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neu irineu volpato renard direitos reservados V961P VOLPATO, Irineu 1933...

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poesia, 2010/17 Santa Bárbara d´Oeste – SP BR RENARD Ediç. 105 p. 21 cm. 1. Literatura Brasileira 1. Título CDD:968.615 Capa – Arte (rosto do autor) em chocolate, pela artista plástica Cecília Vertamatti, de S Bernardo do Campo-SP Tipos: Arial Narrow/Geórgia/ Lúcida Caligrafy/ Arial Papeis : Capa – Cartão 240 Miolo – polem 80

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Gratidão a: Therezinha S. Malta R. Leontino Filho

- Mara B Quadros - Ivana M. Negri - Edson G. de Morais - Douglas Simões - João B. de S. N. Athayde

“ O bom Deus esconde-se em minúcias” Aby Warburg “Aprenda comigo, filho, a virtude e o trabalho verdadeiro, outros vão ensiná-lo ser feliz” (disce, puer, virtutem ex me verumque laborem, fortuna ex aliis) Virgílio – in Eneida “Raiva de não ter trazido o passado na algibeira” Álvaro Campos – in Aniversário

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importa que percebam que este Ê um modo diferente de ir dizendo – no caso, meu

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dessa gente humildemente que nunca sequer alcança uns triviais saudade – quando coração não se cumpriu e fica a limar antigas lascas desses gaviões que viajam sempre em um e deu-se que um carro loucamente veloz perdeu a estrada indo desinventar-se em ventre dum rio e iam todos vestidos de domingo somados na carroça à missa da capela em Covitinga arvores mesmo são jequitibás que têm porte de posar - as mais somam-se arvoredos ah – esses ipês e suas pencas de aquarela esparramada nosso silêncio é isso que nos tranca às vezes neste mundo pra 5


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depurar substrato do que somos dessas umas árvores vizinhas comezinhas de vir toda manhã comover minha janela por de baixo da trama da sorte de quanto enredo vida nos embrama dessas gentes que não aceitam margens adonde moram impressão-me que aqueles tão velhinhos no asilo iam assim dependurados em varais ao sol secando-os... apelava vez em quando a outra demão de sonhos novos trancos aguentar dessas maciadas velhinhas tão já sabedorias e que por cima aproveitam da surdez pra ignorar-nos trazia o mesmo murcho retrato de tantos os velhinhos 6


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quando a vida se cumpriu quando nosso crédito de vida escorre-se esgotado sobra impressão duma carroça já encilhada à nossa porta esperando-nos partir ao se trepar as alturas São Tomé a gente espia distâncias mantiqueiras que desmorreiam longes se quebrando era um vale com trem que lá passava e um rio que vinha a-par - a gente morava num espinho morro em frente cujo nome de Ressaca uma alameda escandalosamente que sujava-se das floradas dos ipês tenho que os santos construíram-se limpando se apagando até neles não sobrar borrões de gente epitáfio é dessas soberbas de não se conceber morrer 7


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desenhava-se música dançando ralou quantas calendas numa espera e quando amor florou ... já nem valia perfeição seria a gente ir errando menos nossos dias... amo as almas crianças desses corgos que perseguem virgemente seus caminhos ao chegares que venhas alma descalça sem os tropeços de mágoas sem as trapaças da dor riozinhos de águas despenteadas desesperadamente seguindo de nem sabendo pra onde há sempre um verso incomodado em nós suspirando se brotar meu vale era pobre só de verdes mas nunca pediu eu lhe inventassem 8


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outros tons alheios seus desenhos montes se montoam no horizonte um cavalo se desenha na planície e quando bica enxugar de verter água quem moverá o monjolo de socar ? o tempo esse abrasivo que vai gastando-nos seu uso quando coração inventa crescer maior que a gente... uns que pela vida passam a impor amor que desenharam é quando se perde o caminho de tornar pra dentro de nós mesmos é tempo outra vez de espiar noutras distâncias amar é deixar a trama da magia nos inventar Deus deve ter escalado El Greco 9


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de ornar o céu nesta manhã o triste de ser pedra em encosta duma serra talvez não fui a sólida ilha em que buscavas descansar árduo é comodar as cores chãs do dia-a-dia aos quentes tons do sonhar que nos compõem e quem vai decifrar minhas histórias nos vincos desta cara ? e daí que fomos argila dum só chão ? artesão que me plasmou não foi o teu e aconteceu esse nosso desencontro cadê pote com nossas fantasias que melavam nossos dias de criança ? Deus – seu próprio autor carecia de propor a seu favor tanta oração ou nosso medo que assim no inventou ?

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um dia a gente percebe que gastou a derradeira folha de embalar nossas saudades quanta vez a sorte é tão desmazelada que nem lembra de trazer nossa fortuna em quanta experiência tronxa estragamos tantos dias que falta nos farão no acerto a nossas contas eram uns olhinhos redondos nem 2 anos - me olhando já querendo trapacear quando despeitados repetimos orgulhosos que bom estarmos sábios ainda que gastos confiáveis enquanto velhos... ah, vida perene madrugando por que não ter uma nuvem lá no céu sozinha - apenas minha ? enfeita tua alma na floresta no marulho dum córrego 11


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evita que teus passos na manhã desmanchem a risada dos orvalhos céu brabo pra chuvas e as folhas de pitangas insistem em sorrir é tanta chuva há tanto tempo que os troncos do pomar estão vestidos limo enxurradas estão trocando geografia de nossa aldeia nos campos de dezembro melancias já queimaram seus pendões de fim de safra silêncio há um momento do mundo procurando se escutar fim de dia numa estrada tropicando iam burro e cansaço de seu dono

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estradinha velha do Tungal fez-se mato abandonada hoje só na percorrem chuvas ventos carrascais passou vida de gênio relampeando ciências hoje sua inteligência sequer uma binga acenderia no imenso do rio uma pedra plantava sua gaivota miséria secou azeite da candeia de à-meia veio lua lumiar nossa janela bruxuleia lamparina sobre a mesa na parede nossas sombras conversando sobrou aquele vão entre parede e fogão por onde ia nosso gato namorar na noite um cio ruim é que chegaste demasiado cedo para saber o que fazer da vida 13


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desses cães que nos olham docemente mais que gente dessas ternas janelas que já viram de tudo nesta vida medida do medo que nos sua é dividir uma cafua sem perguntas se quem conosco ali se esconde é inimigo quando a gente passa a vida tentando nos achar no pleonasmo que compomos... perdeste a aleluia de eu amá-la tanto por te tornares ora esses finados... o cântaro que fui e te ofertei por que desmazeladamente achaste de quebrá-lo ? há dias em que se sente uma baía onde barcos chegam partem e a gente em somente paisagem...

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carece às vezes revisar nossas mentiras e verdades por que às vezes nossa alma prefere vagar longe da gente ? um dia saiu pela vida aprendiz dumas saudades nem lhe batia que tornaria veterano gasto nostalgias ah lembranças cujas têm sua dinastia de estribilhos vezes até me percebo desses cais de há muito abandonados... manhãs perfumam pó de arroz antigo os capinzais e daí que aqueles olhos já ternuram noutros olhos... mas como dói ! conformar-se com própria realidade inda que mais do que imperfeita 15


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inda bem que ao partires esqueceste as cicatrizes quanto tempo perdemos nos inventando outros... e quem não costuma abanicar sua vaidade ? se a história não se encaixa - doutra vez que for contar tenta untar de mel os 2 extremos do enredo os desmazelos da vida chegam sempre já lotados de encardidas intenções costumava por ao sol suas vaidades de secá-las por que pejar-se apear do próprio orgulho se buscando ? tece teu mundo mais de olhares que palavras 16


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que de amar nunca hás de arrepender conheci-a aos 50 – eu de 70 e simultâneos de repente nos devolvemos molecando uns 20 anos por que botar no afeto essa textura de rochedo ? de que adiantam os anzóis que nos sobraram ? as aves eram brancas eram tantas devolvendo-se na tarde inda vi seu Estevo de caminho em seus per omnia saeculorum saecula mas a amar ferrenho a vida aqueles risos de carinhos que me davas... será que demo escolheria suicidar-se outra vez pra fazer-se querubim ?

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nossa fome vamos dividi-la nesta ceia eu acenderei luz duma candeia e você irá dando nomes às saudades uns olhares que em silêncio dizem tanto... por que da empáfia soberbia vivendo se do mar donde viemos sal é o mesmo ? preocupar-nos por que pra onde vamos se já nem somos quando a vida nos largar? manhã nasceu a celebrar o dia eram tons de paramentos ortodoxos com tanto carecendo nesta vida e a vida empacando-nos barroca quantos têm de mastigar a própria fome nessas horas inconfidentes de rebanho não fossem nossos ébrios de loucuras cotidianas em que estágio empacaria raça humana ? que mais é nossa vida senão rengue 18


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espera entre nascer morrer ressalvados uns vagares ? dessa gente humilde que se esgueira pela vida economia até no ruído de sua fé vamos escancarar nossas persianas que não nos mofe o comum de nossos dias perceba o gostoso sabor de se espiar numa janela essas risadas das tardes já bom tempo não visito incensos silêncios das igrejas e há que idades meus dedos não maciam umas contas de rosário

ah meu pai - esqueceste o azinhavre em bocal de teu trompete umas ressonâncias que nos restam ecoando 19


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quando algo prestou em nossa vida quanta vezes estouvados tropelamos os líricos encantos nossos fados ah o amor - essa lâmpada votiva que nos sogiga à posse ao pranto quando não nos obriga a adeuses doloridos... entre verdes e vontades fui-me infância quanta vez os sonhos arrematam o que nos falta n´alma pobres amores que se inventam só de adeuses vale a pena em vão viver a vida ? um olhar crepuscular desperdiçado que guardou até morrer - o de meu pai ah – saber-se um fantasma que tanto brigou e nunca foi ... 20


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tentemos ao menos ser honestos com os anjos que nos cuidam condoi-te - Senhor desses meus pés pelo que vejo inda sobram tão caminhos a decorrer já notou que tecemos nossa vida mais promessas ? embora tudo seja perpétuo como o vento ainda nos propomos acreditar vou resistir vestido desta vida nunca se sabe o amanhã de hoje às vezes viver nos devolve para dentro de nós mesmos ô vida obrigada a subjuntivos vivemos entre nossas emoções e alguns de seus cenários ia assim um barco à deriva com gestos docemente navegando

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quem resiste à graça orgástica dos lírios ? quem anda roubando os silêncios em nossas sombras ? já me cansei dos sustos de acreditar na vida ... que nem posso mais confiar na memória de meus pés deixa-me inventar certas mentiras provisórias que me esqueçam duma infância pobrezinha já não sobram vaidades de tentar me acontecer alma não velhece derruba-se judiada àsvezesmente é que a terra está se re-inventando por isso os constipados que vêm-na acometendo

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dessas paisagens que sobem pelas janelas dos trens é quando nossa alma carece de um reles vôo de andorinhas pra conchegar-nos sossegados ah – nas vésperas de nossos 15 anos que inventávamos acertar foi quando os lusos despacharam caravelas bêbadas nos mares e umas delas aproaram-se esquisitas por aqui se a gente às vezes pudesse conseguir a vida como um desenho animado e rio veio trazendo gesto afogado dum punho humano em suas águas já cansei ficar ouvindo meus silêncios devolvam-me as vozes de eu sair desses fantasmas pensamentos que nenhuma dor do mundo venha sombrar-lhe esse olhar de 12 anos 23


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não me obrigue a monólogos algozes quando me tomam o rito dos poemas perdoa se nunca coloquei-a no gume dum poema que eles lá mandam mais que eu mantenhamos chama acesa que há flores inda a esperar serem plantadas destes lados desistamos de acordar ruínas dessa Grécia dessas manhãs tão mal pintadas que Deus se negaria de assiná-las não venhas secar-me de silêncio já fui júbilos gemidos hoje são pedras que me acertam um dia quem não será endereço de cruzeiro ou lápide em cemitério?

