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Novembrode2010

Mediação é uma forma de poesia [link] A nossa revista on-line tem novas funcionalidades: comporta filmes e imagens, os textos e hiperligações. É um veículo de ideias no seguimento natural daquilo que se faz todos os dias, numa organização que produz com o seu capital intelectual e rede de conhecimento. Vivemos num ecossistema peculiar porque trabalhamos com instituições que nasceram da necessidade de discutir e democratizar o acesso a ideias e a valores.

Mediation is a form of poetry [link] Our online magazine has new features: includes movies, pictures, texts and links. It is a vehicle for ideas as an offspring of what is done every day in our organization, that thrives on the intellectual capital and the knowledge network of its community. We live in an ecosystem that is unique because we work with institutions that were created from the need to discuss and democratize access to ideas and values.

Nesta edição: > Mediação é uma forma de poesia > Mediador Cultural: uma profissão com futuro > Tráfico Desumano > Internacional workshop Multicultural Societies, Intercultural Dialogue and European Museums > MumAE - Museums meet Adult Educators Conference > O que pode um museu aprender com o construcionismo social? > Arquitectura e Poesia Mapa das Ideias . Novembro de 2010 01


O Museu só faz sentido quando comunica no sentido mais nobre do termo. Pôr em comum, partilhar e, em último instância, transformar a consciência do seu interlocutor. Pela experiência estética, pela emoção, pelas histórias inesquecíveis. Sobre um mineral, um navio ou um homem. Este mês sugerimos a leitura de um livro que reflecte sobre interacções espaciais e narrativas, convidando-nos para uma viagem de contrastes muito interessante: Architecture and Narrative - The formation of space and cultural meaning por Sophia Psarra, publicado em 2009 sob a chancela da Routledge (Londres e Nova York). Porque segundo a autora, a arquitectura é uma forma de poesia e uma linguagem de experiências, tendo um papel estruturante na mediação museal. Muita da nossa inspiração passa pelas TED talks, que têm um valor criativo enorme, não obstante a sua banalização através das cadeias de correio electrónico e da sua replicação (local). Como tal, gostávamos de partilhar convosco a palestra “De onde vêm boas ideias” do Steven Johnson. As ideias são contagiosas (como memes), criamo-las e, quase em simultâneo, elas modificam-nos. Neste sentido, partilhamos este vídeo que reflecte o ambiente privilegiado da Mapa das Ideias. Este mês convidámos a Carla Padró para partilhar connosco um pequeno texto sobre o Museu e o construccionismo social, que reflecte sobre o enorme potencial de conhecimento que existe na ideologia dos objectos.

The museum only makes sense when it communicates with their visitors. Sharing and, ultimately, transforming the consciousness of his interlocutor. By the aesthetic experience, the emotion, and the unforgettable stories. About a mineral, a ship or a man. This month’s book, that reflects on spatial and narrative interactions, inviting us to a very interesting journey of contrasts: “Architecture and Narrative - The formation of space and cultural meaning” by Sophia Psarras, published in 2009 by Routledge (London and New York). According to the author, architecture is a form of poetry and a language of experience, having a pivotal role in museum mediation. A lot of our inspiration come from TED talks, which have a huge creative value, despite its banalization through mail chains and its worldwide franchise. As such, we would like to share with you “Where do good ideas come from” by Steven Johnson. Ideas are contagious (as memes), and, as we create them, they simultaneously change us. In this sense, we share this video that gives a glimpse of our working environment. This month we invited Carla Padró to share with us a short text about the museum and social constructionism, which reflects on the enormous potential of knowledge that exists in the plasticity of museum objects. (By the way, we celebrated 11 years on 11 November. Good news!)

(já agora, fizemos 11 anos dia 11 de Novembro)

Mediador Cultural: uma profissão com futuro [link] Não faz sentido falar de educação. O enfoque na educação, nas nossas aprendizagens e no papel da mediação é o catalisador da nossa internacionalização com o curso de Mediação Cultural. O nosso objectivo é formar 100 mediadores a nível europeu: Lisboa, Junho de 2011; Bruxelas, Novembro de 2011; Barcelona, Fevereiro de 2012; e, Roma, Junho de 2012. Este projecto envolve quatro parceiros europeus e uma equipa de dez formadores com forte formação académica, a par dos autores de textos e artigos para o Museum Mediation Handbook que está a ser preparado, articulando os meios online com formação em sala. Aqui, tão relevante como a formação dos participantes, será a capacidade de disseminação de conhecimento dos mesmos, contribuindo para o reconhecimento da importância da mediação cultural para a sustentabilidade e o futuro dos Museus. No início de 2011, iremos lançar a 3.ª e a 4.ª edição dos Mediadores Culturais, entre o Porto e Lisboa, com melhorias significativas na estrutura formativa, procurando sedimentar a rede de conhecimento que tem contribuído para uma mudança nas nossas instituições culturais.

