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www.arede.inf.br

ano 7 nツコ 69 Maio 2011 TECNOLOGIA PARA A INCLUSテグ SOCIAL

entrevista

Novas jogadas nas lan houses

Protagonistas da inclusテ」o


editorial

A importância do protagonismo

Equipe

Educar não é reproduzir o status quo, é estimular o direito à diferença e o florescimento das habilidades pessoais. Educar para a comunicação em rede é radicalizar esse conceito, pois, pelas suas características de interatividade e compartilhamento, a comunicação conectada é uma espaço mais do que adequado para o desenvolvimento do protagonismo individual e coletivo.

Diretora Editorial Lia Ribeiro Dias

É isso que nos ensinam as histórias de vida de seis jovens de baixa renda, formados por programas públicos de inclusão digital, que são os personagens-autores do trabalho de mestrado, de minha autoria, que deu origem à reportagem de capa desta edição (ver página 10). Este trabalho só foi possível por ser resultado de um esforço coletivo, desenvolvido pela equipe da revista à ARede ao longo de seis anos.

Repórter Patrícia Cornils

Diretora | Sucursal de Brasília Miriam Aquino Editora-Executiva Áurea Lopes

Estagiário Lennon Lima de Oliveira Capa Visca Colaboradores Anamárcia Vainsencher, Bárbara Ablas (textos), Sérgio Amadeu da Silveira (artigo), Manaira Abreu (arte), Renato de Aguiar, Robson Regato (fotos), Ohi (ilustrações).

Por meio de nosso trabalho profissional, pudemos conhecer de perto os programas de inclusão digital patrocinados por governos, Terceiro Setor e empresas privadas, acompanhar a sua evolução, as muitas barreiras, as distorções, os desvios populistas e também vitórias importantes. Descobrimos a importância dos monitores, que são os “professores” dos espaços de inclusão e o elo com a comunidade do entorno, acompanhamos os bons programas de formação, entrevistamos articuladores de políticas públicas e debatemos caminhos.

Diretora de Publicidade e Marketing Meire Alessandra Assitente de Marketing Carolina Tavares

A dissertação de mestrado “Inclusão digital como fator de inclusão social. A inserção de jovens de baixa renda como protagonistas da Sociedade do Conhecimento” é apenas mais uma etapa desse caminhar, que tem, como principal objetivo, retratar o que se faz em inclusão digital no Brasil e a partir dessa realidade contribuir para a formulação de políticas públicas consistentes, longe da demagogia e do oportunismo político.

Secretaria Adriana Rodrigues Gráfica Gráfica Ipsis Distribuição Correios Entrega Direta

Consideramos que a comunicação interconectada é um direito para o exercício pleno da cidadania na sociedade em rede. Mas não achamos que a inclusão digital é mágica. Somos contra os programas que instrumentalizam os jovens para serem consumidores de tecnologia e os preparam só para atender às necessidades do mercado de trabalho de tecnologia da informação e comunicação. A equipe da revista ARede está convencida de que programas bem desenhados, criativos e voltados ao desenvolvimento de empreendedores na sociedade em rede podem fazer a diferença na vida de milhares de jovens. Como demonstram as histórias de vida de nossos seis personagens-autores.

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São Paulo Rua da Consolação, 222 - conj. 2110 01302-000 São Paulo, SP Tel.: 11 3124-7444 arede@arede.inf.br Brasília SHIN QL 05 conj 03 casa 16 Lago Norte 71.505-735 Brasília,DF Tel.: 61 3368-1905 Foto Robson Regato

Lia Ribeiro Dias Diretora Editorial

ARede é uma publicação mensal da Bit Social www.arede.inf.br

Jornalista responsável Lia Ribeiro Dias (MT 10.187) cc Reprodução livre para fins não-comerciais. O uso livre do conteúdo desta revista não se aplica às fotos, que pertencem a seus autores.


Conselho editorial Antônio Carlos Silva Representante da Rede Mocambos

Mário Luís Teza Representante do Projeto Software Livre Brasil

Beatriz Tibiriçá Diretora do Coletivo Digital

Paulo Lima Representante do Projeto Saúde e Alegria

Carlos Seabra Coordenador editorial do Núcleo de Publicações de Educação da TV Cultura, Fundação Padre Anchieta. Cláudio Prado Presidente do Laboratório Brasileiro de Cultura Digital Cristina Kiomi Mori Diretora do Departamento de Articulação e Formação da Secretaria de Inclusão Digital (Ministério das Comunicações) Edson Fregni Professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo Felipe Fonseca Representante do Metareciclagem Heliomar Medeiros de Lima Diretor do Departamento de Serviços de Inclusão Digital, Ministério das Comunicações. Jorge Bittar Secretário de Habitação do Município do Rio de Janeiro

Júlio Semeghini Secretário de Gestão Pública do Estado de São Paulo Luiz Ernesto Gemignani Presidente do Conselho de Administração da Promon

Patrocínio

Ricardo Knoepfelmacher Diretor da Angra Partners Ricardo Kobashi Integrante do Coletivo Lixoeletrônico.org Rodrigo Baggio Diretor do Comitê para a Democratização da Informática (CDI) Rodrigo Ortiz D’Avila Assumpção Presidente da Dataprev

realização

Sérgio Amadeu da Silveira Pesquisador e educador Thiago Tavares de Melo Diretor da SaferNet Brasil

Promotores da inclusão digital A empresa ou a instituição que faz um pacote de assinaturas da revista ARede se torna um agente na promoção da inclusão digital no Brasil, ajudando a difundir informações e apoiar a formação em telecentros, escolas públicas e outros pontos de acesso coletivo às tecnologias da informação e comunicação.

Venha se juntar a esse time

Manoel Horácio Presidente do Banco Fator

Assine ARede para a sua comunidade ou patrocine um lote de assinaturas para uma instituição que precisa.

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cartas

Um jeito novo de ser professor Reportagem publicada na edição nº 67 Concordo que as escolas devem investir mais em tecnologia para o ensino dos alunos e implantar um datashow em cada sala e os professores com seus notes podem facilmente passar textos, slides sobre o tema da aula, sem a necessidade de perder tempo copiando várias linhas de um texto no quadro negro. Resultaria em agilidade e sobraria mais tempo para a explicação da matéria. Infelizmente existem escolas públicas que não podem ter estes tipos de tecnologias pois alguns alunos (baderneiros) e a estrutura desses colégios públicos (não oferecem infraestrutura de segurança) têm que melhorar muito para se adaptar a essa tecnologia. Douglas Comentário no portal ARede Sem dúvida, muita coisa está sendo feita na área de ensino e aprendizagem na “era digital”, mas ainda temos uma desafio: como avaliar os alunos conectados? Penso que o antigo sistema “linear” de avaliação não é capaz de avaliar nem mesmo “a garotada de nove anos”, muito menos aqueles que já estão no ensino superior. O aluno conectado funciona como uma célula conectada a outras células, através de seus tentáculos, por onde informação e conhecimento são compartilhados dinâmica e interativamente. E a avaliação desse aluno é estática, linear, com dia e hora marcados para sofrer. Alexandre Magalhães Rangel Rio de Janeiro (RJ) Comentário no portal ARede Sou especialista em mídias na educação e gestão escolar e li a reportagem “Ao mestre com carinho e informação” cujo o conteúdo veio juntar-se a outras, dentro da mesma ótica, onde uma delas, o Ministro da Educação, Fernando Haddad, solicita um estudo sobre a eficácia da tecnologia em sala de aula, com a pretensão de usar tablets nas escolas públicas, e outra no qual diz que o Brasil ficou para trás no ranking mundial dos países que melhor utilizam as TICs para seu desenvolvimento.

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Ou seja, são reportagens assim que mostram a importância e a urgência de começar, continuar e aprimorar, respectivamente, o uso das recursos tecnológicos em sala de aula, uma vez que nossos alunos já estão fazendo. Enquanto muitas escolas ainda estão pensando em entrar no projeto UCA, já existe um estudo para substituir os laptop por tablets. Na medida que muitos professores ainda rejeitam os computadores, outras escolas já estão pensando em substituir os notebooks dos professores. Em se tratando de Brasil, alguns estados já estão em um processo bem avançado com relação ao computador do professor e outros somente engatinhando. Enquanto o MEC já está com um pé lá na frente. Ou seja, está se construindo um fosso enorme de tecnologia entre os estados e municípios dentro da educação brasileira. Assim não vamos sair da 56º posição tão cedo. Demóstenes Pereira Comentário no portal ARede

Sei que será de muito bom uso a revista em sala e na elaboração de projetos futuros. Ricardo Gonçalves Professor Manduri (SP) Gostaria de receber os exemplares da revista. Josy Bezerra Coordenadora do Telecentro Colares Colares (PA)

conexão social

A serviço da s

Maduro e beM aceito no Mercado, o Softw inStrução norMativa e Marca regiStrada O sOftware públicO brasileirO (spb) faz quatro anos em 2011, coloca à disposição dos usuários mais de 40 soluções, reúne um coletivo de 90 mil pessoas e milhares de instalações por todo o país. Ou seja, em pouquíssimo tempo, deu mostras inequívocas de aceitação e maturidade. O que quer dizer que a criação do Portal do Software Público Brasileiro, lançado em abril de 2007, inaugurou uma nova etapa no desenvolvimento da política de software livre no Brasil.

O portal apresentou um novo modelo de licenciamento, de gestão e de regras para colocar à disposição soluções criadas pela administração pública e pela rede de parceiros da sociedade. “O software público é uma prestação de serviços à sociedade. Por isso precisa ser livre e ter o formato de política pública”, afirma Corinto Meffe, gerente de inovações tecnológicas da Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação (SLTI) do Ministério do Planejamento. Quando é público, o software tem garantia de bem público e livre, acrescenta. Mais: “Quando o software é apenas livre, pode ser livre hoje e amanhã; depois, não mais. Se for público, não corre esse risco”, explica. Nesse começo de 2011, duas novidades devem ser ressaltadas na área do SPB: a Instrução Normativa (IN) que o regulamenta e a criação de uma marca registrada. De uma maneira geral, o SPB pode ser definido como um repositório de software livres, cujas aplicações são de interesse público. Esse conjunto de programas é mantido pela SLTI, inclui muitos que foram desenvolvidos na esfera governamental, mas também por outros entes da sociedade civil, entre os quais empresas privadas. Isso indica que há interesse em aderir ao modelo. O que ficou mais fácil com a publicação da Instrução Normativa nº 1/2011 da SLTI, que traz as regras relativas ao desenvolvimento, oferta e uso do SPB.

Mandem Pra cá A Biblioteca da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) gostaria de receber a revista gratuitamente para enriquecimento do nosso acervo e tornar público para pesquisa à comunidade. Ilvânia Oliveira Silva Bibliotecária e Documentalista Irêce (BA) Temos interesse em adquirir a revista. Solicitamos o recebimento da revista para podermos divulgar aos nossos alunos. Cristiane Luiz Zimmermann Bibliotecária Faculdade de Ciências Econômicas da Região Carbonífera (Facierc) Criciúma (SC) Solicito o recebimento da revista. Dou aulas de informática para crianças de sete a 11 anos e estou para começar um projeto de iniciação à informática com pessoas da terceira idade. Conheci a revista quando trabalhava em uma organização que faz um trabalho assistencial com crianças carentes, gostei muito da metodologia usada e muitas vezes utilizei a revista como material de apoio nas aulas.

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FOI MAL Na edição nº 67, um descuido no processo de produção provocou um gravíssimo erro ortográfico, pelo qual pedimos desculpas a nossos leitores e ao Portal do Software Público. Ao contrário do publicado na revista, a palavra Licença está grafada corretamente na imagem acima.

Para receber AREDE A revista é distribuída gratuitamente apenas a centros de acesso coletivo à internet, ligados a projetos de inclusão digital, social e cultural: telecentros, infocentros, pontos de cultura, bibliotecas, escolas. Você pode solicitar a revista para sua instituição. Para receber ARede individualmente, faça a assinatura anual, no valor de R$ 96. Envie nome, endereço completo e sua função na instituição onde trabalha ou milita para: Rua da Consolação, 222, conj. 2110, CEP 01302-000, São Paulo, SP. Ou escreva para arede@arede. inf.br. Todo o conteúdo da revista está disponível no site www.arede.inf.br.

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índice

Cartas

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Capa Atores e autores

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Jovens formados em programas públicos de inclusão digital são personagens-autores de um trabalho que aponta caminhos para o protagonismo social

Círculo virtuoso do conhecimento

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Entrevista Casas abertas para a inclusão

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João Brant, do Coletivo Intervozes, comenta o projeto do governo que cria órgão regulador da radiodifusão e encara de frente a convergência tecnológica.

Conexão social Banda larga popular de 1 Mbps

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O governo negocia com as concessionárias um novo patamar de velocidade mínima, ao preço de R$ 35, com impostos.

De grão em grão...

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Plataformas colaborativas viabilizam a realização de projetos criativos, por meio de doações na internet.

Tecnologia para a eficiência

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O mercado de produtos para deficientes cresce e estimula as empresas a desenvolver soluções para a inclusão digital


Fotografite Coletivo Água Branca, São Paulo (SP)

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Cultura História que o povo conta

Longa-metragem produzido pelo Ponto de Cultura Acartes retrata a questão do latifúndio e fortalece a arte popular

Hipernovas As notícias da rede

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Raitéqui Hackers e a biologia de garagem

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Sergio Amadeu conta experiências internacionais em que a ciência amadora e as comunidades hackers desenvolvem tecnologia recombinada, de baixa complexidade e de ponta.