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há quanto andam olhos de Deus questionando o que inventou ? ah essas risadas do dianho vilãmente... quem já virou cinza se atormenta com as ameaças do tempo quando venta eram as mesmas poltronas do cinema de quando começamos namorar ensina tuas mãos enfeitarem-se de gestos às vezes triste da tristeza chega desvestindo a gente de esperar e quanta vez se esquece de dar socorro às pobremente misérias nossas vizinhas Araquá – desses riinhos que chegam calados e partem maneiros de silêncio aqui campos semprejam mesma paisagem duns verdes se lavando 25


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ah se desse arrepender-se daquela estrada se indo com sol que parecia não sair do ½ dia depois de estragar malvadamente a vida voltou pra ali atrás duns miserere tem a gente que aprender o mundo desse jeito assim doendo... ô vida sem pedagogia que só sabe ir socando na gente duras lições de se aprender olhar a vida como se fora última chance que nos sobra dela acaso alguém se apronta de morrer ? vez em quando carecem de faxina nossa vida nas gavetas - trem bem que podia morrer em Paraíso minha angústia é que eu sabia que ele ia além donde eu podia 26


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ah – humilhança quanto a miséria é vitupéria e meu anjo que conseguiu de Deus mostrasse-me antecipado os céus e eu com sono... treinemos veludar nossos colóquios que há tempo vêm desentendendo-nos há alguém neste momento em Blatislava dizendo poemas desses meus ? essa rua que fez ontem multidões obscenas matarem-se por times acordou tomada de enxurrada como pode ser única minha alma se uns múltiplos derramam-se de mim ? impressão que àsvezesmente somos todos levados de coleira nesta vida os borrifos finos fofos da garoa enjoavam nossas roupas

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ah – os lugares tão longes que quando deles se lembra parecem lenços acenando despedindo se embora - eu vou de sozinha – vô assim não susto o silêncio criança não algebra a vida ao abrir para entendê-la pouco importam poucas amizades aconchega-te às que trazem-se colóquios muitos corações passaram antes de nós e deixaram-nos apropriado esse universo quantos lados de lá nossa vida conseguiu não alcançar ? se carece demorar remorsos de nossa aprendizada errando infância ? os silêncios por aqui são tão compadres que eles mesmos abrem a porteira quando vêm me visitar 28


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não me espantam nem me encantam pios doídos das corujas em adágios 6 compassos a ferir vazio da noite ah – a gente pudesse cavaquinhos tirar de suas cordas poemas - esses vinhos... saudade não é aquela esperança que o que foi se repita depois tanto intervalo ? andei juntando silêncios que vinham já me estorvando e fui pinchá-los no mar os tantos espantos que nossa velhice vai quebrando-lhes os encantos de quando o engraçado da vida se perdeu e a gente somente vai cumprindo uns obrigados

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quanta vez o afeto não se tece origami ? reparar mais no quê que tanto costumaram nossos olhos ? desses caroços empacados nos cordoados da gente no principio era a palavra que ensinou-nos a vida depois urdiram a gramática no que viver melhorou ? de repente vida passa a encardir nossa candura nos roubando da pureza que fomos inda prefiro rir tolamente da vida que inteiro me invejá-la nas suas raivas como modelar-me última pergunta ? não nos roubem de nós mesmos para debitar-nos em Deus há uma só nuvenzinha no céu e quando é tudo que nos sobra... 30


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de repente a gente de ilha passa-se a incômodo arquipélago minotauro – álibi de nossas comumente indecisões quando nos prendem labirintos um câncer – só então se atina com a sinfonia dodecafônica que nos domina pois alheios vivíamos só cuidar de campos arredores... que de repente o pânico – nosso sendo em cacos e de repor-nos só o árduo empenho de trepar penhasco e achar pra vida menos-dor saídas por que regato de perdido rumo quando abismo se despenca vira panorama ? ... e tantas questões advirão mas aí já não estarás andando porcelanas é daquelas pestinhas chateações da alma que não se expõem e ficam 31


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futucando-nos viver... de quando terra se destempera sob os pés das gentes das coisas e nos põe assustados de perder nossa última morada avisaram a tempo os ventos que já entramos outono ? me lembra que ainda nanico eu perguntava por que os perfumes não eram coisas a gente pudesse surpreender em foto o gesto-gosto duma risada infantil quanta gente que não passa além dum ruim prefácio duma vida sem história ? fazer o que diante naquela bíblica tarde senão olhar sol depintar caprichadinho o céu ? um tempo em que até nossos dentes se desenhavam de fome 32


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por que não se agarrar no pouco que nos sobra sem lamentar o muito que roubaram-nos ... viver não é a gente ir tropeçando esses caminhos de signos e dúvidas ? de que me ajudam uns velhos rancores que esqueci de perdoar ? não me ponham se eu morrer fantasma algum de viajar comigo e que consolo - bom Deus estar mais sábio... e mais velho e lua outravezmente cheia e os gatos a gritanhar seus cios arregaçados nos telhados espero corrigir-me amanhã numas páginas – erratas

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desses odores que em nós voltam lembrando caras antigas o que seremos desistidos de nós mesmos ? e ainda querem cercear nosso direito de alegre... e quem não se comove ouvir um sino a tocar num quieto vale ? poesia de paisagem uma cidade nanica derrubada-se em encosta sem o encardido de prédios e o remendar-se de casas deixa que teu neto te lambuze de inocências que nos ocupam tanta coisa nesta vida nenhuma porém + sádica que 1 espelho sinto-me às vezes aquele palhaço em vermelho que se esforça por alegrar seu domingo 34


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conheci-a nos detalhes o corpo inteiro mas a alma em 30 anos morreu sem me contar quanto nos dói decorar ausências não me acredite mais sábio por ser-me mais veterano de vez em quando a saudade me devolve rostos em adeuses que há sempre uma bengala esperando nos levar no varal apenas roupas estendidas dava vida ao dia sopradas duma brisa de que servirão os teus segredos se vives acendê-los de gritos seus redores ? por que ensandecer-me se a prática da vida posta a sério já é um despautério...

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uma rua subia descalça cercada de portas remendadas e janelas pobremente ½ abertas já não é uma oração a gente se acordar ajudando o mundo sorrir? e quando é que nossas culpas não mancham cores nos olhos ? por que expor nossas roupas judiadas pobrezinhas em varais junto da rua ? até carambolas celebram de flores roxas a quaresma quando em maio ipês roxos estão se lavando de folhas para se ornarem de flores quanto brasileiros amam cachorrar a língua de inúteis estrangeiros... filha de dona Alzira – linda mas nunca se desvestia 36


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da sua tristeza morena quanta vez esperei que a vida me disfarçasse num outro descansado de mim mesmo Dona Nininha curava sarampo erisipelas quebrantos com cuspidinhas de rezas então noite se trancou em cerração e me tocou enfiado em túnel de silêncio na estrada com sua mudez de carvão de repente quem me assusta? o orvalhado sorriso tom rosado duma orquídea em forquilha de jaqueira naquela idade mocinha em que meninas trazem as gargantas em gorgeio e seus corpos enluaram metais ... cadê aquela fase em que sonhos fabricávamos ? tinha rosto se estragado de 2 lados e brigava inda entre cinzas 37


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sua labuta quando eu morrer que venham pássaros cantar pra mim de eu esquecer peso da terra que vai me enterrar sei lá - mas tantos tortos caminhos que fiz pela vida não passaram de ruim cópia das veredas do Araquá tique nervoso em joão de barro desaba em seu rabo que adiantava ser domingo em Ponta do Morro com a sempre miséria peando-nos tudo ? eu lá ia entender de sustenido bemol quando ouvia azul do silêncio num ternecido crepúsculo em meus barrancos crianças ... já não (exis)tem mais meninos mal vestidos sofridinhos de feridas como em meu tempo criança ela veio descalça de suas roupas 38


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rogando sufocar-se em minha noite as doenças em geral são tão maldosas quando tombam sobre a gente - nos roubam de gestos rascunhos como andar... mijar...de viver era um chamego sossego ouvir a tarde em crepúsculo minha neta foi roubar de arco-íris sua linda cor dos cabelos quanto é gostoso ver pastos sorrindo verde novo tão braba foi a seca que Araquá se escondia fingindo em eito de seu leito pra as lagoas do Olímpio não invejarem-no impressão que nesses dias anda alegria tão árida que o riso das pessoas cai em pó Sesmaria apesar de já dez anos agraciar-me das rurais suas alegrias não conseguiu limpar meu sangue 39


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exangue viajor que busca sua Compostela estariam me reclamando capelas aulas salas quieto silêncio solidário dum claustro seminário ? e os filhos já prevendo-nos de velhos apelidando de amor suas atitudes zangam nos quebrando as liberdades nossa casa da Ressaca nunca fora repintada repetia-se triste de cor se descorando estação de Paraíso com seu chapeuzinho telhado mal protegendo-lhe a gare e passeio umas manhãs que acordam abraçando-se com a gente quando se viaja aos pés do Andes é que se entende como ser insignificante é nos olhos das crianças onde moram 40


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os espantos verdadeiros é deixar vida levar de conforme cada vez duns ácidos momentos que dentro nos demoram uns esmos conosco cujos nem nós mesmos às vezes entendemos ah – coisas e gentes que a vida vai santificando-as de velhas um dia hei de aprender comer com devoção o trigo brigar por que por latifúndios se do que carecemos no depois é apenas rasa cova dessa terra? verga as vezes sobre ti para escutar-te íamos aos cantos em procissão atapetando os vãos dos vazios com umas rezas

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será mesmo que pra nossos pecados há uma paciência de Deus a perdoar-nos ? devolve-me os trapos que inda servem para léguas que me permeiam da Ressaca troquei-me bem criança mas sobraram de lá noites em mim quando carece a gente ir até o calcanhar dos termos... e passamos a vida a inaugurar sempre ânsias incontidas bom mesmo é quando se consegue ir se trocando por novas alegrias àsvezesmente nos retomam essas fumaças que um dia puseram-nos tristes que tal a gente emprestar-se de esperança para transpor horizontes? quanta noite aqui se dorme afogado de povôo de fumaça se queimando canaviais 42


