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O ÚLTIMO MOINHO ABORDAGEM HISTÓRICA E INTENÇÃO


O presente documento reune um conjunto de elementos realizados na fase inicial de pesquisa, no âmbito do projeto de reabilitação de “O Último Moinho de Moreira”. O objetivo desta recolha foi o de sintetizar informação acerca do sítio e das tecnologias associadas ao moinho, por forma a ampliar a informação e contribuir para opções conscientes e informadas no projeto e obra. Mais informações em: W W W. M A PA 2 0 1 2 . T U M B L R . C O M

© MAPa2012 / Câmara Municipal de Guimarães, 2012 Rua Egas Moniz 115 4810-082 Guimarães Portugal T: 253 511 213 M: mapa2012@cm-guimaraes.pt S: www.mapa2012.tumblr.com Coordenação: Ricardo Rodrigues, arquiteto Recolha, textos e organização geral Sónia Moura, arquiteta Paginação: Marta Soutinho


O ÚLTIMO MOINHO ABORDAGEM HISTÓRICA E INTENÇÃO

Índice 6

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA FREGUESIA DE MOREIRA DE CÓNEGOS

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MINOLOGIA EM GUIMARÃES

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AS FUNÇÕES DOS MOINHOS E O PAPEL DO MOLEIRO

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FUNCIONAMENTO GENÉRICO DE UM MOINHO

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MOINHO - CARACTERIZASÇÃO TIPOLÓGICA

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DESCRIÇÃO DO CASO EM ESTUDO: O ÚLTIMO MOINHO

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UMA INTENÇÃO DE PROJECTO

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BIBLIOGRAFIA

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CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

Martins Sarmento nas suas pesquisas terá chamado à atenção para um local arqueológico cuja toponímia de “Cemitério dos Mouros” considerou sugestiva; mais tarde tendo sido inventariado como habitat castrejo. Neste local foram encontrados achados arqueológicos, nomeadamente cerâmicas classificadas mais tarde de tardo romanas. 2 Pode ler-se nesta carta de doação a preocupação com a assistência aos “pauperism edam hospitum et peregrinorum”; 3 Cunha, Pároco Francisco Teixeira da. Guimarães. Inquérito Paroquial de 1842. in Revista de Guimarães, nº 108, 1998. pp.411-417. Ed. Centro de Estudos do Património da Casa de Sarmento;

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CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA FREGUESIA DE MOREIRA DE CÓNEGOS A freguesia de S. Paio de Moreira de Cónegos, com 472, 48 m² de área e 5 828 habitantes, situa-se no limite sudoeste do concelho, na margem direita do Rio Vizela confrontando com os Municípios de Santo Tirso, a sul e Vizela, a nascente. Confronta também com as suas congéneres freguesias de Lordelo, a poente, Gandarela, a norte, Guardizela, a noroeste e Conde, a nordeste. A sua ocupação, segundo o arqueólogo e historiador Vimaranense Francisco Martins Sarmento remonta há cerca de dois mil anos atrás, ao tempo da denominada Cultura Castreja do Noroeste Peninsular.1 Pelo exposto, e pela documentação que nos chegou, nomeadamente a carta de doação que Adosinda fez ao Mosteiro de Guimarães de todos os haveres em “Vila Cova” e de tudo o que nela existe datada de março de 961, se conclui que a paróquia de S. Paio de Moreira já seria um couto monástico muito antes da fundação da nacionalidade remontando a sua origem à época em que o culto de S. Paio alastrou pela Península Ibérica. Nesta carta, também está presente a preocupação pelo desempenho da função assistencial de que o Mosteiro de Guimarães se ocupava nos séculos que precederam a fundação do Condado Portucalense e sua posterior transformação em igreja colegiada.2 No séc. X, há referencias a outros templos dos quais não restam memória toponímica, como é o caso de S. Julião, provavelmente um remoto cenóbio, e Santa Tecla. Nas suas anotações “Vimaranes Monumenta Historica”, o Abade de Tagilde considerava que a designada “ Vila Cova “ compreendia também a zona de Moreira de Cima.

