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salmos em tom de sĂşplica caipira irineu volpato renard


salmos em tom de súplica capiau

direitos reservados V961P VOLPATO, Irineu, 1933 Salmos em tom de música capiau, poesia, 2011/20 Santa Bárbara d´Oeste – SP – BR Renard Ediç, 78 p. 21 cm. 1.Literatura Brasileira 1.Título CDD:968.615

Foto da capa – do autor Tipos: Harrington/Arial/Georgia Times New Roman/Tempus sans ITC

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salmos em tom de sĂşplica capiau

dessas manhĂŁs olhos de janelas fatigadas

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Sian – dum rosto nazareno barba profeta ar perdidamente longe como dessas fotos avulsas de gente palestina em deserto - onde estará : morto numa clínica de alcoólicos - que fizeram de suas mãos que debuchava supremo e literato ? deixei passar o prazo de meus ídolos inventarem tenho que minha fé nunca se fez num salto sempre lavrei palpando me encontrar é só bom Deus achar de descansar que o velho mundo apronta-se besteiras no dia em que velho mago ensinou truques ao filho nunca mais teve de volta-lhe a alma ô vida atolada de palavras infelizes que mal conseguem dizer do quanto somos... solto meus olhos a correr paisagem - os canaviais têm verdes tão chovidos de dezembro o medo – já notou quanto nos toma de enxurrada nos baldeando ? quanta vez alma danada da vida e seu espírito de porco aprazem chutar nossos castelos de areia ? pode ser papo de crente mas vale a gente gostar de quem não gosta da gente ? dessas frestas vez em quando que nos devolvem para dentro de nós mesmos ... e aquele lustro quase triste de seus olhos lhe escorregava do nariz par d´óculos que dividiam-lhe o mundo entre lendo e do que ia-lhe redor 4


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e quando cansarmos de correr atrás das sombras que forças obrarão inda inventar-nos ? no dia em que sua sorte sossegou - minha nonna sequer rezou para morrer quantas guerras batalhamos nesta vida e sobramo-nos inúteis depois delas... inda bem que não descansam-nos os sonhos enfim consegui ouvir silêncio - eu o nada numa dessas sozinhas estradinhas é que sempre fugimos de medir nossa loucura e lá vou poupar cascavel em franciscana fé de que ela apenas passa sem o azar de me atacar ?

chapiscou de reboco últimas pedras trancou tampa da cova - aí meu e mundo de minha mãe largaram-nos de órfãos único abraço amigo recebido entrando o ano não foi de rol de amigos nem parentes outras gentes - mas dum Bigode – nordeste bronco bom pedreiro que ama suas cachaças em horas vagas - aqui vizinho nesses matos onde me escondo é quando brecha se rasga em nosso muro adentro e nossas dores ali presas desabalam-se pra fora melhor não teria sido se não fôramos nos termos gastado em tantos desencontros... 5


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é quando se preferem solilóquios a diálogos inócuos com o mundo entre o sonho e realidade sempre se acha a bissetriz das sombras de mais nada afinal um dia cumpriremos último baile de máscaras antes de des-sermos ô vida de tantas horas ácidas - inda bem que sobram-nos loucuras quando se é juventude e acreditamos nossas vidas só de páginas sinfônicas até aprendermos que nossa dor é de somenos importante e que há sofreres bem mais abismos que esses nossos ... se herdamos as searas dos que antes nos chegaram por que não obrigar que plantem roças aos seguintes que virão ?

um cão que se salvou catástrofe em cume duma pedra demorava olhando as águas indo rio onde ontem andava aquela estrada não te exiles de ti nem acredites que teu coração se encarquilha a soslaio donde morávamos aconteciam as tardes não te lembras dos beirais que aqui choviam ? será que sempre é tempo da gente errar amando ? foi quando puseram estragar cerne de morro prometendo que dali sairia uma estrada

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que existir é ir morrendo crendo ou não em eternidade

até a gente passa discordar de nossa infância - mas que importância saber quão suja foi a água dessa fonte ? vale a pena celebrar cidade que por acaso empacou-nos onde viver? costumava deixar quarar palavras a ver se se-limpavam de poder ornar poema borboletas estão compondo tela futurista num corguinho que corta nossa estrada saúvas passam judiando de análise sintática um roseiral aqui adiante como sentir-se atado de pecado se quem pecou por nós foram os pais dos pais de nossos pais ... isso bem bem-lá atrás ?

da janela da estação se debruçava azul menina me espiando enquanto eu ia a pé da escola caipira para casa quando eu decidir me desistir acho que os padres já esqueceram o latim que iriam rezar por mim por que não continuar usar pra costurarnos do jeito criança que esta vida nos treinou ? no convento eram os ventos que de noite passeavam assustando os corredores enfeitava colocar silêncio em seu sozinho mentindo as poucas coisas que o alegrassem derredor 7


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ai - um sonzinho qualquer acontecesse sempre antes da gente se pinchar em desespero... um dia acontecerá a ausência azul do que em nós não se cumpriu era um muro que emendava de silêncio nossa rua - e ninguém se incomodava quando a gente se sozinha de nós mesmos por que pensar atar-se circunstâncias de encontros e abraços? ainda hei-de erigir monumento a esses inúteis impressão nossa que a vida alevanta-nos até um ápice e daí volta nos cobrando tristemente o que investiu... e acabou me deixando como se eu fora mero recado numa agenda

dispenso esse afeto que me ofertas conheço bem as frestas dessa tua malvada mente onze de março convulsiona-se chão do Japão placas que sustentam o fundo deste mundo espasmaram-se tremorizando a terra e Netuno revoltado pinchou mágoas de suas águas a ingente altura de roubar para seu mar os sonhos materiais de tanta gente quando é que ensinarão-nos revelar os negativos que a vida nos doou ? ... e lá vida leva mácula de incestos dos bichos das plantas dos insetos ?

