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Para quê os museus? Uma relação sobre a EMAC Helsinki 2010 [link] Por Joaquim Jorge [link] Participámos como palestrantes na 8ª edição da EMAC (European Museum Advisors Conference) que decorreu em Helsínquia, entre 2 e 5 de Junho 2010, subordinada ao tema “Museums Matter!” As entidades organizadoras desta edição foram a National Board of Antiquities e o Museu da Cidade de Helsínquia/Museu Central da Província de Uusimaa que, em cooperação com o ICOM/Finlândia, a Associação de Museus Finlandeses e o British Council, proporcionaram aos participantes (70 representantes de 11 Estados-Membros1 da União Europeia) um programa intenso, entre estudos de caso e comunicações técnicas.

Nesta edição: > Para quê os Museus? EMAC 2010 > EMAC Lisbon 2012 > Convite para a Festa > Balanço provisório: Nos Limites do Corpo Humano > Conferência / Workshop de Julho

Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Estónia, Finlândia, Itália, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido.

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Também foi possível visitar, ao longo dos quatro dias, 15 equipamentos museológicos muito diversos não só nas tutelas (nacional, regional, local), nas colecções (desde militar, etnográfico, arqueológico, arte contemporânea, industrial) mas também na sua gestão (desde aqueles que são geridos por profissionais qualificados aos totalmente concebidos e geridos por voluntários e amadores – sendo esta realidade muito comum no norte da Europa). Para informação detalhada sobre o programa visite o site

www.nba.fi/en/EMAC_programme [link] visão A primeira tendência que foi possível identificar relacionase com a proximidade que o museu tem em relação ao modelo da sociedade na qual se insere. Como é que os governos na Europa lidam com os problemas sociais? Existem vários modelos mas, de longe, aquele considerado o ideal é modelo da democracia cultural, que implica uma promoção do acesso à cultura, uma maior criatividade e uma maior participação das pessoas; a acção do museu deve ser baseada nas necessidades reais e bem documentadas das populações locais, numa estratégia de coerência, estabelecendo inúmeras parcerias com os diferentes actores locais e partilhando diferentes metodologias de trabalho.

Adquirem relevância social na medida em que dirigem as suas acções na resposta/problematização dos problemas sociais existentes na sua área de influência, ajudando os parceiros sociais – outras instituições públicas e privadas - a ajudar as pessoas a atingir o seu máximo potencial, aumentando as hipóteses de empregabilidade, os níveis de auto-estima e de convivência, promovendo respeito mútuo. A conferência foi, aliás, inaugurada com o caso do Projecto Renaissance nos museus de Manchester e o impacto numa população de risco, com factores de exclusão endógenos. Esta nova problematização da centralidade da função dos museus, que se desloca da colecção para a população, da necessidade dos objectos para as necessidades das pessoas, incide, muitas vezes, na necessidade que os museus têm de dar resposta aos problemas sociais das comunidades existentes na área de influência dos museus. Neste sentido, vai ser cada vez mais importante medir o impacto dos museus na sociedade. Esta mensurabilidade passa, não só por dados quantitativos, mas por selfassessment frameworks que enformam mecanismos de avaliação na gestão e administração interna, na gestão das colecções e das reservas, e nos projectos que desenvolvem com a comunidade envolvente, introduzindo indicadores SMARTER (S= M= A= R= T=E=R).

Os museus continuam a ser vistos como locais de aprendizagens múltiplas e instrumentos válidos na educação de todas as pessoas ao longo da vida.

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Deslocando o enfoque da conservação estrita das colecções para as comunidades que os museus servem, novos desafios são desenhados. Susan Peterson descreveu com grande detalhe os projectos de circulação de colecções no espaço europeu, com todos os problemas e, também, o imenso potencial que esta dinâmica pode trazer.

Inclui um estágio que junta a observação e acompanhamento à criação de novas visitas. A par do nosso próprio conceito de Mediador Cultural, também se discutiu o potencial do Cultural Broker (um pouco à semelhança de um corretor), um conceito trazido pela Faronet, entre as linhas da mediação directa e indirecta.

