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Oceanos Texto e Fotos: Maíra Borgonha e Áthila Bertoncini

(re)criados

Reproduzir os ambientes aquáticos levando ao público informações que promovam educação e conservação são alguns dos propósitos de oceanários e aquários espalhados pelo mundo

O Oceanário de Lisboa conta com um importante programa de Educação Ambiental, contemplando ainda visitas de escolas e realização de workshops

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Nem todos os aquários e oceanários adotam boas práticas. Informe-se sempre que possível sobre o local que irá visitar e tenha certeza de que estará fazendo a sua parte!

O

ceanários não são apenas locais de entretenimento. São também espaços educativos e de produção de conhecimento científico. Inaugurado em 1938, na Flórida, o Marineland foi um dos primeiros parques temáticos americanos e é tido como o primeiro oceanário que se tem registro. Estima-se que hoje estejam em funcionamento mais de 300 aquários públicos de relevante porte no mundo, sem contar os inúmeros aquários menores. Diz-se que o maior oceanário da atualidade é o Marine Life Park Resorts World Sentosa em Singapura, onde o S.E.A Aquarium exibe mais de 800 espécies. No entanto, a cada dia novos projetos têm surgido. Com o aumento dos riscos às espécies marinhas no ambiente natural, os oceanários tornaram-se uma alternativa à manutenção da vida selvagem em condições ex situ. A demanda pela proteção trouxe também a necessidade de aprimorar e otimizar estruturas e tecnologias empregadas na manutenção das espécies que os aquários comportam, visando primordialmente, sua sustentabilidade.

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Como forma de abordar a importância e também a discussão que envolve a conservação da vida marinha ex situ, vamos relatar a experiência nas visitas a três oceanários: o Oceanário de Lisboa em Portugal; o Manila Ocean Park nas Filipinas e o Ocean Park Hong Kong, na China. Junto com essas três experiências seguem algumas curiosidades, atrações e a avaliação de especialistas no assunto.

Oceanário de Lisboa

Localizado na capital portuguesa, o oceanário de Lisboa foi inaugurado durante a Expo 98 – a última exposição mundial do século XX – que tinha como tema “Os Oceanos, um Patrimônio para o Futuro”. As espécies estão distribuídas em quatro tanques laterais representando os oceanos Atlântico Norte, Antártico, Pacífico Temperado e Índico Tropical, além do imponente tanque central com cerca de 1 000 m2 e 5 000 m3, chamado de Oceano Global, cuja dimensão pode ser observada através de quatro imensas janelas de acrílico de 11 cm de espessura. Toda a mistura para reproduzir a água

salgada utilizada nos tanques consome quatro toneladas de sal na preparação que é feita semanalmente no próprio oceanário. A ideia a ser transmitida com a distribuição dos tanques é de um oceano único, indivisível e a arquitetura proposta, de fato, cumpre essa função. Além dos tanques central e laterais, são promovidas exposições temáticas com alto apelo educacional. Esse é um aspecto fortíssimo e presente no Oceanário de Lisboa que conta ainda com um importante programa de Educação Ambiental, que contempla visitas de escolas, realização de workshops e divulgação (carro VaiVem) do oceanário pelo país. Há também atrações como fado e os pequenos podem ter a incrível experiência de passar a noite e “dormir” com os tubarões. Sem dúvida, o Oceanário de Lisboa é um dos mais belos da atualidade e integra atividades de fomento à pesquisa com programas de conservação que envolvem jovens pesquisadores. O mascote do Oceanário de Lisboa é um simpático mergulhador chamado

O formato de túnel do Oceanário de Manila simula um verdadeiro mergulho

Vasco. Seu nome tem uma mensagem fantástica: “Vamos Ajudar a Salvar e Conservar os Oceanos”. Os ingressos variam entre R$ 18,00 a 48,00 e há descontos para compras on line. www.oceanario.pt