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caminha ouvindo tuas idéias trocando figurinhas com tuas rabugices onde o cemitério onde a cidade naquela encosta de colina olhando estrada ? e acabou esquecendo suas saudades se encardindo nuns varais amo o emprôo dessas árvores antigas sinto-me às vezes dessas porteiras escangalhadas que nem servem mais de dividir as invernadas mais que som de sino da capela eram as tardes aquarelas que terneciam nossas almas na fazenda dos padres - ao pé da serra meus devaneios que em jovem longe se pinchavam à minha frente de repente passaram se encurtar perto ocupando meus desertos derredor deu nós nas tripas nos mares do Japão ... a confusão rebimbou tudo por perto terremoto roçou por quanto quis mar se proveitou e por um triz não engoliu todo país com rodo de suas águas medo e mágoa apesar do Zen-Budismo nos olhos desse povo o mundo... ficou mais menorzinho se vestido de infeliz quantos alqueires sofreu-os anos a fio nesta vida para somar uma fortuna hoje braça e ½ de comprido sete palmos de areia sobrelhe vestem a vaidade ? há quanto não vejo arrozais 9


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celebrando ritos em canto-chão de vento e sol? não vou enterrar tarde nenhuma nem lastimar por aí a dor do mundo não me sobrou sobrado ou casa grande nem patriarca avô em minha história minhas memórias : infância humildemente numas roças um corguinho de paisagem e sentimento muito ácido dos falsos do campo e da cidade e da praia viram os índios naus achegarem-se nadando - Cabral que se inventava quando da vida nada mais sobrar das vaidades tenta vestir-te das dobras de teu Deus ah conseguisse a gente devolver-nos àquele olhar esganado de viver enquanto aprendiamo-nos crianças e tarde vinha sujando de noite os vitrais da catedral com demoras de silêncios

... e merecia Tróia tão homérico poema pela guerra guerreada por embustes pedradas e deuses a vingar uns inimigos outros deuses instigar os seus contrários apenas por roubarem de Micenas tal Helena ? e já são tantos os fantasmas da família que procissionam suas sombras me esperando... deitaram ao chão o casarão do nosso quarteirão e esqueceram outra saudade em seu lugar tardes vinham descansar suas saudades 10


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nas copas dum matinho na Ressaca vizinho entre a gente e uns Andrades esse teu corpo belo em tão alma confusa

continua sendo a meiga mulher que sempre foste - apesar dos vieses dessa sorte vem que quero celebrá-la assim Davi de salmos amando-a adúltera seus sustos numa cama quanta vez náufragos acenamos por socorro e naus passam apressadas sem nos ver Tiradentes - inteira de mineiro sol e de arrebiques barrocos outeiros não havia São João – São João del Rei dos bandeirantes paulistas dos mascates Rio das Velhas da velhas igrejas de suas ruas velhas há um trenzim que sai de São João e leva pelos desvãos de serras a gente a Tiradentes apitando desesperadamente em cada calombo de serra atrás da Sé de São J oão um cemitério quanto dinheiro os mineiros ali investiram de lembrá-los depois que desceram aos infernos... por mais mindinha que seja uma cidade mineira traz protegendo seu povo pelo menos 3 igrejas onde quer que assente esteja melhor voçoroca pra amarrar Vila Rica nem podiam escolher ... por que mineiro ama pendurar-se alcantis ?

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Mariana – ô cidadezinha de Minas com tantos poetas e clero... São Tomé é doutras Minas muito mais prenha mistérios sei lá com que rosto me mostrarei depois de morto ante os olhos de Deus

já não andam mais nascendo ou eu que não consigo ver aquelas florinhas coisinhas nesses barrancos daqui... às vezes me fico mentindo que os mortos de minha família andam velando por mim... sempre haverá um tempo da gente poder se renegar ao êxtase do espelho ... ai quando vamos sentindonos arcaicos como as vésperas de noite perigos da vida são os vãos em que nos atiramos sem ressalvas ... e tanta metafísica para explicar os nossos simples e quantos silêncios que nos foram antes estão dormindo em quietos mármores ? já me desenterrei 77 x uns novembros e pouca coisa restou de me negar quanto é sublime estar vivo e espreitar luz dum novo dia... em que idade é tempo de apagar as sodomas em nossos leitos ? não se amarre a algum afeto espera antes que se quare tomara você traga a tentação 12


