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Raphael Guimar達es


Índice Prólogo................................................................................................. 7 Aviso aos Homens de Má-fé................................................................ 9 Capítulo 1 A Grande Conexão............................................................................. 11 Capítulo 2 Pandora Ganha Vida........................................................................... 29 Capítulo 3 Que Ideias São Essas?........................................................................ 67 Capítulo 4 A Última Sombra............................................................................... 87 Capítulo 5 Personagens de uma Grande Jornada................................................ 117 Capítulo 6 Jake e Neytiri.................................................................................... 141

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Prólogo

N

o fim do ano de 2009, veio a público um dos maiores sucessos de bilheteria dos últimos tempos: Avatar. A princípio, parecia mais uma versão moderna de Guerras nas Estrelas com o melhor da ficção científica. Homens altos e azuis, evolução da concepção antiga dos homens verdes do espaço, planetas inexplorados com uma civilização primitiva, naves espaciais, muito tiroteio e efeitos pirotécnicos que iriam fazer você vibrar na cadeira. Essa expectativa superficial, contudo, não se mostrou falsa; porém o filme ultrapassou em muito essa linha e apresentou para o público uma história que, além de emocionar, ajudou-nos a refletir sobre nossa “avançada” civilização, nosso destino como raça e até mesmo sobre nossa vida pessoal. Apesar de esse não ser o enfoque desta obra, não é sensato, em momento algum, deixar de realçar a supremacia da produção e os efeitos especiais deste filme, que apontaram para uma nova era do entretenimento. Maquinário específico e tecnologias foram criados para permitir que Avatar pudesse alcançar um padrão de qualidade ímpar com projeções em terceira dimensão, apresentando de forma ampla esse modelo ao grande público. No entanto, esse aspecto pode ser colocado em segundo plano sem perda alguma, se encararmos a profundidade do roteiro e das mensagens que trouxe à baila, alcançando uma vastíssima faixa etária, posições sociais diversas, pessoas de diferentes culturas, línguas e religiões. Curiosamente, o roteiro pode tocar todas essas subjetividades que em um primeiro momento são tão diferentes e díspares, mas, como poderemos ver adiante, só o fato de uma gama enorme de pessoas ter sido comovida por essas mensagens já mostra que o tema não é de todo particular e não estamos tão distantes assim uns dos outros, apesar das supostas diferenças. As mensagens contidas em Avatar fazem parte de algo “vivo” que diz respeito a todos e está na –7–


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pauta do cenário mundial atingindo todas as pessoas de várias formas quer elas estejam atentas para isso ou não. Ao sair do cinema, minha cabeça pululava de ideias e pensamentos de modo que eu mal podia me concentrar. No dia seguinte, ao sair da casa de uma amiga, tive uma pequena crise de choro que pude disfarçar por causa dos óculos escuros que usava. Essa crise aconteceu, pois um terrível insight surgiu na minha mente e nele pude perceber o quanto nossa civilização está morta e se dirigindo para o fim, o quanto estamos distantes uns do outros e como estamos doentes física e psicologicamente. Por alguns dias, fiquei distante dos amigos e afogado nos livros e em meus pensamentos, até que resolvi fazer o que há muito elaborava: escrever um livro mostrando o caminho pelo qual podemos construir um futuro mais interessante, unindo o que aprendi com a obra de vários pensadores, em especial Carl G. Jung. Uma tentativa de fazer pensar o homem e a civilização sem as utopias que pregam os políticos, as filosofias de bar e sem autopiedade. Um estilo de vida livre da dominação religiosa com seu discurso torpe que só obscurece a mente fornecendo fórmulas e preconceitos venenosos sobre a natureza do homem e de como ele deve agir. O caminho para isso já estava aberto: Avatar! Estava tudo ali, um grande resumo, uma obra de arte na qual olhos atentos podem perceber o chamado para a responsabilidade que cabe a cada um de nós mudar o destino do mundo na direção da valorização da vida e da humanidade.


Aviso aos Homens de Má-fé. Esta obra foi concebida para expandir a compreensão sobre o homem por causa da demanda que urge em literatura de especulações acessíveis sobre o assunto. Devo alertar que nenhuma mínima frase deste texto deve ser utilizada ou manipulada para reafirmar dogmas religiosos ou instituições místicas. É com pesar que vejo a obra de Jung sendo utilizada nesse sentido. Se o fizer, estará usando de forma inútil e imbecil um conhecimento que só tem a acrescentar à experiência de estar vivo como ser humano sobre este sol que nos aquece. O Autor

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Capítulo 1

A Grande Conexão Sobre as relações humanas e ecológicas com o mundo e a hipótese do Inconsciente Coletivo, de Jung

