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Competição Melhor estória criativa para adaptação ao cinema ou ao teatro

Memorial

Autor:

Eusébio Eduardo Teixeira Catanho Escola Superior Tecnologia e Gestão de Portalegre Instituto Politécnico de Portalegre

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Hoje o dia despertou com beleza e o destino trouxe-me à casa do meu filho. Acordei cedo, de noite pela madrugada, como qualquer homem da minha idade, que viveu num tempo pautado pelo escurecer do dia e pelo clarear da noite, pelo descanso do domingo e pelos dias da festa. Abri os olhos mas quedei-me deitado, esperando regressar à lucidez do despertar de um sonho, um sonho que da noite passada foi igual a de muitas vezes. Memórias, saudade de um tempo. Como digo aos meus netos, coisas de velhos. Vi-me perdido no que fui, no que vivi, em tudo o que revemos de olhos fechados quando nos sentimos cada vez mais esticados na vida, cada vez prontos a partir, quando sentimos que o tempo urge e está perto o frio da morte. Mas ainda estou vivo, penso eu para mim, escutando o ruído da estrada e o ladrar de cães, do outro lado da janela do meu quarto. Levanto-me então, e vestindo-me me demoro sentado na cama, sem olhar para o outro lado, o lado vazio onde não dorme ninguém, onde já não dorme a mãe do meu filho, ela que já se foi, depois de muitos anos a sarar-me as velhas feridas de alma, mas agora partiu, deixou o mesmo que o seu lado da cama, um vazio. A velhice e a viuvez apanharam-me com a calma de um anoitecer, devagar e inevitável. E assim me vejo na casa do meu filho, que por estes dias me quis com ele, com sua mulher minha nora e seus filhos meus netos, talvez por sentir que me estou a ir, mesmo que eu não lho diga e ele me diga a mim. Velho como um trapo e viúvo como um planeta sem sol. Mas tão pouco infeliz, pois estou com os meus, que não me enxotaram mesmo que lhes estorve a vida. Joana minha nora tem-me carinho e cuidado, com os meus dois netos, André e Luísa, vivo agradáveis tardes pautadas pelo seu desassossego, e meu filho estimam-me mais do que me recordo. Meu filho Afonso, o único filho que Deus me deu, tem-me aqui em sua casa meio solto da corrosiva inércia da velhice, metido num apartamento junto da minha cidade, onde em vez de ouvir o murmúrio do mar da minha mocidade, escuto carros, gentes e o cão do vizinho. Trouxe-me para sua casa para me oferecer uns dias diferentes, compreende que não importa onde estamos quando o coração está noutro lugar, e creio, que por isso me propôs um trabalho que me pareceu brincadeira. Assim foi, na noite passada depois do jantar, trouxe-me ao quarto dois cadernos e alguns lápis dos filhos. Disse-me que escrevesse, escrevesse o que me viesse à cabeça, o que me corresse no coração, que contasse o que nunca fora capaz de lhe contar, mas MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


também que me distraísse, viajasse a onde quisesse e por esses mundos fosse feliz, em vez de me consumir pela solidão interior. Falou-me ainda que se eu desejasse, tanto poderia guardar sem nunca ler o que eu escrevesse, ou, compilaria as minhas memórias num novo livro seu. Claro que lhe disse que não, quando me apareceu com aquela ideia, e eu explicava-lhe, eu tenho a quarta classe de escola e o resto ensinou-me meu tio. Mas ele apenas me disse que teria gosto em reescrever o que deixasse naquelas folhas. Desejou-me boa noite e saiu do quarto. Deitei-me mais preocupado se os meus netos poderiam engripar-se e passar-me uma pneumonia, do que preocupado no que meu filho Afonso me tinha dito. Mas no escuro do quarto e no silêncio de uma casa na noite que cresce, encontrei-me a pensar porque desejava que eu fizesse aquilo. Pensaria que eu estava a perder a lucidez e me estivesse a ir no Alzheimer? Que eu tinha alguma doença pior que a velhice e não sabia? Mas pus-me também a pensar no passado, um bem precioso para mim, pois sou o passado e o meu filho é já o futuro, e por outros tempos divaguei enquanto tardava a adormecer. Antes ainda de perder a consciência de estar acordado, reencontrei um pensamento antigo, que havia de morrer lúcido, e se assim não fosse que alguém me matasse. Recordando isto, desinteressei-me com o que o meu filho pudesse pensar, se escrevesse talvez voltasse ao tempo que já não volta. E adormeci. Por isso agora escrevo nesta nova manhã. Penso que há de chover, o céu sobre o mar está escuro e escuto gaivotas passando junto da minha janela, de onde consigo ver longa faixa azul carregada de cinza, o mar que junto da sua cabeceira nasci. Creio que será melhor começar por esse mesmo princípio. Nasci num agre e doce ano dos tempos difíceis, doce porque foi o ano em que terminou a Grande Guerra, a guerra que Oliveira Salazar negou entrar, e amargo porque os tempos continuaram difíceis para nós, para nos portugueses das ilhas, longe de tudo e esquecidos pela metrópole de Lisboa. Corria o ano mil novecentos e quarenta e cinco quando nasci, pelos dias das vindimas, na pequena casinha dos pais de minha mãe, em Santa Maria, num dos cantinhos pobres do Funchal. Minha avó era parteira e minha mãe estava sozinha, meu pai tinha ido trabalhar com os meus irmãos, meu tio encontrou minha mãe desesperada junto da Capela do Corpo Santo, e correu com ela nos braços para casa de minha avó. E assim nasci. Eu, minha mãe, meu pai e meus quatro irmãos, vivia-mos junto ao mar, perto dos pais de minha mãe, próximo da Igreja do Socorro. A casa era como qualquer outra por ali, MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


mas não seria das piores, um único quarto de dormir dividido por uma cortina, onde todos dormíamos, e por debaixo, uma cozinha de chão de pedra e uma loja escura. Tínhamos um pequeno quintal por detrás da casa, com uma retrete e um tanque para lavar a roupa, mas o nosso verdadeiro quintal, era a estrada calcetada que passava na frente da casa, onde nos distraíamos no pouco tempo de lazer. Meu pai António e meus dois irmãos mais velhos, José e Manuel, dedicavam-se às lides do mar numa lancha que guardavam junto do forte de São Tiago, como tantos outros vizinhos. Os meus outros dois irmãos, Vicente e Jacinto, mais novos que o José e o Manuel, não acompanhavam o meu pai na faina, trabalhavam no porto a carregar mercadorias, para os navios ou até mesmo para a praia de calhau. O que os meus irmãos pescavam com meu pai, minha mãe Maria do Céu, descia à cidade para vende-lo, mas apenas o peixe miúdo e quando não nos faltava muito que comer, e, nas raras vezes que o peixe era muito em peso ou de maior valor, meu pai vendia-o ele mesmo no mercado. O mar era o nosso sustento, trocava-mos o peixe por igual valor de batatas e semilhas, feijão ou outros produtos da terra. No nosso pedacinho de terra atrás da casa, plantava-nos as couves que comíamos com milho frio. Carne, só de galinhas e de algum melro que por brincadeira eu e meus irmãos apanhávamos, mas carne de verdade, além de alguns pedaços de porco salgado, apenas por altura da festa na casa dos nossos avós. Vicente e Jacinto, eram aqueles que mais traziam os tostões para casa, quando o seu pago não era um prato de macarrão pelo dia de trabalho, já o restante dinheiro, ganhávamos a trabalhar para algum senhorio, dando dias fora nas vindimas, na banana ou em outras terras, e esse dinheiro, que nunca era muito, servia-nos para comprar café e açúcar, massa e arroz, e tudo o que não fosse possível trocar. Por isso deixei de beber leite muito cedo, de muito poupar, muitas vezes comíamos pão com vinho com um pouco de água, quando não nos deitávamos de barriga vazia, adormecendo enquanto esperávamos que nossa mãe, Maria do Céu, cantando acabasse de cozinhar numa panela vazia. Assim saí de casa cedo, com seis anos foi trabalhar para uma casa de ingleses, do outro lado do Funchal, não que minha família não me quisesse, mas porque trabalhando em casa alheia me dariam de comer e cama para dormir, e para minha sorte, ganhei ainda as minhas primeiras botas. Recordo que saí de casa com o rosto em lágrimas, tal como minha mãe, junto da porta agarrada por meu pai António. Nesse dia, foi levado pelo

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meu tio e padrinho, o bom padre Abrão, que me deixou na casa dos ingleses seus conhecidos, sem saber que anos mais tarde me levaria para um novo destino. Libertei os meus pais do peso de mais uma boca por alimentar, e passei o resto da infância a carregar água e leite, a dar banhos a cachorros e lavar alcatifas, a ir ao mercado ou comprando pelas ruas da cidade, correndo pela cidade descalço e de sapatos nas mãos. Sempre que podia, quando me mandavam para lá da ribeira de João Gomes, para os lados de Santa Maria, fugia um pedacinho de tempo para visitar minha mãe, que depois de me reprender e abraçar, conseguia sempre arranjar-me algum mimo para comer, algo inimaginável quando vivia em minha casa. Penso que até foi afortunado naqueles anos, fui servente numa casa com luxos que pensava apenas exigirem em igrejas. Nunca foi realmente maltratado pela família inglesa, apesar de sempre olharem os naturais da ilha como ignorantes e pobrezinhos, a mim e os outros rapazes que trabalhavam para eles. Os ingleses ao contrário de nós, mais até que cumprir tradições religiosas, valorizavam a educação e nos obrigaram a ir à escola de manhã, depois de nossas tarefas ao amanhecer e que logo pela tarde retomávamos depois da escola, além de nos incentivarem a aprender um pouco de inglês, apesar de nenhum de nós conseguir falar alguma coisa que não valesse uma reguada. Ao menos aprendi a ler, escrever e contar num quadro preto com giz, que fez de mim o mais novo estudado de minha casa, depois de minha mãe que mal aprendera a ler e assinar o nome. Vivi e trabalhei uns tantos anos na casa daquela família, e aos doze anos mandaram-me para uma outra, também inglesa e de herdades próximas, onde viviam uns quantos abastados. Mais velho e calejado, passei a trabalhos mais pesados, trabalhando tanto quanto um homem adulto onde quer me mandassem, laborando o dia inteiro tanto nas terras da família como na casa dos senhorios. E chegava o ano de mil novecentos e sessenta, quando abandonei dos trabalhos em casa alheia e começavam os anos de anseio para a rapaziada. Tinha eu quinze anos e faltavam-me uma mão cheia de anos para ir à tropa, mas meus irmãos mais velhos estavam em idade de assentar praça. Manuel e o José, meus irmãos mais velhos que iam ao mar com meu pai, estiveram uns tantos meses no quartel BII19. Lembro-me bem da tristeza de já não passarem a festa com a família, quando embarcaram para o Ultramar. Recordo-me bem desse dia, estava MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


com o meu pai no calhau da cidade, onde muitos rapazes fardados se afastavam numa lancha que os levou para o navio. Partiam como todos, ainda sem os medos da geração seguinte, aquela que se cansou de morrer no mato longe de casa. Os meus dois irmãos integravam uma Companhia que partiu para a Índia, para o enclave de Diu, que se fez acompanhar uma imagem de Nossa Senhora, que ainda com eles regressou. E durante um ano não soubemos nada deles. Tinha então quinze anos e com a partida dos meus irmãos mais velhos, tomei o meu lugar ao lado de Vicente e Jacinto, trabalhando com eles no porto da cidade e trazendo algum pouco dinheiro para minha casa, lar que regressei nesse ano de sessenta. Continuamos tão pobres como antes, os meus irmãos que não partiram, passaram também a ir ao mar com nosso pai, trabalhando no porto e noutros labores sazonais, enquanto minha mãe se recolhia cada vez mais melancólica e sombria, passando horas a bordar e a olhar o mar pela janela, dizendo com frequência, que o mar e o diabo havia de lhe levar os filhos. E o coração de mãe pouco se engana. Eu, como muitos e melhor que alguns, comia duas vezes por dia e trabalhava o dia inteiro, carregando, limpando e concertando. Foi crescendo como qualquer um, trabalhando e namoricando também, mas por aqueles dias apenas brincadeiras de pouca malícia, o verdadeiro estava-me fadado para outro dia e lugar. Um ano passado, e o que sempre fora igual, começou a deixar de ser. Os fortes e os quartéis voltavam a fervilhar de rapazes saudáveis, as ruas de pedra bramiam o bater das botas dos militares, os cafés com telefonias atraiam muitos chefes de família, não apenas para um vinho fiado que nunca pagavam, mas para ouvir o que os senhores da metrópole e o senhor presidente do Concelho, tinham para falar à sua grande nação do povo mansinho. Coisas de velho. Continuo a perder-me nas linhas do tempo e do contar. Chegaram então os primeiros dias de mil e novecentos sessenta e dois, num inverno com mares agitados e dias ventosos. Não muito trabalho tinha eu no porto, pelos poucos navios que chegavam por aqueles dias. Meu pai e meus irmãos raras vezes podiam ir ao mar, e para nós era assim um inverno difícil. Num desses primeiros dias de sessenta e dois, saía eu da alfândega onde procurei por um dia de trabalho que me valesse uns tostões, e sem sorte voltava para casa. Caminhava pelas ruas empedradas junto do mercado dos Lavradores, quando escutei o alarido habitual, mas vindo de uma venda da mesma rua. Estava cheia de homens que se MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