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funesta da gente se trombar por essas frestas e essa roca em que tecemos as memórias dos longos silêncios... tudo são velas quando nossas almas acham navegar sempre que abicamos num desses silêncios – cuidado que a sorte costuma sorrateira vir cobrar-nos vamos consolar-nos coletivos dividir nossas fomes nossas raivas enquanto demorarmo-nos inépcia sempre haverá algo acontecendo na quebrada duma esquina no bojo duma noite ou num ir vago dum dia por que não imantarmos de loucura nossa vida enquanto somos e sobra pouco ? não tentes navegar em marés de idéias altas - inda mais se não tens salva-vidas que te nadem já reparou que é gente muita ocupando este mundo e todas a querer as mesmas coisas que nem da pra repartir ? janeiro – os caminhos do morro das terras das serras dos padres escorregavam de lama

impressão que quando dia acordava desvirava página de sono e vida foi-lhe tirando pintura reboco já comia-lhe os tijolos ... e nem era velho tanto - as doenças... de quando raiva da gente se cumpre desesperando 13


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já quando a vida nos acha suficientes e vai-nos debandando aos sozinhos toda devoção - dona Rosa um dia foi secando feito esses troncos eucaliptos esguios que vão perdendo a copa secam o tronco morrendo de pau seco em fantasma de paisagem por que deixar assustar menino que há em mim ?

virou dessas velhinhas que sempre amou de pitar - gastando as tardes largada ali num banquinho olhando o nada e cusparando no chão ah quando a gente percebe nossa alma maltrapilha e não acha como dela desvoltar-se é que a vida não costuma se gastar com suas demoras por isso carece de na gente ter juntinho algum afeto ... mas que preste e aqueles todos jumentinhos a levar caçambas com terra enfileirados no eito - que construía-se uma estrada num tempo de sem tratores foi quando ela percebeu minhas misérias e achou de derrubar sobre meus ombros despojados suas bondades daqueles alvos afetos era dessas casinhas capioas em sapé inteira madeira perdida sozinha com silêncio morando-lhe ali bem quantos anos ? uma velhinha que trazia sua cara marchetada 14


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de sofrimentos - e uns quantos tristementes a vida não é esse durar de morada transitória por que viemos parar naquele lugar tão tristeza Caiapiá ? nessas horas em que tudo se venderia em troca duma saudade triste é quando nos dão esse dom de governar e a gente sem saber o que fazer com esse brinquedo que é a vida ? ali a gente parasse sem reparar nos poréns... debaixo de nossos sapés quem vai exilar nossos sonhos ? o tamanho do mundo – pra que tanto se nosso cotidiano vai caber em 3 palmos de chão ? ia naquela idade de moça que já despojou-se de orvalhos tanta pose e deslembrados que esta vida é bem menos que o tamanho dum segundo ... e esse lado ruim nosso que culpamos ser do demo ? viver - o difícil é descobrir em que texto teceram nossa sina vez em quando vida nos devolve mocidade - entre amigos que deixaram-se no tempo

inverno já anda trazendo saudade da trama dos verdes nos paus e nos campos parente nosso Josafá 15


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das bandas do Bacuri vez em quando visitava-nos - trazia sua cara de santo ruimente talhada em pau é que a maldade da vida quando nos salta esses “entas” acha amar de povoar de dores toda nossa geografia ... e onde é que não se encontram dessas gentinhas pobrejando ? daquelas lembranças ruins substanciadas de que nem se quer lembrar tenho que os pobres levam pouco tempo para os tristes - com tanto que tem de cuidar

e não me venha estragar os terminais de meus códigos genéticos que não há como trocá-los Pito Aceso – 4 casas de bunda pro rio que famílias em dias de domingos e outros santificados juntavam cadeiras no beco pra dizer de suas almas e fados perspectiva - polifonia - um fotógrafo conseguindo que sol de ½ dia resvale paisagens a ensimesmá-las quando alma nos exige sonhar desses sublimes por que não se postar entre arcos góticos de igrejas onde se orar ? morrer – é quando os céus nos empurram ao nunca mais

ali Araquá se acolitava ao Bacuri e com águas somadas erguidas 16


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e de risadas aumentadas se iam - diziam ir ver o mar é quando as tardes chegavam já de entortadas saudades e o ano se morrendo – dezembro ah conseguisse a gente devolver-nos aquele olhar pidonho de viver ... enquanto aprendíamo-nos criança quem mais que as crianças tem direito de gastar gostosamente essas risadas ? 1 – um dia me impuseram – empina-te e caminha 2 – e tentei moldar-me a ventos empurrões da vida 3 – e me envolvi quanto pudera me ensinar 4 - me moldei quadrantes e equilíbrios 5 – e digeri a sorte ao resultá-la 6 – em amanhãs que me pensassem 7 - me posassem ereto entre meus pés e o infinito 8 – adensando-me pleno capaz 9 – de amanhã repor-me feto se carecesse outravezmente 10 – e o dez ? o dez seria pra acreditar-me acréscimo eternidade/mente quanto é lindo ver sorrisos tecendo os lábios de quem gosta da gente minha vida em dês menino de roça que foi senão escorregão em morro com bunda ralando seixos ? dessas dores que doem pra dentro da gente como goles bebidos de água fervendo se acredita que vela acesa na morte é pra mostrar ao morto caminhos pra onde vai trazia desses rostinhos todo inventado de lindo

