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os 13 anos de idade, após a leitura de um romance sobre a vida de meninos que viviam abandonados em uma praia em Salvador, resolvi que quando crescesse trabalharia para ajudar crianças em situações semelhantes àquela. De lá pra cá, muita coisa mudou na minha vida, mas o desejo permaneceu. Descobri, nessa caminhada, pelo menos dois grandes obstáculos trabalhando contra o meu desejo de ajudar os outros: o egoísmo e a arrogância. O egoísmo me incentiva sempre a proteger o meu espaço, a minha família, o meu tempo e os meus bens. Para vencê-lo procuro lembrar as palavras de Jesus citadas por Paulo: “Mais bem-aventurado é dar que receber” (At 20.35). Já a arrogância... ah, esta é pior. Ela me convence de que sei exatamente o que aquela pessoa precisa. “É claro que a dona Luiza precisa de roupas e cesta básica.” Nem passa pela minha cabeça perguntar, e assim ela não tem a chance de dizer que gostaria muito que eu ajudasse seu filho com uma prova de inglês que terá na escola. É essa arrogância que não me permite perceber que a nossa relação se transforma à medida que a trato como uma pessoa “carente” e não como uma irmã em Cristo, na qual habita o Espírito Santo e a quem ela ouve e obedece (talvez muito mais do que eu). Contra a arrogância é necessário o arrependimento, a descoberta de que também preciso de ajuda e o reconhecimento de que a generosidade humana é uma via de mão dupla. Da mesma forma como é importante ter o privilégio de ajudar hoje, é importante para a pessoa ajudada poder retribuir lá na frente. “Quem dá a beber, será dessedentado”, diz o Provérbio (11.25). É assim que construímos relacionamentos dignos. A melhor forma de ajudar é aquela em que os que dão e os que recebem se relacionam em crescente admiração e respeito uns pelos outros. Eles vez por outra trocam de lugar e de papéis como se a vida fosse uma ciranda. O trabalho social focado no desenvolvimento comunitário favorece esse tipo de relacionamento e foi por isto que escolhemos o tema para a vigésima primeira edição de Mãos Dadas (nº 20)! E por falar em Mãos Dadas, aqui cabe uma palavrinha sobre quem somos: somos mãos que dão de si para os outros, mas somos também mãos unidas que se apóiam mutuamente, somos via de mão dupla! Elsie Bueno Cunha Gilbert


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hegamos em São Gabriel da Cachoeira, AM, em 1991, para trabalhar com o povo Dâw. De segunda a sexta ficávamos na aldeia, mas nos finais de semana, meu marido e eu freqüentávamos uma igreja evangélica na cidade, inclusive lecionando para jovens e adolescentes. Foi lá que conhecemos Leonízia, na época com 14 anos de idade. Ela e a mãe, uma índia Tukano, eram evangélicas, mas seu pai, um índio Piratapuya, nunca quis saber do evangelho. Além disso, por causa do uso abusivo de bebidas alcoólicas causava sérios problemas para a família. Certo dia, bêbado, sofreu um acidente fatal. Poucos anos depois dois dos irmãos de Leonízia também morreram nas mesmas circunstâncias. Freqüentemente ela estava em nossa casa, não só me ajudando com Daniel e as tarefas da casa, mas também no ministério. Por várias vezes ela e a prima me ajudaram a organizar Escolas Bíblicas de Férias na aldeia dos Dâw. Mais tarde, eu fui sua professora de filosofia da educação no curso de magistério. Ela era uma das melhores alunas da turma. Foi escolhida como líder de classe e todos a respeitavam muito. Quando estava para terminar o curso, estagiou na escola da comunidade. Ela participou conosco no início das mudanças ocorridas entre os Dâw. Desenvolvíamos pesquisas e atividades de prevenção relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas nas populações indígenas. Anos mais tarde comprovou a diferença na vida daqueles que no passado ficavam caídos embriagados pelas ruas da cidade. Terminado o magistério, Leonízia manifestou o desejo de fazer um curso bíblico. Elias e eu indicamos o Seminário Bíblico Palavra da Vida. Oramos, ajudamos nos contatos, e ela conseguiu fazer os cinco anos do curso teológico. Não foi um tempo fácil, pois tudo era muito desafiador: a comida era diferente, o clima era outro e o jeito das pessoas também. Mas ela venceu e ainda completou o curso da Missão ALEM (Associação Lingüística Evangélica e Missionária) em Brasília. Depois, recebeu um convite para servir a Deus no Timor Leste, onde ficou pouco mais de dois anos. Ela conta que, em todas essas experiências fora de São Gabriel da Cachoeira, Deus a quebrantou e a fez amadurecer, preparando-a para voltar.