apinhavam atrás do dono que ligava a telefonia, uma correria comum dos raros dias em que se queria saber notícias de metrópole. Eu, sem muito que fazer para além de esquecer que não havia ainda comido, aproximei-me da porta do estabelecimento, como muitos que por ali passavam. Os guinchos e os chiares da telefonia pararam, o dono gritou duas vezes que se fizesse silêncio, e todos os que ali estavam calaram-se para escutar a emissão do Posto Emissor do Funchal. Escutava-se baixinho a voz de um homem de voz pesada, que lia um longo texto que falava à nação sobre o Estado Português da Índia. Pouco consegui compreender, mas o pouco que consegui foi-me suficiente, palavras como, a "impossibilidade de assegurar a defesa plenamente eficaz", "suspensão do fogo", "dia dezanove, a rendição". Recordo-me de um homem que ali estava, sentar-se pesadamente e lamentar-se, que desgraça perdemos a Índia, dizia ele. Os enclaves de Goa, Damão e Diu haviam sido perdidos, e todos os rapazes que foram enviados estavam prisioneiros ou mortos. Vários homens metiam as mãos á cabeça, uns levantavam o barrete e coçavam a cabeça olhando uns para os outros, alguns não se importavam, e dois enfureceram-se de angústia. Não me apercebi logo, lembrei-me da melancolia de minha mãe, e os homens que dali corriam, tinham enviado os filhos para a Índia como minha mãe. Manuel e José estavam entre esses filhos. Corri para casa, correndo descalço pelos becos, contornado as gentes indiferentes aos rapazes que haviam partido pelo mar. Parei junto da capela do Corpo Santo, recuperei um pouco, tentei serenar-me, pensei o porquê da minha agitação, quando por certo meus irmãos estariam vivos mesmo que presos, e eu, deveria chegar a casa calmo e com serenidade para dar a nova a minha mãe Maria. Entrei em casa e encontrei minha mãe no seu cantinho, sentada a bordar junto da janela. Estava como sempre por aqueles dias, sem grande traço de alegria no seu rosto redondo e no profundo dos seus olhos negros, mesmo quando me sentei ao seu lado para lhe contar que Diu e os outros enclaves foram perdidos, e nada se sabia de Manuel e José. A sua expressão mal se alterou com a notícia, apenas suspirou levemente como se já o esperasse, e assim, colocou o seu véu negro sobre na cabeça, e disse-me que ia até a capela rezar. Fiquei-me junto da janela, vendo-a sair e caminhar devagarinho pela rua, com o seu lenço negro que agourava um triste luto. Quedei-me a olhar o mar, pensando na sua estranha presença, naquilo que dá e que tira, no sustendo que nos dava e como nos podia MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


destroçar a vida, partindo para a guerra, saindo para a pesca ou emigrando pelo sonho de uma vida melhor que a miséria. E distraído, não reparei que meu pai entrava em casa, e só o ouvi quando já estava junto de mim. - Já soubeste Álvaro? - Perguntou-me serenamente. - Sua bênção. Ouvi na telefonia, vim logo contar à mãe. - Pedi-lhe a bênção e respondilhe, reparando que trazia um embrulho debaixo do braço. - Nosso Senhor t’abençoe. Tua mãe parece que é feiticeira… Mas teus irmãos são rijos, devem de estar lá bem, não falaram em mortos dos nossos. - Meu pai António falou com alguma leveza, mesmo que não conseguisse esconder alguma preocupação, não me olhando diretamente, ele que era honesto demais para mentir. Certamente por isso permanecemos sempre pobres, pois meu pai era honesto. Eu mal consegui tirar os olhos do embrulho que trazia, quase nunca recebíamos nada que se parecesse uma encomenda dos correios, a não ser uma carta com algum dinheiro, que um irmão de minha mãe envia do Brasil pelo natal. Mas aquele embrulho do tamanho de uma carta e com a espessura de três dedos, envolto em papel castanho e amarrado com cordel, não viera do Brasil. Não ousei perguntar a meu pai, por respeito e porque mesmo sendo bom homem, ele não hesitaria de me levantar a mão para me bater, se sentisse desrespeitado, mas meu pai, apercebeu-se da minha atenção no embrulho, e falou-me. - O carteiro deixou isto pra a gente na venda do Brás. - Disse-me ele, desabotoando o colete. - Do Brasil? - Perguntei-lhe com prudência. - Parece que do continente. O carteiro disse ao Brás que era pra a gente, mas é uma encomenda para o teu padrinho. - Explicou-me como se eu me devesse sentir orgulhoso. - O pai vai-lhe levar hoje? - Voltei a perguntar como anteriormente. - Ah pequeno! O diabo levou-te o juízo? Se eu for agora só chego a São Vicente amanhã a noite. - Falou em descontraída repreensão, pousou o embrulho na mesa e acrescentou paternalmente. - Há quinze dias falei com teu padrinho Abrão, disse-me que ia receber uma encomenda de fora, e queria que tu lhe levasses. Aproveitavas para passar lá dentro uns tempos em São Vicente. Tem trabalho para ti. Sabes como a gente se tem passado, e ele tem-te deitado a mão quando a gente se precisa. Fiquei um tanto apreensivo, mal conhecia o meu tio padre que também era meu padrinho. O pouco que dele sabia e recordava era apenas o dia em que me levara para o MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


meu primeiro trabalho, para além das conversas dos meus pais sobre ele, que sendo ele padre era motivo de orgulho até para uma família rica. - Tu vais amanhã cedo pra São Vicente no Bútio. Aquele barco aguenta bem o mar do norte, o tempo tem melhorado. E eu já paguei ao compadre que te vai levar, teu padrinho deu-me dinheiro para isso. - Podia ir pela serra. Ia de lancha até à Ribeira Brava e subia a pé pela Encumeada. - Arrisquei dizer-lhe, pois poupávamos parte do dinheiro e talvez fosse mais seguro. - Teu padrinho deu-me o dinheiro para isso. Vais no Bútio! Se o mar ajudar é mais rápido! Não vou pedir o dinheiro de novo ao compadre! - Repreendeu-me ele com autoridade. Mas se fosse um pouquinho desonesto, guardava o dinheiro que falta nos fazia, e ia eu pela serra mesmo que demorasse dia e meio. Assim foi, na madrugada seguinte preparei-me para partir. Meu pai deu-me duas das melhores camisas e minha mãe arranjou-me milho frio com gaiado seco para levar. Não me despedi de meus irmãos, Jacinto e Vicente, tinham partido para o mar ainda de noite. Minha mãe não soltava as contas do seu Santo Rosário enquanto eu saia de casa para o mar e para norte. Meu pai acompanhou-me até ao cais, levando-me o embrulho e só mo entregando depois de falar com o seu compadre do Bútio, o barco que me levaria ao outro lado da ilha, lado que me era apenas uma terra de agricultores, de feijão e semilhas. O Bútio começava a sair da baía da cidade com o toque do sino, enquanto eu via aquela terra a afastar-se, cidade que mal havia saído até esses meus dezasseis anos. E seguimos a costa para lados de Machico. Amanhecia um domingo calmo como meu pai esperava, e eu estava tão bem vestido como não me recordava, e lembro-o porque naquele dia me senti importante, de camisa branca e colete preto, calçado e com uma muda de roupa, limpo e pronto para ir à missa daquele domingo. Mas estava num barco e não ia para a missa, seguia para um local que nunca havia estado, encontrar-me com quem mal conhecia e levava comigo uma encomenda que desconhecia. Pensei em todas estas coisas, pensei naquilo que se dizia, que no campo o pobre era menos pobre porque podia comer os frutos da terra, mas principalmente pensei nos meus irmãos, preocupei-me com minha mãe, imaginei como Manuel e José estariam presos, e esperei que surgisse um ponto branco no horizonte, um grande navio da metrópole a devolver os filhos da terra. MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


Pelo meio da tarde, então, o Bútio chegou ao Calhau de São Vicente. A viajem foi calma, branda ao ponto de não afundarmos na volta para o norte depois do Caniçal, quando o choque das corrente abanou-nos como uma rolha a correr por uma levada, obrigando a dúzia de passageiros agarrar-se a baldes pretos para vomitar, como quem se agarra à salvação das aves-marias e dos pais-nossos. A mim pouco me importou, das vezes que estivera em alto mar por pior passei, e aquele local, todo o ano assim era. Pode parecer tolo, mas bem mais me amedrontei quando passamos para o norte e vi as suas alarves montanhas. Paredes de rocha escura entre o verde que desaparecia nas nuvens e se precipitavam em total verticalidade para encontrar o mar, ver as fajãs e os vales entalados entre um mar agreste e as monstruosas montanhas. Na costa sul apenas me impunha respeito o grande Cabo Girão, e somente visto do mar. Desembarquei no Calhau de São Vicente, junto de um penedo que ficava ao meio da foz da ribeira daquele vale que se abria para montante, um rochedo que ajudava a ligar as duas margens com uma ponte de pedra, que sobre ela e não debaixo, estavam quatro pares de arcadas. Tardei a entender o que seria aquele rochedo, que muito parecia ali estar colocado por gentes, mas uma discreta cruz no seu alto, mostrou-me que se tratava de uma ermida, uma minúscula capelinha voltada para a serra e de costas para o mar. Foi a minha primeira estranheza ao chegar aquele vale do norte. Visitei então a ermida, não me cruzei nem vi muita gente. Não sabia exatamente onde meu tio padrinho vivia, e mais fácil seria se encontrasse alguém para perguntar por um dos padres, porque ali não era conhecido por um tio padrinho de um rapazito da cidade, mas sim por Senhor Padre Abrão. Creio que pouco passavam das cinco da tarde quando escutei o sino de uma igreja, que vinha de não muito longe e ecoava torpemente pelas altas paredes de rocha, as encostas do vale que se abria a partir da sua estreiteza junto do mar. Era domingo e o sino tocava, certamente haveria gentes de onde vinha. Logo me vi na pequena vila de São Vicente, quase que entalada num cantinho e contornada pela ribeira, com algumas casas grandes em redor da igreja de uma torre. Pelas ruas simplesmente encontrei uma cabra solta com uma corda amarrada aos cornos, e apenas na igreja encontrei gentes, para onde fui, um tanto medroso por chegar a junto de tanta gente desconhecida. Os meus sapatos batendo na calçada de calhaus fizeram anunciar-me, ainda nem havia entrado no interior da igreja, já uma mão cheia de olhos arregalados, MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


escutando os meus passos, se esgueiravam para saber quem havia chegado tarde, se algum rico se algum estrangeiro. Os olhares que mal se descolavam de mim e muito variados nos seus juízos, tardaram a deixar-me sossegado, apenas quando cumprimentei um dos homens que estavam mais próximos. Deverão ter pensado que seria um menino rico da cidade, talvez um filho de ingleses pelos meus cabelos loiros e roupa nova, apesar das minhas mãos já serem tão calejadas quanto muitos dos que ali estavam. Procurei escutar as leituras e o sermão do padre, mas nos primeiros instantes, distrai-me a olhar o interior da igreja, as colunas, o teto pintado, as paredes repletas de azulejos, as pinturas de santos e passagens bíblicas que ornavam as paredes. Prestei apenas atenção quando alguém atrás de mim me beliscou. A cerimónia era ministrada por um sacerdote muito idoso, acompanhado por um outro mais jovem, que me pareceu um tanto familiar e até tinha cabelos claros quanto eu, entre o castanho e o loiro tal como os seus olhos, alto e delgado ao contrário do sacerdote que lia lentamente as leituras. Recordei subitamente com um rasgo de memória passada, ali estava meu tio, meu bom Padre Abrão. Demorou mais do que esperava, tratava-se de uma missa das vésperas das comemorações do santo padroeiro, cerimónia que muitos atraiu naquela tarde, enchendo a igreja em todos os cantinhos, com os ricos nos lugares da frente para eles reservados, e mais atrás estavam o mais modestos, ficando ainda de pé aqueles que tinham apenas uns sapatos, os sapatos do batizado, mesmo que dizer descalços. Quando terminou, mantive-me no interior da igreja, esperando por meu tio e aguardando que as gentes saíssem. Entre toda aquela gente, vi-me com a atenção roubada por uma rapariga, que usava um lenço branco sobre os cabelos cor escuros. Via entre os rostos e vultos, surgindo e desaparecendo, destacando-se por sua face sorridente entre as sisudas expressões dos demais. Por instantes perdi-a de vista quando caminhava na direção onde eu estava. Mas quando, por um momento me distraí de a buscar com o olhar, ela subitamente passava na minha frente, cruzando o seu olhar com o meu, quase me olhando para a alma. - Álvaro! Álvaro! - Chamou-me uma voz alegre atrás de mim. Olhei, era Abrão, meu tio e padrinho, estava próximo de mim. Sem grande consciência, voltei a olhar para onde passava a rapariga, mas não a vi. Era pequena e tinha olhos azuis, lábios bem rosados e pele clara.

