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Universidade Técnica de Lisboa Faculdade de Arquitectura

INFRA-ESTRUTURAS MULTIFUNCIONAIS DINÂMICAS Reabilitação de infra-estruturas como estratégia de recuperação urbana

Dissertação/Projecto para a obtenção do grau de Mestre em Arquitectura Madalena Catanho de Menezes Moreira Sales madalena.sales@gmail.com MIARQ 5º C # 6237 Orientadores Científicos: Professor Doutor Arquitecto Nuno Mateus Professora Doutora Arquitecta Cristina Cavaco Júri: Presidente: Doutora Maria Madalena Aguiar da Cunha Matos Vogais: Doutor Diogo Maria de Seabra Pereira Burnay Doutor Nuno Miguel Feio Ribeiro Mateus Doutora Cristina Soares Ribeiro Gomes Cavaco

Documento Final Lisboa, FAUTL, Dezembro, 2010


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA – FACULDADE DE ARQUITECTURA Título da Dissertação: Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Nome do Aluno: Madalena Catanho de Menezes Moreira Sales Orientadores: Professor Especialista Arquitecto Nuno Mateus Professora Doutora Arquitecta Cristina Cavaco Mestrado: Mestrado Integrado em Arquitectura Data: Setembro de 2010 Resumo Com base na pesquisa realizada, analisa-se o estatuto das infra-estruturas de mobilidade nas cidades tal como alguns fenómenos causadores do mesmo. De seguida, propõe-se uma reflexão crítica que permita considerar as infra-estruturas urbanas como elementos activos na vida das cidades, invertendo o pensamento que defendeu estes organismos como responsáveis pela degradação do tecido urbano. A exploração do tema baseia-se na análise de dois casos de estudo que possibilitaram esta investigação, servindo de inspiração para desenvolver o projecto prático proposto. Tais são o parque público High Line em Nova Iorque e a antiga fábrica automóvel da Fiat Lingotto em Turim. A infra-estrutura escolhida para caso prático de estudo foi o Túnel do Rego em Lisboa por reunir as problemáticas em estudo nesta investigação. Assim, a aplicação prática do tema desenvolve-se pelo projecto proposto; que constitui uma intervenção na infraestrutura anteriormente referida, no intuito de reabilitar uma pré-existência actualmente obsoleta, melhorando a qualidade de vida oferecida pelo Bairro do Rêgo. Palavras chave: infra-estruturas urbanas, reabilitação urbana, usos temporários, túnel do

rego,

rígido,

estático,

monofuncional,

adaptabilidade, permeabilidade, especificidade.

i  

flexível,

dinâmico,

multifuncional,


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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA – FACULDADE DE ARQUITECTURA

Multifunctional Dynamic Infrastructure

Abstract

Based on the survey, analyzes the state of mobility infrastructures in cities such as some phenomena causing the same. Next, its proposed a critical reflection to suggest urban infrastructures as active elements in the life of cities, reversing the thought that advocated these bodies as responsible for the degradation of the urban fabric. The exploration of the theme is made by analysis of two case studies that served as support for research and inspiration for developing practical project proposed. These are the High Line public park in New York and the old Fiat Lingotto car factory in Turin. The infrastructure chosen for practical case study was Túnel do Rego in Lisbon which gathers the problems studied in this investigation. Thus, the practical application of the theme is developed by the proposed project, which constitutes an intervention in the infrastructure mentioned above, in order to rehabilitate a pre-existence now obsolete, improving the quality of life offered by the district of Rêgo.

Key-words: urban infrastructures, temporary uses, static, monofunctional, dynamic, multipurpose/multifunctional

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Agradecimentos

Gostaria de agradecer a todos os que, de alguma forma, tornaram possível a realização deste estudo. - Às instituições e técnicos que me receberam e apoiaram na elaboração deste trabalho, designadamente: CML (Eng.ª Assunção Alves); COLÉGIO MODERNO (Educadora Maria João Menezes e Educadora Beatriz Magalhães); - À Arq.ª Patrícia Simões Aelbrecht e à Professora Maria Alice Moreira Sales pela disponibilidade e dedicação; - Ao orientador pela inspiração, dedicação e espírito crítico; - À minha colega Joana Grilo pela amizade, companhia e sinceridade constantes; - Ao meu primo João pela ajuda tecnológica incondicional; - Aos meus pais e avós por me terem dado a possibilidade de seguir a carreira que escolhi e por todo o apoio e ensinamentos que me deram; - Ao meu irmão, e outros familiares, que de uma maneira ou de outra demonstraram sempre todo o apoio de que necessitei; - Ao Hugo, por tornar esta passagem da minha vida na mais agradável, risonha e divertida; - A todos os que, por lapso, não foram mencionados e que me ajudaram a ser como sou.

Madalena Catanho de Menezes Moreira Sales Mestrado Integrado em Arquitectura Ano 2009/2010

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Índice Geral Introdução

p.1

Palavras-chave

p.4

Capítulo I. O tema

p .6

Parte 1. Identificação do problema

p.6

Infra-estruturas. Presença e relações urbanas

p.6

Processo de desmodernização.Contexto

p.8

Primazia dos automóveis

p.10

Balizas urbanas?

p.14

Problemas gerados pelas infra-estruturas urbanas

p.16

Fronteiras transitáveis/habitadas?

p.17

Revitalizar comunidades

p.18

Parte 2. Reflexão crítica

p.21

Infra-estruturas paisagem

p.21

Pioneiros urbanos

p.22

Do estático ao dinâmico

p.23

Capítulo II. Exploração do tema

p.25

Parte 1. Identificação e Análise de casos de estudo

p.25

High Line, NY

p.25

Fiat Lingotto, Turim

p.29

Parte 2. Caso prático de estudo

p.34

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Túnel do Rego

p.34

Capítulo III. Aplicação do tema

p.40

A Intervenção/projecto proposto

p.40

Conclusão

p.48

Bibliografia

p.49

Anexos

p.51

Índice de imagens Figura 1 - Desenho de um cruzamento infinito de infra-estruturas de mobilidade.

p.2

Figura 2 - Auto-estrada nos EUA.

p.7

Figura 3 - “Nó” de viadutos.

p.8

Figura 4 - Vista da Avenida da República em Lisboa.

p.12

Figuras 5 e 6 - Trânsito em São Paulo, Brasil.

p.15

Figura 7 - VIA, Em2n.ch

p.18

Figuras 8 e 9 - Feira de rua em Berlim. Bancas de comércio por baixo de um viaduto no Rio de Janeiro.

p.22

Figuras 10 e 11 - Vista aérea do parque. Pormenor de um troço do High Line.

p.25

Figuras 12 e 13 - Sistema modular de pavimento. Relação pavimento/vegetação. p.26 Figuras 14 e 15 - Perfis pré-existentes em aço. Aula de Ioga no High Line.

p.27

Figura 16 - Diagramas do projecto do parque público High Line em Nova Iorque. p.28 Figuras 17 e 18 - Fachada do edifício Lingotto. Vista aérea do edifício Lingotto. p.29 Figuras 19 e 20- Vista interior do edifício Lingotto. Estrutura em betão aparente. p.31

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Figuras 21, 22, 23 e 24 –Docks de Paris. A8Erna. Toni-areal. VIA.

p.32

Figuras 25, 26 e 27 - Viaduto em São Cristóvão, Rio de Janeiro. Viaduto IC17 em Algés, Lisboa. Viaduto da Avenida Perimetral, Rio de Janeiro.

p.33

Figura 28 - Vista aérea do Túnel do Rego.

p.34

Figuras 29 e 30- Interdição a peões na entrada Sul do túnel. Terrenos baldios a Norte do túnel.

p.35

Figura 31 - Passagem pedonal aérea no Rego.

p.36

Figuras 32 e 33 - Imagem conceptual de uma corda semi-cortada. Ilustração do livro Le Petit Prince, de Antoine de Saint Éxupery.

p.40

Figuras 34 e 35 - Diagrama do processo construtivo de uma estaca. Cortina de Estacas.

p.41

Figuras 36 e 37 - Diagrama conceptual do sistema construtivo do túnel. Imagem conceptual das estacas.

p.43

Figuras 38 e 39 - Estacas recuperadas do Castelo de Ljubljana.

p.43

Figuras 40 e 41 - Imagem conceptual da fachada. Imagem conceptual de um vão com varanda.

p.44

Figuras 42 e 43 - Diagrama de usos actual. Diagrama de usos proposto.

p.45

Figuras 44 e 45 - Café/Oficina de bicicletas Rapha, em Londres. Escada na Art Gallery de Ontário.

p.46

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Introdução As infra-estruturas de mobilidade que invadem as cidades contemporâneas são organismos complexos pelas características que as definem, articulam movimentos rápidos com paragens e atravessam lugares de estadia de forma incontornável. Houve a tendência para as considerar limites rígidos da vida urbana, como há a percepção geral de que a pele não é um órgão do corpo mas apenas um contentor das partes internas.

1

Em simultâneo observou-se o desligamento e ruptura

provocados por infra-estruturas urbanas. No entanto estes elementos começam a ganhar visibilidade, por parte dos urbanistas e pensadores da actualidade, e a assumir um novo protagonismo no tecido urbano. 2 A relação entre natureza e artifício, paisagem e arquitectura bem como as noções de ordem e desordem têm significado diferente do que tinham num passado recente.3 No artigo Infrascapes Gabriel Duarte defende a ideia de que se as infra-estruturas forem entendidas de outra forma será possível tirar partido das suas características específicas a favor da vida nas cidades:

“(…) Indeed, mobility networks are, just like this same skin tissue, fibrous and porous; (…) The connections between the pores and fibers of the city create a series of interstitial conditions and collisions among different urban living scales, which open ‘other’ dimensions to urban life1, outside the virtually stable and constant to-and-for movement of metropolitan information, goods and people.(…) “ A motivação para compreender fenómenos como os acima referidos, reside na observação de diversos ambientes. Nessa convivência observou-se a relação simbiótica mas nem sempre harmoniosa entre as cidades e as suas infra-estruturas.4 Ao tomar conhecimento da problemática em causa, surge o interesse no estudo das oportunidades de resposta à mesma. A ideia foi estudar as possibilidades de                                                                                                                       1

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

2

LOTUS,  139-­‐  Landscape  Infrastructures,  ed.  Lotus,  2008.  

3

MANGIN,  David-­‐  La  Ville  Franchisé,  Routledge,  ed.  Taylor,  2001,  Londres.  