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não é cedo demais pra se amestrar de sofrimentos as crianças ? que cada um se entretenha com aquilo que lhe convém que vida não tem os seus tristinhos ? só não deixá-los que nos montem e esse desejo tonto de se amar voltar catar nosso retrato de menino ...e das nossas vaidades que o tempo vai sem piedade escachando-nos... e madrugada parece ir trocando roupas com que dormiu... voltava visitar seus antes quando a saudade o baqueava estou me devolvendo barroco a ouvir Vivaldi e espiar os campos tristemente se desbotarem outono hora do cochicho das árvores 43


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nesse entradinho de tarde de repente uma cara em Ó dum carcará me olhando subido em picos de eucalipto - enquanto acordava a manhã um mapa de 6 léguas nos desertava São Pedro amava ser cariciada naquele veludo de pele é bom às vezes a gente gastar uns silêncios antes de dizer o que quer nem percas de ir atrás dessa paz que não consegues onde céu e terra se desenham espichados sem monte nenhum estorvando de paisagem doutro lado vinha a noite derrubando-nos sua lona quanto um velho se avilta 44


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de carecer ser mentiras quão asmo ácido é o gosto da vingança há umas gentes diferentes que cortam coitadamente a vida sem somar coisa nenhuma tão inútil como essas árvores em cruzilhadas de estradas que parece que só prestam pra catar pó nas folhagens Deus fez esse mundão pra nele se espraiar o sertão e aquela sua mania de trepar em se elogiando a si mesmo ? vamos tecer nossa sorte só de bons que os maus intrometem-se por si quando coração da gente já não copia quanto e ainda vai perdendo os arruídos das pancadas...

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era uma estradinha incapaz pra dois cavalos parelhos ninguém mais morou no Sobrado depois da partida da usina só uns galhos de alecrim conversavam no abandono até o dia lá acorda mais cedo fugindo dos medos das noites ... já numa idade em que a gente vai se prescrevendo das mágoas sobravam-lhe uns troquinhos de vida que devolveu vivê-los de roça velho quanta vez o silêncio vem dar o braço pra gente de voltar visitar uns diversamentes que fomos

bom da gente ir somando no tropicado do tempo esses lampejos vivendo

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vida já me havia manhecido há tanto tempo quando minha mãe desistiu alma semeada de calos que fora-lhe a vida calçando um dia enfim retornou de 3 anos baldeados no mundo - na alma mal 3 maçinhos de histórias ah - esse infeliz de gente quando inveja até vida de bicho derredor... quanto nos vazia costume de não se lembrar tão de Deus entregou-me mão e os olhos numa tristeza tão lesa como se adivinhasse da gente se encontrar nunca mais se industriaram tanto tempo inimigos que assustou-o ver a cara do vizinho estampada em jornal desmanchada em vertiligos

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65 anos e nunca dispusera tamanhinho dum minuto para assuntos de sua alma medo tanto era o seu que os goles de seu gogó que engoliam pareciam correr dum terço num escorregando das contas em nodoados das mãos aquele primo do pai Obatista tinha olhar de descascar o escuro da noite com a luz duns olhos morcegos quando se está no amém da vida não é hora de pinchar-se das soberbas ? é quando remorso vem cobrar-nos dos dolos duns pecados que podíamos evitar... às vezes a gente colhe dessas safras só de amargos da vida indo aos contrários

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andam verdes da paisagem desistindo-se de outono me lembra procissão de burrinhos obedecidos a levar sós carroças de terra cumprindo um aterro e seus bigodes sorriam acompassados dos olhos em cima um céu imenso eu deitado de costas na grama ficava espiar figuras que as nuvens me desenhavam olhei seu rosto demoras até que se desenhasse em meus olhos ocasiões em como se a gente acerta em buraco errado medo não é aquele vago ficado do confiado que vieram roubar da gente num destempo de infância ? a gente foi que foi indo aos papos que nem viu que o dia se gastou 49


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moramos num Pito Aceso cujo atrás de nossa casa passava aos adeuses riachinho em seu silêncio dessas casas sozinhas se-deixadas que tempo chega limpando-lhes os gordos até mostrarem as costelas chegamos àqueles afinais de fim de sol no se acabando do dia com só vozes passarinhas corrigindo um fim de tarde em silêncio nessas horas em que o bicho que inda somos nos rouba de julgar vinha visitar-nos uma tia que trazia seus retalhos de lindeza duma antiga mocidade inundou sua vida de advérbios que verbo algum sobrou-lhe de alavanca quanto é industriosa a vida que costuma

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só ofertar-nos meios-meados e suas cascas cobrando-nos o tributo de inventarmos os recheios o anjo que me anja é dos travessos quantas vezes embainhou-me em tristes tramas... desses dias de se gravar em mármore lavrado ... um dia escolheu sua estrada de trevas sem retorno tornávamos por estrada em vão de mata tarde cansada se apagando dia já derrubava-se sombrado passado – esse ir catando uns rasgados largados pelo caminho deixa rua juntar água nas algibeiras suas poças vai minha sombra comigo arremedando-me os passos 51


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desses repentes que a vida da gente se menina outra vez essas lembranças que tornam seriam de tapar os vãos em que nossa vida falhou ? uma solidão sem fim de planície que parecia céu trepando mais alto ali quando nas safras canaviais costumavam atear fogo nas noites Onça – um corguinho que provinha por Bela Vista se detinha palpando caminhos entre Ressaca e Cateto era um matinho ralinho que sungava por morro vizinho e vinha espiar nosso pasto por onde quer que ando costumo levar meus olhos preparados para espantos há uns que trocam eternidade por uns traquinhos de tempos 52


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há umas vozes tão ruins que costumam encardir os sons aquelas terras mocinhas macias que desciam até São Lourenço e quanta vez nossa pressa nem respeita tudo que pede um começo íamos traduzindo uns caminhos com os olhos em ponta da serra e já dava ½ dia quando acertamos Tungal ah – pudesse a gente agasalhar-se em futuro ao menos numas frestinhas de repente um bandido aponta-nos revólver e a gente se humilha a esmolar a vida com medo dum teco de nada

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há coisa que ajuda mais enfeiar que beiço e nariz em quem já veio tão feio ? era dessas paisagens de borrados traços infantis ruins desenhados aqueles valões de Analândia dessas guerras cujas vitórias tristezamente vivemos que angústia perceber que a hora que escolhemos já é tão tarde das gostosas companhias que na vida a gente usa ir com elas misturando... atrás de mim chegam vindo meus filhos com suas sombras envelhando dali despencava estrada em último gole da serra quando a gente fantasia-se não é que se está enfeitando à espera de promessa ? 54


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nas brenhas do céu no bojo das nuvens se ouviam arrastando uns estrondos prefaciando temporal era sempre um cheiro pesado de terra suando ao tombo de primeira bátega de não mais aguentar a cidade tropelei-me vir esconder meus últimos dias na roça chegamos quando os laranjais já dormiam ali nossa rua se vesgava empurrando-se pro rio estradão contra nós cerrado goiano sujo de mato nanico às vezes buritis às manadas a espiar-nos na estrada serrinha uminha quandoemquando como surgia sumia nos longes 55


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tudo em terra piçarra desbotando-se de sol Goiás Velho – quantos anos derrubou-se de cidade... num quase de colina onde suas casas velhinhas pudessem ir passeando com o rio por suas ruas tropeladas deixar por que nossa alma se perebe dum afeto que a gente já sabia não pudesse acontecer ? desses touros nelores diplomados dum mangueiro posemente ele me olhava rasgou a paisagem da janela e lá fora tudo dizia que era agosto tenho que a saudade é um medo de nossa alma desaprender de viver é quando se começa encostar em quietos e silêncios da gente fugindo se estorvar

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2 imensas minúsculas cambaxirras corruiram meus redores dia inteiro manhãs e noites por aqui rabiscam-se de perfumes trapalhados na roça tudo se refaz obstinadamente criança passaredo vizinho neste outono elegeu meu pomar de sacolão há uma idade em que a gente é bastante amanhã e desorbita-se por qualquer um tiroliro sempre há uma hora em que até passarinhos entram em transe de poesia dês nanica Ia se inventava simplezinha renovada por que conceder que meu nome se empine de porte mais forte que eu ?

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por que o rótulo predicando quem nós somos se cada olhar que nos alcança nos define diferente ? ah dessas preguiças que espalham sobre nós esses sonhos que vão nos demorar... e quem tirava seu Neno de suas terras ? ali nasceram pai avô nasceram os filhos ali plantou-se de pedra... imbecilmente nós homens e nossas poses racionais inventamos 3 des(a)tinos onde escolhemos emborcar era um corgo Alambari que teceu seu curso entre pastos e nalgumas de suas poças desciam bois de beber mas os olhos grandes da usina demitiu todo esse gado semeando cana em tudo - cadê Alambari que era aqui ?

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naqueles dias em que o rio doente de merdas e lamas se arrasta velho em indeciso levar-se... - e a cidade nem se envergonha uma câmera em vôo passeia a mostrar mortos derramados desvestidos de caixão pelo chão -África será terra como se espera dela algum dia ? ali São Paulo é mais duro com suas pedras de morros montanhas de Mantiqueira que vêm assim como fantasma um trem que partiu se empurrando do Rio desmancharam sobre morros certa barroca cidade que se nominou Vila Rica até se enlutar de Ouro Preto nenhum mar tem tanto azul como azul Mediterrâneo pena que fique tão longe pra meu Araquá chegar lá

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esse meu dual - sentimental viperino nem sete anos de exercícios religiosos conseguiram maciar-me sei lá de que enxerto tramou a natureza habilitar ambas minhas mãos de iguais destrezas tinha sempre aqueles gestos recitando e uns olhos acordoando debruçados foram morta vesti-la pobrezinha e nela só encontraram tímidos uns ossos cambitinhos as chuvas nas serras de Extrema amavam ser temporais alfazemam-se as tardes perfumadas de cedrinhos trazia imensos olhos de capioa alumbrados e as mãos...que morriam de vergonha ! é quando vale a pena rebuçar 60


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as palavras confeitando-as de prece ruim que línguas viperinas jamais elas velhecem assim casas antigas dos paulistas cercadas sempre de si mesmas galo nenhum sozinho se descanta carece de garganta de outros galos que teçam com ele as madrugadas ah - latifúndio de sonhos que é o mar passava noite a catar cisco no feijão dumas palavras até o poema plumar-se que as palavras só se agitam operárias se sintaxe as obrigam decorrer uns que editam ser triste o amarelo é que nunca em descampado derramaram os olhos no ouro moleque dos ipês que canavial não passa de amarrado