Em 2005, voltou para São Gabriel da Cachoeira e está trabalhando no Projeto Amanajé, com A Missão de Evangelização Mundial (AMEM), ministrando na Igreja Evangélica Indígena Tukano. Deus lhe tem dado oportunidades de consolar as crianças e adolescentes daquele bairro. Ela se identifica com eles. Muitos passam pelas mesmas situações que ela passou, como ter de dormir fora de casa porque seu pai e irmãos estavam bêbados e violentos. Leonízia não só tem conseguido superar os traumas que sofreu quando criança, mas está aprendendo cada vez mais a compartilhar e ajudar crianças em situação de risco. ___________________________________________ Lenita de Paula Souza Assis é casada com o missionáriomédico Elias Coelho de Assis e mãe de Daniel. É mestre em sociedade e cultura pela Universidade Federal do Amazonas e trabalha com indígenas há 28 anos.


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screvo estes pensamentos aqui do Vale da Bênção, nesta noite fria, no silêncio da minha casa, no meio da noite. Todos dormindo. Eu e Deus. E uma vontade imensa em meu coração de ser um apaixonado pelo Senhor. Estou cercado nesta noite por muitas necessidades. Assistimos crianças e adolescentes que por várias razões perderam o vínculo familiar. Centenas. Ajudamos a recuperar ex-viciados. Preparamos obreiros em nosso seminário. Sustentamos missionários nos campos. É muito trabalho! Precisamos de muitos recursos, tanto financeiros quanto humanos. Mas, em meu coração, no meio desta noite fria, só eu e Deus, proponho-me a confiar nele, a amá-lo, fazer dele o centro das minhas preocupações. Ele cuidará de tudo, melhor do que eu. Muito melhor. Será que Deus é a pessoa mais importante para mim e para você? Há outras pessoas que são mais importantes para nós? Será que passamos no teste de Jesus? Ele disse: “Todo aquele que quer ser meu seguidor deve amar-me bem mais do que ao seu pai, e mãe, esposa, filhos, irmãos ou irmãs — sim, mais do que a própria vida; caso contrário, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.26, A Bíblia Viva). Isto significa buscar o seu reino e a sua justiça em primeiro lugar. Significa amar a Deus de todo o

coração, de toda a alma, e com todas as forças. Deus em primeiro lugar. Deus como a nossa preocupação maior. Deus, o nosso prazer, a nossa alegria, a nossa motivação.

Deus cuidará de nós Estamos tão ansiosos sobre o que precisamos – dinheiro, casa, comida, roupa –, que sobra pouco espaço para Deus. E pouco tempo. Invertemos assim a ordem das coisas: a nossa maior preocupação é como cuidar de nós mesmos. Jesus nos diz que precisa ser de outro jeito. Que devemos nos relacionar corretamente com Deus primeiro. Manter esse relacionamento como a nossa grande preocupação. A preocupação com as outras coisas só terá lugar se Deus estiver ocupando o primeiro lugar em nossa vida. Ao invertermos a ordem, passamos a fazer o papel de Deus – o de nos sustentar, o de manter a nossa vida; e ainda deixamos de fazer o nosso – o de desfrutar das suas bênçãos e da sua companhia! Ele diz que devemos ser como os passarinhos. O Pai Celeste os alimenta. Ele cuida também dos lírios do campo. Jesus diz: “Se Deus cuida tão maravilhosamente das flores... será que Ele não vai, com toda a certeza, cuidar de vocês?” A resposta é SIM. Sim, Deus vai cuidar de nós. Ele acrescentará as


