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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS FACULDADE DE PSICOLOGIA

DIANA DA SILVA NOBRE

DO TRABALHADOR DÓCIL AO DEVIR-ANIMAL: UM VIVER ÉTICO, ESTÉTICO E POLÍTICO EM “A METAMORFOSE” DE FRANZ KAFKA

BELÉM - PA 2011


DIANA DA SILVA NOBRE

DO TRABALHADOR DÓCIL AO DEVIR-ANIMAL: UM VIVER ÉTICO, ESTÉTICO E POLÍTICO EM “A METAMORFOSE” DE FRANZ KAFKA

Trabalho de Universidade requisito à Orientadora: Lemos

BELÉM - PA 2011

Conclusão de Curso apresentado à Federal do Pará - UFPA, como obtenção do grau de Psicóloga. Profa. Drª. Flávia Cristina Silveira


DIANA DA SILVA NOBRE

DO TRABALHADOR DÓCIL AO DEVIR-ANIMAL: UM VIVER ÉTICO, ESTÉTICO E POLÍTICO EM “A METAMORFOSE” DE FRANZ KAFKA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal do Pará - UFPA, como requisito à obtenção do grau de Psicóloga.

BANCA EXAMINADORA

__________________________________________ Profa. Drª. Flávia Cristina Silveira Lemos Orientadora

__________________________________________ Prof. Ms. Emanuel Meireles Vieira Psicólogo Mestre em Psicologia - UFC Docente de Psicologia - UFPA

__________________________________________ Marcelo Pereira Brasil Graduado em Licenciatura Plena em Letras Mestrando em Letras: Linguística e Teoria Literária

Apresentado em: 15 / 06 / 2011 Conceito: ______________

BELÉM - PA 2011


Dedico este trabalho à minha grande mãe Marisa F. S. Nobre, que sempre foi extremamente presente em minha vida, com seu grande amor, apoio e dedicação.


AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus, pela vida e saúde que me dá diariamente para continuar, sempre lutando, pelas coisas que acredito; À minha mãe Marisa F. S. Nobre, que é uma super-mãe! Sempre estando presente em todos os momentos da minha vida, com sua prontidão incansável, companheirismo, apoio e dedicação. Sem você, a luta seria mais difícil. Obrigada pelo seu grande amor! Ao meu pai Floriano R. Nobre, que, a seu modo, colaborou e me incentivou em meus estudos. Pelos conselhos de prudência, que me fizeram olhar de outro modo a vida. Ao meu irmão Rodrigo D. S. Feio, que sempre foi um exemplo de vida para mim: de muita determinação e dedicação aos estudos. Que sempre me ajudou, no que pode, em relação aos meus estudos, incentivando-me sempre. Ao meu namorado Helder O. Freitas, por estar ao meu lado nessa caminhada da universidade, sabendo respeitar o meu espaço de estudo e dedicação ao meu futuro. Aos grandes amigos (as) Fernanda, Francidalva e Fábio, que juntos formamos o famoso “Quarteto Fantástico” da UFPA. Obrigada pela amizade, sempre muito permeada de: companheirismo, entendimento, cumplicidade, alegria e dedicação. Obrigada pelos dias vividos juntos, em: viagens, trabalhos acadêmicos, aulas, supervisões, almoços, encontros informais, etc. Hoje sei que o curso de psicologia não seria tão bom para mim, como foi, se eu não tivesse vocês ao meu lado. Aos grandes amigos (as) Nathália Dourado e Cleyber Moreira, pela amizade gostosa. Pelas inúmeras conversas interessantes que tivemos. Pela cumplicidade que cultivamos. Pelas causas que lutamos, com muito afinco, no Centro Acadêmico de Psicologia, objetivando uma melhor educação! Valeu ter lutado, valeu termos nos esforçado juntos, afinal já dizia Fernando Pessoa, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. À grande amiga Hevellyn Ciely, por seu grande companheirismo. Obrigada pela revisão maravilhosa, de grande importância para a finalização deste trabalho. Às aulas que assistimos juntas, em que você sempre realizava muitas problematizações. Saiba que estas foram de grande importância para mim, inquietando-me, tirando-me do lugar comum. O curso de psicologia não seria o mesmo sem você. Obrigada por sua grande contribuição. À grande amiga Débora Linhares, por sua prontidão em revisar este trabalho, com muito afinco e dedicação. Sua atitude fez-me refletir, novamente, o quanto é raro


encontrarmos pessoas dispostas a nos ajudar, a colaborar. Obrigada por sua amizade e grande contribuição neste trabalho. A Anderson Coelho, por suas contribuições de revisão deste trabalho, que mesmo com falta de tempo, pode revisar o que pode. Obrigada por sua atenção! Ao grande amigo Magno, ou magnote, como eu o chamo. Por sua dedicação sem medida, sua prontidão em sempre me ajudar. Por sua revisão a este trabalho. Por nossas conversas gostosas durante o almoço, que me alegram durante um dia difícil de trabalho. Por sua genialidade de conversas, por suas caras de “emoticons”, obrigada por tudo! Ao grande amigo Alberto Amaral, pela sua grande amizade. Pelas conversas descontraídas que temos. Por nossas problematizações em torno da vida, de nossas profissões, etc. Obrigada amigo! À grande amiga Giluí Sóter, amiga antiga, que mesmo distante, ocupa um lugar de muita importância para mim. Tempos bons os que vivemos, com eles pude me tornar muito do que sou hoje. Foi através de “Gil” que conheci Franz Kafka e sua “A Metamorfose”, numa aula de física. “Gil” teve grandes influências em minha vida. Aos inúmeros professores que tive, mas alguns em especial, por me marcarem mais, como o Prof. Maurício Souza, por suas aulas maravilhosas de Psicologia Social e Psicologia e Violência, que me instigaram e que me deixavam sempre empolgada em estudar mais e mais! Ao grande Prof. e amigo Emanuel Meirelles, por ser simplesmente quem ele é. Autêntico, congruente e empático! Com você eu aprendi muita coisa, como: a sensibilidade de ouvir, o sentimento de escrever, o prazer de estar em contato com uma pessoa; e acima de tudo, com você, eu aprendi a me escutar. À Prof.ª e amiga Flávia Lemos, por suas infindáveis orientações de trabalhos de: disciplina de análise institucional, Bolsa PIBIC-UFPA, esse TCC, artigo publicado, além de inúmeros trabalhos publicados em congressos. Muito obrigada pela confiança depositada em mim, que sempre procurei retribuir com muita responsabilidade e qualidade. Obrigada pela sua companhia e por sempre me incentivar em meus estudos. Aos inúmeros amigos conquistados em minha carreira acadêmica, que me proporcionaram momentos de muita alegria e problematização em torno da vida. Vou citar alguns: Adriana Lisboa, Caroline Souza, Lívia Bentes, Pedro Cabral, Anderson Castro, Flávia Câmara, Priscila Anjo, Odemir Junior, Roberta Raiol, Camila Chada, Vicente Estumano, Mayara, Késia.


“A partir da idéia que o indivíduo não nos é dado, acho que há apenas uma consequência prática: temos que criar a nós mesmos como uma obra de arte.”

Michel Foucault


RESUMO

Através do método genealógico de Michel Foucault, este trabalho busca ser um campo de problematizações em torno da questão do trabalho imerso na obra A Metamorfose (2008) de Franz Kafka. Com isso, esta análise percorre desde a docilidade do caixeiro viajante Gregor Samsa até o seu devir-animal, em que se mostra metamorfoseado em barata. Para tanto, partindo das pistas genealógicas de Michel Foucault, a análise da docilidade de Gregor é discutida através da tríade saber-poder-subjetivação, que estão imanentes na sua organização de trabalho, subjetivando-o, constituindo-o enquanto corpo dócil. Todavia, o caixeiro viajante Gregor encontra linhas de fuga que o fazem resistir às malhas microfísicas de poder deste trabalho, provocando assim rupturas nas mesmas. É neste momento, que discutimos sobre o processo de devir-animal de Gregor, através de Deleuze e Guattari (1997). Além disso, esse devir-animal é problematizado, através da contribuição de diversos autores, enquanto afirmação do paradigma ético, estético e político, pois, é notório o quanto, a partir de sua metamorfose, Gregor se mostra ao mundo como obra de arte. Nestes termos, através de seu devir animal, Gregor Samsa afirma, diante da vida, o quanto é possível o processo de resistência e rupturas frente às cristalizações das organizações de trabalho. Haja vista que, conforme nos propõe Foucault (1988), onde há poder existe possibilidade de resistência.

Palavras chaves: Trabalho; Subjetivação; Docilização; Devir-animal; Paradigma ÉticoEstético e Político.


SUMÁRIO 1.

INTRODUÇÃO ................................................................................................ 9

2.

JUSTIFICATIVA ........................................................................................... 13

3.

OBJETIVOS ................................................................................................... 14

3.1

OBJETIVO GERAL......................................................................................... 14

3.2

OBJETIVOS ESPECÍFICOS ........................................................................... 14

4.

METODOLOGIA DA PESQUISA ................................................................ 15

4.1

FERRAMENTAS ANALÍTICAS .................................................................... 17

5.

CAPÍTULO I – KAFKA E SUA OBRA A METAMORFOSE ...................... 20

5.1

FRANZ KAFKA: UM AUTOR INQUIETANTE ............................................. 20

5.2

ESSE GRANDE RIZOMA CHAMADO A METAMORFOSE .......................... 25

5.2.1 Situando a obra A Metamorfose ..................................................................... 25 5.2.2 O enredo de A Metamorfose ........................................................................... 26 5.2.3 Os Personagens que compõem A Metamorfose................................................26 5.2.3.1 Gregor Samsa .................................................................................................. 28 5.2.3.2 O pai ............................................................................................................... 29 5.2.3.3 A mãe .............................................................................................................. 30 5.2.3.4 A irmã ............................................................................................................. 30 6.

CAPÍTULO II – A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO ENQUANTO

DISPOSITIVO DE SUBJETIVAÇÃO DE GREGOR EM CORPO DÓCIL ......... 32 6.1

O TRABALHO ENQUANTO DISPOSITIVO DE SUBJETIVAÇÃO ............. 32

6.2

A SUBJETIVAÇÃO DE GREGOR EM UM CORPO DÓCIL ......................... 35

6.2.1 Relação de saber-poder na organização de trabalho de Gregor................... 37 6.2.2 Controle e docilização do corpo de Gregor ................................................... 39 6.2.3 Controle sobre o tempo .................................................................................. 41 6.2.4 Vigilância hierárquica .................................................................................... 43 6.2.5 Modos de vida decorrentes do trabalho ........................................................ 45 6.2.6 Trabalho como mecanismo de subsistência X satisfação .............................. 46 7.

CAPÍTULO III – O DEVIR-ANIMAL DE GREGOR: A VIDA ENQUANTO

OBRA DE ARTE ...................................................................................................... 49 7.1

A METAMORFOSE DE GREGOR EM DEVIR-ANIMAL ............................. 49


7.2

O DEVIR-ANIMAL NA OBRA A METAMORFOSE ENQUANTO AFIRMAÇÃO

DO PARADIGMA ÉTICO, ESTÉTICO E POLÍTICO. .............................................. 51 7.2.1 Paradigma Ético ............................................................................................. 51 7.2.2 Paradigma Estético......................................................................................... 55 7.2.3 Paradigma Político ......................................................................................... 57 8.

CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................... 60

REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 62


1.

INTRODUÇÃO

O trabalho foi objetivado de diferentes modos no decorrer da história. Por vezes, foi considerado como punição por meio de uma condenação, ou “tripalium”. Em outros momentos, em contraposição, significava “laboren”, remetendo à idéia de cultivo, crescimento e transformação (SILVA et.al., s.d). Todavia, é notório o quanto o trabalho apresentou-se no decorrer da história como uma possibilidade de constituição de si para os seres humanos. Com isso, somos subjetivados pelas organizações de trabalho, ou seja, passamos a agir, pensar e sentir pelas malhas de saber-poder-subjetivação que perpassam pelas formas de organização do trabalho. Mas vale notar também que, podemos resistir aos moldes de trabalho prescrito, ocasionando assim rupturas às práticas até então instituídas. Tal questão pode ser vista e problematizada através do personagem Gregor de A Metamorfose (2008), afinal, com ele não foi diferente. Pois, como pode ser visto durante esta obra de Kafka, Gregor é subjetivado por sua organização de trabalho, segundo uma lógica de produção que o atravessa e tenta docilizá-lo enquanto trabalhador disciplinado, afinal “é dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado” (FOUCAULT, 2008, p. 118). No entanto, no início da obra A Metamorfose (2008) de Franz Kafka é possível notar o quanto Gregor encontrou linhas de fuga, resistindo assim às relações de saber-podersubjetivação que constituíam sua organização de trabalho. Gregor se transforma em uma grande barata, com isso vemos que ele não é mais o trabalhador disciplinado e dócil, mas é lançado ao devir, devir-animal. Esse devir proporciona que Gregor possa operar sua vida enquanto obra de arte, experimentando-a em suas múltiplas possibilidades. Nestes termos, Gregor Samsa se transformou do dócil trabalhador ao devir-animal, afirmando assim o paradigma ético, estético e político. Afinal, é estético, pois é a vivência enquanto obra de arte, ou seja, a vivência de um devir que é proporcionado pelas marcas decorrentes do entrelaçamento das forças de uma textura ontológica dos indivíduos (ROLNIK, 1993). É ético, pois é o respeito que Gregor apresentou em relação a esses processos singulares das marcas, que o invadiram e que pediram uma forma de passagem. E por fim, é político, pois esse “transformar-se” é um posicionamento político de Gregor diante da sociedade cristalizada, da qual fazia parte. Em vista disso, buscamos fazer neste trabalho uma análise crítica e problematizadora, através das ferramentas histórico-genealógicas de Michel Foucault, em torno da obra A 9


Metamorfose (2008) de Franz Kafka (2008), refletindo sobre a questão do trabalho de Gregor e os mecanismos disciplinares que o subjetivavam em um trabalhador dócil. Além disso, intenta investigar as linhas de fuga operadas pelo devir-animal de Gregor enquanto um mecanismo de resistência aos modos de organização do trabalho dos quais ele participava, estabelecendo-se assim através da afirmação do paradigma ético-estético e político. Para tanto, esta análise terá como ponto de partida que A Metamorfose (2008) é uma obra rizomática, ou seja, com múltiplos caminhos, com diversas portas e saídas. Afinal, o rizoma, conforme aponta Deleuze e Guattari (1995) em Mil Platôs Volume I, é um sistema que age por heterogeneidade, multiplicidade que desqualifica assim a idéia do uno. O rizoma é formado por linhas que permitem a territorialização, mas também os processos de desterritorilização, através das rupturas. Deste modo, enquanto rizoma, podemos observar essa obra como um campo de possibilidades, onde não há início, nem fim, mas um espaço com zonas lisas e abertas, simultâneas às estriadas. Em vista disso, buscamos realizar o presente estudo por conexões diagramáticas, e não por uma filiação, tendo em consideração que “os rizomas procedem sempre por alianças, nunca por filiação. Por isso, não tem começo nem fim, estão sempre no meio, entre as coisas, entre os termos - o que não significa que tenham uma relação recíproca que vai de uma coisa a outra.” (Lilia Lobo, 2004, p.198). Assim, tendo A Metamorfose (2008) enquanto um rizoma, esta análise é dividida em três capítulos, cada um com dois subcapítulos. Pois, desta forma, podemos explorar e discutir melhor a temática em questão, tanto no que se refere aos aspectos conceituais, quanto no que tange a problematização da questão do trabalho imerso nesta obra de Franz Kafka. O primeiro capítulo, intitulado “Kafka e sua obra A Metamorfose”, apresenta os subcapítulos: “Kafka: uma literatura inquietante” e, “Esse grande rizoma chamado A Metamorfose”. No segundo capítulo, “A organização do trabalho enquanto dispositivo de subjetivação de Gregor em um corpo dócil”, apresentamos dois outros subcapítulos: “O trabalho enquanto dispositivo de subjetivação” e, “A subjetivação de Gregor em um corpo dócil”. Por fim, no terceiro capítulo “O devir-animal de Gregor: a vida enquanto obra de arte”, temos “A metamorfose de Gregor em devir-animal” e, “O devir-animal na obra A Metamorfose enquanto afirmação do paradigma ético, estético e político”. No primeiro capítulo, no subcapítulo: “Kafka: uma literatura inquietante”, buscamos situar o leitor sobre a literatura de Kafka, mostrando a expressividade desse autor Tcheco que realizou inúmeras produções inquietantes, que possibilitaram reflexões e problematizações de 10


nosso dia a dia. Além disso, no subcapítulo seguinte, intitulado “Esse grande rizoma chamado A Metamorfose” abordamos a acerca da obra A Metamorfose (2008), detalhando os seguintes aspectos: a obra e a temática da metamorfose; a estória de Gregor relacionando com as organizações de trabalho de caixeiro viajante e, por fim, temos a descrição dos personagens que compõem essa grande narrativa. No segundo capítulo, o subcapítulo “O trabalho enquanto dispositivo de subjetivação” trata da concepção de trabalho sob o viés foucaultiano de relações de saber-podersubjetivação que perpassam o corpo dos trabalhadores subjetivando-os, criando assim corpos submissos e dóceis. Enquanto que no segundo subcapítulo, “A subjetivação de Gregor em um corpo dócil”, são problematizadas algumas séries discursivas relativas à organização do trabalho presentes na obra A Metamorfose (2008), através do personagem Gregor e seu enredo. Deste modo, em tal subcapítulo, discute-se as seguintes séries discursivas, que materializam práticas de subjetivação sobre o trabalhador Gregor: relação de saber-poder na organização de trabalho de Gregor; controle e docilização do corpo de Gregor; controle sobre o tempo; vigilância hierárquica; modos de vida decorrentes do trabalho; trabalho como mecanismo de subsistência X satisfação. Finalmente, no terceiro capítulo, podemos visualizar como campo de problematização o primeiro subcapítulo “A metamorfose de Gregor em devir-animal”, em que refletimos sobre a metamorfose de Gregor como um mecanismo de resistência frente ao conjunto de disciplinas disparadas por sua organização de trabalho. Deste modo, o devir-animal de Gregor – configurado como processo de linha de fuga às relações de poder existentes em sua atividade de caixeiro viajante - ajuda-nos a afirmar que Gregor passou a se mostrar ao mundo de um modo ético, estético e político. Problematização esta que é realizada no último subcapítulo, intitulado “O devir-animal na obra A Metamorfose enquanto afirmação do paradigma ético, estético e político”. Em vista de tais problematizações, presentes no decorrer deste trabalho de conclusão de curso, é possível a obtenção das seguintes conclusões: o personagem Gregor de A Metamorfose (2008) de Franz Kafka é subjetivado pelas relações de saber-poder-subjetivação de sua organização de trabalho, enquanto um trabalhador dócil, pois foi submetido à lógica de produção. Todavia, mesmo com tais linhas de força que atravessam esse caixeiro viajante em sua atividade, é possível perceber que Gregor encontrou linhas de fuga, que permitem a ele resistir a tal lógica de organização de trabalho. Com isso, Gregor se mostra ao mundo por