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- Álvaro? Meu rapaz! - Abordou-me agarrando-me no ombro, acordando-me da minha distração, e perguntou-me com estranheza - Não te recordas de mim? Sou teu tio. Batizei-te e fui o teu padrinho! - Sua bênção senhor padre Abrão. - Disse-lhe com respeito, com uma ligeira continência. - Lembro-me sim senhor. Foi o senhor que me deu trabalho. Minha mãe fala sempre do senhor. Meu tio Abrão esgou uma leve careta, era uma padre simples sem arrogâncias, talvez não esperava que eu o tratasse com aquele respeito. Levando-me para a sacristia, faloume pausadamente. - O respeito e educação são virtudes, dádivas do Senhor. Graças a Deus que as tens. Para estes fiéis sou o senhor padre Abrão. Mas para ti, antes de padre sou teu tio, sou família, e sou muito chegado à tua mãe, ela criou-me nos meus primeiros anos. Diz-me, e como ela está? - Sim senhor. Minha mãe está de boa saúde, vai andando. Mas anda sempre aflita com meus irmãos. A gente não sabe nada deles. - Disse-lhe eu com alguma apreensão, pela pouca confiança que lhe tinha. - A Virgem Santa mãe de Deus há de interceder por eles. Tua mãe tem muita fé nela. Mas, temo que estejam para vir dias de choro e ranger de dentes, têm havido revoltas no nosso Portugal de África, em todas as províncias… - Falou ele com algum pesar, olhando para o chão. - Vão mandar os meus irmãos para lá também? - Perguntei eu com ingenuidade. - Deus queira que não. Deus queira que não haja uma grande guerra outra vez. - Detevese e sorriu-me, como se forçando a descontrair-se, perguntando-me, - E tu? Como tens passado? Já comeste? - Estou bem. Cheguei bem ao calhau. Até tomei banho hoje e tenho roupa nova. - Já comeste? - Voltou-me a perguntar sem estar convencido. - Já comi, sim senhor. - Menti-lhe. Apenas havia comido pela manhã o que minha mãe me dera. - Já? A que horas? - Perguntou-me e esperou por nova mentira, que não lhe disse. - Tens cara de fome, ainda te mandam para o sanatório rapaz. Vem comigo. - Concluiu ele em subtil advertência. Segui-o a um dos quartos da sacristia, repleto de imagens de santos e santas, onde começou a despir o seu hábito.

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- Tenho aqui a sua encomenda. Tive cuidado para não a molhar. - Disse eu orgulhosamente, olhando o Cristo morto numa urna de vidro, que me impressionou mais do que tudo que vi naquela igreja. - Deixa-a em cima da mesa. É para ficar aqui. É um evangelho em latim. - Falou ele caminhando para a porta, entregando uma chave ao sacristão que aparecia. - Aonde vamos agora, senhor meu tio? - Perguntei-lhe. - Vou levar-te comigo. Tenho muito trabalho para ti.- Disse-me ele com um sorriso irónico. Hesitei, não sabia se me via como criado ou como filho da estimada irmã. - Trabalho há tempo para ele. Mas tenho dois trabalhos para ti! Primeiro, vires comigo para casa. Depois, jantar como deve de ser. Não te quero comigo para te ver doente. Voltou a sorrir. Pensei se meu tio Abrão não estivesse a zombar de mim, eu seria muito afortunado. Meu tio levou-me então para casa, tinha carro mas fomos por nosso pé, era perto e ele gostava de caminhar. Sua casa ficava perto da igreja, era simples mas grande aos meus olhos, muito limpa e repleta de móveis e objetos de algum valor, tinha até uma pequena casa de banho, coisa que apenas vira na casa dos meus antigos senhorios, mas não se tratava da casa de um rico, apenas uma boa casa. Comi com ele um prato que apenas comia pela festa se tivesse sorte, um cozido repleto de carnes, feijão e batata-doce. Abrão, que para mim era novo demais para um padre, desejava-me consigo para cuidar da casa e do seu pequeno terreno, aliviar minha família e ainda justificar o dinheiro que por vezes nos enviava. Por aqueles dias já eu sabia ler, escrever, contar e mais algumas coisas, a quarta classe da altura, mas pouco mais sabia de outras coisas pois minha escola foi ao ar livre e não tínhamos livro de estudo, algo que meu tio quis remediar, ensinando me até a sexta classe e outras coisas mais. Todos os dias, depois de trabalhar um pouco da sua terra, apanhar lenha, limpar os terreiros e ajudar meu tio na missa, chegando a casa ele ensinava-me de tudo um pouco, desde história a um pouco de teologia. E nesses poucos meses que se seguiram, rapidamente assumiu um papel de autêntico padrinho, quase me adotando como filho. Também nesses mesmos meses, nunca consegui tornar a encontrar a rapariga dos olhos azuis, nem mesmo na igreja, onde eu sempre ia por desejar voltar a vê-la, não que gostasse dela, nem consegui compreender se era bonita ou feia, tinha-me chamado a MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


atenção de um modo estranho, e não a vendo, aos poucos foi-me convencendo que por alguma estranha razão, a houvesse imaginado na minha cabeça. Chegaram assim os meses quentes de verão, e eu me tornava cada vez mais homem e menos um rapaz franzino. Não havia voltado ao Funchal e apenas sabia de alguma notícia através de meu tio Abrão, que regularmente eram as mesmas: meu pai havia pescado três atuns, havia nascido um primo e morrido dois, fulano e sicrano havia-se envolvido numa rixa por uma rapariga, e umas tantas alegrias e tristezas. E num dia fresco desse verão, Abrão meu tio, trouxe-me novas diferentes das habituais. Chegava da cidade no seu jipe e logo me chamava para ajuda-lo com o que trazia, uns cestos de vime, bananas, sacas de açúcar e arroz. Estava apreensivo, sem alegria nem tristeza, mas mais silencioso do que lhe era comum. Por fim chamou-me e contou-me então, que os meus irmãos, Virgílio e Jacinto, tinham faltado à chamada ao quartel e poucos dias depois os foram buscar a casa. Jacinto e Virgílio chegavam à idade para ir a tropa, e estavam naquele momento no quartel de instrução BII19 a iniciar os meses de formação, para depois, partirem para Africa, para a guerra que começava. Quando Abrão me falou isto que escrevo, lhe vi a amargura de um mal esperado que tinha chegado. Forçou um sorriso, faltava outra notícia, Manuel e José tinham chegado, e José vinha coxo. Creio que fiquei feliz, com a alegria inconsciente da ignorância, muito diferente da apreensão de meu tio Abrão, apreensão que me intrigava e desconhecia a sua justificação. O certo é que meu tio, mais velho e mais conhecedor que eu, compreendia de um modo distinto a ida e a chegada dos seus sobrinhos para a guerra, para as províncias do nosso ultramar, que para mim, era uma simples palavra. Guerra. - Amanhã vais à cidade ver os teus irmãos. Hão de gostar de ver que o irmão mais moço que já está quase um homem. Tua mãe tem saudade tuas, e teu pai deve sentir falta de te dar uma sova. - Terminou Abrão com forçada descontração nas últimas palavras. Na verdade, há muito que meu pai não me batia. - Posso levar-lhes alguma coisa? - Perguntei eu, sentando-me com ele na mesa da sala. - Deves. Mas já lhes levei o mais importante, comeres daqui do campo. Dou-te dinheiro para viagem na camioneta, e para comprares arroz, açúcar e o que não tiveres em casa. Disse-me com apreensão.

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No dia seguinte, já pela tarde e com o saudoso aroma do mar do sul, já eu caminhava pelas ruas de Santa Maria carregando sacas de arroz, feijão e farinha, nunca antes tão feliz por estar a carregar tanta carga, mal me preocupando com o esforço, esperava apenas voltar a abrir a porta da minha casa. Faltavam apenas Jacinto e Vicente, que chegaram no dia seguinte. José ficara debilitado de uma perna, um leve coxear que não o impediria de voltar a trabalhar. Manuel e José apreciavam ouvir as novidades da sua ausência e a entusiasmavam-se a contar os bons momentos que viveram em Diu. Mas estavam diferentes, um pouco como Abrão quando me anunciou a sua chegada, falavam vagas palavras e o frequentemente se alienavam noutros pensamentos, como se parte deles ficasse do outro lado do mar. Minha mãe matou uma galinha e eu fui comprar Laranjada para bebermos com vinho. E depois de dois dias felizes e de mesa farta, voltei para São Vicente. Regressei aos meus dias de trabalho sossegado, onde experimentei desde ajudante de pedreiro até a trabalhos nas vindimas, trabalhos fora da casa de meu tio, que insistia que os fizesse, para ganhar alguns escudos, para conhecer e fazer me conhecer, aprendendo vários ofícios. Passavam-se assim dias mais pesados e dias mais leves, alguns dias de rotina maçadora outros de certa aventura, particularmente quando meu tio me pedia que levasse alguma encomenda ao Seixal ou à Ponta Delgada, e eu, como não gostava do escuro quando regressava ao anoitecer, pela estrada junto ao mar entre o negrume da montanha e rugido mar, descalçava os sapados e corria até chegar à Capelinha de São Vicente. Por vezes chegava a casa com os pés em sangue, mas o conforto de entrar em casa e ver sopa esperando por mim, fazia-me esquecer tudo, até os longínquos dias em que eu e os meus irmãos adormecia-mos esperando o jantar, que nossa mãe fingia cozinhar até que nos deixávamos cair pelo sono. O ano de sessenta e dois foi o ano em que realmente me senti gente, tinha eu dezassete anos. Semanas depois de meus irmãos regressarem de Diu, soube que haviam regressado realmente diferentes, marcados pelos dois anos de comissão e os seis meses de prisão. Especialmente meu irmão Manuel, irmão gémeo de José, nunca conseguiu lidar com as sombras do passado, tornando-se amargurando e fechado sobre si, começando a beber mais do que comia, dormia pouco e trabalhava sem a alegria de outros dias. Depois chegou uma madrugada em que José e Manuel foram ao mar, pescar para os lados do Garajau, entre uma ondulação brava igual a tantas outras, que se foi engrandecendo sem MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