4

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 adaptação de infra-estruturas monofuncionais rígidas no intuito de as associar a novos e diferentes usos, para atender às necessidades de um maior número de pessoas. 5 Assim, o tema propõe o repensar da utilidade e integração destas infra-estruturas na vida das cidades colocando três questões: 1º- Que potencialidades urbanas oferecem os elementos infra-estruturais? 2º- De que forma a sua reestruturação pode funcionar como vantajosa para as vivências citadinas? 3º- Como revitalizar estas infra-estruturas e que tipos de usos podem albergar?

Figura 1. Desenho de um cruzamento infinito de infra-estruturas de mobilidade

O Túnel do Rego, em Lisboa, funciona como um bom exemplo para a investigação por sofrer das mesmas limitações. Ou seja, foi concebido para responder exclusivamente às necessidades do tráfego automóvel, fechando-se dentro de si e “virando costas” às necessidades de quem habita ou frequenta o bairro; está localizado numa zona

                                                                                                                      5

Tal  como  foi  feito  no  exemplo  do  Edifício  Lingotto  em  Turim  ou  no  Parque  Público  High  Line  em  Nova   Iorque.    

2  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 privilegiada da cidade e onde diariamente se cruzam muitas pessoas com rotinas variadas. Segue-se uma análise da presença e influência das redes de infra-estruturas na vida cosmopolita, repensando-se a sua concepção para novos usos e utilizadores. Inicialmente enquadra-se o tópico de pesquisa no contexto abrangido nos debates contemporâneos sobre reutilização de infra-estruturas abandonadas, problemáticas ou cujo potencial está por explorar. De seguida, propõe-se uma reflexão crítica que permita ampliar o conceito de infra-estrutura, anteriormente estática, para a possibilidade de pensar numa infra-estrutura com carácter mutável e dinâmico. Por fim, são identificados casos de estudo que, estando de acordo com o tema, funcionam como exemplos explicativos e de comprovação do mesmo, servindo de inspiração para este trabalho. No caso específico do túnel do Rego, em Lisboa, observa-se uma infra-estrutura que surge, num bairro no centro da cidade cujo principal eixo de comércio e movimento, essencialmente pedonal, está separado por uma via-férrea; com a promessa de resolver o problema criado pela barreira exercida pelos comboios. 6 Devido a questões burocráticas e, apesar de construído, o acesso ao percurso pedonal pelo interior do túnel está, desde a sua inauguração, interdito ao público. Assim os moradores e frequentadores do bairro, maioritariamente idosos, têm a passagem superior cujos elevadores estão quase permanentemente avariados, como única forma de transposição da linha ferroviária. Deste modo, o caso de estudo acima referido, parece adequado para responder às questões colocadas, pois sofre do mesmo tipo de problemáticas: Não se integra na vida daquele pedaço de cidade e desperdiça o seu potencial geográfico, social e económico, desperdiçando consequentemente a oportunidade de se tornar num elemento chave para a resolução de parte dos problemas ou fragilidades urbanas do local.

                                                                                                                      6

 Documentação  do  site  da  Junta  de  Freguesia  de  Nossa  Senhora  de  Fátima  

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Palavras-chave Infra-estrutura s. f. Conjunto dos trabalhos relativos a tudo o que compreende as fundações de um empreendimento, de uma obra, e especialmente de vias-férreas. Base. 7 Rede s.f. Conjunto de linhas de caminhos-de-ferro, telefónicas, telegráficas, de canais, etc. Anat. Entrelaçamento de nervos, fibras, etc. Complicação de coisas. 8 Multi- Elemento de composição que traduz a ideia de muito. 9 Funcional adj., 2gén. Relativo a funções vitais, às funções de um órgão. Doença funcional, aquela que só se manifesta por desarranjo de qualquer função, sem lesão anatómica perceptível. Mat. Diz-se da função cuja variável ou variáveis independentes são, em vez de número ou números definidos num conjunto, uma ou mais funções definidas num conjunto de funções. 10 Dinâmicas s. f.(feminino de dinâmico) Fís. Estudo das forças ou do movimento quantitativo dos corpos. Conjunto de forças que visam o desenvolvimento ou o progresso de algo. Mús. Relação entre os níveis de intensidade dos sons. 11 Regeneração s. f. Acto! ou efeito de regenerar. Restabelecimento do que estava destruído. Fig. Reformação

moral.

Relig. Renascimento

ou

nova

vida

dada

pelo baptismo! ou pela penitência. regenerar v. tr.. Dar nova existência a. Melhorar; restaurar; corrigir; revivificar.v. pron. Formar-se de novo; revivificar-se; emendar-se. 12 Reabilitar (re- + habilitar)v. tr. Restituir direitos e prerrogativas (que se tinham perdido por sentença judicial). Declarar que o sentenciado está inocente. Ajudar à reinserção

                                                                                                                      7

MACHADO,  José  Pedro-­‐  Grande  Dicionário  da  Língua  Portuguesa,  Ediclube,  1990.  

8

MACHADO,  José  Pedro-­‐  Grande  Dicionário  da  Língua  Portuguesa,  Ediclube,  1990.  

9

Dicionário  Priberam  da  Língua  Portuguesa,  http://www.priberam.pt/DLPO/  

10

Dicionário  Priberam  da  Língua  Portuguesa,  http://www.priberam.pt/DLPO/  

11

MACHADO,  José  Pedro-­‐  Grande  Dicionário  da  Língua  Portuguesa,  Ediclube,  1990.  

12

Dicionário  Priberam  da  Língua  Portuguesa,  http://www.priberam.pt/DLPO/  

4  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 social de: Reabilitar um toxicómano. Reparar, renovar (um imóvel, um bairro antigo). Fig. Restituir a estima pública, regenerar moralmente. 13 Estático adj. Da estática ou a ela relativo. Em estado de repouso (em oposição a dinâmico). Fig. Imóvel, sem se mover, parado (como estátua). 14 Urbano adj. Relativo à cidade. Fig. Afável; cortês; civilizado. 15

                                                                                                                      13

Dicionário  Priberam  da  Língua  Portuguesa,  http://www.priberam.pt/DLPO/  

14

Dicionário  Priberam  da  Língua  Portuguesa,  http://www.priberam.pt/DLPO/  

15

Dicionário  Priberam  da  Língua  Portuguesa,  http://www.priberam.pt/DLPO/  

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Capítulo I. O tema Parte 1. Identificação do problema Infra-estruturas. Presença e relações urbanas “(…) How is one to conceive of both the organization of a city and the construction of a collective infrastructure? (…)”16 As infra-estruturas colectivas potenciam, influenciam e condicionam o funcionamento e a organização das cidades. É através das mesmas que são estruturadas as metrópoles contemporâneas.17 As relações que se estabelecem nas cidades entre os seus elementos infraestruturais, como são as ruas, as infra-estruturas telefónicas, as redes de transportes, de água e de energia; são relações não só complexas como também mutáveis. 18 Ora, se as redes de infra-estruturas funcionam como veículos para o constante movimento (de pessoas, mercadorias e informação) que caracteriza as cidades, estes elementos são tão importantes para que uma cidade responda às necessidades dos seus moradores como no nosso corpo são as veias e as artérias que constituem o sistema circulatório. 19 Seguindo o raciocínio metafórico de que uma cidade pode funcionar como um corpo humano vivo, cujos elementos constituintes se coordenam na perfeição possibilitando uma vida saudável ao seu detentor, quais as patologias do seu sistema circulatório? Quais os problemas das infra-estruturas urbanas? Poderá o facto de nas cidades se ter dado prioridade à construção de infra-estruturas de mobilidade, ignorando e afectando a vida dos que lá viviam, ser uma das causas da ineficácia e desertificação de muitos espaços cosmopolitas?                                                                                                                       16

Splintering urbanism, p.1, pp.1, (Michel Foucault, 1984,239)

17

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

18

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

19

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

6  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Portugal é exemplo da problemática acima descrita, de facto foram construídas no nosso país mais estradas do que espaços públicos.20 Efectivamente, no início dos anos sessenta, as infra-estruturas de mobilidade foram consideradas como elementos prejudiciais ao urbanismo que vigorava na altura, tanto academicamente como a nível profissional, por criarem limites indesejáveis no espaço urbano ao funcionar como pontes de ligação entre lugares distantes. Na época, estudiosos como Lynch e Cullen defenderam como sendo o grande problema dos elementos infra-estruturais; túneis, viadutos, pontes, cruzamentos, rotundas entre outros; o seu carácter monodimensional. 21 Surgiu nesse tempo a ideia de que as infra-estruturas colectivas necessitavam de funcionar como integradoras do espaço urbano, apesar das suas características monofuncionais, e de serem vistas como barreiras territoriais. 22

Figura 2. Auto-estrada nos EUA

                                                                                                                      20

DOMINGUES,  Álvaro-­‐  A  Rua  da  Estrada-­‐  Equações  de  Arquitectura,  ed.  Dafne  Editora,  2009,  Porto.  

21

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

22

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

7  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Talvez neste ponto tenha sido cometido um erro ao ignorar-se a possibilidade de se encarar as infra-estruturas colectivas como peças vivas nas cidades e geradoras de novas partes da mesma. 23 A forma, utópica e distanciada da realidade, como foram idealizadas muitas cidades contemporâneas, pode ser um dos focos geradores do mau funcionamento ou degradação das infra-estruturas actuais.24 Processo de desmodernização. Contexto Será que o colapso das infra-estruturas derivou da ideia de uma cidade ser apenas um nó onde se cruzam e confluem inúmeros fluxos e movimentos?

25

Figura 3. “Nó” de viadutos

“(…) The town is the correlate of the road. The town exists only as a function of circulation and of circuits; it is a singular point on the circuits which create it and which it creates. It is defined by entries and exits: something must enter it and exit from it (…)”26

                                                                                                                      23

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

24

JACOBS,  Jane-­‐  Morte  e  Vida  de  Grandes  Cidades,  ed.  Martins  Fontes,  2009,  São.Paulo.  

25

MANGIN,  David-­‐  La  Ville  Franchisé,  Routledge,  ed.  Taylor,  2001,  Londres.  