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de canas prisioneiras aguardando moeremse e queimar no holocausto das caldeiras ? ... foi quando fez da sorte um qualquer não quanta vez fez-se embainhar nos amargos quandolhe a vida o vergastava tão indonésia fora-lhe a sorte que naufragava sempre ao tentar juntar suas partes de quando sobra-nos tempo da gente brincar nossa alma e procurar ir achar as quase mil quinhentas coisinhas que ela lutou ensinar-nos... esses olhares em voz alta que às vezes a vida nos pincha e fazemos disfarçar de não achar de entender visitei igrejas Ouro Preto com anjos aleijadinhamente barrocos 62


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muitavezmente safados não me sinto devedor de geografias dessas que trouxeram-me poesia pois quem não se (des)mente alguma vez para alcançar-se ? ah o verde das canas tristemente sem canto algum de pássaros flor nenhuma entrementes... triste mesmo nesta vida é resumir-se em inócuos etc.s e engasgadas impertinências importante é insistir em nossos sonhos - de repente esses arcanos se resolvem acontecer-nos... não há mal que sempre dure... e nos pregam acreditar em pecado original... nossas mágoas são tão assim machucadas que cercamos de cuidados de ninguém voltar judiar-nos 63


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esperança – é essa candeia já com pouco querosene pra agüentar de noite inteira... esse mundico nosso nanico que exaltamos “nosso reino” tão inhenho que qualquer mal advérbio consegue destroçá-lo... venerar por que nossa cópia em espelho se ali se repete só nossa metade ? é quando mar faz dum barco indo embora seus acenos despedidas morreu antes do extremo grito quando achou que ia vingar-se quanta vez despejamos via os olhos a pedrada que entendíamos acertar por que não assentir que a vida se faça por vezes de mentiras ? “ sesmaria – dação em terra aos que somavam-se a amos 64


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que iam fundar o sertão” vilarejo derrubou-se de encosta na serra com ares de meditando e quem não sabe de seu lado pesteado de ruindade ? meus versos abano-os sempre que neles ciscos não sobrem poeta é que nem bicho-de-seda só termina seu poema quando casulo o enrolou palavra - esse dó de Deus pra gente no ajudar nossa agonia - mesmo assim nem quando às vezes... das tantezas desta vida - água é o mais testemunho de Deus poeta - como loucos e crianças merecem os afagos dos céus

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solidariedade – é aquele nosso silêncio tentando não judiar mais da dor dos outros quem copiou quem ? as freiras às rolinhas ou as rolinhas às irmãs nessas roupinhas marrons crescera entre marrons destons numa favela caínha o que não presta nesta vida pra poesia? é só botar em colo do poeta pra escolher qual importância saber da vinda das cigarras ? mas quanta poesia iria se perder se nos bosques da cidade faltara primavera e chilreio dessas caras ficava de noite a esperar no quintal que os vaga-lumes tornassem abastecidos de estrelas desses mal aprontados na vida que Deus esqueceu-os rascunhos... 66


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é quando as palavras andam doidas que o poeta deve (ab)usá-las o mais triste de 3 meses já sem chuvas é essa paisagem estragando-se de sépia uns sabiás que jantaram na amoreira reunem-se à porteira serestando fim de tarde tentou levar dali como retrato pedaços que arrancou do quanto amara por um toco de lápis 2 dedos de tamanho apanhei de minha mãe de corpo e alma pra aprender que nesta vida tudo cessa onde começa cerca do vizinho em quantos quintais com as mudanças de meus pais ficaram meus pedaços de criança se roupa e alma das palavras vieram pelas eras se moldando por que acham proibir-me que eu prossiga revesti-las ? 67


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quando se arresta ser metade apenas é porque pra inteiro nunca se prestou ? ...e Deus ? Deus anda sempre esperando que a gente remende-se-ando quando as idades já encostam-se na gente de se apreciar o silêncio demais ... ... assim como quando se vai já desistido debruando-se na vida era hora das paineiras dar risadas pendengando maciamente os quantos galhos ao vento que chegava além da serra sempre se salva um estado de Deus numas gentes mesmo que suas almas costumem de pecado se empinar despedir é como se a gente fosse indo largando galhos pra trás

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depois que pedras foram derrubadas em tantas Grécias quantos passos mundo demorou ? é quando se carece entender que a vida distribui seus trapos nos caminhos da gente aprender quando o elegiam por fora era dum árduo espinhado apenas esqueciam de ver seus olhos que diziam dos tantos dentros rosais nem sempre os formatos da vida se cumprem como a gente estudou já andava em seu Deo-gratias na vida se encomendando pra réquiens ah passar esta vida sem que o mundo gaste um olhar pra gente... é quando medo nos pega bem no meio de brincando

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passou andorinhando a vida e um dia frio o morreu jeitinho passarinho sob banco de jardim é quando carece da gente catar silêncio no colo e soprar até fervura baixar que até seria bom da gente desmazelar-se como esses rios rolando sem perguntar pra onde vão numa idade em que a gente se rende a uns olhos quando doces é normal que durem tênues em nós umas vaidades triste é quando elas longam demais tinha um querer bom de sorriso sossegado Goiás dessas quantas inda paisagens que requiescant in pacem

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dali seguiam as montanhas azuis viagem pra Minas a gente pra aprender tem de ficar treinando até perder nossa casca de burrice saudade é quenemente idoso parente que quer amarrar a gente de ouvir sua prosa esticada dá pra pecar contra a caridade contando verdade crua a um rosto de mãe aflito já remendado de gritos ? desses perfumes simplórios cujos cheiros nos devolvem ao que nos prestou nesta vida ah lembranças mulheres que sombram doendo inda até que um dia aquela vida assim de mal emendada sempre mesmo acontecida aborreceu obrigando-o 71


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sair trocando seu mundo em nosso vale entre serras chuva nenhuma ali vinha sem aviso de vento uivando um tanto troar de trovões ah como são grandes as horas quando vazi0 nos tribula coração não soma idade - é que às vezes se estorva duns que nada na vida os roubam da graça de Deus como é triste o desflor de qualquer tudo eram uns domingos contentes aqueles no Paraíso duns que querem esbarrar em Deus e nem sabem cumprimentá-lo há umas gente ruins cujos telhados suas almas 72


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se forram de picumã trazia uma formosura de gente de que poucas eram capazes ...é quando açoita-nos a coragem de tomar o mundo entre as mãos de consertá-lo herdou apenas dos corgos lágriminhas orvalhadas Maneco veio abusando sua sorte até que os céus resolveram recolher-lhe o senso e leso escondê-lo em seu dentro ah pudesse a gente desmanchar essas histórias que erraram nossa vida dizem que o mundo já foi éden ... só se foi bem antes da gente ... e carecia vir alguém dizer de Deus naquela sinfonia que a tarde se fazia ? ah mãos surpresamente macias de namoradas em agrados 73


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uns que nasceram já remendados e a vida continuou-os uns trapinhos há umas noites que duram tanto feito uma vida inventada que solene resiste a uma risada criança ? quando até essa sombra que vai de passo com a gente ginga tremuras de velho é que a leste empinavam-se as montanhas Mantiqueiras era desses corginhos ruinzinhos que boi que ali chegasse tinha pena de beber lá de cima na noite a gente conseguia ouvir os uéés rangidos dum monjolo gazeando vestia um chapeuzinho bem gasto que lhe impunha certa dose de velhice quantas cascas vieram me tecendo... 74


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canção duma só nota esse meu lado caipira que guardei sem me sujar e quantos outros fui depois desse mim mesmo ? como é que Bastiãozinho conseguia desenhar-se sua desordem ? a virgindade dum verso nos obriga filtrar-nos da casca de homem e nos tecer passarinhos se quisermos nosso céu outramente é tornar cavoucar na poesia o menino que nela enterramos poeta é gente em que a vida comete inocentes parecia que vida tinha pressa de devolvê-lo a seus nadas vez em quando se lembrava de mirar forro do céu agradecida pra Deus 75


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e quem não se assusta de morrer ? foram uns poucos dias ligeiros de férias uma igrejinha feínha de roça mas em que Deus derramava seus olhos na capela frouxamente uma candeia sustentava as propostas de Deus quanto a gente se envesga na vida pra alcançar um tiquinho de sorte quero desses perfumes vadios que suam cheiros de mato tenho que inda guardo vozes duns velhos oratórios esquecidos aprender se aprende com qualquer trem é só não ter duns olhos bestas clarineta de meu pai desenhava saudades nas tardes da Ressaca

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dessas gentes felizes a seu jeito que inventam suas vidas pelas ruas inventar é coisa de infância quando nosso estoque é nanico pra contar - que inventar é achar o que não existe no dia em que eu estiver me devolvido à tapera que me cerquem o quintal de gravatás tenho que aquele sem querer ar de soberbo de Bondiage tinha a ver com sua alma de avestruz ah esses serenos sem-vergonhas que vadiam as gretas dos capins umas gentes atadas de silêncios com propostas de breve viver naquele asilo pensando bem - morrer é o inútil de viver 77


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tinha mania de crochetar sua linguagem de rendas frivoleté vez enquando acontecia de sol vir frezar de nuvens o moldurando da tarde nosso rio passava flertando as árvorinhas biscates arranchadas em suas margens nos dezembros serra de S Pedro costumava dar demão de tinta suja em suas tardes que iam chover careço vez em quando vir ouvir o que rio costuma resmungando se tornou triste caveira de carroça desmanchando no quintal só apelava às mesinhas se dores no empacassem sabia mais praguejamentos que nomes de santos que acodem 78


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no rezando Casquinha vez por mês vinha esmolar em nossa rua com aquela impressão que nascera de bueiro já vi borboleta roubando cores dessas florinhas de várzeas no quintal dum meu avô só prestava riachinho que passava amo fotos porque só revelam os silêncios não venha estragar-me o olhar de pássaro que consegui nesses 10 anos de roça e foi velhando velhando que só lhe sobrou certo olhar de antigamente aqui são os ipês amarelos que convidam a primavera

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porque só é poema o que engraça o verbal até que um dia eu aprenda sinopse das vozes de tudo que me vizinha largo alma resistindo-se criança quando vida tenta querer me apoucar levaram as matas daqui onde vão morar as cigarras quando ano dobrar outono ? não me deixem doer ao morrer André-Louco coitadinho guardava nenhuma habilidade pra sorrir acaso primo Tonico ficou nanico dos grandes de tanta mentira que foi ? que angústia daquela pedra contava lhe o rio devolvesse sua voz que água lavou

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Ermor – irmão de seu Benedito se diplomou de abandonos devolva-se à infância que as crianças lhe ensinarão como obrar as palavras no fim daqueles confins – Caiapiá moramos 3 safras de cana e duas sazões de maleita e dez anos já me velham esses longes além dos santos só crianças se exercem com Deus noite é quando acontece - da gente ir se limpar em sonho minhas nobrezas sempre foram dessas tranqueiras que vestiam minha algibeira verso – tem que se intrometer sem carecer de dizer dever de verso é encantar

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nem tentem espiar meu lado avesso era dessas mentirosas histórias verdadeiras terapia literária e a gente ficar xingando as palavras até que um dia de raiva se amasiem com a gente é que sempre se está chegando dum se partindo pra embora fim é quando nada mais sobra de alcançar meu velho vô foi moitando como um naufragar de navio ... e adianta mentir-me mais do que sou ? encontrou dois jabotis numa leira negociando suas carcasas achava que chuva prestava só trepada de arco-íris 82


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tapera não tem saudade nem de quando como era constituição de tapera acontece quando lhe dão abandono cujo curso elementar é perder portas janelas se diplomando na entrega de madeirame e telhado e mestra-se ao virem os matos tomando seus quantos quartos e heras a cobrir paredes e melão sãocaetano a tece inteira ah desígnios das coisas que nossas ignorâncias nem sempre conseguem catar esse inquieto ar das coisas é quando elas adivinham que os temporais vão chegar quem foi que traçou o céu a lápis de cor dividindo-o do horizonte ?

