Issuu on Google+

Tantrismo Doutrina, Prรกtica, Arte, Ritual...


Pierre Feuga

Tantrismo Doutrina, Prática, Arte, Ritual...

Tradução: Idalina Lopes


Ă€ mais bela dos trĂŞs mundos


Índice Introdução.....................................................................................11 Primeira Parte: A Doutrina Capítulo I: A Paisagem Tântrica: Aspectos e Aparências........16 1. Dificuldades de tempo e de lugar.......................................16 2. A literatura tântrica............................................................19 3. O tantrismo é de origem ariana ou dravidiana?.................27 4. A doutrina dos ciclos cósmicos e o kali-yuga....................32 5. As cinco correntes do tantrismo hindu...............................44 6. “Mão Direita” e “Mão Esquerda”......................................54 7. Conexões entre o tantrismo hindu e o tantrismo búdico....59 8. Esboços sobre o tantrismo tibetano....................................68 9. A linguagem intencional....................................................78 Capítulo II: Metafísica e Cosmologia dos Tantras...................85 1. Lugar privilegiado do tantrismo da Caxemira....................85 2. A esfera da Energia............................................................90 3. A esfera da Ilusão...............................................................92 4. A esfera da Natureza..........................................................97 5. A esfera da Terra. Carma e Samsara.................................104 6. Os cinco estados da Consciência......................................108 Capítulo III: O Microcosmo Humano: os Três Corpos..........114 1. Analogia entre o Universo e o ser humano.......................114 2. Corpo causal e corpo grosseiro.........................................116 3. Triplo aspecto do corpo sutil.............................................118 4. Os dez sopros vitais..........................................................121 5. As nadi..............................................................................125 6. A Kundalini.......................................................................127 7. Os chakras.........................................................................128 –7–


8

Tantrismo – Doutrina, Prática, Arte, Ritual...

I. Muladhara-chakra......................................................132 II. Svadhishthana-chakra...............................................135 III. Manipura-chakra......................................................138 IV. Anahata-chakra.........................................................140 V. Vishuddha-chakra......................................................143 V b. – Talu......................................................................145 VI – Ajña-chakra............................................................146 VI b. – Centros menores do cérebro...............................148 VII – Sahasrara-chakra..................................................149 Capítulo IV: Qualificação e Obstáculos...................................154 1. O princípio de adequação..................................................154 2. Rebanho, heróis e deuses..................................................156 3. A destruição dos vínculos.................................................159 4. Os sinais do herói..............................................................164 5. A iniciação........................................................................168 Segunda Parte: A Prática Capítulo V: A Vida Ritual..........................................................175 1. Peregrinações e circum-ambulações.................................175 2. Linga e yoni.......................................................................179 3. Preparações e purificações................................................185 Capítulo VI: O Caminho dos Mantras......................................195 1. Onipresença do mantra nas tradições da Índia..................195 2. O Som e o Sentido............................................................197 3. O despertar do mantra. A ascensão do Verbo...................199 4. Como classificar os mantras?............................................201 5. OM ou AUM, chave de toda a linguagem.........................205 6. Principais sementes verbais..............................................206 7. Alguns mantras desenvolvidos..........................................208 Capítulo VII: O Caminho das Formas.....................................211 1. Sentido e limite desse caminho.........................................211 2. Formas abstratas primordiais............................................212 3. O yantra hinduísta.............................................................223 4. A mandala búdica.............................................................227 5. Exemplo de uma arte tântrica puramente feminina..........232 6. Facetas da arte tântrica......................................................237