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meio de uma mutação via devir-animal, ou seja, aponta para a vida como um campo de possibilidades. Além disso, essa metamorfose de Gregor é concretizada com a afirmação do paradigma ético, estético e político. Consequentemente, observamos que Gregor não permanece diante de seu trabalho enquanto máquina reprodutora, mas provoca rupturas de desestabilização das estruturas cristalizadas de sua organização de trabalho. Mudando assim, seu modo de pensar, sentir e agir diante do mundo, provocando por conseqüência ressonâncias em suas relações familiares.

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2.

JUSTIFICATIVA

A presente análise se faz importante, na medida em que fornece um maior espaço de reflexão e problematização no que tange ao mecanismo de subjetivação pelo trabalho, tendo como foco de análise uma obra literária. Sendo assim, ao debruçamo-nos sobre a obra A Metamorfose (2008) de Franz Kafka, possibilitamos inúmeras problematizações da organização de trabalho do protagonista Gregor. A partir de então, podemos observar como Gregor se constitui enquanto trabalhador dócil até a sua resistência em devir-animal. Deste modo, a problematização da tríade saber-poder-subjetivação, presente na organização de trabalho de Gregor na função de caixeiro-viajante, ajuda-nos a refletir sobre as práticas de trabalho existentes na sociedade. Afinal, analisar Gregor nesta obra é visualizar um corpo que se inquieta com as práticas que tentam submetê-lo, ou seja, um corpo que tenta resistir aos processos de docilização efetuados pelas práticas de poder que forjam seus espaços de organização do trabalho. Além disso, também é possível observar um Gregor enquanto devir-animal, que vivencia o paradigma ético, estético e político. Em outros termos, refletir sobre a obra A Metamorfose (2008) de Franz Kafka, proporciona-nos problematizações em torno das relações de saber-poder que estão imersas em nosso cotidiano, constituindo-nos, enquadramo-nos, formando-nos, então, corpos dóceis. No entanto, olhar para a obra de Kafka nos possibilita também um respirar em frente a essas malhas microfísicas de poder, pois diante delas podemos encontrar linhas de fuga, ou seja, podemos resistir frente às malhas de relações de poder que nos atravessam. Configurando-nos assim como devir-animal, em que somos donos de nossa própria arte.

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3.

3.1

OBJETIVOS

OBJETIVO GERAL Problematizar a tríade poder-saber-subjetivação nos modos de organização do trabalho

de Gregor na Obra A Metamorfose (2008) de Franz Kafka, enquanto produtora de um trabalhador dócil, e as tentativas de resistência do mesmo a partir do devir-animal que reafirma o paradigma ético, estético e político.

3.2

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

- Analisar a produção do autor Franz Kafka a partir do enfoque da obra A Metamorfose (2008); - Descrever e discutir os elementos que compõem a estrutura da obra A Metamorfose (2008); - Analisar o trabalho enquanto mecanismo de subjetivação; - Problematizar as principais séries discursivas presentes na obra A Metamorfose (2008), buscando-se analisar, a partir delas, como Gregor vai se constituindo como trabalhador dócil; - Analisar a metamorfose de Gregor enquanto devir-animal proposto por Deleuze e Guattari (1997); - Pensar com Deleuze a respeito do paradigma ético, estético e político presente no deviranimal de Gregor.

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4.

METODOLOGIA DA PESQUISA Este trabalho é uma pesquisa teórica e documental, com utilização da fonte

bibliográfica A metamorfose (2008) produzida por Franz Kafka em 1912. Para problematizar tal obra, utiliza-se como perspectiva de análise o método histórico-genealógico de Michel Foucault, que se mostra uma importante ferramenta de cunho qualitativo no que tange a utilização de documentos. O método genealógico é uma ampliação do método arqueológico, pois para Foucault, o discurso não se configura somente como uma forma de expressar o saber, como propunha a arqueologia, mas que também produz efeitos de poder (VANDRESEN, 2010). Deste modo, uma análise que se propõe genealógica baseia-se no tripé saber-poder-subjetivação, então sob este escopo de análise que o presente trabalho se propõe. Por tal método, a obra A Metamorfose (2008), como produção histórica é tratada neste trabalho sob a perspectiva de um documento-monumento, o qual é atravessado por relações de saber-poder-subjetivação. Haja vista que, conforme esclarece Le Goff (apud KORNIS, 1992, p.2): O documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro - voluntária ou involuntariamente - determinada imagem de si próprias. No limite, não existe um documento verdade. Todo documento é mentira. Cabe ao historiador não fazer o papel de ingênuo (-) É preciso começar por demonstrar, demolir esta montagem (a do monumento), desestruturar esta constrição e analisar as condições de produção dos documentos-monumentos.

Neste sentido, enquanto documento-monumento, a obra A Metamorfose (2008) é uma produção histórica, ou seja, é socialmente construída. E desta forma, podemos afirmar, a partir das contribuições de Malgadi (1992, apud ADAN, 2008, p.5), que os textos ficcionais e romances são “[...] produtos sociais, historicamente localizados, que representam importantes testemunhos da sociedade em que se situam e que se relacionam com o mundo intelectual de seu tempo”. Todavia, mesmo com tal prerrogativa, Adan (2008) afirma que é equivocado analisar a obra de arte como se a mesma fosse destituída de autonomia. Em vista disso, a obra de Franz Kafka deve ser problematizada “enquanto expressão estética dotada do poder de recriar livremente o real sem compromisso com a realidade, afinal nisto reside sua própria essência” (ADAN, 2008, p.5). Deste modo, analisar A Metamorfose (2008) enquanto documento-monumento é olhála como uma obra produzida que nos propõe um campo vasto de possibilidades. Em vista disso, é por vezes limitado observar esse documento como um retrato fiel de uma suposta 15


realidade. Ou ainda, como um reflexo co-extensivo da vida pessoal do autor, como fazem muitos estudiosos equivocadamente, como se a literatura tivesse uma responsabilidade em obrigatoriamente refletir algum objeto prévio. Sobre tal questão, Fischer (2001) em seu texto Foucault e a análise do discurso em Educação, afirma que o sujeito - de acordo com a análise do discurso para Foucault - não é causa do discurso que profere, mas sim que se constitui enquanto moldado por ele, ou seja, encontra-se na condição de efeito do discurso. Deste modo, fazer uma análise do discurso não é querer analisar a obra a partir da vida do autor que a produziu, mas sim convém observar de onde este autor fala e em que campo de relação de poder está inserido. Nestes termos, para Foucault, segundo Bruni (1989), o homem não é considerado o sujeito da consciência que “vive, luta, trabalha e fala" (BRUNI, 1989, p.1), mas se constitui enquanto efeito do saber contemporâneo. Esse sujeito da consciência é uma criação dos saberes do séc. XVIII que se constitui enquanto o ser do pensamento, a origem de todas as coisas, o ser da linguagem. Foucault, por sua vez, desconstitui esse sujeito - considerado o centro da filosofia desde Descartes - por isso é visualizado como anti-humanista. Deste modo, sob a perspectiva de um questionamento do sujeito, visualizamos a obra A metamorfose (2008) de Franz Kafka como um grande rizoma, onde não há início nem fim, mas simplesmente um espaço. Esse termo rizoma é em referência ao conceito utilizado por Deleuze e Guattari (1980), que buscaram na botânica sua análise. Deste modo, para esses autores, as plantas rizomáticas apresentam “formas muito diversas, desde sua extensão superficial ramificada em todos os sentidos até a sua concreção em bulbos e tubérculos” (DELEUZE & GUATARRI, 1980, p.12 apud LOBO, 2004, p. 198) Logo, observar a obra de Kafka como rizomática é afirmar que esta obra constitui-se enquanto um campo de possibilidades, sem início e sem fim. Em que não há um suposto início que justifique tal obra, tampouco um fim que explique esse emaranhado de conexões. Em vista disso, buscamos analisar A Metamorfose (2008) através de possíveis alianças, como propõe Lília Lobo (2004). Essas alianças entre as coisas são realizadas através de „conjunções‟ que “desenraiza todo o fundamento, a ilusão da origem ou de um ponto de chegada, uma reversão de toda a ontologia do verbo ser. Contrário à identidade, o rizoma tem por princípio a heterogeneidade e a multiplicidade” (LOBO, 2004, p.198). Deste modo, guiando-nos por tais autores, esta análise observa a obra A Metamorfose (2008) enquanto um documento-monumento que foi produzido socialmente, sendo atravessado assim por relações de saber-poder. Todavia, é importante frisar que, mesmo sendo 16


um documento produzido é limitado olhar para esta obra de Kafka como se fosse mera extensão de sua vida pessoal. Deste modo, esta problematização é feita por alianças e conjunções, tendo em vista que as obras de Kafka são grandes rizomas que não apresentam início nem fim. Além dessas questões metodológicas, relacionadas e debatidas até então, em seguida será tratado sobre as ferramentas analíticas que utilizamos para a análise deste trabalho.

4.1

FERRAMENTAS ANALÍTICAS Utilizando-se do método genealógico, este trabalho apresenta algumas ferramentas

analíticas de extrema importância para a compreensão da problemática, a começar pelo conceito de poder. Tendo em vista que, o poder não é uma essência, no entanto, constitui-se enquanto relações de forças, como afirma Foucault (1988, p.102): Parece-me que se deve compreender o poder, primeiro, como a multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de força encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistemas ou ao contrário, as defasagens e contradições que as isolam entre si; enfim as estratégias que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formulação de leis, nas hegemonias sociais.

Como visto, para Foucault (1988), o poder não está presente na sociedade enquanto essência em que uns podem ter posse e outros não. Diferente disso, o poder, inserido na trama social, é constituído enquanto relações de poder, estratégias. Que atravessam instituições e pessoas, através de malhas microfísicas de poder. Além disso, as relações de poder se dão entre sujeitos livres (leia-se: sem violência), visto que “o „outro‟ (aquele sobre quem ela se exerce) seja reconhecido e mantido até o fim como sujeito de ação; e que se abra diante da relação de poder todo um campo de respostas, reações, efeitos invenções possíveis” (FOUCAULT, 1984, apud MACEDO JR., 1990, p.4). Deste modo, o poder, constituído de relações microfísicas de saber-poder atravessam os corpos, subjetivando-os. Pois para Foucault, segundo Maia (1995), o poder vai além de um mecanismo que provoca a interdição, a proibição, constituindo-se assim como produtor de positividades. E é justamente nisso que Foucault se destaca e se diferencia em sua análise sobre o poder, pois não visualiza o poder somente como uma força que diz não, mas também

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que diz sim, enquanto um conjunto de práticas que provoca comportamentos, modos de ser, ou seja, o poder produz subjetividades. Em vista disso, esse processo de subjetivação se dá, segundo Deleuze (1992), quando o sujeito realiza uma “dobra” nas linhas de forças que o afete, ou seja, “transpor a linha de força, ultrapassar o poder, isto seria como que curvar a força, fazer com que ela mesma se afete, em vez de afetar outras forças” (DELEUZE, 1992, p.123). Deste modo, o “processo de subjetivação” ocorre quando a dobradura de tal linha de força possibilita modos de ser, pensar e agir. Todavia nos adverte Deleuze (1992, p.141) “que a subjetivação, isto é, a operação que consiste em dobrar a linha do fora, seja simplesmente a maneira de se proteger, de se abrigar. Ao contrário, é a única maneira de enfrentar a linha e de cavalgá-la”. Todavia, Foucault (1988), ao direcionar sua analítica em torno do saber-podersubjetivação, não nega o espaço da revolta, das resistências. Pois, como destaca Maia (1995), o fato de as relações de poder estarem presentes em todo corpo social, não significa que não haja uma possibilidade de revolta, ou resistência a tais poderes. Afinal, onde há poder existe possibilidade de resistência, conforme nos propõe Foucault (1988). Sendo importante destacar que, não existe “um lugar da grande recusa-alma da revolta, foco de todas as rebeliões, lei pura do revolucionário. Mas sim, resistências no plural” (FOUCAULT, 1979, apud MAIA, 1995, p. 91) Neste sentido, podemos afirmar que o devir-animal é uma forma de resistência a essas relações de forças existentes na sociedade, bem como uma forma de existência frente a tal configuração. Haja vista que, conforme nos propõe Nabais (s.d), esse processo de devir é uma ruptura com a subjetividade cristalizada, desestruturação de referências, além de ser um “estado não humano do homem, essa paisagem não humana da Natureza, em que os afetos e os perceptos existem por si, em si, como devires, na ausência do homem” (NABAIS, s.d,p.117). Rupturas estas que são proporcionadas por linhas de fuga que possibilitam “ultrapassar um limiar, atingir um continuum de intensidade que não valeu mais do que elas mesmas, encontrar um mundo de intensidades puras, onde todas as formas se desfazem, todas as significações também” (DELEUZE & GUATTARI, 1977, p. 20). Como visto, essas ferramentas analíticas irão compor o escopo de análise deste trabalho que objetiva problematizar as relações de saber-poder-subjetivação em que Gregor está imerso em seu contexto de trabalho. Ajudando-nos assim a problematizar, posteriormente, as rupturas ocasionadas em seu modo de viver cristalizado e disciplinado

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enquanto caixeiro- viajante. Momento este que Gregor se mostra ao mundo como deviranimal, encontrando linhas de fuga para um viver ético, estético e político. Nestes termos, tais ferramentas de análise servem de base para a discussão dos objetivos específicos que este trabalho se propõe. Ajuda-nos assim a refletir sobre a questão do trabalho, importante elemento disparador de subjetividade, presente nesta obra rizomática, A Metamorfose (2008) de Franz Kafka, refletindo também sobre este autor, sob o viés desta obra. Além disso, de posse dessas problematizações, essas ferramentas de análise, possibilitam posteriormente, uma discussão das principais séries discursivas que estão presentes nesta obra, as quais materializam relações de saber-poder-subjetivação imersas no trabalho de Gregor, constituindo-o. Finalizando, através desse escopo de análise, problematizamos o devir animal deste caixeiro viajante, que se mostra ao mundo como obra de arte, afirmando assim o paradigma ético, estético e político. Como visto, tal base metodológica, bem como essas ferramentas analíticas utilizadas neste trabalho, auxiliam-nos a refletir não somente sobre o processo de subjetivação de Gregor em corpo dócil, e sua posterior resistência em devir-animal. Mas também, tal análise nos convida a pensar e problematizar sobre nossas práticas de trabalho e de como nos constituímos a partir delas. Para, a partir disso, posicionarmo-nos de maneira singular, enquanto obra de arte.