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e resolve ir na vida com essa cara enfezada à Van Gogh ? humanos somos esses intrusos que viemos perturbar a ordem natural - triste ? que nada espia no longo da estrada feérico festival de roxos entretons desses ipês nossos domingos em Ressaca – : do pai tecendo jacás nos bambus mãe cosendo remendos e a gente brincando com barro como é que eu ia aguentar aquele olhar de dor sobre mim todo encardido ? que bom na infância quando só temos um hoje e àsvezesmente uns ontens quando Deus estendeu e tocou seu dedo no homem - fiat lux e nossa paz animal nunca mais se fez igual nossos sonhos sempre viajam além da gente dês que não insistamos meramente humanos há quanto não visitam-me fantasmas - ou será que já perdi o poder de inventá-los ? inda bem que Deus às vezes se lembra que já fomos de seus frutos no fundo a beleza das hortências traz um toque desastrado de tristeza alegria da gente ali na Vila era tudo que nossa pobreza inventava de brincar esqueceu seu último sorriso pendurado a um poema infantil que repetia para os netos mais que revidar melhor não seria olvidar ? 18


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gastou dias de encontrar verbo e adjunto que fotografassem num só verso rosto que viu morrendo esmagado entre ferragens dum trem a 21 de abril de qualquer mil desses centos trucidaram Tiradentes e no boletim causamortis o anspeçada esqueceu de lançar se era em quarto crescente desenho é quando consegue-se parar traços em papel do que na vida inda são gestos tioGelim sem dizer com ninguém levou família morar numas esmolas de longe – que ninguém sabia chegar só me lembro que árvores e postes viajavam no oco da janela e havia tanta gente que eu não conhecia no trem tive uma infância de roça cheirada de alegriinhas Extrema – morei uma encosta de costas pra Mantiqueira com casa de cara olhando morrendo o sol ficou sobrando ali longe sozinho sem demão com quem rezar - sua pitadinha de fé ... e de repente tudo é tão tarde ! quantos amam perder tempo namorando dessas tristezas... que às vezes até por desplante é bom sair burrinhando esta vida de quanto aprenderzinho a gente carece na vida ia – nem parou pra merecer por de sol que fazia outra tarde acontecer 19


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... é quando não se decifra o que a vida espera da gente

quando se empurra a vida com um tico de coragem - até que acontece dê certo daquelas ranhetas crianças que quando choram gastam ½ porunga d´água de conseguir quanto querem será que essa vida vale a gente passar espiando apenas por nossas dúvidas quando se troca lugar donde se saiu de raiva levar por que uma saudade do quanto ali nos judiou ? deu-se quando percebeu que foice que maneava já não conseguia derrubar sequer 2 pés de assa-peixe denunciando estação de velhez era desses de olhares simulados abastecido de invejas pronto pra ser ruim e consegue mesmo a gente recontar duma viagem sem juntar-lhe mentirinhas ? e que Deus continue me emprestando esta vida que ainda me presta a tantos trens terrinha “mardita” é esta - é só plantar qualquer verde pras saúvas chegando roubar amava mostrar seu jardim cheirando de tantas cores dessa gente que em qualquer frege da vida consegue amansar suas palavras 20


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ser pai não é só tomar conta da festa há-se que vigiar os contornos só sol tinha piedade de vir lumiar de flanco as tristes paredes das casas caipiras da Colônia Velha

ser homem é quando o corpo requer mulheres no formosear dumas sedes essas saudades sobrando a festa já não existia quando acordou enjoado encharcado de cachaça nossa Ponta do Morro foi lugar aos pedacinhos e muita ruinheza de chão conheci seu Jaime tresvarado dos 90 idosamente branquinho que se eu acreditasse em Deus - era o Deus Pai em poesia gostoso quando se escolhe esses longes da gente morar forro com nenhuma saudade arrastada tudo é cinza quando a sorte nos acontece velhada e seus todos sucedendo se dando como empacados e depois de tanta ausência ela me dói algum pouco dessas mulheres que à distância já cometem pecado na gente amigo é o que a gente sabe que em qualquer bom ou mal desta vida está ali perto de escutar-nos nesta vida tudo o que vale das coisas é seu fecho bom que sonhos e sombras que viajam com a gente não carecem de embalagem

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a gente deveria aprender com nossa sombra onde sempre se caber se um dia me obrigar tornar à cidade pelos perrengues da vida que saudades vou levar ? - acho só duns demorados silêncios que nunca tive um cãozinho que me corresse adiante latindo nossa alegria hei de um dia roubar as cores das coisas e assentar meus sonhos enfeitarem-se entre agosto setembro quando ventos costumam chegar diabrando nosso morro e morder de frio nossas frinchas de janelas será que Deus realmente espera que a gente retorne aos céus de continuar amolá-lo ? estradinha ruim a inventada entre nós e os Andrades - porca de caraguatás veredinha pra o Tungal - dum lado as grimpas da serra nos confins nesga de céu quer grito mais atolado que duns olhos morridos de medo ? quando será que vais aprender molecer essas cascas de alma ?

saudade é último empeno da gente pra segurar no que foi ? cada qual teima o jeito de se vingar desta vida do tanto que ela o judiou sempre há outra margem da gente ainda poder se achar quando esta vida nos moe pobrinha - era dessas que a vida 22


