Issuu on Google+

O Espigão e suas janelas – possibilidades no vazio


O Espigão e suas janelas – possibilidades no vazio

Existem muitos modos de narrar um trabalho de pesquisa que fundamenta-se na experiência corporal dos lugares e na investigação teórica simultaneamente. Peço aos meus leitores que me acompanhem através desse processo, propondo iniciar a partir dos meus relatos escritos, onde narro minhas derivas pela região do Espigão da Paulista. A rua foi durante todo o tempo fonte inesgotável de informações, onde todos os assuntos posteriormente desenvolvidos se cruzam. Os relatos que, idealmente, devem ser lidos todos de uma vez, servem para aproximar o leitor dessas minhas experiências; tento demonstrar como esses percursos foram importantes para a construção de uma leitura territorial e paisagística. Após essa imersão inicial, sigo para a base teórica do meu trabalho, onde explico os principais conceitos suscitados pela errância. Dessas travessias pelo Espigão, surgiram também registros fotográficos, assim como análises múltiplas. Por fim, apresento uma análise gráfica das minhas percepções espaciais e chego à uma espécie de guia para como intervir nos espaços vazios da cidade que tem como maior virtude, a vista.


percurso n. 01 Minha primeira abordagem a esse território, como fonte de pesquisa não foi bem a primeira, não sou nova por aqui – marinheira de primeira viagem. Aliás, desconheço alguém que more ou tenha estado em São Paulo e não tenha por aqui passado. Então, continuando, minha primeira viagem a essa “ilha” com os olhos mais do que alertas aconteceu no inicio de julho de 2016. Confesso que por preguiça de sair por aí batendo perna e sem vontade de sair da minha zona de conforto automobilística, resolvi me enganar, convencendo-me de que a melhor maneira de dar o ponta pé inicial desse trabalho seria dando uma volta de carro, para que eu pudesse ter uma noção de sua extensão. Resolvi encurtar a viagem, iniciando-a cerca do cemitério da Lapa e prosseguindo até o inicio da Rua Vergueiro, o que inclusive acabou se tornando o meu recorte de Espigão – geógrafos consideram 13 km como sua extensão total. Conclui que se quisesse, até poderia atravessar tudo a pé de uma só vez, mas optei em realizar pequenas excursões mais demoradas e atentas aos diferentes trechos dessa “tripa”, a qual dá a impressão de cortar São Paulo, dividindo a cidade em duas margens, uma que se volta para as várzeas do rio Tietê, olhando para o local de surgimento da cidade, com a Serra da Cantareira ao fundo e outra que se volta para o outro rio, o rio Pinheiros, para as regiões sul, sudoeste e oeste da cidade, olhando para os bairros de Alto de Pinheiros, Pinheiros, Jardins, Paraíso e Vila Mariana. Dirigindo, percebo um ritmo e uma velocidade que não é a minha. Existe algo que me separa da rua. A distância entre mim e os elementos ao meu redor não é palpável, quando acho que vou conseguir agarrar alguma coisa com os meus olhos, no segundo seguinte, a cena é desfeita e novos elementos vão surgindo. Tudo é imediato e uma imagem mais global é impossível de ser formada e fixada. O que me salta aos olhos são os objetos que pontuam muito claramente o espaço, marcando essa paisagem. Antenas de rádio e televisão, placas de trânsito, vitrines, andaimes, gruas, passarelas de um edifício à outro, torres de abastecimento de água e um edifício ou outro funcionam como totens – menires contemporâneos. Esta paisagem comunica alguma mensagem, impulsiona e guia meu olhar através do tráfego. percurso n. 02 Minha segunda deriva se deu num trecho bem curtinho da Avenida Paulista – sai do Conjunto Nacional sozinha e segui até a Praça dos Arcos. Como tinha que encontrar uma pessoa no Conjunto Nacional, aproveitei para dar uma caminhada breve. Sinto que todas as vezes que passei por algum canto do Espigão, desde que iniciei meu trabalho, tudo me serve de material, tudo é incorporado – todas as sensa-

ções e percepções. Observar a paisagem que me envolve é um grande aprendizado para aqui e agora e, para depois. Dessa vez, parei num outro tipo de vazio – um vazio que é chão e teto ao mesmo tempo – os buracos do túnel, que sai da Paulista para voltar a imergir na Doutor Arnaldo. Só andando que eles podem ser percebidos e usufruídos, são intervalos no asfalto contínuo da cidade, respiros para os carros e para quem se apoia em seus guarda-corpos, deixando-se levar pela ausência da concretude física. percurso n. 03 “As cidades foram originalmente criadas para celebrarmos o que temos em comum. Agora, são projetadas para manter-nos afastados uns dos outros.” Richard Rogers Avenida Paulista. Três horas de caminhada. Fiquei uma manhã toda andando pelas suas calçadas. Nesse movimento de ir e vir, comecei a notar quais eram as decisões que meu corpo tomava para conseguir perceber aspectos que chamavam a atenção do meu olhar. Todos os sentidos conectados e em alerta. Do outro lado da rua, miro o Conjunto Nacional. Baixo os olhos, a torre imponente, baixo mais os olhos e um vazio diferente criado pelo recuo da torre em relação à seu embasamento surge, baixo ainda mais os olhos e penetro virtualmente aquele espaço. Desloco o olhar para a direita enquanto avanço para a faixa de pedestres. À meia altura, vejo a cidade ao fundo descer para o bairro dos Jardins; árvores e construções. Me volto para a linha do piso que conduz o caminhar, retomo meu percurso. Meu olhar dispersa e sobe 30 andares e mais alguns metros. Muitas antenas de televisão e rádio, formando uma rede. Chego mais perto, me detenho um pouco, recuo, olho para cima. Sigo andando, acelero o passo. Penetro uma amostra de mata atlântica no meio da cidade – o parque Trianon. Silêncio visual e sonoro. Atravesso a rua mais uma vez, paro, cruzo a faixa de pedestres e adentro um outro espaço – o Masp – ando e volto, paro alguns instantes e olho a faixa de cidade ao fundo. Não há distinção entre natural e urbano, não há vazios a serem preenchidos, toda linha do horizonte já foi ocupada. O azul do céu se contrapõe aos prédios. Avisto do outro lado da rua, um prédio sendo demolido. Paro, subo em cima da jardineira, levanto para tirar fotos. Atravesso a rua, paro, ergo a cabeça e olho para cima, olho para baixo, atravesso a rua de novo e vou embora. Continuo através da rua - o eixo criado pela pista de rolamento e pelos postes de iluminação impulsionam corpo e olhar, me levam para longe num movimento pendular. Adentro outro espaço – o saguão do prédio da Fiesp. Assim, vou seguindo. Coisas que noto na paisagem da Paulista: existem muitos pontos que fisgam nosso olhar e demarcam o espaço; edifícios com uma