A par desta estrutura, vamos trabalhar com outras acções de formação, as experiências narrativas e o conto, a comunicação com pessoas especiais, testando a elasticidade dos contextos artísticos e patrimoniais. Já temos as inscrições abertas com taxas especiais para os early birds. A par do trabalho intenso e multidimensional que desenvolvemos ao longo do ano - comunicar através de jogos, audioguias, manuais, roteiros, exposições – investimos no Serviço de Educação e Mediação do Museu Nacional do Traje. Muito vocacionado na primeira fase para o universo escolar, este projecto surpreendeu-nos com o sucesso de dois produtos que partilham a metodologia do Museu ir à Escola, criando pontes entre os dois universos, privilegiando a aprendizagem informal e o papel do objecto como catalizador de conhecimento. O conto Rei vai Nu com a decoração de chapéus tem tido uma enorme adesão nas escolas do pré-escolar e do 1.º Ciclo. Mas é no nosso projecto educativo integrado que estamos a desenhar um sonho: o trabalho com alunos da disciplina Português como Língua Estrangeira do Ensino Secundário.

Mapa das Ideias . Novembro de 2010 02


O entusiasmo dos envolvidos tem demonstrado como um projecto de mediação nunca é algo só nosso, mas sim um espaço de partilha e de reinvenção em comunidade. A expectativa é criar uma exposição que será inaugurada no 3.º período. Neste último trimestre assumimos um novo protocolo com o IMC, desta vez para assegurar o Serviço de Mediação do Museu de Arte Popular que irá reabrir ainda este ano. Com públicos-alvo muito diferentes, este projecto será especialmente dedicado ao adulto e às famílias, quer nacionais, quer estrangeiros.

Tráfico Desumano [link]

Cultural Mediator: a Job for the Future [link] It doesn’t make sense to focus on education as a concept. We must discuss learning as a process and the role of mediation is the catalyst for the internationalization of Cultural Mediation Training Programme. Our goal is to train 100 facilitators of Europe with four sessions in Lisbon, Brussels, Barcelona and Rome. This project involves four European partners and a team of ten lecturers with a strong academic backbone, along with the authors of texts and articles for the “Museum Mediation Handbook”. This is being prepared, combining online media with classroom training. In this project, besides the training of each participant, the capacity to disseminate knowledge will be fulcral, contributing to the recognition of the importance of cultural mediation for the sustainability and future of museums. Meanwhile, early 2011, the 3rd and 4th editions of Cultural Mediators will be launched in Oporto and Lisbon, with significant changes in the structure formation, reinforcing a network that has changed our cultural institutions. Alongside this structure, we will work with other training, experience and narrative story, communicating with special people, testing the elasticity of the artistic and heritage contexts. We have opened registration early bird rates. Besides the hard and diverse work that we have developed over this year - games, audio guide, guides, tours, exhibitions - we invested in the outsourcing of the Mediation Service of the National Costume Museum. Very focused on schools for now, this project has surprised us with the success of two products that “go to school” , focusing on informal learning and the role of the object as catalyst for knowledge. The tale “The Emperor goes naked”, followed by the decoration of hats, has been a success in kindergarden and 1rst grade schools. But it is our other museum-school project that is a dream come true with the commitment of High School “Portuguese as a Foreign Language” students. We feel true sharing, showing that a mediation project is more than the author’s idea. We aim to create an exhibition that opens in the 3rd term. Closing a very busy and eventful year, we have a new protocol with the Museum Institute, this time about the creation of the Folk Art Museum’s Mediation Service, that will reopen in December. This time, we are working specially for adult visitors and families.

