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Dave Worrall e Lee Pfeiffer

Tradução: Neuza Paranhos


Índice 7

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Prefácio: Sir Roger Moore

As mulheres de Russ Meyer

Sharon Tate

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Introdução

Angie Dickinson

Mamie Van Doren

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Hollywood ou Nada: os Primeiros Anos

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Jane Fonda

Natalie Wood

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Parte 1: ... e Hollywood Criou o Símbolo Sexual

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Janet Leigh

Blaxploitation

25

55

81

Raquel Welch

Jill St. John

As Europeias

33

57

85

Ann-Margret

Garotas do Cinema Drive-In

Ursula Andress

36

60

90

Carroll Baker

Stella Stevens

Brigitte Bardot

Parte 2:

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sereias sensuais do cinema

99

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Senta Berger

Sophia Loren

Valerie Leon

101

143

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Luciana Paluzzi

Helen Mirren

106

145

182

Anita Ekberg

Elke Sommer

Caroline Munro

111

148

186

Brit Ekland

Barbara Steele

Ingrid Pitt

114

151

189

Claudia Cardinale

As Garotas Giallo

Resumo das Europeias

120

161

Sylva Koscina

124

Parte3: Made in England: o Glamour Britânico

170

Madeline Smith

191

Resumo do Glamour Britânico

201

O Sexo Vende: a Arte do Cartaz Cinematográfico

Sylvia Kristel

Susan George

128

173

213

Gina Lollobrigida

Suzy Kendall

Bibliografia Sobre os Autores

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Prefácio Há alguns anos, quando eu usava um halo e fingia ser The Saint, fui entrevistado por um programa de televisão britânico em que os ilustres apresentadores começaram dizendo: “Como Ivanhoé, Maverick e Simon Templar, você conseguiu se aproximar de sua cota de protagonistas...” Quase engasgando, interrompi e repliquei, “Você não pode dizer isso”. Sem entender muito bem minha objeção, o diretor disse, “Tudo bem, vamos novamente. Segunda tomada. Como Ivanhoé, Maverick e Simon Templar, você experimentou uma boa porção de protagonistas da sua época”. Explodi em riso. Ele honestamente não percebia o que estava dizendo. Porém, caso tivesse dito que eu tive sorte por dividir a tela com muitas atrizes maravilhosas em minha carreira, então teria concordado de todo coração. De Hollywood a Elstree e nos Estúdios Pinewood, na Inglaterra, apareci ao lado de

muitas das mulheres apresentadas neste livro. Minha única queixa é todas elas serem muito mais bonitas do que eu. Eu me vingava quando tinha oportunidade fazendo todo tipo de piadas bobas sobre elas e, pior ainda, eu fumava. Você consegue imaginar filmar uma cena de amor, com toda paixão e desejo pedidos pelo roteiro, quando seu protagonista masculino toma a iniciativa de um beijo e tudo o que você sente é um horrível gosto de cigarro em seu hálito? Argh! Desculpo-me com todas elas por forçálas a beijar um cinzeiro ambulante. Atualmente eu parei de fumar e minha esposa, Kristina, diz que vai entender se meu próximo filme tiver uma cena de amor, com a condição de que eu não goste demais da cena. Espero o roteiro com ansiedade. Sir Roger Moore

Acima: Em 1961, Roger Moore ganhou status em Um Raio em Céu Sereno contracenando com uma estrela, visto aqui com a atriz Angie Dickinson, que fazia o papel principal.

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Roger Moore como o suave e sofisticado Simon Templar posa com um bando de beldades, bem como com um agora clássico carro esporte Volvo, na área externa do estúdio, durante a filmagem de um episódio do programa televisivo de sucesso O Santo. Durante um período de sete anos, os 116 episódios de uma hora foram veiculados em mais de 80 países e tornaram o ator internacionalmente famoso.