arquitetura forte e antenas de rádio e televisão. Os vazios desse espaço se encontram em diferentes planos e ocasiões, como em obras em andamento, estacionamentos, no recuo de uma torre em relação a seu embasamento ou em relação ao seu lote – tudo isso ajuda a criar respiros nessa paisagem. Reparei que do lado ímpar da Avenida Paulista existem parques, como Trianon e Parque Mario Covas e construções mais baixas como a Casa das Rosas e o Museu da Diversidade, que liberam o plano vertical, de modo que o olho pode encontrar trechos de céu livre a seu nível. Em relação ao uso do espaço, são poucas as construções que se preocupam em criar uma área de permanência para os transeuntes. No entanto, quando essa medida é adotada é sempre muito bem sucedida. Quando são criados enclaves e as pessoas se apropriam desses espaços nas suas passagens, esses lugares criam oásis para a cidade; refúgios sonoros - o verde funciona como um bloqueio aos sons entorpecedores da metrópole apressada. Por fim, percebo que existem lugares que se combinam com outros, criando pares, os quais “olham” para diferentes lados da cidade, como é o caso do cruzamento da Avenida Bernardino Campos com a Vinte Três de Maio (Viaduto Santa Generosa), de um lado o corredor norte-sul e mais para frente o Ibirapuera, do outro lado, a Vinte Três com o centro ao fundo (bairros da Sé, Liberdade e Anhangabaú). Para o meu desgosto, chego à uma conclusão: não existem janelas para o horizonte e/ou para a cidade a partir da cota do térreo, do ponto de vista do pedestre. É preciso adentrar espaços privados e deslocar-se para suas coberturas ou andares mais altos para conseguir usufruir dessas vistas. Fora o Masp, não existem mirantes na avenida. A Paulista é um paredão de prédios na cota mais alta da cidade, de vários pontos distantes avistamos suas antenas e torres – menires para o olhar. Enclausurada nela mesma; ela dá as costas para a cidade? Começo a perceber nessas caminhadas que mais do que a arquitetura, me interessa mais como a cidade interage com seus habitantes, do ponto de vista da produção do espaço e de seu uso, marcando a memória e a imaginação coletiva. Como é ser cidadão? E como me relaciono com a minha cidade? percurso n. 04 No final de agosto, atravessei a avenida Paulista em toda sua extensão – 2,8 km. Sai da Rua Piauí em Higienópolis e segui pela Avenida Angélica até o cruzamento com a Avenida Paulista, virei a esquerda e caminhei de lá até a Praça Afradísio Vidigal, na Rua Vergueiro. O pensamento que me acompanhou durante todo o percurso foi como a morfologia de um terreno – se ele é reto, inclinado, curvilíneo, com obstáculos - implica em diferentes modos de percorrer esse espaço. Se é um espaço fluido, plano e amplo, sua malha ortogonal é percorrida de maneira mais objetiva e rápida, me detenho menos do

que em ambientes que sugerem um traçado urbano mais bem acomodado ao relevo do terreno, os quais, portanto, percorro “meandrando-me” pelo território. Como a coreografia criada nesse trajeto se inscreve no corpo e na mente? percurso n. 05 Em uma sexta-feira, no final de Agosto, fui até a Paulista, visitar a obra do edifício do Instituto Moreira Salles. A aula proposta por um professor de uma disciplina eletiva, de apoio ao trabalho final serviu como pretexto para essa nova aproximação. Pela primeira e única vez, minha ida à Paulista não se baseou em ficar divagando pela rua, mas em penetrar um espaço privado com possibilidade de observar as vistas a partir de uma cota aérea. O prédio, localizado no começo da avenida, quase no cruzamento com a rua da Consolação, permite enxergar algumas antenas e também a Praça dos Arcos e a Avenida Rebouças. Porém, o que mais me chamou a atenção foi um novo elemento que percebi nessa paisagem suspensa – a passarela entre os dois prédios na frente do IMS. Qual sua frequência e ocorrência? Comecei a imaginar intervir em todas as passarelas da Paulista, de modo a criar uma rede contínua de observatórios e mirantes públicos, que sejam espaços lúdicos e de contemplação. Como poder dar acesso à população para esses lugares inusitados; transportá-la da cota do térreo para uma outra elevada? percurso n. 06 Para testar algo novo, decidi mudar um pouco o jeito de me aproximar da região. Num fim de tarde de domingo, fui até a Paulista andar de skate. Foi a primeira vez que fui até essa nova orla de lazer em São Paulo. Como, além de percorrer o espaço de um jeito diferente, estava acompanhada, minha percepção mudou visivelmente – noto que fico mais distraída, menos atenta aos sentidos, prestando atenção mais se vou atropelar alguém do que no que está acontecendo na rua... Não preciso dizer que os dois vazios por excelência da avenida estavam sendo utilizados – a rua e o vão do Masp, claro. Os pontos mais ocupados coincidem com os marcos visuais – com os prédios mais notáveis – Masp, Conjunto Nacional, Gazeta/Casper Libero, Fiesp e outros mais aleatórios, mas que de certa maneira coincidiam com vazios visuais. (FOTO X) No meio do mar de pessoas, um show de forró acontece na frente de um prédio em demolição, com máquinas, poeira e detritos como cenografia – se planejada talvez não teria atraído tanta gente. É notável como a apropriação do espaço se transforma radicalmente e usos inusitados vão surgindo. A sensação que dá é de que a Paulista é encurtada conforme a quantidade de usos e a densidade


demográfica. A distância a ser vencida parece menor e percorrer seus 2.8km fica mais fácil. Como já estava escurecendo, fui embora até o bairro do Sumarézinho. No caminho de volta, andei até a Praça dos Arcos para depois seguir meu caminho através da Avenida Doutor Arnaldo. Bem na junção dessas duas vias fica a maior antena de comunicação da América Latina, a torre da Band, marcando a paisagem e comunicando a todos com suas luzes pirotécnicas (pedestres e motoristas) que ali acontecia alguma mudança, distinguindo e separando uma avenida da outra – dizendo aqui começa algo importante (aqui está a maior avenida de São Paulo!), e ali outra situação tem início. Da avenida movimentada e agitada, com muita gente circulando, passo à outra e a cena muda. Por ser tomada por carros e pouco habitada, tenho a impressão de que ela é ainda mais larga que sua vizinha. Enquanto a paisagem saturada da Paulista chega a me sufocar, aqui o ritmo é mais calmo, menos alucinante e consigo respirar na paisagem, a presença do céu é muito maior, sem falar das árvores. Menos informação me acalma. Nunca tinha andado por ali a noite. A avenida é um grande corredor, escoando os fluxos que seguem para o centro ou para o oeste. Fui andando pelo lado do Cemitério do Araçá, sentido Rua Heitor Penteado. Mesmo com a presença da estação Clinicas e a proximidade da estação Sumaré, há pouquíssimas pessoas na rua. Experimentei andar de olhos fechados, sendo guiada por alguns metros. Não funcionou. Acabei prestado mais atenção em não tropeçar do que no ambiente que me envolvia. Viramos a esquina. percurso n. 07 Depois de certo tempo de prática e experiência caminhando por São Paulo e de muitas leituras, alguns lugares vão surgindo naturalmente no meu pensamento. Ir até o espaço verificar se minha intuição estava certa começa, de certa forma, a ser o meu método, mais do que deixar a deriva me mostrar o caminho. Com o cemitério do Araçá foi assim, muito provavelmente porque a partir das duas avenidas paralelas ao local, que seguem para o Pacaembu, haviam vistas para a Serra da Cantareira e todo um skyline dos bairros a sua frente. Tomei a decisão de entrar no Araçá em um dia bem nublado – a visibilidade, portanto, estava bastante prejudicada. Nunca havia colocado meus pés lá e era apenas a segunda vez que visitava um cemitério na minha vida. Tinha uma fantasia de criança de que eram lugares assombrados e que, logo, não tinha a menor vontade de entrar em um. Para a minha surpresa, o lugar era maior do que eu imaginava e muito bonito! A cidade abraçou o cemitério, mas ali ele ficou, resistindo ao tempo e ao ritmo da metrópole. O que mais me chamou a atenção foram os barulhos, pássaros, o vento nas folhas das árvores, o barulho

