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" TEMPO DE COLHEITA"

Versos de Esio Antonio Pezzato 1975 – 2009


Algumas palavras vãs...

Aqui segue mais alguns versos. São versos compostos ao longo dos últimos trinta e poucos anos. Não tem lógica, muito menos uniformidade. Fui apenas escolhendo entre algumas centenas que possuo para formar este pequeno volume. Este livro serve para mostrar um pouco minha tendência poética. São versos quase sempre rimados, quase sempre ritmados e perfeitos. Aqui mostro também que possuo manejo nas métricas. A variedade é farta. Versos Alexandrinos, de Arte-maior, Decassílabos Sáficos e Heróicos, Eneassilábios, Octassílabos, Redondilhas Maior e Menor, Hexassílabos, Tetrassílabos, Trissílabos, Dissílabos e Monossílabos. Portanto todos os esquemas métricos. Também no esquema rimário, busco praticar a estrofes regulares de quatro, cinco, seis, oito e dez versos e ainda poemas sem esquemas definidos. O estudo é longo e penoso. A vontade em variar sempre existiu. Alguns poemas para a variedade do ritmo trazem mesmo diferentes estrofes e diferentes métricas. Talvez isso tudo seja devido aos estudos profundos que pratiquei. Na Escola Romântica era comum a diversidade de ritmos, de estrofes. Na Escola Parnasiana o primor era mais acentuado e a forma quase sempre era imutável. No

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Quinhentismo encontrei grande variedade de poemas com versos curtos, assim como na Escola Barroca. Creio que este livro mostra a variedade de minha poética. Quem me conhece e também à minha Arte, sabe que também sou afeito ao Soneto e a todas as formas existentes de Poemas Fixos, como a Balada, o Canto Real, o Pantum, às Décimas... Aqui me mostro na variedade apenas... São mais de cem páginas que não coloquei em ordem de composição. Fui apenas juntando coisas lidas que mais me atraem. Assim mostro que, mesmo após 13 livros já publicados, versos que compus em 1975 ainda continuam inéditos. Muitos sequer foram publicados em Jornais. São poemas de variadas técnicas, variados metros, variados esquemas estróficos. Claro que, como tantos outros versos, esses aqui também deverão continuar inéditos. Servem apenas para dar uma sequência ao que venho fazendo nos últimos tempos: dar forma de livros para que tudo não seja perdido. O leitor ocasional deste volume vai perceber que aqui não constam Sonetos, muito menos outros tipos de poemas de forma fixa. São versos apenas, feitos em momentos variados... Espero que traga algum fruto essa colheita.

Esio Antonio Pezzato

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Lira

Harpas e sinos E violinos, Luar... Cantos, solfejos, Milhões de beijos, Amar... Um meigo riso, Um paraíso De luz. Preces aladas, Apaixonadas, A flux. Beijos maternos, Cantos eternos De amor. Pura amizade, Fraternidade, Fulgor.

Tudo esperança, Doce bonança, – Perdão!

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O fim da guerra, A paz na terra, Canção. A loura lua Que me insinua Prazer. Sinto que a vida A mim convida: Viver! 10.10.1975

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Entardecer

A tarde aos poucos Em raios loucos De luz A mim convida Viver a vida A flux! Tenho a esperança De ser criança A olhar No instante apenas Meigas falenas No ar. Cheio de encanto Eu faço um canto De amor. E fico mudo, Esqueço tudo Que é dor. Nesta magia Que me extasia No além, Eu sinto na alma

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Morar a calma Do bem... E em ternos brados Apaixonados De luz, A noite chega E em mim se apega – Seduz!... E nesta hora Que o amor vigora No chão, A minha Lira Sublime inspira: – Paixão! 12.05.1977

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Contraste

Malditos homens que na fúria imensa Em vez de proclamarem uma crença Bradam à terra, um crime sem perdão. Será que não existe nesta Terra O pavor pela dor que nos aferra E em nossas vidas só nos dá aflição? Por que os homens bons não fazem nada? Não vê do herói a farda esfarrapada Mas vê as medalhas que no peito traz. Meu Deus! esta medalha nada importa, No lar tem a família toda morta, E em vão, aos superiores, clama paz! É a lei da guerra hipócrita, maldita, Misérrima, fatal, negra, infinita, Que nos caminhos, mata por prazer! É o fuzil que à rajada nunca falha... Fica o herói – que ferido, não trabalha, E a família sem ter o que comer! E ainda bradam aos céus – Fraternidade! Falta água, falta pão, oh! quem não há de Sofrer, chorar, clamar numa oração, Que a guerra – no futuro – fique lenda,

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E ao recordar esta vis達o horrenda, Tudo n達o passe de imagina巽達o! 17.11.1976

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Mistério

A noite vem chegando. Abro a janela e vejo O sol lançando à terra um último bocejo. Ergo os olhos ao céu e vejo, qual magia, Uma estrela a brilhar em cálida poesia. Eis o mistério que eu procuro desvendar E não consigo nunca, uma resposta dar: – Por que o Sol, como um Rei, soberano e sublime, É golpeado sem dó num horroroso crime? 25.05.1977

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Evohé, Momo!

Carnaval! a voz do samba Do alto do morro descamba Para no asfalto vibrar... O povo esquece a desgraça. Vendo a folia de graça, Por que não aproveitar?! Esquece mágoas e dores, Procura novos amores Olha corpos seminus... O samba invade a avenida Que está toda colorida Pelos efeitos da luz... Nos salões, corpos suados, Entre abraços apertados Procuram se libertar... A orquestra está de vigília... E o folião deixa a família Que não pode sustentar... O bumbo marca o compasso, O folião ajeita o passo Numa nova evolução...

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A bebida é consumida E consumida a bebida Eis mais um ébrio no chão... A bebida é o lenitivo Para o ano de cativo Que o folião tem que viver. Com seu pequeno salário O ano inteiro é um calvário Que tem de sobreviver! Por isso bebe a cerveja, Olha o corpo que deseja Porém, não pode comprar. Inveja a alta sociedade, Tem desejos e vontade De nela também entrar. Com o coração bufando ira Vê que o amor é mentira, E é desgraça o carnaval... E sua alma que é tão pura Quer esquecer da loucura Desta desgraça total... Sai feito um doido varrido, Com o coração reprimido Sente ódio de ser assim...

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E quando o dia amanhece, Seu corpo, frio, padece, Em um banco de jardim... 15.02.1978

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Sonhar... Amar...

Pode haver sonho mais lindo, Sonho mais encantador, Do que teus lábios sorrindo Depois de um beijo de amor? Não pode haver neste mundo Outro mais lindo sonhar. Porque em meu sonho profundo Eu conjugo o verbo amar. Amar – sentir a alegria Dominar o coração, E ver, no palco do dia, O mundo feito canção. Sentir no peito a esperança Florir como um rosicler, E sentir-se uma criança Nos braços de uma mulher. Cantar uma ária divina Em hinos vindos dos céus! E ouvir, em voz argentina, As satisfações de Deus...

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Olhar o céu estrelado E uma só estrela escolher, Pois no peito apaixonado Só reside uma mulher. Viver sorrindo e cantando Numa alegria sem fim... Ver borboletas em bando Revoando no jardim Cultivar um Paraíso De flores angelicais, Porque na voz do sorriso Conquista-se muito mais! Por isso, minha querida, O meu sonho é encantador, Porque valem minha vida Os teus sorrisos de amor. 03.03.1978

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Protesto

I

Antigamente era o Salto Que num sobressalto Lançava mil flocos de espumas flutuantes! As águas lutando com fúria dantesca, – Visão pitoresca Da luta fremente em duelar de gigantes! Antigamente era o Rio Que num alvedrio No assombro soberbo ruflava ecoando... Combates sublimes nas longas maretas Iguais borboletas Que as flores silvestres invadem em bando. Antigamente era a Vida Risonha, florida, Que ali declamava um poema de glória: – A paz, a ventura, o sossego, a esperança, – Mimosa criança Que tinha no peito uma cálida história. Antigamente era o Vento

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Audaz, violento, Brigando com as águas no impávido embate; E em gládios de ferro lançavam espumas, Simbólicas brumas, – Suor de cansaço de eterno combate! II Antigamente era o Rio Que marulhava acantar, Com as águas em alvedrio Que rolavam sem parar... Eram as águas – no salto, Que desciam num assalto Levando tudo em roldão... E num combate sem tréguas Levava léguas e léguas De terra em seu coração... Piracicaba! O teu Rio Que nos deu tanto prazer, Hoje está insolente, frio, E vive eterno a feder! Já escrevi um protesto E para todos atesto Com a força do coração, Que é chegada a hora da luta; – Escuta, Cidade, escuta,

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Meu canto de devoção! III Desperta, Cidade! O progresso te acorda, Clamando em mil brandos... não podes dormir... – Nem mesmo o gigante o passado recorda, Desperta, Cidade, e abraça o porvir!.. Desperta o teu sono de noiva que sonha E olha o futuro impiedoso que tens... – Teu Rio é esgoto que expele vergonha, Corsários roubaram teus mágicos bens! Desperta, Cidade! Desperta os soldados, – Valentes soldados que lutam com fé! Grita por justiça em homéricos brados, Pois mesmo sem armas, lutamos de pé. Desperta, Cidade! Que o sono hoje é findo E vence a batalha quem sabe lutar! É morto o passado formoso e tão lindo, É vivo o presente que faz feder o ar.

Oh, Noiva, desperta teus níveos amantes, Teus virgens tesouros despertam ladrões, Que mesmo vivendo em cidades distantes,

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Em ti encontraram reais ambições! Amantes da Noiva, despertem do sono, Cruéis forasteiros aqui vêm pousar. Não deixem a Noiva ao supremo abandono, Que os sonhos dourados não podem findar. IV É chegado hoje o momento De erguermos a nossa voz! De criarmos um Mandamento Que seja rude e feroz! Não mais podemos dar margem A esses corsários que espargem Tamanhas destruições... Não temos mais esperanças No peito temos vinganças, E fúrias nos corações! Estou pedindo Justiça, – Justiça vinda dos céus, Para quem planta a carniça No mundo feito por Deus. Dão fim à pátria beleza, Depredam a Natureza Que Deus criou com Amor. Matam Rios e Florestas,

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E em negros ritos de festas, Plantam no mundo o horror. Nosso Rio fede à morte Da negra poluição. Se existe no mundo a sorte, Federá o coração De quem mata a Obra Divina E planta a carnificina Com ódio, rancor e desdém. – Se nos tiram a Esperança, Brademos pela vingança, Que a vingança um dia vem!... Mas hoje, meu pobre Rio, É um córrego a feder Imundo, insolente, frio, Sem forças para viver. Foi ingrata a tua sorte, Os homens deram-te a morte Profana, negra, fatal... E nessa tragédia imensa Não mais dizes tua crença No teu Salto colossal! V As águas desciam contentes, sorrindo,

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Trazendo em seus seios cardumes de peixes Que vinham em feixes Da altura caindo... Nas brancas muralhas do velho Mirante Anzóis se enroscavam em mil lambaris; E o velho sorrindo no assombro inconstante, Ficava contente, ficava feliz! Tarrafas traziam nas suas lançadas Pintados, dourados e curimbatás... – Mas isso é visão de miragens passadas Do velho pesqueiro, dos dois Tangarás! VI Tangará, Tangará! Onde estás? Não vês o que fazem com o Velho gigante Que está agonizante Num leito de pedras imundo, poluído? Não vês a maldade que impera em teu rio Que corre sombrio Qual velho imponente que tomba ferido? Não vês o que é feito do Rio soberbo Que abria o seu verbo Na infrene caída do Salto sublime? Não vês que o Progresso – demônio invencível! – Qual ferra terrível

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Matou-O na fúria de intrépido crime? VII Que resta do Rio formoso, espumante, Com as águas fazendo infernais escarcéus? – Um leito de pedras imundo, inconstante, Pedindo de esmolas, as águas dos céus! E o homem profano, com a máquina forte, A tudo destrói sem razão, sem piedade! Destrói a Natura com ânsias de morte, E põe no presente um passado em saudade. VIII Os homens foram traiçoeiros Profanando as Leis de Deus... Desgraçados Timoneiros, Profetas falsos e ateus! Vamos soltar nossos brados, Somos valentes soldados, Temos fé no coração. E nós pedimos justiça, – Contra tamanha carniça, – Contra tamanha traição! E tremulando nos ares