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interrompeu seu florir judiando-a de murchados um tempo a gente é mais fogo que siso - ruim quando só sobra siso e nosso fogo apagou saudade é o que esquecemos de trazer em nosso picuá de viagem quanta vez se para na vida pra aprender tudo de novo...

há quanto ia faltando entre ambos mutuamente aquela coisa - se é que um dia houvera é quando se sente vontade de ir falando de retalhos e saudades e que outra saída encontramos quando jogados ao mar - senão nadar ou remar ? quantos meus conterrâneos já estão requiescant in pacem sei lá mas o barro com que nos moldaram já veio prejudicado de pecado original - aí a questão de padecermos humanos Ouro Preto – 3 vistas dali me agradam - morros se derramando cidade de ruas escoando e em cada esquina suas velhices novidades amo as cidades de Minas mas só pra de vez em quando que nossa vida é assim parecida essas gares de ferrovia de gente que chega de gente que vai todo dia quando percebeu que no rosto já lhe aravam uns rasgos de suas principiando rugas... 23


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de repente andam sem motivos nossas vozes e o cansaço nos torna solidão... ah se naqueles dias terriveis viesse a tarde despedir-se mui irmãzinha da gente ... um pingo de chuva ficou duvidando saltava-se ou não do espinho do galho de pinho ao chão tem hora em que qualquer tutameia da vida consegue festar nossa alma deu que Deus passando seu último olhar pela terra descansou sua batuta na serra e foi se esquecer de tudo foi-lhe a vida tão tristemente em Brodosky que Candinho veio judiar tão feia uma cara de São Francisco na capela da Pampulha ? eram uns silêncios seminários - lembraram-me arcadas de convento já ando quase na idade de me ir sentar nos degraus desses anos que somei a derradeira vez (há quantos anos?) que ela tênue seda passou por minha vida sem saber de mim de minha espera veio a tarde trancar minha janela me seguiam os girassóis de ambos lados da estrada naquelas 10 horas do dia essa minha alma é uma asa delta que um dia voou e nunca mais encontrou seu caminho de volta que a vida não desencanteme de plenamente vivê-la mesmo a ralos golinhos tarde é tudo que deixamos escapar distraidamente sorrindo 24


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infantil voltar me arrepiar sonhando - quem dera será que estou correndo ainda nesta idade trás de sonhos de brincar ? seria inda tempo no descompasso da idade da gente juntar-se sonhos reaprendendo contar-nos ? pintar nunca pintaram a nossa casa do Morro - quando eu nasci suas paredes de madeira já andavam cansando velhas e quanta vez acontece da gente ter que desaprender-se desse homem habitual e que vai acontecer com meu sonho desse poeta bissexto ? - ir catar vez em quando em gavetas meus títulos velhos e ver se as traças inda não deram cabo dos textos ? cada dia tarde como a gente cansada - ia se encostando às bundas na serra em frente esperando noite cumprir-se e quanta vez se carece de sair pedindo esmola pra essas escolas da vida há um inquieto em nós que nem a velhez desacende e de repente o pão se perdeu de nossa fome pena que a gente se velha sem se lembrar de ir guardando naquinhos da soma dos anos

desses dias impenitentes dificeis de conviver-se até 25


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com comigos da gente amo ser desses cataventos que varia de rumo a cada viração há quanto perdi de me repetir criança que amava olhar este mundo dos meus olhos infantis será mesmo que a gente tem volta se nem o lugar que queremos é o mesmo e acaso se consegue de se repetir outrora ? descansa em meu rosto cansado essas suas mãos de fada esguia por que me olhar assim como se já sobrara um oco no lugar onde eu fora ? recheemos nossos olhos outravezmente de cândidos do chão nada esperar senão aceitar quando nossos restos morridos forem colhidos nossas sombras meninas bruxuleavam nas paredes à luz dolente duma lamparina sempre haverá uma saudade de rosto de mulher em qualquer sol-posto seja janeiro agosto às vezes anos inteiros quanto aos 15 anos se carece atar a fome de nossos sonhos o trágico da gente quando nos empacam em nossos antes que bom que inda nos sobram dessas loucuras cotidianas inda que nosso anseio se queira sempiterno tudo nesta vida vagueia transitório

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se uma vez ao menos entre nossa vida e morte a sorte nos erigisse épicos ? ajuda-me juntar azul que me dê paz nessas horas funerais de tantos dias por que esse sentimento de pecado - cessado o êxtase que nos turbilhonou ? que tal tirar o fel de nossa fé adoçando mais a vida mesmo com pecados ? um dia nosso nome nossa fome irão se dissolver com nossos ossos ... desse espécimen em que nos conseguiram encadernar questão de momento e estado d´alma quando até mel arranja de amargar-nos

unanimar como nossas discrepâncias - há velhice que se ajuste com as fomes dos que estão seus 20 anos ? que bom que não perdi meus sustos de criança até os rumores do que foram nossas dores arrepiam-nos lembrar dessa gente que se ajeita viver subjuntivas... quantas dessas namoradas as dormimos inventadas ? por que arrastar-me entre compêndios se a vida está ali fora escancarada a ensinar-me ? e foi quando percebi-me orando pela fé que um dia perdi 27