Índice

Capítulo VIII: O Yoga Tântrico.................................................246 1. Lugar do yoga tântrico entre os outros yogas. Suas diferentes variedades....................................................246 2. Yama e niyama..................................................................249 3. Asana.................................................................................252 4. Purificação das nadi..........................................................254 5. As seis ações.....................................................................257 6. Principais pranayama........................................................260 7. Mudra................................................................................264 8. Samadhi. As três joias.......................................................271 Capítulo IX: A Iluminação Amorosa........................................279 1. Delimitação do assunto.....................................................279 2. O círculo do encantamento...............................................282 3. Ágapes tântricas................................................................285 4. Adoração da mulher..........................................................290 5. Posição invertida e outras. Semente masculina.................292 6. A semente feminina. A mulher como Água e a mulher como Fogo...........................................................298 7. O sabor comum.................................................................305 8. Os jogos do Dragão e da Tigresa. Comparação entre o tantrismo e o taoismo sexual.................................................309 9. Alquimia erótica................................................................321 Conclusão.....................................................................................330 Bibliografia..................................................................................333 Índice Remissivo..........................................................................341

9


Introdução Entre as diversas tradições que do Oriente chegaram até nós há um século ou um século e meio, nenhuma continua sendo tão mal conhecida e, principalmente, tão mal compreendida quanto o tantrismo. A essa ignorância, agravada pela hostilidade de alguns, algumas explicações podem ser agregadas. Em primeiro lugar, os indianistas ocidentais – isso, por sinal, vai de encontro à repugnância dos inúmeros pandits (eruditos em sânscrito) e brâmanes – negligenciaram por muito tempo o estudo da literatura tântrica. Mesmo não considerando o distanciamento criado por preconceitos puritanos, eles não conseguiam enxergar nesses textos esotéricos, cuja chave lhes escapava, senão um amontoado de receitas mágicas desprovido da alta espiritualidade que brilha nos Upanishads ou no Bhagavad gita. Ao “materialismo” triunfante do Ocidente, era de bom tom opor-se o “espiritualismo” da “Índia eterna”, o “misticismo” quase cristão do bhakti, “pura metafísica” do Vedanta. O tantrismo, com sua insistência nos meios práticos da “libertação”, em sua exaltação do corpo, a qual diz mais respeito ao sexo, em seu desprezo pela moral comum e em seu anticonformismo social, parecia um elemento barroco no majestoso conjunto da tradição bramânica, uma espécie de corpo estranho, um corpo de escandalosa excrescência o qual se tentava relacionar a um substrato “não ariano”, “pré-védico”. A questão não foi resolvida e corre o risco de nunca sê-lo. O fato de que o tantrismo (ou melhor, o shaktismo) se assemelha a inúmeros cultos naturalistas e ginecocráticos da Ásia, da África ou da Bacia Mediterrânea antiga não é contestado. Mas seria possível defender, sem forçar a interpretação dos textos, que vários dos temas essenciais dos tantras – ativação do “calor ascético”, plenitude sensorial e vital, importância do som encantatório – já se encontram no Veda, isto é, em uma revelação levada à Índia pelos invasores vindos do Norte e – 11 –


12

Tantrismo – Doutrina, Prática, Arte, Ritual...

