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Cotidiano de um Anjo

Mรกh Ah Martins


...N찾o existe um s처 dia em que eu n찾o esteja em confronto com Deus... Mas eu posso! Eu sou um anjo! Maldito seja eu...


Hoje (eu sei o dia, mas não quero dizer, nem lembrar... como se isso fosse possível...) Sim! Eu tenho asas. Essa é mais pura verdade, nua e cruelmente. Eu não sei por que eu as possuo, eu as descobri há pouco tempo! Essas asas... Às vezes elas surgem mais como uma lembrança de que estão nas minhas costas do que algo onde se possa encostar realmente. Tem dias que elas aparecem como luzes em forma de asas, e se alargam tanto que até me dobram devido ao peso. Outras vezes elas se materializam contra a minha vontade, elas se abrem e se agitam sem qualquer resistência ao se dobrarem, são pirracentas e obstinadas. Em outras ocasiões, mais comuns do que eu gostaria, elas se espalham como miríades de luzes, tal como poeira cósmica. Elas não são feitas de ‘penas’ como as conhecemos, mas deixemos assim com este nome; pois são como ‘penas’ sedosas, cheias de fiapos e brilhos bem minúsculos.

Elas são lindas, de fato, tão delicadas quanto

agressivas! Vivem desejadas pelos homens, além de descritas como verdadeira dádiva, um sopro do bem e mantenedoras da vida. Mas não é nada disso. A verdade sobre essas asas é mascarada dia após dia... Eu precisei ficar um longo tempo em silêncio, procurando não refletir sobre essas asas com leviandade e covardia... E daí? Eu devo falar a verdade? Tarde, tarde da noite...


Asas são como estigma, elas são piores que chagas, sua presença é uma condenação e eu as jogaria fora sem qualquer remorso. Por qual motivo eu faria isso? Neste exato momento, há dois sujeitos próximos à janela do meu quarto discutindo sobre terras!

Eles

são

fantasmas!

Por

Eles

são

mortos,

mas

completamente vivos aos meus olhos! O que eles querem? Ah sim! Querem que eu resolva um problema para eles! Que eles viram as minhas asas e isso indica que eu sou “o cara certo para ajudá-los”! — Ah, tá! Vão procurar um advogado morto e trate de ir a um centro espírita! Cacete! — Eu lhes disse e fui me esconder no único lugar seguro em toda a casa: debaixo dos lençóis da cama do meu filho. Minha mulher, percebendo o meu dilema, logo se aconchegou ao meu lado. Nem foi à toa que eu mandei fazer uma cama mais larga para o quarto, para que nós três tivéssemos conforto nas horas do meu desespero. Ali o ‘derredor’ fica em silêncio. Eu digo derredor, pois também se aplica ao invisível. No quarto do meu filho não há monstros escondidos no armário nem debaixo da cama. Dia tal... Nem sei! Ok! Foi o que eu disse para os dois caipiras quando eles me impediram de entrar em casa. Eles me cercaram do nada (tipo nuvem que se materializa em gente), vindo com aquela conversa das terras, que a família estava entrando em conflito por causa do limite entre as fazendas, que eu poderia ajudá-los!


—Indo lá com uma régua para medir? — indaguei, querendo passar. Os dois me cercaram com aquela cara de ‘morto-vivo’! Nem dá para explicar como é! Nem vou tentar! Um deles disse que o problema seria facilmente resolvido se a família achasse o documento na terceira gaveta do armário grande da sala. O documento comprovava o acordo de nunca consertarem aquela parte da cerca, mesmo desrespeitando o limite das terras um do outro. Que quando vivos, os dois, eles nunca haviam brigado por causa disso! Que era uma pena a família estar em pé de guerra devido a uma coisa tão banal, que vaca é ‘bicho solto’, que não sabe ler quanto mais entender declarações de terreno e essas coisas assim, que o gado era marcado, que dava para saber de quem era o gado, mesmo se os bois e as vacas resolvessem entrar fazenda contrária adentro. — Muitas vezes eu fui vê-lo para levar uma vaca fujona. Ele também me trazia algum boi ou bezerro. — Falou o mais alto deles. — Isso foi sempre motivo para a gente tomar uma cachaça juntos perto da fogueira, contando casos “do coisa ruim” ou ouvindo uma moda de viola. E agora isso? — Por isso a gente está aqui! — Disse o outro. — Você é advogado também, num é? — Sou apenas um servidor público! — respondi, mas estava apavorado! — Trabalho com vínculo de dedicação exclusiva! Eu


não posso advogar causas. Eu nem quero! Dá trabalho, traz problemas e, pelo visto, mortos demais! Mais do que o devido, por sinal! Mais do que era conscientemente pautado na realidade. Mais do que a vida deveria ser de normal e corriqueira. — Mas você é um anjo, sô! Só pode ser anjo com essa luz saindo das costas como poeira do céu! A gente até viu elas bem de longe! Bem lá de Minas, né? Soltei um palavrão que os deixou perplexos e tentei sair de perto. Eles me cercaram, e chegaram a chamar a minha atenção por causa da minha boca suja. — Veja bem! — Disse-lhes. — Eu não tenho como viajar para Minas. Também não posso chegar à fazenda de vocês, falando de um documento que prova que jamais brigariam por causa de uma cerca estragada em um determinado trecho do rio assim e assado! Eles vão pensar que eu sou doido! Aliás, eu próprio já estou começando a ter certeza disso! Um deles exclamou: — Mas eles gostam de casos de fantasmas! Foram criados na beira de uma fogueira ouvindo casos assim. Basta lhes dizer que nós te procuramos; que deixem as coisas como estão, pois são como elas devem ficar sempre! Que os bois gostam de atravessar o riacho, que quanto mais eles concertarem a cerca pelo tamanho


da minha terra ou da dele, mais problemas eles terão, que um muro de alvenaria vai ficar muito caro e o pior: matar um bicho para construir um muro ao contrário de alimentar gente? Num pode! Eles estão subvertendo o equilíbrio do universo com aquela confusão! Daqui a pouco vai ter morte por lá! Equilíbrio do Universo? E o meu equilíbrio como ser participante desse equilíbrio universal? Não contava não, é? Cacete! Eu fiquei olhando aqueles dois sem saber o que fazer ou dizer. Então eu perguntei se eles se lembravam do número do telefone ou fantasma se esquece disso? Logo eu estava falando com uma moça da cidade de Itanhandu em Minas Gerais, bastante equilibrada por sinal, e que me disse que só não me mandaria para a ‘pqp’ já que de loucura bastava o que estava acontecendo na família dela, fora que eu morava longe demais! Os dois homens ficaram arrasados, eles colocaram os braços no ombro um do outro e ficaram chorando. “Vai lá assombrar a fazenda ora”! Eu sugeri! “Toca lá a maior barata voa! Em pouco tempo eles darão um jeito de procurar ajuda até mesmo de uma cartomante”! Os dois riram de um jeito tão assustador que eu me arrependi, amargamente, de ter dado tal conselho. Três semanas depois eu ouvi a conversaria do lado de fora do quarto, na lateral da casa onde havia um bonito quintal! Os dois fazendeiros mortos estavam lá! Queriam agradecer a ajuda! A filha com a qual eu falara, depois de soltar diversos palavrões dirigidos a minha


pessoa, mas com a pulga atrás da orelha, fora procurar o documento e o encontrara. Aquele documento, um rico documento por sinal por aquilo que advogava, transcrevia um lindo pacto de amizade o qual, além de proteger o buraco da cerca sobre o riacho onde o gado passava - tal qual a moda de viola escrita pelo pai e tocada pelo amigo violeiro dono da outra fazenda-, também iria impedir qualquer discussão na família acerca do lugar em questão. Entretanto, e para o meu maior sofrimento, aquele documento apenas selava, novamente, a profunda ligação entre aqueles dois homens e por tantas reencarnações sucessivas que elas até se perdiam aos meus olhos para o passado assim como para o resto da eternidade em planetas infinitos. Como eu sabia disso? Eu sabia! Eu apenas sabia disso olhando para eles enquanto se afastavam com aquela ‘conversaria’ toda de almas gêmeas e seus assuntos que nunca se acabam! Eu nem sei como fui capaz de visualizar esse tipo de coisa que começou em um passador tão distante e que ainda se estenderia a mais impossível distância no tempo! Eu quis o quarto do meu filho. Imediatamente eu me escondi debaixo das cobertas do quarto do meu filho. E não só por isso, como eu desejei ter uma amizade como a daqueles dois. Que fossem benditos ao infinito afora. Que dia é hoje? Quantas horas são?


Eu estou no armário do meu quarto, não fui para debaixo das cobertas com meu filho. Eu não quero mesmo me ver, eu não quero me encontrar, nem quero saber se estou vivo, queria morrer logo de uma vez. Minha mulher está me chamando, sua voz sempre mansa e tranquila. Nunca se desespera essa mulher por nada! Mas ela me chama! Eu só penso em escrever, mesmo no escuro e neste calor dos infernos. Tenho de registrar o que aconteceu comigo durante a noite, para não ter a insanidade como a mais esperada companheira ou, então, para mostrar para alguém quando eu tiver a oportunidade de processar qualquer divindade que seja por ter me dado essas asas malditas. Quando acordei, uma ou duas horas atrás na noite escura ainda, eu estava sobre o telhado qual um bicho empoleirado, só que eu não sei como fui parar lá! Nunca aconteceu de eu ter crise de sonambulismo, e o telhado? Não há como subir sem uma escada bem alta e ainda não temos escada já que nos mudamos há pouco tempo para esta casa. Nem pelo muro dá para subir, nem nada! Logo ao acordar eu me lembrei do ‘sonho’ que eu tive (sonho ou o que valha) enquanto dormia naquela posição de bicho empoleirado. Eu fui parar numa praça cheia de gente feliz defronte a um templo muçulmano. Essa gente festejava a alegria de ter uma fé e comemorá-la junto a seus familiares. Então, um homem vestido com roupas negras gritou uma frase de ordem e explodiu bomba atada ao próprio corpo. Daí aconteceu uma quietude em câmera lenta, como se o próprio tempo se negasse a andar, só