A exposição sobre Tráfico de Seres Humanos teve como objectivo sensibilizar a opinião pública para esta problemática, aproveitando a comemoração do Dia Europeu de Luta contra o Tráfico de Seres Humanos, que se celebra a 18 de Outubro. Apesar de associarmos o tráfico de pessoas ao passado, vivemos hoje, em pleno século XXI, num mundo onde o legado da escravatura ainda se reflecte, com milhões de adultos e crianças envolvidos por todo o mundo. O tráfico de pessoas é considerado como o terceiro negócio mais rentável a seguir ao tráfico de armas e ao de drogas. Um negócio onde o ser humano é tido apenas como um mero “bem de consumo” reutilizável e sempre rentável. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), há cerca de 12.3 milhões de vítimas de trabalhos forçados, dos quais 2.4 milhões são traficadas, gerando um lucro anual de 32 biliões de dólares americanos para os seus traficantes. O Observatório de Tráfico de Seres Humanos, entidade responsável pela monitorização deste fenómeno em Portugal, convidou a Mapa das Ideias para conceber uma exposição sobre o tema. A mesma durou três dias, com uma agenda preenchida em paralelo com conferências dedicadas ao tema, que contou na sessão solene de abertura com a presença do Engº António Guterres, Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, e o Dr. Rui Pereira, Ministro da Administração Interna. A exposição decorreu em Loures, no Parque da Cidade, sendo esta autarquia parceira do Ministério para esta iniciativa. Foi visitada por diversas escolas do concelho, tendo sido capaz de promover junto da opinião pública em geral e dos oradores convidados em particular, mesas redondas interventivas e com propostas de actuação. Para além dos painéis com os conteúdos expositivos, o visitante podia ouvir através de telefones, testemunhos reais de vítimas de tráfico, visionar spots publicitários produzidos pelas diversas ONGs sobre o tema e ainda um vídeo explicativo sobre o sistema de monitorização dos casos de vítimas sinalizados e confirmados, propriedade exclusiva do OTSH. Mapa das Ideias . Novembro de 2010 03


Em pano de fundo dois rádios enchiam o ambiente com notícias de tráfico. Uma escultura criava uma dimensão artística e introspectiva sobre o tema (o grupo Demo93 foi convidado como parceria artística). Produzido por Mapa das Ideias, em parceria com a FANQ e a Artica e com o incansável apoio logístico da equipa do GARSE, Câmara Municipal de Loures. Encontra-se neste momento em estudo um modelo itinerante da exposição.

(In)human Traffic [link] The exhibit about Trafficking aimed to raise public awareness to this problem, with the celebration of European Day of Action against Trafficking in Human Beings on 18 October.

was a partner authority of the Ministry for this iniciative. It was visited by several schools, promoting this theme within public opinion in general. Besides the panels, visitors could hear through phones, real testimonies of victims, watch advertising spots of NGOs, as well as video explaining about the monitoring system for cases of confirmed victims flagged and exclusive property of OTSH. In the background, two radios filled the room with news of trafficking. A sculpture was created as an artistic and introspective view on the subject (the group Demo93 was invited as an artistic partnership .) This project was a partnership with FANQ, Artica and the fabulous support and logistical staff at GARS, Loures Municipality . After the success of this project, we are currently discussing a model of a travelling exhibit .

Nevertheless, the association of trafficking of persons to the past, we still live today, in the 21rst century, in a world where the legacy of slavery involves millions of adults and children. Human trafficking is considered the third most profitable business after the trafficking of arms and drugs. A business where the human being is regarded as a mere “commodity” reusable and profitable. According to the International Labour Organisation (ILO), there are about 12.3 million forced laborers, of whom 2.4 million are trafficked, generating an annual profit of 32 billion U.S. dollars for their traficantes. The Observatory of Trafficking of Human Beings, that is responsible for monitoring this phenomenon in Portugal, invited us to create an exhibition on the subject. During three-days, with a busy schedule with lectures, which included the solemn opening session attended by António Guterres, UN High Commissioner for Refugees, and Dr. Rui Pereira, Minister of Internal Administration. The exhibition was held in Loures, in the City Park. The Municipality