A tecnologia a seu alcance

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Opinião Hora de democratizar informação e poder

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Foto Robson Regato

O deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) aponta caminhos e desafios para a regulamentação da comunicação no país


capa

Atores e Autores Jovens formados em programas públicos de inclusão digital são personagens-autores de um trabalho que aponta caminhos para o protagonismo social Patrícia Cornils

Durante o ano de 2010, seis jovens acei-

taram narrar sua histórias de vida a uma pesquisadora que elaborava uma dissertação. São filhos de famílias de baixa renda, que cresceram nas periferias, estudaram em escolas públicas e hoje trabalham com Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs). Cleber Jesus Santos, Meilene Hercília Medeiros Ferreira, Fábio Lúcio de Souza, Marcelo Cardoso dos Santos e Clerrison Luís dos Santos são profissionais da nova mídia – designação que alguns autores dão às profissões que se desenvolveram com a explosão da internet. Darla Maria Braga é monitora e gestora em dois telecentros de sua cidade. Todos foram formados em programas públicos de inclusão digital, patrocinados por governos, organizações do terceiro setor e empresas. Seus depoimentos mostram como esses programas interferiram em suas vidas. E são o fundamento da dissertação “Inclusão digital como fator de inclusão social. A inserção de jovens de baixa renda como protagonistas na Sociedade do Conhecimento”, defendida pela jornalista Lia Ribeiro Dias, em abril, na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo (SP). O objetivo da dissertação, explica Lia Ribeiro, foi delinear qual conceito de inclusão digital efetivamente contribui para a inclusão social

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de jovens sem acesso à internet em casa e que precisam de programas públicos para desenvolver as habilidades necessárias ao exercício da cidadania na rede, como: se comunicar, pesquisar, compartilhar conteúdo, produzir em rede e desenvolver a autoria. Ou seja, programas que vão muito além da alfabetização digital – onde há o risco dos aprendizes se formarem apenas meros consumidores de tecnologia –, pois preparam os alunos para que interajam, se expressem e se articulem em rede, compartilhando conhecimento. Alguns teóricos chamam esse estágio de “emancipação digital”. Pois bem. Os protagonistas da dissertação conseguiram alcançar a emancipação digital. E o mérito não é apenas dos programas públicos. Esses jovens, que Lia Ribeiro chamou de “personagens-autores”, trabalharam duro – e continuam trabalhando – para se inserir no mundo profissional e conquistar autonomia de vida. No entanto, ter participado desses programas lhes permitiu um inserção social diferenciada. Os personagens-autores não enveredaram por atividades comuns em sua faixa de idade e classe social (motoboy, empacotador de compras, vigia, atendente de telemarketing, manicure, entre outras), que, embora dignas, têm pouco espaço para a au-


A dissertação tenta comparar, e até contrapor, a reflexão teórica sobre a evolução da sociedade em rede com a realidade das personagens. “Meu objetivo foi entender a trajetória desses jovens, a partir de sua história de vida. Não se trata de uma amostra. Cada experiência é única”, ressalta a autora. A dissertação se apoia na metodologia de pesquisa de histórias de vida, o que dá uma visão profunda das personagens e permite detectar quais os elementos centrais que influenciam sua formação – e transformação. Para que os brasileiros tenham acesso ao efetivo direito à comunicação conectada, é

Ilustração Visca

toria e o protagonismo. Cleber é programador em software livre. Meilene, a Meg, é roteirista e editora de filmes. Fábio monta e configura computadores. Marcelo faz vídeos, músicas e é gestor de um Ponto de Cultura. Clerrison, o Teddy, compõe rap e edita áudio e vídeo. Darla faz parte do movimento para debater políticas públicas de juventude em Marabá (PA).

preciso que os programas de inclusão digital se qualifiquem, ressalta o Pretto (ver página 14). Além do professor da UFBA, participaram da banca examinadora os professores Walter Teixeira Lima Junior, orientador, e José Eugênio de Oliveira Menezes, ambos da Faculdade Cásper Líbero. A experiência desses jovens, cujos depoimentos estão sintetizados nas páginas que se seguem, pode ajudar a contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas de inclusão digital mais focadas no protagonismo na rede, acredita a Lia Ribeiro.

Pesquisadora da inclusão digital Lia Ribeiro Dias é jornalista. Seu primeiro contato mais sistematizado com a inclusão digital no Brasil foi em 2003, quando coordenou a produção do livro Inclusão Digital, Com a Palavra a Sociedade, que traçou o primeiro panorama da inclusão digital no país, apresentando 40 projetos desenvolvidos por governos, sociedade civil e empresas, além de trazer experiências da África e da América Latina. Desde 2005, é diretora editorial da revista ARede, cujo foco é o uso das tecnologias de informação e comunicação (TICs) para a inclusão social.

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capa

Meilene Hercília Medeiros Ferreira (Meg) 24 anos Oi Kabum! (Salvador, BA)

Foto Robson Regato

aprendi o que era um cabo de força. Com essas aulas de computador, Excel, Word, a gente foi para aula de vídeo.”

“comecei a ver que não era mágica tirar a imagem de dentro de uma câmera e colocar dentro do computador”

KABUM Escola do projeto Oi Kabum, voltada para o ensino de arte e tecnologia.

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“O que eu conhecia de computador assim era muito distante, porque um vizinho do meu vizinho que tinha um computador, aqui em Salvador. Em São Paulo eu nunca vi um computador. Eu só olhava, mesmo, era de um vizinho aqui da frente. Quando a gente chegou na Kabum, começou a ter um rodízio, passar por todas as linguagens. Era todo mundo assim: o que era um comando S? (que é salvar), vamos abrir um projeto, vamos abrir um formato Word, tinha aula de como montar, desmontar um computador. Era base da base, ninguém sabia de computador. Sabiam aqueles que a mãe tinha condições de comprar um computador e tinha em casa. Eu nem sabia o que era um cabo de força, aprendi na Kabum. Foi em 2004 que

“Aí comecei a ver o que era linguagem de vídeo e comecei a ver que não era mágica tirar a imagem de dentro de uma câmera e colocar dentro do computador. Aquilo, a turma inteira achava muito legal. Aí cada um foi para o lado que mais gostou, filmar, editar, um só queria produzir, outro só cuidar dos horários, outro só queria dirigir. Aí vem o processo mesmo, o primeiro com as aulas de estruturas de computadores, os periféricos de computador, depois com as aulas a mais. Na escola a gente produzia algumas coisas, uns curtas bem pequenos para a gente treinar as câmeras, treinar o enquadramento. Tinha aula de fotografia, de luz, a base da fotografia para vídeo. Uma informação atrás da outra, era uma coisa deslumbrante. Cada dia você vendo uma coisa diferente, você vai se apaixonando.” “A gente ganhou festivais com um documentário sobre o Nordeste de Amaralina. A gente ganhou três, dois em São Paulo e um no Rio de Janeiro. O último prêmio que a gente ganhou foi em 2007. E acabamos de terminar outro curta agora. Um filme baseado na história de um menino que passou na Kabum. Era um menino supercriativo, supereducado e familiar. Um dia, ele estava saindo para ir para a escola e recebeu uma bala perdida na porta de casa. A gente fez um filme baseado na vida dele. Na verdade, a gente fez um menino que queria ser um palhaço. Ele estava indo para estreia de teatro dele. Era o grande dia e, no caminho, ele recebe uma bala perdida. O filme é sobre isso, a história de Bruno, que no filme chama Eder.” Entrevista realizada em 17/7/2010


Cleber Jesus Santos 26 anos

Telecentro Cidade Tiradentes (São Paulo, SP)

“Semana passada precisei de um aplicativo para um site de um cliente. Na verdade era mais uma funcionalidade. O cliente fazia upload de arquivos, só que ele que fazia upload de mais de um arquivo de uma vez só. Achei um produto da Plone que fazia isso. Só que na hora de subir os arquivos tinha um problema, um erro. Fui lá, arrumei, funcionou. Aí eu devolvi para o programador dizendo: tinha um erro, eu corrigi e está aqui. Essa semana, vi que ele lançou a nova versão do produto com o meu nome como colaborador. É bem bacana, você começa a ver o retorno.” “O retorno não é em dinheiro, mas é um retorno gostoso, é de reconhecimento do que você fez. Eu estou

usando software que você fez. Um dos exemplos foi durante o FISL do ano passado, um rapaz veio e disse: você que é o Cleber? – eu sou conhecido como Cleber do Telecentro. Ele falou: eu estou usando um produto que você fez, o SAP Show, que tem um projeto na Câmara, chamado site da prefeitura de Vassouras, da Câmara Municipal de Vassouras. O projeto agrega um produto que eu criei, um slide show que, basicamente, passa imagem e notícias. Então isso é um retorno agradável para mim, pelo reconhecimento, as pessoas te conhecem por aquilo que você fez.”

FISL Forum Internacional de Software Livre

Entrevista realizada em 22/1/2010

Foto Robson Regato

“O que me levou [a colaborar com uma comunidade de software livre] foi a necessidade de aprender e a vontade de ajudar. Eu sentia que eles colaboravam comigo também. Tudo que eu precisava, estava lá. A primeira coisa que eu fiz foi entrar em contato com um dos programadores, ele tinha um programinha que eu precisava. Fiquei procurando, procurando, então passou um ano e eu não tinha histórico. Não tem como fazer, pensei. Até então, eu não colaborava ainda. Aí esse programador fez. Nisso que ele fez, eu falei ‘que legal’, eu senti que ele colaborou comigo. Aí, uma forma de eu devolver foi ajudar a comunidade de que ele participava, que era a do Zope Plone. Passei a colaborar fazendo aplicações, novos produtos para Zope Plone. Com isso, também ajudei a comunidade PHP a fazer algumas coisas. Um pouco antes de mexer com o Zope, eu já tinha mexido no PHP. Então, para mim, era devolver o que eu aprendi com eles – Linux, software livre em si.”

“O retorno não é em dinheiro, mas é um retorno gostoso, é de reconhecimento do que você fez” ARede Maio 2010 2011

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capa

Clerisson Luís dos Santos (Teddy) 31 anos Pontão de Cultura Nós Digitais (São Carlos, SP)

“Minhas produções são todas aqui mesmo. Por exemplo, esta [passando música] eu fiz aqui no computador. Mexo com vídeo e com gráficos também. Coisas que eu nem sabia mexer. Do ano passado para cá que eu comecei a mexer com vídeo. Sei editar um vídeo, sei gravar, captar imagens, tudo. Coisa que eu via eles fazendo, me interessava, perguntava e eles falavam: faz assim. O bom daqui é isso, eles me chamam para evento, para mexer com o som, para já ir aprendendo a gerenciar essas coisas. Então, é um lugar que me ajudou muito, a abrir muito meus horizontes, tratando de software livre. Aqui em São Carlos, quando se fala de produção de áudio, sempre falam o meu nome agora. Está crescen-

do bastante o número de chamados. Até o ano passado, não tinha nada. A galera não estava muito interessada em software livre. Começou a surgir interesse a partir do momento que a Universidade Federal fez uma rádio. É uma rádio superforte e a pioneira em software livre, na América do Sul. Os caras viajam até a Bolívia, Colômbia, para dar palestras sobre rádio 100% software livre. A galera começou a se interessar. Aí eles mesmos, se tem trampo, eles passam para mim: fala lá com o Clerisson, lá na Teia. “O software livre me possibilita fazer as coisas, porque eu sei onde posso buscar ajuda, suporte. No software proprietário, tudo que você vai fa-

Círculo virtuoso do conhecimento A importância de estratégias de inclusão digital que reconheçam e valorizem as produções locais é ressaltada por Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, um dos integrantes da banca examinadora da dissertação “Inclusão digital como fator de inclusão social. A inserção de jovens de baixa renda como protagonistas na Sociedade do Conhecimento”, da jornalista Lia Ribeiro Dias. Como a dissertação dialoga com as políticas públicas de inclusão digital? Nelson Pretto – Um dos pontos centrais, e que está presente na experiência das pessoas entrevistadas, das personagens-autores da dissertação, é que telecentros, Pontos de Cultura, escolas têm de se constituir em locais de comunicação e de produção de cultura e de conhecimento. Não podemos reduzir os telecentros a espaços de formação profissional, fechados. Precisamos implantar, nos programas de inclusão digital, um círculo virtuoso de produção de conhecimento e cultura, não um processo de produção de conteúdos a serem “entregues” a telecentros e escolas. Em 1963, o educador baiano Anísio Teixeira escreveu um belo texto sobre a escola do futuro, que para ele estaria mais próxima de uma estação de TV. 14

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Atualizando, a escola do futuro está mais próxima a um Ponto de Cultura. Ou um Ponto de Ciência e Tecnologia. Isso porque me parece que falta, ao Ministério da Ciência e Tecnologia, dar possibilidade, à meninada que gosta de inovação, de criar Ciência e Tecnologia para o mundo contemporâneo. A escola ganharia outra dimensão. Digo duas frases sobre isso, que se tornaram quase dois mantras. Na década de 1980, quando a Rede Nacional de Pesquisa estava sendo implantada, dizíamos: “Não queremos a internet nas escolas, queremos as escolas na internet”. Queríamos conectar as escolas para que produzissem conteúdo. Hoje as escolas estão mais presentes na rede, mas esse mantra ainda vale. O segundo é que não podemos fazer com que


Foto Lia Ribeiro

zer, tem de pagar. Vem um cara na sua casa só para ver por quê a sua tela está quebrada no canto, e você tem de pagar R$ 80 a consulta. No software livre, não. Coisinhas simples se resolvem com atitudes simples. Então, o software livre me fez ver isso. Não pelo fato que as pessoas confundem software livre com grátis, não é isso. É uma coisa que te dá suporte e liberdade, para você fazer suas coisas, sem ter que ficar torrando a sua cabeça – puxa vida, se eu não tiver capital, eu não vou fazer. O software livre deu asas à minha imaginação, mudou a minha vida mesmo. Não fosse essa experiência, não estaria aqui trabalhando no estúdio. Isso me inseriu em um novo ambiente de trabalho, me deu uma profissão. Antes, eu só tinha o hip hop. Hoje, eu ensino as pessoas a usar o estúdio digital, a gravar som e vídeo.