que uma moda recente – ao contrário da antiga que os glorificava por razões às vezes suspeitas – tende a denegrir de forma muito sistemática. Desde a década de 1960 e, principalmente, na década de 1970, o tantrismo atraiu a atenção do grande público – essa expressão devendo ser relativizada – por uma dupla razão. De maneira geral, deve-se reconhecer que existe uma verdadeira obsessão pela “energia” em nossa época: ora, o tantrismo é por excelência a doutrina da energia (iluminada pela consciência, o que geralmente é esquecido). De maneira mais particular, a “libertação sexual” do Ocidente – tão ilusória e lastimável que muitas vezes permanece nos fatos – favoreceu uma atração pelos ensinamentos cujo erotismo sempre foi utilizado com um objetivo iniciático e não profano: e assim é o tantrismo, como também o taoismo e, talvez amanhã, quem sabe qual novo “ismo” será descoberto ou redescoberto. Obras mais ou menos sérias ou provocantes começaram então a aparecer sobre o assunto, oferecendo mirabolantes receitas de êxtase amoroso aos leitores carentes de sensações exóticas. Mas, mesmo no caso de poder dar crédito às informações fornecidas, é essencial lembrar que essas técnicas são de alcance limitado e, além do mais, perigosas assim que forem extraídas de seu contexto sagrado e desviadas para uma simples busca de “prazer”. Na verdade, são raros os homens e as mulheres que seriam capazes de aplicá-las efetivamente, pelo fato de exigirem domínio corporal e maturidade psíquica. Para a maioria, a referência ao tantrismo permanece de ordem livresca, fantasista, quando não serve de álibi para experiências bastante perturbadoras ou para uma banal vontade de poder. Se tais confusões ou mistificações se tornaram possíveis e, infelizmente, não apresentam nenhum sinal de declínio, também é porque o tantrismo, mesmo quando abordado com honestidade e sinceridade, permanece de difícil apreensão, fazendo com que seja mais fácil ficar apenas brincando às suas “margens”, com suas partes, previstas e desejadas, de furtividade e de ambiguidade. Por que então defini-lo, afinal, se o indivíduo não está decidido a vivê-lo sob orientação de um verdadeiro mestre – e esse mestre, onde e como encontrá-lo? Embora seu ritualismo seja muito desenvolvido, o tantrismo não é uma religião: o dogma lhe faz falta e sua moral, elitista demais e paradoxal, não poderia ser imposta à massa dos homens. Tampouco é uma filosofia, mesmo pensando que seu espírito esteja envolvido em alguns dos sistemas metafísicos mais elaborados que a Índia produziu (shivaísmo da Caxemira, Budismo Mahayana). Enfim, embora tenha impregnado todas as ciências que chamaríamos de “ocultas” (astrologia, alquimia, magia, etc.), não


Introdução

13

podemos compará-lo a nenhuma delas. Ele supera todas, e nenhum aspecto da vida pareceu-lhe indigno de atenção. Muito mais do que uma disciplina específica, o tantrismo aparece então como uma dimensão interior da indianidade, um dinamismo constante e, ao mesmo tempo, manifesto e secreto (que é sua grande força), perceptível em toda parte e, no entanto, oculto, tal como um coração vibrante. É por isso que, hoje, o problema de sua “ortodoxia” parece bastante acadêmico. Vishnuísmo, shivaísmo, ioga, bhakti e até mesmo Vedanta foram por tanto tempo provocados e depois coloridos pelo tantrismo até o ponto de não imaginarmos mais o que seriam esses ensinamentos sem o tantrismo. Até mesmo correntes “heterodoxas” do estrito ponto de vista bramânico – como o jainismo e, sobretudo, o Budismo – foram poderosamente marcadas ou reorientadas pelo espírito dos tantras. Esse espírito brilha de forma evidente na tradição tibetana, sobre a qual falarei com frequência neste livro. Também encontramos vestígios do tantrismo na China, no Japão e em outros países da Ásia, inclusive em países muçulmanos. Em todas essas regiões, o gênio tântrico – equilíbrio sutil de liberdade moral, de relativismo intelectual e de alta tecnicidade espiritual –, esse gênio eficaz e destacado infiltrou-se, assumindo, conforme a necessidade, esta ou aquela máscara religiosa ou mágica, como amanhã, em nosso mundo racional ou que gostaria tanto de parecê-lo, ele poderia emprestar-se uma máscara científica. Esse espírito de jogo criador, servindo-se incansavelmente das formas para libertar-se das formas, para se “transformar” (usufruir deste mundo sem estar ligado a este mundo), é um dos traços que permite melhor reconhecer um “herói” tântrico (vira), antigo ou atual, distinguindo seu caminho de todas as místicas de evasão ou de contemplação unilateral.