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Este negro Pavilhão, Poe o pesar nos pesares, Luto em nosso coração! – Põe um fim às Esperanças, Mil desejos de vinganças No peito de todos nós... Se nos tiram desta Vida Esta paisagem florida, Ergamos a nossa voz! X Que é de Direito – que ouça o que digo: – Eu quero somente a verdade e a justiça, Eu quero o meu Rio com as águas rolando, E não vê-lo morto, cheirando a carniça. Eu quero o meu Rio com as águas rolando Mostrando cardumes de mil lambaris! Eu quero o meu povo às margens cantando A ode infinita de um dia feliz! Eu quero as crianças felizes de outrora Nadando contentes, pescando mandis. Eu quero que surja ao meu Rio uma aurora: – Os sonhos dourados de um dia feliz. Eu quero que os homens compreendam que a vida

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Do Piracicaba é sublime e sagrada. Pois ele é o Decano da longa jornada De uma Era passada que ainda é vivida! Façamos protestos, ergamos as vozes Aos filhos do Inferno, profanos, ladrões! Parentes de feras, de horríveis algozes, Que não têm nem alma, não têm corações! Sou muito pequeno, mas mesmo assim luto, E tudo o que escrevo em verdade eu atesto: E junto ao meu Povo também estou de luto, E em versos escrevo meu negro Protesto! 15.10.1978 ***Este poema foi por mim declamado quando da

Noite de Autógrafos do meu primeiro Livro Luzes da Aurora, no CCR Cristóvão Colombo., Em 19 de outubro de 1978

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Na noite

... E sempre quando a Noite – enclausurada desce Que em mim, a inspiração palpita como prece E meus versos componho... E tal felicidade encontro neste instante Que fico triste, quando o sol mirabolante, Vem me tirar o sonho. A mim, compor é luz! mas minha luz é treva! Sinto o espírito leve enquanto ele me leva Aos insondáveis mundos Onde não penso estar – mas espiritualmente Fios de luz prateada alceiam minha mente Aos espaços profundos. E é gostoso viver fora da realidade, De mãos dadas vai a Alma além da Eternidade Que o homem tenta e busca. Mas quem n'alma não tem o bafejar dos Deuses, Na hora em que a Noite desce embroma-se em adeuses E o olhar na luz ofusca. 20.08.1987

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Crepúsculo

No horizonte distante, o fogo dos crepúsculos Tinge as nuvens de sangue e o vermelho clarão Mais parece um gigante a retesar seus músculos, Tentando derrubar o Templo igual Sansão! O espetáculo rubro é uma visão homérica Que o nosso humano olhar que vê, jamais traduz! É o ato singular neste torrão da América, Que outrora se chamou – Terra de Santa Cruz! Quem foi que assim o fez... essas telas tão quérulas, O Homem tenta emplacar entre os mistérios seus. Mas vendo sol jorrar seus turbilhões de pérolas, Ouço, dos Céus reboar, uma palavra – Deus! E trava-se o duelo entre as visões plutônicas: A densa treva e a luz qual forte Mirabeau! E entre a grande explosão dessas forças biônicas, Eu vejo Napoleão entrando em Waterloo! Crepúsculo faiscante, explosão soberba e única Concede a Terra o dom de vestir-se de luz! E todo o Espaço é um véu da mais radiante túnica, Que cintila, borbulha, alvoroça e seduz.

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E chega a noite... A treva entre visões poéticas Esborrifa no céu densas constelações... E ao longe julgo ver, em formas esqueléticas, Fantasmas irreais... frutos de mil visões... As pérolas de luz são as estrelas pávidas Entre as constelações de mágico esplendor. E o castiçal que brilha em noites lindas e ávidas, Faz o Bardo cantar lindas canções de amor. E eu fico a recordar os fantásticos ídolos, Que iam, em alta noite, atrás das ilusões... – Flamígeras visões que com altos estrídulos, Buscavam encontrar a paz nos corações. 13.02.1979

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À Maria Lavínia Machado (Quando de sua volta do Exílio, na Suécia)

I No infrene desejo de um negro protesto Sepulto o meu verso que diz o que pensa. O medo da morte que ao mundo eu atesto, Provoca em meu peito uma pútrida crença. Não digo o que quero... o pavor me domina... A podre censura não livra os apelos... Se canto a Esperança que a mim se destina, Encontro um Calvário de mil pesadelos. Amiga! O que importa um País tão gigante, Se nele não temos o Lar desejado? Que importa vivermos num mundo distante Se em nós a saudade é de um tempo passado? Que importa a Família, os Amigos, os Filhos, E o Estudo que pode salvar tantas vidas, Se estamos andando em caóticos trilhos, Com tantos desejos e esp’ranças perdidas? Que importa outros povos, se temos um Povo? Que importa outra língua, se a nossa já temos?

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Que importa um País velho, se temos um novo? E um barco, que importa, se nos faltam remos? II É tempo de lutar... Vamos soltar um grito aos céus abertos. Vamos gritar que nós estamos certos, Pois é chegado o tempo de lutar! É tempo de viver... Esquecer as algemas e as correntes, Vamos gritar os gritos conscientes, Pois é chegado o tempo de viver! É tempo de agredir... Com Martelos, com Foices e com gestos, Com atitudes e com manifestos, Pois é chegado o tempo de agredir! É tempo de vencer... Vencer os homens do Ideal errado, Cantar vitória estando derrotado, Pois é chegado o tempo de vencer! É tempo de avançar... Avançar derrubando mil barreiras, Dar de comer aos homens das trincheiras,

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Pois é chegado o tempo de avançar! É tempo de poder... Poder fazer um jogo certo e quedo, Que não leve ninguém para o degredo, Pois é chegado o tempo de poder! III Amigos das correntes, é chegado O momento da glória e da justiça: O mal hoje faz parte do passado – Não haverá mais cheiro de carniça! Chega de podridão e tanta lama, Chega de um ideal tão putrescente; Se um Poder viver e este Poder no chama, – Marchemos, meus Irmãos, vamos em frente! Vamos cantar aos céus nossa vitória, Mostrar ao mundo que é nossa a verdade. – Este dia será o dia de glória, Pois estamos em “plena liberdade!” IV

Marchemos! Cantemos! Ao mundo mostremos os nossos valores! Mostremos os brios que temos nas faces,

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Pois homens existem com múltiplas faces, Que viram de amigos – a negros traidores. Marchemos! Cantemos! A luz da Alvorada já luz no horizonte E um dia de sonhos enfim ´e chegado! – E vós que voltastes, mostrai vossa fronte: Mostrai que esquecestes do negro passado. Mostrai para nós que ainda existe a Esperança, E “a luz da Alvorada de um dia melhor!” Mostrai que não tendes nenhuma vingança, Mas sim o desejo de um cálido Amor! 27.03.1979

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Mar

Mar! Belo mar azul! Que mistérios contêm? Amedrontas, seduzes! Quando na praia fito o reflexo das luzes E refletes sorrindo o Cruzeiro do Sul, Imagino que Tu Dentro do abismo enorme, imenso que tu sondas, Provocas-nos a nós com intérminas ondas E não te mostras nu... e não te mostras nu... Quando emites teu som, De frenética guzla, um silêncio profundo Sinto nascer do céu abençoando o mundo O mundo que é Senhor e és Puro, e és Terno e és Bom! Mar! Infindável Mar, Onde me levas tu dentro de teus segredos? Responde, velho Mar... eu tenho tantos medos Que frente a frente enfrento a fúria me forçar! Teu silêncio me diz Que choras por alguém. Espero que respondas, Mas teu pranto de sal escorrendo das ondas Não tem resposta alguma e só te contradiz. Por certo, meu Senhor, Tu guardas do passado uma infindável mágoa, E quando vens à praia acariciá-la d’água, Tentas mostrar a terra o teu imenso amor? 06.10.1988

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John Lennon Pairou dentro da noite o espírito do fogo E o bólido cruel tirou a tua vida. A vida que viveste em pleno ardor do jogo Sucumbiu ante a fera implacável, vencida. E a tua voz calou e levou o teu canto Restando, tão-somente, um hino de esperança. – Quem outrora cantou hoje vive de pranto, Pois de tanto cantar, a voz também se cansa. Te envolveste com o mundo e sonhaste com a glória, Com a força de um leão, lutaste contra a guerra, E a desgraça total hoje se faz história E tu não fazes mais parte da negra terra. Calou-se a tua voz dentro da noite escura E não restou, sequer, o verso de um poema. Baixou teu corpo frio à fria sepultura, Teu ideal de paz ao mundo se fez lema! A mús’ca do silêncio em desespero aflito Tenta ainda cantar um verso de esperança. Mas este canto sai na forma de atro grito, Que o verso mais parece um verso de vingança. Não mais irás cantar teu desesperado hino

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Pedindo aos homens bons, Paz e Fraternidade. A luz da redenção encontrou o destino Onde existe ironia, ódio e ferocidade. Em tudo vibra o horror em negro cadafalso E o desespero aflito em gotas de veneno Mostra que o mundo hipócrita é tenebroso e falso, E por isso calou a tua voz, John Lennon! 25.05.1981

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Dentro da Noite

Dentro da noite imensa, a madrugada vibra... No céu – brilhante e doida, a lua se equilibra, E colore de prata os meus parcos cabelos... Dentro da noite vago imerso em pesadelos, Sem rumos a seguir para encontrar abrigo. Caminho triste e só... ninguém segue comigo – – Talvez a solidão me espere n’algum canto. Não carrego ilusões, n’alma não trago o encanto, Com que outrora sonhei de conquistar a vida... Toda a minha esperança hoje está resumida Entre os becos sem luz deste longo caminho. – Dentro da noite estou como sempre sozinho... Na esquina um cão vadio olha bem em meu rosto; (Eu não o temo embora o mês seja o de agosto) Sabe ele que estou só dentro da noite fria E que meu coração, como o dele vadia... – Sai ele em disparada atrás de uma cadela Pois farejou-lhe o cio... agora está com ela E o desejo animal aguça os seus instintos. – Dentro da noite estou com meus sonhos extintos... Vejo agora uma luz, já que dobrei a esquina; Ouço vozes, porém, embaçada, a retina, Dos meus olhos não prende os vultos que se agiram...

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Dentro de um velho bar homens conversam, gritam, Jogam bilhar, baralho, e no balão recebo Um copo de aguardente... Angustiado o bebo, Fico vermelho, cuspo a intragável cachaça... Todos riem de mim e todos acham graça Deste boêmio tolo, imbecil, lorpa, idiota, Que não sabe beber... Dizem uma anedota Para bêbado rir, porém, não dou risada. Saio do bar e encontro a densa madrugada Que de mim se apodera... A noite vai passando, Encosto-me num poste e tenho um sonho brando... Uma linda mulher da vida se aproxima E insiste e quer ficar, quer ser a minha rima, Já que dois passos dou em fuga da abordagem. Ah, não quero embarcar nesta errante viagem Dentro de um lupanar que nem sequer conheço... Ela teima em fazer para mim um bom preço E quer me dar o amor que diz ser voluptuoso, Porém, distante estou da delícia do gozo, Quero apenas passear dentro da noite imensa E sozinho fazer a minha própria crença. Mas a mulher insiste e me faz companhia E quer que eu lhe ofereça esta minha Poesia Que agora estou compondo... está bem, oh, Paloma! O seu nome aí vai, fica-lhe bem? O aroma De seu perfume exala uma forte fragrância;

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Oh, Paloma, vem cá, perdoa-me a arrogância, Vamos ficar aqui dentro da noite... logo O dia surgirá de seu portal de fogo... Vamos curtir a noite enquanto a noite existe, Já não estamos sós dentro da noite triste, E se estamos a dois, a solidão é morta... Oh, graciosa Paloma, oh, pomba, me conforta, Que te confortarei... juntos existiremos – Se a vida é um barco então sejamos nós os remos! – Não, eu não quero ouvir fatos de teus amantes... Também não quero ouvir sonhos mirabolantes... – Vem, fala-me de ti, fala de seus anseios, Vamos matar o tempo em longos devaneios... – Vês, oh, linda Paloma, a linha do horizonte, Já se tinge do sol – soberbo mastodonte! – E ainda estamos aqui confusos, sonolentos... Brincando de soltar folhas aos ventos... Fomos dentro da noite errantes solitários, Nos parecemos como os peixes dos aquários Que circundam sem fim seu limitado mundo. Nada tenho a dizer no silêncio profundo; – Nada tens a dizer? Vamos, Paloma, embora, Que a noite se acabou e vem surgindo a aurora!... 09.08.1986

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Dentro da Noite

Novamente estou eu na madrugada fria Buscando a solidão para ter companhia... No céu, a lua gorda e grávida de luz, Com seu brilho sensual meu coração seduz. Quero encontrar Paloma, a loira feiticeira, Quero-a sim, para ser a minha companheira. Será que a encontrarei como ela me encontrou? Com este pensamento ao seu encalço vou... Tanta coisa ficou sem ter resposta alguma... Impossível, meu Deus, que ela da noite suma. Somos iguais em tudo e queremos a paz Que não podemos ter... oh, Paloma, virás Esperar-me esta noite? estou à tua espera, Não me deixes sofrer... o acaso é uma quimera Que pode novamente, agora, acontecer. Se ontem tu me ofertaste instantes de prazer E eu tolo não os quis, hoje, loira Paloma, Embriagado, estou lembrando o teu aroma. Pomba loira da noite, aqui a te esperar, A noite passarei na ânsia de te encontrar... 12.08.1986

