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Poemas, Amores & Dilemas MANOEL DE ALMEIDA


Ficha Catalográfica R327 Poemas, Amores e Dilemas / Manoel A. de Almeida. — Campo Grande, MS : 2010 - 14,8 x 21 cm².

1. Poesias brasileiras – Mato Grosso do Sul. 2. Poesia brasileira – Mato Grosso do Sul. I. Título.

CDD (22) B 869.1


Poemas, Amores & Dilemas MANOEL DE ALMEIDA

2010 Campo Grande – Mato Grosso do Sul


 Copyright 2010 - Manoel de Almeida Depósito legal Escritório de Direitos Autorais Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro, RJ

Capa: Paloma Sayuri A. Okuma Revisão: Manoel de Almeida Diagramação: Edno Machado


Manoel de Almeida

SOBRE O AUTOR LISENE MARTINS DA SILVA

Manoel Amador de Almeida, filho de Oliveira Amador de Araújo e Ibrandina de Almeida Araújo; nasceu numa fazenda à beira do córrego Macaco no, então, município de Camapuã/MS, todavia, considera-se areadense, visto ser a cidade de Areado a mais próxima de local onde nasceu. Aos dez anos veio para Campo Grande, para estudar. Lembro o quanto era tímido e caipira, tanto que, juntando com sua postura desengonçada (era muito magro, alto de orelha grande), isso lhe rendeu muitos apelidos pejorativos e lhe fez sentir na pele a discriminação e o preconceito. Começou a trabalhar aos treze anos (precisava ajudar na despesa de casa, onde morava com quatro irmãs e três irmãos). Seu primeiro emprego foi numa banca de espetos e sobá na Feira Central (onde adquiriu um pouco de malícia e esperteza); sentiu-se orgulhoso ao receber seu primeiro salário semanal (fruto do suor de seu rosto), o qual colocou a disposição da irmã mais velha, para ajudar na despesa da casa. Seu currículo escolar, até a conclusão do Segundo Grau, como ele mesmo diz, não é dos melhores. Porque saía direto do emprego para a escola, estava sempre cansado (tendo sido, por várias vezes, repreendido severamente pelos professores, por estar dormindo em aula). Por outro lado, logo começou a sentir atração pelos livros. Talvez, pela sua enorme dificuldade de comunicação e pelos preconceitos que sofria por não saber usar a norma padrão da língua, foi-lhe aumentando o desejo de aprender a “falar e escrever bem” e grande admiração por quem o sabia. Tornou-se um leitor regular (suas primeiras leituras foram livrinhos com histórias de faroeste e gibis). Com o tempo, diversificou sua leitura, sempre como autodidata na

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escolha dos livros. Após doze anos que terminara o Segundo Grau, passou no vestibular para o curso de Letras, em 1994, na Uniderp. Como estudante universitário, foi um dos mais aplicados da sua turma. Tanto que, a despeito da defasagem de conhecimento em algumas matérias, recebeu de imediato, o apoio de todos seus professores, os quais lhe davam sempre uma palavra de motivação. Para conseguir pagar uma universidade particular, trabalhava em dois serviços: era policial e nas horas de “folga”, era taxista. No entanto, um ano e meio, aproximadamente, antes de concluir o curso, deixou os dois citados empregos, para iniciar sua carreira de professor. Diz ter aproveitado como poucos a biblioteca da Universidade, onde conheceu os clássicos da literatura universal, dentre os quais chamaram-lhe a atenção (principalmente pela maneira criativa no desenvolvimento do enredo) O Paraíso Perdido de John Milton, e O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde. Também aí, leu os clássicos da literatura nacional, os quais, considera motivo de orgulho para o País. Dentre muitos, cita como um de seus favoritos O Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, que diz ser “o mais brasileiro dos romances”. Dentre os melhores poetas nacionais, cita Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos, Cecília Meirelles e Vinícius de Moraes. Um fato marcante em sua vida de acadêmico, foi que, a partir da metade do segundo ano de curso, começou a sentir mal-estar orgânico (dor de cabeça, vômito, câimbras, taquicardia), os quais foram piorando cada vez mais, a ponto de, no último ano de curso, às vezes, ter de sair da aula. Contudo, não parou de estudar, porque sabia que se parasse, não concluiria o curso. Mas, no dia de sua formatura, em 1998, foi internado no Hospital Universitário, em estado gravíssimo; seu problema era renal. Começou a dialisar. Na mesma Universidade, fez o curso de especialização em Língua Portuguesa e Literatura (02/2001 à 01/2001), concluído com excelente aproveitamento, cuja monografia

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recebeu nota máxima de sua professora orientadora e muitos elogios dos colegas e mestres. Porém, até o presente momento, por não conseguir quitar os débitos junto à Universidade, não pode pegar o certificado nem usufruir dos direitos que uma especialização confere ao profissional (inclusive o de aposentar-se como especialista). Mas ele diz que isso não importa. Mais importante, foi o conhecimento adquirido no curso, que melhorou muito a qualidade de suas aulas. Sempre foi uma pessoa reservada (um tanto casmurro), porém após quebrar a difícil barreira da aproximação, torna-se muito querido por quem o conhece. Considera o sentimento de amizade sagrado, e, na sua maneira exagerada de expressar seus sentimentos, costuma dizer: quando se é amigo, se preciso, morre-se pelo amigo. Desde criança teve um senso de religiosidade muito forte; porém, não entende religião como instituição sectarista, como fundamentalismo, como agremiação para encontros de lazer e desfile de modas, muito menos, como fonte de arrecadação pecuniária. Hoje, aposentado, como professor de português, pela rede estadual de ensino; faz hemodiálise três vezes por semana, contudo, diz estar desfrutando de boa saúde física. O hábito da leitura continua sendo uma prazerosa necessidade para ele; porém, tem dedicado mais tempo a escrever, que também o faz por gosto. (*) Professora de Língua Portuguêsa e Literatura da rede pública estadual de MS

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AGRADECIMENTOS

Manoel de Almeida Se eu fosse expressar aqui minha gratidão às pessoas especiais que Deus colocou em meu caminho, este seria o capítulo mais extenso do livro, e, para mim, o mais significante. Mas, as pessoas que elegeram o Bem como diretriz de suas vidas, praticam-no como expressão natural de suas almas, nunca esperando ou exigindo encômios de seus beneficiados. Assim, por uma questão da própria especificidade do texto, vejo-me forçado a controlar meu ímpeto de elencar uma extensa lista de nomes e de exagerar nas palavras (que “sou mesmo exagerado”). Não o farei, mas neste instante em que escrevo esta nota de gratidão, todos que de alguma forma me ajudaram, desfilam em minha mente e no meu coração e minh’alma embriaga-se de reconhecimento a eles. À parte o sentimentalismo, que me é característico, fazse mister citar o nome de algumas dessas almas amigas. A começar pela minha família, meu refúgio, minha maior certeza de amparo incondicional. Eis alguns nomes desse clã maravilhoso: Ibrandina – mãe; Oliveira – pai; Marilda – irmã; Paloma – sobrinha,...

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Relembrando a época de Universidade vem-me à lembrança minha professora de Lingüística – Ilda Souza. Não fora seu exemplo de amor ao que faz, sua competência profissional e as palavras de apoio e incentivo, eu não teria terminado meu curso. Às minhas colegas de curso: Lisene, Nilvane e Marilza (esta última, para minha sorte, ainda foi minha parceira de monografia, no curso de especialização) hoje amigas muito queridas, sou-lhes grato por terem sido pessoas tão especiais naquela fase de minha vida. Não posso esquecer as valiosas caronas da Lisene e seu esposo Antônio Martins, que, ao final da aula, quase sempre passavam numa lanchonete e, como se não bastasse a carona, pagavam-me um lanche e a cervejinha gelada (eu estava sempre “duro”). Dizem que não é por acaso que o caminho das pessoas se cruza nesta vida. Minha amiga Lisene é um exemplo disso, pois, sempre que preciso, ela aparece para me ajudar; como agora que pedi a ela para escrever minha biografia, e, como sempre, ela aceitou a tarefa. Por sinal, uma biografia muito bem escrita, para um trabalho encomendado de última hora. Tenho tido um convívio bastante prolongado com o pessoal da área da Saúde. E, neste setor, venho conhecendo pessoas especialíssimas. Como costumo dizer, é muito significativo esse pessoal se vestir de branco, pois, são como anjos, e anjos se vestem de branco (é o que sempre ouvi dizer). Ouso honrar-me citando alguns desses anjos, cuja missão é curar corpos, salvar vidas e consolar almas descrentes: Drª Tânia..., que além da competência e humanidade no exercício de sua missão, é uma apreciadora e conhecedora da boa literatura, inclusive, quando eu soube disso, sempre que escrevia um novo poema, corria a mostrar a ela, ansioso pelo seu valioso parecer (coisa que nunca me foi negada) ainda que, como médica solicitadíssima, o tempo para ela é algo de mais precioso. Para completar, tive a ousadia de pedir-lhe que me honrasse, prefaciando este meu livrinho de poemas, e, ela, alma bondosa, aceitou o obséquio. Psicóloga Selma Lúcia de Oliveira: uma alma de luz,

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que alia sua ciência à sua bondade para levantar almas caídas. Também, apesar de o tempo ser-lhe preciosíssimo, prestouse ao trabalho de expor meus poemas no mural da Clínica; e mais, nunca se negou a ler meus textos, pois que, quando decidi publicá-los, tornei-me um tanto maçante para com as pessoas cuja opinião me era valiosa. Enfermeira Andyara Thalissa Forin, que Deus enviou à clínica onde faço tratamento para, com sua competência, zelar pela nossa saúde física e, com sua bondade, nos ofertar compreensão e interesse fraternal. À direção da Clínica de Hemodiálise SIN, pelo apoio cultural, através da liberação de verba que me foi de grande valia; em especial à Dra. Suely Aparecida Daniel pelo parecer favorável. Presidente da UBE/MS, Samuel Xavier Medeiros, que me recebeu cordialmente, e, sem mais delongas, viabilizou este livro. Luzia Câmara, que me apresentou ao Samuel e que Deus deu-me a honra de tê-la como amiga. É escritora, palestrante, membro da UBE/MS, poetisa e declamadora excepcional. A todas as mulheres cuja beleza (inigualável expressão do gênio artístico Divino), meiguice, ternura, afeto,... têm-me sido uma das principais fontes de inspiração; principalmente àquelas que foram minhas musas. A todos meus ex-alunos e alunas que sempre foram compreensivos e afetuosos para comigo. Quando me vêm à tela mental seus rostos jovens com seus sorrisos límpidos e amistosos, ou, seus rostos jovens, porém, já tão sofridos, tornando-os de semblante sempre sérios, preocupados e... tristes; nestes momentos, a saudade é tão forte que quase me leva de volta à sala de aula. Nem bem comecei e já quase escrevi um capítulo. Urge parar.