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demais coisas. Nós o amaremos de todo o coração e ele cuidará de nós. A pessoa que está se afogando age de forma irracional: ou ela fica se debatendo e não segura na corda que lhe é atirada, ou agarra-se à pessoa que entra na água para salvá-la de tal forma que ambas correm o risco de se afogarem juntas. Falta ao que está se afogando a confiança de que o socorro virá. Por que não fazemos como nos é ensinado no Salmo 37? “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e o mais Ele fará.” Que Deus nos ajude! Que o amemos de todo o nosso coração. Que possamos buscar o seu reino e a sua justiça em primeiro lugar. Que Ele seja a nossa primeira preocupação. Que Ele ocupe o primeiro lugar em nossa mente. As demais coisas nos serão acrescentadas. Ele nos promete até... águas tranqüilas! (Salmo 23.2.)

r. Hugh Clarence Tucker (1857-1956), missionário metodista no Brasil e por muitos anos secretário da Sociedade Bíblica Americana, era um homem apaixonado pelo serviço ao semelhante. Ele, sua esposa e sua filha sofreram de febre amarela. Tendo lido sobre o trabalho do dr. Walter Reed no saneamento de Cuba, Tucker pôs o dr. Osvaldo Cruz em contato com Reed e outros nos Estados Unidos, e serviu de intermediário entre os dois durante a campanha de saneamento que livrou o Rio de Janeiro dessa doença (1903-1908). Foi a mola propulsora na fundação do Hospital dos Estrangeiros e, depois, do Hospital Evangélico, no Rio de Janeiro. Sem dúvida, porém, o maior monumento do seu trabalho social foi o Instituto Central do Povo, o primeiro centro social a ser organizado no Brasil. O centro nasceu em resposta às necessidades dos habitantes da favela da Saúde e Camboa, muitos deles operários que trabalhavam na remoção do Morro do Senado e na construção do porto. Colportores da Sociedade Bíblica Americana, sob direção de Tucker, vendiam Bíblias entre esses operários. Um grupo desses se reunia na hora do almoço para a leitura do Novo Testamento. Para atender esse grupo, Tucker alugou um salão e iniciou o trabalho que viria a se tornar mais tarde o Instituto Central do Povo (1906). Esse instituto funciona ainda hoje no Rio de Janeiro e, entre outras ações sociais, atende anualmente 300 crianças no programa de educação infantil.

Nota * Retirado de História documental do protestantismo brasileiro, de Duncan Reily. (São Paulo, 1984. p. 282)


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esenvolvimento comunitário é uma forma de ajuda que reconhece o potencial de um grupo de pessoas e busca soluções com elas, e não para elas. Na prática, o desenvolvimento depende muito mais da comunidade e suas instituições (igrejas, escolas, associação de moradores, governo, etc.) do que de algum programa, investimento ou iniciativa de uma organização de fora. O conteúdo, a matériaprima do desenvolvimento, está dentro da comunidade. O produto final não se mede apenas em termos econômicos ou materiais. Há uma mudança nas relações interpessoais na comunidade e na forma desta se ver diante do restante da sociedade. É um avanço de cabeça erguida, não de mão estendida. No final, as pessoas se sentem donas de si mesmas, conhecedoras de seus problemas e motivadas a buscar soluções próprias. Dois exemplos. Dois lugares bem distantes um do outro. Duas duras realidades. A primeira: cidade do Rio de Janeiro. Complexo do Lins. Muita água e pouca estrutura. A segunda: Mãe D´Água (sertão da Paraíba). Comunidade Escondido. Muito sol e pouca água.