O presente livro, duplo fruto de uma pesquisa intelectual assídua e de uma prática modesta, mas fervorosa, certamente não tem a pretensão de esgotar um assunto tão vasto quanto o oceano. Fornecer algumas referências sólidas, proporcionar um pouco de clareza a um ensinamento considerado obscuro, transmitir, sobretudo a alguns, o gosto de começar a trabalhar, de continuar e de alargar o caminho – com disponibilidade, audácia, como também lucidez e rigor –, ajudar esses bons aventureiros a deixar o plano da espiritualidade sonhada, ideal e por demais “branca”, pelo plano do despertar vivente, renovado e contrastado: esse é meu desejo único, longe de qualquer opinião sectária e de qualquer proselitismo. O que foi dado com amor não deve ser guardado com


14

Tantrismo – Doutrina, Prática, Arte, Ritual...

avareza: ainda que seja apenas uma centelha, ela pode servir para acender outra chama; ainda que seja apenas uma pequena pedra, ela pode servir para marcar um longo caminho. Todos nós somos apenas intermediários e é muito ingênuo aquele que acredita possuir alguma coisa. P. F. A transcrição adotada para as palavras sânscritas é a mesma daquela adotada em minhas obras anteriores. Ela negligencia os sinais diacríticos e usa apenas letras romanas habituais. As duas sibilantes, palatal e cerebral, são igualmente transformadas em sh; o r consoante para ri. Lembremo-nos de que a consoante palatal surda ch (c na transliteração científica) se pronuncia tch (chacra = tchacra), que a palatal sonora j se pronuncia dj (vajra = vadjara) e que a gutural g é sempre dura, mesmo quando seguida de e ou de i (gita = guita). Em relação aos termos chineses e tibetanos (ou, mais raramente, pertencendo a outras línguas orientais), nem sempre foi possível unificar os diversos sistemas de transcrição existentes, sobretudo quando eu me referia às traduções já publicadas. Peço então perdão antecipadamente aos especialistas que encontrariam aqui ou ali algumas discordâncias.


Primeira Parte A Doutrina


Capítulo I

A Paisagem Tântrica: Aspectos e Aparências 1. Dificuldades de tempo e de lugar O tantrismo tem pelo menos 2 mil anos de história, mas essa história ninguém saberia escrever. É que a cronologia dos textos, mesmo que se pudesse estabelecê-la com certeza, seria aqui de pouquíssima ajuda. O essencial dessa tradição, iniciática e secreta, sempre foi transmitido de viva voz, “de boca em boca” (vaktrat vaktrantaram). Sendo assim, de nada serve descobrir em um velho tratado uma longa série de encantações (mantra), se nenhum mestre estiver presente para nos ensinar a pronunciá-las corretamente, em um ritmo próprio, e para esclarecer seu sentido e uso. Além do mais, mesmo que pudéssemos determinar aproximadamente sua data, quando um tantra expõe um ensinamento que estaríamos tentados a chamar “originário” ou “original” (porque não é encontrado em outro lugar), isso não prova que seu autor, muitas vezes anônimo, fosse seu criador, o fundador, assim como diríamos que Descartes fundou o cartesianismo com seu Discurso do método. Toda uma linhagem de guru, a respeito da qual nada mais se sabe, pôde precedê-lo na mesma orientação. Os indianos não cultivam o individualismo nem em espiritualidade nem em arte. Para eles, só importa a tradição e, sobretudo, a oral: o homem instruído não é aquele que leu muito, mas aquele que “ouviu muito” (bahushruta). A audição impera sobre todos os outros sentidos; a Palavra, que é eterna e divina (deusa na mitologia), sempre vencerá a coisa escrita, incerta e perigosa porque pode cair em mãos indignas.1 1. Pode tratar-se de uma velha desconfiança indo-europeia. Ela é encontrada em estado puro entre os druidas que nunca confiaram seu saber à escrita. Eram os arianos, que se instalaram na Índia, iletrados, ao contrário dos autóctones dravidianos? A primeira escrita do sânscrito, a brahmi, parece derivada do fenício e durante um longo tempo deve ter sido usada comercial e administrativamente. – 16 –


