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Chamuças de Bacalhau Em busca da paragem de autocarros perdida. Mais esquemas e trafulhices. Dundee, o nosso companheiro australiano. Jodhpur é azul e tem mosquitos. Visita ao forte. Jantarada italiana às 18h dentro de mosquiteiro camuflado. Quartinho mexicano sem janelas.

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XIV Feeling Blue, Jodhpur O despertador tocou às seis da manhã. Sentia-me cansada, mole e chata. Nem falámos uma com a outra. Era óbvio que devíamos ter escolhido um autocarro mais tarde. Pusemos as mochilas às costas, o peso era tanto que tínhamos que deitar as mochilas na cama, deitarmo-nos em cima delas de costas e depois tentar levantar o peso todo, só uma tartaruga de pernas para o ar percebe a sensação. A seguir enrolei a manta em cima daquilo tudo que era eu. Lanterna em punho e saímos para a rua. Não se via nada à frente. O ar estava frio e parado. E lá fomos as duas, andando muito desconjuntadas, a rezar a todos os santinhos para que déssemos com o sítio sem ninguém dar connosco. O croqui que tínhamos à laia de GPS, era absurdo. O homem tinha-se limitado a garatujar meia dúzia de semi-rectas num papel sem qualquer referência. De modo que íamos mesmo ter que perguntar a alguém. A nossa figura era uma verdadeira caricatura e durante vinte minutos deambulamos pela cidade adormecida só ouvindo os próprios passos. Sim, era assustador mas também já não sabíamos como voltar para trás. Ao longo do caminho íamos encontrando uns vultos a quem perguntávamos se a “estação era para aquele lado” e milagre dos milagres, acabámos por chegar. Aquele bocado de terreno tinha muito pouco de estação. Pelo que conseguimos distinguir na escuridão, havia uns autocarros velhos e umas tendas com gente a vender bolachas e comida em grandes panelas fumegantes. Sim, às seis da manhã comia-se qualquer coisa que cheirava a ensopado de borrego. Trocámos alguns cigarros por bananas e bebemos Chai, uma contra a outra, sob os olhares tenebrosos de gente encapuzada. Continuava escuro quando entrámos no autocarro e nos fomos sentar lá atrás. Dormitamos os primeiros dez minutos, findos os quais começou a maior chinfrineira hindi que já ouvi. Aquilo devia ser o último grito em auto-

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rádios e o motorista devia querer por toda a gente a fazer aeróbica esquizofrenicamente. Já não podíamos aguentar mais o volume e eis que aparece um Sihk a querer-se sentar no banco. Eram 5 lugares e já lá estavam 5 pessoas, e ele esteve meia hora a abanar o turbante e a mandar vir que, segundo as contas dele, ainda dava para mais um. Passaram-se horas, umas quantas paragens para o xixi no meio de recatadas planícies (?!) e ainda tivemos tempo para experimentarmos uns fritos dolorosamente picantes, vendidos pela janela. Entretanto voltámos a cair no quase sono quando acordo alarmada com três indianos a olhar para nós, com ar de poucos amigos, a tentar sacar dinheiro pelas malas que tinham ficado na bagageira. Ao que eu e a Rita, depois de consultar o Lonely, decidimos que “pagar, é o caraças do paizinho”. Geralmente o que resulta é fazer um escarcéu dos diabos e eles com o tempo desistem. Foi o que aconteceu passados 15 minutos de gritaria. Já íamos com 5 horas daquilo quando o autocarro pára no meio de nenhures e nós vemos uma turba ruidosa a aproximar-se do frágil veículo e começar a abanar o próprio, enquanto batia nos vidros. “Fodasse, um Golpe de Estado?” pensei cheia de medo. De repente o motorista e mais dois homens dirigiram-se à fila de trás. Eu e a Rita trocamos olhares assustados. Os desgraçados começam a barafustar connosco dizendo que “a cidade está fechada para os turistas, têm que pagar ou sair do autocarro”. A segunda troca de olhares entre nós acusa já um certo cepticismo. -Rita o que é que diz no Lonely? -Não diz nada, deve ser mais um esquema. -Ouviste, ó Omar Sharif? Daqui não levas nada, pah, vai te lixar mais os teus esquemas. -Paguem, paguem. Esta discussão demorou o que pareceu uma eternidade. Porque depois de perceber que não íamos pagar o homem queria mesmo expulsar-nos do autocarro. Os outros lá fora batiam nas janelas, e eu estava a ver o caso muito mal parado. As estrangeiras que estavam ao nosso lado não sabiam o que haviam de fazer e já estavam a puxar das carteiras. E nós aí lideramos a ofensiva e gritámos “o povo unido jamais será vencido”. E em menos de