da água saindo de um bueiro e o silêncio. É incrível que ainda existam lugares como esse no meio da cidade. Lá é muito fácil de perceber o relevo da cidade – parece que os túmulos se acomodam perfeitamente nessa topografia, distribuídos através de alamedas principais e paralelas que percorrem todo a extensão do cemitério, que ocupa uma área de 222.000 m². Apesar de ser uma porção muito grande sem grandes ocupações verticais, a quantidade de árvores impede em alguns trechos a visualização do horizonte. Em outros, ou a própria vegetação enquadra marcos que se vem ao longe, como o prédio do Unibes Cultural, o Incor, algumas antenas da Paulista e de Perdizes, a Paróquia Nossa Senhora do Rosário de Fátima e os edifícios de Higienópolis ou o plano vertical desimpedido libera o olhar. A vontade que dá é transformar esse lugar em um parque aberto à toda cidade, começando por remover seu muro, para que as pessoas possam ver, a partir da Doutor Arnaldo, as vistas escondidas no interior de um espaço que é privado. Fiquei quase duas horas dentro do lugar fotografando e achando quais eram os pontos mais interessantes que voltavam-se para cidade, isto ��, estabeleciam um diálogo com o exterior. Muitas vezes, os melhores pontos para se observar a vista de maneira privilegiada estão em locais inacessíveis, como em cima de um túmulo e para isso, precisei subir em cima deles para conseguir os melhores ângulos para as fotografias. Saindo do cemitério ainda fiquei um tempo caminhando pela Avenida Doutor Arnaldo, onde ele se encontra. Na calçada, sentido Paulista, são poucos os espaços que percebo como pausas na paisagem, janelas para a cidade. Essa situação acontece mais quando a Doutor Arnaldo transforma-se num viaduto sobre a Avenida Sumaré. Percebi também que em alguns terrenos antes do viaduto, quando estamos próximos ao lote, a vista muitas vezes fica impedida, no entanto, quando ou nos afastamos ou atravessamos a rua, a vista com a linha do horizonte e/ou o perfil da cidade aparece. Então quais são os movimentos que o corpo faz para poder conseguir se deparar com essas vistas? Se aproximar, se distanciar, atravessar a rua, etc. Na minha opinião, essa é uma das vistas mais bonitas da cidade, quando faz sol então! E as pessoas só param ali de passagem; para pegar o ônibus, para pegar o metrô ou paradas no engarrafamento. Talvez só quem faça rapel usufrua dela por mais que alguns minutos. Imagina se as pessoas pudessem sentar ali por um tempo e ficassem curtindo a vista? percurso n. 08 Depois de navegar inúmeras vezes pelas ruas de São Paulo através do Google Street View, descobri uma rua que sai da Rua Heitor Penteado e chega na Rua Aurélia, já sob outro nome. Como depois tomei conhecimento as ruas Rifaina e Bica de Pedra conformam uma espécie de grota que consiste justamente no antigo bairro operário da Vila


Anglo, que se volta inteiramente para os bairros da Lapa, Perdizes e Pompéia com a Serra da Cantareira ao fundo, serpenteando e guiando o olhar. Acho que essa impossibilidade que existe em São Paulo de se compreender onde começa um bairro e onde termina outro, quais são as características que os diferenciam entre si sempre me despertou curiosidade e para mim, a Vila Anglo é um lugar que se coloca como algo raro, que resiste às transformações. Apesar de sair da rota inicial traçada, achei que valia a pena ir até lá conferir como era esse lugar. O que me despertou o interesse inicialmente foi a arquitetura das casas que haviam nessa rua e como todas, a partir da rua para o interior do lote, sugeriam paisagens incríveis que podiam ser entrevistas nos recuos entre a casa e o lote, pequenas janelas para o horizonte. Comprovando o que havia visto no meu passeio virtual, de fato a partir de todas as casas consegue se vislumbrar o horizonte. Muito pelo fato de que apesar de ser um lugar densamente construído, as construções são baixas e existe um declive no relevo muito grande. É como se a encosta curva-se sobre si mesma, criando um relevo único que parece dar margens à existência de uma comunidade que não parece mais caber numa cidade como São Paulo, onde parece que o tempo e o ritmo são outros, onde a vida de bairro ainda é possível. Como já disse anteriormente, a sensação que tenho quando vou a lugares onde as construções se acomodam de maneira mais orgânica ao relevo e menos impositiva, esse tipo de situação surge, além, claro, de parecer que esses lugares se fixam mais na minha memória uma vez que o corpo demora mais tempo para percorrê-los e grava mais os detalhes. Me chamou a atenção como haviam passagens – abstratas e físicas, para a paisagem ou para outro ambiente – ao longo desse trecho do Espigão (Cerro Corá e redondezas da Heitor Penteado). Muitas escadarias surgem escondidas fazendo transposições de quadras e curvas de nível, levando o usuário a serpentear tanto pelo solo quando pelo ar; isso porque a grande maioria delas dá em ruas 15 metros abaixo e para lugares onde, acredito eu, de maneira ingênua, a especulação paulista ainda não conseguiu engolir tudo. Nesse mesmo dia, aproveitei para ir até a Praça Amadeu Decome (entre a Rua Aurélia, Rua Cerro Corá e Rua Heitor Penteado), a qual tinha sido objeto de estudo do meu trabalho de Estúdio Vertical no primeiro semestre. A praça que é muito arborizada, possui uma vista maravilhosa para a Vila Ipojuca, Lapa e Pompéia, também com a Serra da Cantareira ao fundo. Suas árvores emolduram perfeitamente bem no meio da praça o Pico do Jaraguá, criando um eixo visual muito forte. No entanto, sua topografia é uma barreira para que as pessoas se utilizem do lugar; até existem alguns mobiliários – bancos e mesas, mas nada que faça com que as pessoas fiquem por ali. A impressão que dá é que a praça surge como uma sobra de alguma obra viária ou um espaço vazio que ninguém deu a devida atenção em como tentar

resolvê-lo, de forma a melhorá-lo para que aconteça um uso ativo. Depois voltei a pé até o lugar onde havia parado o carro (lá na Rifaina, travessa da Heitor), mas no caminho parei em alguns pontos que também tinham me chamado a atenção. Na verdade, são lugares que muitas vezes passei de carro – passo muito de carro por aí – e sempre fiquei instigada. O primeiro deles é um posto de gasolina, bem na esquina da Heitor Penteado com a Aurélia. O lugar não é vazio, mas sua cobertura sugere a possibilidade de ali existir um mirante – uma parada na rota dos peregrinos que cruzam a cidade, seja motorizados ou a pé. O segundo lugar é um grande terreno que por enquanto se encontra vazio, mas que no futuro muito breve se tornará um “lindo” edifício residencial chamado Átrio Vila Madalena e os moradores, quanta sorte a deles, serão brindados com uma vista para o bairro Alto de Pinheiros, enquanto da cidade mais uma vez é arrancada a chance de se beneficiar com espaços para a contemplação.


O Espigão e suas janelas – possibilidades no vazio

Escola da Cidade - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Orientanda: Manuela Pereira Barretto Salgueiro Lourenço Orientadora: Professora Dotoura Marina Grinover Dezembro de 2016


índice

50

p. 54

p. 55

p. 57

p. 64

relatos

fotografias

apresentação

caminhar

espigão

vistas

p. 65

p. 74

p. 75

p. 96

p. 128

p. 130

janela

paisagem

aproximações

(guia de) intervenções

conclusão

bibliografia

51


colagem de Sammy Slabbinck

52

colagem “City Retreat” de Ashley Edwards

53


apresentação

essas questões, de modo a levantar hipóteses e buscar elaborar sugestões daquilo que me parece pertinente. A crítica que tento demonstrar aqui é como não percebemos a nossa cidade e portanto, como existe um ruído nessa tomada de consciência e apreensão do espaço urbano. As consequências disso são inúmeras, dentre as que mais me interessam, se sobressai o sentimento de não apropriação e de não fixação desse lugar no imaginário coletivo, uma vez que as pessoas se relacionam com a cidade, muitas vezes, de maneira alienada. O homem precisa conhecer o território que habita. Através da experiência corporal, o olhar se expande. Assim, as vistas são reconhecidas num sentido de proporcionar leitura territorial através do domínio da paisagem. A presença da linha do horizonte e a possibilidade de enxergar marcos na paisagem geram uma importante leitura geográfica da cidade, nesse sentido, poder se orientar no território. Assim, localizar-se importa aqui como ferramenta de apropriação do espaço vivido e, portanto, identificação e pertencimento. Para tanto, propus-me a caminhar mais uma vez, agora com um percurso em mente: percorrer o Espigão da Paulista e seus arredores, resgatando na memória ferramentas apreendidas no livro de Francesco Careri, Walkscapes – o caminhar como prática estética, já utilizado quando realizei há três anos um trabalho de iniciação cientifica: A construção da imagem de cidade – através do discurso fotográfico. Dessa forma, um dos objetivos que tinha ao iniciar o trabalho era justamente apontar onde estão as janelas para a paisagem, interpretadas como possíveis “cidades invisíveis”, não-lugares , prontos para serem preenchidos com os significados da cidade. Acredito que quando a leitura territorial proporciona a incorporação desses não-lugares no mapa mental de cada indivíduo, estes são transformados em meio-lugares. Portanto, trata-se de desviciar o olhar, de modo a tornar visível aquilo que já o é, mas passa despercebido. Muito do que aqui se encontra, - percepções, análises, ensaios projetuais, - é fruto dessas idas e vindas através dessa “espinha” que é o Espigão, isto é, da exploração e identificação das vistas existentes e/ ou potenciais. A percepção dessas janelas para a paisagem permite a ativação desses espaços, transformando-os em vazios plenos. Abre-se caminho, portanto, para a aparição do subjetivo sob um novo ritmo e uma nova forma mais sensível de se relacionar com a cidade.