A Paisagem Tântrica: Aspectos e Aparências

17

Os textos são aprendidos de cor e expressos verbalmente com uma precisão surpreendente, ao passo que o livro tem a principal função de lembrete; ele aparece tardiamente para relembrar, resumir e codificar um ensinamento oral bem anterior sem a mínima pretensão de substituí-lo, pois, caso o fizesse, isso significaria que esse ensinamento anterior estaria morto. Os mais antigos tantras que conservamos parecem datar do século IV d.C. (início da dinastia dos Guptas, idade de ouro indiana); os mais recentes têm menos de 200 anos e referem-se à Índia inglesa, da época vitoriana: são quase 15 séculos de literatura tântrica, centenas e – se incluirmos os tantras tibetanos – até mesmo milhares de obras, e, no entanto, essa impressionante massa “emergida” exprime apenas um aspecto relativamente superficial e enganador da realidade. O tantrismo, como doutrina codificada, tem talvez apenas 1.550 anos, mas o que ele representa em profundidade é tão antigo quanto o próprio mundo. Outra dificuldade para escrever uma história “objetiva” do tantrismo refere-se à imprecisão dos dados geográficos, bastante genérica nos textos indianos. Por exemplo, os puranas (Bhagavata purana, Skanda purana, etc.), referiam-se certamente à questão de um “continente de ouro” (Suvarnadvipa), a leste de Bengala ou “em direção ao Sudeste”. Não pudemos claramente determinar se isso dizia respeito à Birmânia, ao Sião, a Sumatra ou a outras ilhas da Indonésia. Mesmo em relação à Índia propriamente dita, as informações estão longe de ser claras. Assim, os adeptos tântricos – sejam eles hinduístas, budistas ou jainistas – preferem dividir o subcontinente em três krantas ou “círculos de adoração”: o Vishnukranta, que se estenderia dos Montes Vindhya até as margens norte do Deccan e dali até Chattala ou Chittagong (atual Bangladesh); o Rathakranta, desde as mesmas colinas da Índia central até o “grande Oceano”, incluindo às vezes o Camboja e Java; e, finalmente, o Ashvakranta, desde os Montes Vindhya até os territórios do Norte englobados sob o nome meio vago de Mahachina (a “grande China”). Geralmente, os tradutores interpretam esse termo como “Tibete” (mais precisamente denominado Bhota em sânscrito), mas podemos nos perguntar se, para muitos dos antigos autores, Mahachina não designaria “tudo o que se encontra ao norte do Himalaia”, isto é, fora da terra sagrada da Índia: isso também pode ser tanto o Tibete quanto a China ou a Mongólia, evocando um mundo de magia muito confuso no qual a tendência seria a de rejeitar tudo o que perturba a ordem bramânica. Analisaremos essa questão mais de perto quando abordarmos a escola denominada “Mão Esquerda” (vamachara), às vezes assimilada ou vinculada aos próprios adeptos do tantrika – e a fortiori por seus


18

Tantrismo – Doutrina, Prática, Arte, Ritual...

