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Anais do II Seminário de Atualização Florestal e XI Semana de Estudos Florestais

TERMOTERAPIA VIA CALOR ÚMIDO PARA TRATAMENTO DE SEMENTES DE Lonchocarpus muehlbergianus Hassl. - Fabaceae Marília Lazarotto*, Ricardo Mezzomo, Caciara Gonzatto Maciel, Marciéli Pitorini Bovolini, Marlove Fátima Brião Muniz *Departamento de Defesa Fitossanitária, Centro de Ciências Rurais – Universidade Federal de Santa Maria, Avenida Roraima, CEP, Santa Maria/RS, lilalazarotto@yahoo.com.br RESUMO O objetivo do presente estudo foi verificar o efeito da termoterapia, aplicada via calor úmido, sobre a germinação e a incidência de fungos em sementes de Lonchocarpus muehlbergianus (rabo-de-bugio). Para tanto, foram utilizadas sementes procedentes do estado do Paraná, coletadas em 2006, as quais foram expostas ao calor úmido (água quente a 50°C), sendo os tratamentos compostos pelos diferentes tempos de imersão, como segue: T0 – Controle (sem exposição), T1 – 10 minutos, T2 – 20 minutos, T3 – 30 minutos e T4 – 40 minutos. Após, foi realizado teste de germinação, com avaliação de plântulas normais, anormais, sementes duras e mortas, e teste de sanidade em papel-filtro. As percentagens de plântulas anormais e sementes mortas, em geral, aumentaram com o tempo de exposição ao tratamento. Com relação à sanidade, os tratamentos T3 e T4, eliminaram alguns fungos e reduziram a incidência de outros, porém o T1 foi o tratamento que reduziu a incidência de alguns patógenos, sem prejudicar a germinação da espécie. Desta forma, recomenda-se a imersão das sementes de L. muehlbergianus em temperatura aquecida (50°C) por até 10 minutos, para redução da incidência de fungos e para facilitar a germinação de suas sementes.

Introdução A espécie Lonchocarpus muehlbergianus, conhecida popularmente por rabo-de-bugio, pertence à família das leguminosas – Fabaceae, que ocorre nos estados de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Esta espécie arbórea possui grande importância ambiental por ser pioneira e rústica, recomendada para recuperação de áreas degradadas, e possui potencial para uso paisagístico, pois sua floração é um dos pontos fortes da espécie (LORENZI, 1992). Porém, praticamente inexistem trabalhos sobre a espécie, especialmente relacionados às suas sementes. Para evitar a disseminação de doenças, é imprescindível que se utilize sementes, ou outro material propagativo, sadio. Para isto, podem-se empregar alguns tratamentos para a redução de micro-organismos associados às mesmas, tais como tratamento químico, biológico, físico ou a utilização de extratos vegetais com propriedades antifúngicas (LAZAROTTO, 2010). Informações a respeito de tratamentos de sementes florestais, especialmente as nativas, são escassos. O uso de tratamentos alternativos, tais como a termoterapia, pode ser uma alternativa viável para o tratamento de sementes. Para Ghini e Bettiol (1995), o princípio básico desta técnica é eliminar o patógeno com determinadas relações tempo-temperatura que não prejudiquem significativamente o material vegetal. A termoterapia pode ser aplicada via calor úmido (água quente ou vapor) ou calor seco. Este último apresenta menor capacidade térmica ou troca de calor que a via úmida, requerendo, portanto, maior tempo de exposição (SILVA et al., 2002). Diante do exposto, o objetivo do presente estudo foi verificar o efeito da termoterapia, aplicada via calor úmido, sobre a germinação e a incidência de fungos em sementes de