Essas comunidades são designadas por Llorenç Prats como “heritage communities” (comunidades de património), uma comunidade baseada no reconhecimento de um património em particular e na necessidade de o proteger e promover para a geração seguinte. Esta comunidade pode ser de índole geográfica, linguística, religiosa, de género, etc. Acima de tudo, será uma comunidade de interesses, em que a aprendizagem é voluntária e informal.

O futuro do Museu passa pela sua finalidade no século XXI? Quais vão ser os novos métodos de trabalho, nova razão de ser, novos produtos?. Será uma instituição que, não obstante as resistências, terá uma relação prospectiva e proactiva de mercado (necessidades do público-alvo), desenhando e desenvolvendo programas; estabelecendo parcerias, cartas de compromisso e acordos de investimento, gerindo relações de parceria.

Ironicamente, tal como acontece com a nossa própria LeiQuadro, o mediador ou o educador continua a não ter uma voz institucionalmente autónoma que permita a construção de uma estratégia relacional a longo prazo com os públicos. No entanto, os novos valores associados à importância dos museus para a sociedade, e que se devem adicionar aos já defendidos (promoção da tolerância; igualdade de oportunidades; compreender o que é diferente) vão exigir uma cada vez maior especialização destes profissionais. Por essa razão, o papel dos profissionais dos serviços educativos também foi discutido em profundidade. Na Bélgica, o curso de guia do museu foi criado com o intuito de profissionalizar esta área de trabalho. Conta com cerca de 200 horas de formação e uma estrutura muito semelhante ao nosso curso de Mediadores Culturais.

SMARTER METODOLOGIA Como se deve formular os objectivos de um projecto? Tipicamente, os objectivos devem ser passíveis de avaliação, a única forma de validar o sucesso de um projecto. Por isso, um objectivo deve ser:

S – Specific. Específico. M – Measurable. Mensurável. A – Achievable. Atingível. R – Relevant. Relevante. T – Time Bound. Circunscrito no tempo. E – Evaluate. Avalie. R – Re-evaluate. Re-avalie. Se ele não cumprir estes requisitos, dificilmente será possível avaliar o seu desempenho.

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Convite para a Festa [link] Por Maria Vlachou [link]

“Imagine que ouviu falar de uma festa que tem lugar todas as semanas, mas não foi convidado. A julgar pelo alarido na cidade, esta festa é o evento mais in, por isso, mesmo que não tenha recebido um convite formal, decide ir. Quando chega, apesar de ser muito emocionante, sente-se estranho, embaraçado. Pergunta-se se os anfitriões falam entre eles sobre o porque é que você está lá. Pergunta-se se os outros hóspedes sabem que não foi convidado. Ninguém fala consigo ou reconhece a sua presença. Finalmente, recebe o recado. Vai-se embora. Decide que nunca mais voltará. Aos poucos perde o interesse e finalmente nem sequer se lembra que a festa tem lugar todas as semanas.” Esta é uma das minhas passagens favoritas no livro de Donna Walker-Kuhne Invitation to the Party. A autora tem larga experiência em projectos de desenvolvimento de públicos e descreve aqui muito eloquentemente a forma como as pessoas que não estão habituadas a frequentar museus, teatros, etc., se devem sentir no meio dos ‘entendidos’ e daqueles ‘anfitriões’ que não assumem como sua função convidar pessoas novas à ‘festa’ e fazê-las sentirem-se bem-vindas. A propósito do ‘convite’, lembrei-me de duas acções muito distintas, levadas a cabo por entidades diferentes, com objectivos diferentes e com meios diferentes. A primeira, foi a campanha da Royal Opera House em 2008, que através do jornal populista The Sun ofereceu bilhetes a preços muito baixos (atenção, não eram convites…) para a estreia do primeiro espectáculo da temporada, Don Giovanni. A campanha do The Sun foi muito grande, a cobertura editorial, com fotografias e títulos muito sugestivos, também (ler aqui).

