1. Pela proximidade do suprimento (o Brasil é o maior produtor de café do mundo) e isso impacta diretamente na redução do custo do quilo do café industrializado nacional. O preço do quilo de nosso café especial torrado configura-se como um dos principais fatores de sucesso da ação internacional brasileira do setor de torrefação. 2. Pelo custo da mão de obra brasileira, menor do que dos países de origem das multinacionais de café. Pelo aumento da competitividade dos elos industriais do país, com a possibilidade de busca de fornecedores internacionais, reduzindo custos. 3. Em função de o Brasil ter elasticidade em relação à demanda de consumo: temos a tradição do cafezinho arraigada na cultura nacional e um mercado consumidor de perfil jovem e em fase de expansão. É evidente que, para que o país assuma o primeiro lugar no ranking mundial do consumo per capita (21 milhões de sacas até 2010), por meio de um discurso e prática calcados na qualidade e certificação, e amplie sua participação no mercado internacional de cafés industrializados, alguns sacrifícios serão necessários. Naturalmente, isso impactará em processo de exclusão de produtores também, deixando a cafeicultura familiar numa situação mais complicada do que a atual. Principalmente agora, quando o quarto comprador do café nacional, o Japão, define barreiras técnicas tão acirradas em relação à presença de agrotóxicos e cerca mais de outras 750 substâncias. A questão que fica é se a cafeicultura brasileira está disposta a «cortar na própria carne», em prol da sua completa inserção no contexto internacional, como plataforma de exportação não apenas de grãos verdes, mas também de café solúvel e torrado e moído. Qual o preço a ser pago pelo agronegócio para que essa transição aconteça plenamente, uma vez que, os tempos dos subsídios, ao que parece, já ficaram para trás? Coisas para os donos das canetas pensarem.

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16 Um olhar sobre o agronegócio Publicado em 18 de setembro de 2006, no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas.

Os movimentos de produtores rurais ocorridos este ano, coordenados por bancadas políticas do legislativo federal e estaduais, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), federações estaduais, sindicatos e associações, se por um lado significaram uma demonstração de força do campo, por outro, expôs a estarrecedora fragilidade que afeta o setor agrícola nacional. É certo que o agronegócio ainda tem peso determinante na política externa brasileira, por meio de sua contribuição para os sucessivos superávits da balança comercial do país. Embora os produtos com maior valor agregado também tenham um peso determinante para o sucesso dos negócios internacionais brasileiros, é certo que, no momento, em função do processo de negociação dos subsídios agrícolas, no foro da Organização Mundial do Comércio (OMC), verifica-se a tendência de mudança da face do setor produtivo, daqueles mercados que têm no campo o esteio da sua economia, como no caso do Brasil. Sabe-se que parte do Plano Real, um dos mais longos planos de estabilização econômica do país e, porque não, bem-sucedida experiência, é um lastro verde e tem um pé na agricultura familiar, quando se trata de hortaliças. Acredito que, em função disso, o governo federal venha anunciando investimentos para esse segmento da atividade agrícola nacional. PROBLEMAS Contudo, olhando para o todo, observa- se problemas sérios, que tendem a comprometer o bom desempenho do agronegócio nacional no curto prazo, especialmente relacionado com o processo de liberalização do comércio internacional no contexto dos produtos agrícolas. Ainda que o crescimento econômico e populacional no Brasil e 60


no mundo possa ser vegetativo, é certo que urge que o governo do Brasil, país que tem uma das cargas Tributárias mais pesadas no mundo, invista na sua parte estrutural, garantindo a criação de vantagens competitivas. Essas vantagens somente poderão ser criadas por meio da redução do impacto do custo da inexistência de modais de transporte e armazenamento eficientes e compatíveis com os índices de produtividade alcançadas pelos produtores em suas propriedades, combinados com sistemas de defesa sanitária mais consistentes, que evitem transtornos para o comércio exterior brasileiro, como o recente episódio da febre aftosa. CELEIRO Somente por meioda governança institucional, coordenada inicialmente pelo Estado, que tem de oferecer à sociedade brasileira contrapartidas importantes na parte de investimentos, no caso estruturais, é que o processo de agregação de valor, realizado por meio de programas de certificação e rastreabilidade, realmente valerá a pena, economicamente falando. Nesse contexto, a relação custo/receitas e tornará mais favorável tanto para o produtor quanto para os demais elos à frente das cadeias produtivas, consolidando o tão almejado processo de agregação de valor aos produtos brasileiros, especialmente voltados para o mercado internacional. Brasil, celeiro domundo, já diziam os antigos. Pensemos nisso.

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17 Obsessão pela qualidade Publicado em 20 de setembro de 2006 no Coffee Break, o Portal do Agronegócio café.

Muito mais do que a paixão pelo café, tanto como cultura, quanto como opção de carreira profissional, cada vez mais, a obsessão pela qualidade se torna via única e regra magna para aqueles que almejam o sucesso no contexto do agronegócio café nacional. Superam-se, assim, as regras de poder, a política cafeeira, o arrangement das instituições, em função da urgente necessidade particular ou setorial, de se curvar como súdito frente ao consumidor, cada vez mais informado e, por conseguinte, mais exigente. Nesse quesito em particular, a construção de uma reputação sólida se torna imperativa. O primeiro passo nessa (re) construção é voltar-se única e exclusivamente para o mercado, esquivando-se dos jogos de interesse que permeiam a cadeia produtiva, os quais podem ser considerados “paroquiais”, parafraseando aqui Max Weber. De acordo com o Reputation Institute, consideram-se contribuintes para a construção de uma reputação sólida ante colaboradores e stakeholders, (I) a liderança impressa no setor de atuação; (II) o exercício da cidadania; (III) a capacidade de governança organizacional e institucional; (IV) os valores norteadores das ações empresariais e individuais; (V) sustentabilidade gerencial — liquidez financeira e capacidade de pagamento; (VI) a estrutura dos produtos e serviços oferecidos em nível corporativo e pessoal; e (VII) o lócus de atuação e a performance. Esses elementos, além de corroborarem para a criação de um novo universo da cultura organizacional, conduzem à aquisição de códigos de conduta que, por conseguinte, conduzem à busca e à incorporação da qualidade, como fator único de sobrevivência em um mercado competitivo. No contexto da cafeicultura, muito se fala de qualidade. Mas é preciso ponderar sobre qual qualidade estamos falando. A construção da 62


verdadeira qualidade passa necessariamente por uma profunda revisão da cultura corporativa e, conseqüentemente, arrebatamento de colaboradores, no seu íntimo, através da persuasão e de sua incorporação no cotidiano deste indivíduo. Não basta falar sobre, é preciso incorporar o discurso nos detalhes e nas ações. Isso é fundamental para que seja realmente possível vender ao consumidor a verdade. E verdade, acima de tudo, conduz à construção da credibilidade. Um café realmente construído sob a égide da qualidade é oriundo de uma história complexa, que envolve mentes, habilidades e capacidades humanas e relacionais convergentes para a implementação de procedimentos e práticas, que geram as diferenças imprescindíveis para a construção do delicado tear, que é o café especial servido na xícara do consumidor. Vejamos: com a recente eleição do café gourmet como produto do ano, reforça-se a importância do investimento em rastreabilidade e certificação dos processos de forma que, gradativamente, o padrão de consumo nacional se consolide num novo patamar cultural, onde seja factível para o consumidor comum falar sobre cafés, tal como se fala sobre vinhos. Eis aí o campo da sofisticação que se deve laborar, a fim de incorporar na praxe diária do consumo, a sedução e o prazer do inebriante hábito de sorver uma xícara de café, produzida sob a égide da paixão pela excelência e sob a paixão pela paixão. Mesmo ante das exigências de mercado, é interessante ponderar que um café elaborado com paixão é diferente. Não tem gosto de McDonalds: mesma cara, mesmo padrão, ainda que isso signifique produção de alimentos seguros. O padrão é a garantia de que o consumidor irá sempre repetir a mesma experiência, contudo, se a intenção é criar especialistas no assunto, é interessante ponderar sobre os domínios da paixão, que leva à expertise, à obsessão pela qualidade e à diferenciação sutil. Se não houver esse cuidado, talvez o ritual do consumo se banalize, ainda que as cafeterias estejam cada vez mais sofisticadas, o barismo ganhe mais espaço como atividade profissional e o negócio de cafés especiais ganhe projeção junto aos consumidores. Não basta um discurso de marketing, é preciso encantar por meio da mágica que é a interpretação dos segredos inerentes a cada xícarade café. Confesso, em particular, que em sete anos de envolvimento com o mercado do café, somente uma marca me proporcionou isso. Não sei se é a marca do produto industrializado, se era a safra do 63


produto, ou se era o momento feliz que vivia. Mas é certo que eu nunca fui capaz de esquecer o sabor achocolatado, levemente frutado, com algumas notas muitíssimo suaves de amêndoas que aquele café tinha. Provei de um café mágico, mirífico, como aquele que encantou Kaldi, nas montanhas Abissínias. E olha que não era ganhador de concurso de qualidade nem tampouco vinha em umaembalagem sofisticada. Na verdade, era um café com alma e assinatura de autor apaixonado. E imprimir isso na xícara doconsumidor é que são elas. Reflito que a minha satisfação, quanto consumidora, seja conseqüência de um árduo trabalho de bastidores, onde a sinergia da equipe se converte em um soneto afinadíssimo, onde a qualidade é o regente e as partituras, uma mistura sutil e intensa dos anseios do consumidor com a obsessão de fazer e oferecer o que há de melhor. Nesse sentido, a certificação e a rastreabilidade deixam de ter um cunho meramente capitalista voltados à criação de vantagens competitivas e comparativas e a atendimento das exigências do mercado. Assumindo, assim, espaço no mundo corporativo, como cuidados oferecidos a uma obra de arte pelo artista apaixonado pelo seu trabalho. Nesse contexto de sucesso, então, sem dúvida, a riqueza é uma consequência do prazer. Que se lance mão de todos os ferramentais existentes para a construção da qualidade dentro do contexto da cadeia agroindustrial do café, mas que, jamais emfunção disso, perca-se a alma. Há de se pensar na poesia então, aquela onde se torna permissiva a torra individualizada de grãos com favas diferentes, a produção da mescla posteriormente, o descanso suave dos grãos para o desprendimento dos gases carbônicos, a regulagem do moinho, a dança das mãos do barista, os cuidados com a xícara e com a temperatura da água, a apreciação da suavidade do creme descendo por aquelas paredes brancas, a se “emulsionarem” no fundo dela em forma de turbilhão e formarem aquela “nata” tom amendoado, que suavemente impregna o paladar com uma silenciosa assinatura de arte de seu artista. Algo como sorver Portinari transformado em café. Que o marketing, então, corrobore para o desenvolvimento da sensibilidade dos consumidores para que o estado da arte cafeeira seja percebido e amado em profundidade.

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18 A energia que vem da agricultura Publicado em 30 de outubro de 2006 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

A redução dos impactos da ação humana na natureza, no último quarto do século 20, contribuiu de modo decisivo para o início do processo de desenvolvimento de tecnologias, que tornassem possível o uso de fontes de energias limpas e renováveis. Essa preocupação foi acirrada principalmente pela instabilidade política nas principais regiões produtoras de petróleo do planeta registradas nos últimos anos, que comprometem em particular a oferta do produto ao mercado consumidor, a preços atrativos. O caso mais recente e emblemático que se pode ressaltar é o caso Brasil X Bolívia, na questão da nacionalização da subsidiária da Petrobras instalada em território boliviano. Além disso, dados da Associação Brasileira do Gás Natural Veicular (2005) indicam que as reservas de energia fóssil, petróleo e gás natural, têm duração finita de 43 e 68 anos, respectivamente, em relação à elevação do consumo no planeta. Esse fator, combinado com a expansão demográfica mundial, e conseguinte crescimento da frota veicular, fortaleceu as discussões em torno da redução de emissão de gases poluentes na atmosfera, a intensificação do efeito estufa, conduzindo assim à chancela do Protocolo de Kyoto, do qual várias nações, inclusive o Brasil, se tornaram signatárias. Nesse documento, prevê-se, a redução de emissão de poluentes na atmosfera, via a preservação ambiental e o respectivo desenvolvimento e uso de energias renováveis. A partir do Protocolo de Kyoto, o governo brasileiro passou a discutir a inclusão de outras fontes de energia em sua matriz energética, formada anteriormente, essencialmente por petróleo e energia hidroelétrica e de biomassa, conforme se observa na tabela.

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Composicao da Matriz Energética (Em %) Fonte

Mundo

Brasil

Petróleo

35,3

43,1

Carvão Mineral

23,2

6

Gás Mineral

21,1

7,5

Biomassa Tradicional

9,5

8,5

Nuclear

6,5

1,8

Hidroelétrica

2,2

14

Biomassa Moderna

1,7

23

Outras renováveis

0,5

0,1

Fontes: Instituto de Economia Agrícola; Ministério de Minas e Energia e Ministério da Agricultura, 2005.

O agronegócio, nesse contexto, passou a ter um papel chave no processo de posicionamento do Brasil no chamado Mercado de Créditos de Carbono e produção de energia verde,conhecida como agroenergia. Pode-se dizer que essa nova atividade legitimamente coloca o país na dianteira do processo de inovação e fornecimento de uma nova modalidade energética mundial, imprescindível para o processo de desenvolvimento e sobrevivência das economias e da própria humanidade. Essas alternativas nascem fundamentalmente de produtos conhecidos da pauta de produção nacional, como, a cana-de-açúcar e o milho (etanol) e várias oleríferas, como a soja, a mamona, o dendê, o babaçu, a palma forrageira, o amendoim e o girassol (biodiesel). A discussão sobre o desenvolvimento de cadeias produtivas, voltadas à indústria da agroenergia, tornou-se estratégica no nível do governo federal, por meio do estabelecimento do Plano Nacional de Agronergia e as Diretrizes de Política de Agroenergia, para os o período de 2006 a 2011, via criação de uma ação interministerial, envolvendo os Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Ciência e Tecnologia (MCT), Minas e Energia (MME) e Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). Essa chancela estatal, causou impacto também na mudança do nome da antiga Secretaria de Produção e Comercialização ligada ao Mapa, que atualmente passou a ser denominada de Secretaria de Produção e Agroenergia, demonstrando o real interesse do governo brasileiro em apoiar este mercado, fomentando, especialmente pela agricultura familiar (no

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caso de produtos voltados para a produção de biodiesel, como mamona, palma forrageira e dendê). Preliminarmente, é possível verificar que o produtor deve se preparar para esse novo ambiente, que certamente oferece inúmeras outras vertentes de agregação de valor ao seu produto. É claro que ainda estamos diante de um mercado em fase de regulamentação e organização, dada a sua complexidade: várias são as cadeias produtivas que contribuem para a produção de energia renovável (biodiesel e etanol). Contudo, estrategicamente, é interessante observar a movimentação do mercado, uma vez que nesse século, estamos diante do processo de bifurcação da atividade de produção agrícola, visando o atendimento tanto da área de alimentação, altamente demandante de elevados níveis de qualidade, rastreabilidade e certificação, quanto da área de produção de combustíveis, altamente demandante de qualidade e escala. Lidar com a mudança vai requerer uma revisão de valores e análise estratégica do mercado. É o que concluímos nesse momento.

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19 Política do café sem o leite Publicado em 25 de janeiro de 2007 no Coffee Break, o Portal do Agronegócio Café

Café-com-leite, além de ser a bebida preferida das crianças em idade escolar, também já foi título de um período importante da política brasileira, onde o recém Estado Republicano Brasileiro forjava-se a partir da intercalação no posto presidencial de cidadãos natos em Minas Gerais e São Paulo. E nesse florescer político que culminou com o período Modernista Brasileiro, a economia cafeeira foi se consolidando como magna atora do desenvolvimento econômico social, que atravessou todo o século passado e permeou no século XXI. Essa mesma história, que ao longo do tempo foi se tornando um pouco ofuscada pela diversificação da pauta agropecuária nacional, conduziu a cafeicultura brasileira ao atual momento, onde se depara com uma importante discussão que pode mudar a compreensão sobre a atual estrutura administrativa de parte dessa cadeia produtiva devido à globalização e à liberalização da economia: a questão do drawback. Precedendo a discussão sobre a temática, é preciso ponderar sobre uma questão capital que diz respeito à opção estratégica que a governança institucional do agronegócio café fará no sentido do delineamento da interface da cafeicultura brasileira com o mundo, que é “como o agronegócio café brasileiro quer ser conhecido”: Como maior país produtor? Como maior país consumidor? Como maior exportador de solúvel? Como maior exportador de café torrado em grão e ou moído (T&M)? Como maior exportador de know-how? Como um país de muitas origens de café e muitos sabores? Afirma-se que a cafeicultura brasileira tem vocação para liderar em todos esses segmentos, contudo, é certo que, para que tal liderança mundial seja alcançada, sacrifícios serão imprescindíveis. Não considerando aqui a máquina política brasileira, que engessa o desenvolvimento econômico do país, é correto afirmar que, para que o 68


drawback seja utilizado como insumo estratégico para a alavancagem do market share brasileiro no mercado global de cafés industrializados, solúveis ou T&M, o agronegócio café brasileiro terá de cortar na própria carne, à montante e à jusante da porteira. Por exemplo: baixa capacidade de investimento, incompetência à jusante e à montante da porteira, falta de profissionalismo, baixa competitividade, inexistência de vantagens comparativas e competitivas não são aspectos tolerados em nenhum país do mundo que tem obtido sucesso nas suas práticas comerciais em nível global. Isso vale para a cafeicultura nacional com ou sem drawback. É preciso ponderar que o anseio e a convergência de esforços da cadeia produtiva, nos últimos 16 anos, rumo ao desenvolvimento do mercado consumidor de cafés diferenciados contribuiu, sobremaneira, para a atração de redes mundiais, como a Starbucks para o mercado nacional. E é aí que, talvez, more o perigo: o deslumbre com a possibilidade de existir uma Starbucks em cada cidade do país, impactando positivamente na elevação do consumo per capita de café no mercado interno, talvez tenha levado os agentes a não perceberem que a rede, tal como o McDonald’s, tem um portfólio padrão mundial de produtos a oferecer. O Brasil, por enquanto, não tem como religião dominante o hinduísmo, que conduziu a maior rede mundial de fast-food a mudar o cardápio, como fez na Índia, oferecendo hambúrguer de carne de ovelha. Regras são regras e estas somente são quebradas se o mercado consumidor exigir. Se isso não fosse verdade, a Cafeera, cafeteria de propriedade do grupo Ipanema Coffees e que é fornecedora de grãos da Stabucks, teria se multiplicado pelo nosso território dada a sua concepção de negócio. Mas, como todos aqueles envolvidos no agronegócio sabem, a estratégia de expansão da companhia brasileira foi suspensa em detrimento de contrato com a multinacional. Isso permite concluir que, se a caneta em Brasília não colaborar, a importação de grãos dar-se-á por vontade do consumidor brasileiro, bem informado e cosmopolita, que conhece a ampla carta de cafés da rede mundial (a Starbucks), oferecida em outros rincões do mundo. Qualquer pessoa que leu “Dedique-se de Coração”, ama a marca. Se a cafeicultura brasileira não está pronta para o drawback, porque ela então estaria pronta para participar da comunidade que subscreve o Código Comum para a Comunidade Cafeeira? Se ela (a cafeicultura) está pronta para participar de um programa global de sustentabilidade da ca69


feicultura mundial, tem que estar pronta, também, para concorrer com produtores de qualquer parte do mundo. Trazer cafés de outras partes do mundo, agregar valor com a industrialização e reexportar esse produto significa criar vantagens competitivas no país, tanto em termos de redução de custos, em função da possibilidade de aquisição de matérias-primas de qualquer parte do mundo, quanto em termos de atender os desejos de consumo de consumidores de qualquer país, inclusive o nosso. Não é a busca pela similaridade com o mercado de vinhos que o agronegócio sempre almejou? Do ponto de vista de quem compra, não tem nada de mais: a pluralidade de aromas e sabores faz parte do mundo gastronômico. A questão muda de figura quando se acessa a arena da política internacional. A introdução de uma barreira técnica, como, nesse caso, uma barreira fitossanitária, é um trunfo importante no que tange à demonstração de poder de barganha na mesa de negociação com outros países, que têm interesse em estabelecer relações comerciais com o nosso mercado. No caso do café, todos os países produtores, incluindo o Brasil, são subdesenvolvidos. Então, a negociação não gera benesse alguma, exceto se ela impactar de alguma maneira na forma de aquisição de cafés no mercado spot por parte da indústria e dos traders. Clientes de qualquer parte do mundo e do Brasil, poderão, caso o drawback seja instituído, adquirir cafés também de qualquer parte do mundo, inclusive brasileiro, por meio de empresas sediadas em nosso território, desde que entendam que tal modelo de comércio é competitivo e lucrativo para eles mesmos. Se o produtor local, nessas condições, tiver capacidade de oferta no preço estabelecido pelo mercado, vende. Se não, perde dinheiro. Barreira técnica é importante para se evitar a entrada de pragas e doenças não existentes nos cafezais nacionais, contudo, a preocupação a ser discutida, no momento, são as estruturas de contrato a serem utilizados em um novo contexto do mercado que, praticamente, está à porta. Com a Starbucks, mais o marketing do café, mais a crescente disponibilização de informações sobre o produto, o consumidor, o local de produção e a nacionalidade serão apenas detalhes importantes no design das preferências pessoais em relação àquele velho companheiro do leite, em nossas cotidianas refeições matinais: o amado cafezinho.

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20 Importação de café torrado no Brasil Publicado em 19 de fevereiro de 2007 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

Importar matéria-prima de outros países, industrializá-la aqui e reexportá-la, devidamente transformada em produtos com maior valor agregado, com a marca nacional na embalagem. Aparentemente, essa deveria ser uma prática corrente para um país que se diz em processo de desenvolvimento e em franco processo de inserção no comércio internacional em quaisquer setores produtivos instalados em território nacional. Contudo, nos negócios do café, tal perspectiva é distinta dos demais setores em franco processo de expansão, como os de base tecnológica. Na cafeicultura, reza, fundamentalmente, a discussão político-ideológica, que celebra o pacto pela preservação do produtor nacional e a respectiva cadeia de valor que incorpora a indústria e os canais de distribuição do café processado. A princípio, tal reserva de mercado contribuiria sobremaneira para a preservação do poderio do setor produtivo, impactando positivamente para a geração de empregos e renda, tanto de empreendedores como dos colaboradores envolvidos na atividade. Ao mesmo tempo, serviria como moeda em mesas de negociação internacional, relacionadas, por exemplo, a questão das barreiras técnicas e tarifárias. Mas tais premissas, na prática, têm sido colocadas à prova pela importação de café torrado realizada pelo Brasil. Ao que parece, a cafeicultura nacional vive o seu primeiro paradoxo oriundo da política uníssona de investimento na elevação da qualidade e respectiva difusão de conhecimentos relacionados à culturado café aos consumidores nacionais. Optou-se pela supremacia do consumidor, pós Instituto Brasileiro do Café. E é certo, que consumidores bem informados, querem mais. E que-

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rer mais significa, do ponto de vista do consumidor romper barreiras, ato muito mais fácil em tempos de internet e do cartão de crédito. Se importar café verde para reexportação de café industrializado é um tabu, importar café torrado, mesmo com grãos produzidos em território nacional, ao que parece, não é. Aparentemente, há um problema de juízo de valor inserido no léxico de discussão da cafeicultura brasileira. É exatamente isso que demonstra o crescimento das importações de café torrado na balança comercial da cafeicultura ao longo dos últimos 10 anos, nas categorias classificadas como “não descafeinado” e “descafeinado”, conforme se pode observar no quadro. Somente entre 2005 e 2006, verifica-se que houve um incremento de 39,12% na importação de cafés torrados, não descafeinados e de 21% na importação de cafés torrados, descafeinados. Nesse mesmo período, as exportações de cafés torrados brasileiros sofreram um incremento de 29,97% para a categoria torrado, não descafeinado e uma retração de 10,85% para a categoria torrado, descafeinado. Embora, comparativamente a balança comercial do café torrado ainda esteja favorável ao Brasil, é certo que o desenvolvimento do mercado interno estimula, sem dúvida, a vinda de produtos oriundos de indústrias situadas em diversos países, com ou sem tradição cafeeira, oferecendo ao mercado nacional, uma oportunidade ímpar de competir internacionalmente, localmente. Importações Brasileiras de café torrado (1996-2006) NÃO-DESCAFEINADO Período

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US$

Peso Líquido (Kg)

1996

176.730

60.905

1997

646.280

59.685

1998

860.965

70.905

1999

1.227.134

92.470

2000

1.327.989

101.767

2001

1.533.285

111.120

2002

1.536.530

123.942

2003

822.175

92.582

2004

1.013.431

103.385

2005

978.272

83.815

2006

1.324.193

116.609


DESCAFEINADO Período

US$

Peso Líquido (Kg)

1996

863

51

1997

9.590

692

1998

25.709

1.532

1999

48.508

2.951

2000

58.989

5.176

2001

90.962

6.943

2002

69.167

5.669

2003

80.235

9.468

2004

75.284

7.972

2005

60.422

4.570

2006

76.774

5.785

Os números relacionados à importação de café torrado, sem dúvida, colocam em xeque a defesa de que o Brasil está apto a atender “paladares do menos exigente ao mais sofisticado”. Ao que parece o drawback (operações de importação de insumos agropecuários exclusivamente destinados a produzir para a exportação) já é realidade do ponto de vista do consumidor brasileiro: já é possível comprar cafés, mesmo de origem nacional, com rótulo estrangeiro no varejo nacional. E essa prática atualmente não se restringe à Illy, primeira marca a aportar por aqui.

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21 Sustentabilidade e negócios do café Publicado em 25 de julho de 2007 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

Considerado um conceito sistêmico, que envolve as vertentes social, ecológica, econômica, espacial, cultural e político-institucional, a sustentabilidade constitui-se em abrangente olhar introduzido na pauta de nossa sociedade, por meio da Agenda 21. Essa modernidade ética garante prioritariamente a condição de sobrevivência do homem no planeta, pautando-se na evolução do comportamento humano, que valorize a “solidariedade da atual civilização com as futuras gerações”. Com os efeitos do aquecimento global, enfatizados por meio de estudos do Banco Mundial, abordando os impactos do clima sobre a economia mundial, a questão da sustentabilidade ganhou mais força, principalmente em importantes segmentos agroindustriais como o do café. Minas Gerais, por exemplo, tem na cafeicultura um importante aliado estratégico para a alavancagem de sua economia: o café por si só responde por 30% das exportações de produtos de base agroindustrial do estado. Além disso, o produto assume importante papel no âmbito cultural, uma vez que se apresenta como um dos ícones da mineiridade: café é indissociável do processo de construção da imagem da boa hospitalidade do mineiro, uma vez que, mesmo no recanto mais humilde, ele assume valor de abraço. Preservar a cafeicultura de Minas significa resguardar a sobrevivência de milhares de pessoas, que economicamente dependem dessa atividade, dentro e fora de nossas fronteiras. Mediante investimentos em pesquisas relacionadas à arborização de cafezais, desenvolvimento de novas variedades mais adaptadas a altas temperaturas e respectivas técnicas de manejo de lavouras, certificação de propriedades cafeeiras e inteligência comercial, verifica-se a estruturação de políticas públicas sustentáveis voltadas aos negócios do café em Minas. Vários incrementos de base tecnológica visam 74


ao fomento da produtividade e da qualidade para o consumidor do mercado interno, bem como da geração de competitividade internacional dos negóciosdo café, agregando valor e gerando renda para todos os elos da cadeia, especialmente o cafeicultor: 1. Novas variedades se refletem positivamente na elevação da resistência do cafeeiro às doenças e pragas, períodos prolongados de seca e, respectivamente, aumento da produtividade por hectare e do nível de teor de açúcar do fruto, equilibrando o binômio lucro/ custo de produção. Esses processos de melhoramento genético, sem dúvida, conduzem a processos de melhoria nos procedimentos adotados no cultivo, na colheita e na pós-colheita. 2. A arborização, além de proporcionar uma nova atividade econômica para os produtores nas áreas de produção de madeira e comercialização de créditos de carbono, favorece a criação de microclimas mais agradáveis ao cafeeiro, como conseqüência da redução dos níveis de insolação sobre a rubiácea. Além de impactar positivamente na redução do efeito estufa, a arborização tem todas as condições para contribuir diretamente também para a construção do marketing verde para o café. 3. A certificação, além de ser uma demanda irreversível e crescente do mercado nacional e internacional, é um importante mecanismo de agregação de valor e criação de vantagens competitivas, dada a sua positiva influência nos processos de preservação do meio ambiente, construção do respeito à dignidade humana e na elevação da oferta de produtos rastreados. 4. No âmbito da inteligência comercial, o ganho de intimidade com uma plataforma de dados anteriormente dispersa, mas atualmente concentrada num único ambiente, como o que já vem sendo consolidado no foro do Centro de Inteligência do Café, torna-se um importante aliado para a consolidação da ação diplomático-comercial do Brasil junto a mercados internacionais. Essa profissionalização favorecerá, no médio prazo, a consolidação do raciocínio estratégico, ofensivo e objetivo na postura brasileira diante do mercado internacional.

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O estado atende uma urgência ao voltar seu olhar para as questões relativas à preservação da sustentabilidade da cafeicultura, por meio da inovação e do aporte tecnológico. Para conduzir esse desejo de inovar, é indispensável preparar o ser humano envolvido no processo, com propostas permanentes de capacitação. Um instrumento elementar são os três Centros de Excelência do Café, instalados no Sul de Minas, Cerrado e Zona da Mata. Os centros têm como missão a difusão de conhecimentos relacionados à cadeia produtiva, valorizando os diversos processos ligados à produção de um café de qualidade, dentro do sistema do “grão à xícara”. Com esses mecanismos constantes de incremento da liderança que já detém, Minas busca solidificar sua tradicional vanguarda nos negócios do café, calcada na promoção da qualidade e da geração de riquezas.

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22 Política Internacional e Cafeicultura Publicado em 28 de agosto de 2007 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

Os prognósticos mais pessimistas afirmam que o grande gargalo da cafeicultura brasileira nos próximos 100 anos está relacionado às mudanças climáticas do planeta. Contudo, creio que o gargalo, ou melhor, os gargalos, para o agronegócio café, nas próximas duas décadas, centram-se em três aspectos determinantes: as condições macroeconômicas brasileiras, a intensificação dos acordos multilaterais e a emergência do continente africano como fronteira agrícola no médio prazo, impulsionada por investimento asiático. É visível que no atendimento a conceitos como sustentabilidade, rastreabilidade e segurança do alimento, os membros do agronegócio café brasileiro estão à frente, em razão das exigências do mercado internacional. A convergência com o Codex Alimentarius em todo o seu aparato legal relacionado à saúde e à agricultura e respectiva capacidade de inovação na criação de sistemas de certificação de fronteira, como o Programa de Qualidade do Café da Associação Brasileira da Indústria de Café (PQC Abic) e a Indicação Geográfica Café do Cerrado, consolidam a percepção de que vocacionados estamos para a produção da qualidade tecnicamente e mercadologicamente adequadas. O país atualmente é uma das nações selecionadas pela Organização Internacional do Café (OIC) para testar a metodologia do Código Comum para a Comunidade Cafeeira (4C): 500 mil sacas já foram colhidas nesta safra sob a égide desse procedimento. Contudo, essa sólida construção pode não ser suficiente frente a questões que não dependem de segmentos empresariais nacionais: dependem fundamentalmente da vontade do Estado, que delibera e coordena de maneira soberana, o modus vivendi do cidadão e dos empreendimentos. E o Estado, nesse sentido, tem demons-

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trado total ingerência na defesa dos interesses dos segmentos economicamente ativos: a começar pela falta de infraestrutura dos aeroportos nacionais e a malha viária depauperada, observa-se na política cambial uma de nossas inúmeras vulnerabilidades. Ao mesmo tempo, a falta de pressa dos segmentos públicos é desalentadora e desestimulante, quando percebida da perspectiva profissional. Não há choque de gestão visível e praticado, capaz de preparar, pelo menos as bases do agronegócio café, para uma massiva abertura de mercado. Falo aqui de pequenos e médios produtores e industriais, com limite de capitais de giro e investimento principalmente. Se a Área de Livre Comércio das Américas tivesse saído do papel cinco anos atrás, certamente, não mais compraríamos café processado por indústrias nacionais, presas a defasagem do aparato legal que coordena o país e da burocracia que engessa a possibilidadede uso de mecanismos que ampliem a agressividade empresarial, tal como o drawback hoje. Compraríamos grandes volumes de café canadense e estadunidense e quiçá, mexicano e colombiano, que há muito já aproveitam a vocação natural do continente americano em produzir cafés de altíssima qualidade, inclusive do Brasil. Mas se ela, a Alca, consolidar-se, por exemplo, num espaço de duas décadas, a contar de hoje, certamente nem matéria-prima brasileira será possível consumir por aqui. Mesmo que o mercado brasileiro torne-se líder mundial no consumo per capita/ano, importar será um procedimento atrativo para o varejo e os segmentos cervejeiro, de pastifícios e tecelagem têm muito a nos contar sobre suas experiências ao longo dos anos 1990. Das 1,2 mil torrefações brasileiras atualmente em funcionamento, somente10 têm perfil para competição internacional e somente uma, de capital nacional, está entre os 10 maiores empreendimentos torrefadores do mundo. Ressalta-se que entre esse grupo de 10 empresas, duas organizações são multinacionais. Isso quer dizer que abertura de mercado para esse segmento é letal, porque em 10 anos, num ambiente de alta competição, mantidas as condições econômicas de hoje, não mais que 10 torrefações nacionais têm condições de sobreviver. Como conseqüência, perece a produção de café que depende do bom funcionamento do segmento torrefador brasileiro para sobreviver, considerando que o perfil predominante de produtores são pequenos e médios, uma parcela significativa deles não está organizada em cooperativas; portanto não têm volume

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para a exportação e o mercado interno responde atualmente pelo processamento e consumo de 51% da produção nacional de café. Com o crescimento geométrico da população asiática, especialmente a chinesa e indiana, empresários dessas economias emergentes têm adquirido as baratas e férteis terras existentes em todo o continente africano, para a produção de alimentos. Considerando que possuímos (a) condições climáticas similares, (b) que tanto o arábica quanto oconillon são originários daquele continente, (c) que a produção de cafés com irrigação começa a atingir o seu ápice dentro de no máximo quatro anos depois do plantio e (d) que a África possui mão-obra barata e abundante, finalmente, depois de quase três séculos de liderança, o Brasil pode realmente estar diante de um gigante adormecido na produção de café, capaz de levá-lo a bancarrota pela superação de suas vantagens competitivas e comparativas. Esses são prognósticos bastante alarmantes, mas factíveis, principalmente depois da decodificação do genoma do café e o domínio das técnicas de melhoria genética dos cafeeiros, consolidada por gênios brasileiros no último século 20. Finalizando, é válido lembrar que com a ciência e com capital abundante, a juros baratos, tudo se faz. Ressalta-se também que no que tange à tradição oriental, a superação dos melhores é uma regra historicamente construída. E a história é uma relatora implacável: basta lembrar que a cafeicultura no cerrado mineiro existe hoje por que um dia caiu uma geada negra no Oeste paranaense em 1975. Conduzir o rumo da escrita, portanto, é uma atribuição presente de todos.

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23 Cafés especiais: vai um europeu aí? Publicado em 11 de fevereiro de 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

A expansão geográfica da fronteira da União Européia (UE) para o lado oriental, formalizada em 22 de dezembro de 2007, região onde estão concentradas plantas industriais de algumas das principais marcas mundiais de café, pode, em breve, contribuir para aceleração da modificação gradativa do perfil das prateleiras nos supermercados brasileiros. Aparentemente tímidos, os números da participação européia nas gôndolas brasileiras, se comparados isoladamente ao consumo registrado de cafés especiais no Brasil em 2007, estimados em 1,5 milhões de sacas, podem corresponder a 22,47 edições do Concurso Nacional ABIC de Qualidade do Café, pois sua quarta edição negociou 4,2 toneladas do produto. Se os industrializados importados, observando apenas os dados do ano passado, respondem por 11,07% do mercado de especiais brasileiros, a UE representa 60,25%dele. Se comparados ao volume total do consumo nacional a participação da UE é tímida, também é certo que a presença européia aumenta gradativamente, sem qualquer tipo de salvaguarda comercial. Os países europeus têm papel determinante no equilíbrio da balança comercial brasileira, quando se configura como mercado alvo para os cafés in natura. Em2006, foram exportadas 14.546.383 sacas de 60 kg e no ano passado,13.405.635, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Ainda que o ano passado tenha registrado retração de 0,92% em relação a 2006 na exportação para a Europa, esse mercado mantém a liderança como comprador. Contudo, na construção das relações de comércio entre Brasil e UE no agronegócio do café, verifica a criação de um paradoxo importante na agregação de valor, que envolve o velho dilema da exportação da matéria-prima e importação do produto acabado. 80


O Brasil desponta há alguns anos como importante mercado mundial no consumo per capita. Afinal, ocupa a vice-liderança, atrás dos Estados Unidos. Essa alavancagem do consumo, registrada ao longo das décadas de 1990 e de 2000, se fundamenta num conjunto de aportes em marketing que custaram ao setor alguns milhões de dólares, conjugado com investimento em incremento técnico e pesquisa, que custaram alguns milhões de reais, e principalmente tempo (bem intangível não-recuperável). Abrir os flancos, a princípio, para a valorização da pluralidade do consumo no país envolvendo importados na pauta, no médio prazo, portanto, pode se configurar num Cavalo de Tróia: depois do filme produzido pelo IFA National Livestock Committee, da Irlanda, para depauperar a imagem da pecuária brasileira, percebe-se que a UE é uma shakespeariana caixinha de surpresas na área comercial. O recente caso do segmento pecuário brasileiro, nesse sentido, tem muito a ensinar. Depois da crise da vaca louca, que gerou a desconfiança do consumidor europeu em relação à carne local, o produto do Brasil foi estratégico para a manutenção do consumo naqueles países, em razão do sistema de engordados bovinos nacionais, fundamentado numa dieta vegetariana. O Brasil se tornou o principal fornecedor de carnes para a UE, tendo atendido demandas importantes quanto à rastreabilidade e certificação de forma prioritária, sem gozar dos tais subsídios agrícolas que fazem toda a diferença para a competitividade da agricultura dos países desenvolvidos. Essas demandas de subsídios, combinadas com um perfil preservacionista arraigado ao modelo europeu, recentemente, impuseram barreiras ao segmento pecuário. Esses subsídios, ao que parece, em pleno ápice da crise econômica americana, tendem a ruir, gradativamente, com a retomada de negociações da Rodada de Doha. Voltando ao setor de café, observa-se que a vantagem estratégica do torrado nacional centra na proximidade da produção à indústria e ao consumidor (nesta ordem). Contudo, ante a inexistência de barreiras no Brasil, a franquia à importação poderá vir a ser otimizada com a capitação de recursos abaixo custo pela indústria internacional, que certamente interessa pela detenção de espaços cativos no coração e no paladar do consumidor brasileiro. A diferença é que esse café estrangeiro, aqui negociado, é elaborado com grandes proporções de grãos nacionais, exportados para 81


aquele mercado, do qual, sem dúvida, o produtor nacional não pode se dar ao luxo de abrir mão, em razão da rentabilidade mensurada em dólares. O problema é que o mundo está começando a dizer que, se o Brasil não se inserir de fato no mercado internacional de café, ficará de fora. Crescem as produções de países africanos e sul-americanos, com capacidade similar a nossa e com custos mais atrativos. Empresas como a Starbucks, tradicional cliente do grupo brasileiro Ipanema Coffes, já iniciam a trajetória de modificação das origens dos grãos que compõem suas mesclas, com a implantação de lavouras no Leste africano. Isso significa que, se nada for feito, como no Brasil não há barreiras ao torrado importado, veremos de fato, uma verdadeira revolução no consumo por aqui. É o que já ocorre no setor de têxteis, brinquedos e informática. Tal ambiente competitivo para a indústria de café nacional alicerça a concentração de empresas em razão da competição global que se instala dentro de uma realidade local, ainda em processo de alinhamento com a lógica internacional de gestão de produtos industrializados: demanda de alta qualidade por matérias-primas diferenciadas, tecnologia, qualidade, marketing, gestão profissional, certificação, plantas industriais e fornecedores e desvinculação do preço do produto industrializado da sazonalidade de preço da matéria-prima.

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24 A ALADI e os negócios do café Publicado em 04de março de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

Amo Mercedes Sosa, porque ela sintetiza, por meio de sua alma feminina e sua voz andina, a utopia de uma América Latina unida, sem fronteiras. Nesta região continental, onde o Brasil se embrica, estão os melhores portfólios de cafés do planeta, sendo que nesta terra tão bem retratada em Macunaíma por Oswald de Andrade e pintada por Tarsila de Amaral e Cândido Portinari, estão reunidos o quarto parque industrial de café do planeta, o segundo mercado consumidor per capita mundial e o primeiro parque cafeeiro do mundo, em termos de extensão e de produtividade. Cogitei interromper a redação relacionada ao café, por inúmeros dissabores, mas em qual setor encontraria histórias e fatos tão similares aos textos provocantes de Sidney Sheldon do que na cafeicultura? Relatá-los, utilizando as delícias da Flor do Lácio, torna-se um ato irrefutável. À cada nova notícia, uma possibilidade de deleite e ao mesmo tempo de assombro, que retrata dramaturgicamente, a beleza da odisséia homérica, que é a história secular da cafeicultura brasileira: remeto-me aqui ao último ato, que é o registro de “contrabando” de café orgânico peruano que aterrissou no Rio de Janeiro na última semana. 250 sacas apreendidas. Fiquei me imaginando no lugar do empreendedor que arriscou a trazer essa primeira partida e que foi denunciado. Uma ação de comércio, com cheiro de contravenção, embora se tratando de alimento, não narcótico. Mas o similar tratamento dado ao caso, ganha afrescos pitorescos, literários, embora remeta-se a um movimento preocupante de protecionismo. Sinceramente, é hora do país, ou melhor, o setor cafeeiro brasileiro, refletir sobre o aproveitamento de potencialidades aromáticas dos países vizinhos, que já participam da Associação Latino-americana de Integração, a

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ALADI. Porque não? Gosto deponderar que ante a falta de vento, é preciso remar para se atingir metas audaciosas. Os braços doem, a coluna reclama, o barco torna-se desconfortável, mas o ideal está ali, a frente, a nos chamar e superar as dores, torna-se um desafio pessoal. E o ideal cafeeiro brasileiro é a hegemonia em todos os segmentos da cadeia, desde o momento de paixão de Madame D’Orvilliers e Francisco de Mello Palheta, que viabilizou tudo o que somos. Um bloco produtor/exportador forte é muito melhor do que um mercado consumidor invadido por produto importado, com grãos origem made in África e ou made in Vietña, processado na Europa e vendido no Brasil, principalmente no formato sachê (vale ressaltar que em 27 de fevereiro, foi fundada a Associação Brasileira de Cafés em Sachê, o que já acena que o mercado de cafés importados está em franca expansão no país, já que o país ainda não domina a tecnologia do sachê). Porque não aproveitarmos os arábicas produzidos nas Américas do Sul e Central, que já fazem tanto sucesso lá fora, desde a década de 1930 e unificarmos forças, para assumirmos a liderança mundial, na exportação de blends, com valor agregado pela industrialização? Muita gente não aprecia meus pontos de vista em decorrência de minha perspectiva industrial, mas eu sou uma assídua defensora da embalagem do café torrado, que é a única capaz de ostentar o “Made in Brazil”. Não importa a origem. Importa a qualidade do produto final e muito mais, o rótulo da embalagem. A garantia de que o produto foi processado em território brasileiro, foi exportado para qualquer canto do mundo e principalmente, disponibilizado na gôndola do supermercado estrangeiro do jeitinho que saiu daqui, é o que de fato importa. Porque não café marca Juan Valdez, made in Brazil? Ou Rainbow Coffee, made in Brazil? Sou apaixonada pelo meu país e acredito que vender a nossa marca, usando as especificidades dos outros, é uma dávida a mais em nosso portfólio. Acredito que o produtor brasileiro, mesmo com as dificuldades impostas pelas limitações financeiras, tem muito a ganhar com a operação, porque a grande base dos cafés industrializados, em qualquer lugar do mundo, é o café brasileiro. O lastro do mercado interno já existe, sendo responsável pelo processamento de 49%da produção nacional. O mercado internacional para os grãos verdes, ainda está cativo. Essa fatia, que responde por cerca de 51% do que é produzido no país, por hora, ninguém tirará, porque demora para se formar novas lavouras 84


em regiões não tradicionais,em decorrência da tecnologia que se torna necessária desenvolver. Vender mais localmente (dentro do território nacional), ainda que não seja em dólar ou em euro, portanto, pode se uma ótima alternativa de fortalecimento da cadeia, tanto com a ampliação do consumo no mercado externo, quanto das exportações de café. As notas florais, frutadas, amendoadas, achocolatas que porventura não possam ser produzidas em nossas lavouras, podem vir desses países irmãos, latinos, ajudando a atingir o apíce do blend e ao mesmo tempo, seduzir irrefutavelmente os lábios, os paladares, os corações e as almas de todos os consumidores. Evidentemente, a barreira sanitária aos cafés verdes é uma questão a ser dirimida, mas que poderia progredir muito, aproveitando os acordos multilaterais já existentes no foro da ALADI. Ao Brasil não falta a expertise para isso e nem infraestrutura, no que tange aos cuidados relativo à sanidade desses grãos estrangeiros. E aos países que produzem café no continente Americano, também não. À princípio, poder-se-ia estabelecer um sistema de padronização para a construção de um mercado comum, onde aspectos relacionados à qualidade técnica fossem levados em consideração, bem como o regime de cotas de importação e exportação de café verde e de café torrado pudesse ser habilmente estabelecido. Talvez a resposta para dirimir a aquestão esteja no Código Comum para a Comunidade Cafeeira. A necessidade é apenas de formatar o arrangement. Seria revolucionária a possibilidade de comercializar mundo afora cafés brasileiros, com toques suaves de grãos mexicanos, peruanos, colombianos, equatorianos e venezuelanos. Nada tão excepcional, tão saboroso, tão latino, tão sensual, quanto essa mistura, aromática, cheia de salsa, rumba e samba. Basta regulamentar. Porque tal mistura é coisa de Olimpíada, de civilização cosmopolita, que ama o risco, empreende e se apetece com o novo. Coisa de um povo vibrante, multicultural.