Introdução “Eles não os fazem como antes!” Esse clichê batido tem sido usado com frequência por amantes de filmes retrô para desacreditar o estado atual da indústria do cinema. Também é aplicável a suas estrelas. Pode-se usar o argumento convincente de que os atores contemporâneos são mais flexíveis do que os que participavam da indústria do cinema em décadas passadas. Pode-se dizer que atores como Leonardo Di Caprio e Natalie Portman têm uma versatilidade muito maior que John Wayne ou Marilyn Monroe... mas quando foi a última vez que você se sentiu inclinado a pegar um filme aleatório de Di Caprio ou Portman da estante para deliciar-se com o simples prazer de assisti-los, da forma como faria com astros lendários? Como editores da revista Retro Magazine, que celebra filmes dos anos 1960 e 1970, somos acusados frequentemente de dar pouca atenção ao cinema contemporâneo. De fato, ainda existem grandes filmes sendo feitos – mas para cada O Discurso do Rei devese vagar por um pântano de monstruosidades hiperalardeadas, baseadas em personagens de ação, passeios em parques de diversões e brinquedos do Burger King. Em nenhum departamento o declínio do glamour nos filmes de hoje é tão evidente como na carência de protagonistas realmente exóticas. É verdade que ainda podemos contar com as cerimônias do Oscar e do BAFTA como fontes periódicas de vislumbres do que já foi um aspecto rotineiro da indústria (ou seja, mulheres vestidas a rigor, andando com naturalidade e elegância sobre tapetes vermelhos). No entanto, quem estiver em busca de verdadeiro glamour deve revisitar uma era passada.

Começando pelos primeiros anos da indústria cinematográfica e estendendo-se até a metade dos anos 1960, os estúdios frequentemente mantinham atrizes e atores sob contrato exclusivo. Esses acordos eram geralmente de longa duração e sujeitavam os artistas aos caprichos dos donos de estúdio. Uma das exigências feitas às atrizes era a frequência obrigatória a escolas de etiqueta, onde as jovens aprendiam como se vestir, andar, falar e adotar cuidados com a beleza elaborados especialmente para torná-las deusas da tela. Nos padrões atuais, essas práticas parecem ridiculamente estranhas e altamente sexistas. E realmente eram. Porém, as mulheres que emergiram desse sistema foram a epítome do bom gosto e do glamour. Talvez seja essa a razão de vermos hoje em dia um desejo tão fanático por filmes dessas eras. Certamente, muito do sucesso da série televisiva Mad Men, situada nos anos 1960, pode ser atribuído à representação de suas mulheres. Esse foi um período em que elas usavam meias de seda e ligas, sutiãs que se assemelhavam a balões de barragem e tinham quadris e seios que só podiam ser descritos como “voluptuosos”. Sim, a celebração das curvas imperava e as atrizes ou eram exploradas pelo sistema do estúdio ou escolhiam explorar a si mesmas para fortalecer sua reputação nas bilheterias. Algumas ousavam, outras se despiam. Algumas desapareceram na obscuridade, outras se tornaram famosas. Mas |9


sereias sensuais do cinema

o denominador comum foi o fato de todas ganharem a alcunha de “sereias sensuais”. É difícil dizer, precisamente, quando o verdadeiro glamour desapareceu da sociedade, mas acreditamos poder apontar o culpado pelo crime: o sr. Ernest G. Rice. “Quem?”, você pode perguntar. O sr. Rice foi o homem amplamente creditado por ter tornado a meia-calça uma sensação internacional nos anos 1960. Ao fazer isso, cintas-ligas e meias de seda, uma vez acessórios de moda rotineiros, foram trocados por seus substitutos muito mais práticos e confortáveis. Embora possa ter recebido milhares de agradecimentos femininos por todo o mundo, ao mesmo tempo ele incorreu na ira de quase todos os homens heterossexuais e atingiu o erotismo cinematográfico com um golpe. Você consegue imaginar, por exemplo, Mrs. Robinson de A Primeira Noite de um Homem sendo a sereia quase mítica que é, caso a tivéssemos observado seduzir seu jovem Benjamin, tirando uma meia-calça? Hoje podemos ter pornografia ilimitada apenas com um clique no mouse, mas vulgaridade não pode substituir a sensualidade genuína. Quando Bogie e Bacall usaram uma discussão sobre corrida de cavalos como um eufemismo velado para sexo em À Beira do Abismo (1946), de Howard Hawks, foi mais excitante do que em uma dúzia de filmes de sexo explícito. Da mesma forma, qual imagem de cinema contemporâneo pode ser comparada à icônica foto do cartaz de cinema com