A

sala estava vazia, na mesa de centro havia alguns papéis com várias anotações feitas de qualquer maneira, como se a pessoa que as fez tivesse pressa e muitas ideias com as quais lidar. Um homem alto com um semblante concentrado entrou no cômodo acompanhado de um menino que carregava um gravador na mão no qual apertava os botões fazendo os últimos ajustes. Os dois sentaram cada um em uma poltrona. O menino colocou o gravador na mesa de centro, apertou um grande botão vermelho no qual estava escrito “Rec” e o homem começou a falar. “Avatar e a Psicologia, por Gabriel Gonçalves”. Fez uma pequena pausa e continuou. Não gosto de pedir às pessoas que se permitam, em alguns momentos, viajar em devaneios e depois utilizar as experiências vividas como base para especulações ou argumentação. Essa muitas vezes é base do misticismo barato. Porém, a utilidade das viagens mentais para relaxar o cérebro e produzir insights criativos, que devem ser usados com cautela, não deve ser negada. Dito isso, com certo zelo e correndo risco da crítica da oposição, vou inserir uma pequena viagem para introduzir nosso estudo. Ele pegou um dos papéis que estava em cima da mesa e começou a ler. Agora você segura na mão este livro sem muita consciência de seu peso e formato. Provavelmente está desligado do seu corpo e das sensações que recebe do ambiente onde está, como os sons e cheiros. Também já se esqueceu de controlar a respiração que sozinha funciona devagar, e, nesse estado de inconsciência, acredita que pode relaxar cada vez mais e ver claramente tudo que posso lhe dizer. – 11 –


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Quando se sentir tranquilo, imagine-se andando sobre a floresta morna de Pandora, um planeta de gravidade um pouco menor que a nossa, capaz de permitir que seu corpo faça menos força sobre seus pés. Sinta-os agora. Volte sua atenção para os pés e veja como eles estão relaxados e confortáveis. Você ensaia alguns passos nessa realidade nova e confusa e percebe que o chão brilha onde você o toca, contudo não só o chão, mas tudo em volta brilha de uma forma hipnotizante e linda. Você começa a escutar sons diferentes. Algo que produz um som próximo ao de uma flauta está se aproximando e quando você olha é uma espécie de pássaro multicolorido que nunca viu antes. Ele não se demora e continua o seu voo para longe. A mata é selvagem, mas mesmo com a possibilidade do perigo iminente de uma fera extraterrestre te atacar, você consegue sentir-se em casa acolhido pelo calor da floresta úmida e aconchegante. Você olha para o seu corpo e vê que não é mais o mesmo, você está distante do chão e deve ter mais de 2,10 metros de altura. Seu corpo é mais alongado, fino e forte. E, para seu espanto, sua pele é azul. Você esfrega as mãos nos braços tentando entender que tipo de pele é essa e como você chegou ali, mas não há tempo para pensar. Você é surpreendido por um ser de aparência familiar, que lembra em muito as características que você mesmo apresenta agora. O outro lhe olha e você quase sufoca de nervosismo. Porém, a ansiedade sobre o que fazer é interrompida por um movimento do braço desse outro ser que está à sua frente. Quando você presta atenção, vê que ele aponta para seu peito de onde jaz perdurado algo que lembra uma cabeleira longa e negra. “Ela é sua!” Você estende o “cabelo” confiando nele, que é a coisa mais semelhante a você nessa nova realidade. Então, ele simplesmente encosta esse “cabelo” em uma árvore que começa a brilhar em resposta. De seus “cabelos” saem algo parecido com fibras óticas que se conectam a ela, e uma onda de sensações e pensamentos dominam sua mente como um banho de água fria. Agora tudo está claro! Você pode ver e compreender tudo. Você sabe onde está e quem é aquela pessoa. Você tem acesso a todos os conhecimentos, informações e ouve as histórias de todos aqueles que viveram naquela terra. Você agora é íntimo e parte dessa realidade absurdamente rica e complexa. Nesse momento, quero que se dê conta de que não está em nenhum lugar especial e apenas segura um livro que acabou de comprar ou pegar emprestado em uma biblioteca local. Talvez, entregar-se nessa experiência foi a maior bobagem que poderia ter feito, afinal você é cético, adulto, inteligente e esse livro é só para vender umas ideias idiotas e promover alguém ou alguma instituição. Nesse estado de consciência,