“A contemplação do cotidiano é um mergulho que quem não faz não sabe o que está perdendo” Adélia Prado, Flip 2006 Esse trabalho inspirou-se naquilo que me comove e portanto, me move no ambiente urbano. Procurei enunciar o que durante a minha graduação me intrigou em relação às questões que tangenciam nosso ofício, logo, esse trabalho é uma tentativa de abordar alguns pontos que me instigaram ao longo desses seis anos, os quais não se encerram aqui. Me proponho à, acima de tudo, tentar elaborar uma síntese de como a arquitetura, ao final desse período, se coloca para mim: um modo próprio de observar a cidade em que nasci e vivo, sempre de maneira a procurar entendê-la. A partir das minhas experiências pessoais de caminhar por São Paulo, - através da noção de “jogar e sentir o meu corpo” no mundo, - algumas questões que para mim ficavam muito distantes da minha compreensão quando apresentadas no ambiente acadêmico foram ganhando significado. Assuntos como a tênue relação entre arte, arquitetura e cidade, como esta (arquitetura?) opera como cenário de nossos sonhos e vontades e a apropriação do espaço através do corpo surgiram naturalmente e foram sendo esclarecidas nesse contínuo movimento de se colocar na cidade. A necessidade de debruçar-me sobre o tema do Estúdio Vertical adição e subtração, ao longo do primeiro semestre de 2016, me levou a pensar em como alguns assuntos que desejava me aproximar no trabalho final estavam vinculados ao tema central do EV. Assim, interpretando as ações de adição (de novas informações) e subtração (retirada de elementos obsoletos), como algo intrínseco à relação entre o homem e o território e, entendendo que, portanto, existem lugares com diferentes graus de intervenção e transformação, iniciamos, em grupo, nossas discussões acerca dos espaços (ainda) vazios que permeiam a cidade de São Paulo. Desenvolvendo o trabalho, chegamos à um objeto específico – as vistas para o horizonte - que acabou me acompanhando ao longo desse ano também no Trabalho de Conclusão, TC. Assim, entendo a presença das vistas e com ela, a possibilidade da existência de um olhar que circula livremente pelo espaço, isto é, sem esbarrar numa infinita sobreposição de camadas sólidas, como a permanência e também, a resistência de espaços vazios dentro do tecido urbano. A vista é por excelência, um vazio. Essas “sobras espaciais-visuais”, me trazem muitas indagações sobre como se dão nossas formas de apropriação do território que habitamos, as quais justamente busquei levantar nesse trabalho. Mais do que tentar respondê-las, portanto, me proponho a enunciar 54

caminhar

1. KUNDERA, Milan. On Slowness. IN The Journal on Sartorial Matters Issue 5. 2016

“There is a secret bond between slowness and memory, between speed and forgetting.” – existe um vínculo secreto entre lentidão e memória, entre velocidade e esquecimento. Milan Kundera1 55


“Os gregos antigos usavam duas nomenclaturas para descrever a passagem do tempo: cronos, que representava o tempo sequencial ou linear, quantitativo e mensurável; e kairós, o tempo certo ou oportuno, qualitativo e imensurável. Com a Revolução Industrial desenvolvemos a obsessão pelo tempo cronológico, monetizado a favor da produção. Assim foi semeado o culto à velocidade e à dita “eficiência”, diminuindo o espaço para os tempos dos ciclos naturais, do ócio criativo, do aprofundamento em ideias e projetos.” Camila Belchior2 O caminhar abre a percepção para o tempo; para o tempo do subjetivo, o tempo de cada um. Se permitir divagar (devagar ~ divagar) e se demorar mais pela cidade cria uma relação direta com a fixação desta na memória. Enquanto a velocidade, por outro lado, a aceleração dos movivmentos; o locomover-se exclusivamente de carro, causam uma alienação à paisagem. A cidade atual, como a conhecemos, é fruto do tempo imediato, não deixa brechas para devaneios e a construção de diferentes “eus”. Ela nos impõe o ritmo do capitalismo e comprova que o espaço para o desejo e a contemplação é insuficiente. Como transformar isso? A atividade do “caminhar exploratório ” seria um primeiro agente, ativador da memória e mais, da imaginação, onde a memória não é mais passiva, mas sim ativa e a cada passo, reconstruída. Para isso, destacar espaços vazios e abertos, que possam ser permanentemente resignificados é importante. É preciso criar espaço para a poesia no cotidiano urbano. Segundo Camille Paglia3, o foco pode ser ensinado através da contemplação de obras de arte. O olhar precisa de imagens estáveis. É preciso estimular o corpo intuitivo e nos proteger contra a contínua aceleração do tempo e aumento da velocidade das informações. O caminhar funciona como ferramenta para ativar o território, sugerindo contemplação, reflexão, produção e lazer. Segundo Francesco Careri4, ao caminhar cria-se e altera-se a paisagem. O ato de caminhar e o caminho, por consequência, seriam, portanto, a primeira forma de arquitetura. As vistas, conhecidas apenas a partir do caminho, são espaços intermediários entre o objeto e o sujeito, são zonas intermediárias (assim como no filme Stalker de Tarkovski) que portanto, dependem do estado de espírito de quem se coloca em contato. É o meio lugar, o lugar praticado de Michel de Certeau5, cheios de possibilidades e descobertas. Paola Berenstein Jacques6 analisa que se por a caminhar e adquirir uma experiência corporal urbana seria um tipo de resistência ao processo de espetacularização da cidade. E mais do que isso, no momento em que a cidade – o corpo urbano – é experimentado, esta também se inscreve como ação perceptiva e, dessa forma, sobrevive e resiste no corpo de quem a pratica. A errância já é por si só arquitetura da paisagem. Os praticantes ordinários das cidades, portanto, atualizam 56

os projetos urbanos e o próprio urbanismo, através da prática, vivência ou experiência dos espaços urbanos.

2. BELCHIOR, Camila. O tempo da curva, em busca do kairós . Bamboo 56 março de 2016.

3. PAGLIA, Camille. http://www. fronteiras.com/artigos/o-impacto-do-ensino-da-arte-ou-da-falta-dele-na-percepcao-do-mundo

4. CARERI, Francesco. Walkscapes - o caminhar como prática estética. São Paulo: Gustavo Gilli, 2013.

5. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. São Paulo: Editora Vozes, 1984 6. BERENSTEIN, Paola Jacques. Estética da Ginga. São Paulo: Casa da Palavra, 2012.

espigão

7. Marta Bogéa, na mesa 1 do Seminário “Avenida Paulista”, organizado pelo MASP, no dia 26 de junho de 2016, no Auditório Unilever.

