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A Maรงonaria Inglesa No Brasil


Plínio Virgilio Genz

A Maçonaria Inglesa No Brasil


© 2013, Madras Editora Ltda. Editor: Wagner Veneziani Costa Produção e Capa: Equipe Técnica Madras Revisão: Silvia Massimini Felix Arlete Genari

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Genz, Plínio Virgilio A maçonaria inglesa no Brasil/Plínio Virgilio Genz. – São Paulo: Madras, 2013. Bibliografia. ISBN 978-85-370-0874-4 1. Brasil – Maçonaria 2. Maçonaria 3. Maçonaria – História 4. Maçons I. Título. 13-06915 CDD-366.120981 Índices para catálogo sistemático: 1. Brasil: Maçonaria inglesa: Sociedade secreta: História 366.120981

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Dedicatória Dedico este livro a um dos maiores presentes recebidos do Grande Arquiteto do Universo, os meus netos Arthur e Julia (o Rei Arthur e a Princesa Julia). –5–


Índice Prólogo........................................................................................ 11 Introdução .................................................................................. 13 Parte I Capítulo I A Maçonaria ............................................................................... 17 O Início da Maçonaria Moderna......................................... 17 A Maçonaria no Brasil........................................................ 20 Fundação do Grande Oriente do Brasil.............................. 21 A Independência do Brasil................................................. 22 Capítulo II Os Maçons Ingleses no Brasil..................................................... 25 Fase I – Lojas Ligadas Diretamente à Grande Loja da Inglaterra................................................ 25 “Orphan Lodge” nº 616...................................................... 26 “Saint John’s Lodge” nº 703............................................... 27 “Southern Cross Lodge” nº 970......................................... 29 Tentativas de Reativação..................................................... 30 Capítulo III O GOB e a Grande Loja da Inglaterra........................................ 35 O Reconhecimento do Grande Oriente do Brasil pela Grande Loja da Inglaterra................................................... 35 Os Maçons Brasileiros Junto à Grande Loja Unida da Inglaterra............................................................. 37 Hipólito José da Costa (1774-1823)............................. 37 Barão de Jaceguai – Almirante Artur Silveira da Mota (1843-1914)................................................... 40 –7–


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Capítulo IV As Lojas do Rito de York............................................................ 43 Fase II – Lojas de York Jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil............................................... 43 Loja Vésper.................................................................. 43 A Loja dos Confederados Americanos............................... 44 Loja Washington ......................................................... 45 Loja Lessing................................................................. 47 As Primeiras Lojas de Maçons Ingleses no Registro do GOB......................................................................49 1891 – Loja Eureka nº 3............................................... 49 1893 – Loja Duke of Clarence nº 4 ............................. 51 1899 – Loja Morro Velho nº 6..................................... 52 1902 – Loja Eureka Central......................................... 53 1902 – Loja Unity nº 8................................................. 54 1904 – Loja Saint George nº 5..................................... 55 1907 – Loja Wanderers nº 10....................................... 56 Capítulo V O Grande Capítulo do Rito de York............................................ 59 O Tratado de 1912.............................................................. 64 Formação de Novas Lojas................................................... 70 1920 – Loja Brasil nº 11.............................................. 71 1922 – Loja Friendship nº 12....................................... 71 1922 – Loja Centenary nº 13....................................... 74 1923 – Loja Campos Salles nº 14................................ 75 1925 – Brazil Craft Masters’ Lodge nº 15................... 77 1932 – Loja Royal Edward nº 16................................. 78 As Cartas Constitutivas e os Certificados de Mestre Maçom....80 O Grande Capítulo do Rito de York e a Cisão de 1927...... 81 Lojas do Rito de York no Registro do Grande Oriente do Brasil............................................... 83 Lojas no Brasil sob a Jurisdição Direta da Grande Loja Unida da Inglaterra........................................ 86 Rituais em Uso Pelas Lojas de York................................... 87 O Ritual em Português................................................. 89


Índice

Parte II Capítulo VI A Grande Loja Distrital da América do Sul – Divisão Norte..... 91 Capítulos do Sagrado Arco Real de Jerusalém................... 92 O Tratado de 1935.............................................................. 94 Capítulo VII O Sagrado Arco Real de Jerusalém........................................... 105 O Arco Real no Brasil........................................................ 107 O Grande Capítulo Distrital da América do Sul – Divisão Norte...................................................... 107 Capítulo VIII A Maçonaria da Marca............................................................... 121 O Grau da Marca na Maçonaria Inglesa............................ 121 Histórico...................................................................... 121 A Grande Loja da Marca da Inglaterra....................... 123 O Grau da Marca......................................................... 123 A Maçonaria da Marca no Brasil................................ 124 O Grau de Nautas da Arca Real (Arca de Noé)......................... 135 Os Primeiros Registros................................................ 136 O Grau de Nautas no Brasil........................................ 137 A Grande Loja Distrital de M. M. da Marca – Brasil......140 Capítulo IX Os Cavaleiros Templários........................................................... 149 A Ordem Militar e Religiosa dos Templários.................... 149 A Ordem de Malta............................................................. 150 A Ordem Maçônica do Templo.......................................... 151 As Ordens Maçônicas Unidas do Templo e de Malta......152 As Ordens Unidas do Templo e de Malta no Brasil.... 152 Capítulo X Contribuições da Maçonaria Inglesa à Maçonaria no Brasil..... 155 O Arco Real....................................................................... 155 O Grande Priorado do Brasil ............................................ 159 A Grande Loja da Marca do Brasil ................................... 161 A Grande Loja da Marca do Estado do Rio de Janeiro......................................................... 163 A Grande Loja da Marca do Estado de São Paulo...... 164

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Capítulo XI Tratados – Relacionamentos – Reconhecimento....................... 165 Tratados Internos de Reconhecimento Mútuo................... 165 Propósitos e Relacionamentos da Ordem.......................... 166 Reconhecimento – Princípios Básicos. ............................. 168 Parte III Capítulo XII Histórico das Lojas no Distrito Inglês....................................... 171 Eureka................................................................................ 171 Duke of Clarence............................................................... 180 Morro Velho....................................................................... 186 Eureka Central................................................................... 192 Unity.................................................................................. 194 Saint George...................................................................... 200 Wanderers.......................................................................... 203 Brasil.................................................................................. 212 Campos Salles................................................................... 213 Friendship.......................................................................... 223 Centenary........................................................................... 225 Brazil Craft Masters.......................................................... 227 Royal Edward.................................................................... 228 Santo Amaro ..................................................................... 237 Bibliografia................................................................................ 243


