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Índice Memórias da Cidade de Lisboa ....................................................... 3 As Lojas da Baixa e da Mouraria ................................................... 7 Natal na Baixa ............................................................................ 10 Cultura e Lazer ............................................................................ 12 Proximidade com a religião .......................................................... 15 Urbanismo................................................................................... 19 Incêndio do Chiado ...................................................................... 23 Passeio pela Baixa de Antigamente.............................................. 26 Homenagem aos que já partiram ................................................. 33 Agradecimentos ........................................................................... 34


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Memórias da Cidade de Lisboa A Associação Mais Proximidade Melhor Vida, desenvolveu novamente este ano mais um Grupo de Encontros com o tema "As Memórias da Cidade de Lisboa" através dos contributos valiosos de alguns dos nossos beneficiários.

Este ano resolvemos fazer uma viagem pelas memórias da cidade de Lisboa, nomeadamente revivendo memórias da Baixa e Mouraria do antigamente. Apercebemo-nos que esta zona tem sofrido diversas mudanças ao longo dos últimos tempos e considerámos pertinente saber a perspetiva das pessoas que toda a vida aqui viveram e de que forma o vivenciaram.

Vários foram os assuntos abordados ao longo destes últimos meses, desde as principais mudanças no urbanismo, como eram as ruas antigamente e como são agora, como era o comércio local, onde a baixa lisboeta era um local de referência para as pessoas virem às compras, muitas até vinham de longe para o fazer.

A Baixa também era um sítio de destaque na altura do Natal, quer para fazer compras como para ver as vastas iluminações que percorriam toda a zona. Inclusive as lojas faziam concursos para ver quem tinha a loja mais bem iluminada nesta época.

Uma zona rica em tradições religiosas, não podiam ficar esquecidas todas as igrejas, procissões e festas que nesta zona movem centenas de pessoas. Além disso, e a cultura e o lazer não foram esquecidos e “percorremos” também os principais pontos de interesse.


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Num território que parece que cada vez mais é ocupado por turistas, durante estes meses estes participantes discutiram, partilharam e analisaram as memórias, as tradições e as experiências de outros tempos, bem como as principais mudanças que têm verificado ao longo do tempo neste território.

Criou-se um espaço de aprendizagem e reflexão, onde o foco foram os testemunhos valiosos destas pessoas que todos os meses vieram até nós partilhar o seu conhecimento e sabedoria.

Mais uma vez, foi com um enorme prazer que recebemos todas estas pessoas que, quer fizesse frio ou calor, chuva ou sol, todos os meses vieram até nós cheios de boa disposição e com um sorriso na cara participar nesta atividade.

O nosso muito obrigada!

Maria João Xavier Psicóloga AMPMV

Rita Baptista Assistente Social AMPMV


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O Grupo de Encontros AMPMV

Aliquecina Duarte

Alzira Paixão

Amélia Guedes

Augusta Veloso

Camila Tavares

“A Generosa”

“A Divertida”

“A Antiga”

“A Simpática”

“A Bem-Disposta”

Carlos Sousa

Celeste Martins

Clara Bicho

Clotilde Sá Pires

Edite Vicente

“O Sábio”

“A Cantora”

“A Faladora”

“A Mágica”

“A Serena”

Fernanda Gravata

Florinda Cortez

Herlander Costa

Horácio Simões

Irene Pinto

“A Esperançosa”

“A Decidida”

“O Justo”

“O Seguro”

“A Engraçada”


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Júlia Dias

Júlia Martins

Leôncia Tesoureiro

Lourdes Agapito

Madalena Alves

“A Amável”

“A Contente”

“A Curiosa”

“A Poetiza”

“A Formosa”

Maria Isabel Nunes

Odete Barbosa

Regina Gomes

Virgínia Camalhão

“A Graciosa”

“A Sabe-Tudo”

“A Gentil”

“A Sorridente”


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As Lojas da Baixa e da Mouraria “As lojas têm fechado e a grande maioria é substituída por lojas chinesas e indianas.”

“Na altura não havia sacos, os vestidos eram colocados em sacos, chamados malas, para não se amachucarem.”

Fernanda Gravata

Augusta Veloso

“A minha avó ia lá ver os modelos [à Alfaiataria] para depois fazer para nós em casa.” Clotilde Sá Pires LOJAS

Fernanda

“O Grandela foi a primeira loja a ter escadas rolantes e as pessoas pareciam uns patos a subir as escadas, algumas pessoas até tinham medo, preferiam subir as escadas ou ir de elevador (…) mais tarde apareceram no metro, dentro das estações.” Carlos Sousa “ [O Último Figurino] É um pronto-a-vestir Florinda no Chiado, no início da Rua Garrett, fazia passagens de modelos e dava trabalhos de costura para fora, na qual eu trabalhei. Acho que foi a primeira casa a fazer passagem de modelos.” Regina Gomes “ [A Porfírios] Era para os teenagers da época. Eu comprei lá muita roupa, aquelas calças à boca-de-sino, e vendiam barato. Tinham também aquelas camisas em flanela com padrão xadrez.” Carlos Sousa

Retrato de uma menina com uma boneca O Último Figurino, (195-) Chiado / Fonte: Arquivo Arquivo Municipal de Lisboa Municipal de Lisboa


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“ [Gravataria Paris] Foi a primeira casa onde trabalhei, ficava na Rua do Ouro, era uma camisaria. Parte daquilo era só por encomenda. Era só para homem, tudo trabalho manual e tudo para pessoas de alta sociedade. Eu não estava na loja, estava no ateliê. Eu não era costureira, era caseadeira à mão e fazia aqueles monogramas à mão. Estive lá até o senhor morrer e depois dali fui para o Lourenço e Santos onde estive 30 e muitos anos.”