26

Splintering Urbanism, p.1, pp.2, (Deleuze and Guattari, 1997, 86)  

8  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 A frase acima transcrita espelha o protagonismo atribuído às redes de infra-estruturas de mobilidade no planeamento das cidades. Porém e apesar

de constituírem um

símbolo da modernidade heróica da primeira metade do século vinte, as infraestruturas tornaram-se suportes banais para o processo de ocupação do espaço, produzindo uma expansão urbana que caracterizou mudanças territoriais. 27 Assiste-se ao abandono e à degradação das redes de infra-estruturas habituais. Gradualmente, chega-se ao que se pode considerar como resultado de um processo de “desmodernização” revelado pelos cenários apocalípticos sobre o colapso das infra-estruturas e dos sistemas tecnológicos. 28 Um bom exemplo disso é o processo que acelerou a migração nas cidades do Norte da Rússia; onde os sistemas de aquecimento municipal que tornavam o clima suportável para todos, deixaram de funcionar com regularidade. 29 O exemplo da cidade de São Paulo, na qual a maioria dos cidadãos de classe social elevada se desloca de helicóptero para evitar o trânsito rodoviário e que apresenta uma violência instalada de 8.500 assassinatos por ano, espelha de que forma a degradação das infra-estruturas de mobilidade leva ao aumento das desigualdades e ao caos nas metrópoles. 30 Em muitas cidades em desenvolvimento, tem sido abandonado o ideal de infraestruturas básicas para todos os cidadãos, como o saneamento ou a distribuição de água

potável,

sendo

profundamente dualistas.

em

vez

disso,

implantados

nesses

lugares

sistemas

31

Vejamos o que se passa na Índia; na cidade de Mumbai (Bombaim) por exemplo

32

, só

há canalizações de água para os privilegiados, não tendo os moradores de habitações espontâneas qualquer acesso a essa infra-estrutura. Os preços extremamente                                                                                                                       27

LOTUS,  139-­‐  Landscape  Infrastructures,  ed.  Lotus,  2008.  

28

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

29

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

30

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

31

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

32

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

9  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 elevados da água engarrafada, levada por navios petroleiros e vendida por empresas privadas com grandes margens de lucro apenas estão acessíveis a quem os possa pagar. Assim, a única utilização das canalizações de água para os mais desfavorecidos é servirem como perigoso meio de transporte ao andarem por cima das tubagens. Um pouco por todo o mundo se verificam exemplos que provam que é necessário repensar a forma como as infra-estruturas se posicionam nas cidades e analisar se, de facto, atendem às necessidades dos seus habitantes ou, se desprezam a vida presente nos lugares por onde passam. 33 Primazia dos automóveis O planeamento das cidades seguiu preocupações de eficiência rodoviária mais do que a vontade de resolução de problemas reais, o que continua a ser uma tendência do planeamento actual. 34 Muitos engenheiros de trânsito e urbanistas acreditaram que ao compreender e satisfazer as necessidades dos automóveis estariam a solucionar os problemas das cidades; no entanto isso não acontece, chegando-se por vezes a assistir a um instalado caos urbano gerado pela ineficácia das cidades em encadear os fluxos entre pessoas e veículos. 35 “(…) Cities accumulate and retain wealth, control and power because of what flows through them, rather than what they statically contain (…)”36 É verdade que a circulação tem forte influência na vida das cidades, no entanto não pode ser considerada como única responsável pelos problemas e limitações metropolitanas. Pois se o único foco por parte das entidades responsáveis estiver direccionado para a mobilidade urbana corre-se o risco, enunciado por David Mangin, de se especializarem os fluxos fossilizando-se bairros inteiros. 37                                                                                                                       33

LOTUS,  139-­‐  Landscape  Infrastructures,  ed.  Lotus,  2008.  

34

JACOBS,  Jane-­‐  Morte  e  Vida  de  Grandes  Cidades,  ed.  Martins  Fontes,  2009,  São.Paulo.  

35

JACOBS,  Jane-­‐  Morte  e  Vida  de  Grandes  Cidades,  ed.  Martins  Fontes,  2009,  São.Paulo.  

36

D.  Sibley,  in  Geographies  of  Exclusion,  Splintering  Urbanism  

37

MANGIN,  David-­‐  La  Ville  Franchisé,  Routledge,  ed.  Taylor,  2001,  Londres.  

10  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 De facto, ao longo da história urbana os grupos poderosos têm tentado construir as suas próprias infra-estruturas “fechadas” e restritas a utilizadores privilegiados. A maioria das cidades ocidentais caracteriza-se por redes de infra-estruturas fragmentadas, desiguais e divididas em espaços urbanos, desde antes do surgimento do ideal moderno de infra-estrutura. 38 A riqueza das cidades reside, em parte, no carácter ecléctico possibilitado pelo intercâmbio e fluxo de comunicação constante nas redes de infra-estruturas colectivas. 39

Mas a solução para a forte dependência automóvel cosmopolita passa na promoção de oferta alternativa de transportes públicos, numa localização de serviços de proximidade que os torne acessíveis a pé, na limitação da oferta de estacionamento, bem como nos sistemas de trocas na densidade dos lugares multifuncionais

40

; mais

do que no redesenhar ou reformular destas infra-estruturas. Tal como defendeu Jane Jacobs no seu livro Morte e Vida de Grandes Cidades Americanas, em que propunha um olhar mais atento aos problemas e necessidades locais. 41 “ (…) A maneira de decifrar o que ocorre no comportamento aparentemente misterioso e indomável das cidades, é(…) observar mais de perto as cenas e os acontecimentos mais comuns (…) a necessidade que as cidades têm de uma diversidade de usos mais complexa e densa, que propicie entre eles uma sustentação mútua e constante, tanto económica quanto social. (…) ”42 Verificam-se também situações em que os interesses políticos associados à primazia atribuída aos “carros” surgem em detrimento dos cidadãos que se deslocam a pé ou

                                                                                                                      38

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

39

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

40

MANGIN,  David-­‐  La  Ville  Franchisé,  Routledge,  ed.  Taylor,  2001,  Londres.  

41

JACOBS,  Jane-­‐  Morte  e  Vida  de  Grandes  Cidades,  ed.  Martins  Fontes,  2009,  São.Paulo.  

42

Morte e vida de grandes cidades, p.12 e p.13, pp.2 e 3

11  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 que permanecem nos espaços das cidades e pretendem usufruir do que estes oferecem. 43 Na urgência de construir mais estradas, túneis, viadutos e pontes que possibilitem chegar depressa ao lugar de destino, se possível tão rápido que nem se dê pelo caminho, foram sendo destruídas as paisagens e invadidos os espaços da cidade onde ainda se podia permanecer. A cidade foi sendo “esventrada” por estas tipologias rodoviárias e os espaços que anteriormente serviam para estar, morar ou passear, tornaram-se espaços inóspitos e de passagem, não-lugares, terra de ninguém e para ninguém. 44 “ A passagem da cidade para o urbano arrastou uma metamorfose profunda: de centrípeta a centrífuga; de limitada e contida, passou a coisa desconfinada; de coesa e contínua, passou a difusa e fragmentada; de espaço legível e estruturado, passou a campo de forças organizado por novas mobilidades e espacialidades (...).” 45 Assim, as cidades anteriormente consolidadas vão perdendo coerência e deixam de funcionar como um todo passando a constituir-se por fragmentos marcados por “cicatrizes” obsoletas e que, apesar de permitirem a circulação e a mobilidade, separam em vez de unir. Em Lisboa, a zona de Entrecampos e dos terrenos próximos do bairro do Rego sofreram uma ruptura na continuidade do plano de Ressano Garcia.

Figura 4. Vista da Avenida da República em Lisboa

                                                                                                                      43

DOMINGUES,  Álvaro-­‐  A  Rua  da  Estrada-­‐  Equações  de  Arquitectura,  ed.  Dafne  Editora,  2009,  Porto.  

44

DOMINGUES,  Álvaro-­‐  A  Rua  da  Estrada-­‐  Equações  de  Arquitectura,  ed.  Dafne  Editora,  2009,  Porto.  

45

A Rua da Estrada, p. 13  

12  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Devido à presença da linha férrea que ao longo do tempo se foi consolidando como barreira/fronteira; e ao facto de na Avenida da República não se ter preservado o carácter de “Avenida Boulevard” de encontros públicos e motor de vida na cidade, transformando-se ao invés numa faixa de rodagem agressiva e impossível de transpor; esta parte da cidade desagregou-se do todo, ao perder a continuidade que lhe dava sentido. “ É como se um buraco negro, verdadeiro atractor de matéria, viesse perturbar a física quotidiana, e o tempo e o espaço se comprimissem em ânsias de energia e velocidade.” Se estas infra-estruturas monofuncionais já estão construídas então porque não inverter os seus propósitos na cidade a favor da mesma? 46 Será que no futuro o trânsito deixará de dominar a sociedade passando a opção pessoal de cada um a dominar o congestionamento?47 O projecto Ourcities Ourselves, desenvolvido pelo ITDP e pelos Gehl Architects, defende o futuro dos transportes como catalisadores da vida urbana. Um dos argumentos para as mudanças que propõem é o facto de os equipamentos culturais, os grandes espaços públicos e a elevada qualidade de vida, terem vindo a ganhar protagonismo face às estradas e aos parques de estacionamento automóvel.

                                                                                                                      46

LOTUS,  139-­‐  Landscape  Infrastructures,  ed.  Lotus,  2008.  

47

OURSELVES,  Ourcities,  The  Future  of  Transportation  in  Urban  Life,  http://www.ourcitiesourselves.org/  

13  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Balizas Urbanas? Ao sectorizar as diversas funções, com base nas crenças defendidas pelo urbanismo moderno, foi-se gradualmente fragmentando e prejudicando, a vida e as dinâmicas citadinas. 48 Ou seja, na ambição de um mundo global, observam-se muitos casos de uma cada vez maior separação a nível local. Aproxima-se o que está longe e afasta-se o que está perto.49 Tal como defendem Graham e Marvin no seu livro Splintering Urbanism

50

assiste-se a

um isolamento e afastamento entre pessoas e respectivas classes sociais nas cidades, em vez de se observar nestes lugares uma maior solidariedade, aproximação e inclusão. Será que as infra-estruturas de mobilidade constituem barreiras fechadas às vivências urbanas por terem sido entendidas como peças inertes em vez de interactivas? As problemáticas relacionadas com a construção deliberada destas infra-estruturas nas grandes cidades devem-se precisamente à forma como este processo se desenvolveu. 51 Por gerarem interstícios inesperados (por exemplo em cima, por baixo ou ao seu lado), os elementos como viadutos, túneis ou pontes surgem como sendo “fugitivos ao planeamento” sendo posteriormente ignorados pelas autoridades responsáveis. Deste modo se geram os vazios urbanos mal conotados e onde decorrem actividades não regulamentadas e por vezes indesejadas. 52 É uma espécie de “ciclo vicioso” em que se criam buracos e fronteiras no tecido urbano que por serem vazios de gente se tornam palco de actividades marginais ou sem aprovação da sociedade. O que faz com que estas zonas da cidade sejam cada                                                                                                                       48

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

49

Conceito  de  proximidade  glocal,  Splintering  Urbanism,  p.  10  a  13  

50

DOMINGUES,  Álvaro-­‐  A  Rua  da  Estrada-­‐  Equações  de  Arquitectura,  ed.  Dafne  Editora,  2009,  Porto.  

