__MAIN_TEXT__

Page 1

MAURÍCIO NORONHA, DAYSE CAMPISTA E MARCUS AURELIUS PIMENTA

Os Sauins-de-Coleira e a Planta do Céu Ilustrações: Rogério Borges


MAURÍCIO NORONHA, DAYSE CAMPISTA E MARCUS AURELIUS PIMENTA

Os Sauins-de-Coleira e a Planta do Céu Ilustrações: Rogério Borges

1a edição Manaus - Amazonas 2020


agradecimentos Esta obra foi realizada por muitas mãos. Muitos colegas, amigos e profissionais nos auxiliaram nas várias etapas deste trabalho. Somos especialmente gratos: ao prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, pelo incentivo à cultura no município; a ManausCult, na pessoa do seu diretor presidente Bernardo Soares Monteiro de Paula, pela criação do Prêmio Manaus de Conexões Culturais, que permitiu o financiamento desse livro; aos escritores

Eva Furnari e José Roberto Torero, pelo apoio e incentivo; ao Dr. Danilo Simonini Teixeira pela foto cedida do Prof Milton; e a Laís Duarte, José Paulo Sant’Anna, André Bushatsky, Sílvia Kormanski, Natália Lima e Patrícia Matsuo, pela leitura crítica dos originais. Por fim, agradecemos a nossa equipe técnica, que demonstrou determinação e resiliência frente aos obstáculos enfrentados para a produção deste livro.


MAURÍCIO NORONHA, DAYSE CAMPISTA E MARCUS AURELIUS PIMENTA

Os Sauins-de-Coleira e a Planta do Céu Ilustrações: Rogério Borges

apoio

patrocínio

1a edição Manaus - Amazonas 2020


Coordenação Geral do Projeto Concepção do projeto Autoria da história Ilustrações Coordenação editorial Fotografia Revisão de Conteúdo Revisão em português Diagramação e arte final

Maurício Noronha Maurício Noronha e Dayse Campista Maurício Noronha, Dayse Campista e Marcus Aurelius Pimenta Rogério Borges Jubal Dohms Maurício Noronha Thábata da Costa Maria Luiza Nascimento Mendonça Matheus Jeremias Fortunato

Patrocínio

Este livro foi financiado pelo Edital NO 006/2018-Concurso Prêmio Manaus de Conexões Culturais, promovido pela Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (ManausCult), Prefeitura de Manaus. Todos os direitos reservados A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação dos direitos autorais. (Lei no 9.610). Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Noronha, Maurício Os Sauins-de-coleira e a Planta do Céu / Maurício Noronha, Dayse Campista, Marcus Aurelius; ilustrações Rogério Borges. -- 1. ed. -- Manaus, AM : Mauricio Noronha, 2020. ISBN 978-65-00-08332-3 1. Conservação da natureza 2. Literatura infantojuvenil 3. Meio ambiente - Literatura infantojuvenil 4. Sauim-de-coleira I. Campista, Dayse. II. Aurelius, Marcus. III. Borges, Rogério. IV. Título. 20-43272

CDD-028.5 © Maurício Noronha, 2020


apresentação Manaus é uma cidade que transborda história. Ah... se ela pudesse nos revelar os detalhes que o tempo insiste em apagar. Seria fantástico! Isso porque ela testemunhou a grandeza de nações indígenas como os manaós, barés, baniwas e passés; assistiu, em 1542, a passagem do explorador espanhol Francisco de Orellana, o primeiro a percorrer o rio Amazonas; em 1669 viu a criação da Fortaleza da Barra de São José do Rio Negro e bem mais tarde, entre 1879 a 1912, vivenciou a riqueza com o apogeu do ciclo da borracha. Recentemente, nos anos 1960, ressurgiu como o “motor” econômico da região norte do Brasil, com a implantação da Superintendência da Zona Franca de Manaus, trazendo consigo o desenvolvimento. Entretanto, mesmo com a presença marcante do homem, Manaus não perdeu o contato com a floresta. A cidade é um dos lugares mais ricos do mundo em biodiversidade e o lar do sauim-de-coleira, um pequeno e fascinante macaquinho que confia na sua resistência e no trabalho em equipe para sobreviver. O ditado “a união faz a força” é apropriado para descrever sua vida. Diferente de todos os outros saguis que existem no Brasil, o sauim é metade branco, metade marrom e com a cabecinha preta e quase sem pelos. É uma obra viva da criatividade da mãe natureza. Esse animalzinho é parte da riqueza das nossas matas, mas vive em luta desigual com o homem, tentando sobreviver ao avanço da cidade sobre a floresta. Hoje, o sauim-de-coleira é uma das espécies brasileiras mais ameaçadas de extinção. Apesar disso, mesmo sem saber, esse macaquinho desempenha um papel importante: a missão de nos educar para a conservação dos recursos naturais que compartilhamos com ele. Essa é a proposta desta história. Boa leitura!


6


O

sol nasce e acorda a floresta. Raios de luz vão penetrando na mata e realçam os tons de verde da vegetação. Uma brisa varre o ambiente. Os bichos do dia acordam e os da noite procuram um lugar para dormir. O canto do macuco, “fiuuuuu fiuuuu fiurrrrr”, dá um toque de magia ao amanhecer.

No meio de um vasto cipoal, um grupo de pequenos animais desperta. É uma família de sauins-de-coleira. São fascinantes macaquinhos, que confiam no trabalho em equipe para sobreviver. Dona Chiquinha, uma jovem mãe com três anos de idade, é a primeira a acordar. Ela tem olhos simpáticos e três pequenas pintas no focinho. Chico, seu companheiro, é um ano mais velho. Ele é forte e uma de suas missões é proteger o grupo. Da família ainda fazem parte Chiquelle e Chicote, gêmeos de sete meses. Chiquelle é agitada como ela só e Chicote, para ajudar, é um bagunceiro de primeira. Chiquinha estica os braços e boceja quando, tuc!, um fruto de murici acerta sua cabeça. Olha de um lado, olha de outro e não vê nada. De repente, tuc!, outro fruto bate em suas costas: — Fi, fiii! Tse, tse! Triii, triii, trii! – ela grita. Os sauins-de-coleira usam vários tipos de sons para se comunicar. É um repertório genial, mas como talvez você entenda um pouco mais de português do que de “sauinês”, aqui vai a tradução da frase: — Apareçam, seus pestinhas!