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você deve estar se perguntando: “Que diabos isso tudo tem a ver comigo e com minha vida? O que a realidade das pessoas em Pandora, do filme Avatar, tem a ver com a minha?”. Sinceramente, eu espero que você não tenha mais de 2,10 metros ou que não seja azul com um cabo de fibra ótica saindo da sua cabeça para você fazer download de tudo que precisa, como no filme Matrix. Descartando essa possibilidade, diria que você tem tudo a ver com esses seres. O povo que habita Pandora tem mais em comum com a humanidade do que você pode conceber. Realmente existe uma conexão entre todos nós, o passado da humanidade e a natureza que pode ser tão arrebatadora e útil como é em Avatar. No entanto, essa conexão está um tanto quanto inconsciente para grande parte da população mundial. Estar conectado ao mundo e à humanidade é uma realidade que para muitas pessoas pode ocorrer na mesma intensidade e qualidade como acontece com os habitantes de Pandora – e sobre isso e muitos outros fenômenos vamos abordar aqui. Diversos mestres, contos e religiões descrevem essa experiência quase mística de conexão com todo o Universo e principalmente com a humanidade. Foi para esclarecer esses e muitos outros temas que Carl Gustav Jung dedicou toda sua brilhante vida, e poucos foram aqueles que o ouviram. O filme tem uma mensagem fácil de perceber que é a importância da vida em comunidade, a preservação dos laços entres as pessoas e a simbiose entre o homem e a natureza que nós estupidamente estamos destruindo. Essa é toda a mensagem que a maior parte das pessoas consegue perceber. E não se iludam, já é algo extremamente importante e atualmente muito difícil de realizar. Essas ideias podem e devem ser muito exploradas. Assim o faremos. Entretanto, não vamos parar por aí. Vamos mais fundo para entender como se dá essa conexão entre nós e o mundo, essa mesma conexão que existe entre os seres de Pandora e que eles realizam com tanta facilidade e cultivam com zelo. Vamos explorar o que essa conexão acarreta e o que podemos fazer em relação a esse laço que une todo o planeta com nossa espécie. Mostraremos também os perigos de ignorá-lo e vivermos uma filosofia de vida de exaltação do Ego e do Individual, como prega a cultura ocidental, em especial a americana, e também recentemente a oriental ao entrar na corrida econômica. Todas essas culturas, que apesar das belezas em promoção da saúde, tecnologia e qualidade de vida têm seus fantasmas e pagam por ele um preço que se torna cada vez maior. Para facilitar as coisas vou apresentar a vocês Thiago, meu amigo de 16 anos que vai participar conosco dessa explanação.


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– Oi, Thiago! – O menino que até agora estava mudo, ouvindo o que o professor dizia sem entender quase nada, fez uma cara de muxoxo se endireitando na cadeira para que sua voz fosse melhor registrada pelo gravador. – Oi... – Você quer dizer alguma coisa para as pessoas que estão nos ouvindo? Algum recado? – Não... Só estou aqui porque você prometeu que iria comprar o jogo do Avatar para mim – houve uma pausa desconcertante e Gabriel continuou. – Hum... Desculpem o mau jeito, sabem como é adolescente, não é? – outra pausa desconcertante. – Bem, o que eu vou tentar estabelecer aqui é uma relação entre a psicologia junguiana e o filme Avatar. Vamos enriquecer a explicação com algumas observações de outras ciências também e, é claro, com o conhecimento de outras áreas da psicologia. – E eu o que eu faço? – Eu gostaria que você participasse perguntando tudo que não entender e falando tudo que passar na sua cabeça. Será que você consegue? – Isso deve ser fácil! Mas eu vou falar mesmo, ok? – Esse é o espírito da coisa. Vamos lá? Há mais ou menos cem anos, Jung foi um grande parceiro e colaborador de Freud. O famoso Freud, como muitos já sabem, fundou uma ciência chamada psicanálise. Sendo Freud pai da psicanálise, podemos dizer que Jung foi por um período considerado o seu herdeiro. Jung era o príncipe da psicanálise, e foi isso que Freud tentou torná-lo sem muito sucesso. Jung era novo, culto e, principalmente, não judeu, característica que em uma época como aquela, no início do século XX, era muito importante por causa da perseguição que os judeus sofriam. Freud era judeu, portanto, nada melhor do que colocar um fiel discípulo em uma estratégia política para representar o movimento psicanalítico. Porém, de fiel a psicanálise de Jung não teve nada. Ele era um pensador livre. A ditadura teórica de Freud e as discordâncias entre eles resultou em uma das separações mais comentadas na História da Psicologia Moderna. Jung declarou o fim de sua parceria com Freud e criou sua própria corrente de pensamento em 1914: a psicologia analítica. Apesar da união com Freud, a teoria de Jung não surgiu em resposta à psicanálise freudiana, muito menos se baseou nela. É uma teoria própria e os dois só seguiram juntos por determinado período por causa dos pontos em comum em suas pesquisas.