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À GUISA DE PREFÁCIO A leitura desta coletânea de poemas de Manoel Amador de Almeida é, na verdade, uma viagem ao interior da sua alma. E os caminhos pelos quais ele nos leva até lá passam por sua mente brilhante, prodigiosa, cujos pensamentos personificados nas palavras brotam como sementes em terra fértil; pelo seu corpo muitas vezes castigado pela enfermidade renal, mas, principalmente pelo seu coração onde sentimentos fervilham como num caldeirão de emoções. E a tradução mais sincera desses cenários, interior e exterior, está nas palavras, nessa obra, perfeita materialização de seus dilemas, dores e amores. Convido o leitor a embarcar nessa viagem, saboreando essa, eu como ele mesmo escreveu, não pretende ser uma obraprima, mas seu eu desnudo como um legado à posteridade.

Dra. Tânia Mara S. Bertolatto.

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Manoel de Almeida SUMÁRIO LEGADO À POSTERIDADE ...................................................................................................... 19 APRENDIZADO PELA DOR ...................................................................................................... 20 FORMADOR DE OPINIÃO .............................................................................................................. 21 CURANDEIRA DO MAL .............................................................................................................. 23 VIVI ................................................................................................................................................................... 24 A BELEZA DO SORRISO .............................................................................................................. 24 TUDO É RELATIVO ........................................................................................................................... 25 AMIGO DE INFÂNCIA ................................................................................................................... 26 SER INEXPLICÁVEL ......................................................................................................................... 27 RESILIÊNCIA ........................................................................................................................................... 28 JULGAMENTO DIVINO ................................................................................................................ 29 INESGOTÁVEL RESERVATÓRIO .......................................................................................... 30 LIÇÕES PROVERBIAIS ................................................................................................................... 31 O MAIS IMPORTANTE ................................................................................................................. 32 CHEIO DE GRAÇA ............................................................................................................................. 33 UMA ESTRANHA DOENÇA ..................................................................................................... 34 “OS MUTANTES” .............................................................................................................................. 35 SONHO DE TEMPLÁRIO ............................................................................................................. 36 “O REI DOS REIS” ............................................................................................................................... 37 EPITÁFIO DE AGRADECIMENTO ..................................................................................... 38 MANSÃO DE OSSOS ...................................................................................................................... 39 “DE REPENTE DO RISO FEZ-SE O PRANTO” .......................................................... 40 LIMPANDO O SANGUE E A ALMA ................................................................................... 41 CAUDAL DA VIDA ........................................................................................................................... 42 UM POEMA PARA MARILDA ............................................................................................... 43 MISTÉRIO .................................................................................................................................................. 44 “MEDIDA DAS COISAS TRANSITÓRIAS” ............................................................... 45 A DOR CEGA ........................................................................................................................................... 46 AOS BÊBADOS ..................................................................................................................................... 46 UMA PESSOA ESPECIAL: UMA GRANDE LIÇÃO .............................................. 47 XODÓ ............................................................................................................................................................. 48 MÃE DILETA .......................................................................................................................................... 49 “NÃO REVIDE” ..................................................................................................................................... 49 JUNTO A TODOS, PORÉM, SÓ .............................................................................................. 50 ALMA DE LUA ..................................................................................................................................... 50 O PRIMEIRO BEIJO ........................................................................................................................... 51 “LIÇÃO DA VIDA” ............................................................................................................................ 51 “FORMALISMO SOLENE” ......................................................................................................... 52 PAIXÃO ....................................................................................................................................................... 53

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Poemas, Amores & Dilemas MÉDICA DE CORPO E DE ALMA ........................................................................................ 54 HIPÓSTASE ............................................................................................................................................. 55 MÁGICA ATRAÇÃO ....................................................................................................................... 57 UMA NOITE APENAS .................................................................................................................... 57 SORTE X AZAR .................................................................................................................................... 58 ECCE HOMO ............................................................................................................................................ 59 ESTRELA DO DIA ............................................................................................................................... 60 MÁGICA TRANSFORMAÇÃO .............................................................................................. 60 RELAÇÃO DE DEPENDÊNCIA ............................................................................................... 61 MITO E REALIDADE ...................................................................................................................... 61 MUITAS VOZES ................................................................................................................................... 62 DOLORES .................................................................................................................................................... 62 LAÇOS DE AMOR .............................................................................................................................. 63 BÚZIOS DA MÃE - ESPERANÇA ....................................................................................... 64 TEU SORRISO ........................................................................................................................................ 64 INGRA ............................................................................................................................................................ 65 IMORTAL .................................................................................................................................................... 65 SINCERAMENTE ................................................................................................................................ 66 A POUCO E POUCO .......................................................................................................................... 66 ENLEVO ........................................................................................................................................................ 67 ALÉM ............................................................................................................................................................. 67 DESEJO ......................................................................................................................................................... 68 CHAMA DE AMOR ........................................................................................................................... 68 CADA COISA A SEU TEMPO ................................................................................................... 69 APENAS UM MAL-ENTENDIDO ........................................................................................ 69 QUERER SEM PODER ..................................................................................................................... 70 UMA QUESTÃO DE TEMPO .................................................................................................... 70 INCOMPLETUDE ................................................................................................................................ 71 VASSALOS DO AMOR ................................................................................................................... 72 SER INCOGNOSCÍVEL OU UMA LINHA DE PENSAMENTO .................... 73 DIREITO ARRAIGADO .................................................................................................................. 74 “DEIXA-ME CAIR NESTA TENTAÇÃO” ..................................................................... 75 “QUASE O PRINCÍPIO E O FIM – QUASE A EXPANSÃO...” ................... 76 MUDO NÃO MUDO ......................................................................................................................... 77 O SILÊNCIO FINAL ........................................................................................................................... 78 MATÉRIA DE POEMA .................................................................................................................... 79 DESENCANTO ...................................................................................................................................... 79 CIRANDAR .............................................................................................................................................. 80 SER PENSANTE .................................................................................................................................... 80 VAI E VEM ................................................................................................................................................. 81 DITA ................................................................................................................................................................ 81 MEU NINHO ............................................................................................................................................ 81

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Manoel de Almeida O INSUSTENTÁVEL PESO DO NÃO-SER .................................................................... 82 FALTA ............................................................................................................................................................ 82 ATRAÇÃO FATAL ............................................................................................................................. 83 MODESTO ................................................................................................................................................. 83 SOBERBA .................................................................................................................................................... 84 POESIA SEMPRE ................................................................................................................................. 84 ENCANTO .................................................................................................................................................. 85 UMA HISTÓRIA DE ENCANTAMENTO ...................................................................... 85 MERAS IDIOSSINCRASIAS .................................................................................................... 86 SONETO DA INSÔNIA ................................................................................................................... 87 INTROSPECÇÃO ................................................................................................................................. 88 VIDA EM DESCOMPASSO ......................................................................................................... 88 AO AMOR .................................................................................................................................................. 89 EPITÁFIO DE UM ANÔNIMO ................................................................................................. 89 AMOR A PERDER DE VISTA .................................................................................................... 89 SONETO DE CLICHÊS .................................................................................................................... 90 NA CRISTA DA ONDA ................................................................................................................... 91 MEUS GRILOS ....................................................................................................................................... 91 GÊNESE ......................................................................................................................................................... 91 ETERNO DEVIR ..................................................................................................................................... 92 MEU ESPAÇO ......................................................................................................................................... 92 O LAPSO DE UM MITO ................................................................................................................ 92 À DERIVA ................................................................................................................................................... 93 O PROCRASTINADOR .................................................................................................................. 94 NUMA CLÍNICA DE HEMODIÁLISE .............................................................................. 95 BONITA POR NATUREZA .......................................................................................................... 97 EVOCAÇÃO ............................................................................................................................................. 98 DEUSA DA MINHA NATUREZA .......................................................................................... 98 “AMOR PLATÔNICO” ................................................................................................................... 99 LINDA MORENA ................................................................................................................................. 99 A VIDA É TUDO ................................................................................................................................ 100 “JUGO LEVE” ....................................................................................................................................... 100 VIA DE MÃO DUPLA ................................................................................................................... 101 FALTA ......................................................................................................................................................... 101 RECEITA DA PAZ ............................................................................................................................. 102 O CAMINHO DAS PEDRAS ................................................................................................... 102 MULHER-MARAVILHA ............................................................................................................. 103 TUDO PASSA VOCÊ PASSOU .............................................................................................. 104 “QUE PAÍS É ESTE” ....................................................................................................................... 104 QUASE ....................................................................................................................................................... 105 VIDAS VAZIAS .................................................................................................................................. 105 “VOCÊ É COMO EU SONHAVA” 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Poemas, Amores & Dilemas “..., SE CORRER O BICHO COME” ................................................................................... RELEVO SENTIMENTAL ........................................................................................................... POEMAS LEVEDADOS .............................................................................................................. CALMA AÍ! ............................................................................................................................................ O VALOR DA AMIZADE ........................................................................................................... DESABAFO ..........................................................................................................................................

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UM POUCO DE MEMÓRIA

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LEG ADO À POSTERID ADE LEGADO POSTERIDADE Desde que decidi publicar meus escritos, Tenho vivido alguns conflitos: Que me leva a publicá-los, de verdade? Contribuição para com a humanidade? Legar algo à posteridade? Não tenho tamanha prepotência. Tudo bem, não nego: também tenho as fraquezas do ego. No entanto, meu livrinho não é para tanto. Talvez seja que dos amigos sofri influência, Também sou passível a tal dependência. No ato da produção, não penso em agradar ou não. Apenas transborda do que está cheio o coração Ou decodifica-se o que vêem os olhos e entende a razão. Não me preocupo com rima nem penso em obra- prima. Não sei o que me leva a expor minha obra. Mas para tudo há de haver um motivo? E, se houver, tenho de torná-lo ostensivo? O certo é que, essa decisão, trouxe-me uma preocupação, Nada a ver com meu estilo, se vão falar isto ou aquilo; É que meus poemas são como O Retrato de Dorian Gray: “Coloquei neles muito de mim mesmo” E porque, enquanto Dorian fenecia, Antes do pacto macabro, No Retrato, a juventude permanecia; Então, por vaidade, ele vende a alma ao diabo. Por mim, enquanto vou indo à deriva, Meus poemas vão tendo uma melhora progressiva: Eles são, de minh’alma, a essência; Então, que importa se meu corpo sofre a fatal decadência? Mas,expor-me à apreciação geral: Vale a pena? Se tornar alguma Vida mais amena! Esperemos o resultado final, Que, talvez, não chegará antes do Juízo Final.

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APRENDIZADO PELA DOR Não se cobra, não se exige qualquer tipo de sentimento. A Vida já me vinha ministrando esse ensinamento. Todavia, não fui bom discípulo, Repeti a lição, mais que o triplo. E a Mestra de todos os viventes É especialista em didática, Para cada discípulo, coloca um método em prática. Para os discípulos várias vezes repetentes, Ela usa o método “chorar e ranger os dentes.” Nunca exigi amor de uma mulher Ou de outra pessoa qualquer; O mais nobre dos sentimentos Não é para um Ser pobre de sentimentos. Mas, quando, a alguém dedicava amizade, Exigia retorno na mesma intensidade. Tive de perder boas amizades, Afastar de mim, pessoas especiais de verdade, Para aprender que não se exige sentimentos, Nenhum tipo de sentimento; Eles são livres como o vento, Que “sopra onde quer.” Tão grande foi a dor que senti, Na última lição que vivi: Valeu-me como Exame Final; Agora é Saber indelével em meu cabedal.