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Sue Lyon “inocentemente” chupando um pirulito em Lolita (1962)? Estas páginas contêm uma celebração de grandes sereias sensuais do cinema no apogeu dos anos 1960 e 1970. As fotografias representam outra era passada da arte cinematográfica, quando imagens publicitárias cuidadosamente trabalhadas eram a regra. Tais fotos são raras na indústria de hoje, em que apenas algumas imagens são tornadas disponíveis para divulgar um filme. Entre essas, poucas ou nenhuma contêm os dotes que sobressaem nesses gloriosos artefatos, representativos de um tempo em que o glamour reinava na indústria do cinema. Porém, esforçamo-nos também para mostrar que havia muito mais nas mulheres que homenageamos do que meramente seus atributos físicos. Como indicam suas biografias, essas mulheres tiveram de superar o sistema do “teste do sofá”, bem como a percepção do público de que, se fossem gostosas, não poderiam ser inteligentes. Na verdade, essas mulheres usaram o intelecto e a habilidade nos negócios não apenas para sobreviver, mas para prosperar em um ambiente que muitas vezes degradava sua autoestima. O fato de que mesmo a menos conhecida entre elas ainda tenha fãs leais, hoje em dia, é prova de seu sucesso. Desejamos que você aproveite este tributo a seus talentos e legados. Acreditamos que até mesmo o sr. Ernest G. Rice deve ter ficado impressionado. Dave Worrall e Lee Pfeiffer


Votada a Mulher Mais Sexy do Mundo pela Esquire em 2010, a extremamente atraente Christina Hendricks, que interpreta Joan Holloway na série televisiva ganhadora do Emmy – Mad Men –, define o termo Sereia Sensual com voluptuosa perfeição.


Hollywood ou Nada: os primeiros anos A Explosão Loira – e é fácil perceber por quê! Jean Harlow em Loira e Sedutora (1931).

Embora Sereias Sensuais do Cinema seja principalmente uma celebração da forma feminina vista no cinema dos anos 1960 e 1970, devemos também reconhecer a época responsável por criar a “pin-up” tanto nas páginas impressas como na tela do cinema. Desde a invenção do cinema, mulheres sensuais tiveram como papel entreter e excitar plateias em todo o mundo. Basta ver os primeiros cartazes de filmes naturalistas, de terror, de aventuras na selva e de ficção científica, adornados com mulheres curvilíneas em situações de perigo, para entender

Filmado antes da censura às telas, uma Claudette Colbert nua banha-se em leite de asnos em O Sinal da Cruz, de Cecil B. DeMille, que causou tumulto nas bilheterias – e um cheiro horrível no estúdio, quando o leite de vaca em pó azedou durante os três dias levados para filmar a cena. À direita: Típica foto publicitária de estúdio de Betty Grable, conhecida por ter as mais belas pernas de Hollywood e famosamente tê-las segurado pela Loyds de Londres por 1 milhão de dólares. Uma fotografia sua de 1943 em traje de banho tornouse a imagem de pin-up preferida dos soldados durante a Segunda Guerra Mundial.

como a forma feminina foi usada para atrair (predominantemente) públicos masculinos para os cinemas. Qualquer que fosse o tema, os 12|

cartazes de cinema sempre garantiram a presença de uma mulher jovem, geralmente com roupas apertadas, como seu elemento principal. Ainda em 1932, Claudette Colbert apareceu de topless em O Sinal da Cruz, de Cecil B. DeMille, mas foi no final dos anos 1930 e começo dos anos 1940 que os executivos de estúdio


Hollywood ou Nada: os primeiros anos

Acima: Descoberta em uma farmácia de Los Angeles com apenas 16 anos, a história de Lana Turner é uma lenda de Hollywood. Relembrada como a Garota do Suéter original, um apelido adquirido por conta de suas roupas reveladoras em seu primeiro filme, They Won´t Forget, como ilustrado aqui. Ela foi uma pin-up popular nos anos 1930 e 1940. À esquerda: Tudo começou aqui. Soldado americano relaxando em seu barracão, as paredes estampadas com fotografias de atrizes glamorosas, recortadas de páginas de revistas que eles espetavam nas paredes. Daí o termo “pin-up”.