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25 Abate humanizado e biocombustíveis Publicado em 24 de março de 2008 no Caderno Agropecuário, do Jornal O Estado de Minas.

O sebo de boi, tradicionalmente usado pelo segmento de produtos de limpeza como partede suas matérias-primas, agora ganhou mais um nobre papel, como matéria-prima na produção de biocombustíveis. No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), somente em 2007 foram abatidos 23 milhões de animais, o que equivale a uma alta de 11,3% em relação a 2006. Ainda que o embargo da União Européia ao produto brasileiro tenha causado danos à comercialização de carnes, o processo industrial mantém sua competitividade. O Brasil é um dos poucos países que oferece o chamado “abate humanizado” dos animais, o que é considerado um dos importantes diferenciais para a participação do país no mercado mundial de carnes, além do boi verde, que só existe por aqui. Em fevereiro, os Estados Unidos foram obrigados pelo Departamento Americano de Agricultura (USDA) a realizarem um recall de 65 milhões de toneladas de carne, em razão dos maus tratos concedidos aos animais dentro dos frigoríficos. Embora toda essa carne já tivesse sido consumida pelos americanos, é certo que observa-se aí um diferencial de competitividade importante para o produto brasileiro, já que o abate humanizado diz respeito a um conjunto de técnicas que garantem o bem-estar do animal desde o seu embarque até a sua sangria, no frigorífico. Essa prática é corrente em frigoríficos sérios, certificados, de atuação global, por se tratar de respeito a tratados internacionais e uma exigência de boa parte dos países compradores. Embora a maioria dos consumidores prefira não conhecer o processo entre o boi no pasto e o bife no prato, a prática da humanização do abate é importante não apenas para a redução da dor do animal na hora da sangria, já que o trauma craniano causado pela pistola de ar comprimido insensibiliza o animal imediatamente, mas também para a melhoria da 86


qualidade da carne e, respectivamente, atendimento a tratados internacionais sobre os direitos dos animais, como a Declaração Universal do Direito dos Animais (Unesco, 1978). De acordo como seu artigo 3º, fica claro que “se for necessário matar um animal, ele deve ser morto instantaneamente, sem dor e de modo a não provocar-lhe angústia”. Ao atender tal direito, preserva-se no âmbito dos negócios internacionais, parcelas de mercado importantes, inclusive para o segmento de biocombustíveis, já que a minimização do sofrimento animal é um fator de decisão na hora da comprados consumidores estrangeiros. O sebo de boi e outras gorduras de origem animal têm vantagens interessantes quando se trata de produção de biocombustíveis. Quando sem contaminações (graxaria composta de restosdo abate), o sebo, em razão de suas cadeias carbônicas melhor definidas, tem melhor desempenho no hidrolisador e no catalisador, conferindo ganhos de escala no processo de produção. Essa técnica italiana, trazida para o Brasil por meio de importação de know-how industrial, promete ajudar o país a aproveitar o potencial de produção de 350 milhões de litros de biodiesel de sebo/ano, para um produto que já conta com o aval da Agência Nacional do Petróleo (ANP). A princípio, em razão de uma barreira tecnológica (o biodiesel de sebo precipita gordura a uma temperatura de 5 graus negativos), a sua distribuição deve se restringir ao mercado nacional, mas acena de qualquer forma, a possibilidade de liderança do país no mercado global da agroenergia, em razão da pluralidade de matérias-primas disponíveis por aqui. Basta, nesse caso, a boa diplomacia empresarial no fechamento dos acordos de comércio, combinada com um aporte estatal nas áreas de tecnologia e infraestrutura que viabilizem a competitividade na distribuição na distribuição global.

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26 Uma breve ideia sobre a federalização do Centro de Inteligência do Café Publicado em 28 de março de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

Recebi a recomendação de um querido amigo para que lesse “Mensagem a Garcia”. Deleitei-me com a beleza e profundidade de uma reflexão centenária, que em muito converge com as tempestades de nosso tempo. Este texto discorre sobre a construção do herói, que vence a guerra solitariamente, sem nada perguntar. Apenas entrega a carta, usando com todo o seu empenho, a Garcia. Falemos, então, das conquistas da cafeicultura, mas esplendorosas e cálidas à alma. Após a criação do Conselho Deliberativo de Política Cafeeira, o CDPC, pode-se afirmar, categoricamente, que o Centro de Inteligência do Café (CIC), é o maior marco político de coordenação do agronegócio café ocorrido desde a extinção do Instituto Brasileiro do Café (IBC). O CIC deveria e tem tudo para ser o IPEA da cafeicultura e em razão disso, tem papel estratégico na produção de estatísticas, estudos e informações diferenciadas para facilitar a tomada de decisão de membros dos setores públicos e privado. Anda precisando, de injeção de concreto nas estruturas e nos alicerces mal fundados, por falta de ação gerencial eficiente, principalmente do setor, signatário em peso do projeto. Filosoficamente, sua inspiração remete aos princípios da economia do bem-estar e da democracia com liberdade, propostos por Amarthia Sean e Robert Putnan respectivamente. O CIC é uma chancela brasileira ao ideal de democracia na difusão da informação: detém em decorrência disso, uma beleza única quanto elemento de inspiração da inteligência humana e condiz com a beleza da alma do cafeicultor e sua relação de amor para com Ceres, a Agricultura. Em razão disso, passo, ora em diante, a ser defensora da idéia de sua

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federalização, no sentido de favorecer a sua conversão em autarquia federal, ligada ao Ministério da Agricultura e patrocinada com fundos de manutenção garantidos pelos recursos do Funcafé. A idéia é convergente uma vez que os mesmos grupos que coordenam o CDPC fazem parte dos Conselhos Técnico e Consultivo do CIC, o que manteria a coerência e sinergia nas tomadas de decisão entre um e outro. O Estado tem que assumir para si o estratégico, o legado de informação, sem terceirização de nenhum processo: o mercado cafeeiro é competitivo e globalizado. E a informação, o diferencial estratégico de subsistência mercadológica. Nada contra o Governo de Minas, que atualmente gere o CIC deforma eficiente dentro de suas possibilidades, mas é perceptívelque o projeto precisa garantir isonomia a-territorial para o seu funcionamento, já que a cultura política cafeeira brasileira tem um arrangement aristocraticamente diferenciado. Creio que o primeiro benefício dessa concessão mineira ao país, seria a dissolução do problema da estatística da safra, seguido da questão do planejamento estratégico da cafeicultura brasileira, único instrumento gerencial, capaz de resolver a médio prazo a questão do endividamento, que infelizmente compromete ¼ (um quarto) da arrecadação obtida com a venda das safra de café brasileira, além de preparar a cafeicultura nacional, para os vindouros desafios do primeiro quarto de século XXI. É uma sugestão que faço, para corroborar para que o CIC saia do ostracismo e entregue sua carta a Garcia.

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27 O potencial do café conillon para a produção de etanol celulósico Publicado em 01 de abril de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café.

O café conillon merece toda a minha deferência porque foi a primeira variedade de café que conheci, devidamente cinceroneada pelo meu ilustre amigo Sidney Lui e o Dr. Wilson Veneziano, da Embrapa Rondônia, nos pequenos cafezais de Juína, estado de Mato Grosso. Esse, portanto, é um artigo escrito especialmente para o amigo cafeicultor de café conillon, normalmente lembrado, quando o preço do café arábica está ruim ou quando o Vietña tem um desempenho de vendas de café melhor na Europa ou quando a indústria de solúvel brasileira discute drawback. Resolvi adotar uma vertente diferente, para fugir da velha polêmica se o café conillon serve ou não para fazer blends com café arábica, optando pela conversação sobre a aplicação da produção dessa modalidade de café na indústria de agroenergia. Sem dúvida, a variedade de café mais adaptável à um cenário de aquecimento global e escassez de água é o conillon. Tanto é verdade, que a Fundação Procafé vem, desde 2004 desenvolvendo estudos sobre o desenvolvimento de variedades de café arábica mais resistentes à seca, utilizando genes de robusta. Um desses resultados é a varietal Siriema. O robusta também detém mais óleo que o café arábica, conforme pesquisas realizadas pela Universidade Federal de Minas Gerais, no que tange ao desenvolvimento de Biodiesel de Café. Percebo, ante os meus recentes estudos na área de agroenergia, uma vocação do café robusta na produção de etanol celulósico. O etanol celulósico é a vertente de produção que converte qualquer tipo de material, detentor de moléculas de carbono, em combustível. Seria perfeito em termos de agregação de valor, já que o mundo hoje corre desesperadamente

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atrás de alternativas energéticas que possibilitem desvincular a civilização humana da dependência dos combustíveis fósseis. Evidentemente, que a tese que ora apresento, demanda pesquisas a serem desenvolvidas por engenheiros químicos para a comprovação científica dessa modalidade de produção, mas como profissional da área de Ciências Sociais (Administração), cabe-me chamar atenção quanto às possibilidades de mercado. Somente na semana passada, o Brasil recebeu pelo menos quatro missões internacionais interessadas na tecnologia e no etanol brasileiro propriamente dito: Estados Unidos, México, Namíbia, Bélgica. Além disso, o país há cerca de 15 dias recebeu a Secretária de Estado americana Condoleezza Rice, que referendou a importância do etanol brasileiro. Semanas antes da visita, o próprio Presidente George W. Bush, durante seu discurso na Wirec 2008, evento realizado em Washignton, chamou atenção do mundo ao elogiar o programa de biocombustíveis brasileiro, especialmente o oriundo das sementes de babaçú, que atualmente abastecem aviões. Será que o robusta não se prestaria como matéria-prima de primeira linha para atendimento de uma vertente de mercado de altíssimo valor agregado? A cafeicultura de robusta é predominantemente realizada em propriedades familiares e por natureza tem condições de oferecer etanol fair trade, tanto para o mercado brasileiro, quanto para o mercado externo. A Embrapa Café nesse sentido, deveria abrir campo de pesquisa para o desenvolvimento dessa nova aplicação do café, certamente infinitamente mais interessante do ponto de vista econômico. No caso do milho, nos Estados Unidos, ainda como desabastecimento da indústria de alimentos, isso significou uma elevação de até cinco vezes o valor da saca de milho naquele mercado. Como rentabilidade é o anseio mais caro do cafeicultor, eis aí uma proposta de resposta à tal demanda.

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28 O papel do aparato legal na cafeicultura. Publicado em 10 de abril de 2008 na Revista Calfeicultura, Portal do Agronegócio Café.

Não importa se percolado em coador de pano posto em mancebo, filtro de papelou extraído através em uma máquina de espresso: o café faz parte do hábito de 96% da população brasileira, conforme apontam os últimos estudos realizados pela InterScience, confirmando uma tendência historicamente construída ao longo detrês séculos de História. O Café, tal como acontece com o vinho na França, é a bebida nacional do Brasil, a que fala mais alto ao coração, por representar um ato de socialização, de carinho, de receptividade. Vai bem com queijinho, pão-de-queijo, sozinho, quente ou gelado... só seus ácidos clorogênicos e a cafeína são capazes de favorecer o alvorecer da mente e ao mesmo tempo, funcionalmente, garantir a saúde humana, naturalmente. A relação do consumidor nacional com o café, portanto, é quase que passional, embora, há de se ponderar que o elemento sofisticação, ao longo dos últimos dez anos, venha compondo um novo mosaico comportamental desse consumidor até então desconhecedor das delícias encontradas apenas nas especialidades. Com a introdução do espresso e a prática de consumo da bebida fora do lar, percebe-se que gradativamente o brasileiro tem se deleitado com um volume de nuances agradabilísimas antes desconhecidas, por meio de uma pluralização da oferta de cafés especiais de origem nacional ou importada. Se outrora não havia alternativa ao padrão dos cafés tradicionais com notas fenólicas desagradáveis, oriundas de matérias-primas de baixa qualidade, atualmente, o mercado tem valorizado os chamados cafés superiores e gourmets, detentores de notas florais, frutadas, amendoadas, amadeiradas, achocolatas, apimentadas e exóticas. Há opções para consumo e um volume cada vez um número maior de consumidores aptos a pagar por essa experiência: enquanto o mercado de cafés tradicionais cresce à ordem de 4% ao ano, o 92


segmento de cafés especiais cresce à 20% ao ano. O café, tido agora como um “bem de experiência”, traz a tona uma necessidade urgente que é a adequação do aparato legal a este novo momento. Sobre tal temática, centra-se o futuro da cafeicultura brasileira. Legislar antes de qualquer coisa, exprime um ato de vontade do Estado para a comunidade que o cerca, já que nela, a boa vontade estatal, centra-se a aurora do desenvolvimento e competitividade econômica do país e o bem-estar respectivo de seus cidadãos. Evidentemente, que tal expressão institucional atemporal do Estado, depende de uma conjugação de interesses que partem da boa coordenação setorial. Nesta delicada relação, a balança pende negativamente para este último elemento, a cadeia, em decorrência da pluralidade de linhas de interesses dos agentes institucionais que no final das contas, atrasam processos e geram retrocessos importantes no ideal de conversão do Brasil numa plataforma mundial de cafés (verdes, torrados, solúveis e respectivos subprodutos – balas, cappuccinos, etc.). Num modelo de Estado voltado para resultados, é visível a busca pelo acerto, já que quando se trata de gestão pública, o beneficiado direto pelo resultado da proposição legal é a própria comunidade. Tal ambiente tornou-se factível em decorrência da introdução de um dinâmico elemento na gestão pública, as câmaras setoriais. Ressalta-se que elas funcionam foro que envolve atores do setor público e privado, responsáveis pela oferta de subsídios aos tomadores de decisão na área pública (Secretários de Estado, Governadores, Ministros), sendo os representantes do segmento privado são indicados pelos seus próprios segmentos, aumentando a legitimidade das câmaras. Voltando ao futuro da cafeicultura, é visível que o primeiro grande passo, comparando o agronegócio café à uma grande orquestra sinfônica, é fazer com que todos os agentes atuem com sinergia, seguindo a batuta do Maestro Mercado Globalizado. Embora a partitura seja a mesma para todos os músicos, o resultado do esforço musical do segmento no Brasil mostra-se destoado de outros países, com visão mercadológica diferenciada. A Colômbia, por exemplo, entendeu as regras do jogo global na década de 1940. Países centro-americanos como a Guatemala, El Salvador, Costa Rica, também decifraram as notas musicais no mesmo período. Países sul-americanos como Equador, Peru, Bolívia e Venezuela, estão treinando seus músicos, para produzirem os sons harmoniosos que o Maestro 93


Mercado Globalizado quer ouvir, para muito breve. E nós, que sons produziremos? Heave Metal ou Bossa Nova? Fazer parte de uma grande orquestra exige que o país faça opções, para produzir Leis condizentes com as suas necessidades. A primeira delas é definir o objeto do futuro planejamento estratégico do setor que espero que saia em breve: o café verde, o café industrializado ou favorecer a consolidação de uma plataforma global de cafés, por meio da ênfase na distribuição. Esta escolha é muito importante. Explico. Optar pelo objeto “Café Verde”, diz respeito à focar toda a estratégia brasileira na produção e comercialização dos melhores cafés especiais do mundo, certificados, rastreados, com vistas a elevar o market-share mundial de 23% para a histórica marca de 60%. Significa o ousado estabelecimento de alianças estratégicas com as maiores torrefações mundiais, garantindo percentuais expressivos de café brasileiro no blend produzidos por elas, com reconhecimento de origem. Significa abrir o mercado brasileiro para a concorrência global na área da industrialização, apoiada na massificação das casas de café em território nacional. Significa apostar na desindustrialização do setor do café no Brasil e viabilizar a substituição do café torrado por aqui por café torrado em torrefações estrangeiras ou quiçá, a cooptação das empresas estrangeiras pelas brasileiras, tal como no caso da Santa Clara em relação à Strauss-Elite. Neste modelo, far-se-ia necessária a intensificação dos contratos especializados entre produtores e industriais, que privilegiasse prêmios por qualidade e até mesmo antecipações, como acontece nos segmentos de granjas, fumo e grãos em geral. Optar pelo objeto “Café Torrado”, por sua vez, refere-se ao foco na estratégia de industrialização e distribuição do café industrializado no Brasil e no mundo, dando continuidade ao trabalho que o segmento industrial de café brasileiro já vem desenvolvendo. A opção pelo objeto “plataforma mundial de cafés” exigiria uma modificação do olhar sobre o agronegócio café no país, fazendo da palavra globalização uma postura. O Brasil ao longo de trezentos anos atuou como singular fornecedor de matéria-prima para as principais indústrias do mundo e alimentando o prazer de milhões de consumidores, para os quais, ressalta-se, a origem brasileira manteve-se desconhecida. Ao mesmo tempo, em parte do século XX, o país consolidou sua vice-liderança no consumo per capita de cafés, bem como uma tradição em pesquisa, desenvolvimento de tecnologia, inovação em termos de programas de certificação. Esta opção, minha favorita, diz respeito à aqui94


sição de plantas industriais de café em mercados estratégicos, combinada com a criação de um mercado comum de cafés no continente americano. Ao passo que a ampliação da presença da indústria de café brasileira se consolidaria no mundo, o Brasil, aproveitando das vantagens competivas regionais, maximizaria sua capacidade instalada, aumentando o consumo per capita nacional com a oferta de cafés diferenciados, exóticos e ao mesmo tempo, sua competitividade global, no segmento exportação com valor agregado: venda de blends de cafés in natura prontos Made in Brasil, cafés torrados ao gosto do freguês, entre outros. Neste item, pode-se citar a experiência da Colômbia com a instalação das Casas Juan Valdez, ao redor do mundo e os trabalhos de marcas consagradas como IllyCafé, Lavazza e Segafredo Zanetti. De posse da opção estratégica, o ato de legislar torna-se mais fácil, porque haverá clareza quanto aos desejos setoriais de forma a criar condições da cafeicultura nacional manter sua competitividade nos médios e longos prazos. O fundamento do planejamento é a redução do tempo investido em discussões que inferem negativamente na competitividade setorial. Creio que o mundo muito em breve dará à cafeicultura brasileira uma resposta letal, vinda do continente africano. Atualmente, a cafeicultura brasileira tem competitividade interna, não externa. E produzir um café tão bom quanto o brasileiro no território africano é mais factível do que se imagina. Mercadologicamente, o grão africano tem melhor aceitação nos grandes mercados consumidores em decorrência do seu apelo exótico e social do que o nacional. De posse de um substituto à altura, a troca de fornecedores será natural. Esse fato já é visível no caso do café conillon. A presença do grão vietnamita em blends das principais marcas mundiais é crescente, enquanto o de origem brasileira mal dá conta do mercado nacional. Observa-se que a Kraft Foods recentemente anunciou a construção de uma fábrica de café solúvel na Rússia. Certamente mirando o fornecedor de café verde asiático e respectivamente, o consumidor do maior mercado mundial dessa modalidade de café industrializado e as fronteiras russas com a União Européia. A mudança de fornecedor, confere ao Brasil um novo desafio: por aqui, a importação de café industrializado não se constitui um problema do ponto de vista alfandegário, embora o seja do ponto de vista sanitário. Se o custo de produção internacional cair, certamente, o mercado brasilei95


ro é alvo do produto estrangeiro, dado o volume per capita do consumo, em ascensão, o perfil jovem da população e a sua respectiva tendência de crescimento populacional, além da taxa de câmbio favorável. A indústria nacional torna-se refém, uma vez que nesse cenário, terá que corroborar para a sobrevivência dos produtores nacionais (terá que absorver 100% da oferta), sem a perspectiva do mercado externo para se capitalizar, e ainda concorrer com a agressividade das indústrias internacionais, com todas as suas facilidades decaptação de recursos no mercado externo, a juros mais baratos. Em suma: um cenário perfeito para a bancarrota perfeita da cafeicultura nacional. Legislar bem hoje, portanto, é uma garantia oferecida pelo Estado para o sucesso das ações vindouras do setor nos médios e longos prazos. Evidentemente parte desse sucesso depende das diretrizes apontadas pelos atores que compõem as câmaras setoriais do café nos Estados e do Conselho Deliberativo de Política Cafeeira. Contudo, ao Estado cabe agir com a ousadia empreendedora. Nesse sentido, o Itamaraty poderia viabilizar acordos no foro da Aladi e da OEA, favorecendo a criação de um mercado comum do café. Ora, o Brasil, depois dos Estados Unidos e Canadá, é o país que detém o maior número de torrefações do Continente Americano. Praticamente, mais de 60% do café produzido no mundo sai desta mesma porção continental. Então, qual o impedimento de se legislar à respeito, escancarando as nossas fronteiras para cafés latino-americanos? Já existe um programa de certificação globalmente aceito, chancelado no foro da Organização Internacional do Café, que é o Código Comum da Comunidade Cafeeira, do qual o Brasil inclusive é signatário. Portanto, não haveriam dificuldades no que tange à formatação dos acordos bilaterais e ou multilaterais entre os países produtores, relativo ao comércio de cafés no bloco. Além disso, tal ato fortaleceria a imagem do Brasil como líder regional com um ato pró-ativo, integrador, diplomático e pacificador, uma vez que o estímulo à cafeicultura tem sido visto como arma contra a ação das guerrilhas financiadas pelo narcotráfico, que atuam principalmente na América do Sul (Farcs). Em termos de mercado interno, a ação supra demandaria o fomento à aparatos legais que favorecessem a ampliação da produção de cafés especiais, seja com a redução de encargos tributários, seja com a inclusão de cafés em áreas estratégicas como na merenda escolar e órgãos públicos,

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especialmente aqueles ligados à promoção comercial e padrão mínimo de qualidade do café das cestas básicas. Tal abertura seria o primeiro passo para a consolidação do país como plataforma mundial de cafés, garantindo a origem Made in Brasil na embalagem e pluralidade sustentável e rastreada das mesclas internacionalizadas.

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29 O que tem no tanque seu moço? Babaçu, my darling! Publicado em 21 de abril de 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

Depois do pronunciamentodo presidente americano George W. Bush realizado durante o Wirec 2008, evento sobre energias sustentáveis realizado em Washington este ano, mais um produto nativo do Brasil ganhou o cenário internacional: o coquinho de babaçu. Bush, durante o evento citou o babaçu por duas vezes consecutivas, entusiasmado com o poder de uma frutinha tão pequena, mas apta a produzir um biocombustível tão poderoso erefinado em termos de qualidade, capaz de levantar um Boeing do solo. Isso mesmo: o óleo do babaçu virou combustível de primeira linha no contexto da indústria aeronáutica. Esse anúncio, que chancelou a política nacional de agroenergia aos olhos do mundo, culminou numa série de eventos importantes para o país: a recente visita de Condoleezza Rice ao Brasil, referendando o discurso de Bush em solo brasileiro, a inclusão do Brasil como candidato ao G-8, no contexto do discurso do candidato à presidência dos Estados Unidos, o senador Mc-Cainn, e a liberação de recursosde R$ 9 bilhões para a promoção comercial do etanol brasileiro no mercado internacional. Embora seja a cana-de-açúcar a principal vedete do segmento de agroenergia, este artigo versa sobre o babaçu, em razão de sua aplicação no setor aeronáutico e o apelo fair trade que o produto tem, em razão das oportunidades de trabalho que gera e sua respectiva relação sustentável com a natureza (especialmente no âmbito dos biomas Floresta Amazônica e Mata Atlântica). O babaçu, de acordo com o Dicionário Houaiss é uma planta nativa das faixas de transição de Floresta Amazônica, sendo encontrado em toda a região Norte e Nordeste do Brasil, especialmente na região da Mata

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Atlântica baiana e também na Bolívia, Guiana e Suriname. Trata-se de uma palmeira capaz de atingir até 20 metros de altura, tendo inúmeras aplicações: desde a construção de casas (caule para as paredes e folhas para o teto), passando pelo artesanato (elaborado com as folhas amareladas e longas da palmeira), produção de óleos e gorduras, tanto para consumo humano quanto para usos industriais. Suas cascas tem sido usadas também na indústria moveleira e como carvão pelas famílias que vivem de seu extrativismo. Extrai-se ainda palmito, além de servir como ração para criações e adubo. É uma planta de ampla utilização pelas populações rurais amazônicas e nordestinas com várias aplicações, portanto. Sua capacidade de produção é de até dois mil coquinhos numa única carga, sendo uma grande demandante de mão-de-obra nos seus estágios iniciais de produção, especialmente no que tange à sustentação da agricultura familiar. No caso dos biocombustíveis sua aplicação interessa, em razão da sua capacidade de geração de óleo, que na extração garante 60% de aproveitamento da amêndoa madura. Como se trata de planta de fácil reprodução, a expansão das lavouras tem se concentrado especialmente no Maranhão. Somente em 2006, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicados em 11 de dezembro de 2007, o estado respondeu por 94,2% da produção (117,1 mil toneladas/total país), num contexto de R$ 102,2 milhões de receitas obtidas por meio da venda da amêndoa do babaçu. Portanto, verifica-se que para a economia maranhense, o babaçu tem papel estratégico, já que responde por 300 mil postos de trabalho (quebradeiras) e movimenta a economia de pelo menos 10 municípios: Vargem Grande, Pedreiras, Poção de Pedras, Bacabal, Chapadinha, Codó, Bom Lugar, São Luiz Gonzaga do Maranhão, Cajari e Coroatá. Evidentemente, que se trata de uma produção que envolve pessoas com baixo grau de escolaridade e situadas em regiões economicamente desfavorecidas, o que aumenta a importância do babaçu como recurso agregador de valor e qualidadede vida para as famílias envolvidas com esta cadeia produtiva. A inserção da prática do cooperativismo no escopo da cultura local, combinada com treinamento para profissionalização, assume papel relevante, dado que a organização é um caminho importante para a melhor distribuiçãode renda. Nesse sentido, o trabalho atualmente desenvolvido pela Rede Baiana de Bicombustíveis, na região de Ilhéus, pode ser emblemático, 99


já que a pesquisa lá envolvida fundamenta-se sobre os fundamentos da inclusão social. Sem essa preocupação, surge, ante a possibilidade de ampliação da demanda da indústria aeronáutica mundial, a emersão de uma série de problemas sociais, que podem incluir inclusive uso de mão-de-obra infantil e depredação do meio ambiente, o que não é bom nem para as pessoas envolvidas na coleta do coco, nem para o país. O ideal mesmo é biocombustível de babaçu fairtrade, rastreado, para a gente ter gosto de cantar, toda vez que estivermos a aterrisar, cheios de saudades de casa, um trechinho do Samba do Avião, de Jobim... Eparrê/Aroeira beira demar/ Canôa Salve Deus e Tiago e Humaitá/ Eta, costão de pedrados home brabo do mar/Eh,Xangô, vê se me ajuda a chegar... Oxalá ao Babaçu e ao meu Brasil...Oxalá à agricultura, musa dessas sustentáveis, diplomáticas e boníssimas revoluções...

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30 Atratividade do Mercado Brasileiro de Café Publicado em 02 de maio de 2008 na Revista Cafeicultura, O Portal do Agronegócio Café

Desde a década de 1970, o Brasil, no que tange aos negócios do café, tem gradativamente transicionado seu mercado para um pujante processo de internacionalização. Principiando pela alemã Melitta, primeira estrangeira a acessar o território nacional, o país assistiu em seguida, na década de 1990, a aquisição do tradicionalíssimo grupo União pela americana Sara Lee. Ao mesmo tempo, a italiana Illycafe introduzia o conceito de cafés espressos no coração de um setor, acostumado à negociar cafés para a percolação sem preocupação expressiva com a qualidade, o que sem dúvida, revolucionou o modelo de comercialização e distribuição de cafés com alto valor agregado, bem como a respectiva forma de consumo: a dose. Em meados da ainda década de 1990, as marcas Strauss-Elite (israelense) e Segafredo Zanetti (italiana), adquiriram respectivamente as marcas Três Corações (readquirida no início da década de 2000 pela brasileira Santa Clara) e Itambé. Por fim, nos últimos quatro anos, assiste-se a chegada da americana Starbucks, a italiana Espressamente (da Illycafé), a suíça Nespresso e a italiana Lavazza, que no dia 21 de abril de 2008, arrematou a Café Terra Brasil. Mas porque tantas estrangeiras por aqui? A resposta está situada em três aspectos fundamentais: perfil do crescimento demográfico nacional, crescimento econômico, tradição no consumo de café por parte do brasileiro. Com uma população estimada em 186 milhões de pessoas, uma taxa de natalidade média de 21,2 pessoas por mil habitantes e respectiva esperança de vida estimada em 68 anos em média (IBGE, 2008), crescimento econômico estimado para 2008 em 4,8% (Banco Central, 2008), o que permite acreditar no crescimento da renda per capita nacional, seguin-

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do os mesmos parâmetros de 2007 (4%), além da projeção de expansão do consumo de café calculada em 74 litros/per capita (5,53Kg), o mercado brasileiro converteu-se num oásis, especialmente no que tange ao consumo fora do lar. O Brasil, é o quinto mercado mundial para o setor de alimentos e ao contrário dos mercados europeus, possui elasticidade para expansão da demanda. De acordo com dados da Interscience, cerca de 36% dos brasileiros atualmente consomem café fora de casa, dado este que converge diretamente com o modelo de internacionalização adotado por grandes marcas internacionais, que preferem o investimento no Brasil restrito à instalação de canais de distribuição de marca própria, concentrados na Região Centro-Sul principalmente. Neste modelo de expansão internacional no mercado brasileiro, as indústrias internacionais mantêm sua resiliência frente à possibilidade de processamento de grãos de diversos países produtores ao redor do mundo mantendo suas plantas industriais em seus países de origem, já que a prática de importação de café de outras origens para o Brasil ainda não foi regulamentada em termos de exigências sanitárias específicas. Além disso, não assumem custos de instalação de plantas em território nacional, o que reduz veementemente os custos de acesso ao mercado, já que o Brasil não possui barreiras técnicas ou tributárias para a importação de cafés industrializados. O único pormenor dessa questão é a fuga de capital, uma vez que tanto os dólares oriundos da agregação de valor pela industrialização quanto a possibilidade de criação de postos de trabalho, ficam no exterior e não no Brasil. De qualquer forma, é certo que a concorrência em relação às marcas brasileiras passa a se concentrar num nicho de consumo apto a remunerar em média até seis vezes a mais o preço da xícara com café. E o consumidor não é fiel, quando se trata do emprego do seu erário na construção de uma experiência que une prazer, sofisticação e pluralidade gastronômica. Um exemplo clássico dessa afirmação foi o frenesi que o café javanês Kopi Luwak causou recentemente em São Paulo: a experiência envolvia o consumo de uma xícara de café processado no aparelho digestivo de um gato nativo da Ilha de Java, cujo custo unitário era de R$ 100,00. Esse produto, tido como o mais raro, exótico e saboroso do mundo cafeeiro, custa a bagatela de R$ 2.000,00 o quilo. A média de preços do café gourmet nacional oscila entre R$ 20,00 e R$ 120,00 o quilograma. 102


Se o mercado brasileiro acena que está pronto para absorver esse tipo novidade, é certo também que o segmento industrial nacional deve organizar-se para uma concorrência forte, financiada com taxas de juros internacionais muito baixas, que pode acirrar a concentração do mercado nacional, já que o perfil do setor industrial de café nacional situa-se predominantemente nas pequenas e médias torrefações, embora as 20 maiores plantas do país processem mais de 65% de todo o café comercializado em território nacional. Os programas de certificação atualmente adotados pelo setor no país, com ênfase em qualidade e sustentabilidade, acenam um preparo para este ambiente, que fundamenta sua ação no processo de reformulação da cultura de consumo por parte do consumidor nacional. O café nesse sentido, continua a ser o luxo do simples, mas inspirando-me em Voltaire, deve ser capaz de persuadir, a ponto de gerar grandes paixões, a ponto do consumidor considerá-lo mais saboroso que mil beijos.

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31 Um beijo, um queijo, biocombustíveis Publicado em 12 de maio de 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

Os alimentos, de forma geral, são uma dádiva tão especial que despertaram em mim a necessidadede dissertar a respeito da relação do romance com a agricultura. É há uma ligação passional entre a beleza poética do amor e a arte de produzir riquezas, a partir do labor da terra. Ante o embate meio shakespeariano entre o ser ou não ser agricultura de energia e ou de alimentos, o mundo uníssonamente impõem sua tese, consumada por meio da mídia ao longo das últimas semanas: o temor da fome coletiva. Para conferir certa leveza à dramacidade da trama, principia-se tal reflexão tomando o leitor pelo intelecto, conduzindo-o à arena da delicadeza impressa em momentos de felicidade onírica: Como a crise internacional de alimentos poderá impactar naquele flerte típico do interior das Minas Gerais, no qual ante a porta da igreja, em noite enluarada, o moço compra pipoca para moça e lança um primeiro olhar acanhado, oferecendo a candura da inocência e premiando poetas e poetisas com a dádiva do amor? Eros e Psiquê não conheceram a pipoquinha nossa de cada dia, mas é certo que como divindades gregas, conheciam a importância da agricultura para o desenvolvimento nacional. Os gregos, sem dúvida, eram exímios promotores de festivais de culto à Deméter (Ceres para os romanos), deusa mitológica da agricultura, em agradecimento às colheitas fartas, pois a fome é e sempre foi uma mácula que mancha a existência humana há milênios, assim como as guerras e genocídios que se perpetuaram ao longo da história. A falta do alimento era tida como uma hecatombe, que expressava a ira dos deuses contra os mortais. É certo que quem tem fome não pode esperar. Nada mais digno para um ser humano do que o acesso a um bem elementar para a sobrevivência: um prato de comida de qualidade, bem preparado, diariamente, pelo menos. É o justo, o sacro. Contudo, não é justo que essa mazela que 104


o fusca a história humana, seja tomada como o “bode expiatório” para coibir o desenvolvimento nacional, em decorrência de interesses nacionais muito mesquinhos, como aconteceu no caso do questionamento à produção de biocombustíveis. De acordo com estudos da organização não-governamental WWF (2008), o fundamento da produção de alimentos centra-se na eficiência do uso das áreas agricultáveis: entre 1965 e 2008, a relação de área agricultável saiu de 1,3 hectare para 0,7 hectare per capita/mundo, sem que houvesse perdas da capacidade de atendimento da oferta média de calorias diárias necessárias a um ser humano, que também em média saiu de 2.400 kcal para 3.000 kcal per capita/mundo, para o mesmo período. Ocorre que, considerando esses dados da WWF, que considera os 3 bilhões de habitantes do planeta, é visível que a disparidade na distribuição de renda, os próprios índices de desenvolvimento de importantes países e os inabaláveis subsídios agrícolas distribuídos “a rodo” nos países desenvolvidos (especialmente Estados Unidos e União Européia) e as altas acumuladas do petróleo nos últimos anos criaram um ambiente temerário em relação à falta de oferta de comida. Há uma crise real de alimentos ou um arranjo diplomático na União Européia para desmantelar a concorrência (o acordo bilateral do Brasil e Estados Unidos, que ia de vento em popa), afim de favorecer o seu programa interno de biocombustíveis, francamente subsidiado? Porque o primeiro alerta aconteceu na Alemanha somente este ano, se já era uma crise anunciada? Será que, com a elevação do seu grau de investimento, o Brasil está apto a jogar tão bem quanto os europeus no comércio internacional? A culpa é do milho mesmo ou há algo mais? Será que quadruplicar a produção de milho no Brasil não seria positivo para atender a demanda mundial? Eis algumas questões interessantes, para a reflexão coletiva, para as quais eu também busco respostas. Voltando à pipoca do romance, é válido ressaltar que ela poderá sofrer um incremento de preços sim. Produzir alimento sestá mais caro, em razão dos custos de produção agrícolas: desde o milho até o óleo para seu preparo. O essencial aqui é a manutenção da tradição poética dos enamorados combinada com a franca expansão da produtividade de nossos campos. Inovação, tecnologia e sustentabilidade são as palavras de ordem nesse processo, que, sem dúvida, colocará o Brasil entre os chamados países de primeiro mundo.

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32 Café: minha paixão nacional Publicado em 25 de maio de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

Inspirada ao som de Villa-Lobos, Trem caipira e o Uirapuru, expresso ora diante, minha homenagem a uma benelevolência de Deus para com a humanidade. O café, a bebida ocidental do peace-to-peace. Não é idolatria, apenas o relato sobre uma paixão particular. No último dia 24 de maio, comemorou-se no Brasil, o Dia Nacional do Café. Pessoalmente, não poderia deixá-lo passar sem congratular-me com a beleza de um setor pujante, que demonstra ao mundo, a essência da alma brasileira, por meio do trabalho silencioso, mas desenvolvimentista. O café não é uma mera commodity, mas sim uma chancela diplomática que inspira a paz entre os povos, entre as pessoas. Sela amizades, amores, relações de vida toda. É como se naquele momento delicado, de invasão da intimidade com a terra, a semente e o cafeicultor, fizessem um trato atemporal de paixão e suntuosa construção de riqueza. “Cuida de mim com deferência, que cuidarei de ti mais a frente”. Então a ruptura da terra, revela a delicadeza e o tempo, juntamente com a essência da sabedoria divina, consolida por meio das raízes e radicelas, o tratado da fidelidade. Então as flores, alvas, perfumadas, levemente cítricas, desabrocham, afirmando que ao Criador tudo é possível. Nem mesmo a geada ou a seca é capaz de deter a efusão contagiante que invade corações ao se percorrer uma lavoura em flor. É a poesia do céu, escrita no livro da vida, dedicada em plenitude ao humano. As pétalas falecem, para iniciar outra magia: a da frutificação. Sinal da maturação gradativa, a multiplicação da tecnologia da natureza acontece, dia após dia, até que, como num delicado momento de capricho, o amarelo e o vermelho invadem aquela paisagem verdejante. “Oi, me colhe e prove do que lhe prometi”. O canto da derriça então, invade, 106


unissonamente, aquelas arenas. Panos brancos são estendidos sob as saias. Coleta-se tudo e para o lavador se segue. Bóias, cerejas e passas são harmoniosamente segmentados pela água e tal densidade dos grãos. E a dança nos terreiros, sol após sol, acontece elegantemente, até que, no final, obtém o coco ou o café em pergaminho. Então o sisal caprichoso abraça aquilo tudo e o grão, interiorano, vai ganhando ar cosmopolita, para cumprir sua promessa inesquecível, que aconteceu no momento do plantio. O produtor, então tem o seu suado ganho atestado e os negócios acontecem, seja nas cooperativas, ou nas tradings. De repente, alguns irmãos embarcam em navios e outros, seguem por aqui mesmo, e de repente, sob o calor do fogo, liberam o aroma sedutor do café caramelizado, achocolatado, torrado. Moídos ou inteiros, vão tomando destinos diferentes. Uns tornar-se-ão experiências tradicionais, via percolação. Outros, provarão da tecnologia e serão comprimidos por meio da aplicação de Leis da Física, nas tais cafeterias. Uns outros, ainda mais sortudos, viram arte e ou pegam avião, para conhecer novas fronteiras, com valor agregado. De qualquer forma, imbricam-se lábios adentro do consumidor apaixonado. E ambos, tornam-se um. Dizem que isso tudo é o legado do romance do café. E a magia dapaixão acontece quando, ao saborear a primeira, inconscientemente, se pede bis. Por isso, o café é o símbolo da mais vibrante da vida, pois congrega em si, toda a emoção e prazer, e enche o coração de alegria, de uma alegria simples, pacífica, mas profundamente contagiante. Pode-se dizer que o mercado não está bom, que o preço poderia estar melhor, que falta financiamento, mas no fundo, há uma hipnose coletiva, que nem Freud e Jung explicam, que e faz uma diferença enorme, quando se trata da simbiose do trabalho, consolidado por centenas de mãos e o prazer, percebido no último gole. Por isso mesmo, ela assume o papel de promotora do peace-to-peace. O café é a bebida símbolo do networking e da própria democracia. O café não é racista e não avalia ninguém por status, raça, crença ou condição financeira. É o doce luxo do simples. Do simples, do simplório, do humilde, do magnata. É pura diplomacia, pura expressão de sedução sem exercício de poder. Por isso combina tanto com a pluralidade brasileira. Embora africano, abrasileirou-se, assumindo lócus insubstituível na culinária, na vida, na essência de um povo, que está em franca fase de conquista de um lugar ao sol no mundo. 107


Ao amigo café, minhas doces homenagens. Ou melhor, minhas doces homenagens para quem faz toda a cadeia agroindustrial do café acontecer, com trabalho, com ou sem CDPC (sinceramente, vamos deixar de lado essa parte, porque ela é complicada e ofusca a beleza do texto). Feliz Dia do Café, todos os dias!!!!!

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33 30 anos de constituinte, 29 sem IBC, 17 com CDPC: Reflexões sobre a cafeicultura e uma moça querida chamada democracia Publicado em 29 de maio de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

No dia 05 de outubro de 1988, estava em frente à televisão da sala da minha tia, assistindo um senhor, chamado Ulisses Guimarães, declarar “Está proclamada a constituição federativa do Brasil”...Até então, na minha escola primária, ainda hasteávamos a Bandeira Nacional e cantávamos o Hino Nacional todos os dias. Depois que entendi aquele momento, durante a aula de moral e cívica, ficou mais fácil amar a tal democracia e a liberdade de expressão. São dois elementos tão lindos, porque se durante mais de três décadas a capacidade criativa do cidadão brasileiro ficou submissa às armas, a partir de então, não precisaria mais ter medo de desenhar ou escrever as minhas poesias. Daí eu me aventurei lendo o Rui Barbosa, Euclídes da Cunha, até que 1996, eu ganhei um manual do Instituto Brasileiro do Café, editado em 1986. Parei de ler romance, para compreender sobre um negócio importante da História do Brasil e que de repente, me virou pelo avesso. Dei adeus à Machado e à Alencar, para dar voz ativa a um certo Palheta, nada similar ao Capitão Rodrigo, de Veríssimo, mas que era um feio charmoso que convenceu uma dama européia a dar-lhe um presente que mudou a história do Brasil: o café, instituição cosmopolita, política, negociadora, amante. Citando Ulisses Guimarães mais uma vez, é possível observar aconvergência das benesses do café para alma humana, assim como a política de qualidade.»... Política não se faz com ódio, pois não é função hepática. É filha da consciência, irmã do caráter, hóspede do coração. Eventualmente, pode até ser açoitada pela mesma cólera com que Jesus Cristo, o polí109


tico da Paz e da Justiça, expulsou os vendilhões do Templo. Nunca com a raiva dos invejosos, maledicentes, frustrados ou ressentidos. Sejamos fiéis ao evangelho de Santo Agostinho: ódio ao pecado, amor ao pecador. Quem não se interessa pela política, não se interessa pela vida...» Café é saúde, logo, é vida também. Portanto, política e café convergem com maestria. O CDPC deve dispor-se à interagir com idéias, ainda que contundentes, contrárias ao interior dos corações daqueles que dele fazem parte oficialmente. O Conselho deveria promover o debate e interação, utilizando as benesses da tecnologia, pois o Conselho é o ombudsman do setor, é quem faz a mediação entre os anseios do segmento produtivo com o Estado. Essa abertura é fundamental, quando se trata de definição de uma agenda estratégica. Acompanho os debates no Peabirus e se aquele é o modelo máximo de democracia aceito pelas lideranças do agronegócio café brasileiro, é certo que caminhamos realmente à bancarrota estratégica, porque é um sistema vigiado e que não aceita debates fortes, que no estágio de brainstorming são fundamentais. Poder-se-ia lançar mão da consulta pública, mas efetivamente, qual a garantia de que as contribuições, por menores que sejam, estão sendo lidas? É complicado, quando se sabe que no interior da instituição cafeeira, prevalece jogos de interesses, nada democráticos. Participar é importante. Mas todos sabemos que embora tenha ocorrido o impeachement do ex Presidente Fernando Collor de Mello e que a população tenha ido às ruas, quem o derrubou foi o congresso nacional, movido por interesses particulares e porque o voto foi aberto. Será que na cafeicultura o jogo um dia será diferente? Essa é uma questão fundamental, quando se pondera sobre as conversações sobre a diplomacia cafeeira. Normalmente, vai-se à Londres, transferir know-how, que no futuro, ferirá de morte o coração da cafeicultura nacional e ninguém fala sobre o assunto, porque participar da OIC, que é financiada com recurso brasileiro (vide o Portal da Transparência), significa status e empoderamento. Será que no fundo, isso é bom para o Brasil? Quem acompanhou o noticiário, percebeu que a Organização Internacional do Café recomendou ao Brasil a intensificação da transferência de tecnologia de produção de café para a África. Para os bons entendedores de mercado internacional, o café, produzido em qualquer região da 110


África, é tido como produto exótico e tem preferência de acesso ao mercado europeu. Além disso, é uma das únicas regiões do mundo capaz de competir em pé de igualdade com o Brasil na produção agrícola, com grandes diferenciais competitivos: o custo de financiamento e respectivamente, a proximidade com os grandes mercados consumidores e o apelo social dos produtos “Made in Continente Africano”. O produtor brasileiro de café ficará assistindo de braços cruzadosos líderes do setor cafeeiro negociar em de bandeja a tecnologia construída aqui, com capital nacional, sem que essa transferência tenha passado por uma análise criteriosa de risco? Qualquer empresa faria isso, porque o agronegócio café não pode fazer?A questão é reinvidicar a participação, dentro do que está previsto da atual Carta Constitucional, verdadeiro esteio da democracia. A operacionalização disso, depende apenas de vontade de quem coordena. A cafeicultura brasileira não pode mais aceitar para si, como verdade, aquele ditado “em terra de cego, quem tem um olho, é rei”.