Não é a toa que a avenida mais emblemática da cidade esteja localizada justamente em seu topo, na cota 840. Com mais de 120 anos e 2.800 metros de extensão, é uma feliz coincidência a Avenida Paulista constituir um dos principais marcos/cartões postais da cidade de São Paulo, concentrando uma multiplicidade de atividades. A pluralidade de ocupações e públicos e as transformações de seus espaços merecem ser discutidas sob os mais diversos pontos de vista: polo cultural e turístico, complexo empresarial e comercial, ponto de encontro de culturas urbanas e local de concentração de protestos. Por mais que ninguém saiba ao certo onde ela começa e termina, ninguém questiona sua centralidade e, assim, a Paulista coloca-se dentro do mapa mental do cidadão como palco principal da cidade, local de afirmar-se e portanto, inserir-se (Marta Bogéa7). Justamente por se fazer tão presente na história da cidade e estar tão viva na memória dos paulistanos, a escolha por um local como esse faz sentido, já que a lógica do trabalho se baseia justamente em tentar desviciar o olho, apontando, ao contrário do que propõe Careri (exploração de zonas marginais da cidade), dentro de um espaço familiar, questões que a mente, o olhar e o corpo não conseguem registrar. Ampliando o recorte territorial, estendi minhas investigações à todo o Espigão. Após adentrar esse território e desconstruí-lo, quais lugares aparecem, quais possibilidades surgem na ausência da sobreposição de camadas visuais e temporais que se encontram vinculados na constante adição arquitetônica, a qual estamos tão acostumados? O Espigão Central ou Espigão da Paulista, como é chamado por geógrafos cruza a cidade por 13 km, de oeste à sul, desde o bairro de Perdizes até o do Jabaquara. Por percorrer as cotas mais altas da cidade, - sendo seus cumes as colinas da Sumaré e Perdizes, - e, portanto, proporcionar esse contraste topográfico é o palco das minhas investigações. Assim, ao longo do Espigão, em diversos pontos são encontradas janelas que se abrem para a paisagem de São Paulo. Falar sobre suas vistas implica em conhecer os limites desse território, suas bordas e fronteiras. Até onde o olhar se desloca? O que enxergo a partir de cada ponto? Quais são os elementos que mais chamam a atenção? Para tanto, identificar esses pontos ao longo desse recorte específico é o primeiro passo para desenhar novas possibilidades de atuação sobre esse espaço a partir de experiência corporal sensível. 57


58

59


60 61

PAULISTA

DOUTOR ARNALDO

HEITOR PENTEADO

CERRO CORÁ

OLIVEIRAS FORTE

QUEIROZ FILHO


Chris Ballantyne, no Socks Studio

The Lost Mariner. The man who mistook his wife for a hat - Oliver Sacks

62

63


vistas

nam como mirantes remonta a milhares de anos atrás e confunde-se com a história da humanidade. A importância de demarcar o território conquistado e dominado, de modo a poder compreendê-lo é atividade tão fundamental ao homem que, no entanto, em espaços consolidados como os das grandes cidades isso se camufla e se veste de outras roupagens. Dessa forma, a existência de lugares, nos quais possa se ver o horizonte ao longe são necessários não somente para a apropriação do território, mas também para que o homem consiga entender quais são seus limites e quem é ele como individuo, mas principalmente qual seu papel dentro de um todo que é coletivo. Assim, as vistas, enquanto imagens, recortes da paisagem urbana, são também refúgios da contemplação e portanto, são de extrema importância no processo de formação do sujeito e da identidade de cidade. Ao se emocionar e portanto, se identificar com determinada vista, acontece uma tomada de consciência em relação aos espaços da cidade. Assim, a vista deixa de ser um lugar abstrato e ao ser preenchida de significados, é incorporada na memória coletiva e no mapa mental de cada um.

horizonte ho·ri·zon·te sm 1. Linha circular onde termina a vista do observador sem nenhuma obstrução e na qual parece que o céu se junta com a Terra ou com o mar: “Não havia azul; céu e horizontes formavam uma só pasta cor de pérola […]” (AA2). 2. Círculo celeste no qual a esfera aparente do céu toca a superfície da Terra. 3. Extensão ou espaço que a vista alcança ao ar livre, sem obstáculos. 4. PINT Linha que retrata parte do céu como o fundo de um quadro. 5. FIG Limite ou âmbito de ideias, de conhecimento ou experiência de uma pessoa: “Suas ideias são arejadas, seus horizontes mentais, largos” (EV). 6. FIG Perspectiva ou possibilidade de melhoria, de futuro melhor de uma pessoa ou de algo: “O que foi que mudou depois da República, que progresso houve, que horizonte se abriu para o povo?” (JU). 7. GEOL Estrato do solo que se difere dos depósitos tanto acima como abaixo pela sua cor, aspecto e composição química e mineralógica.

janela

Etimologia: gr horízōn, ontos, via lat horĭzon, -ntis Como dito anteriormente, o principal objeto de estudo do trabalho são as vistas. Aqui, a vista é entendida como um vazio que, apropriada, é tornada em vazio pleno, segundo termo utilizado por Lygia Clark8 para caracterizar lugares aparentemente descartáveis, mas que uma vez “habitados” e conformados seus usos, são transformados em espaços vividos. Porém, dada a amplitude do termo vista é preciso construir uma conceituação, que tange diferentes áreas do conhecimento, as quais convergem para um campo específico (Pierre Bourdieu9). Portanto, o que me interessa como vista não é qualquer paisagem urbana, mas a vista entendida como a presença da linha do horizonte, o encontro daquilo que é sólido e terreno com o que é aéreo, e ainda mais, a possibilidade do olhar percorrer alguns quilômetros de distância sem nenhuma obstrução é essencial. A existência de locais pontuados ao longo do território que funcio64

8. CLARK, Lygia. O vazio-pleno. Rio de Janeiro, 1960.

9. BOURDIEU, Pierre.

A vista, no entanto, opera a partir de diferentes camadas; a da janela e a da paisagem. Tanto a janela quanto a paisagem são faces da mesma moeda, escalas visuais; a escala micro do indivíduo e a escala macro da cidade, respectivamente. A primeira aparição na história da arquitetura do que viria a ser uma janela, surge como claustro na Idade Média, que funciona como local para meditação e contemplação, segundo o que afirma Luis Antonio Jorge. A janela como arquétipo arquitetônico, tal como a conhecemos aparece no limiar da Renascença e portanto, está intimamente ligada ao ressurgimento de uma vida urbana, quando os acontecimentos passam a acontecer na rua e não mais no interior das construções fortificadas da Idade Média. Portanto, é estabelecida uma nova relação entre o espaço privado e o espaço público e, a janela, a partir de um novo arranjo da moradia, estabelece-se como os olhos da casa e comprova essa atração pelo o que é e está no espaço público. Está inaugurado o hábito de contemplar a cidade e com ele, a origem de um certo voyeurismo. Surge o olhar amoroso, o curioso, o contemplativo – o flâneur, já do século XIX tem como objeto de contemplação justamente a cidade, - e o vigilante, típico de arquiteturas panópticas. Juntamente com a janela, nasce, também no Renascimento, a noção de perspectiva, ferramenta e técnica de desenho proposta por Alberti. Assim, é consagrada a analogia que enlaça olho e janela “[...] 65


66

67


68

69


70

71


Nas páginas anteriores, fotografias tiradas por mim que revelam a presença da linha do horizonte.

panorama do que se compreende por janela - seleção de imagens encontradas na internet

72

panorama do que se compreende por janela - seleção de imagens encontradas na internet

73


o quadro (da pintura) é uma janela transparente pela qual nós vislumbramos uma seção do mundo visível10.” Portanto, toda a ideia de perspectiva traz junto essa noção de ver através. Enquanto a porta, que contem dentro de si a janela, representa o ser em trânsito que pode circular livremente pelo espaço, a janela, estabelece uma relação diferente e nova, pois ao mesmo tempo que se coloca como obstáculo ao corpo, se faz livre ao sentido do olhar. “A visão é esse poder mágico que nos põe diante das coisas ou as coisas ao alcance do nosso olhar. A janela, assim como a visão, confere proteção ao sujeito sem que ele se exponha demais11”. Isto é, a passagem já não é física, mas abstrata; existe deslocamento do ar, da luz e, do olhar. Assim, a janela sendo sempre moldura de uma certa realidade, opera como um recorte da paisagem, conectando o sujeito ao objeto, no caso, à cidade. É através dessa narrativa que o sujeito estabelece que ele se coloca no mundo e se comunica com o coletivo, dizendo quais aspectos desse mundo ele percebe e se identifica e, também, deseja transformar. A janela, então, se coloca como um anteparo; um mediador entre as relações do sujeito com o universo exterior. Logo, o que interessa para o trabalho é essa visão que ocorre sempre de maneira expansiva, portanto, de dentro para fora, do interior da cidade à seu exterior, do centro às bordas e limites da cidade. Logo, a janela representa aqui esse movimento do sujeito lançar-se sobre o mundo e perceber a paisagem e o território que o circundam.