7


Chiquelle e Chicote aparecem, mas atrás de uma folhagem. Eles não são nada bobos. — Vou pegar vocês já, já! – diz Chiquinha. Ela não está brava, é só uma brincadeira da família. Grupos de sauins podem ter até treze indivíduos, só que Chiquinha vive num pequeno pedaço de floresta encravado no meio da cidade de Manaus, o que dificulta o aumento da família. Para macaquinhos como sauins, que vivem sob a ameaça de predadores naturais como gaviões, cobras e gatos-maracajás, o perigo é grande quando a família tem tão poucos membros para se proteger. Mas agora ninguém pensa nisso. Eles só querem saber de pular, brincar de pega-pega e escalar árvores. Mais tarde, no galho de um marupá, acontece a primeira refeição do dia. Logo em seguida, ampliam a merenda com frutos de sorva, goiaba de anta, goma, flores e deliciosos gafanhotos. De tanto andarem pela mata os sauins sabem exatamente onde cada fruteira está localizada e quando estará com frutos maduros. Esse é um conhecimento extraordinário! — Essa floresta é como um restaurante – diz o seu Chico, virando os olhos de alegria. — Larari, riri, ri. Lereré, reré, ré – os outros cantam, felizes. Boa parte dos frutos que os sauins comem são pequenos e engolidos com sementes e tudo. Essa gulodice faz deles ótimos semeadores! Isso porque as polpas são digeridas, mas as sementes não. Elas passam pelo estômago e saem no cocô, já adubadas, prontas para germinar. Assim, por onde o sauim passa novas árvores vão brotando, garantindo a continuidade da vida e a renovação das florestas. Depois de correr e pular a manhã toda, à tardinha a família chega a um pé de ingá. Ele frutifica ali graças ao solo da floresta, rico em nutrientes. Essa árvore é um oásis de alimentos cobiçado por muitos animais. Um grupo de macacos parauacus, com pelos que mais parecem um escovão, já está ali abrindo as vagens com seus dentes fortes. Eles não se importam de compartilhar a gororoba com os sauins e até costumam andar com eles pela mata. Juntos, têm mais olhos para localizar os perigos e as árvores frutíferas.

8


9


No chão coberto de folhas, vultos esgueiram-se pelas sombras aproveitando a chuva de sobras de ingás que a macacada deixa cair. São veados-mateiros e jacamins que se deleitam com esses petiscos. Na natureza não há desperdício. No fim do dia um coro de pererecas chama a escuridão, e a mata vai ganhando novas vozes e novos habitantes. Chico, Chiquinha, Chiquelle e Chicote se abrigam num emaranhado de cipós. Essa trama de galhos forma uma barreira contra predadores e garante uma noite segura. Os filhotes ainda futucam ocos de árvores, mordiscam frutos e perseguem carapanãs por um tempo, mas enfim vêm se deitar.

10


O zzzz dos insetos ajuda seus olhos a se fecharem e eles dormem em paz. O sono é leve e reparador. De manhãzinha, porém, naquela hora em que a gente fica acorda-não acorda, Chiquinha sente falta da música matinal dos guaribas e do tagarelar das araras e papagaios.

11


A coisa fica ainda mais esquisita quando ela ouve um estalo, um nheeeeec. Ao abrir os olhos, seu coração quase sai pela boca. Uma castanheira vem caindo em cima deles.

12


Chiquinha morde o braço de Chico para acordá-lo e agarra seus filhos. Os quatro saltam para uma sumaúma ao lado, em meio ao som de máquinas e gritos humanos, labaredas e cheiro de fumaça. No céu, aves fogem; ao lado, outras árvores tombam e, lá embaixo, parece que o fim do mundo chegou: o tamanduá-bandeira, que é um bicho meio cegueta, passa tropeçando em tudo que há pela frente. As cutias correm em disparada por todos os cantos. A saracura magricela pia e voa que nem uma barata tonta, sem rumo. O ouriçocacheiro, todo espinhoso, tenta se esconder no meio das folhagens. Chico e Chiquinha ajeitam as crianças nas costas e descem pelo tronco até o chão. Chegando lá, não sabem que rumo tomar. Para lá? Para cá? Enquanto tentam se decidir, Chiquinha olha para cima e grita: — Cuidado!

13


Os quatro pulam para o lado. É a sorte. Por pouco um tronco de andiroba não os esmaga. É preciso fugir! Chiquinha aponta na direção do igarapé e Chico concorda balançando a cabeça. Eles correm para lá. Os sauins são pequenininhos e não tem como impedir toda essa confusão. O problema é que sem a mata eles não sobrevivem. É nela que estão os abrigos, os alimentos e os lugares maravilhosos para brincadeiras animadas. Ela é o lar do sauim-de-coleira.

14


Chegando à beira do riacho, Chiquinha arrasta um galho grosso até a margem e diz: — Perdemos nossa casa, mas não se preocupem, vamos encontrar outra floresta. No começo a viagem pelo riacho corre sem problemas. A água da correnteza é límpida e cercada pelo verde. Ainda se ouve, aqui e ali, o canto de pássaros. Porém, com o passar do tempo, tudo muda. Primeiro o riacho se estreita virando um córrego, e depois se converte num fio d’água marrom e malcheiroso. Vendo que não dá mais para continuar, Chiquinha deixa o galho e salta sobre um pneu, oferecendo a mão para puxar o resto da família. Dali, todos sobem por uma ladeira.