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34 Uma releitura da política do pão e circo e do assassinato de Sócrates no contexto da política cafeeira brasileira Publicado em 29 de junho de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

A vantagem do exercício da docência é a constante interface com a pesquisa. Eis que outro dia, navegando pelo You Tube, descobri algumas pérolas da propaganda brasileira, como por exemplo, as da década de 1950, quando a Coca-Cola começava a se propagar como hábito alimentar no Brasil. “Isto faz um bem”. Este era o slogan da Coca-Cola, quando do início do processo de posicionamento da marca junto ao consumidor brasileiro. Mais tarde, ficou comprovado que de bem mesmo, só o prazer do hábito de consumo de um produto sintético, inspirado na coleira, árvore africana. Por incrível que pareça, é daquele continente que vem o café também. E por incrível que pareça também, o slogan atual da cafeicultura é quase “isso faz um bem”. Bem faz, é bom mesmo, em excesso não faz mal e não existe substituto à altura quando se trata de acompanhante para o pão-de-queijo nosso de cada dia. Mas o que incomoda é a ênfase num discurso que se presta para mascarar as ineficiências dos bastidores. Cabe uma crítica importante aqui: a relação da ênfase exarcebada no discurso da qualidade com a chamada política do pão-e-circo. A busca pelo belo, pelo sabor delicioso e inesquecível é algo fascinante, mas é certo que Narciso morreu afogado por apaixonar e pelo seu próprio reflexo no lago translúcido, em noite enluarada. Para quem não conhece muito de história mundial, a política do pão-e-circo, foi uma prática utilizada pelos imperadores romanos, na tentativa de desviar a atenção dos famintos cidadãos de Roma com a oferta de festivais de gladiação promovidos nos coliseus e a distri-

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buição de alimentos, para que estes não emergissem contra o governo, promovendo revoluções e guerras. E o no que tem se transformado a cafeicultura, senão num espetáculo? Leio jornais todos os dias e o que vejo, é essa ênfase importante, mas excessiva sobre a questão da qualidade do café, a beleza do barismo, café latte que deslocam os olhares das pessoas das coisas fundamentais: a qualidade das políticas públicas voltadas ao agronegócio como um todo. O recente caso do vidro no café do Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro assustou-me, pois vi ali uma releitura do assassinato de Sócrates: a cicuta assumiu a contemporaneidade e transformou-se em vidro, dado à conta-gotas. Não há porque tratar este assunto como isolado. Ele é um acinte ao trabalho de pelo menos 10 milhões de pessoas, que em pleno século XXI tornou-se inadimissível, em decorrência da tecnologia disponível e o tamanho do orçamento do Funcafé, que só serve atualmente para renegociação de dívidas. Quando é que o setor se proporá a varrer do mapa a marginalidade? Quando é que o café será tratado como alimento e questão de saúde pública no Ministério da Saúde? Esse regulamento do café torrado que não sai é uma agonia interminável. Quando é que isso ficará pronto e o Ministério da Agricultura transferirá a fiscalização dos cafés industrializados para a fiscalização estadual? A prorrogação da consulta pública sobre a regulamentação do café torrado só demonstra que há um excesso de burocracia, para uma questão que se arrrasta há anos no Ministério da Agricultura. Mesmo que digam o movimento tem pretensões democráticas, é desalentador ver as prorrogações para satisfazer o exercício político, meramente político, que numa hora dessas, corroborará para o óbito de alguém. Não sou a dona da verdade, confesso-me cansada de sempre bater de frente, clicando sobre a ponta da mesma faca. Mas sou uma brasileira indignada e que viveu intensamente este setor por 14 anos e eu não poderia ficar calada, sendo que eu vivo numa democracia, que me permite expor pelo menos a minha indignação com o descaso com a cafeicultura e com um dos mais fortes ícones nacionais, o café. Exponho que se o CDPC fosse realmente interessado em dirimir os problemas do setor, todos os aportes legais necessários até o momento já estariam negociados e prontos. Falta é articulação, vontade, motivação, liderança, vontade de tratar o setor público com o ritmo de privado, senso de construtivismo e visão de que tudo é um empréstimo feito dos nossos netos ou bisnetos, com valores éticos e morais a serem remunerados com 113


altas taxas de juros à futuro. Não venham me dizer que o tempo do governo é outro. O tempo é de quem paga e coleta a carga tributária mais densa do mundo e que ao invés de resolver as coisas em tempo real, otimizando o trabalho, a política cafeeira se perde no glamour, nos jantares, nas reverências, no turismo à Londres que poderia ser resolvido, aplicando-se o princípio da economicidade, por meio de teleconferência. E o que vejo é a morosidade posta para atender vaidades, em detrimento dos interesses dos milhões que não tem acesso à Brasília e ficam na expectativa de se restringir a ganhar, apenas o próximo concurso de qualidade (ressalta-se que o custo da certificação de propriedades de café ainda continua inacessível para a maioria, tornando o sonho de conquistar o prêmio, um doce sonho solitário, não subsidiado. É válido observar que ainda tem muito cafeicultor secando café em terreiro de terra ou sobre lona, e que sem dúvida, precisariam de uma mãozinha do Estado, para resolver um probleminha básico de pós-colheita).

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35 A Starbucks, a Rodada de Doha e os Combustíveis Publicado em 07 de julho de 2008 na CBM Agroenergia

O recente fechamento de 600 unidades da rede Starbucks nos Estados Unidos e a respectiva retomada dos negócios por parte de Howard Schultz, acenam, mais do que uma necessidade de reposicionamento de uma multinacional em relação a competitividade impressa no boom de cafeterias naquele mercado. O ato faz com que se reflita sobre os bastidores do crescimento geométrico que permitiram que uma companhia atingisse em menos de oito anos 10.000 pontos de venda somente em território norte-americano. Mais do que uma febre por consumo de um café saboroso, verifica-se aí a expressão do modo de vida americano fundamentado sobre o consumismo, que também se reflete em outros setores, como os relacionados com a matriz energética. Ao lado de China e Índia, que consomem respectativamente cerca de 6,7 milhões e 2,8 milhões de barris de petróleo ao dia, com projeção de expansão de crescimento anual de 100% e 50% respectivamente em decorrência da explosão populacional, os Estados Unidos continuam a ser o principal mercado consumidor mundial, com cerca de 21 milhões de barris ao dia e uma perspectiva de crescimento de consumo sustentado de 15% ao ano. A diferença entre os asiáticos e os americanos centra-se na questão de que o consumo destes últimos é restrita à menos de 5% da população mundial, enquantos os primeiros (China e Índia) comportam mais de 1/3 da humanidade. Para uma economia fomentada no consumo exarcebado e que não é signatária de Protocolos como os de Kyoto e de Bali, a recente escalada de preços dos barris do petróleo (atualmente na casa dos US$ 146/barril), combustível este que responde por praticamente 35% da matriz energética americana (gás 22,90% e carvão mineral 22,30%) e a movimentação da frota de 214 milhões de veículos (automóveis e caminhões), colocou

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em xeque a capacidade do país em sobreviver ante um blackout de fornecimento. Na verdade, ela “abalou as estruturas”. Mais do que convencer a OPEP quanto a desvincilhar-se da sua estrutura cartelizada em prol da promoção da equalização de preços em nível mundial por meio do aumento da oferta do “ouro negro”, a busca pela sustentabilidade, por meio da produção de combustíveis renováveis cujo movimento teve início por lá há cerca de uma década, começou a ganhar força. Na IIlynois de Barack Obama, o milho começou gradativamente a migrar da mesa para o tanque dos automóveis. E o que era exceção, nos últimos anos, tornou-se regra, a tal ponto da Organização das Nações Unidas colocarem em xeque a questão dos biocombustíveis, intitulando-o “crime contra a humanidade”. Mas que crime seria esse? A fome é uma amálgama sobre a construção histórica da humanidade e que como flagelo, deve ser combatido a qualquer tempo. Contudo, a questão das altas dos preços dos alimentos, especialmente daqueles oriundos do milho, acabaram colocando em alerta toda a sociedade global. O milho, assim como o arroz, é estratégico na pauta de alimentação humana. É certo que o aquecimento global é um fator dilapidador do equilíbrio climático e um exímio causador de secas, como a que atingiu o Brasil nos últimos anos e comprometeu safras de produtos como o feijão, hoje tidos como um dos vilões da inflação. É certo também que o chinês está comendo mais, em decorrência da inserção da China na economia de mercado, assim como o próprio brasileiro está comendo mais, em decorrência de programas sociais inclusivos, como o bolsa família, que permitiram que cerca de 30 milhões de excluídos pudessem acessar a mesa. Há uma crise de alimentos e estes são um dos motivos que forçam inclusive, a indústria de alimentos norte-americana solicitar em bloco ao presidente George W. Bush a suspensão do programa de biocombustíveis naquele país. Recentemente, 138 indústrias assinaram um manifesto fazendo tal pedido. Apesar do temário, entretanto, não se pode afirmar que o ônus concentra-se na questão da busca de uma alternativa menos agressiva ao meio ambiente e que gere e ou elimine a emissão de gases estufa. O crime, portanto, tem nome e não está no campo. Está na mesa de diplomatas e se chama subsídio agrícola. Eis o verdadeiro vilão que usa os biocombustíveis, especialmente o etanol brasileiro e mais especialmente ainda a Amazônia Brasileira como bodes expiatórios. Apesar do Brasil assinalar no Plano Agrícola e Pecuário 2008/2009 a expansão da fronteira 116


agrícola brasileira sobre áreas de pastagens recuperadas, a Rodada de Doha - rodada de negociação criada em 2001, durante uma conferência da Organização Mundial do Comércio realizada no Qatar, para discutir a derrubada de barreiras comerciais, inclusive subsídios agrícolas - ainda se arrasta causando efeitos funestos. Somente a União Européia coloca todos os anos em sua agricultura cerca US$ 50 bilhões ao ano, na forma de subsídios. Esta estrutura cria uma zona de conforto muito complexa, já que sem a possibilidade competir dentro de regras de mercado profissionais, que exigem gestão de custos e busca por resultados, como acontece no caso brasileiro, países como os Estados Unidos e a própria União Européia passam a restringir cada vez mais os seus mercados, visando proteger sua agricultura, muitas vezes ineficiente. Lições como o caso da bovinocultura e do algodão são muito fortes no que tange à mitigação da competitividade que estes importantes mercados consumidores assumem frente ao emergente processo de construção das atividades globais de comércio de países em desenvolvimento. Em decorrência disso, no caso do etanol e demais biocombustíveis, a busca da certificação e respectiva prática da rastreabilidade será a alternativa mais eficiente para a performance do “made in Brazil” em mercados exigentes. Mais ou menos como no caso dos cafezinhos do Schultz...

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36 Barismo na realidade brasileira Publicado em 23 de julho de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

Glamour é uma palavra que combina muito bem com gastronomia. Especialmente, a alta gastronomia. Na busca pela equiparação do café ao vinho, algumas inovações emergiram, como por exemplo, a profissão de barista, italiana invenção, mas que vem ganhando espaço nas sofisticadas casas de café situadas no país. Espresso bem extraído, com aquela combinação mágica dos 4 M (miscela, moinho, máquina e mão do barista). Bebidas à base de café, equiparadas à obras de arte, dentro de um frenesi de jovens cosmopolitas que no auge de suas criações intelectuais, tornam-se capazes de imprimi-la num microcosmo de uma xícara ou copo. Sedução, envolvimento, marketing no ponto de venda, glamour, gastronomia, num elo que finaliza com chave de ouro o trabalho de uma cadeia formada por 10 milhões de pessoas. O Barista deveria ser eleito o Presidente da República da Cafeicultura Brasileira. Ele é o cara. Mas não é. Ele é apenas uma expressão da leitura mecanicista em pleno século XXI, dentro de uma engrenagem, o agronegócio café, que não exitará em substituí-lo por uma máquina, tão logo seja possível, para reduzir custos trabalhistas. E quem é o barista no Brasil, atualmente? Com exceção aos nomes que aparecem na linha de frente, propagando atividade, os jovens brasileiros, de média e baixa renda, desesperados pelo seu primeiro emprego. Como profissional da área de Ciências Socias sou obrigada a questionar a longevidade dessa atividade que só exige perfeição nos tempos e movimentos e alguma habilidade para desenhar usando calda de chocolate sobre leite vaporizado. Recentemente os japoneses criaram um robô barman que atende com perfeição. Isso significa que dentre em breve criarão um barista robô também, com um banco de dados vasto disposto

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na sua memória, capaz de personalizar a xícara de espresso e cappuccino, com a fotografia digital da gente mesmo, dentro de apenas 30 segundos. Antecedendo a profissão em si, em termos de desenvoltura técnica, deveria haver o reconhecimento legal da carreira, mas enfocando a cafeologia. Um sommelier jamais será substituído por uma máquina. É esta arte que o Brasil, como maior produtor de café do mundo deveria apoiar. Não precisamos que os nossos garotos e garotas sejam treinados para limpar bem o balcão, mas sim envolver o consumidor com uma gama de conhecimentos que supera as limitações de uma máquina, e que realmente reflita sofisticação e desenvolvimentismo. Os campeonatos são bonitos, geram vencedores, mas no fundo, é tudo inócuo, sem um sentido que traga modificações reais para os rumos da história do desenvolvimento do Brasil. É trágico quando vejo jovens trocando suas carreiras de nível superior por um trabalho que dentre em breve será desmerecido, que equivale às linhas de montagem das indústrias automobilísticas suecas, no modelo de produção em série média. Isso é o desespero gerado por problemas macroeconômicos aparentemente sem solução, que obriga as pessoas a fazerem qualquer coisa para sobreviver. O Brasil precisa desenvolver o empreendedorismo, para garantir empregabilidade combinada com business intelligence: os próprios regulamentos dos concursos de baristas são limitadores, quando exigem que os concorrentes sejam empregados com carteira assinada, o que torna os concursos bons somente para os donos das cafeterias e para as torrefadoras. Será que não está na hora de começar a pensar diferente? Porque o barista ganhador do nacional não pode ganhar um curso de administração completo em Harvard e um emprego garantido no Ministério da Agricultura, no Departamento do Café, quando retornar, ao invés de um troféu dourado e a foto publicada em algumas revistas especializadas do setor, que passa e pode ser comparado ao frenesi momentâneo docarnaval? Sinceramente, inteligência comercial é um insumo que na cafeicultura, compete com a escassez de fertilizantes. Os custos de ambos, na planilha final do agronegócio, geram impactos negativos semelhantes. Mas cafeicultura ainda contribui com 6,3%do volume total dos resultados da Balança Comercial Nacional. Há alguns anos atrás, era 60%.

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37 Construção da sustentabilidade do café pela embalagem verde Publicado em 31 de julho de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

No que diz respeito à sustentabilidade aplicada ao café, nada substitui o pacotinho de papel, é, daqueles que só é possível adquirir quando se compra café moído na hora. Contudo, apesar da nostalgia impressas nas mesmas, em pleno século XXI, não se pode dispensar termos como tecnologia e inovação, nas discussões sobre desenvolvimento de produtos sustentáveis. As embalagens de café atualmente são feitas de poliester ou polietileno, de duas ou três camadas, com um revestimento de alumínio na face interna mais a impressão com tintas coloridas, na sua face externa (a parte que enxergamos na gôndola do supermercado). Essa estrutura, em termos de visagismo, ainda depende da quantidade de soldas (três, cinco ou sete soldas), que definem os seus formatos comerciais (single all à vácuo, double all à vácuo, valvulada, almofada, pouch cinco soldas, stand up pouch).Existem ainda as embalagens cartonadas e as embalagens em lata. Com exceção a estas duas últimas, as demais, tem estreita relação com o mercado de petróleo, em decorrência de um de seus subprodutos, a nafta petroquímica, que dá origem aos plásticos que conhecemos. A nafta petroquímica é um derivado do petróleo, com faixa de destilação próxima à da gasolina e tem como principal característica sua liquidez incolor. Desse líquido, são obtidos produtos como o eteno, propeno, butadieno e correntes aromáticas. Do eteno e do propeno, se extraem os plásticos. Isso é muito interessante para a compreensão da relação direta das altas do preço do petróleo sobre a planilha de custos da indústria de café nacional, já que boa parte do petróleo leve, que gera esse derivado, é

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importado. O Brasil é autosuficiente em petróleo pesado, mais utilizado na produção de óleo combustível. É importante salientar a partir daí que, considerando que o petróleo é um combustível fóssil não renovável, querendo ou não, verifica-se que a indústria de café acaba indiretamente corroborando para o aquecimento global, o que, sem dúvidas, coloca em xeque o seu programa de certificação de cafés sustentáveis. A embalagem atualmente utilizada, não é biodegradável e muito menos reciclável, especialmente no que tange à cobertura interna de alumínio que é imprescindível para a preservação das características organolépticas do café e minimizar ao máximo, a sua oxidação. Neste último quesito, ainda não há tecnologia disponível, o que abre um precedente importante para pesquisas específicas no processo de reaproveitamento do alumínio do interior das embalagens do café, já que esse metal é reaproveitável e possui ciclo de vida infinito. Contudo, no que tange às coberturas plásticas, uma novidade oriunda da cadeia agroindustrial da cana-de-açúcar, já foi desenvolvida. O polietileno verde, que é uma tecnologia 100% nacional, desenvolvida pela Braskem. O polietileno verde é o resultado de uma composição com 90% de eteno e 10% de buteno, gases obtidos a partir do processamento da cana-de-açúcar, no caso, do etanol. Embora ele seja 30% mais caro que os convencionais, o produto da Braskem é o único do mundo, feito com matérias-primas 100% renováveis. Daí eu fiquei pensando no que seria produzir um café realmente 100% sustentável. Na minha concepção agora, seria um café que respeita as pessoas (os trabalhadores e não usa mão-de-obra infantil), gera desenvolvimento econômico e não gera impactos ambientais em nenhum dos elos existentes na cadeia produtiva (incluindo a experiência de consumo em casa). Se toda a cadeia de valor do café for sustentável, inclusive a embalagem, o marketing disso no mercado internacional, para a promoção do café brasileiro, é infinito. Café “Made in Brazil” realmente sustentável... viajei... Tem tudo haver conosco, com a nossa criatividade, com a pluralidade cultural e racial do brasileiro. Porque a indústria de café não acordou para esse detalhe fundamental? É para deixar qualquer país do mundo mortinho de inveja da gente, mesmo. O marketing de produto é feito de detalhes, especialmente quando esses detalhes refletem uma Responsabilidade Social Corporativa fundamentada em tecnologia e protocolos de certificação realmente interes-

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sados em unificar a dimensão econômica com a construção de relacionamento com a humanidade estendido ao longo do tempo. Fica a idéia, que é muito melhor do que o velho discurso sobre a alta do preço do cafezinho, fundamentada nas altas do preço da embalagem oriunda do petróleo.

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37 Cafeólogos: os caçadores de raridades Publicado em 06 de agostode 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

Se a qualidade do café do Brasil está melhorando, ninguém tem dúvida disso. Além do barista, profissional responsável pela promoção do consumo de cafés, por meio da difusão da arte do expresso, bebidas geladas e design de cartas de cafés, outro profissional começa a despontar, como uma evolução natural dos tradicionais degustadores de café: o cafeólogo. A cafeologia quanto atividade profissional é um desdobramento do movimento de mercado que tem sido feito em prol do desenvolvimento do mercado de cafés especiais em todo o mundo. Muito mais do que uma ciência, ela é a arte de interpretar cafés raros, aromáticos, diferenciados. Grandes cafés são como grandes vinhos, produzidos em condições edafoclimáticas e ou modos de produção que oferecem a eles personalidade distinta e superior aos chamados cafés diferenciados, por serem provenientes das chamadas terroirs d’ appellation. O novo vocábulo, já inserido no dicionário francês Larousse, foi apresentado pela primeira vez em Paris aos segmentos de alta gastronomia e hotelaria, em 11 de abril de 2002, pela Dra. Glória Montenegro, atual diretora da Associação de Cafeologia Conhecedores do Café ou Cafeoteca de Paris. Atualmente, no Brasil, só existem dois profissionais que se intitulam cafeólogos, mas na verdade, tal como a profissão de barista, esta nova profissão decorrente da evolução rumo à qualidade, impressa no contexto do agronegócio café, ainda é um evento novo, que demanda regulamentação, para adquirir uma face economicamente marcante. Contudo, já é possível descrever alguns aspectos interessantes dessa carreira, que conjuga o barismo, a classificação e degustação e uma ampla bagagem cultural. O cafeólogo assemelha-se a quatro profissões que lidam diretamen-

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te com aromas: o enólogo, o perfumista, o aromista e o oleólogo, que são os profissionais especializados na arte da “leitura e desenvolvimento” de vinhos, perfumes, aromas e azeites, conforme pode-se observar no Quadro 1, que versa sobre as categorias profissionais. Quadro 1: Categorias profissionais

Enólogo

Atua em atividades ligadas à fabricação de produtos alimentares e bebidas, mais especificamente, vinivitinicultura. Realizam análises sensoriais em derivados de uvas e vinhos para avaliar sua qualidade e suas características. Sua função também lhe permite coordenar atividades de viticultura, recomendando variedades de uvas, sistemas de condução e espaçamento de vinhedos, práticas de cultivo e tratamento de videiras e analisando índices de maturação de uvas para estabelecer prazos para colheita.

Perfumista e aromista

Atuam em atividades ligadas à fabricação de produtos químicos. Suas atividades incluem a avaliação do perfil sensorial e a estabilidade de aromas e fragrâncias, após sua aplicação em produtos. Pesquisam e testam novos ingredientes para formulações de aromas e fragrâncias, obtidos através de reações químicas, biológicas e enzimáticas. Tanto elabora procedimentos para a produção de novos aromas e fragrâncias quanto identificam causas de falhas em aromas, fragrâncias e bases.

Oleólogo

Atua em atividades relacionadas à produção e seleção de óleos e azeites, sendo responsáveis pela análise sensorial, controle de qualidade, tal como acontece no segmento de vinivitinicultura.

Cafeólogo

Tem na cafeicultura a mesma função do enólogo, sendo uma evolução da atividade de desgustador de café, combinada com a arte do barismo. A diferença do cafeólogo para o degustador é a expertise do primeiro na arte da apreciação de cafés finos e raros, provenientes de denominações de origem ou regiões sui generis.

Fonte: Senai (2006); Prato Feito (2006); Associação de Cafeologia Conhecedores do Café (2006).

Tal como os demais profissionais, cabe ao cafeológo o domínio dos aromas que compõem a roda de aromas do café, composta por 36 aromas básicos, o sistema de classificação internacional, que atualmente segue o padrão da SCAA e SCAE, que vai de zero a 100, conhecimentos sobre 124


torra e respectivamente, técnicas de preparo da mesa para degustação dos cafés raros e exóticos, conhecimentos sobre sistemas de produção, colheita e pós-colheita, bem como a arte do barismo e especialmente. Fundamentalmente, o trabalho do cafeólogo demanda a combinação de habilidades físicas (visuais, gustativas e olfativas), na tentativa de identificar nuances que fazem de determinado café, um produto exclusivo. Por exemplo, no Brasil, pode-se considerar a exclusividade da acidez cítrica presente nos cafés produzidos na região da Alta Mogiana (SP) e no Cerrado Mineiro (MG), que é a primeira Denominação de Origem do país. Essa peculiaridade, faz com que, independente do ponto de venda, qualquer consumidor, ao experimentar cafés dessas regiões, possam identificar sensorialmente sua procedência, em função da característica indelével do produto servido na xícara. O diferencial dessa carreira em relação ao barismo, conforme expus no meu artigo “Barismo na Realidade Brasileira” é a sua longevidade frente à evolução tecnológica e sofisticação em termos profissionais, principalmente em termos de remuneração para quem optar em seguir essa carreira. Infelizmente, as médias salariais divulgadas por algumas entidades que propagam o barismo, não são condizentes com a realidade. Como acreditar que um barista em média pode ganhar R$ 1.500,00, dado este divulgado por instituições ligadas ao agronegócio café, quando mediante pesquisa junto ao Banco Nacional de Empregos (BNE) e as principais empresas de recolocação do país, a média nacional é de R$ 749,00? Nos últimos três anos, tenho militado na área de gestão de pessoas e o que mais se ouve é a questão da relação custo/qualidade da mão-de-obra. Na maioria dos casos, conforme pesquisa que também realizei junto às agências de recolocação on-line, o perfil preferido para o exercício do cargo de barista é nível médio, com experiência até 02 anos, com salários oscilando entre 01 e 02 salários mínimos. É válido ressaltar que boa parte das cafeterias não tem faturamento superior a R$ 100.000,00, o que equivale uma venda mensal de 3.333 quilogramas de café, por mês (equivalente à 466.620 xícaras de espresso vendidas, considerando aqui que um quilo de café produza 140 xicaras da bebida, usando 7 gramas de pó). Na ponta do lápis, pode-se se dizer que um barista custa à empresa aproximadamente 225 xícaras de café espresso, se estas forem remuneradas a R$ 6,00 cada uma. Se a xícara de espresso custar R$ 3,50, são necessárias 386 xícaras de café vendidas. Esses valores levam em considera125


ção os impactos dos encargos trabalhistas, que por sinal, são os grandes responsáveis pela gradativa substituição dos profissionais de nível superior que estão militando nessas funções por profissionais de nível médio, pelo menos. Infelizmente, nem todo o empresário coloca a qualidade antes do bolso, mesmo porque o último é que de fato financia o primeiro. Daí, minha ênfase no investimento na carreira de cafeólogo, em decorrência de um conjunto de atributos que a profissão reúne, impossíveis de serem menosprezados ao longo do tempo, mesmo com ampla oferta de mão-de-obra especializada.

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38 Heráclito e o dilema da insegurança alimentar Publicado em 18 de agostode 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

A navegação pelas águas da História remete necessariamente à revisitação da civilização grega e em especial, o pensamento de alguns importantes filósofos, como Aristóteles, Platão, Sócrates e até mesmo Heráclito. Este, conhecido como pai da dialética jônica, desafia o homem/a mulher contemporânea a refletirem sobre a essencialidade e a acidentalidade dos elementos que compõem o ciclo da vida. O rio, sempre será o rio, essa é a essência, contudo, o movimento ao longo do percurso, o acidental, somente está lá, porque favorece a mudança, que desnuda o futuro. Não assumindo aqui às vezes de filósofa, esse tão contemporâneo raciocínio importa, quando se pondera sobre um elemento fundamental para a preservação da vida humana que é a saciedade do corpo por meio do alimento. Como transcender a desigualdade alimentar que afeta mais de 850 milhões de seres humanos em todo o planeta, se talvez estamos diante de um cataclisma acelerado, que é o aquecimento global? Será que a natureza é realmente a madrasta da tragédia ou é a própria mão do homem que coordena as regras do capitalismo? Recentemente, comecei a ponderar sobre isso, principalmente quando observo a construção histórica da mais relevante rodada de negociação que envolve a agricultura, a famosa Rodada Doha, que este ano completa seu sétimo aniversário. Atualmente, a rodada assumiu o posto deessencial, quando na verdade, deveria ser tratada como uma acidentalidade no curso do rio chamado “Agronegócio Brasileiro”. O mar, chamado mercado, está logo mais ali à frente, mas alguns desfiladeiros precisam ser enfrentados com requintes de elegância e supremacia empresarial. Atualmente, garimpamos o

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represamento como alternativa de acordo diplomático, envolvendo a tentativa de criação de pontes entre países emergentes e países desenvolvidos, na expectativade alocarmos mais euros e dólares para o mercado nacional, por meio da quebra dos subsídios agrícolas. “Quebrem os subsídios agrícolas, que quebramos o protecionismo à indústria nacional”: essa é a barganha em processo de design, que não é boa, em termos de acordo. Johan Galtung (professor e fundador do Instituto de Pesquisas da Paz, em Oslo) expõem muito bem que acordo é estratégia de pobre, que não tem capacidade de ver além do conflito nem tampouco o transcende. Enquanto o Brasil não transcende essa arena, insistindo em conferir valores acidentais à rodada, esquece-se do essencial investimento em inteligência comercial e na construção de uma marca internacional que conferirão a longevidade comercial anseada pelos milhões de membros que compõem o agronegócio nacional, os europeus transcendem liberando 1 bilhão de euros para investimentos no futuro grande concorrente brasileiro na área agrícola, o continente africano. E por que as cartas estão lançadas dessa maneira? Porque a segurança alimentar é essencial para eles. É uma essencialidade historicamente construída. A acidentalidade na seleção da origem para a aquisição de produtos de base alimentar não importa. Essencial é a disponibilidade da oferta para sustentar a dieta e uma política de preços compatíveis com a realidade deles. Em suma: o rio de lá chegará ao mar de qualquer forma. Com ou sem aquisição de produtos brasileiros. Não há temeridade em relação à África, quanto vislumbrante possível futuro celeiro de alimentos do mundo. A maioria dos famintos do planeta estão lá e uma agricultura pujante seria uma mudança magnífica em termos de restauração da dignidade humana daquelas pessoas devassadas pela pobreza absoluta, infernal. Contudo, é preciso olhar a agricultura nacional com os olhos do marketing e a dinâmica da estratégia, de forma puramente empresarial, em nível de governo brasileiro. O Brasil ainda não dispõe de uma marca capaz de conduzir um consumidor de qualquer parte do mundo a dizer: “quero made in Brazil”. Não somos sinônimos de nada, exceto à pecha de destruidores da Floresta Amazônica. Pessoalmente, acredito única e exclusivamente naquele diferencial competitivo frente às vantagens comparativas dos outros. O marketing de marca, conjugado com toda a excelência até então construída dentro da fronteira agrícola brasileira é o elemento de sedução que nos 128


falta. Em suma, a conquista do consumidor estrangeiro, que, no final das contas remunera o esforço do produtor nacional, com dólares, euros, yens, yuans, é o único caminho. Os desafios, inclusive orçamentários, são muitos, mas o mar está logo mais ali à frente.

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39 Do bairrismo ao drawback: um registro sobre uma mudança de paradigmas no coração da cafeicultura mineira Publicado em 21 de agostode 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

Amanhã, será lançado no município de Lavras, mais especificamente na Universidade Federal de Lavras, o plano de negócios do Pólo de Excelência do Café. Este projeto, desenvolvido numa ação bipartite entre as Secretarias de Agricultura, Pecuária e Abastecimento e a Ciência, Tecnologia e Inovação, prometem dinamizar o agronegócio café mineiro, colocando Minas Gerais numa posição de vanguarda e liderança ao longo de todos os elos que compõem esta cadeia produtiva no Estado, que já detém a liderança brasileira na exportação. Bom, mas este artigo não é exatamente sobre o Pólo de Excelência do Café. Mas sim sobre uma fala do atual gerente do Pólo de Excelência do Café, o engenheiro agrônomo Ednaldo José Abrahão, publicada hoje no caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas, que transcrevo a seguir: “De acordo com o gerente executivo do Pólo de Excelência do Café, Edinaldo José Abrahão, não basta a Minas liderar a produção de café, é preciso agregar valor ao produto utilizando a ciência, a tecnologia e a inovação. (...) No aspecto de agregação de valor, a formação de blends, que é a combinação de grãos de diferentes regiões produtoras é uma necessidade. “O mundo não toma café puro, por isso precisamos importar grãos de outras regiões produtoras para fazer o que a Alemanha faz”, argumentou o gerente executivo do pólo.” (Fonte: Café ganha Plano, Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas, 18 de agosto de 2008). Neste trecho supra, registra-se uma das maiores modificações de paradigma da política cafeeira mineira, pois ela é uma expressão de mudança profunda no coração da cultura da Emater-MG, no que tange ao

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café: a aceitação do drawback. Para quem vivenciou a política cafeeira mineira como tive oportunidade, isso é um salto importantíssimo, porque a Emater-MG, no seu braço da cafeicultura sempre foi contra até a produção de cafés blendados com robusta capixaba e rondoniense. A tese era do café 100% arábica, passando a largo da idéia da importação de cafés. E o drawback era o que faltava para que o agronegócio café se tornasse uma plataforma global de cafés que algo que defendi desde a primeira linha que escrevi sobre o agronegócio café. Finalmente: a tese da competitividade vence, devidamente chancelada pelo coração cafeicultor da Emater-MG, Ednaldo Abrahão, que no momento atua como gerente do Pólo de Excelência do Café, sediado na UFLA, que diga-se de passagem, sempre comungou com o discurso ematerista. É certo que muitos poderão dizer que um homem ou uma instituição podem mudar de idéia, mas tal declaração é um divisor de águas, que coloca a indústria de café na dianteira, com ou sem prejuízo a produção de café realizada dentro das fronteiras mineiras. Aos cafeicultores, sejam de pequeno, médio e grande porte, somente posso recomendar a certificação para manutenção dos seus negócios no médio prazo e desejar boa sorte na sua real inserção no mercado internacional.

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40 The attraction of the Brazilian coffee market Publicado em 25 de agostode 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

Since the 1970s, the Brazilian coffee market has been experiencing vigorous internationalization. The process was initiated by the German Melitta, the first foreign firm to enter the domestic market, followed by the purchase of the traditional União group by the American Sara Lee in the 1990s. In the meantime, the Italian Illycafe was spreading the espresso concept in a market used to trading percolator coffees with minimal concern for quality – which undoubtedly revolutionized the commercialization and distribution of coffees with high value added, as well as the way they were consumed: in doses. Still in the 1990s, Strauss-Elite (Israeli) and Segafredo Zanetti (Italian) acquired the Três Corações and Itambé brands, respectively (though the former was reacquired by the Brazilian Santa Clara soon after 2000). Finally, the last four year shave witnessed the arrival of the American Starbucks, the Italian Espressamente (which belongs to Illycafe), the Swiss Nespresso and the Italian Lavazza, which purchased Café Terra Brasil on the 21st of April of 2008. But why so much foreign interest in Brazil? The answer is essentially threefold: the economic growth of the country, the profile of its population growth and its tradition as a coffee consuming nation. With an estimated population of 186 million, an average birth rateof 21.2 per thousand in habitants, an average life expectancy of 68years (IBGE, 2008) and an estimated 4.8% growth rate for 2008 (Banco Central, 2008) – thus making it acceptable to project a growth of per capita income similar to that observed in 2007 (4%),as well as an expansion of per capita coffee consumption equal to74 liters (5.53 kg) – the Brazilian market has become an oasis,mainly with regard to consumption outside the home. In fact, for the food sector, Brazil is the fifth largest market in the world, and contrary to European markets, has sufficient elasticity to cope with the 132


rising demand. According to data from InterScience, approximately 36% of the Brazilian population consumes coffee outside the home. This information directly converges with the mode of internationalization adopted by the leading world enterprises, which generally limit their investments in Brazil to opening distribution channels for their own brands, mainly in the Center-South region. By adhering to this model to expand into the Brazilian market, the large international firms remain highly resilient, given the possibility of their processing beans from around the world at plants in their home countries and subsequently exporting the industrialized products to Brazil, where coffee of foreign origin is not yet subject to specific sanitary requirements. In addition, they need not assume the cost of installing plants in the country, for Brazil has neither technical or tax barriers to the importation of industrialized coffees. Taken together, these factors dramatically reduce the cost of gaining access to the domestic market. From the standpoint of Brazil, the drawback of the scheme refers to capital flight, considering that both the dollars derived from industrial value added and the possibility of creating new job posts remain abroad and not in Brazil. At any rate, it is evident is that the international brands compete with Brazilian brands for a consumer niche where the price of a cup of coffee is up to six times more than in other segments. Inaddition, the consumer is far from faithful, including to his wallet, when it comes to having an experience that joins pleasure, sophistication and gastronomic multiplicity. A classic example is therecent frenzy in SĂŁo Paulo for the Javanese Kopi Luwak: the “experienceâ€? involved drinking a cup of coffee processed in the intestinal tract of a cat native to the Island of Java (cost per cup: R$ 100). The product, held to be the rarest, the most exotic andthe most savory in the world of coffee, costs a trifling R$ 2 per kg. In contrast, the prices of domestic gourmet coffees range from R$ 20 to R$ 120 per kg. It is also clear that, if the Brazilian market is truly ready to absorb such novelties, the domestic coffee industry should reorganize so as to prepare itself to face strong competition financed at extremely low international interest rates; for despite the fact that the 20 largest plants in the country now process over 65% of the coffee sold on the domestic market, the profile of the sector still greatly depends on small and medium-sized plants. The certification programs currently in operation in the country, with their emphasis on quality and sustainability, indicate that the sector is indeed 133


adapting to the new environment, chiefly by making efforts to reshape the domestic consumer culture. In this sense, although coffee continues to be a simple luxury, it should be capable – as Voltaire might have said – of creating great passions, to the point of the consumer regarding it as more delightful than athousand kisses.

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41 Quando o santo de casa pode fazer milagre Publicado em 15 de outubro de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

Embora a expansão do consumo fora do lar venha crescendo em todo o mundo, nunca aquele consumo feito na cozinha de casa, no caso brasileiro, foi economicamente tão importante. Há uma crise mundial lá fora, que compromete veementemente a oferta de crédito em nível internacional, gerando como conseqüência direta, a falta de capital de giro, fundamental para o bom funcionamento de qualquer tipo de empreendimento, especialmente ligado à sistemas agroindustriais. Contudo, no Brasil, o café é produto de cesta básica e faz parte do hábito alimentar de 96% da população nacional, fazendo do nosso país o segundo maior mercado consumidor per capita do mundo. Isso implica na descoberta de um monte de coisas boas, ainda que em momentos de turbulência. Vamos ao gráfico.

(milhões de sacas)

Evolução do Consumo Interno de Café no Brasil

Ano - período: novembro - outubro

Fonte: ABIC, 2008

Por meio da análise do gráfico “Evolução do Consumo Interno de Café no Brasil”, é possível verificar que mesmo em momentos de crises

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internacionais graves (indicadas com a seta azul), como as que ocorreram em 1994 (Crise do México), 1997 (Crise da Ásia), 1998 (Crise Russa) e 2000 (Crise Argentina), o consumo per capita de café no Brasil não caiu, mesmo sem a ausência de investimentos em marketing institucional sobre o produto no referido período. Pessoalmente, não considero que haja uma crise idêntica à crise de 1929, que historicamente, representa um trauma profundo na história da cafeicultura brasileira. O cenário é outro e atualmente, dispõe-se em mãos de um lastro chamado de mercado interno. Não haverá queima de café e muito menos quebra de bolsa, mesmo porque temos atualmente a BMF/Bovespa que é a 5ª bolsa de mercadorias do mundo e não estamos mais vivendo em 1933. O desaquecimento que ora é percebido é decorrente da retração da ação dos investidores: todos estão com medo, mas é preciso ter confiança, porque o problema da cafeicultura brasileira não é recente. Há muito o setor está imerso em dívidas, mas pessoalmente acredito em vendas como mecanismo de sustentação de uma parte significativa do setor no mercado nacional. E ante a instabilidade, torna-se “normal” a volta da aposta na estocagem do produto e a apreensão dos produtores, criando um problema de acesso à matéria-prima também para o mercado interno. Fora a estocagem, que revela uma estratégia defensiva, há a possibilidade do segmento também lidar com a questão da redução da produção para a safra 2008/2009. Essa retração, esperada inclusive em âmbito mundial, conforme anunciado pela Organização Internacional do Café na última semana, é decorrente de uma combinação de fatores de longo prazo, como por exemplo, a relação escassez de oferta de fertilizantes e a instabilidade do câmbio, que se tornou mais intensa com efeitos radioativos da crise norte-americana, que acabou impactando negativamente sobre praticamente todas as economias mundiais. Contudo, o cenário acena para esse tradicional segmento produtivo nacional, a importância quanto à fundamentação de lastro de consumo no mercado interno, como estratégia de sobrevivência frente à turbulências internacionais. Seria importante, que além do adiantamento da liberação dos recursos do Funcafé, os leilões da CONAB fossem intensificados, de modo a favorecer o escoamento inclusive de uma parte do café para exportação, no mercado nacional. Evidentemente, cairiam os preços do produto nas gôndolas dos supermercados, mas o subsídio estatal é fundamen136


tal nessas horas, para garantir um mínimo de capital de giro ao setor, conferindo-lhe, assim, fôlego. Funciona bem no caso do frango, pode funcionar também no caso do café. Evidentemente, que tal sugestão depende de análise individual em cada planta industrial, pois a analista aqui, desconhece a planilha de custos de todas as 1240 torrefações brasileiras, 08 indústrias de solubilização e 2.500 casas de café que existem no país. Mas o que se pretende aqui é demonstrar que a estratégia da “força tarefa” pode funcionar bem e aliviar os impactos da crise pelo menos um pouquinho, intensificando a ação das forças de vendas de cada tipo de processador atualmente sediado no país e quem sabe, ampliando o investimento em marketing institucional e individual sobre o café e marcas respectivamente. Marketing em momentos de crise sempre é uma boa salvaguarda, desde que planejado sabiamente. Esse fator, o marketing, tem um papel crucial no comportamento de consumo. Há realmente uma necessidade de se investir em marketing junto ao mercado interno, mas sem bailarina e adaptação de tico-tico no fubá, no “ritmo do Brasil”. É preciso comunicação direta, falando com a dona de casa, sem muita sofisticação, mas com um som que não saia da cabeça. Embora o setor queira se sofisticar é preciso ter em mente que quem toma café em volume no Brasil são as classes C/D/E, que têm na bebida uma parte estratégica da sua alimentação e que não vêem na bebida um supérfluo. Dos 17 milhões de sacas processadas e comercializadas no Brasil, somente 3 milhões são consumidas pelas classes A/B. Para o consumo de 15 milhões de sacas, pasmém, não há necessidade de máquinas de espresso, nem certificação, nem de glamour: basta carinho, sentimento de amizade, uma colher, um coador e uma garrafa térmica para receber o símbolo do Brasil na sua forma fluída e aromática, persuadindo em seguida inúmeros paladares, com o selo da amizade, da receptividade, que são características tão brasileiras. No caso do mercado externo, o segmento realmente terá de aguardar até que o câmbio se estabilize e volte a converter o Brasil numa boa praça para negociação global. Até lá, vender em reais é uma alternativa importante, pelo menos em partes, porque a exportação tem características distintas em termos de negociação. Contudo, deve-se observar que a idéia de desenvolver o national brand do café brasileiro torna-se cada vez mais veemente. 137


42 Água, o alicerce da cafeicultura Publicado em 29 de outubro de 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

Há relação entre ursos polares em processo de extinção e a água usada para cultivar, lavar o coco ou descascar a fruta, resfriar o café no torrador com vapor, e no preparo do cafezinho, espresso ou qualquer bebida a base de café? Ao que parece sim e muito. Ante a mais longa estiagem já vista em todo território nacional, castigando as veredas brasileiras com períodos superiores a 60 dias sem precipitações, eis que os agentes da cadeia agroindustrial do café deparam-se com o seu mais importante desafio: a adequação do seus modos de produção ao crescimento da demanda em relação à oferta da cada vez mais escassa de água doce. O Brasil, em pouco mais de 17 anos, consolidou-se como a fronteira da qualidade: houve o boom dos cafés especiais, os baristas surgiram e até a Starbucks (rede americana de cafeterias) acabou chegando aqui. A música “qualidade”é uníssona e tem se desdobrado em programas de certificação, comoo recém-implantado Código Comumpara a Comunidade Cafeeira(4C), que está chegando no Brasil, digamos, a toque de caixa. Todos falam de sustentabilidade, os programas de certificação têm na sustentabilidade seu mais forte princípio, contudo, a água, que é a chave de tudo, só aparece na pauta quando a seca sobre as lavouras cafeeiras brasileiras causa frisson na Bolsa de Nova York (ICE USA). Falar sobre escassez de água, requera revisão de conceitos dos quais o mercado brasileiro não está disposto a abrir mão. Como por exemplo, parar de produzir café para se especializar em produção de água. Daqui a pouco a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) criará um contrato para a água, a exemplo do que já vem criando para os créditos de carbono. Em breve, se continuarmos como estamos, ela será mais valiosa do que o

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petróleo ou o etanol. Com bases contratuais, nos obrigamos à eficiência, em razão do custo do desperdício. Neste verão, o Ártico, pela primeira vez na sua história, foi “brindado” por temperaturas que bateram a casa de 22 graus positivos. As projeções indicam que, até 2060, não exista mais gelo sobre o Oceano Ártico, e a elevação do nível do mar deixe de ser medida em milímetros, como é comumente feito, para ser em metros. Na China, especialistas já apontam um colapso de falta d’água para daqui a menos de cinco anos, obrigando parte da população a consumir água de reuso tratada, proveniente de esgotos. No caso do café, o impacto do aquecimento global e da falta de água podem ser sentidos no curto prazo. A falta de chuvas durante o período da florada e firmamento dos “chumbinhos”, causou uma modificação do comportamento de investidores na ICE USA, criando uma nova perspectivapara o chamado “Mercado de Clima”. Para quem acompanha as cotações de perto, pôde perceber que a volatilidade foi mais intensa agora durante o período de seca que assola as lavouras cafeeiras brasileiras, do que no período tradicional de inverno, quando as possibilidades de geada criavam cenários altistas extramente remotos (safra 2006/2007). O déficit hídrico computado pela Fundação Procafé, situada em Varginha foi de 511,5mm (dados relativos a setembro, mensuração no solo – Estação Experimental em Varginha), considerada uma marca recorde. Observa-se que mesmo os economistas e analistas de mercado estão tendo de rever os seus conceitos fundamentalistas, porque o ambiente mudou e tem tudo para se agravar no campo ao longo dos anos. Se faltar água, nem irrigação será possível, apesar dos investimentos da Embrapa no desenvolvimento de variedades climaticamente adaptadas a regiões tradicionalmente fundadas sobre históricos de déficits hídricos severos. Com a seca, as estatísticas de elevação de consumo no Brasil podem naufragar por uma única razão: o câmbio. Infelizmente nessas horas, o fator ambiental não pesa tanto: o negócio são as planilhas financeiras mesmo, o bolso. E a falta de água nesse sentido, só agrava a questão, comprimindo a oferta ante a crescente demanda mundial de café. No fim, quem dará as cartas será o mercado comprador, que terá de fazer esforços adicionais para satisfazer seus consumidores tradicionais. Estamos a caminho da liderança mundial, com meta 139


estabelecida, segundo os entendidos no assunto, para 2010. Veremos se São Pedro, o mercado internacional, a Fazenda e o Banco Central deixam... A meta é boa, mas quando se fala de estratégia, algumas variáveis incontroláveis podem surpreender e frustrar a emoção dos torcedores.

