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Editorial

s a i c í t o N Boas

A IM Magazine é uma revista online internacional que divulga o melhor que se faz no mundo... para um mundo melhor. Através de uma informação positiva e construtiva, esta revista faz a diferença ao revelar as iniciativas, ideias e projectos inovadores que podem dar resposta às grandes questões que se põem, actualmente, a nível individual e global.

Sabemos que quer conhecer as soluções, não só os problemas. E na década que as Nações Unidas dedicaram ao Desenvolvimento Sustentável, o Continente orgulha-se de fazer parte deste grupo de vozes pioneiras que estão a mudar o rumo das suas acções em direcção a um mundo ambientalmente mais sustentável, socialmente mais justo e humanamente mais feliz. Assim, oferecemos-lhe esta edição impressa da IM Magazine, com alguns dos artigos originais e exclusivos desta revista online que, nascida em Portugal, já conquistou leitores em mais de135 países, e que é reconhecida internacionalmente como um meio socialmente responsável, pela qualidade do seu trabalho e conceito pioneiro no campo da informação. Sabemos que não são só as crianças que gostam de histórias com final feliz e que, no meio de muita crises, há que ter razões para optimismo e esperança. Por isso, pode contar com o Continente para receber boas notícias e ver o melhor que se faz no mundo... para um mundo melhor.

Direcção de Marketing José Fortunato

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MÊS

Mulheres Portuguesas

Exposição de fotografia Lisboa, Estação do Rossio, 08 Março, 2010 - 24 Março, 2010 Exposição de fototografia itinerante Mulheres Portuguesas. Autor: Gonçalo Cunha de Sá. Participaram cerca de 100 mulheres que se evidenciaram nas mais variadas áreas profissionais! Um projecto de cariz social apoiado pela SIC Mulher e SIC Esperança como parceiro social.

MÊS

Exposição «20 Anos Sem Muro»

Museu Nacional de Imprensa, Porto 06 Novembro, 2009 - 27 Fevereiro, 2010 O Museu Nacional da Imprensa apresenta a exposição fotográfica de Sérgio Lorré «20 Anos Sem Muro», a mostra apresenta vinte fotografias tiradas após a queda do muro e inclui várias publicações da imprensa da época.


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Música para crianças

kids 4 kids Lisboa, 06 Março, 2010 - 27 Março, 2010 laboratório musical para crianças

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Diversidade científica em exposição na LX Factory - Ler Devagar, Lx Factory

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House of Wonders

21 Janeiro, 2010 - 30 Maio, 2010 A “House of Wonders” é um novo conceito recentemente chegado a Portugal que consiste na fabricação totalmente artesanal de peças de mobiliário e utensílios, em madeira proveniente da reciclagem de barcos de pesca e mercantes da Tanzânia – os DHOWS. O Maggie´s Tea Spot tem neste momento, uma parceria de divulgação deste conceito com a permanência de uma exposição no nosso espaço onde poderá apreciar algumas destas peças.

04 Fevereiro, 2010 - 07 Março, 2010 Associação Viver a Ciência (VAC) apresenta fotografias do projecto “Vidas a Descobrir”. Imagens do mundo da arqueóloga Niède Guidon (Brasil) e da epidemiologista Amabélia Rodrigues (Guine-Bisssau), captadas pelas objectivas de Joana Barros e Juliano Gouveia vão estar em exposição na Ler Devagar/Arthobler, na LX Factory, em Lisboa. As 54 fotografias em exposição mostram diferentes culturas e desafios de mulheres que escolheram dedicar as suas vidas à busca de conhecimento.

MÊS

Conversas sobre o Ambiente

Até 17 de Junho, 2010 Todas as quintas-feiras até 17 Junho, a Casa de Serralves recebe um ciclo de conversas em torno da temática do Consumo Responsável, para que enquanto consumidores, saibamos realizar diariamente escolhas com consciência critica, de modo a contribuir para a existência de uma responsabilidade colectiva orientada para a resolução de problemas globais actuais. A Entrada é Gratuita mediante inscrição prévia para: tel: 22 61 56 587 ou e-mail: c.almeida@serralves.pt


ÍNDIC

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ITINERÁRIOS DA MUDANÇA Cidades do futuro_10 Hiper Natura_20

IDEIAS EM MOVIMENTO Bolsa de Valores Sociais_24 Clube de Produtores_36

INTENÇÕES MAIORES A história escondida do futebol_40 Missão Sorriso_62

INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS Design Social-Design para um mundo melhor_52 Caixa Única_48

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http://immagazine.sapo.pt

FICHA TÉCNICA Directora Ana Teresa Silva

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Designer Rui NM Colaboradores Chris Milton, Joana Bértholo, Teresa Nogueira, Sofia Teixeira Fotografia da capa Jolka Igolka

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Fotografias Nuno Henriques Silva, Jean Scheijen, Justus Kindermann, Fran Priestley, Dave Dyet, Horton Group, Aurimas Cekanavicius, Cortesia de Sino-Singapore Tianjin Eco-City (SSTEC), ARUP, Fosters & Partners, Bioregional, Marcus Lyon, Sonae Distribuição, Operação Nariz Vermelho, Cooperativa Terra Chã, Dianova, APPT21, Football’s Hidden Story/ Peter Dench, Lynn Becker/ massivechange.com, Andrew Maccoll/ indexaward.dk, Jefferson Noguera, Rui Matos e Aurimas Cekanavicius

Propriedade Continente Distribuição Continente Impressão Continente

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Periocidade Trimestral Tiragem 50 000 Depósito Legal 00000/00 Registo ERC 00000 A reprodução de todo o material é expressamente proíbida sem a permissão d....................... Todos os direitos reservados

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EMENTES deMUDANÇA

Não sou só eu. Ou tu. Já não somos três ou quatro. Nem sequer cem ou mil. Passámos de grãos de areia a sementes capazes de fazer florescer o bem e dar frutos. Uns pela paz, outros pela saúde, uns contra a pobreza, outros contra a desigualdade, uns pelo planeta, outros pela educação, uns por muitos, muitos por um, numa composição allegro vivace ou mesmo andante maestoso.

É

a Sara que foi para Moçambique aos 20 anos para ajudar crianças órfãs, é o Raymond que está no coração da filantropia, entregando grande parte da sua imensa fortuna a acções de solidariedade social ou grandes causas mundiais, é o Jeffrey que quer acabar com a pobreza extrema ainda na nossa geração, é o Bill que investe muito dinheiro na luta contra a malária, é o Daniel a espalhar inteligência emocional pelo mundo dos negócios, é a Anabela que entrega a sua sabedoria à resolução pacífica dos conflitos, o Yacoov que trabalha para a paz, criando grupos de diálogo entre “inimigos de sempre”, é o Cameron que conseguiu juntar arquitectos de todo o mundo para responder em uníssono à falta de tectos em zonas de catástrofe, é o Al a alertar o mundo para os problemas ambientais e a criar uma consciência de acção, é o Jim, a Helena ou a Karen, a trazerem novas perspectivas à educação e às novas gerações, é o Masayuki e o Tatsuo a plantarem árvores da esperança pelo mundo, para que a memória da guerra dê sempre lugar à paz, sou eu, com a IM Magazine, a divulgar o que de melhor acontece no mundo, iluminando o lado bom da vida e das pessoas, the bright side of the world, o lado que inspira e que nos dá confiança, e são muitos, muitos mais. Tantos mais. Também não sou só eu, nem tu, nem três ou quatro, nem cem ou mil, que podemos ver e usufruir dos frutos de todas estas conquistas. Já não estamos só a assistir, fazemos parte, estamos com as “mãos na terra”. pág 8

Ana Teresa Silva

E vemos que, juntos, podemos devolver o sentido à palavra humanidade. Nós: que percebemos o quanto estamos ligados. Que o sucesso dos outros é o nosso sucesso. Que a paz dos outros, estejam onde estiverem, é também a nossa paz. Que quando combatemos doenças em África, isso representa mais saúde para todos. Que quando ajudamos a que todas as crianças do mundo tenham acesso à educação, também estamos a proporcionar um futuro melhor aos nossos filhos. Que a felicidade dos outros, daqueles que tocamos diariamente, é a nossa felicidade. Não é só o riso ou os bocejos que são contagiantes, é também a harmonia, o bem-estar, a felicidade. Há pessoas que só percebem o quanto estamos perto, e conectados, quando recebem a notícia de que uma gripe do outro lado do mundo, pode assaltá-las em pouco tempo. Ou quando uma guerra distante lhes leva os filhos ou companheiros. Mas, realmente, não deveria ser preciso ver o mal acontecer dentro de casa para agir, para sentir que a harmonia do mundo depende da harmonia e da acção de cada um. Um mais um mais um, é assim que chegamos ao total da população mundial. E em cada um jaz uma semente de mudança, pronta a florescer. Estamos juntos. E, no fundo, apesar da responsabilidade acrescida que traz este saber, é tão bom saber... que estamos juntos. •


ITINERÁRIOS DA MUDANÇA

Horton Group

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ITINERÁRIOS DA MUDANÇA

Chegaram as Cidades do Futuro EMIRADOS ÁRABES UNIDOS E CHINA NA CONSTRUÇÃO DAS PRIMEIRAS ECOCIDADES Texto Teresa Nogueira Fotos Cortesia de Sino-Singapore Tianjin Eco-City (SSTEC), ARUP, Fosters & Partners, Bioregional, Marcus Lyon, Jean Scheijen