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Nas Inquirições de 1220, ordenadas por D. Afonso II, surge a mesma designada como “Sancto Pelagio de Cauto de Moreira” ; nas de 1290, no reinado de D. Dinis irá surgir a denominação de freguesia de Sam Paio de Vila Cova”. No séc. XVII esta vila era designada de Vila Cova de Moreira. Este amplo vale está protegido por montes que o envolvem, como o Monte Serra Grande a nascente ou o monte do Sobreiro e por onde serpenteia a ribeira de Nespereira. 3 Atualmente, a economia do local está fortemente ligada à agricultura e à indústria nomeadamente na área dos têxteis das quais se destacam a fiação, a estamparia e a confecção. A esta atividade e ao sector secundário se deve o incremento demográfico que aqui se tem registado nos últimos anos. Entretanto, Moreira de Cónegos foi elevado a vila em 1995. Assim como aconteceu por toda a bacia hidrográfica do Ave, também aqui se começou a tirar partido da orografia do terreno e dos recursos naturais da região, como os abundantes cursos de água que percorrem toda esta zona. Assim começaram a surgir formas de aproveitamento das águas aliados à natureza e à economia local, caso dos moinhos relacionados sobretudo com o sector primário. O relevo acentuado, aliado aos vales pluviais propiciam o aparecimento destes edifícios e mecanismos de transformação sustentável de matéria prima. Um dos exemplos deste tipo de utilização é o objeto alvo do presente estudo.


FONTE: Actas Congressos Históricos, Guimarães, 1989

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Povoações e Templos do Século VI ao X do Concelho de Guimarães

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MOLINOLOGIA EM GUIMARÃES

Costa, Francisco da Silva. Paisagem e Património ligado à Água. Uma perspectiva do Rio Ave no início do Séc. XX; 5 Segundo Pereira, Benjamin, Veiga de Oliveira e Galhano, Fernando. Sistemas de Moagem. Tecnologia Tradicional Portuguesa. Instituto Nacional de Investigação Científica; 6 Vila Cova refere-se à toponímia primeira onde se situa Moreira de Cónegos e o nosso objecto de estudo; 7 Ibidem; 4

UMA ABORDAGEM À QUESTÃO DOS MOINHOS EM GUIMARÃES Quando se empreende uma busca por documentação nos serviços municipais relativa a licenciamento de moinhos dificilmente se encontra, uma vez que na época em que eles proliferaram, não seria obrigatório o seu licenciamento. No entanto, seria vulgar o pedido de uso dos recursos hídricos. Os pedidos de licenciamento para os usos e utilizações dos recursos hídricos do Ave, nos inícios do séc. XX, dão-nos conta de uma multiplicidade de factos como a construção de pontes, açudes e moinhos, ligados predominantemente ao sector primário e secundário. 4 Em Guimarães a proliferação deste tipo de engenhos está fortemente ligada à forte implementação da indústria, principalmente têxtil que começou a florescer na segunda metade do séc. XIX - fiação, tecidos, curtumes, moagens - para produção de energia motora e para aproveitamento de hidroeléctricos destinados à laboração para as indústrias de fiação, tecelagem e iluminação eléctrica. Desta forma, os moinhos serviam o sector primário, o secundário e alguns ainda produziam energia eléctrica. As gentes deste concelho souberam dar seguimento aos saberes tradicionais do fabrico do linho (mais tarde, seria o fabrico do algodão, que mais se destacaria), curtumes e cutelarias, sabendo modernizarse e adaptar-se à produção em série implementando a indústria nesta região, uma das mais importantes neste sector a nível nacional. Segundo A. L. de Carvalho, em tempos idos, haveria em Guimarães “umas Irmandades da Água”, regidas por um