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– Mas e o filme Avatar? – Bom, diria que isso tem tudo a ver com o filme. Ao declarar sua liberdade teórica, Jung desenvolveu um extenso trabalho que tinha um pressuposto estritamente necessário: a existência de um Inconsciente Coletivo. – Não foi Freud quem inventou esse papo de inconsciente? – Na verdade, não foi Freud; já havia algumas concepções sobre o inconsciente anteriores a ele, mas não da forma que ele apresentou. Freud construiu uma nova maneira de pensar o homem calcada nesse conceito de inconsciente. Sua teoria se baseia na ideia de que nem para tudo que eu falo ou faço tenho clareza do porquê. O inconsciente é uma zona de desconhecimento do ser humano sobre si mesmo. – Não entendi nada. O que isso quer dizer? – Freud comparou nossa mente a um iceberg, pois na superfície da água vemos apenas uma determinada quantidade de gelo que aparece, mas a maior parte dele está escondida abaixo do nível do mar. Ou seja, a maior parte da nossa mente está caracterizada por processos inconscientes, processos que não conheço e não tenho acesso com facilidade. Estes conduzem nosso destino e nossas vidas e seus efeitos surgem na forma de surpresa com a nossa própria atitude. Muitas vezes não conseguimos nos reconhecer em nossas ações. Somos tomados por algo além de nós mesmos. Este ser estranho que nos habita e produz efeitos tão estranhos capazes de nos conduzir é o inconsciente. – Como se eu fizesse algo sem saber o porquê? – Ou como se você não reconhecesse a si mesmo. ��� Quando brigo com meus primos, às vezes digo coisas que jamais pensei que diria. – É como se um ser estranho habitasse nosso interior. Esse ser é que nos faz agir de forma inesperada ou inadequada. – Esse tal ser é o inconsciente? – Sim, claro que não é só isso, mas é um bom começo. Quero que você atente para o fato de que Jung falou do Inconsciente Coletivo e não somente do inconsciente como fez Freud. – Ah, saquei... O Freud é só ICS e o Jung é o Icolt. – Icolt? Que diabos é isso? – Inconsciente coletivo! Só um apelido para ficar mais fácil... – Humpf... – olhou para cima como se pedisse ajuda a Deus. – Continua! – Vou tentar de novo. O que vale ressaltar aqui é que Jung não teorizou simplesmente sobre o efeito do inconsciente pessoal sobre nós


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como fez Freud. Se é que se pode chamar isso de simples. Jung “acrescentou” que existe um nível de consciência que todos nós compartilhamos, o chamado Inconsciente Coletivo. – Todo mundo compartilha? Acho que não entendi... – O Inconsciente Coletivo é uma espécie de memória coletiva, uma memória da nossa espécie. – Como os antepassados no filme Avatar, que falam com eles quando se conectam às árvores sagradas? – Essa realmente é uma ilustração bem interessante para o Inconsciente Coletivo. Como disse, ele é uma espécie de memória, mas uma memória das experiências que a humanidade viveu repetidamente, e, por isso, passou a ser herdada de forma desconhecida – inconsciente –, conduzindo a trama de nossas vidas. – Que tipo de experiências são essas? – Thiago começou a se interessar e seus olhos brilharam. – Inúmeras, desde as relações com nossos pais, as brigas entre os irmãos, vida, morte, nascimento, amor e até mesmo Deus. – Deus? – Deus! Acreditar em deuses, seres criadores e que estão além da vida terrena é uma experiência universal que toda a humanidade reproduz. Mesmo as tribos que nunca tiveram contato com nenhum tipo de civilização têm suas crenças e seus deuses, sem nunca terem sido ensinados a fazer isso. – E como eu me conecto com esses deuses e com as pessoas como Avatar? – Calma, a conexão que acontece entre os seres em Pandora é de outra natureza, mas só existe graças ao Inconsciente Coletivo. – Icolt! – Thiago abriu um sorriso bobo. – Como queira. Essa conexão é um fenômeno que Jung também teorizou, conhecido como participação mística: um fenômeno no qual percebemos o mundo e os outros como parte da nossa vida e da nossa experiência. Estamos unidos de forma vital. Dependemos do mundo à nossa volta para existir. Nesse estado não há nem mesmo diferença entre eu e o outro em muitos casos. – Ah, já sei... É quando dizemos para os amigos: “Estou contigo e não abro!”. – Quase isso – Gabriel disfarçou um riso e continuou. – Na participação mística, o mundo é vivo e faz parte de você. Você não se compreende separado dele e das pessoas. Esse, contudo, não é um fenômeno facilmente observado em nossa civilização, pois vivemos em


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um estágio no qual somos altamente individualizados e separados da natureza e dos outros. Você irá entender isso logo, logo. Vale lembrar que estamos conectados de diversas outras formas com as pessoas e com o mundo à nossa volta. Conexão é a palavra-chave para entender muitas coisas das quais vamos falar aqui. Existem outros aspectos além do Inconsciente Coletivo que nos une, como a tão famosa herança genética que vai explicar e dar base à teoria do Inconsciente Coletivo. Sem esquecer o fato que compartilhamos o mesmo ambiente físico, vivemos no mesmo mundo. A deusa Gaia representa bem essa ideia. Ela é a deusa que nos abriga e nos nutre, ao passo que se nos esquecermos dela, caminharemos em direção à morte e à destruição da humanidade. – Gaia, deusa da Terra – Thiago anotou mentalmente repetindo em voz alta. – Isso não se parece com a deusa daquele povo... – Os Omaticaya, o povo que habita Pandora! – É! Como se chama a deusa deles? – Eywa. Ela é a deusa feita de todas as criaturas vivas, tudo que conhecem. – Gaia e Eywa são irmãs? O professor riu da comparação. – Sim, só que uma é da Terra e a outra é de Pandora. Lembra quando Jake Sullivan reza para a deusa no filme? Ele diz que no nosso mundo nossa deusa está morta. Grande parte da humanidade perdeu sua visão coletiva e se esquece do equilíbrio de sua própria casa. Gaia é a ideia mais esquecida e decadente. É contra isso que devemos lutar tanto para o bem da humanidade quanto para nossa própria paz de espírito e qualidade de vida. O professor Gabriel respirou fundo e continuou: – Tudo isso vai apontar para a importância de um pensamento mais coletivo e menos individualizado. Comecemos por isso, então. Primeiramente, devemos alertar para o fato de que todos nós compartilhamos o mesmo ambiente natural, logo, nossas experiências se relacionam com os mesmos aspectos, como alterações climáticas, temperatura, recursos naturais e fenômenos que nos influenciam física e psiquicamente, como dia, noite, estações do ano... sem, é claro, se esquecer da existência de seres em comum, como animais e plantas. – Isso é muito fácil! – Thiago colocou o dedo indicador da mão direita na palma da mão esquerda e ficou girando como se fosse fazer um furo. – Moramos no mesmo planeta! Se alguma coisa altera o planeta vai alterar a vida de todos nós!