Fruto bom de Árvore Seca Morro Árvore Seca. Complexo do Lins, 1986. Um grupo de cristãos católicos se reunia para estudar a Bíblia, quando percebeu a necessidade de fazer algo mais pela comunidade. Com outras pessoas, procuraram saber qual era a principal necessidade do morro, que pudesse ser realizada pelos próprios moradores. Todos concordavam que pais e mães precisavam trabalhar. Mas muitas mães não podiam, porque não tinham


com quem deixar seus filhos. Outras trabalhavam, e Vidas secas e Água da Vida para isso deixavam as crianças sozinhas em casa, às vezes trancadas o dia todo. Eles concluíram que a maior Comunidade Escondido. Município de Mãe D’Água, necessidade da comunidade era um lugar seguro para as no sertão da Paraíba (o estado mais pobre do Brasil, crianças ficarem enquanto as mães trabalhavam. segundo dados do IBGE). Apesar do nome, água lá é A partir de então, algumas mães e avós passaram a, coisa rara. voluntariamente, receber e cuidar de crianças entre 2 e Todos os dias, mulheres e crianças de Escondido 4 anos em uma casinha no alto do Morro, enquanto as tinham de andar mais de sete quilômetros debaixo do outras mulheres trabalhavam ou procuravam emprego. sol para pegar água no poço mais próximo. Devido Chamaram o lugar de Creche Chameguinho. Dois anos à monocultura do fumo em grande escala, os poços depois, em 1988, uma chuva muito forte acabou com a secavam freqüentemente o que levava a população a estrutura da casinha. A creche inundada foi interditada esperar até que o poço enchesse novamente para então pela Defesa Civil. encher suas latas e voltar à suas casas. Para resolver o problema, a comunidade se reuniu Há alguns anos, essa situação mudou. Os moradores novamente e decidiu buscar ajuda de outros grupos conheceram o trabalho da Ação Evangélica (ACEV) da sociedade. O pessoal do círculo bíblico pediu apoio e pediram sua ajuda. A ACEV conversou com a na Paróquia de São Tiago Apóstolo, que para ajudar comunidade, forneceu o apoio técnico fundou a Ação Comunitária Sal da Terra. e financeiro para que fosse cavado um Raramente Com registro e CNPJ, eles puderam então poço. A comunidade doou um terreno e pedir auxílio financeiro para a prefeitura e é necessário ajudou na construção. A sondagem foi instituições privadas. começar do zero, feita por empresas contratadas e o teste Uma das voluntárias da creche mas em todos os de qualidade da água, por técnicos da pediu ajuda à Escola Municipal Lins de Universidade Federal de Campina Grande. Vasconcelos, que alojou a creche por casos é necessário O doador do terreno foi Severino três anos. Outra voluntária fez contato Sezário, mais conhecido como Seu Pio. unir forças com uma empresa local que bancou a Ele está muito satisfeito com o resultado: construção de uma nova creche. Em 1993, “Nunca vimos algo assim. A ACEV não a Creche Chameguinho foi reinaugurada. cobrou nada. A minha mulher e os meus O fruto brotou de Árvore Seca, mas atualmente fi lhos e todos estão mais felizes”. O poço serve a 48 atende meninos e meninas de todo o Complexo do famílias de Escondido e é equipado com bomba elétrica, Lins. São 55 crianças de 2 a 4 anos, que permanecem um tanque de 5 mil litros e bebedouro para os animais. lá de 7 às 17 horas. “A gente ainda se reúne, discute as Em qualquer lugar, coisas boas acontecem quando necessidades, se precisa de mais vagas, se precisa de uma comunidade olha para si mesma, percebe sua mais anos de atendimento”, informa Ana Maria Sousa necessidade e tenta fazer algo. Raramente é necessário da Silva, diretora da creche há 13 anos. começar do zero, mas em todos os casos é necessário Hoje, seus funcionários são registrados, ela recebe unir forças. E esse tipo de trabalho, o de unir forças, subvenção da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro e potencializa o que há de melhor nas pessoas: a sua é parceira da ONG Visão Mundial, através do trabalho dignidade. do Programa de Desenvolvimento de Área Amigos Para Sempre, e está integrada na rede de defesa da criança por meio do Conselho Municipal ___________________________ de Defesa dos Direitos da Criança e Tábata Mori é assistente de comunicação Adolescentes (CMDCA). da Rede Mãos Dadas.