“O software livre me possibilita fazer as coisas, porque eu sei onde posso buscar ajuda, suporte” Sempre fui louco para viajar de avião. O projeto me permitiu realizar esse sonho no meio do ano. Tudo é só ter fé e buscar. Hoje, eu dou até palestra. O software livre me reeducou, para ver as coisas por todos os ângulos. Abriu minha mente para tudo.” Entrevista realizada em 18/11/2010

os filhos dos mais favorecidos tenham banda larga individual, em seus quartos, para jogar, produzir, assistir, trocar informações, fazer o que bem entenderem, e os filhos das famílias pobres frequentem telecentros onde são obrigados a aprender planilhas e processadores de textos. Isso é de uma crueldade fenomenal. Mesmo que seja em software livre. Mesmo que seja com conteúdos elaborados por universidades. Não é para ensinar instrumentalmente. As pessoas podem aprender a usar editores de texto enquanto fazem roteiros, projetos, textos. A partir de uma perspectiva de produção de conteúdo. A tecnologia é a ferramenta que possibilita isso, não é? Pretto – As Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) são fenomenais porque possibilitam, pela dimensão da comunicação, superar a discussão do regional versus o universal. Por isso é importante um Plano Nacional de Banda Larga, para levar conhecimento a todos, não somente aos que podem pagar. Porque, com a apropriação das TICs, posso produzir cultura e conhecimento local sendo absolutamente plane-

tário. Posso realizar o diálogo entre o conhecimento da minha comunidade e o universal. O saber local dialoga com o conhecimento instituído e a partir disso pode ser reconstruído. Precisamos municiar esses espaços com uma infraestrutura de produção, para que a meninada possa produzir e consumir discos, livros, músicas, filmes, notícias. Devem ser espaços vivos, de estímulo à produção e à comunicação. Se eu entupo os telecentros de conteúdos verticalmente elaborados, inibo essa perspectiva. É claro que são fundamentais, por exemplo, as parcerias com universidades para produzir conteúdos diversos, sobre dengue, gravidez na adolescência, física, biologia. Mas a própria comunidade tem de contribuir com essa essa produção. Como pensar em programas que respeitem e estimulem a condição de protagonistas dessas comunidades? Pretto – Respeitar a diferença é fundamental. No momento em que trato o jovem como um ser singular, não estamos mais preocupados em adaptá-lo a uma situação hegemônica na sociedade. Estamos preocupados em reafirmar ARede Maio 2011

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capa

Darla Braga dos Santos 20 anos Foto Lia Ribeiro

NavegaPará (Marabá, PA)

“A gente quer agora fazer nosso próprio jornal, fazer nosso próprio documentário de vídeo”

“uma política pública não pode ser gestada de maneira centralizada, com procedimentos iguais para o país inteiro” cada vez mais o singular, a diferença. As singularidades não devem ser assimiladas umas pelas outras, a convivência tem que se dar de forma respeitosa. É preciso estabelecer conexões entre esses jovens, que têm cada um sua identidade. Isso vale para a formação política e filosófica e também para as ações de inclusão e educação. As pessoas podem fazer hip hop e fazer música clássica. O importante é tentar estimular o diálogo entre as diferentes linguagens, para que uma cresça com a outra. E é essa a dificuldade de se elaborar uma política pública que não pode ser gestada de maneira centralizada, com procedimentos iguais para o país inteiro. Tem de ser uma política forte o suficiente para abrigar os diferentes, de forma a valorizá-los. Não devemos, nesse processo, pedagogizar excessivamente as 16

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“Trabalho em dois infocentros. Em um, como monitora, e no outro, como gestora. Já tem seis meses que eu comecei. Formamos uma turma e agora já estamos no meio da formação de outra. E também a gente já fez intercâmbios, oficinas com outras culturas digitais. Lá em Santarém, o pessoal do Puraqué tem um trabalho muito bacana nessa área de software livre, eles deram oficinas de gráficos, oficina do blog e áudio e vídeo. Então, a nossa comunidade teve participando. Quando tem essas oficinas, a gente tem sempre a preocupação de incluir a nossa comunidade, os jovens da nossa comunidade. Na verdade, como eu estava falando, a cultura digital tem de trabalhar junto com a

tecnologias, nem trazer essa dimensão de transformar o outro no eu. O educador Carlos Rodrigo Brandão, ao escrever sobre educação popular, contou a história de um lavrador chamado Ciço, que ele entrevistou para sua pesquisa. Ele perguntou a Ciço o que é educação. E Ciço respondeu : “É simples. Para seu mundo, é a sua educação, e para nosso mundo, é a sua educação também”. Não pode ser isso. Por que a diversidade é importante? Pretto – A multiplicidade faz parte da natureza humana. Isso se vê a partir do momento em que uma criança começa a ficar jovem e se rebelar contra o que está instituído. Essas crianças sofrem – a palavra é sofrer – um processo educacional em que são formatadas para viver em sociedade e pacificar sua rebeldia, se acomodar à lógica do padrão, fortalecida por este mundo neoliberal, em que a economia e o mercado presidem todos os processos. Se vou fazer um produto para o mercado universal, tem de ser sempre igual, para ter preço baixo. Massificar para fazer produtos pode ser interessante do ponto de vista do custo de produção, mas para a cultura é terrível. Como não podemos ter uma sociedade


comunidade, tem de servir como um instrumento de transformação social também. A gente também teve outra oficina com cultura juvenil. E agora tenho esse grupo que eu atuo, que é o Crer. São de dez a 15 jovens da nossa comunidade que participam, que atuam. E a gente vai formar esse grupo de jovens de software livre, vou aplicar os cursos, vou garantir o certificado para eles, como ferramenta de profissão. Encaminhar para o mercado de trabalho também. E a gente também quer ir além, quer aprofundar fazendo esse intercâmbio com outros Pontos de Cultura.” “O que eu já domino é mais na área que eu estou trabalhando, são os cursos. Eu domino muito a parte básica da informática. Estou querendo agora, através da parceria, me aprofundar

mesmo na parte de vídeo, nos programas de vídeo e edição de vídeo e edição de gráficos. A gente estava pensando também... Como a gente tem muitos grupos culturais naquela comunidade, então, pra gente divulgar, usando essa ferramenta, que a gente tem tão próximo, que são esses infocentros e essa internet de altíssima disponibilidade. A gente quer agora fazer nosso próprio jornal, fazer nosso próprio documentário de vídeo. É um projeto também do grupo, fazer um resgate histórico do grupo, no que o grupo influencia na vida dos participantes, dos que já participaram. A gente vai fazer um documentário, então, vamos nos aprofundar nesta parte dos programas mais avançados que são edições gráfica, de vídeo, de áudio.” Entrevista realizada em 28/3/2010

em que todos sejam rebeldes, vou negociar, a partir da educação e dos processos de inclusão digital, essa compreensão do conhecimento, regras e valores tidos como universais. A rebeldia e, ao mesmo tempo, a possibilidade de viver em sociedade. Precisamos trabalhar para que esses programas, e para que a escola, negociem essas diferenças. Por isso, tenho uma dificuldade com a expressão “inclusão”, que significa incluir em algo que já está pronto, que é melhor, e que é o que tem de ser buscado. Usamos o termo inclusão digital porque ficou instituído. Mas qualificar esse termo, saber que não significa incluir no sentido de pegar um menino que está fora desse conjunto de valores e formatá-lo dentro de um determinado universo. O princípio é trazer o diferente para a possibilidade proporcionada pelas TICs de fortalecer sua cultura, sua diferença e os valores de generosidade e de colaboração. Aí se usa incluir entre aspas, porque se trata de fortalecer a dimensão cultural de cada indivíduo, como uno e no coletivo. Como saber se os programas realizam isso? Pretto – Avaliar os programas é uma questão difícil, a mesma que se coloca para todas as po-

líticas públicas. Ao definir um sistema de avaliação, os programas fazem uma opção técnica, filosófica e de metodologia sobre educação, sobre política cultural, sobre a política de inclusão que desejam. Se fazem uma avaliação centrada em aspectos quantitativos, isso indica que o programa tem como pressuposto que incluir é atender determinado número de critérios: quanto mais gente o programa atende, quanto mais unidades abre, mais funciona. Não podemos jogar fora os números na avaliação do sistema educacional, dos Pontos de Cultura, dos centros de inclusão digital. É bom saber quem frequenta, quanto tempo fica, o extrato social. Mas essas medidas não podem ser definidoras da avaliação dos programas. Se a gente mede a quantidade de cursos, define que o curso é a forma de funcionar do telecentro, o que importa é a quantidade de cursos oferecidos. Temos de enfatizar que esses dados são elementos para a construção de processos educativos. Não se mede cidadania e protagonismo pelo número de vezes que alguém fez um curso, mas pela qualidade e pelo quê a pessoa faz hoje, em relação ao que fazia antes. Como a pessoa era, o que ela é agora, como está atuando, se envolvendo, tomando iniciativas. ARede Maio 2011

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capa

Marcelo Cardoso dos Santos 29 anos

Ponto de Cultura Bankoma, Associação São Jorge da Filho de Gomeia e Centro de Cidadania Digital (Lauro de Freitas, BA) “Em 2005, o projeto conseguiu o edital do Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura (Minc) e eu tive a oportunidade de ser um dos bolsistas do projeto. A gente recebia uma ajuda de custo para desenvolver a atividade. Eu já desenvolvia atividades como monitor de dança. Depois de monitor de dança, passei a trabalhar na oficina de tecelagem. Em 2006, através do Minc, surgiu o Cultura

“com a rede, com a internet, uma cidadezinha do interior pode ter muita coisa que antes não podiA”

Foto Robson Regato

Digital, que também vinha vinculado ao Ponto de Cultura. Comecei a participar das oficinas de inclusão digital. Foi aí que eu conheci essas ferramentas de software livre. Nunca tive na minha vida uma oportunidade de fazer um curso de informática, até mesmo por condições financeiras. Então, essa era a oportunidade. Dentro do Cultura Viva, da cultura digital, conheci o software livre. Junto com ele, tive a oportunidade de conhecer a política do software, que fala de colaboratividade desse acesso, dessa liberação, da facilidade de se comunicar em rede e compartilhar esses conhecimentos.”

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“Mudou muita coisa. Até então, pela dificuldade do acesso a esse veículo de comunicação, eu não tinha tanta perspectiva de vida em relação a isso. Eu tinha vontade de um dia ser ator, de um dia ser um grande dançarino, mas não sabia como ter acesso a isso tudo, uma vez que o Estado não proporcionava isso, não divulgava isso, não dava esse acesso pra gente. A partir do momento

que eu me aproprio desse conhecimento, começo a conhecer pessoas, a conhecer outros mundos, outras pessoas que pensam como eu. Aí a gente começa a compartilhar essas informações. A partir do momento que eu tenho acesso ao computador, tenho acesso a esse veículo de comunicação, cresce tudo dentro de mim. Os horizontes se ampliam, a perspectiva de vida não muda simplesmente, ela se transforma. Ela proporciona outros horizontes. Então, a gente vê que vai crescendo cada vez mais. É uma célula que não simplesmente se desenvolve, ela vai parindo outras células.” “Esse conhecimento me proporcionou isso. Hoje pensar no futuro como um antropólogo. Porque esse conhecimento expandiu a minha visão para o meu futuro. Hoje me faz ter vontade de cursar um curso superior que me dê mais embasamento da vida e que proporcione a garantia de que eu vou poder, futuramente, ajudar outras pessoas. Tenho um desejo de voltar para minha terra, Catité, para ajudar. O que recebi em conhecimento, eu quero dividir. Hoje eu vejo que com a rede, com a internet, uma cidadezinha do interior pode ter muita coisa que antes não podia ter. Me vejo como uma pessoa que pode transmitir o que aprendeu, me vejo como vínculo de transmissão do saber.” Entrevista realizada em 2/9/2010


Fábio Lúcio de Souza 23 anos “O Agente Jovem é um projeto social para jovens de baixa renda. Dá ajuda de custo de R$ 65 para tirar os jovens das drogas. Tem vários cursos: de atendimento público, de informática, esportes, audiovisual com filmagens, música. Entra com 15 anos e sai com 18. Eu entrei no final de 2004. No ano em que saí do Agente Jovem, porque já estava com 18 anos, eles nos indicaram cursos para que a gente participasse de projeto social. Nessa lista tinha montagem e manutenção de computador. Fiz o curso de três meses, passei a gostar mais ainda. Dos 25 que fizeram o curso, o pessoal da Prodabel ia contratar 12 para o BH Digital, para trabalhar nas escolas e telecentros, dar suporte, trocar equipamento. Comecei em agosto de 2006, como aprendiz, ganhando pouco mais de um salário mínimo, mais ou menos R$ 500. Fiz curso de Linux, de manutenção de impressora na Prodabel, a empresa de processamento de dados da cidade de Belo Horizonte.” “Em 2008, quando montaram o Centro de Recondicionamento de Computadores (CRC), programa do Ministério do Planejamento mantido em convênio com órgão públicos ou entidades da sociedade civil, no caso com a prefeitura de Belo Horizonte), fui contratado como monitor. Hoje ganho R$ 1.236 na carteira. Sou contratado para manutenção de máquinas, mas o que eu faço mesmo é instalação e suporte em Linux para as máquinas do CRC que vão para os telecentros, para os postos de internet municipal e para outros estados. Também dou aula de Linux para os monitores dos telecentros e das escolas municipais. No começo foi difícil porque sou muito tímido. Hoje ficou mais fácil. Já aprendi a me comunicar. A gente muda a

Foto Robson Regato

Computadores para Todos, Centro de Recondicionamento de Computadores (Belo Horizonte, MG)

“A gente muda a cabeça, percebe que tem oportunidades. Os projetos do governo abrem portas para o mercadO” cabeça, percebe que tem oportunidades. Os projetos do governo abrem portas para o mercado de trabalho. Você pode fazer cursos gratuitamente. Hoje tem mais oportunidades para os pobres, você tem de procurar qualificação. Só é mais difícil entrar na universidade federal, precisa de três anos de cursinho. Quem faz escola pública tem dificuldade. O acesso à internet facilita conhecer mais o que acontece, a gente passa a querer ver mais o cotidiano das pessoas. A internet possibilita o acesso ao conhecimento.” Entrevista realizada em 19/5/2010

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Fotos Renato de Aguiar

entrevista | Mรกrio Brandรฃo

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Casas abertas para a inclusão As lan houses mudam sua imagem e reivindicam fazer parte das políticas públicas que qualificam o acesso à internet das populações de baixa renda Áurea Lopes Não faz muito tempo, a imagem de uma lan

Estigmatizadas como casas de jogos e diversão,

house que predominava no imaginário popular era a de uma porta fechada, de vidro escuro, por trás da qual a garotada gastava dinheiro com jogos violentos, e sabe-se lá o que mais podia acontecer naquela suspeita fileira de computadores! Essa percepção está mudando. As “casas de acesso à rede” – tradução livre de lan house para o português – começam a ser consideradas importantes centros para democratização do acesso à internet, prestação de serviços à população, espaços de formação. Tanto que o governo federal incluiu as lan houses no Plano Nacional de Banda Larga e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mudou a Classificação Nacional de Atividade Econômica (CNAE) das lans, de casas de jogos de diversão para atividade complementar a serviços de escritórios.

hoje as lan houses começam a ser vistas como

Muitos fatores contribuíram para a abertura das portas das lan houses ao mundo da inclusão digital. Em especial, a militância de organizações da sociedade civil como a Associação Brasileira de Centros de Inclusão (Abcid), presidida pelo ativista Mário Brandão. Um dos principais articuladores do projeto de lei para regulamentação das lans, que em abril foi aprovado na Câmara dos Deputados e encaminhado para o Senado, Brandão fala das novas vocações dos centros privados de acesso coletivo e defende o papel social desses estabelecimentos. Por isso, reivindica: “Assim como o governo fornece mão de obra para a indústria, para o turismo etc., nós também deveríamos ser contemplados por essas políticas públicas de qualificação profissional”.

centros de inclusão digital. A que se deve essa mudança? Mário Brandão – Não é que as lan houses estão

mudando. É que o público das lans amadureceu e tem outras necessidades. A lan house começou em 1998, 2000, com a primeira onda de games. Depois, o garoto que frequentava a lan para jogar passou a querer namorar, falar com os amigos, encontrar as amizades. Ou seja, começou a querer comunicação. Então explodiu, primeiro ICQ, bate papo do UOL, depois MSN e Orkut. Conforme esse usuário cresce, surgem outras necessidades: estudar, pesquisar, trabalhar... às vezes é um cara que vai casar, vai à lan house procurar apartamento, terreno pra comprar. E as lans vão se posicionando para atender a essas demandas. Mas também tem os usuários entrantes, adolescentes que querem jogar. Por isso, a lan house de jogo ainda existe e vai continuar existindo. Só que agora existem outras coisas também. Falta informação sobre o potencial das lans nas estratégias de democratização do acesso à internet ou ainda há muito preconceito? Brandão – Havia muito preconceito porque as

lans são eminentemente espaços de acesso de público de baixa renda. Mas a lan house ficou conhecida como um lugar onde a galera queria ir pra jogar e matar aula porque foi esse o início. A gente herdou o vácuo do que era o fliperama. Só que o computador e a internet são bem diferentes de uma máquina de fliperama em que você ou joga, ou joga. A internet terá o uso que você fizer dela. Se você entra no telecentro

LAN Do inglês Local Area Network, significa rede local.