Prólogo Foi com muito orgulho, imensa alegria e bastante surpresa que recebi o convite para prefaciar este livro. Orgulho porque me permite dissecar os motivos dessa publicação assim como os processos relatados, frutos de muita pesquisa e riqueza de detalhes. Uma obra para referência. Alegria pela oportunidade de tentar retratar o homem que montou este trabalho, e surpresa, pois não esperava estar à altura de prefaciar uma obra tão significatica, em seu conteúdo, profundidade e riqueza. O Brasil é indiscutivelmente o país onde a Maçonaria mais cresce, resultado de nossa natural aptidão em sempre sermos bons anfitriões, aliado ao nosso desejo irreprimível em buscar aperfeiçoamento. É nesse ambiente saudável que a Maçonaria Inglesa teve espaço para se manter e crescer, sempre junto à Maçonaria Brasileira. Esta história retrata uma Comunidade abnegada em manter-se fiel a suas Origens Ritualísticas, uma verdadeira Filosofia de encarar a Vida, não somente pela excelência em Loja, mas, o mais importante, levando essas lições para além das Colunas. O autor dedicou-se a uma extensa leitura de Atas de Reuniões, análise de inúmeros documentos, além de registro de incontáveis história relembradas por Irmãos, alguns com cinco ou mais décadas de Maçonaria, assim retratando a cultura maçônica inglesa no Brasil numa sequência inequívoca, colorida com impressões garimpadas em documentos. Uma obra dirigida não somente ao leitor novato que terá uma síntese a auxiliar-lhe na compreensão de nossas Ordens, mas igualmente aos conhecedores mais profundos da história da Maçonaria no Brasil, que certamente lhes possibilitará identificar suas raízes e o entrelaçamento destas. Os leitores têm a oportunidade de observar a vontade dos Irmãos ingleses em desenvolver o Arco Real, motivação-mór na formação do Distrito Craft, e também de como esse mesmo desejo resultou posteriormente no desenvolvimento de outras Ordens inglesas: Marca, – 11 –


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Nautas, Cavaleiros Templários e Cavaleiros de Malta. A história continua à frente de nossos olhos e em capítulos ainda a serem escritos pelo autor, as novas Ordens recentemente oriundas da Inglaterra: os Graus Maçônicos Aliados e a Cruz Vermelha de Constantino certamente serão abordados. Autor de inúmeras traduções de Rituais para o portguês, Plínio é um exemplo para todos, tanto para os recém-Iniciados bem como para os Irmãos experientes, pelo empenho na busca pela Perfeição Ritualística, desponibilizando-se para oferecer palestras, viajando País afora. Sempre presente com sua larga experiência, auxiliando aos que buscam informações assim como no estudo de Rituais arcaicos e da história. Conselheiro de primeira grandeza, pela Amizade, humildade, postura e serenidade. Tenho o privilégio de ter desfrutado dessas qualidades em inúmeras ocasiões, com quase duas décadas de convívio. Das paixões: A Maçonaria, este livro sendo o exemplo mais recente, pois Plínio consegue dar um colorido pessoal e vivo à história. A música, em especial o Jazz Clássico do qual é profundo admirador e conhecedor, possuidor de uma vasta coleção de CDs e LPs, de preferência acompanhado de um bom whisky, combinação esta que compartilhamos. Os netos: o Rei e a Princesa. Os amigos: Dito popular, “Amigos contam-se nos dedos da mão”, e com muito apreço faço parte desse grupo. John C. Woodrow Grão-Mestre – Grande Loja Distrital de M. M. da Marca – Brasil


Introdução Na relação de membros fundadores do Grande Oriente do Brasil em 1822 consta o nome de José Ewbanck, pertencente à “Loja Comércio e Artes na Idade de Ouro”, com o nome simbólico “Artaxerxes”. Na mesma relação, contendo nada menos do que 96 nomes, aparecem também José Bonifácio de Andrada e Silva, “Pitágoras”, e Joaquim Gonçalves Ledo, “Diderot”. Trata-se do mesmo Joseph Ewbank nascido na Inglaterra em 1791 e que no ano de 1815 residia na Rua do Ouvidor nº 52, no Rio de Janeiro. Em 1837, participou como fundador da “Orphan Lodge nº 616” no Rio de Janeiro, a primeira Loja de ingleses no Brasil, jurisdicionada diretamente à Inglaterra. A menção desse fato destina-se a evidenciar a tradicional acolhida fraterna que os maçons brasileiros têm proporcionado aos seus Irmãos ingleses ao longo desses 190 anos. Praticamente todos os fundadores das primeiras cinco Lojas inglesas mais antigas começaram sua vida maçônica em Lojas brasileiras, trabalhando em português. Ao pretenderem ter suas próprias Lojas, faziam-no por uma questão de idioma e também pelo sentimento comunitário. Na realidade, a Maçonaria é uma parte integrante dos vários aspectos da sociabilidade da comunidade inglesa no Brasil. Ela está tão integrada que em muitas ocasiões seus templos maçônicos se localizavam em escolas britânicas, junto a igrejas anglicanas, no Rio de Janeiro, em São Paulo e Niterói. A compilação deste livro foi possível graças à preocupação que muitos dos pioneiros das Lojas inglesas tiveram para com a história, deixando vários escritos, tanto em forma de livro quanto em palestras proferidas nas diversas Lojas. A bibliografia menciona as diversas fontes que serviram de base para perpetuar os fatos, mas é necessário que se faça um destaque para alguns deles. – 13 –


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Peter Swanson foi o primeiro a registrar em livro os fatos ligados a Lojas de ingleses no Brasil. Além de fazer menção às três primeiras Lojas fundadas por ingleses no Brasil e diretamente ligadas à Grande Loja da Inglaterra, ele faz um relato da formação em 1912 do Grande Capítulo do Rito de York, cuja denominação na língua inglesa era de “Grand Council of Craft Masonry in Brazil”, uma Grande Secretaria de Rito do GOB que englobava as sete Lojas do Rito então existentes. Ele fez uma análise detalhada dos fatos que precederam a formalização do acordo firmado entre o Grande Oriente do Brasil e a Grande Loja Unida da Inglaterra em 1912, e as vantagens desse acordo, que concedeu aos maçons de língua inglesa do GOB uma independência quase igual à que seria obtida em 1935 pela formação de uma Grande Loja Distrital inglesa no Brasil. Peter Swanson foi Venerável Mestre da Loja Eureka nº 3 em 1922, da Lodge of Friendship nº 12 em 1923, participou da assinatura do Tratado que formou a Grande Loja Distrital e foi seu primeiro Grão-Mestre de 1935 até 1953, quando foi sucedido por Ernest Cunningham. James Martin Harvey, com certeza o mais prolífico de todos, foi membro de várias Lojas do distrito inglês. Em 1961, Ernest Cunningham, Grão-Mestre Distrital da América do Sul, solicitou ao V. Ir. James M. Harvey para que escrevesse a história do Distrito, e ao escrever seu livro The English Craft in Brazil nos deixou 80 anos de história maçônica. Seu livro foi publicado em 1972 pela Grande Loja Distrital da América do Sul em uma edição comemorativa dos seguintes eventos: • 150 anos de existência do Grande Oriente do Brasil 1822-1972 • Visita ao Brasil do Pró-Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra, Rt. Hon. Earl Cadogan, em junho de 1972 • 70 anos de existência da Loja Unity • 50 anos da Loja Centenary Para realizar esse trabalho, James M. Harvey manuseou e leu exaustivamente os livros de atas da maioria das Lojas inglesas e nos deixou um admirável acervo em forma de trabalhos que apresentou em Loja. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de São Paulo, Grande Oficial da Grande Loja Unida da Inglaterra e membro honorário do Grande Oriente do Brasil. Graças ao trabalho de pesquisas realizado em Londres pelo V. Ir. Ernest E. Cromack, temos hoje um histórico mais esclarecedor sobre as três primeiras Lojas inglesas fundadas no Brasil no século XIX, todas ligadas diretamente à Inglaterra. Ernest Cromack foi membro da Loja Eureka no Rio de Janeiro e, após seu retorno definitivo à Inglaterra, ao