“[Braz e Braz] Era na Travessa de S. Domingos, tinha uns 4 ou 5 andares e a pouco e pouco aquilo faliu tudo. Agora tem só uma pequena loja para venda de produtos para hotelaria, no Poço do Borratém.” Carlos Sousa

Raparigas Saltando a Corda - Favim.com –

Amélia Guedes “[O Chiado] É um ponto de referência o Chiado, porque eu trabalhava na Avenida de Roma, morava nas Mercês, mas não havia dia nenhum que eu não fosse ao Chiado, porque se eu não fosse era uma grande tristeza, tinha aquelas exposições grandes de tecidos, de roupas, de loiças, de tudo e os empregados eram de uma amabilidade extraordinária. Tenho muitas saudades do Chiado antigo.” Leôncia Tesoureiro

Rua do Carmo, Chiado / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“Onde é a Pollux, há muitos anos era a Companhia do Papel do Prado." Clotilde Sá Pires

“[Casa Africana] Eu estava à janela, estava o pretinho à porta, vinha o carro com a madame, parava o carro, saía a madame, o pretinho tirava o chapéu, levava a madame pela mão (…) depois vinha o carro outra vez, e já tinha ali os embrulhos nos saquinhos, punham no carro da madame e ali ia a madame. Era todos os dias isto.” Clara Bicho

“Uma vez fui ao engano [à “Loja das Meias”], ouvi um reclame que vendiam meias de vidro a 10 Maria Isabel Nunes escudos, e eu fui lá mais a minha vizinha atrás das meias de vidro, e diz a empregada – “Oh minha senhora, você não achava muito barato meias de vidro a 10 escudos? Isso são as de algodão.” – “Então porque é que disseram aquilo?” e a senhora disse que era para chamariz.” Virgínia Camalhão


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FEIRA DA LADRA “Vai para lá muita rapaziada nova vender, a câmara autoriza que eles vendam mediante o cartão de estudante. Os vendedores habituais têm todos licença e um espaço reservado. Até às 11 horas se não vierem, esse espaço pode ser ocupado por outro, mas tem que ter licença também.”

“Também se pode vender ao comerciante, ou seja, se não tiver licença pode-se chegar lá com alguma coisa e vender a esse comerciante.” Alzira Paixão

Carlos Sousa “Aparece lá muito livro bom e barato. Há mais anos atrás também se vendia muita roupa, muitas samarras, casacos, calçado, coisas novas, muita roupa nova. A pouco e pouco esses feirantes foram desaparecendo, agora há só lá um ou dois.” Carlos Sousa DROGARIAS

Jogo do Pião - Arquivo Municipal de Lisboa Feira da Ladra, 1959 / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“Algumas vendiam perfumes e águas-decolónia, tinham uns frascos grandes, nós levávamos um pequeno e era a quantidade que queríamos.” Camila Tavares

LEITARIA “Antigamente havia uma burra nas leitarias antigas que era para tirar o leite para as senhoras tomarem banho no leite de burra (…) agora as senhoras têm que estar pretas para serem bonitas, mas antigamente tinham que ser branquinhas.” Maria Isabel Nunes MERCEARIAS “ [Val do Rio] Eram mercearias onde vendiam tudo. Havia uma na Rua da Madalena, onde íamos comprar conforme precisássemos. Havia depósitos de azeite, e podia-se levar 1 decilitro, 2 decilitros. À porta tinha um alguidar de barro com bacalhau demolhado, se precisássemos de uma posta, íamos lá e podíamos levar só uma posta. Custavam 15 tostões. (…) Júlia Dias

“[Val do Rio] Era um género de mercearia na Rua de S. Nicolau, em frente ao Posto de S. Nicolau, tinha pipas de vinho enormes para vender avulso” Celeste Martins


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Natal na Baixa “Agora não há montras como havia antigamente. Antes eram mais apelativas, punham mais anjinhos, estava tudo iluminado.” Madalena Alves

“Antigamente eram tão lindas. Quando eram ligadas pela primeira vez, era sempre a um sábado e era uma grande festa. A Rua Augusta primava sempre. Hoje já não é nada assim.” Irene Pinto

“Na altura do Natal, o Grandela e o Chiado faziam umas montras muito bonitas com bonecos articulados a mexerem-se, devia ser eletricamente, e então juntava-se muita gente, era uma azáfama nas ruas da Baixa para verem as montras (…).” Carlos Sousa

“Na altura do Natal, as crianças iam com os pais ao Chiado, porque davam balões com o nome “Armazéns do Chiado” e eu ia sempre também pedir um.” Clotilde Sá Pires

“Antigamente as montras eram tão bonitas que chegou a haver um concurso de montras. Eram montras muito bonitas. As lojas inscreviam-se e a Câmara escolhia a mais bonita.”

Iluminações de Natal, Rua do Carmo, Chiado / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

Maria de Lourdes Agapito

“Vínhamos da província passar o Natal e vínhamos à baixa de propósito só para ver as montras.” Florinda Cortez


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ONDE SE COMPRAVAM AS PRENDAS? “Antigamente não havia dinheiro para isso. Ofereciam-se coisas pequenas.” Odete Barbosa

“Compravam umas meias para oferecer, punham dentro de um envelope, uma caixa de lenços, com três lencinhos.” Carlos Sousa

CEIA DE NATAL

“Faziam-se as filhoses em casa, agora há tudo feito.” Odete Barbosa

“Embebedávamos o peru com bagaço para a carne ficar mais gostosa.” Venda Ambulante de Perus na Época do Natal - Arquivo Municipal de LisboaDistribuição de prendas aos filhos do Batalhão de Sapadores Bombeiros, pelo

Virgínia Camalhão

Presidente da Câmara Municipal de Lisboa / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“No Martim Moniz vendiam-se os perus.” “Quando era para cortar o pescoço aos perus já não se batiam tanto porque já não sentiam nada.” Carlos Sousa


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Cultura e Lazer MUSEUS “A classe média não costumava ir aos Museus. Agora depois do 25 de Abril é que há mais esse hábito. Nós antigamente trabalhávamos e quem é que sabia se havia museus, agora tal como existe uma maior abertura para ir aos cafés, também há uma maior abertura para ir aos museus. Nós antigamente nem nos lembrávamos que havia cafés.” Maria Isabel Nunes Maria Isabel “As escolas é que tinham mais o hábito de visitar. Muitas das vezes quem não tinha a possibilidade de ir com as escolas, não tinha possibilidade de ir aos museus.” Clotilde Sá Pires

TEATROS Teatro Nacional de S. Carlos (1940), Baixa Chiado / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“O Teatro de S. Carlos já pertencia a outra classe, era mais à frente, tem mais a ver com ópera. Antigamente havia a divisão de classes. Havia a Plateia e o Balcão para as pessoas que tinham menos possibilidades, era onde havia os bilhetes mais baratos. Nós íamos arranjadinhos, mas dentro da nossa classe social. Antigamente as classes sociais eram mais divididas. Hoje em dia é tudo muito mais livre no vestir.” Maria Isabel Nunes “Costumávamos levar sapatos altos ao teatro. Toda a gente arranjava o cabelo, usava-se os papelotes. Como não havia rolos, usava-se isso, ou se calhar até havia rolos, nós é que não tínhamos dinheiro para os comprar.” Leôncia Tesoureiro

