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# 00

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MAR 2010

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magazine

b fachada

de cultura

novo concerto

richard c芒mara

urbana

na ZDB

o artista n贸mada


magazine de cultura urbana # 00 | MAR 2010

mais, positivo propriedade, projecto editorial e gráfico, paginação vasco lopes www.vlgraphicdesign.com vlgraphicdesign@gmail.com colaboradores arlete gonçalves ivo meco jorge castro nuno nóbrega paulo lopes

Todos os conteúdos (textos, imagens, anúncios) têm todos os direitos dos autores reservados. Qualquer reprodução com fins profissionais ou comerciais, mesmo que parcial, e por qualquer processo, é formalmente proibida e dará lugar a sanções penais.


Ă­ndice

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no meu bairro texto nuno nóbrega

No meu bairro, já não há grafittis. Existia um muro de um velho quintal onde se escrevera “Joana amo-te para sempre. Ass. Paulo”, mas, quando com a mesma tinta de spray riscaram a frase e escreveram “puta” por cima, a junta de freguesia decidiu deitá-lo abaixo e usar o baldio para colocar um ecoponto. Eu não gosto de ecopontos porque, à semelhança do que sucede com as manadas que tantas cidades gostam de ver a modorrar por ocasião da pirosa CowParade, aqueles rapidamente se transformam em instalações de lixo através das quais os habitantes locais personalizam - em vez de vacas de fibra de vidro - conjuntos tricolores de contentores plásticos. Até consigo usufruir de um certo prazer estético quando observo lixo, o que não suporto são esses petulantes exercícios artísticos contemporâneos a que se designam por “instalações”, já tendo perdi-

do a conta ao número de exposições nas quais dei por mim a questionar-me se o extintor de incêndio colocado na parede fazia parte ou não da obra criativa adjacente. Os miúdos do meu bairro, felizmente, também não gostam de ecopontos – e tal como eu, presumo, prefeririam deitar o lixo em cestas gigantes de vime madeirense criadas pela Joana Vasconcelos, revestidas a arame farpado colocado pelas próprias mãos da artista – e, assim sendo, decidiram uma noite incendiar o dito cujo, impelidos, com certeza, pelo prazer que a admiração pirotécnica suscita. Como estava a dormir, perdi este espectáculo de fogo, mas, em compensação, quando o sol começou a raiar no horizonte, pude contemplar a massa derretida e ainda fumegante, e apenas nesse momento tive em conta a sensibilidade artística daqueles que, na Sociedade Ponto Verde, decidiram 6


atribuir as cores primárias a tais contentores. A raison d’être desta escolha e, logo, dos ecopontos é - só pode ser - serem derretidos e, assim, transformarem-se em expressões artísticas locais singulares, pois os habitantes das ruas servidas por um ecoponto terão padrões de consumo, de produção de lixo e da respectiva triagem únicos e, em suma, cada ecoponto derretido será sempre uma obra inusitada, sociologicamente determinada. A junta de freguesia, adivinhava-se, não concordou comigo e, por isso, recusou a minha colaboração na tentativa de encontrarmos os autores daquela façanha para colocarmos junto do ecoponto uma pequena placa com os dizeres “Fulano, sicrano, beltrano. Plástico, papel e vidro. 2010”. Ao invés, decidiram-se pela construção de um jardim moderno e, assim, após poucas semanas, o pequeno e velho baldio recebeu três palmeiras com as folhas amarradas, um pavimento em cimento, um pequeno caixote de lixo plástico e dois bancos de jardim metálicos, fornecidos por uma empresa de gosto duvidoso, mas com boas e saudáveis relações com a divisão camarária para o mobiliário urbano. Do ecoponto derretido não ficou qualquer vestígio e, talvez revoltados por se sentirem artistas caídos no esquecimento, os miúdos do meu bairro queimaram primeiro o pequeno caixote e, em seguida, convenceram os seus pais e demais familiares a transformar aquele espaço num reservatório de crescente e deveras criativa deposição de lixo. No meu bairro, já não há grafittis porque, tal como a Joana e o Paulo, ninguém se ama. +

“... já tendo perdido a conta ao número de exposições nas quais dei por mim a questionar-me se o extintor de incêndio colocado na parede fazia parte ou não da obra criativa adjacente.”