Introdução

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final de sua carreira profissional no Brasil, conseguiu levantar importantes dados sobre essas Lojas nos arquivos da Grande Loja da Inglaterra. O resultado de seu trabalho foi apresentado na Loja Quatuor Coronati e publicado no livro Ars Quatuor Coronatorum nº 80, de 1967, sob o título “English Freemasonry in Brasil – A Short History”. Na parte final deste livro há um capítulo dedicado ao histórico de cada uma das Lojas inglesas fundadas no Brasil a partir de 1891. Além de um resumo histórico que aparece nos capítulos 4 e 5, organizados na ordem cronológica de suas fundações, no capítulo 12 as Lojas são apresentadas de forma mais extensa graças aos vários trabalhos de autoria de James Martins Harvey, James M. Hall, Reginald Arthur Booking, Kurt Prober e de outros respeitáveis Irmãos cujos nomes aparecem na Bibliografia. Para esta compilação, recebi colaboração e material histórico de vários Irmãos das Lojas inglesas e, para não incorrer no erro de deixar de mencionar algum deles, prefiro não fazer menção de seus nomes. Mas a todos eles fica o agradecimento por terem participado da organização deste trabalho.


Parte I

Capítulo I

A Maçonaria O Início da Maçonaria Moderna A primeira manifestação da Maçonaria como instituição organizada veio a público em 24 de junho de 1717, dia de São João Batista, quando quatro Lojas de Londres resolveram se constituir em uma Grande Loja. Um dos relatos da formação da “Premier Grand Lodge”, ou seja, a Primeira Grande Loja na Inglaterra, é o que nos foi deixado pelo dr. James Anderson, feito aproximadamente 20 anos após o fato, em sua segunda Constituição publicada em 1738, em um relato sucinto e cuja tradução segue abaixo: ......... A. D. 1716, as poucas Lojas de Londres,.......... houveram por bem se reunir sob um Grão-Mestre como o centro de União e Harmonia, em especial as Lojas que se reuniam: 1. – Na taverna “The Goose and Gridiron” (Ao Ganso e à Grelha), no pátio da Catedral Saint Paul; 2. – Na taverna “Crown” (A Coroa), em Parker’s-Lane, próximo a Drury-Lane; 3. – Na taverna “Apple Tree” (A Macieira), em Charles-Street, Covent-Garden; 4. – Na taverna “The Rummer and Grapes” (A Taça e as Uvas), em Channel-Row, Westminster. Estes e alguns outros Irmãos veteranos reuniram-se na dita “A Macieira” e, tendo escolhido para ocupar a Cadeira o Mestre Maçom mais antigo (hoje o Mestre de uma Loja), constituíram-se em uma GRANDE LOJA “pro Tempore”, na devida forma, e imediatamente restabeleceram as Reuniões Trimestrais dos Oficiais das Lojas (denominadas “Grande Loja”), resolveram realizar a Assembleia e o Festival Anual e então escolher dentre eles um Grão-Mestre, até que viessem a – 17 –


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desfrutar da honra de contar com um Irmão de Sangue Nobre para ser seu chefe. Consequentemente, no dia de São João Batista, no terceiro ano de reinado do rei George I, A. D. 1717, a Assembleia e Festival dos Maçons Livres a Aceitos realizou-se na supramencionada taverna “Ao Ganso e à Grelha”. Esse importante evento é sempre referido como o início da Maçonaria Moderna, ou da Maçonaria Especulativa, e há várias considerações que podemos fazer sobre o surgimento dessa Grande Loja, também chamada de “Loja Mãe do Mundo”. A primeira consideração a ser feita é de que essas quatro Lojas não eram as únicas Lojas existentes em Londres na época. Elas se consideravam como sendo Lojas “time imemorial”, em existência desde tempos imemoriais, e havia em Londres, e certamente fora dela, um bom número de Lojas nas mesmas condições. Mas nem por isso elas aderiram de imediato à recém-criada Grande Loja, pois tinham existido até então contando com suas próprias Leis e Regulamentos para se autorregularem e, de início, não viam uma razão para se submeterem a um Corpo maçônico que reclamasse jurisdição sobre elas. É também verdade que a nova Grande Loja não tinha ainda estabelecido normas para admitir essas Lojas em sua jurisdição nem para constituir Lojas novas. Só depois de uns três anos, uma vez instituídas essas normas, as Lojas começaram a aderir e outras novas Lojas foram sendo constituídas. Das quatro antigas Lojas, somente uma era verdadeiramente formada por maçons aceitos e especulativos, sem qualquer vínculo com alguma atividade operativa. Era a de número 4 que se reunia na “Rummer and Grapes Tavern”. Até hoje ela mantém o número 4 na lista de Lojas constantes no Diretório da Grande Loja Unida da Inglaterra, embora tenha mudado de nome várias vezes, primeiro para “Old Horn Lodge”, depois “Somerset House Lodge” e, finalmente, “Royal Someset House and Inverness Lodge nº 4”. Seus registros revelam que em 1723 seu Venerável Mestre era o duque de Richmond e que seus membros eram aristocratas e pessoas de alto nível social. Aos seus quadros pertenciam maçons memoráveis como John T. Desaguliers e James Anderson. As outras três Lojas fundadoras deviam ter contido um número de membros que formavam um bom leque de artesãos ou mestres artesãos, provavelmente pedreiros, carpinteiros e ferreiros, alguns dos quais atingiram posições de Grandes Vigilantes nos primeiros seis anos de existência da Grande Loja, podendo-se inferir que nessas Lojas havia ainda um forte elemento operativo.