Vá às pessoas Viva entre elas Aprenda com elas Ame-as Comece com o que elas sabem Construa no que elas têm Mas dos melhores líderes Quando a sua tarefa é cumprida E o seu trabalho é feito O povo todo vai dizer: “Fomos nós que fizemos” (Poema Chinês)

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programa vai depender da realidade local, mas, qualquer que seja a linha de ação a ser utilizada, os princípios gerais permanecem imutáveis e são inspirados no caráter de Deus: amor ao próximo, serviço incondicional, compaixão e solidariedade, ênfase nos relacionamentos, foco no beneficiário, valorização do próximo, excelência, entre outros. Em última análise, o que queremos é a sinalização do reino de Deus na Terra: um crescimento rumo às intenções de Deus para indivíduos, famílias e comunidades, em todos os níveis e em todas as esferas da vida.

A ajuda cristã: uma ação profética e sábia

desenvolvimento comunitário é uma A ação de intervenção social cristã deve ser sábia, isto é, das estratégias mais efetivas de alcance deve trabalhar para que as pessoas alcançadas cheguem e transformação das comunidades. Permite o ao mais alto ideal de Deus para as suas vidas. O centro enfrentamento dos problemas sociais na sua origem, de ação, portanto, não está no “doador”, mas sim no atuando na complexidade das relações em uma “beneficiário”. Da mesma forma, esta ação não deve comunidade e buscando na família seu foco principal ocorrer de forma indiscriminada, desprovida de um de intervenção. É esta estratégia que traz os resultados mais significativos e duradouros em termos de mudança diagnóstico, um plano de ação efetivo, monitoramentos e avaliações de impacto. social. Porém, ela exige um compromisso de longo Quando nos propomos a realizar uma ação de prazo e a capacidade de promover o envolvimento e intervenção em uma comunidade, devemos nos a participação da comunidade, motivando o povo a perguntar o que aquele contexto requer, quais seriam as caminhar rumo a um processo de transformação. estratégias de ação mais adequadas, e quais resultados No desenvolvimento comunitário, podemos agir queremos obter. Em outras palavras: não basta querer de forma relevante com projetos ajudar. Acredito que é justamente nas mais diversas áreas: educação A ação social cristã deve ser pela falta desse entendimento de qualidade, geração de renda, sábia, deve trabalhar para sobre os processos de intervenção arte, cultura, lazer, saúde coletiva, que alguns projetos têm profissionalização, alfabetização que as pessoas alcancem o social um cunho assistencialista, um de adultos, igualdade racial e de mais alto ideal de Deus para olhar “de fora”, sem provocar gênero, arranjos produtivos, meio as suas vidas. O centro de transformação efetiva na ambiente etc. A estratégia de cada ação, não está no “doador”, realidade das comunidades.

mas sim no “beneficiário”


Da mesma forma, a verdadeira ação social cristã, por mais simples que seja, é profética, pois aponta para uma realidade do reino de Deus, restaurando o Governo dele e a Vontade dele. Ela gera vida e transformação, e não apenas satisfaz uma necessidade imediata. Nesse sentido, é importante compreender os diferentes tipos de ajuda que podem ser empreendidos em um esforço pela transformação da realidade. Esta compreensão vai nos ajudar a utilizar as estratégias adequadas, dependendo de cada situação e contexto, e a esperarmos os resultados corretos. Não queremos tropeçar em um idealismo romântico nem (o que é ainda mais importante) gerar na comunidade expectativas que nunca serão satisfeitas.

Entendendo o desenvolvimento Veja no quadro abaixo três diferentes tipos de ajuda: a assistência ou socorro emergencial, a reabilitação ou reconstrução, e o desenvolvimento ou transformação. Cada um destes processos tem o seu lugar e deve ser empregado de acordo com a necessidade do momento e do contexto.