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Sino-Singapore Tianjin Eco-city


Durante anos simples sonhadores, ecologistas, políticos, arquitectos visionários, outros menos visionários, engenheiros, simples cidadãos e todos os amantes do Planeta assistiram atentos a uma corrida que os enchia de esperança: um gigante do petróleo e um dos maiores poluidores do planeta concorriam com vontade de ferro para a construção da primeira eco-cidade do Mundo. Chegados a 2010, o resultado não é o esperado. Aquela que seria a primeira ecocidade, Dongtan, na China, não saiu do papel, e as esperanças agora recaem num projecto conjunto entre a China e Singapura no Mar de Boha, Tianjin. Masdar em Abu Dhabi está a avançar e ganhará certamente o título de primeira, mas completa só estará verdadeiramente em 2040. De olhos postos no futuro, sabemos que a grave ameaça do aquecimento global e a dependência dos combustíveis fósseis estão a obrigar a grandes mudanças na nossas cidades. O lar de metade da humanidade quer-se sustentável e a construção de ecocidades assim como a transformação das cidades já existentes em comunidades mais sustentáveis, amigas do ambiente, com harmonia social e sucesso económico é inevitável.

W

ashington, 1855. O discurso da derrota do chefe dos índios Duwamish é incrivelmente premonitório. “Continuem a contaminar a vossa cama e um dia sufocareis no vosso próprio lixo”, alertou o chefe Seattle, ao acatar a proposta do então presidente dos Estados Unidos, Franklin Pearce, de trocar as terras dos Duwamish, em Washington, por uma reserva. Incrédulo com as cidades do “homem pálido”, o chefe Seattle só via um resultado para o futuro da sociedade criada pelos colonos americanos: a extinção de espécies animais, a contaminação dos rios e solos, a transformação das terras num deserto. Em resumo, o desequilíbrio total da natureza. Mais de 150 anos depois, as palavras do carismático chefe índio não podiam ser mais certeiras. O mundo enfrenta uma ameaça causada pela própria actividade humana – o aquecimento global – e as cidades, onde metade da população mundial vive, estão sobrelotadas, congestionadas, extremamente poluídas e sem solução para as gigantescas quantidades de desperdícios que geram todos os dias. Pior ainda, são dependentes de um combustível muito poluente e que pode acabar a curto prazo, o petróleo.

O futuro parece negro e as preocupações são reais. Mas, há pelo três anos atrás, as boas notícias garantiam-nos que a criatividade humana estava a funcionar em pleno e em todo o globo começavam a germinar aquelas que poderiam ser a nossa grande esperança: as cidades sustentáveis. Chongming é uma ilha da foz do Rio Iangtzé, perto da cidade chinesa de Shangai, que esteve traçada para fazer história. É um paraíso ecológico, santuário das aves migratórias entre a Austrália e a Sibéria, e era ali que iria nascer a primeira cidade ecológica do Mundo, a abrir portas em 2010. Pelo menos era assim que falavam dela os promotores da eco-cidade de Dongtan. Os chineses da Shangai Industrial Investment Corporation (uma empresa gerida pelo Município de Shangai) tiveram a ideia e contrataram a ARUP, uma conceituada empresa de engenharia britânica, para transformar o sonho em realidade. Foi também para isso que uma equipa de mais de 100 pessoas trabalhou, mas o projecto acabou por não sair do papel. Peter Head, responsável da empresa, admite que o projecto está na gaveta, mas recusa-se a pensar que não terá continuidade. pág 11


ITINERÁRIOS DA MUDANÇA

Numa entrevista ao site TreeHope, Peter Head afirma manter a esperança de ainda ver um dia Dongtan enguer-se nas margens do Rio Iangtzé. O responsável técnico da ARUP sublinha, por outro lado, os benefícios que o simples facto da empresa ter projectado toda a cidade já trouxe a outros locais. O know how adquirido tem sido disseminado sem restrições e a empresa tem projectado comunidades sustentáveis um pouco por todo o mundo- Wanzhuang , China, Cambridgshire, no Reino Unido, e o maior desafio, Destiny, nos Estados Unidos. Até porque os conceitos planeados para Dongtan são hoje verdades aquiridas: Dongtan foi projectada para ser uma sociedade urbana integrada, com empregos em indústrias leves e de alta tecnologia, facilidades recreativas e residenciais pensadas ao pormenor, e uma “comunidade inclusiva, coesa e tolerante que reconheça os valores tradicionais e modernos chineses, assim como outros”, lê-se no projecto. Mais importante: um ambiente urbano sustentável e integrado no ecossistema que o rodeia. Tudo o que qualquer urbanista e cidadão gostaria de ver na sua cidade. Em 2050, Dongtan deveria ter 500 mil habitantes a viver em edifícios com um máximo de seis andares, todos eles bio-climáticos e sem elevadores, alimentados por fontes de energias renováveis e limpas, perto de tudo o que é necessário ao bem estar dos seus residentes como escolas, parques, organismos públicos e comércio, enquadram uma cidade construída sobre as águas do Iangtzé. Uma espécie de Veneza asiática. Espaços verdes em abundância, ruas traçadas de forma a proteger os transeuntes do frio do Inverno e também do calor do Verão, um duplo sistema de abastecimento de água para separar as utilizações que necessitam de água potável e as que não necessitam, e uma reutilização dos resíduos produzidos na ordem dos 80 por cento, confirmam os apertados requisitos verdes do projecto. Os veículos automóveis seriam banidos de Dongtan só sendo permitida a entrada, em toda a ilha, de veículos híbridos ou a células

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de combustível. E a cidade seria quase exclusivamente alimentada pelos produtos provenientes da agricultura biológica produzidas nas férteis terras de Chongming que rodeiam esta eco-cidade. As energias solar, hídrica e eólica teriam, em Dongtan, a oportunidade de mostrar ao mundo o que valem, juntando-se ainda a biomassa alimentada por um desperdício abundante naquelas paragens, a casca do arroz. Para os responsáveis da ARUP, Dongtan era a resposta para o consumo de energia insustentável e a poluição no mundo, a prova de que “o crescimento urbano e o ambiente não têm de ser forçosamente opostos”. Para a China, que em 2007 ano conseguiu a difícil “proeza” de ultrapassar os Estados Unidos em quantidade de emissões de gases com efeitos de estufa para a atmosfera, este megaprojecto, o mais ambicioso de que há memória, seria a oportunidade para encontrar o compromisso entre desenvolvimento económico, responsabilidade ambiental e benefício social. E também de se “redimir” por um crescimento económico exponencial, assente na queima do carvão, o mais poluente dos combustíveis fósseis, que coloca graves problemas à saúde ambiental das cidades chinesas e do próprio Planeta. Mas o projecto ainda não deu sinal de vida, e na China, que se revela como um autêntico laboratório internacional de ecocidades, vimos avançar na linha da frente a ecocidade de Tianjin.

Eco-cidade de Dongtan


Sino-Singapore Tianjin Eco-city

Sino-Singapore Tianjin Eco-city

Os veículos automóveis seriam banidos de Dongtan só sendo permitida a entrada, em toda a ilha, de veículos híbridos ou a células de combustível.

The Sino-Singapore Tianjin Eco-city, designed to be 34.2 square kilometers, is the result of a collaborative agreement between the Governments of China and Singapore to jointly develop a socially harmonious, environmentally friendly and resource-conserving city in China. Designed to be practical, replicable and scaleable, the Tianjin Ecocity is actually the first experiment to plan, build a new city in an ecological way. The Master Plan of Sino-Singapore Tianjin Eco-city was jointly developed in 2008, by the China Academy of Urban Planning and Design, the Tianjin Institute of Urban Planning and Design, and the Singapore planning team. In the planning of the Tianjin Eco-city, one of the main guiding principles was to adopt a holistic approach towards creating and designing a livable, efficient and compact city, which would be developed in an ecologically sound and environmentally sustainable manner. There is a set of 26 Key Performance Indicators (KPIs) for the Sino-Singapore Tianjin Eco-city. In formulating these KPIs, reference is made to national standards in China and Singapore, as well as international standards. These 26 KPIs were divided by four groups, (1) Good Natural Environment, (2) Healthy Balance in the Man-made Environment, (3) Good Lifestyle Habits, (4) Developing a Dynamic and Efficient Economy. The planning of Sino-Singapore Tianjin Eco-city has great influence on the way of eco-city planning in China. According to the leading planners of this project, there are seven distinct innovations in this planning, such as protection on natural ecological structure, land use layout planning, green transportation, ecological neighborhood planning, cultural context preservation, water resource utilization, energy saving as well. Especially, to build a system of KPIs in the process of planning was followed by many other eco-city plans. Marked with the planning of Sino-Singapore Tianjin Eco-city, Chinese cities enter into a massive period of eco-city planning.