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Quanto aos nomes, a nº 1, “Goose and Gridiron”, passou a chamar-se “West India and American Lodge” e, em 1770, passou a ostentar o atual honroso nome de “Lodge of Antiquity” número 2. A Loja “Apple Tree Tavern” é a atual “Lodge of Fortitude and Cumberland nº 12”. A que não sobreviveu foi a “Crown”, que deixou de existir em 1752. É singular o fato de que a maioria das Lojas ostentava o nome das tavernas em que se reuniam. Isso está evidenciado na segunda Constituição de Anderson quando, com referência ao ano de 1738, relaciona nada menos de 106 Lojas então existentes no Registro da Grande Loja, quase todas com nomes de tavernas. Isso é um registro fiel das Lojas maçônicas inglesas quanto à natureza de suas reuniões, tendo como objetivo os jantares em tavernas, que era há 300 anos o lugar onde as pessoas costumavam fazer reuniões. Efetivamente, a maior parte da reunião consistia no jantar, restando muito pouco espaço para algum eventual trabalho ritualístico. Tendo suas raízes nas reuniões das guildas, ou corporações de ofício do passado, em que os artesãos de um mesmo ofício, ou de vários ofícios, se reuniam em tavernas para jantar e tratar dos assuntos relacionados com sua atividade operativa ou dos interesses administrativos da comunidade, em ambiente de jovial convívio social, a Maçonaria Moderna mantém até nossos dias sua característica mais relevante: a sociabilidade e a assistência mútua. Recentemente os Irmãos da Loja Unity nº 5560, em São Paulo, fizeram uma representação do que era uma reunião maçônica há 200 anos, em que os trabalhos ritualísticos ainda se entremeavam com o jantar. E os jantares que se seguem às reuniões das Lojas inglesas nos dias de hoje, com seus brindes protocolares, são sem dúvida parte de um passado que deixou esse legado para a atualidade. Uma das aspirações dos fundadores em 1717 era a de ter à frente de sua Grande Loja um Grão-Mestre de sangue nobre. As nomeações, ou eleições e confirmações dos nomes dos Grão-Mestres, são feitas anualmente desde sua fundação. O primeiro Grão-Mestre em 1717 foi Antony Sayer, referido como gentleman. Foi seguido por George Payne, depois por John Theophilus Desaguliers, e outra vez George Payne. Estes foram os únicos Grão-Mestres não pertencentes à nobreza. Em 1721, o duque de Montagu foi eleito para Grão-Mestre e, a partir de então, e até nossos dias, a cadeira de Grão-Mestre tem sido ocupada ininterruptamente por maçons de sangue real. O atual Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra é Sua Alteza Real, o duque de Kent. A Maçonaria logo começou a se espalhar e, em 1729, era formada a Grande Loja da Irlanda. Ainda dentro do Reino Unido, em 1736,


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houve a fundação da Grande Loja da Escócia. Todas elas, Inglaterra, Irlanda e Escócia, têm seus Corpos maçônicos independentes e soberanos em suas jurisdições territoriais. Já na Europa continental, em 1736, foi fundada uma Grande Loja na França, sendo seguida, em 1737, pela Grande Loja de Hamburgo, na Alemanha. E não demorou muito para que a Maçonaria também se desenvolvesse em outros países, como Itália, Bélgica, Portugal, os países escandinavos, levando aos povos seus princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. Nas novas colônias americanas a Maçonaria teve seu primeiro registro em 1715, com a fundação de uma Loja Maçônica na Filadélfia. Durante o século XVIII, houve a formação de um grande número de Lojas militares, com cartas constitutivas itinerantes e com o direito de se reunirem em qualquer lugar onde o regimento estivesse acantonado. Havia Lojas militares na Irlanda, Escócia e na Inglaterra, e acredita-se que elas tenham sido responsáveis pelo desenvolvimento do cerimonial e pela expansão territorial da Maçonaria nos anos 1700. Foi assim, principalmente, que a Maçonaria foi levada para Gibraltar e para as colônias norte-americanas. Os regimentos militares iam se movimentando e suas Lojas maçônicas foram atraindo pessoas das localidades em que estavam estacionadas, que nelas iam sendo iniciadas; quando os regimentos se mudavam para outras localidades, as Lojas iam deixando novos maçons que formavam novas Lojas nos locais. Os Estados Unidos da América se constituíram ao longo de três séculos no país com o maior contingente maçônico do planeta, e suas mais de 50 Grandes Lojas Estaduais independentes contam atualmente com cerca de 3 milhões de membros.

A Maçonaria no Brasil A Maçonaria sempre exerceu atração sobre pessoas de destaque na sociedade, da nobreza, de pessoas influentes e emergentes na sociedade e para aqueles que, imbuídos dos princípios do Iluminismo, procuravam encontrar uma instituição em que pudessem desenvolver e aplicar os seus ideais de liberdade e igualdade. E entre estes estavam os brasileiros que iam à Europa para estudar ou complementar sua formação, principalmente em Portugal e na França, lá sendo atraídos pelos princípios da Maçonaria e iniciados em suas Lojas. Ao retornar ao Brasil, aqui participaram da formação das primeiras Lojas maçônicas no Brasil. Assim, consta que a primeira Loja formada no Brasil foi a “Loja Reunião”, fundada em 1801 no Rio de Janeiro, filiada ao Oriente de Ille


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de France, (Ilha de França, atual Ilha Maurício). Outras duas, as Lojas “Constância” e “Filantropia”, foram formadas no Rio de Janeiro pelo Grande Oriente Lusitano, de Portugal. Eram essas três Lojas, “Constância”, “Filantropia” e “Reunião”, que formavam o núcleo maçônico no Rio de Janeiro, daí irradiando a Maçonaria para outras províncias do país. Ainda com relação aos primórdios da Maçonaria no Brasil, é mencionado sempre o Areópago de Itambé. Foi fundado em 1796, na divisa entre as províncias da Paraíba e de Pernambuco, não podendo ser considerado como uma Loja, pois funcionava mais como um clube ou academia. No caso do Areópago de Itambé, fundado por Manuel Arruda da Câmara, seu objetivo principal era a libertação nacional e a extinção do colonialismo. Com esse fim, os seus membros foram partícipes da “Conspiração dos Suaçunas” em 1801, cujo fracasso levou à dissolução do Areópago em 1802. Logo depois, dele derivaram outros agrupamentos secretos, prosseguindo na efervescência do movimento de índole liberal e republicana que preparou a eclosão da Revolução Pernambucana de 1817. Após a fundação daquelas três Lojas “oficiais” no início dos anos 1800, “oficiais” por estarem sob a égide de Potências maçônicas regulares, ou seja, do Grande Oriente Lusitano e do Oriente da França, formaram-se outras Lojas nas províncias do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, algumas livres e outras subordinadas a Corpos maçônicos regulares. Assim, em 1815, é formada no Rio de Janeiro a Loja “Comércio e Artes”. Esta se reveste de importância para a Maçonaria no Brasil, pois, fundada com o fim de criar uma Potência maçônica brasileira, seus membros decidiram conservá-la independente, ou seja, sem subordinação a um Grande Oriente ou Grande Loja estrangeira regular. Em 1817, eclode no Nordeste brasileiro a Revolução Pernambucana, que teve como reação por parte de dom João VI a expedição do alvará régio de 18 de março de 1818, que proibia o funcionamento das sociedades secretas. Em decorrência, as Lojas resolveram cessar os seus trabalhos, passando a reunir-se secretamente.