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FORMADOR DE OPINIÃO Vulgo, vocábulo ambíguo: Pode significar o que é pífio, reles E pode significar povo, plebes. Um significado com o outro não é contíguo. Ambos neste poema estarão comigo. A par disso, prossigo: O vulgo, legítimo formador da Sabedoria Popular, Cujo valor merece destacado lugar; Também se encarrega de perpetuar Algum ditado cujo mau gosto Fere a língua e cora o rosto; Alguma teoria cuja falsa verdade Pasma o pensador de agora e da posteridade. Eis um desses ditados Que nunca deveria ter sido usado, A não ser pelo truão no tablado: “O homem para se realizar, Tem que ter um filho, Plantar uma árvore E escrever um livro.” Para o vulgo responsável por essa “jóia proverbial”, Cabe o primeiro significado da palavra vulgo Neste poema supracitado. Pois tal adágio trás o contágio Da pior teoria, do pior plágio. Pois que simplifica a Vida Em três atos que por si sós Não reconhecem a criatividade que cabe a nós, Nem a engenhosidade pelo homem desenvolvida. Em uma primeira leitura do referido prolóquio Isto é o que se apura: -Ter um filho: como qual animal, um reprodutor.

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Na a ver com Pai, um Educador. -Plantar uma árvore: Em todos os atos, lavar as mãos como Pilatos. Nada com o dever de , com ação continuada, Preservar a Terra, nossa morada. -Escrever um livro: nenhum comprometimento com a mensagem. Apenas um ato de orgulho e vaidade – essa bobagem. Por mim, o homem ou a mulher Estão na Vida para dar à Vida O melhor de si que puder E aproveitar da Vida Tudo de melhor que a Vida der. Ou sofrer as dores da Vida, Quando à Vida aprouver.

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CURANDEIRA DO MAL Meu Deus, por que permitistes Minh’alma já tão marcada por experiências tristes Cair nas garras de tal “curandeira” Que, com seus sortilégios de feiticeira, Fez-me crer que para mim prepararia Um elixir de atenção e bondade, Uma raizada de carinho e amizade, Uma garrafada de amor e fraternidade, Um chá de “ervas” de esperança e de sinceridade. Com suas falsas poções, “curou” minhas velhas feridas, Outrora tão doloridas, Mas que o Tempo: Cavaleiro de pulso firme nas rédeas, Já me ensinara a domar. não sem muitas vezes chorar. Também o Tempo: legítimo Curandeiro, Para a dor aliviar, protegera-me com grossas côdeas. Não sabias, ó Deus, que se tratava de uma curandeira malvada? Que, após suas vítimas curadas, Com todo sadismo, Causa-lhes novas feridas, E as empurra para o fundo do abismo?

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VIVI Vida Vívida: Vida Vivida. Vi Vida

A BELEZA DO SORRISO Sou encantado pelo sorriso das pessoas. Já ouvi dizer que gente É o único animal com sorriso. Sinal de evolução dos descendentes do Paraíso. Os sorrisos mais significativos: Sorriso de mulher: sorriso mais belo que outro qualquer. Sorriso de criança: sorriso esperança. Sorriso de mãe: sorriso sagrado. Sorriso de pai: sorriso protetor. Sorriso de médico: sorriso encorajador. Sorriso de professor: sorriso incentivador. Sorriso de idoso: sorriso experiente. Sorriso de jovem: sorriso promissor. Meu sorriso: sorriso escasso. Sorriso dos enamorados: sorriso de amor. Sorriso de amigo: sorriso de confiança. Os sorrisos são telas ao vivo, Sem paisagem nem imagem, Sentimentos e emoções são a mensagem.

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TUDO É REL A TIV O TIVO

A relatividade, que a tudo relativiza, Também sofre sua própria relatividade. E, se a matemática com sua linguagem precisa, O gênio da ciência relativiza; Sentimento e emoção: matéria de poesia, Conforme o momento e a situação, o poeta varia. Alguém me disse que devo relativizar a vida, Pois que me acha muito austero. Essa advertência não é tão descabida, Sempre aceitei da vida o relativismo. Agora, vida sem postura assumida, não tolero. Viver sem princípios que norteiem a conduta, É ser um maestro, ante a orquestra, sem batuta. Aceito de bom grado o alvitre que me foi dado; Pois, se, para a física, espaço e tempo são relativas grandezas, E como a vida é mesmo uma constante incerteza, Faz-se mister “levar a vida” com mais leveza.

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AMIGO DE INFÂNCIA Amiguinho de minha infância, Saci Pererê, Quanta saudade de você, Que se perdeu no tempo, na distância. Foi o preço por eu deixar de ser criança. Você sempre me dizia que não gostava de gente grande, Porque, em qualquer lugar que se ande, Encontra essa gente “armada” E,se o encontram pela estrada, Querem logo lhe dar paulada. Só me resta a lembrança daquele tempo na fazenda: À tarde, sem que minha mãe visse, após a merenda, Eu pegava um pedaço de bolo E corria ao seu encontro. Você, de pronto, surgia saltitando, Com a cara de quem fizera algum rolo. Você era tão esquisito: negrinho de cachimbo na boca, Perneta e com sua vermelha touca. Parecia até um ser de outro Planeta. Mas quem dissesse irreal meu amiguinho perneta, Eu respondia logo: - Cale-se. Não se meta. Amigo Saci, eu confiava mais em ti outrora Do que nos amigos de agora: Quando mais você precisa, Eles o deixam, dão o fora. Fantasia, ficção ou realidade A verdade é que você tornou mais interessante O meu Mundo de criança. Por isso, trago até hoje, a todo instante, Você vivo na minha lembrança.

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SER INEXPLICÁVEL Sou como sou, porque, um pouco: A Vida me lapidou. Um pouco: Meu sangue herdou. Um pouco: O meio, a época marcou. Um pouco: A evolução se realizou. Um pouco: É o que se estagnou. Um pouco: Nunca se explicou. Um pouco: Minha livre escolha optou. Falou, falou,... E nada explicou. Afinal, por que sou O que sou? Por que sou como sou?

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RESILIÊNCIA De tanto me acidentar pelas irregulares estradas da vida, Desenvolvi uma nova habilidade Que me permite auto-recuperar dos danos sofridos. Não quando se trata de acidentes com danos materiais, São acidentes que causam danos sentimentais. Se na dor física já desenvolvi certa resistência, A dor moral me atinge sem clemência. Os caminhos do Amor, da Amizade, do Afeto,... Para mim, são cheios de curva, nunca seguem reto. Toda vez que meu Mundo Íntimo sofre um acidente, Todo o meu ser se ressente: A Emoção fica “à flor da pele” Minh’alma toda alegria repele, A Razão muda de ritmo: Quase pára, silencia, se cala. Cede lugar ao coração que chora, fala, fala,... Porém, como tudo na vida tem limite, Desenvolvi uma habilidade Que me permite, Em menos tempo, recuperar os estragos Causados em minha mente, no meu coração. É certo que não sou ainda tão resistente, Mas já me transformei num Ser resiliente: Recupero-me numa rapidez surpreende Dos danos que minh’alma ressente.

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JULGAMENTO

DIVINO

“Separar-se-á dos bodes as ovelhas,...”. Com o Bem o Mal não pode nem se assemelha. “As ovelhas à direita,...”. Fizestes jus à recompensa, aproveita. “Os bodes à esquerda,”... Só vos resta recuperar perda por perda. “Tive fome e sede...”. Não neguemos um prato de comida a quem pede. “Careci de teto...”. É tão difícil abrigar alguém que não nos seja afeto. “Estive nu...” Há tanta roupa no baú. “Achei-me doente...”. Mal visitamos um parente. “Estive preso...” Para esses, só desprezo. “Tudo que fizestes a um destes pequeninos...” Constrange-nos servir a um honesto “pobrecoitado”, Mas a um crápula graduado, ficamos lisonjeados. Aos eleitos, a recompensa: A eternidade feliz, por direito. Aos malditos... Seus suplícios.. . Melhor nem serem ditos.

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INESGOTÁVEL

RESER VA TÓRIO RESERV

Quando pensamos ter perdido tudo, As mais importantes situações vivido, Ter saboreado o que há de mais delicioso, Ter conhecido as pessoas mais interessantes, Ter encontrado o amor perfeito, o melhor amigo... Ter sentido o maior prazer Eis que a Vida nos surpreende Com momentos, coisas, pessoas... inimagináveis. Ocorra o que ocorrer, quantas vezes ocorrer, Dure quanto durar, perca o que perder, Aprenda o que aprender, ganhe o que ganhar; A Vida tem cada vez mais a nos doar. Aliás, quando pensamos ter vivido os piores momentos, A Vida pode nos surpreender com atrozes sofrimentos. Porém, ouvi dizer: a Lei da Vida estabelece Que se multiplique o Bem E que vá desaparecendo o Mal. “Assim como a escuridão é ausência de luz; O Mal é a ausência do Bem.”

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LIÇÕES PROVERBIAIS Chega de choradeira... “Não adianta chorar o leite derramado.” Se um projeto fracassou, A Vida outro já lhe planejou. Se o tempo difícil não passa, Tenha coragem, mostre sua raça. “Água mole em pedra dura...” Se seu amor o abandonou, “Amor não abandona, protege.” E você não sabe o que a Vida para ti elege. Se você foi traído por um amigo, “Amigo não trai amigo.” Você se livrou de um astuto inimigo. “Quem com ferro fere,...” Se você está sentindo solidão: Solidão não mata; fortalece o coração. E, como diz a sabedoria popular: “O que passou, passou.” “Bola pra frente.” A Vida é surpreendente, E reserva muitas surpresas para a gente.

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Poemas, Amores & Dilemas

O MAIS IMPOR T ANTE... IMPORT Mais importante Que conhecer as filosofias do mundo É viver as lições de cada segundo. Mais importante Que provar as hipóteses da ciência É viver com paz na consciência. Mais importante Que princípios ou dogmas religiosos É ter pensamentos caridosos. Mais importante Que decorar códigos e leis É viver a Divina Lei. Mais importante Que saber o mais importante na vida É saber: não há nada mais importante Que a própria vida.

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CHEIO DE GRAÇA É um fenômeno incrível: Pessoas há tão álacres Para as quais tudo é risível. Riem tanto do chiste, Como riem do triste. O que não me é crível É aquele tão jocoso, Que ri até do lutuoso. Com minha falta de humor (nível baixíssimo de Serotonina) Ao contrário do truão, Não rio nem quando há ocasião. Por mais que pelejo, Não consigo rir de gracejo: Que deveria ser como outrora, profissão. Assim, o bufão faria seus gracejos em grande salão. Se não há mais corte como antigamente Há muito “rei” sem coroa e tridente, Cujo gosto artístico eleito, Apreciaria uma “peça de trejeito”. Desse modo não seria encontrado, por toda parte, Tanto maganão desempenhando sua “arte”.