O desenvolvimento comunitário, ou transformação, é o processo mais complexo e de longo prazo. Seu alvo é levar as pessoas ao ponto em que elas passam a trabalhar em seu próprio favor. Para que uma ação seja bem-sucedida, é necessário o compromisso com um processo de mudança em que o “doador” se comporte tão-somente como um facilitador. Após o conhecimento profundo da realidade comunitária, o facilitador atuará juntamente com a comunidade, na resolução dos problemas e no desenvolvimento do potencial que já existe. Palavras e conceitos como diagnóstico, interação, facilitação e participação, são fundamentais para a compreensão deste processo.

É melhor prevenir! O desenvolvimento comunitário é uma estratégia que almeja resultados duradouros e alavanca processos de mudança e transformação. Mas a essência do trabalho de desenvolvimento é a prevenção, o que significa agir no seio da comunidade carente, tendo a dinâmica familiar como base, para que os problemas sociais mais agudos sejam evitados. Esta compreensão é de


grande importância atualmente, já que quando se fala em ministérios de ajuda, a ênfase geralmente recai em trabalhos de recuperação ou assistência. Trabalhar de forma preventiva traz resultados melhores e, além de tudo, tem custos menores. Ir às comunidades para atuar como um agente facilitador de transformação é uma forma de refletir o modelo da encarnação de Cristo, sinalizando que o reino de Deus já é chegado a nós.

Começando pela família Constitui um dos princípios importantes da nova Política Nacional de Assistência Social a chamada matricialidade sócio-familiar, ou seja, a escolha da unidade familiar como ponto principal de intervenção. A antiga visão de atuar por faixas etárias se provou incapaz de dar conta da complexidade das relações e dos problemas sociais em nossas comunidades. A família, célula por excelência e local adequado para o pleno desenvolvimento das nossas crianças e adolescentes, deve ser cuidada, protegida e fortalecida, em meio à complexidade dos seus vínculos sociais e comunitários. O desenvolvimento comunitário é a estratégia que vai buscar as famílias nas suas mais variadas esferas de sociabilidade (lazer, cultura, trabalho, educação, saúde etc.), respeitando os seus diferentes arranjos e valores.

Utilizando os recursos da própria comunidade A crença de que o ser humano, ao refletir a imagem e a semelhança do Criador, é o principal recurso para o desenvolvimento e a transformação é um dos pilares

da nossa intervenção. Muitos dos recursos materiais e humanos para o desencadeamento de um processo de mudança já estão nas comunidades! Essa abordagem vai evitar a tentação de trazermos somente recursos de fora, colocando os “assistidos” apenas como receptores de ajuda. É alvo de um programa de desenvolvimento o levantamento de lideranças locais e a formação de pessoal capaz de levar adiante a visão iniciada pelos líderes. Comunicar ao povo uma visão a ser perseguida é um dos pontos mais importantes para o sucesso de um programa social de desenvolvimento, que deve procurar sempre a formação de uma liderança local, comprometida com a comunidade, e com os resultados do programa de intervenção. Os líderes procurarão o envolvimento ativo das pessoas naquilo que podemos chamar de processo de “empoderamento”, que é, portanto, mais do que fazer coisas para os outros, é fazer com eles. Desenvolver comunidades significa trabalhar para o sucesso dos outros, ajudando-os a crescer rumo às intenções de Deus para eles e para a comunidade. _______________________________________________ Maurício Cunha, casado com Aline e pai de Natália, é administrador de empresas e engenheiro agrônomo. É o fundador e atual presidente do CADI – Centro de Assistência e Desenvolvimento Integral, no Paraná.