inimigos – a uma tradição estrangeira à Índia: chinesa (chinachara), tibetana ou mongólica. Essa tendência da ortodoxia hindu em demonizar tudo o que se situa fora da Índia, ou pelos menos essa falta de interesse intelectual pelas regiões não indianas, exige uma primeira explicação: a Índia é o centro do Jambudvipa, termo genérico que pode designar todas as regiões limítrofes, ao norte, nordeste, leste e sudeste da Índia, como também, muito além, a Terra inteira da forma como ela se apresenta no ciclo atual da humanidade.2 A partir desse ponto de vista, a Índia é, ao mesmo tempo, “central” e “primordial”, porque todas as tradições sagradas de nosso mundo parecem ser mais ou menos periféricas, derivadas ou incompletas em relação à sua própria tradição. Não vamos atribuir uma importância excessiva à regra que faria com que um hindu ortodoxo nunca atravessasse as montanhas do Norte nem o oceano sob pena de ser expulso de sua casta: essa interdição parece ser contradita pelo fato de que a Índia foi uma das grandes potências marítimas e colonizadoras do passado, cuja área de atuação se estendia de Madagascar ao Tonkin (região sul do Vietname) e da Birmânia até as ilhas da Sonda, a tal ponto que é possível falar de uma “Índia exterior”. E essa vontade de expansão não poderia ser explicada por motivações exclusivamente políticas ou comerciais, até mesmo onde o hinduísmo foi adotado como uma espécie de “religião de Estado”: sabemos, por exemplo, que os gurus reais em Angkor eram sábios brâmanes, às vezes vindos da Índia, e que um deles foi até mesmo discípulo direto do grande ­Shankaracharya. No entanto e de modo geral, o bramanismo – diferentemente do Budismo e do jainismo – não espalhou “missionários”; o proselitismo foi-lhe sempre excluído e sua curiosidade espiritual em relação às outras nações nunca se aprofundava. Como centro do mundo, ela brilha, mas nunca sente a necessidade de ativamente levar a luz adiante e muito menos de ir buscá-la alhures; é suficiente acolher os cultos estrangeiros desde que não incomodem ou absorvê-los ao se tornarem ameaçadores. O caso da época atual – que é uma época “descentralizada” sob todos os pontos de vista –, com sua vasta difusão de ideias hindus ou pseudo-hindus pelo mundo por meio de gurus de exportação, esse caso particular somente 2. No sentido próprio, Jambudvipa significa “ilha” ou “continente” do jambolão (Eugenia jambolana), árvore com grandes flores e grandes frutos vermelhos comestíveis que cheiram a rosa (daí seu nome “maçãs de rosa” ou jambo rosa). O termo conota muitas vezes a própria Índia (principalmente na literatura búdica) ou então o continente central entre os sete (sapta dvipa) que cercam o Monte Meru (montanha polar dos arianos, mais tarde identificada como o Monte Kailasa do Tibete). Na mesma ordem de ideias, dizem ainda que a Índia verdadeira (Bharata varsha) é a Terra. O país que chamamos Índia é seu coração (Bharata khanda).


A Paisagem Tântrica: Aspectos e Aparências

19

pode ser compreendido em relação à doutrina do kaliuga, que será desenvolvida mais adiante. Depois de ter evocado essas dificuldades de tempo e de lugar que tornam impossível toda “história” do tantrismo, no sentido ocidental do termo, tentarei contudo apresentar um resumo de sua tradição escriturária, embora seu estudo encontre rapidamente um limite caso não seja sustentado por uma transmissão oral e uma prática pessoal efetiva: “Tudo o que está escrito é apenas puro meio: inútil a quem não conhece ainda a Deusa e inútil a quem já a conhece” (Kulachudamani-tantra, I, 24, 25).

2. A literatura tântrica Abundante e diversificada, a literatura tântrica compreende não apenas os tantras propriamente ditos, mas também espécies variadas de obras chamadas Ágama, Nigama, Samhita, Upanishad, etc. Em teoria, cada um desses termos assinala uma orientação diferente; em realidade, observa-se certa flutuação de um para o outro. Assim, os Ágamas (literalmente “o que desceu”) não são todos de inspiração shivaíta, como é frequentemente publicado: os vishnuítas, os shakta (adoradores da Deusa) e até os budistas referem-se a textos com o mesmo título; e se o ensinamento for, em princípio, transmitido por um deus a uma deusa, o caso inverso também é encontrado. Nos Nigamas, é Shakti que mais frequentemente (mas nem sempre) instrui seu parceiro masculino. Existe um prestigioso tratado de hatha yoga – portanto de base tântrica – intitulado Shiva samhiga; no entanto, esta última denominação, Samhita, aplica-se mais propriamente às coletâneas de tendência vishnuíta. Quanto ao título de Upanishad (“Aproximações”, segundo uma possível interpretação da palavra), ele aqui surpreenderá os puristas que o reservam a uma quinzena de obras-primas metafísicas encarregadas de encerrar o Veda. Mas aqueles que reconhecem 108 Upanishads canônicos estão inclinados a incluir nesse número oito obras tântricas: os Shakta Upanishads. Poderíamos ainda enumerar muitos outros desses opúsculos tardios que pretendem se relacionar, mais ou menos legitimamente, ao Veda.3 3. Ver Upanishads du yoga, traduzidas e anotadas por Jean Varenne (Gallimard, col. UNESCO, 1971). Este indianista esclarece (p. 17) que “são contadas mais de duas centenas desses opúsculos decididamente ‘modernos’ em relação ao Veda propriamente dito, e que se chegou até a escrever um Allah-upanishad que, evidentemente, não pode ser anterior à chegada dos muçulmanos à Índia”. Recentemente, um autor indiano famoso compôs um Rama-krishna-upanishad à glória desse sábio bengali que morreu em 1886. Mas trata-se de um exercício de estilo e o Allah-upanishad é evidentemente um desafio.