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richard câmara

o artista nómada Metódo, disciplina, objectividade, persistência, versatilidade. Afinal, a vida de um ilustrador não é ‘só fazer bonecos’.

texto vasco lopes + ilustrações richard câmara


SerigraďŹ a do projecto Falsos Amigos, da Mostra Portuguesa de 2009


“...há dias em que já não sei se vivo no estúdio ou se trabalho em casa... mas não me queixo!...”

A versatilidade de Richard Câmara não se nota apenas nas ilustrações e obras gráficas. É também evidente num ‘nomadismo’ constante, que o habituou a estar sempre pronto e motivado para os vários desafios profissionais que vão surgindo. “’Quem corre por gosto, não cansa’ e, se a isto somarmos disciplina e alguma sistematização, tudo se faz. Dedico sempre parte do dia a desenhar e procuro manter um ritmo constante de trabalho que me permita ir desenvolvendo várias colaborações ao mesmo tempo, o que me estimula imenso. Estou de tal maneira habituado a (con)viver com o trabalho, que há dias em que já não sei se vivo no estúdio ou se trabalho em casa... mas não me queixo!”, justifica. Ser nómada também lhe está no sangue, no nome, na biografia: filho de pais portugueses, Richard nasceu em 1973, em Bruxelas, e já viveu em Milão, Roma, Lisboa. Desde 2006, Madrid tornou-se num lar permanente, mas são frequentes as deslocações e temporadas em Lisboa, onde se mantém como docente convidado do Centro de Imagem, Estudos, Arte e Multimédia (CIEAM) da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, para dar workshops e formações ligadas à ilustração.

Madrid e Lisboa são locais fulcrais para o seu trabalho, mesmo nas respectivas culturas urbanas: “há uma diferença substancial que tem a ver com a escala e que se faz notar na quantidade (mas nem sempre na qualidade) das manifestações culturais destas duas cidades. Pessoalmente sinto atracção por ambas e como muitas vezes parece que tenho um pé de cada lado da fronteira, não as modificaria em nada porque acho que de alguma forma se complementam.” Arquitecto de formação, Richard deixou-se conquistar há muito pela banda desenhada e ilustração. Em muito terão contribuído referências e obras como as de “Saul Steinberg, Jan Mlodozeniec, Blutch, João Abel Manta, André François, Eduardo Muñoz Bachs, só para citar alguns”. Com colaborações em Portugal e no estrangeiro, em revistas, editoras, concursos, exposições, projectos artísticos e vários jornais (El Mundo, Diário de Notícias, Expresso, Independente, Público, Sol e recentemente no i), Richard assume que o mercado da ilustração nacional “já teve melhores dias (numa época que coincidiu com as saudosos Salões Lisboa e as Mostras de Ilustração Portuguesa 11


“...agências de criativos (...) que têm tido um efeito perverso e pouco claro na forma como medeiam o intercâmbio comercial entre os seus agenciados e os seus clientes...” organizados pela BeDeteca de Lisboa). Directo e objectivo, aponta o ‘dedo à ferida’ e justifica com alguns motivos. “Primeiro: o efeito de desvalorização do trabalho de muitos ilustradores devido à mediática ‘crise’, da qual ainda tardaremos a sair e que parece estar instalada, sobretudo dentro das nossas cabeças... Segundo: o aparecimento e instalação das agências de criativos (nos quais se inserem também os ilustradores) que têm tido um efeito perverso e pouco claro na forma como medeiam o intercâmbio comercial entre os seus agenciados e os seus clientes (editoras, jornais, revistas, agências de publicidade, etc.); a falta de transparência nos preços, a ausência ou atrasos injustificados nos pagamentos e outras situações menos claras, só têm contribuído para o contínuo mal-estar, desconfiança e em nada favorecem todos os que trabalham ou querem trabalhar neste mercado... E, por último: falta-nos um certo sentido de classe profissional, o que faz que cada ilustrador esteja virado só para os seus problemas, passando por situações evitáveis caso falássemos e aprendêssemos uns com os outros, passando informação relativamente