Fundação do Grande Oriente do Brasil Em 1821, dom João VI retorna a Portugal, deixando seu filho dom Pedro como regente. Com as exigências do alvará régio de 1818 bastante abrandadas, os maçons voltaram à atividade e, no dia 24 de junho de 1821, dia de São João Batista, reergueram a Loja “Comércio e Artes”.


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Nos meses seguintes foi tão grande a adesão de novos membros ao seu quadro que fez com que seus líderes, entre os quais figuravam Joaquim Gonçalves Ledo e José Bonifácio de Andrada e Silva, pensassem em criar uma Obediência nacional, que tivesse a independência do Brasil como meta inicial e principal. Em decorrência, os membros da Loja “Comércio e Artes” participam da formação de duas outras Lojas, a “União e Tranquilidade” e a “Esperança de Niterói”, e essas três formaram a base para a constituição do Grande Oriente Brasílico, ou Brasiliano, que mais tarde viria a ser o Grande Oriente do Brasil. Isso ocorreu “no 28º dia do terceiro mês maçônico do Ano da Verdadeira Luz 5822, que, no calendário gregoriano, corresponde ao dia 17 de junho de 1822 (da era designada como Era Vulgar). [José Castellani em Ação Secreta da Maçonaria na Política Mundial, p. 69 – Ed. Landmark, S. Paulo, 2001]. Para ser seu primeiro Grão-Mestre, foi escolhido José Bonifácio de Andrada e Silva. O cargo de Primeiro Grande Vigilante, eventual substituto imediato do Grão-Mestre, coube a Joaquim Gonçalves Ledo. Existia luta ideológica entre os grupos liderados por esses dois próceres de nossa independência, pois enquanto José Bonifácio defendia a ideia de independência dentro de uma união brasílico-lusa, já Gonçalves Ledo propugnava pelo rompimento total com a metrópole portuguesa, em um regime republicano.

A Independência do Brasil A influência da Maçonaria na independência do Brasil foi intensa, pois foi na Loja “Comércio e Artes”, com a participação dos maçons José Joaquim da Rocha e José Clemente Pereira, que foram redigidas e encaminhadas ao príncipe dom Pedro as solicitações rogando sua permanência no Brasil, atividade que culminou no episódio conhecido como o “Dia do Fico”, em 9 de janeiro de 1822. Continuando o processo de atração de dom Pedro para seus quadros, a Loja “Comércio e Artes”, sob a liderança de Joaquim Gonçalves Ledo, resolveu outorgar ao príncipe o título de “Defensor Perpétuo do Brasil”. Partiu de José Bonifácio a proposta de iniciação do príncipe dom Pedro, que foi iniciado na Loja “Comércio e Artes” no dia 2 de agosto de 1822. Nada menos do que três dias depois, ou seja, em 5 de agosto, dom Pedro torna-se Mestre Maçom. E em mais duas semanas o grupo liderado por Gonçalves Ledo indica dom Pedro para ser o Grão-Mestre do recém-fundado Grande Oriente. A independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, foi obra incontestável de José Bonifácio.


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E logo após começa a crescer a rivalidade entre os grupos de Gonçalves Ledo e José Bonifácio. Como Gonçalves Ledo e outros de seu grupo haviam feito algumas exigências absurdas a dom Pedro, José Bonifácio fez ver ao imperador que isso era altamente perigoso e prejudicial à estabilidade do seu governo. Assim, em 21 de outubro de 1822, aconselhado por José Bonifácio, dom Pedro I manda fechar o Grande Oriente do Brasil, que somente voltou a abrir dez anos depois, após sua abdicação, em 7 de abril de 1831, quando retornou a Portugal. Desde essa reabertura o Grande Oriente do Brasil opera ininterruptamente até hoje, tendo se tornado uma das maiores Potências maçônicas do mundo.


Capítulo II

Os Maçons Ingleses no Brasil Fase I – Lojas Ligadas Diretamente à Grande Loja da Inglaterra A primeira menção da Maçonaria Inglesa com relação à América do Sul encontra-se registrada em ata da reunião da Grande Loja da Inglaterra realizada em 17 de abril de 1735. A ata dessa reunião relata a aprovação de uma proposta nomeando o Ir. Randolph Took, Esq., para o cargo de Grão-Mestre Provincial para a América do Sul. Não existe nenhum registro de que nessa época houvesse alguma Loja inglesa nessa parte do mundo, não havendo, pois, qualquer razão prática para essa nomeação que, evidentemente, foi feita honoris causa. Mas o fato constitui-se em ponto de partida para qualquer relato sobre a Maçonaria Inglesa na América do Sul. Depois dessa referência à América do Sul, mais um século haveria de passar até que qualquer iniciativa para formação de uma Loja inglesa se materializasse, e esta ocorreu no Brasil. Foi no ano de 1834 que a Grande Loja Unida da Inglaterra emitiu uma Carta Constitutiva (Warrant) para a Orphan Lodge (Loja orfã) para começar a trabalhar no Rio de Janeiro. A iniciativa provavelmente partiu do Ir. Joseph Ewbank. Ele fora iniciado na Maçonaria em Londres, em 1810, na Old King’s Arms Lodge nº 28, e é descrito nos registros da Loja como comerciante, residindo em Birchin Lane. Chegou ao Rio de Janeiro cinco anos mais tarde, tendo sido recebido como cidadão de respeito e fazendo contato com os maçons brasileiros. Ele consta também como um dos fundadores da Loja “Comércio e Artes” – na qual o primeiro imperador do Brasil foi iniciado – tendo também tomado parte na fundação do Grande Oriente do Brasil em 1822. – 25 –


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No entanto, como já relatado anteriormente, dentro de poucos meses o imperador tinha ordenado o fechamento do Grande Oriente. Seus membros foram proscritos e perseguidos. Maçons proeminentes foram jogados nas prisões ou forçados a deixar o país, tendo seus bens confiscados. Joseph Ewbank possivelmente foi um deles, pois deixou o Brasil por essa época, e dele ouvimos falar novamente em Gibraltar, onde se filiou à “Calpean Lodge nº 748” em 1824, vindo a ser seu Venerável Mestre alguns anos mais tarde. Quando o imperador abdicou em 1831, a situação maçônica no Brasil melhorou substancialmente. Provavelmente nunca se saberá se o retorno de Ewbank foi por mera coincidência ou foi porque então encontrara caminho livre. O fato é que ele regressou ao Rio e se tornou um dos fundadores e o primeiro Venerável Mestre da primeira Loja inglesa no Brasil, a “Orphan Lodge nº 616”.