para não ter tanta crueldade estampada em sua própria linha de existência. Eu? Se o próprio tempo estava assombrado, imagina o que eu sentia vendo tanta gente caída, seus olhos sem reação imediata sobressaindo dos rostos cobertos da fuligem da explosão; outros mais atônitos ainda, muitos mortos, tantos feridos, corpos ensanguentados ou em pedaços espalhados, meramente jogados, vidas que significavam apenas o reles preço com o qual se paga as taxas da miséria política. A quantidade de explosivos que aquele homem trouxera no corpo fora capaz de destruir quase todo o quarteirão que beirava a praça e mal se sabia a quantidade de mortos e feridos dentro do templo. Um templo que fora branco, de fachada bonita, depois, apenas destroços misturados às chamas e aos corpos. Quando a câmera lenta passou e toda aquela gente deu conta do atentado, o desespero, os gritos de dor, de aflição e de medo foram avassaladores e isso somado ao barulho urgente das sirenes das ambulâncias e dos bombeiros que rapidamente vieram em socorro das vítimas. Mas não só eles vieram. Por isso eu me vejo neste inferno particular: os gritos daquela gente se tornaram como facas sendo enfiadas em meu corpo. De cada ferida começou a sair luzes coloridas e cada cor, em particular, era destinada a um ferido. Várias ‘pessoas’ - se posso chamá-las assim - começaram a transitar em meio à multidão, ajudando principalmente aqueles que


haviam morrido. Elas tiravam as almas desses mortos de seus corpos e sumiam com elas vai lá se saber pra onde! Esses, essas, criaturas também manipulavam as luzes que eu doava para os feridos, transformando essas luzes em uma água clara e tão cristalina que brilhava adiamantada. Nós não éramos vistos pelos acidentados, somente alguns, em estado febril de dor próxima à morte, voltavam olhos assustados em nossa direção. Alguns desmaiavam aos nos ver, outros se negavam a ver! Eu permaneci naquela posição de bicho empoleirado o tempo todo enquanto aquelas criaturas corriam como loucas para evitar que mais gente morresse... Tantos não resistiram e eram levados para não sei onde... Eu não quero sair daqui... Minha mulher bate na porta do armário que eu seguro com força para não abrir. Eu não quero sair daqui! Quando tudo acabou nesse nosso lado imaterial ou sei lá, eu acordei sobre o telhado na posição tal qual a de um pássaro! Fui então escorregando sobre as telhas para não quebrá-las, fui me virando, segurei a calha com cuidado e pulei sem sair ferido. Neste mesmo dia, já de manhã, a manchete em todos os jornais anunciaria o atentado à mesquita praticada por vinte homens bombas, não somente por aquele que eu vi. O número de vítimas foi de mais de quatro mil pessoas dentro de uma estimativa de aproximadamente dez mil visitantes. Muitos ainda continuavam presos no interior do templo, nem se sabia se haviam se salvado. Mas quem estava na praça, ao ar livre, foi quem sofreu todo o impacto das bombas. O motivo da festa? O término da construção


do templo! Explicações? Nenhum grupo assumiu o atentado. Covardia? Nem quero escrever mais... Chega, basta! Ok!!!!! Dia 17/05/2012/ Ontem eu descobri que as aves brancas são como um arremedo feliz das asas que nós, os anjos, possuímos e que elas, essas asas, também são o dedo em riste de Deus nos alertando de Sua existência e sua presença nos controlando. As pombas brancas são os melhores exemplos disso, mesmo com todo o perigo de nos causarem doenças. Então eu me lembrei de um fato que aconteceu nas férias, no início do ano. Eu, minha mulher e meu filho, estávamos na praia, em São Luiz, Maranhão. Ao observar um grupo de crianças brincando na beira d’água, três das várias gaivotas que estavam por perto eram anjos! Bem, aos meus olhos eram anjos, depois eles se transformaram em gaivotas de novo e se foram para averiguar um grupo de turistas e suas crianças bem mais à frente. Mas eu não sei como eu consigo fazer isso e eu sei, e nem sei como, que muitos anjos, desses como eu, não enxergam coisas, aliás, acho que são poucos os anjos que conseguem ver as coisas como eu as vejo o tempo todo. Tem anjo que mal sabe sequer que é um anjo! Pensa que é médium, paranormal, vidente, essas coisas assim de seitas espiritualistas. Então, quando eles descobrem a verdade, ou já estão velhos demais para se desesperarem, ou não


acreditam e, quando sim, alguns se banalizam, outros se escondem, como eu... Eu não quero saber da data... Os dias são assim... E assim vai ser para toda a vida, e vai ser assim eternidade afora. Mas é bom saber que nós, os anjos reencarnados na Terra, envelhecemos e morremos... Acho que eu estou é precisando tomar Lítio, qualquer remédio desses dai que interrompam essas pirações. Devo sim, devo não, devo sim, acho que vou procurar um psiquiatra, vou lhe dizer que tenho visões, que fico conversando com gente morta, que sonho com coisas que vão acontecer ou que estão acontecendo, quem sabe ele não receita um desses remédios sossega leão? Será bom ser taxado de psicótico depressivo ou o que valha e tomar um bom remedinho para que tudo isso deixe de existir... Se fosse possível... Acho que não! Não! Não! O incômodo em meio às costas dá uma dor extremamente agoniada quando eu nego a minha verdadeira natureza. Esse incômodo, essa dor, este maldito carma, este maldito estigma! O pior foi que eu descobri essas asas depois que meu filho nasceu... E disso eu não abro mão: sou mais pai do que anjo. Ser pai dá uma consciência enorme da necessidade de ter uma vida sã e saudável para sustentar o filho e a esposa. Ela até parou de trabalhar... Não somente por causa de nosso filho, mas por minha causa, para que ela possa estar sempre por perto quando o desespero for demasiado... Por eles eu jamais cometeria


um

suicídio,

porém,

por

Deus

e

por

essas

asas...

“Hummmmmmmm”... Eu não pensaria duas vezes antes de me matar... “Tu me enganaste maldito! Eu só pude ver as asas depois que meu filho nasceu não foi”? Dia de hoje, mais um dia, mais um dia, mais um dia... Ora! Se deus dá um sonar a peixes cegos para que se orientem nos lodos e algas de mares e rios, deus também é bem capaz de dar asas aos seus anjos reencarnados, ou a certos homens, poucos homens, aliás, como se os marcassem de uma glória divina para um árduo caminho... Ah, não! Nada tenho especialmente contra deus! Acredito na sua bondade infinita! Só não gosto da bondade de ter feito de mim um anjo ou de ter me reencarnado neste corpo humano... Like a Monkey! Eu não amo a deus acima de todas as coisas. Nem tenho um amor infinitamente cheio de graça e respirações de bondade. E já que eu sou um Anjo, acho que posso tratar a deus sem tantas reservas e letras maiúsculas! E daí se for para o inferno por causa disso? E se for excomungado? Será que eu virarei um anjo duplamente caído por causa disso? Mau ou mal... Preciso ver isso no dicionário. Nem me recordo disso agora! Nem vou falar nada...


“Dormir é necessário, mas navegar pelos mares dos sonhos e dispensável!” Peço-lhe desculpas, poeta, por roubar e modificar os teus versos... Puxa vida! Eu preciso dormir. Eu realmente preciso dormir, são cinco horas da manhã e eu impeço o sono de me dominar. Dormir é imprescindível para mim. Meu trabalho requer atenção e sempre me sinto muito cansado, quando eu chego ‘em’ casa há o meu filho. Que delícia é brincar com ele, mesmo tão fatigado como eu me sinto, depois amar minha esposa como se a noite fosse um presente. Mas não é sempre assim. Há noites em que a tempestade se aproxima sem piedade e eu tenho de me manter acordado quando começo a perceber coisas referentes a tragédias que acontecerão mundo afora ou no dia seguinte ou na semana vindoura; assim como esse cheiro de coisas queimando que estou sentindo, esse tremor pelo solo em redor de casa. Ah sim! Eu dispenso flutuar para os sonhos malditos... Estou mesmo dispensando acordar sobre encosto do sofá na posição de bicho empoleirado. Engraçado... Alguma coisa sentiu vergonha por mim e começou a impedir que eu fique no telhado. Minha mulher vem e deita no sofá, vigilante, ressonando... Telefone... É a minha mãe... Mas às cinco horas da manhã? Minha mãe pediu ajuda para a filha de uma amiga que está com câncer. Elas moram no Rio de Janeiro. São sete horas da manhã lá devido ao horário de verão. Já curei algumas pessoas com câncer... A maioria não teve a sorte de acomodar meu dom de cura com eficiência... Mas minha mãe sempre insiste com isso...


Outro dia, outra noite, outro dia, outro dia, outra noite... Mais de quatrocentos mortos e feridos após explosão de gás em um prédio onde celebravam um casamento e um aniversário em Salt Lake City nos Estados Unidos. Terremoto na Itália deixa mais de 100 pessoas feridas e seis mortos. Outro dia, outra noite, outro dia, outra noite... Preciso de Valium, não! De Lítio? Preciso dormir e não sonhar. 22 de maio de 2012. Hoje eu resolvi sair para fazer compras. Eu queria ter um dia normal, ser normal como todo ser humano é. Gastar dinheiro, andar com várias sacolas de compras nas mãos, até usei o sapato novo que custou bem caro! Couro italiano legítimo! E daí? Anjos também precisam de regalias. Precisam se vestir de acordo com a beleza de suas asas! rssss Só sinto pena por essas asas serem de mentira verdadeira. Mentira porque elas não se materializam e verdadeira porque elas existem. Elas são, mas não estão! Posso usá-las, mas não voar com elas... Que pena... Já pensou se eu tivesse ido a Londres fazer compras? Deus, eu acho que tu erraste em alguma coisa com os teus anjos aqui na Terra. Pura sacanagem impedir a materialização das nossas asas, né? Também pudera, não é mesmo? Se materializássemos nossas asas, com certeza não iríamos usá-las tão santamente... Tanto lugar bacana por aí no mundo! Tanto lugar repleto de deliciosos pecados, de comidas


saborosas e mulheres muito apetitosas. Nenhum anjo seria casado, não é mesmo, nem direito, nem decente, nem mesmo honesto... Deus é bem cruel com seus anjos terrestres. Cruel e irônico! Acho que ele está rindo de mim agora. Tá bom Deus, tu me passaste a perna. dia aid adi ida dias sadi said adis sida Eu tenho mesmo de marcar as horas e o dia quando vou escrever? É mesmo necessário, se eu quero esquecer até mesmo que existo? Quanto mais marcar a caneta a minha existência em números do tempo? As horas e os dias são o testemunho salgado da minha existência... Procurador... Mas se sou eu quem está procurando! Foi meu pai quem me deu um diário pela primeira vez. Ele dizia que eu precisava ter um refúgio quando sentia a angústia que costumava vir ao peito sem qualquer motivo. Principalmente depois que vi um tio morrendo em um incêndio. Esse tio morava em outra cidade, bem distante de onde morávamos. ... Coisa absurda... Eu descubro que tenho asas e percebo uma afinidade íntima com este deus estranho... Minha esposa teve de me arrastar para dentro de casa já que estive maldizendo deus em altos berros no quintal. “O que a vizinhança vai pensar?” Ela falou... Dizendo baixinho: “Se pensarem que eu sou louco eu consigo o lítio”?


