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Chamuças de Bacalhau A conversa com Rajú “O Obeso”. Liberdade não é o grito do Braveheart, é o nosso. Os indianos não sabem o que é uma “fila indiana”. Bus para Jaipur. Antoni, o professor sexy. Kalin, o pior hotel da Índia.

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VII Independence Day

Não dormimos nada esta noite, eu estou um bocado nervosa para saber como vai correr a conversa. Um bocado é petit non, eu estava francamente stressada mas jamais o demonstraria, sob pena da Rita fugir a correr e só parar no Paquistão. À hora H, lá estava o Rajú “O Obeso” à nossa espera, como temíamos, as coisas prometiam ser mais complicadas. Ele está com um ar sério, olhos pequeninos e maliciosos e mãozinhas sebosas em cima da mesa, e eu penso “que se lixe, vai ver o que é uma portuguesa”. Começa o primeiro acto e digo-lhe logo meia dúzia de parágrafos (obviamente ensaiados em frente ao espelho) ao qual ele contrapõe outros tantos, enquanto a Rita fuma, qual pai à espera na maternidade, fora do hotel. Segue-se uma tensão hitchcockiana, pontuada por uma troca de olhares assassinos, na qual as lentes me secam nos olhos, tal foi o tempo e a concentração dispendidas. Finalmente Rajú vacila, facto esse que nada tem a ver com o facto de lhe tocar com o pé na coxa, por baixo da mesa. E assim perde a discussão, passando-me o caderno de facturas para eu assinar, confirmando o cancelamento do programa. Ainda assim insisto na devolução da massa. “Ah e tal não podemos devolver tudo porque já reservamos quartos de hotéis”, reservas em hotéis? Na Índia em que estávamos a viajar? Essa é boa! Bem, o resultado final ainda assim foi surpreendente, devolveu cerca de 70€ (dos 250€!!!) a cada e deu-nos os bilhetes de comboio. O mais engraçado é que ainda estávamos a desfazer o contrato e ele já estava a intrujar um casal de japoneses acabadinhos de chegar. Olhei para aquilo como se tivesse nascido na Índia, o esquema era igualzinho e aqueles eram os próximos desgraçados a cair. Bem, estamos nós, enfim, a fazer o check-out cheias de orgulho e ouvimos o Rajú a perguntar “então e agora para onde vão? Se quiserem eu ajudo-vos a 2


arranjar um hotel.” Olhámos embasbacadas uma para a outra, do género “este gajo deve ter comido caril estragado com certeza.” Que lata inacreditável. “Não obrigada amiguinho, bem podes ir morrer longe que a nós fica-nos mais barato.” Liberdade não é o grito do Braveheart de mini-saia escocesa. Liberdade foi o primeiro fôlego fora do hotel. Foi ouvir aquela chinfrineira de buzinas, pessoas e cães e pensar “Agora nós, Índia.” E liberdade foi pagar 300 Rs a um taxista que nos pediu 700 Rs para ir até à estação rodoviária. Claro que na altura achamos que tínhamos feito o negócio da vida, e que já regateávamos como quem bebia água Kingfisher e foi nesta moral extraordinária que aterramos na estação de camionetas. Era a primeira vez que as mochilas nos pesavam nas costas mas era um peso bom, pelo menos durante os primeiros 10 minutos de glória aventureira, findos os quais começamos a arrastá-las como se fossem cães sarnentos. A estação rodoviária “era do governo” por isso tinha um ar civilizadinho. Andámos tontas à procura das bilheteiras e pusemo-nos na fila à espera da nossa vez de dizer “Jaipur”. Porquê Jaipur? Porque era a capital do Rajastão, zona que queríamos conhecer e porque era uma palavra tão boa como outra qualquer. Tínhamos que começar por algum lado e ia ser por Jaipur. Perdidas nestas conjunturas nem reparamos que é neste mesmíssimo cenário que vai nascer a nossa nova nacionalidade. Ora observem. Estando nós no fim da fila, vemos chegar um sujeitinho que se coloca à nossa frente (provando que os próprios indianos desconhecem a lógica da “fila indiana”). Felizmente que nesse dia já não estávamos para parvoíces e “Ó amigo, mas que tara é essa, então não sabe que quem chega vai para o fim da fila? Não vê que já cá estávamos, seu idiota?” ao qual o idiota nos responde com as mãozitas ao alto, apaziguador: “No problem miss, no problem, everything fine”, “Vá então mete-te lá no finzinho, seu desgraçado, realmente estes gajos têm uma lata...” E ele já todo amiguinho, começa “Which country?”, “Qual which country pá.”, e ele insiste “Which country miss, which country?” ao qual já furiosas respondemos “India, we are from India, ok?” “Noooooo, not possible miss, not