aos bons e maus clientes, preços praticados, processos de trabalho, etc; noutros países existem sempre uma ou mais associações de ilustradores que regulam e orientam os seus associados, de forma a haver tabelas de preços mínimos e procedimentos para tornar tudo mais claro e simples (o que ajuda todos os envolvidos no processo, desde os ilustradores, passando pelas agências até aos clientes finais); mas esta ideia nunca vingou em Portugal, apesar de todos estarmos fartos de saber que ‘a união faz a força’…” Além disso, para quem tem interesse ou esteja minimamente atento, tornou-se óbvio que a ilustração está mais ‘democratizada’. Segundo o artista, “ganhou sobretudo identidade própria. Houve autores cujo trabalho abriu caminho para o que vivemos hoje, mas não eram exclusivamente ilustradores (também eram designers gráficos, arquitectos de interiores, artistas plásticos, desenhadores,…). Hoje, os ilustradores passaram a ser profissionais com maior visibilidade e um espaço mais vasto para desenvolver o seu trabalho: nas páginas de livros, suportes de campanhas publicitárias, embalagens de produtos, paredes de galerias de arte, blogs, 12


Ilustração seleccionada para concurso internacional sobre o tema Chaves, 2008


Vários trabalhos dos seus portfólios de ilustração e diários, 2007-2009


Desenho em diário gráfico, 2009

websites, entre outros. Nesse sentido, a ilustração popularizou-se.” Assim, para quem queira lançar-se no mercado como ilustrador, eis as sugestões de Richard: “1. procurar a(s) sua(s) identidade(s) gráfica(s), independentemente do que peça o mercado; 2. tentar manter-se atento(a), informado(a) e curioso(a) por tudo aquilo que se passa à sua volta; 3. desenhar sempre que possível; 4. aprender a ver e a pensar em ilustração com tudo o que aparentemente nada tem a ver com ilustração (teatro, cinema, música, viagens, exposições, etc.); 5. ser perseverante, paciente e não perder o sentido de humor!” Richard não se detém e o percurso nómada é para manter. 2010 é o ano “da continuação de velhas e do início de novas colaborações. De mais exposições, mais workshops, mais pro-

jectos. Da publicação de novos livros. E sobretudo do regresso à BD.” Ao longo do percurso terá, quase inevitavelmente, a companhia dos seus diários gráficos (um livro ou caderno de fácil transporte com páginas livres para esboçar, desenhar). Sem dúvida, outra das suas grandes paixões, como se nota: “toda a aprendizagem (e ainda para mais nas artes) deveria ser entendida como um longo e ininterrupto percurso. Nada está realmente acabado e tudo pode ser reformulado, melhorado. Os diários gráficos surgiram da necessidade de experimentar ideias e técnicas num suporte livre dos constrangimentos das encomendas oficiais. Servem-me para desenhar dentro e fora do estúdio, num processo de ‘tentativa e erro’, agilizando tanto a mente como a mão. E de repente começaram 16


“Os diários gráficos (...) servem-me para desenhar dentro e fora do estúdio, num processo de ‘tentativa e erro’, agilizando tanto a mente como a mão.” a ganhar uma certa autonomia no conjunto do meu trabalho... Quando comecei, estava longe de imaginar que com os meus diários gráficos pudesse participar em exposições (como a que está na Galeria Municipal Paços do Concelho em Torres Vedras até 31 de Março), ser convidado para fazer parte de uma comunidade internacional (como a UrbanSketchers.com) ou até ser pago para publicarem os meus desenhos de viagem... Mas tudo isto está realmente a acontecer.”

No final da entrevista, Richard provou a importância que é dada hoje em dia aos diários gráficos (mas deu provas também da persistência, da objectividade, do método e do nomadismo que o caracterizam): “vou agora para o Brasil contratado por um jornal que quer publicar o que lá desenhar nos meus diários gráficos”. O tempo urge e Richard tem que partir, mais uma vez. “Quem corre por gosto, não cansa”. Boa viagem, Richard. Até breve, algures. + www.richardcamara.blogspot.com

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num dia igual aos outros

em nome do pai Nuno Lopes e Gonçalo Waddington como dois irmãos separados pelo tempo, num drama psicológico e intenso encenado por Marco Martins. texto vasco lopes + fotografia josé pedro sousa

Num dia igual aos outros. Dois irmãos reencontram-se ao fim de 23 anos. É o despoletar do choque, a revelação de uma família disfuncional, a busca de respostas sobre o passado, de uma possível salvação para duas personagens em tormento. A acção decorre em tempo real no cenário de uma sala, espaço de combate, revelações. Uma, sombria, é a do misterioso desaparecimento do pai. Escrita pelo dramaturgo americano John Kolvenbach, a peça estreou no Comedy Theatre, em West End, com Woody Harrelson e Kyle MacLachlan como intérpretes.