Que dia é hoje mesmo? Fiquei dois dias sem escrever... Às vezes não dá, não dá... É pela maneira como eu reflito sobre a condição dos anjos terrestres... Anjos morrem de câncer, passam fome, sofrem bulling, sofrem

de

fibromialgia,

são

violentados,

assassinados,

perseguidos, ridicularizados... E, no entanto e, na maioria das vezes, são obrigados a ter uma tremenda força de vontade. Vivem os dias numa espécie de guerra sangrenta contra os sofrimentos que lhes atormentas e muitos sofrimentos nem são próprios. E se a dor é imensa, eles saem e lutam! As feridas queimam? Não importa! Eles saem e lutam! A fome, a sede, a vergonha... Não importa! Os anjos saem da casca imaculada e brigam. A não ser que seja mesmo por isso a presença dos anjos encarnados aqui na Terra. É para que, com o nosso exemplo de força de vontade, os homens possam ter alguma esperança de serem vitoriosos do mesmo jeito. Se nós vencemos, talvez eles também vençam seus carmas e descaminhos. Ah, sim! Ninguém sabe da nossa natureza divina, se falássemos quem somos, seríamos até mortos! Entretanto a nossa coragem ganha dimensão entre as pessoas próximas e elas passam a nos ver como um modelo de coragem e de resistência... São tantos os anjos que estão internados... Aliás, aqueles que manifestam sua glória divina e começaram a relatar o que viam ou o que sentiam... Agora tomam o bendito lítio... Inveja!!!!!!!!!!!!!!!


... Dá até vontade de rir. Se essas pessoas soubessem das nossas lástimas mais profundas veriam que a nossa vontade é a de arrancar as "penas" de nossas asas uma a uma, bem devagar, lenta e lenta e lentamente, confrontando a nossa natureza contra a divindade, confrontando o próprio deus que nos criou assim, como se o amaldiçoássemos: “deus, eu te odeio! Eu te confronto com essas penas sendo puxadas uma a uma para que te envergonhes da tua própria audácia! Tu consegues ver o sangue derramado deste teu eleito aqui? É o sangue de quem pede liberdade, é o sangue de quem te renega desde o mais oculto átomo, pois é das minhas entranhas que meu ódio nasce”! 27 de maio de 2012 Copiei da internet para escrever aqui: 1 - “Massacre em vila na Síria deixa ao menos 92 mortos: “Eles mataram famílias inteiras, mas o alvo principal eram as crianças", disse o ativista Abu Yazan à agência de notícias Associated Press”. 2 – “Em um dos dias mais sangrentos dos 14 meses de protestos e violência no país, foram divulgados na internet vídeos mostrando corpos de 14 crianças enfileiradas no chão, ombro a ombro”. 3 – “Fotos e vídeos postados na internet chocam ao mostrar corpos de crianças enfileirados em vilarejo de Houla”.


Essas fotos jamais mostrarão a presença dos anjos ao redor dessas crianças. Suas pequenas e sofridas almas sendo amparadas pelos nossos braços. Nossas asas irradiando tênue luz branco-azulada, nossos corações expandindo fluídos de amor e compaixão como se fossem feixes prateados, tal qual o ponto que as mulheres chamam de ponto de bala, quando o açúcar vai se transformando em caramelo. Acho que é isso: anjos combinam com doce, combinam com bombons, combinam com o fato de que tudo o que é bom e justo tem a ver com bombons, com caramelos e chocolates, assim como que com luz e misericórdia, com amor e esperança. Nada e nada da covardia e rudeza que este miserável mundo tem a oferecer certas vezes. Que as balas sejam doces e não balas que matam! Na hora do ataque à vila na Síria eu desmaiei. Tudo o que eu me recordo daquelas cenas chocantes é a do meu sofrimento e revolta frente a tanto descompasso. Eu acho que é isso. Os homens perderam o compasso absurdamente musical da vida! Eles

se

transformaram

em

cantos

sem

qualquer

ritmo,

profundamente desafinados com a música das galáxias. Eu resolvi escrever os links para não esquecer: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/45263-massacre-em-vilana-siria-deixa-ao-menos-92-mortos.shtml http://180graus.com/geral/massacre-em-vilarejo-sirio-deixa-maisde-30-criancas-mortas-528455.html


31 de maio de 2012! Nós, os anjos reencarnados neste planeta, temos mais do que seis sentidos. Nós os temos ao todo! A forma das nossas asas lembram olhos. Olhos que vigiam que perscrutam que se enfiam nas estranhas das coisas e descobrem a tudo. A mulher que mora três casas acima da minha passou com seu filho no carrinho de bebê. Com ela estava uma criança de aproximadamente oito anos, de olhos duros e zangados. Ele mantinha as mãos tão agarradas à mão dessa senhora que ela andava com o braço caído, as mãos em riste. Fora até diagnosticada com uma alteração muscular que exigia fisioterapia e Pilates. Essa criança... Eu soube depois que o menino morrera em um acidente de carro tão banal que admirava! O marido, que dirigia o carro, não costumava correr por causa das crianças. Um buraco na pista furou o pneu e ele perdeu o controle do carro que, ao resvalar para fora da pista, trombou de lado com um mourão de cerca. A batida não fora forte e mesmo com o cinto de segurança, o menino bateu a cabeça no vidro. Aparentemente todos ficaram bem, outros motoristas ajudaram. O Samu chegou para socorrer os ferimentos embora leves. Mas o menino, entretanto, teve a parte interna do crânio ferido e o sangramento não foi diagnosticado. Durante o restante da viagem a mãe conseguiu mantê-lo acordado, assim como durante o resto do dia. Não foi o suficiente. O menino faleceu de madrugada, sendo encontrado morto pelo pai de manhazinha. Esse menino se agarrara à mãe desde então. Ela começara a adoecer e a ter


seguidos ataques de tristeza. Ora! Nem todo mundo acredita nessas coisas de fantasmas! Mas eu o vi e, por pensamento, lhe mandei um recado: “Ficar agarrado à tua mãe vai impedir você de voar e de conhecer o universo. Tá vendo esse sujeito cheio de luz aí por perto? Vai com ele!” Nem assim o menino se soltou, e eu me calei, esperando que a providência resolvesse o caso. Minha mulher foi quem tratou de rezar por ele todos os dias. Minha mulher e suas velas para Nossa Senhora... ah sim! Eu gosto de Nossa Senhora... Gosto do que sinto quando penso nela, dessa tranquilidade e esse profundo aquietamento... Palavra estranha essa: aquietamento... Quando sou eu, eu não fujo, quando não sou eu, eu escapulo... E depois... Carma, estigma, missão... Nós somos anjos e isso é um peso, apesar do ar límpido e imaculado que se forma ao nosso redor quando abrimos nossas asas e aceitamos o nosso destino. Mas como lidar com elas, o que elas representam? Como chegar perto de alguém e dizer: "Olha, eu sou um anjo. Você pode me ajudar com isso?" Uma amiga minha, religiosa de carteirinha, numa conversa que tivemos sobre a qualidade moral de certas pessoas, chegou a rir quando eu comentei que há algumas pessoas que, mesmo não sendo exatamente boas, possuem certos dons e comportamentos que as assemelham aos dos anjos. O que ela me disse a seguir foi um choque tremendo: "Não se engane, meu


querido. Até mesmo a Madre Tereza de Calcutá estava pagando algum pecadinho, por isso nasceu na Índia, em meio à pobreza, para resgatar dívidas passadas. Saiba meu amigo: ninguém que nasce na Terra está livre de pecados." Ok... Neste caso, então, Jesus Cristo estava resgatando o quê, afinal de contas? Como um princípio pode negar o outro? O filho de uma amiga me disse o seguinte: “Jesus Cristo nasceu! Ele não renasceu! Por isso ele foge à regra”! Well? Ok! Admito não ser nenhum santo. Eu tenho emoções cheias de revolta, eu despendo todos os palavrões possíveis quando estou no trânsito, tenho vontade de esganar certas pessoas no meu trabalho, mas eu creio que todos nós estamos aqui porque é aqui e pronto. E não nos cabe errar, pois errar não é humano. Estar atento ao aprendizado, concentrar honestidade nas tarefas que nos são delegadas, mesmo que sejam elas apenas como aquelas de varrer a calçada ou a de colocar o lixo em frente de casa, por exemplo. Isso sim! Tais atitudes têm mais a ver com nossa natureza humana do que essa coisa de erro. Eu não erro, eu estou aprendendo! Entretanto, quando eu passo perto de alguém que está seriamente doente, saem de mim tantas energias que chego a me curvar de dor. Não preciso nem fazer ou falar nada para ajudar as pessoas. Basta chegar perto delas. Qual tipo de pecado eu estaria, então, pagando? Neste caso, então, eu prefiro pensar que


o melhor é ser mesmo um anjo e ser útil de alguma forma do que não fazer nada e viver reclamando da vida. Chega... Nada de filosofias que não me levarão a nada, pois me levar a algum lugar seria para o consultório de um cirurgião etéreo que me livrasse destas asas. Fora que estou sempre fugindo do assunto, ah, sim! Fugir

do

assunto

amaldiçoada. Perdão,

significa: Deus!