que meus irmãos a previssem ou conseguissem voltar a terra. Sem saber como, José viu Manuel cair ao mar. E minha mãe perdeu o seu primeiro filho, como ela temia que tal infortúnio chegasse. Recordo que nem por uma vez não fui capaz de chorar, creio que chorei para dentro, que as lágrimas de tristeza corriam para dentro da alma em vez de correm pelo rosto. Não houve enterro, Manuel nunca foi encontrado, mesmo depois dos vários dias que o procuramos, eu, meu pai e meus irmãos, e outros bons homens do mar, enquanto minha mãe envolta no negro do luto, chorava sem lágrimas nas sua Cape-la do Corpo Santo, sentada a olhar o altar, como se nem estivesse ali, com seu irmão Abrão do seu lado, sem palavras que pudesse dizer a sua irmã, que lhe morria parte de si. Estavam próximos os dias da festa, do natal, e por esses dias era chegada a vez de Vicente e Jacinto, de estarem em casa uns dias de licença, arranjarem raparigas para escreverem, depois integrarem uma Companhia de Caçadores e partirem para a terra que se ia perder. Meus irmãos foram enviados para as colónias de África no fim de sessenta e dois, e José partiu com eles também, alistou-se contra a vontade dos meus pais, mas embarcou de qualquer maneira. Nunca entendi porque o fez, muitos pensaram que tivesse perdido o juízo, certamente que não superara os dias em Diu e a perda de Manuel. Deixou uma carta a minha mãe e assinou o seu desaparecimento. Nunca mais o voltei a ver, desapareceu em combate e nunca foi encontrado. Minha mãe teve um grande desgosto, envelheceu num ano o que podia envelhecer em dez, tornou-se ainda mais melancólica, fatalista e por vezes amarga, afastou-se de Deus e esmoreceu a sua fé. Depois de um ano que começara doce e terminara amargo, chegava o ano de sessenta e três, ano em que faria dezoito anos e reencontraria a rapariga dos olhos azuis. Num fim de tarde como qualquer outro, terminava o meu dia de trabalho no pequeno terreno de meu tio Abrão. Nessa tarde tivemos visitas, uma senhora conhecida de todos, viera falar com o Padre Abrão. A senhora dona Agostinha, conhecida também por Menina Agostinha, por ter muitas terras e já alguma idade. Uma senhora respeitável que nunca faltava a uma missa importante, sentando-se sempre junto do altar, no seu lugar reservado. Senhora dona de uma personalidade autoritária e altiva, pelo seu estatuto e pela influência seu esposo feitor, o senhor Jordão, poderoso e mulherengo, o esposo ideal. Dona de várias terras que Jordão geria e entregava a famílias pobres, para nelas

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que trabalhassem e lhe entregassem boa parte do que colhessem, mantendo ainda nos inícios dos anos sessenta, o primitivo sistema de meeiros. Senhora dona Agostinha visitava meu tio Abrão para que ele instruísse a sua estimada afilhada. Não desejava que ela aprendesse a ler e escrever junto com outras raparigas, pois falava que a sua menina estava destinada a ser santa e devia aprender com um padre. E sua afilhada era a rapariga dos olhos azuis. Por momentos não a reconheci, parecia-me apenas uma rapariga pequenina, mas ela olhava para mim como se me conhecesse e acabei por me recordar, passava um ano que nos cruzamos na igreja. A troca de ingénua de olhares, não foi ignorada por Abrão e pela dona Agostinha, que se apressou a sair com a afilhada sem nenhuma advertência, mal Abrão aceitou o seu remunerado pedido. Aquela rapariga, naquela tarde ficou-me verdadeiramente na alma. Não era feia nem tão pouco bela, mas detinha uma beleza simples e discreta, cabelos escuros e ondulados, olhos e tez clara, rosto redondo e mãos miúdas acostumadas ao trabalho, pequena e agradavelmente roliça. E tinha quase a minha idade. - Clara vem cá amanhã. A senhora Agostinha quer eu lhe dê escola. Tem medo que a menina deixe de ser santinha se for para uma escola sozinha - Disse Abrão com enfado, pouco depois de fechar a porta. - Clara? - Perguntei eu com surpresa. Tinha nome bonito, e eu talvez pudesse conhecela. - É a pobre da rapariga, que apesar de tudo, tem de louvar a Deus por os pais escolherem uma madrinha como a senhora Agostinha. - Abrão sentou-se na mesa e encheu dois copos de vinho para nós. - Os pais são pobres? - Perguntei eu, tentando esconder o entusiasmo, porque meus pais eram pobres e escolheram-me um bom padrinho, tal como aquela rapariga. - Muito pobrezinhos. E rapariga é a mais nova de três irmãos e duas irmãs. Já casaram, casei dois, e já embarcaram todos para a Venezuela. A mãe morreu há quatro anos. O pai, com o desgosto e com os filhos longe, perdeu-se no vinho. Não faz mal a ninguém mas anda sempre com a bebedeira. A filha é que tem olhado por ele. E agora há tempos a madrinha, a senhora Agostinha, levou-a para a cidade com ela. - Explicou-me Abrão distraído na própria história, que o parecia entristecer.

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- Então por isso nunca as vi por cá, senhor meu tio. - Menti-lhe com intenção de esconder o interesse que Clara me despertou. Mas ele era esperto demais, o mais culto que alguém podia encontrar. - Aqui a uns dias voltaram para São Vicente. Mas tu, não precisas de saber mais nada, que isto já são histórias de vida alheia. - Levantou-se e bebeu o vinho de uma vez - Se estás curioso pergunta-lhe o que bem entenderes, já que estás quase em idade de casar Disse-me ele com ironia, como se me adivinhasse o que pensava, deixando-me sem saber se ele me experimentava ou se simplesmente zombava com o momento. Por isso poucas vezes me parecia realmente um padre, pelo menos um padre conservador. No dia seguinte meu tio Abrão mandou-me à igreja da Ponta Delgada, enquanto Clara estava em sua casa. Sabia-o e fiquei ainda mais ansioso, quando no dia depois meu tio me disse que fosse fazer algo sem importância fora de casa. E na verdade não me deu tarefa nenhuma. Não a vi chegar mas ouvi Abrão falar com alguém, eu estava no jardim a entreter-me a não fazer nada de útil, nervosamente impaciente. Aventurei-me a entrar dentro de casa, não sabia se Abrão aprovaria ou teria permissão de me deixar estar na presença da Clara. Espreitei algum tempo pela porta da sala, onde Abrão ensinava Clara, com a um pequeno livro de onde lia enquanto caminhava pelo quarto. Clara apercebeu-se da minha presença e sem discrição olhou para mim, assustando-se como o meu vulto. - Que estás aí a fazer rapaz? - Perguntou Abrão com seriedade, sem desviar os olhos do livro, como se me esperasse e soube-se bem o tempo que já ali estava. - Eu estou, aqui a ver este... - Gaguejei eu sem encontrar uma estúpida justificação. - Já devias aqui estar. Ontem não te dei nenhuma lição! - Fechou o livro, olhou para mim e falou com seriedade. Sorriu com gozo de me ter assustado, e acrescentou com outra leveza. - Sentas-te ou não? - A minha madrinha deixa? - Murmurou Clara para Abrão, com natural apreensão, mais por medo de sua madrinha do que de mim, esperei eu. Tinha uma voz agradável. - O padre e o professor sou eu. Mando eu aqui. Não vejo mal nenhum em rapazes estudarem com raparigas. As únicas santas que se fabricam são as imagens de altar. E se a senhora dona Agostinha quer uma santa, que vá buscar alguma à minha sacristia. Retorquiu Abrão como uma alegre repreensão, discretamente animado e nada em modos de muitos padres.

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Abrão tolerava as muitas senhorinhas como a senhora Agostinha, e secretamente as detestava, porque tanto poderiam ser úteis a uma paróquia, especialmente com dinheiro, como serem o tormento de quem quer que fosse. Por isso, e sendo como era, parecia quer colocar-nos à-vontade, que em parte conseguiu, se bem que eu e Clara tivéssemos receio um do outro, pois na nossa idade de dezoito e dezasseis anos, as amizades eram para casar e os namoros eram sempre marcados pelo segredo e imoralidade. Eu estava um pouco sujo, e Clara tinha fitas azuis no cabelo, como o vestido simples e azul que usava. E assim começou aquela minha primeira lição na companhia de Clara. Foi uma escola como outras, em silêncio obediente à máxima autoridade do professor, não por temor mas por respeito a Abrão. Eu e Clara mal falávamos, apenas quando nos Abrão incentivava, colocando-nos a resolver algo juntos. E dessa maneira nos fomos conhecendo e tornando amigos, depois de dias de hesitação mútua. Nalguns dias, nossas lições eram diferentes, Abrão gostava de conversar e também muito ouvir, por tal, era frequente que falássemos de nós e de muitas outras coisas. Assim fui descobrindo que Clara não era muito diferente de mim, e, também aprendi um pouco mais de meu tio e padrinho Abrão. - Já estive vários anos no Brasil - Disse-nos Abrão certa vez, que explicava a sua forma de ser e a sua leve pronuncia - Cresci lá, e lá fiz-me padre. Foi criado pelo meu pai que esteve lá imigrado. Fui educado por teu avô Ferdinando, Álvaro. - Explicava Abrão, com muitas mais palavras que as que agora escrevo. - O nome igual ao do meu pai. - Dizia Clara encantada com a coincidência dos nomes, e falava então de seu pai com amargura. - Mas minha madrinha diz que ele é um bêbado. Mas eu gosto dele, porque ele gosta de mim, e é boa pessoa. - Desafortunadamente o Mestre Jangão afoga-se a beber, não tem juízo. Conheço-o a vários anos, e é bom homem graças a Deus. Mas Deus tende a conceder a graça da bondade a quem a vida não conhece a felicidade. Já tinha idade pare se cuidar melhor Opinava Abrão com certa pena. - Jangão é o seu apelido? Parece-me que já ouvi falar. - Perguntava eu. - Meu avô nasceu num palheiro no Curral Jangão. É um sítio na Serra d'Água. O nome ficou e passou para o paizinho. - Dizia-me Clara, sempre com um leve sorriso.

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Assim, de um modo que não esperava, foi tendo uma segunda escola diferente, a do meu bom padre Abrão, escola onde aprendi bem mais que a sexta classe até, onde um rapaz podia aprender junto com uma rapariga, e o professor partilhava a mesa connosco. Aprendi bastante com meu padrinho e tive com a sua ajuda, a graça de conhecer Clara. A rapariga de olhos azuis e cabelos escuros, era filha de um pai alcoólico conhecido por Jangão, nascera de uma família pobre como a que minha e numa casa talvez mais pequena que a minha. Os seus irmãos casaram e emigraram como muitos, deixando os pais e a irmã pequena na solidão e na miséria do campo em tempos de ditadura. Entre a fome de um inverno violento que ceifara todos os campos, a mãe de Clara foi tomada pela tuberculose, que se enfraqueceu para dar de comer à filha pequena. Um dia morreu e deixou Ferdinando Jangão com a pequena Clara para criar. Jangão de desgosto e desânimo ensopava-se na bebida, enquanto sua filha cuidava dele. Valeu-lhe a madrinha, que retirou a rapariga do pai, para sua maior amargura, mas este não tinha como cria-la. Agostinha guardou Clara para si, como uma filha que nunca teve, não se importando que o pai fosse pobre, pois na sua singela beleza, educação, e obediência no trabalho, encontrava nela uma filha que desejava transformar em santa. Por isso quis que Abrão a instruísse. Esta era então Clara, uma rapariga não muito diferente de mim, também ela de infância sofrida. Por meses, a senhora dona Agostinha levava Clara aos ensinamentos do Padre Abrão, dia sim, dia não, sonhando que o padre educado no Brasil fizesse de sua afilhada santa. Por meses, eu e Clara fomos tecendo uma agradável amizade, quase de irmãos e não longe de noivos. Abrão não se opôs nem se prestou ao incómodo de dizer a Agostinha, que sempre que dava escola a Clara dava também ao seu afilhado. Eu continuava a trabalhar para meu tio e padrinho, que me ia dando dinheiro que eu juntava ao que poupava de outros trabalhos, e assim ia-me formando homem enquanto me tornava cada vez mais próximo de Clara, entre as paredes da casa de Abrão e do seu consentimento. Mas do outro lado da ilha a vida se escrevia de uma forma mais crua. Corria já o ano de sessenta e quatro, e graças a Deus meus irmãos voltavam de Angola, Vicente meio cego de um olho e Jacinto com uma perna partida. Mas haviam regressado ainda antes de dois anos compridos. Meus pais e irmãos continuavam tão pobres quanto antes, minha mãe ia perdendo o seu juízo, meus irmãos estavam marcados pela guerra como todos os que partiam, e meu pai estava desejoso por deixar para trás tantos anos de miséria. MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