20

Tantrismo – Doutrina, Prática, Arte, Ritual...

De qualquer maneira é uma surpreendente eflorescência espiritual e literária, uma poderosa corrente que atravessou e regenerou as três grandes tradições oriundas da Índia: bramanismo, jainismo e Budismo4 para, em seguida, por intermédio principalmente desse último, passar à China, ao Tibete, à Mongólia, à Coreia, ao Japão e para outros países da Ásia. Chegou-se até a falar – para mais ou menos confrontá-lo à “Revelação védica” – de uma “Revelação agâmica”. A expressão é contestável, primeiro por causa da própria palavra “Revelação” que somente se aplica perfeitamente às três religiões monoteístas, às “religiões do Livro”. Quanto ao termo “agâmico”, é preciso constatar que, a despeito de seu valor – ele manifesta as ideias de tradição e de iniciação –, ele não prevaleceu na linguagem popular e moderna. Foi antes a palavra tantra que se impôs no mundo todo, tornando-se o nome genérico desses inumeráveis tratados de técnica libertadora, sem levar em conta o aspecto divino que nele é adorado: Shiva, Vishnu, Shakti ou outro. Quanto a mim, empregarei, ao longo deste livro, o termo “tantrismo” para designar a doutrina, a prática e o caminho em questão. Trata-se de um rótulo discutível, pois tem o inconveniente de todos os “ismos”, que é o de fazer crer que estamos lidando com um sistema fechado, mas é preferível à palavra tantra, que deveríamos reservar às obras propriamente ditas: há tantras (assim como há sutras, ­upanishads), não existe um tantra. E é até permitido questionarmos se existe um tantrismo. Atualmente, fala-se muito de “tantra” em geral assim como se fala de “ioga”, sem perceber que se trata de constelações espirituais extraordinariamente ricas e multiformes. Assim, por “tantra” queremos nos referir a apenas um aspecto, real mas não limitativo, dessa tradição, aquele que está ligado às práticas sexuais;5 e, quando nos referimos a “Ioga”, pensamos apenas em um tipo de ioga entre uma boa dezena de outras, quase extinta na Índia no momento em que se tornou moda 4. Entendemos aqui o Budismo do Norte ou “Grande Veículo” (Mahayana cujo Vajrayana constitui o prolongamento prático), pois a influência tântrica é quase nula no Budismo do Sul ou “Pequeno veículo” (Hinayana ou, menos pejorativamente, Theravada). Quanto ao jainismo, ele possui seus próprios tantras (o principal sendo o Bhairavipadmavatikalpa) e uma tradição original de mantra. Sem menosprezar essa antiga e virtuosa tradição, não posso acompanhar Alain Daniélou que lhe atribui também a origem da teoria do Carma e da reencarnação, assim como a da não violência e do vegetarianismo (Histoire de l’Inde, Fayard, 1971, p. 51). É muita coisa para os magros ombros do jainismo. 5. Embora o ponto de vista estatístico não tenha aqui grande significado, Agehananda Bharati, em The Tantric Tradition (Anchor Books, 1970, p. 283), ressalta que as passagens consagradas à sexualidade ocupam menos de 7% da massa dos textos tântricos atualmente conhecidos. No Vijnana-Bhairava, sobre o qual eu mesmo propus um comentário, apenas quatro instruções das 112 referem-se de maneira explícita ao erotismo sagrado.


Tantrismo - Doutrina, Prática, Arte, Ritual