Orphan Lodge nº 616 A petição, contendo apenas sete assinaturas, foi enviada a Londres em novembro de 1833. A Carta Constitutiva (Warrant) somente foi emitida em dezembro de 1834, mais de um ano após o envio da petição, passando-se mais outros dois anos e meio até que a Loja fosse finalmente constituída. Não se encontrou até agora uma explicação para essa longa demora, porém há evidências de que a taxa requerida para a emissão da Carta Constitutiva somente foi recebida em Londres no terceiro trimestre de 1836. É muito pouco provável que o Grande Secretário liberasse a Carta sem o recebimento da respectiva taxa, ocasionando que esta chegasse ao Rio somente no início de 1837. A nova Loja parece ter começado de maneira bastante simples, sem qualquer semelhança com o impressionante cerimonial de consagração que conhecemos atualmente. Durante os quatro anos seguintes a Loja cresceu de seus sete membros fundadores para um total de 40 membros. É fruto de especulação, mas não deixa de ser sugestiva a hipótese de a Loja ter recebido esse nome, Loja Órfã, em vista de ter sido a primeira Loja constituída no hemisfério sul subordinada à Grande Loja Unida da Inglaterra. Os Relatórios Anuais eram enviados a Londres anualmente, acompanhados de extratos de suas atas. Mas tudo isso era totalmente ignorado pela Grande Loja da Inglaterra. Em maio de 1839, dois anos após a constituição da Orphan Lodge, seu Venerável Mestre escreveu para o Grande Secretário lamentando a falta de qualquer comunicação de Londres. Quase 18 meses depois, em setembro do ano seguinte, outro


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Venerável escreveu que, desde a instalação da Loja, eles continuavam sem qualquer comunicação direta da Grande Loja. Depois de transcorrido outro ano, o Venerável seguinte enviou ao Grande Secretário as cópias das duas cartas anteriores, manifestando sua insatisfação pela contínua indiferença com relação aos trabalhos da Orphan Lodge. Não há registro de qualquer resposta por parte da Grande Loja, sendo esta a última comunicação da Loja que foi encontrada. Sabe-se que ela ainda existia cerca de oito a nove meses depois, de vez que a ata da Loja St. John’s de maio de 1842 registra a oferta do uso de suas instalações à sua coirmã. Não existe, porém, qualquer outro registro que nos indique o que realmente ocorreu. Pelo visto, sabemos que a Loja “Orphan” perdeu seu local de reuniões e, aparentemente, estava tendo dificuldade para encontrar outro local. A Grande Loja parece ter tido pouco interesse em sua prosperidade e assim, depois de uma curta jornada de apenas cinco anos, a Orphan Lodge deixou de existir.

Saint John’s Lodge nº 703 Ainda durante a existência da Orphan Lodge ocorreu a formação de uma segunda Loja no Rio de Janeiro. Era a “St. John’s Lodge” nº 703. Seguiu-se outro começo bem-sucedido, pois o crescimento do número de membros superou o da própria Orphan Lodge. O destino dessa segunda Loja, a St. John’s nº 703, foi praticamente o mesmo da anterior. A petição para a Carta Constitutiva foi enviada em setembro de 1839, mas esta foi extraviada dentro da Grande Loja, tendo de ser elaborada e enviada uma duplicata. Como resultado, a Loja foi constituída somente em 27 de janeiro de 1842. Os Relatórios Anuais da Loja foram enviados por um período ligeiramente mais longo do que os da anterior e demonstram que houve um robusto crescimento no número de seus membros, ou seja, dos oito fundadores para um total de 51 quando foi enviado o último relatório, em 1849. Após apenas uns poucos anos, essas duas Lojas deixaram de enviar Relatórios à Grande Loja Unida da Inglaterra e, eventualmente, tiveram seus registros cancelados em 1862. Sempre se pensou que essas Lojas se viram forçadas a cessar suas atividades em decorrência de oposição por parte do Grande Oriente do Brasil, mas da quantidade de documentos encontrados recentemente nos arquivos da Grande Loja da Inglaterra, nos quais se baseia a maior parte deste relato, parece agora mais plausível que grande parte dessa culpa se deveu à própria Grande Loja Unida da Inglaterra.


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Seguindo a prática de sua coirmã, a Saint John’s Lodge fazia um relato anual de suas atividades ao Grande Secretário, anexando cópias das atas. Considerando a aparente indiferença de que ambas se queixavam, é surpreendente o fato de que seus membros se dessem a esse trabalho. Lembremos que nessa época ainda não existiam as máquinas de escrever, não havia papel carbono e cada cópia adicional tinha de ser feita à mão. Manter essa regularidade nos relatórios, ano após ano, sem despertar qualquer atenção por parte da Grande Loja, nos indica que nossos Irmãos tinham um elevado senso do dever e o desejo ardente de manter contato com Londres. É fato que nessa época a Grande Loja estava ainda no processo de integração após a União das duas Grandes Lojas em 1813, a dos Antigos e a dos Modernos, e que o gabinete do Grande Secretário não tinha a eficiência que conhecemos atualmente. Porém, mesmo tendo isso em mente, é difícil encontrar uma razão pela qual essas duas Lojas fossem tão completamente ignoradas. Os maçons brasileiros e ingleses sempre tiveram as mais amistosas relações, apesar de cultivarem opiniões diversas sobre as práticas maçônicas. A formação da primeira Loja inglesa parece ter sido aceita sem reclamações, não existindo evidências de quaisquer interferências por parte do Grande Oriente, mas com o aparecimento da St. John’s Lodge e, por conseguinte, o estabelecimento de uma segunda Loja estrangeira em território nacional, a situação já mudou de figura. Houve oposição crescente e esta se fez sentir quando a Loja teve de buscar por um novo lugar para suas reuniões. Isso foi em setembro de 1844. Ao saber dessa necessidade, a Loja “Comércio”, do GOB, ofereceu suas instalações. Um gesto amistoso que foi de bom grado aceito com efusivos agradecimentos. Mas o Grande Oriente não deixou de manifestar seu desprazer, porém se passaram três anos até que fosse tomada alguma ação. A despeito da falta de algumas atas desse período, há razões para acreditar que o Grande Oriente propôs que a Loja viesse trabalhar sob sua jurisdição, autorizando-a a continuar trabalhando em língua inglesa, desde que abdicasse da Carta Constitutiva da Inglaterra. Em outubro de 1846, a ata da Loja menciona que: “O Irmão Roberts deu conhecimento à Loja de que o Grande Oriente teria prorrogado por mais seis meses o prazo dado à nossa Loja a respeito de certas questões sob consideração.” A Loja, ao que parece, não tomou qualquer atitude, de forma que no final do ano seguinte o Grande Oriente decidiu fazer valer sua autoridade. A Loja “Comércio” foi notificada de que a presença de uma Loja