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passa uma rã trepada num tronco navegando o rio “que ele fique lá com Deus que é bastante melhor que aqui “ (dum moleque de favela no Rio sobre amigo que bala perdida o morreu) custou-nos 65 milhões de anos ... e malemal nos disfarçamos de gente pressinto que um dia meu trote será apenasmente de adágios quando eu morrer não desperdicem enterrando meu lado bom de poeta - doem a quem merecer quiser continuar esse meu lado que presta quando vizinhou-se de meu muro trazia n´alma arroba de revezes nem rio escreve em seu indo mesma toada –`as vezes linguagueja sempre fora daqueles que nem nunca comera de pão inteiro 84


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- largava naco pra imprevistos que houvesse ah antigas histórias nossas que contamos ½ já inventavelmente é quando se acaba descosendo da sorte pelo medo de ir errar lhe batiam incertas tristezas que costumavam roubar-lhe o gosto das coisas bonitas substantivo é assim - comida insossa tempero de comendo ... lhe azeite um adjetivo quando às vezes e vais sentir seu gosto de só-vendo desses ciúmes que açoitando nos corroem uns jurados na vida que se cumprem quando nada há de melhor foi numa tarde - desfeito em cacos nosso afeto 85


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cada um foi escolhendo rumos de ir àsvezesmente empurra-nos a vida nuns améns ah fosse a gente eucalipto de quando agosto se indo descascasse os velhos do tronco nunca faça a maldade de afrouxar ânimo de quem segue entusiasmado julho – quando verdes continuam se agastando partiu procurando secar nos olhos as lágrimas - 20 anos de junção e tanta história em comum meses que flaflo dos ventos já não carinham as folhas dessas plantas por aqui lugarzinho bem caipira bandeirante mesmo - aquele 86


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de casinhas morando beiradas de estradas caminhando circunstâncias andam uns tempos demais de tantos sucedidos tropelados indo e vindo que - ah se Deus não existisse a gente... cordoame de sempre estirado nossa vida só se alivia em dia que arrebenta passeios – se faziam nas férias entre-morros quando topávamos sitiozinhos enfeitados de abandono umas gentes que amam plantar medo e que estragam na vida paz da gente Deus - quando foi que gastou em escrituras seus mandados ? que o que se divulga dele por aí não foram interesses que inventaram? horas em que nosso silêncio é mais oração que outras palavras

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conheci sarracenos que mentiam sempre rezando e estripavam de espadas quem com eles não empatavam duns lugares que passamos e parecem acenando pra gente uma casinha tapera onde estrada faz curva na porta velhinha de-idade pita de cócoras sentada - desses ruins lugares tão... há quanto tempo essa paisagem não escuta rastro duma fala ? La Gioconda – plena demais pra ser sorriso apenas - em tanto olhar voz tossida assim de antigo motor 2 tempos DKW em quem não cavalga a esperança de durar ?

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há uns instantes que arrastam seus enormes de passando procissão e cadê os passarinhos que aqui deviam estar cantando como em qualquer mundo de roça ? bonito a gente indo estradas com passagens destampando outras paisagens é quando que a gente se apercebe de muitos capítulos na sorte já decorreram sem retorno nossa história e eu que acreditei que ela andava em idades que sossegam - veio dizer que partia se ia a outro amar aos 70 mesmo descrendo nunca renegue dessas ave-marias novenas louvaméns de quando a gente se sente acuado - quantos acabam Judas e quantos Napoleão ?

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desses que costumam cevar suas almas ranças de azedume quem sabe se trem que um dia montamos embarcasse outro destino quanto seria diverso nosso outro desemboque ? na direita Araguaia eram matos devagar devagarinhos de esquerda longes outros desertos descamados de sem árvores só céu Quero-quero corguinho que descia lá quem sabia donde entre morros a esparramar-se plã no vale e vernáculo seguia transparente a nadar seus lambaris da queimada sobrou cinzas no chão esqueletos de árvores odiando o céu com vontade de gestos obscenos quando acontecer de eu já nem estar valendo nada mestrando uns caminhos de meu só que os ipês estejam acontecendo 90


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amarelos simplesmente de eu poder derradeiro contemplá-los para a Ressaca se ia do Paraíso ao sol se pondo acontece que dono disso tudo - o velho Deus é que é meu pai olhos de Cordélia eram inventados de preto quase tanto assustados entrou no casarão a escutar na noite perobas do piso fantasmando seus passos de quanto silêncio a gente devia de ter na vida escutado gostoso quando amor da gente vem formosamente dividir-nos companhia ... é que as tardes daqui costumam se enfeitar dumas tristezas

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que devo devolver-me ao mato despojar-me desses ornatos e colher silêncio derredor acho que essas nuvens viajaram tanto e cansaram-se que nem conseguem se arrumar no céu ah se a sorte consertasse-lhe quebrantos de tragédia de seus olhos... eternidade não seria isso da gente paulatino ir conseguindo enquanto pode ? e essas águas que chegam atrás de outras águas porque rios não se repetem ... por que não tecer a língua nos poemas como fazem modistas inventando peças que renovam nas mulheres ? com o clima pindaíba deste ano haverá cigarra que em novembro aqui achegue de orquestrar ? sei que o mundo continua acontecendo 92


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longe e já ando sem vontade de ir lá ver duns adoecimentos de infância que judiam a vida doendo dumas gentes que só lembra de Deus quando azares pererecam-lhes por trás de repente no raso da régua da vida se Deus passar rente alguém vai respeitar se socorrer nas abas de seu manto ? sei que há gente que nasceu já caprichada em Deus sei não – mas tenho que até padre fiava mais na competência do rezar de dona Carmem e criança no meu tempo opinava coisa alguma ? ah quantas vezes se carece de a-meia-mãos se rezar por certas graças 93


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nunca deixa que coração duma criança anoiteça é quando nosso tempo vai poando ontens e em já tudo é muito tarde a gente então começa recorrer-se de lembranças onde inda suster-se e bateu-lhe saudade de quando ele e anjo-da-guarda se entendiam demorar-se por que pelas tristezas se o mundo anda forrado de alegrinhos? era uma tiaRosa que de beleza só trazia sua bondade mesmo qualquer casa porcaria dês que se invente nela uma alegria sempre caberá felicidade foi uma noite de difícil encontrar ponta do sono ah pudesse a gente rejuntar numa cangada os dias de coisa errada que costumam acontecer ... 94


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e a gente livrar-se duma vez ... é que a morte costuma inda doendo algum tempo depois há umas gentes que a vida ensinou ser tempestades ah a gente empacasse o hoje dele nunca virar ontem sem saudade pra amanhã... que nem era um lugar - passagem apenas entre 2 morros Caiapiá onde moramos era dessas pessoas apeadas de toda maldade do mundo e sem arretristes na vida já entrava em idades de viver devagarinho desimportado das pressas demorando-se mindinho a gente esquece a vida não - que sempre 95


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vai achar de obrar sua vingança há uns dias que são mais céus - com desenhos de Deus e outras belezas por que será que toda história traz sua “ fetta” de mentira ? e ficou sem saber com que cor pintar tanta alegria dia foi se emburrando resmungando trovejando até desembestar-se chuvarado casa da “nonna” ficava 6 longes dali nossa Ressaca - Araquá de bem no meio era dessas pessoas que na vida se incendeiam de entusiasmo numa idade em que a gente se exaltava recitar carinhos uma candeia lumiava a sala - nossa irmã mais velha se trastava em fada das histórias 96


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que vestia contar dessas gentes que trapalham só tristezas inda bem que apesar de tão pesares sempre um sonho consegue arregaçar-nos que Deus me empreste umas virtudes de viver e demorar prestando por que não fazer nossa tragédia de velhecer a comédia de ir rindo de nós mesmos ? quanto se brigou pra replantar naquelas terras onde tudo que plantava as formigas desmanchavam o triste em muita gente é largar um remorso escoar no pedido duma esmola e que eu resista inda bom tempo às ombradas cotovelos dessas coisas quantas vezes carece antecipar o angu prestes que 97


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cheguem e roubem-nos a farinha ? quando-se jovem sempre quer-se ir fundar outros lugares nem tanta miséria quebrou-lhe o respeito de ser bom música – jeito da gente alisar-se da vida se encaroça era o mundo que exalava alegrias ou era vontade nossa de acontecesse o Natal ? confissão – seria isso da gente ir desapeando essas culpas ? sempre amei nesse estirão de vida ir-me trocando vias-sacras e outros ofícios sem largar-me enquanto envelhecido é quando se sai à cata de baitas confusões que nos esqueçam das nanicas que tanto nos arranham

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dessas vantagens da gente já ter gasto a vida a atolar nossos picuás duns de aprender ... é quando se vai trocando ambição pela saudade num certos dias de preguiça em que a gente temporeja em colchoados da cama adiando vida acordar nuns dias de tantos desafetos e a gente a sentir-se de alma bem rugada desses despreparados na vida que nem estremecem nem piscam nem se enrugam de aconteces saia desses que perguntados respondem como estivessem a dar murros no mundo nunca se amasie a quantos vivem com inveja da vida toda vez que se arriscava na vida rezava um pelo-sinal 99


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seria sabedoria a gente só cometer os comezinhos da vida ? ah meu Paraíso – lugar mais ali do mundo dos homens – causa dum deles que perdemos o paraíso e restamos esses inquietos perdidões andava naquela geral tristeza e cansaço como à espera numa beira de qualquer hora o mundo findar - eu hein – passar vida dando milho só pra galo cantar ... há umas gentes na vida tão rasas que até as tristezas não gostam de nelas relar dumas mulheres com quem a gente não ia gastar 1/2 cesto de milho em fubá pra estar junto delas

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viver é a gente conferir a montoeira de besteiras que até ontem cometeu quem maior que seu Inácio ali no Onça conseguia amansar santamente na vida uns ruins? e dessas meninas que se empinam se achando a bezerra da vez desmamada de redil antes de mês às vezes somos esses limites que perdem fronteira de várzea em fim de chuvado vem o dia em que a gente carece aprender encher nossa botija ah essas bondades que Deus dá ainda que nem sempre se mereça dona Alzira sempre que a encontrava era como se de repente a gente sentisse saudade duns modos antigamente