Internacional workshop Multicultural Societies, Intercultural Dialogue and European Museums [link] 21-24 Outubro de 2010, Bertinoro Pensar o papel que o Museu e as suas colecções podem representar

na promoção do diálogo intercultural constitui tanto um desafio como uma oportunidade. Um desafio, se considerarmos as palavras do comissário europeu Jan Figel, quando do lançamento do Ano Europeu para o Diálogo Intercultural, em 2008: como passamos de sociedades multiculturais para sociedades interculturais, onde a pluralidade de culturas contribui para o diálogo e para a responsabilidade partilhada? Uma oportunidade, se questionarmos o papel actual dos museus e a sua capacidade de se reposicionarem, reflectindo e discutindo sobre o contexto cultural dominante, abrindo novos caminhos para a (re)interpretação das suas colecções e para a construção de novas narrativas. E foi com esta finalidade que os projectos apresentados no Internacional Workshop Multicultural societies, Intercultural

Dialogue and European Museums, que nasceram da rede europeia MAP for ID – Museums as Places for Intercultural Dialogue, trouxeram novas abordagens e estratégias para responder a estes desafios, utilizando o ensino da história nos museus como instrumento de trabalho com as comunidades com que actuam, nomeadamente as imigrantes. Mais inovadores e menos convencionais, estes projectos cativaram novos públicos, novas formas de interpretar as colecções, introduzindo, por sua vez, novos desafios e significados para as instituições culturais em que trabalham. Mais que um workshop de troca de experiências e partilha de boas práticas, este encontro em Bertinoro reforçou o papel do Museu enquanto instrumento fundamental para o crescimento e desenvolvimento global do ser humano na sociedade contemporânea. Mapa das Ideias . Novembro de 2010 04


Internacional workshop “Multicultural Societies, Intercultural Dialogue and European Museums” [link] 21-24 October 2010, Bertinoro Consider the role that the Museum and its collections can play in promoting intercultural dialogue is both a challenge and an opportunity. A challenge, if we consider the words of the European Commissioner Jan Figel, in the opening session of the European Year for Intercultural Dialogue, in 2008: how do we go from multicultural societies to intercultural societies, where the plurality of cultures contributes to dialogue and shared responsibility? An opportunity, if we question the current role of museums and their ability to reposition themselves, reflecting and discussing the cultural dominant context, opening new ways for the (re) interpretation of their collections and to construct new narratives.

This was the purpose of the projects presented at the International Workshop Multicultural societies, “Intercultural Dialogue and European Museums”. Created under the scope of the european network MAP for ID - Museums Places for Intercultural Dialogue, they brought new approaches and strategies to meet these challenges, using the teaching of history as a tool in museums for museums’ work with communities, namely immigrants. More innovative and less conventional, these projects have captivated new audiences, new ways of interpreting the collections, introducing, in turn, new challenges and meanings for cultural institutions in which they work. More than a workshop to exchange experiences and share good practices, this meeting in Bertinoro strengthened the role of the Museum as a key tool for growth and overall development of human beings in contemporary society.

MumAE - Museums meet Adult Educators Conference [link] 21-24 Outubro de 2010, Bertinoro

Internacional workshop Multicultural Societies, InterA

A conferência que decorreu em Copenhaga no passado mês de Setembro, onde a Mapa das Ideias teve oportunidade de estar presente, foi o último evento do “Grundtvig Multilateral Project MumAE - Museums meet Adult Educators” (www. mumae.eu), organizado pelo Network of European Museum Organisations (NEMO). Esta rede tem como principal objectivo colaborar e ajudar a disseminar o conhecimento entre museus e educadores de adultos a nível europeu. Sendo Copenhaga uma cidade magnífica, o evento não poderia deixar de ser um sucesso. O principal objectivo da conferência foi a apresentação de projectos considerados referências de boas práticas na educação de adultos e a oportunidade de todos aprendermos mais sobre esta matéria. Os workshops trouxeram ainda oportunidades de aprendizagem interessantes, pela troca de experiências e de networking, podendo cada participante assistir a dois diferentes.

cooperate and help to disseminate knowledge between museums and adult education at a european level. Copenhagen is a fabulous city and the event could only be a success. The main aim of the conference was the presentation of projects considered as references of good practices in adult education and the opportunity to learn more about this matter. The workshops brought exciting opportunities for learning, exchanging experiences and networking, and each participant had the opportunity to attend two different ones. As a final result, and like other events of its kind, all speakers stressed the idea that museums are the privileged places for promoting lifelong learning, particularly for adult visitors. People want to feel involved by the museum and the visitor experience becomes as important as the collection to be displayed.