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estrangeira não poderia mais ser tolerada. A “St. John’s” não poderia mais fazer uso das instalações de Lojas brasileiras e a isso se seguiu uma circular a todas as Lojas proibindo a intervisitação e quaisquer comunicações com a Loja inglesa. Até então a Loja tinha estado trabalhando por sete anos. Todos os requisitos da Grande Loja, tais como Relatórios Anuais, remessas de taxas e anuidades, e outras obrigações administrativas, tinham sido atendidas. Mas, além dos certificados de Mestres Maçons emitidos pela Grande Loja da Inglaterra, nenhuma outra comunicação tinha vindo de Londres. Apenas dois anos antes o V. Mestre tinha escrito ao Grande Secretário e, entre outros assuntos, fez referência às suas relações com o Grande Oriente: “A questão pendente com o Grande Oriente ainda permanece ‘in statu quo’ e a Loja ansiosamente aguarda pela decisão do Grande Conselho que lhe possibilitará determinar sobre a posição a ser tomada.” Fica evidente que esse problema com o Grande Oriente já tinha sido relatado a Londres, sem o recebimento de qualquer expediente de parte do Grande Secretário. Esse apelo posterior, igualmente, ficou sem resposta. A oposição do Grande Oriente era cada vez mais sentida, de forma que a completa ausência de qualquer orientação de Londres deve ter sido desalentadora. À luz dessa aparente falta de interesse não é surpresa que encontramos os Irmãos indagando-se se não seria melhor romper os laços com a Grande Loja e se transferirem para o Grande Oriente do Brasil. Não se sabe até hoje se a Loja se compôs com o Grande Oriente ou se simplesmente deixou de existir. Não há qualquer indício de outras comunicações com Londres após 1849. Finalmente, em 1862, a “Saint John’s Lodge” nº 703 teve seu registro cancelado nos livros da Grande Loja da Inglaterra, juntamente com a de sua coirmã, a “Orphan Lodge” nº 616.

Southern Cross Lodge nº 970 No Nordeste do Brasil, em Pernambuco, uma terceira Loja foi constituída em 1856. Foi a “Southern Cross Lodge” nº 970. (Loja Cruzeiro do Sul). Seu principal organizador e fundador foi o Irmão H. Augustus Cowper, cônsul britânico na cidade de Recife, que enviou a petição de uma Carta Constitutiva diretamente para o conde de Zetland, o então Grão-Mestre.


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A petição é datada de março de 1856. A Carta Constitutiva foi emitida um mês depois e a Loja foi constituída em julho. Tudo dentro de um prazo de quatro meses. Uma enorme diferença em relação ao tempo que levou para constituir as duas Lojas anteriores do Rio de Janeiro. O cônsul, naturalmente, tinha a vantagem de poder usar a mala diplomática para sua correspondência, e não resta dúvida de que seu contato direto com o Grão-Mestre também ajudou a apressar as coisas. Nada se sabe sobre as atividades da Loja, pois infelizmente os extratos das atas não foram enviados a Londres. No entanto, logo após sua formação, foi enviada uma carta ao Grande Secretário da Grande Loja da Inglaterra contendo o seguinte parágrafo: “Por determinação do Venerável Mestre venho informar que, com a abertura da Loja aqui, foi considerado cortês fazer uma comunicação dessa circunstância ao Grande Oriente, e que a resposta recebida foi de natureza nada fraterna. Eles declaram que, de acordo com um artigo de sua Constituição, não podem reconhecer qualquer Loja formada no Brasil que tenha sua Carta Constitutiva outorgada por outra Grande Loja que não a do Brasil, e que, em consequência, não manterão qualquer correspondência fraternal conosco, como também nenhuma Loja sob sua jurisdição será autorizada a manter qualquer comunicação conosco.” Essa carta foi devidamente considerada pela Comissão Colonial da Grande Loja, e o Grande Secretário enviou uma simpática resposta, que não foi de grande ajuda, e a Loja decidiu não tocar mais no assunto. De qualquer forma, provavelmente por causa da distância envolvida – Pernambuco fica a mais de 2 mil quilômetros do Rio –, não houve oposição de monta e a Loja continuou a trabalhar sem interferências. Sobreviveu por uma questão de 15 anos, mas nunca conseguiu tornar-se realmente forte. Na proporção em que novos membros entravam, outros saíam ou faleciam, assim que a inabilidade de adquirir pujança talvez tenha sido a provável causa de seu fechamento. O número da Loja foi alterado para 672 quando a Grande Loja refez sua numeração em 1863. O último relatório encontrado nos arquivos da Grande Loja Unida da Inglaterra tem data de 1872, e a Loja “Southern Cross” foi removida de seu registro em 1892.

Tentativas de Reativação Durante a existência dessa Loja pernambucana, e também posteriormente no Rio de Janeiro, foram feitos vários contatos com a Grande Loja da Inglaterra, em diferentes ocasiões, com o objetivo de estabelecer outras


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Lojas no Brasil. Efetivamente, três dos antigos membros da Orphan Lodge tentaram revivê-la e, em março de 1860, escreveram ao Grande Secretário em Londres: “Os abaixo assinados, únicos membros da Orphan Lodge nº 616 desta cidade, com a assistência de outros Irmãos da St. John’s Lodge nº 703, também desta cidade, estão dispostos a recomeçar os trabalhos da antiga Loja.” Foi dada autorização para reativar a Carta Constitutiva adormecida e consta nos registros que foram realizadas algumas reuniões e até houve iniciação de candidatos, porém não há disponibilidade de detalhes e não foi enviado Relatório à Grande Loja. Está evidenciado, porém, que a reabertura foi de curta duração, pois a solicitação foi repetida em 1864. Era vazada em termos ligeiramente diferentes e concluía: “Fomos levados a entender que, pela fala de relatórios, e outras circunstâncias, muitas Lojas foram recentemente canceladas. Estamos ansiosos para sermos informados se podemos realizar nossas reuniões sob a velha Carta Constitutiva ou se devemos requerer uma nova.” O Grande Secretário respondeu que não tinha recebido nenhuma comunicação do Rio após a permissão dada em 1860, portanto: “a Orphan Lodge foi formalmente convocada a fazer seu Relatório antes de 21 de maio de 1861. Nenhuma resposta foi recebida sobre essa convocação e em setembro de 1861 foi passada uma resolução determinando a várias Lojas – e entre elas a Orphan Lodge, para oficiarem à Grande Loja, em março de 1862, as razões por que não deveriam ser extintas. A Orphan Lodge parece não ter feito qualquer comunicação por escrito e em decorrência foi extinta, não podendo ser reativada. E sabendo que existe agora um Supremo Corpo Maçônico nos Brasis, o Grão-Mestre não outorgará Carta Patente para uma nova Loja.” Os mesmos três Irmãos escreveram imediatamente ao Grande Secretário asseverando que não tinham recebido nenhuma convocação ou comunicação, o que os teria colocado inteiramente à margem dos passos tomados para extinção de sua Loja. Solicitaram a reconsideração dessa extinção e enviaram uma petição para uma nova Loja Orphan, que estava assinada por três membros da antiga Orphan Lodge e quatro membros da St. John’s Lodge. No devido tempo o Grande Secretário respondeu que a extinção da antiga Loja não poderia ser revogada e: “Com respeito à petição de uma nova Loja, fui orientado a informar que o Grão-Mestre se sente compelido a negar o pedido dos peticionários, eis que existe agora uma Suprema Potência maçônica nos