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nada, o motorista voltou para o lugar e arrancou a acelerar desalmadamente. Terceira troca de olhares gritava “Vitória”. Chegamos a Jodhpur às 13h, já íamos com uma referência de um hotel, e por isso quando saímos da carrinha fugimos a tudo o que era motorista espertalhão. Vendo-nos tão decididas, um rapaz que vinha meio escondido no autocarro apresentou-se. Era australiano, tinha 27 anos (obviamente) e chamava-se Cam. Mas vamos chamar-lhe Dundee como o do filme. Era alto e tinha uns olhos claros e um ar de surfista que depois de se fartar das ondas tinha virado montanhista. “Bem-vindo ao nosso oásis, Mr.Dundee ponha-se a jeito.” A viagem de riquexó até à Sarvar Guest House custou-nos 15 Rs (ein já tinha-mos aprendido). Quanto mais para o centro nos dirigíamos, pior eu me sentia. Tínhamos voltado ao caos, ao trânsito, aos milhares de pessoas, às buzinadelas. Havia lixo e confusão. Voltei a sentir-me insegura e com medo de andar sozinha. Queria fugir dali bem rápido. Nem disse nada à Rita mas, pelos vistos, estávamos a sentir o mesmo. A Sarvar Guest House ficava no meio de um labirinto de ruas. Era em tons de azul cueca forte e naquele momento estava sem electricidade. O tipo que nos veio receber tinha um arzinho de malandro do pior e lá nos mostrou um quarto sem janelas e com um tecto baixinho que nos vimos à luz de uma raquítica vela. Ficou-nos a 200 Rs. Já o Dundee ficou com um por 80Rs, tão pequenino e atafulhado de coisas que parecia um armário, e quando lá chegou ainda teve que expulsar um indiano que dormitava na cama (?!). Deixámos as malas e nem pensámos mais nisso. Subimos ao telhado onde ficava o restaurante. Só pela vista já valia a pena. Jodhpur é azul, parece que o céu trocou de lado. Pelo telhado vi um mar de pequenos edifícios caiados e pintados dessa cor, com animados telhados onde reinavam os turistas bebendo lassis (bebida indiana feita à base de iogurte) e cerveja. Nunca na vida tinha sentido tanto o “efeito Metropolis”. Ou seja, uma cidade onde os pobres andam pelas ruas e os “ricos” ficam nos telhados, vivendo um mundo à parte, sem se misturar, em Jodhpur era mais ou menos isto que acontecia. Neste telhado sentíamo-nos seguras e bem, lá em baixo, o

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caos. Mas nós não tínhamos ido à Índia para brincar às Barbies, iríamos enfrentar a multidão colorida. E depois, também tínhamos decidido que precisávamos de trocar os bilhetes de comboio que o Prince nos tinha comprado. Metemo-nos ao caminho com o nosso amiguinho Dundee. O tipo tinha um ar calmo e observador e não percebemos se era o maior herói ou o maior cobarde. Mas ao menos éramos três. Ruas estreitas, velhas e coloridas. Riquexós, motas, burros e vacas, e centenas de pequenas lojinhas, sem montra, com velhos descalços sentados no chão. Destes 20 minutos de fila indiana a Rita conseguiu levar com uma cornada no rabo e quase ser atropelada por um Riquexó, salva apenas por um puxão meu e de Ganesh, no último segundo. No meio disto tudo o Dundee só abriu a boca para dizer naquele sotaque meio à cowboy-canguru: -You ladys, sure get a lot of looks! -É para tu veres o que custa ser mulher, ó Jorge! Fiquem assim os leitores sabendo, que sim, na Índia é possível trocar um bilhete de comboio. E que, espantem, é até possível pedir o dinheiro de volta. Basicamente foi isso que fizemos com dois dos bilhetes, ficando apenas com outros dois que nos prometiam levar de Bombaim a Goa daí a uma semana. Por mais que perguntássemos ninguém nos conseguia explicar se os nossos lugares eram maus ou péssimos e decidimos esperar para ver. Como tínhamos resolvido que não íamos ficar em Jodhpur nem mais um dia, resolvemos ir ver o mais importante da cidade, o forte de Meherangarh. O forte tinha a cor da terra e ficava em cima do monte que olhava para a cidade. Fazia um contraste lindo! Pela parte de dentro via-se que tinha sido construído com centenas de janelas umas sobre outras. Subimos a larga rampa e fomos recebidas num inglês pomposo por um velhote indiano da velha escola britânica que ainda devia andar com um calendário da rainha na algibeira. Arranjámos o áudio-guide e ficámos a tarde toda a seguir o percurso proposto, a assistir à reconstituição das grandes batalhas e ao rico cativeiro que era a vida das rainhas. Cada espaço tinha a sua antiga vivência revisitada com épicas narrações e música do Rajastão. No meio das salas ornamentadas, dos apertados corredores e das trabalhadas varandas, havia