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uma serra de São Pedro tão longe onde nossos sonhos iam se inventar desses olhos tão piedosos que conseguem trocar com bondade as tantas maldades do mundo tardes que se faziam às vezes nos céus do Quadrado que nem em desenhos de bíblias aconteciam de tão lindos que a gente na vida deve achar-se importante -mas pra que exagerar-se de besta ? era um tempo de muitas horas demais no Paraíso duns que trazem os olhos ferindo de gavião catando fome lembrança que sobrou dela fora assim a dum cuitelo voejando entre flores

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dessas pessoas antigas que nos olham com uns olhos molhando bondades já subia setembro e as águas nem chegavam pra os ipês Deus tudo faz pra madurecer-nos - mas se a gente não ajudar... por que coruja a gente enfeita moldura da mulher que tanto quer? por uns tempos somos o inquieto depois nos bate o estorvado para enfim achar – tudo serve duns que conseguem vir na sorte arranchados nas asas de Deus é que hoje as meninas escolhem desflorarem-se prestesmente e quem não gosta de velhos que já se ensinaram na vida ? dumas pessoas que alegres parecem têm cheiro gostoso 103


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na sala – uma lamparina pendurava sombras em dobras dos cantos e conversas se encurtavam para os caminhos do sono e o lanho que fica de se separar... saudade é que nem nódoa de fruta em roupa - só desbota com o tempo que importante é refrescar os versos em roupas novas - que as idéias são sempre as mesmas já velhadas meninas – quando na idade de frutas um dia câncer praguejou seu Honório que foi tristando-tristando até de tristeza matar-se se não quer que pau empodre tore-o num mês de sem erre é que a gente espera que nossa raiva deslimpe nossa tristeza 104


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quanta vez se carece duma dessas companhias que ensinem a gente abrir as janelas nesses escuros em nós inda bem que se dum lado a vida vem roubando-nos pedaços doutro inventa retalhos que até consegue emprestar-nos e já viu tristeza ajudar alguém na sorte ? nunca mais reformaram aquele assunto cada qual foi catar seu lado de viver quando lugar da gente principia nanicar-se a nossos olhos... dessas pessoas que quando se trocam de pouso e levam da gente tanta coisa embora ah se se pudesse desembramar essa vida e chuleá-la modelo novo...

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vez em quando carece trocar esterco em nossos pés é que nem sempre há uma madrinha pra tilintar nossa tropa destampando outras estradas somar-se por que com as más-criações da vida ? mudar-se... e onde a gente vai largar nossa sombra ? não são os sonhos que morrem a gente que não sabe fincá-los sempre que a gente anda inquieto acha que um longe nos chama desses cujas falas já saem encaroçadas é que a periferia se prefere sempre recuando-se sobre a mesa lamparina a querosene trepando picumã pra telhado 106


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e sombras nas paredes voz da mãe fura silêncio chamando pra gente dormir tenho que as árvores do serrado não são tão amizades amam sondar a vida desgarradas 4 de agosto mina de cobre em Atacama derruba-se um buraco sobre 33 mineiros a 700 m no oco da terra na crosta aqui em cima o mundo os anima - se tudo andasse bem até dezembro sairiam daquele chão... quem lá sabe da fé das tantas conjunções... esses mineiros resistiram só por eles e a 13 de outubro - dois meses antes do fim que se dizia os 33 subiram ver o sol à superfície outravezmente ... que a gente crendo pode além de nós mas que continua existindo um sopro alhures que sustenta tudo isso... Itirapina lembro-me dela 107


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- quase cidade cortada por trem que ali rumava apitando a cada dia debulha-te paisagem ...até guardar-te na noite entre granitos soma a teus sonhos rubros olhos de jasmins uma vidinha de romances entrementes esse diálogo da gente e a gente mesmo... saudade – quando nos largamos empacados nalgum tempo é colorido o grito voando das araras desses dias em que sol nos acorda coração todo anulado os pavões e as manias arrebóis de armar seus leques

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até em cemitério endereço de pobre é provisório nem as lápides de campos santos contam verdade sua história vaqueiro se embainha ao cavalo e ambos decorrem embestados trás de gado estourado vale a gente sair catando outros espaços bom ou ruim que carregamos se de nós não se despojam ? não é tempo de esquecer o milenar pecado que inventaram-nos ? - e repetia que era cedo pra velhice ...até encontrar-se todo gasto num espelho arrregace as persianas pra que eu veja luz do dia nas montanhas despedindo se quiser a vida devolver a nossa infância que nos faça com a antiga castidade 109


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das crianças que nossas mãos apenas acenem gestos de mãos limpas foi a pedra de teu “gênio” que um dia departiu-nos é que a gente nunca aprendeu se ensinar gesto de flores por que não entrar vez em quando no escuro nosso interno e reciclar-nos maciar ? escondia menino seu frio em blusinha de flanela por estrada de roça indo à escola por quantas metades fuime dividindo nesta sorte ? de que adiantou a cósmica essência que nos projetaram se nos teceram borra e barro desta terra ?

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por que não celebrar também aqueles cujo barro não resistiu ao desatino da intempérie ? acho que fui criança em exato instante e não respondo pelo que a vida estragou em mim depois as exatas palavras sempre me chegaram demoradas entre magia e elegia por que não eleger-se poesia ? nosso amor se envelha há quanto tempo será por que fomos + ausências que presentes ? que eu me consiga de tudo despojado quando for transpassar o meu poente nunca deixe teu sonho viuvar-se em adeuses desencantos quanto é triste já não encontrar beleza naquilo que nos cerca ...

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a vida é esse roteiro de anseios com alguns passeios entremeios as carícias que encaroçam ou nossas mãos que já velharam ? naquele tope era a casa o curral e bichos no quintal alvoroçando hoje 2 coqueiros mal sustentam paisagem sem cheiro vizinho dum chiqueiro essas estrias que redesenham nossa cara fossem ao menos de um dia ido afeto ... tempo essa angústia que inventamos e não sabemos dominar pra bem viver no dia em que a gente aprender ser simples tendo nada muito pouco desejando... não peques impedindo que crianças continuem inventar suas alegrias

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longe é o que a gente largou que fosse embora aos 15 ambicionava já a vida muito além dos 10 alqueires duma roça amar não é a gente se enganar que ficou outro ? é que mesmo dizendo-te poeta como é difícil inventar plenas palavras que se digam ando me sentindo como fim de safra minha quiçaça acenando pra queimada e que eu seja suficiente incoerente de me aceitar amar-me mesmo amargo o gancho é sabermos quanta corda inda nos sobra para nossa travessia ... e nos fazer palhaços contentes de nós mesmos quanto costumam nos salgar a vida 113


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esses limites preconceitos seria por resultar-nos gastos pelo tempo que a vida nos debulha velhos ? já alimentei uns dias de claustro e rosários - e como a liberdade é essa montanha de aridez ! inda bem que sempre sobra à gente esse naco que nos celesta além do pó da terra quando nosso coração já muita idade é mais pra hipertensão que balaio de saudade ... na verdade há-se que inventar alguma fé pra sustentar viver e esperar o nada que todos somos seres cercados de manhas por todos os lados não é a vida como esses livros 114


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que a gente empaca chegar em seu último capítulo ? quanta vez entre poesia e poema nosso dilema é o rascunho que tal distribuir por entre os homens a lucidez de que voltem acreditar... poeta é apenas o revérbero dos escondidos das coisas nos intrincados da gente tinha uns olhos de cadela brava aqueles em seu rosto caramelo desbotando era um padre Cirilo com seu jeito áspero de romano antigo naquele bairro de descalças ruas quando lua vinha apodrecer-se em poças ... Campos de Jordão e seu rumor de plátanos 115


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de quando inverno vai se despedindo a multidão – aquele cheiro de curral ainda dormido é que já nasce com a gente essa ânsia de exportar-se e ir se catar em outras margens já ia no entrecho de/penduradinho à espera que vida lhe sobrasse ainda aquela assembléia de gente olhando-me plantada com suas gelhas murchidões descor velhice esperando-me que eu fosse... e em mim um triste mais que em olhos deles... quanto amava as samambaias suspendidas no silêncio da varanda esses pecados que somos não vieram já com nosso barro ? enquanto nossos sonhos seguem adiante 116


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as saudades demoram-se nas costas sei lá só sei que azul me abranda mas doutra banda sempre um verde que assossega saudade – não é a gente querer ontem demorando ? será que às vezes não é de nosso louco que mais nós carecemos ? por que gastar-me espelho se sombras pincelam-me melhor ? queira-se ou não o tempo vai chutando-nos pautados quem foz vai nos guardar nas vozes dos regatos e das fontes ? epitáfio – a soberba que sobra mesmo depois de morrido o nunca é sempre outra pergunta se nem nossa sombra 117


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é mesma em dia inteiro ... foi barro que catou uma alma ou a alma que se homou de barro ? bom que quando aqui chegamos andava tudo inventado Deus também largou uns sujos em muitas de suas tarefas minha mãe já tão antiga daquelas que teretetê entregava tudo a Deus - um dia Deus aceitou e levou-a desta cena toda ave celebra sua sede no acontecer beber água se a gente fosse trocar-se a cada efêmera sorte... tudo que tenho a lhe ofertar é essa paisagem meio tonta caipira – mas verdade

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meus mortos – e já são tantos sei que andam preparando meu caminho de granito foi como se terra exercesse último gole num corguinho todo exausto é quando lã que inda temos mal sustenta uma agulha de fiar é que os verdes andam tão tristes na moldura de inúteis dias azuis houve um tempo da gente só correndo sem notar as paisagens até que idade acomodou-nos e hoje bate vontade de voltar rever achar-se nuns que inda sobraram minha alma se fez goiva de tanto renunciar-me a desesperos lá vez outra por que não exercer nossa preguiça ? como não ternecer-se com criança 119


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que apesar dos azares desta vida - inda inventam-nos sorrir? esse perfil romano que em pedra me talharam - é tudo que ficou-me do que andei drama se deu ao transpassarmos dos níveis vegetais e animais ao vórtice de humanos eternidade que nós somos é esse seguido que perdura enquanto a morte não lembrar ah os líricos episódios ridículos de enquanto fomos mocidade 70 eram os degraus que subíamos correndo aos 70 descemo-los medando quem não se cansou repetindo-se centelha e tendo que exaurir-se adeus... viajaram aqui por cima alguns trovões resmungando como nós neste verão 120


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nas lagoas do Olímpio descansavam rios de suas viagens ocaso – hora do sol ir recolhendo as cores do varal há noites em que o céu anda mais furadinho pra estrelas eu quero viver num céu desses todinhos lambrecados por lápis de cor das crianças o terrível é quando Deus nos responde com silêncio uns tristes de nossa miséria de infância tinham até suas alegrias e quanto a penúria ensinou-nos da gente inventar a vida... eram uns cílios cansados já bem celebrados de luto

... é quando a gente perdeu 121


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bornal largou os sapatos na estrada pedragada e a vida trepou urzes ... e teve que insistir sonhando preciso preservar o candeeiro que fora do pai desse meu pai que devo passá-lo a meu filho que passará a seu filho e esse filho a outro filho... enquanto a vida insistir aquelas casinhas de caras caipiras derrubados telhados de tantas janelas e portas com grossos batentes ... Corumbá de Goiás na Ressaca além das vozes que iam pelas casas raras delas assustavam os caminhos tempo – essa impermanência com que a vida nos troteia inconformados é quando nessas cidades pequeninhas 122


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as ruas sossegam suas tristezas em hora de dormir em que bandas andam as andorinhas que inventavam tardes saltibancas no largo da matriz ? como conhecer-se senĂŁo se aceitando e vez em quando propondo-nos retoques que nos devolvam inocĂŞncias ... ĂŠ que nem sempre nossa sombra se presta guardar nosso lugar por que nĂŁo forrar de macias mentirinhas essa pedreira em que nos obrigam caminhar ? ... .. .