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UMA ESTRANHA DOENÇA - Doutora, preciso de uma superdose de Serotonina, Meu mau-humor está ferindo até as almas femininas, Que são, para mim, como jóias as mais finas. -Vou te receitar Venlafaxina, Para ver se esse teu mau-humor não te domina. -Doutora, preciso de algo para regular minha Noradrenalina; Esta mania de perseguição Me faz ver inimigo até nas almas femininas, Que são as flores da campina. -Vou te receitar Respiridona, Para ver se essa mania não se torne tua dona. -Doutora, preciso de algo para controlar minha Endorfina, Está me causando dor até a alma feminina; Qual será minha sina? -Vou te receitar Haldol, E rezar para que nessa tua vida, Entre algum raio de sol.

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Manoel de Almeida

“OS

MUT ANTES” MUTANTES”

Acho que há um contra-senso Entre o que falo e penso. Diz-se que no exemplo da ação É que se mostra o caráter, o coração. Isso pode não ser consenso Uma questão psicológica Não se resolve só com lógica, Envolve sentimento E o calor do momento: Às vezes, age-se como se sente, Às vezes, age-se como se pensa, Às vezes, age-se como se fala. E, às vezes, age-se de forma surpreendente. Não sei se isso tem a ver com dupla personalidade, Se é anormal ou se está dentro da normalidade. Mas, exceção feita aos “seres constantes”, Que são agora o que foram antes E serão os mesmos daqui a instantes, Em se tratando de comportamento, Somos todos seres mutantes.

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SONHO DE TEMPLÁRIO Minha adolescência foi repleta de sonhos de Lancelot e de Percival. Eu seria um cavaleiro, a toda prova na luta contra o mal. Quase louco, da Távola Redonda, procurei algum vestígio. Na esperança de um dia cruzar com o rei Arthur, Cultivei os nobres sentimentos de cavaleiro, Para conseguir do rei algum prestígio. Mas sonha-se, sonha-se, até que um dia a realidade mostra sua carantonha. Logo descobri, eu não morava em Avalon. E no país da minha vida real, não basta ser bom e lutar contra o mal, Nem ser tão autêntico convém. Basta ser astuto e representar o papel de “homem de bem” A nobreza e a bravura de cavaleiro ficam em plano terceiro. Ao invés da busca pelo Santo Graal, A luta pela sobrevivência de um simples comensal. As damas e as donzelas que personificavam a virtude e a candura, Dispensaram minha proteção de cavaleiro, Para viverem suas aventuras, E elas estão certas, conquistaram com propriedade, Seus lugares de destaque na sociedade, Não precisam mais de pajem para decidir suas prioridades. Se o herói a cada obstáculo robustece a sua vontade, Foi então que descobri: eu não era herói de verdade. Quando a vida me exigiu prova mais rude, Não agüentei... Não pude... Enfraqueceram-me as virtudes, Apequenaram-me as atitudes.

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“O REI DOS REIS” Com seu verbo, anunciava novos valores, Provocando admiração entre doutores. Seu ensinamento tinha algo sublime, Mas, à vezes, ia contra o costume. Antes Dele: o inimigo subjugado, Sem piedade, deveria ser eliminado, Ou de alguma forma usado. Depois Dele: “perdoar não sete vezes, Mas setenta vezes sete vezes,...”. “Amar os inimigos,...”. Antes Dele: a tradição da lei. Depois dele: “Amar o Pai sobre todas as coisas E ao próximo como a nós mesmos...” A Lei. Antes Dele: A terra, este grão de poeira cósmica, Era o lugar onde tudo se iniciava e se encerrava. Depois Dele: “Na casa de meu Pai há várias moradas,...” “Buscai primeiro o Reino do Céu,...”. O símbolo da maior lição Que veio ensinar para a humanidade: a Cruz. Ele tudo podia, o Pai o protegia,... “Pedro,”... Quem pela espada fere, Pela espada será ferido,...”. Diz o dicionário: “Crucifixo: a cruz Com a imagem de Jesus.” Mas há um significado subjacente: Crucifixo: Coragem, Humildade, Resignação, Fé, Perdão, Esperança, Compreensão, Amor, Bondade, Poder, Vitória,... Paz,... Jesus Cristo: o maior exemplo do Amor Incondicional.

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EPITÁFIO DE AGRADECIMENTO Jazigo, Jaz contigo Não eu – te digo: Só o casulo que me serviu de abrigo; A armadura que usei para lutar contra o perigo; O escafandro que me permitiu, no mar do mundo, Sobreviver a este mergulho profundo; O corpo denso, Com o qual, Ás vezes alegre às vezes tenso: Amei, sofri,... Chorei, sorri,... Aprendi, vivi,... Mas, ó Jazigo, Sou grato a ti: Última morada Desse instrumento, Que me serviu como um jumento – Na chuva ou no relento.

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MANSÃO DE OSSOS Mausoléu, Vivendo ao léu, Tão suntuoso. És um anfitrião tenebroso, Mas recebes o humilde e o orgulhoso. Em tua estranha calma, De seu hóspede não tens a alma, Que foi pro Céu Ou pro Umbral, Onde o mal Passa a limpo todo labéu. Ó mausoléu, De ti tem medo O velho e o moço, Não entendem que a morte É o recomeço, E tarde ou cedo Todos pagarão seu preço. Mas, tu, ó Mausoléu, Em teu colosso, Só guardas osso.

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“DE REPENTE DO RISO FEZ-SE O PRANTO” “Vinícius de Moraes” Avassalador é o amor E tudo quanto se vive com intensidade. Tanto avassala de dor Quanto avassala de felicidade. Que o diga quem já viveu um amor, uma amizade,... E viu como o tempo bom, em uma tempestade, Se transformar numa fria inimizade: O coração que recebia o calor do afeto: gela... quieto. A mão que recebia e transmitia O calor do cumprimento e da carícia: sua, esfria,... A mente que só emitia ondas de felicidade: oscila,... Os olhos, para os quais, tudo era encanto: pranto,... Isso parece uma norma: ninguém se conforma,... Ao final, fica a lição: Como me disse uma sábia mulher “Todo relacionamento é um investimento” Coração e razão devem gerenciar A aplicação de cada sentimento.

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LIMP ANDO O SANGUE E A ALMA LIMPANDO O meu sistema urinário Tem me feito “desfiar um rosário”. Se não funcionam os meus rins: Ácido úrico, potássio, uréia e outros afins, Vão sujar meu sangue, que já tem fama de ruim. Transplante ou hemodiálise, Não há outra análise, Não há outra saída... A não ser que se opte por sair da vida; Mas a luta pela sobrevivência Faz parte de nossa essência; Ainda que os dias não sejam nada bons, Ainda que em meus ruins, Um milhão de nefrons Neguem-se a exercer seus dons, Que basicamente é produzir urina, Só me resta seguir minha sina. Mas esta vida é uma escola E um dia vou “passar”: sem cola. Reconheço: não sou bom aluno, Por isso, repito a lição ano a ano. Uma coisa já aprendi: Não tenho mais revolta Pelo que vivo e já vivi, A vida dá muita volta E, eu sei, ela não termina aqui.

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CA UD AL D A VID A AU DAL DA VIDA A manta do esquecimento Quer cobrir meu passado próximo distante. Já não me lembro bem da minha infância Nem do que vem logo adiante. Ao pensar no meu tempo de criança, Dois sentimentos controversos Vêm-me à lembrança: Entristece-me a ausência de pessoas Que foram meu “porto seguro”... Tão boas... Davam-me afeto sincero, puro,... Outras vezes, ao penar no passado, Vêm-me à memória Flashes da linda história de uma criança Que cresceu brincando nos prados, Tomando banho no córrego, sorvendo ar puro, Colhendo no pé fruto maduro, Inventava brinquedos, com a ajuda do avô,... Mas o tempo, num complô Com a distância, Despedaçaram inteira a história. Só me resta juntar seus fragmentos em minha memória. Eu sei, a vida é um Nilo de águas correntes, Plantam-se tudo em suas férteis margens, Fazem-se abundantes colheitas, Mas um dia vem a enchente Levando tudo que encontra pela frente: Colheitas, paisagens, pessoas,... Porém, a vida continua sempre. E o Nilo do momento presente Baixou as águas, as margens estão férteis,... Urge lançar a semente,... Fazer a própria história, E deixar o tempo... Como diz um sábio e popular provérbio: “O futuro pertence a Deus”.

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UM POEMA PPARA ARA MARILD A MARILDA Muitas vezes de você me afastei, Ás vezes, quando de mim mais precisava; Mas, quando a nova aventura fracassava, Nunca vacilei, sempre voltava. E você sempre me recebendo de braço aberto. Nunca perguntando se andei errado ou certo. Não acredito em acaso, Deve haver uma boa causa, Para nos encontrarmos de pausa em pausa. Já vivemos junto cada caso! Além de toda ajuda, deu-me O presente mais lindo: Minha sobrinha Paloma Que sempre me deixa sorrindo. Os “amigos do Mundo” nos querem juntos Na alegria, com saúde, bonitos, fortes,... Você, minha irmã, nunca foge Quando me mostro feio e fraco. Ao contrário, na doença, na tristeza,... É quando estou ao teu lado. Irmã, todo o bem que eu lhe fizer Será mísero troco. O pior é que tenho feito tão pouco. Mas nós sabemos, irmã, a vida continua,... E eu levarei na Alma, por toda Eternidade, Tua sincera fraternidade. Não importa quanto tempo passar, Para mim, uma grande felicidade, Será sempre poder te ajudar.

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MISTÉRIO Dormindo ou acordado, alegre ou triste, Amando ou odiando,... Sempre me envolveu o Mistério. De onde vim, pra onde vou, quem sou ...? Mistério. Minha curiosidade: existir em meio a tudo que existe E “não existe” - Mistério. Meu maior assombro: perceber o quanto são obtusos Meus cinco sentidos. Nem calculam Que além desta dimensão – vidas pululam? Mistério. Emoção... poesia, amizade, amor,... Mistério. Amor... Causando alegria e dor: Mistério. O mito, a lenda, a fábula, a parábola: Mistério. Todo Saber esotérico, todo Saber desvendado: Mistério. Os sábios, os profetas, os artistas, o andarilho,... Mistério Moisés – a primeira grande revelação Do sentimento fraterno: Mistério. Jesus Cristo – a primeira grande revelação Do amor incondicional e do Perdão integral: Mistério. Verdade...? Mistério. Vida... Mistério... Morte... Mistério... Qual nossa sorte? Mistério.