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regulamento que pautava as obrigações que os “irmãos da água” que teriam de respeitar nomeadamente quanto à distribuição dos seus quinhões. Embora não se conheça nenhuma confraria ou irmandade dos moleiros “relativamente ao concelho de Guimarães existem numerosos registos destes atos nos Livros da Câmara da cidade, dos séculos XV a XIX.” 5 Na Vimaranis Documenta Histórica, A. L. de Carvalho encontra numerosos contratos de venda e doações de moinhos por D. Afonso Henriques e sua mulher D. Mafalda. Em 1842, aquando de um Inquérito Administrativo às freguesias do concelho, alguns párocos ao satisfazerem o questionário forneceram as seguintes indicações por cada freguesia. Assim: “ Ronfe: 26 moínhos e 4 azenhas, Creixomil: 9 moinhos de 2 e 3 rodas; Mesão Frio: no Regato dos Moinhos, 7; S. Clemente de Sande: 4, cada um com 8 rodas; S. Salvador de Briteiros: tem bastantes onde toda a freguesia mói suas fornadas; Lordelo: 8 na Ribeira da Portela; Brito: 8 na Levada; S. Jorge do Selho: 4 no Lugar da Ponte; Barrejão: 3; Vila Cova: 15 6 ; Tareja: 8.”7


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Património Molinológico do Concelho de Guimarães

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FONTE: http://turmad5avenida.blogspot.pt/2008/12/nossa-terra.html

AS FUNÇÕES DO MOINHO E O PAPEL DO MOLEIRO

AS FUNÇÕES DOS MOINHOS De entre as variadas funções destes engenhos, destacamse: moer grão (moinhos de cereal), esmagamento de frutos, nomeadamente azeitona (lagares de azeite), desfibramento (engenhos do linho) e preparação da madeira (engenhos de serrar madeira). Hoje em dia, pode pensar-se na possibilidade de recuperação dos moinhos, restaurando a sua função original nomeadamente com a aplicação da energia eléctrica, o que acionado em conjunto com o engenho poderá ter um desempenho mais rápido. No entanto, precisamente pela maior velocidade e consequente sobreaquecimento rápido do grão, muitos moleiros advertem para o facto de se perderem as suas propriedades aromáticas. 8

Os moinhos, como meios de produção são, testemunhos de um modo de vida comunitário e colectivo que teve um importante papel na vida e estrutura social das populações, pelo que o seu estudo de funcionamento e sentido poderá ser importante na reabilitação de formas de subsistência em colectividade, não só para melhor ultrapassar dificuldades em espírito de entreajuda mas também como factor de animação comunitária.

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Vasconcelos, Eng. Inácio de . A Vingança dos Moinhos. Abril 2009;


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O PAPEL DO MOLEIRO A importância do moleiro - na época em que a atividade abundava - era imensa uma vez que agia como fiscal do rio, salvaguardando pelo seu estado e também seriam os responsáveis pela limpeza do terreno a este adjacente, além de serem verdadeiros repositórios de conhecimento e intercâmbio com os diversos intervenientes do processo, desde a pessoa que levava a farinha aos visitantes, ou outros que por lá passassem.9 “O forte impacto económico e social resultante da proliferação dos moinhos, traduziu-se em alguma regulamentação social a que os poderes administrativos não foram indiferentes.“

“Tal como os restantes ofícios, a profissão de moleiro estava sujeita a normas e regulamentos ou leis avulsas, Regimentos Municipais e Códigos de Posturas. Em termos de registos que chegaram até aos nossos dias, destaca-se a regido norte, em particular a zona de Guimarães.” 10 A manutenção tanto do açude como da levada era da responsabilidade do moleiro.

Era frequente, quem trazia o grão esperasse pela sua transformação em farinha, logo se entabulava uma conversa acerca dois vizinhos, do ofício e outros, actuando como verdadeiros portadores de notícias dessa época. 10 Ibidem; 9

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FUNCIONAMENTO GENÉRICO DE UM MOINHO

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FUNCIONAMENTO GENÉRICO DE UM MOINHO A captação da água é feita ou por açudes ou por presas (poças). Os açudes são construções com a função de represar as águas formando pequenos lagos. Estas construções tanto podem ser naturais nos afloramentos rochosos existentes, como podem ser construídos pelo homem com o uso de pedras. Os açudes têm a função essencial de elevar o nível das águas, permitindo o aumento da energia potencial disponível ou apenas conduzir a água para a levada. Nem sempre é necessária a sua construção para proceder ao aproveitamento hidráulico. Normalmente a água é conduzida dos açudes ou poças para o moinho através de levadas, que tanto podem ser construções de boa qualidade - em granito bem talhado - como podem simplesmente apresentarem-se como