“Normalmente as pessoas iam bem vestidas para o teatro, era um momento diferente dos outros, utilizávamos o fato domingueiro. E havia também o critério da idade, até que houve uma vez que fui lá e já com filhos, e como me esqueci do bilhete de identidade não pude entrar.” Regina Gomes “Quando ia ao São Carlos levava sempre uma peruca, porque quando trabalhava não tinha tempo para ir ao cabeleireiro.” Maria de Lourdes Agapito


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CASAS DE FADO “Onde apareceram as primeiras casas de fado foram no meu Bairro, no Bairro Alto.” Herlander Costa

Cantadeira de Fado num Arraial em Alfama / Fonte: Arquivo

Viaduto de Entrecampos - Arquivo Municipal deMunicipal Lisboa de Lisboa

“Fora disto há o fado vadio, que eram pessoas que cantavam na rua e juntavamse meia dúzia a cantar com guitarras, viola e tudo. É mais espontâneo. A nossa Junta de Freguesia ainda faz sessões de fado no Largo de São Cristóvão (…).” Carlos Sousa

CINEMAS “A diferença entre o cinema e o teatro eram os cenários, antes os cinemas tinham muita diferença entre eles, por exemplo o de S. Jorge e o Monumental eram cinemas novos, bonitos. O Olímpia e o Piolho eram para a malta mais nova e tinham sessões contínuas. Por exemplo, entrava lá às 14h e só se saía de lá à meia-noite. Havia sempre filmes e repetia.”

“Quando saíamos do cinema havia umas casinhas onde vendiam sumos naturais, era mais ali no Martim Moniz, e quando eu e o meu marido saíamos do cinema íamos lá beber um suminho de uva. Às vezes até havia sessões com 2 filmes.“

Carlos Sousa

Júlia Dias

“Quando íamos ao cinema, depois íamos cear e só depois íamos para casa. Quando eu tinha 17 anos convidaram-me para ir ao Teatro D. Maria Vitória e nós não podíamos entrar antes dos 18 anos, o que nós fizemos foi ir para o Café Lisboa ali ao lado e depois quando vimos que estava a entrar muita gente, atirámo-nos para o meio da confusão e conseguimos entrar. As crianças não podiam ir ao Cinema.” Camila Tavares REVISTA

Cinema de S. Jorge, 1959 / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“No Parque Mayer havia as barracas do tirinho, o meu marido ia lá para jogar muitas vezes. Os rapazes pagavam e davam um tirinho e depois iam-se meter com as raparigas. Ganhavam uma laranjada, uma gasosa, um pirolito. Um pirolito era do género da gasosa mas tinha um berlinde na cabeça. Em vez de haver uma tampa, era o berlinde. Este era metido para dentro para se beber a gasosa." - Odete Barbosa


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CAFÉS “O Café Nicola não era para toda a gente porque era mais chique. Havia a Brasileira, onde também havia mais pessoas bem vestidas e acompanhadas. Em geral tínhamos de ir bem acompanhadas a estes cafés e depois ficávamos ali à mesa, a conversar. Eu nunca via uma pessoa sozinha no café e muito menos as mulheres.” Alzira Paixão

Café “A Brasileira” / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

TASCAS

“Na porta do salão de chá da Confeitaria Nacional tinha escrito a letras douradas “Reservado a Direito de Admissão”. Não entrava qualquer pessoa, mas as próprias pessoas tinham consciência se deviam entrar ou não. A Confeitaria Nacional sempre foi uma pastelaria fina. O dono, o Baltazar Castanheiro era daqueles homens grandes, da aldeia, sempre impecável." Maria Isabel Nunes

“As tascas naquela altura eram mais do género de tabernas. (…) Lembro-me de uma tasca ali na Mouraria que até tinha um corvo que andava cá fora. Havia tascas que vendiam o vinho a metro. O metro eram os copos todos juntos uns aos outros que faziam essa medida. Na tasca para se pedir vinho, pede-se o copo de “3”, era 3 dl ou o que era. Havia também o penalti, que era naqueles copos grandes que levava 0,5 l. Nas tascas bebia-se o vinho e tinham sempre os petiscos, umas petingas fritas ou carapaus fritos com um chouriço.” Carlos Sousa

BAILES

“Só nas tascas que vendiam carvão e petróleo é que as mulheres entravam. Eram muito boas as tascas nessa altura. Nós ficávamos lá dentro a beber abafados. Havia aqui na Baixa, uma Tasca ao lado daquele cinema Olímpia. Nós íamos lá todos os dias comer um Creme de Camarão.”

“Eu tenho duas filhas e dois rapazes e ia com eles, acompanhá-los, e então ia a todos. Ia ao Lafões, à Casa da Sertã, ao Lusitano. (…) Nós éramos sócios e íamos sobretudo no Natal, no Ano Novo, no Carnaval e íamos para lá todos porque ali por exemplo no Lafões era tudo ali na Rua da Madalena e São Cristóvão. Alugávamos as mesas e ficávamos ali até às tantas da manhã. Depois havia a eleição da rainha do baile e nós passávamos ali muito bem. (…).”

Herlander Costa

Regina Gomes


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Proximidade com a religião IGREJAS "Aqui em Lisboa ia tudo de chapéu. Os homens também iam de chapéu, mas tiravam quando entravam na igreja. As pessoas mais antigas iam de lenço." Clotilde Sá Pires “As senhoras também usavam uma mantilha. As mantilhas são mais compridas que os véus. Os homens iam de fato e gravata."