Poucos dias depois do regresso de meus irmãos, meu pai, minha mãe e meus irmãos visitaram-me em São Vicente, mas na verdade não me visitavam, vinham simplesmente despedir-se. Eu tinha quase dezanove anos e minha família embarcava para o Brasil, deixando-me nas minhas próprias mãos e no auxílio de Abrão, que se comprometeu a ter-me sempre como filho. Tinha ganho uma nova casa, ganhava o meu próprio dinheiro em diferentes ofícios e estudava com meu tio Abrão, mas perdia o que restava da minha família. Somente reencontrei meus pais e meus irmãos muitos anos mais tarde, quando chegou minha vez de embarcar para as terras das oportunidades. Estávamos então no ano de mil novecentos e sessenta e quatro, e minha família embarcava para o Brasil. E em São Vicente as más-línguas começavam a lançar as suas sementes. Nos dias em que Clara frequentava a casa de Abrão, seu pai muito nos visitava. Aproveitava essas tarde para rever a filha, que mal lhe falava por vontade de Agostinha, que não o apreciava por não ser um bom exemplo. Nessas visitas ocasionais, conheci o mestre Ferdinando, que era mais novo que parecia, moreno e de cabelos grisalhos. Era ferreiro, concertava e fazia todo o tipo de ferramentas agrícolas, tinha sempre que fazer pois melhor não havia, apesar de ter uma relação particularmente próxima com o vinho. Ferdinando Jangão apenas tinha a sua filha Clara, estimava meu tio Abrão e não tardou a gostar de mim também. Apenas não lhe agradava que eu bebesse como um rapazinho de cidade, ou por outras palavras, bebesse pouco. E por isso, por simpatizar connosco, certa vez nos precaveu da mudança dos ventos. - Tenha cuidado senhor padre, se Agostinha sabe que o rapazinho tem escola com a minha pequena, decerto não ia gostar muito da graça - Ferdinando acautelava Abrão, mas meu tio desvalorizava. - Não se preocupe. A senhora Agostinha já viu Álvaro mais que uma vez nesta casa. - Mas olhe, senhor padre Abrão, não sei se ela sabe que o rapazinho não é rico como ela pensa. Se alguém lhe diz o que seja, ela fica levada do diabo. Olhe que ela é de feitio reles. - Ferdinando já havia bebido um pouco, para além do copo de vinho que Abrão lhe oferecia. Mas estava lúcido o suficiente. - Não se preocupe homem! A senhora dona Agostinha pensa que vou fazer da sua filha santa. E penso que ela acredita que sou da PIDE… - Desvalorizou Abrão com leveza.

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- E não é, senhor padre?! Há tanto padre espia da PIDE! Tantos que andam de rabo agachado para o Salazar! - Exclamava Ferdinando levantando os braços, com a imprudência do seu bafo de vinho. - Tenha cuidado, mestre Ferdinando. Diz isso porque me conhece. Mas lembre-se que as paredes têm ouvidos. - Abrão desagradou-se um pouco, e avisou o Ferdinando com prudência. - Ah Santíssimo Sacramento! Seja tudo pelo amor de Deus! Dão-me porrada e mandam-me preso. Mas se me derem comerinho já é outra história. - Exclamava Ferdinando, rindo-se com alegria, enquanto Abrão abanava a cabeça com os modos de Jangão. - Tenha juízo meu pai. - Advertia Clara, tirando-lhe o copo da mão. - Não bebe mais hoje! O mestre ferreiro Ferdinando Jangão, pai de Clara, poderia parecer um homem de meiaidade com as ideias turvas pelo álcool, mas estava certo. Não tardaram que as crescentes más-línguas e as opiniões intrometidas influenciassem ainda mais o já desconfiado pensamento da senhora dona Agostinha. Claro que ela sabia que eu vivia na casa de Abrão, apenas desconhecia que eu era pobre, que estudava com a sua afilhada, e para maior escândalo, não sabia que Abrão consentia a proximidade sem nada lhe contar. Inevitavelmente, uns dias depois do aviso de Ferdinando Jangão, a senhora Agostinha proibiu Clara de voltar à casa de meu tio. Obrigou-a a ficar em casa, fechada na sua herdade e apenas a sair com ela, apenas aos domingos e à missa, mas estranhamente, não fez o escândalo que se esperava. E meses depois de ter conhecido e me tornando próximo de Clara, deixei de a poder ver sem sequer termos sido mais que amigos. Entristecia-me a cada semana que ia passando, apenas me animando aos domingos, onde com sorte poderia vê-la. Por outro lado, Agostinha deixou de me olhar com indiferença para passar a lançar-me odiosos olhares, acentuado pelo rosto anguloso e sisudo. Por vezes conseguia ver que rumorejava, quando se apercebia que trocava olhares com Clara, certamente seria o sibilar de alguma praga que me rogava. Abrão nada fez, não se encontrava em posição de se intrometer, havia falhado transformar Clara na santa que Agostinha desejava. Apenas Ferdinando se decidiu a valer a filha. Dizia que Clara era a única coisa que dele prestava, e não ia ver a filha metida no cárcere da madrinha. Por tal visitou Agostinha. MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


Numa noite sem estrelas eu voltava para casa, e por coincidência, nessa alvorada caminhava junto do casario da senhora dona Agostinha. Ouvi vozes quase a berrar, alguns palavrões e um cão sempre a ladrar. Corri ao portão de ferro, e ainda me ocorreu a loucura de entrar na casa, mas certamente iria piorar a discussão. Conseguia apenas ouvir a voz estridente de Agostinha, e as palavras mais calmas de Ferdinando. - A senhora não há de fazer minha filha uma santa mártir! - E por fim o berro autoritário de Jordão Feitor, esposo de Agostinha, que procurava terminar a discussão. Não tardou que a porta da casa se abrisse, e Jordão empurrasse Ferdinando para a rua, apontando com o braço que saísse da propriedade, berrando-lhe que nunca mais lhe aparecesse à frente. Naquela noite comecei a sentir genuína raiva por aquela gente. - Aquele animal é tão reles como a mulher. Aquele filho-da-puta do diabo! - Praguejava Ferdinando, chegando à porta de ferro onde eu o esperava. Naquele início de noite estava perfeitamente sóbrio, transpirado e enfurecido. Nunca o tinha visto assim, tão pouco a falar palavras grosseiras. - Acalme-se senhor Ferdinando. - Serenava-o, tentando serenar-me também a mim. - Já desci ao inferno, o diabo que me leve, mas aquela mulher não pode fechar minha filha como um passarinho! - Dizia-me Ferdinando olhando para a o casario, depois, olhou para mim e acrescentou, acalmando-se com tristeza. - Ela ainda me deixou ver a Clarinha. Ela tinha os olhos inchados de tristeza. Não me consegui controlar com a maldade daquela mulher. - E começamos a caminhar para a casa de Abrão. - O senhor bebeu hoje? - Perguntei-lhe com ingénua preocupação. Ele abanou a cabeça. - Não Álvaro. Rompi o meu último garrafão na fazenda. Decerto foi por não beber que me deu esta raiva. Se fosse pra venda, a esta hora andava contente. - Respondia-me com naturalidade. - Venha cear comigo e com Abrão. Ele gosta de sempre de visitas. - Disse-lhe eu, como em consolo. Ele parou e concordou. Pensou um pouco, enquanto afastava o barrete para trás e coçava a cabeça. - És bom rapazinho, tens juízo e és trabalhador. Olha Álvaro, vou-te dizer uma coisa. Disse-me ele com seriedade, e eu assenti. - A gente não se vai aguentar a loucuras da senhora Agostinha. Minha pequena gosta de ti. Dou-te permissão, dou-te a minha bênção se quiseres falar para casar com a minha Clara.

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Fiquei realmente surpreso, por aqueles dias Clara era-me especial, mas parecia que Ferdinando estimava-me mais que pensava. Apenas consegui gaguejar uma pergunta cheia de dúvidas. - Como? Ferdinando Jangão virou-se para trás e apontou-me a casa de Agostinha. - Estás a ver aquela janela com luz? A primeira da esquerda para a direita? É quarto de Clara. - E eu não sabia o que dizer. - E o nosso Abrão? Meu tio não aprovaria. - Disse como que me defendendo das ideias de Ferdinando. - O senhor padre? Que me interessa, o pai sou eu! - Resmungou ele. E assim fomos cear com Abrão, sem lhe contar mais do devia saber, além da visita da desavença. Então assim foi. Logo na noite seguinte estive próximo do casario de Agostinha, mas não me aventurei, apenas observei e estudei a herdade, o que podia fazer e como o podia fazer. Na noite depois dessa, subi o muro da propriedade e embrenhei-me por entre o pomar de laranjeiras que me levaram até junto da janela de Clara. Ninguém me viu nem ouviu, caminhei com a maior das prudências, tão atento a tudo que a minha própria respiração me enervava. Clara parecia esperar-me, tinha a luz do quarto acesa e olhava o pomar pela sua janela, repousando com a cabeça sobre os braços. Quando me viu deu um pequeno salto, e o meu espírito saltou também. Depois daquela noite éramos mais que amigos, passava a ser uma amizade para casar, como naquele tempo se dizia. Naquela noite não falamos, apenas trocamos olhares e gestos, tentando falar apenas com os movimentos dos lábios. Clara penteou os cabelos e pela primeira vez vi os seus longos cabelos soltos, até que Agostinha chamou por ela. Clara acenou-me, fechou a janela e eu voltei para casa feliz. Abrão não me perguntou onde havia estado, não me repreendeu nem me disse nada, apenas me sorriu com um certo gozo como se soubesse onde tinha estado. Visitava Clara sempre que podia, durante a noite entre as sombras, ela na janela e eu o mais próximo que conseguia, cada vez com mais proximidade, até que eu quase podia saltar para o seu quarto apenas com a ajuda de uma estaca de urze. Apesar dos receios de sermos descobertos, mas a cada visita era cada vez mais difícil de nos contermos entre o segredo, murmúrios e cartas. Por algumas vezes me aventurei a subir até a altura MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


da janela, pela estaca de urze, que não me permitiria fugir se o senhor Jordão, esposo de Agostinha, aparecesse com uma caçadeira carregada. Mas dessa forma podíamos falar, podíamos tocar-nos. Podia sentir-lhe o cheiro, podia ver-lhe os contornos debaixo da camisa da noite. - Quanto gosta de mim? - Perguntava-me Clara certa vez. - Mais do que sei contar. - Respondia eu, e ela corava. - Ficarias comigo, se não estivesse aqui? - Voltava a perguntar-me. E eu assenti - Jurote! - Eu não quero ficar aqui. Sonho estar longe daqui, desejo estar longe desta miséria. Desabafava. - Mas tu já não estás na miséria. As tuas mãos já não estão calejadas nem suja pela terra - Falava eu, segurando-lhe na mão com algum receito. - Antes era feliz. Era livre de ir à fonte buscar água. Apanhar um pêro se quisesse. Tinha a certeza que um dia teria uma casa e uma família. - Explicava-me com melancolia, forçando-me a dizer o que queria. - Que queres que eu faça? Diz-me. - Perguntava eu sem hesitar, enquanto ela tardou a responder-me. - Tiravas-me daqui? Fugias comigo? - Questionava-me depois de hesitar, como um grito interior. - Íamos para onde? Para onde fossemos, nos encontravam. - Falava com cuidado de não a magoar. - Embarcávamos para fora! Nós temos algum dinheiro. O pai e o teu tio Abrão ajudavam-nos! - Teríamos de casar... - Disse eu com receio, sem ser realmente um pedido. Ela rasgou um sorriso. - Casava-me contigo as vezes que eu pudesse! Abrão casava-nos! - Exclamava baixinho, sorrindo. - Tenho de pensar as coisas. Falar com meu tio e teu pai. - Vacilava eu, confuso mas feliz. - Eu espero. – Murmurava esperançosa, e de alguma maneira partilhando a confiança comigo.