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sim – houve por aqui um dia Anchieta – esse batel de batina e cantochão de novo tempo sangue das queimadas dolorindo canaviais nessas horas comovidas em que nossas almas saem à cata das almas de outras coisas que cor leva a miséria nesse rolando de mundo ? larguemos que a inocência brinque seu pião desarmada dos equívocos uns amanhãs – quantos andam sobrando inda pra mim ? já tão pouco do século me resta – e eu não consigo devagar uns que me empurram

quem disse que todo silêncio tem suas vértebras macias ? não me tenho como sobrevivente dos que arrancaram a vida por empréstimo desaparecer sei que hei-de ainda que sobremme laivos sempiternos vamos sabotar a redenção com que a vida quer-nos timidar há o amor - essa missão em direção do vento que nos leva milagremente não estamos manhecendo a cada data ? somos acaso o resultado 28


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da quaração do lêvedo que nos somou de vida ? um triste sentimento deste mundo - quando nossos olhos avançam pelos becos os trens na plataforma de cá rasgavam-se risadas das chegadas noutra - adeuses tristemente que apartavam-se nossas rugas são os gritos tatuados já somados - quanta gente odeia ser refém dessas entregas quanto ia já madurando fronteira de seu tempo - de cálice intempéries... amarra nos olhos de novo esse sorriso que ipês e bauínias estão florando nova vez triste é quando passam nos citar como se fôramos já alegorias nossa rua morria onde acabava a cidade com suas casas pequeninhas que nem tinham cortinas nas janelas e as portas sempre abertas nada querendo esconder nas nossas janelas humildes naquele fim de arrabalde quanta gente achava de ali vir dividir nossa esmola lindo no maduro arrozal ver o doce afago do vento penteando em dourado as espigas já reparou quanto demora na gente esse olhar de Gioconda transpassando-nos ? e lá quer saber a rosa em seu canto dos desencantos do mundo ? ah se em cada estágio da vida nos sobrasse antevisão do que seríamos amanhã 29


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- que merda seria sonhar não seria bom da gente parar vez em quando pensando num lado amanhã de nós ? vezes me bate saudade dos sons odores e cores da cozinha de minha mãe Santana - naquelas suas ruivas horas de verão e férias - um imenso terreiro de café antigamente aposentado e um preguiçoso gato - até bonito da vizinha vinha dormir uns sois em nosso muro de esquina é que o mundo nos anda empurrando cada dia mais pra dentro dos sós que pena sonhar-se tanto e a vida ser tão pouco caso nas madrugadas São Paulo quantos repassam funâmbulos pespisando seus abismos ? há dias em que na vida a gente bate esperando que nos abram alguma fresta pra espiar na eternidade impressão que ventos plantaram aqueles capins nas encostas só pra tarde chegar penteá-los redonda essas mãos de mel ao vires me cariciar quando eu morrer meu anjo da guarda demorará se despedindo daquilo que eu esquecer vamos prover-nos de vinho e celebrar os tristes nãos que se tintem de alegrias as minas de Minas andam todas desbotadas de ouro em cascalhos

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Cateto - eram dias das noites sanguentarem-se queimadas - safravam-se canas pra usinas levou a vida fabricando sonhos sem descuidar-se da lã dos filhos da casa humilde onde tricotava quando se cai em si coitado em vários...

devia haver dessas horas em que a gente apenas acontecesse entetanto... bom que o quanto entre nós durou gorjearam sorrisos nossas carnes e aquele fogo que incendiou-nos aos 15/20 anos e aos 70 ... malemal cinzas sustentam umas brasinhas ... se soprando andam desenterrando tabas soterradas que nem de línguas próprias mais se lembram desses nossos sub-solos por que não faxiná-los quando sujos ? e os deuses que inventaram de justificar nossa resma humana de maldades... ah prenhássemos mais mentes que ventres... será que esta vida desistiria sofrer tanto ?

dessas mulheres ora meigas ora não ora luz malsã duma candeia ora lumes que quase poucas são... sei lá por que perda/ausência lembram-me antigos agostos - quando daqui se despediam as namoradas poema era aquele mendigo tristemente montoado tremendo seu frio 31


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no espaço vazio no entrando um portão onde esconderam-se profecias e profetas duns tempos a esta data ? essa equação que Deus propôs-nos resolver acenando-nos eternidade... quem pode emprestar-nos gritos quando nossas gargantas andam correntadas ? de repente a vida acha de cogumelar-nos em bosta de vaca pelos pastos ... que fomos apenas afetos circunstanciais abraços um dia as águas se sublevarão e nosso Araquá despencará suas marés esvaídas desvalido de seu leito milenar – em cheia indo nesses – dies irae - em que nossas palavras nem são ditas ... mas cuspidas ô vida dissonância amarga dum poema - vale a pena a gente às vezes por-se joio entre trigo ? que disparates são nossos ódios apesar de nossas mágoas e mentiras ... prefiro com todo prejuízo inda ser gente que lírio colhido em vaso comportado eras um anjo oscilando entre meu sonho e luz dum candelabro é que nem sempre vale suar nossas camisas despojadas umas dores que nos deixaram tão sozinhos a cuidar nossos espinhos que aconteça-nos sempre encontrar uma rosa alindando canteiros que nos cercam... quanta coisa se consegue carregar nesta vida com sorriso cotidiano ?