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5.

5.1

CAPÍTULO I – KAFKA E SUA OBRA A METAMORFOSE

FRANZ KAFKA: UM AUTOR INQUIETANTE Franz Kafka viveu quase toda sua vida no anonimato, mas na atualidade é considerado

um dos maiores escritores do século, ao lado de escritores consagrados como James Joyce e Proust (SILVA, 2006). Marcelo Barckes, no prefácio de A Metamorfose (2008), afirma que não há nenhuma lista de livros do gênero de romance universal que a obra O Processo de Franz Kafka não esteja presente, além da obra A Metamorfose (2008) ser destaque no que tange ao gênero de novela. De um modo geral, são muitos os críticos que escrevem sobre Kafka e suas obras, muitos dizem que ele é o autor do absurdo, outros, por sua vez, afirmam que suas obras beiram ao surrealismo. Em vista disso, podemos afirmar que Kafka é um autor inquietante, afinal suas obras problematizam práticas de burocratização da vida, que beiram o absurdo e o surrealismo, mas que são concretas, haja vista que “cem anos após seu nascimento, Franz Kafka, é mais do que nunca, nosso contemporâneo. Suas estranhas histórias fazem ver com grande realidade, aspectos absurdos de situações que vivemos diariamente.” (KONDER, 1983, apud SILVA, 2006, p. 43). Ler as obras de Franz Kafka é deparar-se com acontecimentos que nos afetam cotidianamente, mas que nos passam despercebidos. Em vista disso, através de Kafka, podemos olhar de frente para as relações de saber-poder que nos atravessam e nos constituem. Abrindo-nos assim espaços de reflexão e de rupturas ao instituído. E é deste modo que podemos olhar A Metamorfose (2008), como um grande convite à problematizações no âmbito do trabalho, que se configuram enquanto espaços de materialização das relações de saber-poder até então instituídas, em que o trabalhador é subjetivado em um corpo dócil, moldável. Tendo, por consequência, seus modos de ser desqualificados. É em decorrência de tais críticas, tão presentes nesta obra, que Heinz Politzer (2008, apud BACKES, 2008), grande estudioso de Kafka, afirma que o processo de metamorfose de Gregor possibilitou uma mudança no mundo, de tal maneira que ele nunca mais permaneceu o mesmo. Deste modo, como é possível observar, Kafka nos proporciona um campo de possibilidades, no qual não permanecermos os mesmos depois deste encontro com suas obras. Todavia, é importante destacar que o cunho de problematização existente nas obras de Kafka é um movimento de enfrentamento com nosso cotidiano que poucas pessoas estão 20


dispostas a enfrentar. Afinal, conforme aponta Adorno (1998, apud HÜBNER, s.d), muitos preferem olhar tais obras a partir de um viés de pensamento estabelecido, ao invés de inseri-la num escopo maior de questionamento. E é justamente por esta singularidade de problematização das obras do autor Franz Kafka que, Deleuze e Guattari (1977) a intitulam enquanto “uma literatura menor”. Não por demérito à sua escrita, como tal expressão pode suscitar, mas sim por Kafka ser um dos poucos autores a escrever de tal forma com uma língua maior. E em que consistiria essa “literatura menor”? É a linguagem da resistência, da desestruturação e da construção. Neste sentido, diz Passetti (2004, p. 75): Uma literatura de resistência, de enfrentamento, de reinvenção da língua, do sentido, da expressão. Uma literatura de cunho político, para além de qualquer intenção explícita de seu autor. Em outras palavras, uma literatura para além do sujeito, uma literatura que se produz como agenciamentos coletivos de enunciação.

Existem três características que delimitam a “literatura menor” para Deleuze e Guattari (1977). A primeira característica é a desterritorialização da língua alemã falada em Praga pelos Judeus, em que Kafka visualizava o seu não reconhecimento pelo restante da população. Em vista disso, os judeus de Praga se configurariam como “ciganos que roubaram do berço a criança alemã” (DELEUZE & GUATTARI, 1977, p. 26). A segunda característica da literatura menor, da qual Kafka faz parte, conforme expõem Deleuze e Guattari (1977), é a função política que aponta para o aspecto da história não apenas como um mero contexto ou pano de fundo, mas sim realizando um projeto político e afirmando determinados modos de vida. Ou seja, a literatura é política, e como tal, não há inocência nas coisas ditas, mas embates que devem ser discutidos. O próprio Kafka propõe ao debate, como expõe Deleuze e Guattari (1977, p.26), no momento em que “indica, entre as finalidades de uma literatura menor, „a depuração do conflito que opõe pais e filhos, e a possibilidade de discuti-lo‟, não se trata de uma fantasia edipiana, mas de um programa político”. E, por fim, a terceira característica é a aquisição, por parte da literatura, de um valor coletivo. Afinal, Deleuze e Guattari (1977) assinalam que não há uma “enunciação individualizada”, ou um sujeito da enunciação, mas sim a obra literária reflete o campo anônimo de agenciamentos de enunciação coletivos. Com isso, a literatura atinge uma postura política por excelência, em que as palavras não são meras palavras, porém são armas de

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guerra coletivas. Deste modo, “a literatura tem a ver é com o povo” (DELEUZE e GUATTARI, 1977, p.27). E, diante de tal questão, ainda poder-se-ia perguntar quem foi Kafka? Pergunta esta que poderia ser respondida através da exposição de Hübner (s.d, p.6) como sendo “um judeu nascido no leste europeu, falante de alemão, que estudou na Áustria e morava na Suíça (...)”. Além disso, podemos afirmar que Kafka viveu às vésperas da primeira guerra mundial, assim como presenciou o surgimento do capitalismo, proporcionado pela industrialização (HÜBNER, s.d). Para além desses acontecimentos, existem inúmeros outros que fazem parte da vida de Kafka, como: onde nasceu, onde estudou como era a relação com seus pais. Mas em que esses dados alterariam na análise de sua obra? De que modo essas informações iriam delimitar uma possível interpretação para seus textos? Diante destes questionamentos, podemos utilizar as contribuições de Foucault (2006), no qual afirma que ocorre um parentesco entre o processo de escrita e a morte, em que o autor se perde no seu processo de escrita. Deste modo, é possível afirmar que Kafka se perde e se fragmenta em mil pedaços em seus escritos. Sendo que, ao final da obra, não é mais o sujeito da enunciação-Kafka que se pronuncia, mas sim a enunciação-coletiva anônima. Guiando-nos por isso, e pelos estudos de Deleuze e Guattari (1977) em Kafka por uma literatura menor, podemos apreender que as obras de Kafka são de sua propriedade, mas ao mesmo tempo não o pertencem, são diluídas em uma massa de enunciação coletiva que fala através delas. Em vista disso, com tal perspectiva destes autores, é possível compreender o quanto se torna equivocado analisar as obras de Kafka como se fossem meros retratos de sua vida pessoal. Neste sentido, Lobo (2004) mostra como Deleuze e Guattari (1977) discutem sobre a inviabilidade de se observar a linguagem enquanto código. Deste modo, não é possível observar a linguagem como um campo de signos em busca de um provável desvelamento e explicação. Sobre tal questão, Deleuze e Guattari (1977, apud LOBO, 2004, p.197) afirmam que: As boas maneiras de ler hoje, é chegar a tratar um livro como se escuta um disco, como se olha um filme ou um programa de televisão, como se é tocado por uma canção: todo tratamento especial, uma atenção de outra espécie, vem de outra era e condena definitivamente o livro. Não há nenhuma questão de dificuldade nem de compreensão: os conceitos são exatamente como seus, cores e imagens, são intensidades que convém a você ou não, que passam ou não passam. Pop filosofia. Nada há a compreender, nada a interpretar.

Deste modo, não tendo nada a interpretar, conforme propõe Deleuze e Guattari (1977), ocorre uma impossibilidade do estabelecimento de uma relação direta entre a obra de Kafka e 22


sua vida pessoal. Neste sentido, ao analisarmos as obras de Franz Kafka é possível notar uma ausência de logicidade dessas estórias. Afinal, por vezes nos perguntamos durante a leitura da obra O processo, por exemplo, qual o motivo da perseguição dirigida a Josef K.? Ou até mesmo, porque Gregor, em A Metamorfose se transformou em uma barata? Perguntas como estas que não são respondidas durante a obra de Kafka e, por vezes não encontram respostas no decorrer da leitura, assim como é impossível encontrar uma correspondência com a vida do autor que produziu. Neste sentido, nas obras de Kafka tudo é incerteza, tanto para nós leitores, quanto para os personagens da estória. Em vista disso, além dos personagens não terem conhecimento dos acontecimentos que os atingem, eles desconhecem o seu futuro. Sobre tal questão, Wey (2008) afirma que nas obras kafkianas é notório o quanto os personagens não apresentam uma certeza do caminho que estão tomando, apenas podem pensar sobre a sua existência. Com isso, podemos notar a vida destes personagens sendo postas enquanto um devir, sem previsibilidade. Esse devir, como ressaltam Deleuze e Guattari (1997) não é uma composição de vida estática, mas sim é um viver enquanto multiplicidade. Em que o sujeito experimenta uma correlação de forças múltiplas que o atravessa. Modos de vida jamais excludentes entre si, haja vista que é próprio ao devir “a idéia bergsoniana de uma coexistência de „durações‟ muito diferentes, superiores ou inferiores à „nossa‟, e todas comunicantes” (Deleuze e Guattari, 1997, p. 15). Podemos então dizer que a questão do devir é tão vigente nas obras de Kafka que até mesmo os personagens que se mostravam seguidores de uma moral, acabam por se afetar às circunstâncias e começam ocupar-se de si de outra maneira. Esta questão pode ser visualizar através dos personagens: pai, mãe e irmã de Gregor, após o seu processo de metamorfose. Way (2008) acrescenta ainda que os personagens das obras kafkianas se veem numa realidade “que não oferece nenhuma vantagem ou recompensa” (WAY, 2008, p.2). No entanto, diferentemente desta autora, podemos dizer que é possível perceber que o próprio processo de metamorfose de Gregor é uma forma de possibilidade que Kafka insere em seus textos, afinal, é um fôlego de vida diante das cristalizações da sociedade. Com isso, podemos afirmar que o processo de metamorfose em barata possibilita à Gregor um encontro com linhas de fuga que transpõem as relações de saber-poder instituídas e subjetivantes de si, enquanto trabalhador disciplinado e dócil. Deste modo, através de sua metamorfose, Gregor pode se mostrar ao mundo como multiplicidade. 23


Diante disso, é possível perceber a grande complexidade que compõe a obra A Metamorfose (2008) de Franz Kafka, o qual nos convida a uma grande caminhada por suas obras, que são como grandes labirintos de problematizações. Nestes labirintos, Kafka não sabe a saída, nem tampouco seus leitores, mas ambos caminham juntos, em um grande processo de inquietação.

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5.2

ESSE GRANDE RIZOMA CHAMADO A METAMORFOSE

5.2.1 Situando a obra A metamorfose

A Metamorfose (2008) é uma obra literária do gênero de novela que foi criada por Franz Kafka em 1912, todavia, foi publicada somente em 1915. Tal obra é considerada por Backes (2008, p.7), como “a mais conhecida, a mais citada, a mais estudada de suas obras”, deste modo, esta obra é singular no que concerne às outras obras do autor tcheco Franz Kafka. Modesto Carone (1992) também destaca o quanto A Metamorfose (2008) é uma obra de destaque em relação às outras produções de Kafka, para tanto, afirma que uma biografia realizada sobre Kafka registrou a quantidade de 128 trabalhos de análise em relação a esta obra. Sendo que, quanto ao escopo de análise de tais trabalhos, “as análises vão desde as de natureza teológica e sociológica até as históricas e estilísticas, passando pelas filosóficas (principalmente existencialistas) e por outras que se podem considerar psicanalíticas de destinação biográfica” (MODESTO CARONE, 1992, p.131). Como podemos perceber, as reflexões e perspectivas de análise em torno da obra A Metamorfose (2008) de Kafka são inúmeras. Em vista disso, questionamo-nos o motivo para tanta admiração e afinco em torno desta obra de Kafka. Para tentar responder a tal questionamento, recorremos novamente a Modesto Carone (1992), o qual afirma que a obra A Metamorfose (2008) provoca espanto ao leitor desde o primeiro parágrafo, em que Kafka expressa o absurdo com uma linguagem „tipicamente cartorial‟, desassociando assim forma escrita e conteúdo. A temática da metamorfose não é posta na obra de Kafka enquanto um elemento singular na literatura, pois são inúmeros os livros que trazem tal temática. Todavia, diferente da forma inserida por Kafka em suas obras, a metamorfose é visualizada de forma aceitável em obras de mitos clássicos, fábulas, contos de fadas etc. Haja vista que, tais obras afirmam uma visão de metamorfose como algo reversível, ou que compete a um “estágio de consciência ingênuo”. (MODESTO CARONE, 1992) Deste modo, o que diferencia a obra A Metamorfose (2008) em relação às outras obras literárias que abordam a questão da metamorfose, é justamente o fato de a obra de Kafka tratar a metamorfose como uma realidade. Ou seja, a metamorfose de Gregor não é uma comparação, mas sim é um elemento real. A este respeito Blumenthal (2007, p. 16) afirma que: 25


O terreno em que Kafka trabalha a metáfora é sempre o da linguagem: ele utiliza a linguagem, não necessariamente a imagem geradora de metáfora, mas a linguagem de fato. Em outras palavras, Kafka leva ao pé da letra as metáforas criadas no texto. A barata é uma barata de fato, concebida não como figura imagética que representa uma idéia, mas sim como uma figura concretizada em linguagem. Eis a difícil operação que Kafka realiza.

Neste sentido, através das contribuições de tais autores, podemos perceber o quanto a obra A Metamorfose (2008) constitui-se num campo singular em relação à outras obras literárias, com a mesma temática no que concerne a metamorfose. Haja vista que, a transformação de Gregor em uma barata não é um mero recurso de expressividade literária, ou seja, não é uma comparação, mas um elemento real. Com isso, provoca diversas ressonâncias em sua família, bem como em sua organização de trabalho, como pode ser visto no enredo que segue abaixo.

5.2.2 O enredo de A Metamorfose

Franz Kafka em A Metamorfose (2008) narra a estória do caixeiro-viajante Gregor Samsa que acorda metamorfoseado em barata. Diante disso, podemos visualizar o quanto esta metamorfose se mostra na estória de Kafka enquanto um mecanismo de linha de fuga, que Gregor encontra para fugir ao trabalho que não tem sentido algum para ele. No entanto, essa metamorfose de Gregor não atinge somente a ele, mas ocasiona ressonâncias em toda sua família, mudando assim seus modos de pensar, sentir e agir em relação à vida. A estória de A Metamorfose (2008) inicia quando, em certa manhã, Gregor Samsa “desperta de sonhos intranqüilos” e se vê corporificado em barata. Apresentando assim estruturas corporais que até então eram estranhas a ele, como: “ventre abaulado, marrom, dividido em segmentos arqueados (...), suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação com o volume do resto de seu corpo (...)” (KAFKA, 2008, p.13). Diante dessa metamorfose, Gregor apenas se questiona: “O que terá acontecido comigo?” frente a tal pergunta, nenhuma resposta é fornecida no decorrer da obra de Kafka. E nem tampouco, a forma humana anterior de Gregor é estabelecida, mas ele, ainda assim tem que ir ao trabalho. Afinal, Gregor Samsa era caixeiro-viajante, logo, seu trabalho o exigia que viajasse constantemente para apresentar produtos em diferentes lugares. Contudo, isso o impossibilitava, segundo ele, de estabelecer vínculo em algum lugar, como podemos observar nesse trecho da obra de Kafka ( [1915] 2008, p.15):

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‟Oh, Deus‟, pensou ele, que profissão extenuante que fui escolher! Entra dia, sai dia, e eu sempre de viagem. As agitações do negócio são muito maiores do que propriamente o trabalho em casa, e ainda por cima impuseram sobre mim essa praga de ter de viajar, os cuidados com as conexões de trem, a comida ruim e desregulada, contatos humanos sempre cambiantes, que nunca serão duradouros e jamais afetuosos.