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ITINERÁRIOS DA MUDANÇA

Um oásis no paraíso do petróleo Sem estes problemas, a concorrência a esta megaecocidade surgiu e vingou onde menos se esperava. Os Emirados Árabes Unidos, detentores da terceira maior reserva de crude e de quem pouco se esperava pela promoção de valores ecológicos, veio a público em 2006, garantir que é no seu deserto de Abu-Dhabi que vai nascer a primeira cidade sustentável. Mais, o reino anunciou ainda que está fortemente empenhado na luta contra as alterações climáticas e na pesquisa pela obtenção de fontes de energia mais limpas. E não mentiu! Em Outubro de 2009, os primeiros estudantes entraram para a universidade local, a única especializada em energias renováveis. Em Masdar, todos os telhados da parte que já está construída estão equipados com painéis solares: aí funcionam 41 sistemas solares de 33 fornecedores diferentes. Prova do tipo de projecto que este é: uma enorme obra tecnológica e uma verdadeira cidade científica. O megalómano projecto, orçado em 5 mil milhões de dólares, está entregue à equipa do conceituado arquitecto britânico Norman Foster. E para quem achou que tudo não passava de miragem,a verdade é que os trabalhos começaram e continuam. Embora concorresse com Dongtan pelo título de eco-cidade pioneira, os dois projectos sempre foram distintos. Em Masdar, o objectivo da Abu Dhabi Future Energy Company, a promotora do projecto, é criar um polo tecnológico para o desenvolvimento de novas ideias para a produção de energia. Segundo a Foster + Partners, Masdar deverá ser uma cidade carbono zero e resíduos zero, assente numa ultra-moderna tecnologia para uso e desenvolvimento das energias renováveis. Uma rede de transportes eficiente e não poluente evita a necessidade do uso de carros na cidade, assim como um planeamento urbano concebido de forma a permitir a fácil movimentação dos habitantes a pé. pág 14

Em Masdar, ficará instalada a nova sede da Abu Dhabi Future Energy Company, uma universidade, zonas económicas especiais e um centro de inovação. E, tal como tinha sido pensado em Dongtan, as turbinas eólicas e os painéis solares farão parte integrante da estética urbana. Em 2040, a ecocidade deverá ter cerca de 50 mil habitantes. A sua importância é defendida por Norman Foster: “As ambições ambientais da Inicitiva Masdar – carbono zero e sem resíduos – são pioneiras no mundo. Masdar promete estabelecer novos benchmarks para as cidades sustentáveis do mundo”. A real importância destes dois projectos não é consensual. Se, para uns, é uma oportunidade de testar a tecnologia existente para que o Mundo possa ficar menos dependente dos combustíveis fósseis, para outros desvia as atenções do verdadeiro dilema – o que fazer com as cidades já existentes? J. Domingos Delgado, investigador da Fundação da Ciência e Tecnologia, e reconhecido especialista em questões energéticas defende: “Políticos e grandes financeiros adoram as miragens tecnológicas pelos enormes lucros que geram à custa da apropriação privada de algo que é público. Não é com uns quantos megaprojectos que se lidera a mudança mas sim com a difusão entre megamilhões de pessoas da prática de mini ecocidades.” O problema das cidades, continua Domingos Delgado, está na poluição associada à utilização de combustíveis fósseis, na vulnerabilidade às epidemias devido à concentração humana, bem como nas alterações climáticas locais com efeitos globais que os grandes aglomerados urbanos originam. “Tendo em conta a importação de bens alimentares que a cidade exige e os custos crescentes da energia para o seu transporte vê-se, entre outros factores, que o actual paradigma urbano se esgotou e iremos assistir a modificações planeadas ou a mutações catastróficas”, afirma.


Eco-cidade de Masdar

Eco-cidade de Masdar

Eco-cidade de Masdar Eco-cidade de BedZed

Prevenir para não ter de remediar “Modificações planeadas” é exactamente o que muitas cidades do Mundo estão já a implementar de forma a antecipar-se às dificuldades e evitar surpresas desagradáveis. Um grande exemplo é a cosmopolita Londres. Seduzido pelo trabalho que a ARUP desenvolveu em Dongtan, Ken Livingston, Mayor da capital britânica, apressou-se a recuperar um projecto da Greenpeace para a construção de mil habitações que não emitam qualquer partícula de carbono e a implementar um plano para promover a sustentabilidade da zona de Thames Gateway. E é ainda em Londres, mas na periferia, que existe um dos grandes exemplos de bairros sustentáveis, o BedZed (Beddington Zero Energy Development), obra do arquitecto Bill Dunster. BedZed é descrita como a maior ecocomunidade britânica neutra em carbono. É um projecto de sustentabilidade não só ambiental mas também social, já que promove a inclusão de populações carenciadas. Os edifícios foram construídos com base nos princípios da arquitectura bio-climática, com alta eficiência energética, são alimentados por energias renováveis como a solar e a eólica, e as ruas estão concebidas para a circulação pedestre e de velocípedes. Os habitantes de BedZed não têm carros, mas beneficiam de um eficaz sistema de transportes públicos. E se precisarem de se deslocar numa viatura, então recorrem ao Clube do Automóvel que empresta as viaturas – híbridas, é claro - a quem necessite. Em projecto está já a construção, em Middlesborough, de um bairro ecológico sete vez maior que BedZed e ainda mais ambicioso, pois inclui também um esforço na alteração do estilo de vida dos moradores, mais coincidente com as novas exigências ambientais. as viaturas – híbridas, é claro - a quem necessite. Em projecto está já a construção, em Middlesborough, de um bairro ecológico sete vez maior que BedZed e ainda mais ambicioso, pois inclui também um esforço na alteração do estilo de vida dos moradores, mais coincidente com as novas exigências ambientais. pág 15


ITINERÁRIOS DA MUDANÇA

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Eco-cidade de BedZed

Nórdicos na vanguarda No norte da Europa abundam mais exemplos de experiências de ambientes urbanos sustentáveis. Malmö, na Suécia, é outro nome a reter. Terceira cidade sueca, Malmö ambiciona expandir-se sem agredir o ambiente. Apoiada por políticias nacionais, comunitárias e locais, Malmö tenciona provar que um industrial aglomerado urbano pode transformarse numa ecocidade. Os grandes cartões de visita são Augustenbourg, bairro central da cidade que sofreu vastos trabalhos de recuperação, e Bo01, uma zona portuária abandonada e contaminada por indústrias muito poluentes, cuja intervenção urbana criou aquilo que os suecos chamam “cidade do futuro”. Um impressionante bairro residencial dotado de energias renováveis, recuperação de resíduos, inovações tecnológicas, características ecológicas e transporte verde. E Bo01 é apenas o ponto de partida para uma vasta operação lançada pelo governo sueco para a transformação das cidades em comunidades sustentáveis, ou seja, equilibradas económica, social e ambientalmente. Helsínquia, na Finlândia, Hanover e Freiburg , na Alemanha, Lyon, em França, e até Barcelona, em Espanha, são outras cidades onde experiências similares à de Malmö, embora com menor dimensão, estão já implantadas. Mas não é só no velho continente que a chamada “nova” revolução urbana está a ser lançada. Curitiba, cidade do sul do Brasil, é referida internacionalmente sempre que se procura um exemplo de planeamento urbano equilibrado, sustentável e assente numa rede de transportes ímpar, frequentemente apontada como uma das melhores do mundo. Prova disso é o invejável facto de dois terços dos habitantes da cidade utilizarem os transportes públicos em vez dos veículos privados. Até os Estados Unidos renderam-se às evidencias. Imbuídos do espírito de

Dongtan encomendaram à ARUP a construção de “Destiny”, na Florida, chamando-lhe a primeira cidade sustentável da América. Os trabalhos já começaram e Destiny é apontada como um protótipo para o futuro das cidades norte-americanas, liderando o caminho para que o país reduza em 80 por cento a emissão dos gases com efeito de estufa até 2050. Este projecto já foi elogiado pela Clinton Climate Inciative, o que lhe confere uma credibilidade suplementar, permitindo-nos de novo sonhar com o nascimento de uma eco-cidade criada de raíz. O tempo o dirá. Entretanto, Nova Iorque, Joanesburgo, Vancouver, Bogotá, Campala, Chicago, e muitas outras cidades do globo, estão na linha da frente na procura de uma solução para o seu futuro. Projectos mais ou menos distintos, mas que nos dão já certezas: em 2050, andaremos mais a pé, usaremos os transportes públicos ecológicos, consumiremos menos energia e recursos, compraremos mais produtos locais, teremos cidades movidas a energias renováveis e, finalmente, ficaremos em paz com a natureza. Isto porque o contrário, pura e simplesmente, não é solução do mundo. Prova disso é o invejável facto de dois terços dos habitantes da cidade utilizarem os transportes públicos em vez dos veículos privados. Nova Iorque, Joanesburgo, Vancouver, Bogotá, Campala, Chicago, e muitas outras cidades do globo, estão na linha da frente na procura de uma solução para o seu futuro. Projectos mais ou menos distintos mas que nos dão já certezas: em 2050, andaremos mais a pé, usaremos os transportes públicos ecológicos, consumiremos menos energia e recursos, compraremos mais produtos locais, teremos cidades movidas a energias renováveis e, finalmente, ficaremos em paz com a natureza. Isto porque o contrário, pura e simplesmente, não é solução. pág 17