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títulos que abasteceram presente somado - enquanto teimo mister não me apagar - aquela vez num certo por-de-sol - se malemal cumpro-me efêmero - por que não me alegrar com o pouco que me sobra ? - e quanta coisa vai a gente emprestando desta vida - levo de espanto meus olhos ½ atolados - quando vida diverte-se (nos devolvendo pra dentro) - como não levar nossa sombra com a gente ? - esse prazer de renascer novo cada vez... - sempre há uns limites baldios beirando terra da gente - se um dia essas águas velhecerem - breves – entretanto divagando - ate´ que coração não anoiteça - um dia nos chega idade de apenas temporejar ah rever verdes sob sombras descansando - esse em nós tão menininho - de quando passam cansar-nos as escadas 124


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De Therezinha S. Malta (*) “ Cada um cumpre o destino que lhe cumpre”, afirmação do imortal poeta português Fernando Pessoa. Acaso será destino nascer poeta? Cumprir a sorte de tecer poemas com fios de emoções sobre intertela da realidade ? Destino ou não, certo é que Irineu Volpato nasceu para transformar em poemas os segredos da vida: sentimentos, emoções, impressões, tudo que lhe tange a alma e os sentidos. Com maestria vem cumprindo sua sina, desde os viçosos dezoito anos, buscando na paisagem verde ou escarpada, nos sons da natureza, no riso das crianças, na serenidade dos velhos ou em suas saudades, no amor, na fé, na efemeridade da existência, na inexorabilidade da morte, nos feitos e “in-bem-feitos” com que se constrói a saga humana, uma prodigiosa e inesgotável inspiração. Docente de literatura aprendi, no exercício da profissão, que para melhor compreensão duma obra de arte é mister conhecer o criador, razão porque alinhavo 126


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aqui alguns poucos aspectos da trajetória do poeta piracicabano, para colocá-lo mais próximo de seu leitor. A eclosão de sua verve poética manifestou-se no ardor de plena juventude, quando todas as sensações se apresentam extremadas: alegria e cor, luz e sombra, e os sonhos mais nada são que a manifestação de uma natural espontaneidade e fé. Então compôs e compôs... depois, quando a vida em nome da sobrevivência obrigou-o a atividades outras, longe das lides literárias, sua trajetória cumpriu um longo hiato temporário de algumas décadas. Durante esse período foi professor, executivo, empresário. Entretanto a despeito desse tempo de aparente silêncio, a alma do poeta não se ausentou. Enclausurada, armazenou inspiração, exercitou-se na arrojada arte de criar e recriar temas, expressões e palavras já exauridos pelo uso comum. Foi um tempo de germinação, em que a semente se preparou para ressurgir revigorada, então permitiu-lhe vesti-la com roupagem nova, sem no

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entanto causar-lhe danos sintáticos ou feri-la semanticamente. Findo esse período de ostracismo, o poeta ressurge com uma criação rica, madura e variada que compreende ensaios,estudos experimentações linguísticas e literárias, relatos de viagem, um diário pessoal, lendas do nosso folclore, sonetos, contos, um deles “ Sagaracontos” em versos, destinado ao público infanto-juvenil. Pela celebração dos quinhentos anos do Brasil escreveu “História duma Noite Mal Dormida”, vazada em versos que guardam a solenidade do épico, perpassando aqui e ali pela linguagem quinhentista, o que lhe confere um caráter clássico. No entanto o poeta não desprezou a trivialidade do observador comum que , prosaicamente expressa sua emoção, ao encantar-se com o vôo dum pássaro riscando o céu ou o correr contínuo de um rio que se derrama no mar. Este é seu trabalho de maior fôlego. Depois mais e mais o poeta amadurecido, enxuga os textos, numa incomum capacidade de síntese, que explica o surgimento dos “motemas”, poemas 128


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fleches que, qual relâmpagos riscam a alma do poeta com filetes de luz, obrigando-o a aprisionar num verso breve toda sua emoção, impressões, conclusões. Então vejamos : “ saudade – quando coração não se cumpriu e fica a limar antigas lascas”/ “amo as almas crianças desses corgos que perseguem virgemente seus caminhos” / “ quando nosso crédito de vida escorre-se esgotado/sobra impressão duma carroça/já encilhada à nossa porta/esperando-nos partir”/”no primeiro era a palavra que ensinou-nos a vida/depois urgiram gramática/no que viver melhorou ?” De uma cuidadosa garimpagem em coletânea de motemas erige-se majestoso este mais recente lançamento – neu, não mais um filete, mas um feixe de luz, onde se reafirmam as marcas registradas do poeta : originalidade, síntese, emoção. Eis o que em neu é oferecido ao apreciador de uma leitura instigante que,propondo singular exercício do pensamento, se apresenta como um verdadeiro teste aos que, sem perder a

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visão da realidade lingüística, se dispõe a vôos mais desafiadores.

(*)Professora de literatura aposentada do ensino oficial do Estado de São Paulo, autora de livros infantis pela Edit. do Brasil, conferencista e exímia contadora de histórias.

NEU : DECANTAR O VERBO NO FACHO DA POESIA R. Leontino Filho (*) “já fiz de tudo com as palavras agora eu quero fazer de nada” (Haroldo Campos) Entre o azular do verbo e o remendar do nome perambulam epifanias de sigilos, de confidências de destinos. Semelhanças e delicadezas de atos onde os comedimentos do pensar cochicha franciscanamente breves miudezas, 130


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amaciando anversos quereres de um tempo consumado por refinada sintaxe. Justapostos, o nome e o verbo, em procedimentos formais, predizem sendas, histórias, rumos, estradas, andanças ecos e promessas num tempo de encantação. Com pedaços de acasos, o nome substantivado em credo, faces e rabiscos espicha seu olhar na tentativa de melhor capturar o desenredo entalhado na ventura da língua, essa estripulia contorcida de alumiados sentidos. Com vagar, o verbo soa como dádiva que pressagia a subversão do dizer, entoando a cada desfeita o reparo das coisas tomadas em passos, emendas e afetos e colhidas pela sagração da linguagem restaurada na força atávica da ação, que não se assujeita às evidências do discurso. Entre a medida do possível e a infinitude do finito, o verbo se instala na materialidade dos vocábulos, em mínimas reentrâncias caminha agarradinho às suas protuberâncias, ele constitui o próprio deslimite em suculentas conjugações; é verbo incendiado que permuta palavras na 131


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letra miúda dos dicionários, cortejando pequeninas sutilezas e desentranhando assombro de outros afazeres. Verbo, nome-sim, a desentulhar a finitude dos saberes atraídos pela amplidão notável da pequenez humana e seus dialetos míticos enfronhados na existência. Nome, verbo– não, atravessando o catálogo das dores que se debruçam sobre a substantiva aparência do provisório diálogo prensado em pares de ontens e amanhãs, essa substância da linguagem entrelaçada por ressonâncias de hoje. Na acoplagem do nome saltita o verbo a empinar ao seu redor as elipses impacientes da persuasão; sim, para todos os efeitos, sentidos ou não um verbo é sempre mais que um nome e, este por sua vez, desacorrentado de tudo, diz em palavras, o universo material e corpóreo, a força encantatória da poesia, essa vibração do sensível,finíssima corda do silêncio, morada inegociável da beleza: elo entre o verbo e o nome, poema-Poesia. Madurando a travessia do verbo curtido em nome de inconsútil roteiro, a poesia congrega a herança de todos os tempos, 132


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afiançando com seus petrechos lingüísticos a relíquia do dizer das coisas, quando esse dito acresce a seu percurso as léguas alvissareiras da lição que condiz com o patrimônio da natureza poética, a perdurar na confabulação ininterrupta do mistério proporcionado pela vida. Em meio à infinda busca do nome enrustido no verbo ou no conluio dos verbos sublimados em nomes sob pretexto de irradiar os mais caprichosos versos, o poeta assume seu posto de observação, tendo como recanto preferencial, de imediato, seu íntimo, o eu que desembaralha a viva matéria do concreto e se abisma frente à dicção do inefável. Instalado no mirante de angulosas paragens de cujas lonjuras se sobressaem os cantos contundentes e desconcertantes, encontra-se a Poesia de Irineu Volpato (Piracicaba/SP,1933), poeta que ao longo de sua brilhante trajetória, investe na poesia-invenção toda ela batizada no lírico-estranhamento dos códigos e das vivências, enfatizando a linguagem lúdica que faz vibrar palavras precisas, incisivas e concisas, todas restauradas pela metáfora do verbo – pão 133


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e ciência do existir feito memória contínua a do outro – ser que tange,por antecipação. de suas plagas, o embuste da mesmice. Irineu Volpato em ofícios de versos, na vernaculidade da língua, orquestra os fragmentos do onírico sempre com toque de mestre. O processo poético, em suas mãos, privilegia a riqueza visual, permeada por sonoras associações. O mundo ritmado do lirismo objetivo, beirando, por vezes, os aforismos de uma crueza verbal que com imagens, nunca convencionais, expressam as reflexões e participações do indivíduo diante do universo. Autor de mais de duas dezenas de livros, ênfase para o tecido poético, invariavelmente substantivado na libertária beleza do surpreendente, o estribilho do verbo e do nome que por entre sílabas do silêncio se arvora como alumbramento em quilates de cintilante itinerário. A poética de Irineu Volpato, sem mais volutas, é o antídoto que neutraliza a estética do igual ou a escrita sem sentido, sem comoção. O poeta segue na contramão do repetir das fórmulas batidas 134


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dos discursos autodenominados de nobres na poesia,ou o que isso venha ser, espécie de linguagem mal desenhada nas ombreiras do epigonismo, do já trilhado percurso. Arma-se com suavidade, sem se despojar do necessário (des)equilíbrio dos signos que povoam seu intransigente código pontuado pelo vigor da contextura do dizer todos os roteiros de um texto traçado por décadas em nome de um só e único Poema. Não por acaso Mário Quintana, certa feita, reiterou com sabedoria “Todos os poemas são o mesmo poema,/Todos os porres soa o mesmo porre,/ Nâo é de vez que se morrre.../todas as horas são horas extremas!” Entre tantos títulos volpatianos, a simples listagem das obras é um contínuo processado com paciência, cautela e, sobretudo inventivo saber – uma antologia preparada na precisão minuciosa da escrita. Afinal, transportados ao centro do batismo ficcional, o viço poético, têm-se: Brumas e Brisas (a estréia em 1953), passando por Poemeus (1994), Sonetos(1994), Paraíso(1994), Poemais(1995) Poemantos (1996), 135