Todavia, mesmo que Gregor não estivesse satisfeito com sua organização de trabalho, podemos visualizar o quanto o trabalho exerce uma função de grande importância em sua vida e de sua família, afinal é pelo trabalho que ele sustenta a si, bem como à seus familiares, haja vista que Gregor é o único que trabalha em sua casa. Logo, mesmo com sua metamorfose, Gregor teria que estar no trem bem cedo pela manhã para seguir viagem e realizar suas atividades de trabalho normalmente. Mas, sua metamorfose em barata o impedia de tal ação. Devido aos atrasos de Gregor em sair do quarto, para o exercício de suas atividades de trabalho, podemos visualizar o quanto sua família mostra-se preocupada com ele, afinal, não era comum que este caixeiro viajante se atrasasse. Porém, além de seu atraso ser notado pela família, o próprio gerente de seu trabalho foi à sua casa verificar os motivos que o levaram a não pegar o trem determinado para o exercício de suas atividades. Com isso, observamos o quanto o trabalho de caixeiro-viajante subjetivou Gregor em um trabalhador padrão, docilizado, em que se extraia o máximo de força. Ao passo que sua breve ausência ao trabalho era imediatamente vigiada pelos patrões em seu próprio espaço familiar, bem como posteriormente punida, por uma provável demissão. De um modo geral, após a metamorfose de Gregor, os outros membros de sua família tiveram que assumir as responsabilidades financeiras de manutenção da casa. Com isso, podemos afirmar, sob esse aspecto, que não ouve somente uma metamorfose, a de Gregor, mas também diversas metamorfoses dentro do âmbito familiar deste caixeiro-viajante. Podemos visualizar tal questão a seguir, em que é descrito os outros personagens que compõem essa estória.

5.2.3 Os Personagens que compõem A Metamorfose

Podemos afirmar que, além de Gregor como personagem principal, a obra A Metamorfose (2008), de Franz Kafka, tem como personagens secundários: mãe, pai e irmã. Além desses, outros personagens participam da trama da estória, porém de modo fugaz, como: o gerente de Gregor, as empregadas da casa de Gregor e os inquilinos. Deste modo,

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para esta análise, faz-se necessário somente uma explanação mais detalhada do personagem principal e dos secundários. Neste sentido, é interessante notar o quanto a configuração familiar de Gregor é balizada, conforme aponta Nunes (2008), pela questão de produção, em que a própria maneira de tratar os personagens, como: mãe, pai e irmã, por vezes, materializam a concepção de repetição desta lógica familiar em outras famílias, daí o tratamento realizado de maneira impessoal, sem o uso de pronomes possessivos. Além disso, reflete uma lógica de mercado capitalista, em que o trabalho era uma mercadoria a ser vendida e, dessa maneira, as pessoas eram tratadas como peças da engrenagem de um grande processo de produção. Claro que tal forma de capitalismo é diferente dos que se estabeleceram posteriormente, de especulação mais intensiva.

5.2.3.1 Gregor Samsa Gregor Samsa é inserido na obra A Metamorfose (2008) de Kafka como um trabalhador que exerce a função de caixeiro-viajante, porém que não gosta de exercê-la. Com isso, podemos perceber o foco de análise e crítica de Kafka em torno da questão do trabalho, afinal a figura de Gregor é sempre visualizada nesta obra como um trabalhador descontente com suas atividades, que as exerce não em função de si, mas em benevolência à sua família. Segundo Kern (2010), a atividade de caixeiro viajante começou a se constituir com a Revolução Industrial, por volta do início do século XIX, em que havia necessidade de pessoas que vendessem os produtos manufaturados em terras distantes. Naquela época os transportes eram rudimentares, bem como as viagens eram longas. É nesse contexto que surgiu a figura do caixeiro-viajante “que atuava como empregado e nesta condição trazia altos encargos e responsabilidades demasiadas à empresa produtora” (KERN, 2010, p.13). Todavia, a figura do caixeiro viajante não perdurou por muito tempo, sendo posteriormente substituída pelo representante comercial. Gregor Samsa, enquanto caixeiro-viajante sofre os males provenientes de sua profissão, o que é visto em pequenos desabafos em diversos trechos da obra A Metamorfose (2008), tais como: Sei bem que ninguém ama o caixeiro-viajante. Sei que pensam que ele fatura rios de dinheiro e ainda por cima leva boa vida. (KAFKA, 2008, p.36)

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(...) o viajante, que passa quase o ano inteiro fora da firma, pode facilmente se tornar vítima de fofocas, fortuidades e queixas desprovidas de sentido, contra as quais se torna impossível que ele se defenda (...) (KAFKA, 2008, p.37).

Todavia, além de caixeiro viajante, o personagem Gregor se mostra na obra em questão enquanto devir-animal, firmando-se como um campo de possibilidades que fogem à lógica do caixeiro-viajante disciplinado e docilizado, que está pontualmente disponível para o exercício de sua função. Com isso, podemos perceber o quanto Gregor é a primeira pessoa de sua família a provocar rupturas à ordem cristalizada de trabalho em que atuava, bem como a ordem instituída em seu lar.

5.2.3.2 O pai

O pai é inicialmente mostrado na obra de Kafka enquanto uma pessoa rígida, cansada de trabalhar, que esperava somente de Gregor a sustentação da família. Todavia, após a metamorfose de Gregor, é possível perceber na figura do Pai rupturas em relação ao seu modo anterior de vida. Como pode ser visto nos trechos abaixo, em que a primeira citação faz referência ao pai antes da metamorfose de Gregor e a segunda, após a metamorfose. Mas o pai, em todo caso, embora fosse um homem saudável, já estava velho, e não trabalhava mais nada há cinco anos; e, seja como for, ele não era capaz de fazer muita coisa; nesses cinco anos, que haviam sido as primeiras férias de sua vida cansativa – e em todo caso fracassada -, ele havia juntado bastante gordura, e por causa dela se tornara absolutamente lerdo. (KAFKA, 2008, p.55) Agora, no entanto, ele estava bastante ereto, vestindo um uniforme azul justo, de botões dourados, como os que os criados do instituto bancário usavam; sobre a gola alta e dura do casaco, destacava-se o forte queixo duplo; sob as sobrancelhas cerradas, os olhos escuros emitiam reflexos vívidos e atentos; o cabelo branco, outrora desgrenhados, estava penteado de um modo penosamente exato e brilhoso, dividido ao meio. (KAFKA, 2008, p.70)

Com isso, podemos referendar o quanto a metamorfose de Gregor, não atingiu somente a ele, mas ocasionou ressonâncias também em seu pai. Tendo, assim, rupturas em seu modo de ser, pensar e agir. Além disso, podemos observar o quanto o pai de Gregor se subjetivou pelas relações de saber-poder de seu local de trabalho, passando a viver e sentir a profissão até mesmo em casa, conforme mostra o trecho abaixo: Devido a uma espécie de teimosia, o pai recusava-se a tirar, também em casa, seu uniforme de funcionário; e enquanto o pijama ficava pendurado, inútil, no armário, o

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pai cochilava, completamente vestido, sobre sua cadeira, como se estivesse sempre pronto ao serviço e também ali apenas esperasse a voz de seu supervisor. (KAFKA, 2008, p.75)

Com isso, é possível observar que o pai de Gregor se constitui enquanto um corpo dócil, haja vista que é capturado por uma disciplina determinada de trabalho. Esse corpo dócil é discutido por Foucault (2008) em Vigiar e Punir quando afirma que a partir do séc. XVIII, a figura do soldado ideal passou a ser fabricado. Em vista disso, podemos dizer que o pai, “empregado ideal do banco”, foi criado, subjetivado segundo essa lógica de produção, tornouse, assim, um corpo docilizado. Enfim, esse novo “soldado” foi fabricado, ou seja, “de uma massa informe, de um corpo inapto, fez-se a máquina de que se precisa; corrigiram-se aos poucos as posturas; lentamente uma coação calculada percorre cada parte do corpo, se assenhoreia dele” (FOUCAULT, 2008, p.117).

5.2.3.3 A mãe

A mãe é tratada na obra A Metamorfose (2008) como alguém debilitada, que era uma “velha mãe”, e por tal motivo ficava impossibilitada de trabalhar. Todavia, após a metamorfose de Gregor, a mãe se prontifica ao trabalho de costura de roupas de baixo. Novamente, visualizamos aí o quanto os personagens se subjetivam em decorrência da nova configuração que se apresenta. Conforme mostra os trechos abaixo: E a velha mãe, então, será que ela deveria ganhar dinheiro, ela que sofria de asma, para quem um simples passeio pela casa já necessitava esforço, sendo que, dia sim dia não, passava o tempo inteiro sobre o sofá, queixando-se de falta de ar, com a janela aberta? (KAFKA, 2008, p.55) a mãe costurava, muito inclinada sob a luz, roupas de baixo para a firma de moda (KAFKA, 2008, p.74)

5.2.3.4 A irmã

Por fim, temos nesta obra de Kafka a figura da irmã de Gregor, que ocupa um lugar de grande importância na trama de A Metamorfose (2008). Posto que é Grete (única personagem que é nomeada nesta obra de Kafka) quem passará a cuidar de Gregor após a sua metamorfose, dando alimento para ele, limpando o seu quarto. Além disso, é esta personagem que exerce a ligação entre Gregor e sua família, como mostra o trecho abaixo: 30


Mas a irmã lamentavelmente tinha outra opinião; ela havia se habituado - de qualquer forma não sem ter direitos para tanto - a se apresentar diante dos pais como perita em todas as questões relacionadas a Gregor. (KAFKA, 2008, p.63)

Devido a essas atividades de grande responsabilidade que Grete passa a exercer, após a metamorfose de Gregor, podemos notar o quanto esta personagem se subjetiva pelas relações de saber-poder nas quais está imersa. E com isso, Grete se mostra de outra forma ao mundo, modificando assim seu modo de visualizar a organização de sua casa, bem como sobre questões que norteiam o seu trabalho. De um modo geral, como visto, todos os personagens acabam sofrendo metamorfoses no que tange aos seus modos de visualizar a questão do trabalho. Afirmação esta que pode ser feita ao notarmos que antes da metamorfose de Gregor, todos estavam subjetivados pela lógica de que somente este caixeiro viajante era o provedor da família, enquanto que, após sua metamorfose, o Pai, Mãe e Irmã acabaram por adentrar nos processos de trabalho, objetivando a sustentação da família. A este respeito, podemos visualizar os trechos abaixo: Agora, pois a irmã também tinha de, junto com a mãe, cozinhar; em todo caso aquilo não exigia muito esforço, pois não comiam quase nada. (KAFKA, 2008, p.51) (...) a mãe costurava, muito inclinada sob a luz, roupas de baixo para a firma de moda; a irmã, que havia aceito um emprego como vendedora, estudava estenografia e francês à noite, a fim de talvez conseguir um emprego melhor mais tarde. (KAFKA, 2008, p.74) O que o mundo exigia de pessoas pobres, eles cumpriam ao extremo; o pai levava o café da manhã aos pequenos funcionários do banco, a mãe se sacrificava pelas roupas de pessoas estranhas, a irmã andava segundo as ordens dos fregueses para lá e para cá atrás do balcão. (KAFKA, 2008, p.77)

Diante disso, podemos observar o quanto o trabalho é um elemento norteador da estória de A Metamorfose (2008) de Franz Kafka. Em que as pessoas são tratadas pelas atividades que executam. Isso pode ser visto claramente após a metamorfose de Gregor, em que ele foi tratado literalmente como um inseto, devido a sua “inutilidade” ao trabalho. Nestes termos, podemos dizer que Kafka, através de A Metamorfose (2008) instaura uma crítica social em torno do trabalho e de suas consequências para o ser humano, trabalho este que é sempre permeado por relações de saber-poder que subjetivam o indivíduo no trabalhador ideal. Deste modo, com o intuito de melhor explorar este processo de constituição do trabalhador por sua organização do trabalho, o capítulo a seguir irá refletir sobre esta questão, bem como problematizar algumas séries discursivas que materializam esta problemática, presente na estória de Gregor Samsa. 31


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CAPÍTULO II – A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO ENQUANTO DISPOSITIVO DE SUBJETIVAÇÃO DE GREGOR EM CORPO DÓCIL

6.2

O TRABALHO ENQUANTO DISPOSITIVO DE SUBJETIVAÇÃO

Silva et al. (s.d) afirma que a expressão trabalho ocupou diferentes significados no decorrer da história, tendo por vezes uma concepção de castigo, em que sua derivação Romana de tripalium remetia ao significado de condenação. Logo em seguida, o trabalho foi conceituado de Laboren, em que era concebido como cultivo, crescimento e transformação. Atualmente o trabalho é visualizado de forma peculiar e de múltiplos modos. Sendo que para Codo (1997, apud SILVA et al., s.d, p.2), por exemplo, o trabalho é “uma relação de dupla transformação entre o homem e a natureza”. Enquanto que para Arvey et al. (1998, apud SILVA et al., s.d), o trabalho é o elemento constituinte do ser humano que o diferencia e o singulariza. Deste modo, para estes autores, o trabalho é posto como elemento básico das relações sociais que o indivíduo está imerso. Como visto, o trabalho sempre ocupou um lugar de destaque na vida do ser humano, afinal é deste trabalho que o ser humano retira a sua sobrevivência, sendo assim central na sua vida. Em vista disso, o trabalho se apresenta socialmente tal qual “uma condição de existência do homem, independentemente de todas as formas de sociedade, eterna necessidade natural de mediação do metabolismo entre homem e natureza e, portanto, da vida humana” (MARX, 1985, apud BATISTA & GUIMARÃES, 2009, p.128). Todavia, mesmo com tais olhares e perspectivas de observar o trabalho, enquanto constituinte da subsistência do ser humano, torna-se pertinente analisar esta problemática, conforme apontam Batista e Guimarães (2009), para além de suas repercussões econômicas. Afinal, o trabalho é também um dispositivo que pode docilizar os corpos, subjetivando-os segundo uma lógica do capital. Contudo, as organizações de trabalho também possibilitam a invenção e a resistência frente ao exercício de poder, pois a resistência se dá em meio às lutas. Assim sendo, podemos afirmar que o trabalho é um mecanismo de atuação de relações de poder dinâmicas e de resistência concomitantemente (BATISTA & GUIMARÃES, 2009). Além disso, neste escopo de análise, podemos afirmar que a gestão do trabalho se configura como estratégia de poder que obteve inserção na sociedade de forma concomitante à Revolução Industrial. Ocorrendo assim, positividades nas relações de poder, como: a criação 32


de saber, a proteção e sistemas de seguridade, a formação de subjetividade e a constituição de modos de viver. Em vista disso, a preparação ao trabalho para o ser humano é presente desde o espaço escolar, onde as crianças são preparadas sob uma disciplina que as insere na estrutura do trabalho. Em decorrência disso, a escola compõe um conjunto de atividades que atravessam o corpo da criança, subjetivando-a segundo uma lógica da produção. Essas atividades consistem em “exercícios repetitivos, o tempo de aulas estabelecido, o intervalo vigiado pelos inspetores, a correção postural, a submissão à figura de autoridade do professor, a obediência às tarefas através do controle dos cadernos e da frequência individual, etc.” (VIEIRA, 2008, p.4). Com isso, percebemos que o ser humano é esquadrinhado e docilicizado desde criança. Em que a sociedade, através dos mecanismos de disciplina anátomo-políticos, extrai o máximo de força e eficácia de seus movimentos, haja vista que é um corpo “que se manipula, se modela, se treina, que obedece, responde, se torna hábil ou cujas forças se multiplicam”. (FOUCAULT, 2008) Concomitante a essa disciplina anátomo-política do corpo humano, podemos observar na atualidade a Biopolítica, que se constitui enquanto o novo governo de gestão da vida. Aqui, não interessa o governo da vida em sua individualidade, mas enquanto corpo social constituído. Afinal, essa nova gestão da vida surge de uma necessidade decorrente do crescimento populacional, em que se tornava oneroso ao Estado o controle corpo a corpo de cada indivíduo. Todavia, é importante destacar que estamos em uma sociedade de biopoder, deste modo, as disciplinas anátomo-políticas do corpo humano, que são preponderantes das sociedades disciplinares do séc. XVII, ainda continuam vigentes em nossa sociedade atual. Posto que tais mecanismos de docilização dos corpos não se excluem, mas convivem mutuamente (FOUCAULT, 1988). Na sociedade do biopoder, encontramos também peculiaridades no que tange ao controle dos corpos. Afinal, conforme nos mostra Deleuze (1992), vivemos numa sociedade de controle, deste modo, o controle sobre os corpos se efetua através de uma fluidez a céu aberto, em que a auto-disciplina é central enquanto modo de gestão da vida. Com isso, o controle dos corpos na atualidade está pautado, conforme aponta Neves (1997, p.84): em modelos fluidos de dominação, de auto-controle, auto-vigilância e na intensificação da produção de homens e trabalho mercadorias. A força de trabalho está exposta e a disposição, juntamente com a matéria-prima e os instrumentos de trabalho, nas vitrines em crescente expansão do capital.