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possible”, “Ein? Para onde queremos ir? Jaipur, dois bilhetes para Jaipur, e rápido que eu estou aqui estou a matar um conterrâneo.” Já ao pé dos autocarros, decidimos comprar dois pãezinhos de leite que vieram com um vegi burguer de brinde, olhamos para aquela mistela como um puto olha para o ovo estrelado rebentado mas sorrimos na mesma, apesar de tudo, nada ia abalar a nossa felicidade. Reparámos num grupinho de três estrangeiros que conversavam animadamente e fomos perguntar onde é que era o autocarro, só naquela de meter conversa, eram franceses e iam para Jaipur também. Última chamada e lá nos enfiámos nos lugares previstos. Que maravilha, fomos as 5 horas a conversar e a ouvir musica. O autocarro era confortável e o tal hambúrguer soube-nos surpreendentemente bem. Na paragem que houve a meio, metemos conversa com as duas francesas, enquanto comentávamos a desgraça das casas de banho. Também iam à aventura e iam ficar a dormir em casas de indianos pelo caminho, que tinham conhecido na internet no site de couchsurfing. Folgámos em saber que ainda havia gente mais insana que nós. E lembro-me de ter reparado que o rapaz francês tinha ficado cá fora a fumar, olhou para nós com cara de caso mas não disse nada. Mais umas horas de bus e já tínhamos lido o Lonely Planet de fio a pavio à procura de hotel. Como nos parecia tudo a mesma coisa, fomos pedir ajuda às francesas e como elas também não percebiam grande coisa apresentaram-nos o francês, Antoni, que pelos vistos vivia em Jaipur, e disse logo com um ar meio vago que não nos preocupássemos que ele ia jantar a um hotel óptimo e nós podíamos ir com ele. É de acrescentar que apesar do ar vago, ele disse isto tudo com dois olhos azuis-esverdeados-mar-das-Caraibas tão de cair para o lado, que eu não me preocupei com mais nada pelo menos durante uns bons dez minutos. A cena que se passou quando saímos da carrinha foi de filme, havia literalmente indianos a disputar as nossas malas para as meter nos riquexós. Já era de noite e demos graças a Deus por termos encontrado um novo protector para nos iniciar naquela ignota cidade. Assim vão por água abaixo tantas décadas de emancipação feminina mas ao menos estávamos em mãos napoleónicas. Foi só quando vimos o nosso novo companheiro entrar numa zaragata com 3 taxistas por uma viagem de 30 Rs é que nós percebemos que 4


aquelas 300Rs que tínhamos pago em Nova Deli tinham sido mesmo uma estroinice. A viagem foi curta mas deu para perceber que ele tinha 27 anos (porque na Índia toda a gente tem 27 anos) e que era professor de francês, historia e filosofia na Universidade de Jaipur. Achei aquilo, um tanto bom demais para ser verdade mas decidi armar-me em difícil e deixei a diplomacia para a Rita que já lhe contava como tínhamos sido quase chacinadas pela família do terror! E agora, caros mirones, apresento-vos o melhor hotel que conhecemos na nossa viagem indiana. Este é o Pearl Palace, tem um ar delicioso, calmo e bem cheiroso. Tem uma sala de estar com Internet, com pinturas nas paredes, fofos divãs onde apetece morrer ao pôr-do-sol e um restaurante no telhado tão cosmopolita-kinky, com os seus pavões pintados e cadeiras em ferro forjado, que parece que se chegou ao céu. E esta coisa horrorosa, mesmo na rua em frente é o NOSSO hotel. De seu nome Kalin. E é por seu turno, o pior hotel onde ficaremos em toda a viagem. Mas isso ainda nós não sabíamos. O jantar no Pearl Palace foi divino, conhecemos um casal, ela Checa e ele Italiano e falou-se da Índia, como alienígenas de diferentes planetas falariam da Terra. O Antoni tentava desmistificar um bocado as coisas mas ninguém queria que a Índia fosse desmistificada, era muito mais giro assumir que era tudo doido varrido. Como por exemplo, o empregado que me acabou de devolver a nota de 500Rs porque tinha um cortezinho de lado, e ele queria uma perfeitinha porque “depois podia ter problemas.” E eu pensei cá para mim, “se estes tipos são tão esquisitos com as notas, porque é que não existe uma que não tenha sido já vítima dos devaneios de uma Bic, num estilo Pollock?” Há que dizer que eu estava particularmente sonâmbula, porque já não dormia nada, outra vez, há duas noites, e isso não mata mas faz comichão. Por isso decidimos que já chegava de emoções e de cerveja e estava na hora de irmos conhecer o nosso novo quarto. Verde. O dito aposento era verde como uma ervilha, e já agora acrescento que era do tamanho de uma ervilha também. As paredes eram forradas a um papel verde-psycho que nunca deve ter estado na moda e tinha pelo menos duas 5


sinistras portas castanho forte a meio da parede com grandes fechaduras por fora, que não davam para abrir. Em cima da cama havia um respiradouro de uma conduta de ar que prometia o verdadeiro arrefecimento global e para rematar havia um intercomunicador do tempo da guerra ao soco, que dava àquilo tudo um ar de abrigo de judeus da segunda Grande Guerra. Estávamos demasiado cansadas para perder mais que meia hora às gargalhadas (porque só dava para rir) do que parecia ser a dispensa do quarto do Harry Potter, por baixo das escadas. A Rita ainda fez o favor de abraçada à bolsa beije do passaporte e eu fiz o favor de fingir que me estava a marimbar se íamos ou não ser raptadas por extraterrestres, já chegava de tanta maluquice. Ainda comentámos o bom que o dia tinha sido, de manhã tínhamos estado em Nova Deli a acabar o affair com o Rajú e agora já estávamos a milhas. Tínhamos conhecido um francês porreiríssimo, que a Rita achava que era uma mistura de Gael Garcia Bernal com Jim Caviezel, respectivamente os personagens de Che Guevara meets Paixão de Cristo, ao que eu torci o nariz e duvidei que isso alguma vez desse bom resultado. Para melhorar, o Atish tinha acabado de nos mandar uma mensagem a dizer que havia uma portuguesa, do Porto que estava em Jaipur e que amanhã nos vinha buscar, lá para as 8 para fazermos um tour. Ahh, a perfeição existia. Era esta noite que ia dormir, finalmente...

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