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“MEDID A D AS COISAS TRANSITÓRIAS” “MEDIDA DAS O tempo às vezes para, O tempo às vezes voa. O tempo... Com ele: Ás vezes, toma-se na cara, Ás vezes, viaja-se na proa. O tempo é o passado, O tempo é o presente, O tempo é o futuro. O tempo não mata nem cria, O tempo só propicia,... O tempo não é mole nem duro, O tempo não é leve nem pesado, O tempo não é frio nem quente. O tempo é o estado de espírito, O tempo de quem o sente. O tempo... Não existe?

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A DOR CEGA Minh’alma estorcega Parece estar cega Pela dor – esta fera Que a dilacera. Ó minh’alma, não chora, Para Chronos, o Deus que tudo devora, Cada coisa tem sua hora.

AOS BÊBADOS Aguardente Aguardando, Chega gente Vai chegando. Chega triste E cansada. Sai alegre, Pega a estrada: Vê dois postes, Dois amores... Mil temores. Duas portas Na chegada, Chaves tortas, Fechadura emperrada? Eta vida complicada.

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UMA PESSO A ESPECIAL: UMA GRANDE LIÇÃO PESSOA Com minha psicóloga, aprendi que doçura cura: Personalidade insegura, imatura,... Cura até paciente cabeça dura. Aprendi que conhecimento tem mais valor, Quando associado aos bons sentimentos. Aprendi que ouvir, sempre, É melhor que discutir. Aprendi que um sorriso, às vezes, É tudo que se faz preciso. Aprendi que é preciso nos desarmar, Que cara feia só faz atrapalhar. Aprendi que não é feio chorar, Que é bom desabafar. Aprendi que por maior seja o erro, Sempre dá para recomeçar. Aprendi que precisamos nos aceitar, nos perdoar, Para, então, aceitar os outros como eles são.

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Poemas, Amores & Dilemas

Aprendi que a bondade é um sentimento Que nos difere da animalidade. Outras lições com minha psicóloga aprendi. Qual foi sua didática? Poucas palavras, bondade, compreensão,... Seu exemplo: a maior lição.

XODÓ Morena, meu chamego, Tua ausência me tira o sossego. Faz-me falta teu afago. Se não voltares logo, De saudades me afogo. Como viver sem teu aconchego?

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MÃE DILET A DILETA Maria de Nazaré, quão grande é tua fé; Filha dileta do Pai, Concebeste o dileto filho do Pai. Nosso dileto Irmão. Tornaste, assim, nossa dileta mãe. Por isso, querida dileta mãe, Conte-me sempre nessa seleta família. Que uma faísca de tua fé Possa cair ao meu pé, Iluminando-me a reta, Evitando-me a que na sarjeta; E que, ainda por entre espinho, Por entre as gentes ou sozinho, Eu possa sentir tua proteção, teu carinho. “NÃO REVIDE” Se me convencer Eu adiro Se me provocar Não atiro Dialogar Eu prefiro Se não aceitar Me retiro.

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JUNTO A TODOS, PORÉM, SÓ. Meu Deus, Como dói: ai Não, nenhum perfurocortante Meu corpo lacera. È a solidão profunda e constante Que minh’alma macera.

ALMA DE LLU UA Hoje é lua cheia E minh’alma Ainda mais vazia Hoje é lua crescente Como a dor Que minh’alma sente Hoje é lua minguante E em minh’alma Mingua a alegria restante Hoje é lua nova E em minh’alma A tristeza se renova.

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O PRIMEIRO BEIJO O beijo é uma isca Experimente-o ligeiro, Como quem belisca, Se arrepia o corpo inteiro Ou se sai apenas faísca O momento é prazenteiro. Depois, pode seguir á risca: Ninguém quer só o primeiro, Quer experimentar tudo... Por inteiro.

“LIÇÃO D A VID A” DA VIDA Chamavam-me para uma conversa, Não tinha tempo. Estava com pressa. Tempo... Tempo vai... Tempo vem... Situações, paisagem, pessoas,... Protejam-se em minhas lembranças Numa confusão de imagens: ruins e boas: Aquele bate-papo com o vizinho, Para o qual nunca tive tempo; Aquele minuto de atenção Que me solicitou um transeunte, Mal olhava em sua direção. As flores, as construções, os animais, As pessoas, as situações, as paisagens,... Coisas que eu deveria ter apreciado mais.

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Poemas, Amores & Dilemas

Deveria ter pousado meu olhar sobre sua vida, Como quem contempla sagradas imagens. Momentos simples ou importantes Vividos juntos à pessoas queridas Passaram tão rápidos... Eu estava louco, numa louca corrida. Após meio século de desatino, Lembro-me meu tempo de menino... Naquele tempo... Mas nem tudo esta perdido, Além de alguns bons momentos vividos, Foi um tempo de aprendizado E a vida vai além destes prados, Lá onde novos rumos me serão dados.

“FORMALISMO SOLENE” As convivências do mundo Deixam - me confuso, mudo. Confunde-me o convencionalismo humano. Pessoas há que têm um formalismo tão fino, Que esta minha alma de menino, Sem suspeitar dos perigos, Logo os pensam amigos. Mas o “ser social” relaciona-se por contrato, São gentis, de fino trato Onde, quando e com quem A postura... impostura convém. Cerra-se do palco a cortina

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Manoel de Almeida

O ator desnuda-se à retina. Trata-se de um mal necessário? Quem sou eu para dizer o contrário! Mas, por favor, mostre-se, diga a que veio. Enganar os outros é feio. Destarte, quando penso ter aprendido a lição, Eis que me aparece outro camaleão.

PA I X Ã O Quando pouso meu olhar Sobre ti Contemplo a mais linda imagem Que já vi Quando ouço a voz Que vem de ti Penso que um anjo ouviu Quando meus braços Abraçam a ti Sinto as melhores sensações Que já senti Quando meus lábios Encontram-se com os de ti Já não consigo descrever O que vi, ouvi ou senti,...

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MÉDICA DE CORPO E DE ALMA Conheci uma médica Cuja alegria espontânea, Deus concedeu, para que distribuísse a mancheia, Neste mundo onde há tanta cara feia. Escalada, para esta missão, Disse Deus então: -Vá, minha amada filha, sorria, Ainda que no exercício da tua profissão, A morte fria Ronde de noite e de dia; Ainda que seus pacientes, De dor ou de revolta, Gemam e chorem à tua volta, Tu superando, a própria dor que sentes, Com tua ciência, cura-lhes os corpos doentes. E com teu sorriso, balsamiza-lhes as almas descrentes. Sempre ouvi dizer que anjo se veste de branco, E para ser franco: Para mim, é um anjo, Esta médica que conheci, Um instrumento de Deus, Em missão na terra.

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HIPÓST ASE (*) HIPÓSTASE Espectros meus pensamentos pululam; Seres por natureza noctâmbulos, Invadem meus sonhos, Irônicos e risonhos, Quais lobos famintos ululam. E vagueiam minhas recordações... Sonâmbulos. Olhando em seus olhos tristes e vagos, Vejo-me contemplando o espelho cristalino dos lagos: São os “eu mesmo” fictícios, Pessoas que eu quis ser, mas não pude... Não se concretizaram,... Abortaram,... Por que meus planos mudavam a miúde. Agora, não se conformam com o destino: Apontam-me o dedo em riste, Dizem que, se não fosse meu desatino, Um deles seria pessoa do mundo real, Desempenhado seus papéis, seus ofícios. Dizem que minha personalidade atual É um equivoco uma fraude,... não existe. Um desses espectros, que diz ser artista, Alega que errei no meu ponto de vista: Fosse eu sua personalidade, Teria fama e seria celebridade. Outro que se diz juiz, Sentencia-me: - Não fosse tua preguiça, tu terias feito muita justiça. Um que se diz religioso, Afirma que se eu fosse menos cético e mais virtuoso

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Poemas, Amores & Dilemas

Teria convertido o herético e o presunçoso. Para o que se diz médico: Deixei de realizar o sonho de meus pais. E ainda há o piloto de caça, o jogador de futebol, o marinheiro,... Fico impressionado: - Meu Deus, Quanto personagem criei e matei! Eles foram protagonistas dos meus projetos de vida. Hoje, são sombras do meu passado, Sempre retornam, protestando em brado,... Então, para amenizar-lhes as dores da ferida, Eu digo: - Não existe acaso. Quem sabe um dia... Interrompem-me: - Não nos venha com fantasia. E vão se, olhando-me de revés. Como se alguém me ouvisse, exclamo: - Voltaram, eu sei. São partes do mundo que criei.

(*) O dicionário Aurélio registra: “em filosofia, ficção ou abstração falsamente considerada como real”

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MÁGICA A TRAÇÃO ATRAÇÃO Amor... Amizade... Afinidade... Uns dizem: te amo... Outros: tenho-te amizade. Para dizer a verdade: Gosto de tua intimidade. Questão de afinidade? UMA NOITE APENAS Apesar da noite romântica, Apesar desta música gostosa, Apesar do brilho em teus olhos, Eu sei que estes são momentos Que passarão como o vento, Transformando a noite vã Em um dia sem melodia, Derrubando os castelos de fantasia.

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Poemas, Amores & Dilemas

SORTE X AZAR A sorte Do Jogo É neutra A lei Do Jogo: Acaso Perfeito Leva a melhor Quem do azar A sorte tirar Só quem jogar. A sorte Da vida É justa A lei Da vida: A causa Efeito. Leva a pior Não é azar Quem da sorte Quer abusar.

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Manoel de Almeida

ECCE HOMO(*)

“O homem é uma corda, atada entre o animal e o além do homem, uma corda sobre um abismo”. (Nietzsche – Zaratustra, 1883) Semi-animal, tu hesitas Entre o bem e o mal; Dentro de ti, trava-se. O duelo do instinto E da razão. Nesse rio turbulento, Nesse torvelinho de pensamentos, Com esses sentimentos Que te causam tormento, Vives a rolar Ao sabor dos acontecimentos. Em alguns momentos, Pensas usar a razão, Parece ver, lá no fundo, Uma luz que te ilumina O entendimento. Mas tuas ações Desmentem tuas intenções, Ficando potente Que o que sentes Te iguala a teu ancestral: O animal irracional.

(*) Locução latina que significa “eis o homem”. Palavra de Pilatos aos judeus, quando lhes apresentou Cristo coroado de espinhos. Pode servir para anunciar qualquer pessoa por qualquer motivo. (Almeida, Napoleão Mendes de,. Dicionário de Questões Vernáculas, 1981)

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ESTRELA DO DIA Estrada afora, Estrelas vi brilhar A toda hora; Porém, agora, Parece romper a aurora O brilho dos olhos Desta moça que me namora E diz que me adora. Isto me faz feliz Como só agora, Moça que me enamorada!

MÁGICA

TRANSFORMAÇÃO

A nossa amizade Assim sem alarde De repente chegou Para sempre ficou Ficou de verdade Para a eternidade A ninguém avisou Em amor o transformou

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RELAÇÃO DE DEPENDÊNCIA O meu querer é transitivo direto, Pois te quero objeto direto, direto,... Também pode ser transitivo indireto, Só quando um “a”, Preposição do amor, Se interpõe entre nós, Então, contrariando a regência, Nesta relação de dependência, Faz-me termo regido, Porque, sem tua presença, Tudo fica sem sentido; Pensando bem, Quero-te no infinito, Quero-te por definitivo.