Multidão a ir para a Missa, Igreja de S. Domingos / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

Júlia Dias “Havia senhoras que não iam à missa ao domingo porque não tinham pó de arroz. Era para ficarem mais bonitas. Antigamente o pó de arroz era feito nas farmácias, não é como agora. Comprava-se ao quilo." Leôncia Tesoureiro

“Quando as pessoas entravam na missa, os homens iam para um lado e as mulheres para o outro. Estava marcado para onde tinham que ir." Irene Pinto

Igreja da Madalena / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“A Igreja da Madalena foi sempre a minha igreja e ia lá todos os dias. Arranjava a igreja, eu é que arranjava os altares. Fiz desde o vestido da Nossa Senhora das Dores, que é da altura de uma pessoa, ao manto do Senhor dos Passos, toalhas do altar em todos os altares (...).” Júlia Dias


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PROCISSÕES "Antigamente costumavam ter tanta gente que às vezes já estavam a dar a volta e alguns ainda não tinham saído." Camila Tavares "A procissão da Senhora da Saúde era a mais bonita que havia em Lisboa. As forças armadas levavam tabuleiros de flores." Florinda Cortez "Houve uma Rainha que ofereceu uma das “vestimentas” da Nossa Senhora da Saúde, não me lembro é qual Rainha." Procissão da Nossa Senhora da Saúde, 1907 / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

Madalena Alves

"Na procissão do Nosso Senhor dos Passos o senhor vai vestido de Roxo. Esta procissão vai ali pela zona da Graça e é feita na altura da Quaresma.” Aliquecina Duarte

“Na Procissão de Santo António o andor do Santo António vai no carro dos bombeiros." Irene Pinto "Na Procissão de Santa Rita vendem o pão que têm em casa de um ano para o outro." Edite Vicente SANTOS "No dia de Santo Antoninho dão pão de graça cá fora na Igreja de Santo António." Virgínia Camalhão

Estátua de Sto. António / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa


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“O Santo António nasceu em Lisboa, na Igreja de Santo António ainda tem lá o quartinho dele. Ele era Franciscano, e depois foi Missionário. Ele é conhecido pelo Sermão aos peixinhos." Regina Gomes

Festas de Sto. António, Praça da Figueira Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“Havia os tronos para pedir o “tostãozinho” para o Santo António. As crianças punham uns banquinhos à porta de casa, depois punham uns naprons e um Santo António. Pediam um tostão para o Santo António. As crianças ficavam todas contentes, porque o dinheiro era para elas." Augusta Veloso

“A Procissão de Santa Rita tem muitas rosas, aqui vendem as rosas e as acácias. Vendem o pão também, pois é uma tradição." Aliquecina Duarte “A Santa Rita era muito amiga de ajudar outras pessoas mas o marido dela era bêbado e era mau. Quando ele adoeceu ela ficou com muita pena e foi pôr as calças dele ao lado da cama e começou a fazer as rezas dele e começou a melhorar. Foi um milagre com que ela conseguisse que ele deixasse de beber." Odete Barbosa “S. Vicente foi massacrado por uns infiéis, veio para Portugal numa Caravela que depois foi ao fundo lá para os lados do Algarve. São Vicente já vinha morto e o corpo nunca apareceu. Ele é que é o padroeiro de Lisboa.” Herlander Costa

Trono de Sto. António, 1950 / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa


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FESTAS “Nos Santos Populares ninguém dorme aqui na Baixa, é cantaroladas por todo o lado (…) Há muita sardinhada." Virgínia Camalhão “Temos os Santos Populares, os desfiles das marchas. Cheguei a ir para o Parque Mayer fazer os fatos, através da Junta de S. Nicolau.” Irene Pinto

A marcha popular do Bairro Alto no pavilhão dos Desportos, depois, pavilhão Carlos Lopes (1950) / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“Faziam-se muitas festas nas Associações Recreativas. As pessoas mascaravam-se de saloias, etc. Havia o enterro do bacalhau, que era o fim do Carnaval, normalmente o confronto era entre o Lafões e a Academia. Aí enterrava-se o Carnaval e acabava a festa. Eu cheguei a fazer fatos de saloia. Havia também quem fizesse telefonemas a brincar connosco." Regina Gomes

“ [No Carnaval] Mascarei-me à minhota e à saloia porque nesse tempo eu era mais pobrezinha e fazia os trapinhos para me vestir. Este ano vou-me mascarar à saloia." Odete Barbosa

“Ainda me lembro que haviam umas figuras em Lisboa que eram os Pançudos que tinham uma grande pança e que andavam com um facalhão e depois afiavam o facalhão e fingiam que matavam as pessoas. Era tudo na brincadeira. Faziam-se uns saquinhos com arroz e feijão e depois atiravam às pessoas. Também havia quem pusesse farinha, serradura, ovos." Herlander Costa


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Urbanismo MUDANÇAS NO ESPAÇO URBANO “Na Rua Augusta, quando eu vim para aqui morar, havia trânsito e depois deixou de haver. Passavam elétricos e autocarros." Fernanda Gravata “As ruas eram bastante diferentes e havia muitas lojas. A Rua dos Fanqueiros tinha muita loja de roupa, mais do que as outras ruas. Na maior parte amarravam os manequins à porta e vestiam os bonecos com a roupa. Na Rua da Prata havia muitas drogarias e a Rua do Ouro era a mais morta e agora é uma das melhores. Não tinha muito comércio, tinha era bancos, companhias de seguros.” Augusta Veloso “Na Rua Augusta havia elétricos. Apanhávamo-los no Rossio. Foi a primeira rua a deixar de ter elétricos. Os elétricos eram o transporte principal da cidade. Nós íamos de elétrico do Terreiro do Paço a Carnide, do Largo do Carmo ao Alto de São João. Ainda sou do tempo dos elétricos abertos. (…) Noto uma grande diferença quando venho à Baixa: parece que não estou em Portugal pois não oiço falar Português.” Camila Tavares “As ruas estão muito diferentes. Não há quase comércio e mais parecemos nós os turistas pois não se houve Português e só se vê turistas. As casas estão muito caras, já não se consegue arranjar aqui uma casa.” Alzira Paixão

Rua Augusta (191-) / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“O chão das ruas era todo de pedra preta. Esta pedra escorrega muito." Horácio Simões “A Rua do Capelão foi toda arranjada, agora tem lá um jardim para crianças com escorregas, baloiços, tudo coisas para eles brincarem. Arranjaram o chão e puseram lá a estátua do Maurício, do fadista." Madalena Alves “Na Rua do Bem Formoso também se vendia só peixe e alguma hortaliça. Na baixa não se usava.” Florinda Cortez