Manila Ocean Park

Localizado na efervescente capital das Filipinas, o Manila Ocean Park tem como desafio recriar a biodiversidade do conhecido triângulo de corais do Oceano Índico distribuído ao longo das mais de sete mil ilhas do arquipélago. Ao iniciar a visita, a surpresa é deparar-se com o maior peixe de água doce do Brasil: o pirarucu. Logo na entrada, vários desses espetaculares animais são expostos ao lado de tanques com piranhas e aruanãs. Na sequência, um surpreendente tanque de toque propicia o contato direto com ouriços, equinodermos (estrelas), bivalves (Tridacna gigas), lesmas do mar (Aplisias) e pequenos tubarões. O mosaico de tanques menores com espécies de peixes recifais, que expressam a rica diversidade de formas e cores, até tanques maiores com

Reprodução de tubarões no Manila Ocean Park

Curiosidades:

O National Marine Aquarium, na Inglaterra, fez uma pesquisa com visitantes medindopressão,frequênciacardíacaeíndicedehumorapós5e10minutosobservandoosaquáriosrepletosdevidamarinha.Osdadosrevelaramqueacontemplaçãodos aquáriosbaixaapressãoefrequênciacardíaca,alémdemelhorarohumor.Adicionalmente,aspessoasrelaxadasficammaisabertasàsmensagenseducacionaisdosaquários.Aquáriossãoterapêuticos,melhoramohumorereduzemapressãosanguínea: Uma boa campanha! (Fonte: João Pedro Demore)

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pequenos aquários no percurso contam com mais de 2 000 peixes. O ponto alto do oceanário é o show fluorescente de águas vivas: o Sea Jelly Spectacular. Pertencentes ao grupo dos cnidários, mais de 1 000 águas vivas estão dispostas num salão escuro dentro de tanques cilíndricos em uma interação entre luz, música, e efeitos especiais multimídia que propiciam uma experiência idílica. As entradas custam entre R$ 40,00 e R$ 80,00. www.oceanpark.com.hk

E no Brasil?

A hora da alimentação dos peixes por mergulhadores é uma atração à parte

peixes pelágicos, grandes predadores, cria uma sinergia e mantém constante a atenção do espectador. Um dos pontos altos da visita é o túnel que atravessa o tanque principal com uma efervescência de vida: raias, tubarões, garoupas e cardumes de pequenos peixes cruzam alvoroçados a estrutura que culmina em um aquário de teto onde é possível ter a vista ventral de arraias de todos os tamanhos: sensacional! Por fim, no último tanque, com vista lateral e superior, se presenciam dezenas de barbatanas de tubarões-galha-preta. Pés cansados? O fish spa oferece uma relaxante limpeza de pés com peixinhos limpadores. No Manila Ocean Park além de alimentar pinguins, pode-se fazer passeios de barco (com fundo transparente) pelos

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tanques, acompanhar os bastidores da manutenção e também submergir com um moderno escafandro. A parte educacional não deixa a desejar: ao fim da exposição, uma vasta área com atividades lúdicas envolve o público. As entradas custam entre R$ 26,00 e R$ 48,00. www.manilaoceanpark.com/main/

Ocean Park Hong Kong

O Ocean Park Hong Kong fica localizado em Hong Shuk Hang, na Ilha de Hong Kong e é uma mistura de parque temático, oceanário e zoológico que atende o público desde 1977. Em uma área de 87,9 hectares, onde é possível ver desde os raríssimos ursos panda e esturjões chineses a shows com mamíferos marinhos. Seus quatro aquários temáticos e diversos

Com mais de 8 500 km de costa os investimentos na geração de empreendimentos dessa natureza ainda são incipientes no país. Há alguns anos aguardamos que iniciativas realizem a aspiração de um oceanário de grande porte em terras/águas brasileiras. Atualmente vários aquários de pequeno porte e centros de visitantes têm desenvolvido tal papel: alguns com maior outros com menor infraestrutura. Grandes empreendimentos são esperados para o Rio Grande do Sul, Bahia, Rio de Janeiro e Ceará, nesse aspecto, uma série de barreiras ainda precisam ser vencidas. Uma delas é que seja visto como um meio de entretenimento