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43 Cafeicultura: há idéias melhores que a moratória Publicado em 03 de novembro de 2008 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

Não é possível estabelecer uma crítica à postura dos Sindicatos de Minas Gerais que anunciaram ontem, a moratória de suas dívidas. Este grupo representa o elo fraco do agronegócio café, que por paixão, insiste em manter-se na atividade, ainda que assumindo para si, a realidade da inviabilidade financeira. Infelizmente, a cafeicultura brasileira não se profissionalizou tanto assim, a fim de melhor aproveitar as benesses do Novo Código Civil, como a recuperação judicial, mas eu acredito que toda a crise nos obriga à mudança para melhor. É uma regra da vida: somente são diamantes aqueles pedaços de carvão que resistiram à forte pressão impostas pelas placas tectônicas que formam nosso planeta. A cafeicultura está na UTI há muito tempo. A crise americana somente a acentuou. Por isso mesmo, a idéia da moratória é completamente arriscada, por implicar no futuro próximo, no comprometimento da reputação do setor. A razão é simples: além das instituições bancárias que repassam os recursos liberados pelo Governo Federal, quem financia a produção são as empresas de insumos e defensivos agrícolas, que negociam CPR com os produtores. Moratória, portanto, não é a melhor solução, porque este ato atinge de morte a reputação do setor, de forma muito grave. Se houver moratória agora, ano que vem as coisas tentem a se complicar, com a total retração do crédito, oriunda do clima de desconfiança instalado. Quem não confia, não empresta e não vende a prazo. É preciso lançar mão de estratégias de negociação, mesmo que isso envolva entrega de produto agora como garantia real do negócio. No curtíssimo prazo, com a retração de recursos financeiros especialmente de terceiros, não dá para fazer muita

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coisa, exceto esperar e negociar a dívida com sabedoria. Como disse recentemente o presidente francês que também é presidente da União Européia, Nicolas Sarkozy, há algo pior do que a crise econômica: o aquecimento global. O primeiro é reversível, o segundo não. Embora eu desconheça o teor da Agenda Estratégica da Cafeicultura, chancelado no último dia 30 de outubro pelo CDPC, sem consulta pública, gostaria de oferecer algumas idéias para minimizar nos próximos 24 meses os efeitos da crise econômica que o mundo todo atualmente atravessa que gera no momento, uma acentuação do cenário pessimista do agronegócio. Ao mesmo tempo, as idéias se tratam de proposições positivas e inovativas, que podem conduzir o agronegócio café brasileiro a um novo patamar. 1. Safra Zero subsidiada. – Como 2009 será um ano de baixa bienalidade, o governo brasileiro poderia subsidiar até 50% das lavouras cafeeiras brasileiras, que adotarem sistema de podas severas este ano, visando a redução de custos e ao mesmo tempo,retração da oferta de café no mercado. 2. Incubação gerencial de propriedades cafeeiras de pequeno e médio porte - Em parceria com o SEBRAE, SENAI, cursos de administração e governos federal e estadual, promover a incubação das propriedades cafeeiras de pequeno e médio porte, para que estas atinjam a excelência na gestão de seus custos, num prazo de cinco anos. 3. Vinculação da liberação de financiamento oriundos do FUNCAFÉ para o setor à apresentação de um plano de negócios, com prestação de contas trimestrais às instituições financeiras. O planejamento é a alma de qualquer negócio e sempre oferece âncoras para os piores momentos de crise. Por meio da obrigatoriedade junto ao agente financeiro, seria uma questão de tempo até que todos os cafeicultores que buscam financiamento, conhecerem a fundo sua planilha de custos. Ao mesmo tempo, haveria um incremento vasto na sabedoria dos tomadores de decisão das propriedades rurais. 4. Programa de estímulo à indústria para modificação do sistema de compra de café, em nível nacional – promover a integração das indústrias com os produtores, para que estas corroborem com a

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aquisição antecipada da produção do café, nos moldes que já são utilizados nas indústrias do fumo, avicultura e suinocultura. 5. Certificação, certificação, certificação. As outras medidas que já vem sendo tomadas como a formação de estoques reguladores (procedimento que nunca deveria ter acabado, por se tratar uma regra de garantia para a segurança alimentar), assim como as liberações de recursos para financiamento são formas de minimização dos impactos da crise no curto prazo, mas também precisam ser readequadas ao novo ambiente global, por se tratarem de estratégias antigas, que a cada ano, perdem sua vitalidade.

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44 País tem suporte e resistência Publicado em 03 de novembro de 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

Em meio a qualquer crise, todo mundo opina tentando compreender o que aconteceu, pois o raciocínio conjugado à prática corrobora para a alavancagem necessária para a superação da fase aguda de um tipo de sismo que sempre anuncia o desmoronamento do sistema capitalista. Mais uma vez, infelizmente, o mundo depara-se com os ‘tremores’ que colocam em xeque a compreensão sobre tal sistema econômico: a crise americana, epicentro do atual abalo econômico global. A metáfora com o terremoto tem lá seus motivos: na natureza, os abalos sísmicos, mensurados pela Escala Richter, têm um papel importante na movimentação das placas tectônicas, permitindo o surgimento, por exemplo, de novos relevos na crosta terrestre, como novas cadeias de montanhas. Considerando Wall Street o epicentro do atual sismo econômico que assola o mundo e ao mesmo tempo expõe as mazelas da economia americana, torna-se possível perguntar se tal decadência permitirá a emersão de novas lideranças econômicas globais, oriundas do bloco dos chamados emergentes. O Brasil teria em meio a tal sismo, a sua grande chance de se firmar como economia de primeiro quilate? Essa pergunta é inquietante, mas é certo que ao longo de toda a história, nunca o país esteve em condições tão favoráveis para consolidar sua posição em meio a uma crise do tamanho da que está acontecendo. Pode ser até um excesso de otimismo, mas nas crises anteriores o país ainda não dispunha de reservas petrolíferas como as que foram recentemente descobertas, capazes de gerar divisas de grande vulto. Ao mesmo tempo, a participação do agronegócio no mercado internacional não era tão intensa como o é agora, especialmente em mercados como a China e a Rússia ou ainda a União Européia, que vez ou outra nos sanciona. Sem dúvida, há uma escassez de crédito no mercado interno, reflexo do que 144


ocorre em todo o mercado internacional, o que pode comprometer a curto prazo o desempenho das empresas nacionais. Será que este não se trata do primeiro grande teste da nossa economia em um contexto que pode vir a se tornar favorável para o país? Vejamos o cenário: recessão americana atingindo o mercado europeu e parte do mercado asiático, assinalando a retração de crédito e consequentemente, criando campo para impactos futuros próximos sobre a oferta global de alimentos. Rodada de Doha enfraquecida, mas em suave processo de retomada. Ao mesmo tempo, retração da oferta de petróleo em nível global, combinada com a pressão imposta pela própria natureza, por meio do aquecimento global. Brasil pela primeira vez atravessando uma crise sem realização de empréstimos junto ao Fundo Monetário Internacional e com alinhamento político favorável junto aos países do chamado G-77. Como genuína brasileira, acredito que ante tal cenário, temos suporte para agüentar condições de acirramento do ambiente de mercado. É preciso que o governo, após garantir a estabilidade na fase aguda da crise, com as oscilações malucas da fuga de capital e das cotações do dólar, utilize o ambiente para acertar acordos bilaterais com o máximo de nações que puder. Essa praxe de comércio independe do sucesso de acordos multilaterais, como o caso da Rodada de Doha, que depende de um ajuste mais intenso entre interesses nacionais. Questões de investimento de médio e longo prazo à parte, tal crise abre precedente importante para o Congresso brasileiro finalizar a reforma tributária para favorecer a competitividade de nossas empresas, ato que depende exclusivamente de vontade política. Ao mesmo tempo, é necessário reverter tal captação tributária em favor do incremento das condições de vida dos cidadãos que aqui residem, otimizando o consumo e ao mesmo tempo o acesso a serviços essenciais (saúde, educação, estradas),com nível de qualidade de vida mais alto. Já está passando da hora do Brasil ser tratado com a responsabilidade necessária, porque ele, assim como nós, está pedindo para crescer de forma estruturada. Basta apostar na eficiência na gestão pública, na transparência, no bem-estar do povo, na ética, para que somente as coisas boas comecem a acontecer. É preciso observar com carinho o caso dos Emirados Árabes, um dos grandes produtores de petróleo mundial, que já está preparando sua economia para um futuro próximo, onde o ouro negro não mais fará parte de 145


sua pauta de exportações. É preciso apreciar o cuidado da Índia, no quesito formação de pessoas ao longo dos últimos anos, que hoje a converte numa das nações do Bric que mais crescem. O Brasil também pode, porque tem praticamente 1/3 de toda a água doce do planeta, tem milhões de hectares para agriculturar, sem comprometer a Floresta Amazônica, além de ter um povo vibrante e brilhante, que faz toda a diferença, sempre.

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45 Mama África, fonte de alimentos Publicado em 08 de dezembro de 2008 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

Johan Galtung, Prêmio Nobel da Paz e experiente mediador, tem um trabalho valoroso voltado à transcendência e à transformação de conflitos em paz, no sistema ganha-ganha. Os conflitos, segundo o autor, são profundamente sérios para todos os envolvidos, não importando o tamanho deles. Neste sentido, a questão da segurança alimentar apresenta-se como um tema relevante, uma vez que, o desequilíbrio nesse campo, coloca em xeque não apenas a estabilidade dos países, mas também os destinos da própria humanidade. A temática escassez de alimentos colocou o mundo em polvorosa desde o início deste ano com a explosão da produção de biocombustíveis à base de milho, que elevou os preços dos alimentos e ganhou contornos mais intensos, com a desestruturação da economia americana, que imediatamente, gerou um efeito cascata. Tal situação é agravada pela evolução gradativa do aquecimento global. Na busca da mitigação do problema eminente do desabastecimento das mesas de suas populações, algumas nações têm enxergado na África uma opção para incremento da produção mundial de alimentos. Mas de qual África tanto se fala? Um continente tão plural, inquieto e íngreme seria capaz de oferecer tais respostas ao planeta e ao mesmo tempo, resguardar a sua própria população, com oferta de desenvolvimento e minimização das disparidades sociais? Talvez não o seu todo, mas uma parte do seu coração, situada na chamada faixa Subsahariana. Essa região é formada, de acordo com o Banco Mundial (2008) por 47 países, entre eles Mauritânia, Cabo Verde, Senegal, Guiné Bissau, Serra Leoa, Costa do Marfim, Gana, Burkina, Nigéria, Congo, São Tomé e Príncipe, Gabão, Sudão, Ethiópia, Somália, Uganda, Quênia, Angola, Zimbá-

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bue, Namíbia, Malaui, Botswana, África do Sul, Moçambique e Madagascar. Esses países, com características semelhantes à da região do cerrado brasileiro, já têm recebido grandes volumes de recursos internacionais, por meio da privatização de suas terras. Países como a China tem estimulado seus empreendedores a promoverem inversões no continente africano para garantir alimentos exclusivamente ao povo chinês, em franca expansão demográfica. Ao mesmo tempo, a União Européia neste mesmo ano anunciou investimento de 1 bilhão de euros, para projetos ligados à agricultura naquela região. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), dos 850 milhões de pessoas com desnutrição crônica, 200 milhões vivem na África Subsahariana, sendo que destes, cerca de 50% vivem com menos de US$ 1 por dia. Isso significa que o mero interesse na realização de inversões nos países que compõem a região pode não ser suficiente para mitigar a pobreza. Pelo contrário, podem intensificar as diferenças. Nesse sentido, há um trabalho interessante desenvolvido há algum tempo pela Aliança Internacional de Cooperativas, na tentativa de promover a interação entre as pessoas das comunidades, a fim de que elas alavanquem processos de crescimento sustentado por meio da prática do cooperativismo. Evidentemente que a sustentabilidade é uma palavra de ordem neste ambiente, marcado por séculos de exploração, guerras, sangue. Muito sangue. Para uma análise suave em torno do tema competitividade, é possível a apropriação do olhar do indiano Pankaj Ghemawat, da Harvard Business School. Ele afirma que aproximidade cultural, oriunda de uma relação colônia e metrópole, pode incrementar o comércio internacional entre as nações envolvidas em até 300%. Evidentemente que tal proximidade abre espaço para a construção de um marketing de produto atrativo aos olhos dos consumidores dos países desenvolvidos, que são os produtos exóticos. O fairtrade vem depois. Um bom exemplo é o caso do Jacu Coffee, café processado pelo animal e reprocessado pelos humanos que fazem bom uso da combinação demanda de mercado e senso de oportunidade. Por outro lado, pode-se incorporar ao léxico competitivo, o argumento consolidado do Departamento Americano de Agricultura (Usda), em torno dos fatores que contribuem para elevação dos preços dos alimentos. Entre os principais motivos, estão o crescimento da população, a expansão econômica (desconsiderando-se a atual crise) e o incremento do consumo 148


per capita de alimentos. Além disso, a Usda cita como fatores a retração da produção global de alimentos, a disparada dos preços do petróleo, o crescimento do mercado de biocombustíveis, o declínio dos estoques constantes de alimentos, a desvalorização do dólar, as políticas globais de exportação, as adversidades climáticas, os custos de produção dos produtores, como os demais fatores que podem colaborar para a escassez de alimentos. A combinação dessas duas perspectivas – comércio internacional e variáveis mercadológicas – acaba por redundar num tema fundamental que é a finalização da Rodada de Doha, que, desde a última reunião do G-20, realizada em Washington, tornou-se a pérola rara, fundamental para consolidar a jóia da segurança alimentar. Sem isso, Johan Galtung certamente terá muito trabalho, porque a fome é um desafio historicamente consolidado e letal para qualquer nação, rica ou pobre. Em decorrência dela, que coloca em xeque as necessidades mais básicas do homem, a civilidade perece. E o conflito não é bom, à medida que rouba a beleza da vida. Então, a agricultura é uma senhora valorosa que não pode de modo algum, ser relegada às estatísticas. Já dizia Abraham Lincolm: que perecessem as cidades, mas não que não perecessem os campos, pois as cidades ressurgiriam daqueles. Que os países que compõem a África Subsahariana se convertam em grandes parceiros para os países latino-americanos e especialmente o Brasil, para a construção de um mundo melhor.

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46 Algumas coisas sobre importação de café no Brasil Publicado em 11 de fevereiro de 2009 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

Há uma comunidade no Orkut da qual participo, a “O Barista”. Porventura acessando-a hoje, 06 de fevereiro de 2009, percebi que havia uma efervescente discussão sobre a degustação de cafés africanos que está sendo organizada pela renomada barista Isabela Raposeiras, para um grupo seleto de pessoas. A peculiar discussão que lá ocorria, levou-me a produzir a presente reflexão, pautada em uma das minhas especialidades, a construção da competitividade industrial internacional no âmago do agronegócio café brasileiro. É preciso expor que há muito tempo a indústria de café brasileira tem dado um jeitinho para fazer com que a importação de cafés se torne uma realidade no país. Para quem pelo menos leu o Jornal do Café, fica muito fácil voltar um pouco ao início da década em que vivemos, para rememorar a assinatura do Protocolo ABIC e Pão de Açúcar, que iniciou o bem-sucedido projeto na área de cafés desta importante rede varejista nacional, o Pacafés. Além do referido projeto inovar na área de cafés especiais, ele também introduziu a importação de grãos de forma muito mais intensiva. Lembro-me de uma visita à rede acompanhada do diretor de Relações Institucionais do Pão de Açúcar e da consultora do projeto, Eliana Relvas, a algumas lojas de café da rede. A presença de cafés de algumas partes do mundo chamou-me a atenção já naquela época, por acenar a presença de uma prova real de uma mudança de paradigma no agronegócio. Acompanho a estatística de importação de cafés torrados todos os anos e de lá para cá, as altas atingiram um volume de 7,48% ao ano em termos de crescimento, calculada a média aritmética simples. Evidentemente que tais números são otimizados por um câmbio favorável e um merca-

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do consumidor mais receptivo, como se pode observar nos dados alusivos à 2007 e 2008, onde a relação entre o importado total em 2007 e o importado total em 2008, atingiu uma alta de 30,83%, conforme pode-se observar na tabela “Importação Brasileira de Café Industrializado – Mundo – 1996 -2008” abaixo. Importação brasileira de café industrializado – Mundo – 1996 - 2008 Total Ano

em US$

1996

290.510

Total Peso líq. Kg 78.519

Não Evolução

Descafeinado

anual em %

Descafeinado

Peso US$

líq.

Peso US$

Kg —

176.730

60.905

Solúvel

líq.

Peso US$

líq.

112.917

17.563

Kg 863

51

Kg

1997

821.915

81.680

3,9%

646.280

59.685

9.500

692

166.045

21.303

1998

1.080.444

105.740

22,75%

860.965

70.905

25.709

1.532

193.770

33.303

1999

1.276.048

95.561

-10,65%

1.227.134

92.470

48.508

2.951

406

140

2000

1.407.252

108.812

12,17%

1.327.989

101.767

58.989

5.176

20.274

1.869

2001

1.637.945

121.175

10,20%

1.533.285

111.120

90.962

6.943

13.698

3.112

2002

1.639.964

140.931

14,01%

1.536.530

123.942

69.167

5.669

34.267

11.320

2003

926.128

129.162

-9,11%

822.175

92.582

80.235

9.468

23.718

27.112

2004

1.114.197

115.239

-12,00%

1.013.431

103.385

75.284

7.972

25.482

3.882

2005

1.077.990

96.685

-19,31%

978.272

83.815

60.422

4.570

39.296

8.200

2006

1.471.598

128.016

24,55%

1.324.193

116.609

76.774

5.785

70.631

5.622

2007

2.221.843

175.180

26.92%

1.972.539

155.150

133.989

10.899

160.315

9.131

2008

7.754.494

253.279

30,83%

6.872.202

230.658

789.226

14.052

93.066

8.569

*com base no Sistema Alice Web do MDIC

Se a marca Illycafé foi a pioneira em meados dos anos 1990, ela, atualmente, passou a ser apenas mais uma das marcas estrangeiras a povoarem as gôndolas das lojas do varejo em bairros de luxo situadas nas principais capitais do país. Deve-se citar ainda, o famoso trabalho realizado pelo Centro de Inteligência do Café, que promoveu um estudo sobre a temática, discorrendo sobre os prós e contras da importação. Recentemente, este ganhou um reforço, com os estudos mensais sobre os concorrentes brasileiros, divulgados mensalmente pelo Governo Mineiro, estado que ainda é o maior produtor de cafés do país. A finalidade, ao que parece,é preparar o país em relação à concorrência global, que parece gradativamente irreversível, conforme é percebido na tabela acima.

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Outro fato importante para tal arquitetura, diz respeito à chegada da Starbucks no país. A rede ao desembarcar por aqui, incrementou o coro industrial sobre a necessidade de abrir fronteiras para a importação de cafés de todo o mundo, de forma que a agregação de valor pela industrialização se desse por aqui mesmo. O mesmo vale para a marca Nespresso. Esse coro ampliou-se durante um jantar em Roma realizado no final do ano passado, onde o presidente da IllyCafè, Andrea Illy expôs tal temática ao próprio presidente da República brasileiro, Luís Inácio Lula da Silva. Atualmente, as malas dos baristas ao que parece, tem sido o último recurso, para pressionar o Governo, utilizando, sabiamente, o paladar do consumidor. Já diziam as nossas avós que “marido bom, se prende pelo estômago”. É bem verdade que as notas da importação de cafés são suaves, até mesmo amendoadas e aveludadas, quando se trata da valorização da pluralidade que converge com a diversidade que nos faz um povo único. Contudo, os interesses do país se sobrepõem aos interesses individuais. Eu aprendi isso vivendo a cafeicultura. O indivíduo nunca tem razão, nem tampouco a verdade, tem vazão frente aos interesses do Estado, que é atemporal, imortal. Então, a importação vista institucionalmente, sem um aparato legal compatível, torna-se um risco aos interesses públicos. E é sobre este aspecto que gostaria de chamar a atenção aqui: a necessidade do aparato legal. Inicialmente, é preciso compreender qual é o interesse do Estado neste campo? Considerando-o como um sítio do conservadorismo, com tempos de execução muito peculiares, percebe-se que a questão centra-se apenas sobre os alicerces da vontade política. Afirmo que a questão é política porque há vários estudos já realizados comprovando que economicamente, o café industrializado comercializado no mercado internacional é mais rentável para o país, aumentando o seu desempenho em termos de balança comercial. Chega a ser até 20 vezes mais vantajoso para as divisas nacionais. Desta maneira, resta dizer que para que o país se converta numa real plataforma competitiva em cafés, a exemplo do modelo alemão, será necessário fazer algumas opções estratégicas no âmbito político. Neste sentido, a condição sine qua non é a construção de marcos regulatórios, que acenem para os brasileiros e para o mundo, que o Brasil é por natureza um Estado de Direito. Portanto, nada de malas funcionando como mini-conteineres para a promoção de comércio internacional de cafés estrangeiros em território nacional, especialmente quando se tratar de cafés crus. 152


Um marco regulatório excelente para tal campo envolve visão regional e permeia relações diplomáticas. Isso implica, por exemplo, na retomada de esforço diplomático na construção de acordos bilaterais e quiçá multilaterais entre países que compõem, por exemplo, a Organização dos Estados Americanos, a ALADI e o MERCOSUL. Este processo fomenta a construção de acordos sanitários e tarifários de forma mais consistente, de modo que o acesso dos grãos estrangeiros em território nacional dê-se de forma legalmente adequada e numa linha do tempo, que fomente o equilíbrio de energias entre produtores nacionais e externos. Seria como criar uma Área de Livre Comércio para Cafés, usando como primeiro parâmetro, a própria América Latina. A proximidade geográfica, sem dúvida, pode-se prestar como importante oportunidade experiencial em termos técnicos e científicos, já que o acesso de cafés estrangeiros em território nacional pressupõe pelo menos, harmonização das normas sanitárias. Concomitante a tal passo, está o estabelecimento de sistemas de proteção para os empreendedores do mercado interno, em momentos em que o ambiente internacional esteja mais competitivo que o nacional. Na União Européia e mais especificamente na França, tal condição faz parte do jogo de valorização dos empreendimentos nacionais, que geram empregos e renda dentro do território. Uma mera liberalização de fronteiras no caso da cafeicultura brasileira, despida deste tipo de sensibilidade, pode conduzir a uma bancarrota mercadológica equivalente ao que ocorreu no país, nos anos 1990, ante a liberalização do mercado ao acesso estrangeiro. E na cafeicultura, de modo geral, o Brasil tem muito mais a perder do que a ganhar. Esse aspecto envolve, por exemplo, sanções para o acesso à mercado, por meio da construção de barreiras técnicas. Evidentemente, que tais barreiras poderiam pressupor a obrigatoriedade das marcas e grãos in natura estrangeiros a deterem um certificado de qualidade nacional. Embora eu e a Associação Brasileira da Indústria de Café tenhamos passado por um doloroso e traumático processo de divórcio, gosto de pensar na idéia de que o Programa de Qualidade do Café pode ser esta resposta para obrigar o mercado internacional que pretende aportar por aqui, a se adequar a uma norma privada nacional, valorizando o princípio diplomático da reciprocidade. Não dá para ser hipócrita frente a algo tão bom. É um programa maduro, genuinamente nacional e que tem condições para se tornar um 153


mini Eurepgap do Café Industrializado no Brasil. Não foi a toa que por exemplo, enquanto estava redigindo a legislação mineira para aquisição de cafés industrializados pelo Poder Executivo, que o programa foi incorporado de pronto ao aparato legal oficial. Sou da linha que é preciso premiar a prata da casa, a inteligência nacional, para se almejar qualquer tipo de desenvolvimento que mantenha princípios cívicos e priorizem os interesses nacionais. Logo, é possível verificar que se a vontade política não convergir com a vontade econômica, abre-se espaço para a ilegalidade, fazendo com que um simples hábito de consumo de uma xícara de café importado por aqui, possa se configurar num ato de lesa-pátria. O que não é legal, não é moral, mas sim uma prática socialmente tolerável, invisível aos olhos do Estado. Pessoalmente, acredito que o Brasil não precisa de mais exemplos, ainda que mínimos, de ingerência estatal, fundados sobre o tamanho e a morosidade da máquina. O que eu quero dizer com tudo isso é que se o padrão de consumo está mudando por meio da evolução do nível de exigência sensorial no mercado interno, se há uma possibilidade real de incremento dos negócios industriais nacionais no mercado internacional com a prerrogativa de providenciar qualquer mescla de grãos, o marco regulatório é a última fronteira a ser conquistada, pois o Estado é o único que não pode dormir em berço esplêndido: ele responde pela defesa de interesses coletivos, como disse. A regulação, portanto, é uma apólice de seguro valiosíssima.

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47 O que a Le Creseut pode ensinar ao negócio do café brasileiro Publicado em 19 de março de 2009 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

Tradicional marca francesa voltada ao sofisticado segmento de alta gastronomia, com amplo reconhecimento global, as panelas Le Creseut, confeccionadas a partir de ferro fundido esmaltado, sugiram em 1925 na pequena cidade de Franois-Le-Grand, situada a duas horas de Paris. As panelas que atualmente são exportadas para cerca de 70 países e cujo faturamento atinge cifras superiores à € 200 milhões ao ano, tem parte da sua matéria-prima, o ferro, importado do Brasil. Qualquer similaridade desta panela que pode custar o equivalente ao preço de uma geladeira sofisticada com o café in natura brasileiro, não é uma mera coincidência. Ao iniciarmos esta reflexão, torna-se capital assinalar que a atividade empresarial embora independente, depende de certas linhas estratégicas estabelecidas em nível de Estado. A empresa detentora da marca Le Creseut assinala, por exemplo, que parte do grande faturamento obtido por ela, é decorrente do Made in France, fruto de ação estratégica internacional da França. Comparando esta situação com o agronegócio café no Brasil, fica evidente que são os problemas seculares que o setor carrega que o conduzem a um patamar de disputa de energias. Após a elaboração da Agenda Estratégica do Café, certas ações não deveriam acontecer. Infelizmente, no meu ponto de vista, a Marcha do Café só acenou a incapacidade do Conselho Deliberativo de Política Cafeeira em resolver de forma cabal o problema do setor, aproveitando a proximidade com o Governo Federal. Questões fundamentais como a elaboração de uma ação de marketing que se revertesse em aumento da participação de mercado do café brasileiro com origem reconhecida não acontecem na envergadura em que

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deveriam, porque a confusão é a principal patrocinadora da commodity sem rosto, que faz a alegria das grandes torrefações internacionais. Até quando este será o retrato setorial? Um setor que não é lembrado na pauta brasileira para a Rodada de Doha, deveria repensar a sua relevância para o país. Na verdade, o agronegócio café vive de história e está perdendo espaço para setores como o do Etanol, que tem um setor que age de forma articulada e empresarial, com visão global, com um amplo compromisso com a sobrevivência da humanidade. Enquanto eles estão reunidos com o herdeiro do trono inglês para discutir pautas de interesse nacional no contexto externo, a cafeicultura brasileira vaia o presidente da república brasileiro que fortaleceu o dispositivo que sustenta os índices de consumo de café no país atualmente: o Bolsa Família. Foram só 30 milhões de pessoas que puderam começar a beber um gole de café todos os dias e que sem dúvida foram determinantes para a elevação dos índices de consumo per capita nacional. Não defendendo ninguém aqui, mas esse é o perfil comportamental da cafeicultura há muito tempo e que precisa ser repensado. O atual, definitivamente, não funciona. Pessoalmente, os métodos de manifesto deveriam ser mais contundentes e sofisticados. Por exemplo, um manifesto de verdade seria um ato público no Supremo Tribunal Federal onde todos os senadores e deputados federais e estaduais, dos Estados onde se produz café no país, assinariam um termo de compromisso público, lavrado em cartório, aceitando trabalhar por um salário mínimo por um ano que fosse, sem qualquer tipo de regalia, para doarem o dinheiro da economia orçamentária para a agricultura brasileira. Este seria um ato pelo país, sem precedentes, já que mais de 50% do superávit da Balança Comercial Brasileira é decorrente do esforço que vem da agricultura. Seria um ato respeitoso para com as pessoas que geram emprego e renda para o país: produtores, industriais, exportadores, que de sol a sol, fazem o país acontecer. Ao mesmo tempo, seria uma aposta inquestionável no sucesso do Brasil e nos cidadãos que aqui vivem. Porque não começar este ato maximizando a proatividade da Frente Parlamentar da Cafeicultura? Seria fantástico e mostraria a real força do setor, gerando comoção. Por outro lado, verificam-se as alternativas de promoção do café do Brasil no mercado externo. Creio que a última iniciativa, apesar de discreta, é importante. A inserção da frase “Os melhores cafés do mundo”, nas 156


embalagens de industrializados é algo importante e inteligente e que remete ao sucesso equivalente da Le Creseut. O problema, neste caso, diz respeito à construção de canais de distribuição, de forma institucional. Um país que consegue vender projetos na Organização Internacional do Café, como o Brasil faz, deveria conseguir persuadir também, usando toda a sua expertise diplomática, setores de comércio, por meio do uso dos cabedais que já construiu na área de certificação de qualidade. Falta algo neste sentido na composição da Agenda Estratégica do Café. E isso seria mais profissional, considerando o que o Governo Brasileiro já faz na área de Captação de Investimento Estrangeiro no sistema de Venture Capital. Seria um aproveitamento de know-how e da estrutura do país, que está presente em mais de 90 países com representações diplomáticas que lá estão exatamente para isso. Infelizmente, eu não acredito nos números das exportações de torrado e moído apresentados pelas instituições que trabalham com o produto, porque tenho certeza de que são frutos de negociações individuais realizadas por industriais que estão quebrando a cabeça para acessarem, praticamente sozinhas, o mercado externo. Isso acontece, porque faltam os canais que deveriam ser um esforço de negociações natas em embaixadas e o país continua a dispor de uma ênfase no mercado interno, que é o seu sustentáculo. Contudo, a base interna atual já oferece os cabedais para vôos mais altos. A plataforma interna já está consolidada. Inicialmente, creio que caberia a adoção de práticas de governança corporativa na gestão dos recursos no foro do CDPC, para que as ações de âmbito internacional se tornassem mais estratégicas. Por exemplo, por quatro anos consecutivos o governo Brasileiro patrocina a presença do café brasileiro no Japão. Qual foi o resultado efetivo em vendas considerando o aporte de investimento até então realizado? Não há um relatório sequer, divulgado no site do Ministério da Agricultura dizendo quantos quilos de café foram vendidos, usando erário público. O que há são relatórios de viagens disponibilizados no Portal da Transparência do Governo Federal, informando as diárias dos representantes do MAPA a tais empreitadas. Acredito que estes números seriam importantes para fortalecer o negócio e ao mesmo tempo verificar se a estratégia utilizada está condizente com os resultados esperados. A Anacafé quando acessou o mercado japonês, criou um produto e o disponibilizou em 450.000 vending machines, estrategicamente posicionadas no país. Isso 157


são números palpáveis e que colocam o produtor guatemalteca em alerta para a competição externa. Porque o Brasil não tem este tipo de posição objetiva? Um Made in Brazil, dissociado, infelizmente, não quer dizer muita coisa, portanto. Muitos ao lerem este texto poderão dizer: é fácil escrever. Pessoalmente, me antecipando à esta reflexão, posso dizer, de cadeira, que com o Estado em mãos, é fácil fazer. Porque não é feito? A resposta remete à um poema de Gregório de Mattos Guerra, poeta arcadista, inconfidente. “É a vaidade, Fábio...”

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48 A crise econômica e a agricultura Publicado em 13 de abril de 2009 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

Denominada por alguns como uma releitura de Bretton Woods, a reunião do G-20, realizada em Londres, além de oferecer importantes direcionamentos para a economia global, também trouxe alguns ajustes relevantes para as discussões em torno do protecionismo no comércio global. Pauta prioritária dos países em desenvolvimento, com destaque para aqueles ligados ao G-7, a questão do protecionismo tem mensurado com régua titânica a paciência dos negociadores, que desde a primeira reunião em Doha, no Catar, em 2001, tem se esmerado no sentido de encontrar um equalizador, especialmente no campo dos subsídios agrícolas. Essa reunião consolidou esforço dos membros da Organização Mundial do Comércio (OMC), nato em 1999 e que foi ratificado apenas em 2000, como Artigo 20 do Acordo Agrícola da OMC. Após encontros sucessivos realizados em Cancún (2003), Genebra (2004), Paris (2005), Hong Kong (2005), Postdam (2007) e novamente em Genebra (2008), tudo indicava que as negociações em torno da Rodada de Doha haviam atingido sua falência. Entretanto, ao que parece, a crise econômica tornou-se um vetor de oportunidade. Um dos resultados obtidos na reunião do G-20, encerrada em 2 de abril, foi a ratificação do compromisso de que as 20 maiores nações do mundo não lançarão mão de qualquer tipo de incremento das suas regras protecionistas até o final de 2010. “Assumimos hoje o compromisso de fazer o que for necessário para: (...) promover o comércio global e os investimentos e rejeitar o protecionismo, para apoiar a prosperidade, e construir uma recuperação sustentável. (...) Reafirmamos o compromisso assumido em Washington: de abstermos de levantar novas barreiras ao investimento ou ao comércio de bens e serviços, que impõem

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novas restrições à exportação. (…) Além disso, vamos corrigir prontamente quaisquer medidas. Assumimos esse compromisso até o fim de 2010”, diz um dos trechos do comunicado do G20, publicado em 2 abril. De modo geral, essa perspectiva de médio prazo, um pouco mais de um ano e oito meses, oferece alguns elementos importantes para o alinhavar das estratégias que far-se-ão necessárias para a manutenção da competitividade da agricultura brasileira num futuro próximo. É importante elaborarmos uma pequena análise de cenário, utilizando alguns fatos recentes. Inicialmente, pode-se citar o pacote de apoio ao setor agrícola brasileiro aprovado em 31 de março pela Câmara dos Deputados, que consiste na conversão da Medida Provisória 455 em lei, autorizando a concessão de subsídios às taxas de juros das linhas definanciamento de capital de giro para agroindústrias, cooperativas e indústrias de máquinas e equipamentos agrícolas. Em seguida, o corte significativo de 48%, no orçamento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), publicado no Diário Oficial da União, em 30 de março, conforme Decreto 6.808. Há ainda as questões relacionadas ao endividamento, ao aquecimento global e à instabilidade cambial, considerando-se aqui a retração do crédito para as exportações brasileiras, além, evidentemente, da consulta pública que a Comissão Européia de Agricultura vem realizando para o aprimoramento de sua política de qualidade. O referendo será divulgado em 27 de maio, devendo entrar em vigor em 2010. Este último item, em particular, é preocupante e converge com a benesse do G20 em não se movimentar, em termos de suas barreiras comerciais, até 2010. Ainda que a China, a Rússia, a Índia e parte dos países do Oriente Médio tenham passado a fazer parte dos mercados-alvo para os produtos brasileiros, a União Européia é um mercado fundamental para o Brasil. Paga em euro e é um mercado-vitrine. Logo, o corte no orçamento do Mapa, de R$ 1,06 bilhão, não veio em boa hora. Certamente, a defesa sanitária no médio prazo sofrerá, abrindo assim um precedente para um revival da experiência da suspensão das exportações,como ocorreu no caso da carne, em 2008. Sem recursos aplicados na hora certa, a celebrada competitividade do agronegócio brasileiro virará uma mera vantagem comparativa ou pior ainda, uma desvantagem competitiva. Isso sem dúvida seria extremamente depreciativo para o país e inadequado do ponto de vista comercial, frente aos indicadores 160


globais que atualmente fazem do Brasil um importante player. É preciso pensar e repensar as estratégias e a infraestrutura, para colher os frutos desejados mais à frente, no momento certo. Que os compromissos das lideranças do G20 sejam um recado objetivo às autoridades nacionais de que é preciso acelerar o fortalecimento da agricultura nacional, de forma a prepará-la para competir com toda a força, a partir do momento que a última assinatura dos países que compõem o quadro da OMC, for colhida no acordo de Doha.

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49 A relação do Decreto Lei nº 399 e a inclusão do café na merenda escolar Publicado em 21 de abril de 2009 na Revista Cafeicultura, o Portal do Agronegócio Café

Desde a sua introdução no país, o café tem importante papel na composição da dieta do cidadão brasileiro. Tal importância está historicamente expressa em uma das importantes obras do artista holandês Debret, que com suas marcadas pinceladas retratou a venda de café torrado pelas escravas em plena rua da então capital imperial, a cidade do Rio de Janeiro. Após praticamente financiar uma parte do Segundo Império e acessar a República, o café, entranhado no hábito de consumo do brasileiro, ganha espaço nos primeiros estudos do país para a composição do Salário Mínimo Nacional, criado através da Lei n°185 de 14 de janeiro de 1936 e regulamentado através do Decreto Lei n° 399 de 1938, durante o Governo Getúlio Vargas. Durante o processo de fixação do Salário Mínimo Nacional, diversas Comissões do Salário Mínimo, realizaram estudos regionais, a fim de identificar a remuneração mínima necessária à ser oferecida “ao trabalhador adulto, sem distinção de sexo, por dia normal de serviço e capaz de satisfazer, em determinada época, na região do país, as suas necessidades normais de alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte” (D L n° 399, art. 2°), definindo ao mesmo tempo, a Ração Essencial Mínima que um trabalhador adulto precisaria ingerir ao longo de um mês de trabalho. A TABELA 1 abaixo, foi extraída do site do DIEESE (1993). Tabela 1: Tabela de Provisões mínimas estipuladas pelo Decreto Lei n° 399

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FALTOU TABELA

A análise da Tabela 1 acena que o café tem um papel estratégico como alimento básico, o que reforça a tese de que o mercado interno ainda é um grande filão para a cadeia agroindustrial cafeeira e ao mesmo tempo, chancela a idéia de que o problema da modificação dos parâmetros de consumo de café, não está concentrado nos estratos populacionais economicamente desfavorecidos. Na verdade, para tais estratos, a qualidade técnica do café é uma externalidade positiva adicional, desde que ela não implique em elevação do custo da cesta básica mensal da família. Das atuais 18 milhões de sacas consumidas no país, verifica-se que cerca de 15 milhões são consumidas na forma de mesclas tradicionais, que fomentam o crescimento vegetativo do setor na ordem de 4,5% ao ano. Isso demonstra que mesmo com a ascensão do mercado de cafés especiais, estruturados sobre um perfil de cafés industrializados importados e cafés diferenciados, o grande filão comercial, centra-se no café de todo dia, percolado pelas manhãs, nas cozinhas de 96% das residências brasileiras. Logo, é importante afirmar que a base de sustentação da economia brasileira é o consumidor que tem no café um produto estratégico da sua dieta. Dessa maneira, não existem consumidores melhores ou piores. À luz desta perspectiva, há a necessidade de se repensar algumas políticas, dentre elas, a da inclusão do café na merenda escolar. Sem ferir vaidades, acredito que é importante salientar a necessidade de repensar o marco estratégico setorial, posicionando o café como bebida nacional por excelência, sem desprestígio social. O café é por natureza uma bebida democrática e inclusiva, o que me leva a construir a presente reflexão sobre a necessidade de fazer da inclusão do café na merenda escolar, apenas uma força motriz para o acesso ao conhecimento, elemento imprescindível para o desenvolvimento de pessoas e respectivamente, do país. Junto do café na merenda, poderiam ir bibliotecas equipadas com equipamentos de informática, não é mesmo? Infelizmente, o que prevalece é a mentalidade getulista, da ração mínima diária, onde o pobre deve ficar grato por um cadinho de comida e pela sua eterna condição de pedinte. A última campanha do Ministério 163


da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, apresentou o Super Café para um público que não sobe morro e nem toma ônibus de madrugada para trabalhar, o que de fato é uma pena, porque a elitização do consumo pode roubar do cidadão brasileiro uma marca cultural, que imprime hospitalidade e simplicidade. Adélia Prado expõe que o bonito mesmo, é o ordinário cotidiano. Não há nada de mais profundo, artístico, nutrido de beleza, do que a simplicidade que ele imprime em nossas retinas. É como a chuva sobre a lavoura de café. Não tem explicação científica, mais é bonito de se ver. Só que a simplicidade, quando se trata de política, não pode vir despida de possibilidades que contribuam para a construção da dignidade humana. É preciso oferecer o pão e também o ofício. Cadê o livro? Neste sentido, há uma necessidade de se rever o programa, prestes a ser adotado por vários estados brasileiros, no sentido de que ele, ao ser introduzido na alimentação, também gere diferenciais para avida das pessoas. Poder-se-ia inserir na pauta, o conceito de Responsabilidade Social Corporativa. Evidentemente, que há de se respeitar a vertente econômica, que certamente está sendo levada a cabo. Se isso não fosse verdade, não existiriam razões para as negociações em torno da inclusão do café na merenda escolar na rede pública de educação do país. Não há alguma filosofia nisso. Há uma heresia contra qual qualquer marxista arrancaria os cabelos. Até o momento a lógica é o da necessidade de treinamento o paladar do filho do trabalhador assalariado, com a sua ração diária de café, certamente oriunda de grãos riados/rio, para que o setor no Brasil, num futuro próximo, não vá à bancarrota por falta de clientela. Urge romper tal princípio, fazendo com que o projeto se torne inclusivo e um vetor de sustentabilidade. Por exemplo, cada escola beneficiada com o programa, poderia ganhar uma biblioteca equipada com computadores ou ainda, cursos profissionalizantes. Café com cultura combina e abre um precedente importante para o crescimento intelectual individual e maximiza as nossas possibilidades quanto país. Creio ser interessante citar Darcy Ribeiro, para reforçar tal importância. “O fracasso brasileiro na educação – nossa incapacidade de criar uma boa escola pública generalizável a todos, funcionando com um mínimo de eficácia – é paralelo à nossa incapacidade de organizar a economia para 164


que todos trabalhem e comam. Só falta acrescentar ou concluir, que esta incapacidade é, também, uma capacidade”. (Darcy Ribeiro, em Educação no Brasil) Gerar mudanças na vida das pessoas para melhor deveria ser um compromisso pessoal de cada brasileiro, interessado em colocar o Brasil no primeiro mundo e não em níveis de países subdesenvolvidos, como vários países africanos e asiáticos. Se estivéssemos naquele patamar, certamente, não aceitaríamos o termo ração num aparato legal voltado à alimentação humana financiada com o salário mínimo, por mais histórico que ela seja. Isso faz com que o ato de tomar café na escola, conjugado com princípios de Responsabilidade Social Corporativa, possa ser um passaporte para a construção da dignidade humana. É nesta vertente na qual eu acredito. A da dignidade humana.

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50 Um voto pelo equilíbrio financeiro do setor cafeeiro Publicado em 29 de maio de 2009 na Revista Cafeicultura, o Portal do Agronegócio Café

A leitura do noticiário recente relacionado à política cafeeira brasileira remeteu-me à minha primeira aula do curso de Introdução à Enologia. Não sou uma grande enófila, mas aprecio bons vinhos. Fazem bem para alma e para o humor, além de conterem em si, uma arte expressa por meio de um legado cultural que invade os nossos sentidos com uma explosão complexa de aromas e sabores. Degustando um vinho da região do Vale do São Francisco, senti os taninos travando minhas papilas gustativas. Era um vinho jovem, de uma marca renomada nacional, mas um vinho extremamente aromático. Foi então que o enólogo que nos apresentava os prazeres dionisíacos expôs: “-Trata-se de um vinho promissor, mas como podem perceber, está demasiadamente tânico. Mas notem, são taninos bons, que ora nervosos, devem se acalmar ao longo do processo de maturação da bebida”. Pois bem, cabe-me introduzir esta experiência no âmbito da reflexão sobre a maturação da política cafeeira brasileira. Com trezentos anos de idade, ainda estamos em plena efervescênciados taninos, como se esta senhora ainda fosse uma adolescente. O vigor é louvável, mas nada como a ponderação proporcionada pela maturidade, para se atingir os objetivos coletivos de uma formamais racional. Isso significa uma reflexão profunda em torno dos objetivos dos políticos, que evidentemente, no curto e médio prazo, nada temhaver com os problemas endêmicos da cafeicultura brasileira e dasua respectiva gestão política. Neste sentido, é salutar uma ruptura de paradigmas que confira ao cenário político cafeeiro um novo tecido comportamental, onde a compe-

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titividade do café brasileiro seja o foco principal e não um coadjuvante sem valor. Inicialmente, é preciso apostar na descoberta de um modelo de gestão corporativa para o setor, pautada pelo equilíbrio financeiro. Desde a época de Dom Pedro I, o café sofre do mal do endividamento. Creio que chegou o momento de lutar pela auforia, adotando procedimentos sérios de recuperação financeira. Quem será o eleito que assinará a Lei Áurea em prol da rentabilidade e do sucesso financeiro do setor cafeeiro brasileiro? Inicialmente, creio que é preciso ter em mente que endividamentono âmbito da gestão pública se resolve com oferta de instrumentos para a construção de cultura de gestão financeira, transparência, coragem, racionalidade e informação. Talvez minha voz ecoe de forma uníssona, mas parto da perspectiva que o problema do endividamento não é um problema de todos os produtores de café. Não seria algo possível do ponto de vista empresarial. Em meio à turbulência da gestão temerária, há muita gestão profissional, caso contrário, o agronegócio café brasileiro não existiria. Partindo dessa perspectiva, fica mais factível avaliar a prática da gestão para resultados para o setor de café, a qual já é marca registrada dos governos Paulista e Mineiro no âmbito da gestão da coisa pública. Logo, se há endividados, quem são? O governo atualmente possui uma lista com o nome de cada um? Se tiver, emerge a possibilidade da construção de políticas voltadas à oferta de suporte gerencial customizado. O Estado tem a obrigação de resolver o problema do endividamento, mas de forma cabal, atuando de forma na raiz da questão, seja via a criação de alternativas gerenciais, viabilizadas por meio do uso intensivo de infraestruturas como as do SEBRAE e do SENAI, seja por meio do perdão da dívida, como fez com a dívida externa de vários países africanos, que deviam ao país. A dívida não pode ser mais o mantra do café. É preciso urgentemente calar este canto, porque ele não é auspicioso. É válido ressaltar que o perdão da dívida até seria positivo, mas não garantiria a consolidação da cultura da gestão profissional no coração dos

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empreendedores do café. O governo como o principal credor do setor tem condições de evocar a Recuperação Judicial em massa, para viabilizar uma saída traumática, mas definitiva, diga-se, respaldada pelo Novo Código Civil. Como é de amplo conhecimento de todos, o mundo simplesmente não nos espera. Sem ativos circulantes na mão, a corrida é cada dia mais desleal e letal. Fica aí minha reflexão, na expectativa de que algo de novo aconteça.