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Nesse mesmo instante escutamos passos. Roubei um beijo a Clara e saltei. Apressei-me por entre as sombras e olhei uma vez mais para atrás. Clara acenou-me e despareci pelo pomar. Naquela noite não consegui dormir. Pensava o que fazer, pensava o que podia acontecer. Se alguém nos ajudava. Mas estava feliz, bastante feliz, tinha arranjado mulher e eu nem tinha vinte anos. No dia seguinte nada disse a Abrão, pensava falar primeiro com Ferdinando, pois ele era o pai de Clara e tinha-me dado a sua bênção para falar-lhe. Por isso, logo pela manhã visitei Ferdinando enquanto ele trabalhava, já que pela tarde gostava de começar a esvaziar o vinho dos garrafões. Eu estava um pouco apreensivo, mas o homem explodiu numa alegria que nunca lhe vira, não se importava que a filha quisesse embarcar e ficar longe dele, não lhe importava a solidão, sua filha seria livre e com sorte feliz, e por isso, como o próprio dizia. - A morte já me pode vir buscar! Que já sinto bastante falta da minha Maria! Ferdinando Jangão, ele próprio quis ir comigo falar com Abrão e ser ele a pedir-lhe que casasse a fi-la. Acompanhou-me encantado, mas depois de bebermos um copo, e, falamos com meu tio nessa manhã. - Endoideceram? Como querem que eu case alguém assim? Na igreja, para que Agostinha não falte? Contem comigo para tudo mas isso é uma loucura! - Retorquia Abrão, genuinamente surpreendido. - Que seja em segredo! E sou a testemunha e faço eu as alianças! - Exclamou Ferdinando animado. - Não, não está certo. Não ia resultar, ai saber-se! - Dizia Abrão um tanto confuso. - O tio ensinou-me a ser diferente como o senhor, sendo bom e fazendo o correto porque é correto. - Interrompi Abrão, roubando-lhe as palavras por momentos. - Álvaro, - suspirou - Deixa-me refletir. Temos de ser prudentes, se vivemos pela imprudência morre-mos pela imprudência. - Concluiu sabiamente Abrão. Ferdinando arregalou os olhos e coçou a cabeça, como que conscienciosamente atemorizado com Abrão. Nos dias seguintes, seguindo um pouco a opinião de Abrão, voltei a ser prudente com imprudência. Continuei a visitar Clara, com maior cuidado, falei-lhe o que se tinha passado, e ela compreendeu, pois já me havia dito que esperava. Havíamos de ser prudentes e ela esperava. MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


O mestre Ferdinando, pai de Clara, por outro lado desafiava a ponderação das palavras de Abrão, envolvendo-se numa desavença como não era seu hábito. Naquela vez com Jordão feitor, esposo de Agostinha. Eu estava presente da venda onde se desentenderam e discutiram, pela oposta opinião sobre se a igreja da Vila de São Vicente necessitava ou não de reparos. Uma simples conversar entre vários homens, e entre os dois que se desprezavam, Jordão feitor e Ferdinando Jangão. E inevitavelmente, a conversa levou ao nome da senhora dona Agostinha. - Porque vão ser os pobres a dar dinheiro. Se há gente que paga um banco para ser o seu na missa, também pode pagar outras coisas. - Dizia Ferdinando, olhando com provocação para Jordão feitor. - E minha mulher ia se sentar com gente como porcos? - Respondeu Jordão com desdém. Sentindo o seu temperamento instável provocado, acentuado pelo seu delicado orgulho. - Então os pobres são porcos... Seja tudo por amor de Deus! Mas olhe que para o inferno vão os ricos! E olhe, se Menina Agostinha pagasse o arranjo à gente, decerto arranjava um cantinho no purgatório. - Cale-se homem! Não queira que lhe faça como da outra vez! - Jordão levantava-se e apontava para Ferdinando, avisando-o e já claramente enervado, com os olhos arregalado e os punhos cerrados. - Ah Santíssimo Sacramento! É feitor e isto é tudo seu, compra fiado mas nem perdoa dois feijões aos pobres dos meeiros. - Resmungou Ferdinando sem cortesia alguma, bebendo o seu último copo de vinho. Jordão disse qualquer coisa entre dentes, enfurecido de repente, surpreendendo todos os que ali estavam. Quando dei por mim, já Jordão tinha atirado Ferdinando ao chão como um boneco de trapos. O dono do estabelecimento berrava que acudissem. Eu e outros tentamos agarrar o feitor, enquanto dois homens lhe puxavam o banco que pegava para despedaçar na cabeça de Ferdinando. Mas Jordão, enorme como era, tinha mais força que todos nós juntos, e como um touro libertou-se ainda mais enfurecido. Ferdinando levantou-se e Jordão em menos de um piscar de olhos, tira da sua navalha e crava-a no peito de Ferdinando. O pai de Clara não teve como reagir. Jordão saiu a correr. Os homens que ali estavam nada fizeram, ficaram perplexos, levavam as mãos à cabeça. Eu corri a amparar Ferdinando que tombava sobre uma mesa. MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


Segurei-o, pegando-o por debaixo dos braços. E ele me disse a coisa mais triste que alguma vez ouvi. - Aguenta-me que Jordão matou-me. Ferdinando, pai de Clara, esmoreceu e morreu ali, nos meus braços. Os outros homens corriam dali, talvez avisar a guarda ou chamar Abrão. Mas não sei. Eu deixei-me cair a um canto, com sangue de Ferdinando na camisa, chorando como jamais fizera, corriam-me livremente lágrimas pelo rosto, não entendia bem porquê, não havia chorado a morte dos meus irmãos nem a partida dos meus pais. Chorei como uma criança, como se o meu futuro se perdesse ali e eu soubesse isso. Não sei quanto tempo ali estive, chorando a um canto, incapaz de olhar Ferdinando. Apenas o senhor Santos, dono da venda, estava junto de Ferdinando, de mãos na cabeça sem saber o que fazer. Não sabendo quanto tempo se havia passado, Abrão chegou em aflição, ainda com as vestes da missa. Com a sua chegada recordei-me do que dissera, quem vive pela imprudência morre pela imprudência. Meu tio Abrão aproximou-se de Ferdinando, e vacilante colocou a mão na cabeça de Jangão, disse algumas palavras e fez o sinal da cruz. Sentou-se junto dele e olhando-o desolado. Eu limpei a cara, levantei-me do chão com a cabeça às voltas, e como Abrão detive-me em silêncio. - Foi Jordão... - Hesitei, tal como Abrão, que assentiu pouco depois. Entretanto o senhor Santos, dono naquela venda, colocava uma tolha branca sobre Ferdinando, tão atemorizado quanto eu. - Vou falar com a senhora Agostinha. - Disse eu a Abrão com amargura, e saí da venda do Santos. - Espera Álvaro. Não te deixes tomar pelo ódio. Ele ocupa-te o lugar do amor e consome-te a alma. - Disse-me Abrão antes de eu sair, com mágoa e sem me olhar nos olhos. Fui imediatamente a casa de Agostinha, não me importava que levasse sangue na camisa, não me preocupava que Agostinha não me deixasse ver Clara e que talvez nem me abrisse a porta, apenas cria que Clara soubesse, não desejava que lhe fosse escondido. Para minha leve surpresa, a própria Agostinha me abriu a porta, estava MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


agitada e parecia que me recebia por acidente, viu-me o sangue na camisa e talvez já soubesse da notícia. Tratou-me com desprezo, quis mandar-me embora, mas insisti e contei-lhe em duas palavras, sobre Ferdinando e que Clara tinha de saber, devia despedir-se dele. Mas ela pouco se importou. - Então o diabo deu-lhe bom caminho, graças a Deus. - Falou-me com desdém. Aquelas palavras encheram-me de raiva, mas contive-me, recordando o que Abrão me dissera. - Deixe-me dizer a Clara sobre o pai. - Insisti eu, já sabendo a resposta, procurando não me exaltar. - Como te atreves, seu desvergonhado. Não bastava apareceres aqui, ainda queres falar com a minha menina. Ela não é para o teu gosto! Vai-te daqui! - Respondeu-me ofendida e quase com nojo de mim. Eu pouco me importei, certamente que ela desconhecia as minhas visitas e proximidade com Clara. - Diga-lhe então também que foi seu marido que o matou. - Sorri, em jeito de provocação. Ela não me respondeu. Os seus olhos escuros quase pareceram saltar das órbitas com as minhas palavras, porventura já sabia o que falava ou até mesmo tinha Jordão em casa. Fechou-me a porta com violência e trancou-a por dentro. Desci as escadas do casario e sai pela porta de ferro, certamente com um amargo sorriso nos lábios e os olhos carregados. Fizera o que me corria na alma, e não me importava se Agostinha mentisse a Clara, pois logo estaria com ela para lhe falar. Então, logo nessa noite voltei ao casario de Agostinha. Clara já conhecia de seu pai, sua madrinha lhe tinha contado a verdade. Nessa noite choramos os dois. Dois dias depois levamos Ferdinando a enterrar. O campanário tocou as mais tristes badaladas, o toque de um choro fúnebre, para o anúncio do descer à terra de um homem bom, Ferdinando Jangão. Abrão tratou de tudo, pois não tinha ninguém além da filha. Poucos estiveram presentes no funeral, ninguém queria saber de um bêbado que fazia foices e enxadas. Além de nós, apenas uma família vizinha. Para minha revolta interior, mas em parte esperado, a ilustre senhora dona Agostinha esteve presente no funeral, vestida de negro e carregada de ouro como habitual. Era essencial, alguém como ela nunca faltar a uma importante cerimónia religiosa, mesmo MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


que outros não se dessem a esse seu hipócrita trabalho. E naturalmente, Clara não a acompanhou, ficou no seu quarto a chorar a morte o pai, enquanto a orgulhosa madrinha entrava e saia do cemitério sem dizer uma só palavra. Ferdinando Jangão tinha morrido, tão injustamente meu Deus. Jordão feitor, esse desgraçado, desapareceu por uns dias, mas a Guarda Nacional foi encontra-lo no Faial. Meteram-no seis meses na cadeia debaixo do Tribunal de São Vicente, depois mandaram-no para Lisboa e nunca mais apareceu. Foi o descanso de muitos, especialmente os agricultores meeiros. Já a senhora Agostinha continuou a ser a senhora dona Agostinha, ninguém a perturbou depois da prisão do esposo, continuou orgulhosa como se nada tivesse acontecido, nem por um dia foi tocada pela desonra. Meu tio Abrão procurou esconder, mas estou certo que guardou remorsos, mais que o simples amargo da morte. Creio que por isso mesmo, Abrão disse-me ao terceiro dia depois do funeral de Ferdinando, que eu fosse plantar rebentos de buxos em redor da sepultura, e que logo iria ter comigo. Abrão não tardou a chegar, e não vinha sozinho, estava acompanhado de Clara. Conseguira dissuadir Agostinha para Clara visitar o pai. Por momentos alegreime num salto, levantando-me da terra, mas logo esmoreci ao reparar em Clara. Ela caminha devagarinho com Abrão ao seu lado, deteve-se a poucos passos de mim e da sepultura. Estava nervosa, tremia e respirava com aquela ânsia de quando vemos um entre querido a descer à sepultura. Não chorou, mas vi um rosto com a mais triste das expressões. Caminhei para e ela e peguei-lhe a mão. Levei-a em silêncio até a pai. Pouco me olhou, demorou-se a contemplar onde repousava Ferdinando, depositou as flores que trazia e não nada disse por longo tempo. - Quero fugir disto tudo. Aqui só há inferno. Leva-me contigo Álvaro. - Disse-me Clara com tristeza, com uma dor que esbatia a sua revolta. Eu não soube o que dizer, estava triste e ainda mais triste por ela. - Minha querida. Tua madrinha também gosta de ti. Já é idosa, não lhe restará muito mais tempo. E vocês são ainda novos. - Dissuadiu Abrão docilmente, um pouco aos modos de um padre diferente de si. Mas Clara não se conformava, estava cansada, queria sair dali. Estimava um pouco a sua madrinha, que lhe tinha dado tudo mas também lhe tinha tirado mais que tudo.