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Em vista disso, as relações de saber-poder do trabalho, tanto das disciplinas anátomopolíticas, quanto da biopolítica, presentes em nossa sociedade de controle, penetram os indivíduos na malha social, subjetivando-os, criando modos de ser, pensar e agir. A este respeito, Barros (2002) norteia sua análise tendo como base a noção de que as relações de trabalho estão intrinsecamente relacionadas com os processos de subjetivação. Haja vista que a subjetividade não se constitui enquanto uma característica inata ao ser humano, mas, ao contrário disto, é um elemento que está por se fazer, por se constituir. Neste sentido, Barros (2002) vem mostrar que, para Marx, o modo de produção capitalista não se restringiu à produção de produtos materiais, mas que em torno desse processo estão incluídas, para que essa produção se efetuasse, as relações de produção e as relações sociais. As relações de produção constituem-se enquanto base para a produção dos produtos, ao passo que as relações sociais são imanentes ao processo produtivo, pois são constituintes das relações que são estabelecidas entre os indivíduos e os produtos produzidos. Com isso, podemos observar uma relação intrínseca entre o trabalhador e o fruto de seu trabalho: a produção, ocasionando assim modos de subjetivação. Em vista disso, podemos concluir, conforme afirma Barros (2002, p.61), que “o trabalho nos produz e nos transforma”. Neste sentido, constituímo-nos pelo trabalho através do processo de subjetivação disparado por este, e, conforme proposto por Deleuze (1992), esta subjetivação se dá através da dobra das linhas de força de relações de saber-poder que nos atravessam. Deste modo, o trabalhador deixa que tais linhas de força o afetem, potencializando seus modos de ser frente ao mundo. Em vista disso, podemos afirmar que o trabalhador se constitui enquanto um corpo que pode se tornar facilmente dócil às lógicas do capital, na medida em que se subjetiva pelas malhas de poder que tentam submetê-lo. Assim, o processo de trabalho insere o trabalhador em uma maquinaria de poder que esquadrinha seu corpo em uma lógica disciplinar, conforme expõe Foucault (2008, p. 119): A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos „dóceis‟. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência). Em uma palavra: ela dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado uma „aptidão‟, uma „capacidade‟ que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potencia que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita.

Todavia, mesmo com tal poder disciplinar, a partir do momento que refletimos sobre estas relações de saber-poder que nos atingem e nos subjetivam, podemos resistir, constituindo assim novas formas de vida. Afinal, é somente desta forma que estabelecemos 34


outra estética da existência, formas estas que rompam com a ordem vigente, que são dependentes de agenciamentos disparados no contexto desse trabalho (BARROS, 2002). Em vista disso, notamos o quanto a disciplina e a docilização dos corpos dos trabalhadores apresentam limites, haja vista que conforme propõe Foucault (1988), onde há poder, existe possibilidade de resistência. Deste modo, o trabalhador pode resistir de múltiplas formas às relações de saber-poder que o atravessam e que o desqualificam enquanto trabalhador. Podemos observar tais questões ao analisarmos o personagem Gregor em A Metamorfose (2008). Pois, por mais que a Instituição que Gregor trabalha tente padronizar sua conduta, tentando fazer dele um funcionário exemplar e disciplinado, em determinado momento Gregor irá fugir a essa ordem instituída. Por exemplo, pode ficar doente e ficar impossibilitado de trabalhar, seu corpo assim irá resistir. Nesse sentido, a própria metamorfose de Gregor é clarificadora quanto a esta questão de resistência ao poder. De um modo geral, como exposto, na sociedade o trabalho se constituiu enquanto um mecanismo disparador de relações de saber-poder que atravessam os corpos dos trabalhadores subjetivando-os, moldando-os em lógicas de como se comportar, de como agir, etc. Todavia, mesmo nessas relações de poder institucionalizadas no local de trabalho, o trabalhador encontra sempre uma possibilidade de resistir e encontrar um ponto de fuga, um respirar. Haja vista que o poder nunca é total, sempre há possibilidades de o trabalhador se constituir enquanto esse devir, ou seja, como multiplicidade. Todavia, antes da análise do devir-animal de Gregor, visualizamos a necessidade de uma explanação no que concerne aos mecanismos de disciplina do corpo de Gregor, configurado, a partir disso, como corpo dócil. Para tanto, para tal análise, Michel Foucault e suas pistas de problematização nos ajudam nesta empreitada, conforme mostra o subcapítulo a seguir. 6.3

A SUBJETIVAÇÃO DE GREGOR EM UM CORPO DÓCIL

A obra A Metamorfose (2008) de Franz Kafka é composta por diversas séries discursivas que se destacam: as relações de saber-poder presentes no trabalho de Gregor; o controle e docilização do corpo de Gregor; o controle sobre o tempo; a vigilância hierárquica; modos de vida decorrentes do trabalho; e por fim, mostra a questão do trabalho como mecanismo de subsistência x satisfação. 35


É importante destacar que a análise desses elementos constituintes de saber-podersubjetivação, presentes na obra de Kafka, não será realizada através da busca do sentido oculto, ou o sentido por traz das palavras. Mas ao contrário disso, Foucault (1998) nos diz que o discurso se dá em sua materialidade, nas coisas ditas. Deste modo, observar a materialidade dos discursos presentes na obra A Metamorfose (2008), é olhar e refletir de frente sobre o modo de vida de Gregor em relação a sua organização de trabalho, bem como de sua organização familiar. As séries discursivas que compõem esta análise estão implicadas a uma gestão da vida, tanto ao nível de uma anátomo-política do corpo humano, quanto em uma biopolítica da população. Conforme aponta Reis (2009), o advento da biopolítica não exclui os processos de disciplina dos corpos, mas ambos os processos estão entrelaçados e são dependentes em muitos pontos, visto que o governo da população também é dependente da disciplina individual dos corpos. A disciplina do corpo, visualizado enquanto máquina é caracteriza por Foucault (1988) como disciplinas “anátomo-política do corpo humano”. E, no século XVIII, teve início uma “biopolítica da população”, em que a disciplina e o controle passaram a ser postos à população. Deste modo, a população passou a ser regulada, havendo uma preocupação com alguns elementos, como: “a proliferação, os nascimentos e a mortalidade, o nível de saúde, a duração de vida, a longevidade” (FOUCAULT, 1988, p. 152). Essa gestão da vida começou a se configurar com o fim da Sociedade Soberana, em que o velho direito de causar a morte e deixar viver, que foi preponderante nessas sociedades, passou a ser substituído por causar a vida ou devolver à morte, características essas das sociedades a partir do séc. XVII. Deste modo, a época clássica foi marcada por esse processo de gestão da vida, biopoder, que teve dois mecanismos paralelos de desenvolvimento que foram: a disciplina do corpo e a biopolítica (FOUCAULT, 1988). Assim, analisar as relações de saber-poder constituintes do âmbito de trabalho de Gregor é analisar uma gestão da vida tanto a nível anátomo-político do corpo de Gregor, quanto um controle que advém de uma biopolítica da população, que o atinge e o disciplina em um trabalhador padrão. Com isso, através de Gregor podemos refletir sobre nossas organizações de trabalho que nos subjetivam a todo instante. Nesse sentido, podemos problematizar, logo em seguida, a primeira série discursiva que compõe esta obra em questão.

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6.3.3 Relação de saber-poder na organização de trabalho de Gregor

No decorrer de toda a obra A Metamorfose (2008) é possível analisar o quanto as relações de poder estão imersas na família e no trabalho de Gregor. Este poder não advém de um lugar específico, haja vista que ele não é uma essência, mas está presente na vida de Gregor enquanto uma microfísica do poder. Sendo o poder uma microfísica, ele se constitui enquanto relações de força, conforme aponta Deleuze (2005). Além disso, o autor explicita que o poder não está constituído como forma, através do Estado, por exemplo, já que não há a existência da força em sua singularidade, mas ela se mostra num emaranhado com outras forças, ou seja, “força já é relação, isto é, poder”. (DELEUZE, 2005, p. 78). Deste modo, afirmar que Gregor está imerso em relações de poder, é afirmar que o poder no qual está inserido é advindo de diversos lugares, de diversos pontos, ou seja, “de um ponto a outro no interior de um campo de forças; marcando inflexões, retrocessos, retornos, giros, mudanças de direção, resistências. É por isso que elas não são localizáveis numa instância ou noutra”. (DELEUZE, 2005, p. 81). Em decorrência da problematização dessas relações de poder, Valverde (1997) trata Foucault como um “maquiavélico do poder”, pois da mesma forma que Maquiavel distinguiu o poder da moral, Foucault, por sua vez, propõe a retirada do poder enquanto essência de posse do Estado. É assim que, através da genealogia, Foucault “historiciza o poder, na medida em que ele se realiza numa história genealógica, afastando-se, na ordem do privilégio, da sua concepção jurídica” (VALVERDE, 1997, p.153). Em vista disso, segundo Valverde (1997), existem duas questões centrais das análises de Foucault, são elas a questão da verdade e a questão do poder. Sobre a primeira, a questão da verdade, não é analisada enquanto ciência ou ideologia, mas sim como uma produção de verdade que tem efeito de poder. Sobre a questão do poder, por seu turno, não é analisada sob uma teoria do poder, mas sim como uma analítica do poder (VALVERDE, 1997). Pois, “a análise em termos de poder não deve postular, como dados iniciais, a soberania do Estado, a forma da lei ou a unidade global de uma dominação; estas são apenas e, antes de mais nada, suas formas terminais”(FOUCAULT, 1988, p.102) Com isso, a analítica de poder para Foucault abala com as análises até então existentes sobre o poder, como centralizado no Estado e emanado deste. Afinal, como destaca Maia

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(1995), esta visão das relações de poder enquanto controladas pelo Direito é, por vezes, limitada e insuficiente no que tange a abrangência da dinâmica das relações de poder. Ao fazer tal analítica do poder, isto não significa que para Foucault o papel do Estado não seja considerado, ou não seja importante, posto que as relações de poder também se dão fora do aparelho do Estado. Além disso, este carece de uma estrutura necessária para o controle geral das relações de poder existentes na sociedade, assim como “o Estado apenas pode operar com base em outras relações de poder já existentes. O Estado é a superestrutura em relação a toda uma série de redes de poder que investem no corpo, sexualidade, família, parentesco, conhecimento, tecnologia e etc.” (FOUCAULT, 1980 apud MAIA, 1995, p. 88). Nestes termos, Michel Foucault, através de sua analítica do poder, irá deslocar o papel do Estado enquanto centralizador e controlador de poder. Afinal, em qualquer aglomerado de pessoas existem relações de poder, visto que “a existência deste tipo de relação é coexistente à vida social” (MAIA, 1995 p.87). Com isso, conforme destaca Maia (1995), com o surgimento do Estado Nacional o papel do Estado passa a ser reconfigurado. A partir de então, o Estado Nacional não será o centro que emanará as relações de poder, mas capturará os focos de poder, todavia isso não implica dizer que tais relações de poder são determinadas pelo Estado, mas preexiste a ele. Deste modo, as relações de saber-poder que configuram a vida de trabalho de Gregor não são postas na obra A Metamorfose (2008) enquanto linhas de força originárias diretamente do Estado. Mas, linhas de força que trazem elementos de práticas heterogêneas e vizinhas que têm ressonâncias em diversos pontos da malha social, como o próprio Estado e a família. Nos trechos abaixo é possível notar tal questão, de como as relações de poder-saber advindas da organização de trabalho de Gregor são perpetuadas no âmbito familiar. Nelas encontrando ressonância através da família de Gregor, que permite a entrada do gerente para questionar ao caixeiro-viajante os motivos porque não foi ao trabalho. Com isso, visualizamos o quanto a organização de trabalho se insere no espaço familiar e desqualifica o trabalhador Gregor. Esta questão pode ser melhor visualizada abaixo, através da fala do gerente deste caixeiro viajante: -Senhor Samsa - chamava agora o gerente, erguendo a voz - ,o que é que está acontecendo? O senhor se esconde na barricada de seu quarto , responde apenas com sins e nãos, acomete seus pais com preocupações desnecessárias e pesadas e deixa de lado- e menciono isso apenas de passagem - suas obrigações na firma de uma maneira que só posso creditar como inaudita. Eu falo aqui em nome de seus pais e

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de seu chefe e peço-lhe, com toda a seriedade, uma explicação clara e imediata. (KAFKA, 2008, p.28)

Além disso, é importante frisar que Gregor não está em condição passiva frente às linhas de força que o atravessam, pois, conforme aponta Deleuze (2005, p.79), “o poder de ser afetado é como uma matéria da força, e o poder de afetar é como uma função da força”. Ou seja, as relações de força permitem tanto ser afetado pela força, quanto afetar outras forças. Como as relações de saber-poder permitem tanto a afetação de outras forças, quanto ser afetado é possível que Gregor resista diante de tal relação de poder constituída. Porém, devido às necessidades da família, Gregor acaba por se submeter a tal lógica de relação de poder, que por vezes o homogeneíza e silencia potências de singularidade. O trecho abaixo de A Metamorfose (2008) materializa tal questão: ele teria de cair da escrivaninha! É um jeito bem peculiar o ele, de sentar-se sobre a escrivaninha e falar do alto a baixo com seu empregado, que além do mais tem de se aproximar bastante por causa das dificuldades auditivas do chefe. (KAFKA, 2008, p.16)

Deste modo, como visto, as relações de saber-poder são elementos pertencentes às práticas de trabalho de Gregor. Afinal, conforme nos propõe Foucault (1988), não existe espaço sem relações de poder, com isso, na vida de Gregor não é diferente. Este caixeiro viajante é atravessado por tais linhas de força, bem como subjetivado por estas. Além disso, estas linhas de forças não advém de um ponto fixo, como problematizado anteriormente, mas são emaranhados de força decorrentes de diversos lugares. Com isso, objetivando aprofundar tais questões, em seguida é problematizado sobre a série discursiva “controle e docilização do corpo de Gregor”, que é uma importante análise para a compreensão da subjetivação de Gregor. 6.3.4 Controle e docilização do corpo de Gregor Conforme aponta Foucault (2008), o corpo foi descoberto na época clássica como alvo de poder, corpo este que “se manipula, se modela, se treina, que obedece, responde, se torna hábil ou cujas forças se multiplicam” (FOUCAULT, 2008, p. 117). Deste modo, o soldado não era mais o que se reconhecia de longe, mas passou a ser fabricado, conforme afirma Foucault (2008, p. 117): segunda metade do século XVIII: o soldado tornou-se algo que se fabrica; de uma massa informe, de um corpo inapto, fez-se a máquina de se precisa; corrigiram-se

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aos poucos as posturas; lentamente uma coação calculada percorre cada parte do corpo, se assenhoreia dele, dobra o conjunto, torna-o perpetuamente disponível

Em vista disso, podemos dizer que o corpo de Gregor, enquanto caixeiro viajante, pode ser fabricado, controlado e docilizado, segundo a rapidez e a eficácia que se espera dele. Para Foucault, o corpo dócil se caracteriza como sendo um corpo “que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado” (FOUCAULT, 2008, p. 118) Deste modo, afirmar que o corpo do trabalhador Gregor sofreu e tentou fugir à docilização é evidenciar o quanto ele era alvo de práticas de submissão política como caixeiro viajante, tendo que viajar continuamente, em determinados horários, pegando diversos trens durante o dia, etc. Ou seja, Gregor é docilizado a ser um caixeiro-viajante eficaz, com isso, podemos notar a tentativa, de sua organização, de extrair o máximo de força de seu trabalho. Tal questão é elucidada no trecho seguinte, quando o gerente da empresa se dirige à Gregor: seu desempenho nos últimos tempos tem sido bastante insatisfatório; embora não estejamos na temporada de fazer grandes negócios, e isso nós reconhecemos, uma temporada em que não se fecha nenhum negócio não existe, senhor Samsa, não pode existir (KAFKA, 2008, p.28)

Isso se dá, pois a docilidade está diretamente relacionada à utilidade, conforme aponta Foucault (2008), o qual afirma ainda que a docilidade é atingida através da disciplina. Deste modo, a disciplina, conforme aponta Foucault (2008, p. 119), é “uma arte do corpo humano que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente”. Com isso, podemos notar que a organização de trabalho de Gregor se configura como uma maquinaria de poder, na qual Gregor entra e é disciplinado enquanto caixeiro-viajante. Sendo assim docilizado conforme as disciplinas provenientes de sua organização de trabalho, passando a atuar sob uma rapidez e a eficácia que desejam dele. Em vista disso, a pequena ausência de Gregor ao trabalho é rapidamente percebida e controlada pelos seus chefes como se caracterizando uma indisciplina. Com isso, notamos que a docilização do corpo de Gregor, configurou-o enquanto corpo máquina a ser controlado. Podemos visualizar esta questão no trecho a seguir: Acreditava que o senhor fosse um homem tranquilo e razoável, e eis que de repente parece querer começar a mostrar caprichos dos mais estranhos. O chefe até insinuou uma possível explicação para sua omissão, hoje pela manhã- e ela tinha a ver com os pagamentos à vista que lhe foram confiados há poucos dias-, mas eu, de verdade,

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quase empenhei minha palavra de honra no sentido de que essa explicação não poderia ser correta. Mas eis que agora vejo sua incompreensível teimosia e perco toda e qualquer espécie de vontade de me bater, o mais mínimo que seja, pelo senhor. E seu emprego não é, de maneira nenhuma, o mais garantido. No princípio, tinha a intenção de lhe dizer tudo isso a sós, mas uma vez que o senhor parece nem se importar como o fato de que eu esteja aqui perdendo o meu tempo, não sei mais porque seus pais também não deveriam ficar sabendo de tudo. (KAFKA, 2008, p.28)

Como visto, podemos observar o quanto a organização de trabalho de Gregor está presente, de forma intensa, em seu espaço familiar, esquadrinhando-o, docilizando-o. Isso decorre de um regime capitalista que, segundo Gomes et.al. em Moura e Lima (2009), propiciou uma dominação do homem, sob diversos aspectos, seja: físico, fisiológico, temporal, espacial, no âmbito da vontade, dos desejos para enquadrá-los em uma lógica da produção. Sobre tal questão, Nunes (2008), ainda acrescenta que o capitalismo foi no séc. XX um docilizador de corpos, em que toda a família era convocada a docilizar os corpos conforme um ideal de família burguesa. Como afirma Nunes (2008, p.147): a canalização de todas as forças humanas para o crescimento do capital, o ideal da poupança na família burguesa, a vinculação da identidade dos sujeitos à propriedade privada, a exploração no trabalho, o medo do desemprego e da conseqüente miséria ilustram aspectos importantes da banalização do absurdo cotidiano discutido nas análises críticas de Kafka à luz da história

A materialização de tal questão é vigente ao analisamos o enredo que compõe A Metamorfose (2008), onde podemos perceber que não somente Gregor, mas toda sua família estão envolvidos nessa lógica de produção capitalista, compactuando assim com as práticas de saber-poder das organizações de trabalho que atravessam seus corpos e os subjetivam. Além disso, também é perpetuado neste âmbito familiar o controle sobre o tempo, como podemos visualizar na discussão que segue.