15


Chegando ao alto, é como se os quatro estivessem olhando para um pesadelo. O lugar que avistam não tem árvores, só espigões de pedra. Muitos. Os olhos se irritam com o ar poluído e seu pelo é coberto por uma fuligem pegajosa. Eles não sabem, mas chegaram à floresta dos humanos, a cidade, território com perigos inimagináveis para macaquinhos. Chico olha para sua companheira e aponta para frente com o queixo, como que perguntando “Vamos?”. A macaquinha, porém, sente algo estranho naquele momento e não se move. Chico segura a mão de sua companheira e a família avança pelo piso quente do asfalto. Com cautela os sauins vão explorando a área. Como não comeram nada estão enfraquecidos, principalmente Chicote, o mais guloso da turma – a sua barriga ronca mais que cuíca em dia de carnaval. Logo adiante, ele crava os olhos num araçá caído no chão no outro lado da avenida. — Eba, vou lá pegar! — Não, senhor – diz Chiquinha. — Eu vou. Ela sabe o que está fazendo. Seus filhos têm sete meses e são novos para reconhecer perigos. Até atingir a idade adulta, aos dois anos, eles dependem dos adultos para obter alimento, proteção e ainda aprender truques de sobrevivência. Chiquinha atravessa a rua, ainda confusa com aquele lugar. Isso porque a natureza criou os sauins para a vida nas árvores e não para zanzar por ruas e avenidas. Ela segue distraída até sentir que alguém a puxa para trás. No instante seguinte uma motocicleta passa a cem quilômetros por hora à sua frente, deixando no ar um gás escuro e fedorento. — Q-q-q, que bicho era aquele!? – ela pergunta. — Sei lá –­Chico responde, ainda com pelos dela nas mãos. — Só sei que ia passar em cima de você. Assim que para de tossir, a pequena Chiquelle arrisca uma explicação: — Era do tamanho de uma capivara, mas fazia zumbido de marimbondo.

16


Acho que era um “capibondo”. Não, espera, era uma “marivara”. Um dos dois. Já Chicote só anda de um lado para outro, nervoso. — Não estou gostando disso aqui. Quero voltar para casa. Chico passa a mão de leve pela testa do filho. — Nós não temos mais casa, filho. Assim que se acalmam, os quatro voltam a andar. O frescor da manhã se foi e o sol começa a arder. Eles andam, andam, andam e, como lembrança da floresta, só veem áreas gramadas na frente de prédios e casas. As árvores estão desaparecendo enquanto a cidade se espicha. — Preciso comer alguma coisa – Chicote insiste. — Aguenta mais um pouco – diz Chico. — Já, já, a gente vai achar comida.

17


E acham mesmo. Atrás do muro alto de uma casa, um pé de bacuri exibe a copa carregada de frutas. Para alcançar os frutos, toda espevitada, Chiquelle se empolga e sobe por um poste que ficava ao lado da árvore, até ficar de frente para um cipó retorcido e prateado. Embora nunca tenha visto nada igual, a macaquinha salta nele. Assim que se equilibra, começa a dançar para se exibir. Enquanto a filha dança, Chiquinha observa uma taturana que rasteja no mesmo cipó esquisito. A bichinha avança num rebolado tranquilo até chegar numa parte esfiapada. Aí, quando encosta nela, uma faísca explode e faz tzzz: — Minha nossa! – grita Chiquinha. A taturana morre, virando uma gosma preta. Lá em cima Chiquelle se assusta e fica cai-não cai.

18


Chiquinha quer se mover, quer fazer algo, mas é como se seus pés estivessem presos no chão. Por sorte Chico escala o poste a toda pressa e agarra a filha. — Por que a coisa soltou aquele rainho, pai? – a macaquinha pergunta, tremendo dos pés à cabeça. — Por que a taturana estalou? — Não sei, filha. Não sei mesmo. Chiquelle teve sorte. O cipó era um fio elétrico, mas como eles poderiam saber? Nunca na história da “sauinidade” tinham visto algo parecido. Todos os anos muitos sauinsde-coleira, que moram perto da cidade, morrem eletrocutados. Mesmo a salvo no chão, a macaquinha continua nervosa e chora. Seus pais a distraem brincando com pedrinhas e tufinhos de mato. Vendo que a irmã está segura com seus pais, Chicote lembra de sua barriga vazia. Está com muita fome, está brocado. Ele olha para os lados, ansioso, até que põe os olhos em algo. É uma coisa rosada e chata. Andando pé ante pé ele vai até ela, cheira-a e depois crava-lhe os dentes. Chicote pensa estar devorando um pedaço de abiu, mas aquilo é somente um chiclete velho pisado no chão. Quando acaba de comer, ele volta para junto da família. Chiquelle já parou de chorar. É preciso seguir adiante. Em poucas horas o calor aumenta e mais gente sai à rua. Carros passam para lá e para cá, rangendo e disparando buzinas. Tudo é muito rápido, muito esquisito, muito descabido.

19


Mas então, de repente, a cara dos quatro se ilumina. No fim da rua, uma copaíba lhes oferece abrigo. Eles não pensam duas vezes e sobem pelo tronco. Como é bom se ver cercado pelo verde! A temperatura cai e eles se aconchegam. Estão todos muito felizes. Quer dizer, quase todos. Um deles se apoia num galho, meio tonto, e olha para o vazio. — Que foi Chicote? – Chico pergunta. — Nada, estou ó... Chicote ia dizer “ótimo”. Não dá tempo. Um gosto amargo vem à sua boca e ele solta um vômito amarelo que encharca um besouro que passava ali por perto. Não era o dia de sorte do besouro.

20


Chico olha para Chiquinha, aflito, mas vendo que ela não reage, pega o filhote baqueado pelo braço e o embala contra o peito. Quando vê que está mais calmo, acomoda-o no tronco e pensa: “O Chicote agora vai descansar”. Ele não poderia estar mais enganado. É que, do nada, um barulhão doido estoura ao lado deles. A árvore chega a tremer. Um humano abrira a janela a poucos metros dali e ligara seu aparelho de som, fazendo as caixas amplificadoras explodirem numa música atordoante. Enquanto os quatro correm dali o cantor diz:

“Querida, você é a flor do meu jardim. Docinho, nunca mais vou te esquecer. Se for embora, preste atenção em mim: Isso é um erro, você vai se arrepender”.

Tudo bem, a letra não é lá essas coisas, mas pelo menos o cantor fala uma verdade: eles realmente se arrependem de sair dali. Na correria, os quatro vão parar numa viela onde topam com um grupo de moleques com baladeiras nas mãos. Baladeira é o mesmo que bodoque, estilingue. Assim que põem os olhos nos sauins os meninos sorriem uns para os outros e se encaminham para duas bicicletas. A intenção é persegui-los. Alguns humanos fazem isso por pura maldade. Percebendo algo suspeito no ar, os sauins escapam por uma rua de prédios velhos. Enquanto correm, desviam de pedras que, poc, batem no chão perto de suas patinhas. Chicote está a ponto de cair quando Chiquinha o apanha pelo braço e o coloca nas costas. Vendo Chiquelle de língua de fora, Chico faz o mesmo com a filha.