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“A Rua dos Fanqueiros está mais ou menos igual e a Rua do Ouro está mais bonita. Está mais alegre e tem mais movimento. Antigamente, a rua era muito escura e não haviam as lojas que existem agora." Odete Barbosa PARQUES E JARDINS “Lembro-me do Parque Eduardo VII quando aquele estava todo plantado com hortas, no tempo da guerra. Toda a gente plantava lá couves, alfaces e outras coisas. Tinha lá também uma loja de ferragens e baterias antiaéreas. Uma vez desapertei uma e ia sendo preso. À entrada do parque, havia um lago, onde é agora o Marquês de Pombal. Lá havia gasolinas: eram uns barquinhos e nós pagávamos para dar voltas no lago. Como acontece no Campo Grande." Herlander Costa “O Parque Eduardo VII tinha um lago grande com cisnes. Pelo menos há 5 anos que lá não há cisnes." Clotilde Sá Pires “O Parque Eduardo VII é o principal da cidade de Lisboa. Quando era solteira e morava perto do Ritz com os meus tios (este ainda não existia, era um monte onde pastavam ovelhas) íamos para lá a noite e era muito bom para fazermos caminhadas. Depois de casar, eu ia lá com a minha filha porque tinha um parque infantil ao pé da Estufa-fria, que também é muito bonita." Regina Gomes “O parque Eduardo VII era muito grande e arranjado. Íamos lá passear com os filhos." Júlia Martins

Parque Eduardo VII, 1952 / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“Ao Domingo, no parque Eduardo VII havia ranchos a tocar e a dançar. Nunca dancei mas havia quem dançasse." Virgínia Camalhão

“As pessoas iam para os jardins fazer malha e fazer renda." Madalena Alves


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“À entrada dos jardins havia umas senhoras a vender pevides, amendoins, tremoços. Eu adorava aquilo. Ainda hoje lá estão. Ia principalmente aos Domingos." Irene Pinto MIRADOUROS “Não ia muito aos Miradouros mas há uns tempos fui ao Miradouro de Santa Luzia e fiquei muito admirada pois antigamente não se usava isso. Agora existem lá roulottes a vender bifanas e couratos, pão, batatas fritas, cervejas. Já os quiosques nos Miradouros são algo mais recentes." Edite Vicente

Miradouro da Nossa Senhora do Monte Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“Havia os quiosques antigos mas eram poucos, havia mais vendedores ambulantes, que vendiam pirolitos, capilé, groselha, laranjadas. As garrafas da laranjada C eram muito giras. Eram redondinhas, pareciam uma laranja." Alzira Paixão LAVADOUROS

“No Miradouro da Senhora do Monte há lá um jardim e tem uma vista muito bonita. Tem uma capela e dentro dessa capela há um banco, o banco de São Gens, onde se sentam as grávidas e assim nasce um menino. Sentam-se lá para terem um rapaz. Sei que é do tempo do D. Afonso Henriques mas não sei a história." Herlander Costa

"Em minha casa primeiro tive uma selha [tábua de madeira para se lavar a roupa] e depois é que veio o tanque [eram de gesso ou pedra]." Fernanda Gravata “Ainda há um lavadouro em Alfama. Tenho um tapete muito antigo que tenho de lá levar. Não se paga nada se for eu a lavar mas se for a lavadeira paga-se. Na Baixa não havia, era mais nos Bairros, na Mouraria, no Bairro Alto, no cimo da Rua da Barroca." Alzira Paixão


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“Ao pé de mim, no Largo da Rosa, há um lavadouro que ainda funciona. Combinamos com a senhora a hora para irmos entregar os cobertores ou o que precisamos. O marido ajuda, ela lava lá tudo e depois põe a secar. Depois quando está tudo pronto, ela vem entregar-nos ou vamos nós lá buscar. Eu ia lá lavar roupa. Ao início não se pagava mas há uns anos para cá começou-se a pagar uma ajudinha para a água." Odete Barbosa

Lavadouro Comunitário / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“Ao pé de Santa Apolónia, onde eu moro, havia um lavadouro que tinha uma nascente pelo que a água estava sempre a correr. Antigamente pagavase as senhoras para lavarem cobertores e outras coisas assim. Depois deixavam os cobertores, tapetes nas cordas que havia a volta do tanque a escorrer ou no muro. No outro dia, elas iam lá buscá-lo pois não estavam tão pesados e acabavam de secar nos estendais próprios. Chegavam a estar 8 pessoas a lavar ao mesmo tempo. Há mais de 30 anos que não funciona." Madalena Alves

CHAFARIZES “Cheguei a ir do Bairro das Colónias a Alfama para ir buscar água à Fonte das Ratas.” Horácio Simões “Havia também o Chafariz do Intendente. Eu ia lá muita vez buscar água com a cantarilha de barro, tinha gosto em lá ir buscar água com a cantarilha. Depois trazia para casa e aguentava fresca." Edite Vicente “Deixou de haver chafarizes porque a companhia das águas os fechou. A água era muito boa e fresquinha mas passaram a vender garrafas de água e pronto." Horácio Simões

Chafariz do Largo do Duque de Cadaval, 1947 / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa


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Incêndio do Chiado ONDE ESTAVAM NESSE MOMENTO

COMO COMEÇOU

“O meu prédio como está mesmo de frente para o Chiado, nesse dia eu estava a preparar os miúdos para irem para a praia, porque na altura eles iam para a praia com a Junta, quando de repente nós parámos e começámos a ver as chamas. Aquilo foi tudo muito depressa. Nós apercebemo-nos aí por volta das 8h/8h30. Quando começámos a ver o incêndio havia muito vento e nós ficámos com medo que as fagulhas também viessem para o nosso prédio, porque aquilo era mesmo em frente e estava de facto a arder muito depressa. Nós vimos tudo porque não temos nenhum prédio em frente a tapar a vista.”

“Começou no Grandela. Foi mesmo na rua onde o meu marido vinha a passar, ele trabalhava de noite e vinha a passar quando aquilo começou a alastrar. (…) Foi ele a telefonar para os bombeiros e eu em casa que dei por isso a telefonar também. Eram 5h da manhã. (…) E quando chegou a casa muito aflito eu digo assim: “Olha eu também já liguei para os bombeiros”. Eu andei a regar no telhado com uma mangueira porque caíam folhas de papel a arder. Não eram fagulhas, eram folhas de papel a arder.” Alzira Paixão

Regina Gomes “Estava em casa, estava a dormir mas comecei a ouvir uns estalos. E então vi desde o princípio, estive toda a noite ao pé da janela, a ver o fogo entrar por cada janela (…) foi um fogo muito grande. Foi horrível. Foi horrível.” - Júlia Dias Incêndio do Chiado, 1988

“Lembro-me do incêndio, foi um grande susto na altura. Fiquei muito nervosa. Já não me lembro bem das horas, mas sei que foi na parte da manhã. Nessa altura já estava a trabalhar perto do Chiado e fiquei muito mal disposta com aquilo tudo e estive uns 3 dias sem ir trabalhar. Eu trabalhava na “Casa da Sorte” mas esta não foi atingida. Mas foi muito mau para muita gente, pois houve muitas pessoas que ficaram desempregadas. (…) Depois do incêndio nunca mais fui ao Chiado, os antigos armazéns eram tão bonitos e tão grandes…” Aliquecina Duarte “Eu não estava em Lisboa. Estava nas Mercês. Houve uns pequenos imprevistos tive que ir para as Mercês. E ouvi, pela rádio, o fogo. Então o que é que eu fiz: não acreditava. Dizia que era impossível. É um inferno. Não há palavras para uma coisa daquelas, não há.” Leôncia Tesoureiro


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“Eu estava em casa quando o incêndio começou e não saí de casa. Apercebi-me porque o meu marido trabalhava na “Brasileira” e viu como é que aquilo começou logo, foi uma coisa muito rápida. Ele depois telefonou-me para casa e disse-me para não sair de casa.”