Como resultado final, verifica-se, à semelhança de outros eventos do género, que todos os oradores insistem na ideia que os museus são os locais privilegiados para a promoção da aprendizagem contínua, nomeadamente, para os visitantes adultos. As pessoas desejam sentir-se envolvidas pelo museu e a experiência do visitante torna-se tão importante como a colecção que se deseja mostrar.

MumAE - Museums meet Adult Educators Conference 23 - 24 September 2010, Copenhaga [link]

The conference held in Copenhagen last September, that Mapa das Ideias had the opportunity to attend, was the last event of the Grundtvig Multilateral Project MumAE - Museums meet Adult Educators (www.mumae.eu). It was organized by the Network of European Museum Organisations (NEMO), whose main objective is Mapa das Ideias . Novembro de 2010 05


O QUE PODE UM MUSEU APRENDER COM O CONSTRUCIONISMO SOCIAL? [link] Por Carla Padró, PhD University of Barcelona [link] Tradução de Margarida Ataíde [link]

educativas? Porque não poderão tratar os visitantes como vozes em pé de igualdade/igualmente válidas? O Construcionismo Social pode ajudar-nos a responder a estas questões.

Os museus são instituições políticas poderosas (Jenkinson, 1994), onde se produz, faz circular e medeia conhecimento sobre quem somos e quem queremos ser. Nesta perspectiva, os museus têm a responsabilidade de desconstruir as suas assumpções, missões, metáforas, convenções e práticas historicamente enquadradas, como sublinha alguma literatura sobre Estudos de Museus dos anos noventa (Anderson, 2004).

O Construcionismo Social crê que todo o conhecimento é construído socialmente. Incluíndo o nosso conhecimento sobre o que é real. Tem a sua origem na psicologia social (Gergen, 1994), mas cruza-se com outras disciplinas como a sociologia, a arte ou a educação. Destaca a linguagem como meio importante de compreensão das nossas experiências/vivências.

Porém, ao repensarmos os padrões de investigação, exposição, operação e comunicação dos museus, apercebemo-nos de que estes permanecem entre diferentes narrativas dicotómicas apresentadas como “verdades” objectivas. Refiro-me, citando apenas alguns casos, à tirania cronológica (Pollock, 2002), ao discurso romântico do artista como génio, à abordagem temática actual no design de exposição ou à noção de legado como bem transaccionável. Refiro-me ainda às guerras culturais entre directores, curadores, educadores, administradores, avaliadores e visitantes. E é aqui que nos podemos perguntar: Porque não podem os museus inlcuír múltiplas perspectivas nos seus processos de investigação e exposição, bem como nas suas políticas e práticas

Mais do que reflectir o mundo, a linguagem gera-o (Witkin, 1999). A função básica da linguagem é a de coordenar e regular a vida social (Gergen, 1994). Neste aspecto, não é igual referirmo-nos aos visitantes adultos como peritos ou leigos, clientes ou comunidades de intérpretes. Cada substantivo camufla tarefas específicas, práticas ou conceitos epistemológicos. Assim, assumindo os visitantes adultos quer como peritos quer como leigos, referimo-nos à educação como um empenho hierárquico passivo. Se virmos os visitantes adultos como clientes, referimo-nos à educação como a formação da cultura do consumidor e, se tomarmos os visitantes adultos por comunidades de intérpretes, vemos a educação como um câmbio cultural, social e discursivo. Mapa das Ideias . Novembro de 2010 06


Por outro lado, o Construcionismo Social destaca o facto de a nossa geração de conhecimento e de ideias sobre a realidade serem reflectidos por um processo social, mais do que individuais (Gergen, 1994). As comunidades e culturas de que somos membros determinam a nossa compreensão do mundo.

Organizar exposições e programas baseados em problemáticas e em pensamento problemático.