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um lugarzinho forrado a almofadas ocupado por um velho de bigodão que fingia ser um fumador de ópio e estava com um sorriso tão franco, que acredito que não estaria somente a fingir que o fumava. A tarde estava dourada e viam-se águias a planar em círculos na planície (era tudo muito poético, como podem constatar, isto não sou eu a romantizar a coisa). Na volta ainda passámos por pelo Jaswant Thada um exuberante cenotáfio de mármore que ficava ao pé do forte. As rezas dos muçulmanos enchiam o ar de canções e afugentavam os mosquitos. - Disseste mosquitos, Rita? Ora, minha cara, mas eu tenho a solução para isso! Ah paizinho, eu sabia que o teu presente de natal não tinha sido em vão. Rejubilem, pois o meu super-mega-mosquiteiro será montado, em todo o seu esplendor, mesmo no meio no restaurante do telhado! Mami e Rita atacam, às seis da tarde, dentro da sua rendilhada tenda camuflada, quais princesas do Vietnam, uma macarronada com pimentos, sob o olhar incrédulo dos estrangeiros e o olhar gozão dos autóctones. Claro que havia mais mosquitos dentro do mosquiteiro do que fora mas não íamos dar o braço a torcer, eu não andava com metros de rede às costas sem o usar! Isso é que não! Os empregados riam às gargalhadas e chamavam-me Maria Cansada (qualquer piada ao meu ar “fresco e vigoroso” quiçá). Às tantas chegou o nosso amigo Dundee que se foi enfiar também lá dentro. Tinha descoberto um hotel muito melhor, pelos telhados. “É a melhor forma de encontrar bons hotéis, espreitando pelos telhados!” Eram as sábias palavras do rapaz. Passámos a noite a ouvir a narração da sua grande aventura pelo Nepal e América do Sul, era um fulaninho intrépido, caramba! Medo, medo só tinha de cerveja, dizia que tinha uma cena qualquer para conservar os mortos, não percebi bem e não quis explorar. Ainda me lembro que andava a ler um livro que se chamava “Into Thin Air” sobre um tipo que sobe o Everest (porque é que na Índia ninguém lê livros sobre estar na Índia?), lembro-me disto porque quando dizia o nome do livro punha um semblante à Czar, e a frase soava soberba: “Intu Tin’É”.

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No fim da noite recolhemos a rede e desejamos boa viagem ao Dundee para onde quer que ele fosse a seguir, e fomos para o quarto. Agora com electricidade é que nós podíamos apreciar todo o seu potencial. Era portanto azul como o resto do hotel, e como a cidade. O tecto era realmente baixinho e não tinha janelas, apesar disso tinha um ar bestialmente mexicano. A um canto havia uma escultura com 5 papagaios verdes de porcelana, as paredes tinham pintados motivos florais, e havia dois belos quadros; um deles tinha uma casita na neve, no meio de uns pinheiros (digna de uma capa “Anita vai aos Alpes”) o outro era um poster com duas viçosas rosas encabeçadas por uma frase que dizia “God Loves You”, alguém tinha riscado o “God” e escrito “Shabou” em 21 de Março de 2007. Era tudo de um bom gosto formidável e nós achamos que ficava muito melhor às escuras. E com isto dissemos boa noite, estávamos estoiradas e amanhã teríamos outra fascinante viagem de autocarro…

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Chamuças de Bacalhau 14  
Chamuças de Bacalhau 14  

Aventuras na India

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