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– Bem observado... Nossas ações mais particulares, desde o consumo até a forma como lidamos com as pessoas de nosso convívio e estranhos na rua, têm o poder de criar ou destruir a vida no planeta. Não preciso ser um Hitler para ferir o mundo à minha volta. Basta que eu seja estúpido com pessoas que me amam e que eu destrua a natureza consumindo desregradamente e sem consciência. – Professor, mas às vezes a gente faz essas coisas sem ser por mal, sem perceber! Isso é agir de forma inconsciente? – É, sim. – Ah, tá tudo bem. Então, se fazemos coisas ruins para nós e para os outros de forma inconsciente é porque também existe no inconsciente coisas que nos levam em direção à destruição? – Sim, existem sim. Desde os primórdios da civilização, o homem tem atentado para isso. Dessa forma criou e passou a acreditar em demônios que se apossam de nossas vidas, assim como deuses vingativos. O próprio Freud criou um conceito muito interessante: a pulsão de morte. – Que é isso? – Thiago quase pulou. – Para Freud, habita em nós uma tendência a nos destruir e a destruir os outros. Ela age silenciosa e sorrateiramente, levando-nos a fazer escolhas ruins, errar, falhar e a cada vez mais chegar perto de um precipício e morrer. É devido à pulsão de morte que somos tristes e infelizes. – Que loucura! Esse cara é doente! Eu não tenho isso dentro de mim, não! – Você não foi o primeiro nem o último a falar isso, mas em contrapartida também existe a pulsão de vida! – Ah, gostei mais dessa! – A pulsão de vida é inimiga da pulsão de morte. É ela quem barra a pulsão de morte. Ela é o prazer e a alegria; é o desejo de viver mais e mais. – Prefiro muito mais essa! – Outra forma pela qual se dá essa conexão é pela Herança Genética. Seguindo a onda da teoria darwiniana da evolução, Jung percebeu que muitas informações ou conteúdos da mente são passados através das gerações, não somente características físicas, mas também temas e experiências que pertencem a todos, como morte, nascimento, crescimento, alegria, tristeza, beleza, paz e por aí vai. Assim, ao passarmos por essas experiências podemos nos conectar com as vivências de nossos antepassados e sentir o poder e a influência que essas têm exercido ao longo de toda a história da humanidade.


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– Ah, então pelo que você falou não é preciso um cabo para ligar em lugar nenhum como no filme. Já estamos plugados 24 horas como a minha internet banda larga! – Exato. – Gabriel levantou-se num salto e contornou a poltrona apoiando os braços no encosto. – Você acabou de perceber algo que muitas pessoas ao redor do mundo não conseguem vislumbrar. Estamos o tempo todo conectados com tudo e com todos, seja por estarmos no mesmo mundo, seja por sermos da mesma espécie. Mesmo se fôssemos de espécies ou de raças diferentes, somente por compartilharmos o mesmo ambiente estaríamos conectados e nossas realidades iriam se esbarrar o tempo todo. E é sobre esse aspecto que quero falar aqui hoje. O fato de convivermos juntos no mesmo ambiente, compartilhando nossas experiências subjetivas e recursos naturais. – Até aí tudo bem... Vivemos no mesmo mundo, mas se alguém esbarrar em mim e eu for mais forte é só eu dar um empurrão! O mais forte vai vencer! – Gabriel olhou com desgosto para o menino e balançou a cabeça. – Não é tão simples. Essa é justamente a postura dos americanos ao invadirem Pandora apenas para extrair os metais preciosos. Eu me esqueço do outro que habita ao meu lado, da sua vida e do seu sentido de existir em prol dos meus desejos e desígnios. Nem sempre é isso que acontece, nem todos vão ser tão predadores a esse ponto, mas o conflito faz parte da nossa vida. O fato de nossas realidades estarem em contato é o que muitas vezes gera o atrito e a competição, pois há escassez de espaço ou recursos, exatamente como ocorre entre os animais selvagens que matam e brigam pela conquista e sobrevivência. Mesmo assim, eles só fazem na medida do necessário o que permite o equilíbrio ambiental; já o homem moderno sempre extrapola esse limite, destrói o equilíbrio da natureza e os outros por luxo e para obter mais bens e regalias. – Se os animais podem brigar, por que eu não posso? – Como você vai ver, não é muito inteligente. – Gabriel voltou a sentar-se, coçou o queixo em uma atitude pensativa, soltou um bom e alto pigarro e continuou. – Competir é uma estratégia natural que muitos animais utilizam e o fazem de maneira exemplar, contudo as espécies que têm mais chances de sobreviver não são as egoístas e competitivas, pois os indivíduos tendem a se isolar e existir em número menor. Nesse ponto, entra um princípio que a natureza encontrou para garantir a sobrevivência de muitas vidas: a colaboração. – Foi a natureza que inventou isso?