51

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

52

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

14  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 vez mais negligenciadas e assim, consecutivamente, as infra-estruturas de mobilidade responsabilizadas por estes problemas. 53 Ou seja, o aspecto aparente de uma cidade não deve dissociar-se do seu funcionamento real para que haja sucesso na resposta às necessidades dos seus utilizadores e ritmos. 54 Só considerando estas evidências poderá travar-se a degradação e a fragmentação urbanas tão presentes nas metrópoles contemporâneas. 55 A degradação acima referida deve-se precisamente à rigidez e inadequação das infraestruturas das cidades para responder às necessidades e vivências dos seus habitantes, o que leva a comportamentos de “fuga” ao caos instalado, que provocam problemas, como a insegurança e as desigualdades sociais. 56

Figuras 5 e 6. Trânsito em São Paulo, Brasil

                                                                                                                      53

JACOBS,  Jane-­‐  Morte  e  Vida  de  Grandes  Cidades,  ed.  Martins  Fontes,  2009,  São.Paulo.  

54

JACOBS,  Jane-­‐  Morte  e  Vida  de  Grandes  Cidades,  ed.  Martins  Fontes,  2009,  São.Paulo.  

55

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

56

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

15  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 “Why settle for an armored BMW when you can afford a helicopter?”57 Nas cidades de Toronto, San Diego, Los Angeles e Melbourne existe a possibilidade de se viajar em faixas de rodagem “particulares”, desde que para isso se pague uma mensalidade, havendo viajantes que disfrutam de uma economia de quarenta minutos em comparação com os tempos normais de condução nas faixas públicas. 58 Os problemas gerados pelas Infra-estruturas urbanas Monofuncionalidade,

fragmentação

urbana,

barreiras

geográficas

e

fraca

adaptabilidade, são alguns dos problemas gerados pelas infra-estruturas urbanas. 59 O que tem acontecido um pouco por todo o mundo é uma mistura de fenómenos que no conjunto têm levado à gradual degradação da vida nas cidades. Alguns desses fenómenos foram provocados por infra-estruturas que, em conjunto com as deslocações dos agentes económicos e o efeito da mobilidade sobre os modos de vida, geraram alterações e consequentemente novas urbanizações. 60 Exemplo disso são as deslocações quotidianas casa-trabalho dos habitantes das grandes cidades, de duração regularmente longa, que alteram a quantidade de trânsito e as infra-estruturas necessárias ao seu sustento, bem como a dimensão dos subúrbios que vão sendo cada vez mais densamente habitados. 61 No mundo ocidental, a partir da II Guerra Mundial, a ideologia que dominou o modo de considerar as infra-estruturas urbanas defendia que estas deveriam ser concebidas para servir (quase) todos de forma igual, a custo semelhante, entre cidades e regiões na maioria das vezes de forma monopolista. 62 Gerou-se uma tendência para virar costas às frentes de rua do tecido urbano.

                                                                                                                      57

Splintering Urbanism, p.1, pp.5, (Beaverstock et al, 2000, 126)  

58

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

59

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

60

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

61

MANGIN,  David-­‐  La  Ville  Franchisé,  Routledge,  ed.  Taylor,  2001,  Londres.  

62

GRAHAM  &  MARVIN-­‐  Splintering  Urbanism,  Routledge,  ed.  Taylor  &  Francis  Group,  2001,  Londres.  

16  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Fronteiras transitáveis/ habitadas Uma cidade exige uma coordenação económica, social, espacial e infra-estrutural quase perfeita ou, pelo menos, maioritariamente bem-sucedida para que a sua vida seja longa e saudável. 63 A análise das necessidades das cidades em conjunto com a observação da presença das redes de infra-estruturas nas regiões urbanas, permite concluir que se estes elementos fossem considerados como tecidos porosos e permeáveis, em vez de fronteiras estanques e limitadoras, seria possível descobrir novas dimensões da vida urbana, além do ritmo frenético da circulação. 64 Na realidade, as infra-estruturas de mobilidade urbana criam limites difusos e profundamente ramificados constituindo uma malha de interligações que ao assentar nas cidades entram em “colisão” com outros elementos pré-existentes, e geram espaços intersticiais no encadear das diversas escalas da vida urbana. 65 Ao entender-se que existem nas cidades diversas escalas de circulação, verifica-se que no cruzar dos diferentes ritmos gerados em cada uma, surgem descontinuidades que são, em simultâneo, estáticas e dinâmicas e que, por oferecerem essa condição, se transformam em espaços de apropriação espontânea e não regulamentada. 66 Gradualmente, as infra-estruturas anteriormente consideradas como muros de fragmentação da vida citadina, vão sendo olhadas de outras formas. 67 Começam a sobressair as vantagens oferecidas por estes organismos, tais como a localização, a acessibilidade e inserção urbana, a flexibilidade de usos ou o preço reduzido que ainda se paga para habitar lugares “ prejudicados” pela presença de uma infra-estrutura. O papel das infra-estruturas e as possibilidades que oferecem aos moradores e frequentadores das cidades, não são os mesmos de há vinte anos atrás. Por todo o                                                                                                                       63

JACOBS,  Jane-­‐  Morte  e  Vida  de  Grandes  Cidades,  ed.  Martins  Fontes,  2009,  São.Paulo.  

64

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

65

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

66

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

67

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

17  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 mundo vão surgindo projectos de adaptação de infra-estruturas, a favor de quem vive ou habita os lugares onde se situam.68 Na Ásia, por exemplo em Tóquio, já há muito tempo que as infra-estruturas de mobilidade foram sendo adaptadas conforme as necessidades urbanas, tendo em conta a falta de espaço e a necessidade de economia do mesmo, vigentes. Revitalizar comunidades “In the passage from construction of the “city within the city” to restoration of the urbanized territory, the new infrastructural landscapes seem to possess the art and technique needed to meet the unexpected challenge in planning.”69

Figura 7.VIA, Em2n.ch

Ao serem esclarecidas as limitações do planeamento urbano face aos problemas das cidades actuais, é possível encarar as infra-estruturas de mobilidade como elementos com características específicas passíveis de serem repensadas e exploradas. 70 Neste contexto, as infra-estruturas funcionariam como “molas” propulsoras de uma renovação cultural e física, através das quais as cidades superariam a inércia em que a cidade tradicional e as suas teorias se baseavam. 71                                                                                                                       68

ÉXUPERY,  Antoine  de  Saint-­‐  Le  Petit  Prince,  Editorial  Presença,  20  de  Novembro  de  2001.  

69

Landscape Infrastructures, p. 78  

70

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

71

MANGIN,  David-­‐  La  Ville  Franchisé,  Routledge,  ed.  Taylor,  2001,  Londres.  

18  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 A ideia aproxima-se do tema da reutilização no sentido em que propõe que se estudem infra-estruturas pré-existentes revertendo-se o seu carácter de forma a ampliar a esfera de utilizadores e usos destes elementos. 72 Para que este tipo de reconversão urbana tenha sucesso é fundamental o envolvimento das comunidades

73

, tal como se verificou no caso do projecto do parque

público High Line, em Nova Iorque em que foi uma associação de moradores a promover a preservação da antiga linha férrea, a sua recuperação para uso público na forma de um parque, e a responsabilizar-se pela manutenção do espaço. 74 No exemplo americano acima referido, o segredo para o sucesso relacionou-se com um espírito de observação e sensibilidade face às fragilidades e carências urbanas locais, bem como uma abertura e diálogo constantes que possibilitaram o envolvimento da comunidade, durante todo o processo. Actualmente, o parque é um ponto de atracção turística e funcionou como peça chave para dar nova vida a uma parte menos nobre da cidade, que sofria de degradação urbana. 75 Por vezes, basta atenção a fenómenos de apropriação espontânea por parte dos cidadãos e moradores ou aos elementos de identidade local, para que as acções de reconversão urbana vão ao encontro do que é necessário.76 O ateliê francês Coloco desenvolveu um projecto designado por Habiter Les Squelettes em que desenvolve um conceito de habitação económica evolutiva, aplicável no mundo inteiro, que se inspirou num fenómeno de apropriação espontânea, na cidade do Rio de Janeiro, por parte de “habitantes-construtores” que, durante anos, construíram os seus apartamentos em estruturas de betão armado abandonadas.77 Seguindo o raciocínio de que não há soluções únicas para o problema do alojamento, mas sim experiências a conhecer e a fazer, este projecto serve para constatar que a                                                                                                                       72

LOTUS,  139-­‐  Landscape  Infrastructures,  ed.  Lotus,  2008.  

73

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

74

MANGIN,  David-­‐  La  Ville  Franchisé,  Routledge,  ed.  Taylor,  2001,  Londres.  

75

LOTUS,  139-­‐  Landscape  Infrastructures,  ed.  Lotus,  2008.  

76

CATALYST,  Urban-­‐  Temporary  Use  and  urban  development  inBerlin,  Analysis  report  Berlin  study  draft,   November  2001.   77

COLOCO,  Habiter  Les  Squelettes,  http://www.coloco.org/  

19  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 realidade reaproveita os recursos originais, adaptando-os às necessidades de cada época. No caso específico da reconversão das infra-estruturas de mobilidade para revitalizar comunidades é pertinente analisar o exemplo da academia de boxe Garrido em São Paulo, fundada por Nilson Garrido, ex-campeão de boxe. 78 A academia funciona informalmente sob viadutos, com o objectivo de criar novas oportunidades para os habitantes com poucos recursos, bem como fomentar a disciplina e a auto-estima. Efectivamente, a academia atrai grupos socioeconómicos diversos. Apesar das suas instalações serem precárias, conseguiu cativar a Architectural Association School of Achitecture de Londres, que este ano desenvolveu um projecto académico no intuito de melhorar as condições para a prática de desporto nos

espaços

intersticiais

destas

infra-estruturas;

e

também

os

média

que

desenvolveram um documentário intitulado O Louco dos Viadutos, exibido na BBC. 79 O desenho urbano contemporâneo adopta abordagens em que a cidade e a paisagem já não pertencem a esferas antitéticas, mas antes complementares, devido à construção recíproca da sua identidade, num processo físico móvel e conceptual que está continuamente a ser redefinido. 80

                                                                                                                      78

http://www.tvcultura.com.br/direcoes/o-­‐louco-­‐dos-­‐viadutos  

79

http://www.tvcultura.com.br/direcoes/o-­‐louco-­‐dos-­‐viadutos  

80

LOTUS,  139-­‐  Landscape  Infrastructures,  ed.  Lotus,  2008.  