21


Os sauins estão no limite das suas forças quando os meninos emparelham com eles. Cada bicicleta tem dois tripulantes: um é o condutor e o outro, o da garupa, é o encarregado de usar a baladeira. Agora não tem jeito, tudo está perdido. Só que então a roda de uma das bicicletas se enfia num buraco e uma dupla de meninos cai. Uau, que sorte! Os dois, da outra bicicleta, param para socorrê-los. Os macaquinhos aproveitam a chance e aceleram. Há uma saída à frente e eles se enchem de esperança. Será que encontrarão abrigo? Será que algum supersauim virá em seu socorro? Será que a floresta estará ali, pronta para acolhê-los? Não, nada disso, eles só chegam a uma rua sem saída. Os meninos vêm vindo lá atrás e vão prendê-los. Os quatro se abraçam, esperando o pior, só que bem nessa hora uma coisa estranha acontece. Estranha não, estranhíssima. Eles sentem que foram puxados para o interior de um beco. Mãos tapam suas bocas e a escuridão fica assustadora quando a entrada, atrás deles, é fechada com uma ripa de madeira. Seus ouvidos escutam os meninos chegarem lá fora. Eles falam, falam, falam... e se cansam de falar. Acabam indo embora. Após um instante a madeira é removida e um facho de luz rompe pela fresta. O beco é um cantinho de terra apertado entre prédios enormes. Há lixo, água parada e a sensação de falta de ar é constante. Ao finalmente ver quem os puxou, Chiquinha,

22


Chico, Chiquelle e Chicote ficam de pelos em pé. E olhe que eles têm pelos. Chiquinha enfim consegue falar: — Vocês... — Nós? — Vocês são... — Positivo. — Vocês são sauins-de-coleira?


— Sim – diz o líder do bando. Ele carrega um palito de sorvete como bastão. — Sou o Capitão Chicôncio, muito prazer. Gostariam de saber o nome dos meus amigos? — Por favor – concorda Chiquinha, ainda assustada. — Perfeitamente, estes aqui são Chiclaine, Chicássia, Chicreusa, Chicleison, Chicléber e... tem aquele senhor ali, mas não sei o nome dele. Chico e Chiquinha acenam para o velho sauim ao fundo, mas ele não se mexe. Está ocupado olhando para uma coisa branca com manchinhas pretas em cima. — Sejam bem-vindos – volta a falar o capitão Chicôncio. ­— Sabemos que esse lugar não é grande coisa. É um chiqueiro, na verdade, uma pocilga fedida e xexelenta. Mas enfim, melhor aqui do que na cidade. — O que é cidade? – pergunta Chiquelle. — É a floresta de pedra aí fora. — Detesto a cidade! – resmunga Chicote, soltando, em seguida, mais um jato de vômito.

24


O chiclete continua fazendo estragos no seu estômago. Sorte que dessa vez há remédio. O capitão retira uma folha de jucá de uma caixa de sapato e a dá para ele mastigar. Chiquinha sorri agradecida. — Muito obrigada, mas vocês poderiam dizer como vieram parar aqui? Chicôncio bate com seu palito no chão. — Companhia, sentido. Vamos contar nossa história para os amigos. Chiclaine se adianta mancando e fala: — A gente vivia numa mata linda, com ar puro, igarapés de águas cristalinas, árvores e animais de todos os tipos e tamanhos, e com diversos frutos doces como o mel sempre à disposição. Isso sem falar no colorido das flores e no canto da passarada. Era uma vida chibata. Uh, se era! Mas um dia os humanos, com a sua incontida fome por espaço, apareceram por lá, derrubaram nossas árvores e construíram suas casas de pedra.

25


Chicássia continua: — Cada um saiu correndo para um lado e viemos parar na cidade. Aí foi tudo para o beleléu. Olha o meu braço, quebrei quando fugi de uma mulher que queria me pegar. Chicreusa vai em frente: — Sei que não parece, mas nós somos os sortudos. Muitos amigos nossos acabaram não resistindo. Chicleison toma a palavra: — Eu estava me recuperando de uma mordida de ratazana quando encontrei o capitão embaixo de um carro quebrado. Ele tinha levado uma pedrada no olho. Em seguida, seria a vez do sauim idoso falar, mas ele não está nem aí. Segue olhando fixamente para a tal coisa de folhas brancas com manchinhas pretas em cima. Chicléber espera um pouco e conclui: — Aí vai daqui, vai dali a gente se reuniu numa praça. Nossa primeira decisão foi procurar um canto para viver... que é isso aqui.

26


Quando os sauins terminam de falar, Chico e Chiquinha olham um para o outro. Tudo está claro agora. Não restam dúvidas sobre o que aconteceu com a floresta onde viviam. O problema é que entender uma coisa nem sempre faz a gente se sentir melhor. Chico coça o nariz e pergunta: — Vocês pretendem continuar aqui o resto da vida? — Negativo – rebate com voz firme o capitão. — Nosso plano é sair. E vamos sair. — Como? – pergunta Chicote. Aí Chicôncio baixa a cabeça, entristecido: — Não sabemos. Depois daquele “não sabemos” todos se calam por um minuto, dois minutos, três. O silêncio chega até a incomodar. Mas então Chicleison lembra de algo e sorri: — Ei, está chegando a hora! — Hora do quê? – a pequena Chiquelle pergunta, surpresa com a mudança de assunto. — Do ritual do pôr do sol – Chicreusa esclarece. — E hoje vocês vão fazer os pedidos com a gente. É ou não é, pessoal? — Ééééé! – os sauins do beco confirmam. Menos, é claro, o velho. Ele continua olhando para o tal troço com folhas brancas e manchinhas pretas. — Epa, epa, epa! – Chiquinha coça a nuca. — Ritual? Pôr do sol? Do que vocês estão falando?

27


O capitão aponta para cima com seu palito de sorvete e os quatro erguem suas cabeças, vendo um quadradinho minúsculo de céu no espaço entre as construções. Logo depois, porém, raios de sol iluminam as folhas de uma samambaia no alto do mais alto daqueles prédios altíssimos. — Aquela é a Planta do Céu – explica Chicôncio. — Ela nos levará de volta para casa. — Como? – Chiquinha pergunta. — Aí temos um problema, minha cara. Para saber, ou ela teria que vir até aqui ou nós teríamos que subir até lá. — E por que não sobem? — Porque é uma missão de risco, e nossa tropa está um tanto escangalhada. — Eu vou – diz Chico.