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sereias sensuais do cinema

começaram realmente a transformar suas estrelas femininas em objetos do desejo, criando uma imagem sexual claramente definida para muitas de suas atrizes. Quaisquer que fossem seus atributos, de pernas longas a seios grandes, os fotógrafos de estúdio começaram a trabalhar explorando esses encantos físicos das mulheres. O impacto foi fenomenal e fotografias de atrizes em poses provocativas logo enfeitaram capas de revistas aos milhares. Essas mulheres não só estavam se tornando nomes conhecidos, mas seus filmes eram fortemente promovidos, para o deleite dos donos de estúdio que, imediatamente, investiram nessa nova ferramenta de vendas. Muitas fotografias – consideradas ousadas na época – eram de mulheres ou mostrando suas pernas em meias de seda ou uma ampla porção de seus seios em vestidos decotados ou de corpete justo. No entanto, essa foi também uma era de forte censura, então a nudez era tabu. Desde o início dos anos 1930, a indústria cinematográfica tentara evitar a censura governamental, aderindo a suas próprias diretrizes rígidas, conhecidas como o Código Hays, chamado assim graças ao eclesiástico presbiteriano que o implementou e, portanto, tornou-se o principal árbitro de tudo o que se referisse a sexo no cinema. Consequentemente, o Código Hays garantiu que praticamente todas as representações de sexo na tela fossem eliminadas ou, pelo menos, severamente diluídas. (Os executores do código esforçaram-se para deixar claro que Rick e Ilsa nunca cederam a relações

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pré-maritais em Casablanca). Até mesmo obras em que o sexo foi parte integrante de seu sucesso, tanto nos palcos como em páginas impressas, tais como Um Bonde Chamado Desejo (1951) e A Um Passo da Eternidade (1953), foram significantemente diluídas quando levadas para a telona. Os estúdios, portanto, tiveram de ser mais criativos para desenvolver os símbolos sexuais femininos e, cada vez mais, tornou-se de suprema importância para uma atriz sugerir paixão sexual com um mero olhar ou gesto. Enquanto permaneceu na moda nos anos 1930 ser alta e magra como a melindrosa de seios reduzidos da década anterior, a influência de Hollywood estava prestes a mudar essa tendência. Lana Turner recebeu o apelido de “Garota do Suéter” depois de usar a roupa justa no filme Esquecer, Nunca (1937) e o termo logo tornou-se sinônimo de qualquer atriz que usasse suéteres apertados enfatizando um belo busto. Nos anos 1940, rainhas do glamour cinematográfico, como Betty Grable, Rhonda Fleming, Rita Hayworth e Ava Gardner, eram expostas em fotografias nas paredes bagunçadas dos soldados que lutavam na Segunda Guerra Mundial, recortadas das páginas de revistas. Tratava-se da era das pin-ups. Mas essas mulheres eram atrizes sérias, também, dispostas a usar toques de sua sexualidade para promover seus filmes, mas não se aventuraram a ir muito longe no território das “glamour girls” – garotas que realmente posavam com o mínimo possível de roupas.


Hollywood ou Nada: os primeiros anos

O visual ardente de quem logo seria uma estrela de primeira grandeza: Jane Russel em O Fora da Lei.