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que uma igreja local é capaz de fazer contra a violência? É difícil responder quando esta violência faz parte da cultura da sociedade ou quando ela está escondida dentro de casa. Seria, na verdade, impossível se a igreja local não fosse chamada por Jesus Cristo para um ministério de reconciliação (2 Co 5.18-19).

violência. O coordenador do programa, pr. Hernando Padilla, lembra como foi difícil receber um ex-combatente de conflito armado em sua igreja em 1999: “Alguns membros não concordaram e decidiram abandonar a igreja. Mas os membros que ficaram foram preparados para aceitar as novas pessoas”. Além disso, outro problema é que os pastores e líderes que lutam pela paz na Colômbia realmente correm risco de morte. Mais de 40 pastores foram mortos em 2003, segundo a ONG Sal y Luz. A idéia dos Santuários de Paz surgiu do Antigo Testamento, onde é narrado que algumas cidades eram designadas como refúgios para pessoas perseguidas e lugares onde poderiam receber consolo e ânimo. “Da mesma maneira”, diz Jenny Mene, co-diretora de Justapaz, “o modelo se baseia em reconhecer que Jesus Cristo mostrou ao mundo seu evangelho de paz, e o temos como alternativa cristã para a violência”. E Jenny afirma também: “Estamos ajudando as igrejas a responderem de maneira integral à realidade violenta do nosso país”.

Paz contra a violência em casa Outra iniciativa semelhante acontece no Chile. Inspirados no exemplo da Colômbia, o projeto de mesmo nome já Na Colômbia, país de conflitos armados e outros existe há mais de três anos e também pretende tornar as problemas de violência, há um exemplo do que igrejas “santuários de paz”, ambientes de segurança. Quem a igreja local pode fazer em favor da paz. São os coordena o programa no Chile é a Fraternidade Teológica Santuários de Paz, um ministério iniciado pela Latino-Americana. Igreja Menonita da Colômbia e do Centro Cristão Segundo Freedy Paredes, coordenador de planejamento para Justiça, Paz e Ação Não-Violenta da Colômbia e execução do projeto, o objetivo era que as igrejas fossem (Justapaz), com sede em Bogotá. O programa, a primeira opção de acolhimento para as existente há mais de 10 Para isso, elas realizam oficinas de O que uma igreja local vítimas. anos, reúne pessoas, igrejas e capacitação e manifestações públicas pelo é capaz de fazer contra bom trato da criança. Toda igreja que adere comunidades de todo o país para desenvolver ações nãoao projeto recebe o selo “Santuário de Paz”. a violência? Muita violentas. Essas ações incluem, coisa, se ela seguir o Com isso, ela passa a usar a logomarca na entre outras, aulas em escolas, identificação do templo e é reconhecida pela modelo de Jesus vigílias de oração, construção comunidade como lugar de refúgio. de espaços para diálogo e A particularidade da iniciativa no Chile oficinas de capacitação para pastores e líderes de é o foco: combater a violência dentro das famílias e o abuso regiões atingidas por guerrilhas, narcotráfico e infantil. As parcerias com os governos locais e com outras violência contra as crianças. organizações formam uma rede consistente de proteção das A igreja que decide participar do programa é crianças. declarada “Santuário de Paz”, e como tal, entre A experiência-piloto foi em 2005 no município de outras ações, oferece acolhida às vítimas de Conchalí, em Santiago, e conseguiu envolver quatro igrejas

Paz contra a cultura de violência


e a população em geral. Atualmente, o projeto está atuando no município La Florida (região metropolitana de Santiago) e reúne cinco igrejas evangélicas, além da prefeitura. “Santuários é um projeto que está mudando a realidade das igrejas, das famílias e da sociedade no contexto em que se desenvolve. Cremos firmemente que o Senhor está abrindo a visão da igreja evangélica, e levando-nos a entender que nossa missão passa pela reconciliação integral de todos e todas, especialmente no contexto onde acontece a violência contra os que não podem se defender”, afirma Paredes. Se as igrejas locais obedecem aos mandamentos de Deus e utilizam seus dons diligentemente, elas recebem uma capacidade surpreendente de preservar os valores do reino e iluminar os relacionamentos escurecidos pela violência. Qualquer semelhança com “sal” e “luz” não é mera coincidência.