— Não! – Chiquelle e Chicote contestam, correndo até ele e agarrando seu pelo com força. — As crianças têm razão – fala Chiquinha se aproximando. — É perigoso. — Eu sei, Chiquinha, mas pensa, se a planta pode levar a gente para casa alguém tem que tentar. A macaquinha olha para o parceiro com ternura e faz um afago em seu queixo. Ele responde passando a mão de leve pelo rosto dela. A bela cena é interrompida pela não tão bela voz do capitão Chicôncio: — Acho isso uma loucura, uma leseira, um despropósito, um disparate! Mas aceite os parabéns pela coragem. Os sauins do beco se emocionam ao ver Chico se aproximando do pé do edifício. Até que enfim alguém vai subir e falar com a Planta do Céu. Com calma ele agarra as partes salientes do concreto e sobe. Os primeiros metros são vencidos com rapidez, afinal ele tem larga experiência nos troncos das árvores. Porém, quando chega ao parapeito do sexto andar, um problema aparece: um problema peludo, com dentes pontiagudos e que late. Todos lá embaixo engolem em seco ao ver o tamanho do cão que tenta atacar Chico. E ficam desesperados quando o macaquinho perde o equilíbrio e se enrosca na tela de proteção da janela. — Ah! – lamentam.

29


O cão pula cada vez mais alto e se aproxima. Chico já está sem esperanças quando escuta um schh-schh-schh às suas costas. Ao virar a cabeça, quase morre de susto ao ver Chiquinha mordiscando a tela. Ela tanto cutuca, tanto puxa, tanto rói que afrouxa o fio e o tira dali. Na hora que Chico vai agradecer, Chiquinha põe um dedo sobre os lábios dele. — Espera, antes eu tenho que te pedir desculpas. — Por quê!? — Porque minha cabeça ficou bagunçada nesse lugar. Muito, muito. Tanto que não consegui ajudar em nada até aqui: você me salvou do atropelamento, salvou a Chiquelle no bacurizeiro e cuidou do Chicote. Essa leseira passou, Chico, eu voltei a ser a Chiquinha de antes. — Puxa, estava sentindo falta. Os dois sorriem, radiantes, mas logo vão embora. Em parte, porque o chato do cachorro continua latindo e em parte porque ainda há muito a subir. Chiquinha, agora, toma a frente na escalada e avança com cuidado e atenção. A certa altura, quando precisa dar uma parada para descansar, ela olha para cima. Talvez fosse melhor não ter olhado. — Ah, não! Não, não, não! Nuvens pretas se juntam no céu e o dia vai ficando escuro. Uma brisa fresca sopra e, instantes depois, a chuva cai. Chuva não, o que cai é uma tempestade, um pé-d’água, um toró daqueles de alagar o mundo. Os dois aguentam a pancada dos pingos grossos, até que uma rajada forte de vento faz o pé de Chico escorregar. Sorte que Chiquinha apanha seu braço com força e o segura durante o temporal. Só quando a chuvarada se acalma é que ela o solta e eles voltam a subir. Faltam doze andares. Lá embaixo, Chiquelle, Chicote e os sauins do beco quase não os enxergam mais de tão pequenininhos. Mas eles não param. Vão subindo, vão subindo, e após um esforço danado alcançam um ponto de onde se pode ver melhor a samambaia. Suas folhas brilham por causa do reflexo do sol nas gotas de chuva. Ela está linda!

30


Já com braços doendo eles vencem os últimos metros e chegam. A samambaia foi plantada num grande vaso dourado e sua folhagem é imensa. Assim que recuperam o fôlego, Chiquinha cutuca Chico. É hora de fazer o pedido. Ele limpa a garganta e começa: — Oh, assombrosa, majestosa, poderosa e bananosa... — Bananosa!? – Chiquinha pergunta. — Não existe essa palavra? — Sei lá, Chico. Mas vai, continua. — Oh, assombrosa, majestosa, poderosa e bananosa Planta do Céu, vós poderíeis nos ajudar?

31


Esperam um tempo e nada. Esperam mais um pouco, nada também. Esperam ainda mais um pouco. Nenhum som, nenhum movimento. Chiquinha resolve, então, fazer uma tentativa: — Boa tarde, dona Planta. Tudo bem? E a samambaia lá, imóvel. — O caminho da floresta, dona Planta, a senhora poderia nos mostrar? E a samambaia muda, quieta, mais calada que uma minhoca. Chiquinha ainda tenta algumas vezes. Fala alto, pula, puxa os pelos, mas só perde tempo. Chico cai em si e olha para baixo, todo jururu: — Esquece, Chiquinha. — Esquece o quê!? — É só uma planta. Ela não tem boca, não vai falar. Vem, vamos descer. Não deu.

32


Chiquinha não consegue sair do lugar. É que naquela hora lhe vêm à cabeça as lembranças do dia: a casa perdida, a fuga, o encontro com a cidade, a perseguição, a luta para subir até ali. Quer dizer que foi tudo à toa? Um tremor sobe pelo seu corpo e ela grita: — Aaaah, sua planta inútil, você não podia ter feito isso com a gente! Não podia, não, senhora, não podia! Fora de si, ela puxa as folhas da samambaia para lá e para cá. Repete isso tantas vezes e com tanta força que uma fresta se abre entre a folhagem. Chico arregala os olhos. — Faz de novo. — De novo o quê? — As folhas, mexe nelas. Quando Chiquinha atende o seu pedido, Chico escancara um sorriso tão largo que sua boca fica parecendo a de um jacaré.

33


Ela repara, então, numa abertura que se formou no meio das folhas. Uma mancha verde reluz ao longe: é a floresta. Os dois se sentam na beira do vaso dourado e riem sem parar – é o alívio. No dia seguinte, de madrugada, Chico, Chiquinha, Chiquelle, Chicote e a turma do beco seguem em direção à mata. Vão num passo rápido, exceto, claro, pelo velho caladão. Ele às vezes tem que parar para recuperar o fôlego e, com isso, vai ficando para trás. Chiquinha faz um sinal para Chico e os dois decidem se revezar para levá-lo nas costas. Não ouvem nem um “muito obrigado” em troca, mas pouco se importam. Nada pode estragar sua alegria. Seis horas depois, o grupo chega a um lugar onde as árvores são exuberantes, grandes e vistosas. Ali, vigias de uniforme cuidam para que as árvores não sejam cortadas, ou para evitar que algum malfeitor galeroso venha importunar os bichos. Os sauins não têm como saber, mas aquele lugar é uma reserva, uma área protegida, onde a vida deles estará a salvo. Seis meses depois eles mal cabem em si de tanta alegria.