A partir de 11 de Março, na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, pode assistir-se à versão e encenação portuguesas, a cargo de Marco Martins. Encenador e cineasta (realizou Alice, um dos filmes portugueses mais memoráveis dos últimos anos), dirige dois dos melhores actores na sua geração: Nuno Lopes e Gonçalo Waddington. Em palco até 18 de Abril.

+ www.teatro-dmaria.pt

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a felicidade, amanhã...

o tempo passa... Álvaro Correia revisita o universo insólito de Beckett e cria um espectáculo ousado.

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A partir de alguns textos de Samuel Beckett, A Felicidade, Amanhã... volta à condição humana, às personagens colocadas em situações-limite: por exemplo, como se lê na sinopse, “um homem nu que executa acções confinado a um espaço” ou “três cabeças enterradas falam sobre a sua vida sem se relacionarem”. Mas esta peça é também, nas palavras do encenador Álvaro Correia, “sobre o acreditar de um devir outro que pode ser o de uma possível felicidade (mesmo que já se tenha passado por ela) que chegará numa amanhã indeterminado.” Até 28 de Março, na Comuna. + www.comunateatropesquisa.pt

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© Copyright 1968 The Hearst Corporation (King Features Syndicate Division) e Subafilms Ltd.


yellow submarine

emerge, de novo Mais que o ‘hype’ do ‘remake’ em 3D (estreia anunciada para 2012) importa a versão original, de 1968. ‘Yellow Submarine’, filme de animação, é um marco visual, representativo de uma década. texto vasco lopes

A revista Variety revelou a notícia e Paul McCartney tocou no assunto, subtil e metaforicamente, na última edição dos Globos de Ouro: “(Yellow Submarine) it´s about to resurface”, disse, com humor. Os puritanos do culto têm estado agitados na indignação: fazer um remake de uma obra que muitos acham perfeita, intocável, é como sujar um objecto sagrado. Na verdade, além dos incontáveis (e muitas vezes injustificáveis) remakes, tem havido sinais que a febre do cinema 3D está a tomar conta dos grandes estúdios. Solução desesperada para salvar a indústria das actuais fragmentações audiovisual e de público? Talvez.

A polémica, porém, não deverá evitar o sucesso do filme, com realização de Robert Zemeckis e estreia prevista em 2012. Até por curiosidade para, depois, se poder confirmar o mal… ou a renovação do culto. O culto (e isto, sim, é o mais importante) começou no auge do flower power e do psicadelismo dos anos 60. O fulgor da revolucionária animação (cores intensas, formas extremamente gráficas, look surrealista, técnicas inovadoras), aliada a uma história fantástica (repleta de paz, amor, esperança) e à música dos Beatles, fizeram com que o filme tenha capturado, de forma certeira, o espírito sixties, a sua época de idealismos. 23


Fundamental para o visual inconfundível foi o trabalho do designer gráfico e ilustrador Heinz Edelmann. Como director artístico e responsável pelo desenho das personagens, contribuiu também para perpetuar o culto. Edelmann considerou, desde início, que Yellow Submarine deveria ser um conjunto de episódios curtos interligados, com o estilo a variar frequentemente, de forma a manter o interesse dos espectadores até ao final da projecção. De facto, assim foi. Poucas dúvidas há que Edelmann ficou para a História com este filme (nota de curiosidade: foi autor também de Curro, a mascote da Expo ’92, em Sevilha). E é assim que os 4 elementos dos Beatles surgem como figuras animadas, seguindo viagem num submarino amarelo. Missão: salvarem o paraíso Pepperland dos sinistros Blue Meanies, que

querem extinguir toda a música e felicidade no reino. Na época, a banda nem sequer considerou Yellow Submarine como um projecto primário, e mesmo as vozes não eram as originais, dos elementos da banda. Porém, o entusiasmo cresceu e concordaram inclusive participar na sequência final, num cameo, em carne e osso. A música, claro, foi a inspiração principal para todo o projecto. Temas históricos como Lucy In The Sky With Díamonds, All You Need Is Love, Eleanor Rigby, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, When I’m Sixty-Four ou Yellow Submarine integram a banda sonora. Canções notáveis e imagens criativas, num filme que reforçará para sempre o legado Beatles. Antes da renovação digital anunciada, fica o conselho: alugue ou compre o dvd da versão original e surpreenda-se. +