20  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Parte 2. Reflexão crítica Infra-estruturas paisagem O urbanismo moderno pode ser considerado um complexo processo de coordenação e organização de cabos, viadutos, túneis, esgotos, ruas, estradas e redes técnicas, que se entrelaçam e invadem as cidades, tornando-o num processo dinâmico e sociotécnico. Como anteriormente referido, a vida contemporânea urbana revela-se como um jogo incessante e móvel entre muitas escalas diferentes. É nas interacções entre diferentes distâncias e diferentes escalas que se motivam os processos muito debatidos e polémicos da globalização. Assim: as cidades e as regiões urbanas tornam-se nos pontos de paragem do ritmo perpétuo das infra-estruturas mediadas por fluxos, movimentos e trocas. Ou seja, as cidades “onde tudo acontece e conflui”, são palco de câmbio e mediadoras dos fluxos internacionais de energia e de recursos energéticos; da circulação global; dos centros primários de troca internacional e de distribuição de produtos e comodidades; são articuladoras dos movimentos das pessoas por meio dos complexos e múltiplos sistemas de transporte. 81 Deste modo são geradas as múltiplas “paisagens sobrepostas”, controversas e de interligação das infra-estruturas. As infra-estruturas, sendo articuladoras entre a natureza, a cultura e a produção da cidade, dependem e evoluem em conjunto, não tendo autonomia para funcionar em separado,

no

entanto

ao

inter-relacionar-se,

alteram-se

e

acompanham

o

desenvolvimento do espaço urbano. 82 É então clara a importância dos elementos infra-estruturais como oportunidades de alteração da forma da cidade e da paisagem, num processo de investigação mútua e num movimento incessante de “sístoles e diástoles” com o meio envolvente. 83                                                                                                                       81

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

82

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

83

Landscape  Infrastructures,  p.78  

21  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Pioneiros urbanos Pelo adaptar e apropriar dos espaços menos vigiados e melhor localizados nas cidades a favor dos interesses pessoais e comerciais dos utilizadores, as áreas intersticiais das infra-estruturas de mobilidade urbanas constituem elementos densamente habitados do mundo contemporâneo. 84

Figuras 8. Feira de rua em Berlim e 9. Bancas de comércio por baixo de um viaduto no Rio de Janeiro

A cidade de Berlim na Alemanha, constitui um bom exemplo de estudo dos fenómenos que propiciam a apropriação espontânea e temporária do espaço público, reclamado por quem precisa. 85 Depois de 1945, muitos edifícios ficaram abandonados e muitos terrenos ficaram baldios, condições suficientes para o surgimento de uma grande quantidade e diversidade de usos temporários; plantaram-se hortas para sobrevivência, ocuparamse edifícios para habitação de forma ilegal e improvisada, surgiram novos tipos de actividades de lazer, como por exemplo banhos em crateras de bombas cheias de água, para ocupar a paisagem incomum de uma cidade em ruínas. 86 Os utilizadores temporários agem espontaneamente, aproveitando a paralisia geral e as contradições do planeamento oficial. Assim, tiram proveito das estruturas existentes não utilizadas com um mínimo investimento e, ao contrário do que acontece no

                                                                                                                      84

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

85

CATALYST,  Urban-­‐  Temporary  Use  and  urban  development  inBerlin,  Analysis  report  Berlin  study  draft,   November  2001.   86

CATALYST,  Urban-­‐  Temporary  Use  and  urban  development  inBerlin,  Analysis  report  Berlin  study  draft,   November  2001.  

22  


Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 planeamento oficial, são capazes de responder rapidamente e de se adaptar a novas situações nos locais. 87 “ (…) A questão está em saber se o espaço público como espaço de experiência humana intersubjectiva essencial à democracia, necessita de um tipo de espaço físico como o do modelo grego, medieval, renascentista e burguês, ou se essa antiga relação entre civilização e urbanidade pode realizar-se fora dos espaços da cidade europeia convencional. (…)”88 Do estático ao dinâmico Aos poucos, vão sendo alteradas as mentalidades e as áreas predilectas nas cidades começam também a substituir-se. “Living adjacent to, beneath or above highways, railway lines and flight paths is today symptomatic of the modern city. The effects on living standards have been less than desirable due to the environmental problems of noise and pollution. Yet the spatioeconomic potential of these apparently blighted sites is slowly being recognized: highly accessible and relatively cheap. 89 Deste modo, a ideia de que é mau e prejudicial viver perto de infra-estruturas nas cidades, tem vindo a alterar-se e estas zonas começam a surgir como áreas privilegiadas não só pelas condições de acessibilidade que oferecem, mas também por serem lugares economicamente acessíveis. Caracterizadas por uma riqueza ecléctica tanto a nível social como comercial, estas áreas outrora obsoletas, têm vindo a ganhar uma vida própria e única.

90

Gradualmente, começa a ter-se consciência destes factos e vão sendo tomadas atitudes para contrariar ou alterar a forma como se vivem e experimentam as cidades.                                                                                                                       87

CATALYST,  Urban-­‐  Temporary  Use  and  urban  development  inBerlin,  Analysis  report  Berlin  study  draft,   November  2001.   88

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

89

Anthony Hoete, in ROAM - Reader on the Aesthetics of Mobility, Infrascapes, Gabriel Duarte

90

DUARTE,  Gabriel-­‐  Infrascapes,  Interstitial  Enclaves  of  the  Unplanned,  2008.  

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 É interessante perceber que uma infra-estrutura de carácter rodoviário, ferroviário ou industrial, como os exemplos do parque High Line em Nova Iorque ou da reabilitação da antiga fábrica automóvel da Fiat Lingotto em Turim, pode ser adaptada a lógicas de utilização sublimes ou delicadas para uso directo do ser humano. Podem então transformar-se as infra-estruturas, que até há pouco tempo eram monofuncionais rígidas, em multifuncionais dinâmicas. Multifuncionais, na diversidade de usos e de utilizadores presentes, e dinâmicas nas inúmeras possibilidades que oferecem e na sua capacidade de mutação ao longo do tempo, acompanhando as necessidades e as vontades. 91

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MORALES,  Ignasi  de  Sola-­‐  Diferencias,  topografia  de  la  arquitetura  contemporânea,  prólogo  Peter   Eisenman,  ed.  Gustavo  Gili,  2003,  Barcelona.  

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Capítulo II. Exploração do tema Parte 1. Investigação, Identificação e Análise de casos de estudo The High Line, NY

Figuras 10. Vista aérea do parque e 11. Pormenor de um troço do High Line

O High Line, consiste num parque público com uma extensão de 1,5 milhas situado na parte Oeste de Manhattan em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Os autores do projecto são o ateliê Diller Scofidio + Renfro em cooperação com o ateliê Field Operations. A infra-estrutura pré-existente é uma via-férrea originalmente construída, entre 1929 e 1934, para levantar os comboios de mercadorias perigosas das ruas de Manhattan. Esteve em utilização até 1980, ano em que ficou entregue ao abandono. 92 A natureza foi crescendo por entre os carris da linha de comboios e os habitantes daquela zona da cidade foram-se gradualmente apropriando daquele “jardim público sem regras” de modo espontâneo e diverso. Assim, a degradação daquela infraestrutura transformou-a num espaço lúdico indefinido, funcionando como uma “injecção de liberdade” no quotidiano dos seus utilizadores. 93                                                                                                                       92

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 O gosto e apreço da comunidade pela antiga via-férrea aumentou e, no ano de 1999 foi criada a associação “Friends of the High Line” por Joshua David e Robert Hammond que defendiam a preservação da infra-estrutura e a reclamavam para espaço público. Em 2002, a ideia ganhou o apoio de toda a cidade de Nova Iorque e, os autores acima referidos, procederam à execução do projecto até que, em 2006, se deu início à construção da primeira fase do parque, concluída em 2009, estando previsto para a sua conclusão o ano de 2013. 94 Inspirado na desregrada e melancólica beleza da ruína pós-industrial, o parque reinterpreta a presença da natureza na cidade, esta que com o passar do tempo, e de forma espontânea, se foi propagando como única peça vital da infra-estrutura urbana. 95

Assim surgiu o sistema de pavimento utilizado e, que consiste em placas préfabricadas de betão com juntas abertas que encorajam o crescimento vegetal emergente, ao longo dos vazios do percurso. Este sistema construtivo não só é eficiente, como cria um ritmo que aparenta ser aleatório mas que foi minuciosamente articulado e estudado.

Figuras 12. Sistema modular de pavimento e 13. Relação dos módulos de pavimento com a vegetação

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 A associação Friends of The High Line é responsável pela angariação de fundos privados para o parque e fiscaliza a sua manutenção. Deste modo, é garantida a vigilância e atenção constantes dedicadas ao parque por parte dos moradores e, simultaneamente o envolvimento e participação da comunidade, principais fontes de vida do mesmo. 96 É interessante acompanhar o modo como esta associação mobiliza as pessoas que têm em comum o apego à antiga linha férrea. Mensalmente é organizado um calendário de eventos a realizar no parque, destinados a públicos de idades e interesses distintos, como exemplo aulas gratuitas de ioga ou dança, passeios guiados sobre a história da infra-estrutura, visitas acompanhadas pelos jardineiros do parque que dão a conhecer a flora ali presente ou encontros de associações como a de astronomia para observação do céu em horário nocturno. 97 As actividades que são pagas revertem a favor da manutenção do High Line, o mesmo acontecendo com alguns produtos disponíveis para venda. 98 O espírito de economia e reaproveitamento de recursos, acompanhou o projecto desde o seu início, não só pela recuperação de uma infra-estrutura abandonada, mas também por opções tomadas como a ideia de vender o ferro dos carris retirados, o que permitiu recolher verbas para o arranque do projecto, a juntar às inúmeras doações por parte da comunidade envolvida. 99

Figuras 14. Perfis de ferro pré-existentes e 15. Aula de Ioga no High Line, NY

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Os pontos de acesso são experiências duradouras desenhadas para prolongar a transição da agitação frenética das ruas da cidade, para a lenta e indefinida paisagem situada na camada suspensa do parque.

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Na primeira secção as escadas de acesso estão localizadas no início da antiga linha férrea junto à rua Gansewoort, nas 14ª, 16ª, 18ª e 20ª ruas; e há dois elevadores, um na 14ª rua e outro na 16ª perto de uma sala de descanso acessível a pessoas com mobilidade reduzida. 101 Ao longo de toda a extensão da infra-estrutura pré-existente o projecto é rico em espaços com sol, sombra, secos, molhados, ventosos e abrigados, que animam o percurso e interagem com os visitantes.