34


35


É o início do inverno amazônico, época de chuvas constantes... e de novidades. Depois de 190 dias de gestação, como é comum nos sauins, Chiquinha dá à luz a gêmeos. São duas fêmeas: Chicolívia e Chicolga. Agora ela precisa comer frutos ricos em nutrientes para produzir bastante leite. Por sorte é um período de fartura de alimentos. Como os sauins não constroem ninhos, os membros da família têm que carregar as bebês nas costas para lá e para cá. Os filhotes precisam ser fortes. Não é fácil se manter agarrado ao pelo dos adultos vinte e quatro horas por dia, ainda mais a trinta metros de altura. Apesar de toda a satisfação, Chiquinha anda preocupada. As alegrias nunca duram para sempre; nem elas nem as tristezas. A vida alterna seus ciclos. O problema agora é outro. Os sauins jovens da reserva têm se encontrado ao entardecer para olhar as luzes da cidade. Eles querem ir até lá e descobrir por que elas brilham tanto. Chiquinha treme só de pensar no que lhes pode acontecer. Após noites em claro, uma ideia se forma em sua cabeça. “É isso!”, ela conclui.

36


— Vou convidar todos os sauins para a reunião mais importante que já houve aqui. Logo a notícia se espalha e até bichos retraídos como o cachorro-do-mato-de-orelhascurtas e o lagarto teiú ajudam no disse me disse. Só que ninguém sabia o motivo da reunião. Seria para tratar de algum problema cabeludo ou apenas uma conversa mole? Isso intrigava a todos. Dias depois, dezenas de macaquinhos se juntam em uma castanheira maceta no centro da reserva. Estão no maior rebuliço. Chiquinha sobe em um galho, pega coragem e fala:

37


— Pessoal, pedi para fazermos essa reunião porque quero dizer uma coisa: nunca deixem a floresta. Nós fomos criados para andar, saltar e correr pelas árvores e não por telhados, muros e ruas. A vida lá fora pode parecer encantadora, mas não é boa para nós. — É a pura verdade – diz o capitão Chicôncio, batendo com seu palito no chão. — São palavras muito sábias, sim, senhora. Mas os sauins jovens não parecem convencidos. Eles olham uns para os outros e fazem caretas. Chiquinha finge não ter notado e continua: — Os humanos que vêm aqui são bons. Eles respeitam a natureza, cuidam da floresta e de todos os bichos. Mas escutem o que vou dizer: nem todos os humanos são boa gente. Devemos tomar cuidado. Um dos sauins adolescentes não aguenta e solta a risada:

38


— Tomar cuidado com os humanos!? Ah, ah, ah! Eles são mais pesados que uma anta e mais lentos que um jabuti. Por que ter medo? Que perigo corremos? Nesse instante, uma voz fraquinha diz ao longe: — De extinção! Todos ficam pasmos ao ver que o dono da voz é o velho sauim do beco. Já meio banguela, cegueta e com pelos desbotados, ele se põe ao lado de Chiquinha: — Meu nome é Chicósmico, bom dia. — Bom dia – responde Chiquinha, assustada. — A senhora me permite falar? — Claro. — Amigos, eu tenho vinte anos. Isso é um bocado de tempo, pois como vocês sabem a maioria de nós não chega ao décimo-terceiro aniversário. Sobrevivi escapando de predadores, de doenças e da fome. Mas chega de bla-bla-blá. Escutem bem: nós corremos risco de extinção. Extinção significa desaparecer para sempre, escafeder-se, sumir, acabar.

39


Mães abraçam os filhotes. Pais pulam de um lado para outro babando de raiva e gritando: “Não vamos permitir que essa tal extinção chegue aqui”. Sereno, experiente e sábio, o velho Chicósmico volta a falar: — Eu decifrei a língua dos humanos. Estudei seu conhecimento em folhas brancas com manchinhas pretas que eles chamam de livros. Descobri que nós sauins estamos ameaçados de extinção porque as nossas florestas estão sendo destruídas para dar lugar a cidades, pastos e plantações. Também aprendi que florestas são muito mais do que um monte de árvores! Muito pelo contrário, são um verdadeiro tesouro. Nelas existem milhões de espécies de animais, plantas, fungos e microrganismos, e cada um deles tem uma função para o equilíbrio ecológico. Além disso, as florestas ajudam a regular o clima do planeta e garantem o fornecimento de água, alimentos, ar puro, remédios e muitos outros benefícios para os seres humanos, animais e plantas. Entretanto, alguns humanos acham que podem sair por aí derrubando a mata, pois a mãe natureza consegue recuperar tudo que foi destruído. Em alguns casos ela até se recompõe, mas em outros não. Aí muitos animais e plantas desaparecem e muitos outros precisam de ajuda para não desaparecer. É o nosso caso. Ou ficamos aqui, protegidos, ou contribuiremos para nossa própria destruição. As palavras deixam todos em choque. Até os sauins jovens ficam de rabo caído e se calam.


Mas então o rosto de Chiquinha se ilumina e ela faz uma pergunta: — Chicósmico, você disse que aprendeu a língua dos humanos, não disse? Você aprendeu coisas sobre eles nos livros, não foi? Antes que o velho confirme, o tagarela do capitão Chicôncio se antecipa. — Disse sim, senhor. Ouço muito bem apesar dos pelos na orelha, e juro pela banana sagrada que ele falou isso. Depois que o velho Chicósmico concorda fazendo sim com a cabeça, Chiquinha continua: — Os humanos são a causa dos nossos problemas, não é? Mas se eu entendi bem, eles podem ser parte da solução. São eles que destroem as florestas, mas também são os únicos que podem parar essa destruição, criando áreas protegidas como esta. Eles só precisam entender a importância da natureza e o quanto estão interligados com ela, não é? — Sim – concorda o velho. — O que você acha então de a gente escrever um livro sobre nós na língua dos humanos? Vamos contar nossas histórias e educá-los para que conservem a natureza que compartilhamos com eles.

