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MARIANA COUTINHO MACHADO DE SOUZA

PORTINARI Antropologia da Arte Prof. Diniz Cayolla

O BRASIL DE PORTINARI: UMA EXPERIÊNCIA VISUAL NA INFÂNCIA A RELAÇÃO DA OBRA DE CÂNDIDO PORTINARI COM O PRIMITIVISMO

FBAUP PORTO, 2012


Este trabalho foi produzido pela aluna de mobilidade acadêmica MARIANA COUTINHO MACHADO DE SOUZA, e prevê uma abordagem ao primitivismo através da análise de uma experiencia visual, com o proposito de avaliação de rendimento acadêmico da disciplina de ANTROPOLOGIA DA ARTE, lecionada pelo PROF. DINIZ CAYOLLA, no curso de Artes Plásticas da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, no primeiro semestre do ano letivo 2012/2013.


“... / Sueña y fulgura / Un hombre de mano dura / Hecho de sangre y pintura / Grita en la tela / ... / Portinari lo desvela / Y el roto pecho le cura” UN SON PARA PORTINARI – NICOLAS GUILLÉN


O BRASIL DE PORTINARI: UMA EXPERIENCIA VISUAL NA INFÂNCIA A RELAÇÃO DA OBRA DE CANDIDO PORTINARI COM O PRIMITIVISMO

OS RETIRANTES – 1944

A EXPERIÊNCIA - A EXPOSIÇÃO A primeira vez que fui a uma exposição de arte foi no ano de 1998. Era uma exposição sobre a obra de Candido Portinari, entitulada “O Brasil de Portinari”. Realizada pelo Projeto Portinari - fundado em 1979 com o objetivo de resgatar a trejetória de vida e arte do pintor. De caráter educativo, composta por 45 reproduções realizadas com a melhor tecnologia que a época poderia prover, a expoisção “O Brasil de Portinari” cruzou o país, a vida de mais de 100 mil pessoas, e a minha. Apesar já conhecer àquela altura as imagens de Portinari, foi a primeira vez que me deparei com obras naquela escala e daquela forma. O silêncio e seriedade do ambiente pareciam afirmar suas verdades. Diante do quadro “Os Retirantes”, que retrata a condição das familias nordestinas que tentavam escapar da devastação da seca, me deparei com os medos de uma criança: a doença, a fome, na desgraça e míséria da familia. Assim, nunca mais fui capaz de esquecer aquela exposição, os Retirantes, e Portinari.


CANDIDO PORTINARI Candido Portinari, um dos mais proeminentes artistas brasileiros do seculo XX dedicou sua vida a pintura. Nasceu na primeira década do século XX, numa cidade no interior do estado de São Paulo que veio a ser uma grande fonte de inspiração em seu trabalho. Portinari morre em 1965 por uma intoxicação de tintas que se agravou, como muitos outros grandes artistas. Em 1922 enquanto na cidade de São Paulo esta sendo realizada a Semana de Arte Moderna, Portinari que nada tem com ela, aos seus 19 anos estaria participando dos Salões de Exposição da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, onde desde seus 15 anos ele teria recebido uma educação tradicional na pintura. No ano seguinte Portinari é premiado, nos Salão da Escola Nacional de Belas Artes, e recebe uma viagem para Europa. Já muito saudoso de sua familia e cidade, Portinari parte para a Itália, Inglaterra e França, e reside em Paris onde se dedica a observação mais do que a produção. É no ano de 1930 que ele passa a se envolver com a pintura modernista de artistas pariesienses, e a absorver tais influências. Quando retorna ao Brasil organiza e participa a primeira exposição do salão da escola nacional de belas artes a aceitar artistas modernos, em 1931, e passa a lecionar arte de mural e cavalete e produzir trabalhos comissionados pelo governo. TEMÁTICA E ESTÉTICA Ao retornar ao Brasil, Portinari dedica-se a pintura da sociedade rural, do trabalhador brasileiro e seus costumes e religião. Retratou os trabalhadores dos cafezais, os jangadeiros do nordeste, os seringueiros do norte, as brincadeiras infantes, e de murais que contavam a história do país. Seu objeto de estudo incansável era o brasileiro. Ainda que fora diversas vezes financiado pelo governo nao deixou de denunciar com seu pincel a dura e triste realidade de muitos brasileiros. Então tive que dizer-lhes: a minha pintura é pintura de camponês; se querem os meus camponeses, bem; se não, chamem outro pintor. CANDIDO PORTINARI

É perceptivel, ao analizarmos um panorama cronologico de sua produção, o processo de libertação estética de sua obra que ocorre ao longo dos anos. Não é possivel enquadra-lo numa vanguarda ou escola. Portinari usa o que o serve e nada mais para pintar, num primitivismo desatento a academia que ja não o bastava. Na simplicidade sem artificialidade, um ruralismo, dentro de um primitivismo tematico anti-acadêmico. É neste espiírito que Portinari, com realismo e poesia, ilustra o Brasil.