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Paulistarum Terra Mater(1997), EmPoemas(1997), Poemando (1997), Sesmaria (2001) matizando as designações onde a fruição estética está corporificada na capa, como por exemplo : Esta Noite é Lua demais(1997), Samambaias, Sairas Mais socós(1998) Poslúdios âmagos pródigas lerdices parindo momentos rés...(1998), Ai Pressa Vou de-indo antes que me atole a lua(Madrugadas horizontes sigo viagem irme sendo (1999) e Vou nascendo vazio descór sombra entardecer (2000). Tantos e tão refinados poemas floram em Errâncias(2003) obra costurada com precisão e elegância, a poesia no viajável do perene. A travessia verbal em Errâncias ativa o imaginário por vir, os vocábulos rebrilham na relembrança de onde se irradia a singularidade de uma voz predestinada ao assombro transfigurador da poeticidade. As inspiradas páginas dessas andanças roçam o rumo da perfeição dissecando habilmente a atmosfera sensual de cada nome desassossegado na camuflagem do destino. Errâncias é um veio de ouro, 136


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morfológica viagem pelo universo sintático de Irineu Volpato, um clarão barroco se espreguiçando, devagar devagarinho na mágica simpleza da poesia. A todo instante a feição dos versos errantes enraíza-se sem tropeços no viés alegórico do pensamento. São tantas ações : remendar, arredondar, rascunhar, forrar, borrar, sossegar, enxugar, soletrar, pentear, matizar, entre outras, preparandose para consolidar ainda mais, o círculo criativo numa safra sistemática representada ilustrativamente por expressões do tipo “reflorem azáleas“ , “descanta-se besta”, “lumeluzem verde”, “lengelevam quietação”, “ um sino bedelengava”, “vultos se tremuravam”, “maecem-se vultos”,”pinchava-se de águas”, em “carrancam-se de pedras”, “lamparinar-se de silêncios”, “ Sesmamria tece prece”, “cansara de incosenguir-se”, “um sino quantoava pléns”. Não bastasse o belo fixado em belezas, vê-se mais, muito mais, além do dito assim como a proferir termos tais: vassourar, joeirar, sonhejavam, carinhavam, presepia-se, deandava, tardecer, pascuando, 137


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mussitam, pobrejando, entanguiam-se, se desdoem”. Desse modo, a poesia,na radicalidade da entrega, especializa a vivência do tempo em verbos e nomes inseridos na própria tradução do espaço biográfico e desmesurados da memória alumbraada de dizer-fazer os diálogos – “ remar verbos que pasmassem”-, só assim a poesia-Poesia multiplica-se multiplicada sereniza as harmonias de outras nomeações, o menor na representação da conquista maior: muitos poemas do mesmo poema, do mesmo poema, tal a divisa para aventurar-se no mais recente encanto de Irineu Volpato, batizado criteriosamente de neu. Neu (2011), em unidade, requinte, feição e indícios da memória replanta as errâncias do efêmero repatriando o perene movimento do viver para as extremidades do conhecimento – errar, ansiando ser, e saber-se metade complemento que se busca inteiriço, (des)enredo das eternas sabedorias-, onde o poeta inteirado completamente de sua poesia, lendo-se a todo instante, reiventando-se a cada espiralado pensar, ladrilhando com 138


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suavidade os passos numa verdadeira geografia de afetos, em permanente travessia de discursos, vai cerzindo as conjugações de um caminhar autocrítico e, mais que isso, constelados por prendas que estampam os sintéticos, céticos e cálidos aspectos da real carpintaria do escrever as coisas passadas e vividas vertiginosamente próximas ao olhar com cirúrgica precisão a harmonia de um estilo próprio. Irineu Volpato, em particular dimensão, com neu, sem pingo algum de arrogância, muito menos fio de soberba, trafega pela bem-aventurada virgindade da infância que deflaga madurezas em sigilo, avarandado por uma linguagem extremamente pessoal, a personalíssima pessoa do poeta que encontrou o seu registro, sua forma de expor-se, seu estilo, enfim. Sem a mínima dúvida, a mais difícil das artes de estar-eser no mundo: possuir uma dicção maturada e celebrada com simplicidade, firmeza poética e potencializada na comunhão da natureza. A perambulação dos versos no espaço de neu tem a ver com a versatilidade do 139


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sensível que se alastra nos interstícios dos cantares, o velado e o mutável como vértebras da senha refletida nos arredores da sensibilíssima rebentação poética. A cobiçada identidade, emblematizada pela danação do verbo, sustenta um nome após outro, tangenciando as certezas e deixando transbordar a procura, afinal de contas o indivíduo é, na semiclandestidinade dos atos, um prólogo de dúvidas que se estira genuinamente, na ambiência da angústia temperada pelo formigamento do silêncio. Por isso mesmo o poeta, entre prenúncios e perplexidade vai se retratando por meio de acenos: “nosso silêncio é isso que nos tranca às vezes neste mundo pra depurar substrato do que somos” Ou se um leitor mais apressado exigir, o vate hidrata sua vontade contrabandeando alguns trechos da extasiada luminosidade, um salvo-conduto para exercício do entendimento objetivo, tudo às claras, sem ardis, apenas o desejo de irmanar-se à magia: “perfeição seria a gente ir errando menos nossos dias” 140


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Quem sabe, neu não esteja sem caprichos rebarbativos, varando fronteira em outros dísticos tais: “quanto tempo podemos nos inventando outros...” É pouco ? Um novo par para abreviar a quadra : “por que só é poema o que engraça o verbal “” O livro de Irineu Volpato é espantosamente verdadeiro. Seria o poeta uma criança ou a infância é o reino perdido da poesia ? Só mesmo uma obra com a densidade de neu pode apontar algumas respostas, sejam de traços formais, a estética que confirma a exatidão da palavra entreaberta nas folhas ou mesmo na articulação da matéria discursiva desfolhada pelos atributos enlaçadores do nome em suas esquivanças e epítetos. A poesia geminada à infância iça o poeta à madurez das estações, deixando-o superconcentrado em seus elementos imaginosos para maravilhar o convívio humano. Na suavidade das palavras acalentadas pela sofisticação vocabular e 141


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do texto celebrado infinitamente pela palpitação do silêncio esculpido em reflexiva memória da infância, abre-se dentre tantas, três possibilidades de abordagem para a poética volpatiana, toda ela permeada, morfológica e sintaticamente por alegorizantes celebrações do universo mágico da infância e suas notáveis miudezas. A primeira colheita expande as coisas pequeninas que se agigantam na simples menção dos diminutivos. Empregar com sabença as expressões mínimas é tarefa executada com rigor e beleza por Irineu Volpato. A fatura de diminutivos remete para a graúda efabulação emanada das páginas de neu. A obra está repleta de expressões: vidinha, nuvenzinha, estradinha, igrejinha, simplezinha, bluzinha, pobrezinha, casinhas, pestinhas, cuspidinhas, frestinhas, florinhas, mesinhas, mentirinhas, lugarzinho, riachinho, corguinho, matinho, jeitinho, penduradinho, furadinho, tamanhinho, mindinho,capricahadinho,devagarinho, tiquinho,chapeuzinho, cambitinhos, traquinhos , cedrinhos, sitiozinhos, 142


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alegrinhos,tristinhos, sofridinhos, burrinhos...lagriminhas e riinhos. Nesse estirão de alumbramentos, abre-se a senda seguinte, a língua reiventando-se, desvestindo-se de seus vícios, demolindo suas carrancas e espatifando a mesmidão. O autor com elegância. propriedade e apuro técnico, trilha o caminho da criação neológica para realçar, mais intensamente, as dobraduras da infância. Os neologismos volpatianos radicalaizam a esplêndida transparência da simplicidade, este esconderijo tão difícil de ser descoberto e que só para alguns é revelado. O estradão neológico em neu tem inúmeras vertentes, pistas representadas por perceptivas viagens entre elas : semprejam, linguagueja, pedragada, desflor, chuvarado, arretristes, louvaméns, carcasas, tantezas, posemente, aleijadinhamente, muitavezmente, surpresamente, outramente, outravezmente, àsvezesmente, quenemente, vilãmente, passarinha e se menina. A infância deságua na poesia e o humano habita o sortido reino do verbo. 143


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De esperas, pasmado, o nome na letra do verbo é pura oferenda. O verbo de mansinho, se espraia azulescente, para além do nome, em moldura de ipês.. quantas cores são permanentemente vislumbradas em neu, quase contornando o arco-íris de ipês (amarelo, rosa, roxo, branco, verde, tabaco e felpudo),o poeta rastreando o verbo de ser em comunhão com o cântico de uma nova dimensão existencial. Diminutivos, neologismos e o verbo cultivado na terceira margem prolongando a lucidez lúdica que faz passar o tempo sem, contudo, carcomer de silêncios os apetrechos da fantasia. Para tanto Irineu Volpato registra poeticamente a memória verbal torcida da rítmica precisão da infância, inventandose em cada rito de dizer o instante – já imerso na finura lírica da travessia. O itinerário do ato em palavras de pura invenção: andorinhando, amolecando, envelhando, fantasmando, pendengando, tristando, tropicando, carinham enluaram, desmorreiam, cachorrar, depintar, alfazemam-se, nanicar-se, viuvar-se, vizinhou-se, se homou, , gritanhar e 144


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temporeja. neu, em todos os matizes de tempo, se agiganta sinalizando os atalhos do belo desenhado pela singeleza dos nomes que, em desuso servem à invenção travessa da memória. Manoel de Barros, no seu Livro sobre o Nada adverte, “ com pedaços de mim eu monto um ser atônito”, é esse ser que emana e sai das páginas de neu e quem vêm de outras errâncias como é o caso de Quando às vezes / vida nos devolve para dentro de nós mesmos – outro admirável trabalho publicado por Irineu Volpato, em 2010 , o ser refabulado na torção barroca da paciência e embalado pelo fascínio dos dias. Só um poeta maravilhado pode expressar com tamanha naturalidade a grandeza de muitas margens do tempo: “é nos olhos das crianças onde moram os espantos verdadeiros” Neu um poema inteiro sob a roupagem e dicção personalíssima dum Poeta singular, Irineu Volpato, milimetricamente, regente dos espantos e das verdades que a vida desinventada deixa florar em mantras decantados de poesia-Poesia. (*) Mestre em Literatura, poeta e ensaista 145


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endereço do autor http:// paginadoirineuvolpato.blogspot.com/ e-mail: volpato.irineu@gmail.com r. otávio angolini, 235 - cruzeiro 13459-467 santa bárbara d´oeste sp BRASIL 2011/07 XXII

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NEU  

livro de motemas do Poeta Irineu Volpato

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