41


— Puxa, é uma bela ideia! – Chicósmico se admira. Os bichos aplaudem, a alegria é geral. Chico bate no peito, Chiquelle dá piruetas e Chicote pendura-se num galho e balança de um lado a outro. Chiquinha olha amorosamente para as suas bebês e continua: — A luta está só começando. Junto com os homens, mulheres e crianças nós vamos salvar os sauins da extinção, protegendo as florestas. Para finalizar, sobe até o galho mais alto da castanheira, arrepia os pelos e grita:

42


— Viva as florestas do sauim-de-coleira! Na maior algazarra, a bicharada repete: — Vivaaaa!!! Naquele mesmo dia, ao entardecer, Chiquinha sobe a uma árvore alta e passa horas ali olhando o horizonte. Mãe e líder de uma família vencedora, ela tinha alcançado o auge de uma vida rica, desafiadora e completa. A perda da sua floresta poderia ter sido seu fim, mas, ao contrário, foi um recomeço. As dificuldades que enfrentou a transformaram. Ela não está só sobrevivendo, está triunfando. E mais ainda agora, que você leu este livro. Chiquinha espera que a mensagem da conservação do sauimde-coleira encontre um lugar no seu coração e que você sinta orgulho de ser um dos guardiões desse macaquinho tão especial.

FIM

43


o livro e o instituto sauim-de-coleira O sauim-de-coleira, cujo nome científico é Saguinus bicolor, é um pequeno primata, que pesa cerca de 500 gramas. Ele vive em grupos compostos por até 13 indivíduos, com uma hierarquia social bem definida e complexa, girando em torno de uma família, formada por um casal reprodutor dominante, seus filhotes de idades diferentes e alguns “agregados” (animais vindos de outras famílias da região). A criação dos filhotes é cooperativa e todos os membros do grupo participam dos cuidados: proteção, alimentação, catação e até na brincadeira. Esses macaquinhos só existem numa pequena área de 7.500km2, localizada no estado do Amazonas, englobando parte dos municípios de Manaus, Itacoatiara e Rio Preto da Eva. Significa dizer que o sauim não existe em mais nenhum lugar do mundo e que nós somos os guardiões dessa preciosidade da natureza. Ele é muito querido! É mascote oficial da cidade de Manaus e tem o dia 24 de outubro como seu dia. Apesar dessa importância, infelizmente a espécie está “Criticamente em Perigo de Extinção” devido ao

processo acelerado de desmatamento dessa região. Isso tem promovido a perda e a fragmentação do seu hábitat natural. A situação é tão grave que recentemente a espécie passou a fazer parte de uma lista internacional dos 25 primatas mais ameaçados do mundo. Considerando que é inútil qualquer tentativa de salvar o sauim sem que a população humana compreenda e participe desse esforço de conservação, o Instituto Sauim-de-coleira celebra este livro. Conhecendo a importância desse macaquinho e da Floresta Amazônica o leitor poderá construir valores sociais, conhecimentos, habilidades e atitudes voltadas para a conservação desses tesouros naturais que temos.

www.institutosauimdecoleira.org.br

Manaus

Rio Preto da Eva

Amazonas

Área de distribuição do Sauim-de-coleira

iara o at It a c


olá amigos! eu sou o chicote Você também pode ajudar a salvar o sauim-de-coleira e as florestas, basta ter atenção e praticar ações simples, mas que fazem a diferença. Vejam alguns exemplos:

Formar um grupo em sua escola ou comunidade para discutir sobre a conservação do sauim e das florestas, compartilhando informações nas redes sociais;

Denunciar os desmatamentos e as queimadas na região onde você mora, entrando em contato com as autoridades locais ou pedindo que um adulto faça isso;

Plantar árvores onde as florestas foram destruídas;

Apoiar a criação de áreas protegidas e unidades de conservação;

Apoiar instituições que defendem o meio ambiente e participar de campanhas para conservação do sauim-de-coleira e da Floresta Amazônica;

Não comprar animais silvestres e nem aceitar mantê-los em casa. É crime! A retirada de animais silvestres da floresta é responsável pela extinção de muitas espécies e, consequentemente, pelo desequilíbrio do meio ambiente. Em casa, apenas mantenha animais domésticos (gatos, cachorros etc.);

Cobrar ações de políticos (vereadores, deputados, prefeitos e governador) para a proteção do sauim-de-coleira e das florestas;

Não queimar o lixo doméstico ou as folhas secas do quintal, isso pode provocar incêndios florestais. Aproveite esse material orgânico para fazer compostagem e adubar as plantas do jardim e da horta.


propostas de atividades para pais e professores •

PRÉ-LEITURA

Folhear o livro, numa rápida leitura preliminar, para prever as sequências da história.

Esclarecer os conhecimentos prévios necessários para o entendimento do texto.

Realizar uma reflexão sobre o conteúdo, através do exame do título da obra, da capa e do folheio das ilustrações, buscando identificar os personagens, o contexto e a trama da história. Depois, permitir que manifestem as suas expectativas.

Solicitar que leiam o pequeno texto da contracapa do livro em voz alta. Com base nele, estimulá-los a levantar as hipóteses sobre a história.

Solicitar que reflitam sobre os impactos de ter de ir embora da sua casa, deixando para trás a escola, parentes e amigos. Convidá-los para compartilhar essas emoções.

Este material fornece orientações para o educador incentivar uma reflexão sobre a relação do homem com natureza e promover o gosto pela leitura, podendo assim influenciar de maneira positiva no desenvolvimento social, emocional e cognitivo da criança e do jovem.

• •

DURANTE A LEITURA

Discutir os conceitos da obra. Levantar os problemas vividos pelos sauins e suas soluções.


PÓS-LEITURA

Identificar a trama da história.

Explicar a importância do sauim-de-coleira para a conservação da floresta e para os humanos. (Saiba mais: www.institutosauimdecoleira.org.br)

Solicitar que recontem a história usando apenas as ilustrações.

Propor a continuidade da história através de redação, teatro ou história em quadrinhos.

Refletir sobre a extinção de uma espécie, o impacto que isso causa para o equilíbrio ecológico e a sua repercussão para as nossas vidas. Sugerimos a realização da dinâmica chamada “Teia da Vida”, que aborda como os seres vivos e não-vivos se relacionam entre si. Veja o link: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=15680.