Eu

fugir

desta

abaixo

minha

minha

verdade

cabeça

em

constrangimento só para sentir o teu toque divino me acalentando. Somente hoje, viu? Somente neste momento... Basta de sentir tanta dor. 04 de junho de 2012 Deus, eu te amo... Por que eu te odeio? Deus, eu te amo! Por que eu te odeio? Deus... Hoje eu fui à casa de uma amiga. O irmão dela estava sofrendo por causa de várias feridas na pele. Essas feridas apareceram da noite para o dia e, do nada, se espalharam por todo o corpo. Como sempre, eu sempre chego para ver essas pessoas com a maior das ingenuidades. Pura ingenuidade! Eu não sei ainda como me comportar. Não sei o que fazer! Tenho vontade de ajudar, mas eu queria mesmo é ser um cientista e não um anjo... Bem que, se pensando bem, os cientistas que passam a vida atrás da cura para várias doenças não seriam anjos? Ou não? Sei lá, sei lá... Quando eu entrei no quarto do rapaz, pois ele tinha apenas dezessete anos, vi longas e longas massas de cor negra envolvendo a cama e seu corpo. Feridas com cascas


enegrecidas e grossas espalhavam-se por sua pele e o cheiro não era nada agradável. Minha amiga passou uma máscara para mim e não tive dúvidas em usá-la. Então, com a cara e a coragem, e tentando manter o clima o mais normal possível, pois estava morrendo de medo, eu sentei na cama e comecei a conversar com o rapaz. Segundos depois forte onda de calor invadiu meu corpo. A dor que se seguiu foi tão intensa que eu só não desmaiei por causa da minha amiga. Ela puxou a minha mão das mãos do irmão e me afastou para longe, para uma cadeira ao lado da cama. Mesmo assim eu continuei a sentir os efeitos daquela enfermidade no meu próprio corpo. Minha amiga trouxe água gelada. Eu bebi quatro copos de uma só vez. Foi neste momento, logo após o quarto copo, que eu comecei a sangrar pelos olhos e pelo corpo. Havia sangue no suor e era abundante. Como o menino começou a ficar muito assustado com a minha reação, minha amiga, mais assustada ainda, me tirou do quarto e me levou para o banheiro, me enfiando debaixo da água fria. Dentro do banheiro e todo molhado, o pai da minha amiga e o outro irmão aproveitaram para me despir já que ela cuidaria das minhas roupas. Provavelmente iria lavar e secar. Sei lá! Eu ainda estava muito ruim, eu sentia dores atrozes pelo corpo, mal respirava parecendo estar sofrendo um ataque de asma. Então, eu desmaiei. Horas mais tarde eu acordei com o seguinte recado para aquela família de bem: “Traficantes estão querendo se envolver


com o menino, pois ele é muito popular e bem querido no colégio. Se ele usar drogas, logo seus amigos passarão a usar também”. O pai do rapaz levou um susto enorme! O menino estudava num bom colégio público! Desses que apenas rapazes e moças das redondezas estudam. Era um bom bairro onde eles moravam, de gente trabalhadora, eu diria. As pessoas não eram nem muito ricas e nem muito pobres! Assim como deve ser, eu acho. A resposta que eu dei para aquele senhor foi ainda mais inexplicável: “É por isso mesmo”! Eu só acordei no outro dia, em casa, na minha cama. A família da minha amiga tinha me levado para casa. Minha esposa e meu filho ficaram assustadíssimos! Mas como conheciam meus “problemas” deixaram para lá. De tarde eu recebi a notícia de que o rapaz estava bem e que as feridas pelo seu corpo haviam sumido da noite para o dia... Deus, eu te amo... Deus... Eu acho que eu te amo tão profundamente que me recuso a pensar que eu possa ter te odiado... Eu te odeio até a mais microscópica fibra do meu ser. Cinco de junho de 2012 Hoje, com meu filho no quarto, eu senti com todas as minhas forças o peso das minhas asas nas costas. Elas se mexeram e abriram enormes! Com elas surgiu toda essa confusão emocional de não se saber nem quem eu sou direito, se gosto do que sou e se estou fazendo coisas que eu realmente gosto. Bem que, estar casado com uma mulher complicada – como todas as mulheres


devem na verdade ser, pois nada há de mais feminino do que as turras e complicações hormonais ( ou seja lá o que for ) de uma mulher -; de ter um filho que já nasceu apaixonado por uma bola :- ), como todos os meninos brasileiros, aliás; de morar em numa casa em um bom bairro – e não em um ‘apertamento’; de não viver vítima de medo de assalto, de levar um vida tranquila de trabalhador, dentro desse dia a dia tão corrido e complicado, como devem ser todos os dias da vida da gente, faz com que eu ainda tenha muita esperança, mas uma esperança humana. A noção que eu tenho é a de que Adão e Eva passaram a perna em Deus com aquela maçã e essas coisas assim, pois o paraíso, apesar de tão paradisíaco, devia ser muito, muito, muito chato! Nem eles aguentaram! Depois, acho até que Deus entendeu que o homem

é

feito

de

músculos

que

precisam

se

exercitar

continuamente, músculos e um cérebro cheio de luzes com necessidade de acender, de brilhar com toda sua capacidade. De qualquer jeito, aceitar o dia a dia como ele é nos dá oportunidade de reparar as pequenas coisas que são o alimento da nossa alma, como essa agora, enquanto meu filho está mordendo a minha mão com sua boquinha de quatro dentinhos. Esses quatro dentinhos fazem a vida ter o sentido que deve ter: leve e humana cheia de graça. É... Essas pequenas coisas são aquelas que me fazem esquecer essas asas e fazer de mim um homem comum,


como todos os homens devem ser: nem anjos, nem nada! Apenas homens e não uma raça! Meu filho foi galgando o meu corpo, ficou de pé na cabeceira da cama, tentando alcançar o brilho que minhas asas formavam. Na sua voz de bebê ainda, nem falando direito, ele dizia: Uz, uz, uz. Para ele, ‘uz’ significa Luz! Ele não devia ter visto as minhas asas.............. 10 de junho de 2012 Hoje de manhã, eu estava indo à padaria, e não é que um fantasma agarrou uma senhora que estava passando e tratou de seguir com ela? E o que eu deveria ter feito? Gritar assim: "Oh fantasma, sai daí! Deixa a senhora em paz”! Ou então: “Oh, Dona, tem um fantasma grudado na senhora. Se eu fosse você, eu ia procurar um pai de santo, qualquer um! Mas vai logo, pois a coisa vai ficar feia, viu”? Então, eu só falei: “Cruzes credo”! Depois eu pedi a proteção do universo para aquela senhora e tratei de aumentar os passos. E se o tal fantasma cismasse comigo, hem? Mas na verdade, eu estou me perguntando se: já que nós somos seres com asas, é errado a gente querer se afastar de pessoas que só nos fazem mal e o mau também? Nós devíamos ajudá-las, sendo a presença divina ao lado delas, mesmo elas não merecendo nem um tiquinho? Eu, humano, digo: não quero ter qualquer obrigação com qualquer pessoa que seja. Aliás, tem certos dias e horas que eu queria ficar milhas de distância de


certas pessoas. Mas como eu sou um maldito anjo, eu tenho essa capacidade imensa de colocar cimento em todo e qualquer sofrimento, qualquer dor, a gente é capaz de perdoar qualquer um, seja ele quem for! Pobre de nós, anjos! Dez e meia de junho O engraçado é que nossas asas não nos beatificam a ponto de nos tornar carismáticos. É justamente o contrário! Parece que há alguma coisa torta na gente que nos faz mais estranhos do que nós já somos, como se tivéssemos um corpo saliente pregado aos nossos corpos, sei lá, somos gordos e magros, altos e baixos, tudo ao mesmo tempo. O corpo saliente deve ser essas asas aqui. Essas malditas asas que estão totalmente abertas, como se estivessem tomando um arzinho para não pegar mofo! Cacete... As pessoas em geral notam essa deformidade de algum modo e sempre nos olham com olhos ruins, alguns de dúvidas, muitos de escárnio, gosto mais daqueles que mal notam a nossa presença. Acho que o pior é o olhar de escárnio, olhos e risinhos de escárnio parecem furar a nossa alma como se fossem tiros à queima roupa... Bem... Estes olhos de escárnio e estes risinhos medíocres queimam as nossas asas! A maldade dessas pessoas pressente a presença do bem de nossas asas. Então, o escárnio é o jeito que essas pessoas e sua maldade encontrarão para nos afastar delas... Eca de esgar para essas criaturas toscas... Vontade de cantar a minha canção repleta de palavrões...


13 de junho de 2012 Quase meia noite e tenho de dormir. Passei mal o dia inteiro por causa da “visita” durante a madrugada. Sei lá! A gente devia ter uma maneira de impedir que essas “coisas” entrassem na casa da gente! Cruzes! Parece que quanto mais eu rezo mais assombração aparece!

É!... Acho que vou parar de rezar

pelo visto!

Assombrações? Não! Daimons! Ah! E fiquem sabendo coisas de chifres, que eu não quero saber quem são os Nefilins ou Nephilins, sei lá como se escreve isso! Há muitas contradições nessas estórias ou histórias, divergências santas... Quem sou eu para entrar nesse embate impasse? Um mero anjo cheio de contas para pagar? A verdade é essa! Sou Anjo, nego isso veementemente, mas estou com os pés bem pregados ao chão! As minhas asas não fazem feira, não paga a água, nem a luz, nem nada! 17 de junho 2012 Pois é! Agora vai dar para este cara aparecer aqui todos os dias, é? E ainda mais com tanta conversa fiada? O Senhor Lúcifer cismou de vir de madrugada de novo. Por mais uma vez, ele me assustou o suficiente para me fazer ter muita vontade de lhe socar a cara, repetidamente, só para sair do ‘climão’ de filme de terror. Como se fosse mesmo possível travar um combate Muay Thai com o Sr. Diabo. E eu encaro! Cruzes! Nunca, nunca mesmo, eu pensei que iria viver coisas tão absurdas! Vou até repetir um clichê usado


por muita gente e que está fazendo o maior sentido para mim agora: “Acho que estou tendo um pesadelo e ainda não acordei! Ou, então, eu ainda estou dentro de uma maldita ‘Matrix’”! Estava ele lá sentado na borda da cama, tranquilo, relaxado e ainda riu dizendo que eu não precisava usar a luz das minhas asas para

proteger

minha

mulher

e

meu

filho,

pois

ele

não

se interessava por criaturas sem importância no rol das coisas e da vida. “Ainda bem, né”? Pensei. Depois eu lhe perguntei qual era a dele, afinal de contas? Era tão simples o que ele queria. “Vê bem! Apenas Deus é Deus! Apenas Ele cria e desfaz! Ele não é algo como nós outros. Ele é tudo o que há e muito mais do que qualquer um possa vir a pensar. Ora! Eu não vou enumerar o que todos já sabem! Bem... O que eu quero é impedir que os meus anjos, pelo menos as crias dos meus anjos, retornem a Ele! Há de ter um reino no qual eu domine de acordo com a minha imensa vontade”. Eu lhe disse: “A bagunça que está a Terra não é o suficiente para você? Todo este inferno”! Ele respondeu: “Tal nome "inferno" é bem humano, não? E a bagunça também tem a ver com o homem em si e sua imperfeição. Nada que diga respeito a mim”. Eu lhe disse: “Então, tudo o que os livros, os filmes, toda a filosofia a teu respeito”... Ele retrucou: “Ah, sim! Até que eu cobro alguns créditos. Mas tu não deves confundir a sofisticada luta entre meu Pai e eu, com uma tosca maldade que só demonstra a vossa incompetência para se estabelecer na crueldade ou naquilo que é o mau de


verdade. Vós outros não fazem ideia do que é o mal em si mesmo. Filmes, livros, todas essas coisas que inventam a meu respeito têm a ver com a alma humana ainda imperfeita, esta vossa ridícula mania de ver como maldade aquilo que causa dor física ou dor moral. No fim das contas, tudo isso passa, e vós vos torneis apenas almas purificadas... mas não angelicais, entretanto. Portanto, nos anjos está uma das minhas lutas contra meu Senhor. Também há a questão da liberdade que nós deveríamos ter de até mesmo sair dos Seus domínios. E, para conseguir essa liberdade, eu tenho de impedir que os anjos, sejam eles os meus anjos ou os Dele, como é o teu caso, por exemplo, possam retornar a Ele ou que continuem em Seus Desígnios”. Eu argumentei: “Então você vem aqui e me ensina a fugir de você com a cara mais limpa do mundo, mas baseado em quê”? Ele respondeu: “Ele não luta sujo, Pedro! Ele apenas luta limpo! Eu também preciso fazer a mesma coisa se quero me igualar a Ele. Eu desejo ser, pelo menos, uma aproximação Dele. Por isso eu preciso ensinar você a estar com Ele justamente para transformar a tua queda em algo definitivo. Que graça teria uma luta fácil, hem”? Eu lhe disse: “Mas eu não tenho feito outra coisa a não ser renegá-lo! Assim como à minha natureza divina”! Ele retrucou: “Nada mais justo e honesto do que isso, não? A fé quando é cega, cega! Bem, eu vim lhe avisar para continuares nesse caminho em busca da tua verdade humana, em união à tua verdade bendita. Caso Ele vença, eu curvarei a cabeça em sinal de respeito, mas caso eu vença”... Eu lhe disse, rindo:


“Acha, então, que eu realmente escolheria o teu lado? Neste caso, e no que diz respeito a mim, você já perdeu e Ele também! Eu continuarei relutando, sofrendo, duvidando, tudo isso e mais um pouco, apenas para não dar este gostinho a vocês dois”! Ele riu, docemente, e disse: “Ah, sim! Agora você falou como um verdadeiro anjo! Antes era apenas a tua metade meio humana, tão cheia de tantas confusões, colocando palavras vãs para fora da boca. Agora eu vejo um anjo manifestando a glória e a sabedoria do Senhor Nosso Deus”! Eu ri e disse: “É tão engraçado você venerá-lo desta maneira”. Ele deu de ombros e disse: “Ele é o meu pastor, afinal de contas. Mas por que me impede de seguir para outros pastos que não sejam apenas os meus”? Ah, tá! Mas se tiver algo mais a dizer, não volta; ok? 18 de junho de 2010 Hoje eu passei o dia muito aborrecido. Eu só sinto um aborrecimento enorme! E sinto raiva. Raiva, raiva, raiva. Minha mulher disse que, ao contrário de estar tão emburrado, que nós dois devíamos estar gratos por cada coisa que temos em nossa vida. “Até mesmo pelo espanador de penas de avestruz, que custa os olhos da cara, Pedro, a gente deve se sentir gratificado”! Eu sei disso, eu sei disso, eu sei disso, eu sou grato, eu sou grato, e não há um só dia em que eu não agradeça... Mas não aos céus, pois estou com raiva! Quando eu uso os dons de anjo para curar alguém, mesmo quando eu faço essa doação das minhas energias


vitais para curar alguém, quando eu sinto essa dor cortante no momento em que essas energias deixam o meu corpo para se estabelecer na ferida, na chaga, no câncer, na memória, ou sei lá, de alguém, até mesmo assim, eu sou grato, sou grato, sou grato. Mas eu estou com raiva, eu sinto uma raiva profunda! Tenho vontade de morder o mundo se fosse possível de tão profunda é essa minha raiva. Estou aborrecido, estou convencido que estou com o saco cheio do mundo e sua tanta patifaria e mesquinharia... Estou aborrecido... Só um "Até amanhã, oh criatura" seria capaz de melhorar um pouco este aborrecimento... Minha raiva tem dentes e ela está abrindo caminho para sair de dentro de mim e, assim, morder o mundo, talvez, finalmente... Tristeza profunda! Passei o dia sentindo uma tristeza tão profunda que eu nem sei como consegui levantar e ir trabalhar. Eu soube que uma moça com três crianças pequenas (cinco, três e cinco meses) foi abandonada pelo marido e está passando fome. Ela não tem como arranjar um emprego, pois não há creches no bairro onde mora. Para que ela possa levar as crianças na creche em outro bairro é preciso um trabalho para pagar o ônibus. Como, meu Deus? Como? Tenho amigos que estão tentando ajudar e eu me dispus a comprar comida para ela e as crianças. Dentro das minhas condições financeiras, pois não sou pobre nem rico, vou comprando coisinhas sempre que eu entro no supermercado. Fico


pensando numa maneira dessa senhora arranjar um dinheirinho e já pensei em adquirir "peças íntimas" para ela vender (ideia da minha mulher). Talvez ela possa colocar um anuncio na porta de casa avisando que está vendendo as peças. Mas vamos ver, vamos ver como vai ficar o orçamento do mês. Eu e minha mulher levamos tudo na ponta do lápis. Nossa ideia é a de não ficar faltando dinheiro no fim do mês e tem estado apertado. Entrar no supermercado e comprar dois ou três quilos de fubá, macarrão, arroz ou outra coisa assim não pesa tanto, mas fora disso... Como eu me sinto sem esperanças quando fico sabendo desses casos. As doenças as quais eu curo; os "espíritos" que consigo amansar, tudo isso não é nada se comparado aos casos de pobreza, de abandono, de violência doméstica! Nessas horas é que eu vejo a inutilidades das minhas asas. 25 de junho de 2012 Hoje eu soube que o marido que abandonou a mãe com as três crianças foi localizado. Não tenho muitos detalhes do que ele alegou para ter feito o que fez. Também não quero julgar, apesar de ter pensamentos muito pessoais a respeito disso. Penso naquela senhora, sozinha com os três filhos pequenos, e me desespero. A solidão que deve ter sentido, o abandono, o medo, o desespero, a tristeza, a mágoa... Nenhum ser humano devia passar por isso e criança alguma devia ser exposta a este tipo de situação. Eu ainda não consigo entender os homens, acho que jamais eu entenderei


os homens. Talvez isso advenha da minha natureza angelical, sei lá! Para piorar, minha mãe me confidenciou coisas sobre o meu pai que me deixou ainda mais intrigado com a minha natureza divina: meu pai era forte, alto, tinha um ânimo ardente, uma atitude vencedora em todas as provas da vida. Logo após a confirmação da gravidez, numa noite de amor e promessas, ele faleceu tranquilamente enquanto dormia. Ele tinha apenas 28 anos! Minha mãe também me contou que a história pessoal de meu pai era ainda mais estranha: ele fora encontrado por um casal numa estrada próxima à fazenda deles, no interior de Goiás. Era um menino grande, forte, inteligente, de profundos olhos negros. Enquanto crescia, demonstrava uma sabedoria antiga, maneiras alegres e nobres, sempre tão sereno e cheio de compreensão dos erros humanos. Tão parecido com o filme do Super Homem... É... Eu acho que eu não herdei nada dele, só essas asas inúteis nas minhas costas. Prefiro mesmo ter algum dinheiro para comprar comida para quem tem fome. 28 de junho de 2012 Ok! O que eu devo fazer, afinal de contas? Saio correndo, pulo de uma ponte, dou cabo da vida? Hoje à tarde eu tive a noção exata do que as minhas asas representam e como elas atuam. Eu estava saindo do prédio onde trabalho para fazer o costumeiro lanche das três horas e havia um homem sentado no degrau da loja em frente, do outro lado da rua. Quando ele virou os olhos para


mim, saiu de lá tanta maldade, tantos sentimentos ruins que a rua ficou dividida em claro e escuro. A parte clara estava a minha direita, em tangente com o meu corpo. A parte escura tomava todo meu corpo e o espaço do lado esquerdo. Eu também compreendi como o mundo ‘dá um stop’ nessas horas. Não! Não é bem assim! Posso dizer que foi como se o tempo tivesse parado dentro do tempo, nos colocando dentro de uma bolha onde os segundos estagnaram. Nesse momento, quando o tempo parou, minhas asas se abriram. Eu consenti com que elas se abrissem já que, na maioria das vezes, eu faço um tremendo esforço para que elas fiquem quietas onde devem estar. Minhas asas se abriram tão lindamente, brancas com filetes dourados, enormes. Creio mesmo que minhas asas possuem uma envergadura de metros e metros de uma ponta a outra, mesmo enquanto elas estão apenas em repouso. Ah se fosse permitido usá-las em voo e ir até onde a luz da lua se encontra com a luz do sol!... Se fosse possível... Mas não é! Por isso elas são fluídicas. Asas de anjos caídos que agora precisam merecer reavê-las... Nem sei de onde eu tirei isso... Mas talvez seja essa a nossa realidade: o trabalho no bem devolveria a materialidade das nossas asas... Sei lá. De qualquer forma eu não quero "morrer" e voltar ao céu. Eu tenho um filho para criar e uma mulher para servir :-). E, de qualquer forma, quando minhas asas abriram, todo o mal e o mau


que aquele homem carregava foram afastados como que num passe de mágica e eu saí lépido e faceiro para a rua, sei lá como, movimentando as minhas asas abertamente como se até que com elas eu pudesse criar vento. Que momento aquele, que momento... Abrir e fechar minhas asas com liberdade e sem receios foi um sentimento tão agradável que foi como aqueles maravilhosos sentimentos de quando eu corro atrás do carrinho de picolés com o meu filho! A luminosidade em volta de mim era igualmente espetacular! Eu me senti em pleno desenho de capa de laptop, desses desenhos etéreos e cheios de cores claras... Bem, parece ser um dom apenas de anjos este olhar diferenciado: onde os outros só enxergam as coisas naturalmente, nós somos capazes de perceber luz. Luz no ar, luz na terra, luz no fogo, luz de alguma coisa material tocando o ar, assim como a luz das folhas de uma árvore sendo acariciada pela luz esverdeada do oxigênio. Existem mesmo minúsculas fadas nas coisas e elas vivem lançando seu "pó de Pirlimpimpim" De qualquer jeito ou maneira, nossos olhos não são apenas coisas de enxergar: eles realizam proezas. E nem há como explicar isso de outro modo. Depois que minhas asas se abriram, levando embora a visão e a presença daquele homem, eu fiquei pensando nos motivos de ele ter aparecido e de estar lá onde esteve. Bem que eu acho que eu sei dos motivos... Mas não gosto de ser medíocre. Deixe a mediocridade para aqueles que são infelizes. Melhor mesmo não