A procura foi enorme e entre as pessoas que assistiram muitas iam à ópera e à Royal Opera House pela primeira vez. Charlotte Higgins, jornalista de cultura do jornal Guardian, falou com os responsáveis e também com o público que assistiu à estreia (ler artigo aqui). Primeiro indicador do impacto da experiência? O facto de não ter havido um êxodo durante o intervalo… Segundo indicador? As impressões dos espectadores à saída. “O cabelo da minha nuca ficou de pé”, dizia uma senhora de 50 anos. “Queria ver como era. Agora fiquei apanhado”, dizia um jovem de 25. Alguns dos bilhetes do The Sun, que tinham custado entre 7,50 e 30 libras, tinham sido aproveitados por pessoas que costumavam ir à ópera, mas que quiseram ‘iniciar’ amigos que nunca tinham ido. Falta saber quantas dessas pessoas quiseram voltar. E também quantas conseguiram voltar. Porque os preços habitualmente praticados são proibitivos para um grande número de pessoas. Campanhas como esta, que conseguem cativar a atenção e despertar a curiosidade do público, devem igualmente pensar na forma de dar continuidade à iniciativa e fidelizar os novos públicos. A segunda acção da qual me lembrei é bastante diferente, mais discreta, mas, à sua escala, igualmente eficiente. É levada a cabo pelo Museu Vale, na cidade brasileira de Vitória, um museu de arte contemporânea. O Projecto Aprendiz, no âmbito do programa Arte Educação, envolve jovens desfavorecidos das comunidades vizinhas ao museu na montagem das exposições temporárias, proporcionando-lhes formação profissional nas áreas da carpintaria, iluminação, pintura, etc.; permitindo um contacto directo com os artistas; e despertando também alguma curiosidade e gosto pela arte ali exposta. Cria-se assim uma ligação com a comunidade local em geral e com estes jovens em particular, um sentimento de pertença por parte das pessoas envolvidas e das suas famílias e amigos e, muito provavelmente, com alguns deles, uma relação duradoura. Mapa das Ideias . Junho de 2010 . 04


Estava a preparar este texto quando li na Revista L+Arte deste mês a entrevista com João Carlos Brigola, Director do IMC, que dizia: “…A missão fulcral do museu é ser um repositório de memórias e trabalhar o seu património, mas esta identidade está a ser preterida por funções de maior visibilidade comunicacional, onde o que conta é o número de visitantes, o alarido público…”. Senti mais uma vez que quando somos confrontados com as questões de visibilidade e aumento do número de visitantes, sentimos que devemos defender “a missão fulcral do museu”. São cinco as funções que um museu deve desempenhar para cumprir a sua missão e nenhuma devia ser considerada mais fulcral que as outras. São mutuamente exclusivas as funções relacionadas com a colecção e as relacionadas com o público? Porque é que nos sentimos na obrigação de defender uma em detrimento da outra? Porque é que sentimos que devemos optar por uma ou pela outra? Porque é que parecemos ficar incomodados quando são consideradas ou nos são sugeridas acções mediáticas (adjectivo que parece que consideramos sinónimo de populista e de baixa qualidade)? João Carlos Brigola lembra ainda, no mesmo parágrafo, que no Plano Estratégico não existe nenhum objectivo que tenha a ver com o número de visitantes. Porque será? Para justificar essa opção? Aumentar o número de visitantes, diversificar o perfil dos mesmos deve ser um objectivo permanente de todos os museus. Tal como os museus não existem sem colecções, também não existem sem visitantes. Aliás, os museus existem para as pessoas (ver discussão sobre a missão no meu segundo post aqui). Nesse sentido, o número de visitantes é um indicador de desempenho, não podemos ignorá-lo. Não pode é ser o único. Nem pode ser apresentado sem uma análise daquilo que realmente representa, sobretudo no que diz respeito ao perfil dos visitantes. Colocar esta questão em segundo lugar significa para mim que estamos satisfeitos com o que já temos. Que estamos contentes, como se diz às vezes, por ter “poucos [visitantes] mas bons”, o que Richard Sandell chama, no seu livro Museums, Society, Inequality, “the good enough visitor”. Será uma pena se, mais uma vez, os ‘convites para a festa’ não forem uma prioridade.