COMO SOUBERAM

Júlia Martins

“Diziam-me que a Baixa estava a arder e eu fazia imensos telefonemas, eu não fazia outra vida, era só atender o telefone (…) na rua do Carmo foi uma quantidade de prédios, andava tudo de um lado para o outro. O fogo passou de um lado para o outro.”

DESCRIÇÃO DO COMBATE AO INCÊNDIO

Maria de Lourdes Agapito

“Os helicópteros andavam a deitar água por cima dos telhados, aqui em baixo, por exemplo, no meu prédio, andavam a deitar, só que eles não deitavam muita água porque houve quem reclamasse que aquilo podia abater! Porque os telhados eram de ferro, então salpicavam porque se o fogo viesse cá para baixo… graças a Deus não veio!” Lourdes Agapito “Não era fácil para os bombeiros lá entrarem, porque na entrada da rua havia lá umas esplanadas no meio da rua e os bombeiros tiveram de ir por cima e lá por baixo, aqui pela rua do Carmo não conseguiam passar, nessa altura isso foi muito criticado, porque não os possibilitou de acudir mais cedo. Como não conseguiam passar vinham pelo Largo do Chiado, pela Rua Nova do Almada.” Júlia Martins

Incêndio do Chiado, 1988

A CONSTRUÇÃO DO NOVO CHIADO

COMPARAÇÕES ENTRE O ANTIGO CHIADO E CHIADO ATUAL

“Depois do incêndio juntaram-se arquitetos para ver o que de melhor podiam fazer e tentar repor o mais possível, o original. Ainda tiveram muito tempo a delinear o melhor plano, houve vários projetos e aquele que era mais parecido com o antigo Chiado foi o que seguiu para a frente. Depois lá começaram a construir. O barulho ouvia-se mais da minha janela do que propriamente da minha rua.”

“Eu gostava mais do Chiado antigo do que o atual, era muito diferente. Acho que antigamente era mais alegre. Lá nos armazéns eles até vendiam coisas boas e os funcionários eram jeitosos. Havia muita coisa que nós só encontrávamos no Chiado. Os armazéns tinham várias entradas e saídas mas acho que o Chiado de agora está muito diferente do que era antigamente.”

Regina Gomes

Madalena Alves


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“Havia de tudo à venda naqueles armazéns do Chiado, desde roupas a móveis. Tinha lá os colchões de espuma e aquilo tudo ajudou ao incêndio. (…) O Jerónimo Martins desapareceu depois do incêndio também, que era uma loja de tecidos e roupas. Agora estão a recuperar muitas casas, antigamente as casa nem tinham casa de banho, tinham uma pia na cozinha. Lavávamos a roupa num tanque e muitas destas casas eram divididas entre vários casais.”

“Depois havia ali no Rossio o que era “Os Tecidos do Rossio”. Depois havia aqui na rua Augusta muitas casas, muitas, onde é um banco aqui ao fundo chamava-se “Os Pinheiros”, vendiam tecidos muito bons, havia muitas lojas, havia ali na rua Augusta muitas lojas de tecidos. A rua dos Fanqueiros também tinha tecidos, havia muito mais lojas de tecidos. Perder o Chiado foi perder aquilo que era referência.” Camila Tavares

Fernanda Gravata

“(…) Todos os dias eu ia ao Chiado. Não ia comprar, ia ver. (…) Eu trabalhava na Avenida de Roma, vinha para baixo, em vez de ir para casa, e ia aos Armazéns. Eu adorava. Era o meu ponto alto. Agora já não. (…) Tive muitos anos que não fui para lá. Aquilo era um horror. Uma tristeza, tudo queimado.”

Incêndio do Chiado, 1988

Leôncia Tesoureiro IMPACTO DO INCÊNDIO “Houve muita gente que trabalhava lá nos Armazéns e que depois ficou desempregada. As pessoas hoje passeiam muito no Chiado e antigamente também o faziam, era chique. (…) Eu acho que era um local mais “chique” para se ir, podíamos pagar mais caro por alguma coisa, mas eram produtos de qualidade. (…) Eu acho que com o incêndio o Chiado mudou para pior.” Florinda Cortez

“E ainda demorou muitos anos sem ser recuperado, nem nada. Não havia dinheiro e muita gente sem trabalho. E não receberam indeminizações nem nada. E depois os responsáveis não apareciam, pronto.” Camila Tavares


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Incêndio do Chiado, 1988

Passeio pela Baixa de Antigamente “Antes havia por aí coisas velhas. Havia um teatro ou um cinema na Mouraria, ao fundo da Calçada da Mouraria, depois foi abaixo. (…)” Júlia Martins “(…) Era ao Jardim Zoológico e ao Parque Eduardo VII, à Estufa-fria… A Estufa-fria era muito bonita!”