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Pediu-me ajuda para tentar convencer Abrão, mas eu mesmo concordava com ele, e a morte de Ferdinando podia ser ela própria um sinal. Clara não se demovia, segurava a mão de Abrão e rogava-lhe, mas ele não gostava de ser forçado a contrariar o que acreditava. Estava tão certo quanto errado aquilo que Clara lhe pedia. Abrão levou Clara de volta. Ela debateu-se, mas aceitou, acompanhou-o como uma rapariga obediente, apesar de naquele dia transmitir que não era apenas uma menina de sala, uma bonequinha de decoração. Clara ficou profundamente magoada com Abrão, mas creio que nunca deixou de o ver com amigo. Agostinha continuou entre a ignorância das minhas visitas, que se repetiram nos dias seguintes, ou, por alguma sombria razão, fingia conhecer a nossa crescente relação. Nas noites que se seguiram e entre as minhas visitas, Clara se ia conformando a cada alvorada, aceitando o seu presente, quase me recordando minha mãe. Eu visitava-a sempre que a sorte me permitia, contornando o olhar dos vizinhos que me podiam encontrar e denunciar. Por vezes levava-lhe algumas flores que encontrava entre as laranjeiras, mas sempre as tinha de trazer comigo, pois Agostinha não seria ingénua se encontrasse as flores. Chegava o ano de sessenta e cinco, e eu continuava a visitar Clara como sempre fazia, até encontrar a sua janela fechada. Voltei no dia seguinte e no dia a seguir a esse, e a janela voltou a estar fechada. A luz estava acesa mas cedo se apagava, como se Clara lá não estivesse. E foi-me crescendo um sufoco de alma, como me sentindo a cair desamparado num chão sem fundo. Meu tio Abrão deu-me a notícia ao sétimo dia depois de visitar Agostinha. - Clara tem deixado de comer, está doente. Creio que terá apanhado tuberculose - Diziame Abrão, com um pesar não diferente da tristeza da morte. Corri para a porta, Abrão, com calma me repreendeu. - Dona Agostinha não há de permitir que a vejas. Ela própria me avisou, que a terias de a matar. A Clarinha ficará pior se alguma desgraça se passar, por mais pequena que seja. Fica Álvaro, não é sensato. Eu não tencionava obedecer-lhe, ansiava ver Clara, mas respeitava Abrão e por isso esperei.

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No dia seguinte não me pude conter. Comi com meu tio pela manhã e ignorando sua voz de ordem, saí de casa a correr. Corri por Clara, corri pela minha vida. Sabia que Abrão me seguia, não me importei, empurrei o portão de ferro, subi a escadaria e bati na porta com o punho fechado. Abrão alcançava-me e gritava por mim. Voltei a bater na porta. E mais uma vez bati, já meu tio estava a meu lado, no exato instante em que a fechadura gemeu. Agostinha abria-nos a porta envolta numa manta e com um lenço a amparar-lhe a tosse. Olhou-me com toda a agre estima que me tinha e fitou Abrão com desagradada surpresa. Não disse nada por momentos, apenas nos mirou orgulhosamente, e tossiu para o lenço uma vez. Perguntei-lhe por Clara sem qualquer cortesia. Ela hesitou, sentiu-se ainda mais desafiada, apontou-me o dedo à cara e amaldiçoou-me - Que Nosso Senhor me leve, mas tu não hás de ter minha Clara! Amaldiçoou-te até a agonia da morte, que o diabo te coma pelas tripas! Enlouqueci. Abrão agarrou-me com firmeza, puxando-me para trás. Não sei se disse alguma coisa, se berrei, se amaldiçoei, apenas recordo Abrão a segurarme e dizer com desilusão para aquela mulher - Em boa hora também sua alma será pesada. Agostinha bateu com a porta e Abrão arrastou-me dali. A raiva saia-me num pranto pelos olhos. Caminhei apressadamente sem saber para onde ia, com Abrão a acompanhar-me e falar-me palavras que não recordo. Minha cabeça transbordava de delírios e possibilidades absurdas, do que se passara e do que havia se passar. Sem saber como e porquê, vi-me de súbito a empurrar meu tio a uma parede. Pergunteilhe o que ele sabia e roguei-lhe com lágrimas no rosto que não me mentisse. Abrão, por outro lado estava calmo, plenamente sereno, ainda hoje revejo a sua expressão tranquila e triste ao dizer-me o inevitável. - Clara está mal. Agostinha mandou que a levassem de barco para Funchal. Mas não sei para onde foi. Não pensei mais, quase voando corri dali. Corri em direção ao mar, mal olhava por onde passava, meus olhos prendiam-se no horizonte do mar, em busca de um ponto que se afastasse, um barco.

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Com a boca seca como areia e os pés em fogo ardente, cheguei ao calhau vazio e deserto. Não havia ali barco nenhum, nem nenhum que ao longe se visse. Ali estava apenas um homem a recolher areia junto da rebentação, um senhor conhecido por Olhinho-doce. Corri para ele e perguntei-lhe por um barco. Ele respondeu-me um tanto assustado com a minha ânsia, disse-me que nessa manhã ali embarcou uma doem-te num barco de cabotagem que levava comeres para o Funchal. Agradeci-lhe e corri de volta para casa de Abrão, não faltaria muito até que o barco chegasse à cidade e eu sabia bem o que fazer. Sem hesitação ou receios pedi a Abrão que me levasse, que fossemos no seu jipe para o outro lado da ilha. Procurei convence-lo o mais que pude, com estima que Clara lhe tinha e a amizade de Jangão. E Abrão, como se esquecesse de ser o que era, apenas pensou por uns instantes e pousou o seu missal. Naquela tarde não ia ministrar uma missa, havia de fazer o que me ensinou, fazer o certo por certo ser. Meu tio conduziu o mais rápido que o velho jipe lhe permitia, como que correndo a impedir um medo seu, que Clara pudesse nunca chegar ao Funchal e partir para outro lugar, como respondeu quando eu lhe perguntei porque me ajudava e abandonava a suas obrigações. Levamos várias horas, e Abrão impediu que nos matássemos pelos abismos da estrada. Era quase noite quando chegamos ao porto do Funchal, sujos e exaustos. Olhamos a baía nervosos e ansiosos, apenas víamos lanchas de pescadores e bomboteiros, o navio Santa Maria e um outro que desconhecia, mas nenhum barco de cabotagem ou outro que pudesse ter chegado da costa norte. Eu e Abrão de nada sabíamos, por isso a todos perguntávamos por quem quer que chegasse ou por quem pudesse vir a chegar, mas ninguém nos soube dizer sobre uma doente. Falei com bomboteiros, pescadores, carregadores do porto, rapazes da megulhança e até qualquer um que me aparecesse pela frente, na ânsia que alguém me dissesse o que esperava. Ficava cada vez mais inquieto. Abrão disse-me que fossemos até ao hospital e ao Sanatório do Monte, perguntar por Clara ou qualquer nova doente. Mas lá chegando não nos sabiam dizer nada sobre uma Clara. E era então de noite.

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Passamos a noite na casa de meus pais, que a chaves deixaram comigo, e eu, tal como minha mãe, deixe-me ficar largas horas à janela, olhando o mar com semelhante sentimento, esperando o que não sabia se vinha, rogado a todo o deus que me trouxesse Clara, me devolvesse a vida que me parecia acabar. Quando o dia nasceu fizemos o mesmo que no dia anterior, procuramos, perguntamos e apenas isso. Abrão parecia o mais triste de nós dois, porque eu, de tanta minha tristeza sentir, parecia que já nada conseguia sentir, como se dentro de mim apenas houvessem tripas e um corpo, um corpo sem alma. O único sentimento que tinha em mim era a saudade de minha mãe, sentia-me próximo dela apesar de longe, pois certamente experimentava a mesma dor, uma igual morte de alma. Procuramos por três dias, sendo o terceiro uma busca até a Vila de Machico, mas igual continuamos, com fome, exaustos e desiludidos, sem nada encontrar. E entre o nosso vazio do fracasso, e o escândalo do desaparecimento do padre Abrão, apenas nos quedava uma coisa, voltar. Regressar a São Vicente, voltar a abrir o portão de ferro, tornar a subir as escadas de pedra, bater na porta e reencontrar Agostinha. Sonhei que encontraria Clara a abrir-me a porta. Mas apenas sonhei. Meu tio Abrão celebrou uma eucaristia ainda antes de eu visitar Agostinha, para precaver os murmurinhos zelosos dos bons costumes. Justificou a sua ausência com a doença de um ente querido, que subitamente adoecera e fora forçado a visitar. Em verdade não mentira. A senhora dona Agostinha, pela primeira vez em sempre, não ocupara o seu lugar naquele banco junto do altar, pela primeira vez havia perdido uma missa. Abrão soube logo o que se passava, ou simplesmente lhe disseram, e insistiu que ele mesmo iria comigo visitar Agostinha. - Chegou a hora de Agostinha começar a pensar em prestar contas. - Dizia-me Abrão com sisudez, enquanto subia-mos as escadas da casa de Agostinha, logo depois da missa. - Está acamada, doente? Gente reles morre sempre depois dos outros. - Resmungava eu, com rancor nas palavras adivinhando sem o querer, pois nada a impedia de ir à igreja. Abrão assentiu.

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- Havemos de ver que nos diz ela sobre Clara - Disse-me ele batendo na porta, e eu logo me inquietei, pensando que Agostinha nem morta contar-nos-ia o que guardava. - Deus queira que nos fale, tio Abrão. Depois que morra. - Disse eu. Abrão reprendeume com o olhar. Uma mulher nos abriu a porta, uma criada de Agostinha. Abrão apresentou-se, disse que queria ver Agostinha e de mim nada disse. A criada levou-nos pelo frio corredor, de madeiras envernizadas e tetos de estuque. Abrão entrou no escuro quarto e eu esperei junto da porta, discretamente olhando para aquela mulher acamada, de pele inchada com bexigas e com um respirar tuberculoso. Do quarto vinha um fedor estranho, um cheiro mórbido, o aroma da morte lenta. Não entendia porquê, mas pareceu-me agradável. Abrão demorava-se aos pés da cama, olhando em silêncio para Agostinha, e a criada tocou-me nas costas para que entrasse no quarto. Eu entrei com naturalidade até perto da cabeceira da cama, olhando para aquela que me olhava sempre de cima, e que ali me olhava de baixo. Sorri. Vendo-me ali junto dela, dona Agostinha contorceu-se no leito e olhou-me como sempre, mas naquele dia pouco mais podia do que isso. Já era velha e a doença a transformava num corpo inchado e miserável, que ia perdendo as capacidades que faziam dela gente. Ela não tirava os olhos de mim e não falava para nenhum de nós. Eu observei a sua expressão e inércia com serenidade, contemplei o Cristo Cruxificado na parede sobre a cama, olhei o Santo Rosário que Agostinha segurava entre as mãos e sobre o peito. Devo ter sorrido com aquelas imagens. - A Dona Agostinha sente-se bem para me dizer onde Clara está? Ela está bem, minha senhora? - Perguntei-lhe eu com frívola seriedade e provocadora educação. Ouvi Abrão pedir que a criada saísse e avançou até a outro lado da cama. Agostinha mostrou-se desagradada, libertou um ronco na voz, como se apenas isso conseguisse dizer. Tossiu como se lhe saltasse alguma coisa dentro de si, não soltou os olhos de mim e respirou profundamente para me falar. - Clarinha está longe! - Disse numa baixa rouquidão, num derradeiro esforço, esgazeando os olhos. Eu assenti, era o que esperava e agradeci-lhe com um obrigado. E ela, como se eu já não lhe interessasse, voltou a cabeça para o outro lado e olhou para Abrão, MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


levantou a mão com o Santo Rosário em direção a meu tio e sussurrou-lhe palavras que não entendi, com a voz da morte próxima. Meu tio segurou a mão de Agostinha com o Santo Rosário, hesitou por instantes e colocou a mão da mulher sobre o peito, onde antes repousava com uma aparência de santidade. - Apenas Deus pode salva-la do que me pede. Fique em paz, não há mais nada que posso eu fazer aqui - Disse Abrão com pesar. Olhou para mim e fez-me sinal que saíssemos. Agostinha gemeu com agonia e com lágrimas prestes a correr-lhe. E saímos num silêncio fúnebre. Nem mesmo na visita da morte que se aproximava, aquela mulher havia de me contar sobre Clara. Isso há muito que o sabia, mas acreditava que havia de reencontrar Clara, em breve pensava eu. Nos dias que se seguiram continuei a procurar saber de Clara, falava com toda a gente que chegava à vila vindo de onde quer que fosse. Conversei de novo com o senhor que encontrara no calhau, mas de pouco me serviu. Por vezes pensava onde Clara podia estar ou se ela havia fugido. Os meus dias se passavam então assim, mas os dias de Agostinha eram ainda mais angustiantes. À noite ela não dormia, sentia mais dores do que de dia, berrava de sofrimento como se a torturassem, praguejava e amaldiçoava. Parecia morrer de dentro para fora, destruindo-se a alma e apodrecendo-se a carne. Apenas com o clarear da madrugada ela se serenava. Por fim chamaram Abrão para que lhe ungisse a frente com óleo consagrado, e então morreu. - Como ela desejou que tu morresses, morreu ela pior. - Dizia-me Abrão depois de lhe conceder a Extrema-unção. Morreu pela praga que me rogou, e morreu também o que eu já não tinha esperanças saber. Abrão presidiu ao seu funeral e fui também. Não sei porque o fiz, mas não me arrependi, poucos prestaram homenagem a Ferdinando Jangão, mas no dia em que a senhora Agostinha desceu à terra, choveu fortemente e ninguém esteve lá, apenas eu, Abrão e dois coveiros de má vontade.