um simples canal ou rego sulcado em terreno firme, ou escavado na rocha ao longo de socalcos construídos para o efeito. O mais comum é estas surgirem do aproveitamento do desnível natural do terreno. Em muitos açudes existem entraves para a retenção de folhas e lixo para uma água mais limpa no seu rodízio. As levadas têm a inclinação média menor que a das linhas de água, permitindo ao fim de alguns metros a criação de desníveis, podendo desta forma servir de regadio aos terrenos adjacentes e servir os moinhos (levadas de regadio ou levadas próprias).

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MOINHO - CARACTERIZAÇÃO TIPOLÓGICA

CARACTERIZAÇÃO TIPOLÓGICA No concelho de Guimarães, os moinhos de água, (como o nosso caso de estudo) destinados a cereais, existem em abundância, e -os mais comuns - são construídos em dois pisos: o superior ou “sobrado” e o inferior ou “cabouco”, “inferno” ou “aguadouro”. No sobrado localizam-se os elementos de moagem - pé, andadeira, moega, chamadouro, segurelha; na parte inferior localiza-se o rodízio, urreiro, espigão, rela, caleiro, aliviadouro e chamadouro. Ainda na parte inferior temos o lobete a ligar o eixo do rodízio com o veio da andadeira. 11

O aspecto final da construção e sua tipologia são sempre definidos pelo terreno onde estão implantados. Vulgarmente, são construídos em alvenaria de granito (pedra abundante nesta região), com juntas abertas e preenchidas com argamassa de saibro pelo exterior e argila nas faces interiores. Os pavimentos são construídos em pedra (se possível) ou então em madeira. Alguns moinhos, mais recentes têm vidros nos caixilhos. Relativamente à cobertura primeiramente eram revestidos a colmo, hoje substituída por telha de barro. 11

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Vasconcelos, Eng. Inácio de . A Vingança dos Moinhos. Abril 2009;


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Moega Adelha

SOBRADO <>

Chamadouro

Segurelha Bucha

Pé Cunha

Pavimento

Adelhão

Veio

CABOUCO OU INFERNO

Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano, Benjamim Pereira, SISTEMAS DE MOAGEM, Lisboa, 1983

Quelha

Aliviadouro Lobete

Pau das Cruzes

Mó Tremonhado

Pela Caleira ou Cubo (por onde circula a água)

Eixo do Rodízio

Aliviadouro Seteira (por onde sai a água)

Rodízio, com penas Aguilhão

Seteira

Rodízio

Urreiro Pau das Cruzes

Rela Pau da Forca

Canelo ou Caleira

Cubo

(26) Penas

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DESCRIÇÃO DO CASO EM ESTUDO: O ÚLTIMO MOINHO

DESCRIÇÃO DO CASO EM ESTUDO : O ÚLTIMO MOINHO O terreno em apreço situa-se a poucos metros da estrada nacional 105, que liga Guimarães a Santo Tirso confrontando a norte com um terreno pertença da Câmara Municipal de Guimarães onde estão neste momento em construção as piscinas da freguesia. A diferença de cotas entre o terreno em estudo e a EN é de aproximadamente 26 metros. Neste terreno, mais concretamente na Rua dos Moinhos, encontra-se o edifício em estudo. Servido pela Ribeira de Nespereira, este seria um dos exemplares de que nos fala o pároco Francisco Teixeira da Cunha “Pelo meio da freguesia corre um regato dos moinhos, principia à entrada da freguesia, em Barreio

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até Ornela; tem este regato sete moinhos que só moem de verão, digo de inverno porque no verão não tem água, não há lagoas nem águas minerais, não tem havido cheias consideráveis”. 12 Este edifício, comumente designado de “O Último Moinho” por ser o último de uma série ao longo do mesmo regato dentro dos limites da freguesia, apresenta uma tipologia comum13 dentro das que se referem a este tipo de engenhos: de planta rectangular, em dois pisos, formando socalco, sendo que no piso de entrada estaria a moenda e o local de trabalho do moleiro, e no piso inferior, o espaço correspondente ao local onde estariam os rodízios - neste caso dois.