Os nossos mitos inquestionáveis, as nossas tradições, categorias, estereótipos, assumpções são sustentadas pelas nossas “instituições sociais, morais, políticas e económicas” (Gergen, 1985:286). Se transferirmos estas noções para os museus, podemos afirmar que não é o mesmo gerar uma exposição pela voz do curador, seguir uma abordagem de equipa ou ter em conta que diferentes papéis podem ser intercambiados a diferentes tempos. Não é o mesmo pesquisar as noções do visitante sobre o que vai ser exibido ou incluir outras perspectivas como a da etnia, do género, sexualidade ou religião. Além disso, não é o mesmo mostrar como o conflito foi negociado no âmbito do processo duma exposição ou mostrar o conhecimento como certeza neutra. Acima de tudo, o Construcionismo Social afirma a realidade como criação social. Assim, crenças e realidades múltiplas podem ser igualmente válidas, visto definirem diversas culturas, tempos históricos, experiências de vida, etc. Os museus são, igualmente, criações sociais e as suas definições e práticas têm sido favorecidas por certos grupos em momentos específicos, que comungam e influenciam na sua disseminação diferentes conceitos do mundo. Veja-se, por exemplo, a diferença entre considerar os museus templos, sótãos, tesouros, fóruns, instituições ou organizações. Em cada uma destas noções existe sempre uma comunidade de profissionais que reclamam a “verdade”, sejam eles coleccionadores ou peritos, directores ou curadores, educadores, visitantes e avaliadores ou gestores e profissionais de marketing.

Expor questões de conflito e negociação e confrontá-las a partir de outros pontos de vista.

Consequentemente, o Construcionismo Social dá importância à colaboração, reflexividade e multiplicidade. Sendo o significado tomado como relacional, o significado do museu não é não se limita aos seus objectos ou colecções, exposições e programas educacionais, publicações ou área comercial. Pelo contrário, todos eles produzem significado e, nesse sentido, os visitantes são potenciais catalisadores de construção de significado. Contudo, para aqui chegar, creio que os museus deviam organizar exposições e programar, adoptando outras estratégias. Sugiro algumas:

Fornecer múltiplas vias e itinerários que explorem temas como raça, género, classe, sexo, etc.

Disponibilizar informação polivocal nas galerias e programas em geral, proveniente não só de profissionais dos museus mas também de visitantes. Os museus podem contar outras histórias não relacionadas com disciplinas,como a autenticidade, o cânone, e estas histórias podem ser contadas por pessoas. Organizar mais exposições que desconstruam as exposições ou narrativas românticas e modernas e que mostrem o processo de descarte e negociação da informação. Reconhecer o contexto que está por detrás do museu e o contexto de pensamento que envolve o que vai ser exibido. Exposição com intertexto externo ao campo. Abordagem crítica ao que está a ser feito. Ver os profissionais como facilitadores e não apenas como educadores. Ver os visitantes e profissionais como comunidades de intérpretes. Estas recomendações têm implicações não só nas práticas diárias, mas também na formação geral da área museológica e a mudança leva o seu tempo…

REFERÊNCIAS ANDERSON, G. (2004) (ed.) Reinventing the Museum. Historical and Contemporary Perspectives on the Paradigm Shift. Walnut Creek, lanham, New York, Toronto, Oxford: Rowman & Littlefield Publishers. BERGER, P. & LUCKMAN, T. (1966) The Social Construction of Reality. New York: Doubleday. BURR, V. (1995) An Introduction to Social Constructionism. London & New York: Routledge. GERGEN, K.J. (1985) The Social Constructionist Movement in Modern Psychology American Psychologist, 40, 266-75. GERGEN, K.J. (1991) The Saturated Self: Dilemmas of Identity in Contemporary Life. New York: Basic Books. GERGEN, K.J. (1994) Realities and Relationship: Soundings in Social Constructionism. Cambridge, MA: Harvard University Press. HALL, S. (1997) Representation: Cultural Representations and Signifying Practices. London, Thousand Oaks & New Dehli: Sage Publications. JENKINSON, P. (1994) Museum futures IN: KAVANAGH, G. Museum Provision and Professionalism, London & New York: Routledge. POLLOCK, G. (2002) A History of Absence Belatedly Addressed: Impressionism with and without Mary Cassat. IN: HAXTHAUSEN, C.H. The Two Art Histories. The Museum and the University. Williamstown, MA: Clark Institute. Mapa das Ideias . Novembro de 2010 07