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51 Diplomacia corporativa no agronegócio Publicado em 22 de junho de 2009 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

A necessidade de permutar produtos e serviços sempre esteve presente no cotidiano da história humana. Como tempo, esse processo de troca, antes limitado somente às microrregiões, passou a ganhar contornos mais sofisticados, com atravessia de fronteiras nacionais, por meio do uso de caravanas por terra e caravelas pelo mar. Contudo, o modelo de internacionalização que conhecemos é bastante recente, por meio do estabelecimento do Acordo Geral sobre TarifaseComércio (Gatt), firmado em 1947. Esse acordo exerceu seu papel ao longo de praticamente todo o século 20, até 1993, quando sua ação quanto norma de regulamentação tarifária foi interrompida durante a Rodada do Uruguai. Em janeiro de 1995, entretanto, foi incorporada ao corpo de regulamentos da recém criada Organização Mundial do Comércio (OMC). Evidentemente, quando se pensa em OMC no âmbito de sistemas agroindustriais, vem à mente a Rodada de Doha naturalmente, a imagem dos diplomatas, que respondem pela execução da política externa delineada pelo Estado (país) que representam, pela captação de informações e pela construção de relacionamentos importantes do ponto de vista do interesse nacional. Contudo, é visível também a presença do diplomata corporativo, tema deste artigo, que também tem participado ativamente dos processos de defesa dos interesses nacionais, por meio da ação de instituições e organizações privadas e ou estatais das quais estão à frente. Gilberto Sarfati (2007), especialista em relações internacionais, denomina diplomata corporativo como o funcionário de qualquer corporação que opera no âmbito do mercado externo e que é designado para desenhar e gerenciar a ação internacional do empreendimento, que pode ser compreendida aqui

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como sua política externa. Esses profissionais, normalmente formados nas áreas de direito, administração e relações internacionais têm uma função peculiar frente à arena corporativa global, cada vez mais caracterizada pelos processos de investimento externo direto, abertura de capital em bolsa de valores e globalização das políticas externas corporativas das chamadas multinacionais e ou transnacionais. Nesse processo, o diplomata corporativo tem papel crucial na construção de relacionamentos com diversos stackeholders, pessoas influenciadas pelas ações de uma organização, como governos, organizações não governamentais, instituições e ou organizações relacionadas ao comércio, consumidores, além de se coletar informações e cuidar da carteira de clientes, fortalecendo as vantagens competitivas e comparativas do negócio. O foco, portanto, é corroborar para a consolidação da liderança global da empresa, levando-se em consideração os anseios dos acionistas e investidores expressos normalmente e em seu planejamento estratégico. No caso de cadeias agroindustriais, especialmente as brasileiras, ao que parece, a demanda por esse profissional é efervescente tanto quanto a emergência e oposicionamento do Brasil como líder mundial na produção de alimentos e biocombustíveis no mundo. Este cenário que é uma vocação natural do país, sem dúvida, demandará maior arrojo dos empreendimentos nacionais no que tange aos processos de expansão de fronteiras. Esses processos dar-se-ão por meio do incremento da participação individual de marcas no contexto externo, da realização de investimento direto no exterior na construção de plantas em outros países e até mesmo, abertura de capital em bolsas de valores, de modo a facilitar aquisições, fusões e consolidação de holdings. Um bom exemplo da conquista gradativa da maturidade internacional pode ser encontrado em uma série de empresas de capital nacional que atualmente atuam como transnacionais, a exemplo da Cutrale (citricultura), da JBS Friboi (carnebovina), da Brasil Foods (fusão da Sadia e Perdigão, frango de corte e suinocultura), da Branco Peres (cafeterias e café), da Petrobras (biodiesel e etanol de cana-de-açúcar), da Embrapa (tecnologia na produção de alimentos), da André Maggi (sojicultura), da Cosan (açúcar e etanol). Essas companhias que atuam com parâmetros globais, têm políticas externas corporativas próprias e atuam segundo seus objetivos empresariais, neste caso, sempre rumo à liderança global em seus segmentos agroindustriais de atuação. Pode-se citar ainda as instituições privadas ligadas ao agronegócio 170


brasileiro. Talvez o exemplo mais relevante de todos, por reunir todo o mainstream das principais instituições ligadas ao agronegócio brasileiro, seja o Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Pode-se citar ainda como exemplos bem-sucedidos, a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), a Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), a Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec), a Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), entre outras. Observa-se aí, que embora o Estado tenha seu tempo próprio (muitas vezes extremamente moroso e pautado no princípio da atemporalidade [as pessoas passam, mas ele, como uma rocha, permanece]), a iniciativa privada tem um ritmo mais frenético e com ampla capacidade de acelerar os processos de ação além fronteiras. E o diplomata corporativo tem tudo haver com essa dinâmica empresarial realizada no presente e no tempo de uma a duas gerações.

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52 Uma nota sobre a abertura de capital da Café Toko Publicado em 21 de julho de 2009 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

Dependendo da perspectiva, a proposição constitucional de que os interesses coletivos devem prevalecer sobre os individuais tem lá sua relevância. Então, estou pedindo licença para dissertar sobre um assunto privado, que modifica o olhar sobre um negócio secular do país, no caso, o agronegócio café, assunto de domínio público. O que as Leis 10.406/2002, 6.404/76, 11.638/2007 têm haver com a realidade do agronegócio café atualmente? Além oferecerem diretrizes genéricas para os empreendimentos sediados em território nacional, a partir de agora, assumem importante papel no âmbito do agronegócio café, a partir do momento em que o primeiro grupo de base industrial do país ligado à cadeia produtiva supracitada abre o seu capital e se consolida através de uma holding. Após o recorde de certificações internacionais obtidos pela CAFÉ BOM DIA, a consolidação da criação de uma join venture, no ano de 2006, entre a CAFÉ SANTA CLARA e a STRAUSS-ELITE, pode-se se afirmar que a abertura de capital da CAFÉ TOKO, doravante GRUPO TOKO, dada na forma de uma holding, é um divisor de águas que coloca o agronegócio café ante o movimento de tabuleiro que faltava: o abertura do processo de consolidação da plataforma industrial de café no país com visão global. Parece que as distâncias entre as plataformas brasileira e alemã estão começando a se esmaecer, embora existam ainda muitos quesitos a serem cumpridos pelo nosso país, no que tange à consolidação da competitividade nacional. Falta por exemplo, a consolidação do passo da regulamentação do drawback de café, portanto, para valorizar a eficiência e a eficácia de um

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modo gerencial, fundado num modelo 100% nacional, que faz do país um grande mercado consumidor, a ponto de se tornar “a bola da vez”, no que tange à captação de investimentos internacionais, especialmente na aquisição de plantas industriais (como no caso da Lavazza), quanto na solidificação de players globais no segmento de serviços (como no caso da Starbucks). É certo que os movimentos empresariais percebidos nos últimos três anos nos segmentos industrial e de serviços podem e devem ser tomados como fatos relevantes, porque se hoje é possível atestar que o país atingirá em breve a meta de 21 milhões de sacas consumidas ano, somente em território nacional, tal êxito se deve integralmente à tomadas de decisão dadas no seio da iniciativa privada. O mesmo êxito, acredito, deve ser alcançado em breve na área de exportação de café industrializado brasileiro. É válido enaltecer aqui a iniciativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento em torno da imersão dos diplomatas brasileiros em temas relacionados às cadeias agroindustriais brasileiras. A abertura de capital assinalada pela CAFÉ TOKO na última semana, finalizando, areja com ventos inovadores um agronegócio que tem perdido a sua vitalidade, ao longo dos anos, em razão das desgastantes disputas políticas, que ano após ano, comprometem o sucesso de uma atividade tão enaltecedora e apaixonante. Finalmente, o setor industrial acessa um ambiente (a BMF/Bovespa) onde as exigências gerenciais são levadas à fronteira da excelência. De fato, a presença do café no rol de empreendimentos atuantes no mercado de capitais imprime o ritmo vibrante da economia brasileira, no cafezinho certificado nosso de cada dia.

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52 A ética coordena? Publicado em 28 de julho de 2009 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

Escrever sobre qualidade do café, considerando o atual (melhor, tradicional) cenário político da cafeicultura brasileira tornou-se uma amenidade primordial, para quem almeja galgar sucesso profissional com mais facilidade. É como o canto doce e ao mesmo tempo ingrato da cotovia que desperta Romeu, após amar Julieta, noite adentro pela primeira vez, acompanhando a aurora. O fácil, nem sempre é o melhor... Na obra de Shakespeare, o estratagema utilizado pelos interlocutores culminou na morte trágica de dois apaixonados em fuga da idiossincrasia. Então, optando pelas pedras de Drummond, as pedras: a denúncia do Ministério Público Eleitoral contra o Conselho Nacional do Café (CNC) e da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC). Digamos que para amenizar as arestas dificilmente suavizadas face ao escândalo, que nem mesmo a lógica política de Max Weber é capaz de explicar a engenharia política da cafeicultura brasileira... Se Maquiavel coordena, fundado no princípio de que os meios justificam os fins, a reputação setorial, portanto, não importa, sendo relegada a último plano. Ambas as notícias nos obrigam a impetrar tristeza em nossos olhares, com vistas a conduzir à cafeicultura brasileira a uma reflexão sisuda frente a questões que colocam em xeque os interesses coletivos, no caso a reputação do setor, que representa o Brasil como seu embaixador, em praticamente todos os países, há pelo menos três séculos. É preciso rever conceitos e ponderar que a construção de vitórias fundadas na ética são infinitamente melhores. E o Brasil tem franca possibilidade de galgar esta modalidade de vitória lícita. Somente para que se possa perceber tal afirmação, na prática, elaborei um check-list de coisas boas, para refletirmos sobre a real condição de construirmos uma cafeicul174


tura competitiva, líder global da tecnologia ao consumidor, sem a necessidade de remoção do brilho do nosso diamante, o agronegócio café, com a lama de escândalos. Observem a relação: 1. Site Oficial dos Cafés do Brasil; 2. Super Café; 3. Inclusão do café na Merenda Escolar; 4. Protocolo de Projeto de Lei que Regulamenta a profissão de Barista no Brasil; 5. Ação Internacional para os cafés Industrializado realizada pela APEXBrasil; 6. Coffee Club Network; 7. Cup of Excellence, promovidopela BSCA; 8. Programas de certificação voluntários de terceira parte – ABIC e BSCA; 9. Participação do Brasil no World BaristaChampionship (Campeonato Mundial de Barismo). Em meio a tantas turbulências na política cafeeira brasileira, é interessante observar que a gestão profissional tem condições de coordenar o agronegócio café, sem haver a necessidade de criar interfaces com a imoralidade. Gestão profissional pressupõem isonomia, transparência e comportamento ético. Talvez muitos digam “ah, a doação foi um deslize e isso não vai dar em nada. O jurídico resolve”. Mas no popular, pegar uma Caneta Bic sem pedir emprestado é um desvio de conduta tão grave quanto o assalto ao Trem Pagador. Valores distintos, morre menos gente, mas os princípios dos atos são idênticos, o que não é bom. Logo, a reflexão sobre tais atos publicados nas últimas semanas é fundamental, para que os ajustes sejam realizados na conduta, de forma que a ética coordene, portanto.

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53 A língua e a competividade agroindustrial Publicado em 19 de outubro de 2009 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

A língua portuguesa é o único idioma oficial falado nos cinco continentes do mundo. De acordo com o linguista Domingos Paschoal Cegalla, cerca de 200 milhões de pessoas têm no idioma seu veículo de excelência “no processo de transmissão de conhecimento humano e [respectivamente] a base do patrimônio cultural de um povo”. O idioma, que tem no Brasil seu principal representante, em razão especialmente do tamanho da sua população, forma, com mais sete países, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), também denominados de lusófonos. São membros da CPLP, conforme Cegalla: Portugal (incluídos os Açores e a Ilha da Madeira), Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Além desses membros da comunidade, existem vários territórios que no passado foram possessões lusitanas ou ex-colônias têm o idioma como língua corrente: Diu, Damão e Goa, na Índia, e em Macau, na China. Aproximidade idiomática entre tais membros deve se afunilar com o novo acordo ortográfico e se afunilarão também as relações internacionais entre os povos natos nesses territórios em decorrência da equalização linguística. A princípio, não há relação alguma entre a qualidade do idioma que falamos e a competitividade do agronegócio brasileiro, uma vez que a língua inglesa é soberana: ela é tida inclusive como idioma oficial de negócios, e o seu domínio, uma necessidade global. O desafio deste artigo, portanto, é instigar os corações daqueles que respondem pela construção de políticas vocacionadas ao agronegócio com a impressão de um toque elegante de cultura sobre possibilidades versáteis para o desenvolvimento de estratégias de inteligência comercial. Pankaj Ghemawat, professor da Harvard Business Schooll (EUA), propôs em 2001 um importante modelo para análise do processo de interna176


cionalização, o qual foi denominado de Método Cage. Nesse método, o autor enumerou quatro tipos de distâncias fundamentais: a cultural, a administrativa, a geográfica e a econômica. Cada uma delas, segundo a característica da pauta exportável, em maior ou menor intensidade, corrobora para o desempenho da participação dos países no cenário internacional. Contudo, a barreira cultural, ao que parece, tem apelo significativo nesse processo. Como é possível observar na tabela 1, o relacionamento entre colonizador e colonizado (a exemplo da relação histórica entre diversos países colonizados por Portugal) pode incrementar a pauta exportadora em até 900%. O idioma, por si só, significa um incremento potencial de até 200%. Tabela 1: Mensuração do impacto da distância Modalidade da distância

Impacto no comércio internacional (em %)

Nível de investimento: GDP* per capita (1% crescimento)

+0,7%

Tamanho da economia: GDP* (1% de crescimento)

+0,8%

Distância física (1% de crescimento)

-1,1%

Tamanho físico (1% de crescimento)

-0,2%

Acesso ao oceano

+50%

Fronteiras comuns

+80%

Língua comum

+200%

Bloco econômico regional comum

+330%

Relacionamento colonizador-colonizado

+900%

Colonizador comum

+190%

Política comum

+300%

Sistema econômico comum

+340%

*GDP: Tamanho e renda do mercado Fonte: Ghemawatt (2001) apud Jeffrey Frankel and Andrew Rose, 2000.

Nesse sentido, a proximidade idiomática pode favorecer significativamente os negócios relacionados à internacionalização de produtos brasileiros de base agroindustrial, porque a língua é a primeira grande barreira cultural a ser rompida em qualquer atividade internacional. Tal condição pressupõe a massificação da cultura nacional junto a mercados-alvo importantes. 177


Além da inclusão do idioma na pauta educacional em países que têm acordos internacionais com o Brasil, a divulgação de todas as modalidades de expressão cultural brasileiras no mundo é fundamental para que o processo de incremento da pauta comercial do país seja exponencialmente ampliada. O mundo precisa ler Guimarães Rosa, Machado, Drummond e provar dos ritmos, cores, artes e da pluralidade gastronômica nacional, no idioma nativo, de forma mais intensiva e permanente, pois é a cultura que criará a efetiva paixão pelo made in Brazil, que faz toda a diferença para a economia nacional. Parece utópico, mas não é impossível, considerando que o Brasil tem embaixadas em pelo menos 131 países e que a contribuição do agronegócio para o êxito do superávit da balança comercial do país é uma condição essencial. Ressalta-se, entretanto, que tal prospecção não retira a responsabilidade do Estado no âmbito do estabelecimento de acordos comerciais inteligentes entre países com potencial de consumo dos produtos nacionais. Eles são indispensáveis, especialmente após o fracasso das negociações em torno da Rodada de Doha. Evidentemente que o Brasil, antes vanguarda na condução desse arranjo institucional global, acabou na retaguarda em decorrência do fracasso daquele. O Chile tem mais acordos bilaterais e multilaterais do que o nosso país, o que explica em parte suas interessantes taxas de crescimento econômico. Logo, a celeridade nas negociações será fundamental para o êxito dos negócios internacionais brasileiros no médio prazo, uma vez que o cenário global na produção de alimentos gradativamente tem mudado sua posição geográfica. A região subsaariana da África está muito mais próxima de grandes mercados consumidores do que nós.

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54 Uma dor que não espera Publicado em 25 de janeiro de 2010 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

Em tempos da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (CIP-15), realizada em dezembro de 2009, na cidade de Copenhague (Dinamarca), é preciso discutir a mazela que conduz ao desequilíbrio ambiental: a fome. Para quem tem fome, no seu estado crônico, não há razões muito fortes e consistentes para respeitar o meio ambiente e nem tampouco se preocupar como o aquecimento global. A dor da fome não espera e mata, frente aos anseios de longa data de nações de todo o mundo, que buscam medidas para reduzir gases e o efeito estufa na atmosfera, no médio prazo. Todo dia, 1,020 bilhão de seres humanos, ou seja, um sexto da humanidade dorme com fome, conforme dados do ano passado da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Deste total, 53 milhões de pessoas vivem na América Latina e Caribe, sendo que o Índice Global de Fome elaborado pela FAO (dados de 2009) aponta o Brasil com 5% da sua população nessa condição. São números que crescem numa velocidade muito mais rápida do que a elevação da temperatura do planeta. A questão ambiental é uma pauta relevante e que depende de um esforço coletivo dos governos, porque se a temperatura do planeta aumentar demais, a raça humana, assim como todo o resto, estará comprometida. Contudo, é preciso compreender que na dinâmica das relações internacionais, o que importa é a sobrevivência do Estado, portanto, no curtíssimo prazo, a questão do meio ambiente não passará de um foro diplomático, que demanda articulação institucional e muito esforço de negociação para a construção de um consenso. A cúpula de Copenhague (COP-15) falhou, infelizmente, sinal de que

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as costuras em prol da mitigação do efeito estufa podem demorar tanto quanto as negociações da Rodada de Doha ou ainda, poderão não sair do papel. O Brasil, desde que sediou a ECO-92, já vem cumprindo o seu dever de casa na área ambiental: temos uma das melhores legislações do mundo nesse campo e, de forma gradativa, ampliamos o cumprimento da Agenda 21. Nesse sentido, pode-se dizer que o país tem condições, no curtíssimo prazo, de zelar pelo atendimento das necessidades básicas de seus cidadãos, cumprindo o disposto na Constituição Federal. Os 5% da população brasileira que dormem com fome diariamente representam 9,195 milhões de cidadãos, que não têm acesso a um prato de comida, ao menos, por dia. Isso é desesperador, considerando-se que o Brasil detém a maior capacidade de produção de alimentos no mundo. Enquanto essa vergonhosa mazela fizer parte do nosso cotidiano, o meio ambiente estará em xeque, porque a sustentabilidade ambiental não se faz sem levar em conta o bem-estar humano. Sustentabilidade, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU) é um conceito sistêmico que reúne as vertentes econômica, social, ambiental, cultural e político-institucional. Logo, se uma delas estiver fragilizada, o conceito inexiste, na prática. A fome é uma decorrência da fragilidade das vertentes econômica e social e que gera na sua retaguarda a prostituição, especialmente a infantil, o tráfico de drogas, de armas, de seres humanos e de animais, a depredação ambiental e conflitos armados. Quem não tem acesso a alimentos, todos os dias, não tem dignidade, nem tampouco “cabeça” para imaginar se as calotas polares da Antártica vão derreter, se preocupar com quantas espécies de pinguins serão extintas ou quantos países vão desaparecer por causa da elevação do nível do mar. Quem tem fome, todo dia, caminha em doses homeopáticas para os braços da morte. Este é um retrato triste que o Brasil precisava parar de pintar na sua história cotidiana, porque compromete qualquer ideal de desenvolvimento no médio e longo prazos. Acabar com a fome em nosso território é fundamental para o crescimento do país e para o maior comprometimento da nossa nação com as questões do meio ambiente. É uma condição sine qua non. É preciso, finalizando, ponderarmos sobre um modelo de desenvolvimento que privilegie a liberdade e que garanta o atendimento

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real dos dispositivos constitucionais, entre eles, e, sobretudo,o acesso cotidiano à alimentos. Dizendo um não em caráter sumário a fome, o país poderia respirar a real liberdade proporcionada pela sustentabilidade, que faz de cada homem, mulher e criança, seres mais dignos e felizes. Quem está saciado, tem energia para o trabalho e para a geração de riquezas e prosperidade. Provaríamos da real democracia, já que todos os cidadãos do país poderiam ser realmente chamados de cidadãos. Esta deveria ser a ambição do Estado Brasileiro a partir da nova década que chega.

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55 Agriculture, je t’aime Publicado em 29 de março de 2010 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

O investimento em marketing tornou-se uma tendência mundial para a valorização de imagem e ou formação de opinião. No segmento agroindustrial, essa estratégia de comunicação institucional tem sido francamente usada, em razão de se tratar de um instrumento para tornar mais visível a importância do setor. Um bom exemplo é a campanha Agriculture, je t’ aime, coordenada pela Comissão Europeia para a Agricultura e Desenvolvimento Rural. Este artigo reflete sobre a campanha, porque ela também tem muito a dizer aos agricultores brasileiros, em particular. Agriculture, je t’aime é uma ode à valorização dos agricultores europeus e ao caso de amor que a União Europeia mantém com eles, na forma dos bilionários subsídios comerciais, conhecidos como subsídios agrícolas. Oferecidos pelos países desenvolvidos aos seus produtores, são um dos principais entraves à construção um acordo sobre as novas regras do comércio global, no âmago da Organização Mundial do Comércio –OMC. E a campanha Agriculture, je t’aime representa um forte aceno da União Europeia (UE) a seus produtores de que eles permanecerão na atividade e que não existe uma real disposição de construir as tais novas regras de comércio global neste campo (o agrícola). Fundada no princípio de manutenção da autonomia sobre a segurança alimentar, esta prática, corrente desde o fim da Segunda Guerra Mundial (Século 20) e inserida no Plano Agrícola Comum (PAC), diz respeito ao incentivo que o Estado oferece a seus agricultores por produto exportado ou produzido, criando uma competitividade artificial, se comparadas agricultura subsidiada e aquela que não conta com tais benefícios. Ao mesmo tempo, funciona como uma política de fixação do homem e da mulher no campo. 182


Ocorre que tal prática, de acordo com dados da OXFAM International tem sido responsável pela desarticulação da agricultura de países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, já que o dumping corrobora diretamente para a perda de competitividade global dos produtos destes últimos frente aos produzidos em territórios como o europeu, o americano, o japonês, entre outros. No caso da UE, esses subsídios contribuem para a absorção de 49% dos custos dos produtores inseridos neste mercado comum, ante os orçamentos bilionários que podem atingir cifras acima dos 40 bilhões de euros. O desenvolvimento de estratégias comerciais, ao que parece, no curto prazo, é o único mecanismo de ruptura para com esta competição desleal da qual a agricultura de países como o Brasil podem lançar mão. Além da certificação de produtos e processos, que têm forte influência sobre a transposição das barreiras comerciais que normalmente são atreladas à oferta de subsídios agrícolas, visando a proteção de mercados, a construção de acordos bilaterais e multilaterais tem se mostrado um recurso valioso. Há, também, uma necessidade de investimentos em marketing de imagem da pauta agrícola brasileira que somente tem ocorrido lá fora, de maneira pontual e setorial. Esta, sem dúvida, deve vir atrelada a outro conjunto de investimentos que passam pela infraestrutura – modais de transporte mais eficientes e sistema de armazenamento que permita a comercialização de safras de forma planejada –, financiamento de máquinas e equipamentos e apoio do Estado às agriculturas de escala e familiar. Esses dois segmentos têm papéis cruciais na busca estabilidade econômica, na manutenção de superávits dos últimos anos registrados por nossa balança comercial e na presença nacional em diferentes nichos de consumo em todo o mundo. Talvez a campanha Agriculture je t’aime tenha incomodado tanto, porque há muito tempo o Brasil vem recitando nos ouvidos da agricultura brasileira o Soneto de Fidelidade, de Vinícius de Moraes, regado ao som de Amor Vagabundo, de João Bosco e Vinícius, fazendo deste amor uma cotidiana emoção nelson-rodrigueana.

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56 Café Brasileiro na ICE Exchange: um indicador de internacionalização Publicado em 10 de maio de 2010 na Revista Cafeicultura, o Portal do Agronegócio Café

Margareth Woods tem uma visão muito arrojada em torno da internacionalização de negócios. Para ela, “aprender a fazer negócios é como aprender a tocar instrumentos: demanda talento, trabalho duro e muita prática. No caso de negócios internacionais, demanda talento adicional, mais trabalho duro e muita sorte. Além disso, é preciso dominar idiomas e preparar-se para a realização de viagens e até mesmo morar no exterior” (p. 09). Iria um pouco além: a internacionalização de negócios depende também de harmonização dos contratos entre os países, os parceiros institucionais de negócios. A leitura do noticiário hoje me trouxe uma notícia feliz: a possibilidadede reconhecimento do café brasileiro como origem no Contrato “C” na ICE Exchange. Uma consulta pública foi aberta para que todo o mundo possa opinar a respeito. A sugestão pode ser enviada até o dia 15 de junho de 2010, para tim.barry@theice.com, em língua inglesa. Para quem ainda não é fluente no idioma do Tio Sam, mas quer participar deste momento importante para o agronegócio café, sugiro que não deixe de participar. Escreva as suas idéias em bom português e peça ajuda a quem sabe. Qualquer coisa, ligue para o Ministério da Agricultura e peça ajuda para elaboração da versão do seu texto. Como cidadãos brasileiros, devemos mostrar total interesse por nossa marca. O importante é participar, rompendo inclusive a barreira idiomática. Só não vale o uso de tradutores de idiomas, porque os americanos têm dificuldade de compreender textos produzidos em tradutores instantâneos. Acertemos nos verbos e nas concordâncias e demonstremos o nosso interesse, falando bem o idioma deles, para defendermos o que é nosso.

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Ao mesmo tempo, vale outra sugestão. Ante a notícia, gostaria de sugerir ao DECAF e a BMF/Bovespa que criassem uma cartilha de Boas Práticas de Comercialização de Café que pudesse ser disponibilizada aos cafeicultores em caráter emergencial. Uma inclusão na bolsa nova-iorquina mudará tudo e a grande maioria dos produtores rurais não sabe o que é hedge, muito menos movimento de candle. A difusão de informação, considerada a possibilidade de aumento do nível de coordenação da cadeia produtiva, em nível global, obriga em caráter urgente, que o mercado interno se prepare. O primeiro passo requer uma maior integração entre os produtores. Um modelo que vem sendo difundido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e que é bastante interessante é o modelo de condomínios. Estes podem ser uma alternativa para os produtores que não querem se inserir em cooperativas. O segundo passo, tangencia a própria indústria de café, especialmente a de pequeno e médio porte, que deve se preparar para o aumento da concorrência. Talvez, tal como já vem acontecendo no âmbito das empresas de eletrodomésticos de médio porte, seja a hora de começar a pensar em fusões e aquisições. O terceiro passo, diz respeito ao próprio setor exportador, que deve se preparar em termos logísticos para desenvolver a importação de cafés. Pessoalmente, considero a inclusão do café no contrato nova-iorquino uma grande oportunidade de inclusão do café industrializado brasileiro no mercado global de uma forma mais agressiva. Com a inclusão no contrato, será possível o industrial brasileiro negociar suas matérias-primas a futuro, utilizando um parâmetro global, negociado em moeda estrangeira (dólares americanos). Este é um avanço importante, já que os padrões de análise sensorial, ainda que não reconhecidos pelo Estado Brasileiro, estão unificados (metodologia SCAA). Do ponto de vista teórico, a inclusão do café brasileiro como origem na pauta do Contrato “C” oferece especificidade ao nosso ativo mais caro e ao mesmo tempo, abre espaço para a harmonização contratual com a 5ª maior bolsa de mercadorias do mundo, que é a nossa. Esta experiência já está se estruturando no caso do etanol, que abarca também as bolsas européias. Voltando à Margareth Woods, pode-se dizer que tal inclusão abre 185


também espaço para a realização mais intensiva de investimento direto estrangeiro no país. Isso é muito interessante para o setor produtivo, já que o Brasil é o maior fornecedor de suprimento da indústria de café mundial (grãos de café in natura). Poderia sim, haver alguns problemas no segmento industrial nacional, mas de acordo com a própria entidade que representa o setor, a expectativa é que até 2020, somente 100 companhias coordenem todo o mercado nacional. Ou seja, numa guerra de gigantes pelo consumidor de café torrado, a “sangria será no próprio braço”. Este movimento também é relevante, considerada a possibilidade de aumento das áreas plantadas em áreas exóticas. O Brasil possui parcerias comerciais com a maioria dos países em desenvolvimento do globo, os quais, na sua grande maioria, também são grandes produtores de café. Uma alavancagem do segmento industrial evitaria o aumento da importação de café industrializado pelo Brasil, que nos últimos anos, de acordo com os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, não sofreu redução.

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57 Voltemos ao IBC Publicado em 24 de maio de 2010 na Revista Cafeicultura, o Portal do Agronegócio Café

Que o Krugman não me leia: mas eu ouvi dizer que a solução para a descomoditização do café brasileiro está na regulação da oferta e da demanda do produto, a partir de estoques regulados pela iniciativa privada e pelo governo. A culpa dos desmandos da cafeicultura agora é do Pindack, tadinho. Porque não pensar também em ressuscitar o Instituto Brasileiro do Café, já que o discurso rechaçado de ontem foi restaurado, a ponto da Lei da Oferta e Demanda ser apresentada como a grande solução do setor? Já estou vendo os discursos: “este ato governamental, de grande relevância, restaura a estima do cafeicultor e a importância da cafeicultura como grande dama do agronegócio nacional”. “Por favor, esqueçam tudo sobre qualidade e certificação, o negócio agora é a Lei da Oferta e da Demanda: qualidade nunca mais, quantidade sim”. “Viva o IBC, gente!!!”. “Rumo à retomada aos 60% do mercado global”. Se eu estivesse na Alemanha, eu amaria esta idéia. Lá não se planta café mesmo. Lá só se importa, torra, reexporta verde, exporta torrado, nas modalidades torrado em grão e solúvel. Tudo da forma mais competente e profissional possível. Mas estou no Brasil e eu tenho que discordar desta nova tese do mercado (A Lei da Oferta e Demanda aplicada aos estoques brasileiros), porque um discurso desse, pronunciado pelos lábios de quem quer que seja, é impraticável. Explico. Quando se defende a Lei da Oferta e Demanda, como parâmetro para o reconhecimento do café brasileiro como origem no cenário internacional, é preciso inicialmente levar em consideração o período histórico onde se vive (século XXI) e sobre a qual tipo de plataforma estamos nos referindo (no caso a de produção), para se então perceber que esta estratégia de poder sobre o mercado não funciona mais.

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Considerada a predominância nos negócios, fundados na comercialização do café verde, referimo-nos à plataforma de produção que é perfeitamente substituível. Não nos referimos a uma plataforma industrial pujante, que controla o mercado global e mais de 50% do consumo mundial. O Brasil precisa compreender que o avanço na aquisição de terras realizada por meio de investimento direto estrangeiro, em regiões como o Leste Africano, pode sim modificar a geografia cafeeira global. Basta lançar mão de recursos humanos qualificados e técnicas de agricultura de precisão, para esta revolução acontecer. Não será a ICE Exchange que oferecerá a salvaguarda setorial: a negociação de café lá é crucial, aliás, a negociação desta inclusão se arrasta desde o final do século XIX, quando a NYBOT foi criada e que ao que parece, será conquistada somente agora, em 2010. Ela criará um parâmetro internacional de preços. Contudo, não garante contratos com clientes. Particularmente, estou esperando para ver o que os Adidos Agrícolas, recentemente selecionados no corpo técnico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, vão oferecer neste campo. Na minha humilde opinião, deveriam ter sido captados dentro do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, por razões óbvias. Comércio não é produção. Neste sentido, pondero que o problema da descomoditização do café brasileiro não será resolvido com a retomada do espírito do IBC, que historicamente foi importante, mas não procede: é um problema de fortalecimento de canais de distribuição. Regulação de Oferta e Demanda hoje em dia, além de ser um método antiquado, não é compatível com os ritmos do mercado internacional. Se eu fosse exportadora neste caso, simplesmente criaria novas rotas de comércio, para não ficar dependente do “grande produtor”: particularmente, quem pensou nesta infeliz idéia de regulação da oferta e demanda, deveria estudar história do comércio, para entender, que um dia, antes das Antilhas, o Brasil na mão dos holandeses, também era um grande produtor de açúcar... É assim que o mercado responde a critérios decontrole insensatos. Tenho para mim que este reconhecimento deorigem na ICE Exchange não sairá de graça para o mercado brasileiro. Sou a favor da montagem de uma equipe de vendas internacional e organização de estoques brasileiros de café in natura, em locais estratégicos. Investiria em pronta entrega do grão. Porque não temos um estoque

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em Bremen e na Antuérpia, onde estão concentradas mais de 70% das torrefações alemãs? Quem tem programa próprio de certificação de café com protocolo alinhado com os principais protocolos globais, pode mais. Que alguém repense a estratégia ou que a cafeicultura se cale para sempre.

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58 O mar e a importação de café Publicado em 30 de maio de 2010 na Revista Cafeicultura, o Portal do Agronegócio Café

Já faz algum tempo que li uma declaração de Aécio Neves, onde ele lastimava a ausência do litoral em Minas Gerais. De acordo com ele, “o mar chora por não banhar as terras mineiras”. Ante isso, milhares de mineiros todos os anos rumam às praias capixabas, fluminenses e paulistas, para aplacar esta dor de cotovelo imposta pela geopolítica. Nem tudo é perfeito, mas o pão-de-queijo é nosso... Êh, marzão... Pois é, com esta dose de bom humor, gostaria de dissertar sobre um assunto que já é corrente nas minhas reflexões há alguns anos: aconsolidação da plataforma industrial no Brasil. A constituição de um novo Grupo de Trabalho, formado no âmago da CAMEX – Câmara de Comércio Exterior, para mais uma vez consolidar estratégias para a competitividade industrial, me leva a crer que o mar está para Minas, assim como a importação de café para a cafeicultura brasileira. Embora o país tenha na última semana celebrado um marco importante, que foi a publicação da Instrução Normativa nº 16, de 24/05/2010, que trata do Regulamento Técnico do Café Torrado em Grão e para o Café Torrado e Moído, é preciso verificar que a inexistência de uma política industrial genuína para o setor cafeeiro, conduz à imposição de limites às possibilidades de agregação de valor ao café nacional e, por conseguinte, à competitividade internacional do produto brasileiro. O que existem são políticas agrícolas, onde a indústria de café é um mero coadjuvante da estratégia de agregação de renda ao produtor. Se a visão fosse distinta dessa realidade, a importação de café, após dezenas de estudos realizados mostrando a viabilidade e os impactos favoráveis para a economia do país, já teria saído da gaveta e se convertido em Lei. Isso fica extremamente claro quando se pondera que os pontos de investimento do Estado, fica concentrado na promoção do consumo com

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ênfase no mercado interno, controle de qualidade do café, preço e financiamento da produção. A proteção à indústria de café, assim como a exportação de café industrializado não o é. Se fosse, os números das importações de torrado estrangeiro não estariam disparando e a importação de café, ainda que restrita aos membros da ALADI, da qual o Brasil faz parte, liberada. E o Estado não está errado, porque constitucionalmente os interesses públicos devem se sobrepor aos interesses individuais. E o interesse aqui ao qual me refiro é ao interesse público do segmento cafeeiro que gera maior número de empregos e gera maior distribuição de renda. Ante isso, como fica a tal criação da plataforma industrial? Há quatro anos estou trabalhando num modelo matemático que finalmente poderá ser facilitar a compreensão dos elementos que consolidam as bases para a contabilização da competitividade industrial do café. Mas dá para adiantar que o principal elemento a ser adotado é o incentivo a conversação das companhias torrefadoras e de solubilização mais rentáveis de capital nacional, em transnacionais. Explico minha posição numa única frase: café verde raramente sofre interposição de barreiras tarifárias e a transnacionalização, é um recurso de redução de resistência a produtos em mercados consumidores estratégicos. Importação de café para o Brasil não é viável. Transnacionalização de companhias torrefadoras brasileiras sim. Primeiramente, é preciso considerar que melhor do que ter o café brasileiro negociado na ICE Exchange, seria ter ações de companhias de café brasileiras negociadas na ICE Exchange. Depois, melhor do que exportar café verde para transnacionais estrangeiras situadas em mercados consumidores estratégicos, é a exportação de café verde para transnacionais brasileiras situadas em mercados consumidores estratégicos. Se o Brasil investisse numa política dessas, jamais voltaria a enfrentar painéis na OMC ou teria problemas em relação a barreiras tarifárias, que para o caso do industrializado, muitas vezes chega a ser exorbitante. Muitos podem dizer que tal ação exportaria empregos. Considerando a tecnologia industrial de hoje, onde tudo se resolve num botão, eu diria que o número de empregos exportados seriam mínimos, perto do que o país pode ganhar em termos de remessas de divisas e presença brasileira no mercado mundial. É por isso que Guarapari e Cabo Frio são as duas principais praias de Minas.

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59 Agronegócio e narcotráfico Publicado em 07 de junho de 2010 no Caderno Agropecuário do Jornal O Estado de Minas

A crise de alimentos no mundo e seus respectivos impactos na economia em razão da alta dos preços é tema frequente nos meios de comunicação. Lê-se, também, sobre a fome que assola um volume crescente de países situados essencialmente na África, na Ásia e na América Latina. Dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) indicam que a massa de famintos atinge 1/6 da humanidade. Esta situação, além de fomentar o desespero diário em busca da sobrevivência, leva homens, mulheres e crianças a se submeterem a inúmeras formas de violência, que incluem a cooptação de pessoas pelo crime organizado, como no caso do narcotráfico. Uma das principais vítimas nesse campo são os agricultores (homens, mulheres, jovens e crianças), aliciados ou escravizados para atendimento dos interesses desse mercado ilegal e bilionário. De acordo com Paul Gootenberg (2005), o comércio de drogas ilícitas gera entre US$ 300 e 500 bilhões anualmente. O vulto econômico deste negócio alia-se à crescente pressão da demanda mundial, impulsionada por cerca de 250 milhões de pessoas– conforme estatísticas da ONU relativas ao ano passado -, as quais imprimem o ritmo do aumento da produção ilegal, concentrada em países em desenvolvimento na África, na Ásia e na América Latina. Esse temerário crescimento redundou na Declaração Política e no Plano de Ação de Cooperação Internacional para Controle das Drogas, chancelada por 130 países em 2009 e que pretende reduzir a dependência das drogas; combater o negócio ilícito; controlar elementos químicos relacionados à produção de entorpecentes; erradicar, por meio de cooperação internacional, ocultivo ilícito e ao mesmo tempo, fomentar o desenvolvimento sustentável; combater a lavagem de dinheiro e aumentar a cooperação judicial. 192


O tratado, infelizmente, acena para uma guerra que o mundo está perdendo. O World Drug Report 2009 aponta que embora se tenha registrado uma redução das áreas plantadas, em decorrência do combate realizado por instituições especializadas em repressão ao narcotráfico, não houve um impacto significativo sobre a oferta de entorpecentes, já que a produtividade por hectare tem aumentado de forma desproporcional, comparada ao avanço da repressão. No caso da papoula (Papaverrhoeas), matéria-prima para a produção de ópio, verifica-se que a área plantada ficou na casa dos 187 mil hectares, distribuídos entre os principais produtores: Afeganistão, República Democrática do Laos e Miamar, submissos aos interesses de grupos terroristas, como os Talibãs. No caso da coca (Erythroxyloncoca), a área plantada nos principais países produtores – Bolívia, Peru e Colômbia – permaneceu em 175 mil hectares, comandada por grupos guerrilheiros. Esses três países, em particular, chamam a atenção por conta dos seus laços históricos com a produção de coca voltada anteriormente ao atendimento de parâmetros culturais pré-colombianos. A cultura “facilita” a produção de coca e papoula com “alto padrão de qualidade”. É claro que a adesão do elo produtor a esta cadeia produtiva bilionária e ilegal não se dá de forma pacífica. O caso da Colômbia, em particular, permite clareza nessa percepção. A ação das guerrilhas, como a Força Armada Revolucionária da Colômbia e o Exército de Libertação Nacional, fundada sem movimentos campesinos contra o governo colombiano na primeira metade do século 20, no período intitulado “La Violência”, é a principal peça deste perigoso quebra-cabeça. Léon Valência, em publicação de 2005, citando Nazih Richani observa que a situação colombiana é dramática, considerando que “um milhão de agricultores, pequenos camponeses e trabalhadores agrícolas” têm na produção de entorpecentes um meio integral ou parcial de sobrevivência. Esta dependência fica mais evidente quando o autor explica que naquele país, o rendimento da coca pode se equiparar ao do café,em termos econômicos. “Por uma boa qualidade, o traficante paga, em média, US$ 1 mil por um quilo de pasta de coca. Depois de comprar suas provisões e pagar seus trabalhadores, o agricultor pode tirar para si cerca de US$ 325”. Esse valor pode explicar os motivos pelos quais a produção tem aumentado, embora a análise não deva se restringir à vertente econômica. O medo aliado à 193


pobreza dilacerante, à fragilidade das democracias e do próprio Estado são outros elementos que também devem ser colocados na balança. Mais de 3,6 milhões de produtores rurais colombianos, 90% dos que foram expulsos de suas terras, engrossaram, sobremaneira, a geração de bolsões de pobreza nos centros urbanos, provocada pela expansão da violência desde o início dos anos 1980. Muitos, fugindo de tal situação, atravessaram ilegalmente a fronteira de países como o Brasil. Mais de 7 mil pessoas são mantidas, hoje, como reféns das guerrilhas, sendo que mais de 50 mil já perderam suas vidas por não concordarem com as políticas das guerrilhas. Essa rota de violência coloca o país no topo do ranking mundial das vítimas de minas terrestres: mais de 10 mil pessoas, na maioria, produtores rurais, foram atingidas por estes artefatos paramilitares, os quais, quando não matam, deixam sequelas terríveis pelo resto da vida. Esses dados indicam que os impactos do narcotráfico sobre a agricultura são temerários, podendo contribuir de forma decisiva para a insegurança alimentar.

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60 Da privatização da marca Cafés do Brasil: uma reflexão Publicado em 30 de junho de 2010 na Revista Cafeicultura, O Portal do Agronegócio Café

Em tempos de Copa do Mundo, os brasileiros lembram que são brasileiros e todas as formas de viculação das coisas que mais amamos às cores da Bandeira Brasileira, são atos muito bem quistos pela comunidade de modo geral. O artigo da jornalista da Embrapa, relembrando a Copa de 1982, onde os Cafés do Brasil foram um dos patrocinadores do evento foi muito simpático e me levou a escrever este aqui, alusivo a legalidade do registro da Marca Cafés do Brasil, que a princípio é um Ativo Imobilizado da União, por um ente privado no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual e Industrial, o INPI. Não vou dedicar meus escritos aqui à entidade privada que também mantém sob sua “guarda” o Centro de Inteligência do Café, Ativo Imobilizado de propriedade do Estado de Minas Gerais, dedicarei sim estas linhas a discutir sobre o aparato legal que tangencia a questão. Para tal, além de consultas ao site do INPI, Portal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (base do Sislegis e da legislação alusiva ao Agronegócio Café) e ao Portal da Transparência, lanço mão aqui do disposto na Constituição Federal (mais especificamente, das matérias alusivas ao Direito Administrativo), na Lei nº 6.404/1976, na Lei nº. 9.279/1996 e na Lei nº 11.638/2007 e da Portaria nº 184/2008, do Ministério da Fazenda. A quem couber, segue a minha pergunta: considerando que a marca Cafés do Brasil é um bem incorpóreo da União, há no âmbito do aparato legal brasileiro, algum recurso que autorize um ente privado, sem prévia imposição de ato administrativo publicado no Diário Oficial da União, a lançar mão deste referido bem e registrá-lo junto ao INPI, transformando-

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-o num bem incorpóreo particular? O ato de registro realizado pela entidade privada em relação a este imobilizado historicamente público e que foi transferido pela Lei nº 8.029/1990 para a União, é legal? Observando o art. 12, da Lei nº 8.029, de 12 de abril de 1990, fica claro que o conjunto de bens imóveis do patrimônio das autarquias (no caso, o Instituto Brasileiro do Café), não sendo absorvidos pelas entidades que as absorvessem ou as sucedessem, deveriam ser incorporados ao patrimônio da União. Conjugando o disposto no art. 179 da Lei nº 6.404/1976 com o art. 5º da Lei nº 9.279/1996, verifica-se que os ativos imobilizados, classificados como bens corpóreos e incorpóreos, envolvem a propriedade intelectual e marca, classificados como ativos intangíveis, pela Lei nº 11.638/2007. Assim sendo, é importante refletir sobre este registro realizado pelo ente privado, criada pelo Departamento Nacional do Café, nos anos 1950, para identificar o café produzido no Brasil. Nas atuais condições, não é possível deixar de se ponderar na possibilidade do ente privado cobrar royalties sobre o uso da marca num futuro próximo. Algum agente já calculou o Goodwill da marca Cafés do Brasil hoje, para comparar ao seu valor, após sua vinculação a ICE Exchange? Na matéria que li, produzida por um técnico da Embrapa Café, está expresso que a entidade privada autoriza o uso da marca, desde que todos os membros relacionados ao agronegócio café brasileiro, sigam os padrões dispostos no Manual do Uso de Marca por ela produzido.Transcrevo abaixo o texto de CAMPOS (2010): “Hoje a \”Cafés do Brasil\”, registrada como marca no ano 2000 no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) pela [entidade privada], é utilizada para identificar em todo o mundo os cafés de origem brasileira. O logotipo \”Cafés do Brasil\” pode ser utilizado, segundo a [entidade privada], pelo Governo Brasileiro, empresários e exportadores em seus produtos, contanto que sua aplicação siga as instruções contidas no \”Manual de uso da marca\”. Este manual estabelece as corretas aplicações da marca, conhecida como \”raminho do café\” e a \”logotipia\”, ou seja, o desenho da letra no qual a letra s, em vermelho, representa os diversos tipos de café que são produzidos no país. O uso correto da marca cria identidade para os cafés brasileiros e contribui para o fortalecimento da imagem da cafeicultura brasileira no Brasil e no exterior”. Observando o disposto na Portaria nº 184/2008, as demonstrações 196


contábeis públicas devem estar alinhadas com a legislação internacional, que redundou na publicação da Lei nº 11.638/2007, que modernizou a Lei nº 6.404/1976, o que torna a evidenciação dos ativos intangíveis, como a marca Cafés do Brasil, na contabilidade pública da União, uma obrigatoriedade. Assim sendo, o registro da marca pela entidade privada não tem validade jurídica, já que inexistem, atos administrativos que tenham transferido a ela a autorização do uso do bem público, para exploração comercial. Ainda que a entidade privada leve a cabo o “pacta sunt servanda” no momento, decorrente de algum acordo realizado informalmente em 2000, é preciso que a comunidade cafeeira brasileira leve a cabo também que no mundo jurídico, o “rebus sic stantibus”, também é uma possibilidade.