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Aos invisíveis (Para Raya e Petrin)

O Espírito da Noite entra em meu corpo. Entra. Entra, E minh’alma, na luz, tomada se concentra Enquanto que um a um – fantasma após fantasma, Pedem para eu gravar, seus nomes no que escrevo! Fogos-fátuos em mim! Tenho medo, e se devo Ao pedido ceder, a Idéia fica pasma. Quero eu mesmo ser Pai dos versos que componho! Não quero, ao acordar, após, tomado em sonho, Ver o Verso completo e as páginas já cheias. Quero eu mesmo buscar a minha própria rima, Eu mesmo me inspirar e que eu próprio me exprima Tendo meu próprio mar, minhas próprias Sereias! Minha Musas, talvez, se é que as Musas existem! Minhas Inspirações todas elas resistem Ao que de fora vem soprando no ar da noite! Emanuel talvez me seja mais constante... Rápido, quando vem, fica um simples instante, Após entra na Luz e fica de pernoite. Mas Ele pode vir... eu primeiro chamei-o E fui seu porta-voz, fui seu pombo-correio,

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E com prazer cantei a sua Liberdade. E fui com Ele em mim, ver o meu velho Rio, (Lembro-me bem, fazia um cavernoso frio!) Ele não quis ficar para ver a cidade. Outras vezes voltou... Deitado em minha cama Rabiscou nos lençóis, mudou o panorama De todo o meu passado e me fez diferente... Fez-me ver o Porvir. Arrepiei. Senti medo... Porém, só para mim guardei este segrego E tudo aconteceu em seu Tempo presente! Outros vieram após (E eu pensei que inventava Os nomes um por um, mas minha mente, escrava De todos, não sentia o Poder da mensagem). Cada um por mim falou como se fossem vivos, E estivessem aqui – foram todos cativos E eu de todos compus a mais perfeita Imagem. Hoje eu ainda os tenho ao meu lado e em minha ânsia De rápido compor sempre em maior constância, Não dá tempo a seguir de todos um conselho – As ideias entranço, entravo pensamentos, Às vezes estou só – nos próximos momentos Penso como criança e dou ordens de um velho. Tenho medo me ver no espelho refletido E ele então me mostrar alguém desconhecido

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Pois sinto até mudar as feições de meu rosto. Sinto tudo mudar do modo mais convulso, Aceleram demais os toques em meu pulso E eu mesmo chego a ser um Poeta composto. Fico desesperado. Outras vezes me espraio... Sinto-me flutuar – no mesmo instante caio Para ser gladiador em épocas remotas... Depois sou jardineiro e amo todas as flores, Após sou D. Juan, quero ter mil amores, Por fim sou Armador e comando dez frotas! Amigo! Como estou fluindo nas idéias... É que meu corpo está travado em epopéias Em tempos que não sei, num País não sei onde... Insensível estou a tudo e a todos. Grito. E meu grito, porém, rebate o Infinito Volta dentro de mim, dentro de mim se esconde. Pareço uma fornalha, uma enorme fornalha Produzindo aço gusa e entre tanta limalha, Por três turnos trabalho ininterruptamente. – Sou Eu! – Não sou! – Não sei! – Quem por mim ora fala? – Se eu gritar para o céu a minha voz se cala Em mim eu não estou nesse tempo Presente! Penso ser um Corsário, ou serei um Pirata? Um Cavaleiro antigo? Um Quixote de lata

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Com mil fitas azuis amarradas à farda? A mancha de meu corpo é o Original Pecado? Ah, será que terei meu tempo terminado? Atrás do céu azul que Mistério me aguarda? Respostas não conheço e não sei o que sinto. Parece que o Vulcão dentro de mim é extinto E eu não sei contornar tudo o que me acontece. Todos venham a mim! Mostrem-me suas faces! Oh, Sobrenaturais, surjam em brancos passes Vamos juntos rezar nossa bendita prece! Apareçam por fim! A idéia está completa. Quem foi que agora veio e me deixou Poeta? Quem foi que veio em mim? Apareçam, respondam... Não podem se mostrar? Pois bem, findo o meu verso Podem todos partir para a Luz do Universo Mas todos, por favor, nunca de mim se escondam. 28.02.1989

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Desesperanças

Esperançosas desesperanças Tênues caminhos de atras lembranças Quem dera fossem utilidades. Mas uma curva sempre aparece E o descaminho seu rumo tece Enovelando tolas saudades... Desesperanças esperançosas. Nas alamedas tufões de rosas São úteis para florir em Eras Tolas saudades opacas, turvas, Que se dissipam nas tolas curvas Do tempo... e trazem as primaveras... 08.09.1995

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Dia de sol

Chove aqui dentro. Densa e fria, a chuva Chora lágrimas tristes de viúva De uma amargura que não tem consolo... Órfão de meus amores – a esperança Patética e sinistra um baile dança O balé de quem n’alma traz o dolo. Relâmpagos fulminam de meus olhos; Meu quarto abarrotado enfrenta escolhos Daquela que não mais mostra presença... Raios chispam de mim por toda a parte – Meu coração em partes se reparte Com angústia, com tédio e indiferença... A enxurrada em meu rosto, densa, corre... Apavorado vejo, enquanto escorre A enxurrada sinistra no meu rosto, Desesperanças, desesperos, cismas, Meus olhos, no reflexo de mil prismas, Refletem fundas mágoas do desgosto. Além, pela janela, fulge a vida!... E eu aqui, com a esperança carcomida Procuro um sonho que morreu distante... Brilha o sol e aqui dentro a chuva invade

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Meu coração que chove de saudade E troveja em relâmpagos, ebriante. Que contraste! Que mundo de amargura... Lá fora a vida corre ampla e segura, A vida brilha e a brisa as folhas move... Aqui dentro, minh’alma assaz soluça E em pandemônios lágrimas aguça E de meus olhos densa chuva chove... 21.12.1991

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João Paulo (e para todos os ex-oratorianos) Dorme, criança, dorme o sono eterno; Por certo Deus já preparou o Inferno A quem te fez dormir assim tão cedo... – Eras ainda uma criança apenas, Para topares com as bestiais hienas Que te deram pavor sinistro e medo... Hoje que já não brincas, nem divertes, Que tens o coração e olhos inertes, E não podes falar, pois estás morto, Eu sinto que lembrança atroz me fere, Como a ferrugem na minh’alma adere, Pois teu sonho ancorou em frio Porto! Quem te matou não sei... quem sabe cala... Mas enquanto tu jazes numa vala Teu assassino corre para o embosco... – Dentre os homens jamais será julgado, Mas quando ele também for enterrado, Irá acertar as contas com Dom Bosco! Saías a brincar... jogavas bola, Tinhas amigos mil... ias à Escola, Eras uma criança muito esperta... Porém, em teu rostinho de inocente Dois olhinhos brilhavam docemente

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A cada fantasia descoberta... Tão pertinho de casa tu moravas E eu nem te conhecia... pois andavas Com quem tinha igualmente a tua idade... Mas deixa eu te contar: quando eu criança Também corria cheio de esperança Para encontrar-me com a felicidade... No mesmo quarteirão fomos vizinhos Em tempos diferentes – e os caminhos Por nós pisados foram semelhantes... – Frequentaste o Dom Bosco! – a minha Infância Perdida já num sonho de distância – Também ali viveu – sonhos constantes! Geniais lembranças a minha Alma guarda: – Cada padre era nosso Anjo da Guarda Padre Modesti, Nery, Adolpho... e tantos Tantos outros que a mente ainda recorda E as festas eram tantas... Sursum Corda! E nas missas cantávamos mil cantos... Havia procissões e as Vias-Sacras, – Ai, lembranças! Me feres, me massacras –, E a saudade meu peito descortina... – Novenas à Senhora Auxiliadora, Missas às 6as. Feiras e a canora Voz do Sermão com o Padre de batina.

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A diversão ali era completa! Cada Padre com ares de Profeta Contava lindos Sonhos salesianos... Domingos Sávio junto a nós vivia, Nosso mundo era pleno de Poesia, Nossas vidas, jamais tinham enganos... Viviam nossas Mães despreocupadas... Lições de Catecismo eram tomadas; Sempre a gente encontrava um novo amigo... O Dom Bosco era enfim a nossa casa! Sempre que algum de nós batia a asa, Era para ir brincar no doce abrigo! Tinha escorregador, tinha balanço, – Hoje que o pensamento aos ares lanço Uma saudade me sufoca o peito... O Oratório fechou para as crianças, Que já não podem mais ter esperanças Porque o passado é morto e está desfeito... As Madrinhas – beatas comungantes Diárias – que cuidavam dos Infantes, Umas – morreram! Outras – se cansaram!... Nesse tempo também fomos crescendo, Os Padres bons foram envelhecendo E nossos sonhos se desmoronaram!...

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A Capela tão linda, tão formosa, Foi para um canto, pois ficava ociosa Muitas horas por dia... só os beatos Frequentavam enfim as suas missas... Sem atrativos tínhamos preguiças, E ninguém constatou tão tristes fatos. Veio o capitalismo em eitos rudos... Os pobres já não têm bolsas de estudos E o sonho de Dom Bosco vai-se ruindo... Hoje é Colégio feito para rico! E com saudade louca ainda fico Lembrando um sonho que foi puro e lindo. 02.02.1992

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A minha Poesia A minha Poesia – de braços abertos – Procura em desertos florir e dar frutos. Ao som de mil liras, em rimas modestas, Faz ecos de festas em ternos tributos. A minha Poesia traz sonhos ridentes, – Preciosas sementes de amor e carinhos Qual ave canora com trilos e encantos, Estala em mil cantos à beira dos ninhos. A minha Poesia tem ecos de sinos, – Recorda meninos brincando na rua Festivas cirandas de alegres crianças Cantando esperanças em noites de lua. A minha Poesia, num hino de vida, A todos convida – com cantos e sonhos – A termos nos lábios, um terno sorriso, Que é marca de aviso de dias risonhos. A minha Poesia traduz-se em ternura, Na rima mais pura, no sonho mais puro. E assim eu espero, que as minhas Poesias, Perdurem nos dias de todo o Futuro! 25.10.1995

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Na noite

Sonhos dispersos, Milhões de versos Componho ao léu... Olho as estrelas Louras e belas Que estão no céu. Escuto o vento Que lento, lento, Um som produz... Quanta harmonia! Pura poesia Que me seduz. Nos largos campos Mil pirilampos Estão no ar... E o pisca-pisca O céu rabisca Como um placar. Olhando o espaço Dou mais um passo Sem perceber

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Que tenras flores Multicolores Me dão prazer... Sozinho sigo... Penso comigo: – Doce pensar! – Serão as flores Com suas cores Sob o luar Que estão me dando O prazer brando Desta emoção Ou vaga-lumes Que com seus lumes Na imensidão Igual poesia Dão-me a alegria Do bem-querer? – De alma extasiada Na madrugada Sinto prazer! Minh’alma explode! A voz em ode Solto nos céus!

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Sinto na lua Que alĂŠm flutua, O olhar de Deus! 25.06.1993

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Três cantos

–I– Este é o caminho Onde sigo à toa A procurar os sonhos De sempre estar sozinho. A vida é muito boa A vida é muito má, Porém, além da vida, Quantos mistérios há? Estou portanto aqui A esperar um bem Que surja e me apareça No caminho do além. – II – Irei me alimentar De badalar de sinos De sonhos de meninos Para poder cantar E ficarei aqui Sonhando o que mais quis – Horas de ser feliz Horas de ser amor

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E verão multicor O meu mundo de cor Pois é feliz quem vê Na vida o seu amor.

– III – Abasteço-me de sonhos E muita fantasia E deixo mais risonhos Os sonhos do meu dia. Espero que me vejas Com olhos que desejas Pois eu te quero ver Na sombra do caminho Que assim jamais sozinho Terei porque sofrer. 03.11.1993

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Alucinação (Para Augusto dos Anjos)

Ah! Não sou eu que digo tantas cousas Só decifro os enigmas posto em lousas Que um Vate morto mostra para mim. Talento falta para ser Poeta Embora exista uma ambição secreta De eu mesmo semear neste jardim. Que seja Antero, Nobre, Sá, Cesário, Nos labirintos faço o itinerário Para escrever o que me fere em luz. Todos eles povoam os meus sonhos, Além-mar meus sentidos são risonhos E um etéreo caminho me conduz. Viajo então, nas asas do passado, Cada vez fico mais apaixonado Pelas ruas antigas de Lisboa. Já não há mais o Cólera e a Febre, Com os olhos vermelhos de uma lebre Olho tudo e acho a vida muito boa. Viajo à Itália e sou Renascentista! Com Miguelangelo me faço artista Pelos tetos ovóides da Sistina.

