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Emanuel Oliveira portf贸lio


Emanuel Oliveira Mapa das mรกquinas Desenho, dimensรฃo variรกvel, 2010 a 2012


Emanuel Oliveira Mapa das mรกquinas Desenho, dimensรฃo variรกvel, 2010 a 2012


Emanuel Oliveira Série Fachada de azulejo e quintal cimentado Gravura de topo em madeira de Ipê, Dimensão variável, 2012


Emanuel Oliveira SÊrie Homens cabeça Serigrafia, 60x40cm, 2012


Emanuel Oliveira Coluna - desenho Desenho sobre sacos de cimento, (montagem) 240x80cm, 2012


Emanuel Oliveira Coluna - desenho Desenho sobre sacos de cimento, (montagem) 250x180cm, 2012


Emanuel Oliveira Coluna - Objeto Objeto, 350 x 25 x 20m, 2012


Emanuel Oliveira Coluna - Objeto Objeto, 350 x 25 x 20 cm, 2012


Emanuel Oliveira Coluna - Objeto 02 Objeto, 350 x 80 x 80 cm, 2012


Emanuel Oliveira Coluna - Objeto 02 Objeto, 350 x 80 x 80 cm, 2012


textos


Quando percebi meus dedos mexendo, me senti como um pistoleiro, daqueles de filmes de faroeste. Esperava o momento certo para atirar, arremessar minha âncora ao mar. Estava concentrado. Amarrei a corda de nylon azul ao meu pé: estava pronto. As ondas marcavam o ritmo da minha respiração. Aos poucos e muito intensamente meu corpo saía da excitação do dia. As pessoas, as vozes ao redor e a criança tomando banho começavam a sumir, iam com as ondas. Minha âncora, meu corpo, pêndulo pesado. Mesmo assim a maré o leva embora. A corda, que prende à terra, tensiona, aperta meu tornozelo. Podia ir mais! me levar ou me prender? A corda faz um desenho novo na areia a cada nova onda. Uma curva, um nó, uma quase reta. Ela rasga inescrupulosamente a pele macia da terra. Eu e meu pedaço de concreto, extensão. Tive medo (e quis) que minha âncora se enterrasse na areia fofa e molhada do mar. Tinha uma pequena folga entre mim e ela. Foi fácil puxar os primeiros metros de corda. Até quando ela apareceu, entre uma onda e outra, já havia me curvado algumas vezes. Água, areia e sal vinham junto. Quanto mais, mais puxava. Enrolo a corda no braço. Levanto minha âncora e parto. Estou indo para outros mares. … 13,15,14 passos é a distância que consigo arremessar aquele bloco de concreto. bom pedir mais corda. uns 25 metros deve resolver. será que é fundo assim? será que o mar me carrega? será que me afundo? melhor soltar a corda. ou tentar puxar? … Tem corda? Tem essa vermelha! Tu queria mais grossa era? 95 o metro. Posso pegar a bicicleta do Felipe, que é boa pra descer ladeira na contra-mão e ir ali. Tem corda? Tem essa de seda, agüenta. Mas tem essa outra, se for só pra armar rede, dura uns meses. Eu queria mesmo aquela azul... Só porque o vermelho é de mulher? Besteira... É que eu queria aquelas de nylon... Ah! Então tem ali na frente, depois do trilho. Tem corda? Aquelas azuis, de nylon, tipo de pescador? Tem! É 250 metros. Eu queria 30. Depois do viaduto, tem! Tem essa! 27 metros de corda pesam. Ainda bem que a simone ajuda, sorri. … Agradecimentos: Felipe pela bike. Simone pela disponibilidade. Nayana, Júnior e Joseph pelo corta-luz. Iô pela imagem do dia anterior. Waléria pela intensidade. Cris pela vida. emanuel oliveira fortaleza / joão pessoa