Mario Brandão é administrador de empresas, webmaster, proprietário de uma lan house no subúrbio do Rio de Janeiro, diretor presidente voluntário da Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital (ABCID) e integrante da Mensa Brasil (mensa.org.br).

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entrevista | Mário Brandão

Embora a lan house tenha sua vocação, quem diz o que quer fazer nesses espaços é o usuário. mais conceituado do Brasil, abre o Google e digita uma palavra, o resultado que vai aparecer na tela é igual ao resultado que vai aparecer na tela de uma lan house de jogo. Então, se você quiser chegar em uma lan house de serviço e estudar, você pode. Assim como você pode fazer comunicação na lan house de jogos. Embora a lan house tenha sua vocação, quem diz o que quer fazer nesses espaços é o usuário. Por muito tempo as pessoas associaram a internet a um ambiente pouco colaborativo, pouco social, sempre viram a internet pelo lado da criminalização, pelo potencial de danos, de intercâmbio de fotos de pornografia. Um espaço potencializador de más condutas. Hoje já se tem a percepção de que é um espaço potencializador de condutas – más ou boas. Se o cara quiser fazer coisas boas, a lan house vai potencializar também. Que tipo de atividades e conteúdos são oferecidos pelas lans? Brandão – Lan house é um negócio plural. Olha

só. Aqui no meu bairro, tem uma lan house escura, com neon nas paredes, você anda e não consegue enxergar seu pé. É um clima de imersão, onde você “entra no computador” e a ideia é que nada te distraia. Esse é um ambiente muito propício para quem quer jogar ou precisa fazer alguma coisa que exige alta concentração. A cem metros, tem outra lan, que parece uma farmácia, de tão iluminada. No desktop, não tem nenhum jogo. Mas tem sites da prefeitura, da polícia civil, de serviços públicos, de banco. É um lugar voltado para negócios, um centro de serviços de escritório, como impressão, recarga de cartucho, copiadora. Enfim, serviços para quem não tem computador, ou para quem tem mas não sabe usar. Duzentos metros do outro lado, tem outra lan, que funciona em uma locadora de vídeo. O dono colocou cinco ou seis máquinas, o pessoal pega o filme e assiste no computador. Mas esse cara também gosta muito de história em quadrinhos. Aí ele digitalizou 22

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vários gibis antigos para o pessoal consultar, ler, “folhear” na tela. O lugar se tornou um centro de cultura voltado para cinema, HQ, entre outras coisas. Também pertinho tem uma lan com perfil de comunicação, tecnologia para chamadas de voz pela internet, webcam nas máquinas. As pessoas utilizam essa estrutura para fazer treinamento, capacitação para call center, para revendedores. Outros vão lá fazer conferência de trabalho. Aqui na minha lan, a X-Rio, o forte é a educação, o ensino a distância. Nosso maior movimento é à noite, porque o pessoal sai do trabalho e vem pra cá estudar, pesquisar. Então, são lan houses diferentes, cada uma tem seu modelo, e nenhuma concorre diretamente com a outra. Como espaços privados, que comercializam serviços, as lan houses podem contribuir para a inclusão digital no país? Brandão – Sim, e essa é uma função importante das lans. Seria ótimo que todos pudessem ter um computador em casa. Mas veja só: vamos fazer um cálculo com base em um indicador chamado Custo Total de Propriedade, que é o quanto custa ter ou manter a posse de determinado bem – no caso, o computador com o acesso à internet. Um computador em uma residência significa uma despesa mensal em torno de R$ 250. São de R$ 50 a R$ 100 da prestação da máquina, mais o custo de depreciação nos dois ou três anos de vida útil da máquina, mais as despesas de energia, conexão, provedor de internet, manutenção do equipamento e até a formação para manipular o equipamento independente de ajuda. E esse custo mensal pode chegar a R$ 400, em camadas sociais um pouco mais altas. Esse custo é para uma média de navegação de 40 horas, 60 horas por mês. Em uma lan house, o mesmo tempo de navegação sai por R$ 60, R$ 70. Para uma pessoa que tem uma renda de quatro salários mínimos para cima, esse custo de propriedade é razoável, ela consegue manter a máquina. Mas, para quem ganha de um a dois salários mínimos, não dá. Esse dinheiro representa a cesta básica, o crédito no celular. Isso faz com que a lan house seja uma escolha racional dessa população de baixa renda. Mas a inclusão vai além do acesso. O que as lans houses precisam para para oferecer cone-


xões e conteúdos para trabalho, estudo, serviços públicos? Brandão – Alguns erros foram cometidos nos últimos anos, como o de alijar as lans das políticas públicas para qualificar o acesso à internet. Você conhece um centro de formação de monitor para lan house? Os programas de formação de governos são para telecentros gratuitos e não dão abertura para que as lans participem, mesmo que queiram pagar por isso. Existem, no país, cerca de 250 mil pessoas trabalhando em cerca de 100 mil lan houses (projeção da Abcid, em 2010, a partir de dados do Nic.BR). Assim como o governo fornece mão de obra para a indústria, para o turismo etc., nós também deveríamos ser contemplados por essas políticas públicas de qualificação profissional. Nós somos um segmento de mercado. E está errado pensar que esse investimento público vai beneficiar um segmento privado, o das lans. A gente tem que pensar o seguinte: como está sendo a cultura de navegação de 30 milhões de pessoas que acessam internet via lan houses no Brasil? A ausência do governo faz com que a gente tenha uma pobre qualificação do acesso dentro das comunidades de baixa renda, que são os territórios predominantes das lans. O projeto de regulamentação de lan houses que está no Senado atende às expectativas do setor? Brandão – Esse projeto é uma luta nossa desde

2007. Em 2006, a gente começou as ações da Associação e eu sai atrás dos deputados do Rio de Janeiro para dizer a eles que o tratamento legislativo dado às lans não afeta só as lans. Cria dificuldades a milhões de pessoas, para as quais é mais econômico acessar a internet via lan house. As pessoas precisam ter o direito a essa opção. A internet, em vários lugares do mundo, hoje já é considerada direito fundamental. Aqui, lan house tem de estar a tantos quilômetros da escola, estudante não pode entrar em lan com uniforme, menor precisa de autorização dos pais reconhecida em cartório... Todas essas dificuldades, em outros países, seriam desconstruídas por princípios constitucionais. Mas, no Brasil, aconteceu o contrário. Surgiram leis municipais severas, depois estaduais. E a gente começou a ver que isso não dificultava a operação das lans, em si. Dificultava um tipo de lan que, no meu ponto de vista, é uma das mais fundamentais. Por exemplo: aqui no Rio de Janeiro, você é

obrigado a fazer matrícula escolar pela internet. Mas poucos estudantes de escola pública têm acesso residencial. Na época de matrícula, tem fila aqui, de pai e mãe para matricular o filho na escola. Aí você se pergunta: é justo que essas pessoas que precisam ter acesso a esses bens civilizatórios, inclusive a educação, tenham tanta restrição? Se o garoto está de uniforme escolar, não entra. E a maior parte das legislações é assim: não pode entrar de uniforme e ponto. Quer dizer, fora do turno dele de escola, no final de semana... não pode. Em São Paulo, Paraná, isso talvez seja considerável. Mas no Norte, Nordeste, muitos meninos e meninas não têm roupas. Eles andam com a roupa da escola, mesmo no final de semana. É a roupa que eles têm. Esse tipo de restrição, portanto, não cria dificuldade só para a lan house, cria para o garoto que saiu da escola e quer ir direto fazer uma pesquisa. O impacto é sobre a inclusão digital do país. Como você avalia as emendas aprovadas pela Câmara de Deputados, que fizeram restrições à versão inicial? Brandão – Então, foram aprovadas duas emen-

das problemáticas. Uma é da deputada Mara ARede Maio 2011

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entrevista | Mário Brandão

Práticas saudáveis recomendadas pela ABCID às lan houses

Gabrilli (PSDB-SP), sobre acessibilidade. A outra, do cadastro obrigatório, é do deputado Sandro Alex (PPS-PR). A questão da acessibilidade não está definida, foi para regulação posterior. Pode se referir à estrutura física ou aos hardwares e softwares. Se fosse acessibilidade de hardware e software, eu aprovaria plenamente. Mas o problema do acesso físico é mais complexo. Muitas lans funcionam no segundo andar de um prédio. Como aqui. Não acho justo que eu não possa existir institucionalmente pela minha incapacidade de oferecer acesso a um cadeirante. Veja, eu não sou contra assistividade. Até coloquei aqui na minha lan programas para deficientes visuais, que depois não vingaram por falta de demanda. Assim como também nunca veio aqui um cadeirante que ficasse sem subir. A gente juntaria duas ou três pessoas que ajudariam a trazê-lo para cima. Mas essa emenda é muito radical, inviabiliza muitas iniciativas. Não concordo que, para benefício

da minoria, se deixe de atender à maioria. Você tem ideia de quantas lans houses existem nas favelas, sem a menor condição de ter um acesso desse tipo? É preciso levar em conta as diferenças. Uma coisa é um supermercado, um shopping, que têm estrutura necessária para colocar um elevador, uma escada rolante... isso deve representar 0,01% do faturamento de um estabelecimento desse porte. Outra, é uma lan house na periferia, em que o faturamento é de R$ 3 mil, R$ 4 mil por mês. A segunda emenda complicada é a que estabelece a obrigatoriedade dos cadastros. Mas o que passou foi um cadastro simples. As lans já não fazem esse tipo de registro? Brandão – Somos favoráveis à feitura de cadas-

tro, e até orientamos donos de lans a fazer o cadastro, por uma necessidade de conhecer o cliente, fazer promoção. É como uma locadora de vídeo, toda locadora faz cadastro. A obrigatoriedade do cadastro é que é o problema. Porque dessa forma as lans estão sujeitas a duas figuras jurídicas terríveis: a teoria do risco e a responsabilidade civil objetiva. A teoria do risco fala que os danos decorridos da ação natural do seu negócio são de responsabilidade sua. Por exemplo: você tem um negócio de telefone. Se o seu telefone causar um prejuízo a alguém, mesmo você não tendo nada a ver com a história, é um risco inerente ao seu negócio. E você se torna responsável. No ordenamento jurídico brasileiro, a pessoa que desenvolve o negócio tem responsabilidade, independente de culpa. Legislativamente falando, é um desastre. Porque aí vem aquela coisa: se eu sou responsável pelo acesso, eu me dou o direito de vigiar a navegação. Mas, se eu tenho de respeitar a privacidade de navegação das pessoas, como eu posso ser copartícipe do que elas estão fazendo? E essa é outra discussão preocupante. A responsabilidade civil objetiva também coloca o dono de lan house como corresponsável por crimes cometidos por usuários. E o ônus da prova em contrário é dele. Ele só deixa de ser responsável se identificar o responsável. Mas veja um exemplo no mundo concreto, não digital. Alguém manda uma carta ofensiva e no remetente escreve nome falso, endereço falso. Não dá para responsabilizar os Correios pela incapacidade de identificar quem é o verda-

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apenas 11% dos incidentes de segurança e ilícitos de toda a internet brasileira aconteceram em lans deiro remetente. Da mesma forma, se alguém cometer uma ofensa de um orelhão, não dá pra responsabilizar a operadora de telefonia pela incapacidade de identificar quem fez a ligação. Portanto, não se deve criminalizar o meio pelo qual foi cometido o crime. E as incapacidades técnicas que qualquer um desses vetores tem, a lan house também tem. Aqui na minha lan, tecnicamente falando, eu tenho um IP para 20 máquinas. Posso dizer quantas e quais pessoas estavam logadas, em determinado dia e horário, mas não consigo dizer de qual das 20 estações partiu determinado e-mail. O cadastro não seria uma forma de inibir as práticas criminosas? Brandão – As estatísticas mostram que 98% dos crimes da internet são imateriais – 95% contra a honra (calúnia, injúria e difamação) e 3% contra o patrimônio (desvio de dinheiro, uso de cartão de crédito etc.). Se compararmos os estados que têm leis de obrigatoriedade de cadastro com os que não têm, não há diferença significativa no percentual de crimes. Além disso, dados do Cetic.Br 2009 apontaram que 63% dos crimes na internet partiram de acessos residenciais. Dos 31% de crimes não originados em residências, 36% foram praticados em lans houses. Resultado: apenas 11% dos incidentes de segurança e ilícitos de toda a internet brasileira aconteceram em lans. Então vem a pergunta: por ter um perfil de pretenso anonimato, a lan house é um lugar de crime? Os números dizem que não. Até porque ninguém olha fotos de pornografia infantil com gente passando do lado, nas costas. É o contrário: por ser um ambiente público, sem privacidade, a lan inibe práticas criminosas. E, mesmo que eu tenha um cadastro... não sou capaz de identificar uma nota de R$ 50 falsa, quanto mais uma identidade falsa! Então, o cadastro não deve ter essa função. Os prejuízos sociais em nome da proteção contra crimes digitais são muito grandes.