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sereias sensuais do cinema Embora Fay Wray tivesse aparecido seminua em King Kong (1933) e estrelas como Mae West e Jean Harlow fossem notavelmente sensuais em seus filmes e publicidade, foi realmente a aparição de Jane Russel em O Fora da Lei (1943), de Howard Hughes, que causou um grande rebuliço. Russel tinha um contrato de sete anos com Hughes, que não mediu esforços para mostrar sua figura voluptuosa no filme sobre Billy the Kid. E foi a ênfase nos seios bem- dotados de Russel que resultou nos famosos problemas do filme com a censura. Toda a campanha publicitária de O Fora da Lei foi calcada no tamanho do peito de Russel, a ponto de a norte-americana Motion Picture Association considerar a expulsão de Hughes, sob a acusação de violar parâmetros de bom gosto. O filme foi finalmente lançado em 1946, quando Russel já era bem conhecida por todo os Estados Unidos – mais por seu sutiã 52 e a confusão causada por ele do que pelo talento de atriz –, então obteve o maior faturamento de cartazes, embora se tratasse de seu primeiro filme! Ela logo provou que seu talento valia mais que o visual e estrelou ao lado de Frank Sinatra, Robert Mitchum e Clark Gable no começo dos anos 1950, em um de seus filmes mais memoráveis, Os Homens Preferem as Loiras (1953), como rival de outra sereia sensual do período, Marilyn Monroe.

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Acima: Jane Russel mostra seu enorme carisma ao posar para a pintura que seria usada na campanha de O Fora da Lei. Fica evidente qual era o maior trunfo do filme. Abaixo: O departamento de marketing tirou todo o proveito dos pontos fortes de Rita Hayworth quando desenhou o cartaz de Uma Viúva em Trinidad (1952). Afinal, quem queria ver Glenn Ford?


Caso esta imagem pudesse falar, diria “venha para a cama comigo”. Qual homem poderia resistir ao olhar de Marilyn Monroe, vista aqui na locação do clássico de Billy Wilder Quanto Mais Quente Melhor?


sereias sensuais do cinema

No alto, à esquerda: Quem disse que a dança da barra é uma nova forma de entretenimento sensual? Foto de divulgação de Adorável Pecadora (1960), com Marilyn Monroe. No centro, à esquerda: A sempre sedutora Gloria Grahame – vista aqui na locação de Fúria Assassina com o diretor Jerry Hopper. Acima e à esq.: Ela Era Irresistível (1960) foi famoso em sua época pelo ousado traje transparente de Mansfield e seus números musicais sexualmente explícitos. Filmado na Inglaterra e dirigido por Terence Young, que filmou em seguida o primeiro James Bond, 007 Contra o Satânico Dr. No, a controvérsia adiou o lançamento do filme nos Estados Unidos por dois anos. Durante esse período, a revista Playboy veiculou imagens sensuais do filme que, finalmente, foi lançado no país com o título Playgirl After Dark (1962). 18|


Hollywood ou Nada: os primeiros anos

Monroe, cujo personagem não era sexualmente tão assertivo quanto o de Russel, era geralmente escalada para papéis vulneráveis ou da mulher que enlouquecia os homens sem perceber. Originalmente morena, Norma Jeane Dougherty (seu nome de casada na época) foi aconselhada por sua agência de modelos a tingir seus cabelos de loiro “dourado” em compasso com a popularidade corrente de atrizes como Betty Grable e Lana Turner. Na metade dos anos 1940, já divorciada, teve a oferta de um contrato de seis meses com a 20th Century Fox, quando o executivo Ben Lyon sugeriu que mudasse o nome. Ela escolheu o nome de solteira de sua mãe, Monroe, ao qual Lyon acrescentou Marilyn – e nascia uma estrela. Nos primeiros anos da década de 1950, uma fotografia com ela nua, tirada em 1949, posada quando a atriz não tinha como pagar o aluguel, apareceu em um calendário, o que causou um grande alvoroço entre os executivos de estúdio, preocupados com a possibilidade de que isso afetasse sua reputação como atriz, mas a controvérsia foi logo esquecida e Marilyn ganhou papéis em filmes como Só a Mulher Peca (1952), antes de conseguir seu primeiro grande personagem, quando Darryl F. Zanuck escaloua para Torrentes de Paixão (1953). Sua sensualidade foi bastante explorada nesse filme e muitos críticos consideraram suas apresentações pessoais atos de pura vulgaridade, graças às roupas que usava. Quando foi escolhida para mestre de cerimônias da Parada de Miss Estados Unidos, em setembro de 1952, Marilyn escolheu um vestido com um decote recortado até o umbigo. O que causou furor, mas a imagem foi escolhida para a primeira capa da revista Playboy, em dezembro de 1953, que também trazia nas páginas internas as já então famosas fotos com nus de calendário. Durante sua carreira de curta duração, Marilyn Monroe foi tão famosa por