ITINERÁRIOS DA MUDANÇA

Portugal discreto mas atento Nenhuma cidade portuguesa entra no roadmap internacional das experiências de transformações urbanas sustentáveis. O que não quer dizer que não haja casos de boas práticas. Para já, o novo Sistema de Certificação Energética e da Qualidade do Ar Interior dos Edíficios, aliado a objectivos comunitários e nacionais já traçados, promete fazer muito pela sustentabilidade das nossas cidades. Lívia Tirone, arquitecta responsável por muitos dos edifícios “verdes” construídos no País, destaca a zona norte do Parque das Nações, em Lisboa, onde o planeamento urbano foi concebido de forma a integrar muitos dos conceitos da sustentabilidade. Um contexto urbano compacto e multifuncional, edifícios com optimização do desempenho energético ambiental, espaços verdes, malha pedonal significativa vitalizada por espaços de serviços e comércio, etc. “O mérito das soluções urbanísticas adoptadas é exactamente ter conseguido criar sinergias entre os conceitos implementados e que podem, à partida, parecer opostos”, explica a arquitecta também administradora-delegada da Lisboa E-Nova – Agência Municipal de Energia Ambiente. Estender estes conceitos às cidades e ao resto do País já é outra questão. A decisão, defende Lívia Tirone, “está na mão dos municípios e até mesmo das pessoas individuais que estão à frente do planeamento urbano nas diversas Câmaras Municipais”. E para esta especialista e promotora da construção sustentável, uma Lisboa verde nem é impossível: “com os 2% do património edificado que é intervencionado cada ano (com construção nova e com reabilitação), se nos organizarmos para tal, teremos, em 2030, quase metade do património de Lisboa a cumprir as exigências legais (edifícios com certificação energética A ou B)”. Uma meta que orgulharia qualquer cidade do mundo, garante Lívia Tirone. • TN pág 18

Se nos organizarmos para tal, teremos, em 2030, quase metade do património de Lisboa a cumprir as exigências legais (edifícios com certificação energética A ou B).


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Jean Scheijen


HIPER NATURA PROJECTO

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É bom viver na cidade, mas também é bom ter um pedaço de natureza por perto.

Não é à toa que hoje um

dos indicadores usados para medir a qualidade de vida nas cidades é a presença de espaços verdes: locais onde pode ir passear o seu cão, levar as crianças para brincarem, dar um passeio a pé, fazer exercício ou mesmo sentar-se um pouco à sombra refrescante de uma árvore.


O

Continente sabe disso, como tal, em parceria com os municípios onde tem hipermercados, com a Quercus e revista Visão, criou o projecto HiperNatura através do qual revitaliza espaço públicos degradados, ou menos bem aproveitados, dando-lhes condições para o usufruto da população local. Assim, é pedido às câmaras municipais que indiquem um sítio, a Sonae faz um projecto em colaboração com os técnicos camarários, financia-o e implementa-o. Com o apoio da Quercus é feita uma reflorestação correcta, de acordo com diversos princípios como a utilização de espécies autóctones. E, aproveitando para transmitir conhecimento aos utilizadores do espaço, é colocada uma placa com toda a informação relativa às plantas utilizadas. Cada jardim é assim pensado individualmente e adaptado às necessidades das pessoas daquela zona; não há dois projectos iguais. Ao passo que no Jardim da Estrela, em Lisboa, a intenção era, essencialmente, instalar equipamento juvenil, tendo sido colocadas duas redes de trepar em forma de aranha, no jardim de São Vicente, em Viana do Castelo, procurou-se criar mata autóctone no coração da cidade. Além da requalificação e criação de jardins, o Hipernatura investe ainda noutras iniciativas ambientais como reflorestação das serras de Portugal. “Um milhão de Carvalhos para a Serra da Estrela” é um projecto da Associação dos Amigos da Serra da Estrela que, com o apoio do Continente e da revista Visão lançou uma campanha nacional para a recolha de bolota de carvalho negral, um acção direccionada para visitas de estudo de alunos e que serve para reflorestar a região. pág 21


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Fotos Cortesia Sonae Distribuição

O HiperNatura apoia ainda o Programa Rolhinhas, ajudando a recolher rolhas que revertem para a plantação de milhares de árvores. Ao promover a recolha e reciclagem de rolhas de cortiça usadas no hipemercados, permite a obtenção de fundos para financiamento da recuperação e conservação de ecossistemas. •


IDEIAS EM MOVIMENTO

José Fernando Carli

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IDEIAS EM MOVIMENTO Nesta bolsa investe-se em quem põe um nariz de palhaço e entra no quarto de hospital de uma criança doente para a fazer sorrir. Ou em quem evita situações de risco juvenil através do reforço da afectividade entre pais e filhos. Ou ainda de alguém que pretende vender artigos com “defeitos genéticos” para financiar a ajuda aos portadores de Trissomia 21 e valorizar a diferença. Ou mesmo de quem pretende produzir mel

NASCEU A BOLSA DE VALORES DO FUTURO?

para gerar turismo e desenvolvimento comunitário. Nesta bolsa investe-se num futuro melhor, num mundo mais justo e numa sociedade mais humana através de um 3º sector profissional, transparente e eficiente.

Texto Sofia Teixeira Fotos Nuno Henriques Silva, Justus Kindermann, Cortesia de Operação Nariz Vermelho, Cooperativa Terra Chã, Dianova e APPT21 pág 24


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IDEIAS EM MOVIMENTO

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Portugal é o segundo país do mundo e o primeiro na Europa que abraça esta iniciativa elogiada pela UNESCO no Brasil.

Q

uando a Companhia Holandesa das Índias Orientais de Amesterdão criou e comercializou, em 1602, as primeiras acções – criando aquela que é por muitos considerada como a primeira Bolsa de Valores do mundo – ninguém imaginava que um dia alguém pudesse investir em palhaços, peças com defeito, abelhas, ou afectividade para ter, não lucro económico, mas social. Mas isso não é surpreendente, porque a verdade é que 400 anos depois, em 2002, também ninguém o imaginava. Em 2003, Celso Grecco imaginou. Respondendo ao pedido de criação de um projecto de responsabilidade social para a BOVESPA (Bolsa de Valores de São Paulo, Brasil) Celso e a sua equipa da Atitude – Associação pelo Desenvolvimento do Investimento Social – criaram a Bolsa de Valores Sociais (BVS), uma plataforma de encontro entre mecenas e organizações da sociedade civil. Portugal é o segundo país do mundo e o primeiro na Europa que abraça esta iniciativa elogiada pela UNESCO no Brasil. A implementação em Portugal foi promovida pela Atitude e viabilizada em colaboração com a Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação EDP e Euronext Lisboa, os seus parceiros-fundadores em Portugal. pág 27


IDEIAS EM MOVIMENTO

BOAS ACÇÕES E LUCRO SOCIO-AMBIENTAL Na Bolsa de Valores Sociais também existem acções e investidores, mas os valores transaccionados diferem de um típica Bolsa de Valores. Boas acções podem, em vez de dinheiro, querer dizer crianças com um novo lar, inclusão de pessoas com deficiência ou um planeta menos poluído, pois cada projecto escolhido de uma ONG apresenta um número de acções correspondentes ao financiamento necessário. O investidor, tal como no mercado de capitais, pode escolher os projectos/acções que desejar em harmonia com o seu conceito de investimento social. Assim, investir na BVS é uma forma de ter lucro social, participando no desenvolvimento social, ambiental e comunitário. Se a sua organização tem programas inovadores no campo do desenvolvimento humano e social, na sua expressão mais vasta, então pode ter acções “cotadas” em Bolsa. Para isso basta fazer um registo no site da BVS (www.bvs.org.pt) e preencher o formulário online. Se passar essa primeira fase, receberá a visita dos técnicos que farão uma avaliação da sua organização, do projecto com o qual se candidata, e muitas vezes, o ajudam a fazer alguns ajustes de forma a cumprir os critérios de entrada em bolsa. O tempo estimado entre a candidatura online e a entrada em bolsa é de 30 a 45 dias. Se quer ser investidor, basta também aceder ao site, fazer o seu registo de utilizador, escolher um ou mais dos projectos cotados e fazer a sua doação, que pode ir desde o montante mínimo de 10 euros, correspondente a 10 acções, até à totalidade do valor do projecto. Depois, pode ir acompanhando a evolução do projecto (ou projectos) que financiou com toda a transparência: saber quando fica reunido o valor total, quando se iniciam os trabalhos, que actividades programadas já foram realizadas, que resultados estão a ser conseguidos… e conhecer o lucro social do seu investimento.

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A HISTÓRIA POR TRÁS DA HISTÓRIA

Se a sua organização tem programas inovadores no campo do desenvolvimento humano e social, na sua expressão mais vasta, então pode ter acções “cotadas” em Bolsa.