Figura 16. Diagramas do projecto do parque público High Line em Nova Iorque

Deste modo, o sistema do parque, constituído por diversos ingredientes e ambientes, vai do 100% pavimentado ao 100% cultivado, oferecendo uma abrangente panóplia de opções aos utilizadores e visitantes. 102

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 A reabilitação desta infra-estrutura funcionou para revitalizar uma área menos nobre de Nova Iorque, melhorando a qualidade de vida dos moradores ali presentes e tornando-se num ponto turístico atractivo, requisitado e reconhecido na cidade. 103 A ligação deste caso de estudo ao tema da investigação é justificada: - Por ter sido utilizado um elemento infra-estrutural pré-existente obsoleto como peça chave para uma recuperação urbana; - Pela transformação de uma infra-estrutura monofuncional num sistema multifuncional dinâmico que surge de e para a comunidade; - E pela transformação de um antigo limite numa actual solução. Assim, aquele que antes era apenas um percurso de circulação de cargas pela cidade, passou a ser um espaço de estadia, turismo, deambulação, aprendizagem, contacto com a natureza e lazer. Fiat Lingotto Turim Criada em 1920, foi a maior e mais moderna fábrica na Europa, tanto em termos arquitectónicos como de capacidade de produção em massa.104 Situada em Turim, Itália, a fábrica de automóveis da Fiat ocupava um edifício de cinco pisos com quinhentos e sete metros de comprimento por vinte e quatro metros de largura, possuindo características inovadoras. 105

Figuras 17. Fachada do edifício Lingotto e 18. Vista aérea do edifício Lingotto

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 A sua forma alongada acompanhava o desenvolvimento da linha de montagem dos automóveis, cujo percurso se iniciava no rés-do-chão com o tratamento das matériasprimas, terminando com os veículos a sair directamente para uma pista de testes com cerca de um quilómetro situada na cobertura. 106 O edifício foi projectado por Giacomo Mattè Trucco e tornou-se num paradigma da arquitectura moderna, em particular, do Funcionalismo. 107 A estrutura em betão armado está apoiada em mais de mil pilares e o seu desenho funcional representou a crença no poder da indústria e da tecnologia. 108 A fábrica trabalhou em condições durante muitos anos, no entanto em 1982, foi definitivamente fechada. Na mesma época foi lançado um concurso público de arquitectura tendo em vista a sua reutilização como equipamento cultural e, o projecto vencedor pertenceu ao arquitecto Renzo Piano. 109 Quando foi encerrada a fábrica, o edifício tinha um tão grande valor simbólico que era essencial dar-lhe um novo sopro de vida. Assim, o projecto consistiu em transformar radicalmente o Lingotto sem trair o seu espírito nem a finalidade das suas premissas, preservando o seu carácter global arquitectónico e monumental. 110 A conversão desta infra-estrutura daria à cidade um lugar onde o sector público e o sector privado pudessem interagir, bem como um local com usos distintos de modo a atender às necessidades de investigação, aprendizagem, cultura e tecnologia da população. 111

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 O edifício da anterior fábrica, continuou portanto, a ser uma parte importante da cidade.

Figuras 19. Vista interior do edifício Lingotto e 20. Estrutura em betão aparente no edifício Lingotto

O projecto manteve a integridade formal do edifício, atribuindo-lhe novas funções tais como zonas comerciais, a sede da Fiat, escritórios, hotéis, centro de congressos e exposições, auditório, áreas culturais e habitacionais. Concluído em 2002 tornou-se num estandarte da arqueologia industrial e num modelo de recuperação arquitectónica e urbana. Deste modo, o projecto de recuperação elaborado pelo arquitecto Renzo Piano demonstra a possibilidade de adaptação urbana oferecida por uma infra-estrutura, projectada para um único uso específico, a novos e diversos usos e utilizadores. Também pelas características específicas do edifício em questão; como por exemplo a pista de automóveis para testes situada na cobertura ou o comprimento da sua extensão; é importante compreender que este elemento revolucionou uma época. 112 A arrojada composição foi, para a data da sua execução, motivo de alteração de mentalidades. Basta que edifícios como o Lingotto ou exemplos como o High Line comecem a ser encarados e recuperados com o mesmo tipo de ambições e vontades,                                                                                                                       112

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 para que, gradualmente, as infra-estruturas assumam papéis mais activos na vida das metrópoles. 113

Figuras 21. Docks de Paris, 22. A8Erna, 23. Toni-areal e 24. VIA

Os projectos Docks Paris, de Jakob & Macfarlane, A8erna, dos NLArchitects ou os Refurbishment Viaduct Arches e Toni-areal dos Em2n.ch, visíveis nas imagens acima, são referências de estudo pertinentes e que foram consideradas neste estudo, no intuito de absorver e perceber aquilo que as aproxima ou distancia das problemáticas presentes nesta investigação.114 Através do trabalho do atelier francês COLOCO, designado Habiter les Squelettes, estudou-se de que forma um elemento pré-existente obsoleto pode ser encarado como novo território de urbanização, permitindo atender às necessidades dos seus utilizadores, que muitas vezes o fazem sem orientação, regulamentação e de forma não planeada. 115

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COLOCO,  Habiter  Les  Squelettes,  http://www.coloco.org/  

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Figura 25. Viaduto em São Cristóvão no Rio de Janeiro

A imagem mostra precisamente o tipo de utilização não controlada, acima referida, neste caso por baixo do viaduto que atravessa a área de São Cristóvão na cidade do Rio de Janeiro. A utilização desta infra-estrutura poderia ser a mesma mas com melhores condições para todos, veículos, comerciantes e compradores. É possível identificar em quase todo o mundo, exemplos de infra-estruturas de mobilidade cujo potencial, de utilização e interacção na vida urbana, não é utilizado. O viaduto do itinerário complementar número dezassete que atravessa o bairro de Algés, em Lisboa, ou o viaduto da avenida Perimetral no Rio de Janeiro, espelham de que forma as infra-estruturas de mobilidade ainda não são consideradas como possíveis veículos de vida urbana vitaminada.

Figuras 26. Viaduto IC17 em Algés e 27. Viaduto da Av. Perimetral no Rio de Janeiro

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Parte 2. Caso prático de estudo Túnel do Rego A escolha do caso prático de estudo pretendeu responder às questões iniciais da investigação. Assim, a escolha da infra-estrutura a analisar teve grande importância. O potencial desperdiçado no túnel do Rego, bem como a oportunidade de intervenção no mesmo, reflectem-se nas problemáticas que apresenta. Tais problemáticas como: a impossibilidade de utilização pedonal, por ter o acesso para peões encerrado desde o dia da inauguração; a fraca utilização automóvel, tendo um muito reduzido fluxo automóvel diário; a fraca iluminação, tanto no interior como nas áreas adjacentes exteriores, o que o torna num local perigoso e onde a insegurança é grande. A proximidade dos terrenos vazios junto à linha férrea o que acentua a desertificação e abandono presentes no local; bem como a posição geográfica desta infra-estrutura que, por estar tão central na cidade de Lisboa, poderia funcionar como elemento chave nas horas de trânsito congestionado.

Figura 28. Vista aérea do túnel do Rego

“ (…) O maior problema que desde sempre se colocou a todos os gestores autárquicos da Freguesia de Nossa Senhora de Fátima foi e é a barreira criada pelo caminho-de-

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 ferro. Atravessada pelo comboio, a freguesia encontra-se, há muitos anos, dividida em duas zonas totalmente distintas e diferentes. (…)” 116 O túnel foi construído no sentido de concretizar um “ velho sonho” da Freguesia de Nossa Senhora de Fátima, ligando a rotunda da Rua da Beneficência, perto do hospital Curry Cabral, à Rua Sousa Lopes, em frente ao centro comercial Gémini. 117 Tem uma extensão de trezentos e quinze metros, com duas faixas de rodagem, em cada sentido, bem como uma passagem pedonal. Segundo a Câmara Municipal de Lisboa, esta obra passou a estabelecer a ligação rodoviária entre os lados Norte e Sul dos bairros de Santos e das Avenidas Novas, anteriormente isolados entre si, o que permitiu acabar com o isolamento a que estava votada a zona Norte do Rego. 118 “ Dotado de duas faixas de rodagem em cada sentido de trânsito, o novo túnel orçou em mais de 4,3 milhões de euros e dispõe de acessos qualificados, beneficiando igualmente do tratamento do espaço público envolvente, incluindo uma zona jardinada. O túnel inclui ainda uma passagem pedonal, que será aberta quando ligada aos acessos de um novo empreendimento imobiliário em vias de execução. (…) a importância desta obra para a mobilidade dos moradores da área de Santos (…) grande melhoramento para esta freguesia (…) que se enquadra num vasto programa de obras na área das infra-estruturas rodoviárias, em prol da mobilidade e da qualidade ambiental. (…)”

Figuras 29. Interdição a peões na entrada Sul do túnel e 30.Terrenos baldios a Norte do túnel

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Construído na sequência de petições da população do Bairro do Rego, com a promessa de que iria permitir o trânsito pedonal entre o bairro e as Avenidas Novas, o túnel foi, no entanto, inaugurado em finais de 2005, apenas na sua componente rodoviária. 119 O problema foi exposto à Câmara Municipal de Lisboa, em Fevereiro de 2007 pelos moradores, solicitando-se a conclusão e abertura urgente do troço pedonal da infraestrutura. Na época foi efectuada uma vistoria, que resultou numa resposta da autoridade competente, argumentando que os acabamentos que permitiriam a abertura da parte pedonal do túnel, seriam contrapartida e obrigação do promotor da urbanização projectada para o local e que, qualquer solução provisória, a curto prazo, implicaria a construção de um corredor pedonal numa zona pouco segura, atravessando terrenos baldios, sem arruamentos ou pavimento; sugerindo-se o recurso à passagem desnivelada, com elevadores.