De como ancorar em situações difíceis. O relógio da cozinha parou de funcionar há dois dias. São sempre quinze pras três. São quinze pras três quando saímos de casa. Um tipo de ateliê móvel, uma busca por residência. Temos planos latentes e isso basta. Temos uma exposição para montar e o que cabe vai junto, no porta-malas. O restante deve resultar do percurso, do caminho. Os buracos, feitos à picareta, das cisternas na rua onde ficamos, o açude, as constelações que quase nunca vemos, as histórias e o tempo que corre frouxo. Fazemos filmes, nadamos e andamos na escuridão de nada ver. Seguimos viagem. Nunca pensei que acharia o sertão tão tão tão bonito... nunca pensei que as pedras fossem tão imóveis dentro de uma mesma cidade... agora... até agora as imagens, as cidades, as pessoas continuam em movimento como se ainda fossem vistas da janela do carro... me sinto ainda tonta... acho que é parte da entrega... acho que parte de se permitir... de estar aberto... O caminho pra Sousa, seguindo o espinhaço do Rio Jaguaribe, ladeando a Chapada do Apodi, é a coisa mais linda. Seco, quente, amereloourodouradolaranja. Encontramos algumas situações-lugares que poderiam ter gerado algum material, mas tudo era muito rápido. A viagem objetiva não deixa folga pra improvisar... talvez nossas cabeças não enxergaram a possibilidade, que sempre está lá, da não-obrigação. O Orós, a barragem do Gavião e seus alagados de árvores fantasmas e barcos roubáveis... as serras e serrotes derretidos como bolos de glacê no calor. O mundo é pequeno, bem menor do que eu podia me lembrar. Acho que recuperei um bocado de coisas minhas sobre encontrar e conviver. Sobre estar-ser. Há uma igreja sem uma de suas duas torres. Os entulhos da torre que falta ainda estão lá, no chão, mesmo passados cinco anos de sua queda. Antes escondidos por tapumes, agora expostos à cidade. Minha torre, minha coluna é feita de entulho, cola e ferro. Remonto o que foi derrubado em outro momento. Essas igrejas que vimos pelo caminho, muitas delas não tiveram cimento ou concreto em sua construção. Na minha obra também não. Na manhã seguinte, deixamos a cidade ainda dormindo e seguimos. Mas o transitar não se limita ao movimento do corpo, não é apenas mudar de lugar. Existe na mente, também, um trânsito, não-linear, mais caótico e aleatório. Esse trânsito é o que nos constitui. Na alternância dos lugares mentais é que tomamos forma. Passado, presente, futuro. Eu, outro, alguém, ninguém. Cheio, vazio, tudo e nada. Todas essas condições e possibilidades nos atravessam todo o tempo. Parece que nossa residência agora é a mala, no porta-malas. É isso que nos prende? Vimos as pessoas que queríamos. Deixamos outros amigos e outros lugares por ver. Talvez isso nos obrigue a voltar. Estamos sempre tentando escapar. Pegamos novamente o caminho para casa. A paisagem muda, as pessoas mudam, o tempo muda. A casa é a mesma. Colocaram o relógio da cozinha pra funcionar. cris soares / caio danieli / emanuel oliveira fortaleza / califórnia / sousa


MÁQUINAS DE NADA FAZER Caio Danieli, 2012 Para a exposição EU metade de dois O desenho rompe com todas as hierarquias, situa-se além de qualquer cronologia, revela seu próprio tempo e o tempo do artista. O desenho tem uma qualidade a mais que os outros meios de expressão. Além de “armar o braço” é , ao mesmo tempo, o mais confessional dos meios plásticos, diário íntimo, eletrocardiograma, rebeldia travada no meio da noite, solitariamente. Uma quali- dade a mais, dizia, porque o desenho parece escapar à polêmica estéril entre vanguarda e retaguarda, entre o velho e o novo, navega imperturbável entre ismos e épocas. (Frederico Morais) Em seus trabalhos Cris Soares e Emanuel Oliveira materializam planos, reflexões, questionamentos ou projeções sobre o futuro e o agora. Traçam linhas e se entregam a diferentes possibilidades de invenção. É aí, no ponto de encontro entre a folha em branco, um lápis (ou caneta) e o artista que nascem os desenhos que fazem parte dessa exposição. Um espaço situado entre a mágica e a realidade, entre a concretude e o devaneio. Os dois, como indivíduos, são distintos em vários aspectos mas se complementam quando e se necessário. No fluxo da rotina de casal compartilham pensamentos, processos e modos de fazer. É desse compartilhar que surge o coletivo, representado nas conversas, na troca de habilidades, nas negociações para manutenção de uma produção constante. É aqui que os dois se dissolvem e se misturam: traços, linhas, modos de pensar e agir. Em alguns momentos é quase impossível distinguir onde começa um e termina o outro. Depois dos primeiros rabiscos os dois se entregam a aventura deixando-se atravessar por outras linguagens artísticas que surgem como possíveis ferramentas de expressão. Eles contam histórias, contos (fantasiosos ou reais), fazem projeções de um futuro desejado, anotações do cotidiano ou observações do real. A realidade, aqui, surge como uma desculpa para iniciar o percurso de construção da obra e esse caminho, que começa quase sempre com o desenho, não se sabe por onde os levará. Vídeos, performances, instalações e objetos podem se apresentar a partir daí, fazendo do ato de desenhar apenas a primeira etapa de um movimento para materializar e exteriorizar seus pensamentos. Por vezes, pouco interessa o que é representado, muito mais vale a maneira como é representado ou apresentado. Talvez este caráter processual, de incerteza, essa realidade mutante, seja o que carrega a força presente nestes objetos-pensamentos. Algumas vezes os trabalhos são autobiográficos pois, mais do que qualquer outra linguagem artística, o desenho é confessional e disso não se pode escapar. Outras vezes o desenho é pura fantasia, primeiro modo de materialização física de um universo interior, articulando desejos e apontando direções. De modo óbvio, ou não, Cris e Emanuel são sempre os protagonistas dos seus trabalhos que acabam por construir um retrato cotidiano dessa relação a dois. A casa por construir, ninhos de passarinho, homens-guarda-roupas, mulheres-jardins, seres estranhos ou roupas feitas de corações. Algumas vezes esse desenho se transforma, é ponta de um novelo que se desenrola podendo dar vários frutos. Em outras o sonho não vai além do papel, permanecendo sonho, delírio. Desenhar é correr o risco, em última instância é forjar a realidade.