Pergunto a Sérgio Figueiredo, Administrador-Delegado da Fundação EDP, como tudo começou. Ri-se e perguntame: quer saber a história por trás da história? Sim, é isso. Conta-me que, a convite de Miguel Alves Martins (hoje director do Instituto de Empreendedorismo Social), Celso Grecco (na foto) veio a Portugal, ao 2º Congresso de Empreendedorismo Social, partilhar a experiência da BVS da Bovespa. Na plateia estava Guilherme Collares Pereira, director de Inovação Social da Fundação EDP, que ficou muito entusiasmado com o projecto e contagiou toda a gente, inclusive Isabel Ucha, da Euronext, também presente no Congresso. E como “não há nada mais poderoso do que a força de uma ideia cujo tempo chegou” (Victor Hugo), rapidamente a Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação EDP e Euronext Lisboa estavam juntas para trazer esta ideia para Portugal.

Nuno Henriques Silva

Na realidade, todos gostaram do que Celso Grecco tinha para contar da experiência brasileira: cerca de 100 projectos financiados, 7 milhões de reais investidos, um enorme ganho de notoriedade para a Bovespa, o reconhecimento e parceria da UNESCO, ONG´s a concretizarem projectos de grande impacto, milhares de pessoas com as suas vidas transformadas, investidores satisfeitos com os resultados dos seus investimentos que comprovam online e dispostos a investir ainda mais... Luísa Valle, Directora do Programa de Desenvolvimento Humano da Gulbenkian, conta que o que a seduziu no projecto foi sentir que era uma ferramenta que podia fazer com que a responsabilidade social em Portugal desse um verdadeiro “salto no tempo”.

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IDEIAS EM MOVIMENTO

“Neste momento, em Portugal, é complicado exercer a responsabilidade social quer a nível individual, quer a nível das empresas, porque é complicado conhecer bem as organizações e os projectos”, explica. De acordo com Luísa Valle, quando o cidadão comum ou as empresas querem contribuir para uma causa, acham-se por vezes perante um mundo que lhes é desconhecido. Não é fácil responder à pergunta “A quem dar?” e a escolha implica um esforço no sentido de conhecer os projectos, de perceber quem é merecedor da ajuda. A BVS facilita este processo, ao mesmo tempo que explica o projecto em detalhe, oferece garantias da credibilidade e sustentabilidade do projecto e da organização. Isto porque, como frisa Luísa Valle, “fazer o bem não é incompatível com prestar contas”. Também Isabel Mota, administradora da Gulbenkian, frisa o facto de esta ser uma solução que “intervém na causa dos problemas e não apenas nos efeitos” e que vai permitir que empresas que não podem ter departamentos de responsabilidade social a fazer a avaliação da alocação de recursos possa delegar isso na BVS, tendo uma garantia do mérito e sustentabilidade dos projectos que apoiam. A mesma garantia, afirma, é válida para os particulares, já que, segundo defende, “a responsabilidade não é só das grandes empresas, é de todos.” O presidente da Euronext Lisboa, Miguel Athayde Marques, afirma que a adesão ao projecto passou sem dúvida não só pelo reconhecimento do valor do projecto, como também pelo grande entusiasmo da Fundação EDP e Fundação Calouste Gulbenkian.

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“a responsabilidade não é só das grandes empresas, é de todos.” Athayde Marques encara o lançamento deste projecto em Portugal como um teste-piloto à operacionalização desta ideia na Europa. “Gostava muito que, com o sucesso de Portugal, os meus congéneres europeus adoptassem esta ideia. Espera-se que haja um efeito em cadeia nas outras NYSE com o sucesso do caso português”, explica. Sérgio Figueiredo, da fundação EDP vai mais longe na ambição: uma vez que o projecto alastre e fortaleça, acredita que se possa estar em condições de transformar o investidor social num investidor “normal”: “a última o geração desta BVS é transformá-la numa bolsa que dê não só lucro social, mas possa também ser uma opção de investimento com lucro financeiro.”

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IDEIAS EM MOVIMENTO

PALHAÇOS, AFECTOS, MEL E DIFERENÇAS: OS PRIMEIROS COTADOS NA BVS Os primeiros quatro projectos cotados em bolsa foram seleccionados pela equipa de Celso Grecco que, seguindo algumas sugestões dos parceiros-fundadores, viajou pelo país à procura de pequenos projectos que primassem pelo seu carácter inovador e sustentável. Embora, segundo Celso, o processo desde a 1ª candidatura online até à eventual cotação em bolsa não demore mais do que 30 a 45 dias, entendeu-se que não faria sentido a bolsa abrir sem acções para vender à semelhança do que aconteceu no Brasil, onde a iniciativa não teve a mesma projecção e cobertura mediática que teve agora em Portugal. Enquadrados nos 2 grandes grupos temáticos da Bolsa, (Educação e Empreendedorismo Social) os primeiros quatro projectos cotados são o “Centro de Interpretação da Abelha e da Biodiversidade” da Cooperativa Terra Chã, “A Educação é a Melhor Prevenção” da Dianova, “Um Negócio que Faz a Diferença” da APPT21 e o projecto “Rir é o melhor remédio?” da Operação Nariz Vermelho.

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A Cooperativa Terra Chã foi constituída em 2001, na pequena aldeia de Chãos em plena Serra de Aire, para inovar os valores do passado para a construção do futuro. Hoje dinamizam a aldeia sobretudo através de projectos Eco-turísticos como a Rota dos Pastores com o seu rebanho comunitário. O projecto “Centro de Interpretação da Abelha e da Biodiversidade” que apresentam em bolsa visa por um lado, a valorização de produtos locais e, por outro, o reforço da atractividade do local enquanto destino de turismo de natureza. “O projecto envolve a construção de uma central meleira, para uma produção de 25 toneladas de mel por ano”, explica Júlio Ricardo, da Terra Chã, “por outro lado, resolve os problemas a nível da produção e comercialização do mel dos nossos apicultores e vai ser um ponto de visitação dentro das nossas actividades da cooperativas Terra Chã.


Já a Associação Portuguesa de Pessoas Portadoras de Trissomia 21 (APPT21) gere o Centro de Desenvolvimento Infantil “Diferenças” que apoia do ponto de vista clínico, terapêutico, escolar e social crianças portadoras de Trissomia 21 e Défices Cognitivos com ou sem causas conhecidas. Uma das iniciativas da associação foi juntar designers na criação de peças com “erros genéticos”: relógios, chávenas, clips e móveis “diferentes” cujas receitas da vendas reverteram a favor da organização. O projecto cotado em bolsa “Um negócio que faz a diferença” pretende continuar a seguir esse caminho: produzir e vender mais peças como forma de tornar autosustentável toda a vida financeira do Centro “Diferenças”. Segundo Miguel Palha, médico e presidente da APPT21 “com este projecto nós mudámos o nosso paradigma como instituição e hoje, em vez de dizermos que devemos respeitar as diferenças, a nossa grande utopia é valorizarmos as diferenças.”

Justus Kindermann

Rui Martins da Dianova explica, que o projecto apresentado “reside na criação de um parque lúdico-pedagógico de educação e formação orientado para pais e filhos.” Aquilo que é pretendido é estimular a relações e as afectividades como forma de prevenir comportamentos de risco – associados ou não ao consumo de substâncias ilícitas – e, por outro lado, combater o pouco tempo que os pais hoje dedicam aos filhos e que, muitas vezes, é um dos motivos pelos quais os jovens acabam por enveredar por estilos de vida mais negativos. Segundo Rui Martins “é um espaço inter-geracional, onde se espera que através de um conjunto de actividades de diversão, de vida saudável, de gestão de conflitos e de desenvolvimento de competências pessoais e sociais, seja possível diminuir situações de risco. “Pela experiencia que temos na área do tratamento, sabemos que, de facto, a afectividade tem um grande peso no processo de encontrar uma solução para os problemas”, remata Rui Martins.

“Pela experiencia que temos na área do tratamento, sabemos que, de facto, a afectividade tem um grande peso no processo de encontrar uma solução para os problemas” pág 33


IDEIAS EM MOVIMENTO

Por fim, a Operação Nariz Vermelho acredita que rir é o melhor remédio, mas resolveu transformar a afirmação numa pergunta e ter a certeza. O projecto cotado em BVS, além de dar resposta ao pedido do Hospital Universitário de São Marcos, que desde 2006 aguarda a possibilidade de ter os Doutores Palhaço na sua ala pediátrica, vai usar essa intervenção para estabelecer uma parceria com uma universidade, de forma a investigar e documentar o impacto da intervenção do Doutor Palhaço junto das crianças hospitalizadas, analisando efeitos físicos, emocionais e psicológicos.

“ Espero que um dia, as nações possam ser avaliadas por esta bolsa de valores e não pela outra.” Na cerimónia de lançamento da BVS, depois de brincar com palavras complicadas usadas na Bolsa de Valores, a presidente da associação, Beatriz Quintela, tira o nariz de palhaço para que todos percebam que não está a brincar e deixa expressa uma convicção: “ Espero que um dia, as nações possam ser avaliadas por esta bolsa de valores e não pela outra.” Para ser investidor social, aceda ao site http://www.bvs. org.pt conheça melhor cada um dos projectos cotados e faça o seu investimento. • ST

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Clube de Produtores Já pensou em todas as desvantagens que a lei da oferta e da procura pode ter tanto para quem produz como para si, que compra? Para os produtores, porque se há muita oferta, o preço desce tanto que se torna complicado vender tendo lucro; para si, porque se há pouca produção os preços sobem em flecha.