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O Juízo Final é minha tela, Com Raphael a Virgem é mais bela E meu Jesus tem expressão Divina. Para a imaginação eu abro a rédea... Com Dante escrevo versos da Comédia, E com Petrarca eu ando a vida a sós. Decifro a Esphinge e todos os enigmas, Com Édipo urdo enormes paradigmas Com Marco Pólo ando milhões de nós. Vou à China comprar papel de seda, Na Índia busco canela e essência azeda E compro nós-moscada, cravo e mel. Na África encontro Adamastor gigante, Mas encontro também a minha amante Brincado num enorme carrossel. Na Grécia encontro o Monte do Parnaso, E as Musas dizem-me que é um mero acaso Escrever versos como e quando quero. Mas num mourão de estrada abandonado, Encontro um homem cego e muito amado Que para mim diz se chamar Homero! Num labirinto, louco me atrapalho, Jogo Runas com as cartas de um baralho E elas me ditam transparente Norte.

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Mas não entendo a sorte e em vão me irrito, Vou olhar as Pirâmides do Egito Num albatroz que tem o corpo forte. Caio de novo numa terra estranha... Estou na mais exótica montanha Onde o branco da neve lhe reveste. Frio é intenso, porém, tenho uma blusa, O termômetro o frio não acusa, Mas bem sei que estou no alto do Everest! Mas novamente vou quebrar a cara, O calor lembra as terras do Saara E derrete em impacto, todo o gelo. Agora, aos solavancos vou seguindo, Mas eu não sei para onde que estou indo Montado nas corcundas de um camelo. Se não foi tudo sonho, estou é louco, Mas para a insanidade falta pouco Dês que do amor perdi a rubra chama. Ah! Diabos, o que estou fazendo em casa? Vejo que o sonho me arrancou um’asa, E aflito vejo que caí da cama. 02.06.1995

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Saudade

Hei de cantar um dia esta saudade Que brota em mim com força e intensidade. Hei de cantar a dor que ela me causa De uma só vez e sem nenhuma pausa. Mas enquanto não canto e apenas penso, Torna-se meu delírio mais intenso. Às vezes penso mesmo em esquecê-la, Mas dentro de meu céu – torna-se estrela. Acompanha meus passos dia a dia, E permuta comigo esta poesia. Se, exalto-a, diz a mim que vai embora, Então calo meu canto na mesm’hora. Porque não mais eu sei viver sem ela, Tanto que em meus ouvidos tagarela... E tanto me sei dela prisioneiro, Que meu viver, é dela o dia inteiro. 14.05.1997

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Cantiga de qualquer dia

Novamente estou sozinho De frente para o caminho Onde mora a solidão Calada ela me acompanha E todo o meu corpo banha E me deixa na aflição Outra vez ela me fita Grita, grita, grita, grita, Que vai ficar sempre em mim Mas não a quero comigo Não quero ser seu amigo E nem seu abrigo enfim E ela com sua risada Fica em meu corpo agarrada Pois assim lhe dá prazer Porém dela faço pouco Porque não sou nenhum louco Para com ela viver Ela é mesmo sem vergonha Se a minh'alma em ânsias sonha Ela tenta me impedir Se alguém vem em companhia

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Ela safada e vadia Tenta estancar meu sorrir Porém eu bem a conheço Sei de cor o seu apreço E a falsidade que tem Fingindo-me abandonado Num instante trago ao lado Um outro precioso bem. 17.07.1995

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Em casa

Entardecer. Bandos d’aves No espaço planam suaves Buscando um local de pouso. O sol crepita vermelho, E à hora d’Ave eu me ajoelho Agradecendo o repouso. No quintal D. Maria As plantas, com alegria, Vai regando com o esguicho. Os tinhorões e os beijinhos Recebendo a água em carinhos, Soltam flores com capricho. Soberba, até a mangueira Sacode-se prazenteira Recebendo os jatos d’água. E com frescura agradece Este elixir que é uma prece Ao sol de quentura frágua. Casais de belas rolinhas – Que, ai, meu Deus, são tão mansinhas! – Nem ligam para a cachorra; Pousam à beira do prato

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E num simples e terno ato, Dos grãos de arroz vão à forra. Num jantar que não se acaba, No denso pé de goiaba Os bem-te-vis e os sanhaços Procuram gostosa janta, E todo o quintal se encanta Com os cantos de mil compassos. Minh’alma então se inquieta, E com ânsias de Poeta Desfaz-se em mil redondilhas... – Tudo, tudo me comove, Tirando a prova dos nove Eu me exulto em maravilhas. No meu recanto de estudo Extasiado fico mudo Ao ver tão linda paisagem... E a visão que me transporta É a moldura de uma porta Que mais parece miragem. Fitando tão linda cena Minh’alma fica serena Que até de alegrias chora... – Se outra vez chamar-me o mundo,

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Direi com desdém profundo: – Daqui não vou mais embora!... 26.07.1995

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Melhor idade

A ladainha de velho Até parece Evangelho Do nosso Cristo Jesus: Pois ela sempre começa Com uma saudade impressa Dos tempos cheios de luz... Mas o tempo – horrendo vândalo! – Retira a essência do sândalo E faz brotar a saudade No coração das pessoas E restam somente boas Lembranças da mocidade. Ser velho hoje é muito triste, Pois a esperança inexiste E a experiência não se conta; Os anos correm ligeiros E aos incautos passageiros Essa viagem amedronta. Mais de quarenta, cinquenta, Sessenta, setenta, oitenta... Poucos alcançam o cem! Mas mesmo vivendo tanto

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Sonhamos um outro tanto Se saúde o corpo tem. Chega a aposentadoria Que é uma carta de alforria Há anos e anos trabalhados; E o governo nos esquece, Nos joga no INSS Onde somos desprezados. Roubam o nosso salário, Nos impingem um calvário Nas grandes filas dos bancos. Nos roubam de todo o jeito E não tem sequer respeito Aos nossos cabelos brancos. Mas mesmo assim a esperança É nossa sublime herança – Tudo é festa para nós! Alegres, vamos contentes, Vendo nossos descendentes Nos chamando de Avós! Baila em noss”alma o sorriso, Temos nosso paraíso De muita felicidade.

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Na vida vamos sorrindo E vibrando e competindo Com nossa melhor idade! 10.10.1995

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No dia seguinte

Foste o ideal de tudo o que sonhei; Bastavas-me na minha realidade. E hoje me resta um mundo de saudade E sofro o desespero desta lei. De ora em diante serás o meu passado Cheio de sonho, cheio de sorriso. – Se contigo sonhei meu paraíso, Hoje vivo meu mundo abandonado. Não mais nas noites quentes de verão Nós ficaremos cálidos, sozinhos, Trocando juras cheias de carinhos, Que acariciavam nosso coração. Distante do prazer e da alegria Estaremos da vida que sonhamos, Como de duas árvores – dois ramos! Como da meia-noite – o meio-dia! E à agonia de estar na vida só, Faz que eu perca da vida todo o esmero. Mas ganhe um infaustoso desespero Por ter os sonhos todos, feito pó. Te amo tanto, querida, te amo tanto,

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Que sofro de amargura estar distante. Quando te sinto fugitiva amante, Embargo meu cantar em rude pranto. Não mas as noites claras de luar, E os sonhos recheados de ternura... Não mais a vida plena de ventura, E nossos corações num palpitar... Por isso n’alma trago o sofrimento De todos os sofridos deste mundo: Num mar de lágrimas – a vinda afundo, E encho o mar com o pranto do lamento. Não mais terei teu corpo junto ao meu Que para nós não mortas as esperas... Estão findas as nossas primaveras, E os sonhos para nós – adormeceu. Eu que de angústia – trago o peito cheio, Levo mais uma angústia em minha vida. – A jarra da esperança está partida, – Finíssimo punhal fura-me o seio. Tristemente procuro em meu jardim Entre as flores – as minhas esperanças... Mas das roseiras – pontiagudas lanças, Escrevem com meu sangue – um triste fim.

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E ainda te quero com amor enorme... Basta que voltes num sorriso infindo, Para fazer meu mundo triste – lindo, Para acordar o amor que n’alma dorme. Vem, querida, avivar o meu viver Com o amor e a ternura mais dileta. – Só assim a minh’alma de Poeta Terá mais esperança e mais prazer. 10.03.1996

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Ofício

O ofício de Poeta me fascina: Os dias passo dentro da Oficina Onde produzo, na paixão intensa, O que a Musa me sopra e se parece Na cadência frenética da prece, Uma sublime e arco-irisada crença. E assim, noites e noites acordado, Evasivo dos mundos, inspirado, Vou produzindo em versos meu rosário No ofício ingrato de colher gravetos, Para rimar baladas e sonetos, Para vê-los fulgir no itinerário. Enquanto a vida corre em sua pressa, Na forma da poesia deixo impressa Na inspiração que bate na minh’alma – Os sonhos, as esperas, os anseios, As buscas de ilusões, os devaneios, Os encontros que irão trazer-me a calma. Por isso a mão, em transe, na Oficina, Baila como suave bailarina Na cadência da música envolvente. Na folha de papel corre macia,

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Embalada no preito da Poesia, Que a envolve com ternura sorridente. E no silêncio, no embalar do sonho, Rimas e métricas nos versos ponho, No ofício do trabalho que me alegra. E, tudo faço no silêncio – mudo, Sem me lembrar de tanto e tanto estudo, Para saber de cor a pura regra. 14.04.1997

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Ruas esquecidas

Existem algumas ruas Que só se passa por elas Procurando por alguém. Assim, em noites de lua, Por essas, cheias de estrelas, Eu procuro por meu bem. E solitário e sozinho, Busco então, casa por casa, Para encontrar meu amor. Se está errado o caminho, Então bato as minhas asas, Para encontrar minha flor. Nas minhas desesperanças Pergunto ansioso, afobado, O meu amor mora aqui? Trago leve na lembrança Os passos que foram dados Quando a vez primeira a vi. Mas por vastas alamedas A minha busca é incessante E não consigo encontrar. Com mil palavras azedas

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E dores anavalhantes, Eu caminho sem parar. Chega enfim a madrugada, E conto para as estrelas Que nĂŁo encontrei ninguĂŠm. PorĂŠm, elas, com risadas, Cochichando tagarelas, Iluminam o meu bem. 21.05.1997

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Sonhos de ser feliz

És o sonho muito lindo Deste Poeta sonhador, Que passa os dias sorrindo Na imaginação mais bela: Roubar do céu uma estrela Para dar-te com amor. Ou talvez, com róseo galho Erguer-te um sublime altar, E com pérolas de orvalho Coroar tudo o teu rosto, E provar o doce gosto De teus beijos num beijar. És linda! És visão do sonho Que este Poeta sonha e quer... E o que me deixa risonho Ao ver, em sua retina, Se transformar a menina Na exuberante Mulher! Teus cabelos anelados Parecem contas de luz Que deixam iluminados O meu longo itinerário...