MITO E REALID ADE REALIDADE Na vida real Helena é você Ulisses é seu pai Menelau é seu marido Páris sou eu Tróia é meu coração destruído.

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MUIT AS V OZES MUITAS VOZES

“... O homem frente ao espelho. “O não eu em mim, algo que é maior que eu em mim, o ser em mim”. (Mikhail Bakhtin) São vários “eu” em mim, Em alguns momentos Cada um fala por vez, Em outros momentos Falam de uma só vez Todos falam “em mim”. Se erro, por mim, Está tudo bem assim, Porém vem um eu certinho E diz: - Não é bem assim! Se acerto, por mim, Me sinto feliz assim, Porém um eu espertinho Inquieta-se todo em mim! Um diz não, outro sim, Grita, fala baixinho. A voz do outro em mim Quem sou eu enfim?

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DOLORES Não chorarei Dolores, Quando te fores. Mandar-te-ei flores De todas as cores. Lembrar-me-ei dos amores E dos dissabores. Valeu os amores, Apesar das dores Posteriores.

LAÇOS DE AMOR Os laços de amor, São difíceis de desatar. Quem de amor brincar Pode até se machucar. Ficará então a chorar A ferida que teima Em não cicatrizar.

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BÚZIOS D A MÃE - ESPERANÇA DA Se tu andas triste, desalentado, Teu problema é amoroso? Não importa, pode ser Financeiro ou familiar Visita Mãe-Esperança E tudo vai mudar Ela te dirá que Todas as soluções Estão bem mais perto Do que imaginas. O preço que pagarás? Acredita: Será pago em emoção Que sentirás quando Encontrares a felicidade Em teu coração.

TEU SORRISO Para que dúvidas não haja De que teu sorriso exista É preciso que o veja, Ainda assim, Já não o tendo à vista, Pensa-se que sonho seja, E faz que, dúvida incrível, Uma interrogação surgira: - Meu Deus, será possível. Algo tão lindo assim? E o coração suspira: - Ai de mim!

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INGRA Tua beleza fere, mata. Diz aquele que te idolatra; Teu nome diz Ingra, Tu és ingrata. Bela ninfa, não te entristeça, Néscio é quem pensa Que rude mortal De teus lábios mereça Mais que um sorriso Que o enalteça. A mim, teu nome diz Ingra, Que és Ninfa Dos rios e mares Por onde singra O barco dos sonhos De mil amores.

I M O RTA L O tempo passa Passa veloz Perece o corpo Não cala a voz Tempo algoz Destino atroz Não fere a alma Nem cala a voz

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SINCERAMENTE Eu queria ser seu vizinho, Assim daria um jeitinho De, todo dia, vê-la de pertinho. Não me diga interesseiro, Só quero ser cavalheiro... Para lhe ser sincero, Algo mais eu quero: Ter você toda – por inteiro. Para isto estou disposto A ser seu prisioneiro, Não precisa me algemar, Farei isto com gosto, Basta você me amar: Não de um amor eterno, Basta... Enquanto dure a chama.

A POUCO E POUCO Querer muito Poder pouco Pensar muito Agir pouco Tempo pouco Tudo pouco Sempre pouco Sentir muito? Isto é pouco, Muito pouco.

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Manoel de Almeida

E N L E VO Meu encanto Meu espanto Ante a vida São de um tanto Que me deixam tonto Sem saída, sem guarita. Por sua pequeneza – tanto Por sua grandeza – quanto Pela incerteza da vida! ALÉM Este corpo hoje sustenta Nossa visão de mundo; Amanhã, vermes imundos! Restará deste banquete Algo mais além de ossos Em um buraco profundo? A ciência nos informa: Há no mundo uma norma “Na vida nada se cria, Na vida nada se perde, Tudo apenas se transforma”. Já havia em nosso ancestral Uma crença transcendental, De que nestes corpos nossos Habita um ser imortal, Algo mais além de ossos!

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DESEJO Noite Fria Rua Vazia Solidão... Serena. Que eu não daria Para sentir o calor De teu corpo, morena!

CHAMA DE AMOR Se eu fosse uma chama, Queria que minha luz Guiasse a quem Procura a verdade. Se eu fosse uma chama, Queria me aproximar Dos corações insensíveis E fazer que sentissem O calor do amor. Se eu fosse uma chama, Queria aquecer A quantos sofrem O abandono, a solidão e o frio. Se eu fosse uma chama, Precisaria do amor E da compreensão De todas as pessoas, Para que eu pudesse Brilhar eternamente.

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CAD A COISA A SEU TEMPO CADA Há momento para tudo. Há momento de felicidade: Bom para poesia de amor. Há momento de sofrimento: Bom para chorar de dor. Há momento de serenidade: Bom para fazer filosofia. Há momento de intensa agitação: Bom para viver... Sem muita teoria. Há momento de profunda introspecção: Bom para repensar tudo. Há momento tão... Estéril: Bom para... Nada... Vazio.

APENAS UM MAL-ENTENDIDO Na mesa, um papel – “um risco”. No papel, uma linha – um rabisco, No peito, o coração – num aprisco, Na mesa, o telefone – eu disco? No coração, o medo – não arrisco, Na janela,... Vem você! – de feliz, nem pisco.

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Poemas, Amores & Dilemas

QUERER SEM PODER Minh’alma se alegra Euforia por dentro Minh’alma se apega Contagia-se te vendo Minh’alma se cega Inebria-se te querendo Minh’alma não nega Realizar-se-ia te tendo Minh’alma se lembra Tristeza por dentro Minh’alma se entrega Te quer não podendo.

UMA QUESTÃO DE TEMPO Eu fico olhando O tempo passando Eu fico pensando O tempo passando Eu fico esperando O tempo passando Eu fico sonhando O tempo passando Até quando? Até quando? Até quando? Não responda. Estou só divagando. E o tempo passando, Passando, passando...

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Manoel de Almeida

INCOMPLETUDE Sinto tamanha saudade De algo que nunca partiu, Porque também nunca chegou. Tenho a sensação de ter perdido Algo que nunca esteve comigo, É uma ausência, um vazio. Que jamais foi preenchido, Nem tem espaço definido. Estou sempre à espera De... Não sei bem o quê. Apenas uma incompletude, Uma ansiedade sem por quê. Já vivi grandes amores, Todos me fizeram feliz, Todos se foram sem rancores. Só a ansiedade – esta megera, Põe-me de castigo Numa eterna espera.

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Poemas, Amores & Dilemas

VASSALOS DO AMOR (*) Ondas do mar da vida Se viste minha querida Por Deus, que volte enquanto é cedo! Água do mar salgada Se viste minha amada Por Deus, que volte enquanto é cedo! Se viste minha querida Aquela por quem dou a vida! Por Deus, que volte enquanto é cedo! Se viste minha amada Que por mim foi magoada! Por Deus, que volte enquanto é cedo!

(*)Parafraseando Martin Codax – trovador Português

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SER

INCOGNOSCÍVEL OU UMA LINHA DE PENSAMENTO De mim O que sei É que sou Uma partícula Pensante, Pulsante Neste Universo Gigante; Que apagada É latente E desperta É alerta; Que sente Sensações Diferentes; Que sabe Não vai ficar Pra sementes, Mas quer Continuar Entre as gentes; Que olha o céu Sem nada Entender, Mas quer Saber A causa, A razão De seu próprio Viver;

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Poemas, Amores & Dilemas

Que... Ou não?! Será que tudo É só impressão?! Algo como O idealismo De Platão?! Será que sou Só uma ilusão?!

DIREITO ARRAIGADO Sem-terra, sem-teto Sem... Tenta, sem ter... Sem ter alfabeto, Sem ter alimento, Entanto sentimento, Em tanto sofrimento. Há terra, há teto. Ter tanto... Ah!...Tenta! Há tanta...; ter sem... Sem ter sentimento, Nem tanto alimento, Há tanto faminto! Há aumento de bens... Do Mais opulento! Ah! Direito de nascimento?!

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Manoel de Almeida

“DEIXA-ME CAIR NEST A TENT AÇÃO” NESTA TENTAÇÃO” Ela elegante Bela charmosa Pele sedosa Suas formas Tão sinuosas Seu sorriso A porta Do paraíso? Da perdição No dia Do juízo? Que me importa! Meu coração Sem juízo Entrega-me À sorte Sua sedução É mais forte!

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Poemas, Amores & Dilemas

“QU ASE O PRINCÍPIO E O FIM – QU ASE “QUASE QUASE A EXP ANSÃO ...” . EXPANSÃO ANSÃO...” (Mário de Sá-Carneiro) Há o quase imaginável, Há o quase vazio, Há o quase concretizável; Há o que, por um fio, Quase se torna pensável, Quase se torna palpável; Quase é um fio Entre o real e o irrealizável.

MUDO NÃO MUDO Eu mudo Meu mundo Eu mudo No mundo Eu mudo Não mudo Meu mundo.

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Manoel de Almeida

O SILÊNCIO FINAL! Mudam-se em tudo Mudam-se as formas Mudam-se as normas Mudam-se as opiniões Mudam-se as decisões Mudam-se os ensejos Mudam-se os desejos Mudam-se os caminhos Mudam-se os carinhos Mudam-se as intenções Mudam-se as emoções Mudam-se os transtornos Mudam-se os contornos Muda-se o mundo Mudam-se para o mundo Mudam-se para mudos Muda-se de mundo? Mudos, mudos, mudos! No final, o silêncio é tudo?

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Poemas, Amores & Dilemas

MA TÉRIA DE POEMA ATÉRIA Se queres escrever um poema E não encontras um tema, Faze da humanidade teu lema, Ela é palco de grandes dilemas. E se escrever a humana odisséia Exige mais que uma epopéia, O esplendor autêntico da natureza Pode inspirar-te a criar beleza. E se para a arte até o feio é belo, Simetria e ritmo pode ser o elo. E se sobre ti mesmo queres escrever: Discordar, concordar, cair, levantar, Sofrer, chorar, sorrir, amar. É linguagem fácil de entender. E se a dor dilacera em chamas, Quanto mais se sofre, mais se ama. E se de tristeza às vezes se porfia, No mais das vezes, há muita alegria. E se formosura e forma na mulher é imã, Eis um bom motivo para se fazer rima. E se nada disso de deixa extasiado, Vê lá fora uma noite de céu estrelado.

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Manoel de Almeida

DESENCANTO Meu quarto outrora, Habitava sonhos encantados – hoje, Pesadelos (sombras de sonhos não realizados) São meus anfitriões, aguardando-me No limiar do meu sono de desencanto. Meus pensamentos, que outrora Deslizavam audazes e intrépidos Através de minha boca, Hoje se recolhem e só viajam Por suas confidentes estradas secretas. O que me constitui transformou-se Numa silenciosa montanha Aguardando a passagem do tempo, Na certeza de que forças ocultas corroem-lhe a base, Preparando-lhe a queda final. O que guardo de belo em mim São flores de cacto na aridez Do deserto em que me tornei, Castigado por “fenômenos climáticos” Das minhas experiências de vida. O que ainda me alenta É a possibilidade de ter sido inventado, E vivido e sofrido e usado, Por um engenhoso e mágico inventor Que saiba e queira e recicle Os farrapos que sobraram de mim, Quiçá até queira dar brilho novo À luz que outrora Fulgurava em meus olhos.