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– Não inventou deliberadamente, pois ela não possui uma inteligência como a nossa. Mesmo desconhecendo a natureza e a estrutura desse processo ou dessa inteligência, é impossível negá-la. Aos olhos da ciência, não passa de um processo que mistura acaso e sucesso, segundo o que Darwin teorizou: a Teoria da Evolução. Ainda nos primórdios da vida, seres unicelulares se uniram e essa união garantiu a colaboração e a sobrevivência de muitos deles. Grande parte da evolução se deu assim, por associação de organismos vivos em uma relação simbiótica e, por outro lado, por mutação genética. Até hoje, vemos os produtos dessa associação na natureza, nosso próprio organismo é prova disso. Nosso corpo é habitado por microrganismos e dependemos deles para viver. – Blerg! – Thiago fez cara de nojo, pois imaginou milhões de vermes se contorcendo de um lado para o outro em sua barriga. O professor fingiu não ter visto nada e continuou seu discurso de forma quase inabalável. – E é também o que ocorre no caso da anêmona-do-mar e do paguro. – Que demônio é esse? – Não é demônio! – O professor riu alto mostrando os dentes brilhantes por causa do espanto do menino com a palavra recém-descoberta. – O paguro é um ser parecido com o caranguejo. Ele vive dentro de conchas velhas onde estão presas as anêmonas. Elas são ótimas em se defender e com isso acabam protegendo a casa do paguro. Ao se locomover com a concha, possibilita que a anêmona fique em posições melhores para conseguir alimento. Thiago abaixou a cabeça e se lembrou rindo: – Eu tenho um amigo que faz jiu-jítsu. Ninguém mexe comigo com medo de apanhar dele. Acho que ele é a minha anêmona. – Bem, a ideia é essa. O chato é que nesse caso você se transforma em um paguro! – Babaca! – Thiago cruzou os braços e desviou o olhar para a janela com o rosto um pouco vermelho de vergonha. – Esse mesmo comportamento natural de colaboração entre os indivíduos é que permitiu que nossa espécie sobrevivesse às hostilidades e aos predadores. Somos naturalmente colaboradores, assim como nossos parentes próximos, os macacos. Porém, possuímos uma capacidade intelectual maior para modificar o ambiente e, de quebra, nossos comportamentos são mais complexos, assim como nossas relações. – Ok... Já entendi isso – espanou a ideia no ar com a mão. – No filme também tem os predadores que vivem como aquele que quase mata


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o Jake Sullivan no princípio. Mas o clã Omaticaya é uma sociedade que vive em... – Simbiose? – Isso, simbiose! O clã Omaticaya é uma sociedade em simbiose e isso facilita a sobrevivência, mesmo com tantos predadores à solta. – Você é esperto! – É... Eu sei... – Thiago estufou o peito fazendo pose. Gabriel riu, balançou a cabeça e voltou a falar rápido e com voz firme. – O que temos de entender é que tanto a competição quanto a colaboração são processos naturais que se desenvolveram para a manutenção da vida. Ao passo que somos dotados da capacidade de colaborar, também podemos ser agressores e destruidores. Mas somente sendo agressivos não teríamos muito sucesso na natureza, pois, comparando com outras espécies, somos muito frágeis, por isso só sobreviveram os nossos ancestrais que tinham a tendência natural à colaboração. Aqueles que não possuíam um comportamento gregário – de quem vive em bando ou em grupo –, acabaram morrendo por não conseguir alimentos em quantidade suficiente ou por não resistir aos ataques dos predadores. Dessa forma, os sobreviventes passaram esses “genes colaboradores” para as próximas gerações, garantindo cada vez mais um grupo unido e eficaz. Graças a essa característica é que hoje temos sociedades imensas e complexas. Thiago fez uma careta e coçou a cabeça confuso, pois essa ideia estava soando de forma muito estranha para ele – Então, eu só tenho amigos por causa dos meus pais que me passaram essa característica pelos genes? – Você duvida? Posso garantir a você que existe uma natureza relacional herdada de nossos ancestrais. Como exemplo disso, podemos citar a tendência natural de bebês a reconhecer rostos, a capacidade de adquirir linguagem, que é o que permite nos comunicarmos com os outros, a ligação emocional forte com as mães e a capacidade de se admirar e amar os outros. Diferentes espécies não colaborativas não possuem essas características ou vínculos. Alguns nunca reconhecem seus pais e só estão na presença de outros da mesma espécie no período de acasalamento. Se fôssemos assim, todos os nossos bebês morreriam, pois precisam de muito cuidado, amadurecimento e aprendizado para poderem sobreviver. Contudo, com a sociedade moderna, com as tecnologias e no meio de tantos processos sociais complexos, as pessoas não desenvolvem em um nível satisfatório o senso de colaboração, pois