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61 Café Conillon: o ‘boi de piranha’ da cafeicultura Publicado em 12 de julho de 2010 na Revista Cafeicultura, O Portal do Agronegócio Café

Há dez anos faço análise do mercado do café e a história é sempre a mesma: quando falta arábica no mercado, por causa da bienalidade baixa, e o custo de produção da indústria de café sobe, o café conillon vira vedete. Dei o nome de ‘boi de piranha’ a este artigo, porque este é o nome dado ao boi que é sacrificado pelos boiadeiros, quando precisam fazer atravessia de rios cheios de piranhas (peixe carnívoro que povoa algumas bacias hidrográficas brasileiras) no Pantanal Mato-grossense. Eles pegam o boi mais fraco, com menos valor agregado, sangram o boi e jogam no rio, abaixo. Os boiadeiros esperam que o cardume ataque o boi. Enquanto as piranhas comem o boi vivo, os demais animais, sadios, atravessam tranqüilos e seguem para as novas pastagens, onde ganham mais valor agregado. Enquanto o preço da saca do arábica está na estratosfera, o conillon quebra o galho, atendendo as necessidades do mercado, por ter um preço historicamente mais baixo. Não existe política de valorização do café conillon: existe sim, política deformação de preço de café industrializado, para não gerar impactos assustadores para os consumidores. Com a alta estimada de 12% no preço do café, que ainda é tratado como produto da cesta básica do brasileiro, há um risco eminente da meta de 21 milhões de sacas consumidas ano não serem atingidas nos prazos projetados. Isso me permite a dizer que a idéia de produção de café conillon de altíssima qualidade é apenas um subterfúrgio para aumentar a rentabilidade industrial, aumentando a participação deste grão nos blends em até 40%, que é uma tendência global. Um aumento dessa natureza não seria ruim, desde que politicamente, o processo de compra tivesse continuidade, independente das condições do

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mercado de café arábica. A história comprova que esta necessária continuidade não existe, porque o que coordena a ação de compra industrial é o preço da saca de café, combinada com o padrão de qualidade mínimo aceitável para a composição de qualquer blend. Não há nada alusivo a qualidade nisso: apenas matemática e gestão financeira. O produtor de café conillon é o primeiro a sofrer quando a produção o preço da saca do café arábica atinge patamares aceitáveis mercadologicamente e o Governo Brasileiro investe em estoques reguladores. Quando a saca do arábica voltar a ficar barata, ninguém vai se lembra de que o conillon existe, exceto a indústria de café solúvel, que historicamente é o principal cliente deste grão em nosso território. O café conillon ainda é a base estratégica para a formação do blend do café tradicional que é vendido no Brasil. Mais de 90% do café industrializado vendido no Brasil é tradicional e ele precisa ficar entre os limites superiores e inferiores de preços para que os consumidores brasileiros não o substitua por chá mate. Em microeconomia, o chá é considerado o produto substituto do café. O uso é relevante, porque o grão de robusta (ou conillon) impacta no aumento de sólidos solúveis na mescla, além de ampliar a cremosidade do café espresso: ele possui mais óleo por grão do que o arábica e em razão disso, o espresso produz mais creme. Ao mesmo tempo, como sua bebida é neutra, ele equilibra os defeitos do arábica e confere maior corpo a bebida. Trabalhei um tempo com classificação e degustação de café e os resultados com o uso de robusta sempre foram fantásticos. Apesar de todas as suas características nobres, o conillon somente é lembrado nos momentos de crise e é para este ponto que quero chamar a atenção. Para que o mercado de conillon se firme de forma consistente, o primeiro passo seria a revitalização do contrato futuro de café conillon na BMF/BOVESPA, vinculada a estratégia de criação maciça de Indicações Geográficas. Estes dois itens permitiriam a criação de linhas exclusivas de cafés industrializados 100% conillon. Depois é preciso investir num programa de educação para consumo exclusivo para esta modalidade de café. A idéia historicamente defendida não é a do “um país, muitos sabores”? Não é exatamente isso que o S adicional presente na marca Cafés do Brasil quer dizer? Observem que até mesmo o Super Café é um grão de arábica. Ele tinha de ter um irmãozinho, levemente alongado, como um grão de robusta é. 199


Se não for assim, eu não acredito em política de valorização do Café Conillon no Brasil. Ano que vem a bienalidade do arábica estará em alta e a minha tese será comprovada. Estamos acompanhando... Espero estar errada, sinceramente.

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62 Comentários sobre o negócio dos micro-lotes de cafés Publicado em 12 de julho de 2010 na Revista Cafeicultura, O Portal do Agronegócio Café

O setor cafeeiro tem umas oscilações interessantes: de uma semana para outra, submergiu o assunto drawback e emergiu o tema micro-lotes de cafés especiais e a adição de robusta no espresso. Bom, hoje escreverei sobre os micro-lotes, que foi pauta de uma entrevista que cedia o Coffee Break em 2004. A tendência está se confirmando seis anos depois. Na época, eu disse que o café um dia seria vendido como chá: em caixinhas lindas, onde as varietais estariam estampadas nos pacotinhos, prontos para o preparo e consumo. Hoje já existem as cápsulas, o que me permite dizer que em breve, o pacotinho de café deve se concretizar em algum laboratório da área de Engenharia. Naquela época, não havia me embebido ainda nas águas das políticas públicas, mas hoje, como já as provei, é possível lapidar o raciocínio com mais de meia década de vida. Inicialmente, o micro-lote não deve ser tomado como uma política pública para a construção do mercado de cafés especiais do país. Ele é um mero recurso de marketing. E um recurso de marketing extremamente pontual. Para elucidar a questão, remeto-me a uma fala do Secretário de Agricultura do Estado de Minas Gerais, Gilman Viana Rodrigues, que ao discorrer sobre o Concurso Estadual de Qualidade do Café Mineiro, dizia que antes de criar os micro-lotes, era preciso certificar todo mundo. Minas Gerais hoje possui um dos programas de certificação pública de propriedades cafeeiras que deveria ser adotado em nível nacional, porque esta é uma necessidade estratégica e que deve ser financiada com os recursos do FUNCAFÉ. Do ponto de vista de política pública, o micro-lote, é perfumaria, assim como a semelhança com as caixinhas de chá. Seria um item de lapidação um diamante que ainda, apesar dos seus mais de trezentos anos de

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história, ainda encontra-se em estado praticamente bruto. Acredito que em cinco ou dez anos, quando os grandes países consumidores já tiverem construído outros canais de fornecimento de cafés para seu mercado, que o Brasil, mantidas as condições atuais, enfrente um embargo branco tão duro como o que enfrentou o mercado de carnes recentemente. O embargo foi tão letal que simplesmente quase deixou o Brasil sem indústria frigorífica. Certificação é sinônimo de defesa sanitária. Um país como o Brasil, que tem na agricultura uma das suas mais relevantes bases econômicas, tem como obrigação, cuidar deste assunto primeiro. É uma questão de segurança nacional, à medida que a ausência de defesa sanitária consistente impede que o país assuma o controle global do negócio de alimentos, que é a nossa atual vantagem competitiva. Os micro-lotes são recursos de marketing que devem ser tratados dessa maneira. Não podem ser traduzidos como parâmetro de qualidade, porque são cafés produzidos especialmente para concurso. Nada mais, pois podem não sintetizar o todo de uma propriedade. Eles têm de se distinguir do composto cafés especiais e tornarem-se uma vírgula dentro de um nicho, chamados de grand crus de terroir. Por isso são produtos exclusivos para leilão e consumo especialíssimo, nada mais.

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63 Sobre a Café Damasco Publicado em 24 de novembro de 2010 no Portal Administradores

Vez e outra ainda dou uma espiadela para ver as novidades no mercado cafeeiro. A novidade, depois da IN nº 16/2010 do MAPA, é a aquisição da Café Damasco pela Sara Lee. Pessoalmente este assunto não é uma novidade. Nem a compra, nem o cenário. Em tempos de investimento em qualidade, sobreviverá quem tiver um caixa mais bem administrado. É o fluxo de caixa que fará toda a diferença, pois é ele o único que poderá financiar toda a tecnologia necessária para torrar o café tecnicamente perfeito e ser envasado em embalagens com design arrojado. É o caixa que financiará a competitividade e as estratégias de marketing e distribuição. Isso independe de política, depende, aliás, de capacidade de gestão. Creio que aí está o viés que fará toda a diferença para o cenário industrial brasileiro que anda um tanto de salto alto, talvez, pela concentração do volume de vendas de café nas mãos dos dez maiores empreendimentos do país. 72,90% do café torrado no Brasil é produzido por dez empresas. Ou seja, isso acena que os demais 27,10% podem ser deglutidos pela competição que, em minha opinião, ficou mais injusta com a impetração da IN nº 16/2010 do MAPA. De um lado, ela estimula a qualidade do café para o consumidor, mas de outro, não cria as condições de fomento financeiro para a sobrevivência do micro e pequeno torrefador que certamente, no curto prazo, entrará em rota de colisão e extinção. Digo isso com base no meu olhar de consumidora: por exemplo, as gôndolas de café da cidade onde atualmente moro que fica a 780 km de Cuiabá, estão mais coloridas e eu não preciso mais comprar café especial pela internet, porque já há indústrias que entenderam que aqui também há consumidores interessados em saborear um café diferente. Há uma única máquina de café espresso na cidade, mas o café é excelente, porque evidentemente alguém fica na cola. Toma-se até cappuccino italiano, com

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leite espumado e cacau em pó, que não fica devendo para nenhuma boa cafeteria. O que isso significa? Que indústrias locais estão tendo que se esforçar mais para conseguir matérias-primas de melhor qualidade, para tentarem sobreviver. Passear num supermercado, quando se tem noção de mercado é uma aula prática de autofagia. O pequeno a cada dia diminui o seu preço, mas ao mesmo tempo, investe em tecnologia, para ver se o consumidor continua acreditando no seu produto e marca. Mas quem não é adepto às novidades? Olhando tal questão, é possível compreender o volume de demissões realizado pela Sara Lee ao assumir a Café Damasco: trata-se de estratégia de redução de custos. Em indústria, depois do café, a mão-de-obra é o item que mais impacta nos custos. Quem pode pagar por um torrador com capacidade de 500 kg/hora, não precisa de muita gente dentro da planta industrial. Basta uma ou duas para apertar os botões, que demandam conhecimento em língua inglesa e informática. Creio que a tendência é aumentar esta modalidade de prática.

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64 Sobre a alta do preço do cafezinho Publicado em 27 de março de 2011 no Portal Administradores

A Organização Internacional do Café (OIC) projetou para 2010/2011 uma safra de 133,7 milhões de sacas, o que significa um incremento de 8,3% em relação ao ano anterior. Para o mesmo período, a organização prevê para o Brasil uma safra de 48 milhões de sacas. O consumo mundial, ainda de acordo com ela, é de 132, 5 milhões de sacas, enquanto o Brasil respondeu por 19 milhões de sacas. O estoque mundial para esta safra é de 13 milhões de sacas, embora ele signifique uma retração na ordem de 33% em relação ao estoque mundial na safra passada, de acordo com a OIC. Isso significa que ainda há uma margem de segurança de 14,2 milhões de sacas no mundo. É importante ressaltar que neste ano, a cafeicultura brasileira está no seu período de baixa bienalidade, o que significa que ano que vem, a natureza pode oferecer o conforto que o mercado procura. Dependerá das condições climáticas e dos tratos culturais realizados em campo. Levando-se em consideração a Lei da Oferta e da Demanda e o estoque remanescente, será que está faltando café mesmo? Será esta a grande causa da alta do preço do cafezinho no país? Essas são duas questões sobre as quais qualquer agente ligado ao agronegócio café no Brasil deve ponderar, mas levando em consideração o perfil do seu segmento de atuação. Ou seja, a planilha de custos do cafeicultor não é a mesma planilha de custos do industrial do café ou do dono da cafeteria. A indústria de café é dependente também dos preços do petróleo, já que ele afeta o custo de distribuição (gasolina) e também o preço da tonelada da embalagem, já que o polietileno e o poliéster presentes nos invólucros são subprodutos extraídos dessa commodity. Houve também uma alta no preço do alumínio, que também compõe este insumo importante. Até que se descubra uma tecnologia melhor, este é um dado não dispensável em análise técnica. Além disso, conta com a questão do custo da

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mão-de-obra, relacionada ao aumento do salário mínimo. Estes itens, de modo geral, respondem por 25% a 30% da planilha de custos da indústria. O café, embora responda por 60% da planilha, gerou impactos fortes na indústria, porque comumente esta não trabalha com estoque físico de matéria-prima nem tampouco pratica hedge para travar preço. Com os ataques especulativos observados nas últimas semanas ao café na ICE Exchange e que refletiram na BMF/Bovespa, a alta do preço do café para o consumidor era uma tendência natural. No caso do produtor de café, houve altas nos insumos que são utilizados para fertilização e outros tratos culturais, como defensivos agrícolas, além do próprio custo com a mão-de-obra, que deverá se maximizar, com a proximidade da safra. Ele também sofreu os impactos das altas dos preços dos combustíveis registrados nas últimas semanas. No caso das cafeteriais, o principal centro de custo também está no custo da mão-de-obra, considerando que um quilo de café bem extraído pode gerar entre 120 e 160 doses de 50 ml. Aos cafeicultores, é importante ressaltar que o que de fato importa na observação dessas informações, é o entendimento que na verdade, o aumento da área cultivada deve ser ponderado com muita cautela. Pode-se falar em renovação do parque cafeeiro, o que é favorável, ponderando-se sobre o aumento da produtividade por hectare plantado. Mesmo que o Brasil atinja 21 milhões de sacas consumidas até o ano de 2012, o que de fato importará é a qualidade do produto final. Discorrer sobre qualidade parece redundante, mas esta é uma via sustentável, frente ao comportamento do mercado consumidor num horizonte de dez anos.

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65 Coisas para se pensar no Dia Internacional do Café Publicado em 14 de abril de 2011 no Portal Administradores

Como todos sabem no dia 14 de abril se comemora o Dia Internacional do Café e no dia 25 de maio, o Dia Nacional do Café. Estava navegando pelos canais de notícias especializados e em razão da data, li somente notícias boas, especialmente centradas na defesa apaixonada da qualidade do café. Será que realmente o setor agroindustrial do café tem algo a comemorar? Creio que as conquistas atualmente comemoradas não são conquistas, mas sim decorrências da conjuntura econômica na qual o país e o mundo vivem. É, porque o crescimento entre 4,5% e 5% do consumo ao ano é um dado de crescimento vegetativo, decorrente do acesso de parcelas expressivas de consumidores brasileiros, cerca de 30 milhões de pessoas, que antes não podiam apreciar o cafezinho todos os dias. Seja num ambiente com fusão e aquisições ou de falência ou de extinção de toda a plataforma industrial do país, não afetará de modo algum o ritmo do crescimento do consumo. Isso é tão certo quanto a permanência do café industrializado como produto de cesta básica no Brasil. Esta permanência, garante que o cafezinho nosso de cada dia seja parte do composto das estratégias de defesa da Segurança Alimentar do país. Logo, a importação de produto industrializado, que não possui restrição nenhuma, torna-se uma instância de interesse público, de interesse nacional. O importante é não faltar o café nas mesas, não importa de onde ele seja. Isso é uma possibilidade que pode acontecer, se o setor do café não fizer igual ao pessoal da soja, que hoje, 14 de abril, está em Cuiabá, discutindo o planejamento da safra brasileira de soja, para que o processo se dê de forma articulada entre todos os Estados produtores. Ou ainda, avan-

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çando, começar a participar de eventos essenciais como o que foi promovido pelo Instituto de Química e a Embrapa Café na Universidade Federal do Rio de Janeiro, nos dias 11 e 12 de abril. O evento, que foi um show e não contou com a presença de nenhum industrial no auditório e nenhuma liderança política cafeeira, discutiu tecnologia industrial de café com representantes de importantes centros de pesquisa especializados em café da Alemanha, que todo mundo do setor está careca de saber que é o grande ícone da Exportação e Reexportação de café em qualquer modalidade: verde, torrado ou solúvel. Recentemente, o Dr. Celso Vegro, publicou um artigo que ele intitulou de «Leite Derramado» e que me fez rever alguns conceitos. Lá, o autor apontava os números da exportação de café industrializado e defendia, mais uma vez, a importação de café, que ainda não aconteceu, «em razão da miopia dos líderes da lavoura». Sempre escrevi a favor da importação do café, mas depois do que ouvi sobre a estrutura de construção da IN 16/2010, sou obrigada por bom senso, a voltar atrás no meu discurso apaixonado e concordar com o pessoal que está, prudentemente, com os dois pés atrás. A miopia pode ser interpretada como medo. E o medo é uma característica de quem não planeja e nem sabe qual o rumo que o trem está tomando. É praticamente dizer que os rumos estão na mão de Deus e os resultados, são dependentes da sorte. Os dias 14/04 e 25/05 deveriam ser utilizados para reuniões em todo o Brasil, para discutir anualmente, o planejamento do agronegócio café. Hoje, esta possibilidade está bastante facilitada, em razão da tecnologia. Porque não se copiar o ótimo exemplo do segmento sojicultor? Não basta colocar a marca «Cafés do Brasil» na Fórmula Indy para dizer que o Brasil no contexto da sua economia cafeeira vai bem ou ainda, externar que a qualidade do grão é tudo. A IN 16/2010 é uma prova de que faltam elementos cruciais para a competitividade do agronegócio café brasileiro: mais laboratórios oficiais, por exemplo, ou ainda, mão-de-obra qualificada. Fica aí a reflexão.

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66 Cafeicultura, governança pública e a IN 16/2010 Publicado em 16 de abril de 2011 no Portal Administradores

Acabei de ler a matéria muito bem redigida da jornalista Fátima Costa, para a Revista Isto É Dinheiro Rural, intitulada “Café de gringo, para brasileiro beber”, discorrendo sobre a IN 16/2010. Em razão dele, segue o meu artigo, que oferece algumas reflexões importantes sobre criação de valor público e governança e a IN 16/2010. José Mathias-Pereira (2010, p. xviii-xix), ao discorrer sobre criação de valor público e governança, ilumina sua reflexão à partir das contribuições oferecidas por Mark Moore na obra intitulada «Criando valor público: gestão estratégica no governo», publicada pela Havard University Press em 2002. Moore explica que « não basta afirmar que os gerentes públicos criam resultados que têm valor, eles precisam ser capazes de mostrar que os resultados conseguidos valem o preço pago por eles (...). Só então os gerentes podem ter certeza de que o valor público foi criado». Mathias-Pereira explica a partir dessa contribuição proveniente do pensamento de Moore, que o fundamento para esta criação de valor é a qualidade do processo político, dado especialmente, pelos processos legislativos. Mathias-Pereira explica que o processo legislativo é a base da democracia e que é ele quem define o que vale e o que não vale ser otimizado com o erário público, conforme é possível observar na referência que ele faz ao pensamento de Moore «aos que valorizam a política como meio de criar uma vontade coletiva, e que veem a política democrática como a melhor resposta que temos para o problema de reconciliar interesses individuais e coletivos, quase não surpreende que o processo político seja permitido determinar o que vale apena produzir com os recursos públicos. Nenhum outro procedimento corresponderia aos princípios da democracia».

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Em minha opinião, a IN 16/2010, assim como qualquer outra legislação que proteja o cidadão brasileiro de picaretagem, especialmente na área de alimentação, que toca a segurança do alimento, vale a pena. A questão a observar aqui, do ponto de vista de gestão pública, é se a norma agrega ou não valor para o processo político, se ela é capaz ou não defender adequadamente os interesses individuais e coletivos. A atual questão da IN 16/2010, em particular, é esta. A Instrução Normativa nº 16 foi publicada na edição 98 do Diário Oficial da União, em 24 de maio de 2010, tornando-se, a partir desta data, o Regulamento Técnico para o Café Torrado em grão e para o Café Torrado e Moído produzido e comercializado no território brasileiro. O texto do regulamento apresenta todas as perspectivas necessárias para a consolidação de uma ação de defesa não apenas dos interesses dos agentes da cadeia produtiva do café nacional, mas também dos consumidores brasileiros, que hoje somam mais de 96% da população do Brasil. O café, como todos sabem é um produto tradicional na mesa do brasileiro há séculos, sendo uma das pautas da cesta básica no país. Em relação ao aparato legal, nada a declara. Em relação à situação da estrutura de execução da norma, tudo a declarar. A publicação da norma antes do planejamento adequado de infraestrutura de laboratórios, contratação e treinamento da equipe responsável pela execução técnica das exigências previstas no documento, só acenam que os processos políticos da cafeicultura brasileira continuam doentes. Qual o defeito da IN 16/2010? Acreditem, ela só tem um defeito capital, que vale por todos os defeitos possíveis e imagináveis quando se desenha uma norma pública. O ponto rítico que coloca a IN 16/2010 em xeque é o fato de só haver um único laboratório credenciado para o serviço. Este é um laboratório privado. Este laboratório é o que presta serviços para a indústria de café de Minas Gerais há mais de dez anos. Um dos técnicos responsáveis pela microscopia também é funcionário da entidade patronal que representa a indústria de café no Estado. Por mais que a Administração Pública atualmente funde suas ações nas parcerias público-privadas, há certas coisas que, por bom senso, não deveriam ser delegadas ao setor privado: o poder de polícia, por exemplo. Vamos supor que uma indústria de café qualquer, em uma ou mais marcas, ultrapasse os limites permitidos de umidade e resíduos e seja «pega» durante os ensaios de microscopia do laboratório credenciado pelo 210


Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Vamos supor que esta uma ou mais marcas, seja de um dos diretores da associação que representa a indústria de café no país e que este mesmo diretor faça parte do CDPC e que apóie os Programas Cafés do Brasil ou Café e Saúde com financiamento. O MAPA atuará a indústria nos rigores da norma? Desculpe-me, mas serei como Tomé: eu só acredito vendo e se a Polícia Federal for acompanhando a fiscalizaçãoo para fechar a indústria e o diretor for preso, por ferir com seu ato de adulteração, o art. 5º da Constituição Federal Brasileira. Definativamente, o Brasil não precisa de uma versão pública do programa do selo de pureza. Ele já existe e cumpre bem o seu papel. O país precisa, sim, de legislação e fiscalização realizada pelas mãos do Estado, utilizando a estrutura do Estado, para garatir isenção de seus processos. Só isso. Esta é a questão a ser discutida. Se este gargalo não for resolvido ontem, temo em informar que a IN 16/2010, morreu. Enquanto o Brasil não resolve os seus gargalos legais dentro de casa, ficará muito difícil falar de drawback de café. Não dá para falar sobre criação de plataforma industrial de café industrializado. Não dá para pensar em investimento pesado em exportação de café industrializado, porque se não houver regulação séria no país, o Brasil automaticamente abre precedente para qualquer país do mundo criar barreiras técnicas para a entrada de nossos produtos em seus mercados. Para criar valor público, a cafeicultura precisa planejar e executar do início para o fim e não do meio para o início. A matéria publicada na Isto É Dinheiro Rural, contendo declarações de lideranças, é uma mostra de que o setor colocou mais uma vez os carros nas frentes dos bois.

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67 Substituição do Brasil como fornecedor global de café Publicado em 18 de abril de 2011 no Portal Administradores

No mundo, atualmente, são 72 os países produtores de café, incluindo-se aí o Brasil, até o momento, maior produtor mundial do grão. Mas a estatística aponta que tal perspectiva pode mudar. Os interessantes dados apresentados pela Revista Veja, através da matéria “Brasil começa a provar ao mundo o valor do seu café”, conduziram-me a confirmação de uma tese que venho defendendo a algum tempo e que explicitei no artigo “O Agronegócio Café em 2020: uma reflexão”, publicado em 20 de janeiro de 2010, no site Revista Cafeicultura. Após a leitura e análise dos dados da matéria, surgiu a pergunta: dependendo da posição que o Brasil assumir em relação ao perfil da sua plataforma agroindustrial do café, é possível substituí-lo como principal fornecedor de matéria-prima global nos próximos dez anos? Inicio o meu raciocínio com um caso que estudei durante o meu mestrado. Não citarei o nome dela aqui, mas trata-se de uma das maiores cooperativas de café do país. Ao discorrer sobre a indústria torrefadora dela que foi criada justamente com o objetivo de agregar valor pela industrialização aos grãos especialíssimos de seus cooperados e a exportação desses produtos com alto valor agregado, ela lidou com um problema sério: a pressão de seus compradores, que a fez recuar num projeto arrojado de industrialização e exportação de café industrializado, em detrimento da manutenção do seu já rentável negócio de comercialização internacional de café verde. Ou era uma coisa ou outra. Após a análise dos dados da Veja, que confirmam minha linha de pesquisa, é visível que a substituição do Brasil não é um problema para os grandes mercados consumidores, em particular em razão do crescimento

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do investimento direto estrangeiro na região do Leste Africano, através de aquisição de terras para a produção de alimentos. Isso pode acontecer face ao investimento denso na consolidação de uma plataforma exportadora de café industrializado. Se estivermos almejando uma fatia no mercado internacional de torrado na ordem de 30%, é preciso criar as condições no Brasil, para que os impactos na produção cafeeira brasileira não sejam sentidos e a indústria nacional de fato, possa absorver o ônus das modificações que os grandes compradores de café in natura do Brasil, irão nos submeter. Está na hora do Brasil realizar opções estratégicas para o seu negócio do café. Sem trepidar, é possível afirmar que se o Brasil optar pela agregação de valor via o café torrado, terá de investir muito pesado, para arcar com a substituição do café brasileiro, pelo produzido no Leste Africano. As lavouras lá são incipientes, mas quem trabalha com café sabe que num espaço de três anos, este horizonte é facilmente modificável: basta investimento privado, tecnologia e gente para isso acontecer rapidamente. Aquela região do planeta possui condições edafoclimáticas muito similares às brasileiras, com o diferencial de realmente oferecer ao mundo o apelo Fair Trade. É importante acender a luz amarela, pois em razão dessas condições, a produção de cafés com características muito similares àquelas alcançadas na região do Cerrado Mineiro e o Oeste Baiano, não é algo impossível de acontecer. Se o mundo adquire o nosso café em razão do corpo, lá eles podem, com adoção das mesmas tecnologias e práticas agrícolas brasileiras, produzirem exatamente o que o mercado internacional quer, a um custo de produção bem inferior ao nosso. Uma situação como essa pode acontecer em menos de cinco anos, se o mercado internacional entender que o nosso produto deixou de ser interessante e a nossa concorrência no mercado de industrializados passou a incomodar. Creio que é o momento do Brasil parar e decidir sobre qual caminho adotar para o seu negócio. Não podemos abraçar a máxima do “quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve”. Ou o Brasil investe pesado em verde ou investe pesado em torrado. Definitivamente, pelo tanto que já estudei sobre competitividade internacional de plataformas nacionais, não será possível fazer as duas coisas concomitantemente.

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Reitero: se não houver um investimento sério em planejamento para o negócio do café do Brasil, a cafeicultura brasileira terá que se curvar à história, ao abraçar, com grande pesar, o reencontro do café com suas origens. Mas este é um assunto para o Ministro da Agricultura e o Diretor do Departamento Nacional do Café, à luz da influência dos ácidos clorogênicos.

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68 IN 16/2010 e os princípios constitucionais da Administração Pública Publicado em 24 de abril de 2011 no Portal Administradores

O desenvolvimento de aparatos legais para o fomento da defesa da qualidade do café no Brasil sempre foi um elemento defendido por todos os agentes que compõem sua cadeia produtiva. Esse propósito, tornou-se real quando da publicação da Instrução Normativa nº 16, de 24 de maio de 2010, que foi recebida com grande alegria pelo segmento. Ela trata do Regulamento Técnico para o Café Torrado em Grão e Café Torrado e Moído, “considerando os requisitos de identidade e qualidade, a amostragem, o modo de apresentação e marcação ou rotulagem, nos aspectos referentes à classificação do produto” (MAPA, 2010). A classificação, de acordo com a referida instrução, deve ser realizada em razão da sua identificação (aspectos físicos – se torrado em grão ou moído, teor de umidade máximo de 5% e percentual de impurezas de até 1%, identificados por meio de análise de microscopia) e pela qualidade (qualidade global da bebida, obtida por meioda prova de xícara). O texto legal, possui em seu texto, todas as condições e fundamentos, para garantir ao cidadão brasileiro consuma, de fato, um produto de qualidade, amparado pela ação do Estado brasileiro, que desde a data da publicação da norma, tomou para si a responsabilidade de executar adequadamente a defesa da matéria. O artigo aqui, presta-se a refletir sobre os gargalos que tem impedido que a vanguarda da cafeicultura, impressa no texto desta norma em vigor, de fato o seja. A postergação da execução da norma, fere um importante princípio da Administração Pública, previsto no art. 37 da Constituição Federal brasileira, em razão da Emenda Constitucional nº 19, de 04 de junho de 1998, que é o princípio da Eficiência. Fere, em razão disso, outro princípio, que é o da Segurança Jurídica.

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Aprovada em 2010, a IN 16, que é estratégica para a transição da cafeicultura brasileira para um patamar de competitividade mais arrojado, possui problemas operacionais que colocam em xeque sua execução: a primeira delas, ligada ao credenciamento de laboratórios (atualmente somente um está autorizado, para atender as mais de 1.200 indústrias do país, que processam 19 milhões de sacas de café) e o segundo, o treinamento de técnicos do Ministério da Agricultura, prorrogado para 2013, de acordo informações do Departamento de Qualidade Vegetal, divulgadas em 23 de fevereiro de 2010. Hoje, não existem fiscais treinados no Ministério da Agricultura aptos a executar a norma que trata de café industrializado, embora a norma já esteja em vigor. O princípio da eficiência, de acordo com Maria Sylvia Zanella Di Pietro (2007), diz respeito a um dos deveres da Administração Pública, que tangencia tanto o modo de atuação do agente público (do qual, segundo a autora, «se espera o melhor desempenho possível de suas atribuições”) e ao modo de organizar, estruturar e disciplinar a Administração Pública (“com o mesmo objetivo de alcançar os melhores resultados na prestação do serviço público”). Este princípio preceitua que os serviços públicos, no caso aqui os alusivos ao cumprimento da normativa em questão, sejam oferecidos adequadamente ao cidadão, a fim de salvaguardar os interesses públicos, sem ultrapassar, evidentemente, os limites previstos em lei. Se este o princípio constitucional da Administração Pública tivesse sido levado a cabo no processo de planejamento, certamente, a infraestrutura necessária já estaria à disposição da cafeicultura brasileira, criando conforto e não o desconforto que ora submete o cidadão, que face da lei, à insegurança jurídica. É válido ressaltar que o caráter normativo de um determinado aparato legal não pode ser reinterpretado, face à preservação da segurança jurídica, que é outro princípio constitucional que corrobora com o princípio da eficiência. Vale citar novamente o texto de Di Pietro (2007): «o princípio se justifica pelo fato de ser comum, mas na esfera administrativa, haver mudança de interpretação de determinadas normas legais, com a conseqüente mudança de orientação, em caráter normativo, afetando situações já reconhecidas e consolidadas na vigência de orientação anterior. Essa possibilidade de mudança de orientação é inevitável, porém gera insegurança jurídica, pois os interessados nunca sabem quando a sua atuação será passível de contestação pela própria Administração Pública.” 216


Embora o café não gere problemas graves de saúde pública, como o que acontece no caso dos produtos alimentícios de alta perecibilidade, a IN 16/2010 acena que o hábito de colocar o “carro na frente dos bois” na gestão dos negócios públicos da cafeicultura brasileira, mais uma vez, coloca em xeque a vitalidade de um setor ao longo desse século, que num momento passado, foi estratégico para a construção deste nosso país. O ideal era revogar a norma e republicá-la quando a casa (no caso a infraestrutura) estiver toda organizada para que a lei, hoje no papel, possa ser executada.

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69 O verbo tentar e sua relação com a política cafeeira Publicado em 25 de abril de 2011 no Portal Administradores

O vocábulo tentar, que tomou parte do noticiário especializado em agronegócios na última semana, em razão da Feira da SCAA que se realizará em Houston, na língua portuguesa, é classificado como verbo transitivo, que diz respeito ao emprego de meios para alcançar o que se deseja ou empreende, bem como diligência, tratar de conseguir, intento, atração e sedução. Diz respeito também à experiência, ensaio. Pessoalmente, considero a tentativa, um passaporte para a mediocridade. Remete à tentativa e erro e fundamentalmente, ao insucesso. Logo, este artigo aqui é uma reflexão fundada na minha percepção, consolidada ao longo da minha breve vida. O verbo tentar me remete a uma passagem na minha vida: eu me lembro como se fosse hoje odia em que li meu nome na listagem de aprovados no vestibular em administração da UFMT. Eu passei em segundo lugar geral e corri para casa para contar para todos. Daí meu pai, na sua santa ignorância, de homem com quarta série e com 30 anos de Amazônia, me disse: “Você não fez mais que sua obrigação. Você devia ter passado em primeiro, porque na vida, não há espaço para o segundo colocado”. Eu lembro que eu chorei a tarde toda, mas de posse da experiência de vida que acumulo hoje, posso dizer que a fala dele era uma expressão de realidade que naquele momento eu não compreendi. No mundo, não há espaço para o segundo colocado: ele sempre recebe a prata, pelo consolo de ter perdido a partida. Cada vez que eu tento, eu perco e me torno mediana. Quem tenta, adquire percentuais de acertos e muitíssimos erros, que acabam, como consequência, eliminando os bons resultados. Ao invés de conjugar no cotidiano o verbo tentar, portanto, é melhor conjugar o verbo asserverar,

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que diz respeito a afirmar, assegurar, certificar, declarar. Este verbo remete ao adjetivo assertividade, que diz respeito a fazer bem feito da primeira vez. É um adjetivo que anda casado com o planejamento e a gestão de qualidade, por se tratar de um indicador de minimização do retrabalho. Quem trabalha com café sabe que na lavoura, não dá para tentar. Se o cafeicultor erra em qualquer parte do processo, a qualidade do produto, que é uma decorrência do esforço de um ano de trabalho e que gera o prêmio financeiro pelo investimento de tempo, escorre tranquilamente entre os dedos e vira uma perspectiva para a safra seguinte. Se todos os cafeicultores brasileiros tentassem, apenas, o Brasil não teria condições de afirmar que é o maior produtor e o segundo maior consumidor. Mas porque é que na política cafeeira, apenas se tenta? Esta é uma curiosidade que me aflige. Eu não gosto desse discurso, porque ele me remete ao sentimento de que se está se fazendo algo, para cumprir tabela. A IN 16/2010 é um exemplo clássico do espírito da tentativa que coordena as ações do setor. É como o Centro de Inteligência do Café, a Agenda Estratégica do Café, o Conselho Deliberativo de Política Cafeeira, entre outros que não me vem à memória. Os programas que não tentaram, mas foram assertivos, como o Café & Saúde e o Genoma do Café, foram internacionalmente bem recebidos e difundidos, ressaltando a capacidade do setor. Com mais de 300 anos de tradição, não é possível afirmar mais que a política cafeeira do país está em fase de aprendizagem, sendo tal patamar um reflexo do que acontece no cotidiano setorial. Há algo errado, porque a cafeicultura não tem mais espaço de tempo para tentar. Ou ela faz ou não faz. E este fazer deve-se dar assertivamente, porque é necessário otimizar recursos e espíritos (refiro-me aqui às motivações das pessoas). Espero que ao final da feira, na qual o Brasil está tentando recuperar sua imagem no cenário internacional, o Estado Brasileiro consiga ao menos acenar ao setor que o recurso investido, na ordem de R$ 1 milhão, se converteu no aumento de vendas de café, em pelo menos 0,001%. Vale a pena consultar o Portal da Transparência do Governo Federal para saber quanto desse capital foi gasto em passagens e hospedagens. Alusivo à questão do reconhecimento da marca dos Cafés do Brasil, deixo impresso aqui um exemplo interessante que está sendo desenvolvido no mercado americano, não consumidor de água de coco. Madonna resolveu investir no produto, que passou a consumir em razão do seu affair 219


com Jesus Luz. Ela montou uma empresa nos Estados Unidos que compra água de coco de uma empresa do setor situada no Nordeste. Como o consumidor americano não tem o hábito de consumo, ela está distribuindo o produto gratuitamente aos jovens americanos nas portas das escolas. Já está fazendo isso há um ano e além de criar o consumo, divulga o Brasil. Gisele Bündchen mora em Nova York, em Manhattan. Se não rolar, creio que o Sérgio Mendes com o Black Eyes Peas seria outra opção de valorização de marca, embalada pela obra de Tom Jobim. Ou ainda, numa visão mais divertida de valorização dos Cafés do Brasil, calharia bem o desembolso de recurso para o licenciamento da marca do desenho Rio, para vender café e o Brasil no mercado americano. Creio que ficaria bonitinho o Incrível Café batendo um papo em inglês com as ararinhas.

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70 Bastidores do café nosso de cada dia Publicado em 03 de maio de 2011 no Portal Administradores

O mundo realmente vive de hiatos e histerias. Na sexta-feira, comemorou o casamento real britânico e hoje, segunda-feira, a morte do homem conhecido como o mais importante representante do terrorismo. O primeiro chancelou uma continuidade e não impactou em nada as negociações nas bolsas de mercadorias; tocou apenas os corações com amor e esperança. O segundo fato, por sua vez, além de colocar em xeque a política internacional, proporcionou reflexos muito fortes e positivos nas bolsas de valores de todo mundo. Os papéis do contrato “Coffee C” atingiram suas maiores cotações dos últimos 34 anos. O contrato com vencimento em Maio de 2011 terminou o pregão sendo cotado à US$ 304,25 a saca, registrando alta de 1,610% em relação ao pregão de sexta-feira. A alta registrada entre a abertura e o final do pregão, entretanto, foi de 520 pontos, com negociação de 4 contratos. Já o contrato com vencimento previsto para Julho/2001, encerrou o pregão com alta de 1,865%, com a saca sendo negociada a US$ 305,55, alta entre a abertura e o final do pregão de 525 pontos, com 7.779 contratos negociados. Paralelo ao desempenho do papel do café verifica-se que o preço do papel do contrato “Brent Oil Crude”. O contrato com vencimento em Junho de 2011, registrou queda de 1,04% em relação ao pregão de sexta-feira, sendo que o barril terminou cotado a US$ 123,83. Foram negociados 21.984 contratos. O contrato para vencimento em Julho/2011 também registrou queda na ordem de 1,01%, sendo que o barril terminou o pregão sendo cotado a US$ 123,59. Para este vencimento, foram negociados 4.896 contratos. O café e o Petróleo são os dois contratos mais negociados no mundo. Observa-se que o movimento de negociação no caso do Coffee C é distin-

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to do Brent Oil Crude, em razão do primeiro registrar movimento de mão comprada, enquanto o segundo registra mão vendida. O que isso significa? Enquanto no caso do petróleo observa-se uma histeria em função da morte de Osama Bin Laden em razão desta “gerar estabilidade”, apesar do conflito da Líbia, que é um dos importantes membros da OPEP continuar, o caso do café acena um conjunto de fatores, que envolvem (a) elevação da demanda em detrimento da oferta do café em grão, (b) impactos das chuvas na produção colombiana; (c) registro de baixas temperaturas no Brasil, em razão da frente fria que esfriou os termômetros brasileiros no último final de semana. Evidentemente que o caso do petróleo pode sofrer mutações ao longo da semana, já que os conflitos armados continuam. Ou seja, há possibilidade do preço do barril voltar a subir, assim que os ânimos dos investidores se acalmarem. A economia americana ainda encontra-se em meio a uma turbulência e o conflito na Líbia está longe de terminar. No caso do café, analisando os contratos com vencimentos em 2012, 2013 e 2014, verifica-se que a perspectiva é outra. O que demonstra que em breve, países produtores terão de criar mecanismos para reduzir o impacto da mão compradora, através da elevação da oferta de grãos para o mundo, conforme é possível observar nos dados abaixo (sequência: tipo de contrato, mês devencimento do contrato, preço da saca, ajuste diário): Contrato “C” [KC]

KC

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Mês de

Preço da saca

vencimento

em US$

May 11

304.55

5.20

JUL 11

305.10

5.25

Ajuste diário

SEP11

307.80

5.30

DEC11

310.30

5.50

MAR12

310.40

7.55

JUL12

305.75

7.40

SEP12

299.75

6.90

DEC12

290.85

6.00

MAR13

283.45

3.30

JUL13

281.10

3.30

SEP13

278.20

3.30

DEC13

278.20

3.30

MAR14

278.20

3.30


Uma das pautas que tenho discutido é a questão do planejamento. Evidentemente que as cotações altas são significativamente atrativas para quem produz o grão. Os dados da ICE Exchange acenam que o cenário para os próximos dois anos, pelo menos, é positivo para os produtores, mantida as condições atuais de mercado. Contudo, o cenário de cotações altistas, por outro lado, pode gerar uma desarticulação de estratégias de elevação de consumo no mercado interno brasileiro. Como é de amplo conhecimento, o mercado interno do Brasil, apesar da expansão do consumo de cafés especiais, estimado em 3 milhões de sacas, ainda é um grande consumidor de cafés tradicionais. Esta modalidade de café, que ainda responde por 16 milhões das sacas comercializadas no país, é atrelada a cesta básica, o que pode gerar uma retração de consumo nos próximos dois anos, em razão da alta dos preços do produto, que serão certamente repassados ao consumidor. Ainda que no momento a vedete da promoção do consumo no mercado interno seja a monodose e o consumo desta modalidade em casa, é certo que pelos parâmetros de renda e estilo, tal apelo mercadológico não deve superar a casa dos 27% da população brasileira, o que equivale total de 51.094 milhões de pessoas ou 11.882 milhões de lares (considerando a população consumidora de café no país é de 96% sobre 190.775 milhões de habitantes e o tamanho médio da família brasileira, de acordo com o IBGE é de 4,3 pessoas). Considerando o consumo per capita de 4,81kg/ ano, verifica-se que se houver êxito na estratégia de promoção da monodose, dentro desta parcela da população que possui renda, o teto de consumo seria de 245.762.14 Kg ou 4,096milhões de sacas. Somando tal consumo com as sacas de cafés especiais já consumidas em cafeterias ou no coador, teríamos então um universo de 7,096 milhões de sacas de café especial sendo consumidas no Brasil. Isso acena que ainda restariam 11,904 milhões de sacas consumidas no mercado interno na categoria tradicional ou cafezinho coado, que são consumidos anualmente por 132.050 milhões de habitantes no Brasil. O dado acena que o volume consumido neste sentido é significativamente grande, de forma que a não observação dos parâmetros econômicos, em especial aqueles relacionados à renda e à inflação, podem impactar negativamente no volume do consumo per capita anual nos próximos anos, em razão da população apostar na estratégia de substituição de produto. 223


O que fazer ante tal cenário, que ainda pode se agravar frente a intempéries climáticas (variável não controlável) e uma queda da cotação do dólar (variável controlável, ma que gera vantagem competitiva em termos de comércio internacional)? Haverá café o suficiente para atender o mercado interno? Indo além, haverá café especial o suficiente disponível no Brasil para atender sua clientela cativa? Pessoalmente, observando os números, creio que a indústria de café brasileira irá passar aperto, porque o cafeicultor, a cada dia, fica mais cauteloso. Isso permite afirmar que não são as histerias globais que estão coordenando o pensamento da lavoura, mas sim os números, cada dia mais cruéis, para quem tem na estratégia “mão para boca” uma condição sine qua non para sobreviver. Algo a se pensar.

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71 Especulação no mercado cafeeiro Publicado em 04 de maio de 2011 no Portal Administradores

A prudência é uma qualidade que desde os trabalhos de Baltazar Grácian, similariza-se à maturidade do espírito. Ela, em particular, ensina ao ser humano juntamente com o seu parceiro tempo, a ver além das situações, especialmente números, como os que as cotações do café têm acenado ao longo das últimas semanas. O efeito assemelha-se a um tobogã, que do ponto de vista comercial não é nada divertido. Somente hoje, no contrato com vencimento em Julho de 2011, foram negociados 15.501 contratos, sendo que a análise gráfica indica modificação da mão de comprada para vendida. Isso gerou a desvalorização do contrato na ordem de 3,99% em relação ao pregão do dia anterior, ou seja, se em 03 de maio a cotação final foi de US$ 306,15 para a saca de 60 kg, a cotação final do dia 04 de maio, foi de US$ 294,40, o que significou perda de US$ 11,14 por saca. Dentro do pregão de hoje, a desvalorização acumulada foi de 1.165 pontos. Mas como lidar com o cenário de curtíssimo prazo, que mantém a tradicional instabilidade que faz do mercado cafeeiro um dínamo tão interessante? Primeiramente, pautando-se pelo princípio da prudência, é importante avaliar as motivações que conduziram à retração do papel em menos de 24 horas. Se por um lado há a redução das distâncias entre a oferta e a demanda global de café, levemente realçadas pelas incertezas em torno da safra colombiana de grãos, o comportamento do mercado hoje está mais para um reflexo das tradicionais realizações dos investidores. Nesta quarta-feira, após boatos de problemas derivados de intempéries climáticas no Brasil próximo ao período de safra, aguardados, mas evidentemente não confirmados pelos termômetros em franca ascensão, verificou-se uma debanda-

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da especulativa, o que pode ser considerado normal. Este movimento é tradicional, independente da condição da oferta e da demanda, cabendo ao produtor, observar o melhor momento para negociar o seu produto. É claro que neste momento, é prudente acrescentar, as incertezas em torno da política externa americana, já que praticamente todas as commodities negociadas no mercado americano registraram queda nesta data. Observando a pauta em discussão no Financial Times, principal veículos de notícias econômicas dos Estados Unidos, observa-se a incerteza do mundo frente à confirmação da morte de Osama Bin Laden. Apesar da Casa Branca tê-lo feito em rede nacional, nenhuma evidência cabal foi oferecida ao mundo de que a «caçada» realmente findou. Os Estados Unidos, que é o maior mercado consumidor per capita de café do mundo, vem registrando problemas em sua economia há significativo tempo, o que colocou em xeque a aprovação do governo de Barack Obama, que após o anúncio dos cortes bilionários no orçamento do país, envolvendo inclusive áreas estratégicas, ocasionou perdas expressivas de popularidade e espaço no Congresso Americano.