NOTAS SUBLINHADAS O risco foi aprender a se arriscar e, como não existe experiência sem o corpo, realizamos um salto: triplo. O desafio estava em preservar o vivo, fabricar os atos durante os acontecimentos e, no percurso, cruzar lugares ainda sem fronteiras definidas. A curadoria nesse caso foi colaboração; não estávamos procurando o pronto, mas tentando manter a prontidão. Nessa partilha geramos um estado de ateliê e por desconfiança seguimos a busca para encontrar o produto artístico: os objetos e a sequência de eventos, pois as obras são aquilo que fazemos com a experiência e na experiência. Cotidianamente encontrar o outro parecia nos obrigar a refazer os planos, mas, analisar os planos concretos e o plano de voo significava, também, abarcar suas diferenças. Separar era medida para manter o junto. Leve desvio: a força da dupla se localiza no delicado empréstimo, na permuta do possível-realizável. Por isso como fazer é importante, e sem ingenuidade, o quê fazer e para quem fazer coexistem. Estamos a favor do tempo e não a favor do vento. Montamos o processo e, que seja dito, manter conversa, sobre a produção, por aproximadamente um ano, era transformar um edital de exposição em bolsa de pesquisa. A rota criada ganhava velocidade na medida em que aprendíamos a desviar do eu. Os jovens artistas expandiam seus pontos de interseção, refazendo os desenhos, permitindo outras misturas, e assim cultivavam o pensar e o fazer em um terreno comum. No confronto encontramos construção, transitamos entre a incessante teimosia do passado e a insistência do futuro na tentativa de estarmos, apenas, presentes. Sabemos que nenhum discurso sem ato funciona e que nenhuma ação isolada perdura. Todo gasto de energia foi para alcançar o simples, e talvez por esse motivo chamamos as obras de trabalhos. Em deslocamento nos uníamos ao meio e, atentos, observávamos as singularidades, aguardando emergir do seu encontro o lugar ainda não visitado. As intensidades apontavam os sentidos e como hóspedes uns dos outros, intuíamos avançar, nos empurrando sempre à frente. Seguimos as mudanças e diante dos abismos rabiscamos pontes. Entre ficar e ir embora é uma imagem, ou miragem, como preferir. Assim como fazer uma exposição é de certa forma se expor, aqui é um lugar de passagem. Cris e Emanuel estão abrindo as portas e janelas da sua/nossa casa móvel, lembrando que relação é atravessamento. Nunca estivemos perdidos, estávamos diante da mesma e nova cidade, desligamos o motor, ficamos em silêncio e deixamos a correnteza nos trazer de volta. Por fim é o corpo do viajante que revela: todo ponto de chegada é ao mesmo tempo ponto de partida. Waléria Américo Lisboa, janeiro de 2012 Para a exposição Entre ficar e ir embora


Caderno 3 - Diário do Nordeste Fortaleza 25/9/2010 Residências da Arte Devagar, devagarinho O “Máquinas que não Funcionam”, por exemplo, fez uma viagem a João Pessoa, onde realizou uma exposição na Usina Cultural Energisa. Na bagagem, somente a vontade de aproveitar a viagem lentamente. “A ideia era não ir de avião. Pegamos o carro para chegar lá vivendo o caminho todo, fazendo um diário, focado na cidade e na nossa história compartilhando esse tempo e espaço juntos”, explica Cris. Os dois, que são namorados, nunca tinham ido à cidade e, ao invés de ficarem hospedados num hotel, resolveram alugar um apartamento onde pudessem cozinhar e cuidar da casa, como se fossem moradores. Até lá, o percurso foi feito através do kadett 95 de Emanuel. “Comprei esse carro em setembro de 2007, no mês da independência. Tinha tirado a carteira e era meu primeiro carro. Dois meses depois, quando já estava pintado e tinha consertado o que aparentemente era necessário, fiz uma viagem com amigos para Icapuí, e a Cris foi junto”, relembra. Os dois, que já se conheciam da faculdade de artes plásticas do IFCE, passaram a namorar e somente este ano conseguiram fazer “funcionar” um projeto no qual trabalham juntos. “Ela trabalha num campo mais intimista, com papéis delicados, tecidos, desenhos. Eu já vou mais pro lado do mecânico, coisas mais grosseiras”, explica. Como não queriam fechar um projeto em si, mas brincar com as regras, resolveram levar um portfólio de possíveis realizações e chegaram à exposição “Eu metade de dois”, composta por fotos, desenhos, vídeos e o grafite. “É, a grosso modo, uma exposição sobre o amor”, define Cris. O nome da dupla é uma alusão a objetos que não funcionam, acumulados por eles, como máquinas de costura, fotográfica, de escrever e até o próprio carro, adquirido em um leilão. “Essas coisas acabam gerindo, exercem uma influência grande pra gente. Pode significar também a própria ideia do corpo como máquina”, constata Cris. Síria Mapurunga Repórter


Emanuel Oliveira emanuel.s.oliver@gmail.com (85) 8805 - 0871

Emanuel Oliveira Portfolio  

Portfolio do artista Emanuel Oliveira