Como é que as lan houses podem garantir sua sustentabilidade? Brandão – Estamos na expectativa de que seja

liberada uma linha de financiamento do BNDES de R$ 1 bilhão, para lan houses e microprovedores. Esse crédito vai permitir uma operação mais sustentável porque você vai poder, por exemplo, trocar monitores CRT, que consomem 90 watts, por monitores LCD, que consomem 23 watts. Hoje, o banco não dá crédito para lan house. No Banco do Nordeste, tem microcrédito. Mas quando o gerente sabe que é lan house, ele nega o empréstimo. Então, sustentabilidade, para uma lan house, é redução de custos, é diversificação de modelo, com negócios não vinculados exclusivamente ao acesso. Como uma farmácia, que não vive de vender remédio, mas de vender cosméticos, perfumaria etc. A boa lan house é aquela onde, na hora de acesso igual a zero, o cara consegue ganhar dinheiro com ofertas paralelas. O que a ABCID passa para os proprietários é isso: faça business, gere fluxo, seja criativo. Isso não tem nada a ver com equipamentos de última geração. Tem a ver com baixo custo de energia, baixo custo fixo, variedade na receita. Esse é um negócio sustentável. ARede Maio 2011

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conexão social

Banda larga popular de 1 Mbps O governo negocia com as concessionárias um novo patamar de velocidade mínima, ao preço de R$ 35, com impostos. LIA Ribeiro DIAS Até o final de junho, para quando foi adia-

da a assinatura da renovação dos contratos de concessão e do Plano Geral de Metas de Universalização (PGMU III), o governo federal deverá fechar com as concessionárias a oferta de banda larga popular. Embora as metas de banda larga não façam parte formal do PGMU III, que estabelece objetivos apenas para a comunicação de voz fixa, o governo aproveita esse momento de negociação para discutir também aquele tema. A presidente da República, Dilma Rousseff, considerou insuficiente a oferta feita pela Oi – banda larga popular de 600 kbps a R$ 35, com impostos, e a R$ 29,90, sem impostos (no caso o ICMS, cuja isenção depende dos governos estaduais) – e pela Telefônica – 300 kbps, no mesmo valor. E pediu que estudassem uma oferta na velocidade mínima de 1 Mbps. As negociações ainda não foram concluídas mas, de acordo com fontes do governo, estão avan26

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çando. O resultado é fundamental para o Plano Nacional de Banda Larga, que precisa tanto de investimentos públicos quanto privados – uma vez que as concessionárias são as operadoras com a maior infraestrutura de rede fixa no Brasil, cobrindo todas as cidades. Também em função de metas anteriores do PGMU II, já têm ponto de presença de internet em todas as sedes de municípios brasileiros, embora em muitos ainda precisem expandir a capacidade para chegar à oferta de 1 Mbps aos domicílios. O principal entrave nas negociações é o investimento a ser feito pelas concessionárias, especialmente pela Oi, que tem a maior área de cobertura no país. As empresas ainda estão fazendo suas contas, mas o governo conta com alguns trunfos para estimular os investimentos privados. Como a possível aprovação do PLC 116 pelo Senado Federal – o projeto de lei complementar, além de outras iniciativas, abre o


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conexão social

entidades da sociedade civil defendem que a banda larga seja transformada em serviço público mercado de TV a cabo para as concessionárias, permitindo que ofertem pacotes de voz, dados e vídeo na mesma rede. Ou outras iniciativas regulatórias reivindicadas pelas operadoras, como a queda do valor da tarifa de rede que as operadoras fixas pagam para fazer a interconexão com as redes celulares. Parte dos recursos economizados com a redução dessa tarifa seria transferida para o usuário, diminuindo a tarifa paga por ele, e parte poderia constituir um fundo para investimento em banda larga.

backhaul Ligação entre o backbone e a sede de município

Críticas O avanço na negociação com as concessionárias tem merecido críticas de entidades da sociedade civil, que defendem que a banda larga seja transformada em serviço público (aquele que tem garantia de continuidade da prestação pelo governo e cujos bens são reversíveis à União). Hoje, o único serviço enquadrado como público é a telefonia fixa e não há consenso dentro do governo de que a banda larga deva ser colocada na mesma categoria. Isso porque, na avaliação de técnicos, tanto da Anatel, quanto do Ministério das Comunicações, e mesmo da Telebrás, o enquadramento como serviço público engessa a prestação do serviço. Os motivos são diversos: impede a existência de assimetrias regionais; cria obrigações demais, que encarecem o serviço; e afasta os pequenos prestadores, pois o serviço torna-se concessão e as exigências em relação às concessionárias são muito mais pesadas do que em relação a outros prestadores de serviço. Além disso, licitar uma concessão é um processo demorado, o que postergaria ainda mais as metas do PNBL. Há também insatisfação em relação à velocidade mínima, de 1 Mbps, reivindicada pelo governo. A campanha “Banda Larga é um Direito Seu!”, lançada por 41 entidades da sociedade civil, diz, no vídeo de promoção da campanha, que a velocidade mínima necessária para que o internauta possa se comunicar na rede, baixar e subir vídeos, é de 2 Mbps. Líderes do movimento criticam as operadoras pelo serviço prestado, que consi-

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deram lento, caro e de baixa qualidade, e pedem acesso universal para a banda larga. Mas o que mais incomoda os movimentos sociais é o fato de o governo ter definido que a Telebrás não vai prestar o serviço de última milha, devendo se concentrar na oferta de capacidade de backbone e backhaul para prestadores do serviço de última milha, como pequenos provedores de acesso à internet e operadoras. Embora essa definição venha desde o final do governo Lula, muitas organizações achavam possível usar a Telebrás para universalizar o serviço na ponta. O que não deverá acontecer. Além disso, o severo corte de gastos imposto pelo governo Dilma, neste início de administração, também atingiu o Ministério das Comunicações (com contingenciamento de 57% de seu orçamento) e, por tabela, a Telebrás. Do orçamento pleiteado pela estatal de R$ 600 milhões no ano passado, só foram autorizados R$ 316 milhões, que ainda não foram descontingenciados (o que estava prometido para o final de maio). Dos R$ 400 milhões pedidos para 2011, o Congresso só liberou R$ 226 milhões, dos quais só R$ 50 milhões foram descontingenciados. De acordo com o presidente da Telebrás, Rogério Santanna, o caixa da estatal é de R$ 280 milhões. Com menos de R$ 800 milhões, não conseguirá conectar as 1.163 cidades pretendidas – talvez o máximo de 800, dependendo do fluxo de liberação dos recursos. Se, de um lado, o aperto orçamentário pode sinalizar o enfraquecimento da Telebrás, como interpretam as organizações do movimento social, por outro, Dilma disse que poderá investir R$ 1 bilhão por ano na empresa, para fazer avançar o PNBL. Parecem sinais trocados, mas não são. O que o governo quer é que a Telebrás invista mais na infraestrutura de fibra óptica e planeje os investimentos setoriais, para dotar o país de uma rede capaz de prestar banda larga com qualidade e velocidade adequadas em pelo menos mais de 4 mil municípios. Para fazer isso, em quatro anos, segundo cálculos de técnicos do governo apresentados pelo ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, seriam necessários R$ 7 bilhões. O governo federal poderá colocar R$ 4 bilhões nessa infraestrutura. O restante ficaria por conta da iniciativa privada.


Foto Hélio Oscar Schonmann

Coletivo Água Branca Grafite: Cranio, Elias Júnior, Hélio Oscar Schonmann, Mundano, Ozi, Thiago Vaz. São Paulo (SP) O Coletivo Água Branca, idealizado pelo artista plástico Hélio Oscar Schonmann em 2009, tem como proposta a inclusão cultural das camadas mais pobres, que não estão acostumadas a frequentar espaços expositivos tradicionais. Artistas voltados para a arte de rua e de ateliê se reúnem para fazer interferências em espaços públicos. Promovem, assim, uma comunicação reciprocamente enriquecedora. www.projetoquixote.org.br ARede Maio 2011

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De grão em grão... Plataformas colaborativas viabilizam a realização de projetos criativos, por meio de doações na internet. Patrícia Cornils Produtos que serão vendidos pela internet na loja Rabiscaria, criada com recursos colaborativos do Cartarse.

No dia 3 de março de 2001, 140 pessoas se

tornaram as primeiras a financiar a realização de um projeto criativo por meio de uma plataforma de crowdfunding – financiamento coletivo – no Brasil. O projeto foi o Rabiscaria, uma loja online que vende produtos (copos, adesivos, quadros, camisetas, sandálias) estampados por artistas plásticos, designers e ilustradores. A plataforma usada foi o Catarse, lançado em 17 de janeiro, primeiro site de crowdfunding de projetos criativos do Brasil. Em somente três meses, o Catarse divulgou 30 projetos, 16 dos quais já chegaram ao final do prazo que estabeleceram para arrecadar os recursos mínimos necessários para serem realizados. Desses, dez (62,5%) conseguiram atingir suas metas. Até o final de abril, cerca de mil pessoas haviam contribuído com R$ 110 mil para os projetos. Várias outras plataformas de financiamento coletivo foram lançadas recentemente: Incentivador, Ingressar, Produrama, Movere.me, Senso Incomum. Outras se preparam para ir ao ar: Benfeitoria,

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Embolacha, Selo Fan, Sibite and Ulule. Este será o ano em que o financiamento coletivo por meio da internet vai decolar no Brasil. O Catarse, no entanto, é diferente das demais: adeptos do compartilhamento e da colaboração, os criadores do site decidiram, em março, abrir o código-fonte do site, licenciado em copyleft. Seu objetivo é estimular o financiamento coletivo e online de projetos. “Somos apaixonados por colaboração – mesmo! E isso não é só na hora de colaborar para apoiar os projetos e ajudá-los a acontecer”, diz o texto publicado no site, sobre as razões da liberação. Em abril, o Multidão, site de financiamento coletivo do Rio de Janeiro, e o Catarse, anunciaram a criação do Comum, um grupo sem fins lucrativos em que as duas equipes vão trabalhar em conjunto, reforçando os pontos fortes de cada um e estendendo seu alcance para outras redes. O Catarse vai contribuir, entre outras coisas, com o desenvolvimento e a manutenção da plataformas online.


O Multidão tem boa experiência em vídeo e contato com redes de produção cultural. A complementaridade existe, mas o que levou os grupos a trabalhar em conjunto foi a sintonia de ideias. “Queremos discutir o open source, o Creative Commons, o comum”, diz o vídeo de lançamento do grupo. “Todas as nossas contas serão abertas à consulta pública. Nossos excedentes serão revertidos para um ou mais fundos de produção cultural, artística, científica, jornalística ou qualquer outra produção que milhares de mentes engenhosas serão capazes de pensar ou produzir”. Em março, os criadores do Rabiscaria precisavam levantar R$ 20 mil para produzir suas primeiras peças e colocar a loja no ar. Fizeram uma apresentação de sua proposta e a colocaram no Catarse. Faltando cinco dias para expirar o prazo de arrecadação do projeto, o pessoal só havia captado 10% do que precisava, conta Diego Reenberg, um dos responsáveis pelo Catarse. “Nos últimos dias, depois de adicionar uma recompensa nova, a partir de uma parceria que eles fizeram com um pintor goiano, o projeMÚLTIPLAS FONTES, MÚltiplos projetos. Financiamento coletivo ou crowdfunding é a arrecadação de capital para iniciativas de interesse coletivo por meio da agregação de múltiplas fontes de financiamento, em geral pessoas físicas interessadas na iniciativa. O termo é muitas vezes usado para descrever especificamente ações na internet com o objetivo de arrecadar dinheiro para artistas, jornalismo cidadão, pequenos negócios e start-ups, campanhas políticas, iniciativas de software livre, filantropia e ajuda a regiões atingidas por desastres, entre outros. O financiamento coletivo recebeu atenção renovada para outros fins com o advento da internet quando transações financeiras de longa distância e sistemas de micro pagamento se tornaram viáveis e de baixo custo, e a agregação de um número grande de pessoas físicas ao redor do mundo interessadas em um certo assunto se tornou factível. Fonte: Wikipedia

to deu uma guinada surpreendente, levantando mais de R$ 20 mil na última semana”, informa. O projeto recebeu apoios das cidades de Alto Paraíso de Goiás, Aparecida de Goiânia, Arujá, Belo Horizonte, Bom Jesus do Itabapoana, Brasília, Campinas, Cavalcante, Ceres, Florianópolis, Goiânia, Lima Duarte, Limeira, Macaé, Palmas, Paranavaí, Piracicaba, Porto Alegre, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, São Paulo, Taguatinga, Taiuva e Uberaba. “Não é legal ver que um projeto criado em Goiânia, no meio do Brasil, conseguiu ter um alcance tão grande assim, graças ao crowdfunding?”, comemoram os criadores do Rabiscaria, em seu blog. A loja ainda não está no ar, mas em breve será lançada. O Catarse não foi o primeiro site de financiamento coletivo do Brasil. Desde 2009 existe, por exemplo, o Vakinha, um site gaúcho para vaquinhas online. A diferença fundamental é que o Vakinha abriga pedidos pessoais, solicitações de caridade. “Quero quitar meu saldo negativo de R$ 11 mil”, ou, “Queremos viajar para o Japão”, ou, “Quero comprar uma casa para minha mãe”. Já o Catarse foi criado para viabilizar projetos artísticos e criativos – as propostas divulgadas são para realizar filmes, reportagens, espetáculos, objetos, livros, muitas vezes ideias totalmente novas. No Vakinha, as pessoas podem sacar o valor arrecadado, mesmo que não seja suficiente para realizar seu pedido. No Catarse, se ao final do prazo de arrecadação os recursos não alcançarem a meta mínima para realizar o projeto, o dinheiro é devolvido aos doadores. A exposição do projeto na rede tem outro efeito, que independe de conseguir dinheiro para se viabilizar. Revela a comunidade de apoiadores da ideia, pessoas dispostas a apoiar sua realização. Projeto de Amanda Karoline conseguiu recursos no site Catarse para registrar viagem a São Paulo por meio de ilustrações

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No Movere.me, o grupo Bichos para Contar e Cantar capta apoio para fazer apresentação a crianças de baixa renda.

O próprio Catarse nasceu para realizar algumas ideias. A primeira é que a ferramenta de financiamento coletivo possibilita a criadores encontrarem seu público, seus apoiadores, sem depender de intermediários. E, assim, viabilizar projetos que não passariam incólumes pelo crivo de empresas, gravadoras, editoras, produtoras. Todos eles, além das recompensas que oferecem aos apoiadores, dependendo do valor doado, resultam em uma produção. “Queremos revolucionar a forma como projetos criativos são financiados”, diz Diego, ao aproximar as pessoas, por meio da internet, para encontrar novos caminhos de realizar novidades. As ideias de comunidades virtuais, de conexão entre criadores e seu público, sem intermediários, e de colaboração, fundamentam o Catarse. “Quem está na base da produção cultural, os ‘soldados’ de grandes empreendimentos, não consegue criar coisas mais autorais”, conta Rodrigo Machado Maia, um dos criadores do Multidão, site de crowdfunding que foi ao ar no dia 18 de abril. Com financiamentos colaborativos de pequenos projetos, essas pessoas podem trabalhar em suas próprias ideias. Assim, estimula-se a diversidade, explica Rodrigo. E uma multidão de pessoas diversas encontra um canal para agir em conjunto, para viabilizar coisas que não aconteceriam dentro de uma estrutura tradicional de trabalho. Espetáculos, filmes, discos, livros, ateliês, reportagens. Os organizadores do Catarse chamam isso de “projetos bacanas”. E são mesmo. Veja um exemplo na página ??: o Cidades para Pessoas. Os sites de financiamento coletivo podem se dirigir a um segmento. No caso do Sibite, os artistas. O Selo Fan pretende ser um selo independente de música financiado coletivamente. O Portal do Voluntário, que existe desde 2000 e no qual há mais de 100 mil voluntários cadastrados, vai começar, em junho, a selecionar projetos para serem financiados por meio de crowdsourcing. A Senso Incomum, que entrou no ar no final de janeiro, vai contribuir para financiar projetos sociais. No final de abril, a Senso Incomum havia suspendido temporariamente a ativação de projetos na rede, para fazer alguns ajustes técnicos em sua plataforma, mas continuava recebendo projetos. Até então, tinha sete projetos ativos e um bem-sucedido. Como define um de seus criadores, Edu Sangion, a

No Movere.me, o grupo Bichos para Contar e Cantar capta apoio para fazer apresentação a crianças de baixa renda. No site Incentivador, Nelson Hoineff quer arrecadar recursos para exibição do longametragem Cauby - Começaria Tudo Outra Vez.