Figura 31. Passagem pedonal aérea no Rego

Apesar de referida na resposta da Câmara Municipal de Lisboa, como tendo condições de acessibilidade e segurança, a passagem aérea pedonal, é muito elevada, requerendo três lances de escadas, o que, dado o universo populacional da freguesia ter uma composição mista de população muito idosa e famílias jovens com crianças de                                                                                                                       119

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 colo, inviabiliza o acesso à passagem aérea, senão através dos elevadores existentes. 120

No caso dos elevadores em causa funcionarem com normalidade, o problema seria minoritário, o que todavia não acontece devido a algumas deficiências funcionais e inúmeras avarias. 121 Para melhor entendimento das carências, usos, comportamentos e experiências diárias das pessoas na área em estudo, foram realizadas algumas entrevistas como trabalho de campo. Assim, foi feita uma “leitura do local”, que possibilitou analisar as vivências e dinâmicas presentes, bem como identificar as carências, necessidades e limitações do bairro. Entre os inquiridos encontram-se moradores e trabalhadores que nasceram e cresceram na zona, assistindo à sua degradação e guardando nostalgia do antigo bairro do Rego. Todos os indivíduos referiram o problema vivido em termos de insegurança, associando-o à presença dos três bairros sociais que circundam o bairro a Norte, o que gradualmente provocou uma desertificação das ruas, por parte dos moradores idosos com medo de assaltos ou violência. A somar à insegurança vivida, o vedar da anterior passagem de nível e a construção da actual passagem pedonal aérea acima referida, provocaram o isolamento da área Norte do bairro, bem como uma acentuada queda no comércio local que usufruía essencialmente da circulação constante de pessoas entre as avenidas novas e o Rego. Dos inquiridos, alguns não tinham conhecimento da existência do túnel do Rego e outros consideram a infra-estrutura perigosa e inacessível, não compreendendo a interdição aos peões. Mais de metade das pessoas afirmaram que a linha férrea é um problema devido ao facto de a passagem pedonal aérea ser de difícil acesso e ter, frequentemente, os elevadores a precisar de manutenção.                                                                                                                       120

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 À pergunta sobre quais os equipamentos em falta no bairro, parte dos inquiridos afirmaram serem estacionamentos, tendo a maioria afirmado faltarem equipamentos para idosos e equipamentos dedicados às crianças. Será que no túnel, praticamente acabado de construir, onde foi investido dinheiro público e que surgiu devido aos esforços dos habitantes e frequentadores do bairro no sentido de acabar com a fronteira criada pela linha de comboio não poderão estar os ingredientes necessários à resolução dos problemas quotidianos de mobilidade destas pessoas? Na data do início da sua construção, defendeu-se também que neste elemento poderiam circular bicicletas e que, o mesmo, serviria para escoar o trânsito da Praça de Espanha à avenida 5 de Outubro. De facto, até hoje, muito poucos objectivos iniciais da construção da infra-estrutura em causa,

foram

concretizados,

sendo

o

túnel

um

elemento

estático,

rígido,

monofuncional, fechado à cidade e que não responde às necessidades de quem ali mora ou trabalha. Mesmo a relação das vivências dos habitantes e frequentadores do centro da cidade de Lisboa com o túnel do Rego, é ténue e longínqua. Poucos lisboetas sabem da existência ou localização do mesmo. 122 É, portanto um exemplo forte de uma infra-estrutura obsoleta “esquecida” no centro de uma metrópole contemporânea e que é encarada como entrave à vida urbana. O tipo de mentalidade acima descrito começa a alterar-se e, aos poucos vai sendo substituído por conceitos que se aproximam do tema desta investigação. O projecto De Porta em Porta, do atelier carioca MoVLe, é demonstrativo de uma intenção de mudança notória nos trabalhos dos arquitectos e pensadores da actualidade. 123 “ (…) De forma aberta e analítica, buscamos na própria pluralidade e nos antagonismos da nossa cidade uma coesão entre signos e atributos, formais e                                                                                                                       122

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BORELLI,  Ana-­‐  Penso  Cidade,  Centro  de  Arquitectura  e  Urbanismo  da  Prefeitura  da  cidade  do  Rio  de   Janeiro,  9  de  Outubro  a  15  de  Dezembro,  2002.  

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 informais, de realidades excludentes e excluídas, para estabelecer uma estratégia de transformação. Propomos situações que estimulem a convivência de grupos desassociados em configurações urbanas antes próprias da segregação e carentes de qualidade de vida, intervenções que se alimentem do próprio modelo da cidade, como um parasita que nasce no seu hospedeiro e o contamina.(…)” A vontade de que com o tempo as fronteiras urbanas, como acontece com o túnel do Rego e a via-férrea adjacente, sejam eliminadas de modo a que a cidade se torne numa zona de contacto, múltipla, diversa e dinâmica, é fulcral para a recuperação destas situações metropolitanas. 124 Só assim as relações humanas, a partir de espaços flexíveis e mutáveis, tal e qual o tempo e o espaço contemporâneos, poderão ser as protagonistas das cidades. 125

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BORELLI,  Ana-­‐  Penso  Cidade,  Centro  de  Arquitectura  e  Urbanismo  da  Prefeitura  da  cidade  do  Rio  de   Janeiro,  9  de  Outubro  a  15  de  Dezembro,  2002.   125

BORELLI,  Ana-­‐  Penso  Cidade,  Centro  de  Arquitectura  e  Urbanismo  da  Prefeitura  da  cidade  do  Rio  de   Janeiro,  9  de  Outubro  a  15  de  Dezembro,  2002.  

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Capítulo III. Aplicação do tema A Intervenção/projecto proposto “Um túnel é uma passagem, normalmente subterrânea, que possibilita ou facilita o acesso a um determinado local. Podem ser construções realizadas pelo ser humano ou eventualmente pela própria acção da natureza. No caso dos túneis utilizados para transporte, usualmente ligam duas seções de uma estrada, via-férrea ou rua. (…) ” No caso do túnel do Rego, o acesso possibilitado pelo mesmo fica aquém das necessidades ou expectativas, devido aos motivos referidos anteriormente. Assim, este projecto surge não só no seguimento da investigação realizada, tendo como base o trabalho de projecto urbano realizado no primeiro semestre; como aplicação prática do tema, mas também com o intuito de propor uma intervenção na infra-estrutura pré-existente, invertendo a sua actual condição. Tornando este elemento numa possível solução para alguns dos problemas identificados na sua área de implantação. Deste modo, as questões de partida para o desenvolvimento do projecto consistem nos objectivos iniciais de aproximação da realidade actual à ideia de cidade “centrípeta” e no reaproximar das diversas valências da vida humana tais como o “aprender, brincar, viver e trabalhar”; associados ao repensar da dinâmica de uso e circulação, presentes no túnel do Rego.

Figuras 32. Imagem conceptual de uma corda semi-cortada e 33. Imagem do livro Le Petit Prince

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 A ideia é fruto de um olhar crítico sobre uma infra-estrutura pré-existente na cidade, que possibilitou identificar o seu potencial desperdiçado e, consequentemente, tirar proveito do mesmo. Tal como uma corda que sofre um corte nas fibras que a constituem, assumindo a partir daí um novo comportamento, sem perder a continuidade do seu percurso; ou como o olhar do principezinho que pela sua visão abrangente, identifica uma cobra que engoliu um elefante, onde todos viam apenas um chapéu. Só assim foi possível entender a linguagem e captar o espírito presente no objecto arquitectónico em estudo. Conhecendo as regras é possível quebra-las ou alterá-las. Conceptualmente definiu-se uma estratégia de dilatação e metamorfose do elemento infra-estrutural pré-existente que se “rasgaria nas suas entranhas para se abrir à vida na cidade”. O entendimento e compreensão desta infra-estrutura passaram, naturalmente pelo entendimento do seu sistema construtivo. Tal foi apenas possível pelo acesso aos desenhos de projecto de execução do túnel, generosamente cedidos pela Câmara Municipal de Lisboa.

Figuras 34. Diagrama do processo construtivo de uma estaca e 35. Cortina de Estacas

Em seguida, verificou-se que a estratégia construtiva presente no túnel é a de utilização das designadas cortinas de estacas de betão armado. Este sistema construtivo consiste num tipo de estrutura de contenção periférica de solos, em que os

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 elementos principais da mesma, as estacas, são executadas directamente no interior do solo, mesmo antes de se realizar a escavação da cavidade. 126 Esta solução consiste, fundamentalmente, na construção de uma frente descontínua de estacas (visível na figura acima à direita) moldadas no terreno, sendo este posteriormente escavado num dos lados. 127 As estacas poderão estar mais ou menos distanciadas entre si, podendo mesmo intersectar-se, sendo o efeito entre elas estabilizado por um efeito de arco. 128 A sua estabilidade pode ser garantida, em fase provisória ou definitiva, por ancoragens ou, somente, pela sua própria rigidez e resistência. Por vezes, numa fase definitiva, as coberturas dos túneis podem realizar este papel, o que permite que as cortinas de estacas sejam incorporadas como um elemento resistente na estrutura final, inclusive para cargas verticais da superestrutura ou outras.129 As estacas utilizadas, normalmente, como contenção periférica de solos, são as estacas moldadas, enformadas pelo próprio terreno. 130 No caso do túnel do Rego, o sistema construtivo utilizado é o sistema de cortina de estacas moldadas, espaçadas entre si. As vantagens da utilização deste sistema são: o facto de serem mais económicas por metro de largura de cortina; oferecem boa flexibilidade em termos de tipos de estacas e diâmetros; no caso de estacas de grande diâmetro, oferecem um aumento de rigidez para certas aplicações; são facilmente incorporadas em trabalhos permanentes e podem ser projectadas para suportar cargas verticais. 131 Como desvantagens há o facto de estas estacas obrigarem, quase sempre à colocação de ancoragem, por serem menos resistentes por metro de largura e                                                                                                                       126

BRITO  J.  (2002),  Cortinas  de  Estacas  Moldadas,  Lisboa,  IST.  

127

BRITO  J.  (2002),  Cortinas  de  Estacas  Moldadas,  Lisboa,  IST.  

128

BRITO  J.  (2002),  Cortinas  de  Estacas  Moldadas,  Lisboa,  IST.  

129

FERNANDES,  M.  (1990)-­‐  Estruturas  de  Suporte  de  Terras,  Porto,  FEUP.  

130

FERNANDES,  M.  (1990)-­‐  Estruturas  de  Suporte  de  Terras,  Porto,  FEUP.  

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BRITO  J.  (2002),  Cortinas  de  Estacas  Moldadas,  Lisboa,  IST.  

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 também por serem apenas aplicáveis em solos relativamente estáveis, ou seja autoportantes durante a fase construtiva, através de um efeito de arco. 132

Figuras 36. Diagrama conceptual do sistema construtivo do túnel e 37. Imagem conceptual das estacas

Após o entendimento das peças constituintes da infra-estrutura em estudo, bem como do seu comportamento, tornou-se claro o espírito de repetição de elementos verticais quase infinitos ali presente. A riqueza de possibilidades oferecida por este léxico tão marcadamente definido, permitiu fortalecer a ideia da passagem de algo monofuncional estático para algo multifuncional dinâmico. O “destapar” de um sistema construtivo regido por uma lógica, de engenharia de infraestruturas rodoviárias, bruta e crua, funciona como argumento para a aplicação prática do tema de investigação.

Figuras 38 e 39.Estacas destapadas e recuperadas do Castelo de Ljubljana

                                                                                                                      132

FERNANDES,  M.  (1990)-­‐  Estruturas  de  Suporte  de  Terras,  Porto,  FEUP.  

