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Chamuças de Bacalhau A última noite de um tuberculoso. Cuecas e carregadores de telemóvel. A fuga do hotel. Um driver chamado Lucky. Royal Gaitor é grátis. Consulta de Guru caloteiro. A amante do professor francês.

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IX Just call me Lucky Quem já assistiu à última noite de um tuberculoso que levante o braço. Rita baixa o braço que nós não contamos! Dormi ferrada até às cinco. E acordei alarmada com uma tosse que parecia vir da nossa casa de banho. Era portanto do quarto ao lado. E havia alguém a cantar o hino com os brônquios! Nem a Madre Teresa deve ter assistido a tal espectáculo. Era 10 tossidelas para cada escarro profundo. E isto aconteceu até nos decidirmos levantar, lá para as 8 da manhã. Não vale muito a pena alongar-me neste sucedido. Mas é nestas alturas que a pessoa olha para dentro e pergunta “como é que eu cheguei até aqui?” e depois ignora porque não há outro remédio, sem rebuçados para a tosse. Nessa manhã decidi lavar roupa, teve que ser às escuras porque não havia luz de manhã. E teve que ser com champô porque também não havia Skip de manhã. E como não havia estendal, nem electricidade, usámos os fios dos carregadores de telemóvel. Caro viajante que me lês, nunca te esqueças de fio de nylon para estas alturas! Com cuecas e meias por tudo o que é sítio decidimos elaborar um plano de fuga. Íamos ao Pearl implorar por um quarto, uma dispensa, qualquer buraco! Depois de alguma conversa, tivemos uma sorte dos diabos, arranjaramnos um quartinho amoroso por 350Rs. Até parecia um sonho, a casa de banho era partilhada mas isso já nem eu me importava. Foi com desprezo que escrevi: NO COMMENTS, na entrada dos Comentários do check out do Hotel Kalin. Que inferninho ein, Norman Bates? Como estávamos em grande outra vez decidimos relaxar e gozar o dia. A Rita foi a organizadora perfeita. Munida com o Lonely Planet, decidiu que o melhor era irmos ver o City Palace descontraidamente e depois logo se via. Ao fim de meia hora a regatear com um rapaz lá arranjamos um motorista para o

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dia. Ia levar-nos a onde quiséssemos por apenas 100 Rs, “uau, que sorte a nossa”. Isto assim prometia… -Ei rapaz como é que te chamas - dizia eu, enquanto me tentava enfiar no riquexó. -Just call me Lucky – respondeu ele de olhinho brilhante. -Ouve lá, ó Lucky, nada de esquemas connosco, pá. -Noooooo problem madams. -Cabrãozinho. Bem, lá vamos nós outra vez! Foi bom estarmos sozinhas, à aventura. É óbvio que só respirávamos quando chegávamos aos sítios. Mas ainda assim a sensação era audaz! O City Palace fica dentro da cidade e é um palácio encantador que oferece um museu de armas, com umas super adagas duplas à Tartarugas Ninja; um museu de roupas reais e outro de arte (pinturas, iluminuras). Passamos cerca de duas horas a deambular ao sol e comemos pão-de-leite com panner (queijo fresco) e batatas fritas como se fosse um banquete! Como a visita acabou cedo pedimos ao Lucky para nos levar a outro sítio qualquer, dos postais que ele tinha na mão, escolhemos o Royal Gaitor porque nos pareceu mais apelativo. O caminho até lá foi sinistro mas valeu a pena. O Royal Gaitor é o mausoléu onde estão os cenotáfios de alguns marajás de Jaipur. É um maravilhoso complexo de mármore trabalhado que fica entre um terreno abandonado e um bairro pobre a valer. Éramos as únicas pessoas à vista, tirando umas crianças que lançavam papagaios, e andamos feitas Indiana Jones a explorar. O Lucky fazia todo o tipo de jogos iconográficos com as esculturas “advinha lá se isto é um homem ou uma mulher”, “não, é mulher, não vês o peito e tudo?” (sorrizinho parvo) e nós errávamos tudo mas fazíamos uma conversa bestial. Disse-nos que aquilo era cenário para muitos filmes indianos e nós acreditávamos, porque era bonito como tudo. À volta ainda parámos numa fábrica de tecidos (SHIT), mas nós já estávamos preparadas para tal ciganada e depois de muito recusar, ainda saímos de lá com mais uns quantos lenços! Às tantas o Lucky diz que tem um primo guru, “já vos disse que tenho um primo guru? E que nos faz uma consulta completamente gratuita.” Depois de vinte minutos de “não vamos comprar

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nada” ele lá disse que era completamente grátis e eu então eu olhei para a Rita e disse “vamos lá ver até onde é que isto vai.”…E isto foi até uma ourivesaria, entrámos e sentamo-nos à espera do grande Guru que naquele momento se encontrava a dar consulta a um americano amigo de outro americano que esperava por sua vez. Este rapaz que parecia um daqueles coreanos flipados, estava excitadíssimo com aquele misticismo todo, abria muito as orbitas e dizia “awesome, i’m going to know my future dude, so cool”. E nós fazíamos um sorriso amarelo e pensávamos que não havia grande futuro para um tipo daqueles, mas que ter ilusões fazia parte da história. Já lá estávamos há meia hora quando entra um casal de rastas com um ar absolutamente atordoado. Eram suíços, tinham sido trazidos a reboque e não estavam a perceber nada daquilo. Nós explicamos logo que devia ser uma patranha das antigas, porque gurus mais ourivesarias era igual a dinheiro. Até porque na Índia tudo é igual a dinheiro. Depois de uma hora lá entramos as duas para um pequeno gabinete forrado a jóias. À nossa frente estava um homenzinho dentro de um fato apertado que puxou logo dos certificados emoldurados para nos justificar um dom divino herdado da avó vesga que lhe permitia ver a aura! E dizia “A Aura” como se dissesse outra coisa qualquer, completamente inexpressivo, nem sequer abria muito os olhitos de sapo, nem sequer abanava as mãos em círculos místicos. Começou então com um grande discurso científico para nos mostrar que só ele podia resolver os difíceis paradoxos da nossa mundana existência. -Perguntem-me qualquer coisa e eu responderei! Muahahahaha. Ao qual a Rita logo se adianta com toda a gentileza de entendimento do “outro religioso”. -Eu gostava que o senhor Guru me explicasse mais sobre a vossa religião, sabe? Acho muito interessante e gostava de perceber mais sobre ela. O Guru decepcionado por tanta filantropia e tão pouco egoísmo do género “vou ser milionária?” respondeu secamente: -Ou casas com um hindu e entras neste estilo de vida ou então não vale a pena pores-te a tentar perceber uma religião como a nossa. E a Rita disse: -Ah, está bem, obrigadinha na mesma. E eu disse:

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-Olhe que nós não vamos comprar nada. -Mas por quem me tomam, eu tenho um dom, eu nada cobro. Eu posso ver as auras. E vejo que você (eu) está bloqueada e você (Rita) esta stressada. Mas nada temam porque eu faço aqui uns cálculos e posso-vos fazer uma cura com as pedras. -Caríssimo Guru, nem sei como é que escapou ao seu dom magnífico que nós vemos que você (guru) é um caloteiro, e nós não temos aura de quem paga a caloteiros. Portanto não perca mais tempo connosco e boa sorte! Isto era o que queríamos ter dito, mas despedimo-nos com um obrigadinho mas preferimos curar-nos a nós próprias “Jesus Cristo é o Senhor.” Já cá fora, o Lucky pergunta, todo excitado: -Então, Madams, já sabem o futuro? -Sabemos, sabemos. O futuro é já para o hotel, pah, trafulhas estes gajos! Soubesse eu o futuro, sabia que não ia pregar olho naquela noite. E a culpa não ia ser do quarto. Mas na Índia o caminho muda a cada minuto por isso a pessoa aprende a não fazer planos a longo prazo, nem a pagar adiantado. Aproveitamos o fim de tarde para fazermos uma visitinha à Internet. Pôr a conversa com a pátria em dia e responder vagamente aos “Está a ser giro?” com um absurdo, “Sim, sim…”. Preparadas para o descanso, recebemos um telefonema do Antoni a convidar para os serãozinho em casa dele, nós levávamos as cervejas e só tínhamos que apanhar um riquexó até a um sítio específico. E, à hora combinada lá fomos nós pela noite fora até ao portão da Universidade de Jaipur. Tenho que abrir aqui um parêntese para vos contar que a Rita estava extraordinária. Ela mandava nos indianos que era um encanto, com o chapéu certo e chibatinha, tinha virado a própria da Deusa Colonialista. Portanto neste momento que eles nos queriam pôr fora do riquexó ela só disse: “É que nem pensar, meus idiotas, vão ficar aqui à espera connosco que é para aprenderem” e disse-o com um ar tão decidido que eu própria fiquei lá à espera também! (Momento musical, à Lawrence da Arábia) De repente uma mota pára ao nosso lado, fazendo um ruído seco com o motor (não faço ideia como descrever o ruído de uma mota que pára mas vocês

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percebem o que quero dizer). O Antoni aparecia em cena causando todo um impacto com a sua manta colorida enrolada à volta do corpo, a pele bronzeada, aqueles olhos azuis e caracóis morenos. Sim, todo o tipo de ideias românticas à “Em Busca da Esmeralda Perdida” me passaram pela cabeça enquanto o seguimos até casa no campus. Já imaginava os dois de mota por sei lá onde, sei lá em que pôr-do-sol, ao som de uma banda sonora do John Barry ou coisa que o valha, bem, uma pirosada completa que durou apenas 5 minutos, antes de me deixar de parvoíces e olhar para a realidade, ou seja, um serão numas assoalhadas velhas a ouvir cães vadios a uivar e a falar dos livros que se liam na Índia, e depois a Kingfisher começou a entrar no sangue e já não me lembro bem da conversa. Ainda tentámos pôr música mas o Mp3 da Rita só conseguiu mandar cá para fora meio Dave Mathews. O Antoni contava-nos como era difícil explicar filosofia aos alunos indianos e mostrava-nos como tínhamos sido enganadas com os lenços que tínhamos comprado. De seda não tinha nada, só tínhamos que fazer o teste com o isqueiro (se cheirar a cabelo queimado é seda, se não, foram parvos). De repente a Rita diz “Então e se fossemos andando já é meia-noite e arranjar boleia vai ser complicado”. Descemos os três para o grande vazio do escuro e quando demos por isso já não era preciso boleia. O Antoni estava a levar-nos de mota. Ele, eu e ela. Sem capacete, sem luzes e sem travões. Imaginem o que é, atravessar uma cidade indiana e não ver um único carro na rua, tudo deserto. O único som era o vento frio que nos batia na cara e o acelerador inconstante. Vinte minutos calados. Vinte minutos de liberdade, a rezar para não morrermos já ali, a rezar para que não acabasse, a rezar para não passarmos pela polícia, e passámos por eles, mesmo à frente deles tivemos um minuto de suspense dramático e, por milagre, ignoraram-nos! E nesses vinte minutos de voo, no meio daquela loucura toda, outra loucura se passava, o Antoni tinha metido a mão por dentro da manta dele e agarrava….. a minha mão (o que é que já estavam a achar?)

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Chamuças de Bacalhau 9  

Aventuras na India

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