sua vida privada quanto por suas aparições em filmes. Três casamentos, um caso envolvendo a família Kennedy e a fama de ser difícil no set de filmagem somaram-se à sua mística. Seus papéis mais famosos foram provavelmente em O Pecado Mora ao Lado (1955), de Billy Wilder, e Quanto Mais Quente Melhor (1959), embora Monroe tenha feito 30 filmes. Foi encontrada morta em sua casa em 5 de agosto de 1962, com apenas 36 anos, por overdose de medicamentos. Embora Marilyn Monroe tenha sido única, Hollywood inevitavelmente criou muitas promessas. Os críticos podem discutir se Monroe simplesmente estava no momento e lugar exatos e debater se seus atributos físicos contribuíram mais do que sua habilidade de atriz para seu status hoje icônico. Porém, os mesmos questionamentos não podem ser feitos sobre outras sereias sensuais bem conhecidas, que surgiram no rastro do sucesso de Monroe: Jayne Mansfield e Mamie Van Doren só eram conhecidas por seus encantos físicos. Embora ambas tenham cumprido seus papéis na história de Hollywood, elas não tinham a maravilhosa presença de Monroe nas telas. O principal elemento que levou Mansfield e Van Doren à fama foi o tamanho de seus seios e estarem dispostas a usar esse recurso ao máximo. Ambas podem ser lembradas apenas como rainhas dos filmes B, mas mesmo assim elas realmente resumiram a expressão “sereia sensual”. Conforme os anos 1950 iam chegando ao fim, uma nova era de “sereias sensuais” começava a tomar forma. A indústria do cinema estava competindo com a televisão e precisava revidar os golpes recebidos com algo que a televisão não pudesse oferecer. Como no passado, os estúdios apelaram para as formas femininas, mas dessa vez o fariam de forma avassaladora.

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... E Hollywood Criou o Símbolo Sexual No começo dos anos 1960, Hollywood ousava discutir assuntos controversos, como racismo, desvio sexual e uso de drogas. O Código Hays estava sendo progressivamente considerado restritivo e desatualizado, com mais e mais diretores indo cada vez mais longe na hora de desafiar a censura. Não era de surpreender que a próxima geração de atrizes a surgir da “máquina de sonhos” de Hollywood refletisse o desejo do público por naturalismo. De repente, era possível para uma atriz chegar ao estrelato tendo como mérito seu talento em lugar de seu visual. O sexo na tela era retratado com mais naturalismo e, embora ainda houvesse espaço para rainhas do glamour, agora existia uma ênfase em atrizes com quem o público pudesse sentir empatia. Assim, mulheres como Shirley MacLaine e Joan Woodward tornaram-se nomes conhecidos. Belezas estonteantes, como Jane Fonda, interpretavam garotas comuns, geralmente tentando corajosamente (mas não com tanta valentia) manter sua virgindade contra investidas de pretendentes bonitões. Até a lendária bela das telas, Elizabeth Taylor, engordou e adquiriu uma