contar a verdade nem para você, maldito diário, um dia será você a ser jogado no lixo de uma vez por todas... 29 de junho de 2012 E não é que essa madrugada eu sonhei com aquele homem ruim que estava lá perto ou quase em frente ao meu trabalho ontem de tarde? O sonho me mostrou que certa pessoa tem um desafeto lá dentro e mandou fazer um “trabalho” para atingi-lo ( na verdade, atingi-la). Aquele homem, na verdade um espírito desses que nada tem o que fazer e vai tomar as dores dos outros, foi lá para criar um campo energético bem ruim dentro da nossa repartição. O que ele criou era bem negro, como se vários espíritos, bem agarrados e famintos, ficassem deitados, a mais ou menos um metro e meio do chão, vagando e pairando no ar como água escura e podre. Eu e mais duas pessoas já vínhamos sentindo mal na nossa sala. Nós sentíamos como se tivesse um peso ou alguma sujeira lá dentro que nem toda a limpeza conseguia desfazer. Então, eu o vi ao sair do trabalho e agora esse sonho. Então, eu, estando lá, pude ver algumas criaturas angelicais – dessas que moram no céu e que não são caídas como eu – vindo até a repartição. Elas contornaram o prédio com uma linha de luz, como a luz que brilha dentro do ouro. Depois elas entraram no prédio em geral e, apenas caminhando, tiraram de lá aqueles pobres espíritos formadores daquele tapete voador de almas meio penadas, assim como eles


haviam se tornado... Almas bem penadas e bem escravizadas, isso sim. Quanto ao sujeito que continuava lá em frente do prédio, os Anjos acercaram-se de mim, abriram as minhas asas, e me jogaram de encontro a ele, numa câmera tão lenta que pareceu durar a noite inteira. Eu me lembro de ter desmaiado, apesar de que, ao mesmo tempo, era jogado contra ele e, ao mesmo tempo ainda, de ter batido contra ele de forma com que meu corpo sonhador – se posso dizer assim – o engolfou ao todo, ou seja: cada célula do meu corpo se sobrepôs a cada célula do corpo fluídico dele, retirando todo o mal e o mau que o habitava... Eu não sei o que dizer, nem o que pensar mais de tudo isso... Entretanto, se isso serviu para ajudar a moça que estava sendo vítima do tal desafeto, que seja! Mais um dia, mais um dia... e se fosse menos um dia? Eu queria e não queria aceitar o dom de vidência. Às vezes essa

vidência

mostra

coisas

absolutamente

incríveis

e

maravilhosas, como a luminosidade em lugares onde há paz, assim como as cores esverdeadas que as árvores possuem. Essas cores, na verdade, elas transbordam das energias parecidas com fitas que as árvores fabricam e lançam em redor delas próprias como se dali fosse nascer os galhos e suas folhas. Eu posso vê-las saindo e se revirando, dobrando e se esticando, tão maravilhosamente iluminadas que dá vontade de entrar dentro e se transformar nelas.


Acho que é por isso que elas, as árvores, são seres mais vivos do que nós, porque suas energias e presença material só trazem e só causam o bem. Elas, as árvores, são benditas, também eu queria me sentir assim e não duvidar de mais nada. Depois eu não sou o único anjo. Há tantos por aí. Alguns com asas e dons maiores do que as minhas asas. Que diferença faria Um anjo a menos, hem? Maravilhoso dom este de enxergar as coisas desta maneira tão intimista, né? Ver luz é um ato bendito, mas e quanto a ver a doença dos outros, por exemplo? Como a do rapaz que esteve aqui em casa ontem pedindo minha ajuda para achar logo qual doença ele tem na verdade, pois nada, nem ninguém, ou médico algum conseguiam perceber o que lhe causava tanto mal estar. Este rapaz ele possui uma mancha vermelha escura bem pequena no baço. Um verme fluídico, escuro, retorcido, fruto dos enganos cometidos, do abuso no trato com as pessoas, certa desonestidade e uma mania imensa de passar por cima dos outros quando esbarra com o ciúme e a inveja. Tudo isso estava lhe causando aquela mancha que, em pouco tempo, se transformaria em um câncer sem cura. Bem feito, ele bem merece... E eu me pergunto: o quanto eu estou fazendo o mesmo comigo mesmo? O quanto de doença eu estou trazendo para o meu corpo? Há certas horas que tenho crises de aborrecimento por causa das pessoas e sou bem ignorante... Antes mesmo de curá-lo


eu já estava traçando um plano de conduta diária para evitar doenças no futuro. Sei lá, talvez as doenças dos anjos apareçam com mais frequência do que com as outras pessoas... E eu tenho uma mulher e um filho para criar. Por mais anjo que eu seja, sou homem e tenho a obrigação de ser decente. Que se dane! Hoje, esta noite pelo menos, eu não quero ser anjo e basta desta palavra! 09 de julho de 2012 Depois de ter passado um maravilhoso dia bem comum, sendo uma

pessoa

extraordinariamente

comum,

vivendo

coisas

lindamente comuns e indo dormir com a mesma disposição incrivelmente infantil do meu filho, eu acordo exatamente às três e meia da madrugada e vejo uma cobra ziguezagueando pela parede do quarto. Ah, sim, bem no alto da parede, como se ela tivesse uma gosma igual a das lesmas para manter-se presa lá. Claro! Ela não era uma cobra de verdade! Era um desses espíritos ruins que adora assustar os outros por falta mesmo do que fazer ou, então, o de ser apenas um pau mandado de algum sujeito ou sujeita muito sem graça, né? Cruzes! Em pleno Terceiro Milênio certas criaturas ainda se dão a isso, a fazer este tipo de macumba para prejudicar os outros! Conheço tantos espíritas e umbandistas que dão a vida pelos outros. Eles são uma gente do bem, quase anjos! Na hora eu me perguntei: “E agora, anjo? O que você vai fazer com essa coisa


aí?” A resposta? “Vai pra pqp, cobra dos infernos! Volta pra coisa ruim que te mandou”! Simples assim: eu nunca sei o que fazer com tais criaturas. E nem quero saber! Mas acho mesmo que vou rezar para que as criaturas que ainda se dão a este desfrute de mancharem a umbanda com essa praga de macumba se tornem bastante felizes, pois pessoas felizes não fazem este tipo de coisa, não ficam por aí aborrecendo a noite dos outros com sua maldade mesquinha... Que saco... Vai procurar algo melhor para fazer ‘bruxelê’! 13 de julho A primeira lembrança clara que eu tenho da minha vidência é a de ter visto um de meus tios-avós em meio às chamas de um incêndio. Ele dava adeus para mim, ele gostava de mim realmente. Meu tio morava em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, no hotel de propriedade da família, meu bisavô ainda era vivo nesta época. Todos os comentários sobre sua morte afirmavam que ele havia se suicidado, que num rompante de desespero ele havia pulado, principalmente porque ele era meio adoentado. Minha avó, sua irmã, sofria demais com isso. Um dia ela me perguntou o que eu achava. Eu lhe disse que fora uma fatalidade, que ele não havia se suicidado, que a visão que eu tivera dele mostrava um homem sorridente se despedindo, e não um homem atormentado. Eu, então, expliquei para a minha avó que quando ele, ao tentar passar para a construção do outro lado


do antigo hotel, já tomado pelas chamas e, procurando fugir delas ao correr para a janela, ele tropeçou em uma tora de madeira, tipo perna-manca, bateu com a cabeça na quina da parede com a janela e caiu. A batida na cabeça no chão findou por matá-lo. Lembro-me de que quando íamos visitá-los no hotel e sorveteria, sempre havia sorvete de creme e baunilha para a família. Meu tio esperava a criançada na porta da sorveteria e ia dando tapas no bumbum de todos nós enquanto brincava: “Mininu, eu vou te pegar!” Meu tio tinha olhos brilhantes, tinha olhos satisfeitos, daqueles olhares marotos de quem, ao fabricar doces, espalha alegria. Nós entrávamos por dentro da lanchonete e numa sala cumprida, em cima de uma mesa longa com muitas cadeiras, estava lá a bacia com o melhor sorvete do mundo. Aquele homem que estava em meio ao fogo, conforme eu o via, não tinha olhos de demência, não tinha olhos de desespero, eram olhos de quem se despedia do mundo em paz e eu tinha apenas oito anos. 16 de julho de 2012 Eu já vi muita gente morrer antes de acontecer. Eu testemunhei gente morrendo nos desastres que acompanho com a minha vidência premonitiva. Já sonhei com acidentes graves antes de acontecerem, vejo uma ambulância e sei, exatamente, quem está lá dentro, qual é a doença, se a pessoa está morrendo ou se terá uma nova chance na vida.


No episódio do Carandiru, surgiu uma bola enegrecida dentro do meu quarto. Muitas almas se aglomeravam agarrando-se uma às outras, retorcendo, sofrendo, chorando, sangrando, comendo uma às outras. À frente da minha cama, onde eu estava já sentado apavorado, vi homens armados ajoelhando e atirando. No outro dia a notícia apareceu em todas as televisões e rádios. Eu desmaiei e dei muito trabalho para minha família, pois custei a voltar. Esse é só um dos exemplos do que acontece comigo e posso citar mais episódios do que vejo todos os dias e todas as noites. Nem mesmo o remédio que tomo para dormir impede as notícias do futuro que os sonhos trazem. Eu me sinto cansado, bem cansado. Entretanto, se aconteceu uma vidência que me deixou realmente alarmado foi a dos aviões chocando-se contra as torres gêmeas. Naquele dia, exatamente seis meses antes da tragédia, eu me escondi no quarto e não quis mais sair. Usei remédios durante os seis meses seguintes. Então, aconteceu o ataque às Torres. O terror ainda não passou e vou levando nem sei como. Anjos sofrem de fibromialgia. Anjos sofrem de doenças na coluna. Anjos ficam dias de cama sem ter como virar de um lado para o outro... Anjos sonham com bombas caindo na rua e matando civis que estavam apenas rezando... Anjos andam meio assim: DE SACO MUITO CHEIO!!!!!!!!!!!! 27 de julho de 2012