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Teu coração é um calvário Onde morro em minha cruz! Nas paixões alucinadas Minha alma, com emoção, Canta em odes e baladas Tua beleza esfuziante, E rima instante a instante Versos com o coração. Ah, minha amada, estas rimas Teu álbum irão manchar; Pois elas são pobres primas Deste Poeta amargurado Que já se viu destronado E sem sonhos para amar. Mas catando no caminho Os restos que ninguém quis, Deseja, mesmo sozinho, Que tu, num sonho profundo, Tenhas em teu próprio mundo Os sonhos de ser feliz! 09.06.1997

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Meu Rio (O Tejo é o mais belo rio que passa pela minha aldeia) (Alberto Caieiro)

O Rio Piracicaba Elixir de nossos sonhos Manancial de nossas vidas Não pode ser renegado E deixado a Deus-dará. O Rio Piracicaba É paixão que não se acaba. Nossos sonhos nossa vidas, Elixir e manancial De protestos e vitórias Mais que nunca deve ser Preservado em suas glórias Pois ele é o mais belo Rio Que existe na nossa terra. O Rio Piracicaba Dos mandis e dos dourados, Dos pintados e jaús Tem seu Salto exuberante E cada pedra ali posta Lembra um desejo de Deus! É nossa canção de vida

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O Rio de nossa Aldeia! O Rio Piracicaba Por tudo o que ele nos vale, Por tudo o que ele nos serve Devia ser respeitado Com carinho e muito amor. É simbiose completa Do relicário divino, Paixão transformada em música Delírio exposto nas telas! O Rio Piracicaba É nossa paixão imensa! E os homens todos da terra Deveriam respeitá-lo Como sendo obra perfeita Das criações do Senhor. Porém os homens ultrajam-no: Poluem as suas águas Que antes eram cristalinas, Matam cardumes de peixes E transformam o seu leito Numa aquática e nefasta E profana procissão De peixes mortos boiando. O Rio Piracicaba Às vezes lembra um esgoto

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A correr a céu aberto. A poluição o mata, Às vezes o nosso rio É ultrajado em seu leito: Como não pode fugir – Pois preso entre nós está! – Ele morre todo o dia Entre resíduos de indústrias E bóiam em suas águas Latas velhas e já podres, Muitas garrafas de plástico, Toneladas de excrementos. O Rio Piracicaba Deveria ser tratado Com mais amor e carinho. Mas isso tudo é utopia Deste Poeta romântico Que apenas sonha acordado E mesmo dormindo sonha Ao sentir o pesadelo Que não merecia ter O Rio Piracicaba! 12.08.1997

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Calado

Esta saudade constante Já se tornou minha amante E a um só encontro não falta. Mas chega sempre adiantada Toma acento e não diz nada E meu coração assalta. Às vezes toma coragem Deixa-me alguma mensagem Parece que vai partir... Porém, se tento esquecê-la, Rebrilha mais que uma estrela Ilumina meu porvir. E minhas mãos ela toma, Jamais divide – só soma Os mil martírios que sinto. Às vezes, parece carga: Minha boca deixa amarga Qual se eu tomasse absinto. Outras horas, mais ataca, Lembra pontiaguda faca E fere meu coração... E eu calado, em meu cantinho,

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Soletro-lhe bem baixinho, Os versos desta canção. 22.05.1997

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Conquistadores

Nós somos conquistadores Por isso ansiamos conquistas Entre vôos de condores Longe – para os esplendores Lançamos as nossas vistas. Por isso ansiamos conquistas Pelos mundos mais distantes. Lançamos as nossas vistas Às paisagens imprevistas, Em nossos vôos errantes. Pelos mundos mais distantes A nossa vista lançamos. Em nossos vôos errantes Combates febricitantes Com inimigos travamos. A nossa posso lançamos Às mais distantes das terras. Com inimigos travamos O ideal que imaginamos: Duelos, torneios e guerras.

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Às mais distantes das terras Aos nossos olhos são oásis. Duelos, torneios e guerras Mostramos, à paz que berra, Do que nós somos capazes. Aos nossos olhos são oásis Toda a terra conquistada. Do que nós somos capazes Bradamos em nossas frases Numa troante toada. Toda a terra conquistada Fulgura com suas cores. Numa troante toada Dizemos com voz domada: – Nós somos conquistadores! 17.04.1998

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O Capiau

1 Era um simples capiau. Morava na tapera Onde quase, nem sempre, arfava a primavera. Vivia de catar ferro velho na rua E em noites hibernais, quando no céu a lua Tiritava de freio, ele também não tinha Com o que se aquecer... já manhãzinha vinha Bater em minha porta, onde sempre encontrava O copo com café, leite e pão que eu lhe dava. Fitava-me em silêncio e sorrindo bebia; Depois, num breve adeus, e com o olhar que sorria, Ia para buscar seu minguado sustento, Catando aqui e ali – rápido como o vento, Caixas de papelão, latas, vidros quebrados, Garrafas e jornais velhos e abandonados Que encontrava na rua... À tarde, ele, sorrindo, Retornava ao seu lar, e eu contemplava-o, lindo, Em seu rústico olhar... Sua felicidade Exalava ternura e na simplicidade Parecia amealhar tesouros dentro d’alma... Cantava um – boa tarde! e com meiguice e calma Antes de por os pés na tapera, subia Uma longa ladeira e em êxtase sorria...

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Frente a frente ficava ante o Templo imponente, Tirava o seu chapéu de palha humildemente, Adentrava no Templo um minuto, sê tanto; E voltava feliz, tendo no rosto o encanto Da Fé, do Amor, da Paz, da Bem-aventurança. E feliz parecia inocente criança... Eu achava esquisito o seu ritual (mas como Às vezes eu também rituais diversos tomo, Não levava em questões as suas atitudes); E nele não tentava achar quaisquer virtudes... Era um homem humilde, e por certo, ignorante, Que não fazia mal a ninguém... De importante Era que vinha em casa e que, diariamente, Tomava o desjejum e rumava contente, Catando aqui e ali, jornais, garrafas, ferros, E ele vivendo assim, jamais cometia erros... Porém o seu ritual, deveras, me intrigava... Se ele entrava no Tempo e um só instante ficava, Rezar é que não ia... (era improvável isso.) E logo, para mim, tornou-se compromisso Ficar pela janela olhando – e na hora certa, (Na hora em que a majestosa Igreja está deserta, Quando nenhum fiel fazia ali novena) Ele vinha em silêncio, e em quietude serena Adentrava no Tempo e saía em seguida... Oras, pensei comigo, isso a mim na é vida,

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Ficar investigando os passos de um estranho, Tenho mais a fazer, com isso nada ganho... Sem pensar mais no caso o dei por encerrado... Algum tempo depois, estando debruçado A contemplar o tempo esvaindo-se lento, Eis que o simples capiau, num lerdo movimento Chega ao Templo... entra e sai no seu ritual diário. Aquilo para mim bastou-me... Necessário As dúvidas tirar; e n’outro dia, enquanto Em silêncio tomara o seu café, num canto, Assim, de supetão, mas como quem deseja Tudo, tudo saber: – “Que vais fazer na Igreja Todos os dias, quando à tardinha retornas? Acho esquisito pois, nem entras e já tornas A sair... Se pergunto é só porque te prezo...” Ele em silêncio riu e depois disse: – “eu rezo!” Caí na gargalhada... “Oras, tenho notado (De pronto retruquei) que lá não tens ficado Um minuto sequer... como podes, pergunto, Tão rápido rezar?” e encompridando o assunto Tentei argumentar, mas ele, calmo, sério, Emendou para mim que não tinha mistério; – “Olha, doutor, não sei essas rezas compridas, As palavras que escuto, as louvações sentidas, Os cânticos de amor, de tudo desconheço,

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Mas para mim a Fé tem de certo outro preço, E Jesus sabe bem, e Jesus me conhece, E Ele, bem sei, entende a minha simples prece; Sabe que sou sincero e após minha labuta Quando vou visita-Lo, eu sei que Ele me escuta, Pois eu entro no Templo e digo em voz sonora: – “Oi, Jesus, sou o Zé!... e depois vou embora...” 2 Como pode, pensei em silêncio comigo, Assim tratar Jesus como um íntimo amigo?! Mas apenas sorri e deixei-o sozinho Para, após o café, seguir o seu caminho... Algum tempo depois, esse pobre coitado Quase que morre... foi um dia atropelado Por um carro veloz que o deixou numa rua Agonizante... E como a vida continua Para quem é ninguém, no fim da enfermaria, Sozinho e abandonado esse Zé padecia... Porém, que coisa estranha aconteceu... por certo Sozinho e sem ninguém, em seu leito deserto De visitas triviais, o Zé, mais conhecido Por ser um Zé Ninguém, já restabelecido E fora de perigo, ainda estava sozinho. De ninguém recebia um gesto de carinho,

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De amor ou de afeição, mas continuava quieto... Mas um fato mudou a cena por completo: Todos na enfermaria antes tristes, doentes, Passaram a ficar os dias mais contentes; Já não havia mais reclamações de nada, E tal transformação parecia encantada... As recuperações de enfermos e feridos Chegaram a deixar doutores confundidos... O clima de prazer, o clima de alegria, Até então era impróprio ali na enfermaria. Um doutor a saber desta estranha ocorrência Porque apenas buscava a exatidão da ciência; Depois veio a saber que o causador de tudo Eram um paciente ali completamente mudo... – “Como pode, bradava o doutor... é loucura, Ele, um simples capiau ter poder para a cura? Acontece milagre, eu sei que ele acontece, Também sei o poder que existe numa prece! Mas esse pobre Zé da vida não tem nada, E nem sabe falar, tem a língua enrolada, Santo eu sei que não é, pois isso é brincadeira, Vive de déu em déu sem ter eira e nem beira...” Pois foram conversar com o pobre Zé, deitado Num canto, sem ninguém, e ali, abandonado,

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Ele apenas sorria... e seu simples sorriso Continha a paz que deve haver no paraíso. Depois calmo falou a quem estava perto: – “Eu sei que sou um Zé Ninguém, eu sei... decerto Vivem pensando que eu estou aqui sozinho E não tenho ninguém a me fazer carinho Nem vem me visitar... mas é mentira, digo. Todos os dias vem aqui um meu amigo, Ele chega, abre a porta e diz com voz sonora: – Oi, Zé, sou o Jesus... e depois vai embora...” Itu, 30.12.1998

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Agonia da Palavra

A palavra está quebrada O pincel – feito caneta Já não consegue moldá-la Digito meu nome em códigos Escrevo torto nas pautas Desenho através de enigmas As letras estão em fôrma Falta decodificá-las E o teclado é analfabeto Esta morte antecipada É a agonia da palavra Que não sabe traduzir-se Caminha já não registra Para El-Rei de Portugal As glórias da nova Terra Einstein faz o seu brinquedo De maneira relativa Somente através de números

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Camões desenha epopeias Em versos de oitavas rimas De maneira quase heróica Pessoa confunde nomes E se perde em heterônimos Pelas ruas de Lisboa Edson põe voz à Palavra Em ondas médias e curtas Em ruídos e chiados Chateaubriant convoca a imagem Que já despreza a palavra Em atos sujos e obscenos Chaplin anda no silêncio E através de rudes gestos Consegue comunicar-se O cego em linguagem Braille Faz o seu som de silêncio Na digital de seus dedos O Dicionário fechado Num eterno embolorar-se É banquete para as traças

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A Palavra fica oculta Pelos tetos da Sistina Em cores luzes e sons Da Vinci no seu silêncio Traduz por meio de sombras A Palavra do sorriso E o poeta ainda canta Mas até a voz é morta – Não ressuscita a Palavra! 25.02.2000

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Escola Moraes Barros Para o seu Centenário 04.08.1900 – 04 08.2000

100 anos de amor e glória, 100 anos de áureo saber. Que registrou nossa historia Com estudos e prazer. História que não se acaba, Que vibra em Piracicaba Com ardor, com emoção. E faz vibrar satisfeito No fundo de nosso peito Um alegre coração. Salve! Escola Moraes Barros, 100 anos hoje completas, Trazendo felicidade Aos conterrâneos Poetas! Impossível ficar mudo Ao centenário de estudo Que trazes dentro de ti. O corpo de professores Sentindo grandes amores, Com o coração sorri. Alunos hoje presentes

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Com as vozes do coração Traduzem hinos contentes Na mais formosa canção! É o canto de nossa Terra Cujo saber amplo encerra Um sonho de ser feliz. É um feito extraordinário Completar um centenário Dentro de nosso País! Por isso, com alegria, Este Poeta traduz Nesta cálida poesia Os fachos de tanta luz: Nardin, Pacheco, Fogaça, Brincaram por esta Praça Em seus sonhos infantis. Cesário – quando menino Escreveu o seu destino: – “Serei na vida, feliz!” É fantástico o colosso Deste Panteon de glória: Pianelli, Marchiori, Losso, São partes de tanta história! Samuel, Kraide, Romano, Guidotti de peito ufano Guardam enorme emoção...

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Maluf é felicidade, Beccari é amor é saudade Nas rimas desta canção! E houve tantos, outros tantos... Multiplicam-se os milhares... Entoando os mesmos cantos Viveram em seus sonhares... Pois não há nada de novo, Repartir com o seu povo A água e o pedaço de pão. Mas juntos, com as mãos dadas, Tendo as almas abraçadas, O amigo ser torna Irmão! Irmão de classe ou de rua, De recreio ou de jardim. Ou à noite, à luz da lua, A realidade diz sim. Já não são mais nossos filhos, Nos olhos trazendo os brilhos Que vem aqui estudar. Multiplicam-se os projetos, São filhos dos filhos – netos Num eterno reciclar!