10. JORGE, Luis Antonio. A síntese da janela. Tese de Mestrado FAU-USP.

11. JORGE, Luis Antonio. A síntese da janela. Tese de Mestrado FAU-USP.

Recuo, foco, busca, vastidão, (em busca da vastidão), horizonte, imersão, luz, emersão, natural, fim, recorte, narrativa, perspectiva, atração, refugio da contemplação, tangível, coreografia do espaço, inclusão, encontro, eixo, distancia

paisagem

paisagem 74

1. Extensão de território e de seus elementos que se alcança num lance de olhar; panorama, vista: “Enquanto a maioria dos principais artistas nacionais havia se engajado naquilo que era considerado ‘a causa’, Tom Jobim continuava a produzir amenidades, insistindo em temas poéticos, sabiás, águas do verão, árvores, pedras nuas escancaradas na paisagem do Rio” (CA). 2. Espaço com geografia e clima de determinado tipo: rural, urbana, montanhosa etc.: “Em todos os aniversários de Granja Quieta o presente era uma medalhinha com um santo que variava, em geral o menos procurado pela freguesia de Brejo Alto. Vendiam também cartões-postais com namorados em beijo, anjos e cupidos, paisagens de neve” (CL). 3. Desenho, quadro, gravura, foto ou qualquer outra manifestação artística cujo tema principal é a representação de uma paisagem, geralmente de lugares campestres: “– Entremos neste botequim, aqui à esquina da Rua da Conceição. Vais conhecer o Colon, pintor espanhol. Colon tem estilo: este painel é um exemplo. Que vês? Uma paisagem campestre, arvoredo muito verde, e lá ao fundo um castelo com a bandeira da nacionalidade do dono da casa” (JR). Etimologia: fr paysage

“[...] Verdadeiramente, os olhos se converteram em janela da alma no sentido estreito, literal e pictórico. Ou então, são espelho do mundo, refletindo fatos e esperanças” (Pierantoni, 1984, p.29)

“Quando é então que se tem a noção de paisagem? ... toda vez que o espírito se desprende de uma matéria sensível para outra, conservando nesta a organização sensorial conveniente para aquela, ou pelo menos sua lembrança.[...] Há paisagem sempre que o olhar desloca, o desenraizamento é a sua condição12.”

pai·sa·gem sf

12. BRISSAC, Nelson. Paisagens urbanas. São Paulo: Senac, 2004. p. 354

Diferente da janela que é identificada como a escala individual da vista, a paisagem coloca-se muito claramente como a escala territorial, isto é, a escala macro da vista. A paisagem também se distingue do conceito de vista aqui construído, pois esta, pelo menos para esse trabalho, aponta para a necessidade da presença da linha do horizonte e é caracterizada pela noção de vazio, como uma tela ou recipiente que pode ser preenchido com os significados de cada um. Dando sequência às diferenças, nota-se que, a invenção histórica da paisagem no Renascimento está relacionada à invenção do quadro em pintura e portanto, à invenção da janela. Logo, é a moldura da janela que instaura essa relação de interior e exterior que é essencial, pois daí nasce uma condição fundamental para a paisagem, a partir do ponto de vista da pintura; que é a ideia de distância. Essa noção é essencial para a compreensão do desenvolvimento do trabalho, à medida que é na distância que os olhos podem divagar e vagar, nessa extensão de terra e céu livres. Embora esses conceitos tenham surgido de maneira imbricada, enquanto a janela existe como um elemento arquitetônico e aqui, é emprestada à uma interpretação pessoal, a paisagem é sempre interpretação e construção individual e/ou social. A paisagem, portanto, “não 75


76

77


Na página anterior, fotografia de Marcelo Moscheta, para seu trabalho “Equalizador para horizontes distantes”

menires - primeira forma simbólica de demarcarção da paisagem - seleção de imagens encontradas na internet

78

antenas - menires contemporaneos, paralelo estabelecido com os elementos que marcam a paisagem de São Paulo- seleção de imagens encontradas na internet

79


existe em si, mas na relação com um sujeito individual ou coletivo que a faz existir como uma dimensão da apropriação cultural do mundo13.” Assim, ela acaba sendo um espelho, o que vemos nela nos diz sobre a sociedade e os homens. Não é uma mera percepção imparcial, ela está inserida dentro de uma visão de mundo. É importante lembrar também a dimensão ideológica da paisagem na construção do referente imaginário da identidade em nível nacional, municipal, regional e etc. Além de tudo, ela se coloca como uma instituição. “As paisagens, mais exatamente alguns sítios escolhidos pelo valor histórico, memorial e/ou natural, vêm, então, concretamente, concentrar neles, como num apanhado do território, a consciência do pertencimento nacional14.” Esse é o caso da Avenida Paulista, para uma parcela dos paulistanos. O fato de ser objeto de estudo de diferentes áreas do conhecimento confirma que cada um a entende sob a lógica de seu ofício. Assim, a paisagem só existe à medida que uma leitura territorial acontece. Segundo Salvador Dali, a paisagem é um estado da mente - “external landscapes are directly shaped by interiors states of mind15”. A paisagem pode ser sempre considerada como um processo mental e derivada da imaginação, uma vez que o jeito como enxergamos o mundo é levado em consideração nessa interação e, na subsequente fixação na memória. Isto é, ela é uma construção humana, uma vez que depende do modo de pensar e perceber de cada um. Como afirma, Simon Schama “antes mesmo de ser o descanso dos sentidos, a paisagem é a obra da mente”.16 Como aponta Jean-Marc Besse, hoje em dia “a definição que considerava a paisagem como um panorama natural, geralmente descoberto a partir de um ponto elevado, permitindo, assim, que o espectador obtivesse um tipo de domínio visual sobre o território”17 já não satisfaz mais. “Ela pode ser considerada como representação cultural, território produzido pelas sociedades na sua história, como um sistema articulado entre elementos culturais e naturais, como um espaço de experiências sensoriais e um contexto projetual”.18 Do ponto de vista da geografia, a paisagem é a constante adição de elementos artificias, fabricados pelo homem, sobre o ambiente natural, segundo a linha de pesquisa do geógrafo brasileiro Milton Santos. Seguindo nessa linha e traçando um paralelo com os antigos menires, objetos totêmicos que serviam à demarcação simbólica da paisagem, identifica-se na paisagem atual e sempre em transformação de São Paulo, elementos – os quais são cada vez mais raros diante da constante adição-subtração de camadas, - que atuam como referencias, marcos na paisagem e, tanto servem à localização na confusa malha urbana da cidade, quanto à significação desse espaço enquanto local de disputas de interesses, história, memória e identificação coletiva do espaço público. Além disso, tais elementos podem vir a dar pistas sobre a geografia da cidade. Diante dessa analogia estabelecida, se80

13. BESSE, Jean-Marc. O gosto do mundo: exercícios de paisagem. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2014. p.13

14. BESSE, Jean-Marc. O gosto do mundo: exercícios de paisagem. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2014. p. XX 15. DALI, Salvador. In LEITÃO, Lúcia. Onde coisas e homens se encontram. São Paulo: Annablume Editora, 2014.

16. SCHAMA, Simon IN BESSE, Jean-Marc. O gosto do mundo: exercícios de paisagem. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2014. p. X

17. BESSE, Jean-Marc. O gosto do mundo: exercícios de paisagem. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2014. p.8 18. BESSE, Jean-Marc. O gosto do mundo: exercícios de paisagem. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2014.

19. MOSCHETA, Marcelo. http://www. marcelomoscheta. art.br/Displacing-Territories-Project-for-the-Border-Brazil-Uruguay

20. MOSCHETA, Marcelo. http://www. marcelomoscheta. art.br/Displacing-Territories-Project-for-the-Border-Brazil-Uruguay

gue-se à constatação de que algumas coisas desempenham tal função em São Paulo como edifícios consagrados tanto pelo uso quanto pela arquitetura, antenas de transmissão, torres de caixas de água, entre outros marcos que chamam a atenção para si. Portanto, o que interessa como paisagem para esse trabalho é a possibilidade de compreensão de um território, que apesar de diverso, é conectado através de significados múltiplos, da noção de localizar-se no espaço para depois localizar-se a si mesmo, como afirma Marcelo Moscheta, artista plástico brasileiro, no memorial de seu trabalho Deslocando Territórios: projeto para a fronteira Brasil/Uruguay, “vejo a paisagem como um contratempo para medir a si mesmo, um referencial externo que possa dar a exata medida do tamanho do eu. Ideia romântica que presta reverencia às ultimas grandes explorações do século XIX, onde os polos do planeta e os cumes dos montes mais altos eram por certo, uma descoberta do limite do próprio homem.”19 Também tratando da relação entre o domínio do território pelo homem, Moscheta diz em seu trabalho de 2014, Equalizador para Horizontes Distantes, “sobre uma poética briga entre o macro e o micro está o homem e seu desejo constante de domar tudo o que há na terra, seu tempo e sua memória.”20 Logo, a ideia de dominar e conhecer o território parte dessa vontade de conhecer-se a si próprio, O que o artista constata é que precisamos morar nessa paisagem, nos sentirmos pertencentes ao ocupá-la. Conclui-se então que a paisagem atua também como palimpsesto, uma vez que não é apenas um lugar físico, mas abstrato, existindo em nossas memórias. São, portanto, eternamente reutilizadas, requalificadas e ressignificadas.

aproximações

Apresento nesta seção, uma análise gráfica das percepções que surgiram a partir do caminhar.