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Seguindo o raciocínio de olhar criticamente para as infra-estruturas, e compreender o seu potencial desperdiçado, é possível inverter o papel que desempenham nas cidades. A utilização do sistema construtivo presente no túnel do Rego como léxico chave para a transformação do mesmo, demonstra de que forma é possível actuar com os elementos pré-existentes no tecido urbano, seguindo uma lógica de reciclagem de recursos. Como tal, as fachadas seguem o espírito de repetição dos elementos infra-estruturais verticais, alternando-se conforme necessário, os seus ritmos, materialidades e opacidades. No caso dos vãos, estes surgem aquando da ausência de uma antiga estaca presente no túnel, funcionando em pivôs verticais de modo a que, ao movimentar os panos de vidro das janelas, os utilizadores contactem com o espírito da infra-estrutura préexistente.

Figuras 40. Imagem conceptual da fachada e 41. Imagem conceptual de um vão com varanda

O projecto desenvolve-se ao longo de toda a extensão do túnel, seguindo as direcções das linhas geradoras da curva que o define. Ao ser ocupado pela vida associada ao novo programa proposto, o túnel vai sofrendo uma metamorfose que, por vezes cria dilatações para cima, outras vezes cria vazios pelo desmembrar do corpo original, passando a haver interacção urbana em múltiplas direcções.

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010

Figuras 42. Diagrama de usos actual e 43. Diagrama de usos proposto

O corpo que cresce em paralelo à linha do comboio, vai até ao eixo principal do bairro, servindo para dar continuidade e uma nova vida, às actividades comerciais ali presentes, que actualmente se encontram isoladas e estagnadas. O projecto permitirá ao túnel funcionar como motor gerador de vida, devolvendo a unidade entre a parte norte do bairro do Rego e as Avenidas Novas, que a Junta de Freguesia de Nossa Senhora de Fátima perdera. A poente o projecto “agarra” a urbanidade da cidade, sendo que a nascente, se relaciona directamente com o corredor verde, proveniente do trabalho desempenhado no primeiro semestre. A presença directa dos elementos vegetais, no recuperar desta infra-estrutura, reforça a ideia de que, um elemento pensado apenas para trânsito de veículos motorizados pode e deve ser invertido a favor de mais e melhor qualidade de vida para os cidadãos; numa era em que as mentalidades se vão alterando a favor da preservação do ambiente e dos recursos naturais. O programa de usos proposto, baseia-se tanto no trabalho de campo efectuado como na mistura de usos anteriormente referida. Devido à fraca utilização automóvel do túnel, as duas faixas automóveis em cada sentido, são reduzidas a apenas uma em cada sentido, sendo o restante espaço dedicado a passeios pedonais, espaços de estadia, ciclo via e circuito de manutenção. O projecto alberga uma Creche, um ATL, um Centro de Dia para idosos, diferentes tipos de Habitação, lugares de estacionamento, espaços de Comércio para grandes e pequenos ofícios, espaços de Voluntariado, espaços para jovens empreendedores, um Parque Infantil, um Café/Oficina de bicicletas.

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Apesar de cada corpo do projecto responder directamente a um tipo de uso principal, está prevista uma flexibilidade de usos em todas as áreas propostas, que possibilitem a adaptação e apropriação espontânea e “não planeada” por parte dos utilizadores. Este carácter de adaptabilidade e flexibilidade de usos, alia-se à ideia de esta infraestrutura passar de estática a dinâmica. As tipologias de habitação propostas destinam-se a moradores com vidas, necessidades e horários diferentes o que possibilita uma movimentação constante de pessoas e, consecutivamente, vigilância e vizinhança desejáveis. 133

De entre as tipologias de habitação desenvolvidas há as que se destinam a famílias convencionais; as de uso temporário; as subsidiadas pelo estado; as que conjugam espaço de casa com espaço de trabalho; as tipologias experimentais e as tipologias para famílias de média ou grande dimensão.

Figura 44. Café/oficina de bicicletas Rapha em Londres e 45. Escada na Art Gallery em Ontario

O espaço sintomático do tema de investigação é um Café/Oficina de bicicletas. Presentes em várias cidades europeias, começam a surgir com cada vez mais frequência estes espaços, que aliados ao pensamento de economia sustentável que                                                                                                                       133

JACOBS,  Jane-­‐  Morte  e  Vida  de  Grandes  Cidades,  ed.  Martins  Fontes,  2009,  São.Paulo.  

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 leva as pessoas a trocar o carro pela bicicleta nas suas deslocações diárias, respondem tanto à necessidade de reparação dos veículos de duas rodas quanto ao hábito de tomar um café ou até de convívio entre pessoas com o mesmo tipo de interesses, enquanto se espera. 134 A escada típica do projecto, localiza-se na Creche/ATL e desenvolve-se com uma forma orgânica e serpenteante, interagindo com os elementos verticais provenientes do túnel de modo lúdico e livre. É uma escada em caracol com mais do que um centro de origem, inspirada na escada do Arquitecto Frank Gehry da Galeria de Arte de Ontário, em Toronto. Tal, como a escada, a porta sintomática do tema, é uma porta multifuncional dinâmica, que se relaciona directamente com o espírito infra-estrutural do túnel do Rego.135

                                                                                                                      134

http://www.rapha.cc/  

135

http://www.ago.net/  

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Conclusão Reflectindo nos aspectos mais relevantes, ficou claro que as infra-estruturas de mobilidade, como sendo túneis, viadutos, pontes e estradas, podem e devem relacionar-se com os tipos de vida das cidades contribuindo para a coesão urbana e contrariando o carácter obsoleto e monofuncional verificado na maioria dos casos. Resultante do descrito neste trabalho, foi possível responder às questões inicialmente enunciadas. Assim: -As potencialidades urbanas oferecidas pelos elementos infra-estruturais são diversas, tais como: a oportunidade de revitalização de comunidades ou a implantação de actividades comerciais e lúdicas. Deixando de estar fechados às necessidades dos tipos de vida no tecido urbano onde se inserem, estes elementos passam a ser “palcos” geradores e propiciadores desses fenómenos. - A sua reestruturação pode funcionar como vantajosa para as vivências citadinas porque permitirá atender às necessidades de quem frequenta as áreas adjacentes a estas

infra-estruturas

e,

simultaneamente,

“devolver”

à

cidade

espaços

frequentemente desertos, perigosos ou palco de actividades ilegais à margem da sociedade. O leque de possibilidades de revitalização das infra-estruturas de mobilidade é bastante alargado, pelo que a estratégia apresentada no projecto de aplicação prática do tema de investigação, é apenas um exemplo, estando directamente relacionada com o objecto de estudo em causa; o que poderia funcionar de outro modo no caso de outra infra-estrutura. Os tipos de usos a albergar devem estar de acordo com o entendimento das necessidades da área urbana a recuperar.

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Bibliografia BORELLI, Ana- Penso Cidade, Centro de Arquitectura e Urbanismo da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, 9 de Outubro a 15 de Dezembro, 2002 BRITO J. (2002), Cortinas de Estacas Moldadas, Lisboa, IST. CATALYST, Urban -­‐ Temporary use and urban development in Berlin ,Analysis report Berlin study draft, November 2001 COLOCO, Habiter Les Squelettes, http://www.coloco.org/ DEPLAZES, Andrea – Constructing Architecture, Materials, Processes, Structure ( a handbook) –ed. Birkhauser, Basel, 2005. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, http://www.priberam.pt/DLPO/ DOMINGUES, Álvaro – A Rua da Estrada- Equações de Arquitectura, ed. Dafne Editora, 2009, Porto. DUARTE, Gabriel -­‐ Infrascapes, Interstitial Enclaves of the Unplanned , 2008 ÉXUPERY, Antoine de Saint- Le Petit Prince, Editorial Presença, 20 de Novembro de 2001 Fernandes M. (1990), Estruturas de Suporte de Terras, Porto, FEUP. FIAT, Lingotto Turim-http://www.fiatclube.com. GRAHAM & MARVIN -­‐ Splintering Urbanism, Routledge, ed. Taylor & Francis Group, 2001, Londres. JACOBS, Jane – Morte e Vida de Grandes Cidades, ed. Martins Fontes, 2009, São Paulo. LOTUS, 139 -­‐ Landscape Infrastructures, ed. Lotus, 2008 MACHADO, José Pedro – Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Ediclube, 1990 MANGIN, David -­‐ La Ville Franchisé, Routledge, ed. Taylor, 2001, Londres.

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 MORALES,

Ignasi

de

Sola,

-

Diferencias,

topografia

de

la

arquitectura

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Ourcities,

The

Future

of

Transportation

in

Urban

Life,

http://www.ourcitiesourselves.org/ SCHRODER, Kaspar Astrup- My Playground, A film about the impact of modern movement in urban space, KSPR, Mikkel Metal and Broadcast, 2000 VÁRIOS -­‐ A+T Hybrids Serie (I, II, III),ed. a+t Ediciones, 2008 http://www.jf-nsfatima.pt/ http://www.thehighline.org/ http://www2.ufp.pt/ http://www.tvcultura.com.br/direcoes/o-louco-dos-viadutos http://em2n.ch/ http://www.rapha.cc/ http://www.ago.net/

Número de palavras utilizadas : 11.671

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Anexos Lista das Peças Desenhadas Finais A001- Diagramas Conceptuais/Funcionais/Referências A002- Planta de Localização A003- Planta de Implantação A004- Diagramas “Tipologias de vida” A005- Diagramas “Tipologias de vida” A006- Perspectivas 3D

S/E 1/1000 1/500 1/100 1/100 S/E

A101- Planta da Cota 73 A102- Planta da Cota 76 A103- Planta da Cota 79 A104- Planta da Cota 82 A105- Planta da Cota 85 A106- Planta das Cotas 88, 91, 94, 97 A107- Planta das Coberturas

1/200 1/200 1/200 1/200 1/200 1/200 1/200

A201- Corte / Alçado 1 A202- Corte / Alçado 2 A203- Corte / Alçado 3

1/200 1/200 1/200

A301- Ampliação de Espaço Significativo A302- Ampliação de Espaço Significativo A303- Ampliação de Espaço Significativo

1/50 1/50 1/50

A401- Parede Exterior Típica (Plt+Crt+Alç Parciais) A402- Vão Exterior Típico – Janela (Plt+Crt+Alç)

1/20 1/20

A501- Vão Interior Significativo – Porta (Plt+Crt+Alç) A502- Vão Interior Significativo – Porta (Plt+Crt+Alç)

1/10 1/10

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinâmicas Madalena Sales nº 6237 Setembro de 2010 Desenhos finais do trabalho

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Infra-estruturas Multifuncionais Dinamicas  

Tese final de mestrado sobre a reabilitaçao de infra-estrutras de mobilidade como pontes, tuneis, vidutos...