Os famosos McFarlane Toys, representando os Beatles, Blue Meanie (ao centro) e o submarino (em cima)


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rashomon na cinemateca

kurosawa clássico Filme de 1950, vencedor do Leão de Ouro em Veneza e do Oscar para Melhor Filme Estrangeiro, ‘Rashomon’ vai ser exibido dia 22, na Cinemateca. conhecida a partir de pontos de vista muito diferentes. Cada personagem ligada ao crime revela a sua versão, a sua verdade da história e o espectador é assim confrontado com os tons misteriosos da narrativa, aliada a uma bela fotografia a preto e branco que acentua, mais ainda, a carga dramática. jc

Diz-se, na história do cinema, que Rashomon apresentou o cinema japonês ao grande público do Ocidente. Uma das obras maiores de Akira Kurosawa, Rashomon (Às Portas do Inferno, na tradução lusa) converteu-se em clássico e pode ser (re)visto na Cinemateca, dia 22, às 21h30. Tendo como base o conto O Bosque, de Akutagawa, um crime violento numa floresta é o ponto de partida para o espectador ser desafiado, assumindo-se que a verdade pode ser

+ www.cinemateca.pt

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b fachada na zdb

silêncio para cantar B Fachada regressa à Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, para novo concerto, a 25 de Março. Músico do auto-proclamado folque(lore) erudito, Bernardo Fachada não reúne consensos. O nome e as canções deste cantautor e multi-instrumentista de Cascais só há poucos anos começaram a chegar a um público mais vasto. Mas B Fachada - não se duvide - é um dos artistas portugueses do momento, parte integrante e importante de uma nova geração de músicos e cantores. Habita nele uma certa tradição oral, com letras a surgirem de formas inesperadas e pouco simplistas, em baladas distantes do facilitismo comercial. Admire-se ou não, o seu último álbum (o homónimo B Fachada) foi considerado por muitos (público e crítica) um dos melhores de 2009. Porém, a par desta admiração (pela originalidade, por uma certa extravagância e sonoridade tradicional-alter-

nativa), há também ouvidos cépticos, não convencidos com o proclamado talento do artista. Para uns e outros, fica a sugestão: concerto de B Fachada, Galeria Zé dos Bois (Lisboa), dia 25 deste mês, 23 horas. Cumpra o silêncio desejável, escute os temas com atenção e, depois, tire conclusões. jc

+ www.zedosbois.org

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jónsi, ‘go’

Go é a estreia a solo de Jónsi, o conhecido vocalista dos Sigur Rós. A voz e a sonoridade mantêm-se reconhecíveis, mas uma maior luminosidade e um maior ritmo parecem ser aqui dominantes. Inicialmente previsto como um álbum acústico, Go acabou por explodir numa paisagem sonora multidireccional. O lançamento oficial é a 5 de Abril, mas alguns temas já se fazem ouvir. jc

da islândia, com amor O vocalista dos Sigur Rós estreia-se a solo e está mais colorido que nunca.

+ http://jonsi.com

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caribou, ‘swim’

mergulho na dança O novo trabalho de Caribou (projecto do canadiano Dan Snaith) é lançado a 20 de Abril, na Europa. ‘Swim’ promete dança.

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Dan Snaith quis fazer música de dança líquida. E Odessa já abre o apetite: este tema de apresentação de Swim, novo álbum de Caribou, é música electrónica inteligente, imenso em texturas e camadas sonoras harmoniosamente sobrepostas. O corpo é chamado à dança e os ouvidos pedem audições múltiplas. Odessa tem download gratuito em www.caribou.fm/swim_ download/. Se todo o álbum for assim, temos obra. jc

+ www.myspace.com/cariboumanitoba

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Movement 36 (detalhe), 2002, de Owusu-Ankomah, um dos artistas da mostra Ă frica 2.0


áfrica 2.0

upgrade artístico Até 27 Março, na Influx Contemporary Art, questiona-se: há uma arte africana contemporânea? “A expressão ‘2.0’, embora inicialmente circunscrita ao mundo da informática, é actualmente utilizada, de forma mais abrangente, como sinónimo de evolução. ‘2.0’ designa algo que evoluiu a partir de uma ‘versão’ anterior (1.0).” Neste excerto da apresentação da mostra artística África 2.0 o objectivo torna-se evidente: revelar a evolução daquela que é habitualmente considerada a arte africana, nos seus conceitos de arte tradicional, primitiva, tribal. A exposição colectiva na Influx Contemporary Art, em Lisboa, é uma mostra de arte moderna que vai de encontro a uma nova perspectiva, uma nova visão sobre os estereótipos associados ao que habitualmente conhecemos, sabemos e intitulamos de arte africana.