Anais do II Seminário de Atualização Florestal e XI Semana de Estudos Florestais Lonchocarpus muehlbergianus (rabo-de-bugio). Material e Métodos Origem e data de coleta das sementes As sementes de rabo-de-bugio foram fornecidas pelo Laboratório de Sementes da Embrapa Florestas – Colombo/PR. Estas eram procedentes de diversos municípios do estado do Paraná e foram coletadas no ano de 2006. As sementes estavam armazenadas em câmara fria (6-8°C) sob baixa umidade relativa. Tratamentos As sementes foram submetidas ao calor úmido da seguinte forma: colocava-se certa quantidade de sementes dentro de pedaços de gases que eram fechados com barbante de algodão (pacotes), os quais, posteriormente, eram colocados em banho-maria (água-quente) sob temperatura constante de 50°C. Os tratamentos foram compostos de diferentes períodos, em minutos, nos quais as sementes ficam imersas na água quente, sendo: T0 – Controle (sem exposição ao calor úmido), T1 – 10 minutos, T2 – 20 minutos, T3 – 30 minutos e T4 – 40 minutos. Avaliações Após a imersão das sementes em água quente, como foi descrito anteriormente, foram realizados testes de germinação e teste de sanidade em papel-filtro. O teste de germinação foi realizado com 100 sementes para cada tratamento, divididas em quatro repetições de 25 sementes, as quais foram colocadas em caixas plásticas (Gerbox®), previamente desinfestadas com hipoclorito de sódio 1%, e forradas com duas folhas de papel-filtro umedecidas com água estéril. Estas foram incubadas a 25°C e fotoperíodo de 12 horas de luz branca/12 horas de escuro. As avaliações ocorreram aos 10 dias, com contagem de plântulas normais (germinação), plântulas anormais, sementes duras e sementes mortas, conforme descrições de Brasil (2009). Os resultados foram expressos em percentagem. Para o teste de sanidade, também foram utilizadas 100 sementes para cada tratamento, divididas em quatro repetições de 25 sementes, as quais foram colocadas em caixas plásticas (Gerbox®), previamente desinfestadas com hipoclorito de sódio 1%, e forradas com duas folhas de papel-filtro umedecidas com água estéril. A incubação ocorreu em ambiente de laboratório, sem controle de temperatura e fotoperíodo. Aos sete dias da instalação do teste, realizou-se a identificação dos fungos associados às sementes com auxílio de descrições morfológicas de Barnett e Hunter (1972). Os resultados foram expressos em incidência de fungos (%). Análise estatística O delineamento experimental utilizado foi completamente casualizado, com quatro repetições para cada teste realizado. Para a análise de variância, os dados obtidos foram transformados segundo arc sen √x/100 para obter homogeneidade de variância. Para as variáveis do teste de germinação, realizou-se a regressão polinomial, em função dos tratamentos (tempos de exposição ao calor úmido), onde foram testados os modelos linear, quadrático e cúbico, sendo que, para explicar os resultados, foi selecionado o modelo significativo de maior ordem, que promovesse as estimativas para a ocorrência de determinado evento. Para a sanidade, foi realizada a comparação de médias entre tratamentos pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. Para todas as análises, o Sistema de Análise Estatística - SANEST (ZONTA e MACHADO, 1986) foi utilizado.


Anais do II Seminário de Atualização Florestal e XI Semana de Estudos Florestais Resultados e Discussão Na Figura 1, pode-se observar o resultado do teste de germinação, representado pela percentagem de plântulas normais, para os tratamentos com calor úmido em sementes de rabo-debugio. Para esta variável, o modelo quadrático foi o que melhor se ajustou aos resultados, sendo o ponto de máxima germinação (50%) observado em T1 – 10 minutos. A partir deste ponto, a tendência para a germinação da espécie é diminuir com o tempo de exposição ao calor úmido a 50°C, sendo observada apenas 10% de plântulas normais com 40 minutos de exposição (T4). 60

Germinação (%)

50 40 30 20 Germinação: y = -0,0237x2 + 0,3196x + 42,1243 R2 = 0,96

10 0 0

10

20

30

40

50

Período (minutos)

Figura 1 – Equação representativa da modificação ocorrida na germinação de sementes de Lonchocarpus muehlbergianus após tratamento com termoterapia via calor úmido. Santa Maria, RS, 2010.

Para as variáveis plântulas anormais e sementes mortas, os modelos que melhor se ajustaram aos resultados foram o linear e o quadrático, respectivamente (Figura 2). Porém, observa-se a mesma tendência de aumento de plântulas anormais e sementes mortas com a progressão do tempo de exposição das sementes ao calor úmido, demonstrando que períodos prolongados prejudicam o vigor das sementes da espécie. Para as sementes duras, não houve modelo significativo que se ajustasse aos resultados, por isso esta variável não está representada na Figura 2. 60

Sementes M ortas: y = 0,014042 - 0,2827x + 34, 8026 R2 = 0,93

SM e PA (%)

50 40 30 20

Plântulas Anormais: y = 0,4361x + 17,6354

10

R2 = 0,92

0 0

10

20

30

Período (minutos) Sementes Mortas

40

50

Plântulas Anormais

Figura 2 – Equações representativas das modificações ocorridas nas variáveis plântulas anormais e sementes mortas do teste de germinação de sementes de Lonchocarpus muehlbergianus, após tratamento com termoterapia via calor úmido. Santa Maria, RS, 2010.


Anais do II Seminário de Atualização Florestal e XI Semana de Estudos Florestais Lazarotto et al. (2009) verificou efeito benéfico do calor úmido, aplicado a 50°C por 30 minutos, em sementes de Cedrela fissilis, pois este tornou a germinação da espécie superior ao tratamento testemunha; o contrário foi verificado por Durigon et al. (2009), que observaram que o calor úmido, aplicado na temperatura de 60°C, para o tratamento de sementes de cevada (Hordeum vulgare) prejudicou a germinação da espécie, reduzindo seu potencial com o tempo de exposição e aumentando a percentagem de sementes mortas. Os fungos Aspergillus flavus, A. niger, e Rhizopus sp. ocorreram em todos os tratamentos; Penicillium sp. foi eliminado pela imersão em água quente por 40 minutos (T4) e Trichoderma sp., pela imersão por 30 e 40 minutos (T3 e T4), como pode ser observado na Figura 3. Observa-se que os tratamentos com 30 e 40 minutos de exposição ao calor úmido reduziram a incidência de vários patógenos com relação ao tratamento controle, exceto de A. flavus, além de aumentar a percentagem de sementes isentas de fungos, porém, estes mesmos tratamentos provocaram a diminuição do vigor das sementes, ocasionado baixa germinação, como foi visto na Figura 2. Já o tratamento com 10 minutos de exposição ao calor úmido (T1), reduziu a incidência de vários micro-organismos patogênicos, além de obter os melhores resultados no teste de germinação (Figura 1 e 2), indicando que este tratamento reduz a incidência de fungos sem prejudicar o vigor das sementes. 70