WHAT CAN MUSEUMS LEARN FROM SOCIAL CONSTRUCTIONISM? [link] Carla Padró, PhD University of Barcelona [link] Museums are powerful political institutions (Jenkinson, 1994), which produce, circulate, and mediate knowledge of who we are and what we want to be. Seen from this perspective, museums have the responsibility to deconstruct their historically situated assumptions, missions, metaphors, conventions and practices as some of the Museum Studies literature of the 90’s has underlined (Anderson, 2004). However, if one revises museums’ patterns in researching, displaying, operating, or communicating, one realizes that museums are still caught into different dichotomised narratives that are presented as objective “truths”. To name a few, I am referring to the tyranny of chronology (Pollock, 2002), the romantic discourse of the artists as a genius, the current thematic approach in exhibition design or the notion of heritage as a commodity. I am also referring to the culture wars between directors, curators, educators, administrators, evaluators and visitors. And here is when we could ask Why can’t museums include multiple perspectives in their research processes, exhibition or educational policies and practices? Why can’t they treat visitors as equal voices?. Social Constructionism can help us in answering these questions. Social Constructionism believes all knowledge is socially constructed; including our knowledge of what is real. Social Constructionism comes from social psychology (Gergen, 1994), but it crosses with other disciplines such as sociology, art or education. It emphasises language as an important way to understand our experiences. Rather than reflecting the world, language generates it (Witkin, 1999). The basic function of language is to coordinate and regulate social life (Gergen, 1994). In this regard, it is not the same to refer to adult visitors as experts or laymen, clients, or communities of interpreters. Each noun disguises specific tasks, practices or epistemic concepts. Hence, if we believe adult visitors to be either experts or layman, we refer to education as a passive hierarchic endeavour. If we believe adult visitors as clients, we refer to education as the formation of consumer culture and if we consider adult visitors as communities of interpreters, we believe education as a cultural, social and discursive exchange. On the other hand, Social Constructionism emphasizes that our generation of knowledge and ideas of reality are reflected by social process, more than individual ones (Gergen, 1994). The communities and cultures of which we are members determine or ways of understanding the world. Our taken for granted myths, traditions, categories, stereotypes, assumptions are sustained by or “social, moral, political, and economic institutions” (Gergen, 1985:286). If we transfer these notions to museums, we could state that it is not the same to generate an exhibition from the curator’s voice, rather than using a team approach or rather taking into account that different roles can be exchanged at different times. It is not the same to research visitors’ notions of what is to be exhibited or to include other perspectives such as race, gender, sexuality or religion. Moreover, it is not the same to show how conflict has been negotiated within an exhibition process than to show knowledge as a neutral certainty. Moreover, Social Constructionism asserts that reality is a social invention. Therefore, multiple beliefs and realities can be equally valid for they define different cultures, historical times, life experiences, etc. Museums are a social invention as well and their definitions and practices have been favoured by specific powerful groups in specific times who share and influence in the dissemination

similar concepts of the world. Note for instance the different between considering museums as temples, attics, treasures, forums, institutions or organisations. . I each of these notions there is always a community of professionals who claims for the “truth”, either collectors and connoisseurs, directors and curators, educators, visitors and evaluators or managers and marketing people. Consequently, social constructionism gives importance to collaboration, reflexivity and multiplicity. Since meaning is seen as relational, museum meaning is not inherent in their objects or collections, exhibitions or educational programs, publications or merchandising. Rather, all of them produce meaning and therefore visitors can also be catalysts for meaning making. But to get to here, I think museums should organise exhibits and programming using other strategies. Let’s suggest a few:

Organize exhibits and programs based on dilemmas and problematic thought. Provide multiple exhibition routes and itineraries, which deal with issues of race, gender, class, sexuality, etc. Show issues of conflict and negotiation and confront them from other viewpoints. Provide polivocal information in the galleries and programs in general that not only comes from museum professionals, but from visitors. Museums can tell other stories which do not refer to disciplines, to authenticity, the canon an these stories can be told by people. Organise more exhibits that deconstruct romantic or modern narratives and exhibits, which show the process of discarding and negotiating information. Acknowledge the museum context behind and the context of thought of what is to be exhibited. Exhibition with intertext from outside the field. Focus a critical approach to what is being done. Understand professionals as facilitators and not only educators as such. Understand visitors and professionals as communities of interpreters.

Mapa das Ideias . Novembro de 2010 08


These recommendations have implications not only in the daily practices, but also in the overall formation of the museum field and change takes time…

GERGEN, K.J. (1991) The Saturated Self: Dilemmas of Identity in Contemporary Life. New York: Basic Books.