6.3.5 Controle sobre o tempo Conforme aponta Foucault (2008), a disciplina atua segundo o controle da atividade, que é realizado através de um minucioso controle sobre o tempo. Pois é importante à disciplina que haja “anulação de tudo o que possa perturbar e distrair; trata-se de constituir um tempo integralmente útil” (FOUCAULT, 2008, p.128). Deste modo, quando se refere ao âmbito das organizações de trabalho é objetivo das disciplinas, extrair o máximo de força dentro do tempo disponível em que o trabalhador realiza as suas atividades.

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É interessante notar que este controle sobre o tempo é severamente seguido por Gregor, pois durante toda a estória, é possível notar o quanto a questão do horário, ou seja, o controle sobre o tempo é um elemento constituinte de sua organização de trabalho. Este tempo é uma relação de saber-poder que atravessa o corpo de Gregor e o molda enquanto esse trabalhador pontual, que não costuma chegar tarde ao trabalho, bem como extrai do corpo de Gregor a maior quantidade de força possível, como mostra os trechos abaixo: Por enquanto, em todo caso, tenho de levantar, pois meu trem sai às cinco. (KAFKA, 2008, p.16) e olhou até onde estava o despertador, que tiquetaqueava sobre o armário. „Pai do céu‟, pensou. Eram seis e meia e os ponteiros seguiam adiante, tranqüilos (KAFKA, 2008, p.16) O próximo trem saía às sete horas; para conseguir pegá-lo teria de se apresentar como louco (...). (KAFKA, 2008, p.17) -Gregor - alguém chamou; era sua mãe-, já são quinze para as sete. Não querias ter partido há essa hora? (KAFKA, 2008, p.18) Antes de soar sete e quinze, tenho de ter deixado a cama por completo e sem falta. Ademais, até lá já terá vindo alguém da firma para perguntar por mim, porque a firma é aberta antes das sete horas. (KAFKA, 2008, p.22) Assim que o relógio batia as dez, a mãe procurava despertar o pai por meio de invocações baixinhas, para depois convencê-lo a ir para a cama, pois ali com certeza não teria um sono direito, e este era bem cedo, às seis horas, em seu emprego. (KAFKA, 2008, p.75)

Além disso, é importante destacar que essas relações de saber-poder, no que tange a questão do controle sobre o tempo, não atingem somente à Gregor, mas também toda a sua família. Pois como pode ser visualizado, a vigilância, ante o atraso de Gregor, denota-se no momento em que os familiares exigem-lhe explicações à porta de seu quarto, como já explicitado anteriormente. Deste modo, não somente Gregor se auto-controla, mas também a sua família o dociliza, reproduzindo assim a lógica de produção, em que extrai-se o máximo de qualidade sobre o tempo. Com isso, conforme aponta Foucault (1988, p.111): [...] o pai não é o „representante‟ na família, do soberano, ou do Estado; e os dois últimos não são, absolutamente, projeções do pai em outra escala. A família não reproduz a sociedade; e esta, em troca, não imita aquela. Mas o dispositivo familiar, no que tinha precisamente de insular e de heteromorfo com relação aos outros mecanismos de poder pôde servir de suporte às grandes „manobras‟ pelo controle malthusiano da natalidade, pelas incitações populacionistas, pela medicalização do sexo e a psiquiatrização de suas formas não genitais.

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Esse controle sobre o tempo é estratégico às organizações de trabalho, haja vista que interessa ao empregador que o tempo investido sobre o trabalhador seja retornado às organizações com o máximo de força e qualidade. Ou seja, “o tempo medido e pago deve ser também um tempo sem impurezas nem defeito, um tempo de boa qualidade, e durante todo o seu transcurso o corpo deve ficar aplicado ao seu exercício.” (FOUCAULT, 2008, p.129) Além disso, para que haja um controle sobre o tempo do trabalhador, é necessário a prática da vigilância hierárquica nas organizações de trabalho. Buscando observar e, principalmente, vigiar as atividades dos trabalhadores. Deste modo, para melhor explicitar tal questão, podemos refletir sobre a série discursiva que segue.

6.3.6 Vigilância hierárquica A vigilância hierárquica é um mecanismo disciplinar que objetiva o controle dos corpos, sendo que esta vigilância não advém de um único lugar, mas de vários pontos da malha social. Podemos observar tal questão na estória de A Metamorfose (2008), em que o processo de vigilância não advém somente da organização de trabalho de Gregor, mas se estende a toda sua família. Como visto, a vigilância hierárquica é outro dispositivo de disciplina que pode ser analisado na obra A Metamorfose (2008), onde Gregor se vê imerso em um espaço de intensa vigilância de seus atos, seus modos de agir, suas decisões. Enfim, todas as atitudes deste caixeiro viajante são vigiadas pela sua organização de trabalho e por seus familiares. Isto está implicado com o processo de medicalização da sociedade, o qual, segundo Marques (2009), tinha no seio da família a sua principal representação. Marques (2009) afirma ainda que, esse processo de medicalização da sociedade ocorre quando a família passa a ser responsável pela vigilância e controle disciplinar dentro de seu ambiente familiar. Com isso, é possível entender e refletir sobre os processos de controle e disciplina que estão imersos na obra A Metamorfose (2008), em que a vigilância sobre Gregor advém tanto de seu trabalho, quanto de sua família. Isso se deve, pois na sociedade disciplinar, da qual Gregor faz parte, o poder se apresenta distribuído na malha social, em que as instituições compõem um emaranhado de relações de forças que se perpetuam por toda a sociedade. Diferentemente deste tipo de sociedade, Valverde (1997) aponta que, nas sociedades soberanas, em contraposição, não há eliminação da lei, mas sua centralidade, exercida pelo poder soberano, características estas da sociedade soberana, ou jurídica. Esta sociedade tem por foco de atenção o soberano, deste 43


modo todos os súditos eram observadores dele. Enquanto que na sociedade da disciplina, ou normativa, é a população quem ganha destaque, foco de luz, como expõe Valverde (1997, p.147): Com as disciplinas é toda uma objetivação do indivíduo, toda uma visibilidade do indivíduo, toda uma luminosidade do indivíduo que ocupa o centro do palco da norma, e não mais a ostentação luminosa do poder do soberano, expresso no sistema jurídico de enunciação da regra.

Deste modo, a vigilância hierárquica se instalou na sociedade enquanto um mecanismo de controle advindo da medicalização da sociedade. Todavia, é importante destacar que esse processo não se originou ao acaso, e sim de uma estratégia de poder que buscava uma discrição da vigilância, objetivando não “pesar como uma massa inerte sobre a atividade a disciplinar e não ser para ela um freio ou um obstáculo” (FOUCAULT, 2008, p.146). A vigilância hierárquica, por conseguinte, distribui-se em diversificadas etapas de controle de vigilância. No caso de Gregor, a sua família controla de forma mais direta as suas atividades-tempo, depois outra vigilância atua, sendo advinda da sua organização de trabalho. Além disso, dentro dessas vigilâncias existem outras diversas. Com isso, podemos observar a formação de uma grande pirâmide de vigilância hierárquica, conforme visto no trecho abaixo: E ainda que conseguisse pegar o trem, uma trovoada do chefe já não poderia mais ser evitada, pois o contínuo da firma havia esperado por ele no trem das cinco e o anúncio de sua falta já devia ter sido relatado há tempo. (KAFKA, 2008, p.17)

Sendo assim, como visto, Gregor é vigiado e controlado continuamente em todos os espaços que ocupa. Em sua organização de trabalho, a vigilância é distribuída de modo contínuo e hierárquico até chegar à figura do “chefe”. Com isso, o poder desta vigilância constante se torna indiscreto, pois está presente em todos os lugares, em toda a malha social, funcionando como uma grande cadeia de vigilância. O trecho abaixo elucida essa questão, em que a menor ausência de Gregor à sua organização de trabalho, é imediatamente percebida e notificada à mesma. Por que apenas Gregor era condenado a trabalhar numa firma na qual, pela menor das omissões, levantava-se logo a maior das suspeitas? Será que todos os funcionários sem tirar nem pôr nenhum, eram vagabundos? Não havia entre eles nenhum homem leal e dedicado que, embora deixando de aproveitar algumas horas da manhã em favor da firma, tenha ficado louco de remorso e francamente incapaz de abandonar a cama? (KAFKA, 2008, p.24)

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Esta vigilância constante à Gregor que tudo visualiza e nada escapa ao controle é o exercício do panoptismo, configurado como dispositivo de controle disciplinar que está muito presente em nosso dia a dia. O panoptismo tem como referência o Panóptico de Bentham, que se configura como uma estrutura que permite uma extrema vigilância dos comportamentos, pois age com o objetivo de “reformar a moral, revigorar a indústria, difundir a instrução, aliviar os encargos públicos, estabelecer a economia como que sobre um rochedo, desfazer, em vez de cortar, o nó górdio das leis sobre os pobres, tudo isso com uma simples idéia arquitetural”. (FOUCAULT, 2008, p.171) Em vista disso, podemos visualizar o quanto o panoptismo está imerso na vida de Gregor enquanto prática de poder, que afirma uma vigilância constante das atividades deste caixeiro viajante. Com isso, através deste panoptismo, Gregor é constantemente vigiado e controlado a viver determinados modos de ser, que perpetuam as práticas de relações de saber-poder de sua organização de trabalho, conforme discutido a seguir.

6.3.7 Modos de vida decorrentes do trabalho Os modos de organização do trabalho, enquanto constituídos de relações de saberpoder, subjetivam o corpo do trabalhador através de linhas de força. Com isso, o trabalhador é atingido por tais linhas de força, ocasionando assim dobraduras nas mesmas, deixando-se afetar, modificando assim seu modo de agir diante da vida. Esse processo de subjetivação pelo trabalho também ocorre com personagem Gregor em sua atividade de caixeiro viajante. Em que nesta obra de Kafka, o protagonista é mostrado somente como o trabalhador, ou seja, é como se não existissem outras características de Gregor fora as que compõem a atividade de caixeiro viajante. Tal questão, que pode ser visualizada nos trechos abaixo, coloca-nos inúmeras problematizações em torno do processo de subjetivação pelo trabalho. Gregor, todavia, nem cogitava abrir a porta; louvou, muito antes, a precaução adotada através do hábito de viajar, que o fazia deixar trancadas, também em casa, todas as portas durante a noite. (KAFKA, 2008, p.19) O rapaz não tem outra na cabeça a não ser a firma. Eu até quase me irrito porque ele não sai nunca a noite, há pouco mesmo ele esteve oito dias na cidade, mas à noite voltava sempre para casa. Aí então fica sentado conosco à mesa e lê o jornal em silêncio ou estuda planos de viagem, analisando horários de trem. (KAFKA, 2008, p.25)

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Em vista disso, é interessante observar o ponto de vista de Durand (2000, apud MOURA & LIMA, 2009), quando afirma que as organizações exigem que o trabalhador vista a “camisa da empresa”. Todavia, para Moura e Lima (2009), este ato está implicado em uma agressão que o trabalhador realizará a si, pois muitas vezes abrirá mão de sua subjetividade em prol de sua atividade de trabalho. Ocorre assim, na expressão destes autores, uma “nudez subjetiva”, haja vista que o trabalhador suprime “as diferenças, as vontades, os gostos e desejos, ou seja, pretende descolar dos trabalhadores aquilo que os constitui e os liga em uma sociedade de humanos” (MOURA & LIMA, 2009, p. 42). No entanto, mesmo com tal prerrogativa anteriormente dita, é notório o quanto as relações de saber-poder, constituintes das organizações de trabalho, subjetivam o trabalhador. Com isso, este é docilizado segundo uma lógica da produção, que por vezes desqualifica a singularidade deste trabalhador. Ou seja, isso demonstra o quanto este trabalhador não é destituído de subjetividade, afinal, sempre estamos sendo subjetivados por relações de saberpoder que nos atravessam, pois, é imanente ao poder a questão da positividade, pois que este “incita, suscita e produz” (DELEUZE, 2005, p. 79). Deste modo, como visto, os processos de trabalho subjetivam o trabalhador a se mostrar ao mundo de determinada forma, pois o disciplinam e o docilizam segundo uma lógica própria, a da reprodução. Em vista disso, com o intuito de ampliar tal problematização, a série discursiva a seguir tratará sobre o trabalho como mecanismo de subsistência x satisfação, elementos estes tão presentes na vida de Gregor. Com isso, esta série é importante nesta discussão, pois, através desta, podemos aprofundar às reflexões em torno do processo de subjetivação de Gregor pelo trabalho, debatidos até então.