PEQUENA CRONOLOGIA VISUAL

BAILE NA ROÇA - 1924

FLAUTISTA - 1934

CRIANÇA MORTA – 1944

SERINGUEIROS - 1954

COLHEITA DE CAFÉ - 1958

"O alvo da minha pintura é o sentimento. Para mim, a técnica é meramente um meio. Porém, um meio indispensável." CANDIDO PORTINARI


ENVOLVIMENTO COM O MOVIMENTO MODERNISTA São três, os momentos decisivos nos quais o modernismo e Cândido Portinari se encontram, mudando para sempre sua vida e obra. O primeiro deles, já mencionado, é a viagem à Europa no inicio de sua carreira, na década de vinte, onde entra em contato diretamente com o modernismo europeu, principalmente o francês. No segundo momento, ao retornar ao Brasil em 1931, Portinari sai da condição de espectador, apreciador, e penetra o âmago da sociedade e arte moderna. É na exposição que participa logo ao retornar da Europa, no primeiro Salão Nacional a receber obras modernistas, “O Salão Revolucionário”, ainda como um artista icógnito, que o modernismo descobre Portinari. Por modernismo me refiro ao grande escritor, e defensor do movimento moderno, Mário de Andrade, que ao deparar-se com o “O Violinista”, encantado exige conhecer o autor. Assim, Portinari e Mario de Andrade tornam-se grandes amigos. Esta amizade marca a vida de Portinari. Mario de Andrade toma um profundo orgulho em ter descoberto Portinari a quem considerava o ideal do artista brasileiro, indispensável ao modernismo. O que o leva se relacionar com muitos outros grandes nomes do modernismo brasileiro como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Menotti Del Picchia, Murilo Mendes, Celso Kelly, Raul Bopp, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa. Sua inserção neste meio foi definitiva para sua carreira, onde encontrou inestimável apoio. O terceiro momento, o mais pontual de todos, quase que instante, é Guernica. Portinari em 1939 numa visita ao MoMA - NY se depara com a obra de Pablo Picasso. Acredito que nele, Portinari encontra profunda O VIOLINISTA, 1931 inspiração e afirmação de suas tendências muralistas – têndencias estas que encontram sua realização maxima nos monumentais murais de Guerra e Paz, produzidos para a sede em Nova Iorque da ONU em 1952. Nos anos que seguiram Guernica, Portinari produz uma série bíblica e Retirantes, ambas claramente marcadas por esta influência. As palavras do crítico de arte Antônio Gonçalves referênciam este momento como “O dia em que Portinari virou Picasso”.


GUERRA E PAZ, 1952

"Fica claro por seus retratos que Portinari foi um acadêmico, mas não é possível negar que sua adesão ao modernismo foi genuína." TEIXEIRA COELHO

OS PRIMITIVISMOS E A ARTE DO SÉCULO XX: EUROPA, BRASIL E PORTINARI. Primitivismo foi o nome que se deu no inicio do século XX às produções, em geral artisticas, de sociedades não europeias, nomeadamente, principalmente, as provinientes da Africa, dos aborigenes da Oceania, e das civilizações pré-colombianas da America. Sempre relaciado a alteridade, o primitivismo é uma exaltação, um elogio condescendente à cultura de sociedades que o culto-europeu se recusou a reconhecer a evolução própria, olhando com a adimiração e saudosismo de quem contempla o passado, ou os primeiros passos de uma criança, buscando retomar a inocência pureza e liberdade. O termo é logo visto como problemático e questionado, gerando polemicas e fervorosas discussões ao longo do século, quando na verdade o grande problema se encontra no contexo ao qual a palavra é empregada. Os artistas europeus entraram numa especie de frenezi diante das artes dos outros. Produziram intensamente retirando delas referências estéticas, as utilizando como ferramenta de subversão acadêmica. Por vezes buscaram regeneração espiritual,