“Eu fazia muito o passeio com o meu marido, que era do Terreiro do Paço, pela Baixa, pela Avenida, até ao cimo, ao pé do Parque [Parque Eduardo VII]. E depois regressávamos, lanchávamos ou nos Restauradores ou no Rossio.” Camila Tavares

Maria de Lourdes Agapito “Ia para o Terreiro do Paço, sentar naqueles banquinhos de lado, no Cais das Colunas, a ver a paisagem e os barcos, porque antigamente os barcos saiam todos dali. (…) Quando os meus netos eram pequenos, íamos para o Castelo de São Jorge ou para o Jardim Zoológico. Eram os passeios que dávamos! Havia um elefante que tocava o sino. Dava-se uma moeda e tocava o sino, os miúdos achavam uma graça, era tão giro!” Júlia Dias FOTÓGRAFOS “À LA MINUTA” “Na altura arranjei um namoradito. Vínhamos passear para o Terreiro do Paço, havia aquelas máquinas de fotografia. Foi a minha primeira fotografia, o meu filho apanhou-a logo e tenho-a lá em casa, na sala, guardada. O senhor está a tirar: tem a máquina, alta, e depois tem um pano, onde metia a cabeça e as mãos para fazer lá o truque, que a gente não via, e depois a gente punha-se à maneira e tirava a fotografia.” Edite Vicente

Rua Garrett, Chiado, Anos 60 / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“Tirei com amigas, quando vinha passear para a Praça do Comércio. E davam logo na altura também. (…) Era baratucho.” Fernanda Gravata


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“Quando se ia passear a qualquer lado tirava-se. Eu também tenho fotografias até do meu miúdo, com o pai, avó, tudo, ia tudo para a Praça do Comércio tirar ali fotografia.”

“O pano era preto e metia-se a cabeça lá dentro.” Odete Barbosa

Augusta Veloso “Eles metem a cabeça debaixo de um pano e depois nós ficamos de pernas para o ar! Era engraçado, quando ele estava a arranjar, nós espreitávamos e estávamos de pernas para o ar!” Camila Tavares “Não se via fotografia nenhuma, só depois de porem na água é que aquilo ia aclarando, aclarando…” Alzira Paixão JORNALEIROS “Antigamente, como os andares eram muito altos, e para as pessoas não estarem a subir e a descerem tinham um cestinho com um cordel e depois mandavam pela janela, pela varanda, os da mercearia ou assim metiam ali e puxávamos. Em vez de eles da mercearia irem lá acima ou assim, dava-se o dinheiro e eles punham no cestinho.” Júlia Dias

“Vendia-se o “Ardina”. Anda aí um senhor que é o Mário, a vender jogo, era esse que ia lá vender à minha sogra. Subia e descia os elétricos, que também andava, e chegava ali ao meio da rua e punha-se a chamar a minha sogra (…), e ela vinha à janela e ele mandava-lhe o jornal. Eles amarravam um cordel, um cordelinho, depois amarravam o jornal e pronto.”

“Havia pessoas certas que compravam o jornal. Os vendedores de jornal guardavam para eles porque havia pouco, havia quem comprasse pouco. Para os que compravam todos os dias, o jornaleiro embrulhava muito bem, tinha aquele jeitinho para embrulhar, e depois aquilo ia mesmo lá ter na varanda. E depois pagavam, lá faziam as contas, todos os dias. (…) Naquele tempo havia “O Século”, que acabou já há muitos anos, “O Diário de Notícias”, que ainda existe. Agora está muito em vigor o “Correio da Manhã”.”

Augusta Veloso

Odete Barbosa

Jornaleiro / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa


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CAUTELEIROS “(…) Naquela altura havia só nas cautelas. Agora há no Totoloto, há no Euromilhões, os tais 2 números que eles metem. Antigamente era uma vez por semana que havia, agora não, acontece todos os dias. Ou é cautelas, ou é Totoloto, ou é Euromilhões, todos os dias (…).” Alzira Paixão “Cheguei a ver um cauteleiro com um chapéu-de-chuva aberto, com cautelas em cada biquinho do chapéu-de-chuva, e esse até corria as províncias para vender as cautelas.” Camila Tavares “Esse senhor, tinha uma gaiola, andava com um canário em cima da cabeça, e tinha as cautelas, e andava a vender cautelas. (…) Era engraçado porque ele dizia “O passarinho dá sorte! O passarinho dá sorte!” Maria de Lourdes Agapito O LEITEIRO Cauteleiro / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“[O leiteiro] Ia levar o leite à porta. Era todos os dias.” Júlia Martins

“Iam bater à porta. Por exemplo, se íamos trabalhar deixávamos ali o “coisinho” [potinho ou garrafa] para pôr o leite. Se foi meio litro, deixávamos ali “trocadinho”. Só que, quando tinha um bocadinho mais, punha meio litro, que era para a garota e para mim. Quando não tinha, era só para a garota.”

“O leiteiro tinha uma bilha de vinho, punha o leite na bilha, tinha uma medida de meio litro e de litro, e a gente à porta, ele deitava na medida e a gente punha no fervedor. Era a avulso.”

Odete Barbosa

Maria de Lourdes Agapito

“Eu morava ali na Calçada do Carmo e ele aparecia aqui: “Cá vai o leiteiro!”, aqui no Rossio e iam à porta com uma medida de um litro, meio litro.” Madalena Alves


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“Era barato. À minha casa ia duas vezes por dia. A minha filha era pequenina e bebia poucochinho, então uma senhora que morava aqui na Calçada dos Cavaleiros era leiteira e dizia “Não, não, minha pequenina, trago meio agora e trago outro meio à tarde” e às vezes subia ao 4º andar. Já lá vão muitos anos.” Virgínia Camalhão

“Eu lembro-me desta altura de os leiteiros andarem com estas garrafas, da Ucal, eu morava na Estrela nessa altura, destas garrafas. E então, morava na Estrela, e por baixo (morava num quarto andar) e por baixo de mim, no 3º, havia uma destas leiteiras, que tinha um triciclo mas que não era elétrico, era puxado ali a braço. Então a leiteira saía perto das 5h da manhã, ia ao depósito ao Ucal, levava já o triciclo, fazia a encomenda de véspera, e então era nestas garrafas, ela tinha uma cápsula, de alumínio, e ela prendia. Depois chegava “Quantas garrafas queres?” e eu “Olhe, quero 2 de meio litro” não é, e andava de porta em porta.” Irene Pinto “Era numa bilha, que eles transportavam, que tinham de alumínio.” Odete Barbosa “E depois andavam de porta em porta.” Júlia Martins

A MULHER DA “FAVA-RICA” Leiteiro / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“Era numa panela grande [a “Fava Rica”] dentro de um cesto e levavam à cabeça.”

“Morava lá uma senhora, na Rua do Terreirinho, e ela todos os dias ia com um cesto na cabeça, com a panela dentro, com a concha e depois começava a pregoar (Fava Rica!).”

Clotilde Sá Pires

Júlia Martins

“A “Fava-rica” ainda ajudei a arranjar. Punha as favas de molho, que as favas tinham um bicho, que depois tinha de se tirar.”