6.3.8 Trabalho como mecanismo de subsistência X satisfação A realização do trabalho enquanto reprodução é uma característica que pode ser observada na obra A Metamorfose (2008), em que Gregor realiza uma atividade da qual não vê sentido algum, mas somente a reproduz. Com isso, podemos visualizar, em diversos momentos desta obra de Kafka, o quanto esta reprodução do trabalho ocorre em decorrência da subsistência deste caixeiro viajante, bem como de sua família, como pode ser visualizado nos trechos à seguir: Aliás, quem sabe se isso não seria bom para mim. Se eu não me contivesse por causa de meus pais, já teria pedido as contas há tempo; teria me apresentado ao chefe e lhe exposto direitinho o que penso, do fundo do meu coração. (KAFKA, 2008, p.16)

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Viajar é incômodo, mas eu não poderia viver sem viajar. (KAFKA, 2008, p.35) „Que vida sossegada que a família não levava‟, disse Gregor a si mesmo e sentiu, enquanto fixava os olhos à frente de si na escuridão, um grande orgulho pelo fato de ter conseguido dar a seus pais e sua irmã uma vida dessas numa casa tão bonita (KAFKA, 2008, p.44) Na verdade, ele até poderia ter pago, com essa sobra de dinheiro, mais uma parte da dívida do pai com o chefe, e com isso o dia em que poderia se livrar em definitivo do emprego teria ficado bem mais próximo (...) (KAFKA, 2008, p.54)

O trabalho realizado somente como um fator de subsistência gera, muitas vezes, sofrimento ao trabalhador, conforme nos mostra a estória de Gregor em A Metamorfose (2008). Além disso, temos em vista que, a concepção de sofrimento para Dejours (1994, apud RAMOS, 2005), está relacionada com o estado de resistência em relação à estrutura do trabalho. Em vista disso, conforme aponta Ramos (2005), por ser um “estado de luta”, há sempre possibilidades de criar novas formas de vida concorrentes às estabelecidas, ou seja, resistências aos processos instituídos de trabalho. Além do sofrimento pelo trabalho, ao qual Dejours faz referência, podemos observar que o sofrimento decorrente do trabalho também provém da noção de “homem médio” na sociedade, proposta por Valverde (1997). Noção esta que considera que o trabalhador deve se encontrar em um “padrão de trabalhador”, onde todas as formas concorrentes são desqualificadas. Concepção esta que é comum na sociedade da previdência, o qual visualiza o indivíduo como pertencente ao resto da população. Deste modo, o individuo não é observado em sua singularidade, e sim enquanto pertencente a uma sociedade sempre comparado aos demais. Essa noção de “homem médio” pode ser claramente observada através do enredo de A Metamorfose (2008), em que Gregor não é tratado em sua singularidade de trabalhador, mas é exigido dele a reprodução de valores e modos de ser que são comuns a uma maioria de pessoas. Além disso, em decorrência deste padrão de ser trabalhador, todas as formas concorrentes e singulares de existência são desqualificadas. Sobre esta questão, podemos visualizar alguns trechos abaixo que materializam a desconfiança da organização de trabalho de Gregor em torno dos seus trabalhadores. Com certeza o chefe iria chegar com o médico do convênio de saúde, haveria de fazer acusações aos pais por causa de seu filho preguiçoso e cortar todas as objeções apoiado no parecer do médico, para o qual, além de tudo, pareciam existir apenas pessoas completamente pessoas saudáveis no mundo, que às vezes mostravam não gostar de trabalhar. (KAFKA, 2008, p.17)

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Que a mudança na voz era apenas a imposição de um belo resfriado - a doença profissional dos viajantes -, ele tinha a mais absoluta das certezas. (KAFKA, 2008, p.20) Embora por outro lado eu seja obrigado a dizer que nós, homens de negócios, feliz ou infelizmente, conforme se quiser, necessitamos muitas vezes, devido a considerações de ordem comercial, simplesmente passar por cima de um leve malestar. (KAFKA, 2008, p.26)

Todavia, também é possível que o trabalho seja um espaço de criação, em que há o estabelecimento de relações de poder que possibilitam o devir, ou seja, “espaços de transformações e potencialidade de produzir devires, deslizamentos e invenções”. (FOUCAULT, 1998, apud RAMOS, 2005, p. 26). Deste modo, o trabalho pode produzir novos modos de viver, criando assim artes da existência. Com isso, o trabalho não deve ser analisado apenas em relação às técnicas de produção e dominação, mas considerando a maneira como os sujeitos vivenciam e dão sentido às suas experiências de trabalho (NARDI & RAMMINGER, 2008 apud MOURA & LIMA, 2009, p.42). Deste modo, é possível criar espaços onde ocorra uma maior criação dos trabalhadores. Assim, observamos o quanto estes espaços de trabalho que possibilitem o processo de criação são benéficos ao trabalhador, pois abrem rupturas, deixando-o assim implicado com suas atividades. Além disso, gera, por vezes, satisfação às atividades realizadas, bem como às organizações de trabalho no qual está imerso. Porém, essa satisfação pelo trabalho não é visualizada na atividade realizada por Gregor, pois este caixeiro viajante apenas reproduz uma lógica existente, lógica que não concorda, mas que apenas realiza em prol de sua subsistência, bem como de sua família. Todavia, mesmo com tais mecanismos de disciplina, tão presentes no trabalho de caixeiro viajante de Gregor, podemos perceber o quanto este trabalhador consegue resistir e provocar rupturas frente sua existência. Mostrando-se assim como devir-animal, como mostrado no capítulo a seguir, em que Gregor afirma, diante da vida, o paradigma ético, estético e político, pois a sua metamorfose é a materialização de uma vida como multiplicidade.

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CAPÍTULO III – O DEVIR-ANIMAL DE GREGOR: A VIDA ENQUANTO OBRA DE ARTE

7.2

A METAMORFOSE DE GREGOR EM DEVIR-ANIMAL

Deleuze e Guattari (1997) esclarecem o conceito de devir em Mil Platôs: Volume 4, afirmando que devir não se configura pelo estabelecimento de relações, semelhanças, imitações ou identificações. Além disso, o devir não é uma vivência de uma progressão ou regressão. O devir se configura enquanto engendramento de um território de existência provisório de uma multiplicidade. Em vista disso, ao afirmarmos que Gregor se mostra enquanto devir-animal, referendamos que ele experimenta intensidades que o atravessam e o compõem em um plano constituído por multiplicidades diferenciais. Esse devir-animal é visivelmente perceptível quando se observa o primeiro capítulo da Obra A Metamorfose (2008) de Franz Kafka, como pode se apreciado a seguir: Certa manhã, ao despertar de sonhos intranqüilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, quando levantou um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido em segmentos arqueados, sobre o qual a coberta, prestes a deslizar de vez, apenas se mantinha com dificuldade. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação com o volume do resto de seu corpo, vibravam desamparadas ante seus olhos (KAFKA, 2008, p.13)

O título A Metamorfose (2008) e a corporificação de Gregor em barata sugere uma transformação, porém mesmo que o conceito de devir para Deleuze e Guattari (1997) proponha que tal devir é real, no entanto não é real a sua transformação em animal. Isso se justifica, pois a experiência do devir-animal é própria de uma posição de sujeito, que não se anula diante do devir-animal, mas sim ocupa enquanto parte uma potência de virtualidade a ser atualizada em meio a um campo de forças múltiplas, que coexistem entre si. Além disso, o conceito de devir-animal proveniente dos estudos de Deleuze e Guattari (1997), não afirma o processo de corporificação animal, e sim uma potência de encontros afetivos que se atualiza em corpos organizados, como pode ser percebido através do personagem Gregor na obra de Kafka. Em vista disso, deve-se observar o processo de metamorfose de Gregor enquanto um mecanismo de expressividade literária do devir-animal presente nesta obra. 49


Way (2008) afirma que Kafka, “com sua literatura do absurdo”, mostra o processo de metamorfose como incompletude e impossibilidade de vida. Acrescentando que “para esses e tantos outros conflitos existe um fim, mas não um caminho, e o que pensamos ser o caminho é apenas perplexidade, uma armadilha que nos impede de revelar os contornos dos véus que nos cegam” (WEY, 2008, p. 02). Diferentemente desta autora, podemos notar o quanto o devir-animal possibilitou que Gregor encontrasse linhas de fuga para a vivência de uma vida bela, enquanto obra de arte. Visto que, o devir-animal de Gregor é um processo de resistência face às tentativas de padronização e burocratização dos seus processos de trabalho e do seu cotidiano. Em vista disso, com tais linhas de fuga, Gregor consegue experienciar uma vida como multiplicidade, haja vista que transpõe as linhas de força que o atingiam enquanto trabalhador caixeiro-viajante. Todavia, esta metamorfose não significou uma revolução no seu mundo familiar e em seu local de trabalho, sem dúvida, porém representou uma transformação, rupturas com uma ordem até então cristalizada. Afinal, “Gregor se torna barata, não apenas para fugir de seu pai, mas antes para encontrar uma saída onde seu pai não o soube encontrar, para fugir do gerente, do comércio e dos burocratas, para atingir essa região onde a voz apenas murmura” (DELEUZE & GUATTARI, 1977, p.21). Gregor, através de seu devir-animal vive uma multiplicidade, não ao nível de pensamento, mas sim no campo de uma pragmática de experimentação do desejo que opera a territorialização de forças caóticas e mutantes, em um modo de vida inseto de maneira provisória. Haja vista que, o devir não é vivido ao nível da imaginação, mas sim em sua materialidade, conforme aponta Deleuze e Guattari (1997, p.14) “Os devires-animais não são sonhos nem fantasmas. Eles são perfeitamente reais”. Santos (2007), por sua vez, além de corroborar a tal posicionamento, em que também visualiza o devir-animal enquanto uma “saída”, fuga a uma rotina burocrática de horários e de normas reproduzidas, acrescenta ainda que, essa saída teria como corporificação o animal, que se configura como um campo de possibilidades ao ser humano. Afinal é somente na condição de animal que se faz possível um processo de reflexão, como explica Santos (2007, p.29): Na medida em que a vida social desaparece como experiência, o homem moderno perde suas capacidades de pensar e lembrar. De certa forma, os animais de Kafka mergulham nesta faculdade de reflexão de si mesmos para fazerem uma denúncia do nosso esquecimento de nós mesmos diante de toda a racionalidade do mundo coletivo.

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Em vista disso, o devir-animal de Gregor possibilitou tanto a si, quanto a nós um processo de reflexão em torno da vida. Sendo que diante dela, é possível afirmar que sempre há possibilidades de deslocamentos de pontos fixos (territórios) em direção a uma fluidez em busca de outros territórios de „fixação e expressão‟. Com isso, podemos perceber que não há a impossibilidade, a clausura total, mas há brechas para o desconhecido, para a desterritorialização constante. Por sua vez, por mais sufocantes que fossem as relações de saber-poder em que Gregor estava inserido, a sua metamorfose em devir-barata se põe enquanto a afirmação de uma vida singular. Com isso, Gregor afirma o paradigma ético, estético e político, em que passa a se apresentar ao mundo como obra de arte, ou seja, uma “a vida que sustenta os valores que vive” (MUYLAERT, 2000, apud MUYLAERT, 2006, p.111). 7.3

O DEVIR-ANIMAL NA OBRA A METAMORFOSE ENQUANTO AFIRMAÇÃO DO PARADIGMA ÉTICO, ESTÉTICO E POLÍTICO.

7.3.3 Paradigma Ético

Para explicitar o conceito de ética e de como tal conceito está presente na mutação de Gregor enquanto devir-animal, é necessário analisarmos o conceito de marcas para Rolnik (1993). Em que, para esta autora, vivemos em um plano visível de existência e em um plano invisível. No plano visível, segundo Rolnik (1993, p. 2), “há uma relação entre um eu e um ou vários outros”. Enquanto que no plano invisível há a composição de uma textura ontológica. Segundo Rolnik (1993), a textura ontológica é constituída dos fluxos do sujeito e que se adicionam a outros fluxos, formando assim uma grande malha com muitas composições. Em determinado momento, essas composições provocam uma sensação diferencial, são estados até então singulares em comparação à subjetividade que se apresenta pelo indivíduo. Esses estados inéditos, resultados de certo limiar de entrelaçamento de fluxos, desestabilizam a estrutura até então instituída pelo indivíduo, provocando rachaduras em sua composição cristalizada. Ao mesmo tempo, esses estados inéditos convidam a uma problematização dos modos de ser, bem como lançam o indivíduo a uma mutação. Rolnik (1993, p.2) caracteriza esse processo enquanto: [...] uma violência vivida por nosso corpo em sua forma atual, pois nos desestabiliza e nos coloca a exigência de criarmos um novo corpo - em nossa existência, em nosso

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modo de sentir, de pensar, de agir, etc. – que venha encarnar este estado inédito que se fez em nós.

Gregor em A Metamorfose (2008,) experiencia esses estados inéditos e se deixa afetar por eles, torna-se assim outro após esse embate de forças que o atravessa. Gregor, através de sua mutação, é convidado a problematizar sobre sua nova configuração como devir-animal, passando a refletir sobre a estrutura instituída ao seu redor. O convite a este processo de problematização se dá através das “artes da existência”, que consistiriam em uma reflexão, do que estamos fazendo de nós mesmos e com os outros. Em que há uma busca não somente da reprodução de normas morais, mas a sua análise e busca por uma vivência estética, que seja permeada por critérios de estilo. (FOUCAULT, 1984). Esse estilo, que advém do grego esthlos, que significa “bom, nobre”, traz o sentido em Teógnis de Megara como “alguém que é real, verdadeiro” (SILVA, 2007, p. 70). Em vista disso, posicionar-se eticamente consiste em uma atitude avaliativa de si como análise de um plano de afetação e exposição das potências que procuram passagem em nossos corpos e seus efeitos. Ou seja, “é o rigor com a expressão do singular e inusitado, é o compromisso com as forças que atravessam o campo, compondo os agenciamentos multiplicando sentidos” (MUYLAERT, 2000, p.91). Com isso, é possível notar o quanto o devir-animal de Gregor é uma atitude ética, posto que o transformar-se em barata se efetivou enquanto esse campo de possibilidades engendrado pelas marcas que Gregor vivenciou. Ou seja, Gregor teve contato com seus estados inéditos (ou marcas) que o texto não faz referência, mas sugere no trecho “Certa manhã, ao despertar de sonhos intranqüilos” (KAFKA, 2008, p.13) Neste sentido, as marcas fizeram com que Gregor experimentasse uma grande violência em seu corpo, ocorrendo assim uma intensa ruptura em seus modos de sentir, pensar e agir, sendo subjetivado assim em um novo corpo. Corpo este que não foi resultado de sua escolha, mas um corpo que se apresentou a Gregor enquanto fardo, enquanto fruto de um conjunto de marcas que o transformou e o constituiu barata. Como pode ser visto no decorrer da obra A Metamorfose (2008), esse transformar-se em barata não pode ser revestido de uma consciência, afinal trata-se de uma marca, que não pode ser governada pelo sujeito. Conforme expõe Rolnik (1993), o sujeito não é controlador de suas marcas, mas somente um experimentador delas e como efeito das mesmas, em jogos de saber, poder e subjetivação que se entrelaçaram ao acaso das forças.

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Esta impossibilidade de revestimento das marcas é justificada, pois não é uma característica como atributo, mas imanente à vida. Trata-se de uma vida que busca se afirmar enquanto multiplicidade diferencial, através de seus múltiplos desdobramentos e dobras. Neste sentido, Gregor não pode impedir seu processo de afetação, resultante do embate de forças, pode apenas e somente tentar negar os movimentos desse afeto. É justamente neste aspecto que a ética se distancia da moral, pois diferente desta, a ética tem por base a realização da vontade de potência dos corpos. A moral, por sua vez, através da cristalização de conceitos de bem e mal, impossibilita uma abertura de campos de possibilidades que é a vida, que poderia transformar-se em meio aos atravessamentos das práticas. Para Deleuze e Guattari (apud PELLOSO & FERRAZ, 2005), a ética e a moral são elementos constituintes da realidade psicossocial, ou subjetividade, que seria a constituição do indivíduo e suas “conexões sociais, econômicas, lingüísticas e culturais” (PELLOSO & FERRAZ, 2005, p.117). Mas, no entanto, afirmam que a ética e a moral podem tanto se movimentar no sentido de manter a subjetividade vigente, quanto transformá-la, conforme outra configuração. Deste modo, quando se fala em um modo ético de subjetivação, o ser humano se apresenta com respeito ao desejo sentido, enquanto que no modo de uma moral da subjetividade ocorre “um bloqueio funcional, uma neutralização do desejo experimental (...) desejo que não pode mais usufruir a não ser de sua própria submissão” (DELEUZE & GUATTARI, 1977 apud PELLOSO e FERRAZ, 2005, p.119). Assim, foi possível observar que a ética se diferencia da moral, pois possibilita a desterritorialização, em que “a condição ontológica que torna possível o movimento ético como princípio de diferenciação no agenciamento moral é que este se constitui na afirmação ontológica de vir-a-ser sempre constante” (PELLOSO & FERRAZ, 2005, p.126). Em vista disso, podemos afirmar que o devir-animal de Gregor é um ato ético e não moral. Pois Gregor não reproduziu um conjunto moral até então existente ao seu redor, e sim seu devir-animal foi produto de sua escolha ética, enquanto singularidade. Com isso, acaba por desqualificar as práticas de reprodução da vida que a disciplinam em uma lógica de filho padrão ou funcionário padrão. Além disso, o tornar-se animal na obra A Metamorfose (2008) de Franz Kafka para Deleuze e Guattari, conforme expõe Pelloso e Ferraz (2005), é um movimento de corrida para linhas de fuga, em que são relevantes as intensidades vivenciadas em sua magnitude e, deste 53


modo há uma transformação do que se era antes. Neste sentido, o devir-animal de Gregor, enquanto linha de fuga provoca um processo de desterritorialização da rotina até então cristalizada de Gregor, que por consequência gerou uma reterritorialização de outras formas de vida. Afinal, conforme afirma Deleuze e Guattari citado em Santos (2007), a noção de território está diretamente relacionada com a concepção de um “desterritório”, ou uma saída do território. Além disso, é vigente à territorialização, necessariamente, um processo posterior de busca de reterritorialização. Com isso, notamos que o processo de desterritorialização sempre provoca um processo futuro de reterritorialização em outro lugar, de outros modos de vida. Nestes termos, Gregor metamorfoseado em barata não pratica suas atividades de caixeiro-viajante, haja vista que as mesmas foram desconstruídas, mas em contraposição Gregor enquanto devir-barata vivencia outros modos de vida múltiplos que até então lhe eram desconhecidos. Diante de tal discussão, Pelloso e Ferraz (2005) afirmam que o som do violino tocado pela irmã de Gregor é o que propicia o processo desterritorializante de Gregor. Afinal, conforme expõem esses autores, Gregor se vê tanto no âmbito territorializante, que é seu território constituído, no caso seu quarto, e em outros espaços desterritorializantes que seriam lugares de nomadismo que teria acesso: como a sala (devir). Deste modo, a música é para Pelloso e Ferraz (2005, p. 126): [...] um som desterritorializado, assignificante, faz funcionar em Gregor outros sentidos, que se intensificam, produzindo o desmanchamento de antigos territórios. Não foi a música, mas o som, a causa do movimento de desterritorialização.