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72 Carta ao bom-senso cafeeiro mineiro Publicado em 04 de maio de 2011 no Portal Administradores

Um dos projetos mais irritantes do setor cafeeiro mineiro é o chamado Bureau do Café, que é um remake do projeto do Centro de Inteligência do Café (CIC). Mas eu tenho esperança, que com a beatificação do Papa João Paulo II, o juízo volte a fazer parte da percepção dos líderes da cafeicultura mineira do cotidiano do setor. O projeto é irritante, porque é uma chancela a ingerência do erário público, o que contradiz o princípio da gestão para resultados que colocou o Estado de Minas Gerais entre as referências no país na governança da coisa pública. Minas Gerais, ou melhor, a cúpula da cafeicultura mineira insiste em captar mais recursos para financiar um site e um escritório com equipe especializada para a geração de dados estatísticos. Por lógica de planejamento, o ideal e o sensato, é a abertura de concurso público, para a contratação de profissionais para composição de equipe da Fundação João Pinheiro, se for o caso, para que a instituição, que representa a vanguarda mineira no que diz respeito a Minas Gerais, possa suprir a necessidade do setor cafeeiro do Estado. Dois estatísticos são suficientes para o atendimento de toda demanda cotidiana relacionada à pauta do café e eventualmente, se necessário for, no caso de pesquisas mais complexas, a contratação de institutos, mediante promoção de licitação de âmbito nacional, para a execução dos processos. Defendo esta linha, porque a produção de informação estratégica não pode ser relegada a terceiros, porque abre o precedente para a ação especulatória e a interferência e o uso político doserviço, que deve ter total isenção neste sentido, para que a ação de inteligência não seja sujeita aos óbices decorrentes dos interesses políticos, normalmente pessoais. É importante ressaltar que o projeto anterior, o CIC, teve sua

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longevidade comprometida, em razão da terceirização, fundada no estabelecimento de contratos entre o Governo Mineiro e a Universidade Federal de Lavras. Isso gerou um dispêndio de R$ 160.000,00 anuais aos cofres mineiros desde sua criação, recursos esses que se esvaíram, considerando que a desativação do trabalho ocorreu em 07/07/2009. É válido ressaltar que o projeto teve seu lançamento em Julho de 2005 e considerando quatro anos de duração, consumiu nada mais, nada menos, do que R$640.000,00. Evidentemente que tal cifra aos olhos de muitos pode se tratar de um recurso pequeno, mas se o mesmo recurso tivesse sido aplicado dentro da própria estrutura que já existe no Estado, certamente os resultados teriam sido diferentes, com o efetivo cumprimento do papel da área de inteligência especializada em café para com o setor cafeeiro mineiro. Certamente o projeto não teria sido comprometido, pela descontinuidade decorrente dos cortes orçamentários. Isso significa que a adoção da FJP é estratégica para o êxito da gestão pública dos negócios do café em Minas Gerais. É o mais prudente e inteligente em termos de gestão. Que a FJP seja a opção ajuizada da política cafeeira de Minas, estado que aprecia a vanguarda e continuidade de tudo o que faz, em razão do valor dado à tradição que faz toda a diferença. É a opção na qual eu voto por ser a mais transparente e a mais adequada às necessidades do agronegócio café mineiro.

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73 Nota sobre o Bureau do Café Publicado em 13 de setembro de 2010 na Revista Cafeicultura, Portal do Agronegócio Café

Gestão de custos e foco em resultados é um objetivo tanto dosetor privado quanto do setor público. Neste sentido, a criação do Bureau do Café, no foro do Pólo de Excelência do Café significa um investimento desnecessário. Quando estava na Assessoria Especialdo Café da Secretaria de Estado de Agricultura de Minas Gerais, preparava a transição do então Centro de Inteligência do Café para a base da Fundação João Pinheiro (FJP), consagradamente especializada em estatísticas e dados econômicos sobre o Estado de Minas Gerais. Não tive tempo de fazer este procedimento importante, em razão dos “arranjos políticos” que exigem que técnicos tenham como credencial ser parente de cafeicultor. O governo mineiro sem dúvida, não precisa desembolsar nada além do que já investe no quadro de profissionais e estrutura da FJP, para prestar todos os serviços necessários à cafeicultura mineira no campo da produção de informações especializadas. Basta instituir um departamento dentro da Fundação para o fomento do serviço de inteligência que o setor efetivamente precisa para a manutenção da sua competitividade. A transição dos serviços de estatística da cafeicultura para a Fundação João Pinheiro significa otimização de recursos públicos, com inteligência. Apesar de toda a expertise da Universidade Federal de Lavras, em termos de gestão pública, a transferência de recursos públicos através de serviços terceirizados é uma gordura que deve ser extirpada e aplicada em outras questões essenciais, como no caso, assistência técnica.

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74 Os homens alfa, a IN 16/2010 e a gôndola do supermercado Publicado em 12 de maio de 2011, no Portal Administradores

Uma das obras mais esclarecedores que li recentemente foi o livro “O que os homens não contam sobre negócios para as mulheres: revelando os segredos dos homens de negócios bem sucedidos”,de Christopher Flett. O capítulo 4, intitulado “Coisas que motivam os homens nos negócios”, é um tratado relevante que discorre sobre aspectos comportamentais do que o autor denomina de “Homens Alfa”. De acordo com o autor, “os alfas usam basicamente um processo de três estágios para decidir sevão ou não fazer negócios juntos, que envolve visibilidade, credibilidade e lucratividade. Podemos usar esse processo com simplicidade com cada um porque os homens têm entre si um código de honra. Um alfa não sai com a ex de um amigo. Não [fala] mal da família de outro Alfa. Quando oferece a palavra a outro Alfa, assume uma obrigação. Não quebra promessas com os outros. Existe um nível básico de respeito entre eles” (p. 70). Além desses três estágios, o autor expõem outras facetas do comportamento do Homem Alfa, nato em suas inseguranças: (a) quando homens travam guerras entre si a animosidade tem uma expectativa de vida de 12 meses; (b) apoia-se os homens, mesmo que eles estejam mal; (c) vale-se para a sociedade o quanto se ganha; (d) o ego é o segredo do sucesso do homem alfa e também seu calcanhar de Aquiles; (e) ele prefere sobressair-se a encaixar-se; (f) prefere assumir a frente de tudo, mas não necessariamente fazer o trabalho; (g) ataca por baixo sem ser detectado; (h) odeia críticas e ataca se alguém questiona a sua reputação; (i) ou é idêntico ao seu pai ou completamente diferente; (j) está mais concentrado no objetivo do que no processo (p. 71-89). Evidentemente que estes aspectos, não são ensinados nas escolas de

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negócio, onde normalmente as mulheres estudam o que torna esta obra significativamente esclarecedora, na interpretação de situações cotidianas. Por exemplo, uma mera ida ao supermercado hoje e uma observação sistemática da gôndola de café industrializado, pode comprovar em 100% a eficácia desta teoria. Até mesmo quem diz que o outro não atuará mais no mercado cafeeiro, tem seus dias inglórios. Na verdade, o massacre mercadológico é algo dialético, já que expõe as mazelas e abre precedentes importantes para questionamento da eficácia institucional. A ação de um alfa contra outro alfa é sintetizada pelas demonstrações contábeis, decorrente da perda sistemática de cm² em áreas estratégicas de comércio. A compressão, sem dúvida, após um massacre sistemático de 12 meses consecutivos, normalmente, na área de negócios, redunda em assinatura de contrato de vendas de empreendimentos, de forma que o alfa ganhador oferece um prêmio de cinco a dez anos de exclusão do mercado ao alfa perdedor, contratualmente assegurado. A análise da gôndola, portanto, demonstra que a obra sobre a qual discorro é capital para compreensão do ambiente de negócios, especialmente o do competitivo e autofágico mercado de café industrializado. Se hoje é possível escolher-se café pela marca e não pela empresa (a fusão oferece este tipo de inovação ao ambiente de negócios) nas grandes redes, verifica-se que tal condição situacional abre um precedente sobre o desprestígio de alguns elementos normativos recém-adotados pelo Estado brasileiro, como no caso da IN 16/2010. Explico. A padronização industrial gera também padronização de produtos e, por conseguinte, oferece ao consumidor horizontes na área de segurança do alimento. Raramente grandes fornecedores, com fluxos de caixa rentáveis, têm desvios de qualidade em seus produtos ou serviços oferecidos. Na verdade, o que existe é um investimento sistemático na seleção de fornecedores, gerenciamento de suas operações e produção, de forma que os consumidores sempre tenham em mãos o melhor, a preços competitivos. Com os indicadores de concentração de mercado, que no caso do mercado do café estápraticamente concentrado na mão de 04 companhias, que respondem por 75% do mercado brasileiro, a IN 16/2010, perde sua razão de ser. Não há porque se legislar sobre controle de qualidade para uma parcela de 25% de mercado, que tem longevidade questionável. A reversão de posicionamento institucional que se tem assistido é tardia e 231


infelizmente, não atende tempestivamente uma tendência de mercado que já vinha se confirmando há pelo menos 15 anos. A norma, portanto, perde seu caráter de salvaguarda mercadológica e ao mesmo tempo, chancela um gradativo processo de enfraquecimento e extinção institucional que deve se confirmar no mais tardar, em uma década. Certamente, esta última, deixará de ser uma primeira escolha no âmbito consultivo do Estado, entre outros.

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75 De quem é a culpa do Brasil importar café industrializado (T&M)? Publicado em 16 de maio de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café

Thomas Hobbes certa vez escreveu que o “homem é o lobo do próprio homem”. Parafraseando, em função do tema deste artigo, pode-se se afirmar que “a indústria de café é o lobo da própria indústria de café”. Antes de refletir sobre o segmento de café torrado em grão e ou moído (T&M), é importante ressaltar que o Brasil é um grande exportador de café industrializado: não se pode deixar de lado a indústria de café solúvel, que promove a exportação de café com valor agregado pela industrialização desde a década de 1940. O Brasil, observando estes dois segmentos, o de torrefação e o de solubilização, já é, há muito tempo, um dos grandes exportadores de café industrializado no mundo. É por isso que ao contrário do que acontece no segmento de torrado, o solúvel brasileiro, vez ou outra, tem que entrar pesado na defesa de interesses das indústrias brasileiras, por meio da impetração de painéis na OMC. Talvez este segmento industrial não apareça tanto, porque ele é extremamente concentrado, mas mantém seu papel estratégico, especialmente para quem produz conillon em território brasileiro. A questão que talvez venha incomodando um bocadinho é o crescimento da importação de café torrado em grão e ou moído, que no primeiro quadrimestre de 2011, respondeu pelo montante de US$ 12 milhões. De acordo com a SECEX, isso significa um incremento de 233% da pauta em relação ao mesmo período em 2010, o que é expressivo, pois o volume exportado de café pelo Brasil não anda na mesma velocidade. O volume de exportações brasileiras neste mesmo período foi de US$ 6,4 milhões. Como o texto tem no seu título a pergunta que coordena esta refle-

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xão, vamos encontrar o culpado agora. A culpa é do slogan “O Brasil tem de ensinar o brasileiro a beber café”. A notícia ruim para a indústria brasileira de café é que ao que parece, em razão dos números inquestionáveis das importações, é que o processo não vai parar. Em 19 de fevereiro de 2007, eu publiquei no Jornal O Estado de Minas, no Caderno Agropecuário, tratando sobre este assunto. Recordo-me que na época, quando a importação não ultrapassava US$ 1,5 milhão, teve gente que me escreveu dizendo que eu era visionária e que a importação fazia parte de uma estratégia de promoção de consumo, já que o café é igual ao vinho. Este processo, depois da entrada da Illy, ganhou mais força ainda, através do projeto desenvolvido pela ABIC junto com a rede Pão-de-Açúcar, denominado Pacafés. Pode-se se chamar a estratégia hoje de tiro no pé? Pessoalmente, acredito que não, porque a competição é positiva para o desenvolvimento da competitividade industrial. O problema do país não é de mercado, mas de algumas limitações políticas, decorrentes do posicionamento do Estado e de crenças ultrapassadas de alguns elos do setor, no caso, a própria indústria de café torrado em grão e moído, que pensa que é agroindústria. Ministério errado, política errada, resultado da Balança Comercial mais temerário ainda. Café é uma especiaria semelhante ao vinho e se não fosse este raciocínio, certamente, o país não assistiria o espetáculo da qualidade que hoje assiste que é decorrência de uma vontade setorial nacionalmente consolidada. Quem introduziu no Brasil a discussão sobre a qualidade, foi um industrial italiano, Ernesto Illy. Os brasileiros, não perderam tempo e começaram a promoção desse processo em São Paulo. Começou a discussão em torno da produção do cereja descascado, do desmucilamento, da normatização para garantir padrão mínimo de qualidade. Daí devagarzinho, aquilo que era uma tendência paulista, começou a ganhar força em Minas Gerais, em particular na região do Cerrado Mineiro, que rapidamente reestruturou sinergicamente os produtores cooperados, criando o CACCER, onde o marketing de origem tinha o seu maior representante. O Estado de Minas Gerais ao perceber o êxito na experiência, em 1996, iniciou o processo do Certiminas, que ganhou expressividade durante a gestão de Célio Gomes Floriani, então diretor do Instituto Mineiro de Agropecuária. Logo, importantes estados produtores como Paraná, Espírito Santo e Bahia, passaram a desenvolver programas estatais voltados ao assunto. Em 2002, 234


a APEX-Brasil entrou no jogo e começou em parceria com o Sindicato da Indústria de Café do Estado de São Paulo, o processo de promoção da exportação de café industrializado (modalidade torrado & moído), que acabou se tornando nacional. Programas de certificação privados nacionais e internacionais de terceira parte começaram a ganhar força no cenário nacional e o consumidor brasileiro começou a tomar um café que antes só podia ser consumido além-fronteira. As cafeterias emergiram e a profissão de barista migrou da Europa para o Brasil. É a qualidade do café brasileiro, que sem dúvida, ainda mantém o Brasil na dianteira e que garante que o país seja o segundo maior mercado consumidor do mundo. No que tange aos interesses do segmento produtor e exportador, portanto, tudo vai bem. A importação neste sentido é uma consequência de posicionamento de multinacionais que preferem investir em estratégias de canal diferenciadas, como a criação de lojas próprias, as cafeterias ou boutiques. Esta não é só uma tendência da Nespresso. Antes dela, Illy, Lavazza, Segafreddo Zanetti, Delta e Starbucks já ditavam um estilo de consumo de café. Historicamente, viajando lá atrás ainda, pode-se dizer que o fenômeno do consumo de café fora de casa, em cafeterias, vem desde o Cairo, no século XIV. O Egito foi o primeiro lugar do mundo a consumir café proveniente do Iêmen. A questão a se observar aí, é que as condições do mercado nacional para indústrias, continuam fazendo com que o investimento direto estrangeiro seja mais vantajoso dessa forma, do que por meio de implantação de plantas industriais perto do suprimento de café verde brasileiro. Acredito que a questão do controle de qualidade dos produtos conjugado com as fronteiras livres para o comérciointernacional sejam os principais motivos. Como mudar esta questão no Brasil? Creio que a indústria de café brasileira perdeu sua grande oportunidade de barganhar aparatos legais que contribuíssem para a sua competitividade, durante a gestão do Governo Lula. O segmento era o que detinha a maior proximidade com a presidência da República, em razão do então vice-presidente da república, José de Alencar (in memorian). Há a necessidade da importação de café verde, sim. Mas há uma necessidade muito maior que é o investimento na expatriação de companhias nacionais, com subsídios do BNDES. No curto prazo, é o que se deve fazer. Aproveitar o MERCOSUL neste sentido pode ser uma alternativa, especialmente em tempos de discus235


são de Sistemas de Preferências Comerciais na União Européia, que prometem colocar o Brasil e a China fora do tabuleiro das exportações de produtos com alto valor agregado. A participação brasileira no mercado de café industrializado com tal aprovação de barreiras e a retração da economia americana, só tende a despencar ainda mais. A solução então é a importação de café in natura ou o aumento de produção, portanto? Pessoalmente, considero que hoje, com as condições de infraestrutura e fiscalização que o país tem, dada a dimensão da cultura cafeeira no território, é sensato produzir mais, sob a pena de retração expressiva nos preços da saca produzida pelo cafeicultor, do que autorizar a importação. A IN 16/2010 infelizmente é um exemplo de que o Brasil, na área de café, não está preparado para dar um passo tão importante, que é a abertura de suas fronteiras para a entrada de café verde. O preço desta ineficiência na infraestrutura é assistir, por enquanto, o desequilíbrio da Balança Comercial. Este olhar certamente desagradará alguns segmentos, mas ele é cauteloso. Uma abertura de mercado dessa natureza exige: (a) construção de laboratórios especializados em regiões portuárias e fronteiriças; (b) credenciamento de laboratórios no território nacional; (c) contratação de pessoal através de concurso público (fiscais sanitários); (d) treinamento de profissionais do Ministério da Agricultura, Receita Federal, Polícia Federal, Força Nacional e Exército para atuação em portos e fronteiras nacionais (como todos sabem, a Bolívia, o Peru, a Colômbia e o Equador são produtores e com tal ação, evitar-se-ia a entrada de café esquentado dentro das fronteiras nacionais. Isso também evitaria a entrada de outras mercadorias não desejadas também, como entorpecentes); (e) dotação orçamentária; (f) aparato legal regulando a questão (item mais fácil e barato de se fazer); (g) consolidação de procedimentos burocráticos para o controle (rastreamento de produtos on-line); (h) nenhuma gaveta por perto (para evitar engavetamento da norma, evidentemente). Este último item o problema mais sério que inviabiliza a competitividade no país, atualmente. No caso do aumento da produção do café, basta realizar projeções estatísticas entre oferta e demanda no prazo de 10 anos, selecionar a espécie (se arábica ou conillon) e as variedades mais resistentes a impactos climáticos como a seca e definir a área a ser implantada em cada região produtora do país. Este processo é mais fácil, porque o investimento é 236


menor e transfere a responsabilidade do Estado para o produtor e não gera impactos orçamentários expressivos, exceto no campo do financiamento do plantio, colheita e endividamento. O que já é trivial na gestão política do agronegócio café brasileiro: modelo de governança política ceteris paribus, portanto. Voltando a Thomas Hobbes, percebe-se que a indústria de café paga e deverá pagar, para continuar a viver em comunidade, sob os limites do contrato social historicamente estabelecido. O saldo a descoberto da Balança é apenas um sintoma claro disso.

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76 Da segmentação dos dogmas de fé ao pragmatismo político na cafeicultura Publicado em 22 de junho de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café

Após a leitura de matérias sobre a participação do vice-governador mineiro, Alberto Pinto Coelho, durante a última edição da Expocafé, confesso que fiquei muito interessada em conhecer mais sobre “Nossa Senhora dos Cafés do Brasil”. Eu sou devota de Nossa Senhora e resolvi saber mais e até comprei o livro que conta o legado da devoção do Brasil. A autora sugere inclusive a criação de uma ecorreligião, que valorize a devoção a uma planta, muito importante para o país. Entrei até na loja virtual, que vende itens alusivos à imagem. Há de se respeitar os ritos e os dogmas do catolicismo, muito mais profundos e que tocam profundamente a fé, o sentimento, o espírito, em detrimento de pontual interesse de mobilização política ou ação mercadológica. Por uma questão constitucional, o Brasil garante a liberdade de culto, assim como garante a liberdade de expressão, entre tantas outras liberdades, atestadas no art. 5º da Carta Magna. Logo, se o setor cafeeiro eleger uma rocha e começar a rezar para ela, ninguém irá contestar, desde que feito com um mínimo de dignidade e não fundamente discursos políticos que tradicionalmente não levam a lugar algum. Sugiro que se o setor de fato pretende levar a cabo tal devoção, especializada em café, que ele tome o cuidado de contratar um teólogo marianista e um advogado especialista em Direito Canônico, para fundamentar o culto de hiperdúlia, que diz respeito ao tributo que se faz à “Santíssima Virgem Maria, em nome da sua dignidade de Mãe de Deus e

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por suas excelsas virtudes” (Quirós, 2011). Isso é sinônimo de respeito. De rigoroso respeito. Este cuidado é fundamental, inicialmente em razão do respeito ao disposto nos artigos 1186 a 1990 do Código Canônico, aprovado em 25 de janeiro de 1983, durante o 5º ano do Pontificado do Papa João Paulo II. Por exemplo, estão vendendo água benta, sendo que esta se trata de uma dádiva, de uma relíquia dada ao povo pelo Pai, via as mãos daqueles providos do dom sacerdotal. Além disso, tal cuidado é crucial, para a valorização dada de forma adequada de um dogma da Igreja Católica, valorizada em vários documentos eclesiásticos, dentre eles, a Carta Encíclica Supremi Apostolatus Officio de Sua Santidade o Papa Leão XIII, que versa sobre a importância de Maria para o catolicismo e ressalta a incontestável relevância do Rosário Mariano, como um mecanismo “instituído contra os heresiarcas e contra o serpear das heresias”, tratando-se de um importante ícone no processo de fomento da fé católica. Como se pode cultuar Nossa Senhora, sem o rosário? Pessoalmente, considero que o setor cafeeiro deveria reduzir o tamanho do seu salto e voltar-se um pouco à realidade, voltando-se de fato à tradição. Não fará mal; aliás, permitirá que as mãos de Deus continuem a abençoar a todos com safras cada vez melhores. Escrevo tudo isso porque noto que as lideranças políticas do setor, que definitivamente estão a cada dia corroborando para a sua bancarrota, não tem noção de limite. É preciso separar as coisas, a política, da fé. O Estado e os representantes do Estado devem ser laicos. O culto a Nossa Senhora deve ser reservado, não mote de palanque, porque se trata de uma heresia sem precedente e acena que apesar do país estar no século XXI, as bases fundamentais da política cafeeira em nada evoluiu. Algo que é digno da nossa indignação. Uma política laica age dentro dos rigores da lei e busca sempre o melhor para o seu povo e ela não tenta ser carismática, tocando a fé dos cidadãos, até mesmo porque o país vive em franco processo de ascensão da diversidade de culto religioso. Uma política laica trabalha para frente e não fica reinventando a roda, como relançando todos os anos Frentes Parlamentares do Café. Uma política laica reage, quando Ministros do Supremo Tribunal Federal comparam o café à maconha, para argumentar a favor da Marcha da Maconha. Uma política laica é rápida frente à execução de projetos fundamentais, como a IN 16/2010 e discute sem medo, programas sistê239


micos de geração de competitividade para o país, investindo pesado em programas de certificação públicos, salvando suas pequenas e médias indústrias de café e valorizando a comercialização de café com valor agregado pela industrialização. A política laica vende “made in Brazil” e valoriza a presença desta frase em suas embalagens em qualquer canto do mundo. O político inserido nesta lógica de Estado valoriza a razão e não move a emoção, porque por natureza, é um apreciador de resultados, coisa que o setor cafeeiro não vê há muito tempo. Ele não se magoa quando é pouco citado em discursos, porque sabe da sua relevância e se preocupa em buscar alternativas inteligentes para dar os resultados necessários, a fim de que a visibilidade setorial alcançada no terceiro quarto do século XX seja retomada, quando internacionalmente, café e Brasil eram praticamente sinônimos. O político do Estado laico, portanto, não vive de passado: ele pára, planeja o presente e mira o futuro com os olhos de águia. Isso não significa que ele abra mão em intimidade, de pedir as bênçãos espirituais, a fim de que iluminado pela sabedoria divina, ele consiga realizar um trabalho que beneficie somente e tão somente, a sociedade que nele confia.

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77 O risco e a competitividade internacional do café industrializado Publicado em 27 de junho de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café

Tornei-me uma apaixonada pela Administração Pública e por tudo o que está relacionado à política e ao Estado, a partir do instante que compreendi que o desenvolvimento, a competitividade setorial, a qualidade de vida de um povo e a dignidade das pessoas dependem de bons marcos regulatórios e de bons gestores, capazes de implantá-las. O artigo da Dra. Sylvia Saes e do Pesquisador Bruno Varela Miranda merecem um comentário afirmativo neste sentido. De fato, é preciso aumentar a exportação de café torrado e moído. Isso é tão inquestionável quanto à necessidade do plano de safra no país e a presença ostensiva do Brasil nos fóruns de negociação agrícola dados no foro da OMC. Ocorre que há uma distância evidente entre os esforços do Estado e Institucional e o esforçoempresarial, que precisa ser reduzido, a fim de que o objetivo, que é o incremento da exportação de café brasileiro, na modalidade torrado e moído, ganhe incremento e torne-se item representativo na Balança Comercial Brasileira. A distância à qual me refiro pode ser resumida numa única palavra: risco.Como o Brasil é um país democrático, a partir da Constituição Federal de 1988, a presença de conselhos público-privados na estrutura do Estado tornou-se um elemento importante, no campo do apoio da tomada de decisão estratégica das ações da União. Um exemplo neste sentido é o Conselho Deliberativo de Política Cafeeira – CDPC, sobre o qual, já faz um bom tempo, não se ouve falar. Conselhos como este têm a função de dizer ao Estado quais são as prioridades do setor e quais as diretrizes estratégicas que a administração pública deve adotar, a fim de atender com eficiência, os anseios apresentados.

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No campo da exportação de café torrado e moído, é visível que o segmento não aposta no risco de se tornar a maior plataforma de café no mundo. Há interesses envolvidos, não apenas do ponto de vista do mercado interno, como por exemplo, a alegação de problemas fitossanitários, mas também de cunho econômico, como a possibilidade de quebras de contratos de exportaçãode café in natura. O sentimento observado na gestão, neste campo, é o de cautela. O alinhamento dos olhares institucionais é que ditará para onde o setor irá. Quando se avança para a esfera dos marcos regulatórios, ainda dentro do âmago do Estado, observa-se os problemas com a burocracia ou a falta de acuidade com a busca da eficiência. Um exemplo importante e que certamente pode influenciar a questão da exportação do café, é a IN 16/2010. Se tudo correr bem, em 2013 ela se tornará um marco efetivo. Cito este documento em razão de sua relevância para o desenho de estratégias de internacionalização, por se tratar de instrumento facilmente harmonizável com normas de mercados compradores importantes, como o Europeu, que possui exigências técnicas elevadíssimas em relação a outros mercados consumidores. Na arena do esforço empresarial, o setor cafeeiro, na contramão de outras cadeias produtivas brasileiras, tem registrado um incremento significativo de Investimento Direto Estrangeiro, através de fusões e aquisições. Entretanto, é certo que cabe ao setor inverter a mão, adotando procedimentos já bem-sucedidos em outros segmentos, por meio da aquisição de plantas industriais em mercados considerados estratégicos para o segmento. Este, considerado um horizonte de cinco anos, certamente é o caminho mais curto para otimizar as exportações de café brasileiro torrado e moído. Assumir riscos neste campo depende de planejamento estratégico e apoio do BNDES, apoio este já adotado por outros segmentos, ressalta-se. Não se trata de exportação de empregos ou do adiamento do projeto de alavancagem das exportações de café torrado e moído a partir de solo brasileiro, mas do aumento da presença de uma indústria importante em território estrangeiro, erguendo a bandeira brasileira. No campo das importações, a questão depende apenas de ajustes no marco regulatório, através de impetração de barreiras técnica e tarifária. Um modelo para a configuração de uma reserva do mercado nacional seria o estudo do sistema da Cota Hilton, que define quanto de cortes 242


nobres de carnes brasileiras podem entrar nos Estados Unidos. Países desenvolvidos, por natureza, defendem suas indústrias nacionais, adotando procedimentos desta natureza. Algo para se pensar por aqui tanto quanto na promoção internacional do café brasileiro além-fronteira.

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78 Novos fatores de impacto no mercado interno de café Publicado em 29 de junho de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café

Frente à eminente fusão do Grupo Pão de Açúcar com o Carrefour, ampliando a concentração do varejo brasileiro e a respectiva presença do Investimento Direto Estrangeiro (IDE) no mercado interno, resta estabelecer uma análise sobre os desafios que a indústria de café terá pela frente, nos âmbitos institucional e comercial. A eleição da ABIC trouxe vários fatos novos: o primeiro e o mais grave na minha percepção foi a drástica participação da indústria de café mineira na composição da chapa para a diretoria, que vai na contramão histórica da composição de diretoria da instituição. A segunda, sem dúvida, grave também e que possui tom de guerra comercial, é a saída da Sara Lee e do Café Três Corações, as duas maiores companhias do segmento torrefador nacional do quadro da instituição. A ausência da indústria mineira é um sintoma muito sério de mortandade de companhias e falta de diálogo, num mercado que comporta o segundo parque torrefador do país e que certamente responde por 25% do quadro de associados da ABIC. Apesar do diretor anterior não ter apresentado à comunidade cafeeira um balanço dos seus dois mandatos, o que se fazia necessário, frente aos impactos que este período de governança trouxe para o setor, é certo que a ausência de sua marca do mercado da capital e a má qualidade virtual na apresentação institucional dos dois sindicatos de indústria de café que ainda dirige indica que a indústria de café mineira está na UTI e que definitivamente, assistirá nos próximos anos, uma mortandade drástica do seu parque torrefador. Mais do que a necessidade de articulação institucional interna, o Estado de Minas Gerais, ao

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contrário do vizinho, Estado de São Paulo, não possui políticas consistentes para oferecer suporte à sua indústria. Enquanto deputados mineiros vão à China, a indústria torrefadora mineira falece em meio a um silêncio ensurdecedor e que tende a piorar, em razão das pressões que se desenham em relação à concorrência e às pressões que devem se intensificar, vigorosamente, do varejo. Ao passo desta questão, é visível que a saída de dois gigantes do quadro da ABIC coloca em xeque os programas da instituição. Há muito tempo discorro sobre o fato do consumidor preferir preço. Hoje, nesta análise, incluo a questão da fidelidade de marca. Se as duas maiores companhias se desligaram do único ponto de conversação forte da indústria de café brasileira, o segmento associado precisa se associar, porque as duas, sozinhas, possuem orçamento suficiente para direcionar o mercado consumidor para onde desejarem, sem qualquer preocupação em relação ao rumo institucional que o setor adotará. Hoje, a cada vinte embalagens de café disponíveis numa gôndola de supermercado mineira, em média, pelo menos 15 são de uma das duas marcas, o que mostra que o Selo ABIC, apesar de ser importante na percepção do consumidor, não impacta mais na decisão de consumo de produto. Numa possível guerra de marketing contra marketing, vencerá quem possuir o orçamento maior. Pessoalmente, considero que as duas levam e tem capacidade financeira suficiente para produzir um efeito dentro do mercado interno de café, que pode no médio prazo, corroborar para a extinção da mais tradicional representante indústria torrefadora nacional, por falta de associados. Na última semana, o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Fernando Pimentel, foi entrevistado pelo programa Conta-Corrente, da Globo News, e durante sua fala ficou explícito o interesse da defesa da indústria nacional. Considerando que há participação da indústria de café na Confederação Nacional da Indústria e nas Federações de Indústria em todos os Estados da federação, é chegado o momento do setor realmente parar e virar-se para o Governo Federal e exigir políticas de Estado específicas. Um setor que responde por mais de 19 milhões de sacas processadas, não pode ser deixado ao léu. Ele é estratégico para a sobrevivência e a lucratividade de toda a cadeia produtiva, especialmente, a produção, que tem no mercado interno, certamente, um bom porto seguro.

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79 Coalizão política e café Publicado em 06 de julho 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café

O Fórum do Café merece uma análise bastante acurada do ponto de vista político, em razão do desenho que este, a partir desta data, 05 de julho de 2011, recebeu do Governo do Estado de Minas Gerais. De antemão, é um trabalho de coalizão política, que envolverá mais de 400 municípios produtores mineiros, além de instituições tradicionais no âmbito da discussão de atividades vocacionadas ao agronegócio café no Estado. Remete-me a um modelo de ouvidoria com ares de assembléia de cooperativas, o que oferece uma grande proximidade do cotidiano da lavoura com o gabinete do Governador, Antônio Anastásia. No âmbito da política cafeeira estadual, ao que parece, trata-se de prática inovadora. Em razão desse formato, ela também se torna uma prática de altíssimo risco político caso os parceiros, responsáveis pela gestão do canal de comunicação com as bases, sejam mal escolhidos, o que pode ocasionar perda de energia tal, que sacrifique alguma perspectiva relacionada à reeleição. A aplicação do conceito de clusters, para a coordenação desse modelo de governança pública, pode ser útil. Evidentemente, que no âmbito do Fórum, algumas arestas necessitarão ser aparadas. Creio que a mais relevante, embora o representante da indústria de café de Minas se fizesse presente durante o evento, esteja relacionado à questão do setor industrial mineiro. Interessante foi ver Dorothéa Werneck caminhando para a mesa do café, praticamente desacompanhada, enquanto da diretoria da indústria descia a rampa. Sinceramente, calharia bem à indústria mineira divulgar quanto de café torrado a mais e quantas indústrias mineiras de café deixarão de fechar suas portas, depois que a representação institucional do setor, passou a incentivar as últimas ações do Estado, tais como o Pólo de Excelência do Café. 246


Caso não haja interesse pessoal na pauta atual [novas indústrias para Minas], evidentemente que o setor deveria ter se mobilizado antes do evento e dissuadido o Governador da idéia de captar novos empreendimentos industriais para o Estado em detrimento de criação de políticas de desenvolvimento industrial, que valorizassem o parque torrefador já existente. A idéia de captar novas indústrias de café para Minas Gerais, no segmento de torrado em grão e ou moído e solúvel, ao que parece, é um movimento que gera visibilidade política, mas que na prática, sacrifica o trabalho de quem já vem batalhando no cotidiano, para manter seu negócio em funcionamento e gerar renda e manter empregos de mineiros, dentro desse segmento da cadeia agroindustrial do café. É importante salientar que o estudo produzido pelo INDI em 2005, que é o documento que fomenta este argumento do Estado de captar novas indústrias de café para território mineiro, não se aplica mais a realidade de mercado, cada dia mais concentrado, com níveis de autofagia surpreendentes. Neste campo, o Fórum do Café, já nasce dando um tiro no pé, no caso, nos pés dos industriais de café mineiros. Rever esta perspectiva, ao que parece, portanto, é crucial e saudável.

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80 Convênios institucionais e cafeicultura Publicado em 12 de julho 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café

Comumente, verificam-se algumas dúvidas entre cafeicultores sobre a compreensão da dinâmica de funcionamento dos convênios institucionais. A título de exemplo, tem-se a dúvida da cafeicultora Maria das Graças Douglas, que tem sua propriedade na cidade de Raul Soares, externada através de uma rede social brasileira. O pertinente questionamento dessa senhora e que me chamou a atenção, diz respeito ao fato dela ainda não estar recebendo ágio de preço em seu café, que é certificado pelo Programa Voluntário de Certificação de Propriedades do Estado de Minas Gerais, o CERTICAFÉ. Segundo ela, a ABIC – Associação Brasileira da Indústria de Café não tem feito o seu papel. A primeira coisa que cabe compartilhar sobre a questão, é a compreensão de que os acordos institucionais público-privados, na verdade, prestam-se apenas para duas coisas: (a) articulação política e (b) estímulo para o desenvolvimento econômico e social, em razão das portas para negócios que cria. Os convênios, portanto, são atos políticos que imprimem a visão de quem está com a caneta na mão, em relação a uma perspectiva de desenvolvimento. Trata-se de uma estratégia de governança estatal, com apoio formal das instituições setoriais envolvidas. Tudo o que extrapola esta ferramenta de gestão pública, torna-se assunto de iniciativa privada, não de Estado. Ao Estado cabe apenas, a criação das condições de investimento e desenvolvimento, podendo ou não envolver o segmento privado, para quem ficam os custos e os benefícios. Comumente, isso se dá através do estabelecimento de aparatos legais. Ou seja, a adoção das benesses decorrentes destes acordos institucionais, que redundam em leis, por sua vez, depende do interesse da iniciativa privada, que se funda no planejamento estratégico de cada empresa, porque tradicionalmente cada ação demanda investimento finan248


ceiro, gerando custos e gastos. Isso vale para produtores, vale para indústrias, vale para serviços. Logo, um acordo firmado entre a ABIC e o Estado de Minas Gerais, como aquele que a cafeicultora expõe em sua dúvida, abre portas para negócios, mas não necessariamente obriga as companhias torrefadoras e de solubilização a adquirirem o produto certificado pelo sistema e tampouco, a utilizarem o selo que representa o programa, em suas embalagens. Ainda assim, o investimento em certificação, é líquido e certo, independentemente das condições de mercado no curto e no médio prazos. E isso vale para toda a cadeia de custódia do agronegócio café brasileiro, não importando o porte do empreendimento rural, industrial ou comercial. Observando a questão da certificação em si, levando-se em consideração a tendência de expansão do consumo de cafés especiais no país e a dinâmica do mercado cafeeiro global num horizonte de uma década, a adesão a programas de certificação torna-se um imprescindível estratagema para a aquisição de competitividade, com oferta de vantagens competitivas ao mercado. Vantagem competitiva diz respeito a uma ou mais características de negócios que não podem ser facilmente copiadas pelos concorrentes, enquanto à competitividade, um estágio do negócio que lhe permite competir entre os melhores no ambiente de mercado. Quem está certificado, já está globalmente inserido. Mas se houver o interesse em certificação e houver também uma perspectiva de retorno de investimento limitada, tipo safra subsequente à recepção da certificação? Antes de certificar, é preciso planejar, porque se faz necessário compreender que dependendo do programa de certificação adotado, a rentabilidade almejada pode não ser imediata. A certificação no meu entendimento deve ser decorrente da maturidade do negócio, ou seja, um investimento realizado quando a companhia ou a propriedade já é economicamente sustentável. O apontamento relevante neste caso é utilizar o bom-senso, estudar o mercado e planejar: a certificação deve ser uma benesse, não uma dor de cabeça, pois ela deve ser tratada, como disse, como um investimento empresarial para a geração de uma vantagem competitiva do negócio. Como o CERTICAFÉ é um programa público, o importante é que o setor, dado o andamento do processo, consolide-o como um benefício

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apolítico e que tenha plena continuidade, independentemente de transições de governo. Digamos que se trata de uma precaução recheada de mineiridade. E desconfiança em relação a um terreno tão instável quanto o terreno político é uma medida de exímio bom-senso. Atualmente no território mineiro, os ventos estão favoráveis, apesar das massas polares que estão trazendo leves geadas para a maior região produtora de café do país, o Sul de Minas. O evento no Palácio Tiradentes, no último dia 05, imprime tal tônica, dado que agora é o Governador e o Vice Governador do Estado de Minas Gerais, que coordenarão o Fórum da Cadeia Agroindustrial do Café. Ou seja, o céu é de brigadeiro e todos os líderes estão dentro de um único Embraer, buscando pousar na bem-aventurada meta da sustentabilidade da cadeia produtiva. Pela primeira vez, em anos, os cafeicultores de Minas estão sobre a mesa do chefe do governo mineiro, sendo assunto efetivamente de prioridade. Em gestões anteriores, a cafeicultura já tinha sido alçada a Projeto Estruturador do Estado, mas não dentro das mesmas condições atuais. Aos selecionados para representarem o setor no Fórum, fica a responsabilidade de assumirem a função, sem pensarem na quantidade de paraquedas disponíveis dentro da máquina, que porventura, no futuro próximo, possam ser requeridos para salvaguardar interesses políticos individuais. A oportunidade é tão única, que envolve um risco político extraordinário, do governador, logicamente. É certo que no Estado onde o 21 de Abril é comemorado com tanta pompa, o sacrifício individual em benefício da coletividade torna-se coisa corriqueira. Algo para se refletir.

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81 Nota sobre o Sou Agro e o Efeito China Publicado em 19 de julho 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café

A campanha “SOU AGRO”, lançada pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agribusiness traz um alerta bastante sutil para o agronegócio café. O setor, desta vez, foi salvo pelo café-da-manhã, que é um substantivo mais popular para o desjejum ou a primeira refeição do dia. Não se trata de falha no roteiro estrelado por Giovanna Antonelle, porque na fala da mídia, estão presentes apenas os segmentos patrocinadores do projeto: leites e derivados, soja, algodão, celulose, etanol, suco de laranja. Frio, último artigo publicado na Folha de São Paulo pelo Dr. Roberto Rodrigues, talvez nos conduza pela mão a um ambiente onde o cafeicultor e quem trabalha com café só se lembre de proteger tudo o que é mais relevante, quando mais nada há a se fazer. Quando a morte já tomou conta e tudo o que era amado já se foi. Até quando a política cafeeira brasileira será a geada que acaba com as expectativas e os sonhos das pessoas e com as possibilidades reais de construir uma plataforma competitiva para este setor tradicional da economia brasileira? SOU AGRO e FRIO, me fizeram pensar profundamente sobre muitas coisas. Talvez, porque a geada mais forte que o setor enfrenta não seja a climática, mas seja a ausência efetiva de projetos de longo prazo, que conduzam o país a patamares de competitividade tais, que não dilacere um contribuinte importante para a pauta econômica da pequena e média agricultura. O café é um grande gerador de renda e emprego, em qualquer parte do país. E não se ponderar sobre a cafeicultura, a partir desta perspectiva, que exige mudanças profundas na forma de governança e na mente das lideranças, dentro de pouco tempo, será tido como crime de lesa-pátria, porque a caneta de alguns define a trajetórias de milhões. É o

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único setor agroindustrial do país, com fundo financeiro próprio, o que gera muita mágoa quando se percebe que por ingerência política, o setor não está participando de uma campanha de marketing estratégica e relevante como esta que está em curso. Notem que se no âmbito de uma campanha publicitária de R$ 15 milhões de reais, o setor cafeeiro inteiro não pode entrar com 10% deste valor, é sinal que algo está errado. Muito errado. Este é o sinal que está na hora das boas e velhas lideranças aposentarem as chuteiras ou melhorem os graus dos seus óculos, porque a falta de visão é indigesta demais, para quem insiste em bater no peito que no Brasil está o melhor café do mundo. Esta falta de atenção, por sua vez, conduz-me a ponderar sobre outra questão que está em voga no setor, que é o ressurgimento das discussões em torno do Efeito China no âmbito da economia cafeeira. Uma viagem que merece reflexões, do ponto de vista técnico. É necessário cautela e pés no chão em relação a tal questão, especialmente no que diz respeito a produtores situados na Região Centro-Sul do país, em particular no caso de Minas Gerais, onde este assunto está quentíssimo na esfera política. Explico. Estou em Rondônia agora, estado que ocupa a segunda posição no ranking nacional da produção de Café Conillon e que fica na divisa com países produtores de café arábica importantes, como a Bolívia, o Peru e o Equador e muito mais perto da Colômbia e da Venezuela, país para o qual a EMBRAPA CAFÉ está vendendo tecnologia. Rondônia também fica ao lado do Acre, estado brasileiro, onde começa a rodovia Transoceânica, que passa pelo Peru e chega ao Oceano Pacífico. Pensando na lógica chinesa de se fazer negócio, advinha com quem os chineses negociarão para comprar todo o café necessário para atender o seu mercado emergente e que é demandante cada vez mais de cafés especiais? Tenho plena convicção que o Conillon Sustentável de Mato Grosso, Rondônia e do Acre ficará uma delícia com os arábicas bolivianos, peruanos, equatorianos, colombianos e venezuelanos, cultivados em altitude, em terras vulcânicas, colhidos a dedo e secos em terreiros suspensos. Será um café com apelo Fair Trade fantástico, que irá retirar a competitividade de parcelas importantes de mercado da produção brasileira. Se eu fosse chinesa, certamente era este o café que gostaria de 252


comprar: ele será ótimo do ponto de vista sensorial e muito mais barato, em razão da logística. Logo, um investimento do setor na campanha do SOU AGRO, que é voltada para a valorização de diversas cadeias produtivas no contexto do mercado interno, seria uma ótima idéia. Isso permeia também o encontro do consenso político em torno da chamada política industrial, tema de um próximo documento.

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82 Sobre a essencial política cafeeira – Parte I Publicado em 19 de agosto 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café

Aguardei nos últimos dias, o manifesto setorial em torno da carta encaminhada pela presidenta Dilma Rousseff ao recém-eleito Diretor Executivo da Organização Internacional do Café, Robério Silva, por ocasião de sua eleição e que está publicada em bom português no site da organização. Assim como também aguardei manifestos sobre as propostas que ele apresentou, quando da sua candidatura. Como ninguém o fez, estou aqui aproveitando a oportunidade, para compartilhar minhas impressões sobre todas as coisas boas e relevantes que li. Para tal, estabeleço aqui uma análise reflexiva sobre os apontamentos da Presidenta da República Federativa do Brasil e a proposta de trabalho submetida pelo então candidato, Robério Silva, à apreciação do Conselho da Organização Internacional do Café. O texto será publicado em duas partes, em razão da necessidade de atender o padrão editorial e ao mesmo tempo, permitir ao leitor a degustação das ideias aqui dispostas. Análise da carta enviada pela Presidência da República à Robério Silva: A eleição por aclamação do Sr. Robério Silva foi decorrência de ampla articulação diplomática brasileira junto ao corpo aos membros da Organização, o que permitiu que já de pronto, Silva garantisse a posição com um apoio de pelo menos 80% dos membros da instituição (países produtores e consumidores). O apoio da Presidenta da República, expresso por meio de sua carta, é extremamente significativo, não apenas por ser a Chefe de Estado do Brasil, que é o maior produtor e exportador de café do mundo, mas também por ser a terceira mulher mais influente do planeta, de acordo com a Revista Forbes (EUA). 254


Após os cumprimentos ao diretor recém-eleito, ela externa a relevância da eleição para a estratégia de fortalecimento da imagem do Brasil no cenário mundial. Ao mesmo tempo, reforça a participação do Governo Brasileiro na reaquisição de um posto estratégico para a cafeicultura do país, “após interregno de 11 anos” (ROUSSEFF, 2011). Este manifesto merece atenção especial, porque o café ainda continua sendo a nossa marca registrada lá fora, embora se trate de produto in natura, que remete a uma imagem de plantation. Contudo, ao externar o fortalecimento da imagem brasileira e a participação do Governo Brasileiro na reaquisição do posto, o texto externa uma maturidade relevante dos empreendimentos conduzidos pela diplomacia brasileira. A conquista de espaços políticos em todas as arenas é o primeiro passo para a conquista de espaços de mercado. Talvez a Rodada de Doha tenha contribuído para este processo. Durante muito tempo, o país apostou numa via da multilateralidade, que inviabilizou a expansão dos negócios brasileiros, especialmente aqueles relacionados à pauta agroindustrial. Com o fim das empreitadas em torno da Rodada, o vigor foi direcionado para a ação bilateral. Pode-se dizer que a OIC então, é uma arena interessante para o país, em virtude de viabilizar caminhos para negócios bem-sucedidos, além de fomentar alinhamentos de interesses, que gerem benefícios econômicos, sociais e ambientais entre parceiros. Já no terceiro parágrafo da carta, a Presidenta da República expõem suas impressões sobre o papel da OIC para os aspectos sociais e econômicos tanto para o país, quanto para outros países produtores e consumidores no mundo. Transcrevo-o a seguir: “Em um momento de turbulência econômica e financeira mundial, a Organização, junto com outras entidades internacionais, terá papel importante para introduzir racionalidade e justiça nas relações comerciais globais, hoje fortemente ameaçadas pelo protecionismo. Aproveitemos, por outro lado, as oportunidades para melhor posicionar os cafeicultores em um mercado internacional que se expande pela emergência de novos países produtores e se verticaliza graças à sofisticação do consumo” (ROUSSEFF, 2011). O café é um dos produtos econômicos com maior impacto social, em razão da sua convergência com a realidade da pequena propriedade. No mundo e também aqui no Brasil, este é um negócio essencialmente fami-

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liar. Ao propor a introdução da “racionalidade e da justiça nas relações comerciais globais”, a presidenta acerta na mosca, por se tratar de uma urgência a ser tangenciada, num setor onde o valor do trabalho (do café pronto para a venda) é medido pela intenção e disponibilidade de informação no mercado. Criar mecanismos que fomentem qualidade de vida para quem é a base de um negócio global que perde em volume financeiro apenas para a cadeia produtiva do petróleo, sem dúvida, é um dos grandes desafios a serem superados pela OIC nos próximos anos. Mesmo com a adoção do Código Comum para a Comunidade Cafeeira, as ações da Organização não avançaram muito na consolidação de um mercado mais justo, mais democrático, talvez porque a base esteja muito distante de Londres e das cafeterias fair trade europeias, que ditam moda, inclusive no Brasil. Pautando-me aqui no pensamento de Amarthia Sen, é possível afirmar que a cafeicultura tem plenas condições de corroborar para a quebra do ciclo de pobreza que usurpa a liberdade e a dignidade das pessoas. Ao mesmo tempo, tem-se o recado da presidenta para o Brasil, que não deixa de ser também uma preocupação sobre a necessidade dos cafeicultores brasileiros se preparem para a nova conjuntura mundial do mercado cafeeiro. Nesse cenário delineado por ela, encontram-se os novos entrantes e a sofisticação do consumo de café. A possibilidade da China utilizar seu know-how na produção de chás para a produção de cafés talvez não seja tão preocupante quanto a transferência de tecnologia de produção cafeeira colombiana para lá. Os criadores de Juan Valdez, sem dúvida, continuam sempre dois ou mais passos a frente dos brasileiros, que ainda estão decidindo como vender melhor o seu café: se com qualidade sem industrialização ou se com qualidade com industrialização. A ideia da retaguarda para o maior produtor de café, que ultimamente tem perdido quase 1% de participação ao ano no mercado internacional, desde a década de 1960, é simplesmente, desesperadora. A inquietação da presidenta, neste sentido, é a da busca de alternativas que viabilizem a reconquista da posição de vanguarda e a sustentabilidade dos agentes envolvidos na cadeia produtiva, em particular, os cafeicultores. No próximo artigo, discorrerei sobre a proposta de Robério Silva, fundada no princípio de desenvolvimento com sustentabilidade, que ao que parece, oferece vazão aos sentimentos propostos pela presidenta.