Até 27 de Março, África 2.0 expõe obras de vários artistas africanos (nas áreas de pintura, escultura, fotografia, video e instalação), como Chéri Cherin, Owusu-Ankomah ou George Lilanga, nomes já bem conhecidos do público da arte contemporânea e com trabalhos habitualmente presentes nas grandes colecções públicas e privadas de todo o mundo. jc

+ www.influxcontemporary.com

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Cerca de vinte pinturas, uma dezena de trabalhos sobre papel, além de uma instalação em grande escala constituem a exposição Botanica Flesh: Portraits, de Clara Martins, na Galeria de Arte Contemporânea António Prates (Lisboa). Segundo a artista, esta exposição “é uma série de trabalhos que constrói diversos universos de interacção entre a ciência botânica e a biologia humana.” Os padrões e as formas híbridas das suas criações comprovam-no. Nascida em 1973, em Lourenço Marques (Maputo), Moçambique, Clara Martins vive e trabalha em Portugal e na Austrália desde 1997. Estudou Belas Artes no College of Fine Arts da University of New South Wales, na Austrália, onde também concluiu o Mestrado em Arte e uma especialização em Arte Gráfica pelo Sydney Graphics College. A exposição está patente até 3 de Abril e a entrada é gratuita.

botanica flesh: portraits

corpos de flora Formas híbridas, entre o humano e o vegetal, criadas por Clara Martins. A ver, na Galeria António Prates.

+ www.galeriaantonioprates.com

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frágil poesia 2010

As noites de poesia arrancaram dia 4, com poemas de José Luís Peixoto lidos por Margarida Cardeal. O acompanhamento musical de Miguel Nicolau e as imagens de Adriana Freire completaram o ambiente. As palavras de Mário de Sá Carneiro marcam presença no dia 11, com leitura de Lucília Raimundo e música de Adriano Filipe. Dia 18, José Wallenstein tem a seu cargo a leitura de poesia concreta. A música é de Paulo Abelho & João Eleutério e há também video de Paulo Américo. Na última quinta-feira do mês, a 25, o encerramento destas noites poéticas é feito com as palavras escritas e ditas por João Negreiros e ainda video de Sérgio Castro.

poesia na noite Em Março, todas as quintas, o bar/discoteca Frágil volta à palavra. Com música e de copo na mão (ou não), as noites querem-se, afinal, mais poéticas.

+ www.fragil.com.pt

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luz e flair

peças irrepetíveis Na Luz e Flair, o processo de execução das peças e os materiais utilizados estão no extremo oposto ao do fabrico em série: a luminosidade dos objectos é assim reforçada por serem peças únicas, irrepetíveis (não há duas iguais). Com sede em Viseu e existência há cerca de 16 anos, esta galeria/loja trabalha com vários artistas plásticos, nacionais e estrangeiros e, além dos característicos candeeiros, alberga também mobiliário e outras peças decorativas. A Luz e Flair pode ser contactada e visitada na Rua Alexandre Herculano, Galerias Ícaro, loja 5, em Viseu.

+ informações: carmoalbano@hotmail.com

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terry rodgers

erótico desalento Não há subterfúgios nas pinturas a óleo de Terry Rodgers. O glamour e o luxo duma certa alta sociedade são ousadamente desconstruídos, mas o erotismo, o vício e a luxúria estão aqui muito longe do clímax. O caminho é descendente, os rostos estereotipados, e - importante os olhares (quase) nunca se cruzam. Não há satisfação patente, e, apesar da profusão de pormenores visuais (num registo quase fotográfico), fica uma sensação de enorme vazio. Retratos de uma época?...