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Brasis, sendo contrário às relações amigáveis entre Corpos maçônicos o estabelecimento de uma Loja por parte de autoridade estrangeira, em um Estado ou território já ocupado por Autoridade maçônica regular.” Tudo isso deve ter sido recebido como um doloroso golpe. Eles tinham permitido que, por descuido, a antiga Loja prescrevesse e que agora estava perdida para sempre. Sua petição para uma nova Carta Patente tinha sido recusada, e a razão dada pelo Grande Secretário, embora não estritamente correta, indicava uma mudança de política em relação ao Brasil. A Grande Loja tinha estado a par da existência de Corpos maçônicos brasileiros quando, em 1856, concedeu a Carta Constitutiva para a Southern Cross Lodge, em Pernambuco. Da mesma forma quando autorizou a reativação da Carta Patente adormecida da velha Orphan Lodge em 1860. E agora, apenas quatro anos mais tarde, uma nova Carta estava sendo recusada. O padrão dessas correspondências era muito similar nas várias tentativas subsequentes para conseguir Cartas Patentes. Duas delas são deveras interessantes. A primeira foi enviada do Rio de Janeiro em 1877 com uma petição para formar a Wanderers Lodge nessa cidade. “Vivem nesta cidade e província pelo menos 250 maçons de língua inglesa, os quais, em virtude das contínuas dissensões na Ordem local, e da maneira extremamente lassa em que são conduzidos os trabalhos, acham quase impossível continuar sua conexão com qualquer dos Corpos rivais que alegam jurisdição aqui, ficando consequentemente sem uma base neutra comum em que possam se reunir para assuntos puramente maçônicos.” A alegação em relação aos Corpos rivais era com referência à cisão havida no Grande Oriente do Brasil em 1863, quando este se partiu em dois, o Grande Oriente do Brasil – Vale do Lavradio, e a facção rival que se autodenominou de Grande Oriente do Brasil – Vale dos Beneditinos. A Grande Loja ficou assim informada da existência de dois grupos opostos, porém não houve mudança de postura em Londres. O Grande Secretário respondeu: “É meu dever informar que desde muito tem sido regra estabelecida desta Grande Loja de nunca conceder uma Carta Patente para o estabelecimento de uma Loja em qualquer lugar onde exista uma Grande Loja nativa.” Isso interpreta corretamente a mudança política da Grande Loja, de que não se entremeteria onde existisse outra Grande Loja, mesmo que sua soberania estivesse em disputa.


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No entanto, dois anos mais tarde o Grande Secretário recebeu outra consulta sobre uma Carta para uma Loja a ser formada no Rio. Muito embora inteiramente a par da existência de corpos rivais disputando jurisdição local, a resposta foi uma reversão ao padrão usado em casos anteriores: “É regra estabelecida pelo Grão-Mestre da Inglaterra de nunca conceder uma Carta Constitutiva para uma Loja reunir-se em um país onde esteja operando uma Grande Loja distinta. Esse é o caso do Rio de Janeiro, que creio estar sob a jurisdição do Grande Oriente do Brasil.” Essa não era a condição prevalente naquele momento em particular. Não havia um comando reconhecido no Brasil até o ano de 1883, quando os dois Grandes Orientes no Rio finalmente se juntaram. Conforme já mencionado anteriormente, o Grande Oriente do Brasil foi fundado em 1822, mas foi fechado pelo imperador dom Pedro I, praticamente logo após. Seis anos mais tarde, depois que algumas Lojas tinham decidido reabrir, foi formado o Grande Oriente Nacional Brasileiro, que permaneceu ativo por alguns anos. O imperador abdicou em 1831 e, no ano seguinte, o Grande Oriente do Brasil recomeçou a trabalhar. No mesmo ano foi formado um Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito do Grau 33, reivindicando jurisdição também sobre os Graus Simbólicos, de forma que havia agora três autoridades maçônicas no país. Três anos mais tarde as dissensões causaram uma cisão no Supremo Conselho, seguida de outras separações. Trinta anos haviam de passar até que essa situação deixasse de existir, colocando-nos em 1863, com a existência do Grande Oriente do Brasil e dois Supremos Conselhos. Então o próprio Grande Oriente do Brasil partiu-se em dois Corpos distintos que se tornaram conhecidos por Grande Oriente do Brasil – Vale do Lavradio, e a facção rival que se autodenominou de Grande Oriente do Brasil – Vale dos Beneditinos. Os dois Grandes Supremos Conselhos se fundiram e foram posteriormente absorvidos pelo Grande Oriente do Lavradio, mas os dois Orientes rivais do Lavradio e dos Beneditinos continuaram em oposição até 1883. Então, após contendas entre os dois por mais de 20 anos, ambos se juntaram e o Grande Oriente do Brasil, Vale do Lavradio, ficou finalmente reconhecido como Suprema Autoridade maçônica com jurisdição no território brasileiro. Antes de entrarmos para a fase seguinte da presença dos maçons ingleses no Brasil, é necessário comentar a respeito de um fato importante para o Grande Oriente do Brasil e fazer um resumo de dois maçons brasileiros que tiveram participação importante nesses eventos.


Capítulo III

O GOB e a Grande Loja da Inglaterra O Reconhecimento do Grande Oriente do Brasil pela Grande Loja da Inglaterra Desde muito vem sendo alegado no Brasil de que o Grande Oriente obteve reconhecimento pela Inglaterra quando de sua formação em 1822, porém não existe evidência material do fato. Sabe-se que em agosto de 1822 o Grande Oriente do Brasil resolveu indagar ao seu correspondente em Londres, Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, se ele poderia obter o reconhecimento junto à Grande Loja Unida da Inglaterra. Hipólito José da Costa, como é mais comumente citado, desfrutava da amizade do duque de Sussex, filho do rei George III e primeiro Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra após a união das duas Grandes Lojas, dos Modernos e dos Antigos, em 1813. É difícil acreditar que o duque de Sussex não tenha concordado com o pedido de seu amigo, pois o Grande Oriente alegava em 1831, após a reabertura do mesmo, que a Inglaterra teria dado o reconhecimento, mediante uma carta que teria chegado após o ano de 1822. Nunca se encontrou evidência que confirme o fato. Mas é fácil entender a omissão quando lembrarmos que o Grande Oriente fundado em junho de 1822 foi suspenso em outubro do mesmo ano, tendo funcionado por apenas quatro meses, só voltando à atividade cerca de dez anos depois. Por outro lado, as viagens da Europa para o Brasil levavam mais de um mês, podendo-se supor que a alegada carta de reconhecimento tenha chegado ao Brasil após o fechamento do Grande Oriente. De parte da Inglaterra, deve-se levar em consideração que a união das duas Grandes Lojas que formaram a Grande Loja Unida da Inglaterra ocorrera em 1813, e não devemos esperar que na época seu Grande Secretário dis– 35 –


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