* Significativo a 5% (Teste de Tukey entre tratamentos)

a

Incidência (%)

60 50 40

a b

30 abc*a bc

20 b

10

b

a

a

b

b

c

ab

ab

b bc

a ab b

b

b

c

c

bc c

ab

c

c

c

0 0

10

20

30

40

Período (minutos) Aspergillus flavus

Aspergillus niger

Penicillium sp.

Rhizopus sp.

Trichoderma sp.

Isentas de fungos

Figura 3 – Incidência (%) de fungos em sementes de Lonchocarpus muehlbergianus, após tratamento com termoterapia via calor úmido. Santa Maria, RS, 2010.

Alguns trabalhos confirmam o efeito benéfico do tratamento de sementes com calor úmido, tais como os de: Lazarotto et al. (2009), no qual verificaram que a imersão das sementes de Cedrela fissilis em água à 50°C por 30 minutos é eficiente para erradicação de fungos como Ascochyta spp., Colletotrichum spp., Pestalotia spp., Rhizoctonia spp. e Trichoderma spp., porém aumentou a incidência de Aspergillus niger, o que pode ter sido ocasionado pela alta umidade. Coutinho et al. (2007) utilizaram a imersão em água à 60°C, por 5,10, e 20 minutos em sementes de milho (Zea mays) e verificaram que todos os tratamentos eliminaram Acremonium strictum das sementes e o tratamento térmico por 10 e 20 minutos reduziu a incidência de Fusarium verticillioides, porém, o tratamento por 20 minutos alterou a viabilidade das sementes.


Anais do II Seminário de Atualização Florestal e XI Semana de Estudos Florestais Conclusão Recomenda-se a imersão das sementes de L. muehlbergianus em temperatura aquecida a 50°C por até 10 minutos, para redução da incidência de fungos associados às suas sementes, bem como para promover a germinação da espécie. Referências BARNETT, H.L.; HUNTER, B.B. Illustred genera of imperfect fungi. 3 nd ed. Minnesota: Burgess Publishing Company, 1972. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regras para Análise de Sementes. Brasília: MAPA/ACS. 2009. 399 p. COUTINHO, W.M.; ARAÚJO, E.; MAGALHÃES, F.H.L. Efeitos de extratos de plantas anacardiáceas e dos fungicidas químicos benomyl e captan sobre a microflora e qualidade fisiológica de sementes de feijoeiro (Phaseolus vulgaris L.). Ciência e Agrotecnologia, Lavras, v. 23, n. 3, p. 560-568, 1999. DURIGON, M.R.; GIRARDI, L.B.; WEBER, M.D.N.; MEZZOMO, R.; LAZAROTTO, M.; BLUME, E.; MUNIZ, M.F.B. Tratamento de sementes de cevada com calor úmido. Revista Brasileira de Agroecologia, Porto Alegre, v. 4, n. 2, p. 961-964, 2009. GHINI, R.; BETTIOL, W. Controle físico. In: BERGAMIN FILHO, A.; KIMATI, H.; AMORIN, L. (Eds.). Manual de fitopatologia: princípios e conceitos. 3. ed. São Paulo: Agronômica Ceres, v.2.1995. p. 786-800. LAZAROTTO, M.; GIRARDI, L.B.; MEZZOMO, R.; PIVETA, G.; MUNIZ, M.F.B.; BLUME, E. Tratamentos alternativos para o controle de patógenos em sementes de cedro (Cedrela fissilis). Revista Brasileira de Agroecologia, Porto Alegre, v. 4, n. 2, p. 75-78, 2009. Exemplos: LAZAROTTO, M. Qualidade fisiológica e sanitária de sementes de cedro e patogenicidade de Rhizoctonia spp. 2010, 90p. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS. LORENZI, H. Árvores brasileiras: Manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas no Brasil. 4. ed., v.1. Nova Odessa, SP: Instituto Plantarum, 2002. SILVA, A.M.S. ; CARMO, M.G.F.; OLIVARES, F.L.; PEREIRA, A.J. Termoterapia via calor seco no tratamento de sementes de tomate: eficiência na erradicação de Xanthomonas campestris pv. vesicatoria e efeitos sobre a semente. Fitopatologia Brasileira, Brasília, v. 27, n. 6, p.586-593, 2002. ZONTA, E. P.; MACHADO, A . A. Sistema de análise estatística para microcomputadores SANEST. Pelotas: UFPel, Instituto de Física e Matemática, 1986. 150p.


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