Aprofundar os temas abordados na obra, propondo uma conversa sobre: 1. O que é desenvolvimento sustentável? (Saiba mais: https://www.oeco.org.br/dicionario-ambiental/28588-o-que-e-desenvolvimento-sustentavel/) 2. Qual a importância da Floresta Amazônica? (Saiba mais: https://ipam.org.br/cartilhas-ipam/a-importancia-das-florestas-em-pe/) 3. Aborde os serviços ecossistêmicos e sua importância para nosso bem-estar (Saiba mais: https://www.oeco.org.br/dicionario-ambiental/28158-o-que-sao-servicos-ambientais/) 4. O que são unidades de conservação, seus objetivos e importância? (Saiba mais: https:// www.oeco.org.br/dicionario-ambiental/ 27099-o-que-sao-unidades-de-conservacao/)


sauim-glossário • Abiu – fruto do abieiro, uma árvore nativa da Amazônia e da Mata Atlântica. • Araçá – nome do fruto dado a várias espécies de araçazeiro, comuns em todo o Brasil. • Baqueado – doente, fora do normal. • Brocado – com muita fome. • Cachorro-do-mato-orelhas-curtas – mamífero da família Canidae que só ocorre na bacia amazônica. • Carapanã – mosquito. • Chibata – coisa muito boa. • Copaíba – árvore da região amazônica, usada popularmente para fins medicinais. • Cutia – roedor de médio porte, comum em todo o Brasil. • Espigões – prédios com muitos andares. • Galeroso – sujeito mau elemento, que ataca em bando. • Gato-maracajá – pequeno felino silvestre encontrado em boa parte do Brasil. • Goiaba-de-anta – árvore amazônica cujos frutos são parecidos com a goiaba. • Goma – resina produzida por árvores para fechar feridas abertas na sua casca. • Guariba – nome dado a espécies de macaco, comuns da América do Sul e Central, cuja vocalização pode ser ouvida a quilômetros de distância. • Ingá – fruto da árvore ingazeiro. • Igarapé – rios pequenos.

• Jacamim – ave de médio porte, nativa da Amazônia, que habita o solo da floresta. • Jucá – árvore amazônica cujas folhas possuem propriedades medicinais. • Leseira – Atitude estúpida ou tola. • Maceta – grande ou imenso • Macuco – ave de médio porte, que habita o solo das florestas brasileiras. • Marupá – árvore amazônica que produz frutos pequenos, consumidos por muitos animais. • Murici – árvore pequena, que ocorre em boa parte do Brasil e produz pequenos frutos amarelados e saborosos. • Ouriço-cacheiro – roedor arborícola, de médio porte, que possui o corpo coberto por pelos duros e pontiagudos. • Saracura – ave com pernas compridas, que frequenta áreas alagadas. • Sorva – fruto da sorveira, árvore comum na Amazônia, que produz um látex espesso, branco e viscoso, que é comestível e de paladar adocicado. • Sumaúma – árvore de grande porte, comumente encontrada em áreas da várzea amazônica. • Taturana – lagarta de borboleta com corpo peludo. • Teiú – o maior lagarto brasileiro. • Veado-mateiro – espécie de veado encontrado em boa parte do Brasil. • Viela – rua estreita.


homenagem

Esta obra é dedicada ao querido professor Dr. Milton Thiago de Mello, que aos 104 anos de idade, é um dos mais importantes personagens da primatologia brasileira e latino-americana.

PROF. MILTON THIAGO DE MELO

autores MAURÍCIO NORONHA

Biólogo, mestre em Ciências Ambientais e Florestais e especialista em Manejo de Animais Silvestres. É fundador e diretor executivo do Instituto Sauim-de-coleira e coordenador da Campanha SALVE O SAUIM. É autor de artigos científicos e livros sobre temas amazônicos, entre eles “Sauim-de-coleira: A história de uma espécie ameaçada de extinção”.

Bióloga, mestre em Ecologia, especialista em Manejo de Animais Silvestres e Educação Ambiental. É fundadora e diretora administrativa do Instituto Sauim-de-coleira. Integra o comitê de várias campanhas educativas de espécies ameaçadas de extinção. Publicou livros e cartilhas de conteúdo ambiental. Recebeu várias homenagens pelo seu trabalho.

MARCUS E AUR LIUS PIMENTA

DAYSE CAMPISTA

Jornalista de formação trabalhou na área por dez anos antes de se tornar escritor e roteirista. É autor de outros vinte e três livros para os públicos adulto e infantil, com destaque para “Terra Papagalli” e “Chapeuzinhos coloridos”. Além disso, escreveu sete roteiros de longa metragem, duas séries de animação e dez documentários.

ilustrador

Inicia na adolescência, publicando cartoons, e constrói uma premiadíssima carreira de ilustrador e de artista plástico. Cursou Comunicação Visual na FAAP-SP. Trabalhou nas grandes editoras e com os produtores da Vila Sésamo. Desde os anos 80, entrega-se também à pintura, projetos editoriais e ilustração para as principais publicadoras do país.

ROGÉRIO BORGES


O imaginário e a realidade se encontram no livro “Os Sauins-de-coleira e a Planta do Céu”. Essa fascinante história conduz o leitor pelas aventuras vividas por uma família de sauins-de-coleira na busca de uma floresta para morar, e trabalha temas como valorização do meio ambiente, biologia e ecologia. Assim, divertindo e instruindo, a obra tem a intenção de sensibilizar as crianças para a conservação desse macaquinho, mascote oficial da cidade de Manaus e que corre o risco de desaparecer das nossas matas, bem como despertar o sentimento de pertencimento à cultura amazônica. Na última parte do livro estão sugestões para capacitar pais e professores a desenvolverem atividades interativas, que favorecem a reflexão sobre comportamentos de respeito à natureza e o gosto pela leitura. A obra é destinada ao público infantojuvenil a partir dos 8 anos de idade. apoio

patrocínio

Profile for ossauinsdecoleiraeaplanta

Os sauins-de-coleira e a planta  

O imaginário e a realidade se encontram no livro “Os Sauins-de-coleira e a Planta do Céu”. Essa fascinante história conduz o leitor pelas av...

Os sauins-de-coleira e a planta  

O imaginário e a realidade se encontram no livro “Os Sauins-de-coleira e a Planta do Céu”. Essa fascinante história conduz o leitor pelas av...

Advertisement