Ao lado The Paradox of Knowledge, 2010

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Em cima The Sacrificial Penumbra, 2010 Ao lado No Stranger to Obsession, 2005 Em baixo, à esquerda Interpreting Dreams (detalhe), 2005

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Em baixo, à direita Damaged Kingdom, 2002

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Em cima The Palace of Automorphic Delights, 2009

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À esquerda Resting On Her Laurels (detalhe), 2006

+ www.terryrodgers.com

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visões sobre o futuro

amanhã, talvez... Como vão desenvolver-se certas formas de comunicação? E os espaços físicos e virtuais? As respostas podem estar num ciclo de conferências apresentados pela Culturgest, com condução de António Câmara. Na quarta-feira, dia 10 de Março, pelas 18h30, no Pequeno Auditório da Culturgest, tem início o ciclo de conferências Visões sobre o Futuro, conduzido por António Câmara. Serão quatro conversas (a 10, 17, 24 e 31 de Março) sobre temas relacionados com espaços públicos físicos e virtuais e formas futuras de comunicação. Falar-se-á de assuntos que hoje podem parecer ficção científica, mas que poderão ser uma realidade mais próxima que imaginamos: jardins que produzem energia; papel interactivo e teleporte; objectos inteligentes; um mundo repleto de sensores que interagem (comunicam e recebem informação) com cada indivíduo; qualquer

superfície como possível suporte de comunicação e informação em tempo real; ecologia sensorial que permitirá comunicar com animais, utilizando uma nova geração de sistemas oculares, auditivos, de olfacto e tacto. Nas reflexões de António Câmara, o estuário do Tejo transforma-se num campo de experiências sensoriais, científicas e artísticas, com girassóis solares e árvores eólicas nos jardins, pedras das calçadas que são painéis solares. O papel é interactivo e lá podemos ver gráficos animados. Fala-se de computação invisível e mesmo quântica a permitir o teleporte de insectos no final do século. A comunicação será multi-sensorial, da visão ao olfacto, 45


“... empresa americana Solar Roadways que pretende revestir os pavimentos das ruas e jardins com painéis especiais que recolhem e armazenam energia solar. ” e poderemos interagir com um mundo (até hoje inanimado) de objectos inteligentes, e com o mundo animal. O mote para o tema destas conferências foi, como afirmou António Câmara em entrevista ao Jornal de Letras: “Nas últimas décadas tem-se assistido a uma menorização do espaço público físico. A migração para o espaço virtual tem sido uma das principais razões. A proposta é criar novos espaços públicos que conjuguem as vantagens dos tradicionais e dos virtuais. Por outro lado, a rede tem permitido a criação de uma nova inteligência colectiva.” Um mundo onde (quase) tudo será possível.

17 Março : Inteligência Colectiva A Internet é o novo espaço público virtual, em que qualquer um pode aceder e processar informação crítica. A utilização colectiva dos pensamentos de pessoas individuais pode contribuir para a melhoria das decisões nas esferas pública e privada. Serão discutidos casos que poderiam ser exemplares para Lisboa e Portugal. 24 Março : Objectos Inteligentes Discutia-se o futuro da computação numa conferência em 1995. Bruce Sterling, um dos mais famosos escritores de ficção científica, retirou o lenço do bolso e disse que aquele era o computador do futuro. Uma rede portuguesa de empresas e grupos de investigação têm vindo a desenvolver as provas de conceito para objectos inteligentes utilizando substratos convencionais: papel, plástico, vidro, madeira, cortiça e tecido (incluindo um lenço).

Eis o programa, para cada dia: 10 Março : Espaços Públicos Espaços públicos, como as ruas e os jardins, não têm registado evoluções substanciais nas últimas décadas. Mas neste início de século estão a aparecer propostas que têm o potencial de alterar substancialmente a nossa vivência urbana. A mais radical vem da empresa americana Solar Roadways que pretende revestir os pavimentos das ruas e jardins com painéis especiais que recolhem e armazenam energia solar.

31 Março : A Comunicação em 2050 A comunicação em 2050 será multi-sensorial: a visão, audição, olfacto, tacto e gosto serão utilizados sempre que justificável. Desenvolvimentos em ecologia sensorial vão permitir a 46