Mais um dia, mais um dia... Um dia pesado, de tristeza e desesperança, principalmente depois que eu recebi a notícia de que meu amigo Ulisses descobriu que a dor que ele sentia na coluna não era por causa da fibromialgia. Ele está com um câncer ósseo em uma das vértebras cervicais. Ulisses é professor de física em um de nossas escolas públicas. É tão querido e amado que eu acho mesmo que é ele o anjo em nossa turma. Nós somos oito ao todo, mais as mulheres e a criançada. Praticamente nós crescemos juntos, todos nós. Ulisses tem apenas 28 anos, apenas 28 anos. Está de mudança para São Paulo onde espera conseguir melhor tratamento, vai morar na casa dos avôs da Cris, sua mulher... Eu nada pude fazer por ele, meus dons de nada adiantaram. Parece que há uma barreira em redor de seu corpo que não me deixa atuar com as minhas energias... Que diabos... Na hora de ser um anjo eu não funciono? Três de agosto... Como o tempo está passando rápido... Até que enfim uma notícia boa hoje à tarde. Nosso amigo Ulisses está bem e confiante com o tratamento. Ele está no Hospital do Câncer em, São Paulo, começou o tratamento com o que há de mais moderno. Dizem os médicos que ele tem todas as chances de uma melhora. Ele também recebeu a oferta do sogro de trabalhar em sua loja em São Paulo logo que estiver realmente bem. Bendito sejam todos os deuses, estou até mais confiante na justiça divina. Ulisses é o tipo de cara que merece muito respeito


de todos. Praticamente entregou a vida à missão de educador. Aliás, ele começou a dar aulas logo que entrou na faculdade. Engraçado isso... Ser professor... Isso é algo que eu nunca gostaria de fazer. 13 de agosto de 2012 Fiquei olhando as folhas do diário por horas. Estou realmente parado, sem saber o que fazer, ou qual atitude tomar diante de tudo o que sou, diante das visões que voltaram nestes últimos dias com toda sua fúria, dos pressentimentos, das vozes ecoando loucamente pela cabeça, da angústia cotidiana. Essa angústia parece fazer parte de algo que vem de fora de mim. É como se eu soubesse ou sentisse o infortúnio de milhões de pessoas que vivem por aí, mundo afora. Certa vez eu cheguei a ver uma torre com milhares de televisões dentro da minha cabeça. E o pior era que este lugar dentro da minha cabeça estava e não estava lá. Nem sei explicar como isso se dava e bastava mirar em uma das telas para ver alguma cena ocorrendo. Eu me lembro de uma dessas cenas. Parecia um lugar no Camboja e até o nome deste país aparecia na minha cabeça. Um homem estava ao lado de uma cama onde havia uma criança deitada, muito doente. Eles tinham as silhuetas mais escuras do que o que estava do lado de fora da casa e era um lugar à beira mar, pobre, uma cabana, na verdade. Este homem estava cuidando da criança, até que parou, como se nada mais houvesse


a ser feito. Sua dor entremeada de surpresa e revolta e decepção e amargura, cresceram dentro do meu coração como se fosse uma dor minha. Eu tirava a dor de dentro dele para que ele pudesse suportar o sofrimento. Mas é isso o que os anjos fazem, não é mesmo? Suportar as dores dos homens. Mas eu queria tanto me recusar a isso. Não gosto de ter tanta dor e sofrimento vindo de encontro ao meu peito e se instalando dentro dele como se a dor fosse mesmo minha. Mal sou capaz de suportar as minhas próprias tristezas, quanto mais a de ser o ancoradouro da dor dos outros. É por isso que os anjos são tristes. Por isso eles sorriem com os olhos marejados de lágrimas. É uma contradição, não é mesmo? Sorrir enquanto os olhos só não soltam sangue porque a água é o sangue de tudo. Quem chora lágrimas de sangue, na verdade está doente ou foi envenenado. As lágrimas feitas de água e sal são, na verdade, o sangue da alma. Bem que, se pensado bem, os anjos são envenenados pelas desgraças e tristezas de seus protegidos... É verdade. Os anjos também choram lágrimas de sangue. E são obrigados a se envenenarem com todas as dores humanas... 25 de agosto de 2012- Os dias estão passando depressa... Uma das minhas particularidades angelicais é a de que eu sou capaz de sentir a dor oculta até do pior dos homens, se é possível que eles tenham qualquer consciência... Mas eles a possuem, mesmo quando a dor é causada por algo igualmente ruim. São


essas as pessoas que me levam a temer até mesmo colocar o rosto na rua ou mesmo no trabalho, de vez em quando... Anjos sofrem com a síndrome de pânico e das piores, pois sendo anjos, como seriam capazes de evitar o problema já que o problema é sentido pelas asas e pela alma? É mesmo engraçado... Eu evito sair de casa para não encontrar os demônios, mas basta fechar os olhos, abrir minhas asas, abrir meus sentimentos à percepção do que está em volta, e logo os sentimentos desses demônios se aproximam. E as lembranças... O pior de tudo são as lembranças do contato diário com almas cheias de coisas ruins. E são criaturas tão comuns. Essas pessoas do dia a dia, com as quais a gente até compartilha a fila do pão... Minha alma de anjo impede que eu as amaldiçoe... Mas como tenho vontade de sentenciá-las ao fogo eterno do inferno... Que bom. Neste momento eu me despi das minhas asas. Sou uma alma imortal e como me deleito com isso... 11 de setembro de 2012 Dia e Madrugada dos mortos, literalmente. Tantas almas ainda se agarram àquele Ponto Zero. Não quero escrever mais. Acho que vou me acorrentar na cama para não ir àquele lugar. Ainda tenho em mente a visão dos aviões alcançando as Torres dias antes do atentado acontecer, todo o horror e sofrimento dentro daqueles aviões. Aliás, eu sonhei com o dia em que os atentados foram concebidos. Na época eu não consegui entender o que significavam. Eu não quero saber, eu não quero saber. Hoje é um


dia para esquecer, pelo menos para mim. Só lamento por todas aquelas pessoas, tanto as que se foram quanto as que ficaram... Chega... 20 de setembro de 2012 — Ok, Gabriel, o que você quer? — Foi o que eu falei após acordar e dar de cara com aquele homem muito alto, sentado bem próximo de mim e bem à vontade, afinal.

— Aliás, vocês deviam

parar com essa mania de vir no meio da noite, sabe? Primeiro o Lúcifer e agora você? Não sabe que daqui a pouco eu tenho trabalho? Ah sim! Eu estava mesmo falando com o anjo Gabriel. Aquele com “G” maiúsculo, que sempre andou pela História e Estórias lançando seus Raios e Trovões, tocando suas Cornetas e Trombetas, anunciando as glórias e a raiva dos Céus. — Acho que você reclama muito, Pedro, nem faz jus ao nome que recebeu. — Disse ele com uma voz bem baixa, muito tranquila, sem um cadinho da malícia alegre de Lúcifer quando esteve bem onde ele, o próprio Gabriel, sentava-se naquele momento. Mas vamos concordar, hem? A alta estima do diabo é invejável! Cruz, credo, ave Maria, cheia de graça, o senhor precisa estar mesmo comigo, pois cá entre nós, depois de escrever isso eu já me vejo ardendo no fogo do inferno... Gabriel, ao contrário, tinha a leveza, a graça, a beleza e a tranquilidade e a bondade dos anjos, afinal de contas, e se acomodou melhor na cama, dizendo:


— É também lamentável o modo como você desfaz de todos os dons que te foram dados, porque você já era assim muito antes até de você nascer. — disse. — Ah, sim! — eu respondi. — E por que eu não me lembro disso, hem? — Bem, se você tivesse tido ou se estivesse tendo um pouco mais de respeito pelos teus dons, com certeza se lembraria. — Talvez vocês pudessem ter me contado quando eu fiquei grandinho, tipo: — Olha aí, Pedro, você é uma cria de anjo com gente, viu? Aliás, isso é só uma bobagem para a literatura, pois você já era um anjo antes mesmo dos séculos e séculos, amém! Na hora certa, quando estiver um pouco mais velho, você vai aparecer

com

uns

dons

assim

estranhos,

meio

malucos,

completamente fora de propósito... Dá até para aproveitar alguns, mas, com certeza, vai fazer você ser um pirado de marca maior, cheio de culpas e remorsos, vai até brigar com Deus o tempo todo... — Essa é a maior de todas as tuas preocupações, não é? — Gabriel me interrompeu: — Mas você devia parar de se preocupar com isso, Pedro! Deus está tão acostumado com as reclamações de seus anjos que nem mais se espanta com elas e isso desde os primórdios dos tempos de um tempo que o tempo dessa Terra mal imagina!


Gabriel fez aparecer algumas rugas em seu rosto alongado, tinha um nariz bem masculino e fino, a pele muito, muito, muito clara! Dificilmente branca como a cor “branca” dos finlandeses, por exemplo. — É apenas pouco o que vocês anjos encarnados precisam fazer, Pedro. — comentou. — Bem pouco, aliás. Vocês não precisam de alarde, não precisam abrir a boca, não precisam lutar, não precisam vigiar, não precisam colocar anúncio no “jornal”, não tem que se preocupar sequer em abrir a boca para ser um anjo, Pedro, apenas um anjo e nada mais do que isso! — Ah, tá! — eu disse. — Mas veja bem, Gabriel: Você tem toda a noção do que você é! Tem o total e irrestrito apoio de Deus, nosso Senhor, ou teu, sei lá; eu mal consigo pagar sequer as contas direito, se posso falar de mim desta maneira, não é? — Sem essa, Pedro! — discordou Gabriel e até sorriu, meio irônico. — Você é daquele tipo de sujeito que traz tudo muito bem anotado, cada centavo, só para não dever nem um único real, não é mesmo? Aliás, você é o tipo de cara que é capaz de quitar até dívida de bala do teu filho na venda do Seu Tenório, e ele nem cobra as balas do Carlinhos! —“Tá querendo dizer o que com isso, hem? E tá querendo o quê, afinal de contas”?


— Rumo, Pedro. Eu vim apenas pedir para que você deixe os dons que tomarem o rumo que merecem ter. Você não precisa fazer qualquer esforço, não precisa nem mesmo abrir a casa para receber os outros. O maior medo que você tem é o de ser chamado de louco caso comece a usar os dons aleatoriamente, não é mesmo? E faz bem em pensar assim, já que anjos não precisam de fama. Silêncio, compenetração, sossego, meditação, ficar às ocultas, é assim que os anjos como você precisam viver e você está agindo corretamente neste sentido! Mas precisa deixar os dons tomarem um rumo, pois o merecimento não será para você, mas para aqueles que forem beneficiados por eles. Os dons não foram gerados para a grandeza e honra daqueles que os possuem. Eles existem para a grandeza de quem os receberá, pois há de se pensar nas mudanças internas das pessoas após receberem a graça do s dons de um anjo. Pedro, você já era um anjo antes mesmo dos tempos nascerem. Precisa usar os dons para aliviar a dor profunda que se forma no coração daqueles que sofrem. É assim que a glória de nosso Pai atua! Apenas isso, sabe? E eu preciso mesmo ir. Você tem trabalho daqui a pouco. “Dá um jeito e pensa no que eu falei, sim”? Gabriel desapareceu. Minha cabeça foi tomada por um indescritível e inesperado silêncio. Acho que somente os astronautas poderiam falar desse silêncio absoluto caso pudessem tirar o capacete fora da nave. Esse silêncio mexeu com alguma coisa dentro de mim. Eu não soube naquela hora da madrugada o


que poderia ser, mas eu apreciei esse silêncio como se fosse aquela coisa mágica esperada a vida inteira. Não só uma coisa mágica, mas o presente esperado por milênios, como se fosse a resposta da boa vontade de Deus para mim, ou comigo, vai lá saber... 06 do 10 de outubro ( ano quase no fim ) Durante a noite de ontem, eu usei o meu dom de uma maneira maravilhosa. Geralmente eu nunca gostei de dormir, justamente para não sonhar. Meus sonhos sempre me levaram a lugares horríveis, repletos de dor e sofrimentos, trevas e terror, colocandome em contato com sofredores ou agressores atrozes. Claro que eu não dormia na outra noite. Eu sofro de insônia grave por causa disso e só durmo à custa de remédio. Creio que eu criei um péssimo hábito por causa disso. Dizem que se você repetir uma coisa 20 vezes ou durante 20 dias você adquire um hábito, pois bem, o resultado para mim: insônia das grossas. Mas voltando ao sonho, ele foi maravilhoso. Até compreendi o quanto eu posso ajudar as pessoas. Foi assim: eu e um amigo saímos de férias para uma cidadezinha que não conhecíamos. Nós fomos de ônibus e enquanto entrávamos cidade adentro eu me maravilhava com a quantidade de árvores floridas de todas as cores... Pô! Homem também gosta de flor, né? E sendo anjo... Vá lá!