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As paredes que o constituem de alvenaria de granito simples e irregular (provavelmente extraído das redondezas como era comum nestas construções), tem uma das fachadas fundada no leito da ribeira, onde se abrem os dois caboucos. Atualmente apresenta juntas preenchidas com argamassa de cimento, provavelmente resultado de uma intervenção recente no imóvel. Quanto aos vãos, além de duas portas, uma em cada alçado lateral, possui também duas janelas provavelmente junto aos engenhos, por forma a garantir a iluminação das moendas e do tremonhado.

in Cunha, Pároco Francisco Teixeira da. Guimarães. Inquérito Paroquial de 1842. in Revista de Guimarães, nº 108, 1998. pp.411-417. Ed. Centro de Estudos do Património da Casa de Sarmento; 13 Entende-se por comum, no que diz respeito à forma, material alvo de manufactura e sistema construtivo, no norte do país; 12

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DESCRIÇÃO DO CASO EM ESTUDO: O ÚLTIMO MOINHO

A cobertura é, tal como tradicionalmente nos edifícios de habitação, constituída por caibros de madeira e encontrase revestida a telha do tipo Marselha (provavelmente em substituição da telha tipo canudo como seria habitual). Adossadas ao moinho, três construções (em socalcos), de um só piso, provavelmente construídas à posteriori, serviriam de apoio ao moinho, (talvez) armazém e/ou habitação. O desnível no terreno em questão é acentuado havendo na parte tardoz do edificado muros para contenção do terreno. Estas construções também em aparelho de granito - embora mais regular que o do moinho - também apresentam juntas preenchidas com argamassa de cimento e telhado revestido a telha do tipo Marselha. Os vãos, no alçado frontal, nas construções anexas, são

em chapa pintada de azul intercalados por pequenas janelas encerradas por três tábuas de madeira ao alto. No alçado tardoz, a desorganização construtiva é evidente nos anexos que aí existem, embora não muito visíveis pois cobertos de vegetação infestante. Embora não seja visível pelo excesso de mato, é possível, a julgar pelo som que marulha das águas, a existência de um açude, que alimentaria a levada que acionaria os engenhos. Quanto ao modo de admissão de água, encontramo-nos perante um exemplar de um Moinho de roda horizontal de rodízio fixo à pela (uma vez que apenas seria usado no inverno, portanto não havia necessidade da sua mobilidade ao longo da pela)14. Segundo a classificação de Fernando Galhano no livro “Sistemas de Moagem”. INIC (1983); 14

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DESCRIÇÃO DO CASO EM ESTUDO: O ÚLTIMO MOINHO

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Eng. Inácio Vasconcelos, estudioso dos moinhos e Presidente da Associação dos Moinhos dos Rios Torto e Febras (Briteiros, S. Salvador); 15

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Perto do moinho, no pavimento em cimento irregular que conduz até à ponte de betão e por onde se acede às construções, estão duas mós, que se julga pertencerem a este moinho. Há sulcos moldados na argamassa de cimento que cobre o pavimento, para condução de águas pluviais, que porventura numa situação de necessidade e “desenrasque” foi executado, tendo aí permanecido. Este é um indicador de que os espaços exteriores carecem de soluções para escoamento e condução das águas pluviais. O exposto foi o que se apurou na visita ao local; a sua especificidade e história, no entanto ainda não se encontra apurada, pois como refere o Eng. Inácio Vasconcelos, no seu livro Moinhos e Moleiros (2009), “(...) não se encontram dois moinhos iguais pois cada um tem a sua história, que está ligada à família que o construiu e integrou no local que entendeu ser o mais adequado.”15

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UMA INTENÇÃO DE PROJECTO

Eng. Inácio Vasconcelos, estudioso dos moinhos e Presidente da Associação dos Moinhos dos Rios Torto e Febras (Briteiros, S. Salvador); 16