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A

pensar nestas oscilações de mercado inconvenientes para todos, a Sonae Distribuição criou o Clube de Produtores em 1998: os produtores podem aderir aos chamados contratos-programa através dos quais a Sonae lhes garante a compra de determinadas quantidades a um preço fixo justo. Através deste programa, a Sonae oferece aos seus produtores garantias de escoamento dos produtos e a si, consumidor, a certeza de não estar sujeito a pagar preços elevados pelo mesmo produto sempre que as produções são mais pequenas.

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A ideia inicial em 1998 foi esta mas, com o tempo, tornouse um trabalho intenso de parceria com os produtores no qual a Sonae transmite dois tipos de conhecimento. Por um lado, conhecimento técnico transmitido pelos técnicos da Sonae que visitam o terreno, promovem a formação dos produtores e aconselham-nos relativamente às melhores sementes a usar em determinada terra ou as culturas mais rentáveis. Por outro lado, o conhecimento de mercado, que passa por comunicar ao produtor qual o tipo de produto que o consumidor procura mais, podendo assim adequar as suas colheitas a essa procura.

Assim, todos ganham: ganha o produtor que além de escoar a produção começa a dominar ferramentas de trabalho que lhe permite fazer crescer a sua actividade e os seus lucros, ganha o consumidor que não só consegue preços justos e constantes como tem sempre disponíveis os produtos que procura com mais garantias de qualidade, ganha a Sonae pois o seu objectivo é ter produtores e consumidores satisfeitos, ganha a agricultura nacional que se moderniza e se torna mais forte e competitiva. •

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Fotos Cortesia Sonae Distribuição

Esta é também uma forma de apoiar a modernização da agricultura nacional tanto através da aproximação entre produtor e consumidor, ao trazer ao produtor conhecimentos do mercado, como através da melhoria da rentabilidade de terrenos.


INTENÇÕES MAIORES

Jefferson Noguera

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INTENÇÕES MAIORES

A HISTÓRIA ESCONDIDA DO

FUTEB pág pág 40 40

L

Texto Chris Milton Fotos Cortesia de Football’s Hidden Story/ Peter Dench


No calor árido de Israel e da Palestina, desenrola-se uma história tão velha quanto aquelas montanhas em seu redor. Um desafio foi lançado e não pode ser declinado; assiste-se a uma luta pelo mesmo objectivo. De cada lado vozes gritam: por vezes uivos de angústia e de oportunidades perdidas, por vezes gritos de júbilo vitorioso. Porque o futebol é isto: o desporto mais apaixonante, o mais popular e o mais praticado em todo o Mundo.

E

tem sarado aquelas feridas que nenhum político soube tratar. O programa “Twined Peace Sports Schols” foi lançado pelo Centro Peres para a Paz em 2002. Para além dos jogos de futebol, treinos e actividades de cariz social, este programa procura incentivar a paz e o entendimento entre as crianças israelitas e palestinianas. Yossi, um jovem israelita, ficou gravemente ferido por um míssil disparado de Gaza e necessitou de parafusos metálicos para conseguir salvar parte do seu braço esquerdo. É exactamente este tipo de experiências que pode reacender ressentimentos e ódios. Contudo, com Yossi, aconteceu precisamente o contrário. Em resultado da sua participação neste programa, os seus amigos dos territórios palestinianos deslocaram-se das suas escolas para o visitarem e tocaram-no profundamente com o seu cuidado e preocupação: “Eles são boas pessoas; vieram visitarme, são mesmo boas pessoas”

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INTENÇÕES MAIORES

A capacidade que o futebol tem de mudar a vida das pessoas há muito que foi reconhecida. Em 2007 e 2008, equipas de filmagem patrocinadas pela FIFA , viajaram por todo o mundo , capturando outras histórias incríveis, que mostram como o futebol tem ajudado tanta gente a ultrapassar as suas dificuldades. Vinte e seis destas histórias foram publicadas sob o título Football’s Hidden Story (“ A História Escondida do Futebol”), uma colecção de vídeos e histórias que mostram diferentes modos através dos quais o desporto pode ajudar vidas e comunidades a crescer. O projecto põe a descoberto muitas histórias como a de Yossi, onde o conflito armado é gradualmente substituído pela competição desportiva, em países como a Bósnia-Herzegovina e a Libéria. Contudo,a influência do futebol faz mais do que sarar feridas em países destroçados pela guerra, como mostram os exemplos seguintes: Dinesh vivia nas ruas de Calcutá, na India. Aos sete anos de idade já tinha perdido a esperança e simplesmente deixava-se usar e abusar por predadores homossexuais que, durante anos, o procuravam e violavam. Quando foi encontrado estava tão infectado com sífilis que precisou sentar-se num balde cheio de permanganato de potássio durante 6 semanas .Mais tarde Tim Grager, o homem que resgatou Dinesh desta vida e deixou o seu cargo de banqueiro no HSBC para fundar a Futurehope, ensinou-lhe as regras do futebol. Dinesh jogava e ria, fazia parte de uma equipa e aprendeu a ganhar e a ter auto-estima. Agora, centenas como ele seguem este trajecto. Transportam as vitórias do relvado para a sala de aula da Futurehope, e daí para a sua vida adulta. Foi-lhes dado um novo futuro. pág 42

“Quando corro no relvado, deixo de ouvir essas vozes. O inimigo deixa de estar dentro de nós; sai cá para fora e podemos fintá-lo e vencê-lo”.


Benedetto Quirino é um italiano de 40 anos, bemparecido. Cresceu no seio de uma família romana de posses e recebeu a melhor educação que o dinheiro pode pagar, tendo-se licenciado em Psicologia. É também esquizofrénico. Por vezes ao seu discurso tranquilo e eloquente é quebrado por vozes dentro da sua cabeça, que o perturbam, enfurecem e assustam, arrastando o homem confiante que parece, para recantos escuros da sua mente. Mas quando joga na ala direita da equipa de futebol do Dr Mauro Rafaelli, tudo muda ; as vozes param. Como o próprio Benedetto explica: “ Quando corro no relvado, deixo de ouvir essas vozes. O inimigo deixa

de estar dentro de nós; sai cá para fora e podemos fintá-lo e vencê-lo”. Os resultados são fenomenais: metade dos doentes conseguiram reduzir a medicação depois de terem começado a jogar e mais de metade retomaram o seu trabalho. Além disso, a medicação convencional actua como inibidor, reduzindo a actividade física e mental .O futebol, pelo contrário, estimula-a, assim libertando endorfinas no corpo que, por sua vez, combatem doenças associadas como a depressão. Mais de 50 equipas de esquizofrénicos disputam agora um campeonato nacional italiano que começa a ganhar reconhecimento como sendo um projecto pioneiro. pág 43


INTENÇÕES MAIORES

Juan era conhecido como “el pelaito”: O “Skinhead” (cabeça rapada). Andava pelas esquinas das ruas de Santiago, no Chile, roubando para sustentar a sua dieta de álcool e drogas enquanto aguardava a próxima briga. Então, um dia, foi convidado para jogar Futebol de Rua ( Fútbol Callahero) . Apesar de estar “pedrado”, foi-lhe permitido jogar e ainda lhe emprestaram uma bicicleta para que pudesse ir a casa equipar-se. Desde então, não mais olhou para trás. A única particularidade do Futebol de Rua é que são os próprios jogadores que definem as regras antes do jogo começar. Assim, tal como os golos, também outros factores como, o praguejar ou o fair-play são tidos em conta no resultado. No final do jogo ambas as equipas reúnem-se com um mediador e comparam o respectivo cumprimento das regras. Chega-se a um acordo quanto a um resultado final e o vencedor é, então, anunciado. Nos bairros degradados, por toda a América do Sul, onde a polícia não actua e as pessoas ficam à mercê da violência e dos traficantes de droga, esta forma de desporto é um bastião importante contra a desintegração social. Como afirma Pablo Hewstone Arqueros, treinador de futebol de rua em Santiago: “o mais importante é a relação que se cria entre os jovens, a alegria do jogo, e o facto de eles se avaliarem a si próprios para decidirem os pontos”. Desde os anos 80, vários projectos têm sido implementados pelo mundo fora, usando o futebol como base para promover a mudança e a harmonia sociais. Em 2002 a organização de solidariedade social Streetfootbalworld com sede na Alemanha, começou a unir esforços numa rede de organizações inter-relacionadas, que poderiam aprender umas com as outras. Este facto, por sua vez, atraiu organizações para o desenvolvimento social e uma grande variedade de benfeitores da área empresarial, desportiva e governamental, o que permitiu a esta rede crescer e ultrapassar os 70 membros em todo o mundo.

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Andava pelas esquinas das ruas de Santiago, no Chile, roubando para sustentar a sua dieta de รกlcool e drogas enquanto aguardava a prรณxima briga.