REFERENCES

GERGEN, K.J. (1994) Realities and Relationship: Soundings in Social Constructionism. Cambridge, MA: Harvard University Press.

ANDERSON, G. (2004) (ed.) Reinventing the Museum. Historical and Contemporary Perspectives on the Paradigm Shift. Walnut Creek, lanham, New York, Toronto, Oxford: Rowman & Littlefield Publishers.

HALL, S. (1997) Representation: Cultural Representations and Signifying Practices. London, Thousand Oaks & New Dehli: Sage Publications.

BERGER, P. & LUCKMAN, T. (1966) The Social Construction of Reality. New York: Doubleday.

JENKINSON, P. (1994) Museum futures . IN: KAVANAGH, G. Museum Provision and Professionalism, London & New York: Routledge.

BURR, V. (1995) An Introduction to Social Constructionism. London & New York: Routledge. GERGEN, K.J. (1985) The Social Constructionist Movement in Modern Psychology American Psychologist, 40, 266-75.

POLLOCK, G. (2002) A History of Absence Belatedly Addressed: Impressionism with and without Mary Cassat. IN: HAXTHAUSEN, C.H. The Two Art Histories. The Museum and the University. Williamstown, MA: Clark Institute.

Arquitectura e Poesia [link]

PSARRA, S. (2009) Architecture and Narrative - The formation of space and cultural meaning. London & New York: Routledge, p. 127/130 Soane acreditava que a arquitectura era uma linguagem que podia produzir efeitos poéticos. Mas como é que a arquitectura funciona como poesia, sendo fundamentalmente a arte não discursiva das relações espaciais? Explicando o conceito de configuração espacial, Hillier usa a linguagem como um exemplo para distinguir “discursivo” de não “não-discursivo”. Segundo ele, na linguagem existem existem ideias “que pensamos” e “ideias que usamos para pensar”, respectivamente, o significado que as palavras representam, e as regras de sintaxe e de semântica que regulam a forma como nós usamos as palavras para criar frases inteligíveis. As palavras que pensamos parecem coisas e estão ao nível do pensamento consciente. As estruturas latentes com que pensamos têm uma natureza diferente, são regras que configuram e dizem-nos como as coisas/ palavras juntam-se, funcionando de forma inconsciente (1996:40). Pode-se sugerir que a arquitectura e a linguagem no museu relacionam através das regras que governam as relações entre espaço, entre objectos e o discurso expositivo. Mas mais relevante – uma vez que a poesia em que Soane está interessado é mais do que uma linguagem quotidiana arquitectura e linguagem relacionam-se no museu através do potencial de signficado encontrado no inesperado de sobreposições ou mesmo em combinações aleatórias.

effects. But how can architecture work as poetry, being primarily a non-discursive art of spatial relations? Explaining the notion of spatial configuration Hillier uses language as an example to draw a distinction between ‘discursive’ and ‘non-discursive’ meaning. He explains that in language there are ideas we ‘think of ’ and ‘ideas we think with’, that is, the meaning represented by words, and the rules of syntax and semantics, which govern how we deploy words to create meaningful sentences. ‘The words we think of seem to us like things, and are at the level of conscious thought. The hidden structures we think with have the nature of configurational rules, in that they tell us how things are to be assembled, and work below the level of consciousness’ (1996: 40). It may be suggested that architecture and language in the museum relate through the rules that govern the relations among spaces, the relations among objects and the relationship of space to the display. But more importantly – since it is poetry Soane is interested in, rather than everyday language – architecture and language relate in the museum through the potential of meaning found in unexpected juxtapositions or even random combinations. This argument can be pursued further, adding that the multiplication of visual relations through the reflections works like the startling combinations of words in poetry, showing unusual angles of rooms and unexpected spatial relations.

Este argumento pode ser levado ainda mais longe, adicionando a multiplicidade de relações visuais através de reflexos que funciona como as inesperadas combinações de palavras em poesia, mostrando ângulos inesperados ou relações espaciais invulgares.

Architecture and poetry [link] PSARRA, S. (2009) Architecture and Narrative - The formation of space and cultural meaning. London & New York: Routledge, p. 127/130 Soane believed that architecture is a language that can produce poetic Mapa das Ideias . Novembro de 2010 09

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