81


Abrir

Abaixar

Achar

Afastar-se

Afastar-se

Andar

Apoiar-se

Apressar-se

Apontar

Aproximar-se

Aproximar-se

Atravessar

Avistar

Circular

Contemplar

Continuar

Debruçar-se

Correr

Direcionar-se

Deambular

Encontrar

Demorar-se

Emoldurar

Derivar

Encostar

Descer

Enquadrar

Desviar

Enxergar

Deter-se

Espiar

Divagar

Fechar

Flanar

Localizar-se

Ir

Mirar

Mover-se

Observar

Movimentar-se

Olhar

Parar

Orientar-se

Passear

Puxar

Perambular

Recortar

Percorrer

Recuar

Recuar

Ver

Subir

lista de ações relacionadas à janela (ao ato de olhar) e ao caminho (ao ato de caminhar), respectivamente. As palavras podem se cruzar, apontando para um novo conteúdo: as ações do intervir

Verb List, feita por Richard Serra entre 1967 e 1968 inspiração para as listas na página à esquerda

Tropeçar Trotar Vir Voltar

82

83


mapeamento vistas

mapeamento realizado do ponto de vista do pedestre tendo como referencia a rua, espaço público por excelencia. vista impedida

vista desimpedida

84

85


lugares escolhidos

1 3 2

5 4

6

7

8

86

87


lugares escolhidos

1

2

5

6

3

4

7

8

88

89


análise lugares escolhidos

8 lugares escolhidos para intervir; 4 categorias:

travessias

fluxos

fluxo x permanencia

privado x público

janelas

devolução

90

adição x subtração

91


análise lugares escolhidos elevações fotográficas que mostram a aproximação da vista a partir do corpo

lançamento imobiliário Átrio na rua Heitor Penteado

92

viaduto Doutor Arnaldo sobre Avenida Sumaré

93


cemitério do Araçá

94

escadaria e estacionamento na Rua Pedro Soares de Almeida

95


(guia de) intervenções

Após analisar as informações coletadas em minhas caminhadas pelo Espigão e organizá-las de forma gráfica – principalmente, a partir da realização de um mapeamento das vistas, classificando-as em vistas impedidas e vistas desimpedidas, chego em 8 lugares para trabalhar (ver mapa B), de forma que eles podem ser divididos em quatro categorias: inserções/travessias, fluxos/ruas, janelas/térreos livres e subtração. Cada categoria relaciona-se com uma maneira mais específica de se compreender e atuar nesses lugares, levando em conta suas características e seu entorno e não somente a abordagem mais abrangente sugerida a seguir. Do cruzamento entre as ações relacionadas à janela (e, portanto, à paisagem) e as ações relacionadas ao caminhar, surge uma espécie de guia de intervenções, baseado em três ações projetuais básicas – piso, cobertura, percurso - que alteram a percepção e o uso do espaço e do tempo. O guia é uma tentativa de estabelecer um mecanismo “genérico” de atuar nas vistas, de forma a ressaltá-las, a partir de uma linguagem única, estabelecendo conexões e tecendo uma extensa rede através do território. Entende-se que a melhor forma de intervir nas vistas é através da ativação desses vazios, nos quais elas surgem. Espaços vazios possuem uma característica inata de serem “abertos” o suficiente (Umberto Eco, Obra Aberta), podendo receber múltiplos significados e acolher à todos. Assim, a ideia é simplesmente aprimorar essa qualidade existente. A ideia é poder alcançar um mecanismo que seja capaz de subverter o ritmo da cidade, transformando-a em um espaço mais humano, que dialogue mais com o tempo biológico e sensível de cada um, mas também consiga atender as necessidades do tempo mercadológico. Logo, em primeiro lugar, acontece através da caminhada, a percepção individual de quem somos e do que é o nosso corpo na cidade para posteriormente podermos perceber a cidade e essa ser capaz de nos transformar nesse contato direto. Assim, aparecem as ações do intervir, novas formas advindas da intersecção entre o olhar e o caminhar. Tendo em mente isso, as vistas são reveladas a partir dessa espécie de “cápsula” de desaceleração do tempo. Só a vista em si e seu reconhecimento, a partir do corpo (caminhar atento) já sugerem uma nova abordagem. São intervenções que possibilitam o uso do espaço para a atividade da contemplação, o nous, que, segundo Aristóteles21, é a mais alta capacidade humana, antes mesmo do logos, isto é, o pensamento e/ou a razão. Para o filósofo grego, sua principal característica está na impossibilidade de se reduzir a contemplação à palavras. “É preciso desenhar o previsível para que o imprevisto ocorra” Paulo Mendes da Rocha 96

Uma vez que a ideia de convocar às pessoas a caminhar me parece fora do meu controle, desenhar esses espaços é a forma que encontro para que o imprevisto possa talvez acontecer. A arquitetura, assim como a arte, deve ser responsável por um processo de ativar um prazer no espaço urbano. A intervenção deve também responder à uma arquitetura destinada ao homem, isto é, para a escala humana e não viária. A seguir, apresento uma série de colagens, plantas e cortes que mostram no que consistem esses espaços, As colagens foram feitas como maneira de se aproximar dos lugares e pensar em que atmosfera determinado lugar poderia sugerir. Elas foram realizadas a partir de uma seleção inicial dos lugares escolhidos, a qual evoluiu para 4 categorias de espaço, como dito anteriormente. A partir dessa divisão, selecionei um exemplo de cada categoria para desenvolver o que seriam essas intervenções.

21. ARISTOTELES IN ARENDT, Hannah. A condição humana. São Paulo: Forense Universitari, 2014.

97


travessias

98

99


janelas - tĂŠrreos livres

100

101


janelas - tĂŠrreos livres

102

103


fluxos

104

105


fluxos

106

107


devolução

108

109


ações projetuais - o piso

piso pedestres caminho

piso pedestres neutro

piso automóveis

Um dos mecanismos propostos para ativar (o vazio da) a vista é o desenho de um novo piso, que sugere uma identidade comum à esses lugares, de forma a orientar o pedestre. Assim, foram identificadas e criadas 4 paginações diferentes; uma pavimentação em áreas privadas; uma pavimentação para pedestres onde o carro também pode circular (estacionamentos e postos de gasolina); uma pavimentação que engloba toda a calçada do entorno do vazio em questão - pavimentação para pedestres neutra e por fim, uma pavimentação para pedestres que aponta o caminho para as vistas.

desenho seta descontruída

desenho seta

desenho seta descontruída

pavimentação “acesa” do piso piso privado

20 cm

20 cm

Um dos mecanismos propostos para ativar o vazio da vista é o desenho de um novo piso que sugere uma identidade comum à esses lugares, de forma a orientar o pedestre. A função do desenho no ladrilho hidraúlico é direcionar o caminhar para a vista. Conforme mais distante da vista e do caminho, o piso vai ganhando contornos mais difusos e o desenho da seta no ladrilho é desconstruído, como mostra o primeiro quadro. escala 1:50

110

111


janelas - tĂŠrreos livres

planta tĂŠrreo escala 1:500

112

0

10

20

50

N

113


janelas - térreos livres

4,5 m corte longitudinal escala 1:500

114

0

10

20

50

Átrio - caso o lançamento imobiliário Átrio da Construtora Lopes seguisse o guia de intervenções aqui proposto, ainda seria possível verticalizar de maneira que a vista não fosse prejudicada. O térreo livre permite ao pedestre alcançá-la desde a rua, sendo “avisado” através da própria vista, mas também se orientando a partir de um desenho de piso que o conduz para ela, que também o situa em relação a cidade.