“Óh meninos venham cá abaixo, tarde no tacho, a Fava-rica!”.

Augusta Veloso

Leiteiro Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

Virgínia Camalhão


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“ÁGUA DE CANEÇAS” “Mais tarde, aqui no Terreiro de S. Julião, era a “água de Caneças”… Vinham trazer “água de Caneças” para as pessoas que queriam, todas as semanas.”

“Vinham com as bilhas de Caneças para vir trazer a água. As lavadeiras de Caneças, vinham as mulheres, traziam umas grandes trouxas, por exemplo, os lençóis, coisas grandes. Vinham a cada porta.”

Júlia Martins

Júlia Dias

“Iam com uma carroça, e traziam as bilhas com a “água de Caneças” para as pessoas beberem, não bebiam da torneira. Depois quando vinham trazer outra levavam aquela vazia.” Júlia Martins

OUTROS PREGÕES “Era todas as semanas, lá na minha rua era todas as semanas. (…) Havia no segundo andar uma senhora, mãe e filha, espanholas, e ia lá um senhor com um cântaro levar todas as semanas a “água de Caneças”.” Edite Vicente

“Havia “Figos de Capa Rota.” Júlia Martins

“Quem quer figos, quem quer figos, ai o figo da capa rota! É simples e é barato, olha o cabaz de morangos!” Clotilde Sá Pires

Marçanos / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“[Os marçanos] Eram os miúdos que trabalhavam na mercearia. Iam a nossa casa perguntar o que é que a gente queria, iam à mercearia e levavam à porta.” Camila Tavares “Havia uma carroça que vendia petróleo e azeite, era o “petrolino”. Era com um pau, uma bilha à frente e outra atrás. Era um pau com coisas dos dois lados.” Maria de Lourdes Agapito


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“Aqui na minha rua passava muitas vezes uma carrocinha com um burro, vendia hortaliças e um cozido de peixe, eu comprei muitas vezes.”

“[Para comprar a carne] Iam lá de manhã, perguntar o que é que queriam, a minha mãe dizia o que é que queria, eles apontavam e mandavam.”

Edite Vicente

Clotilde Sá Pires

“Chamavam-lhe o “Homem da Padiola”. (…) Era um pau e na ponta do pau faziam com umas “cordinhas” um género de uma balança. Então, o mesmo homem tinha à frente ovos, e na mesma coisa atrás, tinha chocos. (…) E ele dizia: “Ovoooos” (e o mesmo homem com outra voz) “chocos!”. Como se eram “ovos chocos”. Que não prestavam. Ele imitava outra voz, que era para a guerra entre os vendedores!”

“Não havia frigoríficos nem nada, cada um comprava à porção que podia: aos litros, aos decilitros, de azeite…” Júlia Dias

Odete Barbosa ENGRAXADORES “Também desapareceram muitos engraxadores porque estavam com falta de emprego, houve uma crise e não tinham emprego.”

Engraxadores / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

Maria de Lourdes Agapito “Era para quem tinha dinheiro. O meu pai obrigava-nos a engraxar os sapatos porque cobrava aos clientes 10 tostões. E o meu pai dava 5 tostões a cada uma de nós, eu é que fazia aquilo, engraxava os sapatos e depois ele ganhava os outros 5 tostões.” Odete Barbosa POLÍCIA SINALEIRO “Era o bailarino! (…) Havia ali ao pé do Teatro de D. Maria ao pé dos Restaurados, havia lá um que tinha assim uma coisa de madeira e ficava ali horas! Quando era no Natal olha, é das “grossas”!” Camila Tavares

“Os palancos eram para eles ficarem mais altos. Era a finalidade. Era uma coisa de madeira.” Irene Pinto


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“Mas só era preciso quando havia muito, muito trânsito, senão não precisavam.” Clotilde Sá Pires “No outro dia saí de casa, ainda não há muito tempo, foi a semana passada, e fiquei muito admirada porque vi no cruzamento uma rapariga. Aquilo devia estar a treinar porque ali não há muito movimento, então estava naquela travessa e mandava parar e seguir. Aquilo devia estar a treinar com certeza para quando houver mais movimento saber!” Júlia Dias GUARDA NOTURNO Polícia sinaleiro / Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

“Nós tínhamos e ainda temos. Anda por aí um guarda noturno. E eles andavam fardados. (…) Há ainda na baixa.” Alzira Paixão

“Eu pagava 300 escudos. Mas ele ligava muitas vezes a dizer que a luz do carro estava acesa…” Maria de Lourdes Agapito


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Homenagem aos que já partiram Depois de termos dado voz a todos aqueles que participaram em mais um ano de Grupos de Encontro, não podemos deixar de prestar uma especial homenagem a dois participantes do Grupo de Encontros que tanto contribuíram para esta atividade e que já não se encontram entre nós.

A Equipa AMPMV e os participantes do Grupo viram partir durante este ano duas personalidades, o Sr. Carlos Sousa e o Sr. Horácio Simões, participantes ativos deste grupo, dotados de um conhecimento impar e que deram contributos valiosos para esta atividade durante todo o tempo que nela participaram.

Queremos agradecer todo o tempo que passaram connosco, a boa-disposição e alegria que sempre demonstraram, bem como tudo aquilo que nos ensinaram.

Até sempre e muito obrigada!


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Agradecimentos Em nome da Direção AMPMV, não posso deixar de agradecer a todos os participantes do Grupo de Encontros, por mais um ano desde atividade, onde tanto temos aprendido.

É nossa missão combater a Solidão e dar voz à população idosa residente na Baixa de Lisboa e Mouraria, cuja experiência de vida tanto tem para ensinar às gerações futuras. Com a publicação desta Revista, pretendemos imortalizar todo o conhecimento que ao longo destes meses nos foi transmitido, cujo valor histórico é único e torna-se fundamental preservá-lo.

Para o cumprimento desta missão, é imprescindível o apoio dos nossos parceiros, a quem também não podemos deixar de manifestar o nosso profundo agradecimento, nomeadamente à Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, ao Arquivo Municipal de Lisboa e Caixagest.

Muito Obrigada e um Bem-Haja!

A Presidente da Direção AMPMV

Maria de Lourdes Pereira Miguel


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Memórias da

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Imagens gentilmente cedidas por Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico

Impressão Caixagest

Junho de 2016

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Revista AMPMV 2016 - Memórias da Cidade de Lisboa  

Publicação resultante do ano de atividade 2015/2016 do Grupo de Encontros AMPMV

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