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reparou que natureza nos entrega tudo dês que o acabamento operário seja nosso ? e quanto nos batem esses confusos profundos âmagos do nada ... nossos pés um dia se cansarão de andar – valerá pena rogar que nos empurrem perlongar ? derradeira prece que farei é quando mais nada em mim sobrar e eu em nada mais já estiver sobrando ruim seria se a vida não nos surpreendesse em suas esquinas ... minha religião nem inda conseguiu treinar doar minha segunda face ao inimigo que bateu-me... Araquá eu criei quando matei Bacuri Charqueadinha Onça - e sei lá se eram mesmo ou tudo isso aconteceu porque inventei... eta ceuzinho transitório que nesta primavera continua nem chovendo é quando nossos mapas já não prestam pra gente encontrar outros caminhos essas dores que sofremos neste mundo - não somos nós mesmos a inventá-las ? que histórias guardam nossos pés das estradas serpeadas nesta vida ? por que nos largar de alma inteira ás paixões que vezes nos invadem ?

negar por que do quando fomos ilha barranco folhagem andorinha e muito inda nos faltava pra chegarmos paisagem ... que espera não é terrivelmente 33


salmos em tom de súplica capiau

ácida salobra de ameaças ? no cair da tarde deixa vazia uma cadeira em espaço da varanda ... que de repente quem sabe uma saudade resolva retornar... um dia silêncio trepou muro entre nós e nunca mais conseguimos conhecer-nos ainda um mês e as cigarras tornarão enchilreando árvores na praça e quem amará cores das flores e guardará odores dessa esquina de jardim quando eu partir ? se se-pudesse escolher onde morrer uma tarde treparia barrancos do Cateto onde morros descoram-se falésias ... e dormiria espiando uma Ressaca céu hoje resolveu coalhar caprichandinho nuvens derramando-as peneiradas ah tempo-tempo-tempo por que essa pressa implacável de cobrando-nos suas dívidas de dádivas ? por que estranhar esse silêncio agora se com ele fora sempre o que vida presenteou-me ? ah quanto resiste burramente tanta gente desprender-se dum corpo com que tanto já sofreu... será que me darão na eternidade alguns desses beirais para que eu durma ouvindo chuva despencada reclamando ? larguemos descansados nossos mortos sem-lhes tantas lamúrias com que dizemos celebrá-los nesses vilarejos pobrejados cuja única rua importante 34


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é a estrada que ali passa - quando se vai por eles madrugada impressão que se percebe o sono debruçado cansado sobre-lhe as casas ah quando os espelhos passam a tripudiar-nos... tomara que desses dias salobros nunca um imole amanhã de nossos netos vale a pena acreditar em nossa muda eternidade ali nuns mármores com nomes desbotados ou dumas ruas que não guardam nem saudade ? quando nos vestimos de dilúvio acaso ignoramos que a qualquer hora acabaríamos afogados ? que livre-nos os céus dessas almas côncavas ruins e mutiladas quando nosso orgulho se empapuça exasperado e descompassa-nos de toda realidade - que a força das virtudes de nós se apiede nos lambuzando humildades que sobrem essas mãos pias que unguentem nossas almas quando desabarmos de nossas soberbias por que a maldade de adultos em lotar as almas crianças de medos desconfianças ? pautar por que meus passos pelos perplexos da vida ? hoje só para adejar adeuses sobrou-nos pose das mãos quantos sustos assombraram-nos crianças e nos perseguem vida inteira ? vale guardar esses chumbos em que enterraram nossas vidas anteriores ?

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existe em mim capiau não tão coitado que quis ir além das Índias impossíveis - conseguindo ser razoável prestante desta vida e deram vozes às consoantes navegando-as de vogais por que não maquinaram mais tranquilo nosso noviciado que a vida nos fosse menos voraz e medrontada ? vamos substantivar potente a voz quando dissermos de nós de nossa fome por que-nos essa mania de sermos dramas de amanhãs que inda não fomos ? e por que desses gestos naufragados que nem conseguem convencer velas de barcos que podiam nos socorrer ? a mente o mito a mentira o que somos por trás disso que temos ?

velem por nós nossos heróis nossos mistérios que os impérios se façam ficções - o mais ... rogai por nós o que me pena é essa minha alma pequena em orla do nada esse ser inteiro inquietação que todos somos essas vontades que tanto nos consomem - quanto é atroz conformar-se apenas homem e acaso lá está o ocaso a querer saber de tuas mágoas ? que às vezes fico cismando que almas muito mais moram meu dentro são marrons os sons que acordam nossos medos ? amor é quando vida vem e nos diz 36


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que não somos mais sozinhos e que ambos se precisam

um dia hão de vir tirar-lhe as rodas fueiros e jogá-lo em canto de terreiro caco daquilo que já foi quando um dia viajou carro de boi bom mesmo é ir gastejando essa sorte ainda que sofrendo de aprender foi no dia que desareei-me dessa coisa de cidade quando ainda de doendo-nos a alma se alcança segunda escala de sol... homo-logar (estar junto do logos?) vivendo morte dos outros e morrendo a vida de nós ? quer dizer – seu Heráclito que enquanto vivemos andam mortas em nós nossas almas que só se despertam morrendo ? apoplexia - disse Demócrito é quando ato sexual nos pincha às culminâncias... magnífico é o que mesmo no fundo infortúnio nunca se deixa perder quanto feliz era cara de Biscutim a rir sempre de nada quando nossas esperanças começam se tornar tolamente impossíveis hoje me formo de 78 anos e quanto desta vida hei inda de aprender... e que tal desses golinhos duma espera pra não carecer de depois se arrepender ?