Todavia, é notório o quanto o processo de desterritorialização de Gregor, ou a posição de uma atitude ética é posta na obra de Kafka desde o início de A Metamorfose (2008), afinal, acordar corporificado em barata é a afirmação de um desenraizamento frente o instituído, das cristalizações existentes em sua casa e em seu trabalho. Deste modo, a música tocada por sua irmã no violino possibilita a Gregor a inserção em outros espaços, mas a sua atitude ética já tinha sido afirmada por outras marcas anteriores. Com isso, podemos apontar que o paradigma ético está presente desde o início da obra A Metamorfose (2008), em que Gregor, enquanto devir-animal, mostra-se ao mundo através da afirmação das marcas que o constituíram. Desqualificando assim as formas instituídas de saber-poder-subjetivação de seu âmbito de trabalho, que até então o subjetivavam como trabalhador disciplinado. Diante disso, a seguir será abordado sobre o paradigma estético, com o intuito de melhor problematizar este devir-animal de Gregor. 54


7.3.4 Paradigma Estético O devir animal de Gregor, em A Metamorfose (2008) também afirma o paradigma estético, haja vista que a estética é a vivência de um transbordamento, uma experimentação que não se limita ao interior ou ao exterior. Esse exterior é o devir, que se configura enquanto “o inumano, com o transumano, com seu avesso e sua afirmação” (GUATTARI, 1993, apud MUYLAERT, 2000, p.94). Deste modo, Gregor vivencia o paradigma estético, pois vive em um processo de transbordamento possibilitado pela sua metamorfose em barata. Desestruturando e ultrapassando assim territórios de existência instituídos, em que suas marcas são postas em evidência, através de um viver constante delas. Rolnik (1993) afirma que a produção de marcas é constante, haja vista que enquanto estivermos vivos estamos produzindo marcas. Além disso, a partir do momento que uma marca foi criada em nosso corpo ela vai estar sempre presente conosco, basta que haja um vetor favorável à reativação da mesma, contudo, esta não retorna igual, mas por heterogênese. Sendo assim, conforme aponta Rolnik (1993) a marca é reativada em um espaço em que apresenta ressonância. Deste modo, somos novamente “desassossegados” de nosso lugar, e “convocados a criar um corpo para a existencialização desta diferença” (ROLNIK, 1993, p.3). Segundo Santos (2007), é o contato com essas marcas, e com as sensações que elas nos ocasionam que provoca uma desterritorialização, um convite, ou convocação à mutação, ao devir, ao não lugar, à deriva. Tal convite é uma busca de uma corporificação que dê forma provisória a esta nova constituição de linhas de forças de subjetivação, que atravessam os corpos e os transformam. É desta maneira que Gregor se constitui e nós também. Afinal, conforme expõe Rolnik (1993), subjetivamos-nos por pontos de vistas que não são os nossos, mas que nos constituem. Ou seja, estamos sempre imersos em relações de saber-poder que nos atravessam, e que realizamos consequentemente dobraduras nessas linhas de força, em que somos afetados, subjetivando-nos. Desta maneira, estamos lançados ao Devir, através destas marcas de subjetivação. Neste sentido, não podemos ir contrariamente ao movimento deste devir, o que nos cabe é problematizar a nossa composição através das marcas. Ou até mesmo, criar um sentido para as mesmas, ou seja, tentar refletir sobre os nossos modos de vida. Devido a isso, Gregor não consegue reverter a sua condição de animal, mas somente refletir sobre tal situação. Haja vista que, as marcas o atingiram de tal forma que o 55


possibilitaram a um processo de devir. Esse devir é por vezes recebido por Gregor através de um sentimento de medo, afinal se defrontar com o devir é se lançar ao novo, que por vezes é recheado de muito estranhamento do desconhecido. A vivência do devir, mesmo com o medo ocasionado dele, possibilita a existência de uma vida bela. E é nessa questão que o paradigma estético se afirma, pois o paradigma estético se mostra enquanto um viver belo frente a uma determinada realidade. Em vista disso, o paradigma estético se diferencia do paradigma científico, pois este busca uma causalidade imanente a um determinado acontecimento, enquanto o estético está no campo da criatividade, num “campo de possibilidades de captação dos objetos incorporais na sua dimensão de alteridade propriamente dita” (ROCHA, 1993, p.2) A experimentação desta vida bela, enquanto campo de possibilidades é a produção de zonas de liberdade. Diante disso, podemos afirmar que Gregor corporificado em barata expande a vida e a liberdade, afinal encontra diversas linhas de fuga das relações de saberpoder que o docilizam enquanto um trabalhador disciplinado. Deste modo, a vivência estética de Gregor como devir-barata propiciou a sua fuga ao dia de trabalho, fatigante, de caixeiroviajante. Além disso, este trabalho que era pautado em uma lógica moral deixava Gregor inquieto, pois ele desejava mais. Deste modo, através do devir-animal, Gregor pode vivenciar o exercício da liberdade. Sendo importante frisar que tal liberdade não estava no âmbito da liberação, mas sim no campo da experimentação. Pois, a liberdade nunca é total e não se constitui enquanto essência, mas sim é possibilitada por lutas e por uma agonística entre posições de sujeitos que tomam a si como medida de suas ações. A liberdade para Foucault se dá através das práticas de “cuidado de si” e “domínio de si” que se constituem enquanto “exercícios que preparam os indivíduos para as contingências da vida visando garantir uma subjetividade formada por atividades criadoras de si” (Haetinger et al., 2010, p. 1371). Alípio Filho (2007) ainda acrescenta que o “cuidado de si” é um exercício de liberdade, haja vista que não objetiva interesses de cunho material. Ao contrário disso, o “cuidado de si” busca um „exercício filosófico‟. As “técnicas de si”, por sua vez, segundo Ramminger e Nardi (2008) seria esse processo de disciplina em busca de uma perfeição. Através destas práticas de problematização de si, podemos questionar as relações de poder-saber que nos subjetivam, ou seja, podemos refletir e problematizar sobre as malhas de poder que nos afetam. Com isso, podemos agir eticamente, produzindo assim uma existência 56


estética, em outros termos, passamos a nos governar. Neste sentido, é importante destacar que a experimentação estética, através de uma escolha ética por Gregor, não possibilitou uma mutação em termos de relações de saber-poder-subjetivação nas quais estava inserido antes de sua metamorfose. Ou seja, Gregor não revolucionou a estrutura de seu trabalho, por exemplo, mas agiu sobre seu cotidiano em um plano de sua vida estética, em uma micropolítica. Além disso, Gregor não teve uma liberdade total através de sua metamorfose, mas forjou uma liberdade em termos de relações de poder-resistência, haja vista que “a liberdade é da ordem das resistências às sujeições dos diversos poderes. O poder, longe de impedir a liberdade, excita-a” (ALÍPIO FILHO, 2007, p. 05). Deste modo, como visto, o devir-animal de Gregor é a vivência de um transbordamento ocasionado por suas marcas, as quais se refere Rolnik (1993). E diante deste devir, Gregor se firmou diante da vida como multiplicidade. No entanto, este devir-animal não revolucionou a organização de trabalho de Gregor, nem sua família. Todavia, através deste transformar-se, Gregor pode experienciar uma vida enquanto obra de arte, com isso, passou a afirmar uma postura política diante da vida. Deste modo, a seguir será problematizado sobre o paradigma político, que é de extrema importância para respaldar tais análises.

7.3.5 Paradigma político Souza e Carreri (2009, p. 4542) afirmam que Kafka em suas obras “vê o mundo futuro como um mundo de submissos aos poderes”. Sim, é possível visualizar, por exemplo, na obra A Metamorfose (2008) uma submissão a uma ordem instituída, como a disciplina fiel do funcionário Gregor ao seu trabalho. Porém, além desta submissão ao poder instituído, há uma resistência a tal poder, afinal, acordar corporificado em barata é uma forma de burlar uma rotina de trabalho. Sendo assim, o devir-animal de Gregor se configura enquanto um paradigma político. Visto que, conforme expõe Rocha (1993), o paradigma estético tem implicações éticas e políticas, pois assumir uma estética da existência é se posicionar ética e politicamente, afirmando posições em contraposição às posições até então já instituídas. Com isso, Gregor ao assumir essa postura política afirma o paradigma estético, pois, o devir-barata é a criação da vida enquanto obra de arte, criação da existência enquanto arte. E, por fim, a ética é 57


evidente quando se pensa que a potência de vida de Gregor é efetuada enquanto a afirmação de um processo de singularidade. Neste sentido, o devir-animal exigiu que este caixeiro viajante assumisse uma posição política frente ao instituído, às estruturas cristalizadas. Com isso, Gregor passou a afirmar posições frente à sua família, bem como a seu espaço de trabalho. Enfim, Gregor enquanto devir-animal passa a assumir um modo de vida diante do mundo. Com isso, Gregor ao assumir essa posição política frente à sua realidade, coloca-se contra o fascismo das suas relações de saber-poder de trabalho e familiar. Sendo importante frisar que, ao falar-se em fascismo, não se está referendando aqui as práticas existentes de fascismo originárias das ditaduras de Hitler e Mussolini, e sim o fascismo que está presente em todos nós, haja vista que “martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora” (FOUCAULT, 1977, p.2). Além disso, Gregor assumindo essa postura não fascista acaba por seguir alguns princípios básicos propostos por Foucault (1977). Em que o primeiro seria a liberação da “ação política de toda forma de paranóia unitária e totalizante” (FOUCAULT, 1977, p.3). Em que Gregor, metamorfoseado em barata, consegue resistir e se deslocar das relações de saberpoder unitárias de sua organização de trabalho, desestruturando tais relações de saber-poder que até então o atingiam e o subjetivavam. Com isso, Gregor consegue estabelecer também uma ética não fascista, pois se posiciona politicamente no sentido de se liberar de formas de subjetivação que até então o atravessavam e o constituíam, sejam elas “a lei, o limite, a castração, a falta, a lacuna” (FOUCAULT, 1977, p.3). Que para Foucault (1977), essas formas de poder foram pautadas durante o pensamento ocidental, mas que são contrárias as formas problematizadoras da existência. A vivência de uma ética não fascista possibilita que Gregor viva uma vida bela, enquanto obra de arte. Assim sendo, Gregor é como um artista que cria sua própria obra de arte, ou seja, é dono de sua própria obra. Nesse bojo de discussão, Nietzsche em Gaia Ciência nos lança um questionamento sobre “o que devemos aprender com os artistas?”, neste sentido, diz-nos Silva (2007, p.71): [...] como podemos tornar as coisas mais atraentes, mais belas, mais desejáveis para nós, quando por si mesmas não o são? Isso significa criar a possibilidade de ver e de sentir diferentemente, sob perspectivas em relação às quais não estávamos habituados nem a ver, nem a sentir, sobre as coisas e no mundo.

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Como visto, Silva (2007) nos mostra que podemos ser como os artistas que constroem sua própria obra. Mas em contraposição, não devemos nos limitar como eles a findar uma obra quando recomeça a vida “real”, posto que “nós, no entanto, queremos ser os poetasautores de nossas vidas, principiando pelas coisas mínimas e cotidianas”. (NIETZSCHE, 2001, apud SILVA, 2007, p.71) Ser autor de sua própria vida é uma lógica de existência por demais ameaçadora à sociedade, pois esse ato é visualizado por muitos como transgressão moral. Deste modo, o devir-animal é a vivencia de um modo singular de vida, em que não há reprodução de padrões, ou cristalizações de vidas até então existentes. Com isso, todas as formas de saberpoder-subjetivação instituídas são desqualificadas por tal modo de vida. Além disso, viver o paradigma político é arcar com as consequências advindas de uma vida enquanto obra de arte. É se lançar ao mundo de modo pleno, sincero, não esperando nada em troca dele. Deste modo, a satisfação do indivíduo, quando vive uma vida estética, é interna, pois ele se respeitou, deu vazão a seus fluxos de forças que o atravessavam. Gregor, metamorfoseado em barata, vivenciou o devir-animal e se afirmou diante da vida através do paradigma ético, estético e político. Ou seja, Gregor viveu a intensidade das linhas de força que o marcaram e o subjetivaram neste devir, que se configurou enquanto um transbordamento de existência. Mostrando-se a sua família e a sua organização de trabalho de modo singular, múltiplo, assumindo as responsabilidades que estas escolhas implicavam.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Inicialmente este trabalho tinha como objetivo principal somente analisar o deviranimal de Gregor Samsa, em A Metamorfose (2008), enquanto afirmação do paradigma ético, estético e político. Todavia, no decorrer das leituras realizadas sobre a temática, bem como da composição do texto que compõe este trabalho, percebemos a necessidade de fazer tópicos específicos no que concerne a questão do trabalho e de que forma tais práticas desencadeiam subjetividades. Com isso, o trabalho acabou se estendendo com o objetivo de melhor abarcar as temáticas que atravessam a problemática em questão. Deste modo, a análise do devir-animal de Gregor passou a se configurar enquanto um dos pontos de análise deste trabalho. Sendo assim, conforme visto no decorrer desta análise, o personagem Gregor é alvo de problematização desde a sua subjetivação em corpo dócil, através das relações de saber-poder de seu trabalho, até ele se mostrar enquanto devir-animal. Todavia, é importante frisar que a obra de Kafka não mostra em nenhum momento Gregor antes de sua metamorfose. Porém, no decorrer da obra é possível perceber, através das reflexões de Gregor em devir-animal, como se mostrava este caixeiro viajante no seu âmbito de trabalho, bem como o modo que se mostrava à sua família. Com isso, foi possível compor uma trajetória de Gregor, desde quando se mostrava na condição de caixeiro-viajante, docilizado, até este metamorfoseado em barata, ou seja, como devir-animal. Esse trajeto maior de análise exigiu uma leitura complementar, bem como uma análise mais apurada no que concerne à temática da disciplina e docilização dos corpos, bem como da questão das organizações de trabalho e sua implicação na subjetivação do trabalhador. Porém, devido ao ínfimo tempo de realização desta análise, faz-se necessário para pesquisas posteriores, uma problematização mais elaborada no que tange a questão das organizações de trabalho, tendo por foco os seus contextos históricos e suas repercussões na sociedade, bem como na vida do trabalhador. Todavia, sabendo que a história comporta continuidades e rupturas, focamos nesta análise sobre o âmbito das continuidades das organizações de trabalho. Sendo assim, buscamos analisar o trabalho naquilo que é comum no decorrer da história, a partir das sociedades disciplinares do século XVII, ou seja, a subjetivação do trabalhador através das disciplinas de saber-poder, propostas por Michel Foucault (2008).

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Além disso, é de fundamental importância que análises futuras problematizem a questão da saúde do trabalhador, temática esta não tratada neste trabalho devido ao tempo efêmero e a grandiosidade de discussões que versam sobre a saúde do trabalhador. Deste modo, acabamos por estabelecer e priorizar outros pontos de análise também importantes. De um modo geral, este trabalho consegue cumprir com os objetivos que se propôs, contando com uma base metodológica pouco usual, que se trata do método histórico genealógico de Michel Foucault, que colaborou no sentindo de uma análise não estática, mas permeada de problematizações, desconstruções em relação à obra de Franz Kafka. Com isso, através das pistas genealógicas de Michel Foucault, foi possível esta análise mais sensível no que tange a problematização da produção de subjetividade de Gregor, como caixeiro viajante. Os trabalhos de Deleuze e Guattari, por sua vez, foram imprescindíveis para a problematização de Gregor como devir-animal, sendo possível assim refletir sobre o paradigma ético, estético e político que compõe esta metamorfose de Gregor Samsa. Todavia, devido à densidade que cerca o trabalho destes dois autores, podemos realizar diversas análises futuras no que concerne à produção de Deleuze e Guattari e Kafka, que são grandes leituras, possibilitando assim grandes problematizações. De um modo geral, este trabalho vem fazer parte de um grande escopo de produções realizadas em torno da obra do autor Franz Kafka. Todavia, ao mesmo tempo em que faz parte dessa grande gama de produções, esta análise se diferencia e se destaca na área de psicologia. Pois são raros os trabalhos realizados em Psicologia tendo por base documentos, sendo mais raros ainda sob esta perspectiva teórica. Deste modo, este trabalho mostra-se de extrema importância, pois ajuda a refletir, através da literatura de Kafka, temas tão caros à psicologia como é a produção de subjetividade pelo trabalho. Com isso, é possível repensar sobre nossas práticas de atuação, bem como de ensino de psicologia. Afinal, o estudo de obras literárias se mostrou um importante mecanismo de análises e problematizações.

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Do trabalhador dócil ao devir-animal  

Do trabalhador dócil ao devir-animal, um viver ético, estético e político em A Metamorfose de Franz Kafka

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