Nós nos hospedamos na casa de um jovem casal. Ele tinha 32

anos

e

ela

28.

A

primeira

vista,

eles

conviviam

harmoniosamente, eram educados. Até que nós descobrimos que ele e a esposa compartilhavam um ódio mútuo, cheio de recalques, havia rispidez no olhar de um para o outro, algo assim que raspava ferocidade no tom de voz e certos comentários sarcásticos ditos em palavra única. Apesar da atmosfera extraordinariamente clara durante o sonho, a rispidez e o desencanto de um para o outro criava uma nuvem escura pairando ao longo e acima de toda a casa, como se, de momento a outra, fosse despencar a pior das tempestades. Nem mesmo o cuidado da esposa pelos móveis e objetos espalhados, todos de simplicidade e beleza que só demonstrava o seu ótimo gosto para decoração, conseguia diminuir a intensidade perigosa daquela nuvem escura. Em um dia daqueles, e era um dia ensolarado e tranquilo, nós presenciamos uma tremenda briga entre eles (para o nosso espanto,

aliás).

Acusações

foram

trocadas,

raiva

e

ódio

transbordaram de seus corpos, como eu bem podia “ver”, e tanta mágoa, tanta mágoa que eles mais pareciam estar mergulhados em águas escuras onde nem mesmo uma simples alga conseguiria brotar. Ela, completamente desnorteada, trancou-se no quarto, ele foi para a marcenaria no andar de cima. Abalado como eu fiquei por presenciar a discussão, eu subi atrás do rapaz na tentativa de minorar o ambiente já tão carregado.


Na mesma hora a minha vidência se abriu: perto dele estava um menino de oito anos, com os olhos esverdeados do pai e a pele amorenada da mãe. Eu me surpreendi ao saber que aquele menino era filho do casal. Na casa mesmo não havia um só seu retrato. Eu até desconfiei que a mãe tivesse ido se trancar no quarto (como fora uma das acusações do marido) apenas para abraçar a única fotografia do filho, preservada sob o colchão, assim como as minhas intuições alertavam. O menino revelou, então, o dilema vivido pelo casal: ele próprio, muito levado que era, havia causado a própria morte, só que os pais colocavam a culpa um no outro. O pai por ter deixado o parafuso da serra mal apertado após uma troca; a mãe por não ter trancado o cadeado da grade que protegia a casa da marcenaria. No entanto, disse o menino, fora ele quem havia desobedecido à ordem de não ir à marcenaria. Fora ele quem, quando os pais dormiam após o almoço, ligara a serra para cortar madeira. A serra então, ao resvalar, cortou-lhe o braço pelo meio, vindo dos dedos até o cotovelo. Como estava um dia quente e os pais dormiam com a central de ar ligada, eles não haviam escutado qualquer ruído da serra. O menino ainda contou que desmaiara ao ter o braço cortado, que a serra havia parado, assim como o barulho do motor. Mesmo quando o pai acordou bem mais tarde que o costume e subiu correndo para a marcenaria ao ver a grade aberta, foi impossível


restituir-lhe a vida. O pai correra com ele para o hospital, mas, mesmo assim, todo o sangue da cidade não conseguira restituir-lhe a vida. Na cidade, em nossos passeios diários ou em algumas compras, ninguém mencionava a existência daquele menino. Nunca! Nem mesmo que o casal tivera um filho agora morto. Mas eu pude vê-lo e sentindo grande misericórdia pelo casal, eu mencionei que ele estava presente. O rapaz ficou lívido, também ansioso, tanto que me bombardeou com perguntas todas respondidas inesperadamente certas, pelo menos para mim, aliás. E o menino pedia, ainda, que ele a mãe deixassem de brigar, que nenhum deles fora culpado do incidente e que deveriam se amar muito, talvez gerando outra criança que poderia até ser ele próprio, caso pudesse reencarnar de novo. Outra cena atingiu a minha visão: o casal abraçado, felizes, trocando conversas deliciosamente íntimas. Naquele instante, correu um vento forte pela cidade perfumando o ar com o odor das flores e suas pétalas que se desprendiam das variadas árvores. O vento e o perfume também desintegraram a escuridão sobre a casa e permitiram que a clara luminosidade do sol penetrasse em todos os cômodos, em cada cantinho escuro, levando consigo as sujeiras fluídicas de dor e angústia por tanto tempo acumuladas. Eu acordei emocionado, lágrimas desceram por meu rosto com facilidade e com tanto medo de esquecer o sonho que, antes de escrever, eu fiquei repetindo as cenas para mim mesmo sem


deixar um só detalhe de lado. Minhas asas? Elas se abriram absurdamente enormes, clareando o quarto com suavidade... E pela primeira vez, em muitos anos, eu senti sono... Um tranquilo e acolhedor sono. Ah sim... Se eu tivesse sonhos como esses todas as noites. Eu seria o anjo mais feliz do mundo. Se eu também pudesse dormir, apenas dormir, como qualquer bom cristão, que eu não sou... Bem... Sabe o que é felicidade? Felicidade é uma noite muito bem dormida após o amor com a esposa querida e um sonho que recupera almas. 21 de outubro de 2012 Silêncio... Silêncio... Tão gostoso este silêncio na minha cabeça. Desde que eu ajudei aquela família em meus sonhos, o pesadelo de ter milhares de vozes ecoando na minha cabeça passou. Tem dias que eu apenas fico aproveitando o silêncio dentro da

minha

cabeça

sem

precisar

nem

mesmo

fazer

um esforçosinho para senti-lo. Ah, sim, pois silêncio a gente sente. É muito mais do que escutar. E eu tenho dormido sem usar qualquer remédio. E mais que isso: Aconteceu um acidente horrível aqui na cidade. A moça de 21 anos estava indo para casa de moto com o namorado após a aula, Um carro, em alta velocidade, bateu por detrás e os matou. A menina era filha única e o rapaz ajudava a família com o trabalho de vendedor numa loja de automóveis. Minha amiga ligou para mim desesperada, pois conhecia e família:


— A mãe tem vidência, mas não consegue ver a filha! — disse. A minha vidência abriu na hora, e eu respondi: — A moça e o rapaz estão próximos à moto no corredor da oficina, onde a moto foi deixada! — Como você consegue fazer isso? Você nem sabia que a moto estava lá na oficina do tio do rapaz! — Sei lá como! Eu apenas sei! E vocês precisam ir lá e explicar que já estão mortos! — A gente vai lá com o nosso grupo, então? Não quer ir com a gente? — Não... Não mesmo! Ainda não havia em meu coração a vontade de ajudar sem sentir uma ponta de medo. Mas ajudar sem pensar eu já ajudava, de longe, pelo menos. Depois do telefonema minha cabeça experimentou o mais absoluto silêncio e eu quero apenas aproveitá-lo - quer saber? Chega de escrever por hoje... 25 de outubro de 2012 No dia em que Gabriel esteve em casa foi isso o que ele fez por mim, sem mesmo deixar claro as suas intenções: Gabriel me entregou o silêncio de Deus, algo que eu jamais supus existir ou jamais teria o merecimento de receber.


Na verdade, na minha loucura diária de entender o que eu era, e sou; eu nunca ansiei pelos meus dons tão extraordinários. Eu não queria tê-los ou usá-los. A vidência, o dom da cura, por exemplo, jamais eu gostei de acordar de madrugada, agachado no telhado, velando pela humanidade sem mesmo saber como fora parar lá. Eu também morria de medo quando era abordado por alguma alma perdida, desesperada por qualquer palavra que a livrasse da confusão mental que a cegava para a realidade da morte. Eu nunca quis visualizar catástrofes que ainda iriam acontecer. Jamais ansiei por um sonho louco de estar em algum lugar cheio de trevas e almas ainda mais escuras e, depois, alardear que havia trabalhado nas “trevas”. Eu nunca gostei de ter toda a bondade do mundo com pessoas que jamais mereceriam sequer um “bom dia”. Na verdade, todas as demais manifestações não me alentavam, de forma alguma, e eu nunca pretendi tê-las ou usá-las para almejar outra vida que não fosse a minha própria, com minha mulher, meu filho, meu simples trabalho diário, os amigos, as rodas de samba na escola onde meu cunhado dá aulas, coisas simples que fazem mais por mim do que todos os meus dons de anjos. Coisas que deixam os meus pés bem presos ao chão. Entretanto, e ajudando o próximo, estando ele na casa ao lado ou na Turquia sob o efeito de um terremoto, por exemplo –, a oferta de Deus para seus anjos é o silêncio: um maravilhoso silêncio


dentro da cabeça e no ar em volta. E foi isso o que Gabriel mostrou: que o amor de Deus pelos seus anjos tem o tamanho do silêncio encontrado nos vazios entre planetas e estrelas, sem ser alcançado por suas perturbações. Então entendi: quando eu ajo como o anjo que sou, quando abro minhas asas para ofertar sua luz e paz para alguém em sofrimento, nessa hora. Deus e seus anjos são feitos de silêncio e luz... Palavras poderosas essas... 27 de outubro de 2012 Ontem minha esposa precisou chamar os vizinhos para me socorrerem. Eu estava em cima do telhado, sem roupas, debaixo de uma tempestade e gritava com raiva e rancor: Pai que estás no céu, maldito seja o teu nome... Será um terremoto, maldito? Quanto será retirado da minha carne, do meu sangue e do meu coração para salvar os desgraçados que morrerão? Maldito! Eu te renego até a eternidade! Para Deus a morte não é nada, pois seus filhos estarão retornando ao seu seio, mas para mim...

Cotidiano de um Anjo!  
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