Fique atento! Nemtodososaquárioseoceanários adotam boas práticas como as que mencionamos.Informe-sesempreque possível sobre o local que irá visitar e tenhacertezadequeestaráfazendoa sua parte! Cadaanimalpresenteemumaquárioéumanimalretiradodanatureza? Não necessariamente. Os oceanários já possuem bancos de espécies e realizam trocas entre si. Além disso, o comércio e até mesmo o tráfico de animais para aquários particulares causamaioresdanosàsespéciesque oceanáriospúblicos.Eviteamanutençãodeanimaissilvestresdeprocedência duvidosa em cativeiro. Incentive, sempre que possível a visita a locais públicos.

Anêmonas e peixes-palhaço no Ocean Park Hong Kong

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Os aquários desempenham hoje um papel decisivo na promoção da conservação do ambiente marinho

Viola-de-espinhos no Oceanário de Lisboa

prioritário para a população. Outro obstáculo a ser transposto é a dificuldade em estabelecer a cultura e mentalidade marítimas na população brasileira: pode soar estranho, mas o acesso ao mergulho ainda é limitado a uma reduzida parte da população e muitas pessoas irão terminar suas vidas, inacreditavelmente sem, ao menos, conhecer o mar.

Oceanários e conservação

Manila Ocean Park

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De acordo com o oceanógrafo João Pedro Demore, em pesquisa feita na Europa, os oceanários foram considerados a melhor fonte de informação, mais confiável, sobre a vida marinha para o grande público: “Além de pioneiros em experimentação, utilização de energias limpas e tecnologias sustentáveis, essas ações vem sendo consideradas garantia de sustentabilidade de longo prazo para os aquários, além de garantir a coerência com suas ‘missões’ e ‘visões’ “. Sobre o uso de espécies selvagens, segundo o oceanógrafo, “os aquários têm trabalhado na construção de bancos genéticos próprios. Atualmente, tem-se

aquários desenvolvendo tecnologias de reprodução de diferentes espécies em cativeiro e também de coletas de ovos, larvas e alevinos no ambiente (e no próprio aquário) resultando na coleta de baixíssimo impacto favorecendo a diversificação genética da população.” Segundo João Correia, pesquisador do IPL/Peniche e da empresa Flying Sharks que faz transporte de animais para aquários: “Os aquários desempenham hoje, mais do que nunca, um papel decisivo na promoção da conservação do ambiente marinho. Contudo, não seria possível se não fossem atraídos largos milhares de pessoas passíveis de serem educadas quanto à necessidade urgente de se estabelecerem políticas protetoras efetivas. Um exemplo recente, e bem-sucedido, surge na forma da proibição do finning em águas europeias, que já vinha sendo alvo de várias campanhas conservacionistas há muitos anos. Mas foi o envolvimento de grandes aquários públicos na disseminação desta mensagem que levou dezenas de milhares de cidadãos a inundarem as caixas de correio eletrônicos de vários membros do Parlamento Europeu solici-

tando a abolição definitiva do finning”. Continua: “É certo que nem sempre é agradável ver criaturas emblemáticas e de porte nobre, encerradas por trás de uma parede de acrílico. Há que lembrar, contudo, que esse animal é tratado com o mais alto perfil de cuidado e preocupação de bem-estar. E há que lembrar, também, que esse animal atrai milhares de visitantes que ajudarão a formatar políticas que irão salvar os seus ‘primos’ selvagens”. Você pode se perguntar: Uma exibição vale o sacrífico dos animais? Em hipótese alguma devem ser sacrificados. Para lidar com questões éticas e práticas, organizações internacionais como a WAZA (Organização Mundial de Zoológicos e Aquários) e a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), entre outras, trabalham juntas em busca de estabelecer e cumprir determinações para minimizar os prejuízos aos animais alocados ex situ. Ainda, outro aspecto importante de ressaltar, que diz respeito a interação direta, como as que ocorrem em tanques de toque, o biólogo marinho Nuno Vasco Rodrigues aponta: “Há políticas impor-