postura desmazelada para fazer Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966) – e ganhou um Oscar, apesar de ter ficado praticamente irreconhecível. Foi esse filme, com sua caracterização adulta de linguagem e situações sexuais, que causou a obsolência do Código Hays. O Código foi finalmente substituído pelo sistema atual de classificações, iniciado pela Motion Picture Association dos Estados Unidos em 1968, que desencadeou uma explosão de liberdade criativa nos filmes norteamericanos. Naturalmente, muitos desses filmes tiravam partido (às vezes pretensiosamente) de cenários sexuais que teriam sido considerados obscenos apenas alguns poucos anos antes. As atrizes de repente eram solicitadas a explorar seus recursos naturais, e, consequentemente, cenas de nu (ou quase) tornaram-se quase obrigatórias para a nova geração de estrelas cinematográficas. Acima: Donna Michelle em A Espiã de Calcinhas de Renda. Ao lado: A batalha dos peitos: Jayne Mansfield ofusca Sophia Loren no restaurante Romanoff’s em Beverley Hills, em 1957. Durante uma festa para Loren, Mansfield deu um golpe publicitário deixando aparecer um mamilo, garantindo com isso que sua fotografia fosse exibida em todo o mundo. Loren não achou nada divertido.

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Fazendo uma pausa entre as tomadas de Assim Caminha a Humanidade (1956), Elizabeth Taylor era frequentemente escalada como sexualmente ousada e capaz de seduzir tanto os outros personagens quanto o público. Os homens a queriam e as mulheres queriam ser como ela. Em qualquer tempo, poucas atrizes alcançarão a grandiosidade de sua lenda hollywoodiana. |21


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Acima à esquerda: Em um dos momentos mais sensuais do cinema, Lucille (Joy Harmon) sugestivamente lava um carro em frente a um grupo de presos famintos por sexo em Rebeldia Indomável. Com medidas estonteantes de 10456-91, Harmon aposentou-se como atriz para abrir uma padaria na Califórnia! Acima à direita: Foto de estúdio sensual de Edy Williams para divulgação de Good Times (1967). Williams era uma modelo cuja carreira cinematográfica foi calcada no tamanho de seu busto, não em sua habilidade como atriz. Ela também era notada por ser casada com o rei do pornô soft Russ Meyer. À direita: Yvonne Craig no longa-metragem One of Our Spies Are Missing (1966), realizado a partir da série televisiva O Agente da Uncle. Os filmes foram feitos a partir de dois episódios, com filmagem adicional apresentando garotas sensuais acrescentadas para atrair o público adulto que na época estava indo em massa aos cinemas para ver os filmes de James Bond. Extrema direita: Julie Newmar, que atuou em incontáveis séries televisivas dos anos 1960 – e posou nua na edição de maio de 1968 da Playboy – e é mais lembrada pelo papel de Mulher-Gato do seriado de sucesso Batman. 22|


... E Hollywood Criou o Símbolo Sexual

Embora conhecida por atuar, cantar e dançar, Shirley MacLaine também acrescentou um toque de glamour ao universo quase sempre exclusivamente masculino dos westerns de Clint Eastwood, interpretando o papel principal em Os Abutres Têm Fome (1970).

Embora alguns possam argumentar que os anos 1960 transformaram as atrizes em objetos sexuais, também é verdade que nessa década as mulheres puderam alcançar o estrelato apenas por conta de seu talento. Anne Bancroft, por exemplo, nunca teria chegado lá como gatinha

sexy nos anos 1940 e 1950, mas ganhou imortalidade nas telas como a verdadeira tigresa Mrs. Robinson no filme de 1967 A Primeira Noite de um Homem. Ainda assim, os estúdios não estavam no negócio de propagar a libertação feminina. O sexo estava vendendo como nunca e os executivos de Hollywood ainda se esforçavam ao máximo para criar e vender o próximo símbolo sexual. Talvez não exista melhor exemplo de como uma atriz pode ser transformada em uma marca vendável do que Raquel Welch. Contratada |23