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as relações ficam diluídas no modelo de produção, venda e compra de bens e serviços. As relações são rápidas e de interesse econômico. Há muito tempo a psicologia comportamental, conhecida como behaviorismo, já vem nos alertando que a experiência pode reorientar nossas características genéticas em muitos aspectos. Podemos até ser gregários geneticamente, mas se nossas experiências são de outra natureza, esse aspecto pode tornar-se latente, sem nunca se desenvolver, podemos até mesmo vir a aprender estratégias totalmente avessas a ele. Nesse caso, como não há mais inimigos e predadores naturais, toda nossa energia será voltada para a agressão e ascensão social, que é um protótipo do que acontece na natureza: uma espécie em evolução social, em que o mais adaptado socialmente vence. Thiago tentou falar, mas Gabriel parou o garoto com a palma da mão esquerda e completou rápido. – Não estou dizendo que o mais rico é superior! Isso é uma idiotice que alguns tentam defender. Só uso aqui como uma ilustração. Entende-se aqui por mais adaptado aquele que tem mais bens, mais meios de consegui-los ou de criar associações que permitam acesso a eles. Assim, possuir bens está na ordem do dia e as relações de amizade e amor ficam em segundo plano, perdendo seu posto para as relações financeiras. – Então os chatos que iriam morrer na floresta talvez estejam hoje aí dominando a grana da galera? – Isso é claro como água! – Bizarro... – Thiago se jogou para trás na poltrona como se tivesse ouvido algo muito pesado para compreender. – Veja que essas associações existem com o simples fim de se conseguir recursos. São relações frias, interesseiras e plásticas. Esse “gene” egoísta sobreviveu, talvez porque nem todos morriam, pois acabavam se aproveitando das relações de modo interesseiro, ou porque muitas vezes os egoístas dominaram os recursos em tempos de escassez. Outra forma de se pensar é que usar as pessoas como objeto para alcançar mais bens é um comportamento que pode ser facilmente gerado por um aprendizado em uma infância escassa de carinho ou de ligações afetivas. Nada muito humano, por assim dizer, no qual o outro funciona apenas como moeda de troca ou escada para facilitar o sucesso. – Isso é meio triste – Thiago começou a falar baixinho e devagar. – Pessoas assim não têm amigos porque gostam de verdade; somente estão próximas daqueles que podem tirar dinheiro ou vantagem. Quase como


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carrapatos que sugam o sangue do cachorro até não poderem mais, ou até o coitado ter sangue bom para dar. Gabriel tentou alegrar o menino falando com uma voz alta e mais animada. – Você acaba de demonstrar outra relação social que pode ser facilmente encontrada na natureza. Essa é chamada de inquilinismo ou relação parasitária. Nosso comportamento evoluiu de espécies inferiores e não é difícil encontrar os mesmo comportamentos se repetindo até hoje. – Era disso que Jung falava? – Thiago voltou à sua antiga postura ereta e deu um leve sorriso. – Não era o foco dele essa abordagem, mas não está em contradição. É um tipo de relação que não vem dos primórdios da nossa espécie, e sim dos primórdios da vida. Com certeza, existem no Inconsciente Coletivo representações dessas relações, que não necessariamente só existem no homem. Encaixa-se perfeitamente na ideia de Inconsciente Coletivo. – Eu conheço algumas pessoas pulgas e carrapatos... – Riu alto. – Porém, dão mais trabalho do que os verdadeiros, porque não existe um inseticida eficaz para elas. – Conheço várias pulgas, como também vírus, bactérias, vermes... Todos eles são verdadeiros parasitas sociais, mas só estão aí porque não há uma sociedade de colaboração como acontece em Pandora, mas uma sociedade estruturada na competição. Desse modo, alguns procuram meios diversos de conseguir seu sustento e sobrevivência, já que os recursos não são distribuídos de forma igualitária. Não devemos julgá-los, e sim entendê-los para ajudar na mudança e construção de uma sociedade melhor. É fácil perceber que, como seres competitivos, temos bem pouco a ganhar. A própria natureza selecionou nossas características gregárias por serem as melhores adaptadas ao meio e às nossas necessidades. Também por causa dela que desenvolvemos a linguagem, a cultura e a própria sociedade. Elas nos permitem aproveitar o máximo das relações. Sem linguagem as relações seriam pobres e não desenvolveríamos cultura. Devemos proteger as relações e a cultura e evitar a competição, pois só gera conflitos e dramas pessoais, guerras no plano internacional e desgaste da humanidade em um contexto mais amplo. – E o que a colaboração pode causar, já que o conflito é tão ruim?