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Senhora dona Agostinha desceu os seus últimos palmos de terra e levou consigo o segredo de Clara, filha de Ferdinando e Maria, que tomou como sua e de mais ninguém. Esperei por uma carta, por uma notícia e até por uma mentira que me desse coragem de esperar. Não sabia de Clara, onde estava, como estava, se longe se perto, se viva se morta. Sua madrinha havia perpetuado a sua demanda, fizera Clara desaparecer por um qualquer buraco, escondida na clausura de um qualquer lugar, enviada para onde ninguém a não descobriria, nem que eu revolvesse toda a ilha. Gente reles sabe como alimentar rios de mágoa, mesmo depois da morte. Agostinha tinha feito um bom trabalho, pensava eu todas a manhãs, quando despertava e entendia que não fora um sonho mórbido. Esperei por uma só palavra. Inquietava-me sempre que Abrão falava para mim, sentindo que uma das suas palavras falassem sobre Clara, mas Abrão apenas me podia oferecer falas de consolo. A cada dia que terminava, em mim crescia a aceitação da minha morte e da morte de Clara. Ela quiçá tivesse morrido do mal que padeceu e fora sepultada num qualquer pedaço de chão. Mas entre tantas sepulturas que visitei, em nenhuma descobri o nome de uma jovem Clara. Não sabia mais o que fazer. Meu bom Abrão falava-me que deveria seguir um novo caminho, caminhar para diante, para uma nova vida a construir, procurar por alguém que me fizesse renascer a alma, talvez casar e emigrar, enquanto não chegavam os dias de serviço militar. Não sei se por esses dias consegui seguir os conselhos de Abrão, mas nesse ano conheci a minha boa amiga Ana Luísa, e tomei uma decisão que pouco me importava se me tirasse a vida. Estava por dias a chegada do ano de sessenta e seis, e eu logo faria vinte e um anos, idade de fardar e embarcar para longe. Foi exatamente isso que decidi, não havia de embarcar para as terras que se emigrava e nunca mais se voltava, havia sim de partir para África, não iria fugir como muitos. Sabia bem o porquê de rapazes da minha idade pegarem numa mala, abraçarem as mães e meterem-se no navio Santa Maria nas vésperas de partirem para África. Conhecia bem porque seguiam para as Américas e não para as Áfricas, entendia como esses muitos sabiam, que se não se morresse no Ultramar, regressaria morto na mesma, como todos voltavam, como meus irmãos e todos os rapazes, mortos por dentro. Mas isso já eu estava, morto por dentro, e por isso fui. MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


Abrão não me deteve, não me pôs na mão dinheiro para fugir no navio Santa Maria para a Venezuela, apenas me abraçou. Abraçou-me depois dos meses da instrução e da chegada da ordem de mobilização. Integrei uma Companhia de Caçadores em sessenta e seis, formei em parada no quartel e com a Companhia desci para ao Funchal. Com os meus companheiros caminhei pela calçada do cais, de mala às costas e de sacola no ombro, seguindo triste como todos para o Niassa que nos levaria para Angola. Creio que chorei, mas não por mim, correram-me lágrimas ao ver aquele mar de gente, os que ficavam, que acenavam e choravam, famílias, mães e pais que viviam na angústia de esperar os filhos voltar. O Niassa recolheu as escadas e os cabos, a sirene apitou entre os últimos acenos, e escutava-se a marcha “Angola é Nossa”. Assim partimos, assim deixei aquele pedaço de terra para trás, a terra que guardava toda a minha vida e ali a deixava esbaterse do horizonte, levado pelo mar que foi como o sangue de minha vida. Assim deixei minha casa, minha cidade, minha ilha, e parti para aquela miséria de Angola. Angola, miséria de terra que dizia-mos nossa. Que há a recordar? Creio que dois anos e meio em que me senti meio-morto e meio-vivo. Dois anos de comissão, dois anos de martírio, ver uns quantos amigos tombar, disparar uma G3 contra o mato sobre um inimigo que apenas vi morto, levar dois tiros num braço, ficar dias deitado no matagal e voltar a crer em Deus. Dois anos de comissão, dois anos de martírio. E chegou a minha vez de regressar, deixar para trás aqueles dois anos de merda de vida. Talvez uma palavra forte e rude para aqui estar, mas talvez a mais certa para abarcar tudo o que foi. É verdade que não vivi os anos mais amargos e ferozes para a nossa mocidade, pois esses foram os anos seguintes, os anos de inferno para aqueles que embarcaram para África depois de setenta. Tantos mortos, meu Deus. Mas para mim foram dois anos exatamente assim, anos de merda, dois anos em que não existi. Quando regressei, retornei sem vida. Apenas regressava com uma coisa, com mais medo do que quando parti. Medo porque saía de um inferno que nunca se despegou da mim, e eu, tornava a chegar a um purgatório com rosto de inferno, pois, poderá parecer tolo, mas por vezes, o retornar ao passado quando as feridas estão ainda em sangue, parece que nos dá mais medo que da própria morte, a morte que escapei em Angola. Assim regressei à minha ilha, à minha terra e à minha cidade.

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Tornei a ver meu bom Abrão e visitei a sepultura de Ferdinando. Não tive coragem de querer saber de Clara, ela estava morta e eu estava morto também, pois os mortos, não devem regressar. Reencontrei Ana Luísa, que havia conhecido antes de partir, e me fez renascer, viver de novo e com quem casei, e depois, me deu o meu único filho. Caiu o regime e saí à rua com Afonso e com minha mulher pela mão, na manifestação do 1º de Maio de 1974. Tanto havia mudado em tão pouco tempo. Nesse mesmo ano de setenta e quatro, depois de tanto, depois de voltar a começar a viver por minha mulher e por meu filho, deixamos a nossa casa e partimos sem saber se tornaríamos a voltar. Como tantos, com já havia feito, caminhei pelo cais com as malas às costas, mas naquele instante, partia vivo, partia com alma, partia com minha Ana Luísa que já se foi, e com meu filho Afonso, para quem escrevo. Era o meu dia de emigrar, parti novamente pelo mesmo mar que me viu nascer, que me levou muito do que amava, e que por fim, como minha mulher e com meu filho, levoume a partir para o meu futuro. Nunca fui pescador como meu pai ou meus irmãos, mas o mar escreveu-me a vida, oferecendo e pedindo de volta, levando e trazendo, alegrias e tristezas. Por ele, pelo mar parti para uma nova vida com meu tio, pelo mar meus irmão partiram para a guerra, pelo mar meu irmão morreu, pelo mar minha família partiu para o Brasil, e por ele, mar amargo, perdi minha querida Clara. Chegou depois minha vez de partir também, pelo mar, por esse que me deu e tirou, levou-me para longe do que deixei de ser, quando parti para o Ultramar, para Angola. Depois pelo mar voltei, e pelo mar tornei a partir quando emigrei. Na minha juventude, vivi o purgatório e senti um pouco do céu, depois desci ao inferno, desci a Africa. Mas hoje, depois de tanta morte e tanta vida, regressei por fim à minha terra e, creio que sou feliz. Feliz, chego agora ao fim, olho para trás e revejo a minha vida, um mar de saudade, entendo hoje que o mar me escreveu a vida, escreveu-me ele e mais ninguém. E penso, que seria eu sem o meu mar… Álvaro meu pai está doente demais para contar-me o que falta de seu passado, anos depois de eu, seu filho Afonso, ter estado no seu quarto e lhe pedir que escrevesse o que agora termino. As últimas linhas antes destas, eu as escrevi escutando esta história de

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meu pai, que a escapar-lhe a lucidez, insistia em contar-me para que eu escrevesse, Quiseste que contasse, agora escuta-me e escreve! Agora sua história está a terminar. Meu querido pai está na cidade onde nasceu, mas no hospital, deitado numa cama que não é a sua, um leito que para muitos é como um caixão a levar à terra, com um corpo que mal vive, mas com uma eterna alma, uma arca de memórias prestes a esfumar-se. E assim está meu pai. Por estes dias já não se move e mal fala, mas o seu olhar vívido ainda mostra lucidez e reage a quem lhe fala. Sente-se pronto, com sua lucidez e alegria quando a minha família está com ele. Há alguns dias, visitei o meu pai e trouxe comigo tudo o que ele havia escrito. Sentei-o no cadeirão do quarto, para que pudesse ver o mar pela janela, e eu, sentei-me ao seu lado e comecei a ler. Li, e calmamente li até escurecer. Meu pai ainda conseguia sorrir e os seus olhos húmidos falavam o que faltava. E hoje, meu pai morreu. Nada vale o tormento falar mais sobre isso, morreu, partiu esta manhã. O que falta dizer é apenas isto. O findo desta carta de meu pai, seu pedaço de memória, sombra de um tempo seu, e acima de tudo, sua saudade de si, pois ela apenas a si pertence. Seu memorial. Antes de partir, meu pai já havia partido de outra forma, deitado era apenas e simplesmente um corpo que respirava, suspenso numa torpe forma de vida. Eu não queria que se despegasse do viver entre a solidão, procurei sempre estar com ele mesmo que já não me sentisse, permanecendo ao seu lado o mais que podia, pois eu fui o único filho que minha mãe lhe conseguiu oferecer. Sempre que percorria o corredor do hospital, ia olhando outros como ele, meios vivos e meios mortos, desligados da vida, e uns poucos ainda lúcidos, como uma senhora de olhos claros, que sentada numa cadeira de rodas me ia observando. Esta senhora, eu desconhecia mas ela conhecia-me a mim. Chamou-me e pediu-me que a levasse a ver o meu pai, disse-me que o conhecia e gostava de o ver, para dele se despedir uma última vez. Assim o fiz. Não era capaz de pensar em nada que não fosse sobre meu pai, e quase sem lhe falar, levei-a ao quarto de meu pai. Como eu, ela esteve silenciosa ao lado da cama, olhando aquele rosto meio preso ao cordel da vida, de meu pai ali deitado. Não sei quanto tempo estive junto de meu pai com a companhia daquela senhora, quiçá a brevidade eterna de quem espera o beijo da morte. E aquela senhora, sorrindo segurou a mão de meu pai, como se despedindo até que ela fosse também. MADEIRA FILM FESTIVAL - www.madeirafilmfestival.com


Saímos do quarto tal como entramos, perdidos no nosso próprio silêncio. Levai-a sem presa alguma para seu quarto, não me atrevi a falar-lhe, desconhecia o que podia correrlhe na alma. Mas não desejava ser desagradável, por isso, com simpatia perguntei seu nome. Mas não me respondeu, guardou-se no silêncio, e não ousei dizer mais nada. - Ainda bem que você está com seu pai para despedir-se dele. - Falou-me ela momentos depois, muito baixinho com emoção, mas sem me responder. Deixou-me a pensar, e perguntei-lhe porque mo dizia. - Porque eu não o fiz quando foi tempo - Respondeu-me quase que a libertar um choro. Eu não fui capaz de lhe dizer o que fosse, não tive coragem de me intrometer nas suas memórias. E assim cheguei ao seu quarto, levando-a até junto da janela, de onde se via o mar. Fiz-lhe companhia por uns instantes e olhámos o mar resplandecente de luz. No meu íntimo fi-lo em memória de meu pai. Por longo tempo nos demoramos em silêncio, depois, sorri-lhe e caminhei para a porta. Pouco depois, ainda antes de eu sair, ela falou-me emocionada: - Sou Clara.

● A presente narrativa, apesar de referir locais e acontecimentos reais, relata de uma estória fictícia, não representado relatos ou personagens reais, sendo que, qualquer semelhança com indivíduos vivos ou mortos trata-se de uma coincidência. ● Foram apresentadas em itálico as palavras próprias do calão e regionalismos madeirenses.

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Autoria de: Eusébio Eduardo Teixeira Catanho Escola Superior Tecnologia e Gestão de Portalegre / Instituto Politécnico de Portalegre Submi...

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