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de repente vem morte esgotar-nos dos mistérios e que um dia não vamos mais carecer de sonhos... além da morte ali o vento plissava o tampo do rio daquele jeitão desses seus de nunca aprender se dizendo mas de olhos molhando palavras será que depois que a gente conhece bem as coisas elas perdem condão aura antiga ? depois do arqueado estrada do morro descia tombando até o Bacuri vida sempre nos cobra suas dívidas de empréstimos com dízimos ah pudesse a gente desmanchar-se dessas pessoas que nos sofrem... é que a gente acaba aprendendo ler nos olhos maldade dos outros impressão que naqueles tembés o mundo parou pra recomeçar outra vez

mesmo em suas miseriazinhas conseguia portar-se decente naquele entreato da vida em que mandam na gente os avessos nem sempre idéias da gente aprendem andar pelos trilhos dona Iracema – conheci-a já antiga mas guardava os bonitos traços de quando festou mocidade por que dona Bene enrolava sua cara quando entrava a igreja ? era medo do seu apreço por Deus ? 38


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plissados que cercavam-lhe os beiços denunciavam muitos sofridos esta vida nos adoça ou nos amarga conforme a gente nós mesmos tornamos à casa cansados à tarde com estrada a levar-nos devagar a seca foi das brabas que Araquá escondeu suas águas em vão de nem 2 palmos em seu vau era dessas fazendolas decaídas e gente miserando insistindo suas terras dessas pretas misérias terríveis pobremente que na casa mal moravam 3 trapinhos de pano pro diário de seus donos ali insistiam dessas famílias honestas empacadas em religião quando a gente escolhe achar-se silenciosamente resto vamos dividir dor alheia doando nosso pranto num abraço não será que histórias que depois contamos é aquilo que no real faltara ?

dessas gentes bondades que seu espaço já não cabe neste mundo - indo atrás de outras saudades o trágico da mentira é de não conseguir mentir para nós mesmos um cachoar de cigarras no bosque enquanto tardezinham dezembros só vivendo é que se madurece verde vertendo da gente por que não se aprender largar 39


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dessas saudades que tentam nos atar ? tornávamos cansados pela noite nas lombadas luzinhas vaga-lumes de candeias denunciavam casinholas caipiras dormitando nas encostas chapéu bengalinha e paletó já muito gasto lhe impunha sua figura de velhice lá de cima ouviam-se cachorros perdidos nos brejos a caçar desses preás sonsinhos de tempo em tempo costumava vir ao mato sovar-se silêncio era duma orgulhosa humildade aquele padre Romário todo escorrido de medo Das Graças bem que sabia que nossos olhos a sujavam por de baixo de seus panos Padre Galo deu sua vida igrejando nossa Vila e diabo só quer da gente um tempo nosso emprestado nosso nonno achou de erguer primeira casa em crista de morro - quando meu pai sobrou só derrubou-a pro manso do vale onde ouvisse nas noites aquele chuiím do Araquá é que sua beleza já andava empurrando-a envelhada dezembro - quando as chuvas acontecem de avisadas trovoadas mais um pincho morre um e nasce outro se dizendo novo ano

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salmos em tom de súplica capiau

da. Carmen e seus trejeitos em benzer-se mirava pro forro do céu como se Deus a escutasse ... é que Deus não carece de frinchas pra nos espreitar do vivendo que bom quando se tropeça nalgum desses recomeços ai de quando em nós as coisas vão barateando importâncias pinchou mágoa ir trancar porta que ela largara aberta quando se embora fora meu pai foi procurar sua poesia em silêncio madrugando um hospital que ali morreu quando tudo é amanhã em nossa espera

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desses opúsculos produzidos em 2011 foram derriçados os motemas que somam este volume: . De novo tempo dos gerânios . Vozes que sopram ventos de infância Quounque Quousque Enquato se dura nossa transitória morada Enim Quidem Esssa nossa loucura cotidiana Por que largar que o mundo nos designe ? Quando vida resolve nos devolver espantos... Ma no troppo Quid-quomodo Era um vento caipira em tom de salmo Quando nem sonhos mais conseguimos fabricando E se nem esperanças mais sustentarem nosso mundo... Já não existem daquelas antigas mãos que me afagavam Quando se passa do tempo tão vivido Em rumo de rumores Vou limpar minha lousa do que disseram era viver Quando as manhãs vão acordando os olhos das janelas fatigados Toda paisagem é uma espera

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salmos em tom de súplica capiau

endereço do autor r. otávio angolini,235 – cruzeiro 13459-467 santa bárbara d´oeste SP BRASIL http//paginadoirineuvolpato.blogspot.com/ e-mail: volpato.irineu@gmail.com

2012/6

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Salmos em tom de suplica caipira  

Livro de motemas de Irineu Volpato,

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