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Parangolé Grafitti, no Catarse, apresenta projeto de viagem para a exposição Quadrienal de Cenografia e Figurinos, em Praga (República Tcheca).

Como funciona > Envie seu projeto ao site. Todos fazem uma curadoria, ou

seja, escolhem os projetos que têm a ver com seu perfil. > Faça uma apresentação do projeto, com os custos estimados, e defina uma meta mínima de recursos necessários para a realização. Os sites ajudam nesse processo. > Defina também um prazo para arrecadar esse valor mínimo. > E recompensas (contrapartidas) para os patrocinadores, que variam de acordo com o valor doado. > Avise seus amigos, espalhe a notícia sobre seu projeto por Orkut, Facebook, Twitter e torça para que eles também ajudem a divulgar. > Encerrado o prazo, se os recursos não forem arrecadados, os valores são devolvidos a quem doou. > Se a meta for atingida, você recebe o dinheiro, realiza seu projeto e entrega as recompensas aos doadores. > Um percentual dos recursos arrecadados, se a meta for cumprida, fica com o site. No Catarse é de 5%. Na Senso Incomum, de 8%. Senso Incomum quer ser “um shopping de boas ações”. Em vez de repassar dinheiro, realiza as compras dos materiais necessários aos projetos e os entrega materiais. Neste curto período de experiência com os financiamentos coletivos, conta Sangion, uma das dificuldades não previstas é o trabalho para fazer com que os “donos” de projetos se planejem e se envolvam realmente com sua campanha de captação. “Grande parte do sucesso de uma campanha de crowdfunding está no esforço que o responsável pelo projeto empreende na divulgação”, explica ele. Os organizadores do Catarse descobriram, também, que precisam assessorar as pessoas na

elaboração e na apresentação de seus projetos. Com o Diário de Bordo Ilustrado, projeto da ilustradora Amanda Karoline, aconteceu isso. Amanda tem 19 anos, nasceu em Natal e nunca havia saído de sua cidade, nem viajado sozinha. Quando procurou o Catarse, queria arrecadar fundos com a campanha “Me leva para o youPIX” – festival realizado em São Paulo, que reúne pessoas para debater e conhecer aspectos da cultura online. Ao ver os desenhos de Amanda, o pessoal do Catarse propôs que ela mudasse seu projeto, para fazer um diário desenhado sobre sua viagem a São Paulo. Ilustrações da própria Amanda foram usadas no vídeo de apresentação do projeto, que foi apoiado por 56 pessoas e arrecadou R$ 2.340,00. Cerca de 40% desse valor foi doado nos últimos instantes, pela agência de publicidade Tboom. Amanda veio a São Paulo. “Aqui é TUDO vertical. Tem um shopping vertical. Uma faculdade vertical. Pra quem vem de uma cidade que tem espaço pra tudo, ver tantos prédios é um choque!”, escreve ela no diário online, que ainda tem mais fotografias que ilustrações. Antes mesmo de conhecer a cidade, ela havia mostrado, com seus desenhos, que faria uma bela viagem. E a vontade de participar dessa viagem levou as pessoas a apoiar seu projeto. www.catarse.me www.incentivador.com.br www.ingressar.com.br http://produrama.com.br www.movere.me http://multidao.art.br

http://benfeitoria.com www.embolacha.com.br www.selofan.com.br www.sibite.com.br www.ulule.com

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Cidades para pessoas, não para carros ou empresas imobiliárias. Foto Divulgação

O Cidades para Pessoas é um pro-

jeto de jornalismo. Natália Garcia, a idealizadora, vai percorrer doze cidades pelo mundo, em busca de boas ideias de planejamento urbano que tenham ajudado a melhorar esses locais. O objetivo é disseminar as boas práticas nas metrópoles brasileiras. “Quantas vezes você passou mais de uma hora preso no trânsito? Ou ficou até mais tarde no escritório para evitar o congestionamento de volta para casa? Ou ainda deixou de passear num sábado à tarde de sol para evitar o estresse de encontrar lugar para estacionar? (...) Acredite, os problemas das grandes metrópoles se repetem em diversas cidades do mundo. Mas como tornar uma cidade melhor para seus habitantes?”, dizia a apresentação do projeto no Catarse. A ideia de Natália é passar um mês morando em cada uma das cidades, que foram selecionadas porque realizaram projetos de planejamento urbano com o objetivo de melhorar a cidade para as pessoas (não para os carros, nem para as empresas imobiliárias). O critério de escolha das cidades que serão visitadas foi o trabalho de um arquiteto dinamarquês de quase 70 anos, que atua como planejador urbano há 50 e vive em Copenhagen, onde emplacou, nos anos 1960, o polêmico projeto de impedir que carros circulassem por uma das principais avenidas comerciais. Um terço do custo do projeto foi arrecadado por meio do Catarse, com contribuições de 285 pessoas, que somaram R$ 25.785,00. O restante, Natália vai buscar junto, por exemplo, a companhias aéreas. E quer economizar com estadias baratas nas cidades onde vai fazer o trabalho. Ela conta à revista ARede, a história do Cidades para Pessoas. ARede – Por que você decidiu realizar o Cidades para Pessoas? Natália Garcia – Eu ganhei um carro aos 18 anos. Aos 24, era a típica motorista estressada. Nessa época, comprei uma bicicleta dobrável para ten34

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tar diminuir meus deslocamentos diários feitos de carro. Daí minha relação com minha cidade – e, logo em seguida, com meu trabalho – mudou radicalmente. Fiquei muito menos protegida, no bom e no mau sentido. Vivi os problemas como ilhas de calor, poluição e trânsito de forma muito mais visceral, mas também conheci um monte de gente incrível pelas ruas. Isso me fez querer pesquisar e escrever sobre planejamento urbano. Depois de participar do projeto !sso não é Normal!, decidi que era hora de viajar o mundo em busca de boas ideias que ajudassem a melhorar a cidade para as pessoas. Qual pode ser o resultado mais bacana do projeto? Natália – Em primeiro lugar, aprofundar a discussão sobre como melhorar a cidade. Todo mundo com quem eu converso tem uma visão muito parcial da cidade. Quem anda de carro quer mais ruas. Quem anda de ônibus quer mais linhas. Quem anda de bicicleta quer ciclovias. Quem mora longe do trabalho quer morar perto. Mas a cidade é um organismo complexo de setores interligados. É impossível pensar em mobilidade urbana sem pensar em habitação, gestão dos rios, descarte de lixo, saúde etc. Eu adoraria contribuir para rechear de informações a discussão sobre soluções para cidades. Mas meu maior objetivo mesmo é trazer alguns dos profissionais que eu conhecer para serem consultores ou palestrantes em São Paulo e trazer algumas boas ideias que possam ser implantadas por aqui. O fato de as pessoas terem decidido contribuir com o projeto reflete uma preocupação maior com o tema? Natália – Acho muito! 285 pessoas tiraram dinheiro do próprio bolso para financiar o projeto de uma jornalista que quer encontrar soluções para as cidades. Isso é MUITO emblemático. Muita gente se toca por esse tema e quer fazer o que puder para ajudar! (P.C.) Notícias sobre o Cidade para Pessoas no Facebook ou no blog: http://cidadesparapessoas.wordpress.com


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Tecnologia para a eficiência

O mercado de produtos para deficientes cresce e estimula as empresas a desenvolver soluções para a inclusão digital Anamárcia Vainsencher No último censo demográfico publicado, o

de 2000, cerca de 25 milhões de brasileiros se declararam portadores de deficiência (15% da população total). Por áreas, aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 20 milhões estavam nas zonas urbanas, 5 milhões nas rurais. A menor proporção de portadores de deficiência (13%) era a da região Sudeste; a maior, a do Nordeste (17%). Por tipo de deficiência, a maior parte era portadora de problemas visuais; em segundo lugar, as que declaravam portadoras de deficiência motora. Em seguida, vinham as pessoas com deficiências auditiva, mental e física. Em 2000, havia 148 mil pessoas cegas no Brasil. Aproximadamente 2,4 milhões declararam ter grande dificuldade de enxergar. O levantamento apontou mais de 166 mil brasileiros com incapacidade de ouvir, e quase 900 mil com grande dificuldade permanente de audição. Em 2006, um estudo da Federação Brasileira de Bancos (“População com deficiência no Brasil. Fatos e percepções”) concluía que “investir em acessibilidade é dar oportunidade, é promover a inclusão social”. E que acomodar 36

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amplamente as diferenças antropométricas é permitir que pessoas de diversos padrões ou em diferentes situações possam interagir sem restrições com o ambiente. Motivo plausível para que um número cada vez maior de empresas se voltasse a atender o nicho de mercado representado pelos deficientes. Essa é a razão da existência da ReaTech – Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade, cuja 11ª edição se realizou em abril, na cidade de São Paulo. Dedicada, segundo os organizadores, “ao fortalecimento de um mercado que praticamente não existia há dez anos e que, em 2010, movimentou R$ 1,5 bilhão”. Nesta última edição, a ReaTech abrigou mais de duas centenas de expositores especializados em vários segmentos, entre os quais o financeiro e o automobilístico. A quase totalidade das montadoras apresentou modelos adaptados pela Cavenaghi, ao passo que os bancos atendiam clientes com folhetos em Braille. E, como não poderia deixar de ser, o segmento foi mais um “invadido” pelas Tecnologias da Informação


Fundada em 1996 por Claudio Sindicic e seu irmão surdo Renato Sindicic, a Koller desenvolve e comercializa produtos e serviços de comunicação e sinalização especial, como relógios, despertadores, sinalizadores e telefones para surdos (TTS – Terminais Telefônicos para Surdos, no Brasil, e TDD – Telephone Device For the Deaf), nos modelos público, residencial e corporativo. Em 1997, começou a fornecer esses telefones às operadoras de telefonia que, com a obrigação de cumprir a Lei de Acessibilidade das pessoas com necessidades especiais (Lei 10.098/00), passaram a instalar equipamentos em locais públicos como escolas, hospitais, rodoviárias. A Koller tem entre os parceiros o CPqD, e passou a ser empresa incubada no Centro de Inovação Tecnológica, da USP, em 2003. A Central de Atendimento ao Surdo (CAS) está implantada em grandes empresas como Ache, Gol, TAM, Porto Seguro, Sadia, Wyeth, e instituições financeiras como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Citicard, Itaú, Nossa Caixa, Real-Santander, entre outras. A Click Tecnologia Assistiva, de Porto Alegre, distribui produtos próprios e de grandes empresas estrangeiras, entre as quais a Attainment (voltados para crianças e adultos com necessidades especiais), IntelliTools (itens didáticos e jogos), Mayer-Johnson (software de Comunicação Aumentativa e Alternativa – CAA), Zygo (software de CAA), Widgit/Cnotinfor (software de CAA). Suas linhas incluem produtos de acessibilidade ao computador entre os quais

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e Comunicação (TICs). Caso das adaptações do assento e do encosto da “cadeira digitalizada”, produzida pela Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), destinada a acomodar grandes deformidades e moldada uma a uma. Ou da incorporação pura e simples de tecnologias digitais aos telefones e centrais de atendimento (call centers) para surdos da Koller, com fábrica na capital paulista. Com 15 anos de atividades, é a primeira empresa brasileira de tecnologia em comunicação para a comunidade surda e pessoas com deficiência auditiva a ter seus produtos homologados pela Anatel. Também é a única fabricante do gênero na América Latina.

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1. Pranchas de comunicação com Símbolos de Comunicação Pictórica

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vários modelos de teclados alternativos. Um é o TClick, formado por um conjunto de colmeia de acrílico e teclado padrão de computador que facilita a digitação por pessoas com dificuldades motoras. As teclas são padrão ABNT-2, e o teclado é compatível com Linux e Windows.

2. Pentop, caneta interativa, com sensor capaz de sonorizar impressos em papel.

A empresa também distribui mouses especiais da Madentec. Um deles, o TrackerPro, possibilita o controle do computador com o movimento da cabeça. Um pequeno ponto adesivo, aplicado na testa ou óculos do usuário, detecta os movimentos e os transforma em deslocamento do cursor na tela do computador. Destina-se a pessoas com dificuldades motoras que não conseguem controlar o mouse. Já o Pretorian, da Orbitrack, é um mouse sensível ao toque que dispensa movimentos de mãos e pulsos e para acioná-lo basta o toque de um dedo. O equipamento executa as funções de clique, duplo-clique e arrastar, e tem duas entradas para a conexão de acionadores externos, equivalentes às teclas direita e esquerda do mouse. Acionadores são equipamentos destinados à acessibilidade ao computador e a outras atividades. Do ponto de vista elétrico, um acionador é uma chave de contato momentâneo normalmente aberto, como um botão de campainha. Tem design apropriado para diferentes utilizações. Da Tyco EloTouch, a Click comercializa um monitor LCD 15 ou 17 polegadas com tela de toque integrada. Os software educacionais Mayer-Johnson são baseados em Símbolos de Comunicação Pictórica (Picture Communication Symbols’s – PCS) e utilizados em casa, na escola, em clínicas. Hoje, estão disponíveis cerca de 11 mil símboARede Maio 2011

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3. Telefone para surdos Koller 4. Mytobii, sistema de acesso ao computador pelo olhar. 5. Lupa eletrônica que amplia imagem de vídeo para portadores de baixa visão

los, em 44 idiomas. Os PCS foram criados no início dos anos 1980 pela fonoaudióloga estadunidense Roxanna Mayer Johnson e estão disponíveis nos programas Boardmaker e Escrevendo com Símbolos. O Boardmaker contém um banco de dados gráfico com mais de 4.500 símbolos em português do Brasil. O software permite confeccionar pranchas; localizar e aplicar símbolos e imagens com um clique do mouse; trabalhar as imagens em qualquer tamanho e espaçamento; imprimir ou salvar a prancha de comunicação para uso posterior; armazenar, nomear, organizar, redimensionar e aplicar imagens escaneadas. No Brasil, os PCS se popularizaram com a introdução dos recursos traduzidos. Em fevereiro de 2011, segundo a distribuidora, eram utilizados em 44 universidades, 584 instituições, 14.728 escolas públicas e por 402 terapeutas. O IntelliTools Classroom Suite compõe-se de três programas baseados nos princípios do desenho universal para a aprendizagem. Têm a finalidade de auxiliar os alunos em matemática, leitura e escrita. Suas ferramentas incorporam modelagem multimídia, animação e suporte auditivo. As telas do IntelliTools Classroom Suite constituem uma ferramenta pedagógica de largo uso para os professores. O conjunto tem o IntelliPics Studio, editor multimídia que permite a criação de múltiplas atividades que incluem desde livros de colorir, estórias ou jogos e apresentações com animação e show de slides. As figuras são elementos centrais no IntelliPics Studio: mais de 300, prontas para uso imediato. As figuras estão organizadas em 15 categorias, entre as quais alimentos, mobilidade, natureza, pessoas, animais.