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83 Sobre a essencial política cafeeira – Parte II Publicado em 26 de outubro de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café

No artigo anterior, discorri sobre a carta da Presidenta Dilma Rousseff endereçada ao recém eleito diretor executivo da Organização Internacional do Café – OIC, Robério Silva. Na segunda parte dessa reflexão, disserto sobre a plataforma de trabalho do diretor. Através do documento ICC 107-01 da OIC, é possível conhecer a proposta submetida por Silva ao Conselho da Organização. As palavras-chave que norteiam toda a proposta são: desenvolvimento e sustentabilidade. A proposta de Silva é fundada no Plano de Ação Estratégica para a Organização Internacional do Café (documento ICC 105-19), no qual estão definidas as prioridades da instituição. O escopo da proposta de Silva ao fundar-se no Plano de Ação, visa a “to promote cooperation between Members in order to streng then the global coffee sector on the basis of the three pillars of sustainability: economic, social and environmental” [promoção da cooperação entre os membros, a fim de fortalecer o agronegócio café mundial, com base nos três pilares da sustentabilidade: as vertentes econômica, a social e a ambiental] (tradução nossa) (ICO, 2011). Estes três pilares foram introduzidos no léxico da Organização Internacional do Café através da adoção do Código Comum para a Comunidade Cafeeira, que é um protocolo global que diz respeito à produção de cafés de qualidade, mantidas as condições do apelo fair trade. O Brasil é um dos primeiros signatários, considerado o bloco de produtores, e a Cooxupé, a primeira a possuir cafés certificados por este selo, que tem sua fundação na Alemanha. De todas as três vertentes, evidentemente, a econômica é a mais relevante, em razão do papel social da cafeicultura em todas as partes do

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mundo, em particular em regiões paupérrimas como a de alguns países produtores situados no continente africano e no asiático. Após a apresentação desse escopo, o candidato explica o seu conceito de sustentabilidade: “In relation to sustaintability, it is clear to the Candidate that the ICO should discuss the subject with aview to enabling the needs of all stakeholders involved in the coffee chain to be met. Producers need to have remunerative prices in order to cope with Market demand, traders to facilitate logistics and supply in the sector, the industry needs profits to invest in the growth of demand, and consumers should not be exposed to price fluctuations that lead them to change their consumption habits and switch to other beverages. Certified coffees, which currently account for only 8% of the total volume, are likely to increase their share of the market in view of the predicted growth indemand for these coffees. The discussion of sustainability, which is of great value to all ICO Members, should take into account the risks associated with non‐ tariff barriers and cost increases for producers, as well as the possible advantages to be gained from quality improvements and premiums.” [Em relação à sustentabilidade, é claro para o candidato que a OIC deverá discutir o assunto com vistas à permitir que as necessidades de todas as partes envolvidas na cadeia do café sejam atendidas. Produtores precisam ter preços compensadores, a fim de lidarem com que o mercado demanda e os comerciantes, para facilitarem a logística e fornecimento no setor; a indústria precisa de lucros para investir no crescimento da demanda e os consumidores não devem ser expostos à flutuações de preços que os levem a mudar seus hábitos de consumo, a ponto de mudarem para outras bebidas. Os cafés certificados, que atualmente respondem por apenas 8% do volume total, são susceptíveis ao aumento de sua fatia do mercado tendo em vista o crescimento previsto da demanda por esses cafés. A discussão sobre sustentabilidade, que é de grande valor para todos os membros da OIC, deve levar em conta os riscos associados a barreiras não-tarifárias e o aumento do custo para os produtores, bem como as possíveis vantagens a serem obtidas melhorias de qualidade e prêmios] (tradução nossa) (ICO, 2011). Este parágrafo, em particular, revela um conjunto de situações relevantes para a compreensão do leitor. A primeira delas diz respeito ao entendimento de que todas as ações passarão necessariamente pelo crivo do Conselho da OIC, formado por 258


países produtores e consumidores. Esta informação extingue a ideia de que Silva resolverá os problemas políticos da cafeicultura brasileira, já que sua função será a de dirigir um organismo global, com franco interesse em otimização do consumo em mercados emergentes, como aqueles situados na Ásia (leia-se China). A segunda informação relevante, diz respeito à sustentabilidade econômica, garantindo preços competitivos para todos os elos da cadeia, fundando a estratégia no nicho de cafés certificados. Esta é uma questão que também desmitifica a ideia de que com o Brasil à frente da OIC, os preços ficarão estáveis. Nunca na história da cafeicultura no mundo, desde que a Bolsa de Nova Iorque foi fundada no final do Século XIX, os preços do café foram estáveis. A cafeicultura é um papel negociado em bolsa e logo, em razão disso, susceptível a interferências dos interesses dos investidores, que necessariamente podem não ser produtores de café. O mundo é dos fundos. E a quem não assistiu no cinema as duas versões de Wall Street, recomenda-se que se assista. Quanto à mudança dos consumidores para outras bebidas, tudo dependerá da qualidade do café comercializada nos principais mercados consumidores, como é o caso do Brasil, onde tudo depende do preço da matéria-prima (pelo menos até o momento). A inovação anda tão em voga, que esta analista acredita que já no ano que vem surja um café sintético, tipo pílula, em blisters com até 12 unidades, que a gente possa diluir em água fria e tomar um café espresso perfeito, quentinho, com direito à creme espumado e uma pitada canela. A indústria das pílulas certamente será a substituta inovadora da indústria de café, porque todo brasileiro, assim, poderá carregar sua indústria de café e sua cafeteria na bolsa, sem se preocupar com o aumento da PIS/COFINS ou como porte da companhia, ou ainda, o mais relevante, com o selo disponível na embalagem. O sintético poderá ser tabelado e distribuído gratuitamente em farmácias populares, democratizando o acesso de todos os nichos da nossa sociedade aos cafés de qualidade. Isso solucionará a dificuldade em relação à atual possibilidade de oscilação de preços. Legalmente para que isso aconteça, bastará uma Instrução Normativa da ANVISA e outra do Inmetro e tudo estará resolvido, pela perspectiva da simplificação schumperteriana. A ideia é tão boa que ela dispensa inclusive o Ministério da Agricultura, o que seria um marco inovador na história do país também e também outras entidades. 259


Tecnologia é tudo. A parte dessa questão, verifica-se ainda naquele parágrafo extraído do documento da OIC que háuma preocupação sobre os ‹riscos associados a barreiras não-tarifárias e o aumento do custo para os produtores». Esta sem dúvida é uma questão preocupante e que qualquer membro do mercado deve ficar atento, por se tratar de uma decorrência do círculo virtuoso do consumo. Aumenta-se o consumo pelo fomento das variáveis que corroboram para o seu comportamento de compra, ampliam-se as vendas, na sequência a concorrência e por fim, a elevação dos parâmetros dos produtos ofertados ao mercado, para que novas necessidades de consumo surjam e a concorrências e perpetue. Apesar da diplomacia brasileira ter vencido a batalha na OIC, existe o rescaldo da Rodada de Doha, onde questões relacionadas às barreiras tarifárias e não-tarifárias deveriam ter sido dirimidas e não foram. Fica a dúvida se o Brasil cairá na máxima da negociação das pautas multilaterais nas questões do café, em razão da direção da OIC, quando na verdade, após Doha, o mundo todo está apostando na estratégia da bilateralidade. A proposta apresentada por Robério Silva apresenta ainda 22 itens que sua gestão, sobre os quais discorro sucintamente (ICO, 2011): 1. Converter a Organização Internacional do Café num ponto de convergência para discussão dos assuntos do setor; 2. Ampliar a base de associados à OIC, a partir da sensibilização de países não membros; 3. Investimento na eficiência da Organização, por meio do reposicionamento da sua estrutura organizacional; 4. Saneamento financeiro da OIC, por meio da redução de gastos; 5. Análise de alternativas de locação para a OIC, que deverá ser apresentada ao Conselho pelo Diretor Geral, no espaço de até seis meses; 6. Produção de materiais para venda, como o Coffee Yearbook; 7. Adoção de política do papel zero, por meio da digitalização de impressos e outros documentos da Organização; 8. Possibilidade dos Comitês permanentes da OIC se reunirem em momentos distintos às reuniões do Conselho da Organização. Os

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comitês permanentes são: Finanças e Administração, Promoção e Desenvolvimento de Mercados, Projetos e Estatísticas; 9. O comitê de Promoção e Desenvolvimento de Mercados iniciará discussões para o estabelecimento de estratégias de promoção do consumo e para o desenvolvimento do mercado, em particular o chinês. Investir-se-á na promoção do consumo em mercados internos, segundo interesse dos grupos de interesse de cada país que se habilitarem; 10. Organização de seminários, atendendo temas de interesse dos membros da OIC; 11. Operacionalização do Fórum Consultivo de Finanças do Setor Cafeeiro, aproveitando as experiências do Funcafé; 12. Desde que haja interesse dos membros, a OIC poderá promover estratégias de disseminação de informações sobre o desenvolvimento da sustentabilidade ao longo da cadeia produtiva do café, com vistas à promoção do desenvolvimento de atividades cafeeiras, para o incremento da qualidade e do valor agregado do produto; 13. Valorização das discussões sobre o café certificado; 14. Continuidade do relacionamento entre a OIC e o Fundo Comum para Commodities; 15. Fortalecimento do Conselho Consultivo do Setor Privado, com vistas a viabilizar discussões que fomentem a promoção, a remoção de obstáculos para o comércio e o consumo e outras barreiras, além de propor políticas de interesse para a cadeia produtiva do café; 16. Produção da cooperação entre as agências de pesquisa situadas nos países produtores, ajudando em particular a aquisição da sustentabilidade na produção e a visão balanceada da distribuição geográfica e dos custos de produção do café, buscando variedades capazes de oferecer qualidade técnica, superar os impasses com pragas e doenças, além de serem mais resistentes em relação às questões climáticas; 17. Fortalecimento das pequenas comunidades produtoras de café,

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através do estímulo àconstituição de instituições sólidas (cooperativas?); 18. Fortalecer a emissão do Certificado de Origem; 19. Criar um Programa para Jovens Profissionais do Café, visando a formação de profissionais para ingresso em carreiras na OIC; 20. Estabelecer relacionamentos com instituições de educação superior em países produtores e consumidores, com vistas a implantar cursos sobre Economia Cafeeira Global; 21. Criar, na base da OIC, um Catálogo Global de Participantes do Agronegócio Café, envolvendo produtores, exportadores, negociadores, torrefadores e prestadores de serviços por país; 22. Preparar materiais periódicos sobre cafés especiais de cada país produtor, firmas exportadoras, indústrias e outros segmentos envolvidos no mercado, apontando inclusive indicadores econômicos. Avaliando as propostas de Silva, verifica-se que o ponto-chave da estratégia é a aproximação da OIC com seu público, através de serviços, que demonstrem uma organização preocupada com asustentabilidade do setor e ao mesmo tempo, com a criação de uma forte rede de relacionamentos.

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84 Cenários globais, governança do Estado Brasileiro, agronegócio e cafeicultura – Parte I Publicado em 31 de agosto de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café

Aproveitando o verão na Região Amazônica Brasileira, resolvi à luz da madrugada, navegar pelas águas virtuais, visitando as páginas dos principais canais de notícias voltados ao agronegócio café brasileiro. De novidade, o artigo de Sylvia Saes e Bruno Varella no Café Point, tecendo suas preocupações a respeito da expansão da agricultura em Moçambique e o plantio de café na China, o aniversário de 12 anos da Embrapa e a entrevista do Diretor de Operações e Comercialização de Café da Cooxupé para o Mercado Interno, Lúcio Dias, analisando o mercado e questionando os números do consumo de café no mercado interno. Os dois últimos, publicados no Coffee Break. Estas três informações geraram a necessidade de compor este presente texto, dado o alinhamento que possuem com um volume expressivo de meus trabalhos, em particular o artigo ‘O agronegócio café em 2020: uma percepção’, publicado em 20 de janeiro de 2010, no site Revista Cafeicultura, resultante de estudos que venho realizando desde 2009, e que trata da expansão da agricultura empresarial, no Continente Africano. Neste século, onde a população do planeta já ultrapassou 7 bilhões de habitantes e com projeções demográficas até 2050 estimadas na ordem de 10 bilhões de pessoas, a compra de terras nas regiões produtivas africanas, similares ao Cerrado Brasileiro, fomentada através de investimento direto estrangeiro, com vistas à produção de alimentos em escala industrial, tornou-se uma realidade consolidada. Evidentemente, que tal expansão, inicialmente, deve causar certo torpor, entretanto, a questão, quando avaliada do ponto de estratégias nacionais, depende de posicionamento e profissionalização da governança dos negócios de Estado.

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Neste artigo, que será dividido em duas partes, aplico tal percepção aos negócios do café, já que este segmento não pode ser comparado com quaisquer outros, em razão de suas especificidades. Nesta Parte I que o leitor lê nesse instante, discorre-se sobre as temáticas da profissionalização da governança política e abre-se a discussão sobre recursos de posicionamento, dando-se atenção para seus dois primeiros aspectos. Na Parte II, que será publicada dentro de alguns dias, discorre-se sobre os dois últimos aspectos do posicionamento, oferecendo mais uma vez, algumas construções críticas sobre as escolhas estratégicas do país e ainda, apresenta-se um estudo de cenário para a cafeicultura brasileira, considerando-se um ambiente onde a saca de café, tipo 6, padrão contrato BMF/Bovespa, atinja o patamar de R$ 1.000,00 e se sustente por seis meses consecutivos. No campo da profissionalização da gestão, cabe, sem dúvida, uma revisão do modelo de gestão da empresa familiar ‘Cafés do Brasil’. A fase da transferência hereditária da política cafeeira acabou há um bom tempo; somente o Brasil não percebeu. A adoção da via da profissionalização geraria externalidades positivas, especialmente por se tratar de modelo despido de paixões ou partidarismos. Neste modelo gerencial, prevaleceriam os interesses da nação em relação ao mercado internacional. Há de se lembrar de que para se ser melhor, muitas vezes, é necessário cortar na própria carne. A opção pela plataforma industrial e a ênfase na exportação de café industrializado, envolve tal questão. Se o Brasil não o fizer, os concorrentes, sejam eles emergentes ou tradicionais, farão num curto espaço de tempo. E considerado tal pressão global, assistiríamos na cafeicultura o mesmo caos já assistido em outros setores econômicos brasileiros, como o calçadista e o de brinquedos. Pessoalmente não considero que o problema seja a China. O problema é a dificuldade de se definir uma política de gestão dos negócios do café no Brasil que seja duradoura, gere resultados econômicos efetivos, agregue valor ao esforço ao trabalho dos milhões de profissionais inseridos na cadeia produtiva e principalmente, aumente a participação do café brasileiro no mercado internacional, nas categorias in natura e industrializado (torrado em grão e ou moído e solúvel). O restante é perfumaria. No campo do posicionamento, tem-se como regra de ouro a valorização da diferenciação quanto recurso para sobrevivência no mercado. A valorização da National Brand e os valores agregados inerentes à marca devem ser, sempre, o fio condutor do processo de consolidação de políticas 264


públicas vocacionadas à agricultura e mais ainda, no caso da cafeicultura, neste século no qual já se assistem aceleradas modificações de cenários. Se a cafeicultura brasileira teme a China, é porque sabe que seu café não possui uma reputação forte junto aos seus stackholders a ponto de colocar o café brasileiro acima de quaisquer tipos de ameaças externas. Se há medo, é porque não existe imagem consolidada no mercado, que supere a esfera da commodity, do tudo igual. Entretanto, o posicionamento estatal não depende somente dessa questão. Abordo aqui quatro outros contribuintes que importam quando do delineamento da forma de gestão dos interesses de um Estado e que são prerrogativas para o delineamento do Mapa Estratégico do Agronegócio Café, em particular: • Adoção de política internacional protecionista; • Celeridade na modernização legislativa; • Política industrial agressiva e protecionista; • Sistema de Informação Estatísticos para o Café. Disserto sobre cada uma dessas vertentes a seguir: Adoção de política internacional protecionista: quando se fala de agricultura, a primeira imagem que me vem à mente é a do bem-estar das pessoas, felizes, sentadas à mesa. Este é o benefício do trabalho de bilhões de produtores rurais existentes em todo o planeta. Ter a fome e a sede saciados é uma das prerrogativas mais relevantes para a dignificação do ser humano, mas que atualmente, para muitos, tem se tornado uma situação cada vez mais distante. Dentro dessa perspectiva, ao que parece, a conduta do país está consonante com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, já que a difusão da tecnologia agrícola privilegia a vida, a dignidade. Entretanto, ela coloca em xeque algumas questões, porque esse entendimento que é ideológico e cristão, permeia fundamentalmente a competitividade nacional e o modus operandi da economia de uma sociedade como um todo, que no caso, é a nossa. Logo, ainda que com o apelo humanitário urgente inserido na pauta, economicamente, argumenta-se que a exportação de conhecimento de produção agrícola em escala para um país onde as terras produtivas estão praticamente nas mãos de grandes mercados consumidores, atua no reverso das expectativas ideológicas e fraternas do Estado

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brasileiro, que em suas atitudes, não deixa de externar o modo de ser do povo que ele representa. Isso porque esta questão tangencia as dificuldades do próprio país dirimir suas próprias questões, efetivamente. Um país que tem a maior agricultura do mundo e que ainda têm brasileiros passando fome contém em si um paradoxo intolerável. Entende-se ante tal situação real e próxima, que há muito que se fazer internamente, antes da superação das fronteiras. A parte de tal entendimento, tem-se também que a engenharia econômica da sociedade onde vivemos depende, fundamentalmente, de dinheiro para o ingresso no mercado de consumo. A produção agrícola em escala comumente é vendida para quem pode pagar pelo resultado dela. No final do ano passado, o The New York Times publicou uma matéria extensa sobre a privatização de terras naquele país e no Sudão, assim como das nascentes de águas. Os nativos estavam sendo expulsos das áreas produtivas e submetidos a mais pobreza ainda. Certamente, a transferência de tecnologia agrícola brasileira não atingirá os estratos da população que seriam mais favorecidos com tal transferência de know-how. E este viés é indesejável, porque afeta a dinâmica econômicado Brasil. Dessa forma, a adoção de uma política agrícola protecionista seria a via mais interessante para o Brasil, já que no momento, a tecnologia, o conhecimento acumulado no país no ramo da produção de alimentos é uma forte moeda de negociação para que o Brasil alcance seus objetivos no campo das negociações agrícolas internacionais, via a quebra de barreiras às exportações nacionais. Há de se considerar que com a retenção do conhecimento na área agrícola, em oito anos, o Brasil não obteve quaisquer resultados nas negociações da OMC (Rodada de Doha), não é difícil dimensionar que sem tais prerrogativas negociais, os avanços sejam ainda mais nulos e ineficazes. Para ressaltar tal defesa, encerro este item com dois exemplos, colhidos na história: o caso da Borracha da Amazônia que foi parar na Ásia no início do século XX e a Revolução Angolana, de 1975, à época de sua independência de Portugal. No primeiro caso houve biopirataria, é certo, mas também houve a chancela do Governo Brasileiro para a troca de experiências entre as ‘nações amigas’. No segundo caso, em detrimento da Independência Angolana, brasileiros que possuíam investimentos em Angola, foram expropriados de seus investimentos naquele

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território, até então de domínio português. O que não é muito difícil de acontecer em outros países daquele complexo continente. Remetendo-me aqui à questão da China, há se de levar em consideração a Revolução Cultural Chinesa e o pensamento do Partido Comunista Chinês. A produção de café na China, subsidiada com tecnologia de produção colombiana, tem forte relação com a cultural política de autossuficiência e de valorização dos produtos nacionais, em detrimento dos importados. Esta é uma questão que não pode ser esquecida. Celeridade na modernização legislativa: Mantendo uma relação com a questão anterior, é visívelque a morosidade em tomadas de decisão na área da regulação no país é um fiel da balançasignificativo. Vis-à-vis tem-se a questão do Código Florestal. Fato é que após a intensificação das negociações desse documento no Congresso Brasileiro, conduzido pelo então Deputado Federal Aldo Rabelo, a motivação para a expansão agrícola além-fronteira passou a ser tomada como um recurso negocial de ameaça contra a demora na aprovação de texto tido como estratégico para a competitividade do agronegócio brasileiro. Após a superação da esfera da Câmara, a discussão continua no Senado, de onde partirá após sua aprovação para a sanção presidencial, dentro de período de tempo não estimado. A morosidade no desenho de aparatos legais sem dúvida, na atualidade, é o principal entrave para a alavancagem da competitividade brasileira. Sua celeridade, por conseguinte, iria de encontro comos objetivos nacionais, fundados na ampliação exponencial da capacidade empresarial brasileira, que apesar das condições atuais, já faz do país a 7ª economia do mundo e ao mesmo tempo, corroboraria para geração efetiva de mais empregos e renda. Encerra-se esta primeira Parte, rememorando o caso da IN 16/2010. Até a Parte II.

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85 A ABIC e a defesa dos pequenos Publicado em 12 de setembro de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café

Antes de iniciar os meus comentários sobre o novo discurso ABIC, eu tenho que cumprimentar os conselhos de Administração da Sara Lee Brasil e do Grupo Três Corações: a saída da ABIC assinala uma ruptura importante e histórica que preconiza a implantação do que se denomina de Plataforma Industrial de Café, onde é a indústria torna-se o capitão do canal. Ao saírem da caverna de Platão, estas duas indústrias deixaram de assumir para si o TEOREMA DE TOSTINES, que valoriza a indecisão quanto parâmetro do comportamento organizacional, inspirada pensamento hamletiano, decorrente da obra de William Shakespeare. O TEOREMA DE TOSTINES diz respeito ao modelo onde uma organização assume a condição de último biscoito Tostines do pacote, que até hoje não descobriu se é mais fresquinho por que é mais gostoso ou se é mais gostoso por que é mais fresquinho; o que se trata de dúvida eterna e que pode colocar o Estado de Direito em risco ou ainda a estabilidade institucional, porque impacta diretamente nas capacidades de prospecção e de planejamento. Inquietudes humanas e organizacionais à parte, é certo que o muro da indecisão começa a ruir e a equiparação com a Alemanha, apesar de ainda distante, começa a ganhar forma. Há oito anos que escrevo defendendo esta tese de que lugar de indústria de café é no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Ao migrarem para a ABIA – Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, estas duas indústrias brasileiras decorrentes de investimento direto estrangeiro, romperam o paradigma e incutiram na prática este modelo de plataforma que é o ideal do ponto de vista de competitividade global. Consolidar uma plataforma industrial de café vocacionada para o 268


mundo, deveria, há muito tempo, ser a meta zero (a meta perfeita – princípio de Administração de Produção e Operações) do setor. Mas não foi em razão de perspectivas gerenciais bairristas, fundadas no relacionamento estrito com o mercado local. Foram estas opções que tornaram o mercado brasileiro tão atrativo, a ponto de indústrias de café tradicionais, situadas em mercados com perfil demográfico em franco processo de envelhecimento tem buscado, cada vez mais, a sua inserção no mercado nacional. Não é a toa que o volume de fusões e aquisições têm se intensificado nos últimos anos. Talvez a questão da PIS/COFINS seja um vetor que impulsione o entendimento de que a indústria de café precise modificar sua relação com o agronegócio café. O problema não é somente de foro tributário, porque ações de redução da alíquota da PIS/COFINS à zero sobre as Receitas Tributadas (Faturamento), no caso de produtos alimentícios, comumente são concedidas se o Estado entende que o setor está em franco processo de desaceleração ou se há um risco de desabastecimento de produto de primeira necessidade que compõem a cesta básica. O café fortuitamente foi inserido na Cesta Básica, desde a criação da Metodologia do DIEESE, que é contemporânea do Governo Getúlio Vargas. Como o Brasil é o maior produtor de café e é o segundo mercado consumidor, dá para suspender as exportações do produto, perfeitamente, se a oferta no mercado interno for ameaçada por desabastecimento decorrente de quebras de safra. Logo, eu pondero que não há necessidade, pelo menos agora, de isentar a indústria de café desses dois tributos fundamentais para a seguridade social. Para isso também não se faz necessária a CONAB. Basta uma Medida Provisória com entrada em vigor imediata. A questão da PIS/COFINS trata-se de uma medida emergencial para a geração de capacidade de competição no curtíssimo prazo. Entretanto, a leitura histórica de discursos, remete-me mais à perpetuação de uma briga de egos entre a ABIC e as duas maiores torrefações do país e que mexe unicamente na esfera do azedo e silencioso ciúme de homem. O Governo Brasileiro acabou ficando no meio, para decidir qual dos lados vencerá. Se a balança pesar para a primeira, vence a maioria, que continuará assentada na falta de políticas para a manutenção sustentável de sua competitividade e que no médio prazo, conduzirá o setor a bancarrota de novo e ao comodismo. Se a balança pesar para as duas torrefações, vence o modelo da vantagem competitiva sustentável, que combina, sem dúvida,

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com a aspiração brasileira de ser uma das cinco grandes economias global até o final desta década. O que o setor industrial de café precisa na verdade, é de política industrial. Política de indústria, construída por órgãos de indústria, que permita uma longevidade e que garanta os recursos necessários para que qualquer indústria, não importa o porte, possa vencer vendendo diferenciais ao mercado. Resumindo a situação do setor, pode-se dizer que ele se trata de um setor sem poder de barganha nem com fornecedores de matéria-prima, nem com fornecedores de insumos (embalagens) e nem clientes. E sem poder de barganha, não se chega a lugar algum, ou melhor, chega-se, desde que se pague o preço, no caso, os enxovais dos supermercados ou o recálculo do valor do markup para dentro. A mortalidade de empresas, mesmo com a oferta de incentivos fiscais, continuará a ser recorrente, porque mais do que as fusões e aquisições, os dilemas da produção continuarão a impactar sobre o fluxo de caixa das empresas. Pode-se chamar tal questão de “Efeito das mudanças climáticas sobre o caixa”. Fica a pergunta se a ABIC, caso ganhe a questão da PIS/COFINS, continuará investindo no discurso de valorização das pequenas torrefações. Pessoalmente, creio que não, porque simplesmente este discurso não combina.

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86 Ferdinand Lassalle e a sua relação com a CF-88 e a Previsão de Safra de Café no Brasil Publicado em 01 de novembro de 2011, no Coffee Break, Portal de Notícias do Café

O presente artigo realiza uma interlocução entre o pensamento de Ferdinand Lassalle, um dos principais expoentes da corrente sociológica que compõem a Teoria Geral da Constituição, alguns princípios previstos na Constituição Federal de 1988 e o velho gargalo, a previsão de safra da cafeicultura brasileira. A liberdade de expressão é um direito constitucional e eu, em particular, sempre a defendi o âmbito do agronegócio café. A crítica, a difusão da informação, a formação de opinião são elementos cruciais para o bom entendimento de um insumo dinâmico, intangível, que move a economia cafeeira brasileira e mundial. Refiro-me à informação. A informação distribuída com qualidade gera benefícios sociais incalculáveis e somente ela, a informação, fomenta a democracia e o processo de desenvolvimento da sociedade em todos os seus setores. Trata-se de um patrimônio inestimável, porque é uma decorrência do exercício da inteligência e exprime o cuidado que um país tem em relação à produção de conhecimento. Nos últimos dias, muitas críticas despidas de fundamentos técnicos têm sido veiculadas nos principais meios de comunicação especializados em café no país. Questiono como os Sacolés Coffees, ou a aferição da alcunha de palhaço ao cafeicultor brasileiro ou a criação fictícia da marca de café espresso da CONAB contribuem efetivamente para a formação de opinião dos agentes do agronegócio café brasileiro, no âmbito do estabelecimento de estratégias de comercialização. A chacota pública expõe a mazela que há muito o setor cafeeiro brasileiro imprime em seu legado. Torna-se, portanto, um desserviço. E isso é muito ruim. Resolvi neste sentido, imergir no pensamento de Ferdinand Lassalle, um dos mais impor-

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tantes expoentes da corrente sociológica da Teoria Geral da Constituição, para desenvolver o meu raciocínio. Em ‘O que é uma constituição?’, Ferdinand Lassalle estabelece ampla discussão sobre a essência da Constituição, que para ele diz respeito ‘à fonte primitiva da qual nascem a arte e a sabedoria constitucionais’ (LASSALLE, 1933). Para ele, a Constituição diz respeito ao que existe de mais sagrado, por se tratar de ‘uma lei fundamental da nação’ (IDEM, IBIDEM). Para que tal lei seja considerada fundamental, ela precisa assumir seu papel de fundamento, da qual emanarão outras e seja estritamente necessária. Ela, na visão do autor, diz respeito à ‘uma força ativa que faz, por exigência da necessidade, que todas as outras leis e instituições jurídicas vigentes no país sejam o que realmente são [...] que a obrigue a ser necessariamente, até certo ponto, o que são e como são, sem poderem ser de outro modo?’ (IDEM, IBIDEM). A lei fundamental, de acordo com Lassalle, pode ser modificada em razão da soma dos fatores reais de poder. ‘Os fatores reais do poder que regulam no seio de cada sociedade são essa força ativa e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade em apreço, determinando que não possam ser, em substância, a não ser tal como elas são’ (IDEM, IBIDEM). Um exemplo desses fatores reais de poder são as instituições tal como os agentes dos setores econômicos, como aqueles existentes no agronegócio café. As contribuições de Lassalle (1933) permitem que se estabeleça uma interlocução com os fundamentos da Carta Magna de 1988 e a principal fragilidade técnica do agronegócio café brasileiro: a ausência de informações fidedignas. A pauta de discussão, partindo da CF-1988, centrar-se-á no inciso I do artigo 1º, que trata da soberania; nos incisos II e III do artigo 3º, que tratam da garantia do desenvolvimento nacional e da erradicação da pobreza e da marginalização e redução das desigualdades sociais e regionais; nos inciso I e IX do artigo 4º, que tratam da independência nacional e da cooperação entre os povos para o progresso da humanidade; e por último, no inciso XV do artigo 21, que externa que é competência da UNIÃO organizar e manter os serviços oficiais de estatística [...] de âmbito nacional. Como expus no início deste texto, a informação é um insumo estra272


tégico para a boa condução dos negócios relacionados ao agronegócio café. Ela não apenas define o comportamento das resultantes da Lei da Oferta e da Demanda, como definem movimentos do capital em bolsas de mercadorias e por fim, o valor a ser pago pelo consumidor pela sua xícara de café. Digamos que economicamente, a informação ultimamente tem mais valor do que os meios de produção, porque é ela que alimenta a especulação e a volatilidade das cotações nos mercados futuros, que acabam impactando no mercado spot. Assim sendo, é relevante observarmos que os fatores reais de poder que atuam no agronegócio café brasileiro, não têm sido eficientes no que tange à preservação dos fundamentos constitucionais, no âmbito da cafeicultura brasileira, porque não tem sido capazes de organizar uma estrutura eficiente e eficaz de serviços de inteligência e informação, não cumprindo o que está previsto no inciso XV do artigo 21 da CF-88. São os fatores reais de poder que devem intervir sobre a União, para que o dispositivo constitucional previsto nesse inciso seja cumprido rigorosamente. Enquanto não o fazem, os fatores reais de poder que compõem o agronegócio café brasileiro, dos quais emana a força ativa que fomenta as leis fundamentais, (a) impede-se que o país goze efetivamente de sua soberania, já que ele passa a ser refém de outros fatores de poder externos ao território – antes a USDA, agora os traders globais; (b) engessa-se o fomento do desenvolvimento nacional e da erradicação da pobreza e da marginalização através da redução das desigualdades sociais, dado que a informação garante a agregação de valor ao café ao longo de todos os elos da cadeia produtiva, ampliando a atratividade econômica do setor e a distribuição de renda; (c) inviabiliza-se a independência nacional no âmbito da informação (o Brasil tornou-se refém das informações de fontes estrangeiras) e respectivamente, a cooperação entre os povos e o progresso da humanidade. Sem o atendimento desses dois princípios constitucionais, o país perde sua condição de contribuinte relevante para o desenvolvimento de estatísticas globais consistentes, pela ausência de assertividade. Pela falta de estatísticas, o país, que é o maior produtor de café do mundo, acaba por contribuir para o empobrecimento e a retração de desenvolvimento mundial, porque sem informação fidedigna, o desenvolvimento é desenfreado. Como modificar a engenharia que assistimos e que expõe ano após 273


ano, o Brasil ao ridículo? Como oferecer gerar previsões oficiais confiáveis e preferencialmente, inquestionáveis, que sejam capazes de atender os princípios previstos na Constituição Federal Brasileira de 1988, aqui citados? São com estas inquietações, dirigidas aos representantes dos fatores reais de poder, que finalizo esta reflexão.

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87 Algumas coisas sobre artes e o planejamento estratégico da cafeicultura Publicado em 15 de fevereiro de 2012, no Portal Administradores

Quando se desembarca no Aeroporto Internacional de Brasília torna-se possível a apreciação dos famosos azulejos de Athos Bulcão, um dos ilustres discípulos de Cândido Portinari. A obra do artista centra-se na combinação de figuras geométricas, cores e clareza ímpares, as quais tornam o trabalho de Bulcão um conjunto de fácil assimilação. Talvez em função dessa simplicidade, sua arte complemente tão bem os trabalhos de consagrados artistas plásticos, urbanistas e arquitetos, como Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Burle Max. Esta harmônica articulação pode ser percebida em vários locais interessantes da capital federal, do Itamaraty ao Mercado das Flores. Sob certos aspectos, pode-se dizer que os azulejos de Bulcão assemelham-se com os cafés brasileiros: ambos são democráticos, cosmopolitas, capazes de se adaptarem a todos os lugares, serem degustados por todos os tipos de públicos, únicos. Os pormenores, ou melhor, as diferenças entre eles, centram-se no fato dos segundos não serem geométricos, nem coloridos e nem lúcidos. De modo geral, estes, apesar de sua comprovada qualidade, não estão inseridos num conjunto arquitetônico inovador, que permita que os azulejos se encaixem com a harmonia necessária às paredes do mercado, a ponto de serem aclamados como Patrimônios Históricos da Humanidade. A razão de tal desalinhamento, sem dúvida, concentra-se na má qualidade do rejunte, a política. O dia 15 de fevereiro de 2012 promete ser um marco para a cafeicultura brasileira, já que um novo planejamento estratégico setorial emergirá da caixa preta coasiana, o CDPC (Conselho Deliberativo de Política Cafeeira). Brasília é uma cidade que mantém em suas bases históricas a ousa-

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dia, a criatividade, a ruptura de paradigmas e a simplicidade. É fato que para que a capital federal fosse construída em tempo recorde, além de milhares de braços, a capacidade dos líderes juntarem-se às bases, para ouvi-las e motivá-las foi preponderante. Durante a sua construção, Juscelino Kubitschek e os ilustres artistas que já citei, almoçavam e jantavam todos os dias com os ‘candangos’ (imortalizados por Villa Lobos), a fim de conhecerem de perto os problemas, solucioná-los imediatamente e ao mesmo tempo, manterem o grande grupo de trabalhadores coeso e motivado. Desde 1890, o planejamento estratégico da cafeicultura é realizado à portas fechadas e as resultantes dessa metodologia não permitiram resultados duradouros em nível global, como se observa em casos como o colombiano, o jamaicano, o costa-riquenho e alguns outros europeus e norte-americanos. Apesar de Brasília dispor de um conjunto arquitetônico ímpar, dotado de dezenas de espaços adornados pela genialidade de Bulcão, talvez o sensato fosse deixar de lado pelo menos uma vez o conforto do ar condicionado, em prol da aquisição de olhares, sentimentos e emoções diferentes, decorrentes de uma profunda articulação com as bases (produção, indústria e comércio), gerando assim, um documento legitimado por milhares de mãos. É sabido que a arte sempre pode ser reinterpretada, uma vez que ela depende exclusivamente do currículo oculto de quem a vê. Este currículo depende, diga-se, da vivência e da dinâmica interação com a cultura. Ressalta-se que tal afirmação vale tanto para a obra de Bulcão, como para a política cafeeira.

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88 Novos cenários, velhas questões Publicado em 15 de fevereiro de 2012, no Portal Administradores

Li na última semana quatro livros muito interessantes: ‘A Parisiense: o guia de estilo de Ines de la Fressange com Sophie Gachet’, ‘A arte da persuasão’, de Tonia Reiman, ‘A Cabala do Dinheiro’, de Nilton Bonder e, evidentemente, a nova da saga do lendário Greg Heffley, em Diário de um Banana – Casa dos Horrores. Estes livros têm muito a dizer para o agronegócio café, em particular, no campo dos serviços de inteligência comercial. É necessário manter a mente com o frescor dos 12 anos de idade, pois a vida torna-se mais divertida e o cérebro relaxa, ampliando a capacidade criativa, mas é certo que para a busca do sustento e da prosperidade, é necessário investir em tradição. O relatório do Bureau do Café ficou meiguinho. A tentativa de prever o futuro do consumo de café coado é fascinante, jovial, mas no curto prazo vai contra o bom senso do mundo dos negócios que está tocando silenciosamente o cerne do mercado de café brasileiro: a importação de café industrializado em cápsulas. Esta sim é a terceira onda: a onda tecnológica do mercado global que pode matar todo um segmento importante, no caso, a indústria de café brasileira. Só no Brasil estimula-se a exportação de matéria-prima e a importação de produto acabado com altíssimo valor agregado, em detrimento do seu setor industrial. É um contra-senso revoltante. Compartilho tal inquietação porque durante o cumprimento de uma atividade de negócios em Belo Horizonte recentemente, tomei Nespresso a menos de 2.000 metros da sede do governo do maior estado produtor de café do mundo servido no meu café da manhã, no hotel em que me hospedara. Minas Gerais é o segundo mercado industrial de café do país. Ressalto que estava praticamente ao lado de uma obra de Oscar Niemayer

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onde está o centro de poder do governo de um Estado que produz mais café que a Colômbia, saboreando café mineiro processado e embalado de forma incontestavelmente maravilhosa na Suíça, devidamente extraído num equipamento primorosamente fabricado na Alemanha ou na Itália. Um bom paradoxo matinal, que me remeteu a um trecho da música de Milton Nascimento: “eu sou do mundo, mas sou Minas Gerais”... Não espero que este meu artigo estimule discussões sobre taxação do café industrializado, porque certamente este será o discurso de reação a questão que apresento ou ainda uma campanha contra a oferta de café importado em território mineiro, o que somente denotaria um bairrismo tolo e pontual. Discutir café coado é tentar dizer ao mundo, que bebe café espresso desde o final do século XIX, que somente o jeito brasileiro de se beber café é o mais adequado é no mínimo, atentar contra a possibilidade de desenvolvimento tecnológico de um país que produz todas as matérias-primas necessárias para o desenvolvimento de qualquer máquina qu existe no planeta. A negação dos fatos é um comportamento jungniano que em nada corrobora para o estabelecimento de ações estrategicamente planejadas junto a mercado. Em razão disso, espero que o artigo estimule a consolidação de um planejamento estratégico sério, elaborado por uma consultoria especializada no assunto. Provocações técnicas sofisticadas devem ser respondidas em alto nível, com técnica. Se estivesse no governo, ousaria e contrataria uma consultoria japonesa com recursos oriundos de estado que serão disponibilizados ‘a fundo perdido’: notem que um país que passa pelo seu segundo desastre nuclear na sua história em menos de um século, sendo este último ocasionado por um tsunami, e que tem a coragem, após instalação de comissão de inquérito, de afirmar que o problema foi decorrente de falha humana, tem no mínimo muita coisa a ensinar. Esta seriedade é que falta no agronegócio café. Se o Brasil assumisse o comportamento japonês em relação ao agronegócio café, a Europa já estaria ‘pedindo água’ há muito tempo: mesmo sendo arrasados pela natureza, eles conseguem resultados fenomenais em termos de qualidade, que deveriam ser incorporados na praxe gerencial de uma cadeia produtiva que ajudou a construir um país, no caso, o nosso. Assim sendo, é correto afirmar que além de modernização do aparato legal, cabe investimento em tecnologia para os segmentos industrial e de serviços, devidamente munidos de design. A combinação dessas duas 278


vertentes, tecnologia e design geram efetivamente vantagens competitivas sustentáveis. A máquina, as cápsulas, a embalagem que contém as cápsulas: eis sim os diferenciais, que fazem daqueles blends de cafés que sempre existiram no mundo, únicos e exclusivos. As pessoas que podem pagar querem tecnologia e design. Até quem não pode, quer tecnologia e design. Não é a toa que o fenômeno Senseo tem se tornado objeto de consumo de tantas pessoas, assim como as máquinas de café espresso tem se tornado tão acessíveis. Notem que até mesmo as máquinas de café elétricas estão com design mais sofisticado, para contribuírem com a decoração da cozinha. Até mesmo o papel para percolação está com cara nova: além de ecológico, possui furinhos para garantir a melhor extração das qualidades organolépticas do café. Se não dá para importar matérias-primas de outros países, o país deveria apostar em tecnologia. Que tal embalagem para café brasileiro feita de poliéster ecológico, produzido a partir de cana-de-açúcar? Indústrias movidas à Etanol ou à Biodiesel? Financiar a fundo perdido a renovação do parque industrial brasileiro, com o que há de melhor de tecnologia disponível no mundo? Isso certamente não daria para copiar em nenhuma parte do mundo e deixaria o café brasileiro mais com jeito brasileiro, criando exclusividade. Por fim é importante ressaltar que as terceiras ondas precisam, obrigatoriamente, serem estatisticamente medidas, pois no campo da inteligência comercial, são os números (das pesquisas quantitativas) que conduzem a outros números (os das finanças). Homens e mulheres de negócio leem números em relatórios técnicos concisos. Notem que o mundo enxerga a beleza de forma cartesiana: Grãos tecnicamente adequados, torrados de acordo com a escala de Agtron, moídos em granulometria adequada e submetidos à pressão atmosférica correta e água em temperatura correta, comumente geram cafés espressos perfeitos. A variável subjetiva, dizem os especialistas, concentra-se apenas na mão do barista. Há de se convir que nada mais bonito que um café espresso cremoso, fumegante, em branca xícara, adornada com um chocolatinho de menta. Tem o seu lugar.

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Sobre a autora

Mara Luiza Gonçalves Freitas é coordenadora e docente do curso de bacharelado em Administração da Faculdade Porto Velho, que detém certificação de qualidade da Fundação Getulio Vargas e do Programa de Pós-Graduação da Fundação Getulio Vargas Pós-ADM, na disciplina Jogos de Negócios. Exerce a função de gerente executiva da Junior Achievement Rondônia, organização não-governamental criada nos Estados Unidos em 1909. A ênfase dessa organização é difusão de conhecimentos na área de economia e negócios. Está presente em 127 países e que no Brasil, desde 1983, em todos os estados da federação. Atua também como Revista Sustentabilidade Organizacional - RSO, periódico eletrônico da Faculdade Porto Velho e parecerista da RECADAM – Revista Eletrônica de Ciências Administrativas, RGO - Revista de Gestão Organizacional. Possui curso técnico em contabilidade pela Escola Estadual de I e II Graus ‘Dr. Guilherme Freitas de Abreu Lima (1994), bacharel em administração pela Universidade Federal de Mato Grosso (1999), especialista em Cafeicultura Empresarial (2002) e mestre em administração pela Universidade Federal de Lavras (2006). Possui cinco anos de experiência na área de docência de ensino superior (graduação) e três anos de experiência na docência em cursos de especialização (latu sensu), tendo atuado em diversas instituições como Centro Universitário Luterano de Ji-Paraná - CEUJI-ULBRA, Faculdades do Vale do Juruena- AJES, Centro Universitário de Gurupi – UNIRG (TO), Universidade de Cuiabá – UNIC (MT) e Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT (MT). Na área executiva, atuou como Assessora Especial do Café da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Estado de Minas Gerais durante a gestão Gilman Viana Rodrigues. Foi Secretária Executiva do Sindicato da Indústria de Café do Estado de Minas Gerais durante a gestão Simbrair de Deus Duarte e membro do CERTICAFÉ MINAS GERAIS, durante a gestão Célio Gomes Floriani.

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Geada Negra: coletânea de uma década de reflexões sobre o agronegócio café (2013)  

Geada negra [livro eletrônico] : coletânea de uma década de reflexões sobre o agronegócio café / Mara Luiza Gonçalves de Freitas. — São Paul...

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