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Poemas, Amores & Dilemas

CIRAND AR DA Meus pensamentos São uma ciranda Giram em círculo Que os acontecimentos comandam Minhas emoções São energias Que alimentam A ciranda Se fico aquém O círculo desanda

SER PENSANTE Ninguém nasceu para ser uma ilha, Há sempre mais alguém na sua trilha, Seu pensamento – uma multidão compartilha. Afinal, “o homem é um ser social”. Isto é um comportamento normal, Predomina no Reino Animal, Queira ou não você é igual.

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Manoel de Almeida

VAI E VEM Tudo bem, Tudo vai, Tudo vem, Tu também, Ó meu bem.

D I TA Ali, Certo, Sofri. Aqui, Sorte, Sorri.

MEU NINHO Reza Chazinho Carinho.

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Poemas, Amores & Dilemas

O INSUSTENTÁVEL PESO DO NÃO-SER Quem diz que o nada É a ausência de tudo? Se em minha vida Há espaços cheios de nada E se no nada Sinto a presença de tudo? Tudo o que se faz ausente No nada se faz presente No corpo, na alma, da gente. De corpo e alma – na mente.

FA LTA Noite quente, Coração frio; Que dizer? Quem ouvir? Noite muda, Tudo vazio.

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Manoel de Almeida

A TRAÇÃO FFA A T AL Às vezes me perco Em meio aos sentimentos Que me prendem a você. As horas que passo Com você Em meus pensamentos, Às vezes, são de pura alegria, Às vezes, são de puro tormento. Mas sei – estes laços Que me prendem a você Não fui eu que os lancei, Nasceram em minh’alma Assim que a olhei.

MODESTO Quero tão pouco Tenho tão pouco O tão pouco que tenho Com o tão pouco que quero Seria o bastante - Sem mais lero-lero Se fosses minha amante Na hora que quero; Mas, como disse o poeta de Belo Belo: (*) “Vida noves fora zero”.

(*) Manuel Bandeira

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Poemas, Amores & Dilemas

SOBERBA “A vida só é difícil para quem não sabe viver” Apologia das pessoas “felizes” Ou expressão para se dizer “nos momentos felizes” Ou quando a “pimenta não arde em seus próprios olhos” Ou lenitivo para as pequenas dores, Ou hipocrisia dos que, ante a dor mundana, Esquece-se de sua própria condição humana; Pois até mesmo Cristo – na hora extrema, Clamou, ante a multidão profana, Piedade para sua dor suprema.

POESIA SEMPRE Prometo Poesia Na dor Na alegria Se a morte separa Se a vida não para Permanece A poesia Na dor Na alegria

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Manoel de Almeida

ENCANTO Bom! Muito bom! Este beijo doce como bombom, Este corpo marrom. Gostoso! Muito gostoso! Este jeito dengoso, Este corpo cheiroso. Ah! Morena! Em todas as cenas, Tu contracenas Comigo apenas, Minha linda mecenas.

UMA HISTÓRIA DE ENCANT AMENTO ENCANTAMENTO A procura: encontro. O abraço: começo. O pensar, o falar: filosofia. A música, o vinho: fantasia. À noite, o luar: poesia. O olhar: chama. O corpo: imã. O sorriso: ama. O desejo: beijo. A paixão: queima. O amor: teima. O coração: pede. A razão: cede. O final: feliz.

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Poemas, Amores & Dilemas

MERAS

IDIOSSINCRASIAS

A vida se desvela ante mim, Matizes, imperceptíveis nuances, Nasce um súbito desejo De narrar em romances Tudo o que sinto e vejo: Mesa de bar, mulheres, música, luar, Palavras, rimas, metáforas, sintaxes, Dores, alegrias, indescritíveis faces. Papel sobre a mesa – nada escrito, Na mente, inenarráveis lances: Meras idiossincrasias do meu espírito; “Ainda que eu soubesse todas as línguas dos homens, E mesmo a língua dos anjos”, De nada me adiantaria: Não sei escrever romances, Não quero fazer profecias, Estou farto de filosofias E a vida não se resume em poesias.

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Manoel de Almeida

S O NETO D A INSÔNIA DA Já é madrugada, perdi meu sono, Só – penso na vida,... Nada de sono, Sufocante silêncio do meu quarto, Só – penso a vida,... Já me sinto farto. A vida é pra viver, não só pensar! Filosofando: “Cogito, ergo sum”. Penso o que passou, passa e vai passar – Nos bons, nos maus momentos – um por um. Só, no meio da escuridão que fala, Voz do silêncio que nunca se cala. Basta! Ser feliz minh’alma precisa – Saio para a rua, no céu o luar, Em meu rosto, o sopro do vento, a brisa, Eis que a vida, feliz, vem me saudar.

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Poemas, Amores & Dilemas

INTROSPECÇÃO Hoje... Compreensão?!...Resignação?! Pensamento... Um vulcão... Ontem... Caos... Desilusão... Passado... Em dissolução... “Há de passar pela dor...”. Amanhã... Viver... Eternamente?... Há de haver alma eterna Para que valha a pena Esta vida tão pequena.

VID A EM DESCOMP ASSO VIDA DESCOMPASSO Sinto-me um bêbado idiota Embriagado por sonho Que do meu peito brota Se a pensar me ponho Já não sei se vivo ou sonho Se decido seguir por uma rota A chegada me parece remota Entre o que penso e faço Há um enorme descompasso

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Manoel de Almeida

AO AMOR Amar, amar,... No poema, No pomar, No mar, No ar,...

EPITÁFIO DE UM ANÔNIMO Parti como vivi: no anonimato Num caso fiz opção, Noutro a vida fez questão.

AMOR A PERDER DE VIST A VISTA Primeira paixão a dois, O amor vem depois. Primeiro feijão e arroz, O amor vem depois. Acaba a paixão nos dois, O amor nasce depois? Acaba o feijão e o arroz, O amor alimenta os dois?

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Poemas, Amores & Dilemas

SONETO DE CLICHÊS

“ É um fenômeno eterno: a vontade ávida sempre encontra um meio, graças a uma ilusão espraiada sobre as coisas, para manter suas criaturas na vida e forçá-las a continuar a viver”. (Nietzsche – O Nascimento da Tragédia)) “Após a tempestade vem a bonança”? Lembra-te: “Em toda regra há exceção”! “A última a morrer é a esperança”? Verdade. Viver é uma obsessão! Se pensas não suportar uma crise, Surge algo para a dor aliviar – Ou piorar – aí pedirá reprise Da dor que pensavas não suportar. Não podes ser feliz na dor, na alegria? Sofrer e sorrir te parece ironia? Sê muito grato por viver mais um dia; Melhor que cometer um desatino, A última badalada do sino Pertence ao misterioso Destino.

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Manoel de Almeida

N A CRIST A D A OND A CRISTA DA DA O Mar... A maré... Ondas! Amor... Amar é... Ondas!

MEUS GRILOS Tudo que é grilo Não me deixa tranqüilo O grilo que faz cricri Não me deixa dormir Porém, o que mais me encuca. São os grilos que tenho na cuca De noite e de dia É a maior cantoria Silêncio?! Ninguém desconfia!

GÊNESE Afeto É feito Há feto? Efeito.

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Poemas, Amores & Dilemas

ETERNO DEVIR Pessoas queridas partindo Pessoas são folhas caindo Tudo na vida ruindo Nada na vida parado O novo ao velho fadado Na ação – ser transformado.

MEU ESP AÇO ESPAÇO “Não sei não sei Não sei se fico ou passo” Acho que sou um compasso Girando em meu encalço De onde piso não passo Não dou um passo

O LAPSO DE UM MITO Com lapso de rota Calipso em ogígia Com lapso de tempo Colapso em Ítaca.

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Manoel de Almeida

À DERIV A DERIVA Aluvião, Leva-me De roldão Nas enxurradas, Pelas calçadas, Pelas sarjetas, Nunca pude escolher Minha direção: Meu destino Em tuas mãos. Quiçá, Além bueiro: Lago sereno, Rio cristalino, Mar azul, Meu veleiro, Vento a favor O tempo inteiro E, no céu, Estrelas para guiar O meu roteiro.

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Poemas, Amores & Dilemas

O

PROCRASTINADOR

Procrastinei momentos de prazeres Porém nunca meus afazeres Não porque hei querido Foi o preço que paguei Por haver sobrevivido Procrastinei meus sonhos Não porque não os hei sonhado Foi o preço que paguei Por ter a realidade como meu fado Procrastinei alguns ideais Não porque não os hei tido Foi a luta pela sobrevivência Que me fez tê-los preterido Procrastinei alguns amores Não porque não os hei amado Foi o preço que paguei Por escolher amor errado

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Manoel de Almeida

NUMA CLÍNICA DE HEMODIÁLISE Olhos mudos Olhos fundos Fundos de olheiras Profundos sem fronteiras Olhos tristes Olhos vagos Olhos carentes De um afago Olhos valentes Mesmo sofrendo Seguem sorrindo Por entre as gentes Olhos aflitos Por um instante Vida e morte Entram em atrito Olhos sem luz Carregam sua cruz Na esperança De ver Jesus Olhos tiranos Olhos profanos Mesmo sofrendo Seguem matando

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Poemas, Amores & Dilemas

Olhos dormindo Olhos sonhando Olhos atentos Est達o cuidando E meus olhos Discretamente olhando Mil olhos mudos Tudo falando.

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Manoel de Almeida

B O NIT A POR N A TUREZA NITA NA Há uma singular semelhança Entre a beleza das flores E o sorriso das mulheres. Há o sorriso rosa vermelha: Sensual, provocante. Há o sorriso girassol: Escancaradamente lindo. Há o sorriso rosa branca: Cheio de paz e ternura. Há o sorriso dama da noite: Inebriante, sedutor. Há o sorriso de rosa rosa: O que mais vemos E sempre queremos ver. A cada flor um sorriso, Mas, dentre todos, o teu sorriso. De flor do campo: Meigo e singelo, Tem tudo o que os outros têm – Mais um quê de mistério.

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Poemas, Amores & Dilemas

EV OCAÇÃO VO Vem a mim, ó alegria! Quero escrever-te em poesia. Vem a mim, ó felicidade! A tristeza já vai tarde. Vem a mim, ó otimismo! Dei um basta no velho pessimismo. Vem a mim, ó esperança! Quero fazer-te música para dança. Vem a mim, ó fé! Viver na dúvida não dá pé.