comunicação com animais utilizando uma nova geração de sistemas oculares, auditivos, de olfacto e tacto. Estes sistemas, que permitirão a emulação de animais pelos seres humanos, terão ainda utilizações na educação, entretenimento e segurança. De referir que António Câmara é Chief Executive Officer da YDreams e Professor Catedrático da Universidade Nova de Lisboa. Licenciou-se em Engenharia Civil pelo IST (1977) e obteve o MSc (1979) e PhD (1982) em Engenharia de Sistemas Ambientais por Virginia Tech. Desenvolveu trabalho pioneiro de investigação em informação geográfica. Publicou 150 artigos referendados internacionalmente e os livros Spatial Multimedia and Virtual Reality pela Taylor & Francis (1999) e Environmental Systems pela Oxford University Press (2002). Publicou, em 2009, Voando com os Pés na Terra (Bertrand) e O Futuro Inventa-se (Objectiva). Em Junho de 2000, fundou a YDreams, empresa que desenvolve aplicações móveis e de computação ubíqua para o mercado global. Recebeu vários prémios nacionais e internacionais de que se destaca o Prémio Pessoa em 2006. As conferências Visões sobre o Futuro são de entrada gratuita, mediante levantamento de senha de acesso 30 minutos antes de cada sessão, nos limites dos lugares disponíveis.

+ www.culturgest.pt/actual/futuro.html

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No início da década de 90, Twin Peaks torna-se série de culto. Muito antes dos Ficheiros Secretos, dos CSI’s, Dexter e afins, David Lynch e Mark Frost revolucionam o horário nobre televisivo. Twin Peaks conquista o grande público, com o mérito extra de subverter as regras do facilitismo narrativo: afinal a história é de mistério, surrealismo, horror até. Para quem quiser (re)descobrir as duas temporadas da série, há sempre a hipótese da compra através da net. Com o tempo, fixou-se um ícone. Este: o rosto de Laura Palmer, azul, frio, envolto em plástico. +

twin peaks

quem matou laura palmer?


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música no coração

de novo Como se justifica a escolha de um filme inúmeras vezes revisitado, memorizado? texto arlete gonçalves (professora e artista plástica)

Sempre que a paixão é motor da acção, as realizações tocam sensibilidades e criam memórias que se perpetuam. É o caso do filme Música no Coração, emocionante, enternecedor, vibrante, em termos cénicos, musicais e humanos. É em simultâneo uma obra duma magnificência que casa com uma simplicidade desarmante, contando a história de uma família (Von Trapp) e do amor do capitão pela noviça que se tornou a ama dos seus sete filhos; e aborda uma época (a Segunda Grande Guerra, e a ocupação alemã em Viena de Áustria), onde está presente a alegria, a graça, a frescura - revelando uma sã dualidade entre temas

recorrentes mas contraditórios em si mesmos. Cada momento é uma obra de arte no interior da obra de arte que enche o ecrã. Pessoalmente, como se infere, marcou-me. É uma obra única, insubstituível, cheia de encanto sem raiar o melodramático, contendo a magia que nos traz a certeza de que a vida inclui na própria natureza a esperança de poder sempre ser melhor. +

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lee alexander mcqueen

{ designer de moda }

1969 - 2010

capa do ålbum Homogenic, de Bjork, 1997 | Bjork no video Who Is It, 2004 (imagem menor. ao centro) Š todos os direitos reservados


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Pigmalião 10 a 14 Mar, C. C. Vila Flor (Guimarães) 18 a 20 Mar, Theatro Circo (Braga) 27 a 28 Mar, Casa das Artes (V.N. Famalicão)

Visto do Céu (The Lovely Bones) de Peter Jackson estreia 11 Mar

Florence and The Machine 16 Mar, Aula Magna (Lisboa)

Robert Longo, Uma Retrospectiva até 25 Abr, Museu Berardo (Lisboa)


Ivanov 19 a 27 Mar (excepto 23) Teatro Maria Matos (Lisboa)

Cantigas de uma Noite de Verão até 28 Mar, Teatro da Trindade (Lisboa)

Parnassus - O Homem que Queria Enganar o Diabo (The Imaginarium of Doctor Parnassus), de Terry Gilliam estreia prevista 25 Mar

Stacey Kent 27 Mar, Casino da Figueira da Foz 28 Mar, Centro Cultural Vila Flor (Guimarães) 30 Mar, Centro Cultural de Belém (Lisboa) 31 Mar, Cine-Teatro de Castelo Branco Tangerine Dream 25 Mar, Coliseu dos Recreios (Lisboa)

Exposição de originais do filme ‘Desassossego’ até 18 Mar, Museu da Marioneta (Lisboa)


Parede algures, numa rua de Lisboa. Fevereiro 2010



+ magazine cultura urbana | nº 0 | março 2010