UMA INTENÇÃO DE PROJECTO Depois das descrições anteriores acerca da questão molinológica e suas especificidades, procede-se de seguida a um relatório de intenções para o projeto em análise. O programa para o edifício é constituído por: moinho (repondo a sua função original), cozinha regional, instalações sanitárias de apoio e um espaço amplo. É intenção a recuperação do edifício tanto na sua função original como no que se refere aos sistemas construtivos de origem, retirando tudo o que for acrescento ou excesso, como os anexos no alçado tardoz, ou materiais que surgiram em substituição de outros e que não sejam considerados os mais adequados. Numa intervenção que se pretende de baixo custo e de poucos recursos, pretende-se intervir o mínimo, apenas para que seja possível assegurar as condições necessárias de modo a que se estabeleça e possa funcionar o programa para aqui previsto. Relativamente ao caminho de servidão, em continuidade com a Rua dos Moinhos em direção à ponte, em cimento, material impermeável, deverá ser reformulado, por forma a criar uma maior permeabilidade e promover melhores acessos à área em questão, tendo em consideração as águas pluviais que nesta zona, pelo declive do terreno deverão atingir grandes velocidades, adivinhando-se a ocorrência de enxurradas. Todo o conjunto aparenta estado de conservação razoável - não aparenta infiltrações a nível de cobertura. Para a área adjacente ao rio e a este relacionada, será necessário aferir a necessidade de estabilização das margens da ribeira nomeadamente nos locais onde possa existir maior risco de erosão. Paralelamente, terá de ser feito um estudo para uma manutenção natural e

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sustentável de todos os espaços exteriores anexos ao moinho. Para o efeito poderá recorrer-se à ajuda de animais/gado caprino -da responsabilidade de quem vier a tomar conta do moinho - que naturalmente executarão essa tarefa. Também será da responsabilidade do moleiro (ou de quem tomar conta deste espaço) a manutenção dos caminhos de acesso e arranjo e limpeza das levadas. A pretensão é que seja requalificado todo este espaço que se desenvolve ao longo das margens da ribeira até ao terreno confrontante a norte, (ligando ao novo equipamento público das piscinas), promovendo um percurso num enquadramento natural e paisagístico que poderá ter grande interesse histórico, arqueológico, social e etnográfico, procurando aliar a tradição à contemporaneidade numa perspectiva de desenvolvimento local. Relativamente ao moinho, recuperá-lo na sua função original promovendo uma economia sustentável, possibilitando a reabilitação de profissões em desuso e a divulgação e propagação de saberes (quase) perdidos ou em sério risco de desaparecimento. Numa perspectiva mais abrangente, encetar uma tarefa necessária e urgente que será promover a valorização e salvaguarda do património molinológico do concelho numa tentativa de reverter o longo processo de contínua descaracterização que estes têm vindo a sofrer, pois “Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos levou.” 16


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BIBLIOGRAFIA Costa, Padre António Carvalho da. Corografia Portugueza e Descripçam Topográfica do Famoso Reyno de Portugal com as notícias das fundações das cidades, Villas Y Lugares, que contém; Varões Illustres, Genealogias das Famílias Nobres, fundações de Conventos, Catalogos de Bispos, antiguidades, maravilhas da natureza, edifícios Y outras curiosas observaçoens. Tomo Primeiro. Lisboa 1706; Costa, Francisco da Silva. O Papel dos Moinhos no Aproveitamento Hidráulico das Águas Públicas do Rio Ave. Um Contributo na Perspectiva do Património Histórico Ligado à Água. Outubro 2008; Costa, Francisco da Silva. Paisagem e Património ligado à Água. Uma perspectiva do Rio Ave no início do Séc. XX; Cunha, Pároco Francisco Teixeira da. Guimarães. Inquérito Paroquial de 1842. in Revista de Guimarães, nº 108, 1998. pp.411-417. Ed. Centro de Estudos do Património da Casa de Sarmento; Marques, José. A Assistência aos Peregrinos no Norte de Portugal na Idade Média, Separata de Congresso Internacional dos Caminhos Portugueses de Santiago de Compostela. (Actas); Pereira, Benjamin, Veiga de Oliveira e Galhano, Fernando. Sistemas de Moagem. Tecnologia Tradicional Portuguesa. Instituto Nacional de Investigação Científica.

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Dossier O Último Moinho - Abordagem Histórica e Intenção  

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