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INTENÇÕES MAIORES

Em 2007, Streetfootbalworld formou uma aliança estratégica com a FIFA e lançou o Programa Football For Hope . Pela primeira vez os mais bem pagos futebolistas profissionais tiveram um contacto directo com os praticantes de futebol de rua dos bairros mais pobres e degradados. Actualmente, o ponto fulcral do programa Football For Hope é a iniciativa “ 20 Centros para 2010”. Através dela espera-se, durante o Mundial de 2010, conseguir financiamento suficiente para construir 20 centros comunitários em todo o continente africano. A angariação de fundos já começou. Parte do acordo com os maiores parceiros do Campeonato Mundial prevê que por cada golo marcado nos jogos da fase de qualificação, sejam doados 500 dólares. Até este momento estima-se em 30.000 dólares o valor conseguido. Cada centro incluirá um pequeno relvado, mas são os outros equipamentos que estes centros oferecerão, que terão o maior impacto. Estes equipamentos de saúde e educação serão construídos junto aos relvados, nalguns casos incluindo quintas auto-suficientes na produção de energia, mercados e lotes para cultivo. O objectivo não é construir um estádio de futebol, mas sim um centro de saúde e educação. Cinco dos vinte Centros serão construídos na República da África do Sul, país anfitrião do Campeonato Mundial de Futebol de 2010. Os outros 15 serão construídos um pouco por todo o continente africano e serão geridos por membros do Projecto Football for Hope. Centros, que já foram anunciados, incluirão: Trinta e duas equipas de todo o mundo reunir-se-ão em Alexandra, na África do Sul. No dia 10 de Julho, véspera da final do Campeonato Mundial, serão consagrados os novos campeões de Futebol de Rua. Poderá haver onze vencedores em campo, nesse dia, mas graças aos esforços do programa Football for Hope, Streetfootballworld e da FIFA, a vida de centenas de milhares de pessoas mudará para sempre. • CM

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Graças aos esforços do programa Football for Hope, Streetfootballworld e da FIFA, a vida de centenas de milhares de pessoas mudará para sempre.


• Mathare Youth Sports Association , Quénia Fundado em 1987 nos bairros degradados de Nairobi, este projecto é conhecido pela sua longa e reconhecida história de trabalho comunitário. Das suas actividades constam bolsas de estudo para as crianças, oferta de câmaras e filmes para jovens fotógrafos promissores, limpeza de favelas e apoio a cerca de 300 crianças que são presas todas as semanas A associação mantém igualmente o contacto com todos aqueles que conseguiram deixar para trás a vida dos bairros pobres. Alguns foram estudar e trabalhar no estrangeiro, enquanto outros são agora futebolistas profissionais em várias Ligas europeias. • Esperance, Ruanda Este programa foi fundado em 1996, dois anos após os massacres e violações que deixaram a população da região dos Grandes Lagos traumatizada e dizimada. A sua abordagem é simples: cada equipa é formada por 3 rapazes e três raparigas, e não há árbitro . Os próprios jogadores são responsáveis por garantir o fair-play durante o jogo. Só os golos marcados pelas raparigas contam. Em 2009 a organização participará na Caravana da Paz, um torneio de futebol que percorrerá o Burundi, Uganda, Quénia, e Tanzânia e que pretende levar a mesma mensagem de união e respeito aos países vizinhos do Ruanda. • Malian Association for the Advancement of Young Girls and Women ( AMPJF), Mali Como acontece em muitas culturas do terceiro mundo, o Mali descobriu que as suas formas tradicionais de desenvolvimento do bem estar físico e psicológico dos jovens estão a ser varridas pela cultura e tecnologia ocidentais . Esta associação usa o futebol para colmatar esta falha, focando, sobretudo a condição das jovens raparigas, muitas das quais são afastadas das suas casas e desviadas para a prostituição . Em contrapartida esta associação apoia um programa de cultivo de carité, uma fruta que é uma valiosa fonte de hidratos de carbono, gorduras e proteínas e cuja colheita garante um considerável fundo financeiro para comunidades pobres.Football for Hope atingirá o seu clímax durante o Campeonato Mundial de Futebol de 2010, com a realização do 2º Campeonato Mundial de Futebol de Rua.

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Caixa i Unica Quando um consumidor entra na zona de frescos dum hipermercado, e coloca meio quilo de maçãs num saco para levar para casa, não está certamente a pensar em toda a cadeia de operações e logística necessária para lhe fazer chegar aquele produto às mãos: todas as pessoas que empenharam o seu trabalho no processo, todos os quilómetros de viagem que o produto fez e todos impactos ambientais que o processo pode ter causado.

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Gerhard Taatgen

E

m 2002, a Sonae Distribuição olhou para todo esse processo e achou-o complicado, pouco prático e pouco

amigo do ambiente: o seu conjunto vasto de fornecedores, da área de frutas e legumes tinha cada um o seu tipo de caixa de transporte, umas de cartão, outras de madeira, outras de plástico, todas com formatos diferentes. Isso implicava problemas que iam do enorme trabalho de escolha e separação de caixas para devolução aos fornecedores, ao transporte que era pouco rentável porque, como as caixas não eram normalizadas, havia muitos espaços vazios e um enorme volume de resíduos de madeira. Então, a Sonae Distribuição pensou no esquema que já era usado com as paletes: a maior parte das paletes existentes são fornecidas por duas grandes empresas e têm um formato normalizado. Quem precisa de paletes aluga-as mediante um fee de utilização e elas passam de um fornecedor e intermediário para o outro, até chegarem ao destino final. Chegadas ao destino, e estando já vazias, a empresa que aluga aos produtores vai buscálas para que entrem novamente no circuito de distribuição e respectivo aluguer. Com base neste processo, surgiu a pergunta: porque não fazer o mesmo com as caixas de transporte? Assim, a Sonae Distribuição liderou o desenvolvimento e introdução da chamada “Caixa Única” na cadeia de abastecimento e distribuição de frutas e legumes.

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O departamento de logística desafiou uma das maiores empresas produtoras de caixas, a Chep, a desenvolver esta ideia e deu um importante contributo quanto à forma: partindo do problema de aproveitamento do espaço das caixas antigas que, vazias, ocupavam o mesmo espaço que cheias, propuseram que fosse desenvolvida uma caixa com as partes laterais rebatíveis, ocupando muito menos espaço de transporte depois de vazia: uma palete com caixas normais levava 30 caixas e com estas caixas passou a levar 100. Portanto diminuíram em mais de três vezes os transportes e, consequentemente, as emissões de CO2, além disso, como a caixa é retornável em termos de resíduos de madeira nos entrepostos, em menos de dois anos reduziram-nos para metade. As vantagens eram tantas que todo o sector a adoptou e, neste momento, em qualquer hipermercado português se vê a caixa única: é a caixa verde onde estão expostas as frutas e legumes porque além de todas as outras vantagens, pode ainda ser usada para exposição

Fotos Cortesia Sonae Distribuição

dos produtos na loja. •

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INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

Dave Dyet

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INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

“Não podemos não mudar o mundo” mote do SocialDesignSite

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Nas últimas décadas, temos vindo a assistir a um maior envolvimento por parte de designers, e profissionais de outras áreas criativas, em questões de âmbito social. Na verdade, este compromisso social abrange todo um lequede produção criativa, desde o design à publicidade, das práticas artísticas ao cinema.Este movimento, apesar dos seus limites não serem nítidos, é por vezes rotulado - entre outras coisas - de design social. Esta expressão tem inúmeras acepções, e é usada de formas diversas, dependendo do contexto. Algumas definições referem-se ao design no seu sentido mais convencional, isto é, a elaboração de bens de consumo e de produtos materiais. Entre designers, design social refere-se a projectos e produtos que visam aumentar a qualidade de vida e o bem-estar humano. Texto Joana Bértholo Foto Lynn Becker www.massivechange.com / Andrew Maccoll www.indexaward.dk / Rui Matos pág 53


INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

U

m designer social tem como foco primordial a forma como comunicamos, trabalhamos, jogamos, consumimos... Outras abordagens, referem-se justamente à criação de uma realidade social diferente, o design do próprio mundo social, e das formas que temos vindo a escolher para construir as sociedades em que vivemos. Isto significa que o design social, enquanto método, abre portas à valiosa oportunidade de análise dos problemas e desafios sociais vigentes, para que melhor e mais criativamente os possamos enfrentar. Por ter de lidar com diferentes realidades e escalas sociais, está necessariamente ligado a disciplinas científicas como a sociologia, a antropologia, a psicologia social, a pedagogia, ou a gestão. Este é talvez um dos pontos mais interessantes no surgimento de um tal movimento dentro do design e das artes: que o conhecimento sistemático, que se atinge nestas disciplinas, possa transcender o âmbito académico e científico, e se disponibilize a ser sintetizado e materializado em projectos e produtos reais, quotidianos, disponíveis a todos nós. E estes produtos não são necessariamente objectos materiais. Podem ser de natureza conceptual, estratégica, projectos efémeros, ou baseados exclusivamente em relações interpessoais. Isto é, o design social tende a ser mais sobre as pessoas e as dinâmicas, do que sobre as coisas e os objectos. No entanto, o produto final é, frequentemente, um objecto com uma função específica: que auxilia uma população sem acesso a água potável a transportá-la facilmente por longas distâncias, uma casa a energia solar, ou um saco das compras que pode ser utilizado inúmeras vezes evitando o desperdício de plástico, entre muitos outros exemplos possíveis. Mas junto a estes exemplos, provenientes do âmbito do design industrial ou de produto, podem encontrar-se pág 54