Ocean Park Hong Kong

Como se faz a limpeza de um grande aquário? Um dos principais fatores para a saúde dos animais mantidos nos oceanários é o monitoramento da qualidade da água. Nesse aspecto, a avaliação das condições físico-químicasérealizadaváriasvezesaodia.Limpezamecânicaémuitoimportante: implicanaentradadomergulhadorparaaspiraçãoeremoçãoderesíduosquepossam comprometer a qualidade da água. Estruturas como rochas e corais normalmente são artificiais por questões ecológicas. O vidro dos tanques é a principal janela para o público, assim é necessária a limpeza diária para evitar o acúmulo de algas (Fonte: Nuno Vasco Rodrigues).

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Manila Ocean Park

Peixe-lua no Oceanário de Lisboa

tantes nos tanques de toque: design com especial atenção às espécies que serão tocadas e avaliação do estresse adicional que sofrem: “O acompanhamento em tanques de toque é fundamental, pois temos muito medo do desconhecido até que tocamos os organismos. Ao mexer e ver por iniciativa própria é possível também transmitir o conhecimento adquirido. O fato desses organismos encontrarem-se próximos às pessoas possibilita repetir a experiência no ambiente natural e repassar o conhecimento a outras pessoas”, diz. A existência de oceanários que estabelecem boas práticas tanto na manutenção de animais, quanto no propósito das exposições, reverte diretamente na construção de um processo educativo que amplifica o ganho simbólico, cultural e conservacionista do público. A imensidão de água por detrás do acrílico é como um bilhete para o oceano aberto. Mas ela só se justifica ao olhar pessoas de todas as idades encantadas com o mundo novo que é posto à sua frente. Ao perceber que algo nos conecta a esses seres melhoramos nossa humanidade e passamos a aceitar e respeitar a diversidade da vida. Sendo assim, temos um bom (re)começo em busca de novos tempos de coexistência múltipla de seres humanos e de todos outros seres da natureza. Nós mergulhadores nos conectamos diretamente com o mar, resta agora que outros possam compartilhar, mesmo que a seco, essa experiência. Agradecimentos a Nuno Vasco Rodrigues e João Correia (Flying Sharks), ao João Pedro Demore (Projeto Aquário de Porto Alegre) que gentilmente colaboraram com depoimentos e informações técnicas. Agradecemos também a Gonçalo David de Nunes e Oceanário de Lisboa.

Oceanógrafos, Áthila e Maíra trabalham em prol da conservação marinha através do estudo da bioecologia de peixes e do conhecimento ecológico local de pescadores. Para desenvolver suas pesquisas utilizam do mergulho e da fotografia subaquática. Endereço para correspondência dos autores: athilapeixe@gmail. com e mairameros@gmail.com

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Pirarucu, o maior peixe de água doce do Brasil no Manila Ocean Park

Aqui vão alguns números: Two Oceans Aquarium, África do Sul - 5 milhões visitantes (1995 a 2012) Aquário de Beijing, China - 2 milhões visitantes/ano Nordsøen Oceanarium, Dinamarca - Aberto em 2012 prevê 700.000 visitantes/ano Aquarium La Rochelle, França 800.000 visitantes/ano SeaLife - Os 40 aquários pelo mundo recebem15milhõesdevisitantes/ano AquaPlanet Jeju, Coreia: 50.000 pessoas apenas no 1º dia OceanPark Hong Kong, China - 7 milhões de visitantes/ ano Mare Nostrum Aquarium Montpelier, França - 360.000 visitantes/ano Oceanário de Lisboa, Portugal - 16 milhões de visitantes em 14 anos

O tanque de toque do Manila Ocean Park propicia o contato direto com ouriços, equinodermos (estrelas), bivalves (Tridacna gigas), lesmas do mar (Aplisias) e pequenos tubarões

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Oceanos (Re) criados - Revista Mergulho 204  

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