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Avatar e a Psicologia

– Quer um bom exemplo? Quando trabalhamos em organizações em que nossos talentos e capacidade são utilizados, aproveitamos o melhor do efeito sinergístico. – Quem é esse? – Gabriel riu e explicou. – Sinergia é uma característica do processo de colaboração, na qual se observa que a união de duas pessoas vai muito além do que a soma do trabalho das duas em separado: “Sinergia existe quando 1 + 1 > 2”. A colaboração é muito melhor que a competição por produzir sinergia! – Então, quando os milionários perceberem que se distribuírem a grana que têm irão conseguir muito mais, rapidamente doarão tudo! Gabriel se assustou com a conclusão precipitada e explicou. – Calma, Thiago; isso seria ótimo, mas não é tão simples, pois os esforços têm de ser coordenados e isso depende de negociação e amadurecimento. Por isso, na dúvida, as pessoas guardam suas fortunas como medida de precaução e não investem nesse modelo. Contudo, o quadro mundial está aos poucos se alterando. As melhores empresas do mundo já investem na sinergia, repartindo suas riquezas com seus funcionários e colaboradores. Dessa forma, todos ficam mais satisfeitos e o produto ou serviço é muito melhor do que o dos concorrentes. Quem já estudou psicologia organizacional sabe que esse é o pulo do gato, pois dentro das sociedades e organizações que prezam a obtenção desse efeito sinergístico, as pessoas trabalham menos e ganham muito mais. A relação entre as pessoas, empresas ou sociedades não é antagônica; ao investir nas pessoas, as empresas e as sociedades se tornam melhores e, ainda de quebra, as pessoas ficam mais felizes e realizadas. Thiago pensou, coçou a cabeça e disse: – “1 + 1 > 2...”, meu professor de matemática iria surtar se visse isso. – O errinho dessa conta é que o resultado não é a quantidade de pessoas, e sim o produto daquilo que se consegue com a união de esforços. Não é matematicamente correta, mas é uma ótima ilustração. Existe inclusive uma escola de psicologia que trabalha com essa visão. Chama-se gestalt. Trata-se de uma palavra alemã que significa forma ou configuração. A gestalt prega que o todo é muito maior do que a soma das partes. Devemos focar no todo e por isso não podemos privilegiar nenhuma das partes. No nosso caso, seria não focar apenas no retorno financeiro. Para entender o todo, devemos prestar atenção nas relações entre as partes que o constituem. No caso das empresas, devemos observar desde o trato com os empregados e colaboradores até o mercado nacional, internacional, e a evolução tecnológica e cultural.


A Grande Conexão

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Esse pensamento pode ser aplicado em qualquer coisa, desde os negócios até a compreensão do mundo e da vida. A ideia básica é a de que tudo deve ser incluído nas observações e explicações para se compreender a realidade, ou seja, não é possível entender o ser humano de forma isolada é preciso entender as relações que o homem estabelece com o mundo. Somos apenas relação e produto desta. Não existe um “eu” que não seja em relação a outro “eu”. Sem você, eu não posso ser. – Isso é bonito. Não existe um eu...? – Não existe um eu que não seja em relação a outro eu. Sem você, eu não posso ser. Thiago esfregou o rosto confuso. – Só não estou entendendo onde posso ver isso no filme. Onde isso tudo aparece em Avatar? – O clã Omaticaya tem uma cultura muito complexa, com rituais e processos iniciáticos. Grande parte do filme destaca o processo de transmissão da cultura e inserção social. Destruir uma sociedade é destruir seus processos culturais e para isso basta sucatear a educação. É por meio dela que o homem passa de homo sapiens para homo socialis. O processo educacional é o meio pelo qual o se aprender o senso gregário permite ver o mundo de forma gestáltica. É nele que o homem é incluído como parte do todo e também em que se estabelece e se estruturam as relações. Contudo, a ênfase atual de nossas sociedades não está mais na formação de indivíduos e sim na educação técnica. Desse modo, as relações pessoais são abandonadas quase que por completo no ensino escolar. A ênfase é no conteúdo – e ainda acredita-se que quanto mais individual melhor é o ensino, pois as crianças não se distraem e fixam melhor a matéria. Esquecem que o vínculo afetivo com as outras crianças, e também com professores, alunos, funcionários da escola, é o que incentiva e dá sentido para aquilo que está sendo estudado. Se fosse assim, o ensino à distância seria de ótima qualidade e ninguém nunca iria precisar de terapia. É só ler os livros de psicologia e você está “curado”. Somos seres que têm suas vidas baseadas em vínculos. Sem eles é difícil haver sentido, motivação e mudança. – O que tudo isso quer dizer? – Em suma, eu quis dizer que a gente se dá mal quando briga e se dá bem quando ajuda os outros. Os dois riram por algum tempo e relaxaram na cadeira. – É, Thiago, quando estamos junto com os outros, de forma livre e sincera, é que acontece a magia da vida. Separados e desunidos não


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