Nunca se mudam as coisas combatendo a realidade existente. Para mudar alguma coisa, constrói um novo modelo que torne o actual modelo num modelo obsoleto. “


uma variedade de outros projectos que são até difíceis de caracterizar como design, uma vez que pertencem já ao âmbito do design de serviços, do design de experiência, da prática artística, da criação de eventos, ou até de estratégias de gestão organizacional e desenvolvimento. Indo mais longe, pode até tomar a forma de uma campanha, ou qualquer outro mecanismo que promova a consciencialização dos cidadãos sobre o impacto das suas escolhas quotidianas - o carro, as compras, as marcas, o lazer, a alimentação... O design social é caracterizado por esta abordagem crítica ao nosso entorno, convidando-nos a questionar sobre como fazemos o que fazemos, e porque fazemos como fazemos. Buckminster Fuller, um dos mais importantes precursores deste movimento, afirmou: “Nunca se mudam as coisas combatendo a realidade existente. Para mudar alguma coisa, constrói um novo modelo que torne o actual modelo num modelo obsoleto. “ O projecto Massive Change, por exemplo, promove o pensamento critico colaborativo através de diferentes media: um website, diversos eventos, livros, um programa de rádio, um fórum online e um blog. Este ambicioso esforço iniciou-se em 2002 para tentar traçar a complexidade do nosso mundo, crescentemente interligado (e desenhado). Dedicou-se a avaliar as capacidades e as limitações do esforço humano para mudar o mundo para melhor, trazendo-os constantemente a uma luz crítica. “ Massive Change não é sobre o mundo do design, é sobre o design do mundo” e explora o poder do designna melhoria do bem-estar e da qualidade de vida humanas. pág 55


INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

Foi criado como colaboração entre a Bruce Mau Design e o Instituto sem Fronteiras (Institute Without Boundaries). Já a exposição “Design para os outros 90%” (Museu Nacional de Design, Nova Iorque, 2007), enfatizava o facto de que, dos 7 biliões de habitantes que constituem hoje a população do nosso planeta, 90% não têm acesso aos serviços e bens mais básicos. Aqueles serviços e aqueles bens que, nos países mais industrializados, podem ser tomados como garantidos. Dr. Paul Polak, da International Development Enterprises, disse que “A maioria dos designers do mundo concentram todos os seus esforços no desenvolvimento de produtos e serviços exclusivamente para os 10% de clientes mais ricos do mundo” e que “é necessário nada menos do que uma revolução no design para alcançar os outros 90%. “Pois esta exposição apresenta o trabalho de designers a desenvolver soluções de baixo custo para esses “outros 90%”. Estas soluções foram desenvolvidas junto das próprias populações carenciadas, as mesmas a que se propunham ajudar, tendo sido realizadas por designers em cooperação com engenheiros, estudantes e professores, arquitectos, trabalhadores sociais e empresários de todo o mundo. São então exemplos de formas eficientes, e de baixo custo, de promover e facilitar o acesso a alimentos, água, energia, educação, saúde, transporte e sustentabilidade económica. Algumas destas inovações são patenteadas, alegadamente para controlara qualidade de suas actualizações. Mas existem muitas que estão disponíveis em regime aberto, como open-source. Isto significa que qualquer designer, de qualquer outro lado do mundo, quando enfrentando desafios semelhantes, pode optimizar e propagar estas soluçõesjá previamente testadas.

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A maioria dos designers do mundo concentram todos os seus esforรงos no desenvolvimento de produtos e serviรงos exclusivamente para os 10% de clientes mais ricos do mundo.

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INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

DESIGN PARA O MUNDO REAL A noção de Design para o Terceiro Mundo, notória na exposição acima citada, pode ser identificada desde logo, e muito antes, em Victor Papanek. Papanek juntamente com Buckminster Fuller, William Morris, Victor Margolin, Bruce Mau, John Thackara, Milton Glaser ou Tibor Kalman, entre outros - foi um dos mais importantes percursores teóricos do design social, na década de 70. Papanek foi o primeiro a escrever extensivamente sobre a ideia de que os designers, e profissionais criativos em geral, têm responsabilidade sobre o seu entorno social, e são capazes de provocar uma verdadeira mudança no mundo através de bom design. A este bom design, chamou ele design responsável, conceito que abrange diferentes direcções, uma delas o design para o terceiro mundo. Um dos seus mais importantes livros intitula-se Design For The Real World (Design para o mundo real, ecologia humana e mudança social). A sua primeira edição, de 1971, é ainda surpreendentemente do nosso tempo, e até visionária, no sentido de que aquilo a que se propõe ainda estar por cumprir. Papanek defende a ideia de que os designers devem procurar responder às reais necessidades humanas, e não aos seus desejos. Esta ideia está completamente em desacordo com as politicas de marketing vigentes desde o pós-guerra, na nossa sociedade de consumo, que na altura, em que Papanek primeiro se lhes opôs, quase não conheciam oposição.

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O PRÉMIO INDEX

E todos os projectos referidos neste artigo como o Massive Change, Design para os outros 90% ou o Prémio Index, e muitos mais, podem ser encontrados em www.socialdesignsite.com

Hoje em dia, existem incontáveis projectos que demonstram como a comunidade dos designers pode participar na resolução dos desafios globais e melhorar a qualidade de vida como ela é vivida em circunstâncias muito diferentes ao redor do mundo. Sediado em Copenhaga, o prémio INDEX: centra-se pois nesse design que pretende melhorar substancialmente a qualidade da vida humana. O evento bienal inclui a cerimónia de atribuição do maior prémio de design do mundo, e uma exposição de todos os projectos finalistas. Em torno destes orbitam uma série de eventos de escala menor, mas de similar relevância, visto que se dedicam a um público estudantil ou académico. Todos os projectos nomeados podem ser admirados no site: www.indexaward.dk

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INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

O SOCIALDESIGNSITE Não podemos não mudar o mundo. Não sendo ainda possível alinhavar com linhas sólidas o âmbito do design social,o que podemos fazer, em lugar disso, é observar o que tem vindo a ser o design social na sua prática e, a partir da multiplicidade das suas expressões, ir promovendo um debate gerador de uma ideia aproximada. É isso que o SocialDesignSite, através da sua exposição de projectos, nos convida a fazer. Este lema implica desde logo uma percepção da realidade como algo arquitectado pelo Homem. Consequentemente, por ele alterada, o tempo todo. Isso é inevitável, e sucede quer as pessoas estejam cientes disso, ou não. A nossa realidade social é criada como resultado da soma de todas as nossas acções individuais. Todas elas, o tempo todo, em todos os lugares. Este ponto é basilar no entendimento desta plataforma online: a sua crença em que a responsabilidade individual para com o todo social tem de ser trazida de volta ao discurso. O SocialDesignSite é um projecto originalmente criado por um think tank sediado em Berlim, The Systemic Excelence Group. Tornou-se mais tarde numa organização independente sem fins lucrativos, mantendo o SEgroup um papel de moderador e observador do processo. Os projectos a que o site recorre para ilustrar uma definição possível de design social vão muito para além do design, incluindo projectos de arquitectura, engenharia, arte, activismo, gestão, política, desenvolvimento - em suma, qualquer expressão da acção humana sobre o seu contexto social. Participação cívica, cultura, tradição, economia, educação, meio ambiente, ética, comércio justo, alimentação, relações humanas,conhecimento, informação, linguagem, liderança, ciência, inovação, desporto, urbanismo... E estes são apenas alguns exemplos das palavras chaves através das quais se pode explorar este corpo crescente de projectos. • JB

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Rui Matos

A nossa realidade social é criada como resultado da soma de todas as nossas acções individuais. Todas elas, o tempo todo, em todos os lugares.

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Missão Sorriso

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fonso, que nasceu prematuro no Hospital Amadora Sintra, ficou ligado a um ventilador durante um mês; André, que tem um défice de concentração frequenta um espaço de intervenção terapêutica na área da saúde mental no Garcia de Orta; Cristina que acumula secreções no aparelho respiratório é ligada a um Cof assistance que a ajuda a eliminá-las no Maria Pia, no Porto. Tudo aparelhos e infraestruturas que a Sonae e os clientes do Modelo e Continente tornaram possível terem. Desde 2003, através da venda de produtos e DVD’s infantis da Leopoldina nos hipermercados Continente, a Missão Sorriso tem angariado verbas para a compra de equipamento médico e ludo-didáctico para as unidades pediátricas de hospitais portugueses. E, com a ajuda dos portugueses que participam nesta iniciativa, o Continente já contribuiu com mais de 3,5 milhões de euros que, além de significarem mais de 1,500 equipamentos doados a mais de 30 hospitais, representam também milhares de sorrisos. Em 2009, a participação dos portugueses foi mais longe e puderam também decidir a que instituições doar: estiveram a concurso 27 projectos de Hospitais Pediátricos, Maternidades ou Hospitais com serviço de Pediatria e Obstetrícia e, através do site da Missão Sorriso, os portugueses escolheram os 11 vencedores através de votação. Com a sua valiosa ajuda, a Missão Sorriso vai continuar, ano após a ano, a ajudar a melhorar os hospitais portugueses, a satisfazer os anseios dos profissionais de saúde, a dar esperança a muitas de famílias e a fazer nascer milhares de sorrisos nos rostos das crianças. •

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