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com exclusividade pela Fox na metade dos anos 1960, o estúdio percebeu que a beleza escultural tinha um potencial que ia muito além do fogo de palha costumeiro dos símbolos sexuais. A produção da Hammer Films Um Milhão de Anos Antes de Cristo (1966) utilizou-a como foco de sua principal campanha publicitária, embora o filme anterior de Welch, o aclamado Viagem Fantástica (1966), tivesse oferecido poucas oportunidades de capitalizar seu sex appeal. Welch logo tornou-se uma estrela de primeira grandeza, alternando entre filmes de qualidade, como O Preço de um Covarde (1968), e filmes de ação, como A Espiã Que Veio do Céu (1967) e Flareup (1969), que pareciam existir apenas para explorar sua sensualidade. Da mesma forma, Ursula Andress, que fez história nas telas com seu biquíni branco no primeiro filme de James Bond 007 Contra o Satânico Dr. No (1962), também teve sua beleza usada como ponto-chave de venda de seus filmes. Outras atrizes que nunca alcançaram inteiramente os mesmos níveis de estrelato pareciam dispostas a colaborar com as estratégias de estúdio de usar imagens de seus atributos físicos para ajudar a promover filmes. Na maioria dos casos, ganhavam papéis secundários em filmes apenas para proporcionar um ângulo de apelo sensual em fotos de publicidade e material de marketing. Porém, algumas ganharam uma legítima base de fãs. Tanto Julie Newmar quanto Yvonne Craig encontraram seguidores

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leais interpretando respectivamente a MulherGato e a Batgirl na série televisiva Batman. Outras, como Sharon Tate, logo conseguiram papéis de qualidade em grandes produções de estúdio, enquanto atrizes como Edy ­Williams abraçaram abertamente a apelação sexual e construíram orgulhosamente toda uma carreira em torno dessa estratégia. Algumas também fizeram fama, embora não fortuna, com um único papel memorável. Joy Harmon ainda hoje tem fãs fervorosos por sua breve e silenciosa interpretação como uma jovem parcamente vestida que é vista lavando um carro em Rebeldia Indomável (1967). Nos anos 1970, os tempos começavam a mudar, enquanto as atitudes sociais se transformavam e o movimento feminista continuava a crescer. Ainda havia ênfase explícita nos atributos físicos das atrizes, mas isso começava a parecer um pouco ultrapassado. A nova liberdade, no entanto, também impulsionou a era do cinema blaxploitation, no qual atrizes como Pam Grier e Tamara Dobson imitaram as técnicas de marketing da década anterior. No final da década, nos filmes comerciais hollywoodianos, os estúdios desenvolveram e venderam muitas estrelas baseados em sua atuação – embora um ocasional retrocesso a um período anterior mais glamoroso surgisse de vez em quando, como fica evidenciado pelo status de Bo Derek como ícone pop depois de sua aparição no filme Mulher Nota 10 de 1979.


Raquel Welch Um dos símbolos sexuais mais duradouro das telas, Raquel Welch sempre irradiou classe e estilo. Em geral interpretava mulheres dignas e corajosas e rapidamente provou à indústria do cinema que era bem mais que uma beleza vazia, como muitos apregoaram que seria. Welch nasceu em Chicago em 1940 como Jo Raquel Tejeda. Seu pai era um imigrante boliviano que se tornou engenheiro aeronáutico. Sua mãe, nascida norte-americana, traçava sua árvore genealógica até o Mayflower. Apesar de sua origem impressionante, Welch lutou para alcançar o sucesso. Casou-se aos 18 anos com James Welch e manteve seu nome mesmo depois do final do casamento. Provou pela primeira vez da fama trabalhando como moça do tempo em uma estação de televisão em San Diego, Califórnia, antes de mudar-se para o Texas com seus dois filhos pequenos. Lá, Welch conseguiu alguns contratos como modelo, mas ainda tinha de trabalhar à noite em alguns empregos nada glamourosos

para pagar as contas. Frustada, mas bem consciente de sua boa aparência, Welch mudouse de volta para a Califórnia, dessa vez para Hollywood, onde estava determinada a encontrar trabalho no mundo do espetáculo. Conseguiu algumas participações pequenas em séries televisivas populares e papéis menores nos filmes A House is Not a Home (1964), Carrossel de Emoções (1964), com Elvis Presley, e Swingin’ Summer (1965). Executivos de estúdio astutos da Fox perceberam que o visual estonteante e corpo No alto: Em Desejo de Vingança. Abaixo, à direita: Página de contato publicitário de Viagem Fantástica.

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Posando para publicidade durante as filmagens de A EspiĂŁ Que Veio do CĂŠu.

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