DEUSA D A MINHA N A TUREZA DA NA Quando a vi – na hora, Pensei: Ah! Se ela me quisesse agora! Como o mito de Zéfiro e Flora, De bruto que sou, Eu me transformaria Em suave brisa d’aurora. Mas, diferentemente do mito de outrora, Só eu me encantei por minha deusa Flora, Ela nem me percebeu – Passou e foi-se embora.

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Manoel de Almeida

“AMOR

PL A TÔNICO”

Quando li O Guarani, Não entendi Aquele devotamento e abnegação De Peri por Ceci. Quando te vi, Naquele momento – de coração, Entendi, - Eu faria o mesmo por ti.

LIND A MOREN A LINDA MORENA

“Um pouco mais de amor – eu era feliz!” (Sá Carneiro) Campo Grande, Cidade Morena! Não é tão grande A minha pena! Em suas noites amenas, Às vezes, falta-me apenas. O calor de uma linda morena!

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Poemas, Amores & Dilemas

A VID A É TUDO VIDA

“... permanece a vida sem fim.” (Cecília Meireles) Tenho tudo Em mim Não tenho nada Em mim Tenho os sonhos Tenha a realidade Em mim Tenho as alegrias Tenho as tristezas Em mim Tenho as vitórias Tenho as derrotas Em mim Tenho o mal Tenho o bem Em mim Tenho a morte Em mim Nada enfim Tenho a vida Em mim Tudo enfim.

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Manoel de Almeida

“JUGO LEVE” Nós precisamos de Paz e de Luz... Paradoxal “jugo leve” Que nos ofertou Jesus: A tal “porta estreita”’ A que fizemos jus. Busquemo-la – qual almas eleitas; Pois se Ele – Alma perfeita, Seguiu o caminho da cruz; Que de nós – almas imperfeitas, Em busca de Paz e de Luz?

VIA DE MÃO DUPLA Por via da dúvida, Não porfies na dúvida: Segue a via do Amor. Todavia, há dúvida? Toda via é dúbia. Porfia na via do Amor.

FA LTA Noite quente, Coração frio. Quer dizer? Quem ouvir? Noite muda, Tudo vazio.

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Poemas, Amores & Dilemas

RECEIT A D A PPA AZ RECEITA DA O perdão É caridade Em ação É claridade No coração É amar De verdade O irmão.

O CAMINHO D AS PEDRAS DAS Houve muitas pedras Em meu caminho. Algumas, tão duras, Causaram-me quedas e fraturas Mas, entre pedras e quedas, Vou trilhando meu caminho: Rumo à vida futura; Quando, espero, as pedras. Me sejam menos duras.

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Manoel de Almeida

MULHER-MARA VILHA MULHER-MARAVILHA

(*)

Ficas me olhando... Meu mundo íntimo Vais desvendando... Teus olhos límpidos... Sinto-me um ínfimo... Teu poder vai me amparando Crio coragem Vou falando... Quanta bobagem: Crise existencial... Isto é normal? Estou tão mal... Minha carência Quase demência Sei que analisas Com carinho e inteligência: Tuas deduções são tão precisas! Engenho de tua Ciência? A psicóloga... Na minha frente: Mulher monumental, Teu sorriso é sem-igual, Faz-me sentir... Homem-normal. Vês? Já não estou tão mal! Gratidão, admiração e respeito, Este teu paciente leva no peito: Um coração que agora Bate de um outro jeito, Melhor do que outrora. Muito obrigado, bela doutora. (*) Escrevi este poema como um gesto de sincera gratidão à psicóloga Cenir, pelo atendimento competente e, principalmente, humano que me dispensou. Conhecê-la, deu-me a certeza que o ser humano pode se tornar no que disse Jesus “Vós sois luz”, e “Vós sois o sal da terra”.

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Poemas, Amores & Dilemas

TUDO PPASSA ASSA V OCÊ PPASSOU! ASSOU! VOCÊ Foi o tempo em que eu sorria Por causa do seu humor. Foi o tempo em que eu sofria Por causa do seu amor. Você é uma pessoa fria Esqueça-me, por favor.

“QUE PPAÍS AÍS É ESTE” Bala perdida, De onde saída? Da arma bandida? Da arma da Lei? Não sei. Importa? Há uma pessoa morta, E uma família De alma ferida. Onde o Estado? Onde os culpados? Onde a Lei? Não sei. Deus sabe.

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Manoel de Almeida

QU ASE UA Quase sempre: Quase, quase... Sempre quase!

VID AS V AZIAS VIDAS VAZIAS Há pessoas vazias: Na multidão, na solidão; De pão, de inspiração; De amor no coração.

“V OCÊ É COMO EU SO NHA VA ” “VOCÊ SONHA NHAV

“É pela virgem que sonhei... que nunca, Aos lábios me encostou a face linda”. (Álvares de Azevedo) Depois que te conheci, Parece que todos os poemas Que escrevi Foram escritos para ti! Depois que te conheci, Todos os olhos que vi, Esqueci! Só tenho olhos para ti!

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Poemas, Amores & Dilemas

“..., SE CORRER O BICHO COME” . Corri, corri – pah! A porta bateu na minha cara. Corri, corri – pah! Cheguei muito cedo. Corri, corri – pah! Cheguei muito tarde. Corri, corri – pah! Não vi o tempo passar. O tempo voa! Corri, corri – pah! Não vi meu amor passar. Passou? Corri, corri – pah! A Vida me pôs para sentar – Quatro horas, três vezes por semana. Corri, corri – pah! Meu pensamento não quer se assentar. Corri, corri – pah! Aonde esta correria vai me levar? Corri, corri – pah! Basta de correria. Correndo ou devagar, um dia – PAH.

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Manoel de Almeida

RELEV O RELEVO

SENTIMENT AL SENTIMENTAL

Às vezes, sou um abismo tão profundo, Que, ao olhar para dentro de mim, Sinto vertigem – caindo-me nas entranhas do mundo. Às vezes, sou uma planície tão extensa, Que, ao olhar para dentro de mim, Perco-me num horizonte vago – sem fim. Às vezes, sou um deserto tão escaldante, Que, ao olhar para dentro de mim, Não sei se paro ou sigo adiante. Às vezes, sou um planalto tão irregular, Que, ao olhar para dentro de mim, Embrenho-me em depressões cheias de espinhos e cipoal, Cercadas de montanhas difíceis de escalar. No mais das vezes, apraz-me ser este relevo, Pois, ao olhar para dentro de mim, Sou nova paisagem a cada dia, Não conheço monotonia: Se hoje sou depressão; Amanhã, sou majestosa montanha, Com meu olhar otimista, Olhando o mundo a perder de vista; Depois de amanhã, sou verdejante colina. Com flores, pássaros e rios de água cristalina –, Sou vida que não conhece rotina.

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Poemas, Amores & Dilemas

POEMAS

LEVED ADOS LEVEDADOS

Faço poemas Como se faz pão caseiro: A massa tem de ser misturada, Atritada, homogeneizada, levedada. Os ingredientes que formam A “massa” de meus poemas São: meus pensamentos, minha emoções, E minhas sensações. Dois “recipientes” básicos são usados Na preparação de meus poemas: Minha mente e meu coração. O processo de levedura - Como no pão caseiro – Às vezes é demorado, Depende das “condições climáticas”: Quanto mais quente melhor. Só escrevo poema Sob pressão e calor. A mente e o coração Têm de estar em ebulição. Às vezes, como no pão caseiro, Meus poemas saem meio puxados No “sal e/ou no açúcar”; É que, já me disseram, Sou um tanto quanto exagerado Ao expressar meus sentimentos.

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Manoel de Almeida

CALMA AÍ! Vivi até hoje Com sofreguidão Agora a vida Me impõe lentidão Vivi até hoje Com avidez Agora as coisas Vão de vagar Uma de cada vez.

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O V ALOR D A AMIZADE VALOR DA Rejeita-se a amizade de um cão? De um pobre coitado que lhe oferta a mais pura dedicação? Pois então, imagina como fica um humano coração, Se alguém lhe dispensa a amizade carinhosamente ofertada, Como se os mais puros sentimentos fossem nada. Entendam, agora, o porquê da negra sombra Que caiu sobre mim, tornando meu semblante pesado, Apagando o brilho que em meus olhos era notado, Transformando meus lábios em pedra, Que não riem, pois só a tristeza medra. Pessoas rudes, presas à satisfação imediata dos sentidos, Bradam: Tudo isso por uma amizade? Duvido! - Isso é amor não correspondido. Por fim, o bronco terá pronunciado, despercebido, Uma grande verdade. Pois, o amor de uma amizade tem a essência da fraternidade, Nobre sentimento, com o qual Jesus Determinado e corajoso submeteu-se à cruz, Por amor fraterno à ingrata humanidade. Mas ainda é rara exceção, Aquele cuja humana condição Diferencia o que vem da alma, Do que é apenas sensualidade. Ó Deus, permita-me usar mais a razão, Pois estou à mercê do meu coração, Que, ferido, precisa de paz e calma.

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Manoel de Almeida

DESABAFO Quero da vida A brisa suave Que me acalente O cansaço De viver ao relento. Trago minh’alma cansada De uma longa jornada, Trago cicatrizes profundas De uma vida errante Que outrora vivi. Estou cansado Da truculência da vida, De pessoas que, sem ter consciência, Glorificam a violência, Depois choram as conseqüências. Quero viver Em outras paragens Onde seja normal Viver sem o mal, Onde não se tenha De sofrer tanta dor Em nome do amor. Quero fugir desta selva De lobos famintos Em devorar sentimentos, De pessoas vazias Que dia após dia Vivem sua real hipocrisia Como se fosse simples fantasia.

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Poemas, Amores & Dilemas

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Manoel de Almeida

UM POUCO DE MEMÓRIA

QUE SURPRESA AGRADÁVEL!

Só após meu pai ter retornado ao Mundo Espiritual, descobri que ele foi um poeta. Num daqueles encontros de família, eis que surgem algumas cartas muito velhas, rotas e amareladas pelo tempo, as quais, minha mãe resolvera tirar do fundo do baú. Qual não foi minha surpresa ao lê-las! Nelas, descobri que nasci, não de um encontro casual entre um homem e uma mulher; não, não. Nasci de uma história de amor, um lindo romance de amor . Meu pai um romântico! Bem que eu suspeitava que por trás daquela aparência circunspeta, havia uma alma de poeta. Incluo estas velhas cartas em sua forma original, como singela homenagem à memória dos meus pais, os quais nunca deixarei de admirar, respeitar. De certa forma, este livro também é uma homenagem a eles a quem dedico respeitosamente.

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Poemas, Amores & Dilemas

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Manoel de Almeida

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Poemas, Amores & Dilemas

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Manoel de Almeida

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Poemas, Amores & Dilemas

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POEMAS AMORES E DILEMAS  

RETRATOS DE MINHA VIVENCIA... NELE ,FALO DE MEUS AMORES...POEMAS..E MEUS DILEMAS...

POEMAS AMORES E DILEMAS  

RETRATOS DE MINHA VIVENCIA... NELE ,FALO DE MEUS AMORES...POEMAS..E MEUS DILEMAS...

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