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Mais um integrante do conjunto é o IntelliTalk, editor de texto integrado a um sintetizador de voz, que transforma qualquer texto do computador em mensagem falada. O software permite aos estudantes combinar gráficos, texto e fala para melhorar as habilidades de escrita e comunicação. A interface do programa é em inglês, porém pode ser usada facilmente, pois a maioria dos comandos tem ícones de acesso e a síntese de voz é em português (do Brasil). Quanto ao IntelliMathics, é dedicado ao ensino da matemática e possibilita criar atividades de acordo com o nível de exigência de cada aluno ou da turma toda. As operações matemáticas viram divertidas brincadeiras com objetos, animais e outros elementos que facilitam o aprendizado dos conceitos matemáticos básicos. Mais: o professor tem à disposição objetos do tipo blocos, base-dez, barras de fração e tangrans. Traz vários exemplos de atividades, envolvendo as quatro operações, classificações e conjuntos, probabilidades, geometria e outros conceitos matemáticos. Os produtos Attainment e Zygo são vocalizadores, recurso eletrônico de gravação e reprodução que ajuda a comunicação das pessoas. O usuário expressa pensamentos, sentimentos e desejos pressionando uma mensagem adequada pré-gravada. As mensagens são acessadas por teclas sobre as quais são colocadas imagens (fotos, símbolos, figuras) ou palavras, que correspondem ao conteúdo sonoro gravado. A maioria dos vocalizadores grava as mensagens digitalmente e a capacidade de gravação varia de um aparelho a outro. Em qualquer vocalizador o conteúdo gravado em cada célula (tecla) é reconhecido por meio de figuras ou textos aplicados em pranchas de comunicação que ficam sobre as teclas. Quando a tecla de cada figura ou texto é pressionada, sua mensagem pré-gravada é imediatamente reproduzida e com volume ajustável.


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cultura

História que o povo conta Longa-metragem produzido pelo Ponto de Cultura Acartes retrata a questão do latifúndio e fortalece A ARTE popular Bárbara Ablas Uma nova indústria audiovisual emerge das periferias do Brasil. É o cinema produzido e protagonizado pelo povo, que mostra um país bem diferente do que a grande mídia costuma apresentar. O longa-metragem Poço da Pedra, uma realização do Ponto de Cultura Academia de Ciências e Artes (Acartes), que fica no bairro Pirambu, região metropolitana de Fortaleza (CE), é um exemplo. Lançado em abril, o filme foi gravado em vídeo digital, tem uma hora e meia de duração e custou R$ 400 mil. A produção utilizou recursos do Programa Cultura Viva, da Lei Rouanet e teve patrocínio da empresa M. Dias Branco. O roteiro de Poço da Pedra é uma adaptação do romance, com o mesmo título, ainda não publicado, do diretor da Acartes e do filme, Gerardo Dasmaceno, em parceria com o dramaturgo Raimundo Cavalcante. Em 2002, eles também adaptaram a obra para o teatro.

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Apesar de ser uma ficção, a história não está distante da realidade. O longa trata de temas recorrentes em alguns estados brasileiros, como o latifúndio e a disputa de interesses envolvendo terras pertencentes a minorias – em muitas histórias reais, motivos de crimes cujos responsáveis ainda não foram punidos. No filme, uma comunidade que vive no distrito de Poço da Pedra, município de Itaimbé da Serra, ambos fictícios, é alvo da ambição de políticos e empresários que pretendem transformar o local em um complexo turístico. Com a morte do líder da comunidade, Zé Capote, muitas verdades vêm à tona. De acordo com Damasceno, a proposta é fazer as pessoas refletirem sobre a política que elas querem para o Brasil: “A obra é uma releitura de acontecimentos políticos e econômicos do país, como algumas relações entre parlamentares e empresas, oligarquias


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que eliminam os opositores e o crime de pistolagem, que ainda é muito comum”, completa. A inspiração para o título veio das lembranças de./ infância. “Costumava passar as férias no distrito de Poço da Pedra, que hoje não existe mais, virou um açude”, relembra. O elenco também revela um Brasil que pouco aparece no horário nobre da TV ou nas grandes salas de cinema. Poço da Pedra reuniu mais de cem profissionais. Personagens, figurantes e trabalhadores da área técnica foram selecionados entre moradores do município de Itaitinga e de Pirambu, onde está a favela de maior concentração urbana do Brasil, com cerca de 300 mil habitantes. Mais de 80% dos integrantes do projeto foram capacitados pela Acartes em oficinas de edição, interpretação e operação de câmera. Também participaram do projeto representantes de Pontos de Cultura de outras cidades, como Cascavel, Fortaleza, Guaramiranga, Missão Velha e Tauá. Uma das exceções é o ator pernambucano Aramis Trindade, profissional da Rede Globo, que interpreta Zé Capote. Alguns atores já tinham experiência com teatro, como Lucineide da Silva, 39 anos, que faz parte do Grupo de Teatro Acauã, de Itaitinga. Ela faz o papel de Mundica, uma parteira: “Foi uma grande honra participar do filme”.

As gravações aconteceram no ano passado, em Itaitinga, a cerca de 30 quilômetros do Pirambu, onde a Acartes construiu uma cidade cenográfica permanente, com 14 ambientes. Essa foi a saída encontrada para driblar os custos de locações, que geralmente são muito altos. “As construções foram feitas em alvenaria. Dessa forma, poderemos mudar a cor, as portas, as

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A Acartes construiu uma cidade cenográfica com 14 ambientes

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cultura

janelas e outros detalhes de cenário, para aproveitar melhor a estrutura”, conta Damasceno. A ideia é produzir outros trabalhos na cidade e utilizar o espaço para atividades de formação e para intercâmbio com outros projetos de cinema. Planejado já com esse propósito de se constituir em uma espécie de centro cultural, o local abriga um alojamento com capacidade para 60 pessoas.

Bastidores sustentáveis

projeto passou de 40 para 150, depois do edital. Nos últimos cinco anos, a Acartes realizou uma série de curtas-metragem como O Filme, que fala das dificuldades de um cineasta independente e o Bota camisinha, que incentiva jovens a utilizar preservativos durante a relação sexual. Inicialmente, as gravações eram em VHS e às vezes com câmeras emprestadas. Com os recursos adquiridos como Ponto de Cultura, foram compradas câmeras digitais e ilha de edição.

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Poço da Pedra estreou dia 14 de abril, no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, em sessão especial para a imprensa e convidados. Durante a cerimônia, a Acartes homenageou Célio Turino, um dos idealizadores dos Pontos de Cultura e ex-secretário da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura (MinC). Na opinião de Damasceno, o

O próximo passo é definir o esquema de distribuição. Uma das propostas é levar o longa-metragem aos Pontos de Cultura de todo o Brasil. “Além disso, fizemos uma proposta à CUT Ceará para que o filme seja exibido por meios dos sindicatos filiados, a preços populares, repartindo-se o lucro. E também procuramos o Conselho Nacional de Cineclubes (CNC)”, afirma Damasceno. A Acartes está aberta a parcerias para que Poço da Pedra ultrapasse as fronteiras do Ceará.

O processo de execução

Grua Tipo de guindaste que sustenta e movimenta a câmera Travelling Carrinho sobre trilhos, para movimentar a câmera.

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programa Cultura Viva foi extremamente importante para os grupos artísticos atuantes no país. “Não tínhamos o reconhecimento do estado brasileiro. Realizar esse filme nos colocou em outro patamar”, comemora Damasceno.

do filme daria outra história. Afinal, os desafios de fazer cinema independente no Brasil, sobretudo no Nordeste, e com poucos recursos, são muitos. Poço da Pedra é o resultado de um trabalho que tomou fôlego em 2005, quando a Acartes ganhou o edital do MinC para virar Ponto de Cultura e começou a ministrar oficinas permanentes de atores, cinegrafistas, som e edição. A Acartes é uma organização não-governamental que desde 2001 desenvolve um trabalho na área de linguagem audiovisual direcionado a jovens e adolescentes no Pirambu. “Pensamos a arte como um projeto de prevenção à violência”, ressalta Damasceno. O número de jovens atendidos no

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Durante esse período de experimentação, a Acartes montou um elenco e uma equipe técnica profissionalizada. Anderson Ferreira, 25 anos, foi o responsável pela edição de Poço da Pedra, junto com o diretor. Hoje, ele vive de seus trabalhos com vídeo e está empenhado em montar sua própria produtora. Mas começou fazendo filmagens de casamento e festas. Morador do Pirambu, Ferreira ingressou na Acartes em 2002. Nessa época, ele já estava envolvido com arte por meio de outros projetos. “Ter sido selecionado pela Acartes para ser um dos editores do filme me valorizou muito como profissional”, reconhece. Outro talento revelado pela ONG é Gleison Ramos, 24 anos, que ao iniciar os cursos de in-


terpretação e produção audiovisual na Acartes fazia teatro no projeto 4 Varas, no Pirambu. Ele conta que nem todos os jovens ficam na Acartes porque não conseguem conciliar o emprego com o curso: “Alguns são cobrados pela família para que ajudem nos gastos da casa”. Ramos também passou por isso, mas arrumou um emprego como auxiliar administrativo que garante seu sustento e oferece flexibilidade para que ele continue a atividade artística. O jovem pretende seguir em frente na carreira de ator e quer conquistar o sucesso, mas sem esquecer as raízes: “Precisamos manter o foco na vida profissional, valorizar nosso bairro e tentar levar para outros, que não tiveram a mesma oportunidade, tudo que aprendemos”. Além de atuar no filme, Ramos dá aulas de interpretação para outros jovens do projeto.

artesanal, que contém ferro de panela derretida moldado na base. Alumínio, madeira e outros materiais que podem ser aproveitados também são utilizados na confecção de objetos como travelling, banquetas praticáveis e equipamentos de luz. Existem planos para produzir esses materiais em quantidade e oferecer, em forma de kit, a Pontos de Cultura que trabalham com produções audiovisuais.

Fábrica de sonhos A equipe da Acartes vai além do plano da arte. O coletivo também tem visão de sustentabilidade e ganhou experiência na fabricação da sua própria “maquinaria” de cinema, como são chamados os equipamentos técnicos do grupo, feitos com material alternativo, para reduzir custos e tornar o sonho de fazer cinema possível. Uma das invenções de maior repercussão é a grua

Essa indústria alternativa funciona graças ao apoio de outro grupo de trabalho, composto por carpinteiros, eletricistas, pedreiros, soldadores e até um mecânico de automóvel. Alguns estavam desempregados quando foram chamados pela Acartes.

A grua é um dos equipamentos que mais chamam a atenção, e já foi comercializada em duas edições da Teia, evento nacional dos Pontos de Cultura. Em 2010, uma grua desse tipo foi deixada em Cabo Verde, na África, onde a Acartes realizou oficinas de audiovisual em uma parceria com o Centro de Juventude de São Vicente e a Universidade Lusófona de Cabo Verde.

Trailer oficial do filme: www.youtube.com/watch?v=r8kX9DteQts http://academiadecinema.blogspot.com

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hipernovas

> As notícias da rede

Censura à Apesar de apenas 10% dos web cresce habitantes da Índia terem na Índia... acesso à internet, a presen-

... e bate recorde Um relatório do Cona China, em mitê para a ProteCuba e no Irã. ção de Jornalistas,

ça da rede está crescendo, no país. E, na esteira, cresce também a repressão à liberdade de expressão. Uma nova regulamentação da internet, em vigor desde abril, permite que autoridades e cidadãos exijam a retirada do ar de conteúdos que considerem ofensivos. De acordo com a lei, pode ser removido tudo que “ameace a unidade, integridade, defesa, segurança ou soberania da Índia, as relações amistosas com países estrangeiros ou a ordem pública”. Por trás dessas definições genéricas, livros e filmes são proibidos por conteúdos políticos, religiosos e até de orientação sexual. Há pouco tempo, foi censurada uma biografia do líder do movimento pela independência da Índia, Mohandas Gandhi, sob alegação de que deprecia a imagem de Gandhi ao falar sobre sua relação com outro homem.

publicado no início do mês apontou que China, Cuba e Irã estão entre os dez países que mais censuram a internet. Também estão na lista: Egito (apesar da mudança no governo), Síria e Tunísia. O autor do documento, Danny O’Brien, denuncia o uso de técnicas para silenciar o trabalho dos jornalistas que “vão além da censura na rede”. Exemplos: os bloqueios de acesso a portais de informação (mais praticados no Irã); os ataques com vírus (China); as detenções de blogueiros (Síria); as perseguições a jornalistas (Rússia), a censura de e-mails e redes sociais (Tunísia), a interrupção do serviço (Egito), entre outros.

ATN vai assumir O programa Telecentros de Informação e Negócios (TIN) está em debate os telecentros durante o planejamento estratégico da Secretaria de Inovação do Ministério de negócios do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). O cenário mais provável é que o ministério deixe a parceria com a Associação Telecentro de Informação e Negócios (ATN), organização da sociedade civil responsável pela implantação do material fornecido e pelo gerenciamento dos espaços. Marcos Vinícius, diretor do Departamento de Fomento à Inovação, explicou que a intenção do governo no início da parceria, em 2006, era ajudar a ATN a fomentar e a estabilizar os telecentros. Agora, chegou-se a um consenso de que o projeto pode prosseguir sem o acompanhamento do ministério. A decisão será divulgada oficialmente em junho. O projeto TIN foi criado para apoio à implantação de telecentros e salas de informática em associações empresariais, prefeituras, organização sem fins lucrativos e instituições do terceiro setor, entre outras. A rede tem cerca de 3 mil instituições apoiadas, nos 27 estados brasileiros.

Proteção Enquanto cobrava da Sony, no início de maio, explicações soa dados tem bre vazamento de dados pessoais de usuários na rede de jogos urgência online da companhia, o Ministério da Justiça (MJ) iniciava uma Foto Divulgação

lição de casa urgente: consolidar as contribuições da consulta pública sobre o projeto de lei de Proteção da Dados Pessoais, que se encerrou em 30 de abril. Foram cerca de 800 propostas por internet, além de várias por outros meios. Danilo Doneda, responsável pelo texto no MJ, informou que será feita a triagem das questões levantadas e todos os órgãos do governo envolvidos com a regulamentação serão chamados para debater os pontos a serem alterados. Depois disso, o PL será encaminhado ao Congresso, pela presidência da República. Não há prazos definidos. Mas Doneda garante que o tema é prioridade no governo.