115


travessias

planta tĂŠrreo escala 1:500

N

116

0

10

20

50

117


travessias

corte longitudinal escala 1:500

118

0

10

20

50

Escadaria - seguindo as medidas adotadas - piso, cobertura e percurso - do guia de intervenções, a antiga escadaria e o estacionamento ao lado da Rádio Tropical, na Rua Pedro Soares de Almeida, travessa da rua Heitor Penteado, são transformados num mirante e numa nova escada, que percorre todo o terreno baldio, oferecendo uma travessia dessa quadra de forma mais demorada. Como o terreno é de propriedade particular, caso o dono deseje construir, só a primeira porção poderá ser ocupada e o térreo deverá permanecer livre, sem que haja obstrução da vista. 119


fluxos

corte transversal escala 1:250

120

0

10

20

viaduto - para a categoria fluxos - ruas é adotado a premissa de que a vista já está disponível a todos, mas nem todos a disfrutam, uma vez que este é um espaço de passagem. Logo, os gestos projetuais adotados transformam esse lugar em um espaço de permanencia. Assim, a calçada é extendida, criando uma circulação “contemplativa” paralelam enquanto deixa a calçada existente como espaço de fluxo. Na rua, é adicionado uma ciclofaixa e vagas para carros, de modo a proteger o pedestre do transito intenso da Avenida Doutor Arnaldo.

121


conclusão

23. LEITÃO, Lucia. Onde coisas e homens se encontram. São Paulo: Annablume Editora, 2014.

[IF] Certo dia me dei conta de que a arquitetura parece ser mais um estado temporal que uma coisa espacial. Quando se está utilizando a arquitetura como construção talvez a arquitetura mesma não exista. Somente no momento em que se está contemplando a arquitetura é que talvez ela exista. [GS] Talvez tenha razão. Alguém disse que ninguém nunca tinha visto uma praça vazia, ou um bosque virgem. Porque no momento em que alguém entra, a praça não está vazia, nem o bosque, virgem. É o que se espera além do mais até da praça mais modesta. Porque a praça não serve somente para que as crianças brinquem e nós velhos tomemos sol, mas para que entre as casas e edifícios haja um lugar vazio que não está construído e que somos capazes de deixar intocado para alargar o espirito.

Segundo Lucia Leitão23, o espaço da arquitetura é fruto e consequência do desejo e sonho coletivo, para além de atender às necessidades e funções básicas. A cidade é abrigo do corpo e morada da alma. A cidade é interiorizada e passa a morar dentro de nós graças à identificação. Acredito, então, que este ensaio tem como virtude pensar em diferentes abordagens territoriais. Ao se aproximar do território através do corpo e ao revelar as cidades escondidas ao olhar, podemos criar vínculos maiores com a cidade que habitamos. Dessa forma, isso pode levar à um maior sentimento de pertencimento. O espaço público deixa de ser descartável e passa a ter, então, importante valor na vida de todos. Em último lugar, creio que novas aproximações possibilitam diferentes leituras territoriais, as quais devem ser utilizadas para o exercício projetual posteriormente. Ponho fim nesse trabalho de um ano com a certeza de que ele não se encerra aqui, de que após esse período, chego à mais perguntas do que respostas, se desdobra em mais frentes e aponta para outras maneiras de intervir. Assim, assumo seu caráter indagativo e propositivo. Talvez a riqueza do tema aqui discutido esteja justamente em não tentar afirmar nada, mas neste leque infinito de possibilidades que se abrem, nas trocas intermináveis com os colegas que sempre sugeriam mais uma forma de encarar esse vasto território que são as vistas de uma cidade como São Paulo, tão diversa e tão ambígua.

[IF] É este temor frente ao vazio, frente ao que não tem função. Se alguém vê algo que está vazio, sente uma obrigação de preenchê-lo. [GS] Tem toda a razão. Talvez a sociedade contemporânea tema o vazio porque associa o prazer com a sensibilidade e não com alguma forma de espiritualidade. Tal como você diz, talvez o que se necessita seja abrir vazios para que cada um preencha com o que é, e não com o que tem. A literatura da arquitetura (parte I) - conversa entre Igor Fracalossi e German del Sol, publicada no site Archdaily em 2 de maio de 2013. A melhor maneira de se legitimar um espaço vazio é deixando o como tal, devolvendo-o para o público. Assim, para impedir que esse vazio seja apropriado pela especulação imobiliária e pela esfera privada devemos qualificar esse lugar enquanto espaço de uso de todos. A dificuldade frente àquilo que não está ocupado e preenchido deve ser encarada de frente, dada sua importância na busca dos cidadãos por uma cidade mais humana. A cidade é a coisa humana por excelência22 e o contato com o outro, isto é, o encontro no espaço público acarreta num maior exercício de democracia. Portanto, na minha opinião, esses espaços, além de proverem o mínimo de infraestrutura para o convívio, devem ser capazes de se inserirem na memória coletiva, criando uma contínua identificação com a população que se sente no direito de apropriação do espaço. 122

22. STRAUSS, Claude Lévi. “Michel Delahaye e Jacques Rivette entrevistam Claude Lévi-Strauss”. Sexta-feira: antropologia, artes e humanidade. São Paulo: Pletora, 1997. p. 116

123


bibliografia

ARENDT, Hannah. A condição humana. Forense Universitaria, São Paulo. 199

Michaelis – Dicionário brasileiro da língua portuguesa. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=horizonte. Acesso em 28 de junho de 2016. http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.053/536 http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.093/165

ALMARCEGUI, Lara. Los descampados de promisión. Universidade de Santiago de Compostela, Espanha: Quintana – Revista de Estudos do Departamento de História da Arte, 2012. BERENSTEIN, Paola Jacque. Errâncias Urbanas: a arte de andar pela cidade. Arquitextos, Rio Grande do Sul. 2015. BERENSTEIN, Paola Jacque. Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. 1a ed. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. BOGÉA, Marta. Cidades Errantes. São Paulo, . BESSE, Jean-Marc. O gosto do mundo – exercícios de paisagem. CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. 12a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. CARERI, Francesco. Walkscapes – o caminhar como pratica estética. São Paulo: Editora Gustavo Gili, 2011. MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização. ed. São Paulo: 201. NESBITT, Kate. Uma nova agenda para a arquitetura: uma antologia teórica (1965-1995). São Paulo: Cosac Naify, 2008. Cap. 9. NORBERG-SCHULS, Christian. O fenômeno do lugar. São Paulo: Cosac Naify, 2006. SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 2a ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. TUAN, Yi-Fu. Topofilia. São Paulo: , . DEL SOL, German. A literatura da arquitetura. Disponível em: http:// www.archdaily.com.br/br/01-110614/a- -literatura-da-arquitetura-uma-conversa-com- -german-del-sol-parte-i. Acesso em 08 de março de 2016. http://www.fronteiras.com/artigos/o-impacto-do-ensino-da-arte-ou-da-falta-dele-na-percepcao-do-mundo 124

125


agradecimentos

Terminar esse trabalho de conclusão de curso exige coragem e esforço para tentar sintetizar em um trabalho de curta duração o que significaram os anos da graduação. Colocar um ponto final em longos seis anos não foi tarefa fácil. Para tanto, a presença dos amigos foi indispensável para que esse trabalho pudesse se concretizar. Agradeço imensamente às intermináveis trocas e colos. Obrigada também à minha querida orientadora que nos momentos em que eu não acreditava em mim, me puxava para o chão e me mostrava que sim, tudo ficaria bem, além claro, de me apontar os caminhos que eu muitas vezes por estar imersa não conseguia ver. Por fim, agradeço a minha família que me deu condições para que eu pudesse trilhar esse caminho sozinha, de maneira a conseguir encarar de frente os meus medos e os meus desejos.

126

127



O Espigão e suas janelas | possibilidades no vazio