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Manoel de Moraes Barros Vale mais que uma inscrição, A sigla vinda qual fogo Gruda em nosso coração. M&B entrelaçados Fazem mais ficar marcados Fazem crescer a emoção: Brincam em minha Poesia, Bondade lembra Maria, E tudo forma canção! 100 anos – nesse proscênio! Eis tudo o que me seduz: Fechas um novo milênio, E ao novo – brilhas em luz! E essa festa se completa No canto deste Poeta Que de amor jamais se acaba... Um viva de amor e glória Aos 100 anos dessa história A nossa Piracicaba! Alunos e professores Unidos no mesmo dom Mostram fervidos de amores Que vale a pena ser bom! É glória que se conquista Com orgulho do Paulista

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E no sonho juvenil, À nossa Escola querida Mais 1000 sÊculos de vida Glorificando o Brasil! 04.08.2000

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Centenário do JP

(04.08.1900 – 04.08.2000)

Premissas de um novo século Na outrora Constituição! Homens fortes, resolutos, Com o Ideal posto na mão Empunham da letra a espada Iniciando a caminhada Ao século ainda por vir! O idealismo se projeta Na mais suntuosa meta Para almejar o porvir! De Gutenberg discípulos A Imprensa foi o ideal. “Marchemos! todos avante!” “O Verbo é nosso fanal!...” E a História teve começo Tendo a fé por adereço Escanhoada na emoção! “A Palavra – é nosso lema, A Verdade – nosso Poema,

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Nossa Cidade – a razão!” E os grandes idealistas Plantaram neste lugar Com o denodo dos Paulistas O Estandarte em grande Altar! Começa uma longa história De radiante trajetória Que nós sabemos de cor... O trabalho foi diário Neste longo itinerário Que em sofrimento é maior! Foi alcançado o futuro Ou ele foi que parou? Quem pode domar o tempo Que largo acaso o gerou? Ah! Nada mais nos importa... O século abriu a porta E o eco gritou aos céus: – Nessa trajetória imensa A vitória será crença Se a força reside em Deus! E o século XX veio E ele foi nosso fanal: Cobriu 100 anos de história De maneira magistral. E a rima agora faz coro

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E clama em rimas de ouro: Quem pode te resistir? Jornal de Piracicaba E a rima outra vez desaba E faz tremer o porvir! A genealogia é rara E tem intenso fulgor! Cintila em forma preclara No mais radiante esplendor. Cada passo de gigante Faz que sigamos adiante Pois o futuro se vê No brilhar de sóis, de estrelas, Que são nossas sentinelas E a gente diz: JP! Esta sigla quanto vale? Quem poderá responder? Vale 100 anos de História 100 anos de áureo saber! João Franco do Nascimento Homem de raro talento Deu início a este fulgor. Francisco Buarque Machado Que num trem veio indomado Também mostrou seu valor!

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Que Deus no céu te ilumine Te cubra com Sua luz: O mestre Leandro Guerrini Na santa paz de Jesus! Que após gigante colosso – O Patriarca dos Losso De timoneiro se fez. E qual barco em nosso Rio Encarou o desafio E mostrou grande altivez. Fortunato Losso Netto Foi jornalista ou doutor? E Luiz Eugênio Losso Nas artes se fez pintor. São dois Panteões sagrados, Que brilham iluminados Na glória de tanta fé. E quem tanto os ilumina Nesta Noiva da Colina Com certeza – é São José! E tudo, tudo condensas, Nesta profusão de luz. Jornal de Piracicaba Ao futuro avante, sus! E é Flávio Toledo Piza Na Pluma ao Vento que frisa

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Crônicas dominicais... Ou Cecília na Poesia – Terna e doce melodia Mostra versos magistrais. Ludovico conta um conto Myria demonstra ter fé; Marisa no contra ponto Na verdade mostra que é Serva humilde de Maria. E o Jornal dia após dia Mais demonstra seu valor; Como o perfume das flores Esparge nos seus leitores Ternura, afeto, calor! O Príncipe Lino Vitti Num bucolismo sem par A todos faz um convite Para o campo visitar... Evoca a sua Santana, Diz da garapa e da cana E de mil belezas mais... Juntando enfim seus gravetos Constrói soberbos sonetos Difícil de ler iguais... A Cultura predomina

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Pois aqui fincou raiz. Mostra a Noiva da Colina Ao nosso imenso país. São poetas e pintores, São músicos, são cantores, Que com ardor juvenil Nos variados movimentos Possuidores de talentos, Encantam todo o Brasil. O enumerar não se acaba Na lista que não tem fim. É glória a Piracicaba O soar deste clarim. Rocha Netto altissonante Com denodo vai avante E mostra a glória sem par – Onde também somos fortes: Nos mais variados esportes Vamos, sim, nos consagrar.

E o Jornal sempre presente Registra cada emoção. O valor de nossa gente É rima desta canção. Cada piracicabano Mostra-se contente, ufano

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Aos rincões deste país. Esbanja felicidade Orgulhoso da cidade Onde vive, onde é feliz! O Jornal se manifesta Em todas as ocasiões. Ouviu Cobrinha em seresta E Geraldo nos serões... Patrimônio desta Terra Em cujo século encerra A glória de todos nós. Tendo-o sempre ao nosso lado Como brilhante soldado Jamais nos sentimos sós! Jornal de Piracicaba A tua história é um jardim: De flores – jamais se acaba Teve começo e é sem fim! Hoje brilha outro cometa Na Pena de Antonietta A iluminar o porvir... E no grande itinerário Cintilam José Rosário, Lourenço, Ângela, Joacyr... A Musa ainda me inspira

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E o verso em brilhos seduz. Surge Marcelo Batuíra A pôr os pés nesta luz. Quanto mais velho mais moço! O Jornal nas mãos dos Losso Cumpre a sagrada missão: Informar tendo a certeza Que a mensagem da franqueza É fulgor para a oração. Por isso é que tu seduzes E tantas glórias conténs. Neste século de luzes Só mereces parabéns! Tanta glória não se acaba Jornal de Piracicaba É o Jornal de todos nós. Ele é meu, é seu, é nosso, Porque faz parte dos Losso Que também tenhamos voz! Ruflem todos os tambores, Cânticos subam aos céus! Tintas de todas as cores Iluminem escarcéus... Não se termina esta glória Que traduz a nossa história Multiplicada por mil.

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E o Poeta o canto encerra Glorificando esta Terra E o Jornal para o Brasil! 04.08.2000

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Dístico da palavra

A Palavra é uma foice afiada e fina Soltando labaredas e faíscas. Às vezes é dengosa bailarina Depois em fundos cortes trama riscas. A Palavra cultua seu segredo Desfaz enigmas e produz engodo. E muitas vezes, dela tenho o medo E como um polvo, me recolho todo. A Palavra é uma esfinge que devora E muitas vezes sou a própria esfinge. Devoro a fome com o prazer da aurora, Que engole a treva e com a luz se tinge. A Palavra contém o seu mistério, E sorrateira tem a sua lavra. Para domá-la apenas o cautério Que cala em fogo o corte da Palavra. 25.11.2002

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Assim, assim...

Desejo sombras, Frescas alfombras, Relva, capim, Cheiro de mato, Lerdo regato Assim, assim... Ouvir as aves Ternas, suaves, Perto de mim, E ouvir os cantos Cheios de encantos Assim, assim... Ficar deitado Despreocupado E à cor rubim Da manhã clara, Lavar a cara Assim, assim... Dolce far niente, Manhã nascente, Papa-capim, Estradivárius

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De mil canários Assim, assim... Nesse infinito Eu ouço o rito De algum sem-fim Que está perdido, Canta escondido, Assim, assim... Amar a vida Que ampla, florida, Lembra um festim. Apaixonado Ficar calado Assim, assim... Na paz imensa Ter uma crença Ao Serafim Que anda ao meu lado Dá-me cuidado Assim, assim... Sobre a lagoa Ligeiro voa Um mandarim... Que paz é esta

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Sobre a floresta Assim, assim?... Além, distante, Num ponto errante Sinto que vim (É este o aviso!) Ao paraíso Assim, assim... Colho gravetos, Rimo sonetos... Digo por fim A quem me chama, Fala que me ama, Assim, assim... Por isso canto Cheio de encanto E digo, sim, Que a Natureza É uma beleza Assim, assim... 05.02.2001

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Deusa Satã

Não posso me curvar à vontade de um Deus Que quer, entre nós dois, plantar um triste adeus. Se Ele, fonte de amor, de afeto e de ternura, Quer colocar um fim nessa doce ventura, Não pode, nunca não, ser chamado de Pai, E entre nós dois plantar a tristeza de um ai. Porém, se fores tu com desejo divino, A querer pôr um fim nesse nosso destino, Não pode uma Mulher dourada de manhã, Ter em seu coração delírios de Satã. Porém, se for assim o seu desejo eterno, Não aceito esse adeus. Vou te encontrar no inferno. 16.01.2004

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Tempo de Colheita

É tempo de colheita. Na lavoura O sol com raios de esplendores doura, Os cachos de arrozais, de trigo e milho. As aves antecipam a colheita! Os velhos espantalhos em espreita Olham os campos com lascívia e brilho. Bandos de multicoloridas aves Aterrissam de formas mais suaves Nas hastes pelos frutos já pendidas. Cantam em sol-maior divinas árias, Refletem em chuviscos cores várias Enchendo de mil cores nossas vidas. O lavrador busca de forma nua, No calendário olhar fases da lua Para a colheita ter o seu início. Tudo foi preparado com ternura, Desde a terra adubada à semeadura E o tempo – com a chuva, foi propício. Arde o sol na manhã de certo dia, E a terra, imersa em transe de alquimia. O adubo transformou em vivas cores. O verde coloriu-se na florada,

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Que com ternura foi polinizada Por abelhas febris em seus ardores. Eu, Poeta, me faço de colono, E estes campos imensos são meu trono Onde plantei em versos as sementes. E os versos hoje em frutos transformados Deixam os meus caminhos encantados E meus carinhos deixam recendentes! Por isso armo meus olhos à colheita, Cada fruta madura é-me perfeita E feliz eu oferto-a a quem precisa. É a fruta da União e da Aliança, Têm em seu sumo as cores da Esperança E da paz mais sonhada e mais concisa. Assim encho de frutos meus balaios, E fazendo os meus anos sempre maios, Distribuo calor a quem tem frio. Frutos de rimas para quem tem fome, De cada estrofe rica teço um nome E ponho amor num coração vazio. Faço a colheita com ternura e afeto, Rendo graças ao Mágico Arquiteto Que um dia deu-me o Verso a esta lavoura. Sendo Poeta o compromisso teço

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E é com bênçãos de luz que eu ofereço Cada poema que em meu peito doura. Se, sou eu o colono destes campos, Lanço sementes como pirilampos Que acendem suas luzes da lanterna. Por isso a vida é bela, pura e linda, Da paz beneditina, excelsa e infinda, Esta jornada sinto ser eterna. E o Poeta na sua juventude, Tem o dom de espalhar sonho e virtude Em todas as estradas dos caminhos. Ele assim canta desde a tenra aurora, Sabe o lugar onde a esperança flora E sente o canto rebentar nos ninhos. Cada fruto é uma luz em claridade Onde a semente da Fraternidade Pulsa, vibra, delira, explode, sonha. Do arco-íris ele tem as sete cores, Lembram caleidoscópios onde as flores Deixam a nossa vida mais risonha. Assim oferto frutos – são meus versos, Neles os meus amores vão imersos Na esperança de ver florir a vida. Canto e se canto é para que meu canto

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Seja a revelação de todo o encanto Que pode haver na estrada a ser seguida. Espero assim em cada estrofe feita Esteja preparada a ser colheita E possa rebentar em doce riso. Pois se canto em terrenos adubados, Por certo foram eles preparados Pelas Musas que estão no Paraíso! 14.03.2002

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Canção para Cecília

Cecília em silêncio dorme, Não perturbemos seu sono. A paz que ela sente é enorme, E é letárgico o abandono. Cecília dorme... Cecília Repousa em silêncio agora. Fiquemos nós de vigília Para acordá-la na aurora. A madrugada caminha Brilham astros a distância. A poesia está sozinha, Mas cecília-se em fragrância. Cecília em todas as fases Mais que Mulher – é poetisa. Mistura versos lilases Com lua, sereno e brisa. Sua alma ainda palpita E é toda serenidade. Mais que ternura infinita Cecília é doce saudade.

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O sol de fresta aparece Cecília dorme entre encantos. Que o silêncio seja a prece E floresça em nossos cantos. 14.02.2007

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À Maria Cecília

É preciso escrever o que vem vindo... O que de dentro d’alma vem saindo E em versos se transforma em profusão... Cecília, minha Amiga, Liberta-te, prossiga E nunca, nunca aos versos, diga – não!... Esqueça a forma, o fato, a foto, o feto, Deixa o verso sair livre e insuspeito Na pauta cadenciada da canção... É preciso este Canto Que brota com encanto Dentro de teu sofrido coração... Também como a Palavra – o verso é vida, É semente que brota da ferida Terra para florir, florir, florir... Viva, viva a Palavra Como o Artesão que lavra A chuva, lava o sol, lavra o porvir... Olha a Imaginação com a porta aberta... Sê como a borboleta – sê liberta Para, de flor em flor, voar feliz... Toma o papel e o lápis –

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Impossível que escapes Ao Oficio do verso que te diz: É preciso escrever o que vem vindo, O que de dentro d’alma vem saindo... E em versos se transforma em profusão... Cecília, minha Amiga, Liberta-te, prossiga E nunca, nunca aos versos, diga – não!... ?