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SXC.hu

Fotos íntimas na Uma moda que está bombando internet? Se liga no exterior chega ao Brasil. Com nessa roubada! graves consequências. Batizado de sexting (em inglês, sex + texting, ou, sexo + envio de texto), o fenômeno começou com o compartilhamento, entre adolescentes, de fotos e textos de conteúdo sexual, via mensagem de celular. Agora a “moda” chegou à internet. Em alguns casos, a publicação não tem o consentimento da vítima. Recentemente, no Rio Grande do Sul, uma adolescente concordou em ser filmada pelo namorado e depois de terminado o namoro as imagens foram distribuídas pela rede. Uma pesquisa feita em 2009 pela Safernet, organização não-governamental de defesa dos direitos humanos na internet, apontou que 12% dos jovens entrevistados admitiram ter publicado fotos íntimas na internet. “O jovem acha legalzinho e não pensa na exposição. E o pior é que depois essas imagens costumam ser usadas por redes de pedofilia”, alerta Rodrigo Nejm, diretor de prevenção da Safernet.

Cresce número Em março deste ano, o Brasil contabilizou 43,2 milhões de usuários ativos, de de brasileiros acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística na internet (Ibope). Foi um aumento de 13,9% em relação ao mesmo período de 2010. O instituto atribuiu a maior parte do crescimento ao aumento de computadores com internet nas residências. O total de usuários ativos de internet em domicílio cresceu 20,7%, passando para 35,1 milhões. O Ibope considerou como usuário ativo pessoas com dois anos ou mais de idade que utilizaram pelo menos uma vez, em março, computador com internet. Os dados do instituto apontam ainda que a evolução do uso da internet em domicílios ocorre nas conexões de maior capacidade, enquanto caiu a participação das conexões de até 512 kbps. O número de pessoas que usaram, em março, uma conexão residencial de mais de 8 Mbps, segundo o critério de aferição de banda larga adotado na pesquisa, foi de 1,9 milhão.

Negroponte batalha Um entuagora por um tablet siasta das educacional e barato t e c n o l o gias educacionais a baixo custo, Nicholas Negroponte, do Massachussets Institute of Technology (MIT), está propondo, agora, o desenvolvimento de um tablet que custe 75 dólares. O pesquisador foi o idealizador do projeto Um Computador por Criança (OLPC, na sigla em inglês), implantado em alguns países, o Brasil inclusive, cuja meta é a difusão massiva de laptops para estudantes. O tablet educacional, de acordo com as especificações técnicas projetadas, deverá ter carcaça de plástico e tela com iluminação própria, para uso em ambientes escuros, e tinta eletrônica similar à dos livros eletrônicos, para uso externo. Negroponte está atrás de sócios, pois, ao contrário do projeto OLPC, o MIT não tem interesse em produzir os equipamentos.

Bolsistas do Telecentros.BR a todo vapor No início de maio, aproximadamente 470 monitores e monitoras bolsistas do Programa Telecentros.BR começam a segunda fase da formação, que terá como foco a produção de projetos comunitários. A Rede Nacional de Formação para Inclusão Digital inovou a navegação do curso, oferecendo conteúdos de comunicação comunitária, comunidade, cultura digital, inclusão digital, redes e telecentros, todos interligados a uma sala central. Depois de passar pelas atividades Ambientação e Voo Rasante, os monitores vão se dedicar a criar projetos que beneficiem suas comunidades. Em todo o país, mais de 900 jovens estão matriculados no Moodle, a plataforma de ensino à distância utilizada pela Rede.

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raitéqui

A tecnologia ao seu alcance

Os hackers e a biologia de garagem a ciência amadora e as comunidades hackers desenvolvem tecnologia recombinada, de baixa complexidade e de ponta. Sergio Amadeu da Silveira Muitas pessoas acreditam que os espaços

hackers se limitam à chamada área de tecnologia da informação. Mas a prestigiada revista Nature Online, número 467, trouxe o instigante artigo “Garage biotech: Life hackers” (Biotecnologia de garagem: vida hacker), tratando da biotecnologia de garagem, de como amadores e aficionados por biologia estão descobrindo e encontrando soluções científicas fora das paredes dos laboratórios das megacorporações e distante dos escritórios de patentes. A Nature esclarece que, nos últimos anos, apaixonados por biologia molecular estão compartilhando experiências realizadas em laboratórios rudimentares, em cozinhas e garagens. Em Cambridge, Massachusetts (EUA), esses encontros têm sido regulares. Mas já se espalham pelos quatro cantos do país. 46

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No editorial, a revista considera que os biohackers são manifestações da “ciência cidadã”, em que as pessoas teriam um papel ativo em testes e experimentos científicos. A ciência cidadã é considerada fundamental para estimular o crescimento de toda ciência, além de introduzir novas ideias a partir da diversidade de visões que articula. Essa mobilização tecno-social também tem sido divulgada sob a sigla DIYbio (Do-it-yourself biotechnology). Quase todos os biohackers são amadores com grande conhecimento em diversas áreas. Projetam seus próprios equipamentos, que chegam a fazer frente aos laboratórios mais avançados. No entanto, os entraves financeiros e políticos existem, principalmente em um país onde o FBI tem peritos à procura de armas de destruição em massa e caça a bioterroristas.


Ilustração Ohi

No site brasileiro da Synbiobrasil (http://synbiobrasil.org/category/diybio), uma frase representa bem o que está ocorrendo: “Neste momento, em algum lugar dos Estados Unidos, da Inglaterra ou até da Índia, algum biólogo sintético amador está realizando um experimento na sua cozinha ou garagem”. Os biohackers estão criando, em suas bancadas, armários e estantes, um reforço ao conhecimento e até uma alternativa aos estudos elaborados pelos cientistas profissionais. Como um biohacker deve descartar uma bactéria geneticamente modificada? Como evitar a exposição aos produtos químicos usados para isolar e manipular o DNA? Essas perguntas começam a chamar a atenção dos comitês de biossegurança e podem gerar uma reação retrógrada à biotecnologia de garagem. Sem dúvida, é preciso que a ciência hacker seja reconhecida e que orientações específicas sejam pensadas para os laboratórios dos cientistas não profissionais. Por isso, é necessário pensar sobre a inclusão de pelo menos um hacker nessas comissões de regulamentação e de biossegurança. O mais importante seria reconhecer e incentivar essas novas manifestações da ciência. Desde a emergência do movimento de softwa-

re livre, em meados dos anos 1980, que se disseminou um processo coletivo e inteligente de desenvolvimento de tecnologia avançada que não seguia os ditames das instituições, nem os interesses das firmas e nem mesmo os sinais do mercado. Esses movimentos tecno-científicos se baseiam em práticas colaborativas e no livre fluxo do conhecimento. Está na hora das agências de fomento no Brasil reconhecerem a ciência amadora e as comunidades hackers que desenvolvem tecnologia recombinada, de baixa complexidade e também de ponta. Seria muito importante que surgisse no campo científico e tecnológico uma ação semelhante a que o ministro Gilberto Gil realizou com o lançamento dos Pontos de Cultura. Editais que apoiem espaços e laboratórios de garagem, para desenvolver nosso espírito criativo, e que podem inclusive melhorar a situação de nosso ensino formal de ciências

Sergio Amadeu da Silveira é sociólogo e um pioneiro na defesa e divulgação do software livre e da inclusão digital no Brasil. Foi presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação. ARede Abril 2011

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A tecnologia ao seu alcance

Utilizando o Google Maps para visualização da cidade de Porto Alegre, o estudante Bruno Jurkovski, 20 anos, criou o site colaborativo Poabus, que fornece um aplicativo de busca para itinerários de ônibus. O usuário pode pesquisar linhas e pontos de parada desejados, colocando seu local de origem e de destino. O programa mostra a distância até o ponto. Para pesquisar pelas vias, é só clicar no mapa e fazer a busca. Mas também é possível incrementar o conteúdo do site, dando sua contribuição e adicionando informações como novas paradas de ônibus e linhas. O procedimento é simples: no mapa, basta clicar em cima do local escolhido com o botão esquerdo e inserir o nome, e o sentido de direção. A ideia foi tão positiva que o site chegou a sair do ar pela quantidade de acessos, logo na primeira semana de atividade. www.poabus.com.br

Ubuntu com touchpad?

Vinis na net

Não são só o Mac e o Windows que podem se gabar de ter atalhos touchpad. O Ubuntu também ganhou essa facilidade, com o Touchegg – ferramenta que faz reconhecimento de gestos multitoque. O aplicativo faz o zoom com um gesto semelhante ao usado no iPhone (chamado pinça), além de navegação por páginas da web usando dois dedos. O aplicativo também permite maximizar ou minimizar janelas, redimensionar janelas, mostrar o desktop, emular todas as funções do mouse. Para alguns modelos de touchpad (como o Magic Trackpad, da Apple), é preciso configurar arquivos de texto, seguindo as instruções do site oficial. http://code.google.com/p/touchegg

Uma loja online e coletiva de vinis, para que colecionadores e vendedores anunciem seus álbuns, aproximando compradores dos canais de vendas. Essa é a proposta da Loja de Discos, site criado por três brasileiros, que permite pesquisas por nome de álbuns, artistas e músicas. São aceitos todos os tipos de vinis, novos ou usados. O cadastro é gratuito, para pessoas físicas e jurídicas. Apesar de servir de intermediária na comunicação entre vendedor e interessado, a loja não é responsável pela forma de pagamento e pelo prazo de entrega. Para a cidade de São Paulo, o site oferece o visualizador Google Maps de todos os pontos de vendas. O objetivo desse aplicativo é estimular as pessoas a frequentar as lojas físicas. Está em andamento a extensão desse aplicativo para outras cidades do país. www.lojadediscos.com.br

Automatização de bibliotecas, livre para baixar. Está liberado, no Portal do Software público Brasileiro, o sistema Gnuteca, que automatiza a administração de bibliotecas, independente do tamanho do acervo e da quantidade de usuários. O programa foi criado com base em testes de uma biblioteca real, da Universidade do Vale do Taquari do Ensino e Desenvolvimento Social (Univates), onde está em operação desde fevereiro de 2002. O programa reconhece padrões conhecidos e usados por muitas bibliotecas, como o ISIS (Unesco) e o MARC21 (Loc – Library of Congress). Não há limite de estações de atendimento, ilhas para consulta ou acesso pela internet porque o Gnuteca é um software livre que utiliza como base apenas outros software livres. Para baixar, é preciso se cadastrar. www.softwarepublico.gov.br/news-item178 48

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Ilustrações Ohi

Itinerários de ônibus colaborativos


Resgate de línguas em extinção O Indigenous Tweets reúne falantes de línguas ameaçadas de extinção. A ferramenta, criada pelo estadunidense Kevin Scannel, diretor de Ciência da Computação da Universidade Saint Louis, nos Estados Unidos, ajuda a construir comunidades de línguas pelo microblog. O tuíteiro que desejar encontrar usuários da plataforma em seu idioma encontra uma tabela, na home do Indigenous, com as línguas adicionadas até o momento, informando a quantidade de pessoas e tuítes de cada língua. Após localizar o idioma pretendido, um clique na linha da tabela direcionará para um menu de usuários que usam a linguagem. O Indigenous Tweet é colaborativo. Caso não encontre o seu idioma, o usuário pode enviar, em inglês e na língua de origem, o nome de seu idioma, junto com uma lista de usuários, que serão adicionados. http://indigenoustweets.com

Skype na sala de aula Depois de facilitar o trabalho de palestrantes e conectar executivos, amigos e familiares espalhados pelo mundo, com vídeochamadas, a Skype resolveu embarcar no universo escolar, com o lançamento da plataforma Skype na Sala de Aula. Nesse espaço colaborativo, professores podem elaborar projetos para que os estudantes façam atividades em conjunto com alunos das mais diversas localidades, tirar dúvidas com um colega. O site também sugere atividades, como desafiar os alunos a descobrir o local da sala de aula com que estão interagindo, ou colocá-los em contato com uma região ambientada em um livro. Para usar o Skype na sala de aula, o professor deve se logar na página, usando os dados de sua conta Skype, criar um perfil que inclua seus interesses, localização e a faixa etária de suas turmas. O programa já recebeu mais de 11 mil cadastros de professores de 99 países. http://education.skype.com

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opinião

Hora de democratizar informação e poder PAULO TEIXEIRA

mais de 20 anos contra a ditadura. Portanto, é um legado também do PT, muito mais que de muitos jornais que apoiaram o golpe de 1964.

Neste início de século 21, comunicação e

cultura são parte importante da vida econômica e política. Estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima em 2,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país as atividades econômicas na área da comunicação e cultura. Isso equivaleria, nos valores de 2010, a cerca de R$ 88 bilhões.

Na área das novas mídias, o Ministério da Justiça deve enviar ainda este ano, também, o projeto de um Marco Civil da Internet, que esteve em consulta pública durante 2010. O objetivo é ter um conjunto de leis que garantam a democratização do acesso à informação na internet, impedindo a formação de oligopólios também neste novo campo da comunicação. Uma regulação debatida com a sociedade, como está sendo feito com o Marco Civil, será um antídoto às tentativas de segmentos conservadores de controlar a internet de forma quase policialesca.

Em nossa vida política, estamos acostumados a cada vez mais ver ações de governo ou processos eleitorais pautados pela mídia – tanto veículos tradicionais, como jornais e TV, quanto as novas mídias, com a blogosfera e as redes sociais. Portanto, se queremos construir um Brasil mais democrático do ponto de vista político, precisamos trabalhar por um país com comunicação e cultura mais democratizadas. Para dar sequência ao processo de mudança que se iniciou com o governo Lula, devemos dar as bases legais para que o governo de Dilma Rousseff continue avançando.

Não menos importante, o Ministério da Cultura assumiu compromisso de enviar, este semestre, uma proposta de revisão da Lei de Direito Autoral. O governo Dilma valorizou o peso econômico da cultura ao criar a Secretaria de Economia Criativa. Agora é hora de abrir no Congresso Nacional a discussão sobre o direito autoral, que é a base da economia da cultura. É esta lei que regula tanto o pagamento aos criadores, como o acesso da população ao que é um de seus direitos, a cultura. Como líder do PT, vou trabalhar para que tenhamos uma discussão ampla e aberta no Congresso sobre esses temas, com participação de todas as áreas envolvidas. É a única forma de garantir que nós, parlamentares, estejamos à altura dos desafios colocados para construir um novo Brasil.

Para realizar esse debate, não podemos nos deixar paralisar pelos argumentos de ‘censura’, de parte da velha mídia. “Censura” é o que tentam fazer ao impedir qualquer discussão sobre comunicação no Brasil. A liberdade de expressão e de imprensa é uma conquista da luta de 50

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Este ano, o Congresso Nacional tem uma pauta de fôlego nesse desafio. Além da reforma política, que estamos discutindo para garantir a democratização do poder, devemos receber do governo federal uma proposta de modernização da Lei Geral de Comunicação. Essa atualização é necessária para garantir a democratização dos meios de comunicação no Brasil. Só para pegar um exemplo, a Constituição brasileira é clara ao dizer que não pode haver oligopólios, mas há 23 anos isso não é regulamentado. Precisamos incentivar, também, que os meios de comunicação divulguem conteúdo regional, plural, sem preconceito, preservando os direitos da população.

Paulo Teixeira é deputado federal e líder do PT na Câmara dos Deputados


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Revista de Inclusão Social através das TIC's

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