numa especie de absolvição da modernidade. Enquanto alguns consideram a incorporação de tais referencias pelos artistas europeus como mais uma forma de exploração, outros defendem que o primitivismo foi uma forma de redenção pelo colonialismo. Entretando deve-se notar que a tentativa de descrever o primitivismo e sua complexidade em poucos parágrafos esta fadada ao insucesso. É importante perceber que exitem tantos primitivismos quanto houve reações às artes ditas primitivas. Não entrarei em questionamentos terminologicos quanto à arte primitiva, tribal, negra ou qualquer outro termo inadequado do seculo XX de escolha, pois aqui não a considerarei como produção artística de um determinado grupo, etnia, ou gênero, mas como uma das tendências fundadoras do espírito de época que envolveu a arte modernista européia do século XX. A essência de tais influências é muito mais importante do que qualquer coisa que tenham dito ou des-dito os franceses. Em sua essência o primitivismo carrega a admiração pelo exótico, pela alteridade, sempre buscando algo mais puro e verdadeiro, seja noutras culturas ou tempos. Tais noções são comuns aos Nazarenos, Pre-rafaelitas, no ruralismo, japonismo, arte-naif, entre tantas outras formas de primitivismo, que acabam por relacionar-se com os ideais romanticos de bom selvagem, a procura de naturalidade. No Brasil o modernismo clamava pelo nacionalismo e naturalidade, um desejo de um primitivismo proprio. Defendido através de manifestos como o pau-brasil e antropofágico de Oswald de Andrade. O que acaba por acontecer é o reconhecimento, pelos intelectuais do modernismo, do valor da produção popular, que passa a ser percebida também como arte e a influenciar as produções artísticas dos acadêmicos. O primitivismo brasileiro do século XX refere-se principalmente à arte não acadêmica, daqueles sem formação técnica, ligada ao artesanato popular, totalmente desvinculadas do meio erudito. Como própria caracterista do gênero, a arte primitivista não tinha consciencia de que era primitiva ou qualquer outra coisa, simplesmente era. Assim, os artistas ditos primitivos, tiveram suas obras identificadas e classificadas como tal a partir da década de 40. Entretanto, a arte de Portinari fundamenta-se na excelência técnica, e é extremamente consciente do que é, o que o enquadra noutro tipo de primitivismo, mais sutil. Portinari se encontra com o primitivismo principalmente em suas temáticas, em sua insistência no retrato do rural, típico das origens do primitivismo, e da infância, centro da arte naif. Não é a toa que muitas vezes se referem a ele como “o artista de Brodowski” por que é exatamente isso que ele é. Nunca tendo conseguido desvensilhar-se de sua interiorana cidade natal e da infância que lá viveu, Portinari, ao longo de toda sua carreira, não foi capaz de se afastar destes temas, pois estes faziam parte dele. Ele foi o artista de Brodowski.


’55 ‘47 ‘54 ’32 ’60 CONCLUSÃO: PORTINARI, OBRA E CONTEXTO Portinari não serviu ao modernismo e sim o contrário, ele se volta para a estética livre, pelo fato dos recursos que a academia lhe proveu já nao lhe bastarem para se expressar. Ele nunca foi um militante de vanguardas, e incorporou o modernismo a sua obra lentamente, ao longo dos anos, cuidadosamente, através de muito estudo e moderação, transformando sua obra aos poucos. Esta lenta incorporação de influências pode se ver claramente quando Portinari retoma temáticas ao longo de sua carreira e como ele representa de maneiras tão destindas os mesmos objetos. Tais transformações podem ser verificadas na cronologia apresentada anteriormente, assim como nas representações de crianças acima, onde a infancia é retomada através dos anos. Classificar a obra de Candido Portinari como primitivista é tao absurdo quanto negar as influências, ainda que indiretas advindas do espírito de sua época, que o primitivismo teve sobre o pintor. Afinal, o mesmo encontra-se presente no contexto no qual o pintor se desenvolve, em seu envolvimento com o modernsmo francês, sua profunda admiração por Picasso, seu circulo social, estética e temática. Sendo assim impossível ao observar suas obras, bem como sua trajetória, dizer que Cândido Portinari não foi influenciado pelo primitivismo enquanto tendência, ainda que não o tenha perseguido como ideal.


"Quanta coisa eu contaria se pudesse, e se soubesse ao menos a língua, como a cor." CÂNDIDO PORTINARI


REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS

FLEM, J.; DEUTCH, M. Primitivism and Twentieth-Century Art: A Documentary History. 2003. CALLADO, A. Retrato de Portinari. 2003. GONÇALVEZ, A. O Dia em que Portinari virou Picasso. 2009. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-dia-em-que-portinari-viroupicasso,301557,0.htm. MUSEU DA INFÂNCIA. Infancia em Portinari. Disponível em: http://www.museudainfancia.unesc.net/memoria/expo_ibero/acervo_portinari.htm ENCICLOPEDIA ITAÚ CULTURAL. Cândido Portinari. 2011. Disponível em: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=ar tistas_biografia&cd_verbete=121 ENCICLOPEDIA ITAÚ CULTURAL. Arte Primitiva. 2009. Disponível em: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=te rmos_texto&cd_verbete=3183 ARÊDES, A. Os traços modernistas da pintura de Cândido Portinari. 2009. Contemporâneos: Revistas de artes e humanidades. Nª3. Disponível em: http://www.revistacontemporaneos.com.br/n3/pdf/portinari.pdf PROJETO PORTINARI. Guerra e Paz. Disponível em: http://www.guerraepaz.org.br/#/home MUSEU CASA DE PORTINARI. Disponível em: http://www.museucasadeportinari.org.br/portinari/


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