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Tua sina (para quem entende) –I– Tua sina é viver acorrentada Pelos elos das cores que arrebata Todos os corações! Tua sina é ser luz na madrugada, – Ingentes raios de luar de prata Envolvendo emoções! Tua sina é ser luz para o Poeta Que te sagra a cantiga predileta De um sonho mais feliz. Tua sina revolve o amor eterno, Que Dante um dia arrebatou do Inferno – Sublime Beatriz! Tua sina é paisagem soberana Que Buonarotti – na paixão profana Num delírio infernal, Nas paredes sagradas da Sistina Por Colonna – traçou a sua sina No Juízo Final! Tua sina é no mar – ser dócil barca,

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É ser Laura – cantada por Petrarca No verso mais feliz! É ser sonho lirial que sempre ampare Os delírios secretos de Monari Em seus sonhos febris! Tua sina é ter olhos de lucila, Esmeralda que fulge à luz tranquila, Num sorriso de paz. Tua sina é viver olhando estrelas, E, enquanto tais miríades – pensas tê-las, O sonho se desfaz. Tua sina é viver o doce anelo Que Desdêmona teve por Othelo No silêncio sem fim. É viver todo o transe da loucura, É sonhar os delírios da ventura, Se desmanchar enfim! E como Pigmalião, o estatuário, Quem em mármor de Carrara um santuário Construiu para te por, (Pois do sonho maior ficou cativo! E um beijo ardente pôs em sonho vivo Delírio, fogo e amor!) Tua sina, portanto (eis que me embalas)

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Vênus passa a ter mãos e junto a Pallas Caminha nesse altar. E sou o Pigmalião no raro instante: Sopro-te a Vida em transe delirante – Passas a respirar! E tu, Delírio insano da conquista! És a sina do amor – n’alma do Artista Que te devota os céus! E com teus olhos – Esmeraldas raras! – Mostras as Esperanças verdes, claras, Em brilhos e escarcéus! Tua sina tem a aura mais poética: Lembra Beethoven a compor Patética No silêncio eternal. Enquanto em sons a alma em delírio insano Convulsionava um túrgido Oceano Pela Amada Imortal! Tu sina – em meus sonhos arrebato-a! E te prostro no altar – sagrada estátua Rubra como a manhã! É o beijo mais sublime e mais robusto, No qual Camille entrega para Augusto A su’alma pagã! Tua sina – que os sonhos a arrebate!

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Lembra Florença e os sonhos de Mecatti E sua airosa luz. Tua sina, porém, inda é mais nobre, É contemplar o espaço que se cobre E que o sonho seduz! – II – Podes tudo neste mundo Com teu sorriso divino! És o sonho mais profundo Do Poeta florentino. A vida em sua tragédia É uma Divina Comédia E eu aqui a te esperar. Tudo sou, e nada penso! Meu coração vai suspenso Nas asas do teu olhar! Amar! Divina mentira Que apregoamos para o céu. O Poeta tangue a Lira E se faz eterno Orpheu! Amar é sonho profundo Das almas todas do mundo Num sonho arrebatador. E na paixão que ora impreco Minha voz ressoa em eco:

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“Eu te amo, meu amor!” Eu te amo na verdade No tudo que posso ser. Já não pode haver maldade Na loucura do prazer. O amor – eu sonho acordado Sou por ele iluminado E na paixão me seduz. Pelos caminhos meus olhos Desviam-se dos escolhos Pois te vejo imersa em luz. – III – A vida ora passa... Nas amplas estradas A minha esperança se torna conquista... Eu sigo amparado por anjos e fadas E a Fada mais bela Se chama Lucila! Meu mundo tem cores, tem cores suaves, E a cor na minh’alma meu sonho ilumina. Perscruto nos ares, e cantam as aves, E o canto mais belo É a voz de Lucila!

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Meu mundo é divino... Lindo anjo celeste Invade meu sonho e a dor me aniquila E o anjo mais belo tem verde na veste, E os olhos são verdes – Oh, linda Lucila! Entoo mil cantos! Na vida meu sonho, – Paixão soberana – minh’alma suspira. Que passem os anos e o tempo medonho, Paixão eu só tenho, Por minha Lucila. 03.12.2003

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Chuva

Chove lá fora torrencialmente, E a chuva fria Põe na minha alma a bruma sombria Do amor ausente. Tanta saudade em minha alma mora Enquanto a chuva – Mole viúva – Pelo céu negro, tristonho chora. Tanto desgosto aflige meu peito E estou sozinho. Triste caminho Sonhando o sonho de amor-perfeito. Tanta amargura, tristeza tanta, Minh alma chora prantos amargos. Nos pátios largos O desconsolo me desencanta. Enquanto a chuva lá fora chove Meu coração, calado e tristonho Almeja um sonho – Que o amor divino todo se prove. 13.09.1979

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Canção de Lucas e Thaís Pela ausência de Tirza Regina, falecida precocemente,

em novembro de 2002, num acidente moto-ciclístico.

“Mamãe era tão bonita, Sua beleza infinita Hoje está junto de Deus; E com forte intensidade Uma palavra – Saudade! – Soa após seu triste adeus... “Mamãe era tão festiva, Sua alegria cativa Teve, porém, triste fim... Ficamos sem esperanças, Nossas almas, tão crianças, Por que sofrem tanto assim? “Mamãe, órfãos nós estamos, – Ninho que caiu dos ramos Despedaçou-se no chão. Estamos tristes, sozinhos, Distante de teus carinhos Sofre nosso coração.

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“Mamãezinha, se voltasses, O riso nas nossas faces Teria, sim, outro tom. Nesta ausência que perdura O silêncio é rocha dura, E como dói o seu som. “Ah, mamãezinha querida, Ausente de nossa vida O que será de nós dois? No vento cheio de encanto Buscamos ouvir teu canto, Mas o vento diz – depois... “Mamãe, partiste tão cedo... E noss’alma de brinquedo Quebrou-se como cristal... O pranto nas faces desce Se, fazemos nossa prece, Ao teu amor maternal. “Sem ti perdemos noss’asa... Está triste a nossa casa Também sofre nosso Pai. Ele nos dá seu carinho, Calado, sofre sozinho, Do coração solta um ai.

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“Mas mesmo sofrendo tanto, N’alma trazemos o encanto Num sonho cheio de luz. E nosso céu entrevado Logo se torna estrelado Pelos teus olhos azuis... “Eles serão, com certeza, Dentro de nossa tristeza De amor um faiscante sol. Serão, sim, o nosso guia, Rimas de nossa Poesia Brilhando como farol. “Se Deus quis tê-la ao seu lado, Estava necessitado Para de anjinhos cuidar. Pois tendo tantos encantos A eles terás ternos cantos Em cantigas de ninar. “Estamos, sim, com saudade, Mas se por necessidade Jesus roubou-te de nós, Foi cedo a tua partida, Mas cuide de nossa vida, E ouça sempre nossa voz.

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“Os nossos coraçõezinhos, Sempre cheios de carinhos Relembrarão com amor De nossa Mãezinha linda, Que mora na plaga infinda, Num céu repleto de cor. “Com a voz entristecida Noss’alma triste e ferida Por tão funda cicatriz, Pede, Mãezinha, querida: Olhe por nós nesta Vida. Adeus”. Lucas e Thaís. 18.11.2002

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Do passado

Hera Era Numa Era Um Ramo De Hera. 14.09.1979

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O chupim e o tico-tico

Vejo alegre tico-tico A cantar, abrindo o bico: “Minha vida é assim, assim...” Junto dele vai, safado, Outro pássaro esfomeado O sem vergonha chupim. Tico-tico faz seu ninho E o chupim vem de mansinho Seus ovos ali botar... E o tico-tico inocente Coitado, todo contente, Passa os dias a chocar. Ao nascer dos filhotinhos Ele vai, todo carinhos, De tratá-los muito bem. E entre a ninhada legítima Não percebe que foi vítima E do malogro é refém. Tico-tico em sua crença Não percebe a diferença Todos eles filhos são. Trata a todos igualmente,

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Mas o chupim, de repente, Destoa de cada irmão. Todo negro e o tico-tico De amor cada vez mais rico Não percebe o que lhe fez O chupim esperto e vivo, E o filhotinho adotivo Cresce e cresce em altivez. E o tico-tico, coitado, Alimentando o esfomeado Do filhote do chupim, A buscar a água e o alpiste Repete o seu canto triste: “Minha vida é assim, assim...” 21.01.2004

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Prudência

Às vezes eu imagino Que sou ainda um menino Com oito, nove ou dez anos. E num louco devaneio Ainda me pego cheio De esperanças e altos planos. Que doida vertigem essa... Nada há que na vida impeça De sonhar assim a esmo. Mas com os pés no chão me pego: Já estou ficando cego E já não sou mais o mesmo. O desejo ainda é forte... Contra os perigos – a sorte! Eu acredito ainda nela. Os passos ponho na estrada Pego-me na encruzilhada E à frente – enorme cancela. Contemplo os amplos espaços, Mas onde firmar os passos Se a dúvida me fervilha? É verdadeiro de fato

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Esse dourado retrato Que a meus olhos tanto brilha? Eis que a jornada refreio, Domino do peito o anseio Em tudo coloco calma. E num duelo violento O físico – num momento Trava combates com a alma. Já não sou mesmo criança... Se ainda curto a esperança De vencer longa jornada, Necessito de paciência Cuidado e muita prudência Que é perigosa essa estrada. 15.04.2008

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Moda de viola

Só mesmo a minha viola Nesse instante me consola E à vida me dá razão. Nas suas cordas ponteio Perdido no devaneio No sofrer desta ilusão. Nas cordas dedilho os dedos Que parecem ter segredos Do fundo do coração. Sonhando nas entrelinhas Soltam sentidas modinhas Nessas tardes de verão. No céu uma garça voa E reflete na lagoa Seu voo de mansidão. Voa, voa, silenciosa, Na tarde maravilhosa Que põe luz na imensidão. Coração solta soluços... Parece chorar de bruços Na relva do capoeirão... Eta vida ingrata e falsa,

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Modulo agora uma valsa Do meu saudoso Paixão! Se a saudade é uma lembrança Que ao redor da vida dança Com grande satisfação, No seu ponto aprumo os passos, E a agarro com meus dois braços Com a força de um leão. Saudade, ingrata saudade... Tens toda a sonoridade Nos sons da minha canção. Repito: és ingrata, ingrata, E meu peito te retrata Com dor e consternação. Saudade, insano delírio, Da minha vida és martírio, Causas sofrer num desvão. No teu maléfico engenho És tudo o que já não tenho Uma ausência à solidão. Saudade... conto-te as horas Em crepúsculos e auroras, Em trimestral Estação... Solitário no abandono

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Na Primavera me Outono, Inverno em pleno Verão... Saudade... pequeno rio Que corre lerdo e vadio E serpenteia o sertão. E um dia, furor insano, Vai de encontro ao oceano, Em ondas de convulsão. Saudade, se bem me lembro Vai de janeiro a dezembro, Vai da luz à escuridão. Qual melodia esquecida Cuja rima vai perdida Na noite da Criação. Saudade é a ausência sentida De quem amamos na vida Num momento de ilusão. E a ilusão se torna viva E d’alma se faz cativa Sempre com o mesmo refrão. E o pranto nas faces rola, Pois chora a minha viola E chora a minha canção. E com densa intensidade

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Canta mais forte a saudade Dentro de meu coração. 18.12.2002

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Saudade

Para matar a saudade Eu tento fugir de tudo, Mas ela – não tem piedade! – Coloca o meu peito mudo. Tento esquecer que ela existe, Mas esquecê-la, que modo, Se ela em meu peito persiste E forte, me envolve todo? Ai, a saudade judia, E o coração põe em febre; Deixa o peito em agonia Até que a vida se quebre. Quem já tentou esquecê-la Bem mais consegue lembrá-la, Pois ela é brilhante estrela Que no céu d’alma se embala. 14.04.1980

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Caminheiro

Sou na vida um eterno caminhante Que em sopros de silêncio segue só. As vezes faço do Judeu errante Que tem da estrada, por capote, o pó. Sei bem que existem flores no caminho E pássaros em ternos madrigais. É minha a escolha de seguir sozinho Sem querer companhia de outros mais. A solidão, portanto vai comigo, E sigo sem saber aonde chegar. Bem sei que existe além um porto antigo Mas desconheço o rumo para o mar. Sigo andando por vales e por serras. Um mapa-múndi – tenho em cada mão. Mas vou pisando as mais estranhas terras E ao sonho de parar eu digo não. Se, ouço a distância sons de burburinho, Procuro atalhos para prosseguir. Aos passos sempre invento algum caminho Sem nunca adivinhar o que há por vir.