No Limite do Corpo Humano [link] Depois do sucesso da exposição “Darwin na Escola” a Mapa das Ideias em colaboração com a Cassefaz e com o apoio da Vodafone – Portugal lançou em 2010 o projecto expositivo “Nos Limites do Corpo Humano”. Nos oito painéis, que compõem a exposição, explora-se o Corpo Humano, interligando disciplinas como a Biologia, a Educação Física, a História, a Filosofia, entre outras. Com o ano lectivo a entrar na recta final, começamos a receber os primeiros dados referentes à avaliação do projecto, das mais de 300 escolas que receberam gratuitamente a exposição. Até ao momento perto de 150 escolas já avaliaram a exposição “No Limites do Corpo Humano”, com mais de 80% a dar nota global muito positiva. O item com melhor avaliação, até ao momento, é a Forma de Recepção dos Materiais, com 72,5% das escolas a darem nota máxima. Fotografia tirada na Escola Secundária Fernão de Magalhães.

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MAPA DAS IDEIAS Auditório do Museu de Cerâmica de Sacavém Quinta-feira, 15 de Julho 9.30-10.00 10.00-12.30

12.30-14.00 14.00-16.00

16.00-16.30 16.30-17.30

Destaque EMAC Lisboa, 30 de Maio-3 de Junho 2012 [link] A Mapa das Ideias vai organizar a 9.ª Conferência Europeia de Museum Advisors em Lisboa no final de Maio de 2012. Deste modo, conseguimos mostrar ao melhor da União Europeia a excelência dos nossos Museus através de visitas técnicas, e a excelente capacidade técnica e a visão dos profissionais que trabalham nesta área em Portugal. O objectivo da conferência, à semelhança daquilo que aconteceu em Helsínquia, é juntar numa única programação comunicações e visitas de estudo. Gostaríamos ainda de oferecer alguns cursos técnicos de curta duração que permitissem a disseminação de boas práticas e a criação de parcerias transnacionais. Para mais informações, consultar o nosso website para saber notícias. O blog da EMAC 2012: http://museumadvisors. wordpress.com/ também já está online.

Em Julho junte-se a nós! [link]

Inscreva-se aqui [link]

Uma parceria Mapa das Ideias / Associação Histórias para Pensar

Museums do Matter! EMAC 2010 MEDIAÇÃO CULTURAL NOS MUSEUS Estratégias de Aprendizagem para o Sucesso - 15 de Julho Desenvolvimento de projectos no contexto dos Programas Europeus de Financiamento (GRUNDTVIG) - 16 de Julho)

Recepção dos participantes (com café e bolinhos) Museus: uma estratégia para o futuro Maria Vlachou Museus e mediação cultural: Apresentação da EMAC 2010 Inês Bettencourt da Câmara Almoço Programas Europeus de Financiamento (GRUNDTVIG) Joaquim Jorge Intervalo Análise do Caso Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu: Rota Histórica das Linhas Defensivas de Torres Vedras Joaquim Jorge

HISTÓRIAS PARA PENSAR Museu Municipal de Loures Sexta-feira, 16 de Julho 9.30-10.00 10.00-11.00

11.15-13.00 13.00-14.00 14.00-16.30 16.30-17.00 17.00-18.00

Recepção dos participantes (com café e bolinhos) Apresentação dos parceiros empresariais: design, tecnologias de informação e mediação cultural. Apresentação dos participantes e constituição dos grupos de trabalho Trabalho de grupo Almoço livre Apresentação e discussão dos projectos Intervalo Apresentação e discussão dos projectos

Organização e secretariado Inscrições e pagamentos: Dia 15 de Julho – 25 euros (inclui almoço) Para participar nos dois dias de trabalho: 45 euros (inclui coffee-breaks e almoço)

Vagas limitadas. Inscreva-se já! Pagamento por transferência bancária ou no local, através de MB.

Maria João Nunes mjoao.nunes@mapadasideias.pt

Mapa das Ideias Avenida do Brasil, 165 – Loja A 2735-676 São Marcos Tmv.: 968902260 Telf.: 214262650 Fax: 214262844 Mapa das Ideias . Junho de 2010 . 06

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