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ão faz muito tempo, a violência era pensada exclusivamente como defesa da ordem pública e contenção repressiva da criminalidade, sendo, portanto, de responsabilidade exclusiva do Estado e de seu aparato. Felizmente, cada vez mais a segurança e a vida são reclamadas como direitos humanos. As principais declarações, pactos e convenções internacionais afirmam categoricamente esse direito e exigem seu atendimento. A Constituição de 1988 destaca o direito à segurança e à vida como garantias fundamentais e invioláveis aos quais cabe o Estado brasileiro respeitar (Art. 5º.). A criação de espaços institucionais como delegacias e promotorias especializadas, disque-denúncias, conselhos de defesa de direitos, secretarias especiais e campanhas públicas são os sinais dos novos tempos, conseqüência do trabalho e mobilização de diferentes atores que se aliam para construir bases jurídicas (ECA, Estatuto do Idoso, Estatuto do Desarmamento, Lei Maria da Penha) e desenhar políticas públicas que contemplem prevenção, proteção, reparação e punição. As igrejas evangélicas devem ser aliadas de primeira hora desses novos processos, empenhando-se na defesa da vida e na promoção da paz. Faz parte da vocação da igreja denunciar a violência e a omissão do Estado, acolher e proteger as vítimas e ser espaço de construção da esperança ao fazer avançar a cultura de paz e fortalecer mecanismos de resolução não-violenta de conflitos. O exemplo de Santuários de Paz demonstra que isso é possível. _________________________________________________ Flávio Conrado é sociólogo e pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER).


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chamos que a cruz é a vitória do diabo e que a e justiça realizados pela igreja de Jesus Cristo. Uma ressurreição é a vitória de Deus. Não percebemos diaconia batizada pela graça é um via de realização de a mensagem da cruz como espaço da ação de Deus, mão dupla. Quem tem acesso aos bens necessários à tanto quanto a ressurreição. A cruz é o sinal da graça, da vida socializa, pela graça, esses bens e desfruta, pela bondade e do amor de Deus mesma graça, dos bens virtuosos dos pobres. Os Às vezes usamos cruz e ressurreição como coisas pobres têm me ajudado a entender melhor os códigos opostas. Porém, na cruz há triunfo do amor, da vitória, do evangelho. Eles têm tornado mais fácil para eu da não-vingança. Há triunfo do altruísmo de Jesus, compreender a manjedoura e por que Jesus entrou em há triunfo daquele que não se faz de vítima e acolhe Jerusalém montado num jegue. aqueles que estão ao seu redor. Deus não age com base A partir dessa prática de serviço do Senhor, no jeito de ser do outro, mas sim nos podemos pensar em filantropia, atributos e nas virtudes dele mesmo. na educação, nas associações, nas Não reprovo que a Não reprovo que a igreja coloque cooperativas de comércio solidário, igreja coloque uma cruz uma cruz no templo, desde que na promoção da justiça, na defesa das no templo, desde que pessoas à margem da sociedade, na aquela considere o que esta diz: Levo comigo a possibilidade de morte. O aquela considere o que luta contra a exploração sexual infantoamor é santidade e serviço; não é esta diz: Levo comigo a juvenil e o abuso de crianças em suas apenas um sentimento profundo, mas próprias casas. possibilidade de morte também capacidade de entrega total. Somos uma gota d’água sobre A marca da santidade da igreja está na um oceano de problemas, mas sua capacidade de amar. “Nisto, conhecerão todos que inevitavelmente a base da nossa missão social é o amor. são meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” Fomos alcançados pelo amor de Deus, e como refluxo (Jo 8.31). queremos amar uns aos outros. “Mas Deus prova o Seu Comunicamos o amor de Deus com palavras e com próprio amor para conosco, em que Cristo obras. E o paradigma disso é a graça. Uma diaconia Jesus morreu por nós, sendo nós ainda (serviço) fundamentada e inspirada pela graça não pecadores.” Esse versículo diz alimenta expectativas de troca. Quem ama age por respeito ao amor de Deus conta dessa fonte inesgotável dentro de si mesmo. por nós, mas também é Os empobrecidos, espoliados e injustiçados não um desdobramento na se tornam devedores dos serviços de misericórdia nossa vida.



Ed.20 Desenvolvimento comunitário