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Quando o sol do cortejo atroz descansa E acendem lamparinas pelo céu, Reavivo n’alma sonhos de criança – Relembro um venho sonho que morreu. Adormeço entre ramas de folhagem E o silêncio da noite é salutar. Amanhece e prossigo enfim a viagem Pois minha sina é sempre caminhar. Ando em silêncio, às vezes assobio Uma canção que faz parte de mim. Mas logo me distraio em desvario E a canção que iniciei nem chega ao fim. É bem provável que o estar só me faça Romântico Poeta sonhador. Mas não existe sentimento ou graça Ao solitário que procura amor. A longa caminhada nunca finda E os caminhos também nunca têm fim. Há sempre um passo por se dar ainda, Há sempre um não que vem antes do sim. Por isso vou andando, andando, andando, Em busca da ilusão que me seduz.

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Quem sabe exista além um sol brilhando E um coração a me inundar de luz. Ou pode ser que eu pare a caminhada E um outro amor que vive a divagar Possa enfim numa velha encruzilhada Ao meu amor, amor vir ofertar. Pois quem tanto procura distraído Em seus delírios a prisão do amor, Pode muito viver sem ter vivido, Pode muito sofrer sem sentir dor. Portanto paro a caminhada errante Nem procuro o que penso que perdi. Mas eis que chega num divino instante, Quem busquei ao prender os pés aqui. 23.06.2004

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Lennon Dentro da noite imensa um tiro ecoou no escuro E calou para sempre a voz do mensageiro, Do Poeta maior que devassou o mundo Com versos e canções cheias de amor e paz. O futuro da Noite Eterna além te espera Filósofo genial de toda Geração, Mas antes de partir para o mundo legaste Mil poemas de luz e mensagens de vida. E choramos por ti, oh, Poeta estrangeiro. 08.12.1980

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Alvorada I Canta minha alma A doce calma Do amanhecer. Pipilam aves Cantos suaves Para viver. Amena brisa Doce, desliza, De galho em galho. Lembram brilhantes Esfuziantes, Gotas de orvalho. Aladas garças Voam esparsas – Isso seduz! Lindas e belas São arandelas Que pingam luz. Pela alvorada A passarada Voa e revoa.

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Lembram miragens, Patos selvagens Sobre a lagoa. Silente e mudo Eu fito mudo Da terra aos céus. Ardo e deliro E ouço o suspiro Da voz de Deus! II Em cada fibra A vida vibra Num terno canto. No espaço aberto Há amplo concerto Cheio de encanto. No albor do dia A alegoria Ecoa o som. As vozes falam, Flores exalam Um cheiro bom.

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Fumega o rio... Há um murmurio D’água que desce. Perto do Salto Há sobressalto Em tom de prece. O sol formoso – Rei majestoso! – Bom dia traz. Mil raios lança Como esperança Plena de paz. Poeta inspirado Teço um bordado De rimas quérulas. Em cada estrofe Colho do cofre Preciosas pérolas. E novamente Eu fito crente Da terra e os céus. Tremo e deliro E ouço o suspiro Da voz de Deus! 25.03.2008

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Réquiem

Dentro da noite triste o silêncio é de pedra E a solidão é imensa. Na hora crepuscular da vida apenas medra Uma sentida crença. E vem a noite eterna e a canção da agonia Vibra no coração. E a ausência diz presente, soa a melancolia. Em fúnebre oração. O pássaro da noite em vôo lento, paira No espírito silente E ante os grilhões da treva embrutece, desvaira, Desesperadamente. Tudo é um réquiem de dor, canção de despedida, Um instante de adeus. Morre a esperança, morre a paixão, morre a vida Fica presente – Deus! É o momento de luz onde povoa a treva, A vida – vence a morte! A alma – em canções de paz na voz de anjos se eleva E vence a própria sorte!

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Fica o espĂ­rito, fica a imensidĂŁo da calma Onde tudo seduz. E, se se vive para o amor, vindo a morte, a alma Solta fachos de luz. 31.03.1981

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Antes da Menarca

As pétalas da rosa Se abriram lentamente E com modo fremente Sangraram de desejo. Nesse instante, gloriosa, A boca da menina Tornou-se purpurina Com seu primeiro beijo. E outros beijos ardentes Em glórias mais supremas Geraram mil poemas Numa volúpia cega. E entre ranger de dentes De maneira precoce, Houve a primeira posse, Houve a infantil entrega. Seu ventre receptivo De maneira florida No instante abriu-se à vida Ainda não planejada. Do momento lascivo – Loucura de minuto! –

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Gerou novo fruto Numa doida rajada.

Andando hoje nas ruas, Com seu inchado ventre, Nada há que lh’a concentre... Segue como perdida E após as nove luas O fruto abandonado Irá viver largado Nas sarjetas da vida. 25.06.2008

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A Ressurreição

Ardia a madrugada aos clarões dos archotes. Numa árvore pendia o corpo de Iscariotes Após ter-se enforcado em desespero imenso. Nos faustosos salões respirava-se o incenso E Pilatos sorria entre tantos convivas. Fora havia o escarcéu das pessoas cativas Mas ninguém importava a mínima com isso... Roma a todos mostrava o firme compromisso De conter multidões com seus punhos de ferro, E Pilatos jamais incorreria em erro De provocar a fúria em César ou em Roma. Satisfeito, de Cós enche uma taça e toma Com todos os demais enquanto pelas salas É forte o vozerio em diferentes falas. O desordeiro agora era um fato passado, Crucificado e morto estava já enterrado. Não haveria mais de lhe causar engodos. Desta forma mostrara energia com todos Que tentassem ferir tanto as leis e os costumes. O palácio fulgia em vigorosos lumes. Dois soldados, porém, ficaram de pernoite Com profundo desdém, durante toda a noite À frente de um sepulcro onde um morto jazia.

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– Coisa doida cuidar de quem já não podia Falar ou se mover, mas a ordem de Pilatos Devia ser cumprida em todos os seus atos! Muitos, dentro do lar estavam recolhidos Comentando entre si dos fatos ocorridos. Do Rabino, porém, seus Onze seguidores, Em delírios de fé falavam dos horrores Terríveis e cruéis que o Mestre recebera. Um suave fragor de fresca primavera Perfumava o ambiente e aturdidos ainda, Comentavam que toda a Esperança era finda. Maria, Sua Mãe, soluçava baixinho E em dores recordava um extremo carinho Com o qual se despediu de Seu amado Filho. Gordo luar filtrava as ramas entre brilho. Parecia vibrar um silêncio por tudo. A noite escancarava o dossel de veludo E bordava no céu fachos de mil estrelas. Contudo o Mestre já não podia mais vê-las. Maria Madalena em silêncio murmura Frases em oração em laivos de loucura; Súbito de levanta e diz num sonho pulcro Que vai se dirigir até o pétreo sepulcro Para balsamizar o corpo de óleo santo. Alguns tentam contê-la e com gestos de espanto

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Eis que sai pela noite a alucinados passos, Para ainda uma vez mais, ter Jesus em seus braços. Pela noite caminha alucinadamente Com seus passos febris e gestos de demente. Com lentos passos chega e – olhar alucinado! – Percebe que o sepulcro está aberto e violado. Olha com mais vagar... os soldados vigias, Não mais faziam ronda... Entre as ramagens frias Ouve-se o murmurar por entre as oliveiras De palavras febris e vozes estrangeiras. De repente uma luz de irradiação imensa Preenche todo o local e uma voz feito crença Calmamente pergunta à triste Madalena: – “O que buscas aqui, mulher?” De amores plena Para o vento ela diz num murmúrio de prece Como quem, no delírio, o desespero tece: – “Vim buscar o meu Mestre e curar-Lhe as feridas!” Neste momento o céu, com cores incendidas Fulge em denso farol e com timbre sereno Ouve um anjo dizer do Mestre Nazareno: – “Das trevas ressurgiu alcançando a vitória E a morte Ele venceu!...” Nesse instante de glória Maria Madalena em seu amor cativo Ouve a voz de Jesus ressuscitado e vivo! 15.05.2008

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A um Poeta

Poeta, quando à noite, em horas sonolentas, Tu passas a cismar no sentido do mundo, Enorme vendaval em forças violentas Entram em tua ideia em báratro profundo! E tu, com o pensamento aliado ao Infinito, Contemplas, doido em luz, ao longe, a Imensidade, E envaidecido canta um poema bendito Engastando, num verso, a luz da Eternidade! 23.05.1981

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Poema homenagem para os Pais (Para as Sobrinhas Filhas de Jó)

Todos nós na vida temos Orgulho de nosso Pai. Ele é o barco, somos remos, Que no mar da vida vai. Somos filhos, somos frutos, Prezamos os seus tributos, Com sorrisos no cantar. Ao Pai que adoramos tanto, Façamos, sim, nosso canto, Ergamos imenso Altar! Por esta vida na terra Nosso Pai é nosso Deus! Sua verdade não erra, Os bons conselhos são seus. Com olhar cheio de brilhos, Ilumina nossos trilhos, À nossa vida dá luz. E ele sempre nos conforta, Endireita a estrada torta, Dos ombros nos tira a cruz.

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Pois corre nas nossas veias O sangue de seu amor. Amor feito nas cadeias Do carinho e do esplendor. Com seu olhar de confiança Sempre temos a esperança Que podemos nós vencer. E a certeza nesta vida É uma estrada a ser vencida É uma vida por viver. Com quanto orgulho recordo Nesses versos, de meu Pai. À noite, às vezes acordo, E meu pensamento vai A um tempo hoje tão antigo, E recordo o grande amigo E a saudade o peito rói. O seu olhar era lindo, Mas hoje está tudo findo, E a saudade – n’alma dói. Para quem tem Pai na vida, Deve a Deus agradecer. O meu já foi de partida, Deixando-me o padecer. Nossa casa, nosso ninho, Hoje estou aqui sozinho

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E me pego a recordar: Eu – criança, em seus joelhos, Acatando seus conselhos, Que vontade de chorar. Hoje sou Pai e aos meus filhos Tento imitar o meu Pai. Mostrando da vida os trilhos Que para o porvir se vai. Mas, ser Pai, como é penoso, O conselho é trabalhoso, E os filhos querem voar... A tê-los em nossas casas, Podamos as suas asas Para não se machucar! – Filhos pensam saber tudo, E querem tudo vencer. Mas o Pai – por vezes mudo, Nada consegue fazer. E os dissabores são tantos, São amarguras e prantos Que os filhos sozinhos têm. E quando voltam sofridos, Aos braços fortes, vividos, Ao seu Pai chorando vêm.

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Respeitemos seus conselhos, Que eles vêm do coração. E rezemos de joelhos Uma sublime oração Ao Pai que à vida nos trouxe, E tenta fazer mais doce O amargo de nossos ais. Que é na vida o nosso esteio, É verdade ao devaneio, E ao amor é muito mais. E vós que me ouvis agora – Pensamentos para os céus! – Não percam, não, mais a hora, Para agradecer a Deus Num sublime manifesto Ao trabalhador honesto Ao homem que sempre quis: Fazer-vos na vida – fortes, Livrar-vos de ingratas sortes, E que vos quer ver feliz. O Pai é Sabedoria, Força e Beleza ele tem. É na vida nosso guia, Nos ama como ninguém. Coluna-mestra da vida, Ele é a estrada a ser seguida,

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É a verdade que conduz. Ao Pai que adoramos tanto, Ergamos, sim, nosso canto, E o iluminemos de luz! Pois temos nós nesta vida Um Pai terrestre e um no céu. Mas na estrada aqui vivida Ele é o amor que Deus nos deu. Somos sim, a sombra e a herança, Nosso orgulho de criança, Nosso guia e nosso sol. Se o Deus do céu é miragem, O Pai terrestre é visagem, De nossa vida – é farol! O próprio Jesus, na terra, Teve um Pai cheio de fé. Portanto o ciclo se encerra Com Deus-Pai e Deus-José. E Cristo desde pequeno Imitou seu Pai terreno... Vejamos aqui então: Pois Jesus, Deus verdadeiro, Na terra – foi carpinteiro, E do Céu – foi Deus-perdão!

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Minhas sobrinhas queridas, Serenas filhas de Jó, Iluminem vossas vidas Pois o amor de Pai é um só. Seguis, oh, filhas, confiantes, Persistentes e vibrantes, Que o Poeta diz adeus. E em uma oração vos digo: Que se o Pai da terra é abrigo, Santo Amigo É o Pai dos Céus! 23.08.2008

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TEMPO DE COLHEITA  

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