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quando o sol perdeu a lua

texto de: sara macedo ilustraรงoes de: madalena freitas


quando o sol nasceu, dez príncipes e princesas de galáxias longínquas foram convidados para conhecê-lo, e embora dez tenham recebido o convite e confirmado, no dia da apresentação só nove apareceram. todos os noves se surpreenderam com o sol, e apaixonados não só pela sua beleza, mas também pelo o calor que a sua personalidade de estrela emanava decidiram ficar ali mesmo todos á sua volta a admirá-lo e a vê-lo crescer. e o sol vaidoso pela atenção enchia e enchia.


entre os príncipes e princesas que brincavam na sua órbita, a princesa terra conquistou-o de imediato. ela e a sua origem mestiça de olhos verdes e pele de azeitona, a sua simplicidade e a humildade com que rodopiava à volta de si mesma. ainda era nova e, contra a vontade dos pais tinha vindo sozinha, e sozinha ia ficando. o sol tanto gostou dela que lhe concedeu o terceiro lugar, já que três é o número perfeito.


e as outras princesas e príncipes apesar de pura linhagem e de virem com as respectivas cortes, foram se acomodando á medida que chegavam. algo que deixou neptuno, úrano e especialmente plutão, o último a chegar, muito triste. só conseguiam ver e ouvir o sol de longe, mas mesmo assim, a beleza do sol era tanta que continuavam ali puxados por algo mais forte.


a única princesa que tinha faltado á apresentação era a lua, que se atrasou e causou ao sol e aos outros nove príncipes e princesas certa ansiedade. a lua era uma princesa muito branca de cabelos prateados, conhecida pela sua beleza de estrela fria. inteligente e vaidosa, despertava a curiosidade até dos menos curiosos, mas muito poucos a conheciam pessoalmente, porque vivia muito longe. quando finalmente chegou, já era a última da fila, mas decidida como era, começou a andar na direção do sol a fim de o ver de frente e de lhe sentir o calor.


quando passou por saturno, uma princesa velha e gorda cheia de anéis e criados, esta a reconheceu imediatamente, e irritada e invejosa da beleza da lua, começou logo a arranjar confusão, insistindo que ela lhe estava a passar á frente. “eu só quero vê-lo” disse a lua e continuou em frente, deixando para trás os berros ciumentos da velha princesa. e assim continuou, ignorando os comentários de júpiter, marte, vénus e mercúrio. a única coisa que a surpreendeu foi o silêncio da terra que olhava para ela sorrindo com os olhos verdes muito abertos.


quando finalmente viu o sol de frente e tocou de leve na sua pele quente e morena, percebeu que só do seu lado poderia ser feliz. nunca mais voltaria para o escuro e frio do longe. a reação do sol não foi a que ela esperara, inchado de orgulho e vaidade nem lhe fez muito caso. mesmo assim, e apesar de não ter lugar a lua ficou.


o lugar que lhe convinha era o da terra, e sem nunca tirar os olhos do sol decidiu que faria o que tivesse que ser para tirar a terra dali. inteligente e cega pela luz, foi ter com a terra e ofereceu-se como aia. mostrou-lhe como ela era a única princesa sem criados e que era a única sem ninguém para lhe pentear os cabelos. a terra lá acabou cedendo, mas mais por pena da lua do que por necessidade. sempre se penteara sozinha.


a lua, apaixonada e triste pela falta de atenção do sol desviava meteoritos, fazia tudo, mas nada atingia a terra, que continuava a rodopiar sem se dar conta de nada, apenas da felicidade de ser o número três.


mas uma noite, enquanto chorava baixinho, a lua com os olhos cansados desviou o olhar para baixo e foi então que a lua conheceu o mar. de olhos azuis e rugas de sal, cheio de histórias para confortá-la. ele, ao contrário do sol, tinha reparado nela imediatamente, e apesar das suas intenções contra a terra, ele via-a e sabia com a certeza de quem se apaixona à primeira vista que ela não era má. assim, para fazê-la lembrar-se de quem era mostrava-lhe o reflexo dos seus cabelos prateados entre cantigas de ondas. ele apaixonou-se tanto por ela que lhe ofereceu as marés, e ela feliz brilhava mais e deixava-se ficar como tatuagem na pele dele.


o romance chegou aos ouvidos da princesa saturno que fez questão de espalhar o rumor por cada buraco negro até que chegasse aos ouvidos do sol. o sol, de orgulho ferido, não gostou da falta de atenção da lua, essa tão bela princesa que agora se apaixonara pelo o mar. e decidiu então reconquistá-la. tentou oferecer-lhe um lugar especial, tentou seduzi-la com os seus cabelos loiros e luz forte como não havia igual. mas a lua que agora o via vaidoso como era, só tinha olhos para o mar e para azul e não queria nem saber dele nem de amarelo.


o sol mimado e habituado a ter tudo o que queria, enlouqueceu e começou assim uma busca frenÊtica pela lua, mas sempre que ele aparecia ela desaparecia.


até hoje a terra finge que não percebe e para atrapalhar o sol rodopia sobre si mesma e á volta dele, de maneira a esconder sempre atrás das costas os encontros secretos dessa paixão proibida. e as únicas vezes que o sol vê a lua é quando de manhãzinha ainda a apanha reflectida no mar